Olavo Archive Collection

Educação e Sociedade

Uma antologia curada e indexada por inteligência artificial do acervo de Olavo de Carvalho

Sumário da Obra

Almas Irmas

rpedroso01@terra.com.br | 13 de dezembro de 2009

) decidiu apelar ao histrionismo desvairado, espalhando pela internet acusações tão loucas que nem ele próprio pode acreditar nelas.

Diz, em primeiro lugar, que sou um agente petista. Provas:

(1) Morei com os srs. Rui Falcão e José Dirceu num apartamento da Casa do Estudante. (Que isso acontecesse duas décadas antes da fundação do PT parece não significar grande coisa para o sr. Pedroso.)

(2) Meus artigos contra o PT saíram na mídia concomitantemente à ascensão eleitoral desse partido. (Bem, que eu saiba, em política só tem sentido advertir contra um perigo quando a ameaça é crescente. Ou o certo seria escrever só contra partidos em declínio?)

(3) Declarei que o PT havia esmagado os partidos de oposição e que sairia inevitavelmente vencedor nas eleições de 2002 e 2006. (Uai, e não foi o que aconteceu?)

(4) Tendo em vista que todas as possibilidades de ação política frutífera foram eliminadas, recomendei a meus alunos que se abstivessem de desgastar-se em discussões fúteis e que se concentrassem na sua formação intelectual. Alguns meses atrás, quando reclamei que as organizações católicas no Brasil nada faziam contra a ascensão do esquerdismo, fui acusado de sobrepor à vida interior a luta contra o comunismo. Agora sou acusado precisamente do contrário. Devo mesmo ser culpado das duas coisas: Lutei demais contra o comunismo e lutei de menos contra o comunismo. Sou culpado per fas et per nefas .

Em seguida, o sr. Pedroso diz que não tenho autoridade moral para falar contra o estuprador virtual ou real de presidiários, cabritas e jumentas, sr. Luís Inácio Lula da Silva, já que a minha conduta sexual também não é lá das melhores, como o prova o fato de que fui acusado de ser gay e, aliás, nem sequer me defendi da acusação.

Esta parte da mensagem é tão rica em insinuações pérfidas que merece ser desdobrada analiticamente:

Ninguém me acusou de ser gay . O sr. Fernando Pergentino — alma cristianíssima como o sr. Pedroso — apenas espalhou que terceiros (o Príncipe Dom Bertrand e o dr. Mário Navarro da Costa) haviam lançado essa acusação contra mim, e esses terceiros, consultados a respeito, negaram isso enfaticamente, o que aliás nem seria preciso, pois não são mesmo homens dados a esse tipo de baixezas.

Não houve, portanto, nenhuma acusação de gayzice , houve apenas uma tentativa supremamente idiota de diz-que-diz-que, calculada para criar um conflito entre eu e a TFP.

Por que eu deveria me defender, se não fui acusado? De outro lado, para me defender eu teria de aceitar como confiável o testemunho falsíssimo do sr. Pergentino, arrumando assim, sem qualquer razão plausível, uma briga com pessoas inocentes contra as quais, precisamente, ele tencionava me jogar. Toda defesa seria, portanto, não só despropositada como inconveniente. O sr. Pergentino, medindo o meu grau de idiotice vaidosa pelo seu próprio, imaginou que, à mera suspeita de terem sido feridos os meus brios de macho, eu me apressaria a cair na sua armadilha. Mas não, minha macheza não foi ofendida de maneira alguma. Quem sofreu insulto foi a minha inteligência, ao ver-se medida pela do sr. Pergentino.

O sr. Pedroso não é burro ao ponto de não atinar com essas obviedades. Se ele fingiu não percebê-las, foi para melhor articular a nova armadilha em que, falhada a do sr. Pergentino, ele pretendia me aprisionar. A construção da engenhoca passou pelas seguintes fases:

Primeiro, o sr. Pedroso tomou a mentira do sr. Pergentino como prova cabal desnecessitada de exame. Do fato de que este afirmasse ter ouvido terceiros me acusarem de gay , o sr. Pedroso, sem a menor consulta a esses terceiros, concluiu que a acusação de fato foi feita.

Segundo, dessa hipótese já impugnada ele deduziu que o conteúdo da acusação era automaticamente verdadeiro.

Terceiro, tomou esse conteúdo como premissa fundante de um julgamento moral contra a minha pessoa.

Quarto, ao proferir esse julgamento, nivelou o meu vício inexistente ao crime de estupro, concluindo que, na condição de gay , sou tão ruim quanto o homem que se gaba de ter estuprado um companheiro de cela e mantido relações sexuais com cabritas e jumentas.

A técnica difamatória do sr. Pedroso revela aquela mistura de malícia e ingenuidade que tipifica o intrigante pueril. Ele parte de uma mentira já desmascarada, e em cima dela constrói, por automatismo dedutivo, novas e piores mentiras. A quem ele pensa que convence com esse truque besta?

Mas o pior de tudo é a conclusão do raciocínio. O que quer que alguém pense contra o homossexualismo não lhe dá o direito de igualar essa prática a um crime hediondo tipificado no Código Penal. Creio que essa foi a maior ofensa já proferida contra os gays , ainda que na esperança de atingir com ela alguém que não é membro do grêmio.

Todo esse procedimento é tão forçado, tão artificioso, tão obviamente perverso, que nem mesmo o sr. Pedroso pode acreditar no que disse. A hipótese de erros bem intencionados está, pois, afastada in limine . O sr. Pedroso sabe que está mentindo, e aliás tem boas razões para fazê-lo. Ao ser surpreendido escondendo-se em baixo da saia da namorada para usá-la como instrumento num dos ardis difamatórios mais pérfidos já tramados contra a minha pessoa, ele teve a evidência direta, cabal, incontestável, da sua falta de virilidade, exibida também aos olhos de todos os que acompanharam esse caso deprimente (v.

http://www.olavodecarvalho.org/textos/recados_educadissimos.htm ). Isso doeu demais. Chorando de raiva, ele agüentou a humilhação enquanto pôde, esperando a oportunidade de uma vingancinha. O episódio Pergentino deu-lhe essa oportunidade: nele o sr. Pedroso encontrou a sua alma-irmã.

Notem bem: o sr. Pergentino jamais seria homem bastante para me chamar de gay cara a cara. Preferiu fazê-lo indiretamente, culpando terceiros. O sr. Pedroso leva a pusilanimidade mais longe ainda, usando como escudo a fofocagem do sr. Pergentino.

É esse eunuco, essa coisinha trêmula, que me vem exigir provas de virilidade? Ora, faça-me um favor! Que às vá pedir à namorada, a qual já provou ser mais homem que ele.

Reparando Uma Injustica Pessoal

em 31 de março de 1999. | Discurso pronunciado no

Transcrição revista pelo autor.

NB – Meu artigo “ A história oficial de 1964 “, publicado em O Globo de 19 de janeiro de 1999, que nenhum mandarim da esquerda ousou responder, todos deixando o espinhoso encargo para uma inábil professorinha do interior que acabou confirmando todos os meus argumentos, trouxe para o autor um presente inesperado e — nos dias que correm — bastante incômodo: a amizade dos militares. É preciso estar maluco para declarar isto em público, mas é certo que essa amizade muito me honra e me alegra. E foi ela que levou dois ilustres militares brasileiros, o Cel. Luís Paulo Macedo Carvalho, presidente do Instituto de História e Geografia Militar, e o Gen. Hélio Ibiapina Lima, presidente do Clube Militar, a me convidar para falar nessas duas instituições, respectivamente nos dias 30 e 31 de março passado. O que eu disse numa e na outra foi mais ou menos a mesma coisa, mas o discurso do Clube Militar foi gravado e transcrito, o que me permite reproduzi-lo nesta homepage . O discurso foi pronunciado de improviso, sem notas. Publico aqui a transcrição integral da gravação em fita, sem alterações, apenas corrigida em detalhes de linguagem e completada nos pontos truncados. — O. de C.

Agradeço comovido ao General Hélio Ibiapina e a todos os queridos amigos do Clube Militar este convite que muito me alegra, e peço permissão para começar esta conferência com uns detalhes autobiográficos, não por vaidade, absolutamente, mas apenas porque alguns fatos da minha vida se encaixam muito bem no assunto que vamos abordar aqui.

Existem pessoas que têm o dom de se aproximar de quem está no poder. Eu pareço que fui brindado com o dom contrário. No tempo dos governos militares, logo no começo, entre 1966 e 68, eu era um militante do Partido Comunista e odiava os militares; eu os chamava de “gorilas”, como aliás todo mundo naquele meio. Tive muitos amigos e parentes que foram prejudicados pelo governo militar e durante todo aquele período eu me senti marginalizado, como muitos membros da minha geração, em razão de minha hostilidade ao regime. Hoje em dia, quando os esquerdistas estão no poder, dominam tudo e estão passando muito bem de saúde, já não estou mais ao lado deles e estou aqui falando para vocês. Por isto é que digo que fui brindado com este dom de fazer sempre as amizades mais inconvenientes no momento. Todos conhecemos muitas pessoas que fizeram carreira no regime militar e tão logo a situação mudou trataram de trocar de amizades, porque era melhor para a sua saúde...

Ora, toda a experiência que vivi, primeiro ao lado dos esquerdistas e depois numa longa solidão para a qual me retirei após ter me desiludido com a perspectiva socialista, para poder meditar e refazer de certo modo o meu mundo de idéias, toda esta experiência me ensinou, em primeiro lugar, a inconveniência de falar quando não se tem um mínimo de certeza razoável. Devo lembrar aos senhores que a minha atuação pública começa apenas em 1996, com o livro O Imbecil Coletivo . Até aí a minha vida tinha sido muito modesta, muito discreta, dando minhas aulinhas e escrevendo uns livros de filosofia que ninguém lia. Só publiquei O Imbecil Coletivo porque observei a ascensão de um tipo de mentalidade destrutiva, não só do ponto de vista político mas sobretudo no que diz respeito à destruição da inteligência humana. Tendo observado fatos cada vez mais alarmantes, na área cultural, e vendo que ninguém dava sinal de tê-los percebido, eu disse a mim mesmo: “Parece que sobrou para mim”. Então, com competência ou sem ela, foi necessário fazer alguma coisa. Esse livro, na época, desencadeou uma onda que eu não diria de raiva, foi mais onda de pânico, entre pessoas do meio intelectual que jamais tinham sido criticadas no mais mínimo que fosse e que estavam acostumadas com o dogma da intangibilidade sacrossanta de suas pessoas. Um deles, lembro-me claramente, foi o prof. Leandro Konder, um comunista histórico, um homem que nunca foi criticado par nada, um homem sem defeito, um homem sem mácula e que, onde quer que vocês perguntem a respeito dele, lhes dirão: “O Leandro é uma moça”, “O Leandro é um cavalheiro, é um gentleman .” Dele não se fala mal. E esse homem, por conta do seu prestigio de gentleman , vinha não só mentindo compulsivamente em assuntos culturais, mas pregando idéias bastante destrutivas, por trinta anos protegido pelo manto de sua pretensa delicadeza. Então, quando ousei mexer nessa figura, muita gente ficou escandalizada, parecia que ia ter um enfarte, e eu notei que para essas pessoas doía mais nos seus corações ver alguém destratar intelectualmente um Leandro Konder, um Oscar Niemeyer ou alguém assim, do que ouvir blasfêmias contra Jesus Cristo. Eu cheguei a ver pessoas, em conferências minhas, passarem mal fisicamente ao ver-me desmascarar certas figuras da sua adoração. Tudo isso eu vi com estes dois olhos, não estou inventando nada. Eu vi no rosto dessas pessoas a emoção que a Bíblia chama “escândalo”. Que é o escândalo, no sentido bíblico do termo? O escândalo é um fato que desmente a nossa fé, que viola a integridade da nossa alma e abala a nossa confiança na ordem do universo.

Então, quando eu dizia certas coisas para certas platéias, as pessoas sentiam a emoção do escândalo, uma espécie de terror espiritual ante a morte do seu Deus. Não posso dizer que os artigos que publiquei, reunidos nesse livro, tenham suscitado propriamente ódio ou rancor. Eu tenho certeza de que suscitaram medo.

As pessoas sempre me perguntam se nunca recebi pressões ou se fui intimidado ou ameaçado. Sim, isso aconteceu algumas vezes, mas ninguém fica trinta anos quieto num canto, pensando, para depois recuar ao surgir a primeira reação adversa. Recuamos só quando, na juventude, no arrebatamento do entusiasmo, nos levantamos de improviso contra algo que no calor da hora nos parece errado e o adversário reage, aí sim nos intimidamos e corremos e pomos o rabo entre as pernas. Praticamente toda a minha geração fez isso. Fez isso baseada sobretudo no mito lisonjeiro de que a juventude é idealista e de que a juventude tem amor à justiça. Ora, o que vocês achariam de um juiz de quinze anos de idade que condenasse o réu sem sequer tê-lo ouvido? Não há amor à justiça quando não há amor à verdade, e não há amor à verdade quando não há sequer a paciência de esperar para conhecê-la. Isto quer dizer que esse famoso amor à justiça que se atribui à juventude é apenas vaidade, pretensão e arrogância. Evidentemente esses sentimentos baixos, como todas as paixões infames de que o ser humano é capaz, sempre podem ser muito bem trabalhados e aproveitados por pessoas sedutoras. A palavra “sedutor” vem do latim sub ducere .

Ducere é “conduzir”, e sub , “por baixo”. Quer dizer: o sedutor é alguém que nos conduz pela nossa parte inferior, pela nossa parte fraca e pelas nossas tendências abissais ocultas. Ora, não há tendência mais baixa do que a vaidade e a arrogância rancorosa. Quem quer que diga a um garoto de quinze anos que ele é superior à geração de seus pais porque tem o espirito da justiça é apenas um sedutor barato e mentiroso. Mas acho que não houve na história do século XX uma única geração que não tenha ouvido esse canto de sereia. Eu também ouvi, eu também fui seduzido, eu também achei maravilhoso me imaginar o grande justiceiro: aos dezessete, dezoito anos eu tinha a certeza de que sabia quais eram os males do mundo, de que eu sabia quais eram os culpados pelos males do mundo e qual a punição que deveria lhes ser aplicada. Também tinha a certeza de que o principal mal do mundo era que não me dessem os instrumentos de punir todos os culpados. Ou seja: para resolver tudo bastava uma só coisa — dar o poder absoluto ao Olavo de Carvalho e a seus cumpinchas. Então tudo estaria resolvido, isto eu achava aos dezessete anos e toda a minha geração pensava como eu. Vocês chamam isso de espirito de justiça? Eu chamo de espirito de estupidez, espirito de arrogância, espírito da pretensão boba. A diferença entre eu e os meus companheiros de geração é a seguinte: eu percebi isso e eles não.

Quando falo em companheiros de geração, às vezes se trata de pessoas que me eram bem mais próximas que meros companheiros de geração. Durante um certo tempo dividi um apartamento com o Rui Falcão, que foi presidente do PT, e ambos éramos amigões do José Dirceu, que não saía dali; então, esses eram os meus companheiros. Eu percebi que eu era um palhaço arrogante e eles nada perceberam de si mesmos até hoje.

Não sei se cheguei a ser alguma coisa que preste, mas aquela porcaria que eu era já não sou mais. Não consigo mais me enganar com tanta facilidade, não consigo dizer a mim mesmo, como naquela época: “Olavo, você sabe quem são os culpados dos males do mundo”, “Olavo, você tem o direito de reivindicar a posse do chicote universal para açoitar o lombo de todos os malvados”, e assim par diante. Ora, estou com 52 anos, alguma coisa devo ter aprendido neste período, mas certamente, se aprendi, foi porque me abstive de falar durante vinte anos ou mais. Ontem mesmo, na conferência que fiz no Instituto de Geografia e História Militar, estava contando que fiz como Buda, que, sendo tomado por uma dúvida, sentou ao pé de uma árvore e disse: Não me levanto daqui até descobrir a resposta. Eu também tive um amigo, já falecido, que foi um grande psicólogo clinico, Juan Alfredo César Müller, o qual, na sua juventude, tendo terríveis dúvidas vocacionais, entrou numa igreja e disse para si mesmo: “Vou me ajoelhar e vou rezar até obter a resposta ou vou morrer ajoelhado aqui.” Assim, ele obteve a evidência, uma espécie de sinal divino de que ele devia seguir a carreira de psicólogo, e raramente uma vocação foi tão acertada como a desse grande gênio da psicologia clinica . Quando a gente quer a verdade a gente faz assim, quando a gente não quer a gente inventa uma qualquer, a que nos pareça a mais lisonjeira, a que agrade ao nosso grupo de referência, e condenamos o resto do mundo porque ele não concorda conosco. Quem estudar brevemente a história do século XX verá que todos os movimentos destrutivos, todos os movimentos responsáveis por massacre de mi1hões de pessoas, todos eles, foram sempre encabeçados por jovens, e que a militância a serviço desses movimentos foi sempre de jovens. Isso será porque o jovem tem espirito de justiça? Somem o número dos mortos; cem milhões do comunismo, mais vinte mi1hões do fascismo e assim par diante, sem contar a maravilhosa militância de 1968 — Woodstock — em favor da disseminação das drogas, que transformou o mundo num feudo dos traficantes. Quantas pessoas as drogas mataram e a quem incumbe a culpa disso? A culpa inteira cabe a estes jovens, cujos pais covardemente continuam a lisonjeá-los, dizendo: “Vocês têm o espirito da justiça”, “Vocês têm o espirito da verdade”, “Vocês são melhores que nós”. Nunca se deve dizer isso a um filho, nunca, nunca, nunca. Um século de lisonja à juventude deu em duzentos mi1hões de mortos. Será que não está na hora de parar com isso? Será que não está na hora de os adultos aprenderem que os jovens não devem ser lisonjeados e sim educados, mesmo que isto os contrarie? Muito bem, eu tive um monte de filhos, tenho oito filhos, nunca os maltratei, nunca os humilhei, mas também nunca os lisonjeei. Eu disse apenas o que um pai deve dizer a um filho: “Eu te amo, meu filho”, “Saia de cima do muro que você vai cair”, “Pare de maltratar o seu irmãozinho”, e todas essas coisas de pai. Mas nunca disse: “Você é a encarnação do espírito de justiça”, “Você é a consciência moral do seu pai”, e nenhuma dessas coisas covardes que corrompem a alma da juventude. Podemos expressar bons sentimentos pelos nossos filhos sem lhes inocular a mais destrutiva das ilusões. Mas a nossa geração recebeu doses imensas, doses cavalares desta lisonja. E, assim lisonjeados, acreditamos que bastava nos dar armas e que o resto nós faríamos: construiríamos um mundo melhor. E como construiríamos um mundo melhor? Pelo velho expediente de matar — matar quem não o desejasse. Esta é sempre a solução, qualquer que seja o problema, não é mesmo? Nós tomamos em sentido literal o que dizia Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros”. Basta matá-los e está tudo resolvido, basta matar quem não concorda conosco. Sendo educado nesta mentalidade, — da qual felizmente me livrei, mas me livrei progressivamente, porque é uma ilusão pensar que você se livra do veneno marxista simplesmente trocando a carteirinha do seu clube; não é assim, é um processo interior que requer uma verdadeira psicanálise, uma retirada progressiva dos enclaves, dos complexos, dos cacoetes mentais que se impregnam profundamente na nossa alma —, tendo sido educado nesta mentalidade, foi assim que julguei o movimento de 1964. Para julgá-lo, condená-lo e abominá-lo eu não precisei saber quase nada a respeito dele. Bastou ouvir uma palavra. E qual era essa palavra? Era a palavra mágica – “ a Direita “. Qual era o crime dos militares? Eles eram a Direita . Ora, a Direita quer dizer necessariamente o mal, portanto eles eram o mal encarnado. Não interessava saber o que estavam fazendo, por que estavam fazendo, etc. Não era preciso saber nada a respeito deles para odiá-los e condená-los. Era uma espécie de maldade onto1ógica que estava grudada na constituição deles, independentemente do que fizessem ou deixassem de fazer. Se um militar socorresse um doente na rua ele continuaria sendo mau, e se um homem da esquerda maltratasse uma criancinha, ainda assim ele continuaria sendo bom, porque a bondade e a maldade não dependiam dos atos e sim da identidade ideológica. Ora esta metafísica, esta horrenda metafísica maniquéia, ela na verdade é a essência mesma da política. Um dos grandes teóricos da política no século XX foi Carl Schmitt. Ele se perguntou qual a essência da política, o que distingue a política de outras atividades, o que distingue a política da moral, do direito da economia etc. E ele diz o seguinte: quando um conflito entre facções não pode ser arbitrado racionalmente pela análise do conteúdo dos conceitos em jogo e quando portanto o conflito se torna apenas confronto nu e cru de um grupo de amigos contra um grupo de inimigos, isto chama-se — Política . Ora, é fácil você compreender que nesse sentido a definição de Schmitt inverte a definição de Clausewitz que diz que a guerra é uma continuação da política por outros meios. Schmitt descobriu, muito mais realisticamente, que a política é uma continuação da guerra par outros meios. Ora, durante toda a história humana existiu política mas havia outras dimensões e outras atividades que eram consideradas mais importantes. A religião era uma delas, mesmo os governantes se ocupavam mais de religião que de política. No século XIX, um homem chamado Napoleão Bonaparte descobre uma coisa terrível:

a política, diz ele, é o destino inevitável dos tempos modernos . Tudo vai virar política e os homens não se ocuparão senão de política. Ele descobre a politização geral de tudo. E o que significa a politização geral? Significa que todos os conflitos já não poderão mais ser arbitrados pela análise dos conteúdos dos termos em questão, mas serão resolvidos sempre por um confronto de forças entre o grupo dos amigos e o grupo dos inimigos. Ou seja, terminou a civilização e começou a barbárie. A politização geral de tudo é simplesmente a barbárie, a violência institucionalizada, seja sob a forma de violência física, seja como a violência moral da mentira imposta como verdade obrigatória. Napoleão previu isso no começo do século XIX, mas a previsão dele só se torna plenamente efetiva no Século XX. No século XX tudo é politizado, e por isso mesmo este foi o século mais violento e mais sanguinário da história humana. A partir do século XIX você vê um crescimento do índice de violência, absolutamente incomparável com o crescimento paralelo da população. A politização geral da vida quer dizer que um garoto de quinze, de dezesseis anos, que mal está entrando na vida, que não tem a menor idéia do que se passa neste planeta, já está cooptado, já está inscrito no grupo dos amigos, cuja única finalidade é matar o grupos dos inimigos. Mas isto é vida? Isto é perspectiva que se ofereça a um jovem: politizá-lo desde o berço, oferecer-lhe o vício da militância política como se fosse a encarnação mais alta da ética e do bem? Ora, quantas vezes não ouvi intelectuais brasileiros fazendo a apologia da politização, condenando as pessoas que não são politizadas! Por exemplo, um homem que se ocupe mais de religião do que de política é condenado como um cretino ou um inconsciente, um indivíduo que se ocupa mais com o sustento de sua família do que de política parece uma criatura inferior. Quando analisamos o termo e entendemos as implicações praticas deste conceito, vemos que esta apologia da politização é a coisa mais monstruosa que algum ideólogo já inventou. Ora, foi à luz desta mentalidade que eu julguei, sem conhecê-lo, o movimento de 1964. Tendo percebido que eu já tinha condenado o réu sem nem tê-lo ouvido, sem nem ter visto a cara dele, sem nem ter sabido onde ele estava, um dia constatei a minha própria ignorância e disse: Bem, agora tenho de ir para casa e pensar no assunto.

Então eu me fiz a pergunta filosófica decisiva. A pergunta filosófica decisiva é “Quê?” — Quid?

Eu me perguntei:

Quê aconteceu em 1964? O que foi exatamente aquilo? Ou seja, vamos deixar de lado por uns momentos a avaliação dos acontecimentos, a investigação de suas causas profundas, a conjeturação de suas conseqüências a longo prazo, etc. etc., e vamos fazer a mais simples e a mais decisiva das perguntas.

Quê aconteceu?

Ora, o que aconteceu em 1964 foi o seguinte. Em janeiro daquele ano, Luiz Carlos Prestes esteve em Moscou, apresentando a Mikhail Suslov um relatório da situação brasileira. Não sei qual foi o conteúdo deste relatório, mas a conclusão de Suslov foi bastante significativa: ele chegou à conclusão que o Brasil estava maduro para ter uma guerra civil no campo, e autorizou então Luiz Carlos Prestes, em seu retorno ao Brasil, a desencadear essa guerra civil no campo. Luiz Carlos Prestes voltou com a autorização e, se não executou a tarefa de imediato, decerto a teria executado ao longo do tempo. Se não havia ainda a condição para desencadear uma guerra civil no campo em escala nacional, havia no entanto condições para paralisar a economia, instaurar a rebelião entre as Forças Armadas e fazer tudo para tornar viável a guerra civil encomendada por Suslov. Em suma, estava sendo montado aqui algo cujo tamanho as pessoas às vezes não avaliam. O que seria uma revolução comunista num país do tamanho do Brasil? Seria certamente a maior revolução comunista da história das Américas. Era isso que estava sendo montado aqui. Ao mesmo tempo é evidente que estava sendo montada uma reação a essa revolução. Que reação era esta? De onde partia? Partia sobretudo de algumas lideranças civis. Particularmente em São Paulo do Governador Adhemar de Barros e no Rio do Governador Cantos Lacerda. Um dos recursos que estes dois líderes utilizaram para fazer face a uma eventual ameaça comunista foi a constituição de tropas paramilitares com dinheiro que recolhiam de empresários e com o apoio discreto e evidentemente ilegal das policias militares desses dois Estados. Os detalhes do Rio eu não conheço (o assunto está sob pesquisa e não posso assegurar nada sobre a extensão dos recursos paramilitares sob o comando de Lacerda), mas a situação de São Paulo eu conhecia muito bem. A Policia Militar, que então se chamava Forca Pública, era uma espécie de igreja ademarista, um culto ademarista, uma seita. Os oficiais da PM parecia que já nasciam ademaristas, como se estivesse no ADN. Se o Adhemar de Barros lhes dissesse: “Vocês peguem um carregamento de três mil metralhadoras e entreguem na rua tal numero tanto”, eles fariam. E assim foram se construindo certas organizações paramilitares como par exemplo a PAB (Patrulha Auxiliar Brasileira), que era uma tropa de vagabundos e arruaceiros, lumpenproletários, exatamente como as tropas fascistas de Mussolini. Ora, eu não acredito que o fascismo seja o pior dos males, o fascismo é uma reação ao comunismo, o fascismo está para o comunismo assim como a febre está para uma infecção. O fascismo não é causa sui , não é ele que se produz a si mesmo, mas ainda assim é uma coisa bastante perigosa. Não sei medir a extensão destas tropas paramilitares fora de São Paulo. Na Paraíba certamente havia organizações desse tipo. Um historiador comunista chamado Moniz Bandeira que apesar de comunista sempre me pareceu honesto no que escreve, diz que provavelmente havia na Paraíba por volta de dez mil homens armados. Muito bem, descobri essas coisas uns anos atrás, quando estava estudando para poder reescrever os capítulos finais de uma obra chamada O Exército na História do Brasil , publicada pela Odebrecht e pela Biblioteca do Exército. Na época eu era um redator autônomo contratado pela Odebrecht, e um dos serviços que vieram parar na minha mesa foi o de corrigir o texto desse livro. O capítulo referente à Revolução de 1964 tinha muitas lacunas e decidi completá-lo por minha conta. Foi revirando livros e documentos, fazendo entrevistas com testemunhas da época, que me dei conta dessas coisas, mas havia alguém que já havia descoberto tudo isso muito antes de mim: o então General Humberto de Alencar Castello Branco, em setembro de 1963, era chefe do Estado Maior do Exército, e fez um discurso alertando seus companheiros para o perigo da proliferação de organizações paramilitares, que num momento de crise poderiam usurpar as funções das Forças Armadas. Ele não se referiu apenas à famosa organização de esquerda, os “Grupos dos Onze”, nem às Ligas Camponesas: ele falou no plural, sem mencionar cor ideo1ógica, e subtendendo que quaisquer organizações paramilitares eram um insulto e um perigo para as Forças Armadas regularmente constituídas. Ora, eu vim a me preocupar com isto em 1996, o Gen. Castelo Branco se preocupou em 1963: dá para medir o tamanho da minha sonolência, da minha burrice, da minha idiotice? Dá para vocês medirem o estado de hipnose em que vivi durante todos esses anos entre 1964 e 1996, para um dia acordar e ver que este homem já havia percebido tudo isso trinta e três anos antes? Muito bem, estavam lá os comunistas montando a sua revolução e os governadores direitistas montando suas tropinhas paramilitares de fascistinhas, a PAB tinha até aquela vestimenta cáqui, muito característica, que lembrava as camisas pardas das SA. Então, com um monte de comunistas armados de um lado e fascistas armadas do outro, que é que ia acontecer? Certamente, a Noite de São Bartolomeu. Mas a direita sempre foi mais combativa, mais corajosa, e estava mais armada: isto quer dizer que se a iniciativa da reação aos comunistas dependesse exclusivamente dos lideres civis, não teria chegado um único comunista vivo ao fim do ano de 1964 . A revolução comunista teria falhado. Os comunistas seriam derrotados, como o foram pelas Forças Armadas. Mas quantos eles teriam matado e quantos deles teriam morrido? O número é incalculável, mas além disso ainda podemos compreender que, em plena época da chamada Guerra Fria, as duas grandes potências não duelavam diretamente, mas sim através de situações exatamente como essa, montadas em países periféricos. Portanto, se houvesse uma guerra civil aqui, todo mundo iria querer ajudar os dois lados. Seria um festival de generosidade universal: os Estados Unidos mandando armas e assistência técnica para um lado e a União Soviética e a China mandando armas e assistência técnica para o outro. Seria uma efusão de bondade fantástica, como foi no Vietnã. E teríamos vivido este drama par uma década ou duas. Isto era o cenário que estava montado, isto não é uma conjetura feita a posteriori , isto eram os planos que já estavam em andamento de parte a parte. Na noite de 31 de março para 1 o . de abril, o que faz porém o Exército? Ele toma a dianteira, ocupa as ruas, desmonta a máquina comunista, coloca uma focinheira nas tropas direitistas e por fim corta a cabeça dos seus líderes, primeiro encostando-os, depois chegando a cassar os mandatos de Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, porém, antes mesmo disto, tomando uma medida mais decisiva ainda que foi criar a Inspetoria Geral das Polícias Militares, com o que todas as policias militares estaduais, virtuais colaboradoras das tropas paramilitares de direita do Brasil inteiro, foram submetidas diretamente à autoridade do Exército e voltaram à disciplina normal. Esta imensa operação de desmontagem de uma revolução esquerdista e de um aparato bélico direitista, quantas mortes custou? Duas, três, cinco no máximo. Quantas pessoas morreram em conflitos políticos entre 1964 e o fim do mandato do Marechal Castelo Branco? Quantas? Cinco? Seis? Este foi o preço que nós pagamos pela desmontagem não só da maior máquina revolucionária já construída pelos comunistas em toda a América Latina, em todas as três Américas, mas também, pela desmontagem do aparato bélico de reação direitista civil, que simplesmente desapareceu da história e entrou no esquecimento. Foi isto o que aconteceu em 1964. Quando vemos isto, só há uma coisa que podemos dizer:

Foi absolutamente genial . Não é qualquer um que desmonta uma bomba desse tamanho com uma perda de vidas humanas tão reduzida, tão insignificante. É claro que depois houve alguma violência porque decorridos quatro anos a esquerda se rearmou e se lançou à aventura das guerrilhas. Em razão das guerrilhas morreram umas trezentas pessoas entre os guerrilheiros e duzentas pessoas do outro lado. Na pior das hipóteses, quinhentas pessoas — isto ao longo de mais de uma década, num pais do tamanho de um continente. Este talvez tenha sido o preço mais barato em vidas humanas que qualquer regime do mundo já pagou pela reconquista da sua própria estabilidade. Nunca se deteve uma revolução comunista com tão poucas mortes. Ora, mas sempre vamos encontrar um engraçadinho para nos dizer: “Mas uma só morte já é revoltante!” Ora, nós sabemos perfeitamente que essa atitude é um teatro histérico, um fingimento. Quando se diz que um total de quinhentas mortes é menos grave que um de mil mortes — ou do que as dezessete mil mortes de adversários do regime cubano —, aí já está implícito que todas as mortes são más. Só podemos fazer um cálculo do mal maior ou menor se já admitimos que ambos são males. Mas toda vez que se diz que aqui houve menos violência, que um adepto do regime sanguinário de Fidel Castro não tem autoridade moral para criticar o uso moderado que o nosso governo militar fez de uma violência que a própria esquerda inaugurou, sempre aparece um hipócrita, um sofista, um mentiroso comunista para fingir que é tão cristão, tão bondoso, que não admite a morte de um mosquito, e é precisamente esse tipo de calhorda que vem nos atirar ao rosto a bela frase: “Mas uma só morte já é revoltante!” Ora, qualquer principiante de lógica sabe que não é possível nivelar urna afirmação categórica e uma afirmação comparativa. Por exemplo, se digo que Aids é mais grave do que gripe, não estou fazendo apologia da gripe, estou subentendendo que ambas são doenças, que ambas são males, não é isso? E, se um indivíduo ameaçado de Aids descobre que tem apenas gripe e se regozija com isto, devemos concluir que ele gosta de gripe, que ele ama a gripe, que ele é um apologista da gripe e desejaria espalhar os germes da gripe no mundo? O alívio do mal menor será uma apologia do mal? Só um tipo perverso, como são intelectualmente perversos todos os comunistas sem exceção, pode fingir que acredita numa coisa dessas. Quando nós mostramos que o preço pago por este país para se libertar de urna guerra civil que provavelmente não terminaria nunca foi um preço baixo, sempre aparece não só um farsante para insinuar que adoramos pagar esse preço, mas também aparece sempre um engraçadinho que nos diz que o que estamos fazendo é “contabilidade macabra”. Qual de vocês já não ouviu esta expressão? Ora, todos sabemos que os comunistas odeiam “contabilidade macabra”. E por que a odeiam? Odeiam-na por um motivo muito simples. Odeiam-na porque toda soma do número de vítimas mostra que eles são os maiores assassinos, que eles têm o primeiro prêmio do morticínio universal, que nenhum regime do mundo pode se igualar, em sanha mortífera, ao desses benfeitores do gênero humano. Se somamos o número total de vítimas do comunismo neste século, vemos que é superior ao número de mortes de duas guerras mundiais, somado ao número de vitimas de todas as ditaduras de direita, mais o número total de vitimas de terremotos, enfartes e epidemias variadas. Isto não é força de expressão: é um simples fato, medido matematicamente. Ou seja, o comunismo foi o pior flagelo conhecido pela humanidade desde o dilúvio universal. Não há outro termo de comparação. A peste negra, proporcionalmente, foi menos grave do que o comunismo. Será que perdemos totalmente o senso das proporções? Ou será que o medo de sermos acusados de fazer “contabilidade macabra” nos torna cegos para as proporções dos males? Será que os defensores de uma ideologia tão assassina, tão intrinsecamente homicida, têm alguma autoridade moral para falar mal da nossa “contabilidade macabra”, coma se o feio, como se o mal, não estivesse em cometer os homicídios e sim em somá-los? Como se fazer cadáveres fosse menos grave do que contá-los? Quem condena a “contabilidade macabra” é sempre aquele que tem mais crimes a esconder, que tem portanto uma boa razão para não querer fazer as contas. Pois a contabilidade, macabra ou não, mostra que num país de mais de uma centena de milhões de habitantes um governo militar conseguiu deter uma revolução sem fazer mais de cinco vítimas, e que em seguida esse mesmo governo conseguiu desmontar uma guerrilha sem matar mais de trezentos combatentes (perdendo ele próprio duzentos), enquanto na vizinha ilha de Cuba, em tempo de paz e sem ser desafiado por qualquer guerrilha, o governo comunista matava quase duas dezenas de milhares de pessoas . Não, macabra não é a contabilidade: macabro é o esforço de ocultar os resultados do balancete.

Ora mas foi somente isso que aconteceu em 1964 — um movimento muito bem sucedido, que desmonta duas máquinas de guerra e devolve a paz à nação, com um número de perdas insignificante? Não! Em seguida, as pessoas que fizeram o movimento tinham de governar. Governar como? Tinham um programa? Tinham ao menos uma ideologia pronta? Não tinham. Tanto não tinham, que os governos nascidos da Revolução de 1964 tentaram, nos anos subseqüentes, duas políticas exatamente contrárias: primeiro uma política liberal internacionalista, com Castelo, e depois uma política estatizante nacionalista, com Geisel. Ou seja, eles tentaram as duas pontas do espectro ideo1ógico que então havia no país. Isso prova que não tinham ideologia nenhuma. Ora, não ter ideologia nenhuma significa que esse movimento não foi feito para implantar uma ideologia determinada, mas que foi feito simplesmente para tirar o pais de uma emergência catastrófica, e que, apesar de não se apresentar com programa algum, acabou tendo uma folha de realizações bem superior, seja à da Era Vargas, seja à dos governos que lhe sucederam. Quais são essas realizações? Voltemos à definição: o movimento de 1964 foi um movimento de emergência para desmontar duas máquinas de guerra, para impedir que o pais entrasse numa guerra civil e que em seguida, mesmo não tendo ideologia nem planos definidos, conseguiu — o quê? Vamos ver: em 1964, o número de pessoas que viviam na miséria, que viviam com menos de um salário mínimo neste país era de sessenta por cento da população nacional. Quando terminou o regime militar, eram vinte e poucos por cento . Ou seja, esse regime que não tinha ideologia, que não tinha planos, que nem sabia o que haveria de fazer, conseguiu tirar da miséria quarenta por cento da população brasileira. O que são quarenta por cento da população brasileira? São, hoje, setenta milhões de pessoas, na época uns cinqüenta milhões. Aí é que eu me pergunto: Será que estamos todos dormindo? Será que não percebemos as coisas? Será que perdemos o senso das proporções? Digam-me vocês: Qual o regime do século XX, qual o plano econômico, por mais genial que fosse, seja o Plano Qüinqüenal de Stálin ou o New Deal de Roosevelt ou qualquer outro, que conseguiu retirar da miséria e deu condições de vida humana a 50 mi1hões de pessoas no prazo de uma geração? Quem fez isso? Quem pode se gabar de tanto?

Nós conseguimos fazer. Quando digo “nós”, “nós, brasileiros, fizemos”, — vejam que coisa irônica! —, estou atribuindo a mim as obras e as g1órias daqueles a quem eu abominava e a quem chamava de “gorilas”. E eles, os abomináveis gorilas, me deram a possibilidade de hoje poder dizer com orgulho:

Nós , brasileiros, fizemos isso, nós tivemos a vitória — a maior vitória sabre a miséria que se conheceu no século XX. E será que temos motivo para sentir vergonha disso? Será que um daqueles meninos de quinze anos que eram meninos de quinze anos aos quinze anos e que agora aos cinqüenta e tantos continuam meninos de quinze anos, bobocas irresponsáveis e sobretudo mentirosos, será que um desses meninos tem autoridade para julgar e condenar o movimento que fez isso?

Quando nos perguntamos o que aconteceu em 64, foi isto. Houve prisões, houve torturas, houve mortes. Eu tive parentes que foram torturados, eu próprio passei muito medo e humilhações. Tive amigos que foram mortos. Um amigo querido meu, João Leonardo da Silva Rocha, apanhou tanto de alguns soldados, segundo se dizia, que ficou louco. Nunca mais ficou bom. Mas eu teria de ser um monstro de mesquinharia para condenar em bloco, por esses atos de violência, por revoltantes e intoleráveis que sejam em sua própria escala, um regime que salvou o pais de uma guerra civil e que salvou cinqüenta milhões pessoas da miséria. Porque ninguém conseguiu fazer tanto com tão pouca violência. Ora, falamos em trezentos, quatrocentos, quinhentos mortos! Quantas pessoas morreram nos Estados Unidos em conflitos políticos no mesmo período? Quantos negros foram espancados e mortos, quantos brancos assassinados em represália? E isto em plena vigência da democracia, com todas as garantias da ordem jurídica, sem o perigo de uma guerra civil. Para matar quatrocentos, quinhentos ou trezentos, os americanos não precisam de uma guerra civil. Na guerra civil deles morreram cinco milhões — foi a maior guerra que o mundo conheceu até então. E o nosso regime, para parar uma guerra civil, e depois para desmontar a guerrilha, matou trezentos e perdeu duzentos. Devemos comparar os nossos militares aos governantes de outras nações, aos cubanos, aos espanhóis antepassados do Dr. Garzón que queimavam freiras em massa, aos americanos que se matam sem cessar, aos lindos lordes ingleses que nunca pararam de matar irlandeses, aos russos que mataram trinta milhões de seus compatriotas, aos chineses que mataram sessenta milhões, ou devemos compará-los a Deus e condená-los por não serem perfeitos? Se houve um governo humano que fez melhor, me mostrem qual. Sobretudo, se houve um governo comunista que fez melhor, me mostrem. Eu nunca vi. Mas todas estas coisas óbvias que estou dizendo parece que foram perdidas de vista, que se tornaram invisíveis e incompreensíveis, ofuscadas por tantas mentiras e tanto falatório comunista recompensado a peso de ouro por empresários de imprensa venais e irresponsáveis. E tudo isso foi perdido de vista por um motivo muito simples: esse governo militar, que era não opressivo, que não era um governo fascista, não tinha um dos principais traços que caracterizam todas as ditaduras e todos os movimentos fascistas: ele não tinha a menor vontade de inculcar uma ideologia na população. Ele não tinha nenhuma ideologia para inculcar. De vez em quando fazia uns cartazes, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, ou mandava passar uns anúncios de suas realizações, uma estrada, uma usina, uma ponte — tudo com menos alarde e menos despesa do que qualquer governo civil antes ou depois dele. Isso foi tudo. Pergunto eu: Havia doutrinação fascista nas escolas? Havia um cinema doutrinário pago pelo governo para inculcar idéias fascistas na população? Não: O governo dava dinheiro para a oposição fazer filmes! Havia programas de TV martelando e remartelando o discurso oficial 24 horas por dia, como em Cuba e em todos os países comunistas e fascistas? Não! Não havia. As novelas, o gênero mais popular de TV, eram usadas pelo governo para transmitir propaganda ideológica? Não. As novelas eram todas escritas por comunistas notórios como Dias Gomes e Janette Clair, e quando o governo censurava alguma cena erótica julgando-a imprópria para o horário das oito quando as crianças estavam acordadas, era uma tempestade de protestos! Havia editoras dominadas pelo governo publicando material ideológico o tempo todo para inculcar a doutrina oficial na população? Não! Ao contrário, nunca o mercado de livros esquerdistas foi tão próspero — no mais das vezes com subsídios do governo —, nas universidades só havia propaganda comunista e simplesmente não se notou um esforço ideo1ógico par parte do governo. O único passo que o governo deu nesta direção foi a disciplina de Educação Moral e Cívica. Mas o que aconteceu com a EMC? Eu estava lá, “meninos, eu vi”. Eu vi isto acontecer. Eu vi o Partido Comunista decidir, muito simplesmente: colocaremos os nossos militantes em todas as cátedras de EMC e as transformaremos em canais de propaganda comunista. Assim disse e assim fez. O governo o impediu? Fez algo para impedir? Não! Ou seja, além de dar liberdade para os comunistas fazerem o que fizeram, ainda criou instrumentos, financiou filmes comunistas, deixou comunistas ocuparem as cátedras de EMC, deixou que os comunistas tomassem toda a imprensa e toda a universidade onde hoje exercem cinicamente um poder de censura. Tudo isso aconteceu porque havia um cidadão chamado Golbery do Couto e Silva que acreditava numa tal teoria da “panela de pressão”. E o que era a panela de pressão? Era que, dizia ele, “não podemos tampar todos as buracos, tem de haver uma valvulazinha...” E onde era essa valvulazinha? Eram as universidades e a cultura, o movimento editorial e o show business — eram todos os canais de comunicação das idéias. Tudo isso foi entregue pelo próprio governo nas mãos dos comunistas. Mas que bela teoria, hein? Era só o que as comunistas queriam. Era só o que eles queriam para fazer da sua derrota militar a sua vitória política, porque naqueles anos estavam começando a entrar no Brasil as obras do ideólogo italiano Antonio Gramsci. Este dizia adeus à teoria leninista da insurreição e criava uma nova estratégia baseada em duas coisas: de um lado, aquilo que chamava de Revolução Cultural , ou seja, o domínio do vocabulário, o domínio dos automatismos mentais, de modo que as pessoas, sabendo ou não, passem a falar e pensar como os comunistas e acabem aceitando o comunismo, com ou sem esse nome, como se fosse a coisa mais natural do mundo; de outro lado, o que ele chamava de a longa marcha da esquerda para dentro do aparelho de Estado , ou seja: ocupar todos os postos da burocracia. Lentamente, com muita calma, através de ocupação de espaço, de nomeações, até mesmo de concursos, — par exemplo, o governo abre um concurso para a Policia Federal e, quando você vai ver, noventa por cento dos candidatos que se apresentam são comunistas, foram mandados ali para isso.

Ora que raio de governo fascista era esse, que não tinha militância, que não tinha partido de massas, que não tinha ideologia, que não tinha sequer um programa de doutrinação das massas, um discurso para ser repetido nas escolas? É simples: esse governo nunca foi fascista. Foi um governo de emergência, criado para impedir uma guerra civil e que chegou ali e teve de governar de alguma maneira, sem nunca ousar aprofundar sua intervenção na história brasileira, ao ponto de constituir uma legitima revolução. O movimento de 64 foi uma revolução? Eu acho que não foi. Também acho que disputar com as esquerdistas e insistir no termo “revolução” quando dizem que foi apenas um golpe é ceder a uma tábua de valores esquerdistas, a um vocabulário esquerdista. Porque para um esquerdista uma revolução é a melhor coisa do mundo. Comunistas é que adoram revoluções. Para que temos de imitá-los? O que temos de responder-lhes é: Vocês, comunistas, que façam suas revoluções. Nós fazemos coisas modestas, nas quais morre menos gente, nós não somos assassinos profissionais, nós não estamos o tempo todo tentando virar o mundo de cabeça para baixo, nós só agimos na emergência para impedir catástrofes. Porque nós não somos como vocês, nós não temos a solução de todos males, nós não somos o bem encarnado, nós não acreditamos que temos a verdade revelada que nos autorize a matar metade do mundo para salvar a outra metade. Em suma, nós somos gente, somos seres humanos, não somos anjos do Senhor como vocês, não temos autoridade para fazer a História à nossa imagem e semelhança, e por isto mesmo, ao tomar o poder em 1964, governamos com sabedoria, com paciência, com bondade, com brandura e sobretudo protegemos vocês contra a direita civil que queria matá-los. Se chegou um único comunista viva ao fim de 1964, ele deveu isso a quem? Às Forças Armadas.

Entrevista De Olavo De Carvalho A Revista Digital

Universidade Para Quê?– | Revista Digital, 23 de março de 2001

, o polêmico filósofo e jornalista Olavo de Carvalho fala de assuntos na pauta dos gaúchos: o papel da universidades e a Uergs, o governo Olívio Dutra e os guerrilheiros colombianos, Fórum Social x Fórum da Liberdade, a ascensão do PT ao poder, segurança pública, e muito mais! Leia e discuta essa entrevista exclusiva para a Revista Digital .

Professor, o senhor está visitando o Estado a convite da Aclame (Associação da Classe Média do Rio Grande do Sul), para um ciclo de palestras intitulado Universidade pra quê?. Qual é a função da universidade, na opinião do senhor? O senhor acredita que a universidade brasileira perdeu sua função original?

— A universidade pode ter inúmeras funções diferentes. Porém, a característica que a define é a de constituir o maior centro de busca e preservação do conhecimento. É uma grande ilusão pensar que a universidade se destinasse a formar a classe dominante. Na Idade Média, havia esta consciência do benefício incalculável que o conhecimento representa, pela sua simples posse. Não se pensava na hipótese de usar isto para outra coisa, ao contrário, isto era o supremo benefício.

Com o tempo, a universidade vai adquirindo finalidades secundárias. Em primeiro lugar, na Renascença, começou a disputa entre os reis e o papado pelo domínio da universidade. O declínio da intelectualidade católica dominante da época é terrível – se você compara os intelectuais dos séculos XII e XIII com aqueles idiotas do Concílio de Trento, é algo absolutamente deplorável. Há uma queda do nível das universidades ocasionada pela sua politização, por culpa dos papas e dos reis. Com a restauração na Alemanha, a universidade conserva uma imensa autonomia, possibilitando o surgimento do movimento notabilíssimo que foi o romantismo e o idealismo alemão. Filho direto da liberdade, da não interferência dos poderes externos na universidade.

No entanto, a partir daí, esta intervenção é cada vez maior, sobretudo e em primeiro lugar no sentido comercial. A universidade vai se transformando em uma instituição para a formação profissional, e, logo em seguida, como efeito quase imediato, vem a politização da universidade. Não que essas finalidades econômicas e políticas não devam ser atendidas, mas para elas há outros instrumentos.

O senhor acha então que dever-se-ia separar essa questão do conhecimento instrumental, voltado para fins técnicos e para a formação profissional?

— A universidade pode abranger tudo isso, mas sem abrir mão da consciência do valor do conhecimento objetivo. Nesse sentido, ela poderia se tornar o árbitro das disputas sociais e políticas, realmente dando uma ajuda na esfera econômica. Mas, se ela perder a sua função própria e se prostituir a fins comerciais ou políticos, ela perde a autoridade e se transforma em um órgão auxiliar, ela é subjugada. É o que acontece hoje.

A maioria dos políticos usa a universidade sem nenhum respeito ao conhecimento objetivo. Os partidos, sobretudo o famoso PT e esse pessoal comunista todo, quer instituir a sua doutrina partidária como programa de universidade, vetando inclusive o conhecimento de doutrinas antagônicas. Isto é o máximo da prostituição que se pode conceber na universidade. E no Brasil isto acontece em todas as universidades, sem exceção.

O senhor traçou uma origem bastante antiga para esse processo de intervenção política. E no Brasil, quando é que isso começou?

— O Brasil não tem tradição universitária. Ele tem, ao contrário, uma tradição das faculdades isoladas, que, por não poderem exercer esta função mais elevada, acabavam virando centros de agitação política. O tempo que os estudantes perderam fazendo passeatas e revoluções foi tempo roubado à formação da elite intelectual nacional. A desvantagem que o Brasil leva no cenário internacional ocorre simplesmente pelo despreparo e pela burrice da sua elite política. Em vez de estudar, ficavam fazendo passeata. Hoje, temos como resultado esse Congresso de analfabetos. Em outros países, é uma tradição os políticos de primeiro plano serem homens que dominam a arte da palavra. Na França, um político não se incomodará de ser acusado de corrupção, mas o desafiará para um duelo se você disser que ele cometeu um erro de gramática. Nos Estados Unidos, um dos políticos mais populistas, como Theodore Roosevelt, era autor de ensaios literários de valor extraordinário. Abraham Lincoln era um dos maiores estilistas da língua inglesa. E isso é uma tradição, que há em quase todos os países.

E o Brasil também tinha esta tradição intelectual, até as décadas de 40 e 50. O tempo da ditadura ainda conservou um pouco, mas, pelo simples fato de ser uma ditadura, por não se ter uma circulação normal das idéias e dos debates políticos, rompe-se a tradição. E, na constituinte, se elegeram pessoas que não sabem conjugar um verbo, completar uma frase, não têm domínio do idioma. Você tem o exemplo grotesco do Lula, da Benedita, pessoas que oferecem a desculpa da sua origem pobre, mas a origem deles não é mais pobre que a de Machado de Assis, ou mais pobre do que a minha. Machado de Assis era filho de lavadeira, eu sou neto de lavadeira.

Qual tem sido a reação das comunidades acadêmicas visitadas pelo senhor neste ciclo de palestras?

— Em geral, eles gostam. Quando não gostam, não respondem nada. Ficam quietinhos [risos].

Existe alguma perspectiva de mudança deste quadro? E, se existe, qual o papel do governo nisto, ele ajuda ou atrapalha?

— O governo só atrapalha! Ele é o culpado direto disso aí. Não só este governo, mas todos os governos! Todos os governos sempre tentaram usar a universidade como instrumento de ação política.

E isto independentemente de partidos?

— E sobretudo criando esta ilusão de que a universidade deve prestar serviço público. A existência da universidade já é o serviço público! A finalidade da universidade se esgota na busca e na transmissão do conhecimento. Se você disser que a universidade tem que planejar a reforma social, então qual é a diferença entre a universidade e um ministério? Ou um partido político? Aí se cria uma confusão, perdendo-se a noção da função específica das várias instituições.

O senhor tem acompanhado a experiência do Rio Grande do Sul na área da educação, onde se discute a questão da criação da universidade estadual, a Uergs?

— Sim. Isso é uma palhaçada, mais uma palhaçada. Primeiro, você já tem um montão de universidades. Essa vai ser mais um cabide de empregos. Imagine, vai ser uma universidade feita pelo PT, vai ser uma universidade petista. E é apenas isso o que eles querem: mais um megafone para fazer propaganda. Aliás, a única coisa que esse governador daqui sabe fazer é propaganda, alardeia obras que ele não fez, até obras dos seus adversários.

O senhor fez duras críticas ao governador Olívio Dutra em seu artigo O direito de duvidar , publicado em Zero Hora de 11/03/2001. O senhor vê mesmo uma relação entre a guerrilha colombiana, o narcotráfico e a ascensão da esquerda ao poder no Brasil?

— Mas essa relação não sou eu que vejo, são eles mesmos que afirmam! Eles dizem isso! Eles se irmanam na luta pelo socialismo na América Latina, eles declaram isso. Não é uma interpretação que eu estou fazendo. Então, é evidente que, se o PT ganha votos aqui, isso é bom para a guerrilha colombiana lá. Se o colombiano ganha mais meio metro quadrado de terra, isto é bom para o PT aqui. Agora, se o dr. Olívio Dutra não tem interesses ligados a isso, ele que condene as violências da guerrilha. Eu o desafio em público a fazer isso! Essa guerrilha todo mundo viu na televisão: os guerrilheiros amarraram uma bomba na cabeça de uma prisioneira e a mulher explodiu. Essa é a maior organização criminosa que já existiu no continente. Se o dr. Olívio Dutra for sincero, que condene esses crimes. Ele que chame o representante da guerrilha de criminoso, se ele tiver coragem. Esse é o tratamento que o governador tem obrigação de dar a essa gente. É esse o tratamento que ele está dando? Não, ele está tratando esses sujeitos como hóspedes normais! Você recebe o Al Capone na sua casa e o trata como se fosse um homem honrado e, sobretudo, empresta um megafone nacional para o sujeito falar, para fazer propaganda? O que fez o Fórum Social Mundial se não dar a esse pessoal da guerrilha instrumentos de propaganda? Ora, dar instrumento de propaganda não é cumplicidade? É o caso de facilitar meios para a apologia do crime. E essa guerrilha é criminosa.

O senhor tem alguma avaliação de por que este processo de ascensão do PT ao poder começou no Rio Grande do Sul?

— Em parte é porque você tem uma tradição de estatismo forte, muito arraigada. Mas é curioso que justamente o gaúcho tenha essa mania, porque ele não precisa disso, o gaúcho é um tipo independente, que sempre teve iniciativa própria. Se fosse um povo fracote, incapaz, que precisa de um governo forte que o proteja, eu admitiria isso. Mas o gaúcho realmente não precisa disso, esta é uma situação irônica, uma excrescência. Isso ficou assim por falta de repertório cultural. Sobretudo, quando não há outras idéias em circulação, você adere às idéias que estão aí. Por exemplo, a tradição liberal é todinha ignorada aqui neste país. Você fala de liberalismo, as pessoas não sabem a que autores você está se referindo, não têm as fontes, nunca leram nada a respeito, você não vê os livros liberais nas livrarias. Você encontra, no máximo, um ou outro best seller sobre globalização, livros de terceira ou quarta categoria. Você não encontra os livros do von Mises, do Hayek, do Rothbard. Tudo o que há de mais significativo do pensamento liberal não chega aqui.

Falando nisso, o senhor vai ter uma participação no Fórum da Liberdade, que está em sua 14a edição. Como o sr. vê a sua participação nesse fórum e mesmo a existência deste tipo de iniciativa, que já está consagrada no estado?

— Ah, isso vai ser muito divertido! Em primeiro lugar, porque eu tive um debate pela imprensa com o deputado José Dirceu, e eu vou encontrá-lo lá, eu quero que ele me diga, cara a cara, que ele não é um técnico em inteligência militar formado em Cuba. Ele diz que o PT só investiga nas fontes oficiais, o que é uma impossibilidade pura e simples porque, em certas CPIs, o PT aparecia sabendo até o número da cédula que foi dada em propina para um sujeito. O que mostra que existe espionagem. E o deputado José Dirceu nega isso aí. Ameçou até me processar. Agora, ele deve explicar como é que se deu essa estranha mutação na cabeça dele que, de agente secreto, se transformou em jurista. Esse é um dos motivos pelos quais eu estou ansiosíssimo para chegar lá, eu quero que ele me conte essa história.

Como é que o senhor contrasta uma iniciativa como o Fórum da Liberdade com o Fórum Social, por exemplo? No Fórum da Liberdade a gente vê que existe contraste de opiniões, o que não parece ser o caso do Fórum Social.

— O Fórum Social, que pretendeu ser um contraponto ao Fórum de Davos, verdade foi apenas uma caricatura do Fórum da Liberdade, uma macaquice muito mal feita, porque ali não tem Fórum nenhum, aquilo é um coro, o Coro Social Mundial. O conceito de debate deles é o do centralismo democrático leninista. É o debate interno dos comunistas. Nesse sentido, não digo nem que eles sejam contra a liberdade: eles são a favor da liberdade, só que da liberdade para eles! Quem não é da curriola deles não precisa de liberdade. Esse Fórum Social Mundial foi duplamente fraudulento: não só por se apresentar como Fórum, o que não verdade não foi, mas também por posar como o grande inimigo da Nova Ordem Mundial, que o financiou e o paparicou, passou a mão na cabeça dele e o carregou no colo. Toda a constelação dos grão-senhores da Nova Ordem Mundial apoiou essa porcaria e esses meninos ficam fazendo o papel de enfants terribles : “Nós somos os revoltadinhos.” São nada, são uns vendidos!

O senhor também atribuiu aos intelectuais de esquerda um papel de formadores de guerrilheiros, durante os anos em que estes intelectuais estiveram encarcerados com ladrões comuns, durante a época da ditadura no Brasil.

— Isso é um longo processo. A utilização do banditismo para a revolução é uma tradição. Começa na Revolução Francesa, Lênin aperfeiçoou a coisa e ela segue sendo usada, de maneira que não há novidade alguma nisso aí.

O senhor deve ter visto os movimentos de pequenos agricultores invadindo a Secretaria da Agricultura do Estado. Será que isso aí é o feitiço se voltando contra o feiticeiro, ou é pura tática de desinformação?

— Eu não creio que isso configure um caso de o feitiço virar contra o feiticeiro em escala maior. Essas coisas não são muito difíceis de controlar e são percalços no caminho de uma estratégia revolucionária. Isso acontece mesmo. Agora, no caso dos bandidos, é mais difícil governá-los. Mas nem por isso foi impossível fazer uma rebelião simultânea de 29 presídios em São Paulo, preparada desde a década de 70 por intelectuais esquerdistas presos, que ensinaram a essa gente as técnicas de guerrilha e de organização política. Esses mesmos intelectuais e líderes esquerdistas aparecem na televisão, falando das causas do banditismo como se fossem autoridades neutras e superiores no assunto. Ora, as causas são eles mesmos! Nosso banditismo não tem a ver com problemas sociais, miséria, principalmente porque os grandes centros produtores de violência não são as regiões mais pobres. Para falar em causas sociais do banditismo, você precisaria de causas sociais para transformar o sujeito pobre em um traficante em grande escala, e isso é impossível. Mas a idéia de que o banditismo tem causas sociais acaba funcionando como um pretexto legitimador do banditismo. Para o bandido, essa é uma retórica agradável aos ouvidos dele: o sujeito investe contra a sociedade e a sociedade é que é culpada. Para o bandido isso é uma delícia.

Do ponto de vista da segurança pública, o sr. deve ter acompanhado os protestos de cidades do interior do RS, nas quais a Brigada Militar está sendo retirada, concentrando suas operações em uns poucos municípios. Como é que o senhor vê esse processo?

— Isso tem uma lógica. Por um lado, você fomenta a formação de organizações revolucionárias, como o MST. Você paparica e dá apoio publicitário à guerrilha. E, por outro lado, você desmonta o aparato policial civil e militar. Você está agindo com muita lógica. Você está preparando uma revolução. Mas, como as pessoas hoje em dia não estudam mais estratégia leninista, só os que a praticam ainda a estudam, elas vêem esse fatos e os consideram coisas isoladas, quando tudo isso é de uma lógica absolutamente implacável. A Brigada Militar é um centro de resistência ao processo revolucionário, logo, temos de desmontá-la, é óbvio!

O senhor acha que isso é apenas a ponta do iceberg?

— Nem ponta de iceberg: o processo é visível! Não se pode nem mesmo dizer que é uma conspiração, porque o processo está acontecendo na nossa cara! Por exemplo, toda essa campanha pela ética, inventada em 1990, com a finalidade de atribuir à esquerda o monopólio da autoridade moral e de jogar as demais tendências umas contra as outras, está sendo feita na nossa cara, e, depois de doze anos de experiência, as pessoas ainda não se deram conta disso. A incapacidade de aprender com a experiência assinala uma grave deficiência mental. Um país que ainda não aprendeu a unidade desse processo está em um estado de torpor mental absolutamente patético!

O senhor chegou mesmo a comentar que a briga recente do ACM com o FHC era resultado desse processo.

— Esse foi um resultado maravilhoso! Prova que a coisa está funcionando. Eles estão arrebentando com todas as lideranças que possam se opor no caminho deles, desmontando o país com base em acusações de corrupção, com uma ressalva: eles próprios nunca são investigados, porque antes tiveram o bom senso de penetrar na Polícia Federal, no Ministério Público, e sobretudo na mídia. Se o petista que está no Ministério Público quer investigar um sujeito, o que ele faz? Ele solta aquilo para a imprensa, a imprensa noticia e aí ele usa o noticiário da imprensa como motivo para iniciar a investigação. Na hora que se inicia a investigação, o sujeito já está queimado, com indisponibilidade de bens, já se abre seu sigilo bancário. A reputação do sujeito está acabada. No fim, se ele for inocentado pela Justiça, a reputação dele será restaurada? Não, a reputação do juiz é que estará acabada! Se o sujeito é inocentado, isso não é prova de que ele é inocente, mas é prova de que o juiz é culpado. E as pessoas ainda não são capazes de ver aí a unidade de uma estratégia revolucionária, a qual os próprios revolucionários já confessaram.

E o senhor acha que há a possibilidade de mudança? Ou o processo de aprendizado vai ser muito longo?

Pensamento E Atualidade De Aristoteles Aula Ii Parte Ii

Transcrição de: | SEGUNDA AULA

Heloísa Madeira João Carlos Madeira e Kátia Torres Ribeiro 2a parte Aristóteles não aconteceu na Grécia Vamos começar por ver a imagem de Aristóteles no tempo dele mesmo. Quase todo o seu trabalho foi desenvolvido ou na Academia ou na escola que ele fundou num lugar chamado Liceu, nome que depois se torna a designação de escola mesma. Somente uma parte das idéias dele circulou fora da Academia e do Liceu. Na Academia ele dava cursos de retórica e chegou a ser famoso nesse campo durante algum tempo. Mais tarde, funda uma nova escola de retórica, ainda antes de fundar o Liceu. (ver Cronologia, em Documentos Auxiliares I).

Aristóteles permaneceu vinte anos na Academia, dos dezenove aos 38, quando se dirige a este lugar chamado Atarna, governado por um amigo seu chamado Hermias, com cuja sobrinha ou irmã – não se sabe ao certo -, chamada Pítias, virá a se casar.

O ensino propriamente dito começa aos 49 anos. Isto dá o que pensar. Decorreram trinta anos de estudos e preparações antes de ele fundar sua própria escola. Dentro da Academia, ele se incumbia de algumas matérias, mas menores – retórica e dialética. Depois funda uma escola, mas ainda de retórica, não uma escola filosófica. Portanto, Aristóteles sentiu-se firme para fazer a transmissão sistemática de suas idéias só trinta anos depois de ter começado seu aprendizado filosófico. Esta duração permanecerá como uma instituição até a Renascença. Um professor universitário, na Idade Média começava a ensinar mais ou menos aos 49 ou cinqüenta anos. O período de formação era de trinta anos.

Não só o trabalho filosófico de Aristóteles teve pouca difusão, ao contrário de suas obras literárias ou retóricas, mas também Aristóteles, ao contrário de Platão, teve muito azar com os discípulos. Nunca teve discípulos à sua altura. A Academia platônica continua atuando séculos além da morte do mestre, até depois da era cristã, quando surge o neoplatonismo. O Liceu morre praticamente com Aristóteles. Continua existindo institucionalmente, a escola funciona por mais dez ou quinze gerações de diretores que se chamavam escoliarcas, porém nenhum deles tinha o menor talento para manter o nível de ensino e de pesquisa do mestre. Além do fato de Aristóteles ser estrangeiro, é preciso levar em conta que ele teve algumas atitudes consideradas desagradáveis por seus colegas. Ele é rodeado desde o início por uma hostilidade que se expressa seja através do silêncio, seja através do ataque direto, seja através da calúnia e da intriga. Estas vêm sobretudo com a escola epicúrea. Epicuro era um contemporâneo de Aristóteles e hoje, pela reconstituição dos textos, vemos que da obra aristotélica só conhecia a parte publicada, não filosófica. Todas as opiniões que Epicuro emite sobre Aristóteles não são, pois, sobre o Aristóteles que conhecemos. Vemos Epicuro discutindo certas idéias aristotélicas que nós não conhecemos pelos textos. Que Aristóteles era este que Epicuro discutia? Era o platônico. Os primeiros escritos de Aristóteles, literários, eram pura divulgação da Academia. Neles exortava as pessoas ao estudo da filosofia e louvava a atividade da Academia platônica. Ou seja, o Aristóteles dos contemporâneos era um platônico que, sendo professor de retórica, tendia a assumir na defesa da escola uma atitude polêmica e um pouco incômoda.

O aristotelismo como movimento filosófico é tardio. Começa a se formar timidamente nos séculos III e IV da era cristã, isto é, sete séculos depois da morte de Aristóteles (já tive aliás um arranca-rabo com um cretino da SBPC que afirmava que nesses séculos ninguém tinha lido nada de Aristóteles, quando ele é que não tinha lido nada) . É um fenômmeno mais ou menos como o que ocorreu com Leibniz, filósofo do século XVIII cuja obra só começa a se tornar mesmo conhecida a partir do século XX. Ele também tinha escritos de ordem mais popular e outros mais técnicos. Na sua época foram publicados os primeiros, formou-se uma imagem de um determinado Leibniz, justamente o que é caricaturado por Voltaire no personagem do Dr. Pangloss, em “Candide”. Quando Leibniz já estava mais ou menos esquecido e enterrado sob a figura do Dr. Pangloss, abrem-se as gavetas e começam a surgir manuscritos. Esta descoberta propicia uma série de avanços sobretudo na filosofia da matemática, na metodologia da física etc. Leibniz provoca uma revolução dois séculos depois de falecido.

Com Aristóteles esta revolução póstuma não acontece antes de sete séculos. Aí está a primeira retificação que devemos fazer da sua imagem histórica. Aristóteles não é um fenômeno grego. Na Grécia não aconteceu nenhum Aristóteles. Aconteceu um fato insignificante: havia uma escola de retórica chefiada por um estrangeiro meio incômodo que fazia propaganda do guru dele, Platão, e que acabou indo embora da cidade. Isto é praticamente o que se sabia de Aristóteles na Grécia nos séculos que se seguiram à sua morte. Se compararmos a influência decisiva de Aristóteles na civilização cristã da Idade Média até hoje com aquela que ele exerceu na Grécia, não é errado concluir que, na Grécia, praticamente não existiu nenhum Aristóteles, e um aristotelismo não existiu de maneira alguma.

Se hoje podemos dizer como Émile Boutroux (autor da pequena biografia que anexamos aos textos deste curso) que Aristóteles é a máxima expressão do gênio grego, seremos obrigados a concluir que o gênio grego, desconhecendo Aristóteles, se desconheceu a si mesmo. Aristóteles não é propriamente uma expressão do gênio grego, é uma semente do gênio grego que não frutificou na Grécia. Aristóteles não faz parte da autoconsciência grega. Faz parte do subconsciente grego. Era uma riqueza latente que foi desconhecida na própria Grécia e desenterrada depois, já na Idade Média, primeiro no mundo islâmico, depois na Europa. Este detalhe é de uma importância extraordinária e ninguém leva isso em conta. Todo mundo imagina Platão e Aristóteles como sendo as colunas mestras da civilização grega. Ora, Aristóteles na civilização grega não desempenhou função alguma. Não serviu para nada. Começou a servir muito tempo depois numa outra civilização, ou antes, em duas outras civilizações que ele fecundou com a herança do seu gênio e que aproveitaram essa contribuição cada qual segundo sua inclinação peculiar, gerando dois aristotelismos (e dois anti-aristotelismos) bem diferentes entre si. Se você disser que o platonismo foi um pilar na civilização grega nos seus últimos quatro séculos, isto é verdade. Mas o aristotelismo não. Só funcionou ali como uma pequena extensão da escola platônica, sem projeção própria e quase sem fisionomia própria.

O legado grego de confusões sobre Aristóteles Isto é origem de muitas confusões. Porque, quando um filósofo é muito lido, muito discutido por pessoas inteligentes e discípulos hábeis, em vida, ele tem ocasião de se explicar muito bem sobre pontos obscuros. Como aconteceu com Platão. Já nas primeiras obras de Aristóteles vemos certas objeções que ele tinha à famosa teoria das idéias de Platão. E no último livro de Platão – o diálogo Das Leis, que não é bem um diálogo mas um tratado – já existe um princípio de reformulação da teoria das idéias, que Platão faz levando em conta as objeções de Aristóteles. Portanto podemos entender que o pensamento platônico, recebido e trabalhado por um discípulo particularmente brilhante, pôde se reformar e ser melhorado em vida do próprio mestre. Isto se deu tardiamente, pois Platão tinha mais de 80 anos quando escreveu as Leis, motivo pelo qual é um livro que já não tem o brilho literário e teatral das primeiras obras, mas é algo seco, árido e muitíssimo profundo. É o livro mais importante de Platão, a meu ver. A República foi escrita quando ele tinha cinqüenta e poucos anos e é uma exposição provisória. É no livro das Leis que vemos a potência do platonismo como filosofia capaz de evoluir e ir-se completando. Ora, esta potência surge justamente porque Platão mais jovem tinha encontrado um discípulo capaz de discutir as idéias e apontar as partes faltantes e eventualmente as contradições, de modo a estimular a continuação da investigação.

Isto nunca aconteceu com Aristóteles. Podemos dizer que suas idéias não foram discutidas, pelo menos com profundidade, nem mesmo dentro do Liceu. Dentre seus discípulos, o mais inteligente e brilhante parecia ser Teofrasto, que escreveu uma exposição da Metafísica de Aristóteles que mostra um suficiente domínio do assunto. Escreveu também um livro que depois ficou clássico, Os Caracteres, série de perfis psicológicos de tipos humanos, que poderia ser considerado parte da retórica, que é uma psicologia da comunicação entre grupos e tipos sociais. Porém quando dizemos que o melhor dos discípulos, o mais inteligente, não fez mais que uma reexposição e não um aprofundamento, temos de entender que entre os discípulos de Aristóteles não havia um pensador mais enérgico, mais criador. Aristóteles não teve esta sorte de encontrar discípulos capazes de ter uma reação criativa ao pensamento dele, pois a recepção passiva é apenas o começo de um aprendizado. Um aprofundamento sugere uma discussão de modo que aquele estilo de pensar permaneça em movimento e possa ser prosseguido dialeticamente, como fez Aristóteles com Platão.

Resultado: morto Aristóteles e morto Teofrasto, o Liceu afunda. Os escritos internos do Liceu que eram os mais interessantes e que são os que hoje conhecemos desaparecem inteiramente de circulação e os escritos populares continuam ainda a ser lidos, mas acabam desaparecendo também.

No século I a.C. ocorre uma reversão. Os escritos populares estavam quase totalmente desaparecidos, e ressurgem as apostilas e escritos internos do Liceu que são então editados por Andrônico de Rodes. Existe toda uma história mirabolante segundo a qual quando houve a perseguição aos aliados macedônicos entre os quais estava Aristóteles (Atenas estava em guerra com a Macedônia), uma coleção completa dos seus escritos teria sido escondida numa caverna onde permaneceu por três séculos, tendo sido depois levada a Roma, onde alguém começou a fazer uma edição. Mas tendo morrido este editor, a edição ficou para depois e no fim é Andrônico de Rodes – que era o décimo diretor do Liceu depois de Aristóteles – quem retoma os escritos e forma uma edição de conjunto. É claro que Aristóteles só poderia exercer uma influência no mundo a partir de uma edição dos textos. Mas isto também demorou algum tempo. Neste período, a escola epicurista, mesmo depois da morte de Epicuro, continuava crescendo e fazendo muitos discípulos. Esta não é bem uma escola filosófica, é um sistema de disciplinas psicológicas baseado nos seguintes princípios: nós vamos mesmo morrer, não existe nada após a morte, nada a esperar, os deuses também são materiais, eles também morrem; então o máximo que podemos fazer é nos fechar na escola filosófica e ficar meditando de modo a apagar os momentos maus e lembrar só os bons, e, se não houver momentos bons, você os inventa. Era uma técnica de evasão, uma espécie de cocaína filosófica. Ademais a escola epicúrea não fazia nenhuma exigência para a admissão dos alunos, aceitava qualquer um. Havia de tudo: ricaços, senhoras da sociedade, prostitutas, qualquer um. A escola prometia um alívio às pessoas. Mas no fundo ela confessa seu caráter mórbido porque o que é chamado de meditação filosófica é exclusivamente a tal história de apagar os momentos maus e se concentrar nos bons. Quando você é obrigado a viver de imaginação é porque está tudo perdido mesmo. Mas o fato é que uma oferta de alívio, falsa ou verdadeira, sempre faz sucesso. Com este sucesso, o velho desentendimento entre a escola epicúrea e a platônica, da qual Aristóteles era um porta-voz, fez com que a difamação contra a sua pessoa – não contra as idéias – prosseguisse até dentro da era cristã.

Uma coisa que nos surpreende até hoje é a capacidade de produção escrita dos autores antigos e medievais, realmente assombrosa. O próprio Aristóteles, se considerarmos que o que temos é aproximadamente um terço do que ele produziu – e a sua não foi uma vida longa -, seu volume de escrita é monstruoso.

Por esta situação toda, vê-se que esta obra está mais sujeita a más interpretações que a uma interpretação correta. Antes de ela ser publicada, já havia equívocos circulando, porque as pessoas já tinham uma imagem de Aristóteles feita a partir dos escritos literários, que mostravam idéias da Academia platônica. Idéias que ele veio depois a retificar ou abandonar. Quando os textos aparecem à luz, já é tarde: a confusão está formada, os equívocos estão consolidados.

A primeira desgraça que acontece com a filosofia de Aristóteles é que um de seus principais continuadores – Estratão de Lampsaco, um escoliarca, e que funciona durante algum tempo como porta-voz do Liceu aristotélico, já apresenta uma filosofia aristotélica alterada tal como ele a compreendia. Segundo ele, era uma filosofia empirista (aquela na qual somente a experiência que entra pelos cinco sentidos é fonte de conhecimento). Estratão, neste sentido, pode ser dito fundador do empirismo, que mais tarde será uma escola, em 1600. A filosofia de Aristóteles, portanto, já apareceu cortada pela metade.

Aristóteles, fundador do holismo.

Uma das características principais de Aristóteles é o desejo de organicidade, de totalidade sistêmica; o demasiado abstrato é para ele meia verdade. A realidade aparece para ele sempre como um todo coeso e organizado e que existe no tempo – exatamente como o corpo humano. Aristóteles não apenas era médico de formação, mas pertencia a uma família de médicos, dez gerações de médicos. Consta que quando pequeno já estudava anatomia, com o pai. A visão constante do corpo humano no aspecto anatômico e fisiológico vai desenvolvendo nele muito profundamente esta distinção entre o vivo e o não vivo. No fundo, o corpo do ser vivente é para Aristóteles o supremo modelo da realidade. Este é um aspecto que parece não ter sido suficientemente ressaltado pelos intérpretes até hoje.

O que hoje chamamos de holismo foi inventado por Aristóteles. É a busca de uma visão da realidade que corresponda às características de um organismo total e vivente. O holismo se opõe ao mecanicismo, que vê a realidade como uma organização do tipo mecânico, ao dualismo, que divide o real em dois setores separados (a divisão, para o organismo, é a morte), ao transcendentalismo, que é um dualismo hierárquico, e a toda forma de redutivismo, que é a explicação da realidade com base no predomínio exclusivo de um só de seus elementos ou fatores. Não espanta que a rejeição da física aristotélica tenha produzido, no Renascimento, o advento do reino do mecanicismo, com Newton e Descartes. A característica da organização mecânica é a completa separação entre as partes, de maneira que, em princípio, qualquer uma delas pode ser trocada por uma outra similar. No organismo isto não é possível. No corpo humano algumas partes podem ser trocadas, mas outras não. Podemos supor um transplante de coração, mas como seria um transplante de cabeça? Resultaria não em curar uma pessoa, mas em transformá-la em outra. Uma vez feito o transplante, o indivíduo poderia com igual razão dizer: “Fiz a cirurgia e estou curado” e “Fiz a cirurgia e estou morto”. O tipo de sistema que chamamos orgânico tem uma espécie de coesão por afinidade ou familiaridade entre as partes.

A teoria das distinções e a da potência e do ato, princípios básicos do método.

O organismo não é totalmente separável em partes, embora suas partes sejam distinguíveis. A teoria das distinções, que é um legado importantíssimo de Aristóteles que será aprofundado pelos escolásticos, é um resultado direto do treinamento médico e da experiência biológica do mestre.

Estudando anatomia, aprende-se a distinguir rigorosamente todos os órgãos e partes do corpo, e a ver que, por um lado, eles são efetivamente distintos, com formas e funções diferentes que não são trocáveis (o cérebro não poderia fazer o trabalho do pulmão, e assim por diante),e, por outro lado, não são separáveis. Esta é a característica fundamental do que denominamos organismo: unidade na distinção.

A constatação deste traço do organismo vivente deixa um profundo impacto na mente de Aristóteles que, em todas as questões que tratar, mesmo fora do âmbito fisiológico ou biológico, procurará sempre este tipo de conexão distintiva entre as partes. Procurará distinguir as partes com a máxima clareza possível e captar o princípio de coesão que dá unidade ao fenômeno e que permite que ele exista. Daí também vai sair o conceito de evolução orgânica, pelo qual a forma de um ser já não é apenas o seu esquema estático, mas é a fórmula das transformações que ele sofrerá no tempo. Quando você nasce, seu corpo não tem só uma forma determinada, com um peso determinado, uma figura determinada, mas tem a fórmula de um crescimento, mediante o qual ele poderá absorver elementos de fora que serão integrados dentro de seu organismo e que, aumentando o seu tamanho, farão com que ele sofra transformações nas quais no entanto ele não perderá sua forma e sua identidade, mas ao contrário, a manifestará. Aristóteles chama isso de passagem da potência (virtualidade, potencialidade) ao ato (efetividade, atualidade, manifestação). Esta é uma das idéias mais profundas de toda a história humana e é de fato, se não a principal idéia do método em Aristóteles, uma das primeiras que lhe ocorrem, creio eu, por causa dos estudos de fisiologia. A evolução orgânica é para Aristóteles um princípio explicativo, mas não apenas uma regra do método. Ela é um fato real da natureza, não um preceito metodológico. Em Aristóteles, como não poderia deixar de ser, há distinção mas não separação entre o método e o conteúdo efetivo do conhecimento: assim, os fatos da biologia são eles mesmos expressões da totalidade, da evolução orgânica ou passagem da potência ao ato, da distinção-união entre matéria e forma, ao mesmo tempo que estes princípios são também regras do método que vai estudar esses mesmos fatos. Assim também as leis da lógica aristotélica não serão puras leis formais do pensamento, mas uma expressão das leis ontológicas que governam a realidade mesma, sem deixarem de ser também leis formais do pensamento.

O essencialismo, forma platônica do redutivismo Uma das principais intuições de Aristóteles é esta da unidade vivente do real. Vida e unidade são conceitos básicos para a compreensão da filosofia de Aristóteles. Por causa deste traço organicista e sistêmico, que é ao mesmo tempo uma propensão do seu estilo intelectual e um traço da sua personalidade, ele revelará uma extrema ojeriza a tudo o que se chama abstratismo (conceber por pura lógica o conceito de alguma coisa, e em seguida tratar este conceito como se fosse ele mesmo uma coisa real). O abstratismo consiste em tomar meras distinções lógicas como se fossem separações reais. Por exemplo, de tudo aquilo que compõe um ser real, abstraímos, separamos pelo intelecto um determinado traço de fato distinguível. Olhando vocês aqui posso distinguir entre a sua forma e a sua cor – elas não são a mesma coisa. Posso compreender que uma pessoa que está aqui pode ir à praia amanhã e voltar com outra cor sem que isto tenha alterado a sua forma. Ou a pessoa pode emagrecer ou engordar sem perder a cor. Se estes dois aspectos têm histórias distintas, eles são distintos em si mesmos. Porém, posso tomar uma destas características e perguntar qual é mais importante, qual a mais básica entre as duas. Posso chegar à conclusão de que a cor é simplesmente um efeito da forma. Assim, peguei uma das qualidades e a transformei numa qualidade básica da qual a outra é apenas um fenômeno secundário. Aí tomei a forma e a cor como efetivamente separadas. É precisamente esta separação abstrativa que constituía a causa dos exageros da escola platônica. Sócrates já havia distinguido nos entes dois aspectos: seu conceito — ou essência — e a sua existência. Se fazemos um conceito de cachorro, este é aplicável a todos os cachorros da existência, mas o conceito permanece o mesmo, enquanto os cachorros nascem, crescem e morrem. E a escola platônica optou pela hipótese de que o aspecto conceitual das coisas – o aspecto que se referia à semelhança entre o indivíduo e os outros da mesma espécie – era o básico da realidade, e de que a diferença de indivíduo para indivíduo e os vários traços adquiridos no decorrer da existência eram apenas um véu de aparências. Resultado: o mundo da experiência, tal como aparece para nós, seria apenas uma tela que mostra as aparências de um processo que no fundo somente se refere aos conceitos das espécies. Se você pegar o conceito de cachorro, por exemplo, verá que ele já implica os limites daquilo que pode vir a acontecer a um cachorro. O conceito de cachorro não permite que o cachorro voe – portanto, o cachorro não vai voar. Mas não há nada que contradiga, no conceito de cachorro, que ele seja branco ou marrom. Portanto o conceito aparece como um quadro dentro do qual estão todas as possibilidades que o ser pode manifestar no decurso da existência.

O conceito se refere à essência, àquilo que os entes são, independentemente de existirem ou não. Cachorro é cachorro antes de existir, quando existe e depois que parou de existir. Um cachorro morto não se transforma em outra coisa. É um cachorro. Desta constatação, porém, a escola platônica conclui que o aspecto existencial é secundário e que o principal é o aspecto essencial que se expressa no conceito. Este tipo de separação que hierarquiza a realidade e tampa uma parte dela, sob o pretexto de que é a manifestação de uma outra esfera mais profunda, é o que desagrada a Aristóteles. Porque , como fisiologista, médico de uma família de médicos, está acostumado a observar o corpo dos seres viventes e a idéia de que a realidade possa ser constituída de dois estratos mais ou menos separados não lhe agrada de maneira alguma, porque ele nunca viu nada na esfera dos seres vivos que seja composto de dois pedaços. Tudo tem unidade, organicidade.

Uma das primeiras preocupações de Aristóteles é ver se consegue restaurar o sentido da ligação entre estas duas faixas da realidade que o platonismo havia separado. Ele percebe, e admite com os platônicos, que existem o aspecto existencial e o conceptual. Mas qual o nexo entre um e outro? Por exemplo, se sabemos qual é a essência da espécie “cachorro”, isto não nos explica porque existem cachorros. Compreendemos que se não existisse absolutamente nada no mundo, as essências continuariam as mesmas, porque seriam, como mais tarde diria Leibniz, esquemas de possibilidades, e estes esquemas permaneceriam logicamente distintos. Se não existissem cachorros nem camelos, ainda assim cada uma destas espécies corresponderia a um determinado esquema de possibilidades que lhe é próprio e não se confunde com outros de maneira alguma. Podemos aqui e agora inventar os conceitos de espécies que não existem mas que sejam logicamente distintas. Aristóteles percebe que a grande operação da escola platônica, que é a de subir da existência dos seres múltiplos até o conceito das suas espécies tinha resolvido o problema pela metade. Quando, porém, partindo da multiplicidade dos seres, eu apreendo por abstração a comunidade de traços que perfila estes seres em várias espécies distintas, só fiz um saber do tipo classificatório. Ora, saber classificar os entes é uma coisa, saber explica-los é outra muito diferente.

Aristóteles percebia – não sei se ele fez esta imagem , mas a mim me ocorre – que o platonismo é uma espécie de anatomia do mundo, que separava o mundo nos seus pedaços , mas faltava a fisiologia. O platonismo tinha distinguido os órgãos ou estratos exatamente como numa dissecação você vai separando tecidos. Platão, basicamente , tinha separado o mundo em três grandes estratos – mundo sensível, mundo das idéias e o terceiro estrato supremo dos princípios ou leis. Tudo isto – dizia Aristóteles – existe inegavelmente , mas entre ter classificado a hierarquia e saber como funciona existe a mesma distância que há entre anatomia e fisiologia. A ciência da anatomia desenvolveu-se muitíssimo cedo na história do mundo e a fisiologia muito mais tarde . Uma coisa é dividir algo em pedaços, outra saber como funciona. Quem quer que tenha tentado consertar um carro perceberá que isto é assim mesmo na esfera mecânica. Desmontar o carro e classificá-lo peça por peça é relativamente fácil. Mas remonta-lo e fazê-lo funcionar de novo é outra coisa.

O platonismo era uma anatomia abstrata do mundo. Aristóteles, que tinha uma formação pessoal totalmente diferente da dos outros membros da Academia platônica, os quais eram todos, por suas origens, matemáticos e geômetras, enquanto ele era médico e fisiologista, percebe que o platonismo tinha seguido um modo de pensar típico do geômetra ou do matemático , que é o de formar os conceitos separados e encadeá-los numa ordem lógica. E percebeu claramente que isto não basta, que além de expor a hierarquia lógica do mundo, é preciso explicar como as coisas vêm à existência, como o mundo funciona efetivamente.

Desta visão cosmológica do platonismo decorre uma gnoseologia ou teoria do conhecimento. A gnoseologia platônica , vendo que existem dois estratos separados, um, o da experiência, outro, o estrato essencial ou conceptual, e não conseguindo estabelecer nenhuma passagem entre eles, só podia explicar o conhecimento pelo famoso expediente da recordação ou rememoração (anamnesis). A pergunta é a seguinte: Se estes estratos estão rigidamente separados, como é possível o conhecimento? Se vivemos num mundo de aparências ilusórias, que aparecem e desaparecem no tempo , mas por outro lado a nossa mente é capaz de, partindo das aparências ilusórias, chegar até o conceito, que é a imagem estável e permanente da verdadeira realidade, parece que esta nossa habilidade é contraditória com o próprio conteúdo da teoria. Se estamos vivendo no mundo das aparências, como a partir delas chegamos às essências? A aparência só nos revela a aparência. Se captamos algo por trás dela não pode ser pelos mesmos meios através dos quais nós captamos a aparência. Portanto, o fato mesmo de que nós consigamos fazer conceitos das coisas é um mistério inexplicável desde o ponto de vista platônico. Platão propõe então a teoria da recordação, a anamnese. Diz ele que antes de nascermos, nossas almas já existem no mundo eterno das idéias, onde vemos os conceitos puros ou as essências de todas as coisas. Daí, quando entramos no fio do tempo, passando a existir neste mundo de aparências , esquecemos uma boa parte mas um pouquinho sobra. Então, um acaso feliz ou um interrogatório bem conduzido, como numa espécie de psicanálise, pode nos fazer recordar este conhecimento que jaz no fundo de nós. Ora, se é assim e já está lá desde que nascemos, a experiência real não é muito útil. Só serve para suscitar em nós o desejo de conhecer os conceitos puros. Por isto, Platão é chamado um racionalista (o fundamental do conhecimento sendo obtido pela razão e não pela experiência). Em Platão, a percepção real, que nos entrega somente aparências, só serve para despertar o apetite do conhecimento, mas o fundamental deste é obtido por um modo puramente intelectual ou racional, que é o interrogatório ou a discussão dialética que vai fazendo você recordar as idéias centrais. Platão expõe por um lado esta cosmologia onde o mundo é feito de estratos totalmente separados e por outro, a gnoseologia do tipo racionalista, onde a experiência não desempenha nenhum papel.

Perante a gnoseologia de Platão, Aristóteles fará a mesma objeção que fez à cosmologia. Dirá que não é possível que estas duas formas de conhecimento – a que obtenho pelos sentidos e a que obtenho pela razão – estejam completamente separadas. Porque vejo que o indivíduo que apreende os dados dos sentidos é o mesmo que intelige pela razão os conceitos puros. Vejo claramente que existe uma caminhada, uma ascensão contínua e gradativa, desde a experiência até o conceito, não um salto absoluto como no caso platônico. Tanto que vai ser difícil encontrar (esta é uma observação fundamental de Aristóteles) algum dado dos sentidos que esteja completamente livre de interferências da razão. Sempre existe um princípio de organização racional até na percepção sensível. Por outro lado, vai ser muito difícil achar algum conceito racional totalmente puro, que não deva nada à experiência. Se nunca tivéssemos visto um cavalo, de onde iríamos extrair o conceito de cavalo? Aristóteles vê que entre o conhecimento por experiência e o conhecimento pela razão, entre o conhecimento do mundo das aparências e o do mundo das essências, não existe um salto, nem mesmo um salto retroativo como pretendia o platonismo, mas existe uma ascensão progressiva e muito problemática. Às vezes conseguimos obter os conceitos puros, às vezes não. Se fosse tão natural saltarmos da experiência para os conceitos, seria muitíssimo fácil apreender em quaisquer fenômenos as devidas separações e classificações de gêneros e espécies e freqüentemente isto é muito difícil. Aristóteles sabe disso porque ele tentava classificar os animais, enquanto na escola platônica só se classificavam idéias puras ou idéias geométricas. Aristóteles punha a mão na massa, e via que classificar fenômenos reais (por exemplo, as famílias de espécies animais) não era o mesmo que classificar conceitos puros ou geométricos. Hoje sabemos que os elefantes são parentes dos cavalos, que formam uma mesma família; logicamente pertencem à mesma espécie. Mas como por métodos platônicos ou dialéticos se chegaria a uma coisa dessas? Portanto, as distinções de gêneros, espécies e as classificações dos seres não podem ser feitas exclusivamente por método lógico. Têm de ter base na experiência e na separação e classificação das próprias aparências, antes de partir para a classificação dos conceitos. Tudo isto, que é uma descoberta de Aristóteles, se torna a base do método científico para sempre.

Muitas coisas que foram matéria de discussão filosófica 2400 anos atrás, hoje são matéria de pesquisa experimental. A inseparabilidade do sensível e do racional, afirmada por Aristóteles, foi inteiramente demonstrada por Jean Piaget na esfera experimental. Piaget demonstra por meios experimentais que não existe sensação pura, na qual não entre um elemento organizativo prévio. A sensação totalmente informe não seria notada por nós. A sensação pura não poderia ser distinguida de outra sensação, não poderia ser sentida; se ela é distinguida, é porquê já existe um princípio de classificação e organização imanente. Mas a organização não é sensitiva, é racional. A idéia de sensação pura hoje em dia é considerada uma quimera e a idéia da pura razão igualmente. Podemos conceber estas coisas, mas apenas como possibilidades lógicas, não como coisas reais.

O organismo humano é um organismo, portanto organizado. Já recebe as sensações ordenadas segundo a forma do corpo e isto é um princípio da razão, já que, diz Aristóteles, a alma é a forma do corpo e a alma do homem é intrinsecamente racional. Você tem sensações visuais e auditivas distintas, não vê os sons nem ouve as cores. Este é um princípio de distinção inerente à própria forma do corpo. Toda sensação já é classificatória. Sentir uma coisa já é distingui-la das outras. Portanto, o aspecto sensível e o racional não são separáveis realmente, são apenas distinguíveis.

A chave da teoria do conhecimento aristotélica é a seguinte: distinto é uma coisa e separado é outra. A audição é distinta da visão, mas não posso ouvir às segundas quartas e sábados e ver às terças, quintas e sextas. Elas não são separáveis realmente. Do mesmo modo, o aspecto racional, organizativo, não é separável da experiência sensível que nos dá a matéria do conhecimento. Isto significa que a distinção entre o experimental e o racional é uma distinção mental, apenas uma distinção e não uma separação, — uma crítica fundamental à gnoseologia platônica, que trata como separação o que é apenas distinção. São dois modos de ver. Como nome e sobrenome. Você tanto pode ser encarado como indivíduo, como pode sê-lo como membro da família. Dois aspectos distintos, mas inseparáveis. Ou a distinção entre camelo e fisiologia do camelo. Um não é o outro – mas existe algum camelo sem fisiologia do camelo, ou fisiologia de camelo sem camelo?

A distinção entre o racional e o experimental é uma distinção de nomes — ou de pontos-de-vista — e não de coisas reais. A distinção entre distinção e separação é outra conquista imorredoura de Aristóteles. Muitos debates hoje entre o que é holista ou cientificista seriam resolvidos na hora mediante a simples aplicação desta distinção.

Outra questão: entre conhecimento sensível e conhecimento racional, qual a ordem dos fatores, qual é primeiro e qual é segundo? Aristóteles responderá que vamos dos sentidos para o pensamento. Porém este sentir é puro, sem qualquer contaminação do pensamento? A resposta é não. Para que o sentir fizesse pensar seria necessário que houvesse um elemento de pensamento dentro dele. Senão, teríamos o milagre de uma coisa que não existe mais produzindo outra que não existe ainda. Para que a experiência sensível possa gerar um raciocínio, é preciso que haja dentro dela uma semente de raciocínio. É mais ou menos o que vai dizer 2400 anos depois o Piaget. É claro que o sentir e o pensar representam etapas do conhecimento, e não formas de conhecimento radicalmente distintas. Se você tem de um lado o sentir, do outro o pensar – o que diz Aristóteles? Não é uma distinção de lados, mas de etapas. É como a distinção que existe entre uma criança e um adulto. O adulto que você será, a forma do adulto, já não está na criança? E este adulto que está aí, não é aquela mesma criança? É uma distinção mais nominal entre etapas que uma distinção entre seres separados ou aspectos separados e simultâneos.

É este senso da organicidade que é a coisa central para compreender o pensamento de Aristóteles, e talvez a maior contribuição dele. Isto corresponde, de fato, ao modo de sentir quotidiano, do senso comum. O sujeito são pensa de maneira orgânica. Todo mundo pensa organicamente em todas as questões reais da vida.

Platão foi chamado “o divino Platão”, uma espécie de profeta ou anjo, alguém que tem uma visão do outro mundo. A coisa mais característica de Aristóteles é sua profunda e total humanidade – pensar tudo na escala do ser humano realmente existente. Dessa diferença decorre uma diferença moral profunda. A moral platônica é moral de perfeições celestes. A moral aristotélica é uma tentativa de melhorar o homem aos poucos, partindo de suas limitações e aceitando-as, em vez de condená-las em nome de um padrão moral abstrato. Não há fundamental contradição entre as duas morais, no entanto. Poderíamos comparar as relações entre platonismo e aristotelismo à trindade cristã: existe um Deus Pai incognoscível, inatingível, mas é preciso existir o Deus que desce até você e vem viver o destino humano na sua plenitude. Entre os dois, você tem o Espírito Santo que é a relação de amor. O eterno e o temporal, o divino e o humano estão unidos por uma aliança indissolúvel. Jogar um destes aspectos contra o outro é ir contra o ser humano. Não podemos jogar platonismo contra aristotelismo, que na esfera filosófica correspondem a estes dois aspectos. Ir por um destes caminhos ou pelo outro é quase uma questão de temperamento, mas um deles não nega o outro, na medida em que o prolonga e o realiza.

Todas as críticas de Aristóteles ao platonismo só visam a trazê-lo do céu para a Terra, para realizá-lo. Aristóteles poderia dizer de Platão o mesmo que Cristo disse do Velho Testamento: “Não vim revogá-lo, vim realizá-lo.” A ordem de realização de uma coisa é o inverso da sua ordem de concepção – outra descoberta aristotélica. Para conceber o plano de uma casa, você concebe a casa no todo e depois no detalhe. E para construir? Pedaço por pedaço até chegar ao todo. A ordem do conhecer e a ordem do ser são inversas e complementares. Portanto, a realização do platonismo é a inversão das suas prioridades teóricas.

Educacao Liberal

Revisão: Patrícia Carlos de Andrade | Rio de Janeiro, 18 de outubro de 2001

Sem revisão do professor Agradeço comovido as palavras do deputado Carlos Dias e da minha querida amiga Mina Seinfeld [1]. E, aliás, essa é não somente uma oportunidade para ela falar a meu respeito, mas para contar também algumas coisas a respeito dela. A professora Mina está envolvida numa luta que é paralela à minha, onde encontra condições muito parecidas. Nós dois estamos envolvidos na luta contra as drogas, apenas a espécie de droga é que muda: sobre as drogas de que ela trata, ainda há a discussão de se serão liberadas ou não, ao passo que as drogas de que falo, não apenas estão liberadas, como são obrigatórias. A diferença é mais ou menos esta. Mas, neste esforço monumental e meritório da professora Mina, ela encontra a mesma resistência que encontro na minha área, porque todos estão contra: os drogados, os traficantes, os que têm interesse político na coisa, os indiferentes e todos aqueles que querem parecer bonzinhos – todos os politicamente corretos. E, de fato, quando você vai para um debate é exatamente como ela descreveu: são trinta pessoas para falar a favor e uma contra e depois, na transcrição, ainda cortam umas frases do que a pessoa falou e ficam lá somente três linhas, para provar que o debate foi bastante democrático. Isto é pior do que não ter debate nenhum, é uma falsificação.

Agradeço muito a meus alunos essa iniciativa. A idéia foi inteiramente deles, que têm um grande mérito em fazer isto, abrir a outras pessoas a mesma oportunidade. Nosso curso aqui no Rio tem sido quase que confidencial. Creio que existe aqui há dezoito anos e nunca foi anunciado nem avisado; continua existindo, não sei como. Em São Paulo há toda uma infra-estrutura montada, o número de alunos é bem grande, e no Paraná são cento e cinqüenta alunos. É um pouco estranho que aqui no Rio de Janeiro, que ainda é a capital cultural do Brasil, nosso curso seja tão secreto assim. Não me incomodo se dou aula para um, dois ou cem alunos: o problema é exatamente o mesmo. Ademais, esse tipo de ensino requer muito tempo para dar frutos. Calculo mais ou menos dois anos, para a pessoa começar a perceber o que está mudando em sua vida, no seu enfoque existencial.

Agora, o tema de hoje, que é a educação liberal, é mais abrangente do que a proposta do meu curso; o curso é uma das modalidades, um dos capítulos do que chamaríamos de educação liberal. Liberal não se confunde com o liberalismo político, a ideologia de Adam Smith, Herbert Spencer e outros, nem com o sentido da palavra liberal nos Estados Unidos que quer dizer esquerdista, mas tem a ver com a noção, hoje em dia puramente nominal, de profissões liberais. Profissões liberais, como o próprio nome diz, se opõem às profissões servis, que são exercidas em troca de uma remuneração. Profissões liberais são exercidas num ato de liberalidade do indivíduo; ou seja, o profissional liberal está de algum modo obrigado a exercer a sua tarefa somente por um mandamento interno, somente por um dever interno, e ele tem que exercer aquilo com ou sem remuneração, ou até mesmo pagando para exercê-la. Esse é o sentido originário. Por exemplo, o médico na ética da idade média não poderia jamais recusar um paciente que não tivesse dinheiro para pagá-lo; o advogado a mesma coisa. E, por isso mesmo, quando havia uma remuneração, esta se chamava honorário. Honorário é algo que damos ao indivíduo não pela tarefa que ele desempenhou, mas em reconhecimento da honra de sua posição na sociedade ou do mérito de seu saber. Tanto faz dar cinqüenta centavos ou cinqüenta mil, porque o que vale é a intenção.

Hoje em dia, não é mais assim. Quando consultamos um advogado a primeira coisa que ele faz é puxar uma tabela de honorários. A expressão tabela de honorários é uma contradição de termos, pois se são honorários, não há tabela. Tabelas são de salários ou de preços, tabela de honorários não é possível.

Na idade média, a formação para as profissões liberais começava com a absorção do que se chamava as artes liberais. Eram um conjunto de disciplinas, das quais três tratavam essencialmente da linguagem e do pensamento e quatro tratavam dos números, entendidos num sentido muito mais amplo do que hoje estamos acostumados a designar por este nome, e das proporções. O número seria o sentido geral da forma e da proporção. As quatro disciplinas que lidavam com o número eram a aritmética, a geometria, a música e a astronomia ou astrologia. A astrologia veio a se dividir em duas áreas: a astrologia esférica, que era o estudo da esfera celeste, e a astrologia judiciária, que era o que hoje chamamos de astrologia – uma especulação, seja científica ou outra coisa, sobre as coincidências temporais entre o que se passa no movimento dos astros e os acontecimentos terrestres. Tudo isso era considerado parte das matemáticas, ou seja, a matemática era, de modo geral, a ciência da medida e da proporção. As outras três disciplinas eram a gramática, a lógica ou dialética, e a retórica.

Esta formação básica, que geralmente começava bem mais tarde do que hoje, aos quatorze anos, visava a transmitir ao indivíduo, por um lado, o senso das proporções, o senso da forma do mundo e, por outro lado, os meios de compreensão, expressão e participação na cultura humana [2].

O que hoje chamamos de educação liberal é uma adaptação das artes liberais antigas, feita sobretudo por dois educadores, Robert Hutchins e Mortimer Adler [3], no começo de século . Nesta adaptação, as artes liberais deixam de se distinguir das artes servis e começam a se distinguir do ensino profissional. Todas as áreas de ensino visam a transmitir determinadas habilidades profissionais; as artes liberais, em contra-partida, visam a formar o cidadão em geral, o cidadão não especializado. Mais especificamente com a ênfase na idéia de cidadão da democracia, subentendendo-se democracia pelo sistema onde vale a pena discutir, onde é possível haver uma discussão e onde há uma possibilidade de que as questões sejam arbitradas por meio da razão e não de motivos desconhecidos que uma autoridade possa ter para decidir assim ou assado.

A discussão é evidentemente inerente à própria idéia de democracia. Mas, por outro lado, a discussão é perfeitamente inútil se não há nenhum critério racional para arbitragem das discussões. Se não há nenhum meio de os lados em disputa provarem as suas razões, ou seja, se todas as razões se equivalem, então a discussão evidentemente não vai dar em nada e a coisa no fim será resolvida pelo meio da força. Pode ser a força física ou a força emocional, o apelo emocional da propaganda.

Adler e Hutchins eram pessoas que pensavam politicamente de maneira muito diferente entre si: Adler era mais conservador e Hutchins era definitivamente esquerdista. Mas, sabendo que há um compromisso inerente entre a idéia de democracia e a idéia de razão, achavam que podiam organizar um novo sistema de ensino não apenas baseado na tradição das artes liberais, mas na experiência acumulada do ensino das elites americanas. Nos Estados Unidos, antes mesmo da independência, se formaram vários colégios para a educação da elite que, quase instintivamente, adotaram como mecanismo básico de ensino, a leitura e a absorção do legado dos clássicos. Entendemos por clássico, uma obra que tem valor e interesse permanente, que tenha dado alguma contribuição que permanece eficaz ao longo dos tempos; aquela obra que, a despeito do tempo que passou depois que ela foi escrita, ainda tem algo a nos ensinar. Particularmente, e mais precisamente, se designam como clássicas obras que estabeleceram certas noções ou transmitiram certos ensinamentos, que vão formando patamares sucessivos de consciência humana, de tal modo que a discussão de determinados assuntos não tenha mais o direito de descer abaixo daquele patamar.

Por exemplo, a partir do momento em que Aristóteles formula a ciência da lógica não é mais possível discutirem-se legitimamente as coisas, como os sofistas e Sócrates discutiam, utilizando uma lógica rudimentar, onde os procedimentos de prova se confundiam provisoriamente a procedimentos destinados a impressionar o ouvinte. O próprio Sócrates, que é um crítico dos sofistas, incorre freqüentemente nesse tipo de argumentação. Não por maldade evidentemente, mas simplesmente porque os dois tipos de argumentação, a que visa a impressionar e a que visa a provar, não haviam ainda se distinguido perfeitamente. Essa distinção só veio mesmo com Aristóteles. E a partir do momento em que essa distinção fica estabelecida, cria-se uma espécie de patamar de consciência: não temos mais o direito de ignorar a existência dessa distinção [4].

A técnica da discussão e da prova foi elevada a nível de requinte quase inimaginável, mais tarde, pelos filósofos escolásticos, que também fixam um novo patamar de exigência. Depois surgem os processos de investigação e prova aceitos nas ciências naturais e isto vai se acumulando como uma série de patamares de exigência de modo que, teoricamente, não teríamos o direito de entrar na discussão de um assunto ignorando esses patamares já conquistados.

Dei o exemplo de patamares conquistados em filosofia, mas temos o mesmo processo em cada uma das ciências e sobretudo nas artes. Por exemplo, o que vai distinguir a escrita literária da escrita vulgar, nas artes literárias, é precisamente a consciência de uma evolução dos meios expressivos da arte, que a primeira traz dentro de si. A escrita literária é cheia de referências aos antecessores; referências a toda uma evolução anterior. É praticamente impossível encontrar um único verso da literatura moderna que não tenha dentro de si várias camadas de significado que foram sendo acumuladas pela evolução da poesia ao longo dos tempos. É evidente que, para o leitor perceber isso, é preciso que ele próprio tenha noção dessa evolução anterior, de modo que na medida que vai absorvendo esta consciência da evolução da arte literária, a leitura que faz de um poeta moderno seria imensamente mais rica do que a que poderia ser feita pelo sujeito que chegasse lá sem ter o conhecimento das referências. Ou seja, essa evolução vai sedimentando novas linguagens e novos códigos, cujo conhecimento é a condição para que se possa participar, de uma maneira consciente, do mundo cultural, do mundo das discussões, do mundo da comunicação.

A transmissão a um estudante ou a um jovem da consciência desses patamares é que seria precisamente a educação liberal.

O sistema político moderno é enormemente complexo. Se compararmos qualquer país hoje – Brasil, Uruguai ou Paraguai – com a República Romana, veremos que sua organização política é imensamente mais complexa. Para discutirmos um problema qualquer da economia ou da política paraguaias, precisaríamos ter um horizonte de consciência muito mais vasto que o que o cidadão romano ou o cidadão da democracia grega teriam que ter para compreender seus problemas locais. A acumulação desses patamares de consciência, portanto, forma a série de condições que, num dado momento da evolução histórica, o ser humano precisa cumprir para entender o que está acontecendo em torno dele. Entender o que está acontecendo não é não é um dever e não é atribuição de uma profissão especializada, mas é, de certo modo, uma possibilidade aberta a todos os cidadãos. Não podemos tornar isso obrigatório porque a aquisição desse patrimônio depende de uma capacidade pessoal e de uma disposição; uma vocação pessoal. Torná-lo obrigatório é, portanto, utópico.

Eu não acredito em educação universal obrigatória, de jeito nenhum. Não acredito em educação de quem não queira se educar. Acredito em oportunidade universal de educação. Abrir para todos, sim, mas tornar obrigatório é absolutamente inócuo.

A aquisição da consciência desses sucessivos patamares é uma possibilidade que está aberta aos cidadãos que desejem compreender o mundo em que estão. Porque o mundo atual não surgiu do nada, não foi inventado ontem, resulta de milhões de decisões e ações humanas que foram se encaixando umas às outras e que produziram resultados que não estavam sob o controle de ninguém. O código civil de qualquer país do ocidente e, de fato, toda a legislação moderna, por exemplo, certamente sofrem a influência do código de Napoleão. Napoleão chamou uma comissão de juristas que escrevia de um modo e ele riscava e dizia que não era daquele jeito, mas de outro. Ou seja, o código saiu da cabeça dele e, a partir desse momento, o impacto foi formidável. Mas se não temos consciência do modus raciocinandi, das razões que Napoleão teve para fazer isto desta maneira e não de outra, sofremos o impacto de novas legislações cujas razões profundas não conhecemos. Ou seja, não estamos capacitados para discutir aquilo.

Hoje em dia todo mundo acredita que existe o direito à liberdade de expressão e o direito à liberdade de opinião. Eu não acredito porque, para haver liberdade de opinião é preciso, em primeiro lugar, haver uma opinião. Mas a maioria das pessoas que exercem a liberdade de opinião não tem opinião. Para ter uma opinião, preciso ter prestado atenção em algo. Freqüentemente vemos pessoas que falam durante dez minutos sobre assuntos nos quais não prestaram atenção nem por dois minutos. Então não posso chamar isso de opinião: isto é uma efusão improvisada de palavras que brotam no momento da pessoa, mas sem nenhuma relação com o objeto do qual ela está falando. Então se acreditamos no direito universal à expressão das opiniões, que ele é um dado primeiro e incondicional, significa que todos têm o direito de falar pelo tempo que quiserem e todos têm a obrigação de ouvir. Então lhes pergunto: o que é o direito à liberdade de opinião sem a contra-partida que é o direito de não ouvi-la, o direito de ir embora? Por exemplo, nenhum de vocês está obrigado a ficar sentado aí. Vocês estão porque querem, mas têm o direito de ir embora a qualquer momento.

A própria idéia de direito à liberdade de expressão, à liberdade de opinião está condicionada ao mérito da opinião, ao valor da opinião. E esse valor é condicionado, no mínimo, pelo interesse que o próprio opinante tem no assunto. Imagina que o sujeito não se interessou pelo assunto o suficiente para se informar a respeito dele por cinco minutos que sejam. Por que ele teria o direito de falar sobre o assunto durante seis minutos e teríamos que escutá-lo? A conquista de uma opinião, portanto, é o primeiro passo para o exercício efetivo da liberdade de opinião. É evidente que quando o indivíduo expressa sua opinião numa assembléia, ele está de certa maneira se personificando; está dizendo: este sou eu, sou o camarada que pensa assim e assado. Dali em diante, ele será encarado como representante daquela opinião. Mas, se o sujeito dá uma opinião que pensou na hora e da qual não vai se lembrar nos próximos dez minutos, ele personifica o quê?

É só reparar um pouco nas discussões públicas que acontecem no Brasil e percebemos um fenômeno esquisito. Sabemos que as pessoas lêem pouco; os jornais de grande tiragem vendem hoje cerca de um milhão de exemplares, sendo que vendiam o mesmo na década de cinqüenta. Ou seja, a população cresceu formidavelmente, o número de escolas cresceu mais ainda, e as pessoas continuam lendo a quantidade de jornais que liam na década de cinqüenta. Quanto aos livros, não tenho cálculos mais atualizados, mas na década de noventa havia menos livrarias no Brasil do que na década de cinqüenta. Apesar dessa total falta de interesse em saber das coisas, as pessoas sempre têm interesse em opinar. Dificilmente vemos um repórter perguntar a uma pessoa na rua o que ela acha disso ou daquilo e receber como resposta: não sei, estou por fora do assunto. Nunca vi isso. As pessoas consultadas sempre têm opinião sobre qualquer coisa.

Vendo isso ao longo dos tempos, vi que esse é um traço antropológico muito estranho: uma sociedade onde as pessoas não se interessam pelo assunto, mas têm um interesse brutal em opinar a respeito dele. Não estranhamos isso apenas porque já nos acostumamos, mas essa é uma conduta anormal. É uma anomalia que, repetida ao longo do tempo, acabamos achando que é normal.

Ora, se tentamos convencer as pessoas de que existe um negócio chamado cidadania e que esta inclui o direito de opinar sobre questões públicas – e todos estão persuadidos disso – e ao mesmo tempo não cria a percepção de que para ter uma opinião é necessário ter prestado atenção no assunto, o que estamos fazendo com essa cidadania? A está transformando numa espécie de bolha de sabão, numa fantasia, numa mentira e numa paródia de si mesma. A noção de cidadania e de exercício da cidadania faz sentido a partir do momento em que as pessoas têm realmente opiniões, não confundindo a opinião com uma efusão qualquer de palavras que brota do inconsciente ou que foi ouvida num anúncio de rádio anteontem e o sujeito repete. Esse tipo de falatório é a degradação da liberdade de opinião, ele não é a própria liberdade de opinião. Sobretudo porque se espera que o exercício da liberdade de opinião contenha dentro de si a possibilidade de uma repetição, de uma reiteração e de uma luta pela própria opinião. Supõe-se que a opinião de um indivíduo valha algo para ele e, por isso, ele luta por ela. Mas se o sujeito não precisou pensar no assunto, se a opinião não lhe custou nada, quanto ela vale para ele? E a pergunta fatídica: por que devo prestar atenção à sua opinião por mais tempo que você levou para formulá-la? Se você levou dois minutos pensando no assunto, por que devo ouvi-lo durante três? Quando queremos que os outros façam o que não quisemos fazer, que sejam o que não somos, entramos diretamente no culto à Papai Noel. E chamar isso de formação da cidadania é achar que puerilizar as pessoas é torná-las cidadãos. Um homem que acha que os outros têm obrigação de ouvi-lo só porque ele é bonitinho é exatamente como aquela criança que, quando vem visita em casa, começa a fazer palhaçada e todos têm que achar bonito e passar a mão em sua cabeça. Qualquer cidadão que se atreva a falar em púbico com essa expectativa está se aviltando, está permitindo que a situação lisonjeie seus desejos pueris. Evidentemente não é esse tipo de formação do cidadão a que visamos.

Educar o cidadão em primeiro lugar não é educá-lo para falar, mas é educá-lo para saber, quer ele fale ou não. A famosa participação é apenas um exercício de uma força interior, de um poder que o indivíduo tem. A educação liberal consiste em dar a ele este poder, esta força interior e não em lhe dar os meios e as oportunidades de exercê-los.

Você já conheceu alguma pessoa que não tivesse nenhuma opinião sobre a sociedade em que vivemos? Acho que a minha avó não tinha mas ela foi a última pessoa. Se perguntasse isso para a minha avó ela perguntaria: ” do que está falando?” Ela nunca achou que existia essa possibilidade de ter uma opinião geral sobre a sociedade em que estava. Mas a partir da minha geração, ou talvez a de meus pais, todo mundo foi educado para ter uma opinião sobre a sociedade, ou seja, exercer uma coisa que se chama a crítica social. Qual é sua real possibilidade de ter uma visão crítica da sua sociedade? Em primeiro lugar, para isso você precisaria ter uma idéia do funcionamento da sociedade. Isso leva algum tempo; é um pouco trabalhoso. Mas mesmo que tivesse a visão geral, você acredita realmente que o membro de uma sociedade consegue colocar a cabeça para fora dela, acima dela, e julgá-la desde cima? Se todos somos de certo modo produtos da sociedade em que estamos, nossas opiniões, incluindo as negativas que sobre a própria sociedade, são criações dela mesma e fazem parte do mesmo mal que denunciam. A única possibilidade de haver uma crítica social legítima, que funcione, é a de que o indivíduo humano de algum modo se coloque acima da sociedade e consiga ver nela algo que ela mesma não vê. É necessário que a consciência dele esteja acima do nível de consciência que aparece nas próprias discussões públicas. Para criticar minha sociedade como um conjunto, preciso me colocar numa perspectiva que me permita vê-la como objeto, e daí já não sou mais um personagem ou um participante da coisa, mas um observador superior; consegui uma posição acima da confusão, de onde posso ver o que está acontecendo e julgar o sentido geral das coisas. Assim como para opinar numa briga entre marido e mulher é preciso que você não seja nenhum deles. Quando um casal com um problema vai procurar um conselheiro matrimonial ou um psicólogo, está supondo que ele tem um ponto de vista superior a cada um deles.

No que consiste esse ponto de vista superior? Consiste em que se tenha um critério de julgamento que se sobrepõe às paixões e interesses em jogo naquele momento. Supõe-se, portanto, que você tenha um conhecimento que o restante da sociedade não tem. Dito de outro modo, você julga a situação real à luz de uma norma, mas esta norma só será válida se não tiver sido criada pela própria situação. Vamos voltar ao exemplo do marido e mulher: a mulher está acusando o sujeito de não trazer dinheiro suficiente para casa e ele a está acusando de não desempenhar as tarefas domésticas a contento. Qual a norma que vai servir para julgar? Pode ser a opinião de um ou a opinião do outro? Não, a norma tem que ser uma terceira coisa que sirva para arbitrar as duas ao mesmo tempo. Ou seja, você tem que ter uma medida do justo e do injusto e esta medida não pode ter sido criada nem pela opinião de um, nem pela opinião do outro. No caso, trata-se de uma proporção entre direitos e deveres. É só o conhecimento dessa norma ou dessa proporção que lhe permitiria julgar a situação e ver qual é a cota de razão e de desrazão que haveria nessa discussão. O problema é: de onde vamos tirar essa norma. Se ela foi criada pela própria situação, apenas expressa um dos lados em conflito. Então ela tem que ser transcendente à situação. Assim como no julgamento de um processo criminal, o sujeito matou outro, roubou outro, aplicou estelionato: o tribunal vai julgar aquela situação à luz de uma lei que transcende a situação.

Se pegarmos nossa sociedade como um todo ou a parcela da história que conhecemos, todos temos opinião a respeito, mas raramente nos preocupamos com o problema da norma. Se digo que a sociedade é injusta, é injusta em face de que norma? Qual é a norma com que estou julgando? Ou tenho uma norma que seja efetivamente superior ao horizonte de consciência da discussão pública, ou não posso julgar. Ou, então, estou tomando partido dentro de um conflito e em seguida sou eu mesmo um membro desse conflito. Estou raciocinando, portanto, em circuito fechado, como um cachorro que persegue o próprio rabo.

Existem situações, no entanto, onde aparece um sujeito que tem um conhecimento que a sociedade não tem. A história de Moisés na Bíblia, por exemplo: Moisés faz uma crítica da situação, a situação do cativeiro dos judeus no Egito. Ele acha que a situação está ruim por isso, por isso e por isso. E se lhe dissessem que a situação é assim desde que o mundo é mundo? que sempre foi assim e sempre será assim? Que sentido faz você criticar uma coisa que não tem remédio de maneira alguma? A crítica estaria anulada. Mas Moisés podia criticar, porque ele tinha conhecimento do que veio antes e do que viria depois – o conhecimento profético. Tinha conhecimento de que seu povo podia ser retirado dali e ir para um outro lugar onde teria uma vida melhor. E de fato fez isto. Como sabemos que Moisés sabia algo que os egípcios não sabiam? Porque provou que sabia. Com a travessia do Mar Vermelho, ele provou que enxergava a situação dos judeus no Egito desde um ponto de vista superior ao da situação real. Sabia que podia fazer e como fazer e, de certo modo, conhecia o futuro. Esse futuro era invisível para os participantes da situação. Era invisível tanto para os egípcios quanto para os judeus. Eles demoraram quarenta anos para ouvir o que aquele homem tinha a dizer. Esse é o protótipo da crítica social válida.

Outra crítica social válida também é feita por Sócrates. Sócrates critica uma situação estabelecida à qual ele não se considera superior. Quando Sócrates é condenado por um tribunal ateniense, se dirige a esse tribunal do ponto de vista de um homem que já morreu. Ele praticamente se considera morto e diz: olha, realmente não sei se vocês ao me condenarem me fizeram um malefício ou um benefício, porque não sei exatamente o que é a morte; tenho a impressão de que talvez seja melhor depois, que talvez vocês tenham me feito um benefício. A consciência do desconhecimento da morte é uma norma válida para o julgamento de qualquer situação humana. Todos sabemos que vamos morrer; e todos sabemos que não sabemos precisamente o que é a morte, o que se desenrola nela e depois dela. Isto nos dá uma base firme para julgar todas as situações humanas.

Me lembro de uma conferência brilhante que o filósofo espanhol Julian Marías fez no Brasil, na época em que a junta militar havia instituído a pena de morte. Durante a conferência lhe perguntaram se era a favor ou contra a pena de morte e ele disse: “sou contra por um simples motivo: não sei o que é a morte e não tenho o direito de condenar um sujeito a uma coisa que eu não sei o que é; sei o que é prisão, trabalhos forçados, mas morte, eu não sei o que é e esses senhores também não.” Então, na hora em que o indivíduo emite este julgamento, coloca-se não apenas acima da discussão pública, mas quase que infinitamente acima dela, porque a discussão pública é feita em termos de posições relativas, de posições que podem ter sua validade maior ou menor numa ou noutra situação. Mas, de repente, chega o filósofo e diz algo que independe de toda a discussão. No meio das relatividades, ele entra com o absoluto. O absoluto é este: não sei o que é morte e vocês também não sabem, e ponto final. Nenhum de nós morreu para contar como é. Isto é o senso da medida. Em certos momentos, portanto, a consciência pode se colocar infinitamente acima das questões públicas e encará-las desde uma medida supeiror que lhe permite um julgamento justo.

Infelizmente isso não acontece sempre. Freqüentemente nos debatemos em questões onde nos falta a medida e não a encontramos. A única coisa que sabemos é que esse senso da medida universal pode ser desenvolvido nas pessoas pela consciência da dimensão histórica, pela consciência dos sucessivos patamares de consciência alcançados ao longo do tempo. Porém, o indivíduo que não recebeu a informação sobre este caso de Moisés, ou simplesmente não meditou sobre o assunto, simplesmente não tem idéia de que uma certa situação pode ser julgada em face de uma possibilidade concreta de mudá-la. Note bem, não é um desejo de mudá-la, mas uma possibilidade concreta conhecida de antemão. No caso, Moisés sabia porque Deus contou para ele. Podia ter sabido de outra maneira. Mas ele não achava que a situação dos judeus na época era ruim apenas porque sim, mas era ruim em face de um poder do qual Deus tinha investido esse povo antes e em face de uma promessa que Ele tinha feito para o futuro. Então, encaixando aquela situação numa sucessão histórica perfeitamente conhecida, podemos dizer que Moisés podia julgar que aquela prisão era ruim, porque ele sabia onde estava a porta.

Agora, se estudarmos a história do século XX, veremos uma infinidade de revoluções, golpes de estado, mudanças políticas feitas por pessoas que criticavam a situação e que diziam poder mudá-la para melhor e que produziram situações infinitamente piores. Na década de oitenta, por exemplo, um cidadão soviético consumia menos carne do que um súdito do czar em 1913. Isto significa o seguinte: Lenin e Trotsky não sabiam onde estava a porta; propuseram uma mudança não porque tinham perfeito conhecimento da possibilidade concreta de realizá-la, mas apenas porque queriam. É o caso de a gente dizer que este tipo de crítica social não é legítima: você está criticando uma situação mas não é melhor do que a situação, é apenas um componente dela; ou seja, a sua crítica não é uma crítica, é apenas uma queixa, é um sintoma da própria situação, e portanto não podemos confiar em você para resolver a situação. Na hora em que você passa por um sofrimento e diz ‘ai’, o ‘ai’ não é uma crítica válida da situação, é apenas uma expressão dela. Tanto que dizer ‘ai’ não vai curar você de maneira alguma.

Ao longo de todo o século XX, vemos que a crítica social, em sua quase totalidade, nunca passou de expressão ou de sintoma da situação. Raramente se viu um empreendimento vitorioso de transformação da sociedade com base na crítica, que produzisse exatamente o resultado prometido. Isto significa que, desde o tempo de Moisés ou Sócrates, a nossa capacidade de crítica social diminui formidavelmente. Simplesmente não entendemos a sociedade, não gostamos da sociedade; gostaríamos de mudá-la, mas não chegamos a perceber que nossa revolta e nosso próprio desejo de mudar são apenas sintomas da própria situação social e, portanto, impotentes não somente para mudá-la, mas até para fazer uma crítica objetivamente justa.

São essas constatações que nos colocam a necessidade de conquista de um patamar ou de uma medida justa e universal, em função da qual a crítica possa ser feita. Todo ser humano tem essa possibilidade e, de certo modo, tem esse direito porque embora seja, sob muitos aspectos, um produto, um efeito ou uma criação de sua sociedade, há algo nele que transcende a sociedade. Há no mínimo a estrutura biológica. Não houve nenhuma sociedade que mudasse substancialmente a estrutura anatomo-fisiológica do ser humano. Esta é uma constante. Portanto cada um de nós pode dizer que é fruto da sociedade brasileira? Bom, sou fruto da sociedade brasileira, mas sou membro da espécie humana e, como membro da espécie humana, existem em mim fatores estruturais constantes que já existiam antes de o Brasil existir e que vão continuar existindo depois que o Brasil acabar. Portanto, como membro dessa espécie animal chamada espécie humana, tenho em meu próprio corpo um dado que transcende a situação histórica em que vivo. É claro que não é só a estrutura anatomo-fisiológica do homem que transcende a situação histórica, existem muitos outros aspectos.

Ao longo da história humana, muitos desses elementos estruturais, constantes e universais foram se revelando à nossa consciência. E foram registrados em obras, depoimentos e atos desses seres humanos. A aquisição desse legado é o que é propriamente o que chamaríamos hoje de educação liberal, que, nesse sentido, é a formação do cidadão consciente e portanto capaz de julgar não só fatos da sociedade, mas a própria sociedade como um todo.

Formar um homem desses não é fácil. As situações vão se tornando cada vez mais complexas e, de repente, vêem-se emergir no cenário da história situações absolutamente novas que, apesar de todos os dados que acumulou em toda a sua educação, você não é capaz de compreender. Surge, por exemplo, um fenômeno como o totalitarismo moderno, como nazismo, fascismo e comunismo – fenômenos supremamente esquisitos, que tudo o que a humanidade ocidental sabia até o século XIX não bastava para explicar.

A idéia de que tratados internacionais fossem feitos não para ser cumpridos, mas apenas para ser usados como armadilhas para os inimigos: isso foi uma novidade na história. Até o século XIX todo mundo acreditava que tratados eram para ser cumpridos. De repente aparece um estado, a União Soviética, que acha que não é bem assim, que não é importante cumprir os tratados, mas sim apenas assiná-los. De um momento para outro, os tratados se transformam em instrumentos não para limitar a ação dos contratantes mas, ao contrário, para dar mais possibilidades de ação contra os demais contratantes. Hitler levou essa idéia a um nível alucinante: cada compromisso que Hitler assinou foi assinado com a finalidade específica de não ser cumprido. Nos acostumamos tanto com isso que hoje achamos natural.

Certas possibilidades de uso de violência assassina contra países inimigos não entraram na cabeça humana antes do século XX. A guerra sem declaração de guerra é um exemplo: você está em guerra com outro país mas não sabe; de repente soltam uma bomba no seu território. Isso foi mais uma novidade do século XX. Outro exemplo é o ataque sistemático às populações civis: não existe mais a noção de campo de batalha. O que é campo de batalha? É o lugar onde você vai para fazer a guerra. No século XX isso desapareceu. Não há mais campo de batalha, há guerra onde você estiver.

Quando começaram a suceder, esses fatos deixaram as pessoas desorientadas; não havia como explicar. Vemos, portanto, o avanço do totalitarismo no século XX e a impotência da inteligência humana para explicar esse fenômeno na época, já que somente hoje temos uma compreensão mais adequada do fenômeno totalitário. Notamos, então, que às vezes acontecem coisas novas e que mesmo a acumulação de todo o legado desses depósitos de consciência adquiridos ao longo dos séculos não é suficiente para nos situar. Seria necessária uma outra abordagem e as primeiras tentativas de diagnóstico falham, porque estão comprometidas de certo modo, inconscientemente, com o mesmo circuito produtor de idéias que geraram o fenômeno. Você tenta investigar o fenômeno, mas faz parte dele; tenta diagnosticar a doença, mas também está doente. Um exemplo característico é o livro da Hannah Arendt sobre o totalitarismo. Ela investiga, investiga e pega a pista certa: diz que os fenômenos totalitários não querem criar uma nova sociedade, querem modificar a natureza humana. A pista é exatamente esta. Só que, mais adiante, escorrega e diz que acredita na possibilidade de mudar a natureza humana, apenas não por meios violentos. E com isso aí a descoberta influencia a visão de quem descobriu, porque se é possível para o Estado mudar a natureza humana por meios não-violentos então, prestem bem atenção, a diferença específica do totalitarismo deixa de ser o projeto de mudar a natureza humana e passa a ser apenas o emprego da violência. A especificidade do fenômeno, portanto, se perdeu. Assim, Arendt não consegue levar o diagnóstico até o fim. Mas ela escreveu o livro no calor do momento e não podia enxergar a situação com toda a clareza; foi um dos primeiros diagnósticos abrangentes que se tentou. Se investigasse mais um pouco veria que, ao longo dos séculos, não surgiu nenhuma idéia ou doutrina política que visasse a mudar a natureza humana. Todas tomavam a natureza humana, fosse qual fosse, como pressuposto. Consideravam-na fenômeno de ordem natural, cósmica, biológica, no qual a sociedade não pode mexer.

Foi só no século XX que se acreditou que, através da formação de um certo Estado, leis, burocracia, se poderia mexer na própria natureza humana. É a diferença que existe entre você ser um criador de animais, como vacas e galinhas, ou você transformá-los em outra coisa: a idéia de transformá-los em outra coisa rigorosamente nunca tinha aparecido na mente humana até o século XX.

Hoje, passados cem anos, temos uma compreensão um pouco maior do fenômeno totalitário, mas para isso foi necessário remanejar todo o legado de conhecimentos e repensar a coisa sob mil aspectos. Embora não seja sempre infalível, esse processo de recuperação do legado é a única esperança que temos de entender a nossa situação existencial. Não existe nenhum outro meio. Aliás, existe um outro meio; existe o que a Bíblia chama de sabedoria infusa: Deus e os anjos infundem em você, sem que saiba. Vai dormir sem saber e acorda sabendo. Tirando esta hipótese, a única outra hipótese que existe é a da acumulação do legado da consciência humana ao longo dos séculos. A finalidade da educação liberal é exatamente esta. E isto é simples: consiste na aquisição dos documentos necessários, no estudo desses documentos e na revivescência das experiências cognitivas e existenciais que estão registradas nesses documentos. Ou seja, você vai ler a Bíblia, Platão ou Aristóteles, não no sentido apenas de adquirir informação, mas no sentido de tornar suas as experiências cognitivas que se registraram nesses documentos.

Por exemplo, Aristóteles insiste muito numa coisa que chama maturidade. Maturidade não no sentido fisiológico, mas no sentido intelectual. O homem maduro é o homem que teve certas experiências e aprendeu com elas. Uma dessas experiências é a plena experiência da norma, da existência da norma. A maior parte das pessoas simplesmente não teve isso; vê as coisas acontecerem e as opiniões se entrechocarem, mas nunca chegou a experienciar as famosas leis não-escritas de que fala a tragédia grega. Por exemplo, em Os suplicantes de Sófocles, dois jovens gregos fogem do Egito, onde o rei queria obrigá-los a um casamento que não desejavam, e vão parar numa ilha. Nesta ilha pedem asilo ao rei local. O rei fica num dilema porque, por um lado, havia uma tradição de dar asilo a quem pede e, por outro, dando asilo ele se arriscava a uma guerra contra o Egito. Ele imediatamente argumenta para os jovens: ” na legislação egípcia não há nada que impeça o rei de obrigá-los a casar com quem vocês não querem, portanto o rei do Egito não cometeu nenhuma ilegalidade” . E eles respondem: ” é, mas acima das leis do Egito há as leis não-escritas, há as leis divinas. A lei divina diz que ninguém pode ser obrigado a casar contra sua vontade.” O rei se toca com aquilo e, em seguida, tem outro problema: o regime na ilha era constitucional e ele não era monarca absoluto. Tem, portanto, que levar o problema à assembléia. Reúne, então, a assembléia e, por meio de um longo e tocante discurso, consegue persuadir a assembléia a aceitar o risco da guerra, para não infringir as leis não-escritas.

A tragédia grega era um acontecimento cívico, não apenas um espetáculo teatral. Era um empreendimento promovido pelo governo para a educação dos cidadãos. Nessa tragédia e em muitas outras, qual é a mensagem transmitida? A idéia de que um país é obrigado às vezes a se colocar em risco para não infringir as leis não-escritas. Ou seja, esse governo argumentava contra si mesmo, contra seu interesse, e educava as pessoas assim. É claro que o momento da história em que aparece a tragédia grega é um momento excepcionalmente luminoso na história da consciência humana. Há inúmeras tragédias gregas onde se concede razão ao inimigo da pátria, o troiano. Toda a educação recebida na escola, os discursos políticos etc., induziam as pessoas ao patriotismo e a tragédia entrava como elemento compensador, para que as pessoas não tomassem em sentido absoluto os valores do patriotismo, porque esses valores eram relativizados por valores mais altos. Então, quando existe uma comunidade política capaz desse nível de consciência, é evidentemente um momento luminoso da história. E o milagre grego de que falamos não pode, evidentemente, ser encarado apenas em termos de realizações estéticas ou científicas, mas sobretudo como um momento culminante na história da consciência humana.

Existem muitos outros momentos de consciência exemplar na história. Um é a história que se passa com o genro de Maomé, Ali. Um excelente orador, cujos discursos estão entre os mais belos da literatura universal, Ali foi um fracasso total como político, mas um grande guerreiro. Conta-se que, numa das batalhas, ele encurralou um inimigo, conseguiu desarmá-lo e encostou a espada em sua garganta. O inimigo então o xingou; ele ficou perplexo, colocou a espada na bainha e foi embora. Em seguida, o inimigo diz: ” você está com a espada na minha garganta, me derrotou, e só porque o xingo... venci você com um xingamento?” Ele diz: ” não, não é isso, é que fiquei com raiva de você, e se o matasse, eu não seria mais um guerreiro, seria um assassino, porque o teria matado por raiva pessoal e não tenho nada contra você. Isso aqui é guerra..” Esta ética guerreira durou séculos. Até o século XIX ainda havia amostras de um espírito de luta cavalheiresco que predominava na guerra.

Há outro episódio famoso que se passa entre príncipes muçulmanos e espanhóis. Uma batalha estava prestes a ocorrer em determinado lugar e os muçulmanos erraram o caminho. Em vez de parar no lugar da batalha, foram parar no castelo do príncipe espanhol que iria combatê-los. Só que o castelo estava vazio, só estavam lá a rainha e suas aias, mucamas e crianças. Conta-se que a rainha saiu do castelo e passou-lhes um sabão: “não têm vergonha de encurralar mulheres e crianças assim?” Eles pediram desculpas e foram embora.

Se comparamos isso com o panorama do século XX, onde vemos, não massas de população, mas elites intelectuais capazes de se fecharem completamente à metade da realidade, para encarar somente a metade que lhes interessa, então, de fato, nossa comunidade política está infinitamente abaixo do nível de consciência daquelas comunidades.

Imaginem o que aconteceria hoje em qualquer país do mundo. O que aconteceria com o sujeito que dissesse que não ocupou a cidade porque só havia mulheres e crianças? Iria para a corte marcial. Seu dever militar se sobrepõe ostensivamente às normas não-escritas, as quais não são sequer levadas em consideração. Elas simplesmente não existem mais. O que há hoje, não é só um fenômeno de imoralidade, mas um fenômeno de baixo nível de consciência, porque o indivíduo acredita que aquele interesse militar imediato é real e que a norma não-escrita é irreal. Ele infringe a norma não-escrita, porque acredita que ela não existe, que é apenas invenção, produto cultural, crença. Só conhece a norma não-escrita, por referência escrita ou oral, ouviu falar que existe, mas não tem experiência pessoal dela. Não há nem a situação do indivíduo que, através da educação, chegou a perceber que essas normas não-escritas efetivamente existem.

Dike é a idéia grega justiça cósmica; é uma experiência que se pode fazer, não uma invenção cultural; uma experiência que requer certo nível de maturidade. Então, quando Aristóteles enfatiza que somente o homem maduro pode guiar a comunidade, está se referindo aos homens que conseguiram absorver um certo número de experiências decisivas, que colocam a sua alma um pouquinho acima do nível de consciência de sua comunidade. Não quer dizer que precisem ser santos ou profetas ou heróis, mas são simplesmente pessoas que têm uma amplitude anímica um pouco mais vasta, porque chegaram a ter certas vivências. Quando não temos isso e, não obstante, temos uma formação universitária, um diploma, e as julgamos as situações evidentemente pelas experiências que temos. No começo do século XX, houve uma série de antropólogos que saíram pelo mundo fazendo recenseamentos dos usos e costumes dos vários lugares. Quando notaram que aquilo que era proibido num lugar era obrigatório no outro, tiraram a conclusão de que todas as normas eram culturalmente relativas. Isto foi especialmente divulgado no mundo por Margareth Mead e Jules Benedict. Eles fizeram um sucesso tão grande que, hoje em dia, essa convicção do relativismo antropológico é tida como um dogma: todas as morais são culturalmente relativas. É no mínimo curioso que nunca ninguém tenha feito a seguinte pergunta: me aponte uma sociedade onde o homicídio seja legítimo? Ou, me aponte uma sociedade onde o casamento seja proibido. Ou, me aponte uma sociedade onde qualquer forma de conhecimento seja proibido. Simplesmente não existem tais sociedades. Isso quer dizer que, por baixo da variação acidental de normas aqui ou ali, existe uma infinidade de normas universais que nunca foram contestadas por civilização ou cultura alguma. A lista das regras e normas permanente é infinitamente maior do que a das normas variáveis. Então isso quer dizer que esses antropólogos, baseados em sua pequena experiência acidental de ter conhecido uma ou duas comunidades, generalizaram para a espécie humana, de modo que a visão total da humanidade fica reduzida ao tamanhinho da amplitude de consciência de dois ou três antropólogos, que viram meia dúzia de coisas. Nas ciências humanas, isso se tornou norma no século XX: o indivíduo proclama que tudo o que ele não viu não existe e tudo o que está fora de seu círculo de experiência só pode existir como invenção, como crença ou como criação cultural e portanto não tem importância nenhuma.

Uma educação baseada nisso seria uma deseducação, porque ela está de cara bloqueando a possibilidade de certas experiências.

A humanidade toda deixou documentos de pessoas que conversaram com Deus. Eles não existiram? São milhões e milhões de documentos, falei com Deus e obtive tal resposta. Falar com Deus e obter tal resposta é uma experiência. É algo que acontece ou não acontece. Não é uma teoria evidentemente, é um fato, ou ele é fictício ou ele é real. Algum antropólogo de alguma universidade já convidou alguém para fazer essa experiência e ver o que acontece? Alguém ensinou a você: para falar com Deus é assim e assado, a coisa tem uma lógica, requer um certo tempo, tem um vai-e-vem, tem um feedback? Não, porque eles também não sabem. Dizem que houve pessoas que acreditaram em Deus, Deus é uma crença e nada sabemos a respeito. Como nada sabemos a respeito? E esses depoimentos todos? Vamos fazer de conta que nada disso existiu? Toda essa gente estava no mundo da lua e você foi o primeiro que descobriu a realidade? Construíram-se civilizações, legislações, sociedades, vidas humanas, tudo em cima disso, e era ficção? Prefiro apostar na hipótese contrária de que esse pessoal todo sabia do que estava falando. Ou seja, algo nos aconteceu e se não temos o mínimo acesso a esse tipo de vivência então nada sabemos a respeito, e não é uma atitude científica rotular de crença o que você não sabe o que é.

Durante quanto tempo você é capaz de manter um fio de raciocínio dentro de si, sem se dispersar completamente? Vamos chamar de raciocínio, o encadeamento de silogismos – premissa maior, premissa menor, conclusão. Quantos silogismos em linha você é capaz de fazer dentro de si, sem se dispersar e perder o fio da meada? Um, dois e olhe lá. Isto quer dizer que a dispersão é o seu estado habitual. Compare-se, por exemplo, a um praticante de uma mística ascética qualquer, que aprende a se concentrar numa palavra ou um nome que designa uma qualidade divina durante, digamos, dezesseis horas seguidas; que aprende a afastar qualquer outro pensamento de sua mente. Você acha realmente que a visão que o homem disperso tem pode ser idêntica à do homem concentrado? É claro que não. Isto quer dizer que, em outras épocas, houve homens muito concentrados, capazes de limpidez de pensamento, de auto-consciência – e logo explico o que quero dizer com essa auto-consciência – e que tiveram acesso a certas experiências e deixaram testemunhos delas, e esses documentos são preciosos. Mais tarde, aparece um sujeito sem concentração nenhuma, uma alma totalmente dispersa, totalmente fragmentada, com auto-conhecimento precaríssimo, dizendo que tudo são crenças. Ora, faça-me o favor!, isto é a anti-educação. Se queremos entender esses documentos, temos que criar a condição psicológica para refazer as experiências que estão subentendidas neles.

Alguém já ouviu falar da prece perpétua? É uma técnica da igreja ortodoxa. Existe um livro extraordinário sobre isso chamado “Relatos de um peregrino russo” – uma abreviatura de milhares de escritos dos místicos ortodoxos ao longo do tempo. O peregrino russo é um homem simples que um dia ouve na missa o padre dizer a sentença de Jesus: orai sem cessar. Ele diz: ” como orai sem cessar? Ninguém pode orar sem cessar, a gente reza e depois vai fazer outra coisa.” Sai então procurando, pergunta para um, pergunta para outro, até que encontra um monge que diz: ” você vai rezar junto com o ritmo de sua respiração, vai dizer Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim; e vai dizer isso com plena intenção; você só quer uma coisa na vida: que Jesus tenha pena de você. Vai esquecer todo o resto e vai fazer isso, vinte e quatro horas por dia, pelo resto de sua vida.” Talvez, se conseguir prestar atenção na piedade divina, com um pouco dessa concentração, acabe percebendo que ela existe. Agora, pelo simples fato de ter lido sobre esse negócio de piedade divina, você diz que isso é crença? Mas, como? Você conhece a coisa, sabe do fenômeno que está sendo falado, ou sabe somente as palavras?

Assim como esta prática existem milhares no mundo – budistas, judaicas, islâmicas, hinduístas e outras. Tudo isto é totalmente desconhecido do ensino moderno. O ensino se tornou uma arte de falar sobre coisas que se desconhece completamente. Não estou me referindo ao ensino religioso. Se pedir ao padre, ao rabino, ou ao aiatolá, ele vai ensinar a você algumas coisas da religião dele, o formulário de crenças dele, e vai dizer que todas as outras não interessam. Ele também já não está falando de experiências, está falando de uma crença determinada. Não é disso que estou falando. Estou falando de realidades e não de formulários de dogmas que dizem que isso está certo e aquilo está errado. Do mesmo modo, as experiências subjacentes à filosofia de Platão ou à filosofia de Aristóteles também são condições indispensáveis para que você as compreenda. Quando Platão falava na Academia, ou Aristóteles no Liceu, eram literalmente homens maduros falando com outros homens maduros. Não era uma discussão entre almas dispersas.

Todos aqui já sentiram, por exemplo, acessos de tristeza ou de desespero que não sabiam de onde vieram. Todo mundo já teve isso. Ora, se existe algo na sua própria alma que você não sabe de onde veio, existe um conteúdo que é estranho a você. Ou seja, a sua alma é tão conhecida sua, quanto uma cidade onde acaba de desembarcar pela primeira vez; você está perdido dentro de você. Sua alma é o instrumento pelo qual você conhece o mundo, mas se ela própria é tão desconhecida assim, quantos metros espera avançar no caminho do conhecimento, antes de ter limpado as lentes com que vai olhar este mundo? Uma certa limpidez da alma, portanto, um certo conhecimento do indivíduo por ele mesmo, de modo que ele saiba de onde vêm suas emoções, de onde vêm seus desejos e o que o compõe efetivamente por dentro, são condições sine qua non da verdadeira educação. Não existe a educação sem o efetivo auto-conhecimento. Mas, se num curso de filosofia universitário, você levantar este problema, dirão: “se quer auto-conhecimento, que vá procurar um padre ou um psicanalista, que nós estamos aqui para estudar filosofia.” Que raio de filosofia é esta que não se preocupa nem em saber se a alma do sujeito está habilitada para aquilo? Que raio de ensino é este que não cumpre a condição da maturidade que o próprio Aristóteles e o próprio Platão colocam como condição básica para o estudo da filosofia? Isto quer dizer que, ao longo dos tempos, a noção de educação foi sendo perdida. Ela é conservada apenas em núcleos muito limitados; há grupos de pessoas que sabem e continuam cultivando aquilo, como sempre. Mas o ensino de massas, público e privado, não está dando às pessoas senão um grosseiro simulacro de educação. Não cabe a mim julgá-lo ou modificá-lo; não sou ministro da educação, nem quero ser. Se me pedissem um projeto de educação nacional, me esconderia debaixo da cama e pedir socorro à minha mãe. Esse problema está acima da minha capacidade, como está acima da capacidade do ministro da educação ou de qualquer outro que ocupe o lugar dele.

A educação requer sobretudo essa situação: há o professor e os alunos. Querem um plano de educação para vocês? Esse, eu sou capaz de inventar, dentro de um universo operacional abarcável. O professor conhece seus alunos, sabe até onde pode levá-los e sabe o que pode fazer, isto é o máximo. A idéia de um plano de educação que abarque toda uma nação, isto para não falar em toda a humanidade, como faz a ONU hoje, é evidentemente simulacro, não existe. Os planos atuais de educação que estão sendo impostos no mundo inteiro pela ONU, que é para a formação do cidadãozinho perfeito da Nova Ordem Mundial, foram inventados na década de cinqüenta por um sujeito chamado Robert Muller, que era discípulo de uma pseudo-esoterista chamada Alice Bailey, uma mulher completamente maluca, da doutrina dos raios cósmicos, que conversava com extra-terrestres; esse cara pega as obras de Alice Bailey, adapta para a formação de um plano educacional mundial e este plano está sendo implantado. Evidentemente isto é uma caricatura grotesca. Quando falo dessas coisas, estou falando de mística verdadeira, coisas que foram acumuladas ao longo de cinco mil anos de judaísmo, dois mil anos de cristianismo, mil e quinhentos anos de islamismo, quase dez mil anos de hinduísmo, não de uma doida americana que conversou com extra-terrestres. Então, o sujeito que aprendeu com esta visionária de extra-terrestres pode fazer um plano para educar o mundo e eu, que aprendi coisa melhor, só tenho um plano para educar vocês. É porque sei o que é educação e esse sujeito evidentemente não sabe. Sei quanto é complexa a educação, o quanto ela requer de contato direto e comprometimento total do professor com seus alunos, porque se trata não apenas de transmitir certos conhecimentos, mas de elevar o indivíduo para a possibilidade de certas experiências interiores, que darão poder à sua inteligência e poder à sua capacidade cognitiva. Educar é transmitir um poder. E esse poder, não posso injetar em você; posso dizer mais ou menos onde ele está e você pode procurar, posso dizer como você pode abrir a caixa e pegar o que é seu. É a partir desse enriquecimento da experiência interior e a partir da idéia de concentração, de continuidade da consciência, que o indivíduo se abre à possibilidade de compreensão desses documentos deixados ao longo das eras. Informar simplesmente a existência disso já é fazer alguma coisa. Mas, além de informar, podemos de vez em quando dar alguma dica de como o indivíduo se torna capacitado para pegar esse legado.

Durante muito tempo, o ensino ocidental esteve consciente disso. Se lemos os escritos dos grandes educadores da idade média como Hugo de São Vitor, Santo Alberto Magno, vemos que o começo das universidades preservou ainda a consciência disso aqui. Por volta do século XV, mais ou menos, a universidade se torna objeto de disputa entre Vaticano e estados nacionais. A partir daí, as universidades vão se tornando, cada vez mais, meios para fins que não são os de seus estudantes. Ainda pertenço à escola antiga: acredito que a finalidade da educação é o estudante, é o indivíduo humano, um cara real. O que ele vai fazer com isso depois simplesmente não é da minha conta. Acho um assinte a promessa de educação para o desenvolvimento, porque estará pressuposto que se vai educar o sujeito para fazer determinada coisa, e que essa coisa vai ter um resultado global x. Ou seja, programa-se a vida inteira do cara. Educação para a paz, educação para o desenvolvimento, educação para a cidadania, tudo isto, no fim das contas, é educar o indivíduo para uma finalidade que não é necessariamente a dele. Então isto não é educação, é programação. A finalidade da educação, tal como entendo e tal como foi entendida ao longo de todos os tempos, é a maturidade. O que o homem maduro vai fazer com o que ensinei é problema exclusivamente dele, ele vai exercer a maturidade dele, não a minha. Quando ele tiver um problema na mão a situação será outra, os dados serão outros e não existe nenhuma possibilidade de um professor antever tudo isso. Isso significa que, uma vez conquistada a maturidade, a finalidade da educação está terminada, acabou, seu educador tem que ir embora para casa. E você se transforma num educador, se quiser, ou vai fazer outra coisa, pois não é só na educação que homens maduros são necessários.

Mas essa total desatenção ao fenômeno da maturidade, aliada a uma atenção excessiva aos usos que a pessoa supostamente vai fazer da educação, faz com que praticamente toda a educação do século XX faça do aluno um meio e nunca a finalidade. Ou seja, a educação se torna serva da política, serva da economia, serva da guerra, serva de qualquer outra coisa e o aluno por sua vez se torna servo desse processo. Acho isso uma imoralidade. Não gostaria de praticar isso. A possibilidade de uma educação que não se encaixe nisso é evidentemente aberta, dentro do próprio sistema democrático, pela possibilidade da educação livre. É claro que a democracia, como qualquer outro regime, também programa as pessoas para serem servas de um plano já dado de antemão, mas ela tem uma vantagem: não cerca o indivíduo por todos os lados, deixa aberta algumas possibilidades. A democracia induz o indivíduo, mas não o obriga completamente. O problema é que geralmente as pessoas não sabem das possibilidades que a democracia deixa em aberto. Ou não sabem, ou as desprezam. As possibilidades de auto-educação e de educação livre são coisas preciosas que existem no regime democrático, das quais temos que tirar proveito de algum modo.

A idéia mesma de que essa proposta educacional se encaixasse de algum modo dentro do esquema educacional vigente é contraditória, afinal de contas o sistema educacional vigente tem a sua finalidade também, a formação profissional e o adestramento das pessoas para a mecânica da democracia. Mas é claro que a educação de massas – pública ou privada – visa a formar massas e não indivíduos, o que quer dizer que se trocarmos todos os alunos, não faz diferença alguma. Mas na educação verdadeira, cada indivíduo é precioso. E, até por isso, pode existir na educação efetiva o fenômeno do aborto pedagógico. Eu mesmo já tive uma boa coleção de abortos pedagógicos, em que vi que, num determinado momento, o florescimento da consciência é totalmente obstaculizado pelo meio. O meio coloca no indivíduo certos conflitos que, ou o paralisam, ou o fazem até recuar. O meio social no qual estamos trabalhando não é inteiramente hostil à educação: deixa uma certa margem em aberto. Mas a capacidade de desestímulo que o meio brasileiro tem para a educação é absolutamente fantástica. A curiosidade é desestimulada e o simples fato de o sujeito querer saber alguma coisa não é considerado normal;

Outro dia estava conversando com meu irmão sobre como, quando pequeno, ele gostava de fazer rádios de pilha. Gostava de eletrotécnica. Inventou isso sozinho, da cabeça dele, foi tentar fazer e aprendeu. E todas as pessoas em torno achavam aquilo muito esquisito e diziam: “por que você está mexendo com isso? Tem que se preparar para ganhar dinheiro.”Em muitos meios, não necessariamente nos mais pobres, é assim até hoje.

Vamos pensar na idéia de que o máximo de realismo que se pode ter na vida é pensar apenas em ganhar dinheiro. Ótimo, você se dedica a algo apenas para ganhar dinheiro. Vamos supor que você fabrique copos, mas não porque goste e sim para ganhar dinheiro. No dia seguinte pega o dinheiro que ganhou com os copos e vai comprar água mineral. Mas acontece que o sujeito que abriu a mina e engarrafou a água também fez para ganhar dinheiro. E com o que ganhou, também vai comprar uma outra coisa que só foi feita para dar dinheiro. Então se você compra um sapato, este foi feito para quê? Não para fazer sapato, mas para ganhar dinheiro, o sapato não é finalidade, a finalidade é o dinheiro. Enfim, todas as ações do processo produtivo são exclusivamente meios, e não há uma única coisa que se possa comprar, que valha a pena ser comprada. Ninguém fez nada para que aquilo valesse. A idéia de que a atitude realista e madura na vida é pensar apenas no dinheiro esquece que é necessário que exista algo que se possa comprar com o dinheiro. Que se este algo nunca é a finalidade, é sempre secundário, é sempre sacrificado ao dinheiro. Se eu fizer um objeto ou outro, de um jeito ou de outro, e ganhar a mesma coisa que se fizesse um determinado bem feito, então para que fazer este bem feito? Você faz o seu produto mal feito, ganha seu dinheiro e vai todo contente comprar outro produto que também é mal feito. Isto é uma radical incompreensão do processo econômico. Mas isso é uma coisa que se vê no Brasil. Viajando pelo mundo, não vemos as pessoas agindo assim.

A visão negativa que temos do processo capitalista faz com que o pratiquemos de maneira negativa. Não gostamos dele e por isso o corrompemos. Se fosse socialismo, faríamos exatamente a mesma coisa.

Esse rebaixamento geral das expectativas, dos valores da vida, é um dado constante na sociedade brasileira e é um tremendo desestímulo. Faz com que haja no processo educacional muitos fenômenos de aborto, de indivíduos que vão se desenvolvendo até certo ponto e de repente têm uma crise, um pânico. Uma crise muito comum é a do indivíduo que percebe que, quando está percebendo algo, sabendo algo que os outros não sabem ou não percebem, cria-se uma dificuldade de comunicação. Por exemplo, se você é muito apegado a seu grupo de amigos de juventude, não pode se educar, porque ou você os educa a todos juntos ou vai amadurecer mais do que eles e eles vão se tornar uns chatos para você e não vão gostar mais de você. A educação tem esse preço, aquele que sabe não é facilmente compreendido pelo que não sabe. Muitas pessoas, quando constatam isso, recuam ou caem no seu processo educacional e se castram espiritualmente, para não perder amizades ou apoio familiar, que evidentemente não valem a pena.

Mas é essencial entender, para encerrar, que a definição de educação liberal é a preparação da alma para a maturidade. O homem maduro é o único que está capacitado a fazer o bem para o meio em que está. Porque o bem também tem que ser conhecido. O discernimento entre o bem e o mal não vem pronto; não adianta ter um formulário, os dez mandamentos ou ter o código civil e penal. Isto não resolve muito. O bem e o mal são uma questão de percepção, que tem que ser afinada para cada nova situação que você vive, porque costumam aparecer mesclados. Jesus disse: na verdade amais o que deveríeis odiar, e odiais o que deveríeis amar. Este é todo o problema da educação, desenvolver no indivíduo, mediante experiências culturais acumuladas, a capacidade de discernimento para que ele saiba em cada momento o que deve amar e o que deve odiar. Ninguém pode dar essa fórmula de antemão, mas a possibilidade do conhecimento existe e está consolidada em milhões de documentos. Uma educação bem conduzida pode levar o indivíduo à maturidade do verdadeiro julgamento autônomo.

Notas 1. Diretora do programa Drug Watch International.

2. Aliás, a idéia corrente, abundantemente repetida por jornalistas e intelectuais brasileiros, de que o ensino na época fosse limitado aos nobres, é talvez a mais idiota que alguém já meteu na cabeça, porque o característico da nobreza durante toda a idade média era precisamente não estudar. O estudo era considerado uma ocupação imprópria para os nobres e só própria a dois tipos de pessoas: aqueles que se dirigiam ao clero e as mulheres. Portanto as mulheres eram privilegiadas no ensino medieval. Aproximadamente 60% ou 70% do público escolar eram compostos de mulheres.

Este é um detalhe que qualquer estudioso da idade média sabe, mas que você nunca vê mencionado em parte alguma. É como se houvesse um escotoma, um ponto preto que impede as pessoas de saberem disso. Esse detalhe por si basta para derrubar toda uma visão da história, que é aquela visão de que a história transcorre de um estado de escravidão, dominação e autoritarismo para um estado de maior liberdade e democracia. Esta visão está subentendida em praticamente tudo o que se discute nesse país e em metade do mundo. E é evidente que basta um pouquinho de estudo efetivo da história para ver que as coisas realmente nunca se passaram assim. Na verdade, idéias como as modernas ditaduras e os modernos autoritarismos são coisas que, na antiguidade e na idade média, nem passariam pela cabeça de um governante. A hipótese, por exemplo, de haver um cadastro eletrônico onde estão todos registrados, onde se pode acompanhar a conduta de cada um, saber quanto o sujeito gastou, onde ele esteve e, em caso de dúvida, poder usar tudo contra ele, é uma idéia que se fosse dada a Gengis Kahn, ele acharia monstruosa. Ou seja, Gengis Kahn não pretendia ter tanto poder assim, poder que hoje em dia qualquer governante ditatorial, e até democrático, tem sobre as pessoas.

A História, portanto, ao contrário do que diz o famoso clichê, tem seguido no sentido de um crescimento da autoridade. A autoridade vai conquistando meios de ação sobre os indivíduos de que nunca antes dispôs e, ao mesmo tempo, surgem mecanismos compensadores como a liberdade de imprensa e o ensino universal. Mas, elas por elas, o autoritarismo tem ganhado a corrida.3. Mortimer Adler é autor do livro “Como ler um livro” (pegar referências).

Estados E Estados

Paris – Num artigo recentemente publicado no | Jornal da Tarde

Monde Diplomatique (agosto/99), o professor Ricardo Petrella, ilustre acadêmico, começa por lamentar o enfraquecimento dos Estados-nações sob o assalto da nova ideologia empresarial e termina por fazer a apologia do Estado Mundial, cujo advento não poderá deixar de levar esse enfraquecimento às suas últimas conseqüências: a extinção pura e simples dos Estados nacionais e sua substituição por administrações regionais sob as ordens do Leviatã global.

Vê-se claramente que, sob a aparência de uma defesa das nações atualmente existentes contra as sucessivas desapropriações que vêm sofrendo sob o jugo dos poderes econômicos internacionais, o professor Petrella não nos oferece senão a perspectiva de submeter essas mesmas nações a uma desapropriação única, radical e definitiva, tornada boa pelo simples fato de já não ser obra de empresas privadas e sim de uma superburocracia estatal.

Não se trata portanto de proteger a vítima, mas de trocar de ladrão.

Nada é mais ingênuo (ou talvez mais esperto) do que apresentar o quadro atual do mundo como se fosse o de um combate entre as grandes empresas e o Estado, ou, o que dá na mesma, como se não fosse senão uma reedição ampliada do velho conflito do princípio capitalista com o princípio socialista. Esse giro sutil que o enfoque esquerdista impõe à visão da realidade mundial reflete uma intenção de usar a salvação das nações como pretexto para salvar, isto sim, o que ainda pos sa restar da estratégia comunista mundial.

É falso dizer que o neoliberalismo favorece as empresas em detrimento dos Estados; ele favorece abertamente certos Estados contra outros Estados, e favorece sobretudo a ascensão da burocracia mundial, a qual não é nem empresa privada nem Estado-nação, mas uma terceira coisa especificamente diferente dessas duas. Esta coisa, seja lá o que for, é o verdadeiro inimigo dos Estados nacionais – sobretudo dos pequenos e fracos – e, ao mesmo tempo, o verdadeiro inimigo das empresas privadas, ao menos daquelas que ainda confiam no princípio liberal e não sonham com um monopolismo à sombra da proteção do Estado global.

É preciso, absolutamente, distinguir aquilo que o professor Petrella confunde absolutamente: o Estado enquanto princípio abstrato e os Estados enquanto realidades históricas concretas. O globalismo neoliberal se volta contra estes últimos, ao mesmo tempo que favorece o primeiro – sobretudo quando este se apresenta sob a forma monstruosamente inflada de Estado mundial –, mostrando, com isto, que de liberal só tem o nome. A prova é que, na mesma medida em que os neoliberais condenam as legislações nacionais de controle da economia, eles louvam a adoção de idênticos controles quando ampliados à escala mundial. Isto não é combater “o” Estado: é combater “alguns” Estados, sobretudo os pequenos, e favorecer outros Estados, sobretudo os maiores, sobretudo o maior de todos.

Confundindo a defesa dos pequenos Estados nacionais com a defesa do Estado enquanto princípio, o professor Petrella se inscreve, talvez malgré lui , na lista dos apóstolos daquilo mesmo que ele professa combater.

Em 4 de setembro de 1999

Pela Restauracao Intelectual Do Brasil

Os artigos que aqui publiquei em 13 e 27 de fevereiro ( | Diário do Comércio

http://www.olavodecarvalho.org/semana/060213dc.htm e http://www.olavodecarvalho.org/semana/060227dc.htm ) rendem até hoje cartas e perguntas que não posso responder uma a uma. Elas refletem não só o anseio inatendido de conhecimento por parte de tantos estudantes brasileiros, mas uma necessidade mais profunda e geral. Um país não pode sobreviver por muito tempo sem alguma vida intelectual na qual ele se enxergue e se reconheça como unidade histórica, cultural e espiritual. Isso falta totalmente no Brasil de hoje. As discussões públicas entre pessoas supostamente letradas perdem-se em fatos isolados, em tagarelice ideológica sem nenhum proveito ou na exteriorização fortuita de impressões grupais totalmente alienadas. Já não apreendem nem a nação como conjunto, nem muito menos a sua situação no mundo, na civilização, na História. O Brasil tornou-se invisível a si mesmo, e na treva geral crescem monstros. Talvez o mais feio deles seja justamente a esperança cretina de livrar-se de todos os outros a curto prazo, mediante ações práticas na esfera política, saltando sobre a necessidade prévia da restauração intelectual. Nenhum ser humano ou país está mais louco do que aquele que acredita poder resolver todos os seus problemas primeiro, para tornar-se inteligente depois. A inteligência não é o adorno do vitorioso, é o caminho da vitória. Não é a cereja do bolo, é a fórmula do bolo. Quando chegarão os brasileiros a compreender uma coisa tão óbvia? Quando chegarão a compreender que nem tudo pode ser resolvido com formulinhas prontas, com pragmatismos rotineiros, com improvisos imediatistas ou mesmo com técnicas da moda, por avançadas que sejam, se não há por trás delas uma inteligência bem formada, poderosa, capaz de transcendê-las infinitamente e por isso, só por isso, capaz de manejá-las com acerto? A sólida estupidez do petismo triunfante é a culminação de pelo menos cem anos de desprezo ao conhecimento. A aposta obsessivamente repetida no poder mágico da ignorância esperta levou finalmente ao resultado inevitável: a bancarrota cultural, moral e política.

Não há nada, nada mais urgente, neste país, do que criar uma geração de estudantes à altura das responsabilidades da inteligência. Ao dizer isso, estou consciente de pedir urgência para uma tarefa que, por sua natureza, é de longuíssimo prazo. A vida intelectual não se improvisa: ela resulta da confluência feliz de inumeráveis trajetos existenciais pessoais numa nova linguagem comum laboriosamente construída com materiais absorvidos, a duras penas, de tradições milenares. Quando a urgência imperiosa vem amarrada à demora invencível, o espírito humano é testado até o máximo da sua resistência. Nada mais difícil do que aliar a intensidade do esforço contínuo à longa espera de resultados incertos. Contra o desespero em tais circunstâncias, o único remédio está na fórmula de Goethe: “É urgente ter paciência.”

Aos leitores deste jornal, empresários na maioria, digo sem rodeios: a responsabilidade de vocês nisso é enorme. As universidades tornaram-se instrumentos do crime organizado, empenhados em tapar bocas, paralisar consciências, destruir talentos, perverter vocações, secar todas as fontes de uma restauração possível e, é claro, gastar dinheiro público. Custam caro e só servem para o mal. É preciso inventar o quanto antes novas formas de estruturação social da vida intelectual e torná-las economicamente viáveis. Só o empresariado pode tomar essa iniciativa. Só ele tem capacidade de organização e de aglutinação de recursos para isso. O sistema dos think tanks talvez funcione, se assimilado com a devida seriedade e adaptado eficazmente às condições brasileiras. Os modelos da Heritage Foundation, da Atlas Foundation, do Hudson Institute estão aí para ser estudados. Nos EUA eles tornaram-se centros irradiantes de energia positiva capaz de contrabalançar, e com freqüência vencer, o ativismo imbecilizante dos comissários-do-povo universitários.

Enquanto isso, posso sugerir, aos candidatos a membros de uma hipotética intelectualidade brasileira do futuro, algumas normas gerais que talvez os ajudem, na escuridão ambiente, a encontrar o caminho.

A formação da inteligência se dá em dois planos simultâneos: o propriamente intelectual, ou cognitivo, e o espiritual, ou inspiracional. O que você sabe depende de quem você quer ser; o modelo do que você pode ser depende do que você sabe. A ligação entre os dois planos é ignorada pelo ensino atual porque ele nem mesmo entende que existe uma dimensão espiritual, embora às vezes fale dela, até demais, confundindo-a com o simples culto religioso, com a moral ou com a psicologia.

No plano intelectual, o estudante deve esforçar-se para obter a mais alta qualificação possível, adotando como modelos da sua auto-educação as práticas melhores registradas historicamente: as da Academia platônica, do Liceu aristotélico, da universidade européia no século XIII (com seus ecos residuais na filosofia cristã moderna, por exemplo La Vie Intellectuelle de A. D. Sertillanges e Conseils sur la Vie Intellectuelle de Jean Guitton), da intelectualidade superior alemã no século XIX e austríaca no começo do século XX (tal como descrita, por exemplo, nos depoimentos de Eric Voegelin, Otto Maria Carpeaux e Marjorie Perloff) e, last not least , da tradição americana de liberal education (v., além do clássico How to Read a Book de Mortimer J. Adler, The Trivium , de Sister Miriam Joseph, Another Sort of Learning , de James V. Schall, e The House of Intellect , de Jacques Barzun).

O objetivo primeiro da educação superior é negativo e dissolvente: consiste em “desaculturar”, no sentido antropológico do termo: desfazer os laços que prendem o estudante à sua cultura de origem, às noções consagradas do “nosso tempo”, à ilusão corrente da superioridade do atual, e fazer dele um habitante de todos os tempos, de todas as culturas e civilizações. Não se pode chegar a nada sem um período de confusão e relativismo devido à ampliação ilimitada dos horizontes. Não basta saber o que pensaram Abrahão e Moisés, Confúcio e Lao-Tseu, Péricles e Sócrates, ou os monges da Era Patrística: é preciso um esforço para perceber o que eles perceberam, imaginar o que eles imaginaram, sentir o que eles sentiram. Não se preocupe em arbitrar, julgar e concluir. Em todas as idéias que resistiram ao tempo o bastante para chegar até nós há um fundo de verdade. Apegue-se a esse fundo e faça sua coleção de verdades, não se impressionando muito com as contradições aparentes ou reais. Aprenda a desejar e amar a verdade como quer que ela se apresente. Acostume-se a conviver com as contradições, já que você não terá tempo, nesta vida, para resolver senão um número insignificante delas.

A educação universitária brasileira é toda ela anti-educação, já que visa somente a inculcar no aluno a mentalidade dominante da classe acadêmica atual (quando não o slogan partidário da semana), julgando o passado à luz do presente e nunca o presente à luz do passado. Isso é prender o estudante num provincianismo temporal — ou cronocentrismo, como costumo chamá-lo — ainda mais lesivo do que qualquer etnocentrismo geográfico, racial, religioso ou político. “Todas as épocas são iguais perante Deus”, ensinava Leopold von Ranke. A inteligência humana tende poderosamente à universalidade, mas só se aproxima dela vencendo as barreiras culturais do espaço e do tempo, uma por uma. Resista ao triunfalismo presunçoso da atualidade. Quando ler o que algum pensador de hoje acha de Platão, pergunte o que Platão acharia dele. Em noventa e nove por cento dos casos você verá que o suposto progresso do conhecimento veio amplamente neutralizado por um concomitante progresso da ignorância. Jean Fourastié, em Les Conditions de l’Esprit Scientifique , observava que, ao lado da história do saber, seria preciso escrever a história do esquecimento. Comece já.

Não digo isso genericamente. É de uma norma muito prática que estou falando. Quando ler os clássicos, use tudo, absolutamente tudo o que vier a aprender com eles como instrumento analítico para a compreensão do presente, incluída nisso a sua própria vida pessoal. Fora o conteúdo filosófico e sapiencial mais geral, há tesouros de sociologia, de psicologia e de ciência política em Confúcio, em Shânkara, em Platão, em Aristóteles, em Dante, em Sto. Tomás, em Shakespeare. Uma longa convivência com esses sábios lhe dará uma idéia do que seja a verdadeira autoridade intelectual, da qual seus professores na universidade são caricaturas grotescas. Não se deixe iludir por erros de detalhe que a ciência moderna se gaba de ter “superado”. Quase sempre a superação é ilusória e só serve para, logo adiante, ser superada por sua vez. Você lê nos manuais, por exemplo, que Galileu “superou” a física de Aristóteles. Durante quatro séculos essa bobagem foi repetida como verdade terminal. Só por volta de 1950 os estudiosos perceberam que a física de Aristóteles não era uma física, mas uma metodologia científica geral, bem mais sutil do que Galileu poderia jamais ter percebido, e muito bem adequada às necessidades da ciência mais recente. Os famosos erros assinalados por Galileu existiam, mas eram detalhes secundários que não afetavam de maneira alguma o conjunto da proposta.

Qualquer que seja a questão em estudo, busque atender a três condições: (1) a abrangência máxima da informação básica, (2) o conhecimento do status quaestionis (já explico) e (3) a variedade das perspectivas.

A abrangência da informação obtém-se trocando a absorção casual pela pesquisa sistemática das fontes. Uma lista bibliográfica o mais completa possível é o melhor começo em qualquer investigação. Se você souber somente os títulos e datas dos livros publicados sobre determinado assunto, já terá uma visão inicial bem apropriada do problema antes mesmo de ler o primeiro deles. Não se perca, porém, na multidão de trabalhos acadêmicos atuais, a maioria deles produzida só por exigência administrativa ou carreirismo. Comece com as obras mais antigas, e isso facilitará a seleção das mais recentes.

O status quaestionis , “estado da questão” é a evolução dos debates sobre um determinado ponto desde a origem da discussão até hoje. O conhecimento do status quaestionis distingue o erudito profissional do palpiteiro amador. (Todos os professores universitários que conheço no Brasil, com exceções que não chegam a meia dúzia, são palpiteiros amadores. Esqueça-os. Aprenda três ou quatro línguas e só use o português para ler material universitário de Portugal, que é muito bom em todas as áreas. Se não puder sair do Brasil fisicamente, saia intelectualmente. O que há de valioso na nossa cultura passada assimila-se em dois anos no máximo, com exceção da obra de Mário Ferreira dos Santos, que leva uma vida inteira, mas que você pode carregar debaixo do braço na sua fuga para fora do país ou para dentro de si mesmo.)

A variedade das perspectivas consiste na habilidade de pensar um problema exatamente como o pensaram os diversos autores que trataram dele. Isso exige algo mais que leitura inteligente. Exige a capacidade de você se identificar imaginativamente com a visão de cada um enquanto a está estudando, sem se preocupar em julgá-la ou contestá-la, mas sabendo que mais cedo ou mais tarde ela será julgada e contestada automaticamente quando você passar à leitura de outros autores. Deixe que a discussão, na sua mente, vá se montando sozinha, aos poucos, com os vários materiais contraditórios que você colhe das leituras. No momento em que a acumulação de material chegar a abranger o campo inteiro do status quaestionis , você terá uma experiência intelectual maravilhosa: quando os vários ângulos pelos quais você enxerga um problema não refletem apenas a sua imaginação, mas tudo aquilo que de melhor e mais inteligente se escreveu a respeito ao longo dos tempos, as conclusões a que você chega já não são meras opiniões pessoais – elas já são conhecimento em sentido pleno. Isso não quer dizer que você descobriu “a verdade”, é claro, mas significa que se aproximou dela tanto quanto possível à parte mais dedicada e mais séria da humanidade. Seu horizonte já não será o da subjetividade individual, será o do conhecimento humano . Você talvez ainda seja um anão. Mas já estará sentado sobre os ombros de gigantes.

Para avançar no plano espiritual, o estudante deve estar aberto à realidade do transcendente e do infinito, tendo ante essa dimensão a atitude gnoseologicamente apropriada e psicologicamente obrigatória de admiração contemplativa, temor reverencial e confiança existencial.

Para muitas pessoas hoje em dia, sobretudo os ditos “intelectuais”, essa percepção é inacessível e até inconcebível. Não por coincidência, são as pessoas que mais opinam a respeito, umas teorizando a sua própria incapacidade sob a forma de tagarelice materialista, cientificista, agnóstica etc., outras tratando de disfarçá-la por meio de conversas estereotipadas sobre religião, estados místicos, esoterismo, alquimia etc. Essas duas modalidades de tergiversação podem requerer muito estudo, e vidas inteiras se gastam no seu cultivo. O estudante deve aprender a reconhecer ambas à distância e fugir delas mais que depressa.

Caso pertença a alguma confissão religiosa, o estudante deve tomar seus ensinamentos como mistérios simbólicos cujo conteúdo não é fácil de discernir e cujo influxo vivificante pode secar pela adesão prematura a interpretações dogmáticas e receituários morais prontos. A religião não é uma doutrina para ser “acreditada” ou uma tábua de mandamentos morais exteriores como um código civil. Ela é um conjunto de acontecimentos de ordem histórico-espiritual cuja notícia nos chega pelas escrituras sagradas e pela tradição. Esses acontecimentos podem, em parte, ser confirmados historicamente, mas não podem ser historicamente compreendidos, pois prosseguem até hoje e seu sentido só se elucida nesse prosseguimento, na medida em que você toma ciência de que eles o envolvem pessoalmente. Você pode participar deles através dos ritos, da prece, da fé e sobretudo dos milagres. A fé não significa adesão a uma doutrina, mas confiança numa Pessoa em cuja humanidade transparece, de maneira ao mesmo tempo auto-evidente e misteriosa, a presença do transcendente e do infinito. Milagres acontecem o tempo todo, mas a maioria das pessoas é estúpida, distraída ou fechada demais para percebê-los (leiam James Rutz, Megashif ). Mesmo a experiência reiterada das preces atendidas, carregada do inevitável desconforto cognitivo da desproporção entre a causa aparente e o efeito real, pode ser neutralizada ex post facto por meio de racionalizações de um puerilismo atroz, que muitos chamam de “ciência”. Mas talvez pior do que a falta de experiência, ou do que a experiência neutralizada, é a substituição da experiência objetiva do milagre por um sucedâneo psíquico – uma emoção, um subjetivo não-sei-quê — a que alguns dão o nome pomposo de “meu encontro com Jesus”, “minha fé” ou coisa assim, sem entender que com isso sobrepõem os seus estados de alma à realidade suprema do próprio Deus. Deus se manifesta nos fatos do mundo, da natureza, da história, e no curso objetivo da vida de cada um, não fazendo afagos na alma de quem quer que seja. Por incrível que pareça, são esses afagos o máximo que alguns esperam encontrar na religião, enquanto outros, ateus ou até sacerdotes, acreditam piamente que ela consiste nisso na melhor das hipóteses e tiram daí conseqüências que lhes parecem muito científicas, como fez o clássico da cretinice antropológica americana, Edward Sapir, ao definir a religião como busca da “paz de espírito”, que se também pode alcançar com um comprimido de Valium. O estudante tem de aprender a fugir dessas vulgaridades, mesmo ao preço de colocar entre parênteses toda a questão “religiosa” até melhor entendimento.

A Nova Era E A Revolucao Cultural Capitulo I

OU: A SABEDORIA DO SR. CAPRA | L

NO COMEÇO de novembro 7 estará chegando ao Brasil o sr. Fritjof Capra, chamado pela Universidade Holística de Brasília para falar sobre a Nova Era que ele anuncia no seu livro O Ponto de Mutação.

A voz do sr. Capra não clamará no deserto. A Universidade Holística já reuniu uma congregação de intelectuais locais para dizer-lhe amém. Entre os acólitos contam-se Frei Betto e o ex-reitor da UnB, Christovam Buarque. O sr. Capra, já se vê, não é um escritor como os outros: é um líder, uma autoridade espiritual e, admitamos logo, um profeta.

O conteúdo de suas profecias é bastante conhecido:

O Ponto de Mutação anda até nas mãos das crianças, que o debatem nas escolas. Mas, segundo a Universidade Holística, isso não basta. O sr. Capra tem de ser ouvido por todos os amigos da espécie humana. Pois, embora homônimo de um cineasta que se celebrizou pelas fitas de happy end , ele não garante nenhum final feliz para o nosso século a não ser que a humanidade siga os seus conselhos. Passemos portanto a examiná-los, com a urgência requerida pelo caso.

Segundo o sr. Capra, a história do mundo chegou a um turning point , e deve mudar o seu curso. As três principais mudanças em pauta são as seguintes: primeira, a humanidade deixará de consumir combustíveis fósseis ( petróleo ); segunda, o patriarcado vai acabar; terceira, o paradigma científico vigente será substituído por um outro, de base holística. Estas três coisas já estão acontecendo, mas, assegura o sr. Capra, urge apressar a sua consumação, que marcará o advento da Nova Era.

Ao falar do primeiro item, o sr. Capra é muito breve, como convém aos profetas. Em vez das longas análises que concede aos dois outros temas, ele emite apenas esta profecia: “Esta década será marcada pela transição da era do combustível fóssil para uma nova era solar, acionada por energia renovável oriunda do Sol.” Tendo o livro sido publicado em 1981, a década a que o sr. Capra se refere terminou em 1990. Bem, nem todos os profetas dão sorte. Mas, se a mencionada profecia vier a cumprir-se com quatro, cinco ou nove décadas de atraso, o sr. Capra sempre poderá alegar que S. João Evangelista também não foi muito preciso quanto à data do Apocalipse.

Como muitos outros profetas, o sr. Capra pode queixar-se de ser um incompreendido. Eu, por exemplo, não compreendo como é que o mundo poderia ter saltado direto da era dos combustíveis fósseis para a da energia solar, sem passar pela era atômica, na qual já estávamos na data de emissão da profecia e na qual continuamos a estar após a data do seu vencimento. Mas talvez a intuição profética do sr. Capra opere à velocidade da luz, saltando etapas. Eis aí aliás um bom motivo para saltarmos logo para o item seguinte, já que o primeiro capítulo da mutação não teve um happy end.

O patriarcado consiste, segundo o sr. Capra, num complexo de três elementos: primeiro, o domínio do homem sobre a mulher; segundo, o domínio da espécie humana sobre a natureza; terceiro, o predomínio da razão ( faculdade masculina ) sobre a intuição ( feminina ). São três lados de um fenômeno único, que o sr. Capra resume como a supremacia do yang sobre o yin.

É, como se vê, um tipo especial de patriarcado, bem diferente daquele que podemos encontrar nos livros de história e sociologia. Pois estes nos dizem que o aumento do poderio técnico sobre a natureza abalou o regime de propriedade rural no qual se esteava o patriarcado; e que o advento do Império da Razão, trazido no bojo da Revolução Francesa, promoveu logo em seguida a igualdade de direitos para homens e mulheres, desferindo o golpe de misericórdia na autoridade do pater familias.

Em suma, que das três coisas que o sr. Capra reúne sob o rótulo comum de “patriarcado”, duas são precisamente o contrário. Mas os profetas não ligam para as ciências profanas.

Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae , já nos tinha advertido a Bíblia. O sr. Capra, com efeito, não pensa como nós.

Mas há algo nele que pelo menos alguns de nós podem compreender perfeitamente bem. Sendo a lógica, no seu entender, uma expressão do abominável patriarcado cujo fim ele deseja, ele não poderia mesmo obedecê-la sem tornar-se, ipso facto , ilógico. É então por uma simples questão de lógica que ele opta por ser ilógico. Qualquer bebê de colo pode compreender isto. O difícil é compreendê-lo quando já não se é um bebê de colo. Para ser admitido nos céus da Nova Era, o leitor deve portanto tornar-se como os pequeninos.

Eis aqui um caso típico. Para livrar-se do odioso patriarcado, diz o nosso profeta, a humanidade deveria inspirar-se no exemplo da civilização chinesa, cuja concepção da natureza humana, expressa sobretudo no I Ching , “está em flagrante contraste com a da nossa cultura patriarcal”. Buscando agora munição antipatriarcal nas páginas do I Ching , o leitor encontrará, no hexagrama 37, as seguintes recomendações: “A esposa deve ser sempre guiada pela vontade do senhor da casa, isto é, pelo pai, pelo marido ou pelo filho adulto. O lugar dela é dentro de casa.” A vida que Betty Friedan pediu a Deus. Aliás, segundo informa Marcel Granet no clássico La Civilisation Chinoise 8 , o feudalismo chinês, período no qual se redigiu o grosso dos comentários do I Ching , “repousa sobre o reconhecimento do predomínio masculino”. A China a que o sr. Capra se refere não deve portanto ser a mesma que os geógrafos profanos conhecem por esse nome.

O que o sr. Capra não pode mesmo é ser acusado de facciosismo sinófilo. Pois, se ele rejeita a lógica ocidental, nem por isto se curva às exigências da oriental. Segundo ele, o yang representa a razão analítica, que divide, e o yin a intuição, que unifica. Os chineses, nada entendendo destas sutilezas, representaram o divisivo yang por um traço contínuo, e o unificante yin por um traço dividido ao meio. Na Nova Era, as edições do I Ching virão devidamente retificadas.

Enquanto essas edições não aparecem, o sr. Capra já vai tratando, por conta, de introduzir no pensamento chinês umas modificações mais sérias. Ele diz, por exemplo, que na civilização chinesa o homem não procura dominar a natureza, mas integrar-se nela. Novamente, a sabedoria chinesa do sr. Capra pegou a China desprevenida: um chinês nem mesmo entenderia essa frase, pela razão de que na sua língua não há uma palavra que signifique “natureza” no sentido ocidental, isto é, ao mesmo tempo o mundo visível e a ordem invisível que o governa ( ambiguidade que as línguas modernas herdaram do grego physis ). O chinês é nisto, com o perdão da palavra, mais “analítico”: tem um termo para designar o mundo visível ( khien ), e um outro ( khouen ) para a ordem invisível. Para compensar, o mundo visível ou khien abrange, “sinteticamente”, tanto a natureza terrestre quanto a sociedade humana. O sr. Capra não diz a qual das duas “naturezas” o homem deveria integrar-se, mas é claro que ninguém poderia integrar-se em ambas simultaneamente e de um mesmo modo. Os antigos chineses já haviam advertido isto, e resolveram a contradição propondo uma dualidade de atitudes para fazer face a esse duplo aspecto da natureza: o sábio, diz o I Ching , deve buscar ativamente integrar-se na ordem invisível ou khouen ( chamada por isto “perfeição ativa” ) e contornar suavemente as exigências da natureza terrestre ( khien ou “perfeição passiva” ). Dito de outro modo: integrar-se na ordem celeste, integrando em si e superando dialeticamente a ordem terrestre ( e portanto absorvendo-a, por sua vez, na ordem celeste ). O “celeste” e o “terrestre”, nesse sentido, identificam-se respectivamente ao dharma e ao kharma da tradição hindu. O homem não se “integra” no kharma , porém “absorve-o” na medida em que se integra no dharma : livra-se do peso da terra na medida em que atende ao apelo celeste. Exatamente no mesmo sentido diz o cristianismo que o homem vence a necessidade natural na medida em que segue as vias da Providência. Não é bem o que diz o sr. Capra.

O ideograma Wang ( “o Imperador” ) esclarece isso melhor. Ele constitui, por si, um compêndio de cosmologia chinesa. Compõe-se de três traços horizontais — o Céu em cima, a Terra em baixo, o Homem no meio, formando a tríade Tien-Ti-Jen , “Céu-Terra-Homem” — cortados por um traço vertical, o Tao , que se traduz um tanto convencionalmente por Lei ou Harmonia. A Harmonia consiste em que cada coisa fique no lugar que lhe cabe, de modo que, por trás de todas as mudanças por que passa o mundo, a ordem suprema não seja violada ( embora neste mundo de aparências ela o seja necessariamente, pois, como dizia o Evangelho, “é necessário que haja escândalo”; mas no fim todas as desordens parciais são reintegradas na ordem total ).

Na Tríade chinesa, o homem é chamado “filho do Céu e da Terra”. Sendo o Céu o pai, já se vê, pelo hexagrama 37, quem é que manda. O homem governa portanto o mundo visível, mas não o faz por arbítrio próprio, e sim em nome de uma ordem transcendente.

Tien não significa o “céu” no sentido material, mas a “perfeição celeste” ou mais propriamente a “vontade do Céu”; em inglês, que o sr. Capra compreende melhor, não o sky , mas o heaven , morada do Espírito Santo. O sábio ou imperador apreende no invisível a vontade do Céu e a põe em execução na Terra. Na sala central do seu palácio, ele cumpre diariamente ritos de um complexo simbolismo geométrico e numerológico ( similar ao do pitagorismo ), mediante os quais os arquétipos celestes “descem” ( exatamente como na missa “desce” o Espírito Santo ) para trazer à Terra a ordem e a harmonia. Se o imperador pára de fazer os ritos, a Terra — sociedade e natureza ao mesmo tempo — entra em convulsão, espalham-se por toda parte a ignorância, o medo, a violência, a fome, a peste.

Não era só a interrupção dos ritos que podia trazer a catástrofe. “O imperador — escreve Max Weber em A Religião da China — tinha de se conduzir segundo os imperativos éticos das escrituras clássicas. O monarca chinês permanecia basicamente um pontífice. Ele tinha de provar que era mesmo ‘filho do Céu’, o regente aprovado pelos Céus, para que o povo, sob o seu governo, vivesse bem. Se os rios arrebentavam os diques ou a chuva não caía apesar de todos os ritos, isto era prova — acreditava-se expressamente — de que o imperador não tinha as qualidades carismáticas requeridas pelo Céu.”

O homem governa a Terra, mas em nome do Céu. Governa como pontifex , “construtor de pontes”, que liga a Terra ao Céu através do Reto Caminho, o Tao . Caso se afaste do Reto Caminho, ele perde de vista a Vontade do Céu e já não pode governar senão em nome próprio, como tirano e usurpador. Aí, num choque de retorno, ele perde seu poder e cai sob o domínio das potências terrestres que antes comandava. Como a Terra designa ao mesmo tempo a natureza física e a sociedade humana, o choque pode significar tanto uma revolução civil ou golpe militar, quanto uma tempestade ou terremoto. O monarca que cai representa, por analogia, qualquer homem que, rompendo com a ordem celeste, perca de vista o seu destino ideal e caia presa das paixões abissais. É a situação descrita no hexagrama 36, O Obscurecimento da Luz : “Primeiro ele subiu ao Céu, depois mergulhou nas profundezas da Terra.” O comentário tradicional, resumido por Richard Wilhelm, é o seguinte: “O poder da treva subiu a um posto tão alto que pode trazer dano a quantos estejam do lado do bem e da luz. Mas no fim o poder das trevas perece por sua própria obscuridade.”

Já se vê que o conselho do sr. Capra, afetado pela ambiguidade da palavra “natureza”, pode ter dois significados opostos: com “integrar-se”, pretende ele que obedeçamos à Vontade do Céu ou que mergulhemos nas profundezas da Terra? As falas dos profetas, quando obscuras, merecem interpretação. Interpretemos.

Na versão do sr. Capra, o Céu não é mencionado. A tríade fica reduzida a uma dualidade: de um lado o homem, de outro a natureza visível. O macho e a fêmea. O yang e o yin . A cada um só resta a alternativa de subjugar o outro ou “integrar-se” nele. O homem da civilização industrial optou pela primeira hipótese. O sr. Capra advoga a segunda.

É verdade o que diz o sr. Capra, que a civilização ocidental optou por dominar a natureza. Mas é verdade também que, desde o Renascimento ao menos, ela apagou ( exatamente como o sr. Capra ) toda referência a uma ordem transcendente ( Tien ) e deixou o homem sozinho, face a face com a natureza material. Desde então a história das idéias ocidentais tem sido marcada por uma oscilação pendular entre as ideologias da dominação e as ideologias da submissão: classicismo e romantismo, revolução e reação, historicismo e naturalismo, cientificismo e misticismo, ativismo prometéico e evasionismo quietista, marxismo e existencialismo e, last not least , revolução cultural socialista versus ideologia da “Nova Era”.

É neste último par de opostos que reside a chave para a compreensão do nosso profeta. O sr. Capra acerta na mosca ( nenhum profeta pode realizar o prodígio de errar sempre ) ao dizer que sua visão da história cultural é uma alternativa ao marxismo. Para Marx e seus epígonos, a natureza nada mais é que o cenário da história humana. Está aí não como um ser , uma substância ontológica que o homem deva contemplar e respeitar em sua constituição objetiva, mas como matéria-prima a ser apropriada e transformada livremente segundo o arbítrio humano. A natureza, em Marx, é ancilla industriae.

O marxismo prossegue a tradição de prometeanismo revolucionário do Renascimento, potencializando-a mediante a submissão completa e explícita da natureza à história. A isto é que se opõe a ideologia da Nova Era.

Mas ela não se opõe somente ao marxismo em geral, e sim a uma forma específica de marxismo, que também, como ela, quis operar uma “mutação”, um giro de cento e oitenta graus na orientação do pensamento humano. O fundador desta corrente marxista foi o ideólogo italiano Antonio Gramsci ( 1891-1937 ). O gramscismo propõe uma revolução cultural que subverta todos os critérios admitidos do conhecimento, instaurando em seu lugar um “historicismo absoluto”, no qual a função da inteligência e da cultura já não seja captar a verdade objetiva, mas apenas “expressar” a crença coletiva, colocada assim fora e acima da distinção entre verdadeiro e falso. É a total submissão do “objeto” ( natureza ) ao “sujeito” ( humanidade histórica ). Neste novo paradigma, a ênfase da atividade científica já não cai no conhecimento objetivo da natureza ( descrição exata da sua aparência visível e investigação dos princípios invisíveis que a governam ), mas sim na sua transformação pela técnica e pela indústria, a isto correspondendo, na esfera das idéias, uma espécie de “revolução permanente” de todas as categorias de pensamento a suceder-se numa aceleração vertiginosa do devir histórico.

Contra isto levantou-se a ideologia da Nova Era. Ao prometeanismo revolucionário, ela opõe a “integração na natureza”; à aceleração da história, o equilíbrio “ecológico” da Nova Ordem Mundial; e, ao historicismo absoluto, o “fim da História”. Capra é inconcebível sem Fukuyama. Capra é a casca da qual Fukuyama é o miolo. Todo o vistoso “esoterismo” da Nova Era, com suas iniciações secretas, seus gurus, seus magos e seus ritos, não constitui senão o exoterismo , o aparato religioso externo e social, cujo interior, cujo “sentido esotérico” é na verdade uma ciência bem moderna, racional e profana: o planejamento estratégico. Fukuyama está para Capra exatamente como o esoterismo está para o exoterismo, como a Igreja de João está para a Igreja de Pedro. Mas ambas, cada qual no seu plano e pelos meios que lhe são próprios, combatem um mesmo adversário.

O gramscismo fez muito sucesso nos anos 60, inspirando a febre passageira do eurocomunismo e revigorando algumas esperanças comunistas. No Brasil, conquistou praticamente a esquerda inteira, e o PT é um partido essencialmente gramsciano, admita-o ou não explicitamente. Mas o intento de renovação foi fraco e tardio: o comunismo acabou sendo derrotado pela ascensão mundial da ideologia da Nova Era. Afinal, a mistura de física quântica e simbolismos orientais, experiências psíquicas e sexo livre, promessas de paz e miragens de auto-realização, que essa ideologia oferece, é infinitamente mais sedutora do que qualquer “historicismo absoluto”. O Brasil, sempre atrasado, é um dos poucos lugares do mundo onde o combate ainda prossegue, com um feroz núcleo de remanescentes gramscianos oferecendo uma quixotesca resistência local aos exércitos triunfantes da Nova Era.

Mas, se o prometeanismo revolucionário representou o máximo da hybris , da avidez dominadora do homem sobre a natureza, a ideologia da Nova Era não é outra coisa senão o choque de retorno anunciado pelo I Ching .

A Nova Era venceu a revolução gramsciana. Mas foi uma teratomaquia: um combate de monstros. Diriam os chineses que foi um combate suicida: que, sem a obediência comum a Tien , a luta entre Ti e Jen só pode terminar pelo “Obscurecimento da Luz”. A vitória da Nova Era prenuncia, portanto, o próximo passo do ciclo das mutações: a humanidade vai cair da autoglorificação prometéica na passividade inerme; vai integrar-se, “ecologicamente”, no equilíbrio da Nova Ordem Mundial, onde o conformismo coletivo será assegurado mediante a justa repartição dos meios de satisfazer as paixões mais baixas e mediante um arremedo de religiosidade externa que dará a essas paixões uma aura lisonjeira de “profundidade” e “autoconhecimento”.

Pode-se interpretar isso psicanaliticamente. Gérard Mendel, no seu livro La Révolte contre le Père , uma das mais importantes contribuições das últimas décadas à psicanálise freudiana, diz que, ao longo da história, o impulso do homem para superar o pai tem sido, como pretendia Freud, um dos mais potentes motores do progresso. Mas este impulso, prossegue ele, pode tomar duas direções: ou o homem supera e vence o pai carnal integrando-se na ordem racional representada pelo pai ideal , ou manda logo às urtigas a ordem ideal para, livre de toda trava moral, matar o pai carnal e tomar posse da mãe. Esta última alternativa é a revolta prometéica, a que se segue, num choque de retorno, a queda no irracional, a regressão uterina, a “integração” do homem nas trevas. Daí, segundo Mendel, a importância antropológica, e também psicoterapêutica, das palavras da mais célebre oração cristã: a “revolta contra o pai” só é saudável e frutífera quando empreendida “em nome do Pai”. Trocando em miúdos chineses: o pai carnal é, para o homem adulto ( Jen ), nada mais que um aspecto de Ti , a Terra. É preciso submetê-lo à ordem celeste, Tien ou pai ideal, para aí então poder assumir, sem usurpação nem violência, o governo justo e harmônico da Terra. Sempre achei que o dr. Freud tinha algo de chinês.

Nos termos de Mendel, a revolução gramsciana é a revolta destrutiva contra o pai, e a ideologia da Nova Era, com seus apelos à fusão das consciências individuais numa sopa de miragens holísticas, é a regressão uterina que se lhe segue. Todas as regressões uterinas anunciam-se pela exacerbação da fantasia, pelo chamamento hipnótico das esperanças insensatas, pela antevisão mediúnica de delícias sem fim. Todas terminam na escravidão abjeta, na passividade inerme ante a agressão das forças abissais, no obscurecimento da luz.

É inevitável que haja escândalo. A Nova Era venceu o prometeanismo gramsciano, e sai de baixo: lá vem o hexagrama 36.

There’s coming a shitstorm e Fritjof Capra é o seu profeta. Mas, no fim, que por certo não se anuncia breve, o poder das trevas sucumbirá por força da sua própria obscuridade.

Findo o período das trevas, assegura o Apocalipse , a loucura dos novos profetas que arrastaram a humanidade ao erro será exibida à plena luz do dia, e todos a verão.

Como a Nova Era ainda mal começou, não está na hora de fazer o show completo. Por enquanto, tudo o que se pode fazer é dar umas amostras preliminares, que atestem, para as gerações vindouras, a realidade de um passado que lhes parecerá inverossímil. Como disse o sábio Richard Hooker ante o avanço do besteirol puritano no séc. XVI, quando tudo isto tiver passado “a posteridade poderá saber que não deixamos, pelo silêncio negligente, as coisas se passarem como num sonho”.

De amostras está cheio o livro do sr. Capra. Porém manda a justiça que as selecionemos segundo a gradação de importância que lhes dá o próprio autor. Devemos portanto agora examinar o terceiro “ponto de mutação”: a revolução do paradigma científico.

Neste terreno o sr. Capra não parece estar em desvantagem como no mundo chinês, que só conheceu por fontes de terceira mão. Doutor em física pela Universidade de Viena, ele não pode ignorar a história da ciência ocidental como ignora a civilização chinesa. Mas quem disse que não pode? Aos profetas tudo é possível.

Segundo o sr. Capra, “o paradigma ora em transformação dominou a nossa cultura por muitas centenas de anos “; ele “compreende certo número de idéias” que “incluem a crença de que o método científico é a única abordagem válida do conhecimento; a concepção do universo como um sistema mecânico composto de unidades materiais elementares; a concepção da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência”. Essas concepções têm os nomes respectivos de: cientificismo, mecanicismo e social-darwinismo ou darwinismo social. Repito: segundo o sr. Capra, elas dominam a nossa cultura há muitas centenas de anos . Isto sugere duas perguntas. Primeira: Que é “dominar uma cultura?” Segunda: Quanto é “muitas centenas”?

Dizemos que uma certa idéia domina uma cultura quando: primeiro, ela é acreditada pelos intelectuais mais importantes de todos os setores; segundo, as idéias concorrentes ou já não são férteis, quer dizer, já não se expressam em obras poderosas e significativas, ou então desapareceram completamente de cena. Assim, por exemplo, o cristianismo dominou a Idade Média porque, de um lado, todos os filósofos e os homens cultos em geral eram cristãos e, de outro lado, as correntes de pensamento não-cristãs, ainda que persistindo vivas pelo menos no subconsciente coletivo, não produziram nesse período nenhuma obra digna de atenção. Dizemos que o marxismo dominou a cultura soviética até a década de 60 porque nesse período nenhum intelectual eminente que residisse na URSS produziu nenhuma idéia que saísse dos quadros conceptuais do marxismo e porque as subcorrentes não-marxistas ( exceto no exílio e em línguas ocidentais ) nada criaram de significativo.

Nesse sentido estrito, nenhuma das três idéias que compõem o “paradigma dominante” jamais foi dominante em parte alguma do Ocidente. Desde que surgiram, as três foram incessantemente contestadas, combatidas, refutadas, rejeitadas no todo ou em parte por intelectuais importantes. De outro lado, correntes abertamente hostis a essas idéias continuaram férteis o bastante para produzir algumas das obras mais significativas de seus respectivos campos.

Vejamos o mecanicismo. Como pode ser “dominante” uma corrente que, desde seu nascimento, é rejeitada por gigantes como Leibniz, Schelling, Vico, Schopenhauer, Driesch, Fechner, Boutroux, Nietzsche, Weber, Kierkegaard e muitos outros, até ser derrubada no século XX pela teoria de Planck?

A rigor, o mecanicismo só foi dominante, e mesmo assim com reservas, numa certa parte do mundo, que para o sr. Capra é “o” mundo: os círculos universitários anglo-saxônicos. Que esse mundinho tradicionalmente presunçoso e seguro de si se abra hoje para novas idéias, que se disponha até a ouvir os orientais sem a tradicional incompreensão colonialista, é sem dúvida uma novidade auspiciosa. Mas uma novidade local. Não há meio mais seguro de tornar provinciano um povo do que persuadi-lo de que ele é o centro do mundo. Desde esse momento ele declara inexistente ou irrelevante tudo o que saia do seu campo de visão, e quando finalmente descobre algo que todo o resto do mundo já sabia dá a esta descoberta uns ares de revolução mundial.

Quanto ao cientificismo, tanto se escreveu contra ele, que é perfeitamente errado considerá-lo dominante mesmo num sentido atenuado do termo. Para isto seria preciso excluir do primeiro plano da cultura o marxismo, a psicanálise, a fenomenologia, o neotomismo e o existencialismo, pelo menos. Aqui, novamente, o sr. Capra toma como mundialmente dominante a opinião de um grupo restrito.

O darwinismo social, por sua vez, só chegou a ser dominante, como crença pública, num único país do mundo: nos Estados Unidos. Nunca entrou, por exemplo, nos países comunistas e no mundo islâmico, que, somados, completam quase dois terços da humanidade. Nos países católicos, foi recebido desde logo como perversa anomalia, suscitando reações de escândalo de que dão testemunho as encíclicas sociais dos papas desde pelo menos Leão XIII.

Mas, além de afirmar que essas três crenças “dominam o mundo”, o sr. Capra ainda assegura que o fazem “há muitas centenas de anos”. Contemos a história.

A mais velha das três é o mecanicismo. Prenunciado por Descartes, foi formulado plenamente por Isaac Newton ( Princípios Matemáticos da Filosofia Natural , 1687 ), mas só se tornou conhecido da intelectualidade européia em geral a partir de 1738, quando Voltaire divulgou em linguagem compreensível aos leigos os Elementos da Filosofia de Newton.

Não foi só fazendo divulgação científica que Voltaire promoveu a vitória de Newton. Ele tanto difamou com ironias grosseiras o principal opositor de Newton, G.-W. von Leibniz, que os contemporâneos cessaram de prestar atenção ao que este dizia. Leibniz caiu em quase descrédito até o século XX, quando a redescoberta de suas idéias ocasionou avanços prodigiosos nas matemáticas, na lógica e nas ciências da natureza. A nova física de Planck e Heisenberg veio a dar razão a Leibniz contra Newton, substituindo o mecanicismo pelo probabilismo. Esta substituição poderia ter ocorrido dois séculos antes, se Voltaire, imperador da opinião pública no século XVIII, não tivesse tecido em torno de Leibniz uma teia de preconceitos duradouros. Por ironia, Voltaire entrou para a História como o inimigo de todo atraso e de todo preconceito.

Mas, de qualquer modo, a opinião de Voltaire não se propagou com a velocidade do raio. Demorou duas ou três décadas, pelo menos, para tornar-se crença dominante na Europa inteira. Por volta de l780, o mecanicismo gozava de um prestígio invejável, e pode ser dito, desde então, dominante, se dominante não quer dizer unanimemente aceito, ou aceito sem reservas. Não se pode esquecer a oposição que lhe moveram o vitalismo de Goethe e Driesch, o contingencialismo de Boutroux e muitas outras correntes, até o golpe de misericórdia desferido por Planck e Heisenberg.

No momento em que o sr. Capra redigia O Ponto de Mutação , o mecanicismo estava completando portanto dois séculos de glória incessantemente contestada e de periclitante reinado sobre as facções majoritárias do mundo acadêmico. Isto é bem diferente de um domínio de muitos séculos sobre todo o mundo.

Quanto ao darwinismo social, é um filhote do darwinismo biológico e não poderia ter nascido antes do pai. O princípio da “subsistência do mais apto” surgiu como uma teoria biológica e só depois, aos poucos, foi se transformando num argumento ideológico para a legitimação retroativa da concorrência capitalista.

A Origem das Espécies é de 1859. Herbert Spencer, nos seus Primeiros Princípios , publicados em l862, amplia o alcance das idéias evolucionistas, fazendo delas um princípio sociológico. Paralelamente, ocultistas como Allan Kardec e Madame Blavatski pegam no ar o termo “evolução” e lhe dão um sentido místico, ou misticóide: já não são somente os anfíbios que evoluem em répteis, e estes em mamíferos; são as almas desencarnadas que, no outro mundo, evoluem em “seres de luz”, subindo na escala cósmica enquanto os macacos descem das árvores. Revestida de mil e um sentidos, a palavra “evolução” se dissemina, e surgem os debates públicos, que atraem a atenção dos intelectuais para o potencial político-ideológico do evolucionismo. Os debates alcançam um auge de sucesso com a conferência de Thomas Henry Huxley, “Evolução e ética”, em 1892. Aí está aberto o caminho para a legitimação do capitalismo liberal pela “sobrevivência do mais apto”. O resto vem com os livros de Gustav Ratzenhofer ( Natureza e Finalidade da Política , 1893 ) e William G. Sumner ( Folkways , 1906 ), que fundamentam explicitamente a noção de “evolução social”, dando aos ideólogos capitalistas o precioso slogan de que necessitavam. O darwinismo social tem, portanto, pouco mais ou pouco menos do que um século. Tinha menos no momento em que o sr. Capra redigia o seu livro.

Finalmente, o cientificismo. A rejeição formal e completa, em nome da ciência, de qualquer explicação filosófica ou teológica da realidade, foi proposta, pela primeira vez, por Augusto Comte ( Discurso sobre o Espírito Positivo , l844 ). Mas Comte ainda reservava para a filosofia a tarefa de síntese e ordenação do conhecimento científico, e Comte só foi aceito sem contestação num único lugar deste planeta: no Brasil! ( Em 1914, o positivista Alain atribuía a guerra mundial ao fato de nenhum outro país do globo haver seguido o exemplo do Brasil, que adotara na bandeira republicana o positivismo como doutrina oficial do Estado:

Ordem e Progresso é, com efeito, o resumo da filosofia comtiana. ) Uma declaração formal e taxativa de cientificismo, com a completa demissão de todas as demais formas de conhecimento como vazias ou insignificantes, só veio mesmo em 1934, com Rudolf Carnap, em Sintaxe Lógica da Linguagem . Mas Carnap não era nenhum Voltaire, para contar com a imediata aprovação de um vasto público. A maioria dos filósofos do século XX rejeitou categoricamente o cientificismo, que só exerceu domínio sobre grupos determinados, principalmente no mundo anglo-saxão. Contemporaneamente à declaração de Carnap, o matemático e filósofo Edmund Husserl, fundador da fenomenologia — escola que iria gerar Heidegger, Scheler, Hartmann, Sartre e Merleau-Ponty, entre outros —, fazia na Universidade de Praga as célebres conferências depois reunidas no livro A Crise das Ciências Européias , em que negava o cientificismo pela base e desde dentro: as ciências físicas, dizia ele, haviam perdido o seu essencial fundamento científico e já não serviam como modelo de conhecimento da realidade. Husserl era e é pelo menos tão influente quanto Carnap, embora não tanto no mundo anglo-saxônico que é o limite do horizonte mental do sr. Capra.

Em suma, o cientificismo, que “domina a nossa cultura desde há séculos”, está completando sessenta primaveras neste ano de 1994. Mas, para cúmulo, sua primeira manifestação ostensiva já foi posterior, de três décadas, à publicação dos primeiros trabalhos de Max Planck, cujo indeterminismo viria a ser uma das bases do “novo paradigma” cujo advento o sr. Capra veio agora nos anunciar. O novo paradigma é um tanto anterior ao velho.

O sr. Capra, como se vê, pouco entende dos assuntos em que exerce, para um público multitudinário, uma autoridade profética. Ele prima pela carência de informação elementar sobre a cosmologia chinesa, na qual diz basear sua visão da história cultural, bem como sobre a história cultural mesma, que ele procura, mediante generalizações grosseiras, e escandalosas alterações da cronologia, encaixar à força num modelo preconcebido.

Não questiono, aqui, a validade da proposta holística em geral. Reservo-me o direito de fazê-lo num outro trabalho. Apenas creio que ela deve ter defensores um pouco mais qualificados do que o sr. Capra.

Meu propósito foi dar um testemunho sobre um fato de relevância mundial, que acontece bem diante das nossas barbas, e de cuja realidade as gerações vindouras terão o direito de duvidar. Pois, para a razão e o bom-senso, não é verossímil que milhares de intelectuais de prestígio, em seu juízo perfeito, possam aceitar e aplaudir como um marco da história do pensamento uma obra como O Ponto de Mutação , que não atende sequer aos requisitos mínimos de informação fidedigna, de autenticidade das fontes e de rigor conceptual que se exigem de uma tese de mestrado. Dentre tantos outros defeitos que um livro pode ter, este padece do único que não se pode tolerar em hipótese alguma: a ignoratio elenchi , a ignorância completa do assunto. O sr. Capra define o seu livro, pretensiosamente, como um novo modelo de história cultural baseado nas concepções chinesas do homem e do universo. Mas ele não estudou o suficiente nem a história cultural nem as concepções chinesas para que sua opinião a respeito possa ter qualquer importância objetiva, fora do seu círculo de convivência pessoal. O conteúdo de sua propalada sabedoria do assunto é pura lana caprina.

O sucesso deste livro só pode ser explicado por um único fator, inteiramente alheio ao seu valor intrínseco: sua oportunidade. Ele diz o que as pessoas desejam ouvir, no momento em que o desejam. Ele oferece uma perspectiva sedutora a um público que pede para ser seduzido.

Que esse público não inclua somente populares incultos, mas intelectuais de projeção, e que estes se prontifiquem a aceitar as promessas do autor sem pedir-lhe sequer as credenciais científicas que se exigem de um estudante de faculdade, é realmente um acontecimento inverossímil.

Mas, dizia Aristóteles, não é mesmo verossímil que tudo sempre se passe de maneira verossímil. O inverossímil aconteceu. Ele atesta que, após séculos de fúria iconoclástica voltada contra todas as crenças do passado e os valores de outras civilizações, a opinião letrada do Ocidente enfim se cansou de ser arrogante; mas, em vez de um arrependimento sincero, está encenando diante de nós um arremedo de conversão, que deixa à mostra todas as marcas do fingimento histeriforme. Estonteada pela visão súbita de suas próprias culpas, ela abjurou de toda precaução crítica como quem repele um vício do passado; e entregou-se, inerme e crédula, ao culto do primeiro ídolo que lhe ofereceu uma promessa de alívio. Ela pensa ou finge pensar que esse ídolo é o seu salvador. Na verdade é a sua Nêmesis.

Mas não é só ela que está enganada. O profeta do engano também se engana: ele imagina trazer ao mundo a sabedoria, quando traz o obscurecimento e a confusão. Imagina trazer uma nova profecia, quando traz o cumprimento de uma velha maldição.

Mas não posso encerrar estas considerações sobre o profeta da Nova Era sem fazer, também eu, uma profecia: nos séculos vindouros, quando puderem encarar o nosso tempo com alguma objetividade, o fenômeno da Nova Era será considerado um escândalo que depõe contra a inteligência humana.

É forçoso que venha o escândalo. Nada se pode fazer para evitá-lo. Nem mesmo vou sugerir, como Jesus, que se amarre ao seu portador uma pesada pedra, para jogá-lo ao fundo do mar. Pois, como diria o hexagrama 36, ele já está no fundo. Tudo o que posso fazer é deixar à posteridade, se vier a ter notícia destas páginas, um testemunho pessoal destes tempos obscuros: Nem todos, nem todos acreditaram no falso profeta 9 .

Adendo Há no livro do sr. Capra uma infinidade de erros e contra-sensos, além dos mencionados. Apontá-los e corrigi-los todos requereria um volumoso comentário: uma lei constitutiva da mente humana concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação.

Mas vale a pena dar mais algumas amostras, para que o leitor veja quanto um erro nas premissas pode ser fértil em consequências:

O sr. Capra combate o uso da energia nuclear, mesmo para fins pacíficos, mas, ao mesmo tempo, faz da física moderna um dos fundamentos do “novo paradigma” que propõe. Ele separa a física enquanto modalidade de conhecimento teórico e a natureza das suas aplicações práticas, como se uma não decorresse da outra necessariamente.

O sr. Capra é, nisto, perfeitamente inconsequente com o método holístico que advoga. Para o holismo, toda separação estanque entre uma idéia e suas manifestações práticas é nada mais que um abstratismo. Holisticamente falando, o efeito benéfico ou destrutivo dos engenhos nucleares tem de estar arraigado no próprio modus cognoscendi que os produziu. Se o sr. Capra enxerga ligações até mesmo entre o mecanicismo e a estrutura da família patriarcal, como pode ser cego para as relações, muito mais próximas, entre o conteúdo teorético de uma ciência e suas aplicações práticas?

Em nossa sociedade, afirma o sr. Capra, o trabalho entrópico ( trabalho repetitivo que não deixa efeitos duradouros, como por exemplo cozinhar um jantar que será consumido imediatamente ) é desvalorizado, e por isto é atribuído às mulheres e aos grupos minoritários. Esta desvalorização, diz ele, é típica da sociedade industrial.

Nesse caso, deveríamos considerar sociedades industriais as tribos do Alto Xingu, as cidades-Estado da antiga Grécia, a sociedade européia da Idade Média. Não existiu jamais uma sociedade em que os serviços entrópicos fossem mais valorizados que os outros.

Mas, segundo o sr. Capra, existiu. Ele dá como exemplos os mosteiros de monges budistas e cristãos, onde cozinhar é uma honra e limpar as privadas um mérito invejável. Será preciso explicar ao sr. Capra que uma ordem monástica não constitui uma “sociedade”, mas uma comunidade minoritária que pressupõe em torno a existência de uma sociedade a cujos valores possa se opor? Se, dentro de um mosteiro, o trabalho entrópico tem valor, é justamente porque não o tem na sociedade maior em torno. Os trabalhos humildes adquirem ali dentro um valor espiritual e disciplinar justamente na medida em que no “mundo” têm pouco prestígio social ou valor econômico. A desvalorização social do trabalho entrópico não é característica da sociedade industrial, mas da sociedade humana em geral; inversamente, a sua valorização espiritual é um traço distintivo das minorias espiritualizadas envolvidas em alguma forma de rejeição religiosa do “mundo”.

“Tradições como o vedanta, a ioga, o budismo e o taoismo assemelham-se muito mais a psicoterapias do que a filosofias ou religiões”, diz o sr. Capra. Bem, se há um traço característico do Ocidente moderno, que o distingue radicalmente das tradições orientais, é justamente o desenvolvimento, nele, de uma psicologia como ciência independente de qualquer referência mística ou religiosa; e, em decorrência, o esforço para dar uma explicação “psicológica” de todos os fenômenos espirituais. Ao englobar as tradições espirituais do Oriente no conceito de “psicoterapia”, o sr. Capra mostra a típica incapacidade do cientificista moderno para apreender tudo quanto há nelas de puramente metafísico e não-psicológico.

Dizer, ademais, que essas tradições “se baseiam no conhecimento empírico e, assim, apresentam mais afinidades com a ciência moderna” é pretender enquadrar à força as idéias orientais numa moldura ocidental e moderna, para torná-las aceitáveis ao provincianismo acadêmico. Acontece que, nessa operação, tudo que há nelas de essencialmente oriental se perde por completo. O vedanta, por exemplo, afirma categoricamente que a experiência não pode trazer conhecimento espiritual de espécie alguma , e esta afirmação é mesmo um dos pontos basilares da doutrina, que o sr. Capra parece desconhecer completamente: toda experiência é ação, e a ação, não sendo o contrário da ignorância, não pode destruí-la ( cf.

Brihadaranyaka Upanishad , livro 10 ).

Por esse exemplo, vê-se que o sr. Capra está muito mais preso a esquemas mentais de acadêmico ocidental médio do que desejaria deixar transparecer. Alguém mais próximo da perspectiva oriental jamais procuraria explicar as doutrinas sapienciais da Índia ou da China à luz da moderna psicologia ocidental, mas, ao contrário, emitiria sobre esta, em nome delas, um julgamento bastante severo ( v., por exemplo, Wolfgang Smith, Cosmos and Transcendence , New York, l970, ou Titus Burckhardt, Scienza Moderna e Sagezza Tradizionale , Torino, l968 ).

Após realçar o sentido holístico das concepções fisiológicas de Hipócrates, o sr. Capra insinua que esse sentido desapareceu completamente da medicina ocidental e agora temos de ir buscá-lo na tradição chinesa: “A noção chinesa do corpo como um sistema indivisível de componentes inter-relacionados está muito mais próxima da moderna abordagem sistêmica do que do modelo cartesiano clássico.” Se o sr. Capra não seguisse o hábito ocidental moderno de saltar direto do pensamento grego para o Renascimento, teria reparado que a mesma concepção holística domina todo o pensamento médico e biológico do Ocidente medieval, com destaque para Sto. Alberto Magno e Roger Bacon. Na verdade, as concepções chinesas são muito mais parecidas com as da Idade Média que com a “moderna abordagem sistêmica”.

Ao explicar a psicoterapia de Arthur Janov, o sr. Capra diz que, segundo este eminente psiquiatra, as neuroses são tipos simbólicos de comportamento que “representam as defesas da pessoa contra a excessiva dor associada a traumas de infância”. Quem quer que tenha lido Janov sabe que, na teoria deste, a etiologia das neuroses não é de ordem traumática , mas reside na frustração constante e habitual de necessidades básicas, frustração que às vezes não é sequer percebida no nível consciente. Um trauma, na psicopatologia de Janov, nada mais é que um fator superveniente. A minimização da importância etiológica dos traumas é justamente o que singulariza o sistema de Janov. Embora conhecendo o assunto de orelhada, o sr. Capra não se inibe de opinar a respeito com ar professoral: “O sistema conceitual de Janov não é suficientemente amplo para explicar experiências transpessoais...” O que certamente não é amplo é o conhecimento que o sr. Capra tem do sistema de Janov.

Sugestões de Leitura Além das obras citadas no texto, o leitor poderá consultar com proveito as seguintes:

Quem aprecie o holismo e deseje ter uma informação séria a respeito, sem aberrações caprinas e com mais ensinamento valioso, leia o livro de Joël de Rosnay, Le Macroscope. Vers une Vision Globale ( Paris, Le Seuil, l975 ). O prof. de Rosnay ensinou no MIT e trabalha no Instituto Pasteur de Paris. É interessante ler também as obras de Edgar Morin, que foi aliás quem lançou a expressão “novo paradigma”. V. especialmente La Méthode , em dois tomos ( I, La Nature de la Nature , Paris, Le Seuil, l977; II, La Vie de la Vie , id., 1980 ).

O I Ching tem três traduções ocidentais famosas: a de James Legge ( versão brasileira de E. Peixoto de Souza e Maria Judith Martins, São Paulo, Hemus, l972 ), a de Richard Wilhelm ( versão inglesa de Cary F. Baynes, London, Routledge and Kegan Paul, l95l, várias reedições; versão brasileira de Lya Luft e Alayde Mutzembecher, São Paulo, Nova Acrópole ), e a de P.-L. F. Philastre:

Le Yi:King. Livre des Changements de la Dynastie des Tsheou.

Annales du Musée Guimet, t. huitième, 2 vols. ( Paris, Adrien Maisonneuve, l975 ). Um estudo sério do assunto requer o exame das três. A de Wilhelm é mais didática e fácil de consultar. Legge enfatiza muito as ligações estruturais entre as partes e abre para um estudo mais aprofundado. Das três a de Philastre é de longe a mais interessante, pois é a única que transcreve integralmente e pela ordem as glosas das dez “gerações” de comentaristas chineses.

Sobre os símbolos da tradição chinesa, v. o livro clássico de René Guénon, La Grande Triade ( Paris, Gallimard, 1957 ). Convém recorrer ainda, quanto aos ideogramas, à obra monumental do Pe. L. Wieger, Chinese Characters.

Their Origin, Etimology, History, Classification and Signification. A Thorough Study from Chinese Documents , transl. by L. Davrout, s. j. ( New York, Dover, 1965; a primeira edição é de 1915 ).

Sobre o pensamento chinês é ainda indispensável, a quem deseje aprofundar o assunto, estudar: quanto às concepções cosmológicas, Marcel Granet, La Pensée Chinoise ( Paris, Albin Michel, l968 ) e La Réligion des Chinois ( Paris, Payot, 1980 ). Quanto às instituições e ao governo, Granet, La Civilisation Chinoise ( Paris, La Renaissance du Livre, 1929 ). Sobre a moral, o direito e as classes sociais, Max Weber, The Religion of China , transl. by H. H. Gerth and C. Wright Mills ( New York, The Free Press, 195l ).

Um “novo modelo de história cultural” baseado em concepções orientais é algo que já estava realizado pelo menos desde l945, em Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps , de René Guénon ( Paris, Gallimard ). Um monumento de sabedoria.

Sobre a disputa Leibniz-Newton pode-se ler: José Ortega y Gasset, La Idea de Principio en Leibniz y la Evolución de la Teoría Deductiva ( em Obras Completas , t. 8, Madrid, Alianza, 1983 ); Paul Hazard, La Crise de la Conscience Européenne 1660-1715 ( Paris, Gallimard, 1961 ); Edwin A. Burtt, As Bases Metafísicas da Ciência Moderna, trad. José Viegas Filho e Orlando Araújo Henriques ( Brasília, UnB, 1983 ).

NOTAS Escrito em setembro de 1993.

Livro I, Cap. III.

Os Que Nao Pensam

O sujeito pensa que disse, mas não disse nada | Época,

Não posso deixar de aplaudir a sugestão do ministro Weffort de que o grego e o latim devem voltar a nossas escolas. A sugestão, é claro, parecerá odiosa aos cretinos que imaginam que a cultura é um instrumento que você compra para fazer com ela o que quiser, e com base nessa premissa alegam que as línguas clássicas “não servem para nada”. É característico do semiletrado não compreender a cultura senão como utensílio ou como adorno, sem enxergar que ela não existe para nós fazermos alguma coisa com ela, mas para ela fazer algo conosco: para nos construir e nos fortalecer enquanto seres capazes de consciência.

Nada no repertório dos conhecimentos humanos tem esse poder educativo como os estudos clássicos. Uma boa injeção de gramática latina e filosofia grega, na juventude, nos torna imunes, na idade madura, à infinidade de estupefacientes culturais que hoje danam as melhores inteligências.

Não digo que esse remédio, sozinho, possa deter a alucinante precipitação da inteligência nacional ladeira abaixo. Mas pode melhorar a compreensão da linguagem, que hoje raia, nas elites, o analfabetismo funcional.

Arrastados no declínio da fala geral, mesmo os homens mais preparados acabam por perder de todo a compreensão do que lêem e mesmo do que dizem.

Tomo como exemplo a declaração do deputado José Genoíno: “Há dois documentos da Igreja que prezo muito e coloco no mesmo patamar do Manifesto Comunista: Os Dez Mandamentos e O Sermão da Montanha”.

Se Os Dez Mandamentos põem Deus acima de todas as coisas, o homem que diz amá-los tanto quanto a uma filosofia que professa expulsar Deus dos céus está, no ato, declarando que para ele o culto a Deus e o ódio a Deus valem exatamente o mesmo. Obviamente pode-se desprezar por igual essas duas coisas, ou amá-las em sentido desigual, mas jamais amá-las por igual. Isso decorre da simples apreensão do sentido do enunciado, e é esta apreensão que na declaração do deputado falha por completo.

Considerados na mesma clave de sentido, Os Dez Mandamentos e o Manifesto Comunista nunca têm valores idênticos. Se um diz a verdade, o outro mente.

Não há terceira alternativa. Nem Genoíno nem qualquer outro ser humano pode amá-los “no mesmo patamar” sem, no ato, declarar guerra àquilo que diz. Se ele afirmasse que seu coração oscila entre dois pólos, ou então que ama os dois textos em planos diversos, ou que nenhum deles lhe diz nada exceto como documento histórico, tudo estaria bem. Ao expor como emblema convencional da harmonia dos contrários algo que, de fato, é a mútua hostilidade dos incompatíveis, ele cai no tipo de linguagem auto-hipnótica que hoje domina nossos debates públicos, uma linguagem que, em vez de despertar a consciência, a entorpece.

Quando tentei explicar isso a uma platéia que não era de iletrados nem de estudantes, mas de juízes de Direito, alguns me objetaram que eu estava exigindo rigor lógico de uma frase que deveria ser compreendida em sentido poético ou plurissenso; e tive a maior dificuldade para explicar à platéia a diferença entre a multiplicidade de sentidos da fala poética e a ausência de sentido de uma afirmação que se eletrocuta a si mesma. Pois para compreender isso é preciso captar a diferença entre uma mera contradição lógico-formal (já que uma verdade pode ser perfeitamente expressa em termos contraditórios) e a contradição efetiva, real, entre dois atos interiores que não podem coexistir exceto como erro de auto-interpretação do falante, isto é, como sinal de que ele, rigorosamente, não sabe o que diz.

Em 9 de dezembro de 2000

Ciencia Politica

No site das Faculdades Porto-Alegrenses, | Zero Hora

http://www.fapa.com.br , encontro estas linhas de um tal Reginaldo Carmelo de Moraes, professor de ciência política da Unicamp, publicadas na indefectível Caros Amigos e recomendadas como leitura para os alunos do curso de licenciatura em História daquela instituição gaúcha:

“Os neoconservadores adeptos do filósofo Leo Strauss retomaram a seu modo a teoria nazi de Carl Schmitt, de modo a adaptá-la ao fundamentalismo cristão de Bush e seus íntimos. Schmitt, principal jurista do Terceiro Reich, tomara como tarefa liquidar a Constituição da República de Weimar. Dizia que ela, fundada sobre o liberalismo político e os direitos individuais, era corrompida e impotente para conter os movimentos políticos carismáticos e ‘mitos irracionais’ com que os bolcheviques e similares conquistavam as massas. Por isso, defendia um regime de exceção, uma ditadura, que governasse por decreto e salvasse a ordem... Strauss e seus discípulos nos EUA não esqueceriam essas lições do mestre. Eles também teriam seu incêndio do Reichstag e sua invasão da Polônia. Logo depois do 11 de setembro, o Departamento de Justiça baixou normas legais que davam ao governo federal poderes de um Estado policial.”

Se algo aí se demonstra é que esse menino nunca leu nada de Carl Schmitt, muito menos de Leo Strauss. Longe de tentar defender o Estado contra o assalto dos “mitos irracionais”, Schmitt via a própria ordem política como essencialmente irracional, constituída da rivalidade entre alternativas que, não admitindo arbitragem lógica, requeriam a divisão sumária do campo entre “amigos” e “inimigos” e a luta pela vitória a todo preço.

Essa doutrina ajustava-se como uma luva não somente à ideologia nazista, mas também à comunista, o que fez de Carl Schmitt, como escreveu Corrado Occone, “il reazzionario che piace a la sinistra” (o reacionário que agrada à esquerda). Não há, efetivamente, diferença essencial entre ela e a regra leninista do debate político, que visa “não a persuadir o adversário, nem a apontar seus erros, mas a destruí-lo”.

Houve realmente, às vésperas da II Guerra Mundial, uma corrente política empenhada na busca dos objetivos que Carmelo diz terem sido os de Schmitt. A constituição austríaca de 1934, impondo um regime de exceção para conter o avanço dos “mitos irracionais”, não se inspirou em Schmitt, mas, ao contrário, no temor causado pela vitória nazista na vizinha Alemanha. Carmelo troca as bolas e atribui ao nazismo as intenções de suas vítimas austríacas.

Ainda mais resplandecente de ignorância é a conclusão do parágrafo, segundo a qual o atentado ao World Trade Center teria dado a “Strauss e seus discípulos” a oportunidade de colocar em prática a doutrina Schmitt: em 11 de setembro de 2001, Leo Strauss não podia “recordar as lições” de quem quer que fosse, pois estava morto desde 1973.

O espírito de Carl Schmitt baixou é sobre o próprio Carmelo, que, no seu ataque aos neoconservadores, não busca apontar algum erro na sua filosofia, da qual ele nada sabe, mas apenas sujar-lhes a reputação por meio de uma associação postiça com o teórico nazista, do qual, para cúmulo de ironia, o citado Leo Strauss, judeu fugido do III Reich, foi um dos críticos mais severos.

Até quando a simples adesão a uma vulgar e baixa retórica esquerdista será, neste país, condição necessária e suficiente para o exercício do cargo de professor universitário, independentemente e acima das mais elementares exigências intelectuais?

Em 7 de setembro de 2003

Cartas Comentadas Sobre Linguistica E Gramatica

Li seu artigo na | De Maria Oliveira para Olavo de Carvalho

Bravo!

de março e acabo de recuperar na sua H.P. o artigo “Quem come Quem”, que julgo ser o primeiro que deu origem à polêmica com o professor Bagno.

Seu segundo artigo (março 2000 na Bravo) é espetacular, tive vontade de conhecer a tese do prof. Bagno para checar se o acadêmico desenvolve um argumento tão simplista e ingênuo.

Mas o texto original “Quem come Quem”, a meu ver, não guarda o mesmo brilho.

Semanas atrás, em uma das listas literárias de que participo (predominante de escritores brasileiros e portugueses), enfrentamos uma discussão cerrada sobre o uso de estrangeirismos X os seminários em defesa da língua nacional que andam na moda aqui no Brasil.

Posso estar cometendo um grande engano, mas meu argumento central na discussão era de que a identidade nacional associada à língua nacional é uma criação dos Estados-Nações, demarcada em fins do século XIX.

OBSERVAÇÃO DE OLAVO DE CARVALHO – Você está, sim, cometendo um grande erro. A promoção das línguas nacionais como instrumento de unificação dos povos veio muito antes da consolidação dos Estados-Nações e foi uma das condições que a possibilitaram. A Itália do séc. XIII em que Dante escreveu a Divina Comédia em língua local e polemizando em favor desse idioma despertou um senso de unidade nacional (em “Sobre a Eloqüência Vulgar”) era um conjunto disperso de ducados e principados, e o mesmo é verdade quanto à Alemanha, unificada primeiro pela tradução da Bíblia por Lutero e só muitos séculos depois unificada politicamente. Se as línguas nacionais e suas normas fossem impostas por decretos arbitrários de governos, a tese do Bagno não estaria nada errada. Mas o fato é que as nações nascem das línguas, e não estas daquelas. Por isto mesmo é impossível conservar um senso de identidade nacional quando, à força de conformar-nos a uma atualidade sociológica criada pela mídia e pelo imperialismo cultural, abdicamos de conservar o senso de unidade histórica da língua, o qual só pode ser sustentado com base na tradição literária perpetuamente revivificada pelo ensino (para a noção de tradição literária, baseio-me principalmente em F. R. Leavis e T. S. Eliot). Ora, se o ensino da gramática rompe com a tradição literária, adaptando-se ao fato consumado sociológico determinado por fatores extranacionais e antinacionais, a tradição mesma acaba sendo rompida, o gosto literário cai, a língua se torna confusa e tosca, os debates públicos caem para o nível dos slogans brutais, o próprio nacionalismo assume o sentido de uma revolta suicida. Isso aconteceu na Alemanha entre as duas guerras. Karl Kraus foi o grande campeão da língua alemã contra sua dissolução pelos jornalistas e publicitários, na qual via, com olho profético certeiro, o prenúncio da tragédia nacional. Análoga degradação já está acontecendo no Brasil, e o simples fato de analfabetos funcionais como Marcos Bagno serem aceitos como mestres do idioma já é sinal da perda geral da inteligência lingüística, substituída por um pedantismo pseudo-científico bom apenas para enganar caipiras.

Usei como exemplos dados de Eric Hobsbawm- Nações e Nacionalismo -, que cita a adoção do italiano (ou pelo menos ao que deu origem à língua italiana atual), pós-Unificação Italiana, argumentando que essa foi uma escolha consciente e arbitrária de uma língua falada por cerca de 2,5% da população para se tornar língua nacional, escolhida entre as tantas faladas nas regiões da Itália e principalmente relata o estabelecimento da escola primária (portanto da alfabetização e adoção de uma única língua normativa) por todos os Estados-nacionais . Escola primária e exército foram aliados importantes no fermento do nacionalismo de fins do XIX e XX.

DE C. – Hobsbawm não sabe italiano o suficiente para compreender que o dialeto toscano, escolhido para unificar nação e ensino, era já o mais desenvolvido, literariamente, o que tinha o maior número de documentos escritos, portanto o único que, na prática, podia servir de base a uma reforma do ensino.

Enfim, penso que precisaríamos fazer esse mergulho profundo que você propõe em seu texto, levando em conta que a nossa identidade nacional (associada à língua) e mesmo a dos portugueses e dos demais europeus é um fenômeno relativamente novo e a preocupação com os estrangeirismos da moda (isso me lembrou um pouco os argumentos de Saramago quando veio ao Brasil, na época em que ganhou o prêmio Nobel e, indignado, dizia que estávamos sendo colonizados) talvez não seja a questão crucial.

DE C. – Saramago tem toda a razão. Apenas lamento que ele não tenha dito coisa parecida quando, por influência soviética, as escolas romenas diminuíram o tempo de ensino do grego e do latim para que as crianças pudessem aprender... russo!

Por outro lado, desenvolver literariamente um dialeto é lançar as sementes de uma revolução da qual pode resultar seja o nascimento de uma nova nação. Por isto as grandes potências expansionistas (Inglaterra e URSS, por exemplo) sempre fomentaram o desenvolvimento dos dialetos nas nações que desejavam dominar, ao mesmo tempo que, nos seus próprios territórios e nas áreas já sob seu domínio, impunham com mão de ferro a unidade da língua nacional. Stálin, não se esqueça, foi lingüista, desenvolveu a lingüistica como arma de guerra e assinalou explicitamente essa distinção estratégica. Hoje em dia a técnica intervencionista mudou um pouco: como o único império que restou é tão gigantesco que pode abarcar comunidades de muitas línguas sem abalar a estrutura jurídico-política do conjunto, ele impõe a mesma política “multicultural” a nações mais fracas que não podem arcar com tal multiplicidade sem dissolver-se ou sem ter de submeter-se a poderes extranacionais. Por exemplo, na Romênia, um país paupérrimo e em crise, as organizações internacionais fomentam a criação de escolas independentes em língua húngara para a população de húngaros da Transilvânia. Os húngaros se enchem de brios e já falam em separatismo. Para evitar o separatismo, o governo romeno, sem recursos próprios, corre para os braços das organizações internacionais em busca de socorro. Tudo isso foi muito bem calculado mais de cinqüenta anos atrás e hoje é aplicado em escala mundial, com a prestimosa colaboração de jovens lingüistas burros que se entusiasmam com o valor nominal das belas causas e, mesmo quando recebem dinheiro de fundações internacionais, não se dão conta de para quem trabalham, continuando, ao contrário, a imaginar-se muitos nacionalistas. Para os planejadores estratégicos do império, manobrar intelectuais do Terceiro Mundo é mais fácil do que tirar um doce da boca de uma criança.

Quanto à polêmica- norma culta X norma “popular”- ela não é nova, não é mesmo? Está presente na educação desde o debate entre Saviano e Paulo Freire, lembra-se? O primeiro defendia que era democrático levar o que há de Universal na produção do conhecimento (ocidental) às salas de aula e o segundo por meio do seu método buscava a chave (nas palavras chaves) para abrir o universo embotado dos analfabetos e excluídos através da consciência, recuperando a auto-estima desses. Ambos queriam a integração da massa excluída, ambos queriam desenvolver a auto-estima, mas os caminhos bastante diversos se debateram e ocuparam longos anos nos cursos de pedagogia.

DE C. – O problema da democracia é que começa querendo democratizar os bens valiosos e termina por democratizar a avaliação dos bens. Aí os antigos produtos culturais vulgares com que a massa era alimentada antes da democracia são promovidos por aclamação ao grau de bens supremos, e, em nome da democracia, o elitismo não apenas volta com toda a força mas é consagrado como sinônimo de igualitarismo. Começamos por querer das às massas Bach em vez de Gugu Liberato e terminamos por não conseguir distinguir um do outro.

Tudo isso reflete a degradação da inteligência, o acúmulo de confusões grosseiras nas cabeças dos intelectuais, que estendem noções de filosofia política para além de suas fronteiras lógicas. Sabe onde isso termina? No “Socialismo intergalático” dos trotskistas: ETs de todas as galáxias, uni-vos!

Na discussão entre Saviani e Paulo Freire, estou decididamente com o primeiro, mesmo porque nunca acreditei na sinceridade de Freire, um manipulador contumaz.

Continuamos com baixa auto-estima, continuamos produzindo analfabetos, mas o pior, a meu ver, é o número crescente dos índices de analfabetismo político... analfabetismo acadêmico, analfabetismo jornalístico....

Beijão e saiba que gostei deveras de sua HP, suscitou-me idéias! Coisa difícil hoje em dia....

Frô Maria Oliveira afrodite_fro@uol.com.br De Olavo de Carvalho para Maria Oliveira Prezada amiga, Sua carta, que muito agradeço, será respondida através da minha homepage, pois a discussão que levanta é importante demais para ficar só entre nós dois. Tudo bem?

Um beijão e os melhores votos do Olavo de Carvalho De Maria Oliveira para Olavo de Carvalho Sem problemas, Olavo. Gostaria de lhe enviar uma resposta que uma amiga postou ao seu artigo da Bravo de março (eu coloquei o endereço do seu site numa das listas literárias de que participo, indicando a leitura) e ela levantou algumas questões bastante pertinentes.

Há também um debate (estrangeirismos X identidade nacional) que gerou cerca de 35 correspondências e envolveu muito dos escritores e poetas na lista (Escritas- lista lusófona, que tem como mediador um poeta português), mas essa discussão, apesar de riquíssima, tem a participação de pessoas que não se sentiram à vontade em verem migradas discussões internas à lista.

Um grande abraço, Frô Segue a mensagem sobre o seu artigo na Bravo!

de março 2000.

De Rosita Samarani Prates para Maria Oliveira 16 de Março de 2000 Putz, Frô!

Quanto pano pra manga dá esse artigo...

A velha rixa da Lingüística com a Gramática Normativa... Confesso estar em dúvida desde que pus meus pezinhos (que eufemismo, 39!) no curso de Letras. Meu professor querido amado fofinho do meu coração era pela tradicional (o “querido-amado-fofinho” era só eu que achava, ele era uma Aracy ao cubo!); as posições dos lingüistas, porém, sempre me pareceram difíceis de combater.

Em sua argumentação, Olavo de Carvalho induz muito bem à conclusão de que a lingüística troca um preconceito por outro, mas não é bem assim. Ela não se propõe a trocar uma receita literária por uma receita social: propõe o fim do receituário. Para a lingüística, não há normas de “bem falar”.

DE C. – Uma ciência que não possui instrumentos para fazer uma distinção não possui também autoridade para decretar que essa distinção não existe ou que outras ciências não possam discerni-la. A lingüistica, no caso, segue o mesmo erro dos antropólogos, que de início professam abster-se metodologicamente de juízos de valor sobre os fatos culturais e terminam por decretar que entre esses fatos não há diferenças de valor – como se a abstinência metodológica de abordar uma questão fosse o instrumento ideal para solucioná-la! Deduzir do método o fato é, realmente, mais do que pode suportar o saco humano. Esse erro grotesco está tão generalizado que constitui, por si, um alarmante sintoma de obscurecimento da inteligência, da queda no barbarismo, que a profusão de pedantismos em circulação, longe de disfarçar, só acentua mais ainda.

Essa história de sair a campo para para ver o que o pessoal culto anda falando para impor seu idioleto a todos os falantes é coisa de gramático tradicional metido a moderninho, que acende uma vela pra deus, outra pra mim. Pensa estar fazendo ciência, mas continua com mania de estabelecer o certo e o errado e de empurrar normas goela abaixo.

DE C. – Você tem toda a razão: o Bagno usa pretextos extraídos da lingüistica para impor um neo-normativismo sociológico fundado no império do fato consumado. Ora, um dos princípios elementares do método científico é que não existe meio lógico de transfigurar o fato em norma. A gramática normativa tradicional, ao contrário, parte de valores consensuais explícitos – a identidade nacional, a continuidade da consciência histórica, o diálogo entre a consciência individual e a tradição literária, a analogia macrocosmo-microcosmo entre cultura nacional e pessoal, etc. – e procede à regulamentação sistemática da língua com base nesses valores. Isto é certamente muito mais científico do que a pretensa “gramática de base lingüística”. A língua enquanto instrumento de cultura, de educação, de autoconsciência, transcende infinitamente o alcance conceptual e metodológico da lingüistica em geral, mas está rigorosamente dentro da esfera de jurisdição da velha filologia, da qual deriva a gramática normativa.

Outra coisa difícil é falar da Lingüística como uma coisa única. Há estruturalistas, funcionalistas, gerativistas, lingüistas do texto (originários de todas as correntes), que promovem arranca-rabos fenomenais. Desses, os que mais se meteram em questões do ensino de línguas foram os estruturalistas e os lingüistas do texto, esses últimos disparadamente melhores. É que o objeto deles não é a sentença, é o texto (mais difícil de ser delimitado, mas, certamente mais representativo); além disso, fazem uma abordagem mais “orgânica”, mais... real, oras! O estruturalismo originou aquelas aulinhas babacas de preencher lacunas a partir de paradigmas. Credo! O trabalho a partir de estruturas textuais é muito mais produtivo, criativo... Afinal, não falamos por sentenças, falamos por textos (ainda que de uma só sentença).

DE C. – As diferenças entre escolas lingüísticas permanecem alheias à questão aqui discutida, pois a questão da gramática normativa tem aspectos que escapam de toda abordagem lingüística e entram em terrenos mistos onde os lingüistas não apitam nada mas onde a filologia, por ser ao mesmo tempo menos pretensiosa em seus métodos e mais abrangente em seu objeto (a cultura inteira), ainda pode fazer alguma coisa.

Os principais problemas da lingüística são dois: – primeiro, é muito recente o tratamento científico da língua (o que abre para um terceiro problema, que é o generalizado modelo iluminista de ciência, do qual anda difícil pra qualquer uma delas fugir – né, Frô?), pois até o início do século o modelo de gramática era o receituário greco-romano, normativo, baseado nos escritores consagrados (*). É covardia pisar nos calos de uma ciência tão recente. – segundo, ...

DE C. – A língua enquanto objeto da lingüistica é uma seleção abstrativa operada arbitrariamente por Ferdinand de Sausurre no corpo de língua viva. Leia A Origem da Linguagem de Eugen Rosenstock (em breve na Biblioteca de Filosofia da Record), e verá a que ponto a pretensão de opinar sobre a totalidade da língua a partir de generalizações obtidas de uma pequena fatia dela é pura alucinação. A própria multiplicidade de escolas em debate na lingüistica mostra que ela ainda está numa fase de confronto retórico e muito longe de entrar no que Kant chamava “o caminho seguro da ciência”. Os lingüistas deveriam botar ordem na sua própria casa antes de querer regulamentar o mundo ou mesmo antes de decretar se existe ou não existe expressão lingüística melhor ou pior.

...ai, gente... são duas e trinta da manhã... fiquei caprichando tanto no primeiro problema (tanto, que abri para um terceiro), que não lembro mais o que eu ia falar... não vou apagar, vou deixar assim, pra ficar devendo o resto...

Ah! eu lembro o que ia dizer no asterisco(*): se o barato do escritor é justamente explorar novas possibilidades da língua, que coisa mais chata virar norma depois, não?

DE C. – [Adendo] Não se preocupe, minha amiga. As normas não estreitam o campo de possibilidades, pela simples razão de que são elas que o criam. No linguajar corrente da mídia e da universidade, fortemente impregnada de preconceitos ideológicos e de um certo espírito de rebelião pueril, “norma” virou sinônimo de amarra, de limitação, de escravidão. Mas uma falsa semântica não tem o poder de mudar a estrutura da realidade. A norma é precisamente a ordenação racional pela qual a ação humana organizada pode vencer as limitações naturais e tornar possível a liberdade individual. Toda língua compõe-se de normas, e quando a gramática normativa explicita essas normas ela faz delas um instrumento de ação. Uma língua sem normas explícitas teria ainda estrutura e ordem internas, apenas essa estrutura e ordem, permanecendo implícitas e inconscientes, escravizariam totalmente o pensamento humano, subjugando-o a regras desconhecidas. A língua, em vez de servir ao pensamento, seria substitutivo dele, e as inteligências se desperdiçariam buscando combinações gramaticais em vez de, apoiadas numa estrutura gramatical fixa e consciente, estar livres para pensar. A gramática é a arte da construção de sons e grafismos, e ela serve ao pensamento como a arte da construção civil serve aos propósitos de uso do edifício. Se o uso, ao contrário, passa a ser determinado pela construção, o morador serve ao edifício e não este àquele. A simplificação e normatização dos meios cria a liberdade na esfera dos fins. Uma gramática “livre” de normas criaria uma lógica escrava da gramática. Seria a maior catástrofe intelectual de toda a história humana.

Huãããããmmmmmm, minhammm, minhammm, minhammmmmmmm...!!!!!!!!!!!!!! (bah, engoli vocês com esse bocejo!)

Simboli E Miti Nel Film Il Silenzio Degli Innocenti

JOSÈ CARLOS MONTEIRO | EUGENIA GALEFFI e MAURO PORRU

PROFESSORE DI STORIA DEL CINE ALL’UNIVERSITÀ FEDERALE DI RIO DE JANEIRO 1996 PREFAZIONE Come una sfinge, Il Silenzio degli Innocenti si è imposto, quale antropofago, alla stragrande maggioranza dei critici che si sono impegnati a decifrarne gli enigmi. Molti, frettolosi e superficiali, hanno evitato la sfida. Hanno preferito scartare il film come se si trattasse solo di un thriller carico di tensioni ed efficace — un adattamento criterioso e solido dell’omonimo romanzo di Thomas Harris senza la trascendenza che alcuni esegeti si ostinavano a vedere al di là della sua apparenza “hollywoodiana”. Così, con quest’atteggiamento evasivo, si risparmiavano l’imbarazzo di non aver trovato risposte adeguate agli innumerevoli misteri latenti nel capolavoro di Jonathan Demme. Ma altri critici, irresistibilmente affascinati dal lussurreggiante simbolismo del film, hanno deciso di esaminarlo più profondamente, cercando di andare oltre le apparenze formali del primo impatto.

Ma chi ha rivelato le qualità immanenti e trascendenti del film in tutti i loro aspetti non sono stati i critici cinematografici, ma gli studiosi dei miti e dei simboli. Uno di essi, Olavo de Carvalho, ne è in modo particolare, riuscito ad elucidare le metafore, le realtà archetipe e le suggestioni esoteriche di The silence of the Lambs. Nelle conferenze tenute presso la scuolaAstroscientia in occasione della presentazione del film, il suoinsight ha interpretato sotto nuovi punti di vista non solo la narrativa e il suo significato, ma anche la rappresentazione e le immagini “costruite” dal regista nordamericano. Da quest’analisi, affascinante e — oso dire — definitiva, emerge la visione di un’opera densa e profonda, esoterica ed iniziatica, unica nell’ambito del cinema americano degli ultimi tempi. In Europa, il russo Andrei Tarkovsky ( Andrei Rublev, Solaris, Stalker ), il francese Robert Bresson ( Pickpocket, Lancelot du Lac, Le Procès de Jeanne D’Arc ), l’italiano Ermanno Olmi ( L’Albero degli Zoccoli ), il greco Theo Angelopoulos ( Passaggio attraverso la Nebbia, Il Viaggio dei Commedianti ) e — perchè no? — il polacco Andrzej Zulawski ( La Terza Parte della Notte ), scrutanono già da molto tempo, nei loro film, i tormenti intimi, i dolorosi processi della “conoscenza del dolore”, le vicissitudini di chi passa dal crollo alla redenzione.

Olavo de Carvalho da un lato, dimostra di possedere un interesse per le arti simboliche, per il mondo dell’invisibile, e dall’altro, dimostra una profonda comprensione dei mezzi usati dall’ideatore, per poter fare della sua opera un film classico e moderno allo stesso tempo. Con molta chiarezza, senza un’erudizione libresca, ma con un notevole dominio delle fonti su cui si basa, Olavo de Carvalho porta la sua interpretazione riguardo la simbologia di The Silence of the Lambs a dei livelli raffinatissimi. Per come lo vede lui, il lavoro di Jonathan Demme è stato ideato e gestito in modo da rattificare la traiettoria iniziale dei personaggi ( in particolare i protagonisti centrali dell’intreccio, l’astuto e cannibalesco Dott. Hannibal Lecter, l’esitante detective Clarice Starling, il misterioso capo dell’FBI Jack Crawford e l’allucinato serial killer Jame Gumb ). E ancora: Demme, secondo l’analisi di Olavo de Carvalho, voleva innanzitutto fare del suo film “un apologo sul conflitto tra l’intelligenza umana e l’astuzia diabolica” — un apologo sul tragitto dell’iniziazione autoconoscitiva.

Diderot asseriva che “tutta la vera poesia è emblematica”. Se così è, si può dire che Il Silenzio degli Innocenti contiene poeticamente, in ogni immagine, tutti gli emblemi della ricerca dell’individuazione, della rivelazione, della verità. Attraverso il tragitto di Clarice Starling, Jonathan Demme evoca l’itinerario dei cavalieri medievali alla ricerca del Santo Graal, di tutti i mistici nel confrontare le tentazioni del Mondo e del Diavolo. Nel suo testo, come se si trovasse in un cosmoprocesso estetico e spirituale, Olavo de Carvalho ridimensiona le angoscie e le perplessità della figura di Clarice Starling, per poterci far capir meglio i suoi gesti, i suoi atteggiamenti. E, come se fosse davanti ad una lente d’ingrandimento, ( ri )configura ogni piano: ogni sequenza de Il Silenzio degli Innocenti per poterci infine, dare un nuovo film. Presumo addirittura per il suo autore.

Josè Carlos Monteiro Radio Jornal do Brasil NOTA PREVIA ALLA PRIMA EDIZIONE BRASILIANA Questo libro trascrive — senza alterazioni tranne che per i particolari di stile — la dispensa distribuita ai fruitori delle tre conferenze che, sotto il titolo “Interpretazione Simbolica del Film Il Silenzio degli Innocenti”, ho pronunciato alla scuolaAstroscientia, di Rio de Janeiro, nel luglio 1991, quando il film era ancora in prima visione.

Alcune copie sono state anche distribuite a persone dell’ambiente del cinema e della stampa; ma circostanze fortuite ed avverse hanno impedito che si fosse fatta allora una regolare edizione, la quale ora è possibile grazie alla generosa collaborazione di Stella Caymmi e Ana Maria Santos Peixoto.

Avendo vinto il film cinque Oscar nell’aprile 1992, mi pare ora il momento buono per rimetterlo in discussione, cercando, per la seconda volta, di andare un po’ oltre i soliti commenti banali ( quando non francamente erronei ) che sono stati l’unica reazione della critica nazionale quando c’è stata la sua proiezione.

Questo libro appartiene ad un genere anacronistico e sicuramente susciterà una certa perplessità da parte di un pubblico abituato a ricevere, sotto l’involucro di “critica del cinema”, ciò che è in effetti assolutamente differente. È che diciotenne — due decenni e mezzo fa, e in un altro Brasile — non era peccato scrivere dei lunghi saggi su di un film; non era peccato pensare, investigare, tentare di approfondirne il senso. Saggi come questo erano pubblicati sulla stampa in ogni momento, e noi, giovani aficionados, appena terminava lo spettacolo correvamo alla ricerca delle parole sagge di Almeida Salles, di Paulo Emìlio, di Guido Logger, di Alex Vianny e di tutti coloro che si dedicavano al mestiere di aiutarci a comprendere l’arte del cinema; mestiere che oggi come oggi soffre dello stigma e della riprovazione comune, tranne che quando esercitato discretamente dentro il ghetto universitario. Le pagine critiche dei giornali hanno un’altra finalità, e pensare in pubblico è diventato indecente. Mi dispiace ferire la decenza popolare: è che, decisamente, appartengo ad un’altra epoca.

Olavo de Carvalho SIMBOLI E MITI NEL FILM IL SILENZIO DEGLI INNOCENTI Il Silenzio degli Innocenti ( “The Silence of the Lambs” ) è ben più di un thriller abilmente realizzato o del dramma della passioneche la critica brasiliana vi ha scorto. Se colpisce così profondamente la platea, non è solo per il fascino macabro del tema, per la destrezza quasi allucinante della direzione o per le interpretazioni toccanti di Anthony Hopkins e di Jodie Foster, quanto per il simbolismo profondo della sua favola. Anche se la coscienza dello spettatore non se ne accorgerà, questo simbolismo non può fare a meno di colpirlo nell’intimo della sua condizione umana, per la forza di un linguaggio universale. Questo raggiungimento simbolico eleva il film di Jonathan Demme alla categoria del grande capolavoro.

Come ogni grande opera d’arte, questo film fa scatenare delle sensazioni che vanno oltre al mero godimento estetico immediato, e riecheggiano in benefici psicologici di grande portata. Mai, da “M: il mostro di Dusseldorf” di Fritz Lang, o “Vergogna”, di Ingmar Bergman, il cinema è stato così vicino a realizzare una percezione come quella della tragedia greca, che, secondo le parole di Aristotele, era quella di ispirare “terrore e pietà” o più precisamente, la pietà mediante il terrore: purificare l’uomo e renderlo incline al bene mediante la visione dell’Assurdo e del male inerenti all’ordine cosmico.

Tuttavia, per poter sfruttare pienamente i benefici che quest’opera ci porta, bisogna andare allora al puro impatto estetico iniziale e approfondire una coscienza intellettuale del suo significato. L’insegnante che addita e avverte, mentre fa girare l’attenzione dello spettatore verso i punti significativi e le strutture profonde, prolunga così e potenzia il lavoro dell’artista, al tempo stesso nel quale apre i canali per un incontro con l’anima del pubblico.

Questo sarebbe, a rigore, il compito della critica. Non riesco a concepire il critico militante se non come una specie di educatore, nella linea proposta da Mathew Arnold. Non c’è da stupirsi, pertanto, che molto spesso io mi rissenta ( disilluda ) con la critica nazionale, cinematografica, letteraria o teatrale che sia: questa si è ridotta alla mera notizia, all’apprezzamento secondo schemi tecnico-industriali o all’espressione di sentimenti personali. Queste tre modalità di anti-educazione sono state grandemente praticate a proposito de Il silenzio degli Innocenti. Così si è persa una grande opportunità. Nelle pagine che seguono, faccio quello che posso per rimediare a questa carenza.

Inizio con un esempio. L’articolo di Márcia Cezimbra ( Quaderno Idéias del Jornal do Brasil, 2 giugno 1991 ) mette i lettori su una falsa pista, con la quale non si arriverà mai a capire il film. Ma lo sbaglio deve esser passato inosservato, giacchè molti spettatori, che ho interpellato, hanno recepito la storia esattamente come lei: una favola del desiderio, il dramma della passione occulta tra uno psicopata antropofago e una bella agente dell’FBI. Questa interpretazione è stata accettata da quasi tutti i critici.

Io non avrei il coraggio di oppormi a tanta rispettabile unanimità, se essa non fosse in contraddizione anche con le opinioni dei due attori principali, espresse in interviste che o non sono state lette o non sono state prese in considerazione in Brasile. Hopkins dice che il Dott. Lecter — il supposto oggetto dei desideri dell’eroina Clarice Starling — è veramente il demone. Non è un demone, ma il Demone, nome proprio. E Jodie afferma che Clarice è una vera eroina come non c’è mai stata al cinema, perchè, nel quadro di un dramma mitologico, lei deve “lottare contro i demoni e conoscere se stessa”. Ed è stata proprio questa anche la mia interpretazione riguardo al film: la lotta di un’eroina socratica per dissotterrare la verità dal profondo delle tenebre, della menzogna, della follia. Jodie ha ragione nel dire che un’eroina di questa portata al cinema non c’è mai stata ( con un’unica possibile eccezione, lo osservo, di Giovanna D’Arco di Robert Bresson ). Ma raggazzine affascinate da mostri sexy sono una cosa banale che possiamo vedere ogni settimana nei serials televisivi, calcati in King Konge La Bella e la Bestia. Se Jodie e Hopkins hanno ragione, allora i critici brasiliani si sono profondamente sbagliati.

Il motivo di non aver centrato il bersaglio, è in certi tic mentali che si sono introdotti a mo’d’epidemia tra gli intellettuali brasiliani, e che fanno scorgere il tutto attraverso una linea obliqua pre-fabbricata. In Brasile le parole “desiderio” e “passione” in questi ultimi anni sono diventate chiavi universali, applicabili a destra e a manca per spiegare il tutto. È anche un fenomeno locale l’onda di nietzschianesimo militante, che non riesce a far scorgere qualcosa di buono che sotto forma di un male almeno apparente e che riscontra in ogni affermazione esplicita di valori positivi un sintomo di ipocrisia o di falsa coscienza. Da questo punto di vista, tutto al mondo è simulazione e auto-inganno: tolti i veli della finzione, viene a galla l’unica vera realtà, la quale, in tutti i casi e circostanze, consiste sempre e solamente in “passione” e “desiderio”, con dei tocchi di machiavellismo indossato come naturale e sano a titolo di “sincerità”. L’ermeneutica da ciò risultante — e che i suoi cultori applicano indistintamente a sintomi psicopatologici, a manifestazioni dell’arte e del pensiero, a istituzioni e costumi, insomma, a tutto, meno che alle proprie idee — è rigida, meccanica, e ripetitiva fino alla demenza. Non occorre dire che la tendenza a veder le cose da quest’ottica maliziosa è un fenomeno sociologico brasiliano, facilmente spiegabile, data la delusione dei nostri intellettuali per la democrazia tanto duramente conquistata e tanto velocemente guastata. Visto da questa ermeneutica, il Sole è mosso dalle ombre e, evidentemente, il polo attivo della trama de Il Silenzio degli Innocenti non può che essere il Dott. Lecter. Logicamente: lui è il cattivo, dunque dev’essere il buono. Il demone intelligente esercita un fascino sull’intellettualità sconfitta, che, vedendo la vittoria dei malvagi sul mondo, sogna di diventare come loro; e, ipnotizzata dal sorriso maligno del Dott. Lecter, attribuisce le stesse sensazioni a Clarice Starling, senza notare che, con ciò, non ne fa un’interpretazione ma una proiezione.

Storie di smascheramenti di valori, dove il bene può apparire soltanto sulla forma inversa di una “sincerità” del male esplicito, sono di moda in Brasile, per esempio nelle telenovelas. Sono tipiche di situazioni sociali dove una intellettualità rifiutata e marginale si corrode in risentimenti: con quale sollievo e conforto il giovane genio vilipendiato riceve allora la notizia che Nietzsche valorizzava il risentimento come metodo ermeneutico, e che Freud vedeva nel sospetto l’attegiamento interiore più propizio all’investigatore psicologico! Avvelenare il mondo, nell’espellere risentimenti e sospetti da tutti i pori, diviene allora la suprema forma di attività intellettuale, una modalità superiore dello scibile scientifico. Questo è lo stato di spirito dominante nell’intellettualità brasiliana, almeno nella sua parte più rumorosa ( e apparentemente nessuno si rende conto che c’è una contraddizione tra lo stimolare la malizia e pregare la moralità pubblica ).

Ma, nel cinema nordamericano, ciò che si scorge oggi è l’esatto contrario: è una tendenza attuale affermare esplicitamente e letteralmente i valori positivi, come si nota per il successo avuto dal Ballare con i lupi: un’apologia diretta e “ingenua” del bene e dell’onestà. Non sarebbe più logico interpretare Il Silenzio degli Innocenti alla luce di questa tendenza dominante nel suo paese d’origine, che stringerlo per forza nella cornice delle preoccupazioni locali e momentanee degli intellettuali brasiliani? Detta in un altro modo: la mia ipotesi è quella che il direttore Jonathan Demme e il regista Ted Tally hanno voluto fare un apologo sulla lotta tra l’intelligenza umana e l’astuzia diabolica, infischiandosene della passione, del desiderio, Freud, Nietzsche e così via. L’onda di Freud e Nietzsche negli USA è finita. Qui si cercano di forzare le situazioni per poter vedere le cose da quest’ottica, e il risultato è quello di scorgere ciò che non esiste, e così si persuade il pubblico a credere che ciò esista.

È certo che sussistono passione e desiderio nella storia de Il Silenzio degli Innocenti, ma sono là come pretesti ( tra altri argomenti ) e non come fondamenti della forma e della struttura, che, in questo, come in qualsiasi altro film, sono la cosa più determinante.

E certo pure che il Dott. Lecter è affascinante, soprattutto perchè è enigmatico e ambiguo. Ma tra dire che questo fascino è riuscito ad avviluppare Clarice nella rete della passione, ne corre abbastanza. È come la differenza che esiste tra possedere una pistola e commettere un omicidio. Il Dott. Lecter è affascinante, sì, ma Clarice è abbastanza scaltra. Già a partire dalla fase iniziale del loro duello di bramosie, il primo che abbassa gli occhi è Lecter, e non lei ( ho rivisto il film solo per togliermi questo dubbio ); lei continua a essergli superiore anche quando sfida Lecter a conoscere se stesso mentre lui se ne va, irritato; e infine lei non ne esce dal primo appuntamento senza ottenere almeno una parte di ciò che in effetti voleva. Già dal primo round lei vince su Lecter per tre a zero, non cedendo mai nulla. L’unico vantaggio che lei offre a Lecter è soltanto apparente; è uno stratagemma ideato da Jack Crawford per indurre Lecter a collaborare; e la restituzione dei disegni, alla fine, è solo un pretesto per poter ottenere da Lecter un’informazione in più. Appuntamento dopo appuntamento, lei diventa sempre più sicura di sè. ( “So che lui non mi cercherà”, dice assicurandolo a una sua amica Ardelia Mapp, nel momento in cui tutta la platea suda per paura che Lecter faccia dell’eroina la sua cena ). E alla fine, sappiamo che Lecter, sebbene dissimulasse e borbottasse, aveva già dato a Clarice tutto il servizio. La ragazza è in gamba.

Il personaggio Lecter è abbastanza vistoso, ma ciò non ci deve far equivocare il potere che ha in effetti nella trama. Infine, tutto ciò che accade ( salvo degli incidenti di percorso che non interferiscono per niente sul risultato finale desiderato, e cioè, sulla cattura di Buffalo Bill ), tutto è stato ideato previamente dal capo di Clarice, Jack Crawford. Egli sapeva che Lecter era isolato in cantina ed ansioso di avere un contatto con il mondo; che non vedeva una donna da otto anni, che era al corrente delle informazoni su Buffalo Bill; e che Clarice poteva ottenere da lui tutto ciè che voleva. Crawford è l’unico che, fin dall’inizio, percepisce tutto il quadro delle possibilità e, con l’ingegnosità di un demiurgo, mette in moto le ruote del destino. Lecter già lo conosce da lungo tempo, e lo teme ( al contrario degli altri nemici, che sdegna ). Lui sa che è tutto un piano di Crawford e, ancor prima che gli chiedano qualcosa ( in quanto Clarice stessa ancora ignorava lo schema ), è d’accordo nello svolgere la sua parte. Lui cerca soltanto di ottenere con ciò un vantaggio collaterale, che consiste, non in mangiare Clarice ( in qualsiasi senso del termine ), ancor meno ad opporsi agli obiettivi di Crawford, ma sì, molto più modestamente, in avere un’occasione di squagliarsela.

Crawford, come il patriarca Abramo della narrativa coranica o il San Bernardo della leggenda medievale, ha fatto lavorare il diavolo per lui, il male a servizio del bene. Lui ha qualcosa del mago Prospero, della Tempesta di Shakespeare, che manipola gli elementi cupi e, vincendo l’improbabilità, riesce a portare tutto ad un lieto fine con la vittoria del bene e della luce. Lecter, a sua volta, potrebbe definirsi come il Mefistofele di Goethe:

Sono parte dell’Energia Che sempre il Mal intende e che Il Bene sempre crea.

( Fausto, I, trad. Jenny Klabin Segall. ) Un detto francese narra che il diavolo si fa carico delle pietre; perchè alfine, qualcuno deve pur fare la parte sporca del lavoro. Considerando che Lecter non crea delle difficoltà a Crawford, e che non attacca Clarice, e che tutti quelli che uccide nel film sono suoi persecutori, e non delle vittime innocenti come quelle di Buffalo Bill, il prezzo dei suoi servizi è addirittura modesto. Lecter leggeva nella mente degli altri, ma Crawford leggeva in quella di Lecter, laddove egli stesso non scorgeva proprio nulla. I nostri critici non si sono accorti che, dietro alla lotta Clarice-Lecter e Clarice-Bill, il duello a distanza tra i due psicologi è il vero motivo che struttura la trama, e dalla quale echeggia appena un antichissimo motivo delle narrative iniziatiche: il “duello dei maghi”.

Se Clarice non si lascia affascinare da Lecter, lui sì rimane affascinato da lei ( proprio come era stato pronosticato da Crawford ); e, sotto l’apparrenza aspra di uno strizza-cervelli che prova a smascherarla e dominarla, in fondo è lui che la idealizza e la venera; sul suo tavolo, nella gabbia costruita per catturarlo al Foro della Contea di Shelby, uno dei disegni da lui fatti mostra Clarice, circondata da un alone luminoso, con un agnellino in grembo. È un icona. Avendo cercato di sondare la mente di Clarice, egli sa perfettamente ciò che ha trovato laggiù. Come potrebbe un vecchio demone esperto far riconoscere l’immagine della Santa Vergine? Strappata dall’occhio perspicace, l’identità della professional woman ciò che appare dentro Clarice non è un fascio di banali desideri freudiani, è sì il pianto della Vergine davanti al sacrificio dell’Agnello, che lei non può impedire. Bisogna esser ciechi per non scorgere nel film un riferimento evangelico così evidente.

Ma la “brava Clarice”, come la chiama Lecter, se è capace di riconoscere con tanta franchezza le debolezze umane che Lecter svela in lei, ignora invece l’identità superiore che lui ne ha scorto dietro. Per questo lui può continuare a fingere di snobbarla e ingannarla, mentre di nascosto la venera e ne è schiavo. Anche il Diavolo è servo di Dio, sebbene ambiguo e recalcitrante: il vecchio ribelle cerca di salvare le apparenze. L’ambiguità di servire il Bene con la peggiore delle intenzioni è una delle tracce che definiscono il Belzebù, e lei ne fa, tradizionalmente, un personaggio da farsa piuttosto che da tragedia. La letteratura universale non ha fatto a meno di sfruttare questo abbondantemente, da Marlowe a Goethe fino alla nostra letteratura popolare ( Peleja de Manuel Riachão contra o Diabo — “Lotta di Manuel Riachão contro il Diavolo” ) e il teatro popolare di Ariano Suassuna ( Auto da Compadecida — “Auto dell’Indulgente”; A pena e a Lei — “La Pena e la Legge” ). È da questa ambiguità che proviene il fascino sottile che scorgiamo nel mostruoso Lecter; come ha ben osservato Anthony Hopkins in una sua intervista, “il diavolo ha il senso dell’humour”: quando il terribile va oltre un certo limite, diventa buffo. È un ricercato pedantismo voler trovare ragioni psicanalitiche per poter spiegare l’attrazione del Diavolo, quando si tratta soltanto di un topos ( un luogo-comune o uno schema ripetibile ) della letteratura narrativa universale, e che funziona sempre quando viene usato con arte.

Clarice, dal canto suo, non si illude nei riguardi di Lecter. Quando un ragazzo dell’ascensore le chiede se lui è un vampiro lei gli risponde che “non esiste nome per ciò che lui è”. Quello che non ha nome non ha essenza, il che è un modo di dire che non è nulla. Non è una coincidenza che questo discorso anticipi immediatamente la scena in cui Lecter raccomanda a Clarice d’attenersi all’essenziale, lasciando stare l’accidentale. Secondo un’antichissima teodicea, il male non è propriamente un essere, ma un certo effetto accidentale della confluenza inopportuna tra dei beni di diversa specie ( per esempio, è bene amare una donna ed è bene avere un amico ), ma può succedere di amare la moglie dell’amico. Il male è un “ombra”, non un “corpo”. Studiando una setta satanica contemporanea, un autore informato paragona il male ad un totale di assenze, il quale dà origine a una forza di suzione che, non potendo sussistere in sè e per sè, si unisce e si appoggia al lato oscuro o mal conosciuto delle cose. Socrate e il vedantismo andavano oltre, decretando che l’unico male è l’ignoranza. Il fascino per il potere maligno, il soggiacere dinanzi al male, vengono proprio da quelle zone dell’anima che ci sono più sconosciute: vengono dall’inconscio, deposito, secondo Freud, dei desideri e delle immagini rifiutate e temute dal conscio. Cercando di sfuggire allo sguardo malizioso che penetra le difese del conscio, la vittima impaurita si prostra davanti l’avversario, nella speranza di ottenere la sua clemenza. È precisamente questo il lato che Clarice non offre a Lecter: quando lui tenta di smascherarla psicologicamente, lei non fugge, non si nasconde dietro a delle vane difese, nè cerca di intenerire l’avversario per placare la durezza del suo sguardo penetrante; con una schietta franchezza, lei riconosce la veracità dei sentimenti infantili che Lecter, discerne nel suo intimo: la trasparenza dei suoi moti e la ferma accettazione della verità finiscono per trasmutare lo sguardo maligno di Lecter, facendo sì che alla fine la perspicacia dell’avversario venga a favorirla. Con l’intenzione di disarmarla, Lecter trova in fondo a lei la roccaforte invincibile del retto intento. Ed il diavolo, che sdegna chi lo adora, si arrende con ammirazione dinanzi all’eroina che ama la verità.

Nella sua lezione di Logica sull’essenza e l’accidentale, Lecter cita Marco Aurelio. L’imperatore romano è stato uno dei grandi filosofi dello stoicismo, scuola che pregava l’abstine et sustine: non attaccamento e fermezza. Non è questo l’unico riferimento stoico, nel film. Fin dall’inizio Clarice appare ad allenarsi in un bosco nel retro bottega della sede dell’FBI a Quantico. All’ingresso del bosco, tre cartelli di legno inchiodati sugli alberi esortano il poliziotto principiante a sopportare il dolore, l’agonia e la sofferenza. Un quarto cartello aggiunge al messaggio stoico il comandamento cristiano: Ama. Due gocce di stoicismo in un solo film sono sufficienti per richiamare la nostra attenzione. Nel caso in cui il Dott. Hannibal Lecter non sia un intellettuale brasiliano che cita senza leggere, varrà la pena dare un’occhiata a questo Marco Aurelio.

La mescolanza di comandamenti stoici e cristiani non è strana. Fin dall’antichità i filosofi cristiani si sono accorti del valore dell’etica stoica e hanno cercato di assorbirla nel Cristianesimo. Marco Aurelio diceva, per esempio, che l’aspirante saggio non deve fuggire al male, ma abituarsi a guardarlo in faccia per poterlo neutralizzare, restando così immune al suo fascino. Dall’altro lato della sua aphateia ( assenza di emozioni ), il saggio ormai fatto, potrà allora rimuovere il male con la forza del suo sguardo obiettivo e sereno, che chiama le cose coi suoi veri nomi, senza nulla aggiungere e toglierne ( è la “semplicità” intellettuale, citata da Lecter ). Ma, in fondo all’aphateia, il saggio deve sempre serbare un atteggiamento di “clemenza comprensiva”, una specie di bontà o compassione intellettuale, non emotiva. Consiste nell’esser aperti alla comprensione del tutto, anche di ciò che è ripugnante, ma senza lasciarsi influenzare emozionalmente.

Aphateia e “clemenza comprensiva”, sono appunto i termini più adeguati a descrivere l’atteggiamento di Clarice davanti a Hannibal Lecter; lei non lo odia, non lo teme, non lo ama, non lo sdegna; lei lo osserva e l’ascolta, senza chiudersi nè lasciarsi soggiogare. Ella sostiene fermamente ( sustine et abstine ) la sua posizione dinanzi a Lecter, senza allontanarsi di un sol millimetro dalla clemenza comprensiva, da un lato, e, dall’altro, dalla fedeltà al dovere. Il che fa equilibrare i due piatti della bilancia stoica, in fondo, è la compassione per le vittime di Buffalo Bill: gli agnelli che lei desidera salvare. Clarice personifica la sintesi di stoicismo e cristianesimo annunciata dai cartelli nel bosco.

Alcuni filosofi cristiani hanno rimproverato allo stoicismo il carattere meramente passivo e reattivo della sua etica: esso enfatizzerebbe troppo la pazienza, la resistenza, l’astinenza, e meno il sacrificio attivo e la lotta per il Bene. Le virtù stoiche sarebbero, insomma, esclusivamente “femminili”, senza il segno virile del Cristo-Re. Un vero stoicismo cristiano, per poter esistere, dovrebbe iniettare qualche istamina nel vecchio e stanco Marco Aurelio.

Ma il cristianesimo non disprezza, in quanto tali, le virtù “femminili”. La sua epitome, nella visione cristiana,è appunto la Santa Vergine. Ella non “fa” propriamente nulla in tutta la narrativa evangelica. Obbedisce soltanto, patisce, aspetta, e piange dinanzi all’inevitabile. Anche Clarice soffre passivamente dinanzi alla impossibilità di salvare gli agnellini seppure ce ne sia uno. Patisce anche, attonita come gli agnelli, dinanzi alla morte del padre. È da questo dolore inerme, però, che nasce la vocazione della Clarice combattente, che affronta Lecter e spara a Buffalo Bill abbattendolo: così come dalla Vergine “passiva” nasce il Cristo, prototipo del sacrificio attivo, e così come dal pianto “inutile” della madre ai piedi della croce nasce l’innumerevole folla dei fedeli. L’antichissima liturgia ripete il ciclo, laddove dalla Chiesa che patisce nasce la Chiesa che combatte, e da questa la Chiesa che trionfa.

La stessa dialettica del passivo e dell’attivo come forze che nascono una dall’altra si ripete nel personaggio complementare di Clarice, Jack Crawford. Ma, in pratica, lui non partecipa direttamente all’azione. Il suo unico tentativo di interferenza personale ( quando invade la casa di Buffalo Bill a Calumet City ) è uno sbaglio di cui si pente: avrebbe dovuto lasciare tutto in mano a Clarice, come sembrava fosse il suo intuito iniziale. Ma anche i guru falliscono, almeno nella narrativa iniziatica, poichè là loro rappresentano lo Spirito, e non lo sono veramente, ciò che anzi dà la misura delle differenze tra questo genere narrativo e le epopee sacre e mitologiche che ne costituiscono il modello.

Qui devo spiegarmi più accuratamente. Epopee sacre e mitologiche sono quei poemi narrativi che, per tutta una civiltà, hanno avuto il prestigio di possedere delle verità rivelate; dalle quali provengono la cosmovisione, i valori, le leggi e i principi educativi che presiedono la vita di tutta la comunità umana attraverso i tempi. Narrative iniziatiche: sono delle storie prodotte dopo, e che, senza usufruire di questa stessa autorità, funzionano, per certi gruppi e individui, a mo` di insegnamento spirituale o religioso. Le narrative iniziatiche trattano di solito circa aspetti o parti delle epopee sacre, che esse prolungano, illustrano, commentano e specificano, adattando il fondo del messaggio spirituale alla mentalità ed al linguaggio di una nuova epoca. Costituiscono, così, un rinvigorimento, un aggiornamento di certe potenzialità spirituali, che rischierebbero di indebolirsi con il passare dei tempi ai cambiamenti del linguaggio, che possono rendere difficile la lettura e la comprensione diretta delle stesse epopee sacre. Così, per esempio, sono narrative iniziatiche la Divina Commedia di Dante, Il Flauto Magico di Mozart, il Faust di Goethe, la tragedia greca nella sua totalità. I Lusiadi di Camões, La Regina delle Fate di Spenser, e, ai tempi nostri, Giuseppe e i suoi fratelli di Thomas Mann. Sono epopee sacre i poemi di Omero, il Baghavad-Gita, il Corano, Il Vecchio Testamento, i Vangeli, ecc.

La differenza tra epopea sacra e narrativa iniziatica consiste fondamentalmente nel fatto che gli eroi della prima sono degli dei, semidei o, in un quadro monoteista stretto, aspetti di Dio o forze di origine divina. Gli eroi della narrativa iniziatica, senza avere dei poteri divini nè parlare diretamente in nome di Dio, sono degli esseri umani di stampo eccezionale, protetti o guidati da vicino da forze divine, la cui presenza ed attuazione mondana essi stessi rappresentano in modo più o meno sottile o indiretto.

Sia per l’epopea sacra, quanto che per la narrativa iniziatica i personaggi di maestri o guru rappresentano sempre lo Spirito divino, che conosce tutto in anticipo e dirige dall’alto i passi di un discepolo, il quale personifica l’Anima umana in via di spiritualizzarsi o divinizzarsi. Una netta differenza tra i due generi è che nell’epopea sacra il maestro è lo Spirito divino in modo letterale ed integrale ( nell’Odissea, Mente è Minerva dea della saggezza; nel Baghavad Gita Krishna è un aspetto di Brahma, ecc. ); nella narrativa iniziatica, invece, il personaggio del maestro è soltanto un essere umano più o meno legato da vicino ad un sapere divino; è un sacerdote, un mago, un saggio, e non un essere divino; per questo, nel guidare “divinamente” il discepolo, non è esente da errori umani. Per esempio, Merlin, nel Santo Graal, perde temporaneamente il sopravvento per Morgana La Fata; Sarastro è temporaneamente sconfitto dalla Regina della Notte, ecc.

La narrativa iniziatica, sebbene possegga delle leggi strutturali che la definiscono, può essere innestata in una infinità di diversi generi narrativi, nella letteratura novellistica, nel teatro, nella poesia epica o nel cinema. La sua struttura profonda è compatibile con i rivestimenti più vari, dal fantastico al “realista”. Gli unici elementi indispensabili sono il maestro, il discepolo, l’avversario, e le peripezie che purificano l’anima del discepolo e gli rivelano una conoscenza. L’avversario può essere o una persona ( come nel Flauto Magico la Regina della Notte ) o una situazione avversa e diabolica che sfida l’intelligenza dell’eroe o tenta la sua anima, come ne Il caso Maurizius di Jakob Wasserman. Anche il maestro può essere un personaggio in carne ed ossa ( come Sarastro ), un’allusione mitologica ( Venere ne I Lusiadi ), o un semplice aspetto superiore dell’anima del proprio discepolo ( il magico presentimento che guida Etzel Andergast nel romanzo di Wasserman ). Il punto che interessa, il criterio differenziale che ci assicura che siamo in presenza di una narrativa di questo genere, non è il contenuto materiale degli eventi, ma il rapporto tra le forze, insomma: la struttura della trama.

Molte opere della letteratura, del cinema e del teatro si richiamano all’uso dei simboli e di miti “esoterici”, senza farne narrative iniziatiche. Al contrario, i simboli contenuti in una narrativa acquistano una perfetta funzionalità estetica soltanto quando la struttura profonda dell’operaè quella di una narrativa iniziatica; a parte questo, simboli e miti diventano dei meri orpelli pedanti. La struttura totale e i simbolismi particolari devono essere uniti e legati gli uni agli altri in una disposizione organica, riflettendo una delle principali leggi del linguaggio simbolico, che è quello della corrispondenza tra la parte e il tutto, il piccolo e il grande, il micro ed il macrocosmo. Solo artisti molto abili riescono ad ottenere quest’ordine, per questo una buona parte dell’arte “esoterica” in circolazioneè da scartare.

Sia per la struttura sia per i simboli a cui si riferisce, o per la stretta ubbidienza al principio di corrispondenza, Il Silenzio degli Innocenti si rivela una narrativa iniziatica delle più perfette che il cinema ci abbia mai dato. In esso non esiste un unico riferimento simbolico o mitologico che non si inserisca con estrema adeguatezza e affiatamento alla struttura totale dell’opera, facendo riflettere quest’insieme sulla scala dei dettagli; e la struttura globale, a sua volta ha tutti gli elementi richiesti: il maestro, il discepolo, l’avversario diabolico, le peripezie rivelatrici e purificatrici.

In questo modo,è alquanto naturale che si trovi tra Clarice e Crawford, il rapporto Anima-Spirito, che Crawford sia in apparenza inattivo e in fondo attivo, che Clarice sia fedele all’intuito di Crawford anche quando apparentemente gli disubbidisce, e che Crawford, infine, commetta uno sbaglio nel momento in cui quest’errore sia già miracolosamente corretto dalla Provvidenza. L’anima, nella narrativa iniziatica, è passiva dinanzi allo Spirito, ma attiva dinanzi al mondo; essa lotta, ma con lo scopo di rimanere fedele allo Spirito in un mondo laddove le avversità, tentazioni ed inganni minacciano di trascinarla lontano dalla sua vera vocazione.

Os Filodoxos Perante A Historia A Filosofia E Seu Inverso Iii

II. De Sócrates a Júlio Lemos | 17 de abril de 2012

III. Os filodoxos perante a HistóriaEntre os títulos que conferem a seus estudantes, as universidades brasileiras deveriam ter o de Ph. D. na ciência de não entender nada.

Em nota publicada no site Ad Hominem, o sr. Joel Pinheiro, comentando o meu artigo “A filosofia e seu inverso II” e concordando comigo em que não existe filosofia sem implicações morais e existenciais, dedica-se em seguida a refutar a idéia, que ele atribui a mim, de que “o escolasticismo medieval já era um período de decadência filosófica se comparado à educação dada nas escolas de catedral, que consistia no exemplo e no carisma do mestre e era veiculada por meio de doutrinas não-escritas, passadas primariamente pela convivência e ao se assistir o mestre filosofando in loco”.[1] Contra essa idéia, ele alega que “esse tipo de educação moral e preparação espiritual, embora muito louvável, não é propriamente filosofia. Ela não pode questionar suas próprias bases, e nem debater a sério, pois sua finalidade de formar um certo tipo de homem virtuoso já está dada de antemão; e portanto não resultará em grandes filósofos”.

Prossegue ele: “A relação carismática, ou mesmo iniciática,[2] entre mestre e pupilo não substitui o debate racional. É ridículo e ingênuo imaginar que ‘sábios’ semi-anônimos do século XII que não deixaram obra escrita tivessem pensamento superior ao dos grandes escolásticos. Os poucos registros escritos que sobraram deles mostram que, muito pelo contrário, seus pensamentos eram muito mais conservadores e convencionais, ainda que belos e nobres.”

I Antes de averiguar se o sr. Pinheiro tem ou não razão nessas coisas,[3] é preciso notar que elas não têm nada a ver com o que eu disse no artigo que ele imagina estar refutando. O que ali coloquei em discussão não foi a qualidade da “filosofia propriamente dita” (no sentido que o sr. Pinheiro dá a esta expressão) que se produziu nas escolas dos séculos X a XII e da que se veio a produzir em seguida nas universidades. Foram, em vez disso, as concepções educacionais do Cardeal Newman, o posto que nelas ele atribuia à filosofia e, por isso mesmo, a interpretação falsa que o sr. Júlio Lemos dera às palavras do Cardeal. O sr. Lemos afirmava que o ensino da filosofia não deve ter objetivos morais, e, por inépcia ou safadeza, citava em favor dessa opinião um trecho em que Newman dizia precisamente o contrário.

Na segunda parte do artigo, analiso um pouco aquelas concepções em si mesmas, assinalando que me pareciam falhar porque esperavam da instituição universitária precisamente aquele resultado que o advento dela tinha tornado inviável: a formação gentil-homem, marcado pelas virtudes de “um intelecto cultivado, um gosto delicado, uma mente cândida, equitativa e desapaixonada, uma conduta nobre e cortês” (a cultivated intellect, a delicate taste, a candid, equitable, dispassionate mind, a noble and courteous bearing in the conduct of life). Esse resultado era precisamente o que haviam alcançado, com grande sucesso, as escolas catedrais e monacais dos séculos X a XII, fazendo um contraste chocante com o que veio em seguida, a atmosfera de carreirismo, pedantismo, corrupção e violência política que imperou nas universidades do século XIII em diante. Na mesma medida em que os alunos das escolas catedrais e monacais chegaram, pelo brilho das suas virtudes, a ser conhecidos popularmente como “a inveja dos anjos”, o típico estudante universitário que lhe sucedeu tinha antes a fama de presunçoso, beberrão e arruaceiro, sendo célebre a hostilidade dos habitantes das cidades à horda de estrangeiros arrogantes que ali desembarcavam imunizados contra as leis locais por toda sorte de privilégios corporativos.

O Cardeal Newman, contra o sr. Júlio Lemos, tinha toda a razão em afirmar que o estudo da filosofia podia e devia contribuir para a formação moral dos estudantes, como o fizera nas escolas catedrais e monacais, mas também era verdade que a filosofia havia começado a fracassar nesse objetivo desde o momento mesmo em que se constituíra como profissão universitária e meio de ascensão social. Se essa trajetória de decadência humana veio acompanhada de prodigiosos aperfeiçoamentos da técnica lógico-dialética e da abertura de novos espaços de livre discussão, propiciando assim o advento das grandes realizações intelectuais da escolástica, isso mostra, com toda a evidência, que esses avanços, em vez de somar-se às conquistas das escolas catedrais em matéria de educação moral, a elas se substituíram e acabaram por preencher todo o espaço da atividade educacional superior. Não foi a primeira nem a última vez na História que a degradação moral fez contraste com o progresso intelectual. O apogeu mesmo da filosofia na Grécia, com Sócrates, Platão e Aristóteles, só aconteceu quando já iam longe os belos dias de Péricles e a polis afundava na roubalheira e na violência. Na Viena dos anos 20-30 do século XX, o florescimento espetacular da filosofia e das ciências humanas coincidiu com a debilitação do império romântico dos Habsburgos, sacudido pela agitação comunista e nazista e roído desde dentro pela corrupção dos políticos. Nenhum desses exemplos é motivo para negar que seria melhor a moralidade e a cultura do intelecto superior progredirem juntas, mas eles mostram que isso não acontece facilmente.

Em nenhum momento coloquei em discussão a filosofia escolástica enquanto tal, que o sr. Pinheiro se empenha em defender contra quem não a atacou. Lembro-me de haver-me referido a ela como “monumentos de exposição escrita”, o que não é uma expressão nada pejorativa, e até de haver assinalado que o Cardeal Newman, ao referir-se negativamente a filósofos do passado, não dissera “nem uma palavra sobre (muito menos contra) a filosofia cristã de Sto. Tomás, de S. Boaventura, de Duns Scot”. De que raio de coisa, pois, está falando o sr. Pinheiro? De algo que ele pensou ter lido, mas não leu. Inventou. Uns vinte anos o educador Cláudio de Moura Castro já advertia que no Brasil ninguém lê o que os autores escrevem: lê o que imagina que eles pensaram, o que gostaria que eles tivessem pensado, seja para aplaudi-los, seja para depreciá-los. Tal como o célebre inglês da anedota, o leitor brasileiro, nesse ínterim, não mudou em nada.[4] O que confundiu a cabeça do sr. Pinheiro foi ter lido o meu artigo à luz da crença rotineira de que a grande filosofia do século XIII foi um fruto natural da universidade. Vistas as coisas por esse ângulo, daí decorrem duas conseqüências. Primeira: o sr. Pinheiro acaba entendendo a minha crítica às universidades medievais como se implicasse uma depreciação da filosofia escolástica, o que só acontece na sua imaginação. Segunda: dessa confusão ele é levado, como em ricochete, a proclamar que as realizações notáveis da escolástica só não apareceram mais cedo porque nas escolas catedrais e monacais vigorava um modelo pronto de homem virtuoso, do qual não podiam resultar grandes filósofos. Foi só quando aquele modelo se dissolveu na “livre discussão” que uma “filosofia propriamente dita” pôde florescer. Ele diz isso com toda a franqueza.

São erros, naturalmente, mas pelos quais sou muito grato, porque me permitem levar a discussão para além das mancadas do sr. Júlio Lemos que constituíam o seu assunto inicial, e explicar-me sobre pontos incomparavelmente mais importantes.

Desde logo, a imagem que hoje temos do esplendor escolástico é construída com base nuns quantos poucos nomes, especialmente Sto. Alberto, Sto. Tomás, S. Boaventura e Duns Scot. Se os apagássemos dos registros, o escolasticismo não teria passado de um episódio curioso na história da educação. E esses não são nomes só de filósofos, mas de Doutores da Igreja: três santos canonizados e um bem-aventurado. Não existe o menor motivo para supor que na vida pessoal esses homens tivessem uma conduta mais frouxa, menos estrita, menos perfeita que a do “modelo pronto” que os anjos invejavam. Não vejo em que a dissolução do modelo pela “discussão racional” poderia ter contribuído nem para a sua santidade, nem para o fortalecimento do tipo especial de inteligência ao mesmo tempo filosófica e mística que os caracteriza, aquele não cresce fora e independentemente da graça santificante, mas decorre dela como um dom especial do Espírito.

Também é ingenuidade supor que essas encarnações máximas do gênio escolástico fossem produtos típicos do novo meio acadêmico, no qual, bem ao contrário, não se ajustaram confortavelmente jamais. Sua inteligência, sua rígida idoneidade, sua compreensão superior dos mistérios da fé e, last not least, sua coragem intelectual faziam desses quatro mestres os alvos preferenciais das invejas, mesquinharias e maledicências de seus colegas.

Alberto pulou como um cabrito para que a congregação engolisse, de má vontade, suas teorias aristotélicas sobre o mundo físico. Boaventura sofreu ataques medonhos de Guilherme de Saint-Amour, um potentado universitário da época, no curso de uma campanha sórdida movida pelo clero secular contra os Frades Mendicantes. Quem o defendeu foi Tomás, que depois, também graças a intrigas de acadêmicos, foi por seu turno denunciado como herético duas vezes (uma delas depois de morto). Duns Scot foi expulso da universidade e teve de fugir de cidade em cidade, ameaçado de morte, por defender doutrinas impopulares e tomar o partido do Papa na disputa com o poder real, hegemônico entre os intelectuais na ocasião. Só cinco séculos depois da sua morte ele foi retirado da lista dos indesejáveis, quando sua grande doutrina da Imaculada Concepção de Maria foi finalmente aceita e se tornou dogma da Igreja. Sua beatificação só veio ainda um século depois disso, em 1993.

No mínimo, no mínimo, o sr. Pinheiro, ao enaltecer as vitórias intelectuais da escolástica acima das virtudes “meramente morais” do monaquismo que a antecedeu, deveria ter tido a prudência de notar que os quatro autores maiores daquelas vitórias, aqueles que acabo de mencionar, não podiam de maneira alguma ser universitários típicos, pelo simples fato de que não eram membros do clero secular que dominava as universidades, e sim, bem ao contrário, vieram das ordens monásticas, nas quais se conservava ainda a disciplina moral das velhas escolas. O contraste entre as mentalidades desses dois grupos era tão pronunciado, que os professores ofereceram uma resistência feroz ao ingresso de monges no corpo docente das universidades (v. o episódio de Boaventura que mencionei acima). Bem, sem esse ingresso, a universidade medieval estaria desprovida de Alberto, Tomás, Boaventura e Duns Scot – de tudo aquilo que para nós, hoje, mais nitidamente caracteriza e mais merecidamente enobrece a imagem da filosofia escolástica.

Sim, porca miséria, os quatro eram monges, intrusos na comunidade universitária! Como poderiam ser típicos da corporação que rejeitava sua presença? Longe de ser produtos característicos da universidade da época, como o acredita o sr. Pinheiro, esses monges severos e devotos, provindo de um meio social diferente, com hábitos e valores contrastantes, se sobrepunham de tal modo àquele ambiente que só a duras penas puderam ali sobreviver e, às vezes postumamente, triunfar. A magnitude de suas realizações intelectuais deve-se menos à atmosfera universitária do que à força de suas personalidades majestosamente centradas, firmadas na fé e na integridade de propósitos, em contraste com a sofisticada tagarelice de seus colegas, muitas vezes tecnicamente admirável, mas com tanta freqüência inspirada em motivos fúteis e na sedução das novidades heréticas. Quando hoje enxergamos a universidade medieval como um momento luminoso na história da educação, é em grande parte porque os melhores homens que ela rejeitou projetam retroativamente sobre ela o brilho da sua glória, e não ao inverso. E essa glória, sem dúvida, vem mais das ordens monásticas que os formaram, que do meio social onde ingressaram já adultos, fortes o bastante para desafiá-lo e, a longo prazo, vencê-lo. Se, quando critico a universidade medieval, o sr. Pinheiro entende que estou falando mal da filosofia dos grandes escolásticos, é, em parte, por seu desconhecimento da história, em parte por seguir o consagrado erro de ótica que coletiviza os méritos individuais e toma as exceções como regras, como se as cátedras universitárias na época estivessem superlotadas de homens da estatura de Tomás e Alberto, e não de técnicos, burocratas, agitadores, doutrinários de dedinho em riste, bedéis e uma infinidade de puxa-sacos.

Não é culpa do sr. Pinheiro, é do vício generalizado de entender os grandes homens como “produtos do seu tempo”, quando justamente a grandeza deles consistiu em quebrar a redoma da ideologia de época e injetar no organismo da cultura, a um tempo e contra a resistência do ambiente, a sabedoria esquecida de um passado remotíssimo e as mais inimagináveis perspectivas de futuro.

No caso da filosofia escolástica, toda ela inspirada por aberturas para a eternidade que nenhum condicionamento histórico-social jamais poderia explicar, isso deveria ser perceptível à primeira vista.

Só os medíocres são filhos do seu tempo. Os sábios, os heróis e os santos inspirados são pais dele; são canais por onde a luz da transcendência rompe as limitações do tempo e abre possibilidades que a mente coletiva, por si, jamais poderia conceber. Se a opinião corrente não enxerga isso, é porque o acesso de milhões de incapazes às altas esferas das profissões universitárias obriga hoje a conceber a História sub specie mediocritatis. Que Alberto e Tomás revivificassem uma filosofia velha de mil e setecentos anos, fazendo-a enfim predominar sobre o rígido agustinismo dominante, e que Duns Scot, contra vento e maré, antecipasse em cinco séculos um dogma da Igreja, são fatos que deveriam fazer os devotos do condicionamento histórico pelo menos coçar as cabeças, se alguma tivessem.

Mas a esse erro de perspectiva generalizado, que se disseminou ao ponto de infectar até mesmo os manuais escolares, o sr. Pinheiro acrescenta um outro que, se não é de sua própria invenção, também não é compartilhado pela massa ignara, mas tão somente por uma parte da elite profissional de filodoxos: a idéia de que só existe filosofia na doutrina explícita, desenvolvida, organizada, publicada, racionalmente verbalizada e argumentada até seus últimos detalhes.

A idéia tem origem ilustre. Remonta a Georg W. F. Hegel, o que, convenhamos, impõe algum respeito. Mas, como tantas outras opiniões que herdamos desse genial embrulhão, é completamente falsa. Sem mencioná-la expressamente nem citar-lhe a fonte (que talvez nem mesmo conheça), escreve o sr. Pinheiro, como se impelido mediunicamente pelo espírito de Hegel:

“O foco na relação mestre-discípulo e na sabedoria não-verbal (e que, por isso, não pode ser escrito sem ser, em alguma medida, traído)[5] nos aproxima novamente dos sonhos tradicionalistas e perenialistas, dos sistemas simbólicos esotéricos e da imersão em tradições orais.[6]Mas Filosofia é perseguir avidamente o real; e isso é a fuga consumada... É estranho que ele [Olavo de Carvalho] e tantos de seus seguidores continuem a ter esse tipo de fantasia como ideal de vida e de formação filosófica.”

Na galeria universal das condutas vexaminosas, poucas se comparam ao gosto que os brasileiros têm de se fazer de superiores àquilo que não entendem. Nem todos os nossos compatriotas padecem desse vício, menos ainda são os que o trazem do berço, mas muitos o adquirem logo no começo da vida adulta, sob o nome de “formação universitária”.

As palavras do sr. Pinheiro, que soam tão óbvias e inquestionáveis aos seus próprios ouvidos, contêm embutida uma multidão de problemas cabeludos que ele nem mesmo percebe.

II Desde logo, se excluirmos da área de estudos filosóficos sérios as tradições orais, teremos de dizer adeus não só a boa parte do platonismo, mas a todo o ensino universitário que não esteja registrado em textos. A única razão de ser das universidades, aliás, é justamente aquela parte do treinamento intelectual superior que não pode ser obtida por mera leitura, mas requer o contato direto entre mestre e discípulo. Se não fosse assim, as instituições universitárias poderiam, com vantagem, ser fechadas e substituídas pela indústria editorial. Isso vale não só para o aprendizado filosófico, mas também para as artes, as técnicas e as ciências. E, em todos esses casos, falar de contato direto é incluir aí uma parcela indispensável de comunicação não verbal. Hoje em dia não há pesquisa científica que não exija o uso de instrumentos cujo manejo requer longa prática junto a um técnico habilitado que pouco poderia transmitir a seus alunos só pela instrução verbal, sem o contato visual e manual com os equipamentos e sem socorrer-se de gestos, posturas, entonações e olhares cuja tradução em palavras seria praticamente impossível. Se não fosse assim, qualquer um poderia formar-se técnico em tomografia cumputadorizada, em microscopia estereoscópica ou em galvanometria balística pela simples leitura de manuais de instruções. Poderia também tornar-se cantor de ópera, pintor ou dançarino sem ter jamais presenciado um exemplo vivo de como se canta, se pinta ou se dança.

O peso desse fator é tão crucial na investigação científica, que negligenciá-lo pode destruir as mais belas esperanças das ciências de constituir-se em conhecimento objetivamente verificável. Uma verdade, em ciência, não vale nada enquanto não se transforma numa crença coletiva subscrita pela comunidade dos cientistas profissionais, mas, assinala Theodore M. Porter, “a prática científica diária tem tanto a ver com a transmissão de habilidades e práticas quanto com o estabelecimento de doutrinas teóricas”. Nos anos 50 do século passado, Michael Polanyi já enfatizava que a pesquisa científica envolve um tipo de “conhecimento tácito” que não pode sequer ser formulado em regras. “Na prática, prossegue Porter, isso significa que os livros e os artigos de revistas científicas são veículos necessariamente inadequados para a comunicação desse conhecimento, uma vez que aquilo que mais interessa não pode ser comunicado em palavras (grifo meu)”[7] Elimine-se a transmissão não-verbal, portanto, e toda via de acesso à investigação científica estará fechada de uma vez por todas.

Como se vê, a investida do sr. Pinheiro contra o não-verbal nasce da ojeriza irracional ante puros estereótipos da cultura vulgar e não reflete nenhum exame sério da questão substantiva.

2. No caso específico da filosofia, o papel do contato pessoal, dos círculos de amizade e das lealdades corporativas na formação das escolas e correntes filosóficas, bem como na assimilação e modelagem mental dos recém-chegados, é hoje um consenso amplamente admitido nesse importantíssimo ramo de estudos que é a sociologia da filosofia.[8] Importantíssimo não só para os sociólogos como para os filósofos mesmos: o filósofo que ignore as bases sociais da sua existência profissional é como um boneco de ventríloquo limitado à triste função de fazer eco a influências que não sabe de onde vieram nem para onde levam. Ouso dizer que na classe acadêmica brasileira essa ignorância é quase obrigatória.

Mais relevante ainda, sob esse aspecto, é o estudo de como se formam e se desfazem os prestígos pessoais que marcam indelevelmente o perfil histórico da filosofia num dado período. Como foi possível, por exemplo, que certos filósofos (ou filodoxos) alcançassem uma audiência muito maior, nas universidades e fora delas, do que seus contemporâneos mais habilitados, produzindo linhas de influência duráveis e verdadeiras tradições de pensamento, enquanto as obras de seus concorrentes caíam no completo esquecimento? Seria uma ingenuidade imperdoável pensar que se trata aí de puros “fatores externos” alheios ao “valor intrínseco” ou ao “conteúdo filosófico propriamente dito” das obras em questão. A população estudantil só tem acesso ao “conteúdo filosófico propriamente dito” das obras que lê, não das que ignora – e a seleção reforça, automaticamente, as influências intelectuais dominantes, consagrando como decretos inquestionáveis da natureza das coisas os critérios de “valor intrínseco” que aí prevalecem e, portanto a visão da história da filosofia, às vezes barbaramente subjetiva e enviezada, que aí se toma como expressão direta e óbvia da verdade dos fatos.

Ora, quando procuramos investigar como se formam aqueles prestígios, descobrimos que o mecanismo principal que os origina são os círculos de relações pessoais, onde os interesses corporativos e as lealdades politicamente interesseiras se mesclam indissoluvelmente ao culto devoto de personalidades carismáticas envolvidas, no mais das vezes sem merecimentos objetivos que o justifiquem, numa aura de sapiência mística que separa rigidamente os iniciados e os profanos.

Estudando a carreira de quatro dos mais prestigiosos pensadores do século XX que ele denomina “os mestres malignos” – Wittgenstein, Lukács, Heidegger e Gentile –, e perguntando por que suas sombras encobriram os vultos de seus contemporâneos igualmente capazes, ou mais capazes, o filósofo australiano Harry Redner conclui:

“Em última análise, o que distinguia os mestres malignos de seus colegas não menos capacitados era uma personalidade carismática que acabou por fazer tantas gerações de amigos, seguidores e estudantes prosternar-se diante deles com temor reverencial. Quase todos os que encontraram um mestre maligno sentiram estar em presença de um gênio. Eles tinham essa capacidade de impressionar desde o início de suas carreiras... É difícil pensar em qualquer grande filósofo do passado que tenha sido tão revenciado no seu tempo como eles o foram.

“Os seguidores que formavam em torno de cada um dos mestres malignos têm alguns dos traços dos círculos mais estreitos e mais amplos de qualquer movimento carismático. Cada um deles esteve rodeado de círculos esotéricos e exotéricos de amigos e seguidores. Mais perto do mestre estava um grupo de discípulos ou companheiros próximos; mais à distância havia os simpatizantes e companheiros-de-viagem; e em volta desse núcleo estava a massa dos estudantes e leitores interessados.”[9] Na formação desse culto não faltava jamais a força do elemento mágico, manipulado com requintes cênicos de sedutores profissionais. Na ascensão de Martin Heidegger, Karl Löwith destaca o poder da sua “arte de encantamento” que “atraía personalidades mais ou menos psicopáticas”. Nas conferências que proferia, “seu método consistia em construir um edifício de idéias que em seguida ele mesmo desmantelava, de novo e de novo, para desnortear os ouvintes fascinados, só para no fim deixá-los completamente no ar”.[10] Qualquer semelhança com os procedimentos retóricos do esoterista armênio George Ivanovitch Gurdjieff não é mera coincidência. Gurdjieff levava seus discípulos à mais completa impotência intelectual mediante a prática de expor complexos sistemas cosmológicos, acompanhados das demonstrações matemáticas mais sofisticadas e, quando a platéia se sentia diante mais sólida verdade científica, desmantelar tudo com refutações arrasadoras. A única diferença que tais casos revelam entre essa pedagogia e a dos antigos monges é que estes usavam o poder do carisma para infundir virtudes, ao passo que as celebridades filosóficas ou esotéricas do século XX o empregam como instrumento de dominação psíquica para instituir o culto de suas próprias pessoas.

Mas, evidentemente, a função dos círculos de convivência direta não se resume em criar ídolos. Tem também uma utilidade menos personalizada, mais coletiva, que é a de impor a hegemonia de grupos de influência mediante a interproteção mafiosa, a promoção mútua, o boicote dos adversários, o rateio dos melhores empregos entre os membros da gangue e, em resultado de tudo isso, o controle da opinião pública, especialmente em ambientes limitados e abarcáveis como o são as universidades e as instituições de cultura.

As filosofias dos “mestres malignos”, segundo Redner, “tendiam a gravitar em direção às elites universitárias porque, na luta pelo poder acadêmico, o status de elite interessa muito para atrair discípulos e lançar movimentos de influência. Dessas posições de alto status era fácil supervisionar e dominar todos os postos nas universidades colocadas mais em baixo. Nas escolas de elite dos países dominantes, como a École Normale na França e a Ivy League na América, a filosofia podia ser cultivada como uma mística para os privilegiados e iniciados. Só aqueles que ingressavam nessas instituições e passavam por elas como estudantes e professores tinham alguma chance de adquirir o conhecimento filosófico ‘apropriado’ e de ser considerados qualificados nele. Por esses meios, umas poucas universidades foram capazes de monopolizar o ensino da filosofia e usar esse poder para colonizar o sistema acadêmico inteiro de determinados países. Uma típica relação colonialista centro-periferia se instaurou entre a elite e o resto; com isso as universidades de elite se habilitaram a perpetuar e consolidar sua exclusividade e seu status superior.”

O “conteúdo propriamente dito” das filosofias não era de maneira alguma indiferente ao papel que desempenhavam na estrutura do poder universitário:

“As filosofias que serviam a essa função de preservar o monopólio profissional tinham de ser aquelas que ninguém podia aprender por meio de livros somente. Tinham de ser aquelas que ninguém fora do quadro institucional privilegiado podia adquirir, transmitir ou praticar. Elas podiam ser aprendidas somente se fossem adquiridas através dos canais corretos e recebidas das mãos apropriadas. Tais eram, de fato, as filosofias que os próprios mestres malignos e, por direito de sucessão, seus discípulos, vieram a ministrar desde as escolas de elite onde haviam conquistado posições de poder. Ninguém que não passasse pelas suas mãos podia praticar, ensinar ou mesmo discutir suas filosofias.”[11] Um exemplo muitíssimo bem documentado de como esse processo funciona num país em particular é dado no livro de Hervé Hamon e Patrick Rotman, Les Intellocrates,[12] que estuda a composição social da elite que comanda a vida universitária e a imprensa cultural na França. Essa elite inteira mora em Paris, distribuída nuns poucos quarteirões vizinhos, e tem na convivência pessoal constante um dos seus mecanismos essenciais de autopreservação e crescimento.

O contato direto entre mestres, colaboradores e discípulos, como se vê, não perdeu nada da importância essencial que tinha nos séculos X a XII. Apenas mudou de função: de gerador de santos transmutou-se em fábrica de carreiristas, agitadores, gerentes da indústria cultural, bajuladores e militantes. Talvez por isso mesmo tenha se tornado menos visível a observadores desatentos como os srs. Lemos e Pinheiro: é da natureza mesma dos círculos de poder o hábito de manter a sua existência o mais discreta possível, de modo a fazer com que os efeitos de suas ações apareçam como resultados acidentais e anônimos do processo histórico.

Não por coincidência, uma das correntes filosóficas que mais veio a se beneficiar da luta dos grupos de influência pelo domínio monopolístico das universidades foi, precisamente, a “filosofia científica”, ou neopositivista, que o sr. Júlio Lemos coloca tão celestialmente acima do mundo humano.

Não há nisso, aliás, nada de estranho. O neopositivismo é, como o próprio nome diz, continuação do positivismo, que nasceu não como pura filosofia teorética para uso dos anjos, mas como projeto de poder, um dos mais ambiciosos e totalitários de todos os tempos.

Quando, após a II Guerra, o crescimento vertiginoso da economia ocidental acelerou o processo de transformação da filosofia em profissão universitária, eliminando da cena, pouco a pouco, os “intelectuais públicos” que antes davam o tom dos debates culturais,[13] nem todas as filosofias se adequavam igualmente ao novo ambiente em que as discussões filosóficas tinham de imitar o mais fielmente possível o mecanismo altamente regulamentado e burocratizado da intercomunicação científica.

Na Europa continental, onde a discussão filosófica estava imantada de uma carga partidária e militante consagrada por décadas de confronto ideológico, a solução foi infundir no discurso tradicional da esquerda uns toques de linguagem científica extraídos principalmente da lingüística e da matemática. Daí nasceram o estruturalismo e o desconstrucionismo que logo ocuparam o lugar do existencialismo e da fenomenologia nas atenções do público.

Nos países anglo-saxônicos, ao contrário, onde a tendência dominante era manter as universidades bem integradas no funcionamento geral da economia e imunizadas contra o risco das rotulações ideológicas de direita e de esquerda, esse foi o grande momento da “filosofia científica”. O processo foi bem estudado por C. Wright Mills,[14] mas, como a descrição que oferece é muito detalhada e complexa, recorro, novamente, ao indispensável Redner, que assim a resume:

“A antiga geração de filósofos, que era uma estranha mistura de advogados, bibliotecários e cientistas, foi desalojada pelos professores acadêmicos que se organizaram numa corporação profissional com suas conferências, revistas especializadas, escadas de promoção e todos os outros adornos das disciplinas acadêmicas. Nessas condições, os filósofos já não podiam ser considerados livres-pensadores ou intelectuais, como Russel Jacoby argumenta num estudo mais recente. Para esses profissionais acadêmicos, a filosofia melhor adaptada às suas exigências era uma que não dependesse de teorias, de idéias ou de nenhum fundo de conhecimentos de ciência ou das humanidades, e que não se engajasse em questões contenciosas da vida social e política. O que eles queriam era um modo de filosofar que pudesse ser praticado como uma habilidade técnica a ser aprendida pragmaticamente por meio de um treinamento no próprio ambiente profissional por meio da discussão, mais ou menos como o dos advogados.”[15] Que é o “treinamento no próprio ambiente profissional” senão o tão desprezível, tão dispensável contato direto entre professor e aluno? Afinal, por que os advogados, entre os quais o sr. Júlio Lemos, não estão habilitados para o exercício profissional tão logo recebem seu diplominha, mas têm de fazer estágios em escritórios de advocacia, ver com seus próprios olhos como funcionam os tribunais, cartórios, registros de imóveis e delegacias de polícia, aprender por experiência viva como se aborda um juiz de direito, como se obtêm os favores de um escrivão, como se persuade um cliente a negociar com a parte contrária? E quem não sabe que, na prática, o profissional investido dessas habilidades levará infinita vantagem sobre o bacharel eruditíssimo sem experiência direta?

Se a “filosofia analítica” pode prescindir do contato direto entre mestre e discípulo, por que teria sido justamente essa a modalidade preferencial de ensino usada para impor o prestígio dessa escola nas universidades americanas?

Tal como a ojeriza ao não-verbal, o desprezo ao ensino direto é uma afetação, uma pose, adotada como reação irracional de momento, não uma opinião maduramente pensada com conhecimento do assunto.

III É pura fantasia do sr. Pinheiro acreditar que atribuí às escolas catedrais e monacais a posse de uma “filosofia” superior à escolástica do século XIII. Mas ele não erraria tanto se afirmasse que enxergo nas primeiras uma sabedoria cristã superior à da média dos professores e estudantes universitários que vieram depois e que entendo a grande filosofia de Tomás, Alberto, Boaventura e Scot menos como um “produto” do meio universitário e mais como o desenvolvimento natural e, por assim dizer, a exteriorização intelectual da cultura cristã herdada das escolas catedrais e monacais através da formação monástica recebida na juventude por esses quatro grandes mestres, que os imunizou contra a tagarelice pedante, não raro herética, do meio universitário.

Que o florescimento de uma grande filosofia não surja do nada, mas se produza como desenvolvimento intelectualmente diferenciado de uma visão do mundo já anteriormente cristalizada em formas simbólicas na cultura vigente é algo que não deveria surpreender ninguém. Quem ignora que a concepção central da filosofia platônica, a das leis eternas que se sobrepõem à ordem aparente de uma “natureza” concebida à imagem e semelhança da ordem social vigente, já estava prefigurada na poesia homérica e no teatro de Ésquilo e de Sófocles?

Aprendi em Paul Friedländer, Julius Stenzel e Eric Voegelin que compreender uma filosofia não é só apreender o sentido explícito das suas “teses”, nem discernir a estrutura do seu “sistema”, nem muito menos saber compará-la com outros “sistemas” (embora tudo isso seja uma preparação escolar indispensável), mas desencavar, da sua formulação em conceitos e doutrinas, as experiências reais que as inspiraram, a substância humana e histórica que transmutaram em idéias abstratas.

Não se trata, evidentemente, de um preceito válido somente para os historiadores e filólogos, mas de uma exigência básica indispensável para quem quer que pretenda “discutir” essas filosofias com base no sentido real que tinham para os seus criadores e não apenas na sua formulação explícita, estabilizada em textos, ainda que apreendida para além da sua superfície verbal e visualizada na unidade profunda da sua ordem interna.

Reporto-me aqui às breves explicações orais que dei sobre o “argumento de Sto. Anselmo”. Esse argumento é apresentado originariamente sob a forma de uma prece. Como ninguém em seu juízo perfeito – muito menos um monge experiente – pode orar a um Deus duvidoso, está claro que o argumento não é oferecido como uma resposta à dúvida quanto à existência ou inexistência de Deus, mas como um aprofundamento intelectual da experiência da prece. O esquema lógico do argumento, no entanto, pode ser abstraído – separado imaginariamente – do seu contexto originário e ser discutido “em si mesmo”. Mas aí ele já não será o argumento de Sto. Anselmo e sim uma cópia esquemática esvaziada de seu conteúdo experiencial, apta a ser reproduzida sob uma infinidade de formulações verbais diferentes e até mesmo codificada em símbolos matemáticos para fins de análise computadorizada. E então os debates quanto à sua validade ou invalidade lógica poderão prosseguir indefinidamente, animando os serões dos amadores de argumentos, enriquecendo o mercado editorial e alimentando carreiras universitárias, sem que isso aumente em um grama sequer a compreensão do pensamento de Sto. Anselmo ou, mais ainda, da técnica anselmiana da conversão de uma prática devocional em experiência intelectual – técnica sem a qual nada se pode entender não apenas da filosofia do próprio Anselmo, mas de toda a tradição escolástica que se lhe seguiu.

Esse exemplo ilustra a diferença entre o que eu e o sr. Lemos chamamos de “filosofia”. Ele dá esse nome a algo que, do meu ponto de vista, é apenas uma técnica de argumentação, bela e sofisticada o quanto seja. Prefiro reservar o termo para aquilo que este sempre designou: a elaboração intelectual da experiência com vistas a alcançar, na máxima medida possível num dado momento histórico, a unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Nesse sentido, a unidade interna de uma filosofia, isto é, sua coerência sistêmica e lógica, vale menos por si mesma do que pela sua eficiência em dar conta, ainda que com imperfeições lógicas inevitáveis, da variedade e confusão da experiência humana – pessoal, cultural e histórica – que lhe serviu de ponto de partida. Por isso, chamamos de grandes filósofos, não aqueles que se esmeraram no esforço vão de chegar à prova lógica mais detalhada, e sim aqueles que conseguiram abranger, num olhar unificante, o horizonte de problemas mais amplo e complexo, criando assim um senso de orientação que permanece útil para muitas gerações subseqüentes. Nesse sentido, a lista de filósofos verdadeiramente grandes é bem reduzida. Sem querer resolver agora a questão de quais merecem ou não entrar nessa classificação, parece-me evidente que ninguém negará um lugar nela aos nomes de Platão, Aristóteles, Sto. Tomás e Leibniz. Enquanto filósofos bem posteriores já viram suas contribuições essenciais esgotadas ou impugnadas pelo avanço do conhecimento (ninguém mais pode ser cartesiano, baconiano ou hobbesiano de carteirinha sem entrar em conflito com o estado atual das ciências), esses quatro, excluídos erros de detalhe que possam ter cometido num ou noutro ponto, continuam dando inspiração a novas descobertas em todos os setores do conhecimento, e parece que não vão parar de fazê-lo tão cedo. Não erraremos, portanto, se os tomarmos como modelos supremamente típicos daquilo que se entende pelo termo “filósofo”.

O critério aí adotado implica que nada se entende de uma filosofia sem uma visão efetiva das experiências de fundo às quais ela responde com um vigoroso esforço de expressão, ordenação unificação e clarificação (a palavra “esclarecimento” tem outras conotações que desejo evitar).

Se se tratasse de artistas, de poetas, predominaria em suas obras o esforço de expressão direta da experiência. Os filósofos tomam o seu material de base num estado mais elaborado, que inclui os aspectos da experiência já trabalhados na cultura artística (assim como nas leis, instituições, crenças estabelecidas etc.). Com freqüência a arte se antecipa aos filósofos, fornecendo-lhes em forma compacta de símbolos concretos os esquemas estruturadores aos quais eles darão expressão intelectual mais diferenciada, mais clara, mais acessível à discriminação racional. É puro estereótipo ginasiano acreditar, como os srs. Lemos e Pinheiro, que a filosofia é “discussão racional”. A possibilidade da discussão racional só aparece depois que o grande empreendimento de organização unificante da experiência chegou ao seu termo. Esse empreendimento pode incluir também, no caminho, uma parcela de discussão, que visa sobretudo a retificar ou completar certos aspectos das tentativas anteriores, mas é evidente que ela não constitui o ponto forte de nenhuma filosofia digna do nome. Como observava John Stuart Mill, a crítica, indispensável o quanto seja, é a faculdade mais baixa da inteligência. Mesmo quando uma filosofia assuma a aparência externa de uma discussão, como acontece nos diálogos platônicos, o objetivo ali não é “provar” coisa nenhuma, mas trazer à mostra, tornar visível, algo que está para muito além da discussão e da prova. Platão parte do material da experiência tal como o encontra na cultura da época e, através de sucessivas marchas ascensionais e clarificações parciais, vai se erguendo – e, quando possivel, erguendo seus interlocutores – à antevisão do mundo das formas, princípios e leis eternas que unificam e estruturam a experiência. É esta escalada, e não a “discussão racional”, que dá a forma e o sentido do empreendimento platônico. Uma vez alcançado o cume, o conjunto da obra escrita que documenta a trajetória assume a forma aparente de um “sistema doutrinal” que então pode alimentar “discussões racionais” pelos séculos dos séculos. As discussões podem ser mais úteis ou menos úteis, mas, na maior parte dos casos, nada de substancial acrescentam à filosofia originária. Quando Alfred Whitehead observou que vinte e quatro séculos de filosofia não passavam de uma coleção de notas de rodapé a Platão e Aristóteles, ele quis dizer exatamente isso. Como aquelas discussões são o ganha-pão dos acadêmicos, alguns deles são bobos – ou vaidosos – o bastante para achar que elas constituem “a” filosofia, mas isso é como se, num livro, as notas de rodapé tomassem o lugar do texto.

“A” filosofia não é discussão racional nem sistema doutrinal. É uma estruturação simbólica intelectualmente diferenciada na qual o mundo da experiência deve adquirir uma visibilidade, uma claridade, que não tinha nem no material bruto da experiência nem nas suas elaborações culturais prévias (sociais, políticas, artísticas, religiosas).[16] Por isso mesmo é que a arte, com tanta freqüência, se antecipa às filosofias. No caso dos escolásticos, isso não poderia ser mais evidente. O exame deste ponto mostrará quanto os srs. Lemos e Pinheiro, juntos ou separados, e todos os que pensam como eles, estão longe de compreender a relação entre as grandes filosofias do século XIII e o ensino prático que as antecedeu nas escolas catedrais e monacais.

Vamos por partes.

Qual foi a realização maior e mais característica dos filósofos escolásticos? A criação das Sumas – um gênero literário totalmente novo, apropriado às necessidades expositivas do pensamento cristão, o qual, após ter durante doze séculos respondido às dúvidas externas e internas com improvisações apologéticas e polêmicas soltas, esporádicas e assistemáticas, que se acumulavam numa massa confusa e inabarcável, se viu levado, pelas próprias exigências do ensino e por outros fatores que não interessa analisar aqui (entre os quais o impacto da filosofia árabe), a empreender um gigantesco esforço de organização e unificação.[17] A fórmula literária encontrada foram as “sumas”.

A primeira grande Summa foi a de Alexandre de Hales, que começou a escrevê-la em 1231 mas a deixou incompleta. Não sei a data certa da segunda, mas não saiu antes de 1245, quando Sto. Alberto começa a ensinar na Universidade de Paris. Em 1260 começam as aulas de S. Boaventura sobre os ensinamentos de Pedro Lombardo, das quais ele extrairá uma summa sob o título de Comentários ao Livro das Sentenças de Pedro Lombardo. Por fim, o gênero chega à perfeição com a Summa contra Gentiles de Sto. Tomás de Aquino (1264), logo seguida da Suma Teológica, redigida entre 1265 e 1274.

A estrutura das Sumas não tem precedentes na história dos gêneros literários. Elas compõem-se de partes hierarquicamente organizadas, que vão desde os princípios mais universais até suas aplicações aos entes particulares, como num longo raciocínio dedutivo. Mas cada parte subdivide-se em “questões”. Colocada uma questão, o autor faz uma breve resenha das respostas anteriormente oferecidas por varios filósofos e teólogos, atualizando o status quaestionis. Aí ele acrescenta à lista algumas outras respostas possíveis e passa a examinar os prós e contras de cada uma, até chegar a uma conclusão. Por fim ele concebe e responde algumas objeções, reforçando a conclusão, que em seguida servirá de premissa para a solução das questões subseqüentes.

Tecnicamente, essa estrutura constitui-se de um longo discurso analítico composto, por dentro, de vários discursos dialéticos. Ela articula assim duas modalidades de discurso que Aristóteles havia distinguido cuidadosamente, uma empenhada em montar a demonstração e a prova científica, outra em buscar, entre as incertezas do debate e da experiência, as premissas especiais sobre os diversos pontos em investigação. Num nível mais profundo, essa articulação sintetiza duas atitudes mentais opostas: a dogmática, ou construtiva, e a zetética, ou investigativa. Nada de similar encontra-se em toda a literatura filosófica anterior.

Mediante essa combinação original, as Sumas sintetizam e unificam não só o conjunto dos dados científicos, teológicos e históricos disponíveis que interessavam à doutrina cristã, mas todas as técnicas que compunham o ensino universitário, as quais assim ficavam vacinadas contra a possibilidade de desenvolvimentos independentes anárquicos e se integravam harmoniosamente na ordem total do conhecimento.

Mais ainda, as Sumas inauguraram a prática da distribuição racional dos textos em partes, seções, capítulos, parágrafos e subparágrafos, totalmente desconhecida na antigüidade, que viria a se universalizar no Ocidente ao ponto de tornar-se uma banalidade. Mas, se hoje essa divisão corresponde mais a convenções editoriais ou a arranjos pedagógicos, nas Sumas ela tinha uma função muito mais ambiciosa e orgânica. A organização do texto correspondia rigidamente à estrutura das realidades ali analisadas, de modo que a obra como um todo funcionava como símbolo da hierarquia do mundo divino, cósmico e humano. As análises dialéticas espalhavam-se em muitas direções, indo até os últimos detalhes (princípio de manifestatio, “exteriorização” ou “clarificação”) e voltavam a unificar-se nas conclusões parciais que, por sua vez, articuladas umas às outras pelo princípio da concordantia, ou reconciliação hierarquizada das múltiplas possibilidades contraditórias, funcionavam como colunas que sustentavam a estrutura do todo.

A imagem um tanto idealizada que hoje temos da organização hierárquica dos estudos universitários medievais reflete menos a realidade do ensino diário do que a estrutura das Sumas, em que os vários aspectos desse ensino convergem para um ponto culminante que os transcende.

A prática da disputatio, por exemplo, adestrava os alunos na arte da confrontação dialética ordenada, enquanto o estudo comentado da sacra pagina lhes infundia os necessários conhecimentos das Escrituras, mas só nas Sumas esses dois aspectos se articulavam na unidade de uma concepção abrangente.

Se perguntarmos de onde Alexandre de Hales e seus sucessores obtiveram a inspiração para esse empreendimento tão original e poderoso, não encontramos nenhuma fonte escrita, aliás nem oral. Platão desenvolvera a técnica dialética de Sócrates, mas não se encontra nele a arte da construção dogmática. Aristóteles sobrepõe à dialética a técnica da prova científica, lógico-analítica, mas não deixa nenhum exemplo escrito de discurso lógico-analítico com começo, meio e fim: tudo o que nos sobrou dele foram rascunhos de aulas, construídos na base de investigações e confrontações dialéticas, num espírito ferozmente zetético. O que seria uma construção dogmática do aristotelismo, a estrutura formal e hierarquizada da “doutrina aristotélica”, é um problema em que até hoje os sucessores e comentaristas se engalfinham sem encontrar nenhuma solução satisfatória. Para fazer uma idéia da dificuldade: ninguém deu uma resposta cabal à questão de saber se a filosofia do Aristóteles maduro é um desenvolvimento coerente do seu platonismo de juventude ou uma negação completa dele e o início de uma filosofia diferente.[18] Na bibliografia filosófica que vai daí até Alexandre de Hales, nada se encontra que se pareça nem de longe com a estrutura das Sumas. Só há portanto duas alternativas: ou a criação ex nihilo ou a inspiração recebida de alguma fonte não filosófica, nem literária. A primeira hipótese sendo prerrogativa divina, temos de nos voltar para a experiência vivida, para o impacto que os filósofos escolásticos receberam da cultura da época, para averiguar se algo, nela, pode ter-lhe sugerido a idéia de estruturar a cosmovisão cristã numa síntese de todos os conhecimentos e de todas as técnicas intelectuais disponíveis, em que as inumeráveis buscas zetéticas lançadas em direções diversas fossem convergindo pouco a pouco e se unificando numa grande construção dogmática de conjunto. O único precedente não vem da filosofia, nem de qualquer gênero literário: vem das artes e, especialmente da arquitetura.

Em 1948 o grande historiador da arte, Erwin Panofsky, lançou nas Conferências Wimmer a tese depois publicada em 1951 sob o título de Gothic Architecture and Scholasticism,[19] segundo a qual o estilo gótico na construção das grandes catedrais medievais refletia a influência do pensamento escolástico, ilustrando, no verticalismo, no uso da luz e no trançado dos arcos que sustentavam as abóbadas, os mesmos princípios da manifestatio e da concordantia que estruturavam as Sumas.

A tese nunca foi totalmente aceita nem totalmente rejeitada. O primeiro problema com ela é que não havia o menor indício de que os arquitetos anônimos das catedrais houvessem jamais estudado a filosofia escolástica. O segundo e principal problema é que o essencial do estilo gótico já estava delineado fazia tempo, na Abadia de Saint Denis, nas catedrais de Laon, Bourges e Chartres, quando Alexandre de Hales começa a redigir o primeiro esboço de uma Summa em 1231. E o novo gênero literário só se aproxima do seu máximo esplendor a partir de 1264, com a Summa contra Gentiles de Sto. Tomás de Aquino, quando já fazia vinte e três anos que uma das obras-primas maiores do estilo gótico, a Sainte Chapelle, estava à vista de todos bem no centro de Paris (só no ano seguinte Tomás começa a redigir a Suma Teológica).[20] É possível que o pensamento escolástico tenha vindo a exercer alguma influência sobre a arquitetura das catedrais posteriores ao século XIII, mas, até o tempo de Sto. Tomás, “influência”, se houve, foi no sentido inverso.

Em cima, à esquerda: Sainte Chapelle; à direita: catedral de Laon. No meio, à esquerda, catedral de Bourges; à direita, basílica de Saint Denis. Em baixo, à esquerda: Catedral de Chartres.

No entanto, se a teoria, como assinalaram seus críticos, falhava em estabelecer qualquer nexo causal entre filosofia escolástica e arquitetura gótica, ela tinha uma parcela de verdade que ninguém jamais negou: havia, com toda a evidência, uma semelhança estrutural entre os catedrais góticas e as Sumas. Tanto estas quanto aquelas apareciam como grandes resumos simbólicos da concepção cristã do mundo e a ordem da sua estruturação interna era praticamente a mesma: o arranjo das partes, as conexões entre os mínimos detalhes e a ordem do conjunto, a busca da luminosidade e da transparência, o movimento de subida e descida entre os vários níveis ou planos de realidade, a sustentação mútua entre os arcos opostos como teses dialéticas articuladas na sua contradição – tudo exibia, em pedra como em palavras, os mesmos princípios da manifestatio e da concordantia. Não é nenhum exagero dizer que as catedrais eram como que um esquema gráfico da estrutura das Sumas. Ademais, tanto o novo estilo arquitetônico quanto o novo gênero literário eram marcados pelo ineditismo dos seus princípios, moldados, pela primeira vez, segundo necessidades específicas do ensinamento cristão, irredutíveis a qualquer exemplo anterior. As semelhanças eram tantas, e tão fundamentais, que não cabia reduzi-las ao padrão de uma mera “analogia”: era preciso falar, isto sim, de homologia, de identidade de estruturas.

A coisa tornou-se mais evidente ainda quando, em 1998, o catedrático de Budismo Tibetano do Departamento de Estudios Religiosos da Universidade da Califórnia, José Ignácio Cabezón, descobriu que homologia idêntica existia entre os tratados da escolástica budista e os templos religiosos da Idade Média tibetana.[21] Nos dois casos, assinalava Cabezón, era tão impossível estabelecer qualquer nexo causal direto quanto negar a existência de uma similaridade estrutural cujo detalhamento ia muito além da possibilidade da mera coincidência.

Sem entrar agora nos detalhes da controvérsia, algumas observações parecem-me evidentes e praticamente inquestionáveis:

1. Se os arquitetos não estudavam filosofia escolástica e as catedrais góticas antecederam as grandes Sumas, não se pode falar de influência destas sobre aquelas, mas precisamente do oposto.

2. A palavra “influência” descreveria adequadamente a transmutação de uma doutrina filosófica em obra de arte, mas não o inverso. Aqui só cabe falar, mais vagamente, de “inspiração”.

3. Os arquitetos anônimos das catedrais não eram alunos das universidades. Aprendiam a técnica da construção nas corporações do ofício e a doutrina cristã nas escolas monacais e catedrais, mais provavelmente nas mesmas catedrais em que trabalhavam ou viriam a trabalhar como construtores. Suas concepções arquitetônicas não refletiam a doutrina escolástica, mas a cultura cristã das escolas monacais e catedrais, de cuja riqueza e força davam testemunho em pedra.

4. Pela novidade do estilo; pelo contraste entre sua luminosidade e a escuridão dos templos anteriores; pela beleza deslumbrante dos vitrais e a multidão de detalhes esculturais e pictóricos maravilhosamente integrados no conjunto; por parecerem desafiar o senso comum ao manter-se de pé sobre estruturas aparentemente frágeis, as catedrais atraíam visitantes e peregrinos de toda parte porque constituiam, literalmente, o mais contundente impacto visual a que a população européia tinha sido submetida ao longo de mais de um milênio.

5. É praticamente impossível que alguém em Paris, na época de Alberto e Tomás, não conhecesse a Sainte Chapelle, ou, conhecendo-a, ficasse imune ao impacto do edifício sobre os seus sentimentos, a sua imaginação e a sua devoção religiosa.

6. É inverossímil que pensadores altamente qualificados e devotos, imbuídos da ambição de dar maior visibilidade intelectual aos símbolos da fé, permanecessem imunes ao impacto imaginativo daqueles tratados de cosmologia cristã em pedra e não obtivessem dele alguma inspiração e motivação para tentar empreendimento semelhante no nível mais diferenciado da conceptualização teórica e da exposição doutrinal, passando da linguagem muda dos edifícios à plena explicitação verbal das Sumas.

Costumo usar o termo geológico extrusão, e o verbo correspondente extrudar, para descrever o processo de extração e exposição da substância cognitiva da experiência. Como aprendemos em Aristóteles, e até hoje ninguém desmentiu, que a inteligência abstrata não opera diretamente com os dados dos sentidos, mas com as imagens gravadas e repetidas na memória, é normal que esse processo, no nível da história cultural, se dê em duas etapas: primeiro a experiência é condensada nas formas simbólicas compactas da arte, do mito e do ritual, e só depois verbalizada, quando possível, como conceito e teoria.[22] Dito de outro modo: a criação artística forma e delimita o terreno imaginativo em cima do qual se erguerão as construções teorizantes da ciência e da filosofia. Os exemplos que ilustram essa constante são inumeráveis, desde as tragédias de Ésquilo e Sófocles que deram a Sócrates e Platão o modelo das leis eternas, até a perspectiva de Giotto sem a qual a nova cosmologia de Galileu e Kepler seria inconcebível, a Divina Comédia de Dante que inaugura a possibilidade do intelectual moderno como juiz soberano da sociedade, a Comédia Humana de Balzac de onde Karl Marx obteve sua primeira visão da estrutura do capitalismo, e assim por diante. Não há nada, pois de estranho, em concluir que o impacto visual e humano das catedrais góticas deu aos filósofos escolásticos a inspiração inicial para a extrusão do conteúdo intelectual implícito no imaginário cristão, ao qual elas davam, pela primeira vez, uma visibilidade tão completa e integrada.[23] Se a imaginação arquitetônica e pictórica dos construtores gravava em pedra e vidro a riqueza da experiência interior obtida nas escolas monacais e catedrais, é preciso ressaltar que isso só aconteceu numa fase em que essas escolas já iam cedendo o passo, como modelos de educação, ao sucesso das universidades nascentes, onde a sofisticação das técnicas intelectuais se desenvolvia pari passu com a degradação dos costumes e a perda do fervor religioso. Decorridos cento e poucos anos da remodelação gótica de Saint Denis, a construção do edifício intelectual das Sumas se dá numa etapa ainda mais avançada da dissolução da síntese cultural cristã, prenunciando, já para os dois séculos seguintes, a difusão da moda nominalista, o florescimento de mil e uma correntes heréticas e a degradação da própria escolástica num formalismo doutrinário sufocante. Nada disso é estranho. Enquanto a riqueza da vida interior é uma realidade de todos os dias, o impulso de cristalizá-la em pedra não é uma necessidade premente. As catedrais góticas são, por assim dizer, o canto de cisne de uma modalidade de educação que já tinha os seus dias contados. No século XII, à medida que se erguem edifícios cada vez mais impressionantes, a inveja dos anjos desce dos céus e se torna admiração das multidões.

Mais compreensível ainda é que a síntese intelectual das Sumas só viesse à luz numa época em que as possibilidades civilizacionais que elas condensavam já iam chegando ao fim. Do mesmo modo que as catedrais fixam em pedra o último apelo da educação monacal e catedral, as Sumas são o cume, e por isso mesmo o capítulo final, da grande civilização cristã na Europa, do mesmo modo que as filosofias de Platão e Aristóteles são a expressão máxima e última da polis em agonia. Como observou Hegel, a ave de Minerva só levanta vôo ao entardecer.

Nesse sentido, as grandes criações novas que, para as épocas futuras, virão a representar a força espiritual das civilizações extintas documentam a depauperação da vida interior e sua substituição pelo testemunho exteriorizado e visível, legado às gerações vindouras na vaga esperança de que um dia a fórmula gravada em pedra ou em palavras possa ser novamente descompactada e restaurada como experiência vivida, se não em escala civilizacional, ao menos nas almas dos indivíduos interessados e capacitados. A passagem do implícito ao explícito, do compacto ao diferenciado, marca ao mesmo tempo a glória e o fim das civilizações. Apogeu e decadência não são termos excludentes, mas polos dialéticos de uma tensão a que não faltam, no seu desenvolvimento interno, as ambigüidades e as inversões.

Notas:

[1] Este parágrafo já revela o estado de notável confusão mental a que a leitura mal feita dos meus artigos atirou o pobre Sr. Pinheiro. Por eu ter dito, em outro lugar, que o aprendizado direto, ver e ouvir um filósofo filosofando, é condição indispensável do aprendizado da filosofia, ele imaginou, sabe-se lá por que, que ao louvar as escolas catedrais eu o estaria fazendo justamente por acreditar que nelas predominaria essa modalidade de ensino, abandonada ou negligenciada depois. O sr. Pinheiro atribui a mim uma bobagem de sua própria invenção. O ensino direto da filosofia jamais cessou, nas universidades medievais ou depois; ele é mesmo a única razão de ser das universidades. O que distingue as escolas catedrais e monacais dos séculos X-XII não é isso: é a presença do mestre como encarnação viva das virtudes cristãs, não como explicador de filosofia. Não se tratava de formar filósofos, mas gentis-homens. Este foi o objetivo negligenciado nas universidades do século XIII, e por isso julguei que o Cardeal Newman errara ao tomá-las como modelo, precisamente, de um tipo de ensino que elas haviam abandonado.

[2] O desejo de me associar à escola perenialista, ou tradicionalista, com toda a sua parafernália de rituais iniciáticos, é mesmo uma obsessão dos srs. Lemos e Pinheiro, que, a cada linha de minha autoria que lêem, saem logo procurando um perenialista embaixo da cama. Pergunto eu o que o carisma das virtudes cristãs, exemplificado pelos professores das escolas catedrais e monacais, poderia ter de iniciático no sentido de Guénon, que reserva essa palavra para designar as práticas de organizações esotéricas em sentido estrito, distinguindo-as rigorosamente de tudo quanto seja “religioso”. Pode ter havido algum elemento iniciático nas corporações de ofícios, mas não nas escolas catedrais e monacais. Lemos e Pinheiro empregam esse termo e o de “esoterismo” não porque estes sejam adequados ao tópico em discussão, mas porque sabem que eles têm conotações negativas para o público a que se dirigem e imaginam que, usando-os, podem criar uma aura de má impressão em torno da minha pessoa. O sr. Lemos, num descarada ostentação de superioridade olímpica, montada, por involuntária ironia, com um erro de gramática que faz contraste grotesco com o pedantismo de um termo latino desnecessário, declara: “Faz muito sentido que gente vinda do jornalismo e do esoterismo, pace Olavo, confundam as bolas.” Podem dizer até que venho do comércio de amendoins em praça pública; não ligo; mas o sr. Lemos vem da advocacia, aquela profissão já amaldiçoada em Lucas 11:52, cujos praticantes, segundo uma piada célebre, só se distinguem dos urubus porque ganham certificados de milhagem.

[3] V., adiante, nota 22.

[4] Para os que não a conhecem, já que as novas gerações perderam o melhor do passado, aí vai a piada. Dois ingleses, Paul e Peter, estavam tomando chá e conversando numa tarde aprazível, quando Peter observou:

— Sabe, Paul, eu sonhei com você ontem.

— Não diga! Como foi o sonho?

— Sonhei que você morreu, foi enterrado, no seu túmulo nasceu uma plantinha, veio uma vaca, comeu a plantinha, fez cocô, e eu, ao ver o cocô, exclamei: “Oh, Paul, como você está mudado!”

Paul, imperturbável, respondeu:

— Que interessante! Sabe que eu também sonhei com você?

— Não diga! Como foi?

— Sonhei que você morreu, foi enterrado, no seu túmulo nasceu uma plantinha, veio uma vaca, comeu a plantinha, fez cocô, e eu, ao ver o cocô, exclamei: “Oh, Peter, você não mudou em nada.”

[5] Perdoem a ruindade gramatical. Nem o sr. Pinheiro nem o sr. Lemos são muito bons de concordância.

[6] É objetivamente estranho, mas também significativo da mentalidade com que estamos lidando, que, após quase um século de estudos científicos sobre o substrato não-verbal da comunicação verbal, que teve entre seus pioneiros o psicoterapeuta Milton Erickson (1901-1980), a expressão não evoque, na cabeça do sr. Pinheiro, senão os “sonhos tradicionalistas e perenialistas”, como se fossem a única referência histórica a respeito. A obsessão de fazer de mim um perenialista, um guénoniano, essa sim é que é um sonho: o sonho de fazer de mim uma figura suspeita, de modo que as pessoas não ouçam o que digo e só me enxerguem através de uma rede de prevenções bobocas tecidas em torno da minha pessoa pelos srs. Lemos e Pinheiros.

[7] Theodore M. Porter, Trust in Numbers. The Pursuit of Objectivity in Science and Public Life, Princeton, NJ, Princeton University Press, 1995, pp, 13-13.

[8] Sobre as bases dessa disciplina, V. Randall Collins, The Sociology of Philosophies: A Global Theory of Intellectual Change, Harvard University Press, 1998.

[9] Harry Redner, The Malign Masters: Gentile, Heidegger, Lukács, Wittgenstein. Philosophy and Politics in the Twentieth Century, New York, St. Martin’s, 1997, pp. 178-9.

[10] Karl Löwith, My Life in Germany before and after 1933, Urbana and Chicago, University of Illinois Press, 1994, pp. 28-9.

[11] Redner, op. cit., p. 189.

[12] Hervé Hamon et Patrick Rotman, Les Intellocrates. Expédition em Haute Intelligentsia, Paris, Ramsay, 1981.

[13] Processo eficazmente descrito por Russel Jacoby em The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe, New York, Basic Books, 2000.

[14] C. Wright Mills, Sociology and Pragmatism. The Higher Learning in America, ed. Irving Louis Horowitz, New York, Galaxy Books, 1966.

[15] Redner, op. cit., p. 190.

[16] Isso não significa que a filosofia seja uma “cosmovisão”. Ao contrário: a cosmovisão já está dada, de algum modo, no material cultural recebido pelo filósofo. A filosofia é um elaboracão clarificante e corretiva da cosmovisão. Posso dar explicações mais detalhadas sobre isso num outro contexto, mas aqui isso nos levaria para longe do assunto.

[17] V. Alois Dempf, Die Hauptformen mittelalterlicher Weltanschauung, München-Berlin, Oldenburg, 1925.

[18] A questão surgiu em 1923 com o livro de Werner Jaeger, Aristoteles: Grundlegung einer Geschichte seiner Entwicklung (tradução inglesa de Richard Robinson, Aristotle: Fundamentals of the History of His Development, 1934).

[19] Trad. francesa, Architecture Gothique et Pensée Scholastique, Paris, Éditions de Minuit, 1981.

[20] Eis aqui a ordem cronológica dos fatos:

1140 Reconstrução do coro da Abadia de Saint Denis em estilo gótico.

1160 Catedral gótica de Laon.

1195 Começa a construção da catedral gótica de Bourges.

1220 Fica pronta a estrutura principal da catedral gótica de Chartres.

1231 Alexandre de Hales começa a escrever a Summa Universae Theologiae, deixada incompleta.

1241 Planos da Sainte-Chapelle, que começa a ser construída em 1246 e, rapidamente completada, é consagrada em 26 de abril de 1248.

1245 Sto. Alberto chega a Paris.

1260 Boaventura começa a lecionar sobre o Livro das Sentenças de Pedro Lombardo, de onde sairá seu Comentário.

1264 Summa contra Gentiles, de Sto. Tomás de Aquino.

1265-1274 Tomás redige a Suma Teológica.

1266-1308 Vida de John Duns Scot.

[21] V. José Ignacio Cabezón, Scholasticism: Cross-Cultural and Comparative Perspectives, Herndon, VA, State University of New York Press, 1998.

[22] V. maiores explicações no meu livro Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos, Rio, Topbooks, 1996 (2a. ed., São Paulo, É Realizações, 2006).

Lana Caprina Or The Wisdom Of Mr Capra

IAL and Stella Caymmi, Rio de Janeiro, 1993. (3 | The New Age and the Cultural Revolution: Fritjof Capra & Antonio Gramsci,

rd edition) Translated by Marcelo De Polli In early November,(1) Brazil will be receiving Mr. Fritjof Capra, summoned by Brasília Holistic University (Universidade Holística de Brasília) to talk about the New Age, as heralded in his book The Turning Point.

Mr. Capra’s voice shall not be crying out in the desert. The Holistic University has already assembled a congregation of local intellectuals keen to say ‘amen’ to his lesson in church. Frei Betto and former Brasília University dean Christovam Buarque can be found among the acolytes. We can see that Mr. Capra is not a writer like the others: he’s a leader, a spiritual authority and, let us admit it at once, a prophet.

The content of his prophecies is all but unknown:

The Turning Point has found its way as far as the hands of children, who debate it at school. However, according to the Holistic University this is hardly enough. Mr. Capra must be heard by all akin to the human species. For, in spite of being homonymous to a film director become famous on account of happy endings, he guarantees a quite unhappy one to our century unless humanity should follow his advice. Let us hurry to examine it with such urgency as the case requires.

According to Mr. Capra, the history of the world has come to a turning point, and must change its course. The three main changes on schedule are the following: first, humanity will stop consuming fossil fuel (oil); second, patriarchy will come to an end; third, the present scientific paradigm will be replaced by a new one, a holistically based one. These three things are already happening — so assures us Mr. Capra — yet the triple accomplishment must needs be hastened; it will mark the coming of the New Age.

While addressing the first item, Mr. Capra is very brief, as becomes a prophet. Instead of the long analysis he dedicates to the other two themes, he utters only the following prophetic words: ‘This decade will be marked by the transition from the fossil fuelled to the new solar era, powered by renewable energy straight from the sun.’ The decade Mr. Capra refers to ended in 1990, his Good Book having been published in 1981. Well, not all prophets are lucky. However, should the above-mentioned prophecy be four, five, or nine years late, Mr. Capra can always claim St. John the Evangelist was not too accurate concerning the date of the Apocalypse, either.

Like so many other prophets, Mr. Capra may complain about being misunderstood. I, for instance, do not understand how the world might have leapt from the fossil fuel era straight into the solar energy one, without going through the atomic era, in which we were at the time the prophecy was uttered and in which we still are, after its expiration date. But perhaps Mr. Capra’s prophetic intuition works at light speed, skipping steps. Which provides us, by the way, with a good reason to skip right away to the next item, since the first chapter of the ‘turning’ did not come to a happy ending.

Patriarchy consists, according to Mr. Capra, of a complex of three elements: one, the domination of women by men; two, the domination over nature by the human species; three, the prevalence of reason (a masculine faculty) over intuition (a feminine one). They are three sides of the one and same phenomenon, summarized by Mr. Capra as the supremacy of yang over yin.

It is, as can be seen, a special kind of patriarchy, a lot different from the one to be found in History, or sociological treaties. For they tell us that: the increase of technical power over nature shook the regime of rural property which sustained patriarchy; and that the coming of the Empire of Reason, brought along with the French Revolution, promoted equal rights for men and women, striking the deathblow on the authority of the pater familias.

In short, they tell us that two out of the three things Mr. Capra gathers under the common label of ‘patriarchy’ are precisely their opposite. But prophets give little heed to profane sciences.

Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae , as the Bible had already warned us. Mr. Capra does not think the way we do, really.

There is, however, something in him to which at least some of us are allowed full understanding. Being logic, to his mind, an expression of the abominable patriarchy whose end he craves, he couldn’t possibly obey it without becoming, ipso facto, illogical. It is a matter of logic that he should decide for being illogical. Any baby can understand this. The hard thing is to understand it when one is no longer a baby. In order to get yourself admitted into the heavens of the New Age, the reader must therefore become like unto the little ones.

Here is a typical case. To get rid of the hateful patriarchy, says our prophet, humanity should seek inspiration in the example of the Chinese civilisation, whose conception of human nature, set forth in the I Ching, ‘is in blatant contrast with that of our patriarchal culture’. Now searching for antipatriarchal ammunition amidst the pages of the I Ching, the reader will find, on the hexagram no. 37, the following recommendations: ‘The wife should always be guided by the will of the lord of the household, that is, by the father, the husband or the adult son. She belongs in the house.’ Just the kind of life Betty Friedan has asked God for. By the way, as we are told by Marcel Granet on the classic La Civilisation Chinoise, (2) the Chinese feudalism — the period during which most of the commentaries on the I Ching were written — ‘rests over the acknowledgement of masculine prevalence.’ The China which Mr. Capra refers to must not be the same one the profane geographers know by the name.

One thing we really cannot do is charge Mr. Capra with pro-chinese factionalism. Why, if he rejects occidental logic, that doesn’t mean he bows to the demands of the oriental one. According to him, yang represents analytical reason, which divides, and yin represents intuition, which unifies. The Chinese, not making much out of these subtleties, have represented the divisive yang by a continuous trace, and the unifying yin by one cut in half by a void. In the New Age, the editions of the I Ching will appear duly corrected.

Meanwhile, as these editions do not come by, Mr. Capra is already making on his own some more serious modifications in Chinese thought. He says, for instance, that in Chinese civilisation man endeavours not to dominate nature, but rather to integrate with it. Again, the Chinese wisdom of Mr. Capra caught China unawares: a Chinese could hardly understand this sentence, if only because they do not have a word meaning ‘nature’; not in the western sense of this word, that is, signifying at the same time the visible world and the invisible order which governs it — a double meaning the modern languages inherited from the Greek physis.

The Chinese language is, in this point, if you don’t mind my saying so, more ‘analytical’: it has a term to designate the visible world (khien), and another (khouen) to indicate the invisible order. By way of compensation, the visible world or khien ‘synthetically’ comprehends earthly nature as well as human society. Mr. Capra does not tell us which one should man get reintegrated to; but of course no one could get integrated into both, neither simultaneously nor in the same way. The ancient Chinese have already warned us about it, and solved the contradiction by proposing a duality of attitudes to match this double aspect of nature: the wise man, says the I Ching, must actively seek to be integrated into the invisible order or khouen (called ‘active perfection’ on that account) and softly get around the demands of earthly nature ( khien or ‘passive perfection’). In other words, the wise man must be integrated into the celestial order, by way of integrating in himself — thus dialectically overcoming it — the earthly order. In this way the latter is absorbed into the celestial order. ‘Celestial’ and ‘earthly’, in this sense, are respectively identified to dharma and kharma in Hindu tradition. Man doesn’t get ‘integrated’ into kharma, but rather ‘absorbs’ it, provided he is integrated into dharma:

he gets rid of the weight of the earth as long as he heeds the celestial plea. Exactly the same sense in which Christianity says that man overcomes natural need as long as he follows the paths of Providence. Not quite what Mr. Capra says.

The ideogram Wang (‘The Emperor’) sheds a further light on this point. It constitutes, on its own, a compendium of Chinese cosmology. It is made of three horizontal traces — Heaven above, Earth below, Man in the middle, forming the triad Tien-Ti-Jen, ‘Heaven-Earth-Man’ — cut by a vertical trace, Tao, which is somewhat conventionally translated as Law or Harmony. Harmony consists in each thing abiding where it belongs, in such a way that, behind all changes the world goes through, the supreme order should not be breached (even though, in this world of appearances, it necessarily is, for, as the Gospels tell us, ‘it must needs be that offences come’ ;

but in the end, all partial disorders are reintegrated into the total order).

In the Chinese triad, man is called the ‘son of Heaven and Earth’. The father being Heaven, we can see already, by the hexagram 37, who is the one in command. Man therefore governs the sensible world, but he does not do it out of his own will, but rather in the name of a transcendental order.

Tien does not mean ‘sky’ in the material sense, but rather ‘celestial perfection’ or, more properly, ‘the will of Heaven’. The wise man or emperor apprehends the will of Heaven from the invisible and sees to it on Earth. In the central room of his palace, he daily attends to rites of complex geometrical and numerological symbolism similar to that of pythagorism, by means of which the celestial archetypes ‘descend’ — exactly like, in Holy Mass, it is said that the Holy Ghost ‘descends’ — in order to bring order and harmony to Earth. If the emperor stops performing these rites, Earth — society and nature at the same time — enters a state of convulsion, and all about are spread ignorance, fear, violence, hunger, plague.

The interruption of the rites wasn’t all that could bring on catastrophe. ‘The emperor’ — so writes Max Weber in The Religion of China — ‘had to conduct himself according to the ethical imperatives of the classical scriptures. The Chinese monarch remained, basically, a pontiff. He had to prove he was actually the ‘son of Heaven’, the ruler approved of by the Heavens, so that the people under his government should live well. Should the rivers burst their dams, or the rain fail to come in spite of all rites, that was a proof — expressly believed in — that the emperor didn’t have the charismatic qualities required by Heaven.’ Man rules the Earth, but in the name of Heaven. He rules as pontifex, ‘builder of bridges’; he connects Earth to Heaven through the Straight Path, Tao.

Should he stray away from the Straight Path, he would lose sight of the Will of Heaven and could no longer rule but in his own name, as a tyrant and usurper. Thus, in a re-entrance shock, he loses his power and falls under the rule of the earthly powers he used to command. As the Earth designates physical nature as well as human society, the shock could mean a civil revolution or a military take-over, as well as a storm or earthquake. The fallen monarch represents, by analogy, any man that, parting with the celestial order, loses sight of his ideal destiny and falls prey of the abyssal passions. Such is the situation described on hexagram 36, Darkening of the Light:

‘Firstly he soared to Heaven, then he plunged deep into the Earth.’ The traditional commentary, summarized by Richard Wilhelm, is the following: ‘The power of darkness has mounted to such high a position that it may bring about damage to whomever ranks with good and light. But in the end the power of darkness perishes by his own obscurity.’ One sees already that Mr. Capra’s advice, affected by the double meaning of the word ‘nature’, may have two opposite meanings: by ‘getting integrated’, does he intend that we obey the Will of Heaven or that we plunge deep into the Earth? Whenever obscure, the prophets’ discourse deserve interpretation. Let us interpret.

In Mr. Capra’s version, Heaven is not mentioned. The triad is thus reduced to a duality: on one side, man; on the other, visible nature. Male and female.

Yang and yin.

To each is left the alternative to subdue the other or ‘get integrated’ with it. The man of the industrial civilisation has opted for the first hypothesis. Mr. Capra advocates the second.

It is true what Mr. Capra says, that western civilisation has opted for dominating nature. But it is also true that, since the Renaissance at least, it has erased (just as Mr. Capra has) all reference to a transcendental order ( Tien ) and left man by himself, face to face with material nature. Since then, the history of western ideas has been marked by a pendular oscillation between the ideologies of domination and the ideologies of submission: classicism and romanticism, revolution and reaction, historicism and naturalism, scientism and mysticism, promethean ativism and quietist evasionism, Marxism and existentialism and, last not least, socialist cultural revolution versus ‘New Age’ ideology.

It is in this pair of opposites that resides the key for the understanding of our prophet. Mr. Capra hits the nail on the head (no prophet can accomplish the prodigy of being always wrong) when he says that his view of cultural history is an alternative to Marxism. To Marx and his offspring, nature is nothing but a background to human history. It is there, not as a being, an ontological substance which man should contemplate and respect in its objective constitution, but as raw material, owned and transformed by man at will. Nature, in Marx, is ancilla industriae.

Marxism carries on the tradition of revolutionary prometheanism of the Renaissance, empowering it through the utter and explicit submission of nature to History. That is what the New Age is opposed to.

It is not opposed, however, only to Marxism in general, but to a specific form of Marxism, which wanted to operate a ‘turning’ as well, a U-turn in the orientation of human thought. The founder of this Marxist current was the Italian ideologist Antonio Gramsci (1891-1937). Gramscism proposes a cultural revolution which subverts all admitted criteria of knowledge, setting up in its place an ‘absolute historicism’, in which the function of intelligence and culture is not to attain to objective truth anymore, but merely to ‘express’ the collective belief, thus placed out of and above the distinction between true and false. It is the utter submission of the ‘object’ (nature) to the ‘subject’ (historic humanity). In this new paradigm, the emphasis of scientific activity rests no longer on the objective knowledge of nature (exact description of its visible appearance and investigation of the invisible principles which govern it), but rather on its transformation through technique and industry, to which corresponds, on the sphere of ideas, a kind of ‘permanent revolution’ of all categories of thought succeeding one another in a vertiginous acceleration of historical becoming.

The ideology of the New Age stands out against this. To revolutionary prometheanism, it opposes the ‘integration into nature’; to the acceleration of History, the ‘ecological’ balance of the New World Order; and, to absolute historicism, the ‘end of History’. Capra is inconceivable without Fukuyama. Capra is the crust of which Fukuyama is the core. All the shiny ‘esoteric knowledge’ of the New Age, with its secret initiations, its gurus, its magicians, and its rites, are but the exoteric part, the external and social religious set-up. Its interior, its ‘esoteric meaning’ is actually quite a modern, rational, and profane science: strategical planning. Fukuyama is to Capra just as esoteric knowledge is to exoteric knowledge, as the Church of John is to the Church of Peter. But both, each in its own level and by its own means, fight the same foe.

Gramscism was a great success in the 60’s, inspiring the passing fever of eurocommunism and reanimating some communist hopes. In Brazil, it took over practically the whole Left, and PT(3) is essentially a Gramscian party, whether it explicitly admits it or not. But the renovating intent was too little, too late: communism ended up being defeated by the world-scale rising of the ideology of the New Age. All in all, the blend of quantum physics and oriental symbolisms, psychic experiences and free sex, peace promises and mirages of self-accomplishment offered by this ideology is infinitely more seductive than any ‘absolute historicism’. Brazil, late as always, is one of the few places in the world where the fight still goes on, with a fierce nucleus of Gramscian remainings offering a Quixote-like resistance to the triumphant armies of the New Age.

However, if the revolutionary prometheanism represented the utmost hybris, the utmost dominating eagerness of man over nature, the ideology of the New Age is no less than the re-entrance shock announced by the I Ching.

The New Age has defeated the Gramscian revolution. It was a teratomachy, though: a combat of monsters. The Chinese would say it was a suicidal combat: that, without the common obedience to Tien, the fight between Ti and Jen can only reach an end through the ‘darkening of the light’. Therefore, the victory of the New Age forebodes the next step of the cycle of changes: humanity will fall from promethean self-glorification into helpless passivity; it will ‘ecologically’ integrate with the balance of the New World Order, where the collective sticking to the beaten track will be assured through a fair dealing of the means to satisfy the basest passions and through an external mock religiosity which will endow these passions with a flattering aura of ‘depth’ and ‘self-knowledge’.

This can be psychoanalytically interpreted. Gérard Mendel, on his book La Révolte Contre le Père, one of the most important contributions of the last decades to Freudian psychoanalysis, says that, along history, the impulse of man to surpass the father has been, as intended Freud, one of the most powerful driving forces of progress. But this impulse, he goes on, may take one of two ways: man either surpasses and beats the carnal father integrating himself with the rational order represented by the ideal father, or sends to all devils the ideal order and, free from all moral restraint, kills the carnal father and takes possession of the mother. This last alternative is the promethean rebellion, the ‘integration’ of man into darkness. Hence, according to Mendel, the anthropological as well as psychotherapeutical importance of the words of the most celebrated Christian prayer: the ‘rebellion against the father’ is wholesome and fruitful only when undertaken ‘in the name of the Father’. In short: the carnal father is to the adult man ( Jen ) nothing more than an aspect of Ti, Earth. He needs be put under the rule of the celestial order, Tien or ideal father, if one is to be granted the fair and harmonic government of the Earth, without usurpation or violence. I have always thought there was something Chinese about dr. Freud.

In Mendel’s terms, the Gramscian revolution is the destructive rebellion against the father, and the ideology of the New Age, with its plea for the fusion of all individual consciousness into a soup of holistic mirages, is the ensuing regression to the womb. All regressions towards the womb are announced by the exacerbation of fantasy, by the hypnotic calling of longings deprived of all sense, by the mediumistic foresight of endless delight. They all end in wretched slavery, in helpless passivity before the aggression of the abyssal forces, in the darkening of light.

It must needs be that offences come. The New Age has defeated the Gramscian prometheanism, and make way: here comes hexagram no. 36. There’s coming a shitstorm and Fritjof Capra is its prophet. But in the end, which is not to be reckoned nigh, the power of darkness will succumb by force of its own obscurity.

After the period of darkness, so assures us Revelations, the madness of the new prophets who drew humanity into error will be brought out to full daylight for all to see.

As the New Age has barely begun, it is not time to do the complete show. Meanwhile, not much can be done besides giving some preliminary samples which attest to the generations to come the reality of a past which will seem quite unlikely to them. As the wise Richard Hooker said, faced to the advance of the puritan nonsense in the 16 th century, when all this is through ‘posterity will know that we did not let, through negligent silence, things go by as in a dream’.

Mr. Capra’s book is packed with samples. However, Justice determines that we select them according to its degree of importance as given by the author himself. We must then examine the third ‘turning point’: the revolution of the scientific paradigm.

In this field, Mr. Capra does not seem as impaired as in the Chinese world, which he only knew through third-hand sources. A PhD in physics from Vienna University, he cannot ignore the history of occidental science the way he ignores the Chinese civilisation. But who said he cannot? To prophets everything is possible.

According to Mr. Capra, ‘the paradigm which is now in transformation has dominated our culture for many hundreds of years’ ; he ‘understands a certain number of ideas’ that ‘include the belief that the scientific method is the only valid approach to knowledge; the conception of the universe as a mechanical system composed of elementary material units’. These conceptions bear the respective names of: scientism, mechanicalism, and social-Darwinism. I repeat: according to Mr. Capra, they dominate our culture since many hundreds of years.

This suggests two questions. First: what is to ‘dominate a culture’? Second: how much is ‘many hundreds’?

We say that a certain idea dominates a culture when: firstly, it is accredited by the most important intellectuals from every sector; secondly, the competing ideas are no longer fertile, which means they no longer express themselves into powerful and significant works, or have vanished entirely. Thus, for example, Christianity dominated the Middle Ages because, on the one hand, all of the philosophers and cultured men in general were Christians and, on the other hand, the non-Christian currents of thought, even though they persistently lived on in the collective subconscious, did not produce in this period any work worthy of attention. We say that Marxism dominated the Soviet culture until the 60’s because in this period no eminent intellectual in the USSR produced any idea out of the conceptual frames of Marxism and because the non-Marxist undercurrents (except in exile and in western languages) created nothing of significant.

In this strict sense, none of the three ideas which make up the ‘dominant paradigm’ was ever dominant anywhere in the West. Since they appeared, all three of them were unceasingly opposed to, fought, refuted, and rejected in whole or in part by important intellectuals. On the other hand, openly hostile currents to these ideas have remained fertile enough to produce some of the most significant works in their respective fields.

Let us see mechanicalism. This current was rejected from its birth by giants such as Leibniz, Schelling, Vico, Schopenhauer, Driesch, Fechner, Boutroux, Nietzsche, Weber, Kierkegaard, and many others, until it was stricken down in the 20 th century by Planck’s theory. How can it be ‘dominant’?

Rigorously, mechanicalism was only dominant in a certain part of the world, which for Mr. Capra is ‘the’ world: the Anglo-Saxon universitary circles. That this traditionally presumptuous and self-assured little world should become open nowadays to new ideas, that it should be willing to listen to the Orientals without the traditional colonialist misunderstanding, is no doubt good news. It is local news, though. There is not a more certain way to make a people provincial than to persuade them that they are the centre of the world. From this moment on, they will declare non-existent or irrelevant everything placed out of their view, and when at length they discover something that all the rest of the world already knew, they fashion it into a scientific revolution.

As to scientism, so much has been written about it that it is perfectly wrong to consider it dominant even in a toned down sense of the term. To do so, it would be necessary to exclude at least Marxism, psychoanalysis, phenomenology, neotomism, and existencialism from the foreground of culture. Here, once again, Mr. Capra mistakes for worldwide dominant the opinion of a restricted group.

Social-Darwinism, in its turn, only became dominant as a public belief in one single country in the world: the United States. It has never entered, for instance, neither the communist countries nor the Islamic world; these add up to almost two thirds of humanity. In the catholic countries, it was received from the start as a perverted anomaly, raising reactions of scandal testified by the social encyclicals of popes since at least Leo XIII.

Still, in addition to affirming that these three beliefs ‘dominate the world’, Mr. Capra assures us that this has been going on ‘since many hundreds of years’. Let us tell the story.

The eldest of the three is mechanicalism. Anticipated by Descartes, it was fully formulated by Isaac Newton ( Mathematical Principles of Natural Philosophy, 1687). However, it only became known by the European intellectuals in general after 1738, when Voltaire published the lay-accessible Elements of Newton’s Philosophy.

Not merely by means of scientific publicity did Voltaire promote Newton’s victory. Newton’s opposer, G.-W. von Leibniz, was so insistently slandered by Voltaire with tasteless ironies that the contemporaries ceased paying attention to him. Leibniz was nearly discredited until the 20 th century, when the rediscovery of his ideas brought about prodigious advances in mathematics, logic and the sciences of nature. Planck and Heisenberg’s new physics favoured his ideas against Newton’s, substituting probabilism for mechanicalism. This substitution could have occurred two centuries earlier, if Voltaire, emperor of public opinion in the 18 th century, had not woven a web of such lasting prejudice about him. Ironically, Voltaire entered History as the enemy of all obsolescence and prejudice.

At any rate, Voltaire’s opinion did not exactly spread fast as lightning. It took at least two or three decades to become a dominant belief in the whole Europe. Around 1780, mechanicalism enjoyed an enviable prestige. It can be said to be dominant since then, if ‘dominant’ does not mean unanimously accepted, or accepted without reservations. The opposition moved against it by Goethe’s and Driesch’s vitalism, Boutroux’s contingentialism and many other currents until the deathblow struck by Planck and Heisenberg cannot be forgotten.

At the moment Mr. Capra was writing The Turning Point, vitalism was therefore completing two centuries of unceasingly contested glory and swerving reign over the major factions of the academic world. This is a great deal different from a domain of many centuries over all the world.

As to social-Darwinism, it is an offspring of biological Darwinism and could not possibly have been born before its father. The principle of ‘survival of the fittest’ came out at first as a biological theory and was only later gradually transformed into an ideological evidence for the backward legitimisation of capitalist competition.

The Origin of Species was written in 1859. Herbert Spencer, in his First Principles, published in 1862, widens the reach of evolutionary ideas, fashioning them into a sociological principle. At the same time, occultists such as Allan Kardec and Mme. Blavatsky grasp somewhat wildly the term ‘evolution’ and give it a mystic sense, or mysticoid: the amphibians are no longer the only ones who evolve into reptiles, and these into mammals; the disembodied souls are the ones who, in the other world, evolve into ‘beings of light’, going up on the cosmic scale while the apes descend from the trees. Clothed in a thousand senses, the word ‘evolution’ is widespread, and the public debates appear, which draw the intellectuals’ attention towards the political-ideological potential of evolutionism. The debates reach a peak of success with Thomas Henry Huxley’s conference, ‘Evolution and ethics’, in 1892. There lies, open, the path to the legitimisation of liberal capitalism through the ‘survival of the fittest’. The rest comes with Gustav Ratzenhofer’s ( Nature and Finality of Politics, 1893) and William G. Sumner’s ( Folkways, 1906) books, which explicitly set the foundations to the notion of ‘social evolution’, providing the capitalist ideologists with the precious slogan they needed. Social-Darwinism is, then, little more or little less than one century old. It was even less than that at the moment Mr. Capra wrote his book.

Finally, scientism. The formal and complete rejection, in the name of science, of any philosophical or theological explanation of reality whatsoever, was proposed for the first time by Auguste Comte ( Discourse on the Positive Spirit, 1844). But Comte still reserved for philosophy the task of synthesis and ordering of scientific knowledge, and Comte was only accepted without disputation in one single place on this planet: in Brazil! (In 1914, the positivist Alain attributed the world war to the fact that no other country in the globe followed the example of Brazil, which had adopted positivism as official doctrine of the state on the republican flag:

Order and Progress (4) is in fact a summary of Comtian philosophy. A formal and definitive scientistic statement, along with the utter dismissal of every other form of knowledge as void or insignificant, only came in 1934, with Rudolf Carnap, in Logical Syntax of Language.

But Carnap was no Voltaire, and could not count upon the immediate approval of a vast public. The majority of the 20 th century philosophers categorically rejected scientism, which only dominated over determined groups, especially in the Anglo-Saxon world. Contemporaneously with Carnap’s statement, the mathematician and philosopher Edmund Husserl, founder of phenomenology — the school that would later beget Heidegger, Scheler, Hartmann, Sartre and Merleau-Ponty, among others —, delivered the celebrated conferences at the University of Prague later put together in his The Crisis of the European Sciences.

In this book, he denied scientism from the base up and from the inside out: the physical sciences, so he said, had lost their essential scientific foundation and were no longer useful as a model of knowledge of reality. Husserl was at least as influent as Carnap and still is, though not as much in the Anglo-Saxon world which is the limit of Mr. Capra’s mental horizon.

In conclusion, scientism, which ‘dominates our culture since centuries’, is completing sixty springs in this year of 1994. Furthermore, its first overt manifestation was already three decades later than Max Planck’s first works, whose indeterminism would become one of the bases of the ‘new paradigm’ whose advent Mr. Capra has come now to announce us. The new paradigm is quite earlier than the old one.

Mr. Capra, as can be seen, does not understand much about the subjects on which he exerts, to a crowd-like audience, a prophetic authority. He has a distinguished lack of elementary information on Chinese cosmology, which he says his vision of cultural history is based on, as well as on cultural history itself, which he strives to fit forcefully into a preconceived model, by means of gross generalisations and shameful alterations of chronology.

I do not question, here, the validity of the holistic proposal in general. I reserve myself the right to do it in another work. I simply believe that it must have somehow better qualified supporters than Mr. Capra.

My purpose has been to bear testimony of a fact of worldwide relevance, which happens right in front of our eyes, and whose reality the forthcoming generations will have the right to doubt. For, within reason and sense, it is not plausible that thousands of respected intellectuals may accept and applaud as a milestone in the history of thought a work like The Turning Point, which does not even fulfil the minimum requisites of trustworthy information, authenticity of the sources, and of conceptual rigour demanded from a thesis. Among so many imperfections that a book can have, this one suffers from that single one which cannot be tolerated by any means:

ignoratio elenchi, the complete ignorance of the subject. Mr. Capra defines his book, pretentiously, as a new model of cultural history based on the Chinese conceptions of man and universe. But he has not studied neither cultural history nor the Chinese conceptions enough so that his opinion about them could have any objective importance whatsoever out of his private circle of acquaintance. The content of his knowledge of the subject is pure lana caprina.

The success of this book can only be explained by a factor completely alien to its intrinsic value: its timeliness. It tells people what they wish to hear, at the moment they wish. It offers a seducing perspective to a public that asks to be seduced.

That this public should include not only uncultured people but prominent intellectuals as well, and that these should be ready to take in the author’s promises without even requesting him the scientific credentials demanded of a college student is really an implausible event.

But, as Aristotle used to say, it is not really plausible that everything should always go by in a plausible way. The implausible has happened. It attests that, after centuries of iconoclastic rage against all beliefs of the past and the values of other civilisations, the literate opinion of the West has grown tired at last of being arrogant; but instead of an honest regret, it is enacting a mocking conversion before us, which lays bare all the marks of hysteriform pretending. Stunned by the sudden view of its own faults, it renounced all critical precaution like one who repels a vice from the past; and gave itself, helpless and sceptical, to the cult of the first idol who offered it a promise of relief. It thinks or pretends to think that this idol is its saviour. It is in fact its nemesis.

It is not only the literate opinion of the West who is mistaken. The prophet of mistake is himself likely to make mistakes. he fancies he brings wisdom to the world, while what he brings is obscurity and confusion. He fancies he brings a new prophecy, while what he brings is the fulfilling of an old curse.

I cannot finish these reflections about the prophet of the New Age without making a prophecy myself: in the forthcoming centuries, when our times can be looked at with some objectivity, the phenomenon of the New Age will be considered an offence, a statement against human intelligence.

Offences must forcefully come. Nothing can be done to avoid them. I won’t even suggest, as Jesus did, that a millstone be hanged on their bearer, and that he be drowned in the depth of the sea. For, as the hexagram 36 would say, he is already down deep. All I can do is leave to posterity, if it ever hears about these pages, a personal testimony of these obscure times: Not all, not all believed in the false prophet.(5) NOTES:

Written in September 1993.

Book I, Ch. III.

Metamorfoses Ambulantes

Há anos circula pela | O Globo

internet , acompanhado de ferozes discursos anti-americanos, um mapa do Brasil sem a Amazônia, alegadamente extraído de um livro didático usado em escolas dos EUA para inocular nas criancinhas o maligno espírito do imperialismo.

O idioma inglês do livro é de Catolé do Rocha, uma fraude patente, mas pouca gente percebeu isso.

Agora, vem a senadora Marina Silva (PT-Acre) dizer que seu gabinete investigou o engodo e o desmascarou como obra de um “grupo de extrema direita”. Fui conferir o site apontado como suspeito ( www.brasil.iwarp.com ), e que é que encontro lá? Artigos de Aloysio Biondi, Carlos Chagas, Manuel Cambeses Júnior, Barbosa Lima Sobrinho, Eusébio Rocha — a fina flor do esquerdismo nacionalisteiro, traslado fiel da retórica petista. Se isso é extrema-direita, o dr. Enéas é Sharon Stone. Por meio da senadora — talvez apenas inocente útil –, o bom e velho comuno-nacionalismo denunciava como crime da extrema-direita a obra de suas próprias mãos. É sempre assim. Desde Lênin, é sempre assim: cada mentira comunista que se desmoraliza é reciclada, voltando-se contra novas vítimas acusadas de inventá-la. Stálin deu a maior força ao militarismo alemão, para depois imputá-lo aos capitalistas ocidentais. Mao e Ho Chi Minh distribuíam drogas para o pessoal do “flower power” e acusavam o capitalismo de ser um regime de toxicômanos decadentes. Na estratégia comunista, jogos desse tipo são uma banalidade, o arroz-com-feijão da prática diária. Não requerem nenhum maquiavelismo especial, apenas a aplicação corriqueira do pensamento dialético, que bate sempre com duas mãos. No tempo do general Agayants, chefe da seção de desinformação da KGB, isso era mesmo uma regra elementar: jamais espalhar uma mentira que não pudesse, depois, ser usada em sentido inverso. Mentir, e depois mentir sobre a mentira.

A impregnação espontânea desse hábito na conduta esquerdista pode ser exemplificada pelo nosso presidente eleito, que muda de discurso como quem troca de meias e em seguida se gaba — com toda a razão — de ser “uma metamorfose ambulante”. Primeiro ele assina um manifesto de solidariedade às Farc. Depois vai ao Clube da Aeronáutica e discursa em favor delas. Em seguida, nega que algum dia as tenha apoiado, e por fim escolhe como seu porta-voz o sr. Palocci, o homem do comitê pró-Farc, ao mesmo tempo que o manifesto comprometedor, denunciado por mim nesta coluna, é apressadamente retirado do site do Foro de São Paulo. Outro exemplo: em dezembro de 2001, o homem derrete-se em louvores idolátricos a Fidel Castro; passados alguns meses, declara (ao jornal Washington Post) que só na sua remota juventude teve algum amor ao regime de Cuba. Porém, que mais se poderia esperar do cidadão que se elege com o rótulo de primeiro pobre a chegar à presidência da República, quando na verdade é o quarto ou quinto? O general Agayants tinha razão: se você mente uma vez, pode ser desmascarado; se mente o tempo todo, a platéia fica estonteada e já não faz mais perguntas. O próprio Hegel já definia sua dialética como “espírito de contradição sistematizado”. Raul Seixas não diria isso melhor.

Mas, voltando ao site, é claro que havia também entre seus colaboradores alguns oficiais da reserva das Forças Armadas. O próprio Fidel Castro, desde as primeiras reuniões do Foro de São Paulo, recomendou aos esquerdistas a aproximação com os militares. Desde então, intelectuais de esquerda foram se insinuando para dentro das academias militares e da Escola Superior de Guerra, sempre com um discurso que, contornando os pontos doloridos, buscava seduzir as Forças Armadas na base do nacionalismo anti-americano e dos interesses corporativos. A conversa lisonjeira vinha acompanhada de um intenso jogo de desinformação que atirava sobre as costas dos EUA a responsabilidade pelas investidas imperialistas do globalismo neo-esquerdista entrincheirado na ONU e na rede internacional de ONGs — aquele mesmo que buscava debilitar a soberania norte-americana por meio de empreendimentos como a Conferência de Durban, o Tribunal Penal Internacional, etc., e que dava substancial ajuda aos movimentos esquerdistas do Terceiro Mundo, incluindo a turma de Yasser Arafat e o nosso MST.

Querem saber se funcionou? Em 10 de fevereiro de 2000, o jornal do Partido Comunista Português, Avante, num artigo assinado por Miguel Urbano Rodrigues, informava que militares brasileiros estavam treinando guerrilha na fronteira com a Colômbia, mas não para enfrentar as Farc e sim o que consideravam o novo “inimigo potencial” do Brasil: os EUA. O artigo pode ser lido em http://www.qualinet.com.br/farc-ep/inimigopotencial.html .

Denunciados agora pela senadora como autores da fraude esquerdista, esses militares nacionalistas talvez aprendam, finalmente, que ninguém firma aliança com uma metamorfose ambulante sem se metamorfosear por sua vez em suspeito de todo o mal que ela faça pelo caminho.

Diante da notícia da CNN que informa a presença ativa de terroristas do Hezbollah na fonteira do Brasil com Argentina e Paraguai, alguém terá a cara de pau de afirmar, dogmaticamente e sem exame, que a esquerda armada continental não tem nada a ver com isso? Nossa mídia vai finalmente investigar a sério a hipótese de uma conexão latino-americana do “Eixo do Mal”, ou, por ódio a Constantine C. Menges e em nome da infalibilidade papal do presidente eleito, vai negar tudo “in limine” e atribuir a história à invencionice de algum “picareta de Miami”? Existirá ainda algum repórter nas nossas redações ou toda a curiosidade investigativa da classe jornalística deve ser reservada para crimes de uma ditadura extinta há duas décadas?

Em 9 de novembro de 2002

Yearly Archive For 2017

Diário | Em 10 de dezembro de 2017

Neste país de morenos e mulatos, os meninos da escola me chamavam de sabão-em-pó por ter a pele muito branca. Nunca achei ruim, porque eu também inventava apelidos para eles.

Apeirokalia 2

Data N/A | Bravo!,

1, novembro de 1997 e A Longa Marcha da Vaca para o Brejo: O Imbecil Coletivo II.

Rio, Topbooks, 1998.

Como geralmente se entende por educação superior o simples adestramento para as profissões melhores, conclui-se, com acerto, que toda pessoa normal é apta a recebê-la e que, na seleção dos candidatos, qualquer elitismo é injusto, mesmo quando não resulte de uma discriminação intencional e sim apenas de uma desigual distribuição da sorte. Mas se por essa expressão se designa a superação dos limites intelectuais do meio, o acesso a uma visão universal das coisas, a realização das mais altas qualidades espirituais humanas, então existe dentro de muitos postulantes um impedimento pessoal que, mais dia menos dia, terminará por excluí-los e por fazer com que a educação superior, no sentido forte e não administrativo do termo, continue a ser de fato e de direito um privilégio de poucos.

Esse impedimento, graças a Deus, não é de ordem econômica, social, étnica ou biológica. É um daqueles males humanos que, como o câncer e as brigas conjugais, se distribuem de maneira mais ou menos justa e eqüitativa entre classes, raças e sexos. É o único tipo de imperfeição que poderia, com justiça, ser invocado como fundamento de uma seleção elitista, mas que de fato não precisa sê-lo, pois opera essa seleção por si, de maneira tão natural e espontânea que os excluídos não dão pela falta do que perderam e chegam mesmo a sentir-se bastante satisfeitos com o seu estado, reinando assim entre os poucos felizes e os muitos infelizes uma perfeita harmonia, salvaguardada pela distância intransponível que os separa.

O impedimento a que me refiro não é material ou quantificável. O IBGE não o inclui em seus cálculos e o Ministério da Educação o ignora por completo. No entanto ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois milênios. A mente treinada reconhece sua presença de imediato, numa percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia e a noite.

Os gregos chamavam-no apeirokalia.

Quer dizer simplesmente “falta de experiência das coisas mais belas”. Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o prisioneiro da caverna. Aristóteles, em linguagem mais técnica, dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão.

Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem captar neles o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios, expressões pedantes da impotência de conhecer.

Mas é claro que as experiências interiores a que Aristóteles se refere não são fornecidas apenas pelos “ritos”, no sentido técnico e estrito do termo. O teatro e a poesia também podem abrir as almas a um influxo do alto. À música — a certas músicas — não se pode negar o poder de gerar efeito semelhante. A simples contemplação da natureza, um acaso providencial, ou mesmo, nas almas sensíveis, certos estados de arrebatamento amoroso, quando associados a um forte apelo moral (lembrem-se de Raskolnikov diante de Sônia, em Crime e Castigo ), podem colocar a alma numa espécie de êxtase que a liberte da caverna e da apeirokalia.

Porém, com mais probabilidade, as experiências mais intensas que um homem tenha tido ao longo de sua vida serão de índole a desviá-lo do tipo de coisa que Aristóteles tem em vista. Pois o que caracteriza a impressão vivificante que o filósofo menciona é justamente a impossibilidade de separar, no seu conteúdo, a verdade, o bem e a beleza. De Platão a Leibniz, não houve um só filósofo digno do nome que não proclamasse da maneira mais enfática a unidade desses três aspectos do Ser. E aí começa o problema: muitos homens não tiveram jamais alguma experiência na qual o belo, o bem e o verdadeiro não aparecessem separados por abismos intransponíveis. Esses homens são vítimas da apeirokalia — e entre eles contam-se alguns dos mais notórios intelectuais que hoje fazem a cabeça do mundo.

Infelizmente, o número dessas vítimas parece destinado a crescer. Já em 1918, Max Weber assinalava, como um dos traços proeminentes da época que nascia, a perda de unidade dos valores ético-religiosos, estéticos e cognitivos. O bem, o belo e a verdade afastavam-se velozmente, num movimento centrífugo, e em decorrência “os valores mais sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino transcendental da vida mística, seja para a fraternidade das relações humanas diretas e pessoais... Não é por acaso que hoje somente nos círculos menores e mais íntimos, em situações humanas pessoais, é que pulsa alguma coisa que corresponda ao pneuma profético, que nos tempos antigos varria as grandes comunidades como um incêndio”.

1 As duas fortalezas do sublime, que Weber menciona, não demoraram a ceder: a vida mística, assediada pela maré de pseudo-esoterismo que se apropriou de sua linguagem e de seu prestígio, acabou por se recolher à marginalidade e ao silêncio para não se contaminar da tagarelice profana. A intimidade, vasculhada pela mídia, violada pela intromissão do Estado, tornada objeto de exibicionismo histérico e de bisbilhotices sádicas, desapropriada de sua linguagem pela exploração comercial e ideológica de seus símbolos, simplesmente não existe mais.

Toda a literatura do século XX reflete esse estado de coisas: primeiro a “incomunicabilidade” dos egos, depois a supressão do próprio ego: a “dissolução do personagem”. Mas, desde Weber, muita água rolou. Nas proximidades do fim do milênio, o que se entende por mística é um cerebralismo de filólogos; por intimidade, o contato carnal entre desconhecidos, através de uma película de borracha. Os três valores supremos já não são apenas autônomos, mas antagônicos. O belo já não é apenas alheio ao bem: é decididamente mau; o bem é hipócrita, pseudo-sentimental e tolo; a verdade, feia, estúpida e deprimente. A estética celebra os vampiros, a morte da alma, a crueldade, o macho que mete o braço até o cotovelo no ânus de outro macho. A ética reduz-se a um discurso acusatório de cada um contra seus desafetos, aliado à mais cínica auto-indulgência. A verdade nada mais é o consenso estatístico de uma comunidade acadêmica corrompida até à medula.

Nessas condições, é um verdadeiro milagre que um indivíduo possa escapar por instantes da redoma de chumbo da apeirokalia, e outro milagre que, ao retornar ao pesadelo que ele denomina “vida real”, esses instantes não lhe pareçam apenas um sonho, que não se deve mencionar em público.

Mas nada proíbe um escritor de dirigir-se, em suas obras, aos sobreviventes do naufrágio espiritual do século XX, na esperança de que existam e não sejam demasiado poucos. Acossados pelo assédio conjunto da banalidade e da brutalidade, esses podem conservar ainda uma vaga suspeita de que em seus sonhos e esperanças ocultos há uma verdade mais certa do que em tudo quanto o mundo de hoje nos impõe com o rótulo de “realidade”, garantido pelo aval da comunidade acadêmica e da Food and Drug Administration.

É a tais pessoas que me dirijo exclusivamente, ciente de que não se encontram com mais freqüência entre as classes letradas do que entre os pobres e os desvalidos.

Convite A Falsificacao

Data N/A | Gonçalo Armijos Palacios

(Goiânia), 4 nov. 2001 O veto presidencial do projeto de introdução da filosofia no ensino médio deve levar-nos a algumas reflexões necessárias. Em primeiro lugar: deve ou não a filosofia ser ministrada para adolescentes? A resposta positiva costuma vir com uma justificação: a filosofia deve ser ensinada aos jovens porque ela ensina a pensar criticamente.

A filosofia, lamentavelmente, é uma das disciplinas menos compreendidas, tanto pelo leigo como por quem diz que a conhece. A lógica, costuma-se dizer, ensina a pensar e a filosofia ensina a pensar criticamente. Das duas afirmações, a primeira é absurda e a segunda é falsa. Para ensinar lógica precisamos, obviamente, que quem vai aprender tenha um mínimo de capacidade intelectual e, portanto, que já saiba pensar. Não digo isto de uma perspectiva exterior à lógica. Estudei lógica formal e lógica matemática e ministrei aulas de lógica formal, lógica informal e lógica matemática. E nunca me passou pela cabeça a peregrina idéia de que ia ensinar a pensar àqueles que estavam na minha frente, pois eles, precisamente, tinham as condições de entender o que eu ia dizer. A lógica formal não ensina a pensar, ensina as formas em que nós, os humanos, costumamos pensar, tanto quando raciocinamos corretamente quando o fazemos incorretamente. A lógica matemática ensina processos mais complexos de demonstração que jamais um indivíduo emprega ou chegaria a empregar no seu dia-a-dia.

Passemos à suposta característica de a filosofia ensinar a pensar criticamente. Esta afirmação parte daquela falsa imagem do filósofo como de alguém tão afastado dos assuntos humanos que não teria esse apego que as pessoas comuns têm por aquilo em que acreditam. Assim, dois filósofos, argumentando racionalmente, chegariam às conclusões mais lógicas e, portanto, à verdade — mesmo que esta verdade contradiga posicionamentos anteriores. Nada mais afastado da verdade. É só dar uma olhada rápida na filosofia para ver que não é assim. Os filósofos dificilmente se afastam das teorias que defendem. E isto pela simples razão de serem poderosas as razões que os levaram a defender suas teorias. Para citar um único exemplo: todas as evidências do mundo não foram suficientes para convencer Zenão de que o movimento existe! Zenão fincou pé e defendeu a tese de Parmênides com os mais sofisticados paralogismos. Cadê a atitude crítica? Não há nada que indique que Zenão abandonou suas posições.

Deixemos de lado a tese falsa de que a filosofia ensina a pensar criticamente para perguntar se o mesmo é exigido de alguma outra disciplina. A física ensina a pensar criticamente? A matemática? A biologia? O que a física, a matemática e a biologia ensinam não é mais do que os resultados aos quais físicos, matemáticos e biólogos chegaram. O papel dos professores de física, matemática e biologia deveria ser o de ensinar aos alunos não só os resultados finais aos quais os cientistas chegaram, mas como eles chegaram aos resultados que obtiveram. De maneira análoga, se alguma coisa os professores de filosofia poderiam mostrar aos alunos é como os filósofos chegaram aos seus. Isso mostraria aos alunos quão diferentes foram as motivações, os problemas e os métodos usados pelos vários cientistas e filósofos. Mostraria, entre outras coisas, como cientistas e filósofos divergem e se opõem. Poria em claro, não a inexistente unidade temática, problemática e metodológica na ciência e na filosofia, mas sua pluralidade e diversidade. Mostraria, já na filosofia, que dificilmente encontraremos dois filósofos que concordem sobre o que é a própria filosofia.

Quando cursei o segundo grau tive matérias filosóficas, ética e lógica, assim como filosofia. Penso que foi muito bom para mim ter tido, já naquela idade, contato com alguns dos infindáveis problemas e enfoques filosóficos. E quero frisar: infindáveis. São tantos os problemas e tão diversos os enfoques que mesmo o mais erudito os desconhece. É por isso que a filosofia é inesgotável e aberta, apesar de todas as definições com que obstinadamente muitos a querem desvirtuar. Mas tive a sorte de não ter sido patrulhado ideologicamente e meu professor não seguia um manual de filosofia escrito para oligofrênicos.

Posso estar enganado, mas uma das conseqüências da ditadura militar foi ter empurrado os intelectuais a abraçar o marxismo. Poderiam ter sido motivados a ler Marx, mas sempre é mais fácil ler os manuais de divulgação. E muito me temo que é a pior das vulgarizações e deformações do pensamento de Marx que circula por aí em assembléias, artigos e manuais. Conheço a história da filosofia não por ouvir falar, mas pela leitura das fontes. E fiquei espantado quando li um dos manuais que aparentemente é o mais usado no ensino médio.

Trata-se do texto Convite à Filosofia (São Paulo : Ática, 1995) de uma das mas conhecidas figuras da academia filosófica brasileira, Marilena Chaui. O manual é um eivado de afirmações, umas inexatas, outras falsas, muitas completamente descontextualizadas e outras francamente ridículas. Na página 12, por exemplo, se diz que Sócrates “afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: ‘Só sei que nada sei’”. Sócrates jamais fez semelhante afirmação. E a autora não diz as circunstâncias em que a frase “só sei que nada sei” foi dita. Mas peço ao leitor atenção: uma coisa é afirmar ‘a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer só sei que nada sei’ — nunca proferida por Sócrates — e outra completamente diferente dizer apenas ‘só sei que nada sei’. Isto último, sim, foi dito por Sócrates — mas perceba-se que nada se diz sobre ser a primeira e fundamental verdade filosófica. A autora não diz o lugar em que podemos encontrá-la. A afirmação se encontra nas primeiras páginas da Apologia de Sócrates, escrita pelo seu discípulo Platão, e não deixa lugar a dúvidas sobre o que significa. Sócrates afirma aí que um amigo, Carefon, perguntou ao oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio que Sócrates. A resposta foi que “ninguém é mais sábio que Sócrates”. Este conta que ficou perplexo ao saber o que o oráculo tinha dito porque não se considerava sábio. Ora, por outro lado, o deus não podia estar mentindo ao fazer semelhante afirmação. Sócrates, então, se viu na necessidade de interpretar o que o oráculo dizia e chegou à conclusão de que, à diferença de muitos que diziam saber muitas coisas que no fundo não sabiam, ele, Sócrates, era ciente da sua ignorância. Sua sabedoria, portanto, consistia em reconhecer que nada sabia. Era isto que o tornava mais sábio do que os outros. Este é contexto da expressão ‘só ei que nada sei’ e nada há no texto de Platão que indique que Sócrates tenha feito a outra afirmação: “a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer [sic] ‘eu sei que nada sei’”.

Fiquei surpreso, contudo, quando no final da Introdução li: “O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é útil? Para que e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil?”! Se partimos do suposto que os ensinamentos filosóficos são feitos pelos filósofos, é de se imaginar que essas perguntas tenham sido feitas por algum filósofo antigo. Como, segundo a autora, tais perguntas formam parte “do primeiro ensinamento filosófico”, é óbvio que os primeiros filósofos devam ter sido os que as fizeram. Mas é claro que não há nada nos primeiros filósofos (Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Xenófanes, Heráclito ou Parmênides) que indique que eles tivessem tais preocupações utilitárias ou proposto algo parecido com o utilitarismo. “Qual é o princípio de todas as coisas” — que é a pergunta dos três primeiros filósofos gregos — não tem absolutamente nenhuma relação com preocupações utilitárias. A pergunta, aliás, está mais para o pragmaticamente inútil do que para o útil. Mas, note-se, como poderíamos relacionar “a primeira e fundamental verdade filosófica”, que é, segundo a autora, “eu sei que nada sei”, com o “primeiro ensinamento filosófico” que consistiria em “perguntar” “o que é útil”, “para que e para quem algo é útil” etc.? É óbvio que o primeiro ensinamento filosófico deve estar relacionado à primeira e fundamental verdade filosófica. Que relaciona o problema da utilidade com a douta ignorância de Sócrates? Nada, naturalmente. E, por último, por que nem o “primeiro ensinamento filosófico” nem a “primeira e fundamental verdade filosófica” se encontram nos fragmentos deixados pelos filósofos pré-socráticos, isto é, pelos verdadeiros primeiros filósofos? Grande mistério.

A essas pérolas juntam-se outras que mencionarei nos próximos artigos. Mas, adianto uma delas. Segundo a autora — pasmem — “a física dos átomos revelou ... que não podemos saber as razões pelas quais os átomos se movimentam, nem sua velocidade e direção, nem os efeitos que produzirão”! Que tal? O que o aluno aprende na aula de física, desaprende na de filosofia! Um verdadeiro convite à falsificação...

Em 4 de novembro de 2001

Leituras

Forum Social Ou Socialista

Data N/A | Percival Puggina

O mais distraído jornalista que tenha acompanhado o Fórum em 2001 sabe que esse grupo estava, para a volúpia socialista do evento, assim como o abre-alas de mulatas está para as escolas de samba organizadas por Joãozinho Trinta: levanta a arquibancada e põe todo mundo no enredo do samba.

Dentro de poucos dias, começa tudo outra vez. E agora querem falar de paz! Então, de duas uma: ou se repete o filme com os mesmos atores, ou se melhora o nível e se busca, pela mão, gente séria e desarmada. Neste último caso se estará reconhecendo que o evento de 2001 foi um lamentável engano, uma encenação mal feita, na mais rigorosa tradição da esquerda mundial: promete uma coisa e entrega outra. Ou, se o Fórum de 2001, com sua fauna guerrilheira, revolucionária e terrorista, for considerado válido, a afirmação se aplicará ao evento de 2002 e ao seu discurso em favor da paz.

Por outro lado, um Fórum Social Mundial, do tipo sério, não pode ser socialista, porque como se viu acima, os problemas sociais não são resolvidos com conversa fiada e o socialismo é um case sem versão bem sucedida. Some-se a esse constrangimento, por fim, a frustração do distinto público. Se o Fórum deixar de ser socialista e começar a tratar dos problemas sociais sem demagogia, com objetividade e eficiência, vai sobrar lugar.

Percival Puggina é arquiteto, político, escritor, presidente da Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e de Administração Pública.

Em 21 de novembro de 2001

Leituras

Material Para Pesquisa

Data N/A | http://theinteramerican.org/

http://www.gmu.edu/departments/economics/bcaplan/museum/musframe.htm Contabilidade macabra O prof. R. J. Rummel, da Universidade do Havaí, compara estatisticamente, em número de vítimas, os regimes mais tirânicos e homicidas do século XX. Adivinhe quem é o campeão e em seguida escreva a http://www.artnet.com.br/gramsci/ perguntando qual o detergente que eles usam para limpar o seu ideal dos respingos de sangue.

http://www2.hawaii.edu/~rummel/welcome.html Mais armas, menos crimes — e menos mentiras Um pesquisador da Universidade de Chicago faz as contas e prova que o povo armado é a melhor defesa contra o crime.

http://johnrlott.blogspot.com/ Cuba: o que a imprensa brasileira não conta Prisões, censura, assassinatos por decreto, fugas em massa, gueto para os aidéticos, taxa recorde de suicídios – tudo o que você queria saber sobre Cuba e as pessoas maravilhosas não deixam você perguntar.

http://www.cubdest.org/ WikiLeaks https://wikileaks.org/ Infowars https://www.infowars.com/ The On-Line Books Page Milhares de livros para você descarregar e copiar de graça.

http://digital.library.upenn.edu/books/ BookFinder http://www.bookfinder.com/ The Bibliothèque nationale de France http://gallica.bnf.fr Padre Paulo Ricardo https://padrepauloricardo.org/

Olavo De Carvalho Entrevista Aos Estudantes De Filosofia Da Ufpe

Data N/A | Minerva: Qual a força de um filósofo dentro de uma sociedade profundamente massificada?

Minerva: Qual a importância de Aristóteles para o conhecimento humano?

Olavo:

É dupla: a importância do que já nos deu, a importância do que ainda pode nos dar. A primeira consiste das dezenas de ciências que ele fundou – a anatomia comparada, a embriologia comparada, a lógica, a história da filosofia, a teoria literária, a psicologia, etc. – e das concepções metafísicas que inspiraram a Idade Média Cristã.

A segunda consiste, sobretudo, da visão que ele tem de uma unidade orgânica do conhecimento – um ideal que o sec. XX perseguiu em vão, mas para cuja realização a filosofia de Aristóteles pode dar ainda uma ajuda substantiva.

Minerva: Seu livro O Imbecil Coletivo, está indo para a 3a edição. Qual o alcance filosófico de sua crítica à intelligentzia dominante?

Olavo:

Toda manifestação cultural tem por fundo alguma tese filosófica que pode permanecer implícita e inconsciente. A técnica que emprego em O Imbecil Coletivo é explicitar as teses subentendidas na produção cultural brasileira, e em seguida examiná-las criticamente. Em muitos casos, torna-se claro que a única força delas residia no fato de permanecerem escondidas: uma vez trazidas à luz, sua absurdidade salta aos olhos. Às vezes, basta revelar a origem histórica de uma crença dominante para que ela fique instantaneamente desmoralizada. Um exemplo é a crença de que tudo na vida é político, de que a política é uma dimensão onipresente, de que todo ato humano encerra uma significação política e de que portanto tudo deve ser julgado politicamente. Essa crença, que tanta gente na esquerda brasileira professa de maneira ostensiva ou velada, tem origem nas doutrinas de Carl Schmitt, teórico do estado Nazista.

Basta revelar isto, e a pessoa que subscreveu a tese de maneira ingênua vai se sentir tentada, se for honesta, a questioná-la criticamente. Meu livro não tem só o propósito de denunciar um estado de fato, mas de desentranhar as raízes intelectuais de certas crenças e hábitos que deprimem e enfraquecem a inteligência humana.

Minerva: A seu ver, qual a ajuda que a religião pode dar a uma compreensão global do mundo?

Olavo:

Que é uma religião? É a encenação ritual de um conjunto de mensagens simbólicas de importância medular para a conservação do estatuto humano do homem. As regras morais fazem parte desse grande teatro, do qual devemos participar com sinceridade e devoção, porque ele é a única fonte de vida e saúde para o espírito humano. Mesmo quando as normas de uma religião parecem estranhas ou absurdas quando vistas desde uma outra cultura ou desde a ingenuidade fingida do cético, elas devem ser aceitas de coração, porque elas só entregam seu sentido profundo a quem as ama. Amá-las não quer dizer obedecê-las de maneira mecânica e burra, mas simplesmente não ter contra elas uma atitude de suspeita, de malícia. A sabedoria que reside no núcleo das religiões não se entrega ao olhar malicioso. É isto que Cristo quer dizer quando pede que nos tornemos como crianças. A malícia, no entanto, é o mandamento número um da intelectualidade moderna, que nasce com Voltaire.

O intelectual moderno, cheio de suspicácia e medo, teme ser enganado pelas mensagens de Moisés, de Cristo, de Maomé, do Buda, e acaba por se deixar ludibriar por mentirosos baratos com Voltaire e Marx, que o arrastam a aventuras políticas sangrentas e sem sentido. Veja você, a Revolução Francesa matou, em um ano, dez vezes mais gente do que a Inquisição tinha matado em seis séculos. Pergunto eu: quem é o ingênuo e quem é o esperto? Aquele que crê em Buda e Cristo ou aquele que crê em revoluções? Apesar disso, na imaginação moderna, é a Inquisição que continua a constar como a imagem mesma da violência. Especialmente no Brasil, e particularmente na USP, tem havido uma epidemia de estudos sobre Inquisição, com farta cobertura jornalística, dando a impressão de que o fenômeno inquisitorial está nas raízes mesmas da violência brasileira, o que é uma besteira descomunal. Em três séculos , a Inquisição, em toda a América e não só no Brasil, não executou mais de trezentas pessoas: uma centena por século, uma vítima por ano. É uma cifra ridiculamente pequena, se comparada ao número de pessoas que os índios matavam na mesma época ou à taxa de homicídios de qualquer município da Baixada Fluminense hoje em dia.

Minerva: Como o senhor vê o panorama filosófico brasileiro atual?

Olavo:

Há dois panoramas: o visível e o invisível. O primeiro é constituído de uma grotesca pantomima em que os medíocres se bajulam uns aos outros para dar ao público a impressão de que são importantes. O invisível constitui-se do esforço sincero de dezenas de estudiosos, de ontem e de hoje, alguns perfeitamente geniais, dos quais o público nunca ouve falar. Para mim, a notícia mais importante da década, em matéria de estudos filosóficos no Brasil, foi a edição das obras completas de Platão traduzidas por Carlos Alberto Nunes e publicadas pela Universidade Federal do Pará. Em qualquer país do mundo, isso seria um acontecimento seminal (para usar uma palavra da moda). No Brasil, foi solenemente ignorado, enquanto um jornal de São Paulo gastava doze páginas de uma edição especial para elogiar um livreco do dr. José Arthur Gianotti, um sujeito cujo único talento filosófico é ser amigo do presidente [Fernando Henrique Cardoso].

Como se vê, há dois mundos filosóficos no Brasil: um visível, outro invisível, como as duas faces da Lua, tudo o que é mais interessante está no lado invisível.

Minerva: Num momento como este, como fazer com que o filósofo chegue até uma juventude que não tem sequer perspectivas de sobrevivência econômica?

Olavo:

A mensagem do filósofo aos jovens estudantes, no que diz respeito à dificuldade financeira, é simples, quanto pior ficar a sua condição econômica, mais se apeguem à sua vocação intelectual. Não cedam à pressão de um mundo que quer matar em vocês o espírito à força de atormentá-los com problemas financeiros. O mundo, no sentido bíblico do termo (isto é, a sociedade mundana), só respeita quem o despreza. Na Primeira Guerra Mundial, o físico Werner Heisenberg, então um adolescente, numa cidade reduzida à miséria pelo cerco e pelos bombardeios, se escondia no porão de uma igreja para ler Platão e discutir com seus amigos a metafísica de Malebranche.

Foram os anos decisivos de sua formação: ele poderia tê-los perdido, aguardando melhores dias para estudar. Mas nada, neste mundo, pode vencer a determinação do homem que é fiel à vocação espiritual. Não se intimidem, não desistam. Quanto mais pobres vocês ficarem, mais se dediquem aos estudos. A porcaria reinante não prevalecerá sobre a sinceridade dos seus esforços. Digo isto com a experiência de quem, ao longo de mais de duas décadas de pobreza, com mulher e filhos para sustentar, jamais deixou de estudar um único dia, aproveitando cada momento livre e abdicando de toda sorte de viagens e divertimentos. Nunca esperei que minha situação melhorasse para depois estudar, e garanto: seja teimoso, e um dia o mundo desiste de tentar dominar você pela fome.

Minerva: Qual a ligação entre a arte e a filosofia?

Olavo:

A arte, é na ordem do tempo, a primeira e mais básica das formas de conhecimento. É a síntese imaginativa, que precede toda elaboração conceptual. Logo, a formação artística é a primeira que se deve dar a criança ou a um jovem. Isso inclui o desenho geométrico, como forma de preparação para as matemáticas (um ponto que aqui em Recife o prof. Jarbas Maciel tem ressaltado com muita pertinência), o desenho de observação das formas vivas, como preparação para as ciências naturais, a música, o teatro e as artes narrativas, como preparação para a ciência histórica, as artes oratórias como preparação para a filosofia, etc.

Sem cultura artística, nada feito. A imaginação faz a ponte entre o sensível e o inteligível, já dizia Aristóteles. Sem uma imaginação treinada e apta, o pensamento conceptual fica boiando no vazio como mero formalismo e o sujeito nunca adquire o senso da verdade no pensamento.

As relações entre arte e filosofia podem ser abordadas também de um ponto de vista mais profundo, metafísico, como faz Schelling. Mas, no momento, basta falar do aspecto pedagógico.

Minerva: O que o senhor diz da proposta de José Arthur Gianotti ocupar o lugar de Darcy Ribeiro na Academia Brasileira de Letras?

Olavo:

É coerente: pôe o oco no lugar do vazio. Mas o Darcy tinha pelo menos talento verbal, era engraçado e simpático. Era um brilho fácil e superficial, mas era um brilho. Gianotti é a encarnação mesma da opacidade. Se eu fosse votar, escolheria Bruno Tolentino, Franklin de Oliveira ou Antônio Olinto.

Minerva: O senhor disse que as pessoas já não procuram na filosofia uma sabedoria, uma orientação para viver. Então o que procuram nela?

Olavo:

Procuram aquilo que o ensino em geral oferece: uma profissão e um poder de ação política – tudo aquilo que, tomado como essência em vez de mero acidente, pode levar o homem para longe da concentração interior necessária à busca da sabedoria. A filosofia torna-se assim uma misosofia – o horror à sabedoria.

Link:

Por Baixo Da Mesa

Data N/A | Diário do Comércio

por um professor uspiano: “Não tem sentido falar de verdade tout court , só de verdade para um determinado grupo cultural. O multiculturalismo apregoa uma visão caleidoscópica da vida e da fertilidade do espírito humano, na qual cada indivíduo transcende o marco estreito da sua própria formação cultural e é capaz de ver, sentir e interpretar por meio de outras apreciações culturais. O modelo humano resultante é tolerante, compreensivo, amplo, sensível e fundamentalmente rico: a capacidade interpretativa, de observação e até emotiva, se multiplica.” ( Roberto Fernández , “Multiculturalismo intelectual”, Revista USP , 42, junho-agosto 1999, pp. 84-95.)

Qualquer pessoa que saiba ler e não tenha passado pela USP percebe que o projeto multiculturalista, assim definido (e essa definição não diverge de outras tantas que circulam nos meios universitários), se estrangula a si próprio no bercinho. Se toda verdade está condicionada à visão de um determinado grupo cultural, ninguém pode “transcender o marco estreito da sua própria formação cultural” e muito menos “ver, sentir e interpretar por meio de outras apreciações culturais”. Se alguém consegue saltar por cima das fronteiras culturais, é porque há uma verdade acima de todas elas e essa verdade é acessível à inteligência humana. O multiculturalismo consiste portanto em fazer na prática aquilo mesmo que na teoria ele proclama ser impossível. É um caso extremo de paralaxe cognitiva, em que o sujeito afirma precisamente o contrário daquilo que o seu próprio ato de afirmar demonstra da maneira mais patente. É o deslocamento radical entre o eixo da experiência intelectual efetiva e o da construção teórica supostamente baseada nela.

A incongruência é tão patente, tão grosseira, que não posso acreditar seja filha da distração, gerada no leito das meras coincidências. Com efeito, a contradição aí embutida só permanece levemente camuflada pelo fato de que seus dois pólos se situam em planos diferentes: a teoria e a prática. O estudante, portanto, só pode continuar envolvido nessa prática se for induzido a jamais confrontá-la com a teoria, isto é, se ele se tornar incapaz de cotejar a expressão verbal da teoria com o conteúdo teorético afirmado implicitamente pela prática. Dito de outro modo: o adestramento no multiculturalismo consiste em habilitar o aluno para se persuadir de que sabe alguma coisa sempre que não sabe o que está fazendo com ela. O multiculturalismo é uma técnica de auto-embotamento intelectual baseada na estimulação contraditória rotinizada.

Não tem sentido, portanto, discuti-lo como teoria nem como prática. Só o que cabe é revelar o ardil psicológico por trás da articulação de ambas, e em seguida denunciar o conjunto como aquilo que é: um instrumento de dominação criado para transformar milhões de universitários em idiotas militantes, hipnotizados e postos a serviço de seus professores.

Às vezes fico até consternado de ver o esforço que brilhantes intelectuais conservadores, como o nosso José Guilherme Merquior, dispenderam em impugnar idéias esquerdistas. Ser bem sucedido nesse esforço não significa nada, quando as idéias não valem por si e são só a camuflagem de alguma operação mais discreta. Se um vizinho safado vai jogar baralho na sua casa com a intenção de ficar passando a mão na perna da sua esposa por baixo da mesa , não é vantagem nenhuma você vencê-lo no jogo. O que importa é virar a mesa e encher o sujeito de porrada.

Em 19 de dezembro de 2006

Marxismo Direito E Sociedade Parte Iv

Alaor Caffé Alves – Parte IV | Olavo de Carvalho

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 19 de novembro de 2003.

O LAVO DE C ARVALHO : Em primeiríssimo lugar, é preciso lembrar aos senhores que o conceito de fraude intelectual não é um insulto, é um conceito, inclusive jurídico, perfeitamente delimitado, e que eu tenho todas as provas de que Marx se enquadra nisto, pela falsificação de fontes, pela má interpretação proposital de autores que ele conhecia perfeitamente bem, e assim por diante. Em segundo lugar, eu não vejo por que eu deveria me abster de usar a palavra correta para designar o procedimento dele, quando na verdade eu li Marx durante muito tempo e conheço bem o estilo de Marx. Marx se referia a pessoas contra as quais ele não tinha tantas acusações assim chamando-as de cães sarnentos, vendedores de drogas, proxenetas, canalhas. Assim, este é o estilo de Karl Marx. Eu não estou usando nada disso, eu estou usando um conceito perfeitamente delimitado de ordem jurídica, dizendo que isto é fraude intelectual. Outra coisa: eu não posso confundir a tranqüilidade com a cientificidade. Estar nervoso ou estar calmo não tem nada a ver com esta história. Não vamos confundir calma e tranqüilidade com honestidade. Só interessa uma coisa aqui: tem de ser honesto. Ou seja, não fingir que sabe o que não sabe nem que não sabe o que sabe: isto é a definição de honestidade intelectual.

Os indícios, as provas da fraude intelectual de Marx são vastíssimas, e é uma literatura enorme. Infelizmente essa literatura, no Brasil, é desconhecida, porque o ensino universitário aqui é nesta base: existe a redoma. Prova de que existe a redoma é que o prof. Alaor ficou escandalizado quando eu sugeri que havia um outro conceito de nazismo que não fosse aquele expresso por Dimitrov, o que significa que ele não conhece, ele nem imagina que existe: ele também está dentro da redoma. As principais obras sobre o nazismo rebatem essa concepção marxista no todo: as obras de Norman Cohn, Eric Voegelin, Leo Strauss, há uma bibliografia imensa sobre o nazismo. Se existe uma coisa que é bem conhecida hoje, é o nazismo. Sabemos que ele não foi de maneira alguma a ditadura do grande capital, sob aspecto nenhum, e muito menos ainda foi um regime capitalista: foi um dos regimes mais socialistas e mais intervencionistas que houve na história do mundo. E quando eles se chamaram de partido nacional-socialista, não foi à toa, não foi só para parecer. A semelhança estrutural entre nazismo e comunismo permite dizer que, de fato, a única diferença é entre socialismo internacional e socialismo nacional. É somente isso, e é por isso mesmo que não pode haver uma “Internacional Nazista”, porque só quem se identifica com a cultura nacional é que pode participar daquela porcaria. Então, existe outro conceito sobre o nazismo sim. Não é para ficar escandalizado, mas o próprio escândalo do prof. Alaor mostra como essas idéias e essas informações estão distantes do meio universitário hoje. Porque o prof. Alaor não é um homem inculto; ao contrário, é um homem bem informado. Só que é o seguinte: alimenta-se dessa cultura, e tudo o que recebe de fora já come no formato apropriado a esta cultura. Pode-se passar uma vida assim, e eu digo: eu levei vinte anos para sair disto.

Uma outra coisa que foi dita na outra intervenção é a respeito dos 400 bilhões de dólares do orçamento militar americano: “Se dessem 400 bilhões de dólares para o Brasil ou para a África, nós sairíamos do buraco.” Eu lembraria a vocês um outro dado: só no ano de 2000 (é a informação mais recente que eu tenho, não tenho outra mais atualizada), os cidadãos americanos – cidadãos e empresas, sem contar o governo – fizeram um total de 200 bilhões de dólares de contribuições para entidades de caridade, principalmente do Terceiro Mundo. Some com o governo, e veja quanto saiu. Ora, o que acontece com esse dinheiro? É dado diretamente aos necessitados? Não, é dado a uma estrutura burocrática da democracia participativa: é a comissão, é o conselho, é não-sei-o-quê etc. E tudo isso tem despesa: tem de pagar telefone, tem de pagar aluguel, tem de pagar empregados etc. Vocês sabem como os americanos definem FMI? FMI é uma entidade que se dedica a tirar dinheiro das pessoas pobres nos países ricos para dar às pessoas ricas nos países pobres. Essa definição é muito precisa. De vez em quando nós vemos a nossa esquerda irritada com o FMI (“Ah, porque o FMI...” etc.) como se o FMI fosse um propugnador da economia liberal e não um dos maiores controladores da economia que existe no mundo: é o órgão controlador por excelência fundado por Lord Keynes, que além de ser um estatista feroz era um colaborador da espionagem soviética. Ora, isto quer dizer que ficam brabos de vez em quando com o FMI, usando-o como símbolo do capitalismo. Mas, quando o FMI estrangulou economicamente o governo Somoza para dar o poder aos sandinistas, ninguém ficou brabo. Ou seja, o FMI não tem essa identidade ideológica que lhe estão dando, ele tem uma outra. Quer saber qual é a outra? Eu lhe digo: se o senhor fala das grandes fortunas, veja as duas grandes fortunas, Rockefeller e Ford.

Vocês sabem que se não fossem Rockefeller e Ford não existiria a esquerda nacional. Elas subsidiam partidos, ONGs, o Fórum Social Mundial etc, e ninguém pára para pensar que talvez a equação socioeconômica do mundo seja um pouco mais complicada, um pouco mais sutil do que o esqueminha marxista admite que você veja. Na verdade, se você pensar: mas por que é que esses grandes capitalistas contribuem para o movimento revolucionário? É por um motivo muito simples. O sujeito enriquece dentro da economia liberal e acumula tanto dinheiro, mas tanto dinheiro, que dali a pouco ele entra na seguinte consideração: “Não podemos permitir que essa fortuna, que custou tanto esforço, esteja à mercê das forças irracionais do mercado. É preciso preservá-la.” Então, ele deixa de raciocinar capitalisticamente e passa a entrar em considerações dinásticas. Ele tem de assegurar a continuidade daquela fortuna: o mercado não pode fazer isso, somente o Estado pode. Por isso é que se você pegar as duzentas maiores fortunas de Wall Street, elas jamais apoiaram uma política liberal. Entre dois candidatos nos EUA, eles apóiam sempre o mais intervencionista e estatista. Isto é regular. Por que é que eles podem fazer isso? Porque eles sabem, pelo menos desde a década de 20, que o estatismo total jamais acontecerá. Então, eles estão seguros: por mais estatismo que venha, haverá uma margem de liberdade econômica para quem tenha o poder de assegurá-la. Eles sabem que o estatismo total não funciona, porque isto lhes foi demonstrado. Eles aprenderam – e nós, parece que até hoje não – com o economista Ludwig von Mises na década de 20. Ludwig von Mises disse o seguinte: se você implanta o socialismo, você elimina o mercado; se elimina o mercado, as coisas não têm preço; se não têm preço, não dá para fazer cálculo de preço; se não dá para fazer cálculo de preço, não dá para fazer economia planejada; portanto, não existe socialismo. Por isto mesmo, tanto os metacapitalistas quanto os dirigentes socialistas se prepararam para isto. Na União Soviética, por exemplo, sempre se reservou uma quota de 30 a 40% para a economia capitalista clandestina. E é por isso que se explica o surgimento dos grandes milionários russos. Que, se era tudo do Estado, de onde apareceu tanto milionário do dia para a noite? Já eram milionários. Sempre existiu capitalismo na Rússia, como sempre existiu na China. Ou seja, a estatização total nunca acontecerá. Os líderes comunistas sabem disso, e os grandes banqueiros sabem disso. Por isto, os grandes banqueiros, as grandes fortunas, só têm um inimigo: chama-se economia liberal. Porque ela dissolve as grandes fortunas na concorrência do mercado e eles precisam do Estado para garantir o seu poder monopolístico; por isto fomentam movimentos socialistas e estatistas em todo o Terceiro Mundo. E nós, idiotas, caímos nessa acreditando que estamos lutando contra o poder do capitalismo quando o estamos servindo. Muito obrigado.

Mediador : Passamos agora às perguntas.

P: Eu vou fazer duas perguntas ao prof. Olavo. A primeira, talvez eu tenha compreendido mal – na verdade são três perguntas –, o senhor chegou a dizer que os censores das novelas da Globo tinham uma ideologia marxista...

O LAVO DE C ARVALHO : Certamente.

P: Eu só queria confirmar isso. Isso não me parece evidente, então eu gostaria de um pouco mais de explicação. Com relação à sua concepção do marxismo como cultura, no sentido antropológico de termo, eu também não consigo enxergar claramente todas as dimensões disso, porque a cultura no sentido antropológico implica instituições, e aí eu gostaria de enxergar mais claramente quais são as instituições marxistas que nós temos no Brasil, no Paraguai, em qualquer outro desses países. E a última pergunta é que o senhor faz uma aproximação, inclusive mostrando gráficos, entre o Estado intervencionista e centralizado e o marxismo... [troca de fita] O LAVO DE C ARVALHO : Bom, são três perguntas. Em primeiro lugar, estude simplesmente as biografias de Dias Gomes e de Janete Clair, que sempre foram militantes do Partido Comunista; em seguida, você vai precisar de informações de um pouco mais de dentro e conhecer os scripts de novela que são propostos, que você vai averiguar gradativamente a introdução de elementos de propaganda claramente esquerdista, se bem que light , evidentemente. Porque você vai usar o meio de propaganda conforme a natureza e o público que você vai atingir. Em segundo lugar, quanto à questão da cultura marxista, a resposta é simples: leia Gramsci. E não é verdade que cultura implique instituições. Cultura, no sentido antropológico, é um termo que abrange desde culturas indígenas primitivas até às [culturas] modernas. Eu usei “cultura” e não “sociedade” exatamente por este motivo. As instituições dos países socialistas se incluem nisto; fora dos países socialistas você pode ter um domínio sobre uma parte das instituições, mas isto não é absolutamente essencial para o processo que eu estou descrevendo. E, quanto à terceira pergunta, é verdade que naquele momento Marx advogava o livre câmbio porque as políticas protecionistas eram políticas herdadas de um concepção mercantilista antiga, e naquele momento Marx achava que era mais importante liberar a força do capital, para que crescesse e para que, no entender dele, chegasse a criar a contradição que resultaria no socialismo. Porém, a verdade é que, no século XX, sempre os partidos comunistas e de esquerda favoreceram as políticas protecionistas, como no Brasil. Aliás, uma das vantagens da esquerda é ser internacional. Por quê? Porque ela explora as contradições entre países. Então, por exemplo, nos EUA, a esquerda sempre apóia políticas protecionistas; e no Terceiro Mundo reclama contra as políticas protecionistas americanas que ela mesma criou.

P: É o seguinte: eu estava ouvindo aí esses temas – a revolução, os políticos, o jurídico, qualidade de vida dos brasileiros, milhões de miseráveis, como resolver isso, distribuir renda – e isso me fez lembrar que três anos atrás aproximadamente eu lia o Joelmir Beting, que escreveu um artigo em que ele defendia, em vez da apropriação dos meios de produção, a tributação da produção e da renda. Deu como exemplo países como Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia. Talvez eu não esteja sendo preciso por uma questão de memória fraca, mas eram basicamente esses países da Escandinávia. Eu pesquisei e descobri que exatamente esses países citados pelo Joelmir Beting são países com cargas tributárias extremamente elevadas (30%, 40%, 45%, 50% e mais). E, por coincidência, esses países também são os países com melhor índice de desenvolvimento humano, ou seja, melhor qualidade de vida. Então, será que nos regimes capitalistas vigoraria o que Joelmir Beting chamou de “socialismo fiscal”?

O LAVO DE C ARVALHO : De maneira alguma. Na escala de liberdade econômica a Dinamarca está em 12 o lugar. Imposto elevado não basta para caracterizar um controle estatista. É necessário haver legislações restritivas etc. No conjunto, a economia dinamarquesa é extremamente livre, está bem mais próxima do liberalismo do que qualquer outra coisa, e assim também os outros países. Se me escreverem para o meu e-mail, eu passo essa escala para quem quiser.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Bem, a tributação vem do corte financeiro em cima da sociedade civil. A sociedade civil tem a produção. O Estado precisa viver de um recurso, quer dizer, o recurso é extraído da produção. E conseqüentemente a produção, como não é neutra, ela envolve capital, o capital muitas vezes resiste à tributação. Vocês vêem que ele resiste à tributação tendo em vista o fato de que isso atrapalha a acumulação dele. Então, ele não quer evitar, ele não quer ter limitações de sua acumulação. A tendência, portanto, é haver uma crise interna, pelo processo capitalista, quando há essa quantidade muito grande, muito acentuada dos tributos. Portanto, mais uma vez existe o problema dos conflitos e das contradições internas da sociedade em torno disso. Quando não acontece isso, o sistema cria o “caixa 2”. Vocês já ouviram falar no “caixa 2”: não paga exatamente para ficar com uma parte e conseguir fazer, com isto, a acumulação. Há portanto uma dinâmica econômica no processo, muito importante: não é simplesmente tirar da sociedade.

P: Eu gostaria de saber dos dois professores como é que eles definem o atual momento político e ideológico do país, e se os dois têm esperança no Brasil, e no quê eles teriam esperança?

A LAOR C AFFÉ A LVES : Bem, o atual sistema, o atual momento político é um momento à esquerda. Sabemos que é isso. Pelo menos como ideário, o sistema que prevalece hoje é o Partido, é o PT. Só que é evidente que o PT não pode tomar posições senão pragmáticas, em função da situação. Porque aquilo até que se esperava – que o PT tomasse uma posição mais radical em termos econômicos –, não o fez, aceitando de certo modo as diretrizes de definição econômica e social, tendo em vista os problemas que eles estão enfrentando. Vocês vêem até que eles estão conservadores no processo, inclusive de abertura econômica. Isso significa, é claro, que não é a perda do ideal mais socializante, ou então mais equalizador, do sistema social. Isso é importante. Não é esta perda. São as impossibilidades que o próprio sistema impõe. E essa impossibilidade não é fácil. Por ter uma atuação pragmática que tem de fazer, porque tem de governar o país, e não perdê-lo mas governá-lo, então ele tem de tomar certas posições pragmáticas nesse sentido. É claro que isso implica uma série de questões e problemas que nós temos de enfrentar como um todo, o país como um todo. E o próprio governo neste caso tem problemas muito graves e gargalos seríssimos. Não porque ele não tenha essa dimensão social, mas porque ele enfrenta dificuldades e medidas que eles não têm suficiente controle e condições de fazer.

O LAVO DE C ARVALHO : Muito bem. O presente governo tem duas prioridades e nenhuma delas tem nada a ver com o chamado “social”. A primeira é manter o equilíbrio orçamentário, controlar a inflação e, em suma, atender às exigências do FMI de, como eles chamam, sanidade financeira. Notem bem que essas exigências não têm o teor ideológico que as pessoas lhes atribuem. Esse mesmo conjunto de exigências pode ser usado para esmagar governos de direita ou de esquerda – acabei de lhes dar o exemplo de Somoza. Então, dependendo de quem controla o instrumento, ele aperta aqui ou aperta acolá. Esta é a primeira prioridade. Para quê? Para o governo ter tempo de desenvolver a segunda parte, que é a integração dos movimentos políticos latino-americanos – movimentos revolucionários – e a identificação de Partido com o Estado. São essas duas coisas. Essas duas coisas dão um trabalho miserável.

Eu acho que o governo está fazendo isso da melhor maneira possível. Eu acho tudo isso de uma extrema habilidade. Mais ainda: esta é a política que Lenin seguiria. Três meses antes de o Lula ser eleito, eu escrevi um artigo chamado “O que Lenin faria”, se ele tivesse o poder na mão. Faria exatamente isto: acalmar o investidor estrangeiro (através do equilíbrio fiscal etc.) e montar um sistema de controle político (através da expansão indefinida do Partido, da identificação entre Partido e Estado etc.).

Ter esperança ou não ter esperança é uma coisa que, com relação à política, eu sou incapaz de ter. Eu nunca coloquei nenhuma esperança em política alguma; nem chego a entender o que as pessoas querem dizer com isso. Eu estou me limitando a estudar a situação e tentar entendê-la da melhor maneira que eu possa. Não tenho nenhuma fórmula para salvar o Brasil, mas se fosse para fazer uma coisa boa, eu faria algo que o governo Lula anunciou no começo que ia fazer. O governo viu que o grande número de propriedades imobiliárias irregulares no país (quase 80%) impede a formação de capital para os pobres. Ou seja, os pobres têm o capital na mão, mas é capital morto, não tem liquidez. E ele fez o plano de distribuir títulos de propriedade imediatamente. Mas falou isso durante uma semana e depois broxou completamente. Isto era a coisa boa para se fazer: não tem nada a ver nem com agradar o FMI nem com fazer a revolução latino-americana. Isto eu teria feito se estivesse no lugar deles.

P: Eu gostaria de fazer uma pergunta para o prof. Alaor, e se o sr. Olavo quiser comentar também... Bom, o professor falou que acredita numa democracia participativa, e entende isso como a participação de cada indivíduo de uma sociedade brasileira diretamente nas decisões governamentais. Eu pergunto: como isso é possível hoje no Brasil, sem que haja uma dominação dos meios públicos? Por exemplo, aqui na faculdade tem o orçamento participativo: os alunos vão, orçamento participativo, pá-pá-pá, chega aqui, assembleísmo, pá, a maioria dos alunos acaba não decidindo porque “não tem tempo, não pôde ver, não pôde ir para a aula”. Enfim, como é que isso vai acontecer com o resto do povo brasileiro, com o pescador, um sujeito que não entende muito bem de política (com todo o direito), como é que... Enfim, não sei se o senhor entendeu a minha pergunta. Eu não acredito no orçamento participativo. Como é que o senhor acredita?

A LAOR C AFFÉ A LVES : Não. Acontece o seguinte: a democracia participativa impõe todo um processo muito amplo de mobilização social e de organização social. Se não houver a mobilização e a organização social não haverá nunca a democracia participativa. Ela é agora uma coisa nova. Na verdade, ela é uma proposta de quê? De dez anos, no máximo. Não tem ainda a organicidade que deve ter, e, muitas vezes, a participativa é cooptada. Esse é que é o problema complicado. O próprio sistema não quer saber da democracia participativa efetivamente, mas existem indicações. Por exemplo, eu vou dar uma idéia para vocês entenderem isso. O sistema de conselhos no Brasil é difícil, não é? Ele fica praticamente neutralizado e acaba não surtindo os efeitos que deve surtir. O sistema de conselhos seria interessante, não o conselho de rua (geralmente há o conselho de rua). A chamada democracia representativa é a democracia da rua: todas as pessoas vão à rua, os políticos vão à rua, propõem as suas colocações, fazem as suas exposições, e tentam amealhar, tentam cooptar as pessoas, ou seja, persuadir as pessoas. Eu acho que essa democracia não é suficiente. Por exemplo, a democracia que envolve a possibilidade de participação de todas as comunidades, inclusive as comunidades escolares, fabris, os clubes, as igrejas, as vizinhanças, mas isso ainda tem muito a caminhar. Nós precisamos trabalhar muito e estudar muito esse aspecto e tentar estabelecer relações internas dessas unidades todas e externas, ou seja, inter-relacionais. Não é fácil. Não é fácil. Nós temos a democracia representativa, que domina completamente. E muitas vezes eu tenho perguntado aos vereadores, aos deputados etc., se querem a participação. Eles não querem, eles acham que isso diminui, elimina os seus poderes respectivos. Portanto, eles fazem uma proposta sempre constante de democracia representativa, evitando o mais possível o domínio da democracia participativa. É complicado, demanda consciência, demanda, digamos, uma dimensão muito mais criativa e consciente, politicamente, por parte das organizações. Aqui por exemplo, na faculdade tem muito pouco disso. Precisaria ter muito mais disso, de um movimento político nesse sentido.

O LAVO DE C ARVALHO : É preciso ver se nós estamos discutindo as palavras pelo seu valor de dicionário e pela sua associação emocional ou pela substancialidade das situações de fato que elas representam. Com relação ao conceito genérico de participação, ninguém pode ser contra. Santo Tomás de Aquino já dizia que qualquer sociedade política só pode estar segura da sua sobrevivência se todos os seus membros participarem da política. Quer dizer, isto é uma espécie de consenso universal. Ninguém discute isso há sete séculos. O problema é o como. Ora, a estrutura partidária da representação que nós temos já é suficientemente complexa para que nenhum cidadão possa dizer que a conhece. Agora, multiplique isso por uma infinidade de conselhos, comissões, assembléias etc., e ademais pergunte: todas as pessoas que vão dirigir todas essas coisas são militantes trabalhando gratuitamente? Ou seja, a concepção atual da participação é tão complexa e tão custosa que eu a afastaria de cara como simples psicose. A proposta de democracia participativa pode servir como um instrumento propagandístico para desmoralizar o sistema representativo, que já não está muito bem das pernas. Mas que vá substituí-lo é absolutamente impossível.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Bom, é óbvio que o “como” é complicado mesmo. Mas ele demanda mesmo uma complicação em função de uma sociedade altamente complexa. Não há dúvida. Não há dúvida. O que ocorre é que a democracia representativa não assumiu, e não assume de forma nenhuma, as dimensões necessárias para compor políticas públicas de forma a efetivamente trazer à comunidade a satisficação necessária, tendo em vista exatamente esses problemas que nós elencamos, como, por exemplo, o caso das diferenças profundas entre as pessoas. Essa democracia que nós temos, a representativa, ela tem um problema de representação das camadas sociais e das classes sociais muito distorcido. Não há possibilidade de um aproveitamento claro nesse sistema. Por outro lado, a questão de comissões etc. depende dos “bolsões”. Não é comissão para toda coisa geral. Tem a comissão do meio ambiente, a comissão da educação, disto ou daquilo, as comissões singulares, que vão atuando em sistemas capilares. É claro que isso é complexo mesmo. É um assunto altamente complexo, numa sociedade complexa como a nossa. O que nós não podemos é ter uma posição, digamos, pessimista quanto a isso, porque depois não há sistema nenhum, nenhuma engenharia social ou institucional que nos permita realmente tomar conta da sociedade. Para largar a sociedade justamente para quem? Para aqueles que são os donos do sistema, os hegemônicos do sistema, os donos do capital.

O LAVO DE C ARVALHO : Quando você fala dos “donos de capital”, eu queria lembrar uma coisa a você. A chamada corrente liberal só tem uma instituição que a defende: chama-se Instituto Liberal. O Instituto Liberal de São Paulo fechou por falta de verbas. Jamais faltam verbas para o Fórum Social Mundial, para o PT, para o MST etc. Portanto, a distribuição do poder e do dinheiro não é exatamente esta que geralmente se pensa: “Aqui estão os burgueses defendendo os seus interesses e ali estão os partidos de esquerda heroicamente lutando em favor dos pobrezinhos.” Simplesmente não é assim. Eu não vim aqui para defender proposta nenhuma, o meu ponto de vista é a realidade, e a realidade no momento é esta. Por exemplo, essa capilaridade se faz em grande parte através de ONGs. Vocês sabem que nenhuma das ONGs que nascem no Brasil é produto local? Vocês sabem que a ONU tem um curso de formação de movimentos sociais no Terceiro Mundo que anualmente espalha vinte mil profissionais disso para tudo quanto é lugar, subsidiados por outras ONGs enormes financiadas por Rockefeller, George Soros, Morgan etc.? Vocês têm idéia de que essa tal da democracia participativa é ela mesma uma obra de engenharia social que está sendo implantada em toda a parte, e não está surgindo de baixo? Estudem esse assunto. Estudem a estrutura atual da ONU. Existe um livro do Pe. Michel Schooyans, que foi professor de filosofia no Brasil, chamado La face cachée de l’ONU (“A Face Oculta da ONU”), que trata dessas coisas. Então, notem bem que a estrutura do poder global é bem diferente do que uma análise marxista permitiria imaginar. A estrutura do poder não corresponde a isto. Muita coisa que parece movimento social vem diretamente do grande capital.

P: Eu acho as posições dos dois muito radicais, né. Então, eu queria saber a opinião de “um”, que coloca que aparentemente não há solução, e a do professor, que o sistema capitalista não seria a solução. Eu queria saber se dentro do próprio sistema capitalista vocês não acham completamente inviável uma coisa que o pessoal abomina: o hobbesianismo, o princípio do interesse próprio. Na verdade o interesse próprio de cada indivíduo capitalista, digamos, não pode encaminhar em direção ao interesse social, sem pensar num idealismo romântico, sem apelar para o bom senso ou para a caridade, mas que o próprio capital para se manter ele vai criar, e cria – como tem criado – a função social das empresas, a ação voluntária das pessoas, para desenvolver os próprios mercados que ele quer explorar e não, ao contrário, destruir mercados dos quais ele precisa.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Não, não se trata disso, do fato de que o capital não faça o possível para ficar com uma fachada boa e muito interessante. E não se trata do fato de que o capital não faça também alguma coisa de cunho social. Eu não coloquei essa questão, eu coloquei uma questão de estrutura interna. De qualquer forma, todas as empresas vão buscar o quê? Elas querem mercado, querem tentar colocar os seus produtos. O que eu disse aos senhores é que com a inclusão da sofistificação grande da técnica e da ciência, o sistema se coloca a si mesmo em xeque. Há uma contradição interna no sistema (que não foi comentada aqui), e eu falei com toda a clareza: o sistema, por receber toda a dimensão muito sofisticada da produção... Não porque o capitalista queira, ele não quer isso mesmo. Qual é o dono do capital que vai querer isto? Vai querer nada. Mas ele é obrigado a fazer em termos da sua competição mundial, ele precisa fazer isso. Mas ao fazer isso, ele libera necessariamente a mão-de-obra porque faz parte dos custos. Ele tem de tirar isso da frente. Os custos mais facilmente tiráveis, ou seja, que são possíveis de ser eliminados, são os custos relacionados com a mão-de-obra. A matéria-prima ele tem de aplicar, as máquinas ele tem de fabricar e tem que utilizá-las, não tem jeito. E as máquinas e a matéria-prima vão todas para o produto. A única coisa que ele pode eliminar é a mão-de-obra. Mas na hora em que ele elimina a mão-de-obra (não é porque ele queira, ele vai ter de fazer isso), mesmo fazendo ajustes sociais, fazendo tudo o que você imaginou, a beleza da coisa, se ele está metido em algum processo de acumulação, ele vai precisar necessariamente continuar o processo de expansão da economia, porque a lei do capital é esta mesma: é de permanente ampliação e acumulação. Ele entra num processo de crise e de conflito, que tem um limite, é claro. O capital tem limite, gente. Ele é um processo social, histórico. E como ele tem um começo, um dia vai ter um fim. Um dia vai ter, mas eu não sei nem quando. Qual é a idéia que se vai ter disso? Ele é um processo social. Ou o capitalismo é eterno? De repente apareceu o final da História: é o “Fim da História”? Quebrou aqui e aqui, e não tem mais? Não é isso. Nós estamos mostrando as contradições que levam o sistema a outra situação, mesmo um sistema que seja em geral “bonzinho”.

O LAVO DE C ARVALHO : Bem, evidentemente o capitalismo pode acabar. Se o socialismo acabou, por que é que o capitalismo não pode acabar? Ademais, o capitalismo não tem de ser defendido como ideal para resolver o que quer que seja, porque, em primeiro lugar, o capitalismo já existe. E quando eu o defendo – e mesmo assim com limitações, que eu não sou nenhum entusiasta do capitalismo – é apenas como algo que está funcionando, que funciona bem onde lhe permitem funcionar. Destruí-lo em função de hipóteses como “democracia participativa” é suicídio. Até o momento se falou em contradições: é claro que tem contradições, toda sociedade tem contradições. Mas nunca o capitalismo chegou às tais contradições que Marx denominava “contradições antagônicas”, que o destruiriam desde dentro. A isso não chegou até hoje; e o socialismo chegou. O socialismo mostrou que é incapaz de passar de um certo ponto. Em matéria de contradições antagônicas, o socialismo está ganhando.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Parece que não se percebeu claramente a lei do materialismo histórico. É que a indução do socialismo no século passado foi artificial. Não é que socialismo acabou, como você está dizendo. Ele nem começou.

O LAVO DE C ARVALHO : Ah!

A LAOR C AFFÉ A LVES : Nem começou.

O LAVO DE C ARVALHO : Então me enganaram o tempo todo!

A LAOR C AFFÉ A LVES : Enganaram todo o tempo. Quer dizer, isso de ver fantasmas socialistas de anos atrás por toda a parte [palavras inaudíveis], isso realmente obscurece a pessoa.

O LAVO DE C ARVALHO : [Risos.] A LAOR C AFFÉ A LVES : É preciso ter clareza disso aí. O socialismo como tal, como o próprio Marx disse, teria de fazer com que as forças produtivas avançarem de tal maneira a chegar no limite das relações sociais de produção. O fato é que até agora não se chegou aos limites do sistema. Está se percebendo agora que está começando a entrar nesse processo.

O LAVO DE C ARVALHO : Puxa, que maravilha...

A LAOR C AFFÉ A LVES : A crise está começando a entrar agora. Agora é que estão começando a se desenvolver os problemas de desemprego, do social etc., né? A crise mundial, onde as coisas são irracionais. Um sistema como esse americano, que faz a coisa mais absurda e irracional, como atacar um país inteiro sem motivo praticamente, a não ser um motivo pessoal, um motivo articulado do próprio país, que é a busca de energia que ele precisa tanto para desenvolver o seu sistema. Porque se ele não tem energia, minha gente, ele cai, ele cai completamente. Ele precisa segurar a energia. É por isso que eles fizeram isso. Não é o Bush que é mau, não. O Bush não é malvado (pode até ser, mas a gente nunca sabe). Ele tem de fazer isso em razão da própria impulsão do sistema. Pode estar certo, Olavo: o socialismo não começou, não. Ainda temos muita coisa para ver. Muita água ainda vai correr embaixo da ponte. Infelizmente, eu gostaria que as coisas fossem mais rápidas, mas não são. O que aconteceu foi o desenvolvimento de um tipo de revolução artificial, que não chegou justamente aos limites que o sistema vai ter. Porque os limites o sistema vai ter. E está tendo já, está começando agora. Não sei quanto tempo, pode durar duzentos anos, sei lá. No entanto, é isso mesmo. Estamos agora já com a indicação histórica que alguma coisa agora está condenada pelo sistema capitalista. É isso aí que eu estou dizendo. Agora, se vai ser socialismo... que tipo de socialismo, que forma de socialismo. isso nós não sabemos. É claro, isso não sabemos.

O LAVO DE C ARVALHO : Bom, vocês sabem quantos livros foram publicados com o título de “A Crise Geral do Capitalismo”?

A LAOR C AFFÉ A LVES : Ih, muitos...

O LAVO DE C ARVALHO : Milhões e milhões. Todos faziam esse diagnóstico: “Agora sacamos a crise, agora cai, e agora virá o socialismo.” E quando se diz que muita água vai correr, não: muito sangue ainda vai correr. Matar cem milhões não foi o bastante. Notem bem, uma ideologia que, com esses mesmíssimos argumentos da estrutura de classe, da ideologia, do mercado etc., tomou o poder em um terço do globo terrestre, matando cem milhões de pessoas e só conseguindo gerar miséria em proporções jamais vistas, como se gerou na China – depois de tudo isso, é preciso ter muita cara-de-pau para dizer: “Não, mas aquilo não era o verdadeiro socialismo. Nós vamos tentar outra vez. Vocês me dêem mais um creditozinho de confiança, e desta vez nós vamos acertar.” Ora, por que vamos dar esse crédito de confiança? Baseado em quê? Na autoridade dos cem milhões que vocês mataram? Chega disto! O capitalismo não é grande coisa, o capitalismo chega a ter aspectos até demoníacos. Porém, esse tipo de malefício ele jamais fez: nunca chegou tão profundamente. Portanto, não vamos destruir uma coisa razoável que temos, que pode ser mudada e aperfeiçoada muito, para tentar apostar novamente no socialismo. Mais ainda: porque não é possível uma teoria dizer ao mesmo tempo que as idéias não existem separadamente da história, que as idéias só existem pela sua encarnação material na história, e em seguida dizer que toda a história deles durante um século não o compromete de maneira alguma, e que ele como ideal permanece puro e intocável no céu das idéias platônicas. Isso é charlatanismo.

A LAOR C AFFÉ A LVES : [Palavras inaudíveis.] É evidente que isto não é uma resposta. Em primeiro lugar, ninguém está aqui defendendo a União Soviética, nem está pretendendo que era isto que eu estaria fazendo. Ele [Olavo] está com fantasma na cabeça. Também isso nem precisa mais pensar, que isso já foi mesmo, é coisa da História. Então é um fantasma pensar que o que se propugna é aquilo que estava lá. Não é nada disso. Soube-se que houve erros profundos, sérios, seríssimos. Exatamente porque se propôs impor um sistema fora da hora, fora da História, da dimensão histórica. Porque não se viu realmente a dimensão histórica. Então, é isso que se está colocando aqui. Não é a defesa de coisa nenhuma, de três milhões, de cinco milhões, de trinta milhões que foram perdidos em relação a isto; mesmo porque outros sistemas [palavras inaudíveis], ele [Olavo] não provou que o capitalismo não fez tantas mortes.

O LAVO DE C ARVALHO : Não fez!

A LAOR C AFFÉ A LVES : Não?

O LAVO DE C ARVALHO : Não fez! Não fez! De jeito nenhum!

A LAOR C AFFÉ A LVES : Tantas mortes e muitos problemas gravíssimos de muitas guerras, desde que existem claramente, basicamente as guerras deste mundo inteiro? Quem fez isto, senão todo o sistema burguês capitalista que fez isto? É evidente que houve também essa ampliação burocrata em termos objetivos por parte do socialismo. Então, neste caso, o certo é o seguinte, só para terminar: não adianta entrar nesta questão. Eu quero que ele me explique como é que ele vai resolver o problema das contradições dele (mas claro, tem de ser relido com conceitos) decorrentes deste processo que está ocorrendo com o desenvolvimento tecnológico das forças produtivas, expulsando a mão-de-obra, expulsando a capacidade de poder consumir aquilo que o próprio capital produziu. Eu quero que ele me explique, me explique!

O LAVO DE C ARVALHO : Essas contradições são exatamente as mesmas que Lenin diagnosticava em 1915, e em nome das quais se fez a revolução. Agora, quanto ao morticínio, está aqui:

O Livro Negro do Capitalismo . Quando saiu O Livro Negro do Comunismo , feito por pessoas de esquerda, que provava documentadamente que os comunistas haviam matado cem milhões de pessoas, encomendou-se a um monte de intelectuais que produzissem, de qualquer maneira, cem milhões de vítimas do capitalismo. Então, eles produziram este livro: são trinta autores de alto prestígio no meio esquerdista. Então, para chegar aos cem milhões, foi preciso atribuir ao capitalismo todas as vítimas da Segunda Guerra Mundial (cinqüenta milhões, todas as vítimas de todos os lados), todas as vítimas da Revolução Espanhola (de todos os lados), todas as vítimas da Primeira Guerra Mundial... Isso é charlatanismo. Todo marxista é um charlatão.

P: Eu gostaria que os dois debatores comentassem algumas considerações minhas e vou fazer uma pergunta específica para o prof. Olavo. Pelo tema do debate, eu esperava que houvesse uma discussão a respeito das principais teses desenvolvidas pelo Marx, mas infelizmente as discussões tomaram outro rumo, e eu percebo que as teses propriamente de Marx foram tangenciadas. Como por exemplo a crítica feita ao materialismo, se ele não é o poder de a matéria gerar frutos, o que me parece uma concepção inclusive meio bíblica – o homem feito do barro etc. Quando na realidade o fundamento do marxismo reside justamente na interação do homem com a natureza, que é, segundo o próprio Marx, o corpo inorgânico do homem, e a produção da ideologia se dá a partir dos pressupostos da atividade espiritual humana. Então, nós estamos aqui fazendo o quê? Nós estamos aqui debatendo, mas nós estamos aqui vestindo roupas, nós estamos calçados, os debatedores estão tomando água, fumando cigarro. E de onde vêm essas coisas? Tudo isso foi produzido, tudo isso foi criado de alguma forma através de alguma espécie de intervenção humana. Isso é a produção da ideologia, e não dizer que o trabalhador tem de pensar como proletário e o capitalista tem de pensar como um crápula. E isso é ridículo. E a maior prova ao contrário dessa fórmula é o Presidente Lula, que é um trabalhador e que diz: “Eu nunca fui de esquerda.” Então, a questão é mais por aí. Eu gostaria que os debatedores comentassem essa minha consideração. Outra delas é que me pareceu ali muito claro o tempo todo que o socialismo foi discutido em termos de planificação estatal, quando na realidade a teoria de Marx é muito diferente disso. Não se trata de perfectibilizar o Estado ou de aprimorar as camadas políticas, tampouco de controlar o mercado. A perspectiva de Marx é radical. A perspectiva de Marx é a destruição do mercado, a destruição do Estado, mas a destruição do mercado não para substitui-lo pela planificação, mas para substitui-lo pela apropriação social. Esse é segundo ponto que eu gostaria que fosse comentado. E aí, por fim, a pergunta para o prof. Olavo. Eu fiquei muito feliz com a vinda do senhor aqui, pela oportunidade de pedir um comentário sobre um artigo que eu li há cerca de um ano ou um ano e meio no jornal O Globo , se não falha a memória, em que você afirma que o então presidente Fernando Henrique Cardoso estaria mancomunado com o MST e preparando a transição do Brasil ao socialismo. Eu gostaria que o senhor comentasse esse seu ponto de vista.

O LAVO DE C ARVALHO : Vocês façam a conta de quanto saiu do governo FHC para o MST. Sem isso, o MST simplesmente não existiria. É só isto: ele fez o MST, ele é o criador do MST. Quais foram as intenções ideológicas, eu não sei, evidentemente. Porém, houve uma série de artigos publicados por Alain Touraine na Folha de São Paulo (Alain Touraine é uma pessoa que tem influência grande sobre a cabeça de FHC), nos quais ele traçava o plano de uma virada do Brasil à esquerda. Eu não sei se foi isto que FHC quis ou não – nem me cabe conjeturar –, mas eu estou apenas cotejando dois fatos e vendo que é possível haver uma ligação. Quanto saberemos se houve isso ou não? Daqui a muito tempo, certamente. Mas que o governo FHC construiu o MST com verbas do Estado, isso é um fato inegável.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Eu não tenho muito que comentar à formulação dessas questões. Elas estão muito corretas para mim, né? Ou seja, o fato de que a materialidade depende das relações de produção dos homens. Por exemplo, o caso que foi colocado aqui: nós estamos aqui nessa mesa, tudo está sendo visto, todos estamos vestidos, temos nossa alimentação já preparada, temos nossas roupas; amanhã ainda teremos porque outras pessoas estão trabalhando para nós também. Nós estamos trabalhando para eles, e eles para nós. Há uma relação social envolvida necessariamente. Isto é uma dimensão social grave e séria. Eu não posso estabilizar que os homens, apenas pelas suas idéias, é que transformam as coisas ou fazem as coisas; fazem através do movimento prático da praxis deles, dentro da estrutura social e econômica onde há a troca entre os homens, fundamentalmente. Portanto, eu não muito o que dizer sobre esse aspecto da matéria. Não é a matéria no sentido, como eu disse a vocês, abstrata, mas é a matéria do ponto de vista das relações humanas concretas, o homem agindo sobre o meio e transformando o meio. E quanto à apropriação social, que foi uma das propostas, mostra claramente que a apropriação social é feita de uma forma totalmente desequilibrada. Por isso, se houver essa questão que foi colocada aqui pelo Olavo, pelo jornalista Olavo, foi colocada a respeito da necessidade de estabelecer uma esquerda, de uma posição à esquerda. Se for para a distribuição melhor da sociedade, uma distribuição das riquezas, que vamos para a esquerda. Ué, se há uma miséria imensa, e nós vemos que as estruturas tradicionais não resolvem a questão, não tem importância: vamos à esquerda. Pois se ela tentar resolver e se resolve, melhor. E Agora, nós não temos a certeza de tudo isso, é verdade. Mas dizer que o sistema é bom, é quase que dizer... Primeiro ele diz: “Olha, eu não sou um arauto do sistema, de forma nenhuma, mas vamos então admiti-lo como bom, que ele é a única coisa boa que tem.” Mas nós temos também expectativas, utopias, nós temos também meios de ver o mundo, nós temos também aspirações, nós temos nossa imaginação, e nós precisamos realmente imaginar um mundo melhor e utópico. Isso é otimismo. Não é um pessimismo que diz que tudo o que está à frente, se for à esquerda, não presta. Quer dizer, aqui se defende exatamente posições de direita dizendo não está se fazendo isso: “Não estou fazendo isso.” Está aqui atacando a esquerda e dizendo: “Não é uma diferença de idéias.” É um ataque com toda força à esquerda, às visões marxistas etc., que são razoáveis em muitas questões. Como eu já disse, não é perfeito. Não é que seja a panacéia, e não será mesmo. Nós temos de criar a nossa própria panacéia. Nós temos de criar o nosso mundo, a nossa utopia. Não é Marx no século XIX. O importante é que temos de utilizar isso. É pena que tudo isso que nós conversamos e desenvolvemos nós pensamos em falar em “Marxismo, Direito e Sociedade”, especialmente a questão do Direito. E eu vi que isto fugiu completamente. Talvez eu tenha sido vítima da direita. A esquerda também é vítima, embora ele diga que não, porque tudo aqui é da esquerda, todos são, até as novelas são de esquerda, a Globo é de esquerda. É ver as coisas que não tem, que não existem mais. Até esse fantasma do chamado comunismo, isso acabou. Nós temos de agora buscar uma outra vida, uma outra forma, uma outra sociedade. É isso que tem de fazer, e não ficar remoendo problemas do passado. Existe aqui até um movimento muito sério, muito grave em São Paulo, chamado TFP (Tradição, Família e Propriedade), que faz esse tipo de coisa, ficam agindo nas ruas como se houvesse ainda esse fantasma, como se essa esquerda fosse o quê? Ela simplesmente vai tentar desenvolver um sistema onde haja mais distribuição social. Mas é só isso que se pretende fazer. O que se pretende fazer? Uma igualação, uma igualdade melhor entre os homens. É isso que se pretende fazer. O que é que se pretende fazer? O que é que se pretende fazer senão melhor igualdade, maior igualdade, para condicionar uma vida de paz social, e que as pessoas tenham oportunidade de aprimorar sua personalidade, a sua vida... Enfim, é isso que nós queremos. Não queremos mais nada do que isso. E não ficamos aqui apresentando esses exemplos; esses exemplos históricos que são mais do que conhecidos, sabemos que tem isso. Até ele [Olavo] chega a dizer que esses exemplos são todos eles terríveis; do outro lado, o nazismo não teve nenhum problema...

O LAVO DE C ARVALHO : [Olavo protesta.] A LAOR C AFFÉ A LVES : “Nós não sabemos, não conhecemos nada.” E o capitalismo é um sistema absolutamente muito bom. O que é que é isto? Todos estão de acordo com esse tema que ele está, com essa distribuição terrível que ele está, com essa miséria do Brasil? Daqui a pouco vai se falar que a miséria é determinada pelos esquerdistas, pela esquerda...

O LAVO DE C ARVALHO : E é, e é.

A LAOR C AFFÉ A LVES : ... como está se fazendo colocando a questão de que o FMI é de esquerda, os EUA é de esquerda, Rockefeller é de esquerda etc. Isso é uma coisa maluca. É uma questão emocional muito grave...

O LAVO DE C ARVALHO : Ora, o prof. Alaor tem a pretensão de diagnosticar os meus problemas emocionais. Dele, eu só diagnostico uma coisa: ignorância. Primeiro, ignorância dos escritos de Marx. Ele diz que a matéria é função da produção; Marx diz exatamente o contrário: Marx subscreve inteiramente as concepções atomísticas de Demócrito e aceita a ciência newtoniana como a tradução perfeita da realidade. Ademais, a idéia de uma dialética interna da matéria está exposta nos escritos do próprio Engels e faz parte da tradição do movimento comunista. Abolir tudo isso, dizendo que Marx só falou da produção é absolutamente ridículo, é coisa de ignorante, para não dizer mentiroso. Não o acuso de mentiroso mas o acuso de ignorante. Em segundo lugar, com um homem que chega para mim e diz por um lado que “ah, esse momento é da esquerda, a esquerda está com tudo” e, por outro lado, diz que não existe esquerda nenhuma, em algum ponto a coisa está falhando. Em terceiro lugar, o conselho de “esqueçamos a História, nada disto aconteceu, vamos tentar de novo, vamos confiar”, isso é uma palhaçada, isso é pueril. Não se pode aceitar uma discussão nessa base.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Bem, eu evidentemente não estava esperando essa agressividade. Essa foi demais.

O LAVO DE C ARVALHO : Agressividade é a sua, que começa a falar em problemas emocionais.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Veja bem, tem de respeitar. Chamar a gente de ignorante, e pressupor que eu não conheça Marx...

O LAVO DE C ARVALHO : Pressupor não: afirmo!

A LAOR C AFFÉ A LVES : ... e ele diz também que quatro décadas foi do Partido Comunista. Maluco isso! Nunca foi coisa nenhuma! Foi nada!

O LAVO DE C ARVALHO : O quê? Está me acusando de mentiroso?

A LAOR C AFFÉ A LVES : O senhor me acusou de mentiroso aqui.

O LAVO DE C ARVALHO : Não, eu te acusei de ignorante.

A LAOR C AFFÉ A LVES : [Palavras inaudíveis.] [Tumulto.] O LAVO DE C ARVALHO : Você é que está mentindo.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Você é que me xingou!

O LAVO DE C ARVALHO : Você é mentiroso! Safado!

A LAOR C AFFÉ A LVES : Ele vem aí com coisa [palavras inaudíveis] anti-socialista ou antimarxista e vem dizer que já foi, sabe, e conhece tão profundamente. Imagine que ele agora não é, porque ele analisou tão profundamente isso e está dizendo...

O LAVO DE C ARVALHO : Pois foi exatamente isso que você nunca fez.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Ora, pelo amor de Deus!

O LAVO DE C ARVALHO : Você é um idiota.

Alaor Caffé Alves : Olha aí! Quer dizer, eu estou falando ao mesmo tempo; agora, se você disser que eu sou idiota. Olhem, vocês me perdoem. Eu sou da Faculdade. Eu não vou permitir uma coisa dessa! Isso é uma agressão pessoal. Eu esperava...

O LAVO DE C ARVALHO : Você me agrediu primeiro, falando de problemas emocionais.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Eu comecei muito bem, dei para vocês o mais possível a minha idéia a respeito de um conceito sobre Direito, sobre a questão que o Marx colocou; e a coisa foi num crescendo que eu não vou me admitir, vocês me perdoem.

A LGUÉM DA PLATÉIA : Está fugindo?

A LAOR C AFFÉ A LVES : Estou fugindo. Vou fugir. Estou fugindo para respirar. Eu sei que vocês, grande parte de vocês, foram mobilizados. Houve uma mobilização aqui, séria, grave, séria, e eu não vou me permitir, como professor da casa, ser agredido dentro da minha casa, por uma pessoa como esta. Vocês me perdoem.

* * * Nota de O. de C.: Ao final dos debates, há um tumulto geral, aplausos e vaias misturam-se de maneira indiscernível. A maior parte das vaias condena a atitude de desistência do prof. Alves, mas num canto da sala ouve-se distintamente o refrão gritado por um grupo organizado de jovens de idade manifestamente inferior à da média da platéia: “Alerta! Alerta! Alerta aos fascistas! A América Latina será toda socialista.”. – O. de C.

Marxismo Direito E Sociedade Parte Iii

Alaor Caffé Alves – Parte III | Olavo de Carvalho

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 19 de novembro de 2003.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Bem, isso se trata de um debate, e se é um debate pressupõe um embate de algumas idéias que são postuladas. Obviamente eu não penso como o prof. Olavo no sentido tão global de cultura marxista; não considero que isto exista no sentido que foi colocado. Há uma ideologia, obviamente, e toda ideologia pressupõe sempre a restrição, em princípio, de seus membros ideologicamente preparados e geralmente tenta excluir as outras ideologias, tanto quanto a ideologia neoliberal tenta excluir a ideologia marxista – é óbvio, é a mesma falta. O importante é estudar a ideologia. É claro que, como foi colocado aqui, a ideologia de Marx nunca foi assim colocada. Marx tem até um trabalho muito conhecido, A ideologia alemã , onde ele desenvolve três conceitos de ideologia; e além disso, depois, no curso dos seus trabalhos, desenvolve outros conceitos. Aliás, a ideologia é plurívoca, tem várias idéias, vários conceitos para definição e caracterização das ideologias, mas não é tão singelo assim como se fez parecer. Obviamente, foi colocada aqui uma série de questões relativas à história do socialismo real, mas nós aqui dissemos aos senhores que isso não significa que reflita de forma nenhuma as bases autênticas do pensamento marxista.

Muitos pensadores, inclusive da estirpe marxista, são de variadas concepções, de variadas formas de ver o mundo. Não existe “um” marxismo mesmo. Existe o próprio Marx: quem quiser estudar, estude Marx. Não se postula apenas inicialmente como uma cultura, porque Marx iniciou seu trabalho cientificamente. Pode ter muita coisa errada, disso não há dúvida nenhuma. Mas que ele iniciou seu trabalho com uma análise científica da economia burguesa de sua época, ele fez isso. Ele não teve intenção de estabelecer uma sociedade socialista, comunista; ele nem tratou disso, na verdade. Ele sempre propugnava alguns programas em bloco, propugnava uma sociedade mais justa.

Aliás, é exatamente esse o problema: como dizer que o marxismo é um conjunto de besteiras, de bobagens, se ele parte exatamente de uma realidade que até hoje é presente? Expliquem para mim a racionalidade de que o bolo social é um só e, no entanto, um grupo pequeno de pessoas amealhe esse bolo, patrimonialize esse bolo, capitalize parte desse bolo, e uma grande quantidade de pessoas não tem absolutamente nada, nem sequer o que comer. Eu já não estou partindo da literatura, nem do pensamento, nem das coisas abstratas. Estou pensando na realidade atual: milhões de brasileiros não têm o que comer, não têm recurso, e eles participaram na elaboração do bolo. Ou não? Pensar que aqueles que têm um patrimônio imenso, recursos acumulados imensos. Esses recursos vêm de fora da sociedade? De Deus? Deus seria malvado, não é? Ele dá recursos só para um grupo e não dá para os outros. Eles vêm da sociedade conjunta, de todos, e no entanto temos uma diferença tão profunda que não há sequer neoliberalismo – que hoje é dominante – que resolva esta questão, e não vai resolver. Assim como se diz que o marxismo não vai resolver, o neoliberalismo também não vai.

O LAVO DE C ARVALHO : Tem toda razão.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Há anos estão aí, com mais amplitude, globalizados, e tudo o mais; e no entanto nós temos seis bilhões de seres humanos, dos quais três bilhões estão numa situação de penúria ainda, se contarmos a África, a Ásia, [palavras inaudíveis]. A pergunta é a seguinte: onde está a razão de que um grupo social mantém uma estrutura, e que o Direito está aí presente, ele é um instrumento para esse mesmo efeito? Não é que o Direito seja culpado, de forma nenhuma. Os culpados são os homens, não o Direito. Ele não tem pernas próprias. São os homens que fazem isso, somos nós. Como justificar as discrepâncias, as diferenças terríveis que existem nesse país? Dizem que é a nona economia do mundo, mas é a 54 a em distribuição de renda. [Palavras inaudíveis.] Perguntou-se a respeito da Revolução Francesa, e se disse que realmente não havia nenhum capitalista na Revolução Francesa. E hoje nós temos o sistema mais bem definido, mais bem claro, mais bem caracterizado que é o sistema capitalista no Brasil e em outros países e eu pergunto: vocês encontram políticos burgueses? São os capitalistas que estão lá fazendo leis? São os capitalistas que estão organizando e que estão governando o país? Não é só no Brasil, não. E aí pensar: “Aí está o PT agora. O PT é comunista, é socialista.” Claro. Não estão conseguindo fazer o que queriam fazer? Erguer até operário? Porque o sistema é tão forte, a dimensão objetiva estrutural do sistema é tão forte, que podem ter lá idéias comunistas e socialistas que não vão conseguir nada. Porque a estrutura determina isso. A questão científica está em saber quais são os elos que vão nos explicar por que é que lá, no Congresso Nacional, não temos burgueses, mas as leis são burguesas: interessante essa mecânica. Eu gostaria que se utilizassem instrumentos sociológicos, e a sociologia política inclusive, ou a sociologia eleitoral para mostrar como é que se dá isso. Quantos operários nós temos no Congresso? Nenhum, ou poucos, contam-se com as mãos. No meio rural? Pouquíssimos. E mesmo os restantes não são burgueses capitalistas. Não são os pró-capitalistas. Eles nunca quiseram... Aliás, o empenho deles não é participar no sentido do proscênio político. Já tem toda uma dimensão estruturadora do sistema que se chama “forma de produção ideológica”. É para isso mesmo. Vamos criticar, por exemplo, as novelas, a mídia, os jornais, os jornalistas. [Palavras inaudíveis.] Criticar todos, porque todos participam desse processo de fazimento, realização e estruturação das idéias dominantes. Idéias estas que definem exatamente essa profunda injustiça que existe.

Então nós temos de nos revoltar contra isto. Sei lá que idéias vocês vão usar, se idéias marxistas, idéias neoliberais, idéias liberais, idéias social-democratas. Não importa. O fato importante, fundamental é este, gente: nós temos de vencer as discrepâncias, as diferenças sociais profundas que existem nesse país. Isto é muito grave, sério. Pouco importa, inclusive, o esquema de idéias que vamos utilizar. É natural que diante de uma situação dessas, os homens tendem sempre a tentar equacionar o problema mediante seus conceitos, mediante sua compreensão, como fazer isso tudo, como resolver essa questão da distribuição da renda. Não é fácil. Dentro do regime de mercado, que é tão defendido pelos neoliberais, nós não encontramos nenhuma solução. Até agora nunca houve isso. Pelo contrário, no sistema de mercado temos uma diferença tão profunda entre os homens: entre muitos que não têm absolutamente nada, que não vão ter mais nada do que têm, isto é, nada, e aqueles que têm muito, que vão ter a chance de ter, fora isso, mais e mais. É a lei da acumulação. Ela existe ou não existe? É a lei do mercado: quem tem recursos, tem como produzir a liberdade, ou não tem? Quem tem recursos vai à Europa, vai à Ásia, vai conhecer o fruto de culturas diferenciadas, vai expandir sua personalidade, vai ter educação, vai ter a medicina, vai ter a saúde, vai ter a sua cultura acrescentada, porque tem recursos. E quem não tem? E quantos não têm? Não têm nem recursos para ter saneamento básico, nem água destinada à sua higiene. Minha gente, isso é uma realidade, eu não estou falando aqui como se fosse uma construção silogística ou teórica. Isso é real, e o mercado está ali, defendido, pois é ele exatamente por enquanto assim jogado às suas próprias forças, autonomicamente desta forma como ele é, que ele é sempre um indutor da miséria e das diferenças profundas sociais. Isso não é só o Brasil, não. É em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos. Lá até é um pouco melhor em relação, porque o país é riquíssimo.

Falou-se da KGB. Falou-se da KGB. Claro, quem é que vai aceitar uma coisa como esta? A KGB. Quem é que vai aceitar um negócio desses? Ninguém vai aceitar. Ninguém, na boa consciência dos homens. Está correto o professor, o doutor Olavo. Mas é preciso também dizer o seguinte: hoje, os Estados Unidos põem 450 bilhões de dólares anualmente no seu orçamento militar. Não estou falando em KGB, não. Não estou falando de espionagem. Estou dizendo de máquinas mortíferas: sabe aquelas que caem bombas, sabe aquelas que apertam botões e vai matando gente? 450 bilhões de dólares. Já imaginaram o que é 450 bilhões de dólares em um ano? 450 bilhões de dólares! Se isto fosse distribuído para toda a África em três tempos nós teríamos o desenvolvimento de toda a África. É claro que não vão fazer isso, pois eles vão cuidar eles próprios dos seus próprios problemas. Fazer isso significa criar opressividade para eles. Imagine o que seria 450 bilhões de dólares aqui no Brasil, de vez; basicamente o país inteiro há muito está precisando. Isso em um ano! Mas eles jogam isso em um ano na máquina, na máquina de guerra! Então, isto está muito claro. Se nós estivéssemos importando recursos deste tipo, não há dúvida que teríamos chances enorme de ter um desenvolvimento enorme imediatamente. Eu diria que, em dez, quinze ou vinte anos, ou trinta anos no máximo, teríamos desenvolvido o globo inteiro; mas esse desenvolvimento não é comportado pelas relações produtivas do sistema capitalista. Este sistema, como vocês vão vendo, não só os 450 bilhões, são bilhões e bilhões derramados não só no exército, mas na estrutura social americana, na NASA. A pergunta é a seguinte: vocês já viram aquelas coisas maravilhosas que tem lá? Aquilo custa dinheiro, aquilo custa recursos. Vocês acham que aquilo tudo vem dos Estados Unidos? Vem do povinho que vai lá, que trabalha e que portanto faz seus programas espaciais, o seu programa de atuação militar, a sua dimensão de políticas sociais? Nada! É do mundo inteiro que eles tiram!

Alguém da platéia : A China também, né, professor?

A LAOR C AFFÉ A LVES : Mesma coisa. Que seja. A mesma coisa. Aí vocês vêem portanto o que eu quero dizer. Eu não estou falando do povo dos Estados Unidos singularmente; eu estou dizendo, gente, que o sistema não funciona de outra forma. Vocês, jovens, estão vivendo na carne hoje o problema do desemprego. O desemprego não é uma questão simplesmente conjuntural, é uma questão estrutural hoje. Não é no Brasil, é no mundo inteiro.

O fenômeno da globalização: esse desemprego é decorrente do quê? Da introjeção de tecnologia e ciência no processo produtivo. É muito óbvio. É muito fácil isso. É necessário. Mas na medida em que se vão introjetando sistemas cada vez mais sofisticados de produção, vai se expulsando cada vez mais mão-de-obra do processo produtivo. E não é só expulsão no primeiro ou no segundo setor da economia, na indústria ou no setor rural; também no terciário: cada vez mais vocês têm dificuldades em ter engajamento. E o sistema não tem como fazer, porque ele está entrando em contradições profundas. Ele é contraditório na sua própria realidade estrutural, na sua dinâmica. Ele é contraditório mesmo. Ele não vai criando só mercado; ele produz cada vez mais e mais, com máquinas, com automatização, com informática, com a robótica, com tudo. Mas os homens vão e se apresentam às fábricas. Mas como pagá-los, a esses homens, para que eles possam formar o mercado, a fim de consumir essas coisas todas produzidas pelas máquinas sofisticadas? Como? A resposta é: não tem como. E então não podemos avançar mais com a economia, não podemos avançar mais com a tecnologia, com a ciência. Nós precisamos distribuir renda.

Isto decorre exatamente da perspectiva, da visão deformativa do que nós chamamos de materialismo histórico: o desenvolvimento das forças produtivas está definindo uma nova relação entre os homens. Como sair dessa? É claro que pode levar dez dias, levar dez anos, ou mesmo uma centena de anos; isso aí nunca se sabe, isso é um produto histórico. Mas que as contradições internas o estão corroendo, estão. Não porque os homens assim queiram; é porque a estrutura social e econômica está definindo esta forma: as relações entre os homens mediante os processos produtivos e os instrumentos de produção. Talvez não comporte mais esse tipo de relação; uma outra relação onde haja uma [palavra inaudível] cada vez maior, uma produtividade cada vez mais sofisticada, mas uma distribuição que ainda não se enfrentou. Não se distribui mais pelo salário, então vai se distribuir de que jeito? Como? Por quê? Conte para mim. Conte. De que jeito vai distribuir? Isso é decorrente, inclusive, da econômica; não é teoria, nem teorético, de jeito nenhum. Com isto todos estão preocupados, inclusive os teóricos burgueses neoliberais; eles sabem disto, estão percebendo isso, certamente, claro.

Ainda se fala no caso do Estado, como se só o Estado aparecesse; como se não houvesse nenhuma alteração do sistema feudal que passou para o sistema capitalista, burguês, sem uma modificação específica. O Estado, inclusive, foi tomado primeiramente pelos nobres que atuavam de forma absoluta, mas não se percebeu aqui que o Estado apareceu justamente neste momento como Estado absoluto. Por que é que o Estado apareceu? Apareceu justamente na continuidade do que eu havia dito antes, e é preciso analisar, é preciso trabalhar bem a análise analiticamente. O que eu disse? Eu disse que o processo de desenvolvimento das forças produtivas determinou que os homens ampliassem o mercado, portanto aparecem neste momento as forças mercantis progressistas que avançaram. Não vão pensar que o capitalismo apareceu como uma mazela. Foi muito bom, sem o capitalismo teríamos avançado para fora do planeta; tivemos enormes progressos; o individualismo se criou no sistema, quando nobre, adequado, compreendido e evidentemente praticado dentro das condições éticas, tudo bem. Infelizmente o próprio sistema exacerbou esse processo pela busca do mundo, pela busca exacerbada da acumulação desenfreada. Porque o Estado não podia aparecer neste momento para coibir o processo produtivo.

Vejam uma coisa importante, para que tenhamos uma idéia clara. Quando o trabalho não é mais posto forçadamente... Porque no sistema feudal, o que aconteceu, isso precisa ser explicado concretamente: o sistema feudal, o sistema de trabalho, da produção da vida material dos homens era feito em função de uma imposição por parte de uma força política, que também era econômica. Como eu disse, os nobres eram detentores não só do esquema econômico, eram patrimonialistas em função do sistema feudal, como também esses nobres eram os políticos do sistema, ou seja, aqueles que podiam manipular a força para impor o trabalho ao produtor direto. Quando, então, há o desenvolvimento progressivo da economia, e era preciso fazer a distribuição de renda a fim de criar mercado, em função do desenvolvimento das próprias forças produtivas, era preciso tirar, extrair, afastar a questão política da questão econômica. Não era possível manter o econômico e o político conjugados à força daquele que produzia, não só por razões de interesse econômico, mas também por questões de ordem política, atuava para que o trabalho fosse força. Na hora em que o trabalho começa a ser assalariado (o que precisava sê-lo, para que o sistema funcionasse), aí ninguém admite a liberdade e a igualdade necessárias, porque senão não há contrato. É por isso que neste período começa a pensar-se ideologicamente no chamado contratualismo: ele se expande entre os teóricos do contratualismo porque o contrato passa a ser uma figura, um instrumental fundamental para aproximar capital e trabalho. Não havia isso antes. Por isso é que é preciso estabelecer que todos sejam sujeitos de direito, direitos e obrigações. O capitalista vem e diz: “Você me traz sua força de trabalho e eu lhe pago o seu direito de salário.” O trabalhador diz: “Está certo. Eu entro com meu trabalho, eu sou obrigado a empregar a força de trabalho, tenho obrigações, mas eu tenho de receber o meu salário. Eu tenho o quê? É evidente. Direitos e obrigações.”. E isso se universaliza por toda a sociedade, justamente nos séculos XV, XVI e XVII. E nesse período, o que acontece com o político? Ele vai se destacando e se concentrando não mais na sociedade descentralizada, como havia antes; ele se concentra no poder absoluto dos reis, e aí é que aparece o Estado pela primeira vez. Um Estado ainda não adequado à burguesia totalmente, mas como efeito de um processo que correspondia exatamente a esse movimento do capital. Era a necessidade de que o trabalho, o contratado, deveria ser contratado e não forçado, conseqüentemente não podia haver a política no processo, mas a política deveria estar presente a todo instante em que o contrato fosse rompido. Aí era preciso evocar e convocar o político, ou seja, a força, para que o sistema continuasse a funcionar. Como isso é apenas formalizado em nível de mercado e não em nível da produção, porque a produção ainda continuava a envolver uma inequação profunda (porque é lá no processo produtivo que havia o processo expropriatório de acumulação), era preciso manter uma estrutura de força para qualquer tipo de emergência que houvesse; caso grande parte dessa população que tinha de entregar a sua parte de trabalho para acumular a outra parte, era preciso que houvesse a emergência possível de uma força, caso falhasse o esquema ideológico. O esquema ideológico começou a desenvolver-se amplamente para que todos aceitassem a situação como natural. Mas a miséria, às vezes, alcança níveis tão altos que o sistema burguês hegemônico tem de ter meios para poder resolver e neutralizar qualquer tipo de crise. E como vai fazer isso senão através do Estado, através da força centralizada do Estado que só aparece no sistema burguês. O Estado é um fenômeno tipicamente moderno. Não havia Estado na época feudal; havia organização política, isso havia, mas não Estado. Não havia Estado na época clássica, não existe Estado romano. Tinha Império romano, com uma dimensão descentralizada enorme, por causa dos senhores de escravos, que atuavam diretamente de suas fazendas; eram as famílias que tinham atuação de poder político. Isso não acontece mais no sistema burguês, não acontece mais no sistema moderno, onde o sistema então acrescenta o ponto de vista mercantil, e vai se desenvolvendo até chegar à Revolução Industrial; e isto se concentra enormemente num processo imenso em que o Estado faz presente o gendarme, o Estado-polícia, para evitar qualquer tipo de proposta que viesse a conflitar com os interesses da política dominante, o que aconteceu mesmo já o século XIX.

O próprio Marx, que postulava idéias estranhas a esse sistema, foi perseguido, e teve de, inclusive, tomar posições complicadas nesse processo, e outros movimentos, é claro, movimentos operários nessa época do século XIX. Aí vocês vêem que não há nada de culturalidade abstrata. É preciso agora (eu disse isso, é claro, de forma muito genérica) mas eu preciso basear agora os erros concretos de cada coisa. Eu explicaria para vocês o contrato, explicaria a hipoteca, explicaria o aluguel, explicaria tudo a partir dessas estruturas! Não posso fazê-lo porque tenho apenas meia hora. Portanto, não é uma questão abstrata, ampla, múltipla simplesmente, é uma questão que envolve métodos especiais singulares.

Outra questão que se colocou a respeito de Kelsen, que se colocou muito bem aqui, porque Kelsen – eu mesmo disse a vocês que ele era muito inteligente –, ele era um leitor fruto das condições do chamado positivismo, do primeiro quartel do século XX. Ele postulava a idéia de ciência pura, a partir de uma idéia do positivismo como ciência do objetivo. A ciência tem de ser objetiva, de tal maneira a dizer o que a coisa é, não o que ela deve ser. Ele dizia que se há ciência do direito, essa ciência deve dizer o que é o direito. O direito dele lá, como objeto, é dever-ser , é norma, não há dúvida – pelo menos isso, pelo menos isso. Mas o direito como ciência tem que dizer o que ele é, e como é, significa dizer o que é o dever-ser, como é a norma . E ele, muito bem aparelhado com a perspectiva e a visão dos positivistas, não só dos positivistas jurídicos, mas dos positivistas filosóficos, os filósofos positivistas, que tentavam buscar a extração do sujeito em relação ao objeto, evitar a mistura de sujeito e objeto, pelo contrário, neutralizar o mais possível o sujeito para que o objeto se sobressaísse claramente como algo objetivo. Então, tem de se buscar o direito objetivo. Claro está que esta dimensão foi fracassada, mas não por ele, Kelsen, não por ele, mas pela crítica da própria sociedade.

Já mesmo nas épocas do começo do século XX, nós encontramos por exemplo um [?], um François [?], esses pensadores, esses sociólogos, que tentaram quebrar a condição formal de Kelsen. E Kelsen ainda diz assim: “Não, mas a questão sociológica não é uma questão jurídica na sua essência.” Nós sabemos muito bem disso. Muito bem! Essa história é muito bem contada! Efetivamente, é claro que Kelsen queria só uma pequena questão, que é a questão do que é, na sua essência, o jurídico. O problema é que ele não foi aceito, não por ele mesmo, mas por vários pensadores que chegaram à conclusão de que o Direito não pode ser puro quanto à sua tese, quanto à sua teoria. O Direito em si mesmo, o Direito como objeto, é claro que ele nunca foi puro, e o próprio Kelsen sabia muito bem disso. O Direito é impuro por natureza; pura é a teoria sobre ele, isto é que é puro. Mas é válida do ponto de vista – agora veja o que eu digo – epistemológico. Como uma crítica epistemológica, é válido consignar essa forma de compreender o mundo? Talvez fosse válida naquele momento. Compreensível! Mas depois da Segunda Guerra Mundial, com a conturbação imensa do humano, do homem, já não se pensava mais em buscar ciências puras, isoladas, solitárias, cada uma de per si . Percebeu-se que os homens tiveram mazelas profundas exatamente por não se comunicarem não só eles, como com as próprias ciências. Daí vem toda a questão da interdisciplinaridade que vocês conhecem hoje, que é um problema muito complexo, muito difícil, que não se soluciona facilmente. Buscar o Direito na sua expressão a partir da forma interdisciplinar, em que envolvemos não só a juridicidade como norma, mas também o que é a dimensão social, econômica, e assim por diante. Como compreender uma realidade plenamente senão descendo às suas próprias raízes? Isso é como imaginar que somente o estudo do caule lhe dê a realidade da planta. Não é isso. E o caule sozinho existe? Não. Ele só existe em ligação com a planta, e este só existe em ligação com as suas raízes. Vejam, então, os senhores que, efetivamente, é claro que há muitas outras questões a serem colocadas, como afinal eu queria colocar que é a da violência, da revolução. Marx nunca pensou só na revolução no sentido da violência. Pelo amor de Deus! Foi colocada aqui a questão das teses sobre Feuerbach. Nas Teses sobre Feuerbach , Marx coloca muito claramente o que ele entende por revolução. Ele não fala especificamente de revolução: ele fala em transformação pelas raízes. A revolução não tem de ser necessariamente violenta, de jeito nenhum. Pode ser outra. Por exemplo, essa questão que eu coloquei agora há pouco, que é a da limitação do próprio sistema econômico capitalista que não pode superar-se a si próprio, vai implicar uma revolução, uma transformação profunda. Isso não precisa ser pelo caminho das armas. É até bom evitar isso, evitar a morte das pessoas. Quanto mais as pessoas forem conscientes, mais educadas, mais claras em ver o mundo, tanto mais facilmente poderemos fazer a transmutação. Por isso é que nós preferimos então a democracia, não uma democracia simplesmente representativa, mas uma democracia participativa que permite a todos nós trabalharmos o mercado. Nós vamos contrapor a democracia participativa não à ditadura, não aos meios autocráticos apenas, mas também, gente, opô-la ao mercado, esse mercado terrível que não tem força nenhuma que o coíba. É preciso coibi-lo através do quê? Da conjunção, do consenso da comunidade, para buscar melhor a expressão do valor do uso social! Evitar que esse valor de troca toque todo mundo. [Palavras inaudíveis.] Esse mercado tem de sofrer impactos restritivos em prol da comunidade, em prol da dignidade humana, em prol da distribuição para os homens, em prol da paz entre os homens. Isto é fundamental. É disso que se trata.

M EDIADOR : Passo a palavra para Olavo de Carvalho.

O LAVO DE C ARVALHO : Então está muito bom. Já que passamos a discussão para o terreno dos fatos, e partimos de uma situação que Marx teria encontrado e que ainda se encontra mais ou menos igual no mundo, então vamos ver um pouco a relação entre os fatores considerados: mercado e miséria. Segundo o prof. Alaor, o grande culpado da miséria e da desigualdade é o mercado descontrolado. Ele usou a palavra “controlar” e a palavra “coibir”. Portanto, é necessário controlar e coibir o mercado.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Não foi isso.

O LAVO DE C ARVALHO : Aí eu não sei...

A LAOR C AFFÉ A LVES : [Interrupção inaudível.] O LAVO DE C ARVALHO : Quando chegar a sua vez o senhor fala. Eu não lhe dei aparte. O senhor usou as expressões “controlar” e “coibir”.

A LAOR C AFFÉ A LVES : [Interrupção inaudível.] O LAVO DE C ARVALHO : Eu não lhe dei aparte! O senhor espere. Eu esperei aqui. Muito bem. “Controlar” e “coibir”. Quanto eu não sei. A coibição total seria a estatização total dos meios de produção. Não me parece que o prof. Alaor seja um defensor disto, e não creio que exista mais, nem mesmo entre os teóricos marxistas, alguém que defenda exatamente isto. Mas, se o grande culpado da miséria e da desigualdade é o mercado descontrolado, então para melhorar a condição dos pobres temos de controlá-lo. O controle se faz basicamente de duas maneiras: a mais direta, que é a participação do Estado na economia como proprietário e investidor, e a segunda através de legislações controladoras e restritivas, seja sob o aspecto fiscal seja sob outros aspectos.

Muito bem. Nós temos aqui um índice de liberdade econômica. Liberdade econômica seria a ausência de controle. Ausência total não existe, assim como controle total não existe. Mas dentro dessa escala que vai de 1 a mais ou menos 150, nós temos entre os países de economia mais livre do mundo Hong Kong, Nova Zelândia, Irlanda, Luxemburgo, Holanda, Estados Unidos, Austrália, Chile, Reino Unido etc. E assim, à medida que aumenta o número de controles, supostamente para proteger os pobres, nós vamos descendo na escala de liberdade econômica. Passou a primeira página, passou a segunda, aí mais ou menos no meio da terceira, encontramos o Brasil em 79 o lugar. Quem tem mais controle do que o Brasil e, portanto, está abaixo nesta lista? Eu vou dar alguns: Paraguai, Nicarágua, Quênia, Zâmbia, Guiné, Ruanda, Tanzânia, e assim por diante. Se vocês pegarem este mesmo quadro transformado para uma projeção visual, nós temos aqui em verde e azul as regiões de mais liberdade econômica e, portanto, de menos controle, e em amarelo e vermelho aquelas que têm mais controle. É só você olhar estes dados, que são coletados anualmente com muito critério por um grupo de economistas, e você verá que a idéia mesma de melhorar a condição dos pobres através de controle é um absurdo sem mais tamanho. Se disserem que o neoliberalismo não vai resolver, é claro que não. Em primeiro lugar, porque neoliberalismo não é liberalismo. Neoliberalismo é um liberalismo meia-bomba que também se mistura com um socialismo meia-bomba, e o neoliberalismo é simplesmente um pretexto para fazer o que o nosso governo tem feito, que é controlar mais e mais e mais. Hoje em dia, só de dispositivos que regulam o orçamento federal, vocês sabem quantos há? Cinco mil e quinhentos. Isto quer dizer que para um sujeito votar o orçamento com consciência de causa, ele precisa conhecer cinco mil e quinhentas leis. Isto é humanamente impossível. Isto é o controle estatal.

Ora, o prof. Alaor reconhece que aqueles que estão no Congresso e que fazem as leis não são capitalistas e, ao mesmo tempo, ele diz que eles legislam em favor dos capitalistas. Aí eu me permito concluir que se fossem proletários não legislariam necessariamente em favor dos proletários. Porque acabamos de ver que a ideologia e os ideais do indivíduo não são de maneira alguma condicionados nem determinados pela sua condição social. Porque se fosse esse o caso, eu, que sou filho de operário de indústria e neto de lavadeira, deveria ser o mais marxista de todos, ao passo que pessoas como o sr. Eduardo Suplicy e toda essa gente seriam pró-capitalistas. Mas, se os legisladores, tanto no Brasil como em outros lugares, não são nem capitalistas nem proletários, o que é que eles são?

Ora, eu estava lhes contando a história do fim do feudalismo. Desde o reinado de Luís XIV se começa a formar, para fins militares, um princípio de organização burocrática estatal. Aos poucos essa organização burocrática vai tirando da aristocracia feudal as funções locais que elas exerciam (por exemplo, tribunais, juiz de paz, coleta de impostos etc.) e passando para a burocracia. É evidente que os aristocratas perdiam a sua função sem perder a sua quota dos impostos, criando então uma classe ociosa imensa, contra a qual se volta, com toda justiça, a Revolução Francesa dois séculos depois. Mas ao mesmo tempo que se forma a burocracia estatal, para preenchê-la é necessário ter funcionários preparados. Para ter funcionários preparados, é preciso haver uma expansão do ensino. Então cria-se, para uma multidão de pessoas de todas as origens sociais mais pobres, desde a pequena burguesia até os camponeses, uma promessa de subir na vida através do funcionalismo público. Este é um fenômeno inédito na História. E acontece que o funcionalismo público cresce, a burocracia cresce, e junto com ela cresce o ensino. Mas, naturalmente, o número de candidatos cresce formidavelmente mais. E com isso se cria uma legião de pessoas que têm alguma instrução e que aspiram ao cargo público e não o têm. É a esta classe que eu chamo a burocracia virtual .

Se você estudar a história de todas as revoluções (Revolução Francesa, Revolução Russa, Revolução Chinesa etc.) não através de impressões gerais e nomes de classes – gêneros universais como burguesia e proletariado – mas se você for vendo uma a uma a origem social dos líderes, era a esta classe que pertenciam. Esta é a classe revolucionária. Mais ainda: todas as revoluções que ela fez foram sempre em proveito próprio. Quem sai ganhando com as revoluções não é o proletariado e também não é a classe capitalista. É a burocracia virtual, que sempre legisla em causa própria, segundo a norma que foi assim enunciada pelo próprio Trotsky: “O encarregado da distribuição jamais se esquecerá de distribuir a si próprio em primeiro lugar.” Isto é norma, e é por isso que esses países onde o Estado não deixa a economia à sua própria mercê, onde a economia é controlada, são os mais pobres e os que têm os mais altos índices de corrupção. Isto é necessariamente assim, e não há solução enquanto o poder da burocracia, sobretudo da burocracia virtual, não for quebrado.

Mas é preciso muita cara-de-pau para lhes dizer isto justamente aqui. Porque esta escola existe para isto. Numa pesquisa feita entre universitários brasileiros dois anos atrás, verificou-se que menos de 2% deles queriam ser empresários depois de formar-se. Todos queriam um emprego. De cara eu fico espantado, porque eu sempre ouvi dizer que a Universidade faz parte do aparelho ideológico da burguesia para formar a classe dominante, e de repente nós descobrimos que todos eles querem ser empregados. Que tipo de empregado? Não é necessário dizer. Então, isto quer dizer que vocês são burocratas virtuais, esperando para transformar-se em burocratas reais. Portanto, são por excelência a população da qual o movimento político revolucionário colhe os agentes de transformação social. Porque, evidentemente, não há lugar para os burocratas virtuais em nenhuma sociedade; só haverá lugar quando eles estiverem no poder. Ora, tomam o poder acreditando que vão pôr fim às injustiças. Uns acreditam, outros são mais cínicos e sabem que não.

Vamos fazer aqui uma comparação: aqui nós temos um sujeito maior e mais poderoso que está oprimindo este aqui, que é menor e menos poderoso. Então eu entro e digo: vou parar com essa injustiça, eu vou intervir. Ora, para intervir numa briga entre o mais forte que oprime o menos forte, eu tenho de ser necessariamente mais forte que os dois. Isto quer dizer que qualquer intervenção política que vise a diminuir a desigualdade econômica tem de fazê-lo necessariamente aumentando a desigualdade política, portanto concentrando o poder político. Isto é uma regra jamais desmentida em qualquer processo revolucionário violento ou pacífico do mundo. Então, eu vou ter de concentrar o poder; concentra o poder, concentra o quê? O controle.

Por outro lado, se eu concentro o poder político, do que é que vive o poder político? O poder político não custa dinheiro? O próprio prof. Alaor estava falando do orçamento militar americano. Isso quer dizer que se há uma concentração do poder político, há necessariamente uma concentração ainda maior do poder econômico. E é isto que permitiu ao socialismo realizar um feito jamais igualado na história humana: matar de fome, em cinco anos, trinta milhões de pessoas, no Grande Salto para a Frente, que foi o quê? A centralização da agricultura chinesa. Isto é uma verdadeira maravilha! Ninguém conseguiu isto. Ora, se vocês quiserem tentar novamente... Bom, agora querem. O MST, no fundo, quer isto: “Nós vamos fazer uma agricultura centralizada, estatizada, diretamente sob controle do ministério”. Vocês sabem perfeitamente que o MST não produz nada e que vive de cestas básicas. Saiu recentemente um livro de um jornalista chamando Nelson Barreto, que visitou mais de trinta acampamentos rurais e disse: “São favelas rurais”. É claro, não poderiam ser outra coisa. A socialização da agricultura sempre dá nisto. Se você pegar todos os países africanos que estão numa condição de miséria atroz, todos eles foram vítimas de políticas estatistas, centralizadoras e socialistas. Hoje em dia, na Etiópia, por exemplo, se você toma uma cerveja, você paga 82% de imposto; se você tem um firma que ganha mais quinhentos dólares por ano, você paga 52% de imposto, e para cada tostão que ultrapassa os quinhentos, você paga mais trinta, e assim por diante. Saiu um livro recentemente descrevendo a economia da Etiópia – é uma maravilha, é o controle. Se o mercado é o monstro que está deixando as pessoas miseráveis, lá eles não correm esse perigo, porque o mercado está amarradinho. Ele está amarradinho na Etiópia, na Zâmbia, no Gabão. Por que é que não imitamos esses lugares? Parece que a presente geração está seriamente inclinada a fazer isso. Por que é que está inclinada? Porque o raciocínio que preside essa decisão, essa escolha, não é um raciocínio baseado na economia, na realidade econômica, na racionalidade econômica. É um raciocínio de ordem cultural.

Existe uma cultura marxista que está associada a símbolos de valor ético, de bondade e de solidariedade intergrupal. Ora, você se desvencilhar de uma ideologia ou de uma idéia é relativamente fácil, porque você simplesmente muda de idéia. Mas, como é que você faz para se desgarrar do meio marxista, da atmosfera marxista? Primeiro, tem de abandonar seus amigos: eles não gostam mais de você. Isto, todos meus alunos depõem, nesse sentido, e eu recebo centenas de cartas: “Eu sou discriminado porque não sou marxista...” São centenas, e chegam todo mês. Não estou acusando os marxistas de serem maus, não é isso o que eu estou dizendo. Se eu fosse fazer um diagnóstico desse tipo, eu nem precisava vir aqui: eu estou tentando ser o mais científico que eu posso. Científico não quer dizer neutro, quer dizer apenas honesto.

Por exemplo, o professor se refere às novelas, ao poder ideológico que elas têm sobre o público. Vocês já ouviram falar de uma novela chamada Kubanacan ? Vocês sabem o que quer dizer “Kubanacan”? Sabem o que quer dizer essa palavra? É o nome da agência oficial de turismo de Cuba. Se você pegar todas as novelas da Globo, de vinte anos para cá, a seleção ideológica é estrita. No tempo do falecido Dias Gomes havia uma central de seleção de novela. A novela passava por três peneiras de seleção: primeiro, ideológica; segundo, artística; terceiro, comercial. Qual era a primeira instância? Ideológica. Ou seja, se não atende ao requisito ideológico, nem passa à segunda instância. Nós estamos impregnados de cultura marxista 24 horas por dia; é difícil sair de dentro dela. Mesmo no tempo em que as coisas não eram assim, quem quer que participasse desse meio tinha certa dificuldade de sair. Vou lhes contar por que.

Quando eu comecei a trabalhar na imprensa, a primeira coisa que eu fiz foi entrar no Partidão. O sujeito que me cooptou para o Partidão era um jornalista pernambucano chamado Pedro. Eu vou lá, participo de várias reuniões da “base” (na época chamava-se base à unidade mínima). A base era na Folha de São Paulo, que se chamava Empresa Folha da Manhã na época. Passa um mês, chega um sujeito muito sinistro do Comitê Estadual e nos reúne na ausência do tal do Pedro, que era o chefe da base, e diz: “Companheiros, estamos com um problema. Nós estamos desconfiados de que o companheiro Pedro arrumou uma amante, e temos razões para crer que ela é agente do Dops. Não temos certeza, e por isto nós precisamos isolar esse camarada enquanto tiramos o assunto a limpo. Para isso precisamos que vocês arrumem um local para depositá-lo (um cárcere privado, evidentemente) enquanto averiguamos”. Delegou quatro voluntários, entre os quais este que vos fala, para fazer esta porcaria. Eu arrumei um barraco numa favela onde eu nunca mais conseguiria chegar – é impossível, é depois de Deus-me-livre. E deixamos o camarada lá. Passou uma semana, duas, três, e nós íamos levar comida e cigarros para o sujeito. Daí a equipe de apoio logístico foi trocada e eu passei meses sem ouvir falar do camarada. Um dia eu escuto na redação a seguinte conversa (isto, uns nove ou dez meses depois): “Sabe quem estava aí na portaria? Aquele f.d.p. do Pedro. Nós não deixamos nem entrar.” “Ótimo, estamos livres do problema.” Passam mais alguns meses, eu estou no bar na frente da Folha tomando um cafezinho e chega o tal do Pedro, magro, chupado, barbudo, verdadeiro mendigo. E veio falar comigo, e eu, como bom militante, virei-lhe as costas. Este era um processo normal dentro do Partido: excluir as pessoas que lhe eram desagradáveis. Isso não aconteceu com um, aconteceu com centenas. Isso é muito comum, porque é considerado uma justa medida de segurança.

Por aí vocês vêem como é difícil sair desse meio. Eu levei vinte anos para sair. Você tem de cortar os contatos um por um, você tem de fazer novas amizades, você tem de mudar de lugar, porque se você está ali você não vai agüentar a pressão. Isto não é a força de uma ideologia, uma ideologia não pode ser tão forte assim. Uma ideologia não penetra até às mais íntimas reações emocionais da pessoa. Isto é uma cultura no sentido antropológico do termo, da qual evidentemente fazem parte as formulações doutrinais do marxismo; mas não essenciais, tanto não são, que podem ser trocadas. Eu acabei de lhes citar o caso de que Marx acreditava que era imprescindível o uso da violência (e nisto ele é textual, não há menor possibilidade de dúvida), que a geração seguinte já acredita que se pode implantar o socialismo pelo voto e que, em seguida, se volta à teoria da violência, e assim por diante, numa sucessão absolutamente alucinante de transformações. Então, o marxismo hoje diz isso e amanhã pode dizer uma outra coisa completamente diferente, sem perder o senso de unidade – isto é que é miraculoso. Há pessoas que dizem que o marxismo é uma religião; eu digo: de maneira alguma. Ele pode ser uma religião no sentido primitivo, em que cultura, religião e sociedade formam um amálgama indiscernível. Mas no sentido das religiões universais – Judaísmo, Cristianismo e Islam – elas têm de ter um dogma perfeitamente identificável, com o qual você possa discutir, e aceitar ou impugnar. Mas o marxismo não tem. O marxismo pode se livrar de qualquer das suas doutrinas, se livrar de qualquer dos seus feitos, e absorver os feitos do adversário. Eu já lhes provei como é assim.

Um exemplo característico é o das relações entre marxismo e fascismo. O fascismo existiu no mundo e chegou a ter força graças à União Soviética. Por quê? Stalin, analisando marxisticamente o fenômeno, acreditava que aquilo era uma rebelião meio anárquica de classe média que conseguiria destruir as instituições das velhas democracias capitalistas, mas que não conseguiria manter-se no poder. Então, ele dizia que os fascistas eram “o navio quebra-gelo da revolução”. Dito de outro modo, eles ganham e nós levamos. Então, decidiu ajudá-los o mais que pudesse, sobretudo do ponto de vista militar. Vou lhes mostrar aqui mais um livro:

The Red Army and the Wehrmacht . É a história de como a União Soviética construiu militarmente a Alemanha nazista. Isto foi escondido durante muito tempo e apareceu agora com a abertura dos arquivos de Moscou. Muito bem. Acontece que esta teoria que Stalin tinha a respeito do nazifascismo não era a que Hitler tinha. Hitler tinha outra teoria. Em função disso, ele de repente dá para trás e invade a União Soviética. Aquilo era tão absurdo do ponto de vista da interpretação marxista de Stalin que ele levou dois dias para acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Ele achou que era uma operação de contra-informação feita pelos malignos ingleses. Bom, durante toda a década de 30 houve estreita colaboração com o nazismo, antes da eleição de Hitler. Hoje todo o mundo sabe do pacto Ribentropp-Molotov de 1939. O pacto foi apenas a exteriorização de uma colaboração muito profunda que pelo menos desde 1933 construiu o poder militar da Alemanha. Ao mesmo tempo, como operação diversionista, Stalin lançava em alguns países ocidentais, especialmente na França, uma imensa campanha de antifascismo literário, na qual toda a intelectualidade francesa colaborou, sendo muitíssimo bem paga. Até hoje, a noção de fascismo que nós temos é esta. Em 1933 houve o famoso atentado ao Parlamento alemão; daí lançaram a culpa num comunista e prenderam um agente do Komintern, George Dimitrov – vocês já devem ter ouvido falar disto. George Dimitrov chega ao tribunal e diz: “Eu estou aqui preso por causa da tirania fascista dos capitalistas, a ditadura dos Krupp e dos Thyssen.” Até hoje as pessoas acreditam que nazifascismo é isto. Não sabem, por exemplo, que o velho Thyssen, quando veio o nazismo, fugiu para a França, de onde foi seqüestrado e obrigado a voltar para colaborar com os seus inimigos. Mas como é que George Dimitrov foi parar na cadeia? É muito simples. Ele era a figura mais importante do Komintern, e estava ali na Alemanha; foi almoçar no restaurante que era o ponto de encontro de toda a oficialidade nazista; vocês imaginem um militante clandestino fazer isso, almoçando com dois de seus assessores ao lado. Foi preso ali, evidentemente, sem nenhuma violência, foi levado até o tribunal, onde pôde fazer o seu show e em seguida foi inocentado e devolvido em paz à União Soviética. Seus dois assessores que sabiam da história foram mortos. Isto quer dizer que toda a nossa concepção corrente de fascismo é um mito publicitário, criado para encobrir a colaboração profunda da União Soviética com o fascismo.

Olhem, eu lhes asseguro com a experiência de quem estuda esse negócio há trinta anos: eu não sou um teórico neoliberal, não pertenço a movimento nenhum, tenho horror dessa direita brasileira, cuspo na cara de todos eles, estou pouco me lixando para o que pensam, não estou falando em nome de ninguém, e não tenho nenhuma solução para os problemas do mundo. Eu falo somente daquilo que eu estudei. Esse negócio de marxismo e de história do comunismo eu estudei. Eu lhes garanto: eu nunca encontrei uma afirmação central, fosse do próprio marxismo fosse da cultura comunista em geral que, examinada, não se mostrasse exatamente o contrário da verdade. É uma por uma, a lista não acaba mais. Eu mesmo, chegou uma hora em que comecei a ficar alucinado: não é possível, tudo o que eles dizem que é invenção da tal da direita é verdade.

É experiência de vida que eu tenho para lhes dizer. Para mim foi chocante, porque eu saí do Partido não por discordância ideológica; saí simplesmente porque fiquei moralmente confuso com episódios como esse que eu lhes contei, e durante 25 anos não dei palpite em nenhum assunto político, fiquei quietinho no meu canto, estudando e tentando chegar a conclusões. O material que eu tenho sobre isso é imenso, e me leva a poder dizer: Marx era um charlatão, Marx era um vigarista. Por exemplo, para provar que a evolução do mercado tornaria os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, ele se socorreu do quê? Do exemplo que ele tinha à mão, a Inglaterra, que era o único país da Europa com boas estatísticas na época, e o melhor material eram os Blue Books, relatórios anuais do Parlamento. Quando Marx foi ver os relatórios, descobriu que, ao contrário do que ele estava dizendo, a condição da classe operária tinha melhorado. O que é que ele fez? Ele tinha todos os relatórios e consultou um por um. Os registros estão na biblioteca do Museu Britânico até hoje. Ele conhecia todos os registros, mas como os registros não comprovavam o que ele queria, ele preferiu usar os registros de trinta anos antes. Se isso não é vigarice, eu não sei o que seja. Mais ainda: na hora em que o sujeito editou o seu próprio sistema de “materialismo dialético”, vocês já pararam para pensar nessa expressão? Uma dialética é um fluxo, um processo inteligível de idéias. Em que sentido isto pode acontecer na matéria? Engels diz que a matéria tinha estrutura dialética. Por exemplo, hoje nós diríamos assim: o elétron é a tese, o próton é a antítese e o átomo é a síntese. Não é preciso dizer que todas essas idéias foram absolutamente desmoralizadas. Depois de desmoralizadas, apareceu esta versão que o prof. Alaor defende agora: “Não, Marx não quis dizer isto, mas usou o materialismo apenas no sentido da convivência do homem com a matéria, no sentido da ação histórica sobre a matéria.” Se o materialismo de Marx diz respeito apenas à nossa ação sobre a matéria, então a matéria é o fator passivo e alheio ao materialismo dialético. Só existe materialismo dialético, portanto, na ação humana. Mas que raio de materialismo sem matéria é esse aí? Isto não é um materialismo. O que é a matéria para Marx? Marx não diz absolutamente nada sobre isso, e ele acredita que o processo central é a “ação transformadora do homem no cosmos”. Ora, quanto do cosmos o homem pode transformar? Um pedacinho insignificante da crosta de um planetinha, e todo o restante do cosmos permanece perfeitamente indiferente a isto aí. Como é que este processo pode ser o centro da realidade material? Se você disser que espiritualmente ele é o centro, isto é possível, aí faz sentido; embora pequeno fisicamente, ele é significativo. Colocá-lo materialmente no centro é nonsense e é de um primarismo filosófico digno de analfabeto. Mas Marx não era um analfabeto, Marx era simplesmente mentiroso. As provas disso são abundantes: a sua falsificação de fontes, as interpretações absolutamente forçadas. Por exemplo, quando ele diz que inverte Hegel e o põe de ponta-cabeça: ele não faz absolutamente nada disso. O que ele faz com a dialética não tem nada a ver com Hegel, ele passa longe. E no entanto todo mundo acredita que é a estrutura da dialética de Hegel que está lá dentro, e assim por diante.

A quantidade de charlatanismo é muito grande para eu poder lhes expor em meia hora, ou até em um mês. Eu tenho dado aulas e mais aulas sobre isto, e o negócio não acaba. Então, eu vou terminar esta exposição com um apelo. Não se sai de uma cultura mudando de idéia. A cultura abarca a personalidade das pessoas. Para você abandonar essa cultura, você vai ter insegurança, problemas psicológicos e dificuldades existenciais terríveis. Isto quer dizer que dentro da redoma dessa cultura não é a mente ou a opinião das pessoas que está presa: é a alma e a existência delas. E se é para falar em liberdade, então, antes de querer a liberdade para os outros, experimente o que é a liberdade. Experimente examinar a cultura marxista não desde dentro, como ela sempre faz, mas experimente olhar de fora, e vocês terão uma visão bem diferente da que talvez tenham. Muito obrigado.

M EDIADOR : O prof. Olavo de Carvalho não concorda com passar dez minutos ao prof. Alaor Caffé Alves para tecer comentários.

O LAVO DE C ARVALHO : Só se eu também tiver dez minutos também. Ou é igual ou nada. Ou é tudo ou nada. Ou é honesto ou é sacanagem.

[Há uma discussão sobre a continuação do debate e fica decidido que cada um dos debatedores terá a palavra por dez minutos.] A LAOR C AFFÉ A LVES : Bem, eu acho que as coisas estavam indo muito bem. Mas esta última, inclusive o aplauso que se deferiu para um tipo de política que me é extremamente estranha e séria, mostrou inclusive que não se sabe o que é o nazismo. Porque os outros, isso que vocês conhecem, vocês sabem o que é... Porque existe uma outra idéia do nazismo que talvez fosse aceitável, como o Olavo falou. Profundamente triste isso. De qualquer forma, a questão de dizer que Marx é um charlatão é muito complicado, é muito difícil formular dessa forma porque é atacar uma pessoa que não está presente, que não tem nem a condição de se defender. Mas isso é muito complicado porque não existe só a literatura marxista, existem marxistas, os que são simpatizantes de Marx, os que aproveitam parte da concepção marxista, e que admitem perfeitamente a possibilidade de desenvolver teses interessantes e importantes, de cunho científico. Marx viveu praticamente a vida inteira naquela biblioteca de Londres dando toda a sua vida para isso, e estudou profundamente a sociedade da sua época. Como eu disse, ele pode ter errado em muitas coisas. Até a gente aceita isso, que Marx errou nisto ou naquilo. Mas atacar uma dimensão moral, contra um intelectual que é um dos primeiros no mundo, é um dos maiores intelectuais, indiscutível isso... Alguém vai discutir uma coisa dessa?

O LAVO DE C ARVALHO : Eu vou discutir.

A LAOR C AFFÉ A LVES : É, sempre tem alguém. Eu acho tudo muito gratuito isto, colocar essas questões que foram colocadas aqui, muito gratuito. Não, não é assim que vamos discutir. Eu, por exemplo, fiz toda uma série de colocações singulares a respeito de como se estrutura o sistema, pelo menos aí rapidamente, pelo menos no sentido de verticalização, mas eu fiz umas coisas concretas, de mencionar portanto discussões conceituais. Quando se penetrou no terreno conceitual, se diz que Marx não sabe nem do quê está falando sobre a matéria, mas Marx nunca se preocupou especificamente com a matéria no sentido físico. E quando ele [Marx] fala em matéria, a matéria corresponde a um esforço da transformação do homem como um fato importantíssimo, que não foi nem colocado aqui. E ele [Olavo] diz que estudou, temos que fazer uma análise disso. Que é “o” debate. Debate da forma pela qual os homens agem sobre o mundo, transformando o mundo. Dizer que Marx queria transformar o universo não tem sentido. Não é disso que ele estava falando. Ele nem pensava nisso...

O LAVO DE C ARVALHO : Nem eu disse isso.

A LAOR C AFFÉ A LVES : ... ele nem disse isso. Nem foi dito isso, nunca. “A transformação do universo, do cosmos.” A transformação que o Marx propunha era a transformação do homem, do homem na sua pequena Terra mesmo, no seu planetinha, direitinho. Mas é o homem, ele estava estudando o homem! Ele não estava estudando um marciano nem nada disso. É o homem e, portanto, os homens, claro, têm uma dimensão concreta que é a ação humana, que ele imagina não poder explicar as questões especulativamente. Era isto o que ele queria dizer só. Que a especulação filosófica, puramente teórica, não é suficiente para caracterizar o que o homem é. Marx postulava algo um pouco na contraposição, na contramão dos racionalistas, especialmente um Descartes, que dizia que o homem é um ser pensante. A postulação do homem, inclusive, como ser pensante, o distinguia dos outros animais, é assim que se pensava em forma clássica. E Marx não acreditou simplesmente nessa posição, ele avançou. Ele não está excluindo a vida teórica, ele foi um teórico. Ele se trancou. Ele quis incluir a vida emocional dele, a vida da praxis , da ação, da decisão, dos valores. Isso aí ele quis incluir. E é claro que o movimento da praxis envolve exatamente o movimento do homem como um todo, não apenas como inteligência, como um ser especulativo, como lógica. Ele via o homem como um movimento do seu corpo, dos seus pés, das suas mãos. E uma relação social, nunca se viu o homem tornar-se solitário. Ele não pensava na matéria no sentido, por exemplo, dos gregos, buscar a arkhe , o fundamento de todas as coisas, como se fazia desde Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Anaxágoras, e esses pensadores todos que passaram, os pré-socráticos. Na verdade, ele trabalhou muito com esses filósofos interessantes, que aliás foram trabalhados também por Engels, que é Parmênides e Heráclito, com as suas posições. Pena que não dá tempo de desenvolver toda a temática desses pensadores muito maravilhosos, que foram trazidos para nós, que foram recuperados.

Quando Marx faz essa postura, de não ser um homem teórico, é porque está vivendo justamente num período que se chama “Revolução Industrial”. O homem pobre não pode ser simplesmente teórico, ele tem que entrar em contato com o mundo, transformar o mundo, ele tem de mudar a matéria-prima, ele tem de buscar matérias-primas, ele tem de transformar o mundo com as suas mãos, com a sua indústria. Daí porque ele teve de começar a pensar especificamente, não de forma puramente teórica, ou de forma especulativa. Esta dialética é diferente. Quando ele busca a materialidade, não é essa materialidade portanto abstrata. É muito concreto, porque ela é calcada no trabalho humano. Para ele, o trabalho é fundamentalmente aquele núcleo que perpassa o próprio homem. O homem é produto do seu trabalho na história e socialmente. Não há homem sem trabalho, sem ação com o mundo. Trabalho é a administração do homem sobre o mundo, transformando esse mundo, porque nisso ele transforma-se a si mesmo. É isso que ele quis dizer: matéria transformada permanentemente pela sua própria ação. Não é matéria bruta, como eu contava para ele [Olavo]. Ele nem tinha essa idéia da física nem da química. Não contava para Marx isso. O importante para ele era a dimensão fundamentalmente social, isso é que era importante para ele.

Essa questão da burocracia, é claro, todo sistema social hoje, tem de ter uma burocracia. Por isso mesmo que se propugna por uma dimensão outra, que é aquela que o Olavo disse a respeito do poder maior do que aqueles poderes. Um poder que oprime o outro, que pressupõe o outro, que é bem maior. Sabe qual é o poder maior? É a comunidade! É a sociedade democraticamente organizada, articulada de foma tal que se permita coibir (agora sim, a palavra mais correta) a ação sozinha e solitária do mercado. Não pensem os senhores que vamos aqui imaginar que o mercado que age diariamente, com bilhões e bilhões de dólares se movimentando pelo alto, pelo labor da globalização, nós vamos conseguir neutralizar isso. Simplesmente com o quê? Com a vontade singular de cada um? Ou com recursos que nós não temos? A única forma de coibir é exatamente através de uma democracia participativa! Não é através da democracia representativa, que de quatro em quatro anos vocês vão correndinho num domingo determinado de manhã cedo e depositam um voto ali, para eleger os políticos que, em última instância, vão ser cooptados pelo sistema. Não é isso. É a democracia participativa formada por divisão de comissões, de conselhos, de articulação de comunidades. Não é fácil de fazer isso! É lógico que é uma coisa difícil. É ela que vai, de certo modo, se opor às dimensões do mercado, que está sob a decisão de quantos? Eu pergunto aos senhores: quantos? Poucos! Os donos do mundo! Eles decidem o que querem! Onde pôr o capital, investir, tirar, pôr... Eles fazem. Esses movimentos de capitais procuram as comunidades onde a mão-de-obra é mais barata. Dizer... Essas postulações de que se o Estado interfere o sistema fica pior, ele está propugnando fundamentalmente que largue tudo ao mercado, que façam tudo de acordo com as forças do mercado, que tudo vai bem. Como, se cada pessoa tem o seu poder no mercado em função do quê? Em função da sua entrada, da sua renda. E quantos têm renda? Eu não estou colocando a questão daqueles que não têm trabalho, porque esses não têm mesmo nada. São aqueles que ainda têm trabalho e que ganham metade de um salário mínimo, milhões de pessoas aqui. Como é que essas pessoas vão definir situações, vão decidir sobre questões do mercado? E essas pessoas vão fazer o quê? Vão ganhar mais? Então vocês estão percebendo que eu acho que essas questões de colocar Marx como espertalhão, como... não é bom. Não fica bem. Não fica bem. Vamos trabalhar mais com os outros filósofos, com outros pensadores que seguiram, inclusive que houve outras mudanças, outras formas inclusive de considerar Marx, a questão até dessa violência, nunca Marx falou de materialismo histórico, nunca! Me conta onde Marx diz materialismo histórico! O primeiro a aplicar isso foi Paul Lafargue. Foi outra pessoa! Marx nunca falou em materialismo histórico.

O LAVO DE C ARVALHO : Falou em “materialismo dialético”.

A LAOR C AFFÉ A LVES : E mesmo sendo “dialético”, Marx nunca estabeleceu essas formas, esses jargões (que eu concordo, são jargões), que no fim acabam distorcendo até o pensamento, embora dê a entender Marx nos seus conceitos. Ler O Capital , ler... Tem várias obras dele maravilhosas e interessantes, já que ele [Olavo] está fazendo tanto denegrir, tanto. Eu diria para vocês que há obras notáveis. Obras notáveis que exprimem conceitos riquíssimos. Podem não ser todos suficientes para explicar tudo no mundo, é claro que não é isto. Mas que nos ajuda a compreender o homem, como outros mais, não só Marx. Pensem num Weber, por exemplo, um Durkheim. Tem de estudar esses pensadores para mostrar plenamente que tudo se compõe, esse sim, o espírito humano, mas como a base fundamental da estrutura de ação humana constante e permanente, que é o trabalho, que nós devemos cultivar permanentemente. Estou contra essa idéia de “Marx charlatão”. Acho muito baixo para isso. E o prof. Olavo não precisa se socorrer desse tipo de coisa. Não precisa. Ele é suficientemente filósofo, eu sei, eu conheço o trabalho dele. Dá para dizer uma coisa mais profunda, mais tranqüila, mais científica. É isso.

Marxismo Direito E Sociedade Parte Ii

Alaor Caffé Alves – Parte II | Olavo de Carvalho

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 19 de novembro de 2003.

O LAVO DE C ARVALHO : Muito bem. Agradecendo muito a Thiago Magalhães e a seus colegas pelo convite, constato, em primeiro lugar, que o meu interlocutor é bem menos marxista do que me disseram, o que de certo modo facilita o trabalho, porque a análise do marxismo é sempre um problema quase impossível de resolver, pela multilateralidade dos seus aspectos. Vocês vejam que o marxismo é uma filosofia, é uma teoria econômica, é uma ideologia, é uma estratégia revolucionária, é um regime político, é um sistema ético-moral, é uma crítica cultural, é uma organização política da militância: ele é tudo isso ao mesmo tempo. Ora, vocês não encontrarão em todo o mundo, em toda a história humana, nenhum fenômeno parecido: não existe nenhum outro fenômeno que abarque de maneira unificada tantos aspectos ao mesmo tempo. Isso quer dizer que o marxismo nos coloca desde logo o problema de que não sabemos a que gênero de fenômenos ele pertence.

Se buscamos a definição do marxismo, segundo o velho critério aristotélico do gênero próximo e da diferença específica, nós já nos esborrachamos no primeiro degrau da escada por não haver um gênero próximo. Isso significa que toda a tentativa de discussão do marxismo imita aquele célebre caso dos cegos com o elefante, em que um pega a perna e diz que o elefante é um poste, outro pega a tromba é diz que é uma cobra, outra pega a orelha e diz que é uma folha de papel, e assim por diante. Aqueles que analisam o marxismo no terreno econômico – o pessoal liberal tem a mania de fazer isso, o que é até covardia, porque a crítica liberal da economia marxista é tão arrasadora que este é o campo mais fácil para discussão –, quando pensam que estão ganhando a discussão, o marxista passa para outra clave (por exemplo, a da crítica moral do capitalismo) e pronto: aquele belíssimo trabalho que o liberal fez está perdido. Se nós atacamos o materialismo e o anticristianismo do marxismo, também quando estamos quase vencendo a discussão, o marxista tira do bolso do colete a teologia da libertação, dizendo que é mais cristão do que nós. Então, realmente estamos lidando com um ente proteiforme e indefinido. É evidente que a análise e a crítica racional esbarram em dificuldades tão imensas que, sinceramente, não vale a pena prosseguir nesta direção. A sucessão de críticas ao marxismo que se fizeram desde o século XIX até hoje, não digo que seja inútil, mas pega somente detalhes e partes às vezes insignificantes do problema.

Nós não vamos sair disso se não conseguirmos subir um grau na escala de abrangência e de abstração, e conseguirmos dizer, afinal de contas, o que é o marxismo. Então, abreviando quinze ou mais anos de estudo que me levam a esta conclusão, vamos começar por definir o marxismo pelo seu gênero próximo. Eu tenho a pretensão de ter encontrado esse gênero próximo: o marxismo não é uma filosofia política, não é uma economia, não é um partido político, não é nenhuma dessas coisas isoladamente, mas é uma cultura , no sentido antropológico do termo. Uma cultura significa um universo inteiro, um complexo inteiro de crenças, símbolos, discursos, reações humanas, sentimentos, lendas, mitos, sentimentos de solidariedade, esquemas de ação e, sobretudo, dispositivos de autopreservação e de autodefesa. Para toda cultura existente, o desafio número um é a sua autopreservação. Isto quer dizer que o marxismo, ao longo de sua história, desenvolveu uma infinidade de meios de autopreservação cujo funcionamento, inclusive material, dificilmente é objeto de curiosidade das pessoas. Não deixa de ser estranho que o marxismo, que professa tudo analisar pela sua base econômica, jamais seja estudado pela base econômica da sua própria expansão. Portanto, nós temos a impressão de que as idéias marxistas, exatamente como as idéias do antigo idealismo, se propagam no ar sem nenhuma ajuda humana e sem nenhuma sustentação econômica.

Quando tive a curiosidade de perguntar isso pela primeira vez eu era um jovem militante do Partido Comunista e, à medida que fui descobrindo os dados a respeito, eu vi que o próprio marxismo era um fenômeno econômico dos mais interessantes. Quando digo que o marxismo é um fenômeno sui generis , que nunca houve um complexo cultural assim tão vasto, há um outro ponto no qual o marxismo também é recordista. Quando na União Soviética se fundou a entidade chamada NKVD, que depois veio a se chamar KGB – mudou de nome inúmeras vezes –, este era um serviço de uma abrangência que aqui nós dificilmente conseguimos imaginar. A KGB, já entre as décadas de 50 e 60, tinha quinhentos mil funcionários, sem contar toda a militância comunista espalhada pelo mundo (o que era um serviço auxiliar também obrigatório), com o que se pode somar mais dez ou vinte milhões; então, quinhentos mil funcionários mais vinte milhões de auxiliares. As verbas da KGB superavam em muito as de todos os serviços secretos ocidentais somados, sendo que, por exemplo, os Estados Unidos não tiveram um serviço secreto para atuar no exterior senão durante a Segunda Guerra – os Estados Unidos desconheciam isso. Isto quer dizer que a ação da KGB na intelectualidade européia começa já na década de 20, havendo ali um festival de compra de consciências como nunca houve na história humana. A respeito disso, recomendo um livro de Stephen Koch, Double lives (“Vidas Duplas”), que trata exatamente da apropriação da intelectualidade européia pela KGB, através não só de mecanismos normais de persuasão mas realmente da compra de consciências, de chantagens etc. Isso já na década de 30. A respeito também deste período há um outro livro que eu lhes recomendo: chama-se Hollywood Party , de Kenneth Billingsley, sobre o Partido Comunista no cinema americano. Vocês já ouviram falar da expressão “lista negra”? Ela se tornou famosa no mundo quando alguns comunistas foram convocados a depor pela Câmara dos Deputados (as pessoas pensam que foi Joe McCarthy, mas nenhum artista de Hollywood jamais compareceu perante a comissão McCarthy e sim perante uma outra comissão totalmente diferente na Câmara dos Deputados): havia uma lista negra no cinema americano desde quinze anos antes, que se compunha das pessoas que não colaboravam para o Partido. Tudo isso tem aparecido nos últimos anos dez ou doze anos graças à abertura dos arquivos de Moscou.

Eu digo isso para vocês terem uma idéia do sustentáculo econômico e organizacional da difusão das idéias marxistas. Nenhuma outra no mundo jamais teve isto a seu serviço. Notem bem que a eficácia desse mecanismo ainda nos atinge no Brasil. Onde quer que haja cinco ou seis professores marxistas – não no sentido do prof. Alaor Caffé, pelo amor de Deus, porque já vi que ele é um homem sensato –, mas no sentido de um militante efetivamente comprometido, há uma equipe de cães de guarda fielmente empenhada em proibir o acesso ao que quer que não interesse ao Partido (qualquer que seja o nome do partido, chame-se Partido Comunista, Worker’s Party, como quiser). Eu vou lhes dar um exemplo de como se faz isso: este livro chama-se Dicionário Crítico do Pensamento da Direita . É uma obra feita por 140 professores universitários brasileiros; portanto, é representativa de uma classe. Esses 140 professores trabalharam durante seis anos, com verbas do CNPq e mais dois patrocínios privados, para nos dizer o que é o pensamento de direita. Ora, depois de ter sido militante do Partido Comunista, eu me dediquei durante vinte ou trinta anos a estudar também o pensamento de direita e tenho a pretensão de conhecê-lo. Muito bem, nenhum dos filósofos direitistas que eu estudei está aqui: nem Russell Kirk, nem Leo Strauss, nem David Horowitz. Em suma, todos os pensadores que fizeram a cabeça do movimento conservador nos Estados Unidos e na Inglaterra estão totalmente ausentes. O que representa o pensamento de direita aqui? Por exemplo, Goebbels, Julius Streicher (este era um maluco pedófilo que nem o partido nazista suportou: ele foi expulso do Partido Nazista por pedofilia e consta como pensador de direita!). Então, você compra uma obra baseado na confiabilidade acadêmica de seus autores e tem ali um bloqueio total do que quer que lhe possa dar uma idéia do adversário que não combine com a idéia precisa que este grupo de militantes quer impor às pessoas. Esse procedimento não é exceção. Após a abertura dos arquivos de Moscou, nós temos uma documentação enorme sobre o uso desses métodos no mundo inteiro. Ora, isto nos cria mais uma dificuldade para estudar o marxismo, porque entre seus mecanismos de defesa existe também o mecanismo de escamotear sua própria história e a história do adversário. Ressalto: nunca houve uma organização de tamanho comparável, dedicada a fazer isso no sentido extramarxista ou antimarxista. Todos os movimentos, até anticomunistas, que existiram no mundo são esporádicos, locais, de curta duração e, pior, absolutamente incompatíveis entre si. Para vocês terem uma idéia, o sujeito pode ser anticomunista porque é judeu ortodoxo e pode ser anticomunista porque é nazista: vocês não vão querer que o anticomunismo sionista e o anticomunismo nazista se dêem as mãos. Por causa disto, nós dizemos que a versão marxista das coisas se apresenta de maneira tão disseminada e tão impossível de se localizar que todo o debate neste sentido falha logo de início.

Não pretendo, evidentemente, resolver este problema, que está infinitamente acima de minha capacidade, mas creio que um primeiro passo é fazer com que essa figura nebulosa e proteiforme do marxismo seja substituída por uma figura mais reconhecível. Daí a minha definição do marxismo como uma cultura. Sendo uma cultura, a sua própria preservação tem prioridade absoluta e, em nome dessa prioridade, literalmente, vale tudo. Por exemplo, vou ler aqui um trechinho de um livro de Antonio Negri (vocês devem saber quem ele é), em que ele relata um debate que teve com Norberto Bobbio, a respeito da teoria jurídica do marxismo. Bobbio dizia que, no fim das contas, o marxismo não tinha teoria jurídica alguma, e Negri dizia que tinha. Diz Antonio Negri:

“O problema foi que o objeto da discussão não era o mesmo, nem para os dois participantes, nem para os espectadores, nem para os partidários dos dois lados. Para Norberto Bobbio, uma teoria marxista do Estado só poderia ser aquela que derivasse de uma cuidadosa leitura da obra do próprio Marx, e ele não tinha encontrado nada disso. Para o autor marxista radical (isto é, ele mesmo, Antonio Negri), no entanto, uma teoria marxista do Estado era a crítica prática das instituições jurídicas e estatais desde a perspectiva do movimento revolucionário – uma prática que tinha pouco a ver com filologia marxista, mas pertencia antes à hermenêutica marxista da construção de um sujeito revolucionário e à expressão do seu poder”.

O que nos está dizendo Antonio Negri? Ele está querendo dizer que, embora não haja realmente uma teoria marxista do Estado nos escritos de Marx – existem apenas observações mais ou menos esporádicas e deduções que os discípulos podem tirar delas –, existe uma crítica marxista que está de certo modo embutida na própria prática revolucionária e na afirmação do seu poder. Ou seja, se queremos saber qual é a teoria marxista do Estado não adianta ler Marx: é necessário observar a história do movimento comunista, ver como ele se desenvolveu e ler a crítica jurídica que está embutida ali. Está compreendido? Muito bem, só que em seguida ele diz: “ Se havia algo em comum entre Bobbio e seu interlocutor era que ambos consideravam o socialismo real (Sabem o que é socialismo real? É o socialismo cuja existência foi documentada na União Soviética, na China, na Hungria etc., com oitenta anos de história.)

como um desenvolvimento amplamente externo ao pensamento marxista. A redução do marxismo à história do socialismo real não faz nenhum sentido ”. Ora, mas o que é o socialismo real? Ele não foi precisamente a cristalização histórica do resultado da tal “prática da criação do sujeito revolucionário e a afirmação do seu poder”? Se a teoria marxista do Estado não está nos escritos de Marx e também não está no resultado da prática revolucionária, onde diabos ela está? Resposta: ela está na prática que naquele mesmo momento Antonio Negri está promovendo. É esta prática que é a legítima, as anteriores não. Isto é uma constante na história do movimento socialista.

Tão logo enunciados os princípios do marxismo no Manifesto Comunista de 1848, a primeira coisa que os comunistas fizeram foi colocá-los em revisão. O revisionismo é o segundo capítulo da história do marxismo após a sua fundação, de modo que, aos revisionistas (Bernstein, Kautsky e outros), a associação que o próprio Marx estabelecia entre marxismo e violência era ilegítima. Não nos façamos ilusões: Karl Marx sempre disse que a revolução somente se faria por meio da violência, ele rejeitava qualquer possibilidade de implantar o marxismo por meio da educação ou qualquer outro meio pacífico e inclusive dizia, lamentando-se, que “para implantar o socialismo no mundo nós temos de destruir no caminho uns quantos povos inferiores”, sic. Para os revisionistas, esse apelo de Marx à violência não fazia parte da essência do marxismo, mas era uma espécie de excrescência devida a alguma perturbação na cabeça do próprio Marx. No terceiro ato, volta-se à ortodoxia marxista através de Lenin, acreditando-se que é absolutamente necessário fazer a revolução através do uso da violência; e, através do uso da violência, constitui-se a duras penas, com sacrifício de milhões de militantes, sobretudo milhões de inimigos e dissidentes, o Estado Soviético. Uma vez pronto isto, o que diz a geração seguinte? “Isto não é representativo, isto não é o verdadeiro marxismo”.

Então, de geração em geração, nós vamos nos perguntando: afinal, quando aparecerá o verdadeiro marxismo? A resposta pode ser dada já: nunca. Porque o verdadeiro marxismo não existe como nenhuma formulação explícita, que possa ser discutida racionalmente. O marxismo só existe como uma cultura, na qual a formulação doutrinal é apenas um elemento provisório e tático, que pode ser trocado quantas vezes se queira, de modo que o militante possa não somente mudar a história anterior, fazendo com que tudo aquilo que foi feito em nome do marxismo já não seja marxismo – e apareça um novo marxismo que ele tem na cabeça –, mas consiga também fazer até o milagre oposto: ele consegue não apenas limpar a memória de seus próprios crimes, mas consegue trazer para si os méritos do adversário. Vou lhes dar um exemplo de como se faz isso, exemplo que tirei do próprio Antonio Negri: ao falar da famosa prática da criação do sujeito revolucionário e da afirmação do seu poder, ele diz que “ isso faz parte da história de um conjunto de lutas pela libertação que os proletários desenvolveram contra o trabalho capitalista, suas leis e seu Estado, desde o Levante de Paris de 1789 até a Queda do Muro de Berlim ”. A Queda do Muro de Berlim integra-se na sucessão das lutas para a criação do sujeito revolucionário e para a afirmação do seu poder. Só falta então dizer que o único marxista autêntico daquela época era Ronald Reagan. O representante de qualquer religião, ideologia, partido político ou clube esportivo que se permita uma tamanha elasticidade será evidentemente condenado como charlatão ou internado como louco. Mas dentro do marxismo isto vale. Mais ainda, digo para vocês: não é desonestidade, pelo menos não desonestidade consciente. Isto é possível dentro do marxismo porque ele não é uma doutrina, não é uma teoria que se tenha de defender mediante uma discussão racional.

Marxismo é uma cultura e, na defesa da unidade e preservação de uma cultura, todos os meios são legítimos. Mesmo considerações de veracidade e moralidade não devem entrar na linha de conta, porque veracidade, ciência, cientificidade, moralidade e racionalidade são apenas expressões parciais da cultura, de maneira que fazer cobranças à cultura em nome delas parece uma insuportável revolta das partes contra o todo, uma quebra da hierarquia ontológica. Então, a cultura está sempre acima dos padrões de racionalidade que ela mesma cria. Sendo o marxismo uma cultura, todas as mentiras que ele venha a dizer não podem ser impugnadas no campo doutrinal, evidentemente. Porque, ou nós as impugnaremos no campo moral e, a cultura estando acima da moral, rejeitará nossa argumentação como irrelevante, ou nós argumentaremos em nome da ciência, da racionalidade etc., e a cultura como um todo jamais poderá se colocar sob a fiscalização da moral e dos bons costumes. É tão absurdo você discutir com um marxista sobre a sua cultura quanto seria você chegar numa tribo de índios do Alto Xingu e dizer a eles que algum de seus costumes é imoral. Ele não entenderá o que você diz, porque a moral para ele são exatamente os costumes da tribo, não existe uma moral supracultural a que ele possa apelar. Nós temos idéia de uma moral supracultural porque vivemos em enormes blocos civilizacionais multiculturais, recebemos o impacto de muitas culturas e podemos compará-las entre si. Isto, por um lado, nos induz ao relativismo e, por outro lado, nos induz à busca de um padrão de abstração e abrangência maiores, mais científicos.

Mas, dentro da cultura marxista só vigora o que ela própria criou, e qualquer produto externo só será admitido lá dentro uma vez trabalhado e modificado no seu sentido, de modo que se torne inofensivo. Por exemplo, o pensamento conservador todo será substituído por pensadores de direita de baixíssimo nível – de preferência psicopatas nazistas que se denunciem a si mesmos na primeira palavra, porque daí fica fácil lidar com eles. Ou então, às vezes, procede-se de maneira menos grosseira, escolhendo certos adversários que até são de alto nível, mas trabalham dentro de uma faixa teórica tão limitada que fica fácil vencê-los saindo de seu quadro categorial, puxando a discussão para um outro quadro. Por exemplo, a famosa discussão com Kelsen: Kelsen está apenas tentando definir o que é o Direito considerado em si mesmo. Se existe, dentro de uma sociedade, um complexo de fatores (direito, economia, moral, religião etc.), nada disso está separado, evidentemente. Porém, no que consiste cada um desses elementos? Se dissermos que cada um dos elementos não é nada, que só existe a mistura, será então a mistura de vários nadas que miraculosamente dá em alguma coisa. Na época de Kelsen, houve vários esforços em várias ciências totalmente distintas para conseguir definir seu campo de maneira, como eles diziam, “pura”. Houve o esforço de uma biologia pura com (?) e outros, houve o esforço de uma lógica pura com Edmund Husserl, e evidentemente ninguém entenderá uma palavra do que disse Kelsen se não o entender dentro deste movimento. Como o universo categorial conceitual de Kelsen é bastante limitado (e eu, particularmente, também acho que Kelsen está errado ao definir o Direito exclusivamente pela norma), é muito fácil, numa discussão com ele, apelar para conceitos sociológicos e históricos que estão infinitamente fora do quadro de referência dele e fazer de conta que o derrubou, quando simplesmente não se entrou no assunto. E assim se procede com praticamente todo mundo.

Muito bem, é claro que até o momento eu não disse nada internamente sobre o marxismo, muito menos sobre as teorias jurídicas do marxismo, que eu acredito piamente que não existem. Mas vamos examinar muito rapidamente alguns conceitos marxistas.

Primeiro, Karl Marx havia dito na Crítica da Filosofia do Direito de Hegel que a realidade social dos homens condiciona a sua consciência; nas Teses sobre Feuerbach , ele vai um pouco mais além e diz “determina”. Isto quer dizer que você tem uma posição na sociedade que é definida pelo seu papel no sistema de produção e você tem um conjunto de idéias que é determinado por esta posição. Quanto é determinado? Isso ele nunca diz; o máximo que ele diz é que, em última instância, é determinado. Então, qual é exatamente a relação entre posição social e ideologia? Ou existe uma relação efetiva, como diz Marx, ou posição social é uma coisa e ideologia é outra completamente diferente. Se houvesse uma conexão efetiva, então o burguês tem de pensar como burguês, o proletário como proletário, podendo haver, é claro, exceções. Mas qual seria a possibilidade de que justamente o primeiro teórico da ideologia proletária não fosse um proletário? E o segundo também não? E o terceiro também não? E o quarto também não? E de que praticamente toda a liderança do movimento comunista, ao longo dos tempos e incluindo Antonio Negri, nunca fosse de proletários? Eles podem dizer que são burgueses esclarecidos e que aderiram. Mas se você tem a liberdade de aderir, outros também têm. Portanto, a conexão entre a sua condição social e a sua ideologia é de sua livre escolha, e a famosa conexão não existe.

Outro item (eu poderia dar uns cinqüenta, mas vou usar um que foi lembrado aqui pelo prof. Alaor) é o de que cada etapa histórica é marcada por um sistema de propriedade, e que dentro deste sistema existem forças de produção que crescem até um certo ponto e derrubam este sistema de propriedade – o prof. Alaor deu como exemplo o feudalismo. Então, o feudalismo tem lá um sistema de propriedade; quando a produção cresce, ela cria uma incompatibilidade e o feudalismo cai. Perguntem-me quando isso aconteceu. Respondo: nunca. O feudalismo caiu muito antes de que houvesse qualquer choque sério entre o sistema de propriedade e os meios de produção. O choque do feudalismo foi com a instituição real ou monárquica. O feudalismo foi derrubado quando o rei, que era um primus inter pares , decide derrubar os seus pares e tornar-se o primus “sem pares”. Para isso, no caso da França, constitui-se, pela primeira vez, uma imensa burocracia estatal, com a qual nem os senhores feudais nem muito menos os burgueses puderam competir de maneira alguma. Vejam até que ponto isto é absurdo: diz-se que na Revolução Francesa a burguesia tomou o poder. A burguesia são os capitalistas, não? Façam a lista dos líderes da Revolução Francesa e vejam quantos capitalistas havia ali. Resposta: um. Os outros eram todos padres, aristocratas frustrados, jornalistas etc. Se eles não eram burgueses ou capitalistas pessoalmente, eles podiam ter algum contato com entidades de capitalistas que lhes diziam quais eram seus interesses, interesses que queriam defendidos. Mas nunca houve este contato. Isso quer dizer que, se a ideologia da Revolução Francesa era a ideologia dos capitalistas ou da burguesia, curiosamente os burgueses se esquivaram de defendê-la: ela foi defendida por pessoas que não tiveram nenhum contato com burgueses e não houve nenhum burguês vindo-lhes pedir que fizessem algo.

Isso é para lhes dar uma idéia de até que ponto a teoria marxista da história é pura mitologia e charlatanismo em cada um dos seus itens. É claro que, se em meia hora o prof. Alaor não pode expor a parte dele (a qual vocês já estão acostumados a ouvir), muito menos posso eu provar toda essa novidade. Dêem-me alguns anos e eu provo isto com todos os detalhes.

M EDIADOR : Agora a réplica de trinta minutos do prof. Alaor Caffé Alves.

Marxismo Direito E Sociedade Parte I

Alaor Caffé Alves – Parte I | Olavo de Carvalho

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 19 de novembro de 2003.

Recebi várias transcrições deste debate, mas reproduzo aqui apenas uma delas, a de Alessandro Cota e Bruno Yoshio Mori, que me pareceu a mais completa. Agradeço a eles e também aos autores das demais, que me serviram para corrigir a presente versão em alguns pontos, ainda que sem fazer uma revisão em regra.

Alguns pontos brevemente mencionados neste debate receberam depois uma explicação mais detalhada nos artigos “A natureza do marxismo”, ‘marxismo esotérico” e “Diferenças específicas”, publicados no Jornal da Tarde de São Paulo. – O. de C.

M EDIADOR : Estamos recebendo dois grandes nomes da intelectualidade brasileira. À minha esquerda, o prof. Alaor Caffé Alves, muito conhecido por nós estudantes por nos levar à crítica do Direito e do Estado e a olhar para dentro as relações sociais e enxergar a sua autêntica expressão. À direita, apresento o polêmico filósofo Olavo de Carvalho; tido pela crítica como um dos luminares do pensamento brasileiro, é autor de O Jardim das Aflições , entre outros livros, e traz hoje, à Sala dos Estudantes, sua defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, fazendo deste espaço público, mais uma vez, um centro privilegiado de discussão acadêmica. Um marxista contra um liberal. A iniciar pelo prof. Alaor, teremos trinta minutos para cada debatedor mais quinze minutos para as réplicas; em seguida, abriremos às perguntas. Prof. Alaor e Olavo de Carvalho, neste debate da realidade econômica, política e social de nosso tempo, tomando por base o marxismo, qual função cabe ao Direito na sociedade? E no seu entendimento, quais as conseqüências de se pensar o Direito desta forma? Com a palavra, o prof. Alaor Caffé Alves.

A LAOR C AFFÉ A LVES : Boa tarde a vocês todos, meus alunos, e ao prof. Olavo de Carvalho. Em meia hora evidentemente não dá para dizer quase nada a respeito do pensamento jurídico, e especialmente do pensamento jurídico calcado na perspectiva de uma metodologia singular, que é a metodologia marxista. Já digo inicialmente que não sou um marxista no sentido tradicional do termo, mas tenho meu namoro com relação a certas questões, e a certas questões metodológicas, que se exprimem ao longo da vida do pensamento teórico marxista, desde Marx até hoje. É claro que, com as idas e vindas históricas, problemas graves, inclusive de situações relacionadas com frustrações políticas extraordinariamente importantes, tudo isso nos dá um grau de perplexidade. Mas, por outro lado, nos permite ver algumas coisas importantes. Eu simplesmente tive de escolher – porque meia hora é tão pouco – alguma coisa estratégica relacionada com o Direito, a sociedade e a perspectiva marxista, que é uma perspectiva que no século XX teve um domínio muito grande, especialmente na ordem política, embora não daquela forma que desejávamos que fosse. O marxismo teve distorções profundas no esquema político e social, enveredou nações inteiras por caminhos que não são efetivamente (ou não eram efetivamente) marxistas, ou pelo menos na conclusão do ideal desse pensador que conhecemos, que é Marx. De qualquer forma, influiu muito a vida do século XX, e a nós cabe apenas uma perspectiva um pouco mais elementar, porque vamos tratar apenas de uma parte da sociedade e sob uma certa ótica, que é a jurídica. Marx nunca tratou do Direito. Na verdade, Marx foi um economista dos clássicos. Atuou de uma forma muito singular no plano do pensamento teórico da economia, estabelecendo seus princípios, enfim, aquilo que ele julgava adequado para explicar a sociedade em que ele vivia. Muitas das explicações de Marx já não valem mais, em função da historicidade dessas mesmas expli cações. Então, é claro, temos de dar o devido valor e entender que isso não significa absolutamente compreender Marx sob o ponto de vista dogmático, mas sim o que ele pode nos fornecer, nos dar, nos oferecer para entender um pouco, especificamente, o problema social; e aqui, no nosso caso, o problema jurídico.

Para colocar a questão muito rapidamente, muito estrategicamente, no ponto de possível discussão, nós temos de levar em conta as características do Direito exatamente dentro da perspectiva e da posição que postulava Marx naquela época, o século XIX, já numa dimensão estrutural social; precisamos entender o que significa a chamada estrutura social, se ela comporta ou não previsibilidade, se admite ou não as possibilidades de um conhecimento razoável do ser humano, a ponto de prever as condições objetivas de sua vida social. Nós encontramos várias ciências sob o ângulo da previsão, como a sociologia, como a própria economia, mas a questão é saber se a história pode ser prevista. Essa é uma questão importante, porque o próprio homem é considerado como ser produto da história e de sua socialidade. Se o ser humano é um produto social, a par da situação individual em que ele se apresenta também como ser biológico – ele também tem a sua individualidade singular, biológica, psicológica –, aqui também se indaga sobre a forma social que toma essa expressão biológica e psicológica. Até que ponto a socialidade determina as dimensões de vontade, os valores humanos, as crenças? Em que sentido isso ocorre?

O próprio Direito é uma expressão social, pois é um fenômeno social e, sendo um fenômeno social, tem de ser estudado desde de certos critérios que permitem caracterizar uma certa regularidade no Direito. É por isso que temos de considerar que o Direito pode ser um saber científico. Muitos não o admitem como um saber científico, e sim como um saber apenas prático; alguns levam em conta se é possível um saber prático ou se há apenas um conjunto de propostas gerais que não têm uma fundamentação científica adequada para verificação de sua validade, de sua verdade. Tudo isso é um problema complicado, pois se trata da metodologia do saber jurídico, focada na perspectiva da metodologia de Marx. Existem teóricos juristas sobre esse assunto. Por exemplo, na própria União Soviética, nós temos um grande teórico jurista, que sofreu os impactos da ditadura de Stalin: Pashukanis, um grande pensador que, atendendo às premissas, enfim, às diretrizes postuladas pela metodologia marxista, pela visão marxista do mundo, acabou dando-nos uma visão interessante, que depois ele mesmo transforma; ele mesmo altera seu ponto de vista, dá uma virada, e acaba morto em 1937 na União Soviética. É claro que outros filósofos existem: mais atualmente, temos os filósofos juristas como Ceromi [?], grande pensador italiano, ligado também à perspectiva marxista, e também Atienza, um grande pensador ligado às questões da ordem do método marxista do Direito. Também temos o namoro feito por Norberto Bobbio relacionado com a questão do Direito; mas ele é um neoliberal, mas de uma forma um tanto diferente daquelas relativas aos neoliberais do século XIX e mesmo do século XX.

Dadas essas condições gerais, o que quero mostrar a vocês é o seguinte: como é que vamos tratar o Direito dentro de uma perspectiva não positivista? Uma delas é a marxista. O conceito de direito no sentido positivista, como vocês sabem, decorre exatamente de uma posição e definição da lei como sendo aquela que deve definir as condições e as específicas diretrizes jurídicas de uma sociedade. A sociedade deve ser produzida do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista jurídico mediante as posturas legais ou legislativas. O grande problema é saber como esta referência positivada do Direito se deu. Há, claro, explicações, inclusive contrapondo o positivismo ao jusnaturalismo, que são muito interessantes – mas não vamos perder tempo agora em defini-los, porque é muito complicado e precisaríamos de mais tempo –, explicações estas que não têm normalmente, por definição, a produção do espírito humano senão mediante a confissão de reflexões filosóficas ou reflexões dentro do âmbito ideal do Direito. Por exemplo, a perspectiva idealista ou a perspectiva não-materialista corresponde ao fato de que há um espírito, espírito este que não significa o de cada um de nós, mas o conjunto dos espíritos, que na verdade são as ações culturais dos homens, particularmente, que formam o espírito que em última instância exprime aquilo que a história deve nos dar, vale dizer, o espírito na busca da liberdade. Esta postura é justamente hegeliana: a busca da liberdade produz praticamente a vida social. O Estado mesmo é uma expressão desse mesmo espírito. Essa visão é extremamente criticada pelos marxistas, que acham que a espiritualidade tem por base uma estrutura social calcada na visão da produção da vida social, na produção da vida material. Se não houver a idéia da produção da vida material da sociedade, nós não temos a idéia mais clara do próprio espírito; a espiritualidade está dinamicamente relacionada à materialidade. Claro que não existe um espírito isolado, solitário, como não caberia existir a matéria solitária. A matéria, para Karl Marx, não é jamais a matéria bruta, nem aquela matéria opaca; não é materialidade dos físicos gregos clássicos, a busca de um “ em si ”, de uma substância material no mundo. Para Karl Marx, a matéria é postulada em função da produção da vida social humana. Materialidade, portanto, é algo que é prenhe de espiritualidade, de certo modo; há uma relação dialética entre o processo de pelo qual os homens agem no mundo e transformam o mundo; e nesse processo de transformação do mundo, os homens, progressivamente, vão transformando-se a si mesmos. É isso o que acontece.

Portanto, esta visão inaugura a idéia de processualidade, exatamente o oposto da visão positivista do Direito. Vocês podem ver, por exemplo, o caso de Kelsen, que trabalha uma visão fundamentalmente estática, ou, vale dizer, muito abstrata. Para ele, o Direito é substancialmente norma e é uma estrutura de sentido. A norma como estrutura de sentido não será estudada do ponto de vista de sua gênese e nem de seus fins, porque gênese e fins da norma são questões de outras ciências e não do próprio Direito. O Direito, em sua essencialidade, se exprime pela norma abstrata, por um dever-ser postulado segundo uma estrutura de coação, que é definida pelo próprio Estado. Então, um dever-ser , para Kelsen, é fundamental, e ele separa fundamentalmente o dever-ser do ser. Evidentemente, essa postura não é aceita pela perspectiva marxista, porque o ser e o dever-ser se compõem numa relação dialética. Não é fácil compreender isto. É difícil. Na visão kelseniana, portanto na linha neokantiana, se faz diferença profunda e séria entre ser e dever-ser: o ser determina o dever-ser , isto é, ele é condição para o dever-ser. Ou seja, Kelsen aceita que a sociedade deve existir necessariamente para que exista o Direito, para que exista o dever-ser, a norma; mas o dever-ser não tem por fundamento o ser, ou seja, a relação social, a sociedade, e sim tem por fundamento um outro dever-ser, e este outro tem por fundamento um outro mais, até um dever-ser fundamental, que ele chama de norma fundamental. Portanto, para ele, a relação do dever-ser com o ser é absolutamente separada, não existe uma comunhão entre uma e outra a não ser pela condição necessária – não a condição per quam , pela qual, mas a condição necessária pela qual se deve ter uma ordem. É claro que não há Direito sem sociedade, com isto ele concorda. Kelsen era um homem extremamente ladino, profundo, grande pensador do Direito; mas tem uma visão formalizada. O Direito como estrutura de sentido organiza a vontade; o Direito, embora tendo como causa a vontade humana, porque já não pode mais ter causa divina (desde que Deus está morto, segundo Nietzsche), então não há mais essa postura de direito teologal, como também não há a idéia do direito natural, um direito que estabelecesse uma relação direta entre o ser e o dever-ser , em que o próprio ser é dever-ser. Como já não se admite isso, a única forma de se admitir o Direito é aquele imposto pelos homens. A forma de impô-lo implica uma relativização do Direito, e esta relativização do Direito imposto pelo homem (porque o homem é um ser circunstanciado, histórico, condicionado por situações singulares) evidentemente tem de ter alguma segurança a respeito do que ele faz, especialmente, no plano do Direito moderno. Para isso, Kelsen não pode aceitar senão a linguagem do discurso jurídico. É por isso que a positivação do Direito moderno é fundamental, porque é uma das formas pela qual se dá a garantia de uma certa estabilidade da forma como se diz o Direito. Diz através da lei, a lei é a positivação do Direito mediante formas escritas; por isso a codificação do sistema, porque antes não havia esta codificação tão expressiva, mas a partir do século XVII, a codificação se torna cada vez mais presente, e no século XIX é praticamente universalizada. O Direito é um direito escrito, e enquanto direito escrito, tem estrutura de sentido, é um direito que tem de ser interpretado. Vejam vocês, portanto, que a estrutura econômica se torna muito complexa, determina a necessidade de os homens registrarem o Direito necessariamente, sem o que o Direito não pode ser devidamente interpretado e aplicado adequadamente.

Mas tudo isso define uma situação de positividade que de certo modo extrai as possibilidades materiais do próprio Direito. Esquece-se Kelsen dos fundamentos sociais, das estruturas sociais; daí o problema de que no positivismo se faz uma separação entre Direito como norma positivada e justiça, moralidade e ética jurídica. Estas questões são muitos distintas. O próprio Kelsen aceita perfeitamente essa postura e diz que o Direito é isto. É claro que esta visão é formalizada, portanto, uma visão estática do Direito, melhor ainda, uma visão universal do Direito. De certo modo se diz o seguinte: a norma jurídica, como jurídica que é, que dá a essencialidade à compreensão do Direito, é igual no sistema capitalista, socialista, comunista, feudal, clássico: a norma é sempre a norma, é sempre o dever-ser . É por isso que ele, então, essencializa o Direito na norma e, de certo modo, ele segue um pouco o caminho platônico: as próprias experiências, a singularidade, a história, a factualidade, as circunstâncias, isso passa a ser como que, digamos, alguma coisa esmaecida do mundo, como que sombras da caverna. O que importa fundamentalmente para essencializar o Direito é a norma; a norma é uma estrutura de sentido, e sentido da vontade, e não a vontade é a norma. Vejam a diferença entre a postura marxista e a postura kelseniana, que é a expressão máxima, mais avançada, mais ampliada do sistema do positivismo jurídico que é dominante em todo o sistema capitalista; fora, evidentemente, os sistemas jurídicos calcados na perspectiva teológica que como nós temos ainda em vários países do mundo que a adotam, mas os países mais avançados têm esta linha muito consagrada da positividade, portanto a linha da legalidade.

Ora, isso tudo só pode ser explicado a partir da idéia da processualidade, que é uma idéia dialética. Por isso eu faço sempre uma diferenciação entre o processo e o produto. A idéia é normalmente separar o resultado do processo, então fica complicado porque ficamos apenas com o resultado. Em termos operacionais e práticos dá para usar o resultado muito bem de forma instrumental, e como dizia Habermas, a instrumentalidade racional permite que se manipule o resultado, mas esse resultado não será legitimamente compreendido e entendido cientificamente se não se atender para o processo pelo qual o resultado é resultado. Então, há uma processualidade no mundo e buscar o processo pelo qual alguma coisa é feita é melhor do que buscar a coisa feita por si mesma; buscar o processo pelo qual o homem se desenvolve é melhor para entender o próprio homem, aqui e agora. Por isso, o homem tem de ter a expressão do passado. Ele tem a expressão do passado, mas tem sua negatividade; porque o homem não é o passado, ele supera esse passado. Uma visão um tanto quanto hegeliana, mas a possibilidade de que o homem supere o passado é a afirmação do passado e, ao mesmo tempo, sua negação. Ele se afirma, tanto quanto um adulto afirma a criança que foi, mas não é a criança que foi, portanto, a nega. Você vê que esta relação dialética é complexa, e isso existe no plano do Direito.

Quando vamos examinar esta categoria da processualidade, nós temos então de projetar a sociedade nesse processo. Daí se vê o seguinte: a sociedade, como se dá? Em que termos a sociedade entra como processo? É um problema que eu sempre levo em conta: ela é uma produção puramente espiritual, é uma produção material, ou é material e espiritual ao mesmo tempo? Parece que é conjugada. Ela não é puramente espiritual, não é apenas a história do espírito humano que define o homem; também não é uma materialidade pura e simplesmente, naquela concepção mecanicista e substancialista da matéria; mas é uma relação, uma dinâmica entre espiritualidade e materialidade. Até que muitas vezes se pergunta: mas qual é o fundamental nisto? Os marxistas consideram que, em última instância, a dimensão material (naquele sentido dito por Marx, não no sentido da matéria bruta, mas no sentido da produção, ou seja, da matéria enquanto produção do homem, portanto) é claro que tem história. Se examinarmos antropologicamente, vê-se que os homens não produziram sempre aquilo que produzem hoje; produziram de forma muito diferente, produziam outras coisas, em modos diferentes de produção. As formas sociais para produção são diferentes, as relações que os homens guardam entre si são diferentes nos diversos momentos históricos. Então, você vê que, efetivamente, existe um problema que deve ser visualizado pelo teórico do Direito para saber até que ponto o próprio Direito é uma resultante deste processo.

O ponto de vista marxista tem algumas colocações interessantes. Eu vou dar um exemplo bem específico para vocês entenderem o que eu quero dizer. No sistema feudal, as relações produtivas eram muito singelas; era uma economia mais natural, mais de subsistência; o valor de uso predominava; não havia valor de troca expressivo; a moeda não corria muito; os feudos centralizavam o sistema econômico. Havia, portanto, uma atuação política, ou seja, o exercício da força, porque a politicidade também tem em seu centro a possibilidade do exercício da força; isso havia, inclusive misturado com a relação econômica. A relação econômica era a produção feita pelos homens e a relação social destes homens para a produção. Mas a relação social se compunha, ao mesmo tempo, de uma dimensão econômica, pela qual se exercia um poder para transformar o mundo; e isto implica, evidentemente, utilizar a força produtiva, a mão-de-obra e os mecanismos que existem para fazê-lo, mas existia também uma atuação política, uma força política para esse exercício. Então, sabe-se que numa época escravista, como a época feudal, as relações entre os homens para produzir não eram as mesmas das épocas modernas, da época que chamamos burguesa ou capitalista, da época mercantil. É uma época diferente porque o exercício da força sobre o trabalho é praticamente muito presente. Portanto, o econômico e o político se viam de tal maneira misturados, de tal maneira acoplados, de tal maneira feridos em sua integridade, que o agente econômico era o mesmo agente político. O senhor feudal era ao mesmo tempo agente econômico, agente cultural e agente político: ele exercia a força, ele inclusive trazia a mão-de-obra à força para o trabalho se fosse preciso. Existia também outro elemento que é a ideologia, que evitava a expressão clara desta forma de explorar os homens nesse processo. Quando isto ocorre, temos uma dimensão econômica muito própria que traduz uma forma política específica da época medieval. Quando entretanto – e aqui vem a tese marxista – há uma evolução desse processo produtivo, vale dizer, a dimensão tecnológica, a condição material da produção, vale dizer, a tecnologia (isto também é uma visão tecnológica de certo modo, que foi muito discutida e é muito discutida ainda hoje), quando a tecnologia avança pelas invenções que o homem vai desenvolvendo através do seu trabalho, da sua atuação direta com o mundo, buscando novas formas de cultivar o mundo, inventando várias coisas como o moinho de vento, a roda dentada, enfim, sistemas novos de articulação do poder, é claro que isto vai implicar uma maior quantidade de produto. A produção começa a se expandir, a se desenvolver, e há um conflito entre o desenvolvimento produtivo (a produção) e os limites do sistema feudal. Vale dizer, tudo era feito para o senhor basicamente, e depois, na expansão, era muito complicado fazer com que a venda dessas mercadorias (elas passam a ser mercadorias) se estendesse para todo conjunto de feudos, quando os próprios feudos estavam impondo certas situações de restrição dessa produção. Dizem os marxistas que aí existe um conflito singular entre uma força produtiva típica singular feudal e a força nascente, que seria exatamente essa dimensão calcada na perspectiva de uma nova classe, que é a classe dos burgueses. Abre-se, portanto, um período de crise em que forma e matéria, forma e conteúdo, entram em crise e aí vem uma nova fase: o homem começa a precisar de uma nova forma de produção. Era preciso distribuir a mercadoria; para fazê-lo, é preciso que todos ganhem dinheiro, que ganhem recursos para que possam consumir a mercadoria do mercado. Mas como seria possível fazer isso se as relações eram tipicamente ou servis ou escravistas? Impossível, porque não se podia distribuir recursos; para isso, era preciso criar novas formas, como a forma da moeda (a monetarização da economia), o salário (o assalariato se inicia neste processo). É evidente que neste momento tudo passa a ser diferente: o sistema econômico não mais é garantido em função de uma relação de imposição sobre o trabalho, mas era preciso fazer com que o trabalho passasse a ter agora uma outra dimensão, a dimensão de liberdade. Era preciso ser livre das peias do feudalismo, livre das peias do exercício sobre instrumentos de produção elementares, fazer com que a força do trabalho pudesse ela mesma ser autônoma, e portanto vendável. Então, é o momento em que aparece a venda na força do trabalho, e esta venda forma o mercado, o mercado de trabalho, onde as mercadorias passam a circular, entre as quais, a própria força do trabalho. É claro que, nesse caso, a relação entre o capital e a força do trabalho não é uma relação de imposição, como acontecia no sistema anterior. Não havia capital no sistema anterior, mas havia uma imposição sobre o trabalho, pela força do senhor feudal ou do escravizador. Agora não: ela se universaliza na sociedade de uma forma completamente diferente, é preciso que os homens estabeleçam relações entre si de forma mercantil, de troca, e a troca pressupõe, basicamente, proprietários. Todos têm que ser proprietários: os proprietários do capital (do salário) e os proprietários correspondentes. Então, esses proprietários do capital tinham o salário e, do outro lado a força de trabalho dava a capacidade de trabalho e recebia o salário; com esse salário formavam o mercado e com isso então expandia-se a produção.

Claro, daí começam o quê? Figuras interessantes, como a figura do contrato, que se universaliza nesta época. Então, é somente com o aparecimento de uma nova forma de produção que se universaliza a figura do contrato juridicamente. A figura do contrato pressupõe pessoas contratantes, logo, pessoas jurídicas. Há que haver portanto, a universalização das pessoas jurídicas. Há necessidade de que as pessoas sejam proprietários, porque elas só podem trocar coisas de que tenham posse em disponibilidade. Aqui vocês vêem, portanto, a liberdade: como é possível contratar sem liberdade? O suposto é a liberdade; o suposto é a igualdade. Vocês vêem, portanto, que as figuras jurídicas formuladas no direito civil especialmente (isso depois transcende para o direito público) acabam resultando de um processo de movimento das forças produtivas, da capacidade material dos homens, que determina formas diferentes. Não vejam, portanto, o contrato simplesmente como a figuração de algo abstrato situado no cosmos. Não: primeiro existem as relações de troca, depois elas vão para o código para ser reguladas de forma detalhada, singular, e garantidas.

Vejam vocês, nessas poucas palavras, simplesmente, o que aflora nesta estrutura de pensamento. É uma estrutura de pensamento que propõe uma dimensão muito singular, muito interessante, que deve ser objeto de exploração. Não quer dizer que ela seja a única – cuidado com isso! Ela deve ser objeto da expansão metodológica porque ela nos dá algumas bases interessantíssimas para explicar um pouco melhor os próprios institutos jurídicos. Aqui vocês vêem apenas um momento estratégico e singelo: a possibilidade de utilizar uma metodologia nova, interessante; não é nova sob o ponto de vista jurídico, não é tão universal, mas pode nos dar um conhecimento um tanto quanto mais seguro, principalmente dos processos pelos quais os institutos chegam a ser institutos jurídicos. É isto basicamente.

M EDIADOR : Neste momento passo a palavra a Olavo de Carvalho.

Paradoxo Estatal

9 de setembro de 2000 | Época

Se a universidade forma a classe dominante, por que produz tão poucos empresários?

Se você perguntar a um marxista o que é universidade, ele lhe dirá que é a máquina de autoperpetuação da ideologia da classe dominante; a engenhoca de fazer com que os filhos de capitalistas pensem como capitalistas.

Praticamente todos os membros mais falantes da nossa classe falante acreditam nisso.

O que eu queria era que um deles estivesse na minha pele, terça-feira passada, no Forum Universidade-Empresa promovido na PUC gaúcha pelo Instituto de Estudos Empresariais. Pois a questão que ali me foi proposta mostrou como esse sentencioso lugar-comum é apenas uma bolha de sabão, que não resiste a um sopro.

A questão foi: Por que a universidade brasileira não forma pessoas com mentalidade de empresários, e sim de empregados? A premissa da pergunta é um fato notório: os recém-formados se queixam sempre de falta de vagas no mercado de trabalho, nunca de dificuldades para iniciar seus próprios negócios. Trazem com o diploma a expectativa de arranjar emprego, não de assumir a responsabilidade pessoal de criar empregos para quem não tem diploma. Gerar riqueza e oportunidades é obrigação do Estado: não deles. Bela classe capitalista!

Respondi o seguinte: as idéias que fizeram a cabeça das nossas elites foram sempre autoritárias, coletivistas e uniformizantes — o jesuitismo ou ideologia da Contra-Reforma; o positivismo ou ideologia do Estado científico redentor; o marxismo ou socialismo internacional; o fascismo ou socialismo nacional. Em todas, o objetivo da educação é formar algum tipo de militante. E que perspectiva de futuro tem um militante? Uma só: tornar-se membro da nomenklatura, ascender na burocracia. Tal é, pois, o ideal de vida implícito que a nossa educação transmite aos jovens. O burocrata é o inverso do empresário: ele não concebe a vida como disputa em campo aberto, e sim como “plano de carreira”, fechado e garantido. E o burocrata frustrado se revolta contra o Estado que lhe sonega, junto com essa garantia, um sentido de vida Mas a resposta é menos interessante do que a pergunta e do que o fato mesmo de que fosse formulada por um jovem empresário, chocado com o espírito servil de seus companheiros de geração, espírito que, com a maior facilidade, se transmuta em rebelião de escravos — com burgueses no papel de escravos. A constatação desse paradoxo basta para explodir o lugar-comum acima citado: pois ou a universidade não é o que os marxistas dizem, ou a classe dominante no Brasil não é empresarial e sim burocrático-estatal. No primeira hipótese, adeus teoria marxista da ideologia. Na segunda, a universidade forma, sim, a classe dominante; mas não uma classe capitalista, e sim uma já socialista ou quase, a qual, quanto mais cresce, tanto mais multiplica, com as vagas universitárias que ela adora ampliar, o exército de burocratas sem emprego, em cujo ressentimento ela em seguida se escora para clamar por mais socialismo, mais Estado, mais burocracia. E, neste caso, jovens socialistas, quando é que vocês vão perceber que o que solapa o seu sentido de vida não é o capitalismo – entidade fantasmal num país sem empresários –, mas sim a ideologia que faz de vocês mendigos de cargos e se alimenta da falta de cargos?

Em 9 de setembro de 2000

Modernidade Real E Imaginaria

9 de outubro de 2013 | Diário do Comércio

A história das origens da modernidade está entremeada de mitos e lendas que os historiadores já demoliram faz tempo, mas que constituem ainda a substância do que se transmite a respeito nas escolas, na mídia e no show business. Tão forte é a impregnação dessas balelas na mente popular – incluída aí a classe dos cientistas profissionais sem especial cultura histórica –, que a simples iniciativa de informar ao público o estado atual das pesquisas historiográficas sobre aquele período é recebida com ataques apopléticos e ainda acusada de ser uma tentativa maligna de “desmoralizar a ciência” em nome de algum “fundamentalismo religioso”.

Que essas reações sejam elas mesmas fundamentalistas no mais alto grau, é algo cuja evidência salta aos olhos e não necessita de nenhuma prova suplementar. A fé na “ciência” como fonte de toda autoridade é um dogma inabalável até mesmo entre os que se impregnaram de desconstrucionismo na universidade e teriam todas as razões para abandoná-la por completo.

É que aí não se trata da ciência no sentido efetivo, seja do método experimental, seja, mais genericamente, da busca sistemática do conhecimento, e sim se um símbolo aglutinador destinado a infundir um senso de identidade e autoconfiança nos grupos sociais empenhados em espalhar a ideologia do anticristianismo militante.

Desses grupos não se pode esperar nem um mínimo de racionalidade, mas sim o uso descarado de rotulagens pejorativas e, em casos extremos, o apelo à intervenção da autoridade policial.

Um daqueles mitos é que o advento da ciência moderna substituiu, ao puro raciocínio silogístico, o método indutivo. Joseph de Maistre demonstrou a completa absurdidade dessa alegação no seu Exame da Filosofia de Bacon, obra póstuma publicada em 1836, mas ninguém lhe prestou muita atenção, porque de Maistre, um esquisitão de marca, tinha a especial capacidade de desagradar aos maçons e progressistas por ser católico e aos católicos por ser maçom.

David Hume, sem tocar na questão histórica, já havia feito picadinho das pretensões da indução, mas, como não colocava nada no lugar dela, foi recebido com desconversas piedosas da parte daqueles que, sem ela, se sentiam nus e desamparados. Foi só no século 20 que, juntas, a confiança na indução e o empenho de fazer dela a marca distintiva da ciência moderna foram sepultados de vez no melhor livro de Sir Karl Popper, A Lógica da Pesquisa Científica (1934), onde ele demonstrou que a indução nada vale sem um raciocínio silogístico prévio que a sustente, que portanto o método da ciência era ainda, no fundo, o bom e velho silogismo analítico de Aristóteles.

Mas, popularmente, o mito continua vivo e passa bem, e não só se mostra duro de matar como alimenta e reforça, por contágio, a subsistência de outros tantos mitos irmãos e congêneres, que às vezes saltam as fronteiras da cultura de massas e penetram nas altas esferas do pensamento.

No seu estudo sobre Bacon em On Modern Origins. Essays in Early Modern Philosophy (Lexington Books, 2004), Richard Kennington falha à sua habitual competência ao escrever esta monstruosidade: “A filosofia e a ciência pré-modernas... não produziram nenhuma tecnologia significativa. Ao contrário, os expoentes do racionalismo no século 17 – Bacon, Descartes, Hobbes e Locke – são unânimes em declarar que ele pretende dominar a natureza, e portanto criar uma ‘infinidade de artifícios’, para usar a expressão de Descartes, que vão aliviar a condição humana. Seguramente, pode-se dizer que a razão, na sua formulação pós-cartesiana, cumpriu sua promessa.”

A escolha desses pioneiros da tecnologia não poderia ter sido pior. John Locke não fez descoberta nenhuma nas ciências físicas, Hobbes criou uma série de teorias falsas que só são úteis para a comunidade dos humoristas, e Bacon, do qual se pode também dizer coisa idêntica, acabou demonstrando completa ignorância e incompreensão até mesmo da ciência existente no seu tempo, da qual ele fala com o desprezo característico do apedeuta presunçoso.

Thomas Bodley, o fundador da célebre biblioteca de Oxford, escreveu-lhe a respeito: “Não posso compreender as vossas queixas. Jamais se viu mais ardor pelas ciências do que nos nossos dias. Censurais aos homens o negligenciar as experiências, e no globo inteiro não se fazem senão experiências.”

Dos quatro, só Descartes fez alguma coisa pelo progresso da tecnologia, sobretudo com a criação da geometria analítica, mas, no campo estrito das matemáticas, não se pode dizer que tenha superado espetacularmente seus antecessores Viète, Kepler, Galileu, Tycho de Brahe e tantos outros.

É também um tanto ridículo depreciar a tecnologia pré-moderna diante das prodigiosas realizações da arquitetura gótica ou diante do fato de que até hoje a ciência do Egito antigo espanta e desnorteia os investigadores. Mais inexplicável ainda, nessa perspectiva, é que toda a fundamentação teórica da moderna economia capitalista já estivesse pronta entre os escolásticos, alegadamente os piores inimigos da modernidade, dois séculos antes que Adam Smith arranhasse as primeiras noções a respeito.

Tres Notinhas

9 de janeiro de 2007 | Diário do Comércio

Na TV, 90% do conteúdo se constitui de entretenimento e 10% de pseudo- conhecimento. Na universidade é o inverso.

Ninguém pode negar que há uma diferença radical entre a mídia popular e as universidades brasileiras. Naquela, incluindo jornais, revistas, filmes, programas de TV e sites da internet, o conteúdo se constitui de noventa por cento de entretenimento idiota e dez por cento de pseudoconhecimento. Nas universidades a proporção é exatamente inversa. Confirmo isso, mais uma vez, lendo o artigo que a profa. Jeanne-Marie Gagnebin publicou na Folha sobre o processo Telles x Ustra e comparando-o com o currículo da autora. Neste, logo após uma impressionante lista de títulos acadêmicos, vem uma lista de dezoito teses acadêmicas orientadas pela referida. Clicando os links de cada uma, podemos ler os seus resumos, cujos tamanhos variam de duas a dez linhas. Não há um só deles no qual não apareça pelo menos um erro de português. Isso dá a medida do que se pode encontrar nos textos integrais das teses respectivas e fornece uma boa ilustração quantitativa do fato de que nas universidades brasileiras se pode chegar a chefe de departamento escrevendo Getúlio com LH como o faz o marquês de Sader.

Já a profa. Gagnebin, que melhor faria se ficasse quietinha em casa em vez de aprovar teses escritas em português subginasiano, sai dando lições de moral ao país e diz querer a verdade sobre os “anos de chumbo”. Quer nada. Se quisesse, pediria uma investigação em regra da colaboração entre os terroristas brasileiros e o serviço secreto cubano, a entidade mais assassina que já existiu no continente. Para cada brasileiro armado ou desarmado que foi morto pela ditadura nacional, pelo menos cinqüenta cubanos foram assassinados nos cárceres de Fidel Castro com a solícita cumplicidade moral de brasileiros auto-exilados em Cuba.

Anúncios que o governo trabalhista de Sua Majestade acaba de proibir na tevê britânica em horário acessível às crianças: queijo cheddar, flocos de farelo de trigo, queijo camembert, bolinhos com cobertura de açúcar, mingau de aveia, maionese, cereais de grãos variados, creme semidesnatado, nuggets de galinha, waffles, iogurte grego, presunto, lingüiças, bacon, patês variados, amendoins e creme de amendoim, castanhas de caju, pistache, uvas-passas, groselha, chips de batatinha, azeite de oliva, manteiga, pizza, hambúrguers, ketchup, chocolate, molho inglês, Coca-Cola (e similares) e soda limonada. O que seria das criancinhas se não houvesse burocratas zelosos para protegê-las contra o pecado da gula? Mas – cá entre nós — vocês já viram, na Inglaterra ou no Brasil, alguma camisinha com aviso governamental de que sexo anal pode dar câncer do reto? Ah, isso não! Perigoso mesmo é mingau de aveia.

O crítico Daniel Piza, cujo nome parece estar incompleto e já corrigi para Daniel Piza Nabolla, ficou ofendidíssimo com a minha afirmação de que não tem sentido falar de uma guerra em bloco Oriente x Ocidente porque “o Ocidente revolucionário, ateu e materialista está do lado dos terroristas”. Contra isso ele alega que ele próprio é ateu e materialista sem por isto ser um fã de Bin Laden. Vários leitores do seu blog repetem o argumento, cada um deles gabando-se ser o fulminante exemplum in contrarium que dará cabo da minha teoria.

Desde logo, é claro que não escrevo para analfabetos funcionais, que onde está escrito o Ocidente revolucionário, ateu e materialista lêem cada ateu tomado individualmente. No entender desses imbecis, não pode ter havido nenhuma guerra entre os EUA e a Alemanha, já que havia americanos a favor da Alemanha e alemães a favor dos EUA.

Mas a burrice obstinada desses sujeitos não se contenta de ler errado. Lê a menos: onde você escreve ateu, materialista e revolucionário, eles só lêem os dois primeiros adjetivos, ignorando ou fingindo ignorar que o terceiro está lá para deixar subentendido que os ateus materialistas não-revolucionários não se incluem necessariamente no enunciado geral, isto é, que seus exemplos individuais triunfantemente brandidos contra o meu argumento já estavam impugnados nele de antemão, com a condição de que fosse lido por pessoas alfabetizadas.

Em 9 de janeiro de 2007

Reacao Fraca

9 de abril de 2012 | Diário do Comércio

Leio que o Clube Militar do Rio de Janeiro está processando, por infração ao Estatuto do Idoso, o estudante que cuspiu no rosto do Coronel Juarez Gomez. A reação é justa, mas fraca, inadequada e desproporcional à gravidade da ofensa.

Desde logo, o coronel, como vários de seus colegas que se reuniram no Clube para celebrar o 31 de Março, foi publicamente xingado de “torturador” e “assassino” sem que haja nem o mais mínimo indício judicial de que ele tenha cometido, seja os crimes de tortura e homicídio, seja quaisquer outros. Se alguém nas Forças Armadas os cometeu, que seja punido. Mas agarrar inocentes na rua, chacoalhá-los, intimidá-los e cuspir-lhes na cara, pela simples razão de que um dia envergaram a mesma farda dos acusados, ou de que usam do seu direito de achar que estes são inocentes, é coisa que ninguém pode fazer por sincero amor à justiça, e sim somente pelo desejo mal disfarçado de prostituí-la, de usá-la como pretexto para a perseguição política.

O coronel e seus companheiros de farda foram, com toda a evidência, vítimas de crime de calúnia. Pior: calúnia premeditada, pois o agressor não partiu para os xingamentos numa explosão emocional repentina, mas foi ao local com a intenção deliberada de acusar de torturadores e assassinos todos os militares que ali se encontrassem, pouco importando que não pesasse, contra a maioria deles, ou mesmo contra nenhum dos presentes, nenhuma acusação judicialmente válida de tortura, de homicídio ou de qualquer outro delito. A manifestação foi organizada precisamente para incriminar a todos indistintamente, ludibriando a opinião pública para que passasse a enxergar como torturador e assassino qualquer militar que, sem jamais ter-se envolvido pessoalmente em atividades criminosas, celebrasse ou aprovasse retroativamente o movimento de 31 de março. Não poderia ser mais claro o intuito de dar ares de crime hediondo a um autêntico “delito de opinião”.

Também não tem o menor cabimento processar o cuspidor individualmente, como se a idéia da inculpação indiscriminada tivesse partido da cabeça dele, só dele, e não dos planejadores, mentores e apoiadores maiores da manifestação, como os srs. Sílvio Tendler e Tarso Genro. Por acaso esses sessentões, ao instigar a juventude para que dissesse o diabo dos militares, a instruíram para que distinguisse entre os acusados de crimes e os meros entusiastas do movimento de 64, dando-lhes tratamento diferenciado para demarcar a fronteira entre o meliante – real ou suposto — e o cidadão honrado de quem se diverge politicamente? Cumpriram essa obrigação elementar de quem tem o mínimo indispensável de senso de justiça? Que nada! Gritaram, xingaram junto com a massa, achando tudo lindo, pouco lhes importando a diferença entre culpados e inocentes. Como perdoar essa conduta abjeta e criminosa num homem que foi ministro da Justiça?

Reduzir todo o episódio a uma infração do Estatuto do Idoso é atenuar a gravidade do delito, além de concentrar num ridículo pau-mandado as culpas que cabem a seus mentores e instigadores, bem como a todas as organizações que participaram do espetáculo.

Pior ainda: descrever o Cel. Juarez simplesmente como um idoso atacado por jovens é fazer abstração do papel essencial que ele desempenhou no ocorrido: o do inocente ao qual se imputaram, em público, culpas que, se existem, não são dele. A idade da vítima pode ser um agravante, jamais o delito principal.

Há quase duas décadas tenho tentado, em vão, explicar aos nossos militares que suas respostas tímidas ao incessante festival de calúnias contra as Forças Armadas – quando não a tentativa masoquista de aplacar a fúria do adversário mediante condecorações, afagos e outras efusões de delicadeza – só fazem encorajar novos ataques, que em vez de cessar com o tempo vêm crescendo à medida que os acusados envelhecem e se tornam mais frágeis.

“A fraqueza atrai a agressividade”, ensinava Donald Rumsfeld. Se, em vez de reagir a calúnias mediante notinhas oficiais patéticas que ninguém lê, as Forças Armadas tivessem processado logo os primeiros cinco acusadores, ninguém se animaria a ser o sexto. A indústria do denuncismo teria falido por falta de mão-de-obra.

Em 9 de abril de 2012

Que E O Fascismo

8 de julho de 2000 | O Globo,

Benito Mussolini resumiu a doutrina fascista numa regra concisa: “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.” No Brasil, se você é contra essa idéia, se você é a favor da iniciativa particular e das liberdades individuais, logo aparece um chimpanzé acadêmico que tira daí a esplêndida conclusão de que você é Benito Mussolini em pessoa. E não caia na imprudência de imaginar que essa conversa é demasiado pueril para enganar o resto da macacada. Quando você menos espera, guinchados de ódio cívico se erguem da platéia, e uma frota de micos, lêmures, babuínos, orangotangos e macacos-pregos se precipita sobre você, às dentadas, piamente convicta de estar destruindo, para o bem da humanidade símia, um perigoso fascista. Cuidado, portanto, com o que diz por aí. Você não faz idéia da autoridade intelectual dos chimpanzés na terra do mico-leão.

Na verdade, a idéia oficial de “fascismo” que se transmite nas nossas escolas não tem nada a ver com o fenômeno que em ciência histórica leva esse nome. É uma repetição fiel, devota e literal das fórmulas de propaganda concebidas por Stálin no fim da década de 30 para apagar às pressas a raiz comum dos dois grandes movimentos revolucionários do século e atirar ao esquecimento a universal má impressão deixada pelo pacto germano-soviético. Nessa versão, o fascismo e o nazismo surgiam como movimentos “de extrema-direita”, criados pelo “grande capital” para salvar “in extremis” o capitalismo agonizante. É lindo imaginar aqueles banqueiros judeus de Berlim, reunidos em comissão médica em torno do leito do regime moribundo, até que a um deles ocorre a solução genial: “É moleza, turma. A gente inventa a extrema-direita, ela nos manda para o campo de concentração, e pronto: está salvo o capitalismo.”

No entanto as origens e a natureza do fascismo não são mistério nenhum, para quem se disponha a rastreá-las em autênticos livros de História.

Todas as ideologias e movimentos de massa dos dois últimos séculos nasceram da Revolução Francesa. Nasceram dela e nenhum contra ela. As correntes revolucionárias foram substancialmente três: a liberal, interessada em consolidar novos direitos civis e políticos, a socialista, ambicionando estender a revolução ao campo econômico-social, a nacionalista, sonhando com um novo tipo de elo social que se substituísse à antiga lealdade dos súditos ao rei e acabando por encontrá-lo na “identidade nacional”, no sentimento quase animista de união solidária fundada na unidade de raça, de língua, de cultura, de território. A síntese das três foi resumida no lema: Liberdade-Igualdade-Fraternidade.

A conjuração igualitarista de Babeuf e seu esmagamento marcaram a ruptura entre os dois primeiros ideais, anunciando duzentos anos de competição entre revolução capitalista e revolução comunista. Que cada uma acuse a outra de reacionária, nada mais natural: na disputa de poder entre os revolucionários, ganha aquele que melhor conseguir limpar sua imagem de toda contaminação com a lembrança do “Ancien Régime”. Mas para limpar-se do passado é preciso sujá-lo, e nisto concorrem, com criatividade transbordante, os propagandistas dos dois lados: as terras da Igreja, garantia de subsistência dos pobres, tornam-se retroativamente hedionda exploração feudal; a prosperidade geral francesa, causa imediata da ascensão social dos burgueses, torna-se o mito da miséria crescente que teria produzido a insurreição dos pobres; a expoliação dos pequenos proprietários pela nova classe de burocratas que se substituíra às administrações locais (e que aderiu em massa à revolução) se torna um crime dos senhores feudais. A imagem popular da Revolução ainda é amplamente baseada nessas mentiras grossas, para cuja credibilidade contribuiu o fato de que fossem apregoadas simultaneamente por dois partidos inimigos.

A terceira facção, nacionalista, passa a encarnar quase monopolisticamente o espírito revolucionário na fase da luta pelas independências nacionais e coloniais (o Brasil nasceu disso). A parceria com as outras duas transforma-se, aos poucos, em concorrência e hostilidade abertas, incentivadas, aqui e ali, pelas alianças ocasionais entre os revolucionários nacionalistas e os monarcas locais destronados pelo império napoleônico.

Pelo fim do século XIX, as revoluções liberais tinham acabado, os regimes liberais entravam na fase de modernização pacífica. O liberalismo triunfante podia agora reabsorver valores religiosos e morais sobreviventes do antigo regime, tornados inofensivos pela supressão de suas bases sociais e econômicas. Ele já não se incomodava de personificar a “direita” aos olhos das duas concorrentes revolucionárias, rebatizadas “comunismo soviético” e “nazifascismo”. Assim começou a luta de morte entre a revolução socialista e a revolução nacionalista, cada uma acusando a outra de cumplicidade com a “reação” liberal.

Essa é a história. O leitor está livre para tentar orientar-se entre os dados, sempre complexos e ambíguos, da realidade histórica, ou para optar pelas simplificações mutiladoras. A primeira opção fará dele um chato, um perverso, um autoritário, sempre a exigir que as opiniões, essas esvoaçantes criaturas da liberdade humana, sejam atadas com correntes de chumbo ao chão cinzento dos fatos. A segunda opção terá a vantagem de torná-lo uma pessoa simpática e comunicativa, bem aceita como igual na comunidade tagarela e saltitante dos símios acadêmicos.

Em 8 de julho de 2000

Capitalistas Cretinos

8 de janeiro de 2006 | Zero Hora

Com raríssimas e notórias exceções – e acredito que vocês encontrarão todas elas no Fórum da Liberdade do Rio Grande do Sul, no próximo 3 de abril –, os homens que mais lucram com o capitalismo não têm em geral a menor idéia das condições históricas, culturais e morais que tornaram isso possível. Manejam a máquina com a destreza pragmática do motorista amador que guia o carro sem saber coisa nenhuma de mecânica, muito menos dos principíos físicos do motor a explosão e menos ainda das complexas engrenagens econômico-administrativas da indústria automobilística. São usuários, não fabricantes ou técnicos. Desfrutam do equipamento, mas não sabem o que fazer quando ele quebra, muito menos como produzir outro igual quando ele se arruína completamente.

Até hoje, no mundo, nenhuma classe capitalista jamais conseguiu se organizar para abortar uma revolução socialista ou golpe fascista. A resistência a esses movimentos anticapitalistas veio sempre de intelectuais, padres, militares, estudantes, empregados de classe média e operários. Pessoas que defendiam a democracia capitalista por princípio e por amor às liberdades civis, não por expectativa de vantagens financeiras. Os capitalistas quase infalivelmente se limitaram a assistir a tudo sem entender nada, conservando ou perdendo seus bens e suas vidas com a passividade atônita de crianças sortudas ou desgraçadas, na mais clarividente das hipóteses tendo a iniciativa de fugir no último momento, raramente ajudando os combatentes no que quer que fosse e, bem ao contrário, com freqüência subsidiando os movimentos esquerdistas cuja afetação de intelectualidade exerce um fascínio irresistível sobre idiotas ricos, isto é, sobre a quase totalidade dos ricos. Nada mais generalizável do que a célebre advertência de Groucho Marx a um milionário: “Para sobreviver com a sua inteligência, só mesmo tendo muito dinheiro.”

Para piorar ainda mais as coisas, o empresário capitalista desfruta na nossa sociedade do prestígio do homem prático por excelência, do insider , do homem que sabe fazer as coisas. É uma verdade parcial. Capitalistas são ótimos para fazer dinheiro quando há uma ordem jurídica estabelecida, um regime estável, uma população imbuída de valores morais firmes e apegada a hábitos previsíveis. Eles nem sabem criar essas condições, nem sabem viver decentemente sem elas. Quando elas começam a falhar, tudo o que eles sabem fazer é sair correndo desesperados atrás do primeiro burocrata socialista que encontrem, lamber-lhe os pés como cãezinhos assustados e enchê-lo de dinheiro e favores em troca de umas migalhas de tolerância paternal ou de espréstimos em bancos oficiais, com juros escorchantes. A sabedoria dos capitalistas é patética. Mas, por uma incoercível reação humana, é justamente nessas ocasiões, quando começam a acordar às três da madrugada para confessar a si mesmos que estão morrendo de medo, que eles mais sentem necessidade de exibir durante o dia aquela pose de superioridade olímpica que aprenderam a imitar como símbolo do perfeito domínio intelectual da situação. E, como numa perfeita síndrome de Estocolmo, buscam vencer o medo mostrando afeição ao objeto que os intimida: aí ninguém segura mais seu impulso coercitivo de distribuir subsídios a partidos de esquerda e de aparecer sorrindo nas colunas sociais ao lado de algum comunista sebento ou de alguma mocréia enragée . Se, nessas horas, você tenta avisá-los de que correm algum perigo, mais que depressa eles lhe dão um chute no traseiro, tentando exorcisar as más notícias por meio da eliminação do mensageiro. Mas não fazem isso em privado. Convocam, para assistir ao lance, a platéia inteira de seus novos mentores e, com um inconfundível sorriso amarelo, gritam aos quatro ventos: “Estão vendo? Não tenho medo do socialismo. Não tenho medo do socialismo. Não tenho medo do socialismo.”

Se você é um empresário capitalista e acha esta descrição demasiado cruel, é porque ela se aplica literalmente ao seu caso. Se, ao contrário, você acha que ela é realista e exata, é porque justamente você já está começando a ficar um pouco diferente dela. Seu lugar talvez seja no Fórum da Liberdade.

Em 8 de janeiro de 2006

Duas Notas De Ano Novo

8 de janeiro de 1998 | Jornal da Tarde

Quando um dia se escrever a história das nossas dívidas intelectuais, um capítulo bem extenso será dedicado ao filósofo Romano Galeffi, nascido em Montevarchi, Itália, em 17 de novembro de 1915 e morto em Salvador (BA) no primeiro dia deste ano-novo.

Entre outras coisas que fez por nós desde que se instalou neste país em 1949, ele criou a disciplina de crítica de arte nas nossas universidades, primeiro passo para o reconhecimento da profissão. Quando depois se fundou uma Associação Brasileira de Críticos de Arte e ele tentou se inscrever como sócio, seu registro foi recusado por anos a fio: oficialmente, Galeffi só se tornou “crítico de arte” um ano e meio antes de morrer.

Membro do Instituto Brasileiro de Filosofia, catedrático de Estética da Universidade Federal da Bahia, Galeffi muitas vezes representou o Brasil em congressos internacionais, com trabalhos que revelavam a contínua floração criadora de seu pensamento, não abatida nem mesmo pelas doenças graves que atormentaram seus últimos anos. Foi escritor forte, eloqüente, traduzindo em português deliciosamente italianado, mas perfeito, um pensamento que não raro se elevava ao mais genuíno arrebatamento espiritual. Sua produção escrita, na qual se destaca a melhor obra sobre Kant já produzida neste país, foi sempre vítima de revisores imbecis que trocavam “teleológico” por “teológico” e coisas do gênero, obrigando o autor a corrigir exemplar por exemplar.

Galeffi estudou com os principais filósofos italianos do século: Benedetto Croce, Giovanni Gentile, Franco Lombardi, Ugo Spirito. Tinha especial afeição a Croce, do qual foi discípulo, mas jamais repetidor passivo. A filosofia de Croce, com efeito, esgota-se numa pura metodologia das “ciências do espírito”, que ele subdivide em Lógica, Estética, Ética e Econômica, conforme as quatro dimensões mutuamente irredutíveis em que se projeta o espírito humano: o verdadeiro, o belo, o bem e o útil. Galeffi tornou-se um pensador original ao dar o passo que seu mestre não quisera dar: argumentando que o espírito não podia ser apenas a soma de suas partes, concluía que a quaternidade croceana deixara subentendida uma quinta dimensão, a dimensão do espírito propriamente dito, a dimensão da unidade. Com isto, a metodologia croceana adquiria uma profundidade metafísica ante a qual o próprio Croce havia recuado, temeroso de sair do círculo do cultural e do histórico, que constituía o extremo limite do seu pensamento.

Casado com uma cultíssima filóloga, Galeffi foi ainda o fundador de uma família de batalhadores culturais, sem cuja atividade incansável o intercâmbio cultural Brasil- Itália não teria sido o que foi. Os Galeffi sempre fizeram de sua casa o ponto de conexão quase obrigatório pelo qual entravam no Brasil professores, escritores, artistas que traziam a este país o aporte vitamínico de uma das mais poderosas culturas do mundo.

A dra. Gina Galeffi, por sua vez, muito sacrificou de sua carreira científica para se dedicar aos pobres e desabrigados da cidade de Salvador, desde uma época em que a caridade não era “politicamente correta” e só trazia a seu praticante o desprezo dos pseudo-intelectuais de narizinho empinado.

Não vou dizer que Romano Galeffi morreu satisfeito. Morreu amargurado, vendo o obscurecimento injusto em que caíra seu trabalho e amaldiçoando a ingratidão mesquinha que cercava as obras sociais de sua esposa.

Recebeu algumas homenagens, nada mais que justas, nos últimos anos. Mas nunca as duas únicas homenagens que um homem de pensamento realmente deseja: a edição decente de suas obras, a discussão séria de suas idéias.

Católico anticlerical – uma combinação bem italiana -, Galeffi acreditava firmemente na vida após a morte. Muitos de nós também acreditam. Mas isto não é motivo para deixarmos para a eternidade a reparação de todas as injustiças. Há alguma coisa, modesta, mas decisiva, que podemos fazer aqui e agora: confessar que não soubemos merecer Romano Galeffi.

* * * O indefectível dr. Emir Sader já começou o ano informando a um estupefato mundo por que este país perdeu a chance de se tornar uma coisa linda. É que em 1964 o imperialismo ianque tomou Brasília e está lá até hoje, o malvado. Quando eu tinha 17 aninhos, os sujeitos que diziam essas coisas me pareciam muito intelectuais. Meu sonho era ser um deles quando crescesse. Eu não percebia que a conditio sine qua non para isso era, precisamente, não crescer. Pessoas como o dr. Sader permanecem infantis para poder projetar sobre uma imagem paterna negativa todo o mal que carregam dentro de si.

O imperialismo ianque pode ter nos feito algum dano, porém qual o peso real dele na produção do nosso destino histórico? Basta comparar esse destino com o de um país que se livrou dos gringos quase na mesma época em que, segundo o dr. Sader, caíamos sob o domínio deles. Cuba não apenas ficou isenta da exploração imperialista, mas ainda recebeu, durante 30 anos, uma ajuda anual soviética de US$ 6 bilhões; e ganhou, em remédios e alimentos, mais US$ 400 milhões anuais enviados pelos exilados cubanos de Miami, com o que se tornou a primeira ditadura do mundo a ser alimentada pela generosidade de suas próprias vítimas. Com todas essas condições excepcionalmente favoráveis, conseguiu baixar, na escala dos PNBs da América Latina, dos primeiros para os últimos lugares. Para chegar a esse brilhante resultado, o governo de Fidel fuzilou pelo menos 9 mil pessoas e, tendo alcançado em certa época a taxa recorde de 100 mil prisioneiros políticos, ainda tinha, no ano passado, pelo menos 1.173, segundo a ONU. Como se vê, nenhum país necessita da ajuda do imperialismo ianque para fazer de si uma bela porcaria.

Em 8 de janeiro de 1998

Cristofobia E Carnaval

8 de fevereiro de 2003 | O Globo

O que foi dito na semana passada sobre a cristofobia nacional não poderia ser melhor ilustrado: na mesma edição, uma foto de capa resumia o enredo da Escola de Samba Beija-Flor, no qual Cristo e Satanás, trocando tiros nas ruas, eram nivelados como igualmente responsáveis pela violência carioca.

Não é preciso perguntar se mudou o carnaval ou mudamos nós.

Tempos atrás, a apoteose anual do caos ainda se apresentava como tolice inócua, palhaçada assumida. Encampada pela propaganda ideológica, tornou-se pretensiosa, arrogante, autoritária: quer ser levada a sério como alta mensagem moral, portadora da “boa nova” trazida por Lênin, Mao e Fidel. O enredo da Beija-Flor é exteriorização popularesca da “teologia da libertação”.

A verdadeira índole dessa teologia é difícil de esconder. Não pode haver mais óbvia perversão da mensagem de Cristo do que fazer o impulso mesmo da bondade cristã trabalhar em favor da ideologia que professou varrer o cristianismo da face da terra junto com os cadáveres de milhões de cristãos.

Ser um teólogo da libertação não é brincadeira. A dose de mentira interior requerida para um cristão batizado consentir em participar de uma operação dessa ordem é tão grande, que a simples ruindade humana não pode explicá-la. Quem matou a charada foi um estudioso judeu, David Horowitz: “A teologia da libertação é uma seita satânica.”

A palavra mesma “libertação” sofre nela uma deformação semântica que ninguém poderia operar sem pelo menos um pouco de satanismo consciente. Cristo oferece libertar-nos do mal e do pecado. “Não faço o bem que quero, faço o mal que não quero”, geme o Apóstolo. Cristo veio dar-nos a graça iluminante que nos permite discernir o mal do bem e a graça santificante que nos faz apegar-nos ao bem até mesmo quando queremos o mal. Esse é o sentido da libertação cristã, claríssimo e insofismável nos Evangelhos. Os Boffs e Bettos mudam o sentido do anseio cristão, transformando-o num desejo de “libertar-se” dos obstáculos morais e religiosos à ascensão do comunismo. Se esses obstáculos tomam a forma de sacerdotes e fiéis refratários à doutrina comunista, a libertação pode ser alcançada por meio de prisão, fuzilamento ou tortura em massa.

O simples enunciado dessa doutrina é um crime, sua risonha aceitação mundana um sinal de perda completa do discernimento moral por parte dos homens cultos.

Quem deseje provar que a teologia da libertação é uma caricatura grotesca, um produto marcado com a griffe inconfundível do “macaco de Deus”, não poderá fazê-lo melhor do que Leonardo Boff quando escreve: “As raízes históricas da teologia da libertação encontram-se na tradição profética de evangelistas e missionários dos primeiros tempos coloniais na América Latina, que questionaram o tipo de presença adotada pela Igreja.” Boff aponta, como fundador dessa linhagem, Frei Bartolomé de las Casas, inventor da “leyenda negra” que descreve a ocupação do México como um crime de genocídio praticado pela Igreja contra os índios. Repetida infindavelmente pela propaganda anticristã, acabou por se tornar verdade oficial.

Mas a história contada pelo frade é quase a inversão exata da realidade. Já não é possível sustentá-la depois que a historiadora Inga Clendinnen, em “Aztecs: an interpretation” (Cambridge University Press), cotejou todos os depoimentos que restaram de testemunhas oculares. Em primeiro lugar, o morticínio mal chegou a ombrear-se, em quantidade de vítimas, ao número das que antes disso foram sacrificadas e tiveram o seu coração arrancado em matanças rituais que, literalmente, lambuzavam de sangue a população de Tenochtitlan. A extinção da cultura asteca só pode ser considerada um crime caso o mesmo rótulo se aplique à destruição do nazismo. Em segundo lugar, a matança dos vencidos não foi obra dos espanhóis, e sim dos índios das tribos vizinhas, ansiosos para vingar-se de um cruel dominador que ciclicamente devastava suas cidades em busca de vítimas sacrificiais para seu culto macabro. Eles acharam que só estariam livres do pesadelo se matassem até o último asteca — e o fizeram, contra a vontade expressa de Hernán Cortez. Em terceiro lugar, mesmo que o supuséssemos culpado de tudo, Cortez, um aventureiro que ali chegou por decisão pessoal, contra as ordens de seus superiores, não era sequer representante do governo espanhol. Fazer dele, então, um representante da Igreja é o cúmulo do associativismo forçado.

Mas Frei Bartolomé não se contenta em transformar a tardia reação das vítimas num ato de opressão colonialista. Inventando um tipo de raciocínio que no século XX será repassado às crianças de escola sob a rósea denominação de “diversidade cultural”, ele justifica moralmente a prática dos sacrifícios humanos nos cultos astecas, equiparando-a ao rito cristão da Eucaristia. Bem, se meus pais soubessem que eu corria o risco de ter meu coração arrancado, jamais teriam me enviado à primeira comunhão. Mas, do ponto de vista bartolomaico, a diferença entre morrer pelos amigos e matá-los a sangue frio é um detalhe irrelevante.

Tal é a “tradição profética” da qual Boff, orgulhosamente, se diz herdeiro e representante. Quem sou eu para discordar? Deixando pois de lado as teologias macabras, retorno ao carnaval e, em busca de ar puro, voto antecipadamente na Mangueira, que vai sair de “Moisés e os Dez Mandamentos”.

Dicas de leitura:

Violência sem retoque , de Ib Teixeira, é a mais sólida exposição de conjunto que alguém já fez sobre a criminalidade no Brasil. E o melhor romance brasileiro que li nos últimos anos é Braz, Quincas & Cia.

A Missao Civilizatoria De Otto Maria Carpeaux

8 de agosto de 1999 | scholar

Numa tacanha reedição do autopreconceito que norteava a corte de Dom Pedro II, sempre voltada para as idéias importadas de Paris, a universidade brasileira, com seus cursos de mestrado e doutorado, ainda não descobriu verdadeiramente o Brasil. As idéias que proliferam na academia são quase todas importadas e — mais grave — sequer são traduzidas (primeira condição para se assimilar e disseminar qualquer cultura estrangeira). Mestres e doutores preferem ler o mundo em inglês, como se algumas idéias da humanidade só pudessem ser expressadas nesse novo latim, a língua do deus-mercado. Só isso explica o descaso quase total com que a universidade trata a obra de um intelectual como Otto Maria Carpeaux, um dos grandes humanistas que marcaram a cultura brasileira neste século.

Felizmente, a obra de Carpeaux está voltando à cena. A Faculdade da Cidade, do Rio de Janeiro, e a Editora Topbooks estão lançando os Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux, organizados pelo filósofo Olavo de Carvalho. A obra sairá em dez volumes. O primeiro, que já está chegando ao mercado, reunirá os ensaios que vão de A Cinza do Purgatório , seu primeiro livro publicado no Brasil, em 1942, até Livros sobre a Mesa . Os dois volumes seguintes serão dedicados aos ensaios dispersos, recolhidos por Olavo de Carvalho e pela equipe que comandou.

Obras históricas breves é o tema do quarto volume e os Ensaios políticos ocuparão o quinto e o sexto volumes. A seguir, do volume sétimo ao décimo, será reeditada um monumento de Carpeaux — sua História da Literatura Ocidental .

Todo esse ambicioso empreendimento editorial nasceu de um projeto de pesquisa coordenado pelo filósofo Olavo de Carvalho e financiado pela Faculdade da Cidade. Entretanto, por ser tão combativo hoje quanto Carpeaux o foi em seu tempo, Olavo de Carvalho não vem recebendo os devidos créditos por seu trabalho.

Folha de S. Paulo , Gazeta Mercantil e O Globo , mesmo reconhecendo a importância da edição dos ensaios de Carpeaux, a ponto de concederem-lhe fartura de páginas e fotos, limitaram-se a mencionar, de passagem, o nome de Olavo de Carvalho, desconhecendo o brilhante estudo introdutório que o filósofo escreveu para a reedição dos ensaios de Carpeaux. Nesse ensaio, disponível na Internet , Olavo de Carvalho dimensiona, com agudeza crítica, o humanista e o militante, o erudito e o panfletário.

O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony foi um dos poucos a reconhecer o trabalho realizado por Olavo de Carvalho. A respeito, escreveu: “Curiosamente, Carpeaux e Olavo não se conheceram. Um dos desencontros que eu considero mais cruéis do destino, uma vez que os dois, guardadas as posições radicalmente pessoais de cada um, tinham um approach idêntico da condição humana. Até mesmo na capacidade da exaltação e da polêmica. De minha parte, considero-me redimido por encontrar na presente edição das obras de Carpeaux o sonho que persegui durante anos mas para a qual não tive tempo e competência para realizá-lo”. Já o editor Daniel Piza, da Gazeta Mercantil , e o ensaísta Nelson Ascher, da Folha de S. Paulo , estão sendo chamados por Olavo de Carvalho, respectivamente, de Nelson Ascha Kessab e Daniel Piza Nabolla. Os dois subestimaram o trabalho realizado pelo filósofo paulista.

Em seu estudo sobre Carpeaux, Olavo de Carvalho tenta compreender o quase esquecimento a que sua obra vinha sendo relegada, apesar do enorme sucesso que fez em vida de seu autor. Para Carvalho, isso se deve a complexa personalidade intelectual de Carpeaux. “As dificuldades aparecem quando começamos a comparar um escrito com outro, em busca da unidade de pensamento que subentendem”, escreve o filósofo. “Aí descobrimos, por exemplo, que esse militante da esquerda, perseguido e censurado pela ditadura reacionária, compartilhava das temerosas reservas de Ortega y Gasset ante a rebelión de las masas; que esse apologista da revolução cubana tinha horror da politização geral da cultura; que esse denunciador das mazelas do capitalismo fazia a apologia do economista Friedrich Hayek, precursor do neoliberalismo; que esse ídolo dos estudantes brasileiros sentia o mais fundo desprezo pelo “proletariado intelectual”, as massas de bacharéis que as universidades despejam todo ano na atividade cultural e política, vazios de cultura superior e intoxicados de slogans demagógicos”.

Apesar de ter-se tornado um ídolo da juventude de esquerda, protagonizando, já sexagenário, o combate de rua ao regime militar, Carpeaux, para Olavo de Carvalho, é “exatamente o avesso de um marxista: não acreditava na primazia do econômico, enfatizava a importância dos fatores espirituais e identificava mesmo de vez em quando, nos movimentos da História universal, sinais misteriosos de uma intervenção da Providência, o que o tornava mais próximo de Bossuet que de Marx”. Mesmo afirmando que, com o passar dos anos, Carpeaux foi afetado “atmosfera brasileira dominada pelo marxismo”, Olavo de Carvalho sustenta que, “em seus últimos ensaios críticos — contemporâneos de suas mais violentas polêmicas antiamericanas — ele mostra um senso da supratemporalidade que só pode ser diagnosticado como idealista ou como cristão e que é estranho a toda sensibilidade marxista”.

Olavo de Carvalho argumenta que, para Carpeaux, o “passado é o juiz do presente”, que o crítico austrobrasileiro tinha uma devoção quase religiosa pelos monumentos literários inscritos na tradição. Entretanto, acrescenta o filósofo que “o passado, para Carpeaux, não tinha jamais a pompa venerável e inofensiva de um leão empalhado”. E observa: “Levado por sua formação e pela contínua meditação da história à tranqüilidade compassiva de uma contemplação que tudo perdoa porque tudo compreende, Carpeaux continuou no entanto, por temperamento, um homem combativo, inflamado, capaz de arrebatamentos de cólera na defesa de posições que para ele tinham significação menos política do que moral”.

Acerca da revolução operada na vida de Otto Maria Carpeaux, com sua mudança para o Brasil, onde teve que aprender o idioma desconhecido aos 40 anos, Olavo de Carvalho conclui: “Seus primeiros ensaios mostram o intuito evidente de transportar para o Brasil o legado dessa visão essencialmente austríaca de uma unidade civilizacional anterior — ou posterior — à fragmentação moderna. Essa visão indicava claramente o sentido de uma nova paideia, que poderia ter sido a matriz de uma nova e mais poderosa cultura brasileira. Poderia ter sido, mas não foi. Os elevados propósitos de Carpeaux pairavam muito acima das cabeças do seu auditório. Reconheceram nele apenas o mais visível, o exterior: a erudição germânica, a introdução de novos autores até então desconhecidos no meio brasileiro”. Para Olavo de Carvalho, a visão universal que Carpeaux oferecia ao país foi apagadas por arraigadas “filosofias provincianas”, que reduziram Carpeaux apenas um “interessante divulgador jornalístico”, fazendo que nunca ele fosse enxergado “por inteiro”. Quem sabe, agora, com os Ensaios Reunidos , isso seja possível.

Quem foi Carpeaux Otto Maria Karpfen nasceu em 1900, em Viena, filho do advogado e pianista Max Karpfen e da violonista Gizela Schmelz Karpfen. Aos 20 anos, ingressou na Faculdade de Direito, que abandonou para estudar química, física e matemática e filosofia e letras, na Universidade de Viena. Em 1925, obtém o título de doutor e começa a trabalhar como jornalista. Casou-se, em 1930, com Helena Silberherz. Em 1939, com a eclosão da Segunda Guerra, mudou-se para o Brasil, naturalizando-se brasileiro cinco anos depois. Carpeaux exerceu o jornalismo no lendário Correio da Manhã, onde trabalhavam intelectuais como Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda, e foi diretor da biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia e da biblioteca da Fundação Getúlio Vargas. Crítico do regime militar, chegou a ser preso, por algumas horas, em 1967. Morreu no dia 3 de fevereiro de 1978, vítima de infarto.

Em 8 de agosto de 1999

Leituras

Distribuicao De Lixo

8 de abril de 2004 | Jornal da Tarde

O projeto do ministro da Educação, de empurrar goela abaixo das universidades privadas uma quota anual de humilhados e ofendidos, vem sendo discutido somente desde o ponto de vista econômico e jurídico. Esse aspecto da questão existe, sem dúvida, mas a concentração exclusiva nele reflete a própria degradação mental brasileira.

Desde que, num teste de compreensão de leitura entre alunos do ensino médio de 32 países, os nossos tiraram o último lugar (resultado que seria indiscutivelmente o mesmo entre universitários), nenhum educador deveria ser maldoso o bastante para pensar em submeter ainda mais vítimas ao tratamento pedagógico que produziu esse efeito. Nem uma vaga a mais deveria ser aberta antes de um sério exame de consciência quanto ao conteúdo da educação nacional.

Mas no Brasil é sempre assim. A quantidade antes de tudo, a qualidade só num futuro hipotético sempre adiado. Primeiro é preciso distribuir a todos; só depois – ou nunca — perguntar o que, afinal, se distribuiu. Assim torna-se fácil ser um benfeitor dos pobres: basta democratizar a ignorância e em seguida estampar uma estatística impressionante em cartazes de propaganda eleitoral.

O que me pergunto é se, submetido a teste entre ministros da Educação de 32 países, o nosso não ficaria também em último lugar.

É claro que, em graus variados, idêntico fenômeno de degradação se observa um pouco por toda parte. A democratização do ensino é a fraude constitutiva do mundo moderno. Ela prometia distribuir a um número cada vez maior de pessoas as criações mais elevadas do espírito humano, mas, pelo menos desde o estudo de Richard Hogarth, The Uses of Litteracy (1961), está provado que ela não faz nada disso e sim exatamente o contrário. A cada sucessiva ampliação do público atingido, ela cria uma nova onda de produtos culturais nivelados às capacidades de uma platéia de inteligência mais baixa e interesses limitados, de modo que, quanto mais gente tem acesso ao ensino, mais a cultura elevada se torna inacessível sob densas camadas de lixo substitutivo.

A democratização do ensino criou uma elitização sem precedentes da verdadeira cultura superior, hoje só acessível a um círculo cada vez mais estreito de privilegiados da sorte que, no matagal da subcultura, tenham imaginação bastante para buscar os atalhos discretos, se não secretos, que levam a coisa melhor.

Qualquer camponês da Idade Média sabia onde estavam os centros de cultura superior. Se fosse diretamente a eles, entraria em cheio no núcleo vivo onde germinavam as melhores idéias. A sociedade estava tão preparada para amparar os pobres vocacionalmente dotados quanto a universidade para distingui-los dos ineptos, de modo que nem o acesso ao conhecimento era difícil nem a atmosfera dos debates mais sérios era poluída por uma avalanche anual de arrivistas, necessitados de alimento intelectual cada vez mais ralo.

Se tivesse sido possível ampliar quantitativamente a rede de ensino assim constituída, sem quebra da exigência qualitativa, a democratização teria sido uma bênção para a humanidade. Em vez disso, foi um flagelo. Por que? Porque a educação não foi só expandida quantitativamente e sim transmutada: passou a atender a necessidades novas e completamente diversas, que terminaram por abolir suas finalidades próprias.

Fornecer mão-de-obra para a burocracia estatal e a indústria em expansão, distribuir às classes afluentes os novos emblemas convencionais da ascensão social, forjar e impor novos padrões de conduta adequados aos valores políticos do momento, adestrar massas de eleitores e militantes — são alguns dos novos objetivos a que a educação teve de se adaptar. Mais recentemente, as escolas tornaram-se uma rede auxiliar da distribuição de comida e assistência médica e um mercado privilegiado para o comércio de drogas.

Tão longínquas se tornaram as finalidades próprias da educação, que, tentando descrever o que eram a universidades medievais ( The Concept of a University , 1974), o cientista político Kenneth Minogue teve de admitir a dificuldade quase intransponível de explicar ao público de hoje que pudesse ter havido algum dia uma instituição fundada no amor ao conhecimento. A degradação cultural reflete-se também numa progressiva incapacidade de compreender o passado.

Em 8 de abril de 2004

Quem Sao E O Que Pensam Os Jovens Militantes De Direita Que Fazem Usp

7 de novembro de 2011 | ,

Eles são monarquistas, anticomunistas, contrários ao aborto e à homossexualidade, defensores do porte de arma – e alunos de mesma universidade famosa pela sua militância de esquerda. Conheça a União Conservadora Cristã (UCC), o lado direitista da USP Vida Urbana – Por IGOR RIBEIRO. – 07/11/2011 OS ANTI-MARX Saulo Mega Soares, entre dois jovens conservadores. Eles provocam um novo embate ideológico no meio universitário Alto, magro, de olhos claros e cabelos cacheados, Arthur Pittarello poderia se orgulhar de sua juventude. Mas o estudante de ciências sociais da USP parece não ligar para a própria idade. “Aí você me pegou. Tenho 22 ou 23...”, diz. Sua hesitação é reveladora: Pittarello é um cara tradicional. Monarquista e religioso, é presidente da União Conservadora Cristã (UCC). A entidade nasceu num ambiente naturalmente hostil: entre os estudantes da USP, famosos por sua histórica militância de esquerda. Mais curioso é que ele sobreviva sem o apadrinhamento de nenhum partido político de centro ou de direita. Mesmo assim, cerca de 20 jovens como ­Pittarello (23 anos confirmados) integram o UCC.

A entidade surgiu há dois anos para disputar o Diretório Central dos Estudantes da USP. Conseguiu o apoio de 217 pessoas e ficou em sexto lugar. Sem chance de vencer, a chapa chamou a atenção. Em maio, voltou a ser notícia ao participar da Contra-­Marcha da Maconha, questionando os argumentos pró-legalização da droga. O episódio rendeu à UCC a pecha de extremadireita, prontamente recusada.

Por saber que defendem ideias controvertidas no âmbito acadêmico, seus integrantes costumam ser avessos à exposição. Relutaram em falar com a reportagem de Época SÃO PAULO. Alguns não quiseram fornecer seus nomes reais e apenas um quis mostrar o rosto: o rapaz em primeiro plano na foto à direita, Saulo Mega ­Soares, de 21 anos. “Eu era trotskista quando cheguei à faculdade”, diz ele, hoje no quarto ano de Direito. “Estudei e debati muito até perceber que a filosofia marxista é equivocada. O século XX foi a completa negação de tudo o que Marx previu.” Além de ser articulado e denotar erudição, Soares joga futebol e vai à academia. “Além da leitura, gosto muito da atividade física.”

Cada um tem suas razões para estar na entidade. Catarina (nome fictício), de 20 anos, cresceu numa família católica do interior paulista. Tímida, retraída e claudicante nas palavras, ela diz que sempre cultivou um sentimento anticomunista. “A busca pela verdade é o que me move”, afirma ela, que também estuda na faculdade do Largo São Francisco. Seu colega, Pedro Henrique Barreto, de 21 anos, entrou em depressão ao procurar respostas sobre a questão do aborto – diz que a reflexão político-religiosa o salvou. “Somos movidos pela castidade. Deus nos mandou ser assim”, diz o estudante, que namora uma conservadora como ele. Sexo, só depois do casamento. Barreto gosta de jazz, música clássica e do filme Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles. Catarina prefere rock, como AC/DC e Titãs. Um de seus filmes preferidos é Tropa de elite, o mesmo de Soares, que ouve Skank e Jota Quest.

De gostos diferentes, se irmanam na ideologia. São todos monarquistas, reprovam o aborto e a homossexualidade – e defendem o porte de arma. Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, eles preenchem uma lacuna real na militância universitária. “Os grupos de esquerda atuais não defendem mais objetivos ideológicos, como justiça social”, diz o professor de ética e filosofia política da USP. Isso favoreceria a defesa de causas opostas.

“Acho saudável que exista alguma reação como a UCC”, diz o filósofo Olavo de Carvalho. Espécie de guru do conservadorismo brasileiro, ele lamenta a ausência de oposição ao que chama de “hegemonia da esquerda”. Mas acha que a militância jovem não terá força fora das universidades. “Politicamente, não vai dar em nada”, diz. Segundo Carvalho, figuras como o falecido doutor Enéas Carneiro e o deputado Jair Bolsonaro são expoentes “patológicos e excêntricos”. Para ele, não existe uma direita intelectualmente respeitável no Brasil.

Pittarello concorda: “A situação política de hoje não dá espaço a um conservador. Não temos um projeto de poder”. É nesse vazio que a UCC se mobiliza para estudar, discutir e promover eventos sobre os temas que defende, seja na USP, seja na Unicamp, onde também conta com adeptos. “Não vamos nos reduzir à mera divulgação política”, diz Barreto. “A gente também quer estudar, quer saber, quer aprender.”

AS BASES DE UM CONSERVADOR O filósofo Olavo de Carvalho elaborou a lista ao lado para ajudar a diferenciar conservadores de revolucionários TRADIÇÃO O conservador preza a experiência passada como forma de pensar o presente, em contra-ponto ao revolucionário, que entende o presente com base num futuro hipotético PROVIDÊNCIA O povo não deve sofrer os efeitos das escolhas de gerações anteriores. Os políticos têm o direito de experimentar e aprender com a experiência, mas não o de testar práticas ­arriscadas de longo prazo REFORMA Governos não têm o direito de fazer algo que os seguintes não possam desfazer. Ne­nhuma ordem social do passado foi tão ruim a ponto de bloquear a mera possibilidade de uma nova ordem DEMOCRACIA A revogabilidade das medidas de governo é um princípio democrático essencial, mas propostas revolucionárias tendem a concentrar o poder e a excluir para sempre as propostas alternativas EQUILÍBRIO A mentalidade revolucionária não é um traço permanente da natureza humana e deve ser erradicada como condição essencial para a sobrevivência da liberdade no mundo.

Em 7 de novembro de 2011

Leituras

Professores De Corrupcao

7 de maio de 2012 | Diário do Comércio

Ninguém é mais imoral, nem mais perigoso para a sociedade, do que o juiz da conduta alheia que tome a sua própria alma corrompida como medida máxima da moralidade humana. O homem que julga por esse padrão – pior ainda, o que ensina a julgar assim – é uma força dissolvente e corruptora ainda mais daninha do que o imoralista praticante, o bandido, o ladrão que ao menos não faz da sua torpeza pessoal uma teoria, um critério e uma lei.

Jean-Jacques Rousseau, que abandonou os filhos num orfanato, mentia mais que um cabo eleitoral, ia regularmente para a cama com as mulheres de seus benfeitores e ainda saía falando mal deles, jurava que em toda a Europa não havia ninguém melhor que ele – e, quando falava de suas altas qualidades morais, derramava lágrimas de comoção.

Rousseau tinha ao menos a desculpa de ser louco, mas sua loucura inaugurou a moda universal de tomar o próprio umbigo como ponto culminante da perfeição humana e medir tudo pela distância que vai daí ao chão.

Não faltam exemplos disso na mídia nacional. Em artigo recente, o sr. Paulo Moreira Leite jura que todo discurso moralizante é falso, porque “ tem como base uma visão fantasiosa das sociedades humanas. Considera que há pessoas de caráter límpido... incapazes... de ter segredos inconfessáveis e ambições que condenam em público mas cultivam na vida privada... A vida real não é assim...

” O que ele está dizendo é que na vida real não existem – prestem atenção: absolutamente não existem – pessoas “sem segredos inconfessáveis e ambições que condenam em público mas cultivam na vida privada”. A conclusão é inevitável: Se essas pessoas não existem, o sr. Moreira Leite, que existe, não pode ser uma delas. Logo, ele tem segredos inconfessáveis e ambições que condena em público mas cultiva na vida privada. E notem bem: ele não disse “alimentar em segredo”, que ainda poderia ter a acepção de mera fantasia; ele disse “cultivar em privado”, isto é, praticar escondido. Ele não se limita, portanto, a sonhar em ser um dia tão bem sucedido quanto os malvados que critica em público: ele se dedica ativamente a emulá-los quando não há ninguém olhando. E não apenas ele é assim, mas não concebe que exista alguém melhor que ele, alguém isento desses defeitos morais abjetos.

Ninguém pediu ao sr. Moreira essa confissão de baixeza. Ele a fez porque quis. Se entendesse o que escreve (como se isto não fosse exigir demais!), deveria admitir que ela o desautoriza automaticamente a falar mal de pessoas que, no fim das contas, não têm outro defeito senão o de ser tão ruins quanto ele.

Afinal, se não há seres humanos melhores, que possam servir de medida de aferição das virtudes e dos pecados, então só há duas alternativas: condenar os vícios em nome de padrões abstratos confessadamente inatingíveis ou deleitar-se em criticar o mal em nome do mal. A primeira hipótese chama-se moralismo insano, a segunda, fingimento cínico. O sr. Moreira critica a primeira em nome da segunda.

Todo julgamento moral sensato deve partir de certas constatações óbvias e autoprobantes. Como o Bem infinito e o Mal absoluto são entidades metafísicas que se furtam à experiência humana, só resta aos nossos pobres cérebros raciocinar em termos relativos, pesar as coisas na balança do melhor e do pior. Para isso o sujeito tem de ampliar a sua imaginação moral, pelo estudo, pela experiência e pela meditação, numa escala que vai da máxima santidade comprovada à maldade mais extrema registrada nos anais da História. Só quem se entregou a esse exercício por anos a fio tem condições de julgar a conduta alheia objetivamente, e mesmo assim com algum risco de erro. Os demais opinam arbitrariamente, em nome de preconceitos bobocas, preferências subjetivas, caprichos de momento ou interesses camuflados.

A imaginação moral do sr. Paulo Moreira Leite é, nesse sentido, a mais atrofiada e mesquinha que se pode conceber. No alto da sua escala de valores, está ele próprio. Em baixo, alguém que não é pior que ele. Em grego, “idios” quer dizer “o mesmo”. “Idiotes”, de onde veio o nosso termo “idiota”, é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez.

Que alguém tão obviamente despreparado para opinar em questões de moralidade tenha à sua disposição uma revista de circulação nacional para aí infundir na cabeça do público a miséria dos seus julgamentos é, por si, um sintoma de debacle moral muito mais alarmante, por seus efeitos sociais, do que qualquer caso específico de corrupção, de roubo, de obscenidade, até de violência. Platão já ensinava que a desordem se instala na sociedade quando muitas pessoas começam a galgar postos de importância e prestígio para os quais não têm a mais mínima qualificação. Isso refere-se principalmente àqueles que hoje chamaríamos “intelectuais” ou “formadores de opinião”. Delinqüentes, vigaristas e políticos ladrões trazem dano material às suas vítimas, mas só se corrompem a si próprios. Quando a corrupção penetra na alma dos críticos sociais, dos professores de moral, ela se alastra por toda a sociedade.

Em 7 de maio de 2012

Quem E Filosofo E Quem Nao E

7 de maio de 2009 | Diário do Comércio

À medida que se espalha a consciência da debacle total das nossas universidades públicas e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.

Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht – no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema de ensino era ignorá-lo. Se queriam prestar ao público um bom serviço, acrescentei, que tratassem de ajudar os autodidatas, aquela parcela heróica da nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o melhor da nossa cultura superior. O meio de ajudá-los era colocar ao seu alcance os recursos essenciais para a auto-educação, que é, no fim das contas, a única educação que existe. Cheguei a conceber, para isso, uma coleção de livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.

Minha sugestão foi gentilmente engavetada, e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até tornar-se aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé popular, crime organizado ou desorganizado.

Na mesma medida, o número de cartas desesperadas que me chegam pedindo ajuda pedagógica multiplicou-se por dez, por cem e por mil, transcendendo minha capacidade de resposta, forçando-me a inventar coisas como o programa True Outspeak , o Seminário de Filosofia Online e outros projetos em andamento. E ainda não dou conta da demanda. As cartas continuam vindo, e o pedido que mais se repete é o de uma bibliografia filosófica essencial. É pedido impossível. O primeiro passo nessa ordem de estudos não é receber uma lista de livros, mas formá-la por iniciativa própria, na base de tentativa e erro, até que o estudante desenvolva uma espécie de instinto seletivo capaz de orientá-lo no labirinto das bibliotecas filosóficas. O que posso fazer, isto sim, é fornecer um critério básico para você aprender a discernir à primeira vista, entre os autores que falam em nome da filosofia, quais merecem atenção e quais seria melhor esquecer.

Tive a sorte de adquirir esse critério pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele –, a primeira coisa que fazia era analisá-lo segundo os métodos e pontos de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou criticar nada. Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores estudados, a solução que lhe parecia a melhor.

A coisa era uma delícia, para dizer o mínimo. Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento das “opiniões dos sábios” e tentar articular esse material como se fosse uma teoria única. Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a questão chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso.

A conclusão imediata era a seguinte: a filosofia é uma tradição e a filosofia é uma técnica . Chega-se ao domíno da técnica pela absorção ativa da tradição e absorve-se a tradição praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.

Note-se a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita que seja, sobre as idéias de um filósofo, e levá-las à prática fielmente, como se fossem nossas, no exame de problemas pelos quais sentimos um interesse genuíno e urgente. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como se fossem papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do conhecimento. É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio , que significa “trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos da atualidade.

Muitas pessoas, levadas por um amor exagerado à sua independência de opiniões (como se qualquer porcaria saída das suas cabeças fosse um tesouro), têm medo de deixar-se influenciar pelos filósofos, e começam a discutir com eles desde a primeira linha, isto quando já não entram na leitura armadas de uma impenetrável carapaça de prevenções.

Com o Pe. Ladusãns aprendíamos que, no conjunto, as influências se melhoram umas às outras e até as más se tornam boas. Incorporadas à rede dialética, mesmo as cretinices filosóficas mais imperdoáveis em aparência acabam se revelando úteis, como erros naturais que a inteligência tem de percorrer se quer chegar a uma verdade densa, viva, e não apenas acertar a esmo generalidades vazias.

Algumas regras práticas decorrem dessas observações:

1. Quando você se defrontar com um filósofo, em pessoa ou por escrito, verifique se ele se sente à vontade para raciocinar junto com os filósofos do passado, mesmo aqueles dos quais “discorda”. A flexibilidade para incorporar mentalmente os capítulos anteriores da evolução filosófica é a marca do filósofo genuíno, herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles. Quem não tem isso, mesmo que emita aqui e ali uma opinião valiosa, não é um membro do grêmio: é um amador, na melhor das hipóteses um palpiteiro de talento. Muitos se deixam aprisionar nesse estado atrofiado da inteligência por preguiça de estudar. Outros, porque na juventude aderiram a tal ou qual corrente de pensamento e se tornaram incapazes de absorver em profundidade todas as outras, até o ponto em que já nada podem compreender nem mesmo da sua própria. Uma dessas doenças, ou ambas, eis tudo o que você pode adquirir numa universidade brasileira.

2. Não estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema vai mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom. Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e, confrontando-o com o legado da tradição, dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.

Mudam Se Os Tempos

7 de maio de 2005 | O Globo

No meu tempo de menino, as brigas eram de um contra um, rodeados de um círculo de fiscais devotados a impedir que algum dos contendores apelasse a paus e pedras ou se socorresse da ajuda de amigos para sobrepujar ilicitamente o adversário. A gente batia e apanhava com honestidade. Hoje a molecada se vangloria de sua esperteza quando se junta em três ou cinco ou dez para esmigalhar um infeliz sem chance de defesa.

O modelo vem dos adultos, por exemplo os distintos candidatos da última eleição presidencial, todos comunistas ou pró-comunistas, alegremente dividindo em família o espaço dos debates, seguros de não ser atacados em nenhum ponto vital após excluídas da mídia, do ensino e da campanha as vozes dos eventuais discordantes. Ao som das fanfarras que enalteciam a “a eleição mais transparente de toda a nossa História”, a existência de um pacto explícito entre três dos presidenciáveis no quadro do Foro de São Paulo, reforçada pela cumplicidade consciente do quarto, foi totalmente escondida do público graças aos bons serviços da classe jornalística transmutada em “agente de transformação social”, isto é, em departamento de propaganda enganosa a serviço da hipnose esquerdista.

Quando homens e meninos se igualam na prática geral da tapeação organizada, é que uma nação perdeu os últimos resquícios de vergonha na cara a está madura para desarmar os cidadãos de bem, entregando-os para ser caçados como coelhos, enquanto os representantes das Farc circulam pelas ruas sob a proteção do governo, gastando sem preocupações os lucros das duzentas toneladas de cocaína que venderam ao sr. Fernandinho Beira-Mar.

Quando um país chega a esse ponto, a fala humana se torna impotente para reclamar do estado de coisas, podendo apenas registrá-lo com aquela serenidade trágica que expressa a anestesia da alma ante o absurdo que a transcende.

Não creio que, na História universal, haja exemplo de degradação semelhante, que com tanta facilidade se apossasse de um país de dimensões continentais, e em vez de revolta popular suscitasse nada mais que sussurros contra o aumento de impostos ou a taxa de juros, comprovando ser o bolso o único ponto sensível da moralidade geral.

Não espanta que o próprio território desse país seja roído por narcoguerrilheiros e por ONGs bilionárias a serviços do autoconstituído governo mundial da ONU, enquanto a mídia e os bem-pensantes, afetando patriotismo, alertam contra a mera hipótese da instalação de bases militares americanas que, na verdade, seriam a única defesa possível contra essa invasão multilateral já em avançado estado de consumação. Quando o senso moral se inverte, inverte-se também o instinto de sobrevivência, mais ou menos como naqueles filmes em que a mocinha imbecilizada pelo pavor estapeia o policial e se refugia nos braços do serial killer .

Não uso à toa a expressão “imbecilizada pelo pavor”. Cento e cinqüenta mil homicídios anuais (a taxa, equivalente a cinco guerras do Iraque, é divulgada pelo repórter Luís Mir no seu recente livro “Guerra Civil”) bastam para fazer de um país um bicho amestrado, pronto para curvar-se docilmente, como os alemães do período entre guerras, àquele novo tipo de autoridade anunciado por Fritz Lang no seu filme profético de 1933, “O Testamento do Dr. Mabuse”:

“ Quando a humanidade, subjugada pelo temor da delinqüência, se tornar louca por efeito do medo e do horror, e quando o caos se converter em lei suprema, então terá chegado o tempo para o Império do Crime .”

Em carta ao Globo , de novo a sra. Kissling se esquiva de refutar minhas denúncias e busca refúgio em lacrimejações fingidas contra “ataques pessoais” que jamais lhe fiz. Como iria fazê-los, se nada sei da sua vida particular? E fazê-los para quê, se os atos da sua vida pública já são mais escandalosos do que qualquer coisa que ela possa ter feito na privada?

Em tempo: Os documentos comprobatórios do que aleguei contra a sra. Kissling e suas discípulas estão no livro “Catholics For a Free Choice Exposed”, de Brian Clowes (Front Royal, VA, Human Life International, 2001).

Em 7 de maio de 2005

Filosofos A Granel

7 de julho de 2001 | Época

É tanta cultura que eles já não agüentam: precisam reparti-la Sob a coordenação do professor Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho, presidente da Federação Nacional dos Sociólogos, um lobby de proporções colossais, constituído de sindicatos, associações estudantis, sociedades científicas, CUT, OAB, Contag, CNBB e não sei mais quantas instituições, está sendo organizado para pressionar o Senado a aprovar o projeto de lei que torna obrigatório, nas 17 mil escolas de ensino médio do país, o ensino de sociologia e filosofia.

O próximo passo da luta, segundo o professor Lejeune, será “a mobilização total nos cursos, CAs, congregações, departamentos, reitorias e entidades correlatas”. Essas entidades deverão: (a) produzir uma chuva de e-mails sobre os senadores; (b) exercer pressão direta sobre “FHC, Weffort, Moisés, Wilmar Faria e outros do alto escalão do governo”; (c) agitar a massa estudantil para que ocupe as ruas e faça caravanas a Brasília; (d) abrir espaço na mídia e municiá-la de informações favoráveis ao projeto. É uma campanha das dimensões das Diretas Já. Mas aí se tratava de luta política, que facilmente desperta as paixões da massa angustiada. Um observador extraplanetário ficaria comovido até às lágrimas de ver tão poderosas forças agitando-se em vista de um objetivo puramente cultural e pedagógico.

Tamanha vontade de ensinar tem, no entanto, algo de estranho. O professor Lejeune entusiasma-se sobretudo com a mobilização dos filósofos – pilhas e pilhas de filósofos, massas de filósofos. Ao ouvi-lo, damos por fato consumado que, no momento presente, pelo menos 17 mil deles se encontram tão repletos de conhecimentos filosóficos que, se não os derramarem sobre as cabeças juvenis, explodirão de pletora intelectual.

O país que tem 17 mil filósofos prontinhos para ensinar é, decerto, o mais culto do mundo. É de fato uma injustiça que tanta cultura fique retida na geração mais velha, sem ser repassada aos jovens.

Por isso mesmo o professor Lejeune repele, como procrastinação odiosa, qualquer tentativa de discutir, antes da aprovação da lei, o conteúdo a ser ensinado nas novas disciplinas. Para que discutir, se ele, Lejeune Mato Grosso em pessoa, já sabe esse conteúdo de trás para diante? Eis como ele o resume: sociologia e filosofia consistem em fazer o aluno “entender seu mundo, a realidade que o cerca, as classes e as lutas de classe, o papel do Estado e modos de produção” (sic).

Que haja 17 mil pessoas habilitadas a ensinar essas coisas, eis algo de que não se pode mesmo duvidar. Na verdade há mais. Milhões de militantes da CUT, do PT e do MST estão convictos de que a realidade que os cerca se constitui, essencialmente, de luta de classes. Trata-se apenas de tornar esse discurso obrigatório para os alunos de 17 mil estabelecimentos de ensino.

A coisa é simples, direta e brutal. Portanto, nada de discussões. Sociologia e filosofia já!

O professor Lejeune vaticina que isso será “a maior das revoluções”. Tem razão: desde os tempos de Stalin, jamais tamanha rede de difusão foi colocada, com dinheiro do governo, à disposição da propaganda comunista. Tal é, pois, o motivo da mobilização, que só um extraplanetário explicaria de outra forma.

Não sou ninguém para contestar uma assembléia inteira de sábios e educadores, encabeçada por 17 mil filósofos. Cá com meus botões pergunto quantos deles agüentariam dez minutos de debate sobre as categorias de Aristóteles ou as formas a priori de Kant. Mas isso, obviamente, não vem ao caso. O que lhes incumbe ensinar eles já o sabem de cor e salteado. Aliás, quem não sabe?

Resta apenas perguntar se, contra a formidável pressão organizada, os pais que não desejem ver seus filhos amestrados na doutrina da luta de classes terão a coragem de enviar pelo menos umas tímidas cartinhas de protesto ao Senado. Se não a tiverem, ótimo: é sinal de que o Brasil está maduro para a filosofia do professor Lejeune.

Em 7 de julho de 2001

Obviedades Estrategicas

6 de fevereiro de 2012 | Diário do Comércio

Se vocês querem algum dia ter no Brasil um movimento conservador vigoroso, apto a conquistar e exercer o poder, comecem por meditar os seguintes pontos:

1. Os grupos que dominam a política, a mídia e o mercado livreiro provêm das universidades e especialmente do movimento estudantil. A elevação dos líderes estudantis às posições de poder leva aproximadamente trinta anos. Quem domina as universidades hoje dominará o país em trinta anos.

2. Dominar as universidades não é um processo espontâneo. É o resultado de um trabalho sistemático de ocupação de espaços, de remoção dos adversários, de interproteção mafiosa e de conquista progressiva dos altos postos, que não rende frutos em menos de uma geração: mais trinta anos, que podem se reduzir a dez porque a conquista da hegemonia universitária e a formação da nova geração de estudantes não são fases estanques, mas fundidas e superpostas. O tempo necessário para a formação de um movimento político viável é, pois, de quarenta anos aproximadamente.

O acerto desse cálculo é ilustrado por exemplos inumeráveis. Data dos anos 60 o início da conquista das universidades da Europa, dos EUA e da América Latina pela “nova esquerda” inspirada na Escola de Frankfurt e naquilo que seus críticos viriam a rotular, sem muita precisão, de “marxismo cultural”. Decorridas quatro décadas, a ideologia do “politicamente correto”, do feminismo, do gayzismo, do abortismo, do racialismo e do ódio anti-ocidental e anticristão dominava, e domina até hoje, a política, a mídia e o mercado editorial em toda essa área – um terço da superfície terrestre.

3. O trabalho de conquista, primeiro das universidades, depois do poder em geral, depende de duas condições: (a) só pode ser empreendido por organizações estáveis e duradouras, capazes de esforço concentrado e sistemático ao longo de pelo menos duas gerações; (b) exige organizações que estejam firmemente decididas a realizá-lo e que vejam nele a sua obrigação mais essencial e incontornável, ao ponto de sacrificar a ele todos os seus demais interesses políticos, sociais, culturais, financeiros etc.

Em todo o planeta, há quase dois séculos, só se interessaram seriamente por esse objetivo as organizações ligadas ao movimento revolucionário mundial em todas as suas variantes internas (comunismo, nazifascismo, terceiromundismo, “nova esquerda” etc.) Nenhuma outra. Não estranha que a mentalidade revolucionária, em suas várias versões, incluindo as mais inconscientes de si próprias, tenha se tornado a chave dominante do pensamento político – e até da moralidade pública – em todo o mundo ocidental. Hoje em dia, uma nova versão do movimento revolucionário – o radicalismo islâmico – está fazendo um sério, bem organizado e bem financiado esforço para conquistar as universidades da Europa e dos EUA. Se esse esforço for bem sucedido, será impossível evitar a islamização forçada do Ocidente no prazo de uma ou duas gerações.

4. Os grupos conservadores, liberais (no sentido brasileiro), cristãos, judeus sionistas etc. têm-se limitado a opor à hegemonia revolucionária nas universidades o combate intelectual, a “guerra cultural” ou “luta de idéias”. Apostam nisso o melhor das suas forças. Mas é estratégia absolutamente impotente, pois o que está em jogo não é realmente nenhuma “luta de idéias” e sim uma luta pela conquista dos meios materiais e sociais de difundir idéias – coisa totalmente diversa. Você pode provar mil vezes que tem a idéia certa, mas, se o sujeito que tem a idéia errada é o dono das universidades, da mídia e do movimento editorial, o que vai continuar prevalecendo é a idéia errada. Basta ler revistas como New Criterion ou a Salisbury Review para notar que, em comparação com a “esquerda”, os conservadores têm hoje uma superioridade intelectual monstruosa. Nem por isso eles mandam no que quer que seja. Em política, a superioridade intelectual tem apenas um valor instrumental muito relativo. Se você não sabe usá-la para quebrar a autoridade do adversário, para tomar o cargo dele e colocar lá alguém da sua confiança, ela não serve para absolutamente nada. O movimento revolucionário já entendeu há tempos que “ocupar espaços” não é vencer debates letrados. Concentrando-se na “luta de idéias”, recusando-se nobremente a praticar a ocupação de espaços, a infiltração nos postos decisivos e o boicote aos adversários, os conservadores deixam a estes o exercício do poder e se contentam com a satisfação subjetiva de sentir que são mais inteligentes e moralmente melhores. O senso solidariedade mafiosa, então, escapa-lhes por completo. Dificilmente um conservador ou liberal chega a reitor, a ministro ou mesmo a diretor de departamento, sem imediatamente rodear-se de auxiliares esquerdistas, só para provar a si próprio (e para grande satisfação do adversário) que seu respeito pelas pessoas está “acima de divergências ideológicas”. Essa boniteza moral é fonte de tantos malefícios políticos, que chega a ser criminosa.

5. A luta pela ocupação de espaços pode comportar uma parte de debate político-ideológico, mas tem de ser uma parte bem modesta. O essencial não é vencer as “idéias” do adversário, mas o próprio adversário, pouco importando que seja por meios sem qualquer conteúdo ideológico explícito. Trata-se de ocupar o seu lugar, e não de provar que ele está do lado errado. Isso se obtém melhor pela desmoralização profissional, pela prova de incompetência ou de corrupção, pela humilhação pública, do que por um respeitoso “debate de idéias” que só faz conferir dignidade intelectual a quem, no mais das vezes, não tem nenhuma.

Em 6 de fevereiro de 2012

A Universidade Do Ministro Buarque

6 de dezembro de 2003 | O Globo

Os brasileiros não fazem muita questão de apreender o significado das palavras, mas, em compensação, são hipersensíveis ao tom, à ênfase, ao pathos emocional com que são pronunciadas. Julgando tudo por esse critério auditivo ou epidérmico, quase sempre chegam a conclusões que são a inversão simétrica da realidade.

O exemplo desta semana vem-nos do sr. ministro da Educação, Cristovam Buarque, o qual, por jamais fazer uso daquela retórica de açougueiro tão característica do sr. João Pedro Stedile, é tido como um primor de equilíbrio e moderação, como um democrata avesso a radicalismos e truculências. Mesmo aqueles que o desprezam não vêem nele senão um discursador inócuo, o equivalente intelectual do placebo, ou, para não sairmos dos domínios da farmacopéia, o genérico do Conselheiro Acácio.

Para vocês verem que nem sempre o estilo é o homem, essa doce criatura acaba de confessar em público uma das intenções mais brutais e prepotentes que já passaram por um coração de político neste país. Num recente seminário em Brasília, ele disse que a universidade brasileira deve inspirar-se no radicalismo do MST e tornar-se uma máquina de guerra ideológica, “uma ameaça” contra os “conservadores”. Os jornalistas que o ouviram entenderam-no perfeitamente bem, mas, como torcedores petistas e zeladores da imagem convencional do sr. Buarque, não desejaram reconhecer nas suas palavras o seu óbvio sentido de pregação totalitária e preferiram dar a impressão de que ele não fizera senão um apelo a que as universidades cumprissem seu papel normal de espaço aberto para o confronto das idéias. Com isso, deram à proposta do ministro a eficácia letal de uma mensagem cifrada, destinada a ser compreendida somente pelo círculo interno dos revolucionários, incumbidos da realização do projeto, sem despertar suspeitas no âmbito mais vasto da opinião pública, isto é, daqueles que um dia hão de arcar com as conseqüências do projeto realizado. Mas, quer o público o perceba ou não, a livre discussão das idéias na universidade é exatamente o contrário do que o ministro propôs. Uma instituição que se abre democraticamente a todas as correntes de opinião não pode, ao mesmo tempo, cerrar fileiras contra uma delas, muito menos fazê-lo ao ponto de tornar-se, para ela, “uma ameaça”. E nesse ponto o sr. Buarque não poderia ter sido mais claro. Ele não disse que deseja um confronto, dentro da academia, entre os conservadores e seus adversários, esquerdistas, progressistas ou como se queira denominá-los. Ele disse, sem qualquer atenuação ou ambigüidade, que “a” academia, como um todo, deve investir com a força unificada de um bloco ideológico contra os conservadores, e fazê-lo com a “radicalidade” do MST. Qual o espaço concedido às idéias “conservadoras” no MST? Tal é exatamente a quota de liberdade que elas devem desfrutar na universidade ideal do sr. Buarque.

Não sei bem o que o ministro quer dizer com “conservadores”. O que quer que eles sejam, uma coisa é clara: no entender de S. Excia., o lugar deles não é na universidade, ensinando, expondo e debatendo: é fora delas, recebendo os ataques que vêm de dentro. Seria o caso de perguntar: mas onde é que eles estão agora, senão precisamente aí? Alguém neste país ignora que o pensamento conservador e liberal já está excluído do nosso ambiente universitário? Alguém ainda não foi informado de que os autores mais estudados e badalados no meio acadêmico brasileiro são Marx e Gramsci, enquanto os pensadores antimarxistas importantes, um Russel Kirk, um von Mises, um Irving Kristol e todos os demais na mesma linha são sistematicamente omitidos? Alguém é tão inculto que não saiba disso, ou cínico ao ponto de fingir que não sabe? O sr. ministro é uma coisa ou a outra. Para ele, os poucos conservadores e liberais que restam na academia, marginalizados, acossados, intimidados, já são em número excessivo, o bastante para levá-lo a caracterizar o pensamento brasileiro como “profundamente conservador”. Como se houvesse, nas nossas universidades, um festival de apologias do capitalismo em vez de um florescimento canceroso de homenagens a Che Guevara, de revisionismos históricos comunistas, de teologias e filosofias “da libertação”, de “direitos alternativos” e de mil e um outros marxismos recauchutados. Como se eu próprio, todas as vezes que compareci a uma universidade pública, a convite extra-oficial e quase confidencial de grupos minoritários, não fosse sempre advertido de que, com a minha pessoa, um discurso antimarxista entrava ali pela primeira vez em décadas — e pela porta dos fundos.

O ministro não sabe de nada, ou faz que não sabe? É um ignorante ou um cínico? Não tenho a menor idéia, mas um homem que, para impor sua concepção totalitária, despreza a esse ponto as evidências mais gritantes, não é decerto um “moderado” nem um Conselheiro Acácio: é um sectário perigoso, um fanático cego, um militante intoxicado de ideologia, que, em nome das ambições do seu partido, se permite pisotear sem o menor escrúpulo de consciência os deveres da honestidade intelectual que, pelo cargo que ocupa, lhe incumbiria representar em grau eminente.

Nunca, ao longo da história do Brasil, uma concepção tão policial e ditatorial da universidade foi defendida de maneira tão explícita. Nunca uma doutrina educacional tão abjeta e hedionda foi advogada em voz alta por uma autoridade federal. Até o público que a aplaudiu de perto, aliás, foi apropriado para a ocasião: pois ladeavam o sr. Buarque, na oportunidade, o ministro da Educação de Cuba, país onde a redução da universidade à condição de arma de guerra ideológica já não é um ideal e sim um fato, e o do Sudão, tirania escravagista e genocida empenhada na sistemática matança de cristãos. O discurso do sr. Buarque não podia ter tido platéia mais apropriada.

Em 6 de dezembro de 2003

Olavo De Carvalho Teremos De Impor O Debate A Forca

6 de abril de 2015 | entrevista Olavo de Carvalho

O filósofo e professor Olavo de Carvalho é hoje o maior expoente do pensamento de direita em âmbito nacional. Nesta entrevista realizada por e-mail, o filósofo, residente dos EUA, diz que o reavivamento da direita é resposta à prepotência da esquerda que desembocou no assalto aos cofres públicos. Mas ele aponta que somente a “inteligência individual” é capaz de contrapor-se à esquerda em uma “guerra cultural”.

Muitos brasileiros foram às ruas no domingo (15/03) impulsionados, em sua maioria, pelo escândalo do Petrolão e pedindo a deposição da presidente Dilma Roussef. O senhor entende que seja a corrupção sistemática, como apontou o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, o mal maior gerado nos governos petistas?

Sem dúvida, mas esse mal não surgiu sozinho. Ele nasceu desde dentro de um vasto projeto de poder e é parte integrante desse projeto. Afinal, os crimes de corrupção não foram cometidos para enriquecer este ou aquele indivíduo isoladamente, mas para financiar o PT. Esse é o mal mais vistoso, mas ele não é a raiz, é o resultado final de um processo corruptor muito mais profundo, que começou com a adoção da estratégia de Antonio Gramsci para a tomada do poder e assumiu forma decisiva com a fundação do Foro de São Paulo de 1990. O projeto de Antonio Gramsci consiste basicamente em ludibriar toda a sociedade para que aceite o socialismo sem percebê-lo, até que o partido que comanda o processo adquira – são palavras dele – “o poder invisível e onipresente de um imperativo categórico de um mandamento divino”. Nessa perspectiva, o Partido é o único juiz de si mesmo e pode fazer o que bem entenda, sem prestar contas à população e sem nem lhe explicar o que está acontecendo. A corrupção financeira é apenas o aspecto mais exterior que acaba assumindo a corrupção muito mais profunda de toda vida social e política. O Foro de São Paulo se arroga o direito de governar em segredo um continente inteiro, determinando o curso da vida de dezenas de povos, sem lhes prestar a mínima satisfação e, é claro, sem jamais se submeter ao seu julgamento moral. O direito de roubar é só a expressão financeira do direito mais geral de ludibriar.

Esse foi o primeiro movimento de massas identificado com a direita desde o início do governo Sarney. Como o senhor entende esse período de acabrunhamento da direita e o que a fez despertar neste momento?

A estratégia de Antonio Gramsci inclui como elemento essencial a “ocupação de espaços”, que significa preencher com elementos da esquerda todos os postos na educação, na mídia, nas instituições culturais e, por fim, na administração pública, tomando de uma possível oposição direitista todos os meios de se fazer ouvir. Nos anos 90, essa operação já foi coroada de sucesso, de modo que já não havia uma oposição de direita não somente no Parlamento, mas em parte alguma. Lula celebrava como apoteose da democracia o fato de que nas eleições presidenciais todos os candidatos fossem de esquerda. A esquerda tinha o monopólio absoluto da palavra, o restante da sociedade caiu na “espiral do silêncio” e perdeu até todo o desejo de falar. Foi só quando a prepotência da esquerda assumiu a forma do assalto geral e cínico aos cofres públicos, que a opinião excluída acabou por se ver praticamente obrigada a manifestar-se de novo.

O senhor é apontado por muitos líderes destes movimentos que pedem a saída de Dilma e que são contra o comunismo como o responsável pela quebra de uma “espiral de silêncio” que marginalizava o pensamento à direita. O senhor vislumbra para os próximos anos um ambiente favorável a verdadeiros debates, uma vez que o pensamento de esquerda é hegemônico entre profissionais de imprensa, na academia e no meio artístico?

A esquerda dominante jamais aceitará o debate franco, pois sabe que vive de mentirinhas tolas e que num confronto honesto sairá sempre perdendo. Sua única esperança é tapar definitivamente as bocas dos discordantes para que não mostrem que o rei está nu. Se queremos restaurar a possibilidade de um debate franco, teremos de impor isso à força.

Em um dos artigos de “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, o senhor explica porque não é um liberal, mas um conservador. Vê-se nos movimentos a união destas duas correntes. Isto demonstra a incipiência desta nova direita? Qual diferenciação o senhor faz entre elas?

Basicamente, liberais (especialmente libertarians) e conservadores se distinguem porque os primeiros privilegiam a argumentação econômica, fazendo vista grossa à guerra cultural, que é justamente o ponto principal da estratégia da esquerda. Conservadores, por seu lado, insistem na argumentação cultural e moral ao ponto de às vezes, deixar-se enganar pelo conservadorismo moralista de um Vladimir Putin. Nenhuma corrente ideológica é jamais inteligente o bastante para se mover com agilidade entre as sutilezas da vida política. Só inteligência individual é capaz de dar conta das ambiguidades e astúcias de uma situação política em mutação veloz.

O senhor vem denunciando há anos a influência do Foro de São Paulo sobre a política brasileira e da América Latina. O governo brasileiro não se manifesta contra o que ocorre na Venezuela, por exemplo, onde opositores são presos ou mortos. O Brasil pode chegar a isso?

Acho até engraçado quando ouço advertir que “o Brasil pode virar uma Venezuela”. O Brasil “fez” a Venezuela. No discurso do décimo quinto aniversário do Foro de São Paulo, o senhor. Lula confessou isso abertamente. O regime Hugo Chavez foi concebido no Brasil e criado através do Foro de São Paulo. Em segundo lugar, até muito recentemente, a Venezuela estava muito melhor que o Brasil, pois lá havia uma oposição atuante e combativa, enquanto o nosso povo, aceitava com passividade bovina e silêncio de pedra toda imposição do esquerdismo dominante.

Qual a gravidade de o PT ser ligado ao Foro de São Paulo? Por que o senhor defende que o Foro de São Paulo deve ser excluído da política brasileira?

Em primeiro lugar, o Foro articula, numa estratégia global, partidos legais e organizações criminosas de terroristas, de narcotraficantes, de sequestradores. Isso faz dele, como um todo, uma organização criminosa. Em segundo lugar, o Foro atuou de maneira clandestina, negando sua própria existência, até quando foi forçado a admiti-la pelas denúncias sucessivas que eu mesmo divulguei. Como se pode admitir que a política de um país ou, pior ainda, de vários deles, seja determinada por uma entidade clandestina, calculada, nas palavras do senhor Lula “para que ninguém soubesse do que estávamos falando”? Como pode haver normalidade democrática se as decisões são tomadas em conluio com criminosos estrangeiros e se nós, o povo, não temos sequer o direito de saber do que eles estão falando?

O senhor também é um grande crítico do sistema educacional brasileiro. De que forma esta “deseducação” contribui para a formação da hegemonia à esquerda?

A doença principal da educação brasileira foi a adoção do sistema de alfabetização chamado “socioconstrutivista”, criado inteiramente por estrategistas comunistas como Lev Vigotsky, Emilia Ferreiro e Paulo Freire para transformar as crianças em servos dóceis de um movimento político, com total desprezo pelo desenvolvimento real das suas capacidades. Hoje em dia está mais do que provado que o sistema socioconstrutivista destrói a inteligência das crianças e produz até mesmo lesões cerebrais. Os responsáveis pela adoção desse sistema são diretamente culpados pelo fracasso retumbante das nossas crianças, amplamente comprovado pelos testes internacionais. Esses homens não são educadores, são criminosos O senhor defende uma hegemonia da direita? Em que ela seria mais saudável que a atual hegemonia?

Já tivemos uma hegemonia da direita durante o regime militar. Ela fez algumas coisas boas na esfera econômica mas, por ter idéias estereotipadas sobre o comunismo e nada entender da estratégia gramsciana, deixou o campo livre para que a esquerda se apossasse da mídia, do mundo editorial e do sistema educacional. Direitismo não é atestado de inteligência.

Costuma-se apontar o PSDB como a direita brasileira, e aqueles que protestam contra os governos petistas como “golpistas”, representantes de uma “elite branca opressora”. O que há de errado nestas qualificações?

Não se pode falar do PSDB inteiro, onde há homens bons e maus. O que é certo é que seus líderes mais destacados, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra, estão comprometidos até à medula com o esquema do Foro de São Paulo. Estão entre os seus maiores aliados e protetores. Isso remonta pelo menos a 1993, quando o senhor. Fernando Henrique Cardoso teve uma reunião secreta com os dirigentes do Foro e os do “Diálogo Interamericano” que é o think tank da ala mais esquerdista do Partido Democrata Americano. O que se tem feito para esconder o conteúdo das decisões ali tomadas forma uma das mais estranhas histórias de mistério do mundo. Já contei isso várias vezes e não vou me repetir aqui.

O senhor vislumbra um Brasil melhor após o 15 de março? Em que estas manifestações são distintas daquelas de 2013? Por que se diz que em 2013 o povo protestou e agora se diz que foram as elites descontentes e desejosas de um terceiro turno?

Essa opinião nem merece resposta. Basta ver as fotos e vídeos das passeatas para saber que as camadas populares estavam ali muito bem representadas, enquanto a “elite”, especialmente a da mídia, fazia o possível para achincalhar o movimento e deformar a sua identidade. Termos como “burguesia”, “proletariado”, “elite”, “povo” etc., na boca de esquerdistas, quase nunca designam conceitos descritivos, ancorados em dados da realidade. São símbolos, estereótipos, slogans e senhas que nada dizem da realidade exterior, mas expressam apenas o sentimento de identidade de um grupo ativista, a mitologia que sustenta a sua existência e unidade enquanto grupo, ao mesmo tempo que delineiam, na mente dos seus membros, a imagem do inimigo ideal a ser odiado, temido e achincalhado – inimigo que, quando não é totalmente inexistente, pelo menos jamais está no lugar onde o apontam.

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Carta De Um Aluno

6 de abril de 2014 | Diário do Comércio

Professor, Sou aluno do Curso de Ciências Sociais da (...). Admiro seu trabalho há um ano e estou amadurecendo a ideia de me tornar aluno do Seminário de Filosofia, o que me impede é o tempo. Hoje, na aula de História Moderna, uma colega minha expôs para toda a turma a minha admiração pelo seu modo de pensar, prontamente os colegas começaram a me olhar com olhar de reprovação.

O professor desta disciplina estava presente em sala e, ao ouvir o comentário da minha colega, começou a se dirigir a mim de maneira debochada sobre as denúncias que o senhor faz há vinte anos, com perguntas do tipo: “Você realmente acredita que há uma conspiração revolucionária gramsciana em andamento no Brasil?” ou “Você é tolo ao ponto de acreditar que estamos sob uma ditadura petista?”.

O professor seguiu rompendo com toda e qualquer ética profissional e passou a alvejar a sua pessoa, atribuindo adjetivos como alarmista, fascista e reacionário, e dizendo que o senhor é maluco, mas admitia que é um bom professor de Filosofia e portador de uma erudição ímpar (inclusive ele disse que a mãe dele foi sua aluna).

Fiquei muito constrangido e sem resposta devido ao estado de choque em que me encontrei em ver um professor universitário me admoestando por minhas preferências político-filosóficas.

Um único colega mais conservador (por minha influência) veio em minha defesa, e indagou qual é o problema de gostar do senhor, e sobre a necessidade de alguém esculachar o senhor devido a ideias divergentes – encerrando a discussão e deixando o professor e os colegas mais falantes sem respostas.

Com o ocorrido, pude ter certeza da veracidade de tudo o que é dito pelo senhor a respeito da infiltração esquerdista no meio acadêmico e senti na pele a discriminação praticada por esse grupo (já havia sofrido anteriormente pelo fato de ser Espiritualista e Cristão, mas nunca na intensidade do evento de hoje).

Gostaria de alguma orientação a respeito de como proceder no meu próximo encontro com este professor.

Aluno RESPOSTA Prezado aluno X., Distribua na classe e leia em voz alta, diante do seu professor, a mensagem abaixo:

Prezado Professor, Não sei sequer o seu nome, mas sua conduta em classe é minha velha conhecida, já que repete fielmente a de milhares de outros professores universitários neste País.

Tenho dito e escrito, vezes sem conta, que há uma diferença essencial entre a ditadura militar e a presente ditadura petista.

A primeira exercia algum controle da opinião pública através de medidas administrativas oficiais e explícitas, como por exemplo a censura nos jornais, feita por funcionários da Polícia Federal.

Esse controle era frouxo, pois havia dezenas de semanários comunistas circulando livremente e as notícias censuradas na grande mídia eram frequentemente liberadas depois. Na esfera editorial não havia controle absolutamente nenhum.

Os vinte e um anos da ditadura foram, segundo comprovam os registros da Câmara Brasileira do Livro, a época de maior expansão e prosperidade da indústria do livro esquerdista no Brasil. Muitas editoras comunistas, a começar pela maior delas, a Civilização Brasileira, conforme me confessou seu próprio diretor, Ênio Silveira, recebiam substancial ajuda financeira do governo, interessado em seduzir uma parcela dos esquerdistas para que se afastassem dos grupos guerrilheiros armados.

Na presente ditadura petista, o controle é exercido por meio de uma rede enorme de militantes e idiotas úteis espalhados por todas as cátedras universitárias, redações de jornais, estações de rádio e TV e instituições culturais em geral, incumbidos de aí criar um ambiente de terror psicológico, por meio do achincalhe, do boicote e da humilhação pública de quem quer que ouse divergir da ortodoxia dominante.

Esse método, em substituição à censura oficial, foi preconizado por Antonio Gramsci e quem quer que o pratique é um agente da revolução cultural gramsciana. É um método eminentemente escorregadio e covarde, que só pode alcançar sucesso, como explicou o próprio Gramsci, camuflando a sua própria existência e dando a impressão de que as opiniões que estão sendo impostas brotam espontaneamente do consenso social, sem nenhuma fonte central ou comando, de modo que pouco a pouco o Partido se torne “um poder onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”.

Não é preciso dizer que esse método é mil vezes mais opressivo e mil vezes mais eficiente do que qualquer censura oficial, já que neste caso as vítimas enxergam claramente o culpado pela situação, e naquele todos se vêm perdidos e desorientados, acossados e intimidados por um poder sem rosto, “onipresente e invisível”.

Sua própria conduta em classe, professor, é a do típico agente desse poder, seja na condição de militante ou, mais provavelmente, de idiota útil. O senhor busca intimidar e humilhar os alunos que não sigam a cartilha oficial, no mesmo ato em que nega cinicamente que essa cartilha exista e que alguém esteja tentando impô-la a quem quer que seja.

Nada poderia ilustrar melhor a técnica de Antonio Gramsci, hoje aplicada persistentemente em todas as instituições de ensino no Brasil. Sua conduta é a melhor prova daquilo cuja existência o senhor nega. Não sei se, malgrado essa conduta dúplice e escorregadia, o senhor ainda conserva no coração algum resto do senso normal de honestidade que o gramscismo destrói em seus militantes, mas peço-lhe que não se vingue desta mensagem no aluno que é simplesmente o portador dela.

O responsável por estas palavras sou apenas eu e não ele.

Traicao Sem Fim

5 de maio de 2001 | O Globo

Em carta publicada no GLOBO do último dia 21, a professora Denise Rollemberg esclarece que é minha e não dela a conclusão que tirei do seu livro “O apoio de Cuba à luta armada no Brasil” e segundo a qual “a ação conjunta dos militares (em 1964) resultou da intervenção cubana na guerrilha, e não esta daquela”. Ela nem precisava ter dito isso. Uma convenção universal do ofício pensante reza que aquilo que um autor infere de fatos alegados por outro é de inteira responsabilidade do primeiro. Mas a professora Denise não haverá de se magoar comigo se eu acrescentar que, arcando com a responsabilidade das conclusões, levo também o mérito que possa haver nelas. Inversa e complementarmente, recai sobre ela a responsabilidade — bem como o mérito, se algum há nisso -— de recusá-las contra os fatos que as impõem.

No seu livro, a professora Denise, logo após reconhecer que o governo de Cuba participava de ações revolucionárias no Brasil desde 1961, escreve: “Após 1964, a esquerda tendeu, e tende ainda, a construir a memória da sua luta, sobretudo, como de resistência ao autoritarismo do novo regime... No entanto, a interpretação da luta armada como essencialmente de resistência deixa à sombra aspectos centrais da experiência nos embates travados pelos movimentos sociais de esquerda no período anterior a 1964.”

Traduzido do peculiar idioma universitário nacional — o único, no mundo, em que ambigüidade é sinônimo de rigor — que significa esse parágrafo senão que a esquerda brasileira, com a ajuda de Cuba, tentava conquistar o poder por via armada desde três anos antes do golpe militar e que, depois dele, passou a usar o novo regime como pretexto retroativo para alegar que fora compelida ao uso das armas, a contragosto, com lágrimas de piedade nos olhos, pela supressão autoritária de seus meios incruentos de luta?

A esquerda, enfim, mentiu durante quase 40 anos, enquanto a direita, a execrável direita, simplesmente dizia a verdade ao alegar que o golpe de 1964 fora uma reação legítima contra uma revolução em curso que não se vexava de recorrer à violência armada com a ajuda clandestina de uma ditadura estrangeira.

Nada, absolutamente nada nesses fatos permite concluir, com a professora Denise, que “o apoio que o governo cubano deu a guerrilheiros no Brasil, em três momentos diferentes, não poderia explicar — e muito menos justificar — a ação dos militares”. A idéia mesmo de que uma ingerência armada de país estrangeiro não explique nem justifique uma reação igualmente armada da nação ofendida é, por si, suficientemente extravagante para não precisar ser discutida: sua expressão em palavras já basta para impugná-la no ato.

Que essa reação, porém, assumisse a forma de um golpe militar e da derrubada do governo constituído é algo que poderia parecer estranho, mas cuja explicação, involuntária aliás, vem da própria professora Denise. Ela conta (p. 26) que esse governo, ao apreender em fins de 1962 as provas materiais da intervenção armada cubana, em vez de encaminhar pelo menos um protesto público aos organismos internacionais, como seria sua mais modesta obrigação, que é que fez? Escondeu as provas e as devolveu, discretamente, a um emissário de Fidel Castro.

A professora Denise não percebe nesse ato presidencial nada de particularmente anômalo, tanto que, meio às tontas, o descreve como simples e corriqueira “solução diplomática”. Mas qual presidente, de qual país, tendo as provas de uma intervenção armada estrangeira, as esconderia de seus compatriotas e as devolveria ao país interventor sem tornar-se cúmplice dele e, portanto, culpado de crime de alta traição? E por que haveria João Goulart de cometer esse crime se não estivesse mais comprometido com os planos do agressor do que com seus deveres de governante?

Meu Deus! Num país onde um presidente foi escorraçado do cargo por simples desvio de verbas e um senador arrisca perder o mandato por violar o sigilo da votação numa miúda comissão parlamentar, será tão difícil à professora Denise compreender a gravidade imensurável do crime de passar a uma nação agressora um segredo militar? E como não enxergar aí a parceria do criminoso e do cúmplice na implementação de uma única e mesma estratégia revolucionária?

Entre a guerrilha de 1961 e a retórica “pacífica” que se lhe seguiu havia diferenças, sim, mas elas não refletiam senão a astuta combinação de métodos, ora simultâneos, ora alternados, com que os comunistas, realizando a fórmula consagrada de Stálin que prevê a unidade da estratégia por meio de uma alucinante variação de táticas, desnorteiam seus adversários. Nada, nada neste mundo pode ocultar a continuidade do esforço revolucionário que, orientado desde Havana, sacode o continente há quatro décadas. Confirma-o — involuntariamente, como sempre — a própria professora Denise, ao admitir que “após a experiência frustrada das Ligas (1961), e já instaurada a ditadura civil-militar, Cuba redefiniu a maneira de apoiar a revolução no Brasil”. Quem poderia “redefinir” o que já não estivesse definido? Ao trair a confiança da nação, João Goulart não fez senão dar prosseguimento, por outros meios, à guerrilha de 1961, do mesmo modo que a luta armada após o golpe deu prosseguimento à traição goulartiana e, em seguida, três décadas e meia de ocultação e mentiras, nas cátedras e nos jornais, deram prosseguimento à guerrilha de Marighela e Lamarca, sempre variando os meios em vista da finalidade constante: a implantação do regime comunista. Se fosse preciso maior prova dessa continuidade estratégica, deu-a o Foro de São Paulo, ao assumir, sob o aplauso de Lulas e tutti quanti , sua identidade de reencarnação do Comintern, destinada a “reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu”, segundo palavras reproduzidas no jornal oficial cubano “Granma” de 5 de julho de 1990.

É evidente que a professora Denise, sabendo disso, não poderia dizê-lo nesses termos sem arriscar seu emprego num meio universitário comprometido, até à goela, com a sustentação da mentira. Por isso ela o disse com meias palavras. É compreensível que ela se irrite quando alguém o traduz para palavras inteiras.

Mas, da minha parte, estou pouco me lixando para o emprego de quantos acadêmicos, há quatro décadas, sejam remunerados pelo Estado brasileiro para colaborar com a ingerência cubana, soviética e chinesa nos assuntos nacionais, seja sob a forma de guerrilhas, seja de sua ocultação. Cada salário que essa gente recebeu é pagamento, extorquido da vítima, em recompensa de um ato mensal de traição. Não afirmo que este seja o caso pessoal da professora Denise, da qual nada sei. Mas que ninguém venha dizer que acuso somente um dos lados, pois não me canso, nesta coluna e em outras publicações, de denunciar os que hoje recebem dinheiro de fundações americanas para minar as bases da identidade nacional. Que freqüentemente sejam os mesmos que trabalham para Cuba, é coisa indigna de espanto. Traição é traição, qualquer que seja o país estrangeiro beneficiado por ela.

Em 5 de maio de 2001

O Imperio Da Vontade

5 de janeiro de 2006 | Jornal do Brasil

Se há um esforço inútil, embora inevitável, é o de contestar o relativismo. É inevitável porque objeções relativistas são fáceis de aprender, fáceis de repetir e acessíveis gratuitamente a qualquer bobão interessado em debater o que ignora. Não importa o que você diga, elas começarão a saltar por todo lado como sapinhos histéricos, e você não terá remédio senão sair caçando uma a uma ou admitir que teria sido melhor ficar quieto desde o início.

Não que a dificuldade de caçá-las seja notável. Superar o relativismo é a escola maternal da filosofia (ingressar nele é o berçário). O problema é que, sendo meras combinações automáticas de juízos, prescindindo de qualquer apreensão da realidade, elas têm uma facilidade enorme de reproduzir-se em formatos variados, diferentes só em aparência, sem a menor chance de o interlocutor fazer parar a proliferação mecânica de ranhetices mediante o apelo à percepção dos fatos. É como você discutir online com um programa de computador, sem nenhuma consciência humana para lhe responder do outro lado da linha.

Pior ainda: por serem imunes ao teste da realidade, as objeções relativistas não podem ser objetos de crença. Crer num juízo é crer na realidade do seu conteúdo. Abstraída a realidade, a mente opera num espaço separado onde pode haver apenas autopersuasão hipotética, como num teatro. Não crença efetiva. No mundo real, essas objeções só podem funcionar como atenuantes de crenças positivas, nunca tornar-se elas próprias crenças positivas. Nesse sentido, todo mundo é um pouco relativista quando revê suas idéias (ou as alheias) e as hierarquiza segundo o grau de certeza que parecem ter. Mas ninguém é relativista além desse ponto. Nenhum relativista acredita em relativismo, exceto de maneira experimental e provisória. Debater com ele só pode servir para treinamento ou diversão e para nada mais.

O corolário é incontornável: se ele insiste muito nas objeções, se as defende com o ardor de quem acreditasse nelas positivamente, está fingindo. Ele crê em alguma outra coisa, e usa as investidas relativistas como barreira de proteção para que sua própria crença não seja posta em exame. Todo ataque relativista muito enfático encobre um autoritarismo secreto que mantém o adversário ocupado na defensiva só para poder em seguida triunfar sem discussão. Reparem na presteza com que esse tipo de relativista, ao sair do exame das opiniões adversárias para a defesa das suas próprias, passa do discurso dubitativo às afirmações intolerantes que se ofendem até às lágrimas, até à apoplexia, ante a simples ameaça de objeções. O relativismo militante é um véu de análise racional feito para camuflar a imposição, pela força, de uma vontade irracional. Sua função é cansar, esgotar e calar a inteligência para abrir caminho ao “Triunfo da Vontade”. É um método de discussão inconfundivelmente nazista.

Se você estudar Nietzsche direitinho, verá que toda a filosofia dele não é senão a sistematização e a apologética desse método, hoje adotado pela tropa inteira dos ativistas politicamente corretos. Por trás de toda a sua estudada complexidade, a estratégia do nietzscheísmo é bem simples: trata-se de dissolver em paradoxos relativistas a confiança no conhecimento objetivo, para que, no vácuo restante, a pura vontade de poder tenha espaço para se impor como única autoridade efetiva. Descontada a veemência do estilo pseudoprofético, não raro inflado de hiperbolismo kitsch , não há aí novidade nenhuma. É o velho Eu soberano de Fichte, que abole a estrutura da realidade e impera sobre o nada. É a velha subjetividade transcendental de Kant, que dita regras ao universo em vez de tentar conhecê-lo. É o velho mestre Eckart, proclamando modestamente que Deus precisa dele para existir. É o velho sonho alemão de ser o umbigo do mundo, ou melhor, de fazer do mundo um apêndice do umbigo. Adolescentes vibram com coisas assim. Só alguns deles crescem para perceber a diferença entre essas frescuras e a autêntica filosofia.

Em 5 de janeiro de 2006

O Poder Da Loucura I

5 de dezembro de 2011 | Diário do Comércio

O discurso comunista mudou muito ao longo dos tempos. Começou declarando que a classe revolucionária, incumbida de destruir o capitalismo, era o proletariado industrial. Desde Herbert Marcuse, acredita que os proletários são uns vendidos e que a tarefa de transformar o mundo cabe aos estudantes, prostitutas, bandidos e drogados (e, no Brasil, aos funcionários públicos, que Marx considerava aliados naturais da burguesia). Começou proclamando que idéias e doutrinas eram apenas um véu de aparências tecido em cima do interesse de classe. Decorrido um século e meio, admite, com Ernesto Laclau, que as classes nem mesmo existem, que são criadas pela propaganda revolucionária conforme os interesses do Partido no momento.

É difícil debater com gente que muda de conversa cada vez que a discussão aperta.

Mas uma coisa é inegável: a mentalidade comunista, que no início era um bloco dogmático de idéias prontas, foi se tornando uma trama obscura e proteiforme, um labirinto móvel de subterfúgios e desconversas, quase impossível de descrever. Na mesma medida, a adesão ao comunismo, que era a aceitação pura e simples de um esquema explicativo prêt-à-porter , foi se transmutando num processo psicológico complexo que se parece menos com a crença numa “ideologia” do que com a contaminação neurótica numa massa turva de sentimentos confusos.

Esse processo reflete a adaptação progressiva do movimento comunista a situações culturais criadas pelo descrédito intelectual do marxismo originário e pela necessidade de substituí-lo por novas versões cada vez mais escorregadias, imunes à crítica racional.

Ao longo desse processo, a propaganda comunista, que no início era propriamente uma “doutrinação”, repetição obsessiva de teses dogmáticas, foi se transformando cada vez mais num envolvimento emocional sem conteúdo doutrinal explícito, inoculando nos militantes menos uma concepção do mundo que um sentimento de participação comunitária fundado no ódio a entidades cada vez mais vagas e menos definíveis.

Em vez de perder credibilidade, porém, o discurso comunista ganhou força com isso, precisamente na medida em que já não é mais um “discurso” em sentido estrito e sim um aglomerado de símbolos de grande penetração emotiva, muitos deles não-verbais, que apelam por igual às frustrações e ressentimentos mais disparatados, unificando, por incrível que pareça, o ódio de feministas e gayzistas à moralidade religiosa tradicional e a hostilidade fundamentalista islâmica ao imoralismo decadentista das sociedades ocidentais. A coerência do discurso ideológico já não importa mais: só o que conta é a sedução, infinitamente adaptável aos interesses mutuamente contraditórios dos grupos sociais mais diversos, todos mesclados numa atmosfera emocional difusa onde todos os gatos são pardos e todos os pretextos são bem-vindos.

Por isso mesmo, a mente dos comunistas individuais, especialmente daqueles que atuam publicamente como “intelectuais”, foi se tornando cada vez mais complexa e inapreensível, suas falas cada vez mais elusivas e escorregadias, ao ponto de que suas opiniões já não podem ser “discutidas”, apenas analisadas como sintomas de um estado de espírito nebuloso que elas não expressam diretamente, apenas insinuam por entre sombras, como na linguagem dos sonhos.

A coesão de um discurso pode ser interna ou externa. No primeiro caso, as partes estão unidas umas às outras por um vínculo lógico. No segundo, pela referência a um conjunto de fatos ou coisas reconhecíveis. As duas formas de coesão podem vir articuladas, quando a coerência interna do discurso busca refletir com fidelidade um conjunto de relações objetivas.

Mas há ainda uma quarta possibilidade: o discurso nem é coerente consigo mesmo, nem reflete adequadamente uma realidade, nem articula essas duas exigências, mas continua exercendo, ao menos sobre certo público, um efeito persuasivo como se realizasse perfeitamente, e simultaneamente, as duas modalidades de coerência.

Isso acontece quando, sob a aparência de defender idéias ou expor fatos, ele não faz realmente nem isto nem aquilo, mas expressa apenas o sentimento de identidade do grupo social a que se destina. Como aí as idéias e fatos já não interessam por si mesmos, mas apenas como símbolos evocadores de certas reações emocionais, tudo o que o discurso precisa para que o aceitem como veraz e coerente, sem ser uma coisa nem a outra, é usar os símbolos corretos, capazes de despertar automaticamente as respostas instintivas desejadas. Para isso, evidentemente, esses símbolos têm de ser de uso geral e corrente no público-alvo: têm de ser lugares-comuns, chavões, frases feitas, clichês.

Uma linguagem de clichês pode ser usada deliberadamente, com arte e técnica, por um demagogo ou propagandista hábil, dominador dos meios de manipular as emoções do público. Mas também pode acontecer que, usada em excesso, ela se dissemine ao ponto de usurpar o lugar das outras formas de discurso, tornando-se o linguajar geral e espontâneo, o modo de pensar de todo um grupo falante, de toda uma coletividade de “intelectuais”. Neste caso, a intenção de manipular torna-se praticamente inconsciente, o que era demagogia torna-se uma forma de inocência perversa cujo praticante já não pode enganar os outros senão na medida em que se engana a si mesmo. A mentira deliberada desaparece do horizonte de consciência e se transmuta em fingimento histérico, constantemente reforçado pela autopersuasão compulsiva, em que a falsidade absoluta dos pretextos alegados contrasta pateticamente com a intensidade real dos sentimentos que despertam. O processo culmina num estado de completa alienação, em que vidas inteiras se constróem sobre a ignorância radical das condições objetivas que as fundamentam.

Quanto mais vasto o grupo social envolvido nesse jogo de teatro, mais vigoroso o reforço que cada um dos atores recebe de seus pares. Na mesma proporção, vai-se ampliando a permissão para a prática costumeira da incoerência e da falsidade, até que todo resíduo de compromisso com a razão e os fatos seja por fim abolido, trocado pela intensificação crescente do sentimento de identidade grupal, que a essa altura passa a valer como o único critério de veracidade concebível.

Não é preciso dizer que esse sentimento, na medida em que se intensifica, fortalece a coesão e a capacidade de ação unificada do grupo envolvido, resultando, por vezes, em acréscimo do seu poder político. Assim se explica o paradoxo aparente de que, ao longo do século XX, os grupos mais intoxicados de idéias inverídicas e absurdas – os comunistas e os nazistas – saíssem freqüentemente vencedores na disputa com adversários mais sensatos e realistas. Invertendo o otimismo inaugural da modernidade, que pela boca de Sir Francis Bacon proclamava “Conhecimento é poder”, a evolução dos acontecimentos mostrou que, se esse slogan continua válido no campo da ciência, da técnica e da indústria, na política a ignorância, a inconsciência e a loucura são armas nada desprezíveis – e isto não apenas no sentido banal de que a sonsice das massas pode ser manipulada por um demagogo esperto, mas no sentido mais temível de que o manipulador pode ser tornar tanto mais eficiente na medida em que ele próprio é ignorante, inconsciente e louco.

No Brasil, o fenômeno de alienação aqui descrito se apossou de praticamente toda a intelectualidade esquerdista ao longo do processo mesmo da conquista da hegemonia e do poder pelos partidos de esquerda, o sucesso político reforçando a loucura ao mesmo tempo que se beneficiava dela.

Há muitos anos não leio uma só linha escrita por intelectual de esquerda neste país onde não note uma linguagem de chavões auto-hipnóticos substituindo e abolindo as exigências mais elementares da razão e do senso de realidade. Os exemplos são tantos e tão onipresentes, que a única dificuldade em colhê-los é o embarras de choix . Em compensação, eles se parecem tanto uns com os outros, a uniformidade psíquica que os inspira no fundo é tão patente e repetitiva, que examinar um deles é, de certo modo, dar conta de todos eles.

Das Criancas E Dos Passaros

5 de dezembro de 2001 | 5 de dezembro de 2001

Há algo em comum entre as crianças e os pássaros, mais precisamente entre crianças em idade escolar e os pássaros aprendendo a voar? Parece haver um paralelo bem cruel: as crianças que não conseguem aprender algo para a vida, hoje em dia confundido esse algo com o escolaridade formal, fracassam e podem morrer, assim como os pássaros, ao fazerem seu primeiro vôo, fazem a sua prova de fogo, a diferença entre sobreviver e morrer jovem. Quem, como eu, costuma ver os programas do Canal Discovery, que mostra a vida selvagem, e também ler revistas de divulgação científica sobre o assunto, sabe que a taxa de mortalidade de jovens pássaros é elevada nesse instante capital da sua existência.

Há ainda uma metáfora implícita na comparação: a aquisição de conhecimento como a aquisição de asas para os grandes e pequenos vôos da existência. De fato, aqueles que não têm a luz do saber estão condenados à uma vida rasteira, terrestre, não apenas do ponto de vista material, mas sobretudo do ponto de vista espiritual. É uma metáfora apropriada.

O artigo que o educador, psicanalista, escritor e professor emérito da Unicamp, Rubem Alves, publicou hoje na página três da Folha de São Paulo usa a metáfora de modo absolutamente inapropriado e diria mesmo equivocado. O título do artigo é “Gaiolas e asas”. O tema me atraiu a atenção, pois creio que um dos problemas centrais dos tempos modernos está ligado precisamente à formação da juventude, pois os núcleos tradicionais de formação, especialmente na sua parte moral – a família e as igrejas – estão perdendo espaço para concorrentes que não podem substituí-los, basicamente os meios de comunicação – com destaque para a televisão – e as escolas. Às famílias caberia sobretudo encarregar-se da solidez moral da criança e do adolescente, mas a instabilidade muito freqüente do núcleo familiar, e a ausência prolongada dos pais a trabalhar, têm deixado as crianças aos cuidados das comunicações eletrônicas e das escolas. As crianças ficam, por assim dizer, órfãs de seus principais educadores.

Ruben Alves diz que lhe ocorreu um aforismo: “Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas”. Até aí, um dito espirituoso que, visto mais de perto, não significa muita coisa. Diz mais: “Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar programas, fazer... avaliações. Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e as domadoras com os seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a forças dos tigres”.

O que o educador, psicanalista e professor quis nos dizer com isso? Que os pobres passarinhos, por culpa da burocracia, que exige a aplicação de programas e critérios de avaliação de desempenhos, por fazer isso, são transformados em tigre ferozes e indomáveis.

Ele está completamente equivocado. E não é apenas na periferia que vemos esse tipo de fenômeno. Eu mesmo tinha filhos em escola privada de renome, situada da Vila Nova Conceição, em São Paulo, na qual o mesmo fenômeno ocorria. Os relatos que ouvia eram de horror, de atos cometidos pelos herdeiros das mais finas famílias da cidade de São Paulo. Então investiguei o problema e concluí que a origem do mesmo estava no uso de métodos pedagógicos errados, licenciosos, que premiam a desobediência e a falta de educação dos alunos, que reduzem a autoridade dos mestre a nada, que adulam adolescente em fase de formação como se eles soubessem já de alguma coisa. Coloquei os meus garotos em escola mais rigorosa – nominalmente o Colégio Bandeirantes, em São Paulo, e o problema acabou, pois ali se exige disciplina e desempenho acadêmico e aqueles que não estão interessados em estudar são convidados a procurar outra instituição de ensino. Resolvi o problema dos meus filhos, mas não o da educação em geral, obviamente. Mas ficou a experiência.

Então posso dizer que o raciocínio do ilustre educador contem dois erros em sua gênese: a de que o problema está nas escolas da periferia da cidade e que os culpados pelos pássaros serem transformados em tigres sejam as exigências formais de programa e avaliação. Penso que é o contrário: onde essas exigência foram atenuadas e abolidas a desordem foi instalada e o respeito devido pelos alunos aos mestres desapareceu, levando com ele o sentimento de hierarquia entre alunado e o professor, essencial para que haja ordem na sala de aulas. O respeito devido ao mestre é na verdade o respeito ao Saber.

Aí o ilustre professor incorre em um terceiro erro, ao fazer a seguinte afirmação: “Violento, o pássaro que luta contra o arame da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?”

Obviamente que ele não percebeu a inversão da própria afirmação inicial: que os adolescentes são violentos como tigres. Agora as escolas é que são violentas porque supostamente prendem os aluno? Está correto isso? É claro que não, a começar pelo fato de que ninguém, se não quiser, precisa ir à escola, por mais que o Estado e suas leis e mesmo os pais digam o contrário. Inúmeros jovens simplesmente não vão à escola porque se recusam a ir e ninguém tem o poder de demovê-los. Os que vão é porque querem. Então, por princípio, a escola não aprisiona ninguém. Não obstante, o comportamento desses jovens torna-se, na sala de aula, selvagem. E por que? O ilustre professor não responde, mas continua a sua argumentação sofística:

“Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?” E tenta responder: “O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos de novos exames elaborados pelo Ministério da Educação... Mas será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação?”

Ora, o nosso psicanalista não percebeu que entrou aqui com uma pergunta que ficou sem resposta e respondeu a uma pergunta que não foi formulada, ficando escondido o lapso de raciocínio. Comportamentos civilizados na sala de aulas (ou a sua falta) nada têm a ver com conteúdo programático de coisa nenhuma e muito menos ainda com critérios de avaliação. Têm a ver com a formação moral dada (ou deixada de dar) pelo país, pelas igrejas, pelos meios de comunicação, pelas escolas, pela postura reta (ou pusilânime) dos mestres, pelos instrumentos pedagógicos utilizados. Um coisa é o que se dá como conteúdo – e é de se esperar uma harmonia do conteúdo programático das disciplinas pelo País afora – legítimo papel a ser desempenhado pelo Estado. Outra coisa é a educação essencial que prepara o jovem para o ato de aprender – os bons modos. Uma coisa é o que deve ser (ou não) dado, outra a predisposição dos jovens para receber o que se lhes oferece.

Na verdade, o nosso professor emérito deixa de reconhecer que a nossa sociedade tem crescentemente desvalorizado os mais velhos e valorizado os mais jovens, os filhos valem mais que os pais (há algo mais emblemático do que a Bolsa-escola, que remunera o moleque e não o pai, que é responsável e frequentemtemente não encontra os meios para exercer a responsabilidade como desejaria? Por que não Bolsa-pai ou Bolsa-mãe, que manteria a hierarquia geracional e a dignidade dos progenitores? Dá para imaginar alguns bolsistas a dizerem: “se tentar me enquadrar, não vou à escola e aí então não tem bolsa”, numa completa inversão de valores). Que o problema está na quebra da hierarquia entre os que sabem e os que não sabem. Que essa revolução cultural é o princípio de toda a confusão escolar, a começar pela falta de disciplina que descamba para comportamentos grupais violentos e incontroláveis. A burocracia e o Estado não têm culpa nisso; as crenças pseudopedagógicas, sim, pois estão na raiz da quebra da necessária hierarquia.

Depois, para fechar com chave de ouro o artigo, cita Nietzsche, afirmando que “O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida”. Será? A vida na verdade é a síntese entre corpo e alma e o corpo morto é ainda um corpo, logo a proposição dele – e a de Nietzsche, e aqui me refiro explicitamente ao Zaratustra , no discurso “Dos Desprezadores do Corpo” – está errada. Nietzsche tem uma exposição confusa das suas idéias, que podem apoiar muitas outras idéias confusas, mas a sua obra, vista em conjunto, tem um sentido e pode ser interpretada e compreendida para além das confusões das partes isoladas. E se há alguém que experimentou com toda a intensidade as experiência da alma, foi Nietzsche, cujo corpo foi um exemplo acabado de fraqueza. Mas isso já é uma outra história, a merecer ela própria um artigo.

O que o ilustre educador quer afirmar é que a inteligência é ferramenta e brinquedo do corpo. Ora, isso não é possível. Nós não somos robôs, como no AI do Spillberg. Aliás, os robôs desse roteiro do Kubrick adquirem alma e seus corpos não são mais senhores de nada, o que vale é o coração (metafórico, claro, significando o Amor) e a compreensão, em resumo, a alma. Ela, sim, é o sujeito, o que nos torna semelhantes a Deus, o que nos dá o discernimento, o livre arbítrio, a capacidade para compreensão, única na criação, a tornar-nos, a nós próprios, criadores. O corpo, a matéria em si, nada é.

“Brinquedos que me permitam voar pelo caminhos da alma”, afirma o meritório mestre. Alma ou corpo? Ficou a dúvida, pelo menos a minha. “Assim, todo professor, ao ensinar, teria que se perguntar: ‘Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo’. Se não for, é melhor deixar de lado”.

Cerebros Lavados E Enxaguados

5 de agosto de 2001 | puggina@via-rs.net

Sempre que se fala de Cuba surge a idéia de um sistema de ensino universalizado e gratuito. Isso é verdade. Todas as crianças em idade escolar estão em sala de aula, seja no ensino fundamental, seja no ensino médio. Uma percentagem que deve andar na ordem dos 30% (e já foi bem maior do que isso) dos estudantes que concluem o nível secundário, ingressam na universidade, também ela gratuita.

Guardo dúvidas, porém, sobre a qualidade desse ensino. O nível cultural das pessoas com as quais se conversa nas ruas, embora superior ao que se percebe no Brasil, é evidentemente inferior ao que se vê, por exemplo, na Argentina e no Uruguai. E o grau de informação da sociedade, em virtude do absoluto controle do Estado, chega ao nível da incubação. Aliás, para definir Cuba, incubação é uma boa palavra.

Durante minha estada, os dois jornais locais ( Granma , do Partido Comunista, e Juventud Rebelde , da juventude comunista) noticiavam em manchete que Fidel prometera colocar um televisor e um computador em cada escola durante o ano de 2002. Ora, um televisor sem videocassete, para assistir os dois canais estatais, é pior que nada, e um computador não é exatamente um laboratório de informática. De fato, conversando com estudantes, isto salta aos olhos: eles não têm a menor idéia sobre o que seja um computador. Que qualidade terá um sistema de ensino contido por tais carências?

Por outro lado, o III Congresso Pioneril (congresso das criancinhas comunistas), cujo encerramento presenciei, me forneceu prova cabal de que a amplitude do sistema educacional é impulsionada pela necessidade de universalizar a manipulação da infância e da juventude para as causas do regime e da revolução. Era de se ver o ardor revolucionário e o conteúdo ideológico que aqueles meninos e meninas com até 10 anos de idade expressavam em discursos cuja veemência e vigor deixariam constrangidos muitos deputados da esquerda local. Cérebros infantis lavados e enxaguados em sala de aula!

Aquilo me assustou. E me assustou mais ainda porque percebo o empenho que hoje se faz no ensino público do Rio Grande do Sul, na mesma direção, e contra o pluralismo, seja através da Constituinte Escolar e dos materiais enviados pela SEC à rede de ensino, seja pela manipulação dos concursos públicos, usados para seleção ideológica dos futuros “trabalhadores em educação”. Nos limites do possível, também aqui se tenta, por vários mecanismos, manipular os corações e as mentes infantis.

Percival Puggina é arquiteto, político, escritor, presidente da Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e de Administração Pública.

Em 5 de agosto de 2001

Leituras

Educacao X Marxismo

5 de agosto de 2001 | pedroprocha@netpar.com.br

A influência da psicanálise tem sido considerável na educação. A visão psicanalítica foi adotada, inclusive, pelos marxistas, que hoje dominam praticamente toda a área do ensino, não só no país, como em grande parte do mundo ocidental. Eles compreenderam que atingiriam melhor os seus propósitos, ainda que a longo prazo, se “fizessem a cabeça” dos jovens.

Isto levou grupos que ambicionam subjugar as massas e incutir-lhes suas doutrinas, a ter, como objetivo prioritário, o domínio de todas as instituições através das quais poderia controlar a vida intelectual da sociedade, em particular as escolas, universidades e a mídia. Assim, a educação assumiu um cunho nitidamente político, alvo de todos os grupos sectários ou religiosos.

Um dos exemplos mais fragrantes se deve ao pedagogo Paulo Freire, que ficou famoso por seus métodos, destinados preferencialmente à alfabetização de adultos, em especial operários e camponeses. Conforme revela o dominicano frei Beto, em pronunciamento por ocasião de sua morte, “ a pedagogia que defende tem por fim a conscientização “. (* O Globo, maio/1997) O primordial não seria a alfabetização, mas sim “ a formação de uma consciência das relações sociais “, segundo exposto na sua obra “A Pedagogia do Oprimido “, evidentemente ensinada sob a ótica marxista. Ou, como afirmou o padre Júlio Lancelloti, que oficiou a missa de corpo presente: “ Paulo Freire nos ensinou que a educação é um ato político “. Poderíamos melhor dizer, que transformaram a educação em um ato político, em que ela é usada para doutrinar politicamente o aluno.

Com resultado, a impressionante constatação de que, nas décadas de 60 e 70, “ não havia quarto de adolescente pequeno burguês, ou de filhinho de papai, que não tivesse na parede o rosto do Guerrilheiro Infeliz – Che Guevara – ao lado dos quatro Beatles “. (* O Globo, 29/9/96) Situação induzida por seus professores, nas salas de aula. Aliás a inexplicável atração que a rebeldia exerce sobre artistas, estudantes e intelectuais, “ provocou a maior peregrinação de celebridades à região zapatista, situada em plena selva, no México, e que se tornou a nova Meca da esquerda. Eles vão se confraternizar com o último foco de resistência armada ao neoliberalismo da América Latina “. (* Globo 12/maio/96) O mais surpreendente neste contexto de boas intenções, e a exigência destes “intelectuais” de se suprimir todo o tipo de censura, sob a estulta alegação de preservar a liberdade de expressão. A conseqüência mais imediata é a divulgação de técnicas de construção de bombas e atentados biológicos, através da Internet, propiciando a expansão dos atos terroristas que, durante os últimos meses de 1996, passaram a ameaçar até Curitiba e Rio de Janeiro.

Foi na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro que o ex-terro­rista Gabeira promoveu o “abraço a lagoa”, em defesa da “soberania nacional” e da “reserva de mercado”, e contra os contratos de risco na exploração do petróleo. O deputado Gabeira, que participara do seqüestro do embaixador americano, é o eterno defensor de idéias exóticas, como a liberação da maconha, a oficialização do nudismo e o casamento entre gays. Naquela instituição, durante a década de setenta, foi promovida a maior perseguição universitária aos professores que antagonizavam o marxismo. Ação por mim prevista, em carta dirigida em 1973 ao padre Mac Dowell, então reitor daquela universidade, e em denúncia entitulada “A já não mais velada ameaça marxista”, ambas ignoradas. O que lhe custou, pouco tempo depois, a demissão, por exigência destes grupos, que cobraram o seu afastamento quando, tardiamente, pretendeu conter seus excessos.

O processo evoluiu “usando uma tática simples: expurgaram os adversários até que eles constituíssem uma minoria e dai por diante passaram a resolver todas as questões pelo ‘voto democrático’, obedecendo altaneiramente a vontade da maioria”. (JB 13/5/79) Iniciaram minando progressivamente as bases, alijando principalmente todos os professores militares, oriundos do IME, que tinham construído o Centro Técnico Científico, concluindo com a demissão daqueles que ocupavam cargos de maior destaque, como os professores Anna Maria Moog e Antônio Paim, do departamento de Filosofia, Aroldo Rodrigues, diretor do departamento de psicologia e Arthur Rios, diretor do departamento de Sociologia, a pretexto de restruturação do ensino. Foram afastados, inclusive, dois professores da área biomédica que tinham sido citados no livro “Brasil Nunca Mais”, como envolvidos em colaboração com a repressão política, um deles o Dr. Rubens Janini, numa condenação sem julgamento e sem direito à defesa. Era a prática do que se poderia chamar de “aplicação unilateral da anistia”, porque, simultaneamente, conhecidos terroristas, envolvidos em assaltos a bancos, seqüestros, assassinatos e guerrilhas, eram recebidos de braços abertos, em cargos de projeção, por todo o país.)

Este é o grande perigo da ingerência política na educação: impedir que o aluno forme a sua própria consciência, robotizando-o e incutindo-lhe preceitos doutrinários.

Não foi, portanto, atoa que as Igrejas católica e metodista implantaram uma vasta rede escolar. Esse fator foi muito usado não só pelos regimes totalitários, como foi o caso da Alemanha, onde os nazistas criaram a juventude hitleriana, e na URSS, em que o Partido Comunista controlava a educação com mão de ferro. Mas também o é, disfarçadamente, por todos os grupos que ambicionam o poder. Se os marxistas já haviam entendido isso, desde cedo, e se infiltraram no corpo docente das escolas e universidades, os psicanalistas não ficaram atrás. Intervieram abertamente na educação, procurando introduzir seus conceitos.

Muitas lideranças terroristas, por exemplo, são constituídas, classicamente, por professores universitários. Yasuo Hayashi, o mais procurado líder da seita Verdade Suprema, de 38 anos, foi Ministro da Ciência e Tecnologia do Japão. Era o responsável pela fabricação do gás sarin que, em 20 de março de 1995, matou 12 pessoas e intoxicou mais de cinco mil, em um atentado no metrô de Tóquio. O famoso terrorista Unabomber, procurado durante muitos anos por ser o responsável por inúmeros atentados nos EUA, era nada mais nada menos que o professor universitário Theodore John Kaczinki. O sanguinário Pal Pot, que assassinou milhões de pessoas no Laos, se formou no famoso Quartier Latin. Foi dos bancos das universidades saíram inúmeros militantes do Tupac Amaru e do Sendero Luminoso, que abraçaram a luta armada, sob inspiração maoista, no Peru.

O que leva um “intelectual”, com formação superior, a praticar atos terroristas que atingem centenas de vítimas inocentes e encaminhar seus alunos para sendas tortuosas? A única explicação talvez seja que “ a atividade intelectual e científica, em geral, estreita a mente, ao invés de alargá-la, por força da crescente especialização dos fatos, conceitos e técnicas. A medida que eles se aprofundam, o seu alcance diminui “.(* Christian de Duve – Poeira Vital) Extraído do livro “A Psicanálise no Divã” Em 5 de agosto de 2001

Leituras

A Vinganca De Aristoteles

4 de março de 2014 | Diário do Comércio

Se você frequentou alguma dessas curiosas instituições que no Brasil se chamam “escolas”, com certeza aprendeu que na Renascença o pensamento moderno dissipou as trevas medievais, colocando a ciência no lugar de uma névoa de superstições e crendices, como a magia, a alquimia e a astrologia. Se chegou à universidade, então, adquiriu a certeza absoluta de que foi isso o que aconteceu.

Pois é, aprendeu tudo errado. O assalto moderno ao pensamento escolástico predominante na Idade Média começou justamente trazendo de volta as práticas mágicas que a escolástica havia expulsado dos domínios da alta cultura.

Os pioneiros da modernidade – Tommaso Campanella, Giordano Bruno, Pietro Pomponazzi, Lucilio Vanini, entre outros – não só eram crentes devotos das artes mágicas, mas sua revolta contra a escolástica baseou-se essencialmente no desejo de colocá-las de novo no centro e no topo da concepção do mundo.

O advento da física matematizante e mecanicista de Descartes e Mersenne, em seguida, voltou-se muito menos contra a escolástica do que contra essa primeira leva de pensadores modernos, e nesse empreendimento serviu-se amplamente de argumentos aprendidos da escolástica.

A única diferença substantiva entre o mecanicismo de Descartes-Newton e a escolástica é que esta última, seguindo Aristóteles, não apostava muito no método matemático, cujo repentino sucesso a pegou desprevenida e desarmada.

A física aristotélico-escolástica era baseada nas qualidades sensíveis dos corpos, das quais ela obtinha, por abstração, os seus conceitos gerais. A ciência moderna desinteressou-se da “natureza” dos corpos e concentrou-se no estudo das suas propriedades mensuráveis. Daí resultou a concepção mecanicista, na qual todos os processos naturais se reduziam, em última análise, a movimentos locais e obedeciam a proporções matemáticas universalmente válidas.

No mais, o mecanicismo cartesiano concordava em praticamente tudo com a escolástica, especialmente no tocante às provas da existência de Deus e da alma, bem como à liberdade humana.

Hoje sabe-se que Descartes e seu amigo Marin Mersenne não estavam interessados em destruir a escolástica, mas em salvá-la da contaminação mágico-naturalista para a qual a antiga física das “qualidades” deixava o flanco aberto.

O mundo, porém, dá voltas. Aristóteles não levava a sério o método matemático porque não acreditava que nada na natureza se conformasse exatamente a qualquer medição ou regularidade inflexível. Para ele, o método certo para o estudo da natureza era a dialética, que não leva a conclusões lógicas perfeitas e acabadas, mas somente a probabilidades razoáveis.

O desenvolvimento da física quântica, no século 20, mostrou que as leis inflexíveis da física newtoniana só valiam para o quadro das aparências macroscópicas, mas que a matéria, na sua constituição mais íntima, admitia irregularidades e imprevistos que só podiam ser apreendidos numa ótica probabilística.

Aristóteles, portanto, não estava realmente errado. Apenas ele não tinha os instrumentos matemáticos para expressar numa linguagem quantitativa a sua noção de um universo probabilístico. Esses instrumentos, por ironia, vieram a ser criados justamente pela ciência moderna que desbancou temporariamente a física aristotélica. Sem a arte do cálculo, descoberta por Newton e Leibniz, a física quântica seria impossível, mas desde o advento desta última o abismo que separava o probabilismo aristotélico da física matematizante foi transposto. Um pouco mais adiante, uma releitura mais atenta da Física de Aristóteles mostrou nela, por baixo de erros de detalhe (por exemplo, quanto às órbitas planetárias), uma metodologia científica geral bastante fecunda e compatível com as exigências modernas. Na celebração dos 2400 anos do seu nascimento, em 1991, Aristóteles provou que ainda era até mais popular entre os cientistas do que entre os filósofos de ofício.

E, no seu livro O Enigma Quântico, o físico Wolfgang Smith demonstrou que todas as chaves conceptuais para uma fundamentação filosófica da física quântica já estavam dadas com séculos de antecedência na escolástica de Santo Tomás de Aquino. Era a vingança completa.

Não há um só historiador das ciências, hoje em dia, que ignore que foi exatamente assim que as coisas se passaram. Contudo, nas universidades brasileiras, parece que essas novidades velhas de meio século ainda não chegaram.

A mídia brasileira, a mesma que escondeu por dezesseis anos a existência da mais poderosa organização política que já existiu no continente, levou mais de uma semana para admitir a realidade do massacre que estava e está ocorrendo na Venezuela, e mesmo assim o noticiou com discrição monstruosamente desproporcional com a gravidade dos acontecimentos. Acreditar que a Folha, O Globo e o Estadão pratiquem algo que mereça mesmo figuradamente o nome de “jornalismo” é apenas superstição residual. É a perna que continua se mexendo depois que o sapo morreu. Prefiro ouvir a www.radiovox.org .

Do Enigma Ao Desastre

4 de junho de 2014 | Diário do Comércio

Os historiadores do futuro, se houver futuro, talvez nos dêem a solução do maior enigma político de todos os tempos. Por enquanto, tudo são névoas e perguntas sem respostas.

Um homem que veio não se sabe de onde, que nunca teve um emprego fixo, que pagou seus estudos nas universidades mais caras com dinheiro de fonte misteriosa, que trocou de nome pelo menos quatro vezes, que nunca exibiu um só documento de identidade válido mas apresentou pelo menos três falsificados, que tem uma história de vida toda repleta de episódios suspeitos e passou anos em companhia íntima de gangsters e terroristas, um dia se elegeu senador pelo estado de Illinois e, depois de somente alguns meses de experiência política – se é que se pode chamar de experiência a ausência na maioria das sessões –, foi guindado à presidência da nação mais poderosa do globo, sob aplausos gerais.

Despertou em centenas de milhões de eleitores a maior onda de esperanças messiânicas de que se tem notícia desde Lênin, Mussolini, Stálin, Hitler e Mao Dzedong. Decorridos seis anos de uma administração indescritivelmente desastrosa, continua no posto, impávido colosso, sem que ninguém possa investigar as zonas obscuras da sua biografia sem ser xingado de tudo quanto é nome pelos maiores jornais do país, bem como pela elite dos dois partidos, Democrata e Republicano.

Aparentemente a obrigação mais incontornável do eleitor norte- americano, hoje em dia, é deixar-se governar sem perguntar por quem, fazendo de conta que tudo está perfeitamente normal.

Uma vez persuadido a acomodar-se a essa situação, sob pena de tornar-se um inimigo público, o cidadão está pronto para aceitar silencioso e cabisbaixo qualquer decisão que venha do governo, por absurda, imoral e inconstitucional que seja.

A última foi essa incrível troca de cinco dos mais temíveis líderes do Taliban por um soldadinho desertor – sem consulta ao Senado, é claro, o que soma à injúria o insulto.

Mas antes disso o número e a gravidade dos crimes do presidente já haviam ultrapassado as mais tétricas especulações futuristas: duplicou a dívida nacional que prometera reduzir, desmantelou o sistema de saúde para colocar em seu lugar a fraude monumental do Obamacare, pressionou hospitais religiosos para que realizassem abortos, entregou armas a traficantes mexicanos e terroristas sírios, encheu de dinheiro estatal firmas falidas de seus amigos e contribuintes de campanha, desmoralizou o dólar, estragou as relações diplomáticas com Israel, fez mil e um discursos culpando os EUA de tudo quanto acontece de mau no mundo, teve dezenas de encontros secretos com membros e parceiros da Fraternidade Muçulmana, usou o imposto de renda para perseguir inimigos políticos, instalou um monstruoso sistema de espionagem interna para chantagear jornalistas, incentivou o quanto pôde o ódio racial, armou a polícia civil com equipamentos de guerra para aterrorizar cidadãos desarmados, acabou com a liderança americana no mundo, recusou socorro a um embaixador cercado por terroristas e, depois que ele foi assassinado, tentou enganar o país inteiro com a historinha ridícula de que foi tudo culpa de um vídeo do youtube.

Nesse ínterim, tirou mais férias, deu mais festas e jogou mais partidas de golfe do qualquer dos seus antecessores, além de faltar sistematicamente ao “briefing” diário com seus assessores. Nas horas vagas, sua esposa se dedicava a uma campanha altamente humanitária para que as crianças comessem mais nabos e menos batatinhas fritas, provocando a ira da população infantil.

A sucessão de ações maldosas e antipatrióticas, entremeada aqui e ali de futilidades obscenas, é tão incessante, tão coerente, que toda tentativa de explicá-la pela mera incompetência vai contra o mais mínimo senso de verossimilhança. Como escreveu Eileen F. Toplansky no último número do American Thinker, o homem não é um fracasso: é um sucesso. Sucesso num empreendimento frio e calculado de destruição do país ( ver aqui ).

Se, a despeito disso, ele continua blindado e inatingível, é porque a Constituição e as leis foram desativadas, sendo substituídas por um novo princípio de ordem: a autoridade da grande mídia, aliada à força de intimidação de uma vasta rede de colaboradores dispostos a tudo e amparada em corporações bilionárias interessadas em remover os EUA do caminho do governo mundial.

O Sistema americano, em suma, já não é mais o mesmo, e a restauração do antigo, se for possível, levará décadas. A obra de devastação foi muito além dos seus efeitos políticos imediatos: mudou o quadro inteiro da autoconsciência americana, fez da grande potência um país doente e aleijado, incapaz de reagir às mais brutais agressões psicológicas. Incapaz até mesmo de escandalizar-se.

Um Guru Da Educacao Brasileira

4 de fevereiro de 2009 | Diário do Comércio

Uma das idéias mais influentes e respeitadas na educação brasileira é a teoria da “violência simbólica”, criada por Pierre Bourdieu (v. Pierre Bourdieu e Jacques Passeron, A Reprodução. Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino , trad. Reynaldo Bayrão, 3a. ed., Rio, Francisco Alves, 1992). Por esse termo ele entende “a violência que extorque submissão não percebida como tal, baseada em ‘expectativas coletivas’ ou crenças socialmente inculcadas”. Violência simbólica é toda forma de dominação mediante impregnação inconsciente de hábitos, símbolos e valores que ao mesmo tempo impõem essa dominação e a encobrem aos olhos dos dominados, de modo que a violência é tanto mais efetiva quanto menos reconhecida.

Todo sistema educacional, desta ou de outras épocas, constitui-se, segundo Bourdieu, de “atos pedagógicos” destinados a impor um conjunto de valores culturais, sempre arbitrários e injustificáveis, por meio de “violência simbólica”. As noções de “violência” e “arbitrário” estão interligadas: “A seleção de significações que define objetivamente a cultura de um grupo ou de uma classe como sistema simbólico é arbitrária na medida em que a estrutura e as funções dessa cultura não podem ser deduzidas de nenhum princípio universal, físico, biológico ou espiritual, não estando unidas por nenhuma espécie de relação interna à ‘natureza das coisas’ ou a uma ‘natureza humana’.”

A premissa aí oculta é que, se o sistema simbólico refletisse princípios universais, a ação pedagógica não seria violência simbólica e sim persuasão racional . Mas isso, segundo Bourdieu, jamais acontece: “Toda ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica enquanto imposição, por um poder arbitrário, de um arbitrário cultural.”

Mas, se a cultura não tem fundamento, nem por isso deixa de ter utilidade – para alguns, é claro: “A seleção de significações que constitui objetivamente a cultura de um grupo ou classe como sistema simbólico é sociologicamente necessária na medida em que essa cultura deve sua existência às condições sociais das quais ela é o produto.” O esquema dominante (as “condições sociais”) não se limita a “produzir” o sistema simbólico – ele se serve dele para seus próprios fins: “...O arbitrário cultural que as relações de força entre os grupos ou classes... colocam em posição dominante... é aquele que exprime o mais completamente, ainda que sempre de maneira mediata, os interesses objetivos (materiais e simbólicos) dos grupos ou classes dominantes.”

Bourdieu apresenta esses parágrafos como uma lição de sociologia, isto é, uma descrição de como as coisas funcionam nas sociedades existentes, inclusive e primordialmente, é claro, a sociedade burguesa. Ele pretende, portanto, que a classe burguesa, na busca de seus próprios interesses, criou um sistema de significações a ser inculcado por meio de atos pedagógicos de violência simbólica nas mentes dos dominados, de tal modo que não só essas significações, mas também aqueles interesses, e a relação de poder que os atende, permaneçam invisíveis. É, convenhamos, uma operação de engenharia psicológica das mais complexas. Para realizá-la, é preciso, primeiro, agentes humanos qualificados. Uma “classe”, afinal, abrange milhões de pessoas e não é possível que todas elas participem do empreendimento. É preciso que, dentre elas, se destaquem uns quantos especialistas, os “educadores”, que estes sejam aceitos como legítimos representantes da classe, que entrem num consenso ao menos aproximado quanto aos interesses da classe que representam; é preciso ainda que esse consenso corresponda de fato aos tais interesses e obtenha, uma vez formulado, a aprovação da classe que nomeou os educadores. Partindo, pois, dessa representação meramente esquemática da situação social, eles teriam de selecionar e organizar os símbolos, estratégias e esquemas mentais mais propícios não só a produzir obediência nos dominados, mas também a manipulá-los e ludibriá-los de tal modo que não percebessem estar obedecendo a uma classe dominante, e nem mesmo a seres humanos, mas acreditassem seguir espontaneamente a natureza das coisas ou a vontade divina.

Vocês conseguem imaginar quantas assembléias, quantos grupos de trabalho, quantas pesquisas científicas, quantos projetos técnicos, quantas tentativas e erros seriam necessários para um plano dessa envergadura? Já imaginaram a imensa capacidade organizativa, os incalculáveis recursos orçamentários e, no topo da hierarquia, a mão de ferro necessária para manter a ordem, controlar o fluxo de trabalho e assegurar a produtividade num empreendimento todo feito de sutilezas psicológicas infinitamente evanescentes? Se algo dessa natureza tivesse um dia sido concebido, os trabalhos preparatórios deveriam ter deixado uma multidão de rastros: monografias acadêmicas, atas, publicações periódicas, regulamentos, ordens de serviço, etc, etc. O problema é o seguinte: nada disso existe, nada disso existiu jamais.

Se vasculharmos todas as bibliotecas, todos os registros, todos os arquivos sobre a história da educação burguesa, não encontraremos um só documento, um só memorando, uma só ata onde apareça, mesmo indiretamente, uma discussão nestes termos: “Os interesses objetivos da nossa classe são tais e quais, os meios de forçar as pessoas a trabalharem para nós são estes e aqueles, e os meios de camuflar toda a operação são x e y .” Nenhum educador, ministro da educação, professor ou inspetor do ensino primário, médio ou superior jamais disse uma coisa dessas, ou pelo menos não há documento que o registre.

Eles falam, sim, de valores, de fins da educação, de aprimoramento da inteligência humana, de virtudes cívicas, etc., mas nunca, jamais, de uma operação para forçar invisivelmente os dominados a uma conduta que, alertados, eles poderiam não aprovar. Como é possível que uma operação tão delicada não deixasse o menor rastro, senão numa linguagem tão desligada, aparentemente, de qualquer intenção manipulatória, de qualquer imposição camuflada, de qualquer “violência simbólica”? Se admitimos que essa intenção existiu, então só há, para explicar a inexistência de registros, as seguintes hipóteses:

Hipótese 1. Além de conceber um sistema de camuflagens para ludibriar os dominados, os malditos educadores burgueses ainda criaram, em cima dele, uma segunda rede de disfarces verbais para enganar os observadores futuros, isto é, nós. Mas esta segunda operação, sendo ainda mais complexa e trabalhosa do que a primeira, e só podendo ser levada a cabo depois que esta estivesse pronta, pela simples razão de que não se pode camuflar o que não existe, também não deixou para os historiadores o menor registro, o que supõe que, além da primeira camuflagem e da segunda, houve em seguida uma operação-sumiço ainda mais gigantesca do que as outras duas.

Hipótese 2. Ao planejar a manipulação dos dominados, os educadores burgueses não tinham conscientemente essa intenção, mas, enquanto serviam aos interesses objetivos da burguesia, acreditavam piamente trabalhar por valores culturais sublimes, pelo aprimoramento da inteligência etc. Isolados da realidade pelo seu próprio véu ideológico que encobria os verdadeiros interesses em jogo, planejaram inconscientemente a manipulação do inconsciente alheio e, embora trabalhassem totalmente às cegas, produziram um sistema tão organizado, racional e eficiente que conseguiram realmente fazer-se obedecer por milhões de paspalhos ainda mais inconscientes que eles – a multidão dos “dominados”. Não me perguntem como é possível uma operação tão vasta e complexa atingir miraculosamente os fins desconhecidos que, por vias ignoradas e inapreensíveis, atendem aos interesses de classe postulados, também inconscientemente, no início do processo.

Quando vemos o gênero de tolice em que os responsáveis pelas nossas escolas públicas devotamente acreditam, torna-se bem fácil explicar por que os alunos dessas escolas tiram sempre os últimos lugares nos testes internacionais.

Em 4 de fevereiro de 2009

Abandono Intelectual

31 de julho de 2008 | Diário do Comércio

O governo quer mandar à cadeia, por delito de “abandono intelectual”, todo pai ou mãe de família que tente dar instrução a seus filhos em casa em vez de deixá-los à mercê do primeiro agitador comunista, chavista, gayzista, ateísta ou abortista encarregado oficialmente de pervertê-los sob a desculpa de educá-los.

O Código Penal Brasileiro assim define aquele crime: “Deixar, sem justa causa, de prover à instrução primária de filho em idade escolar.” Em nenhuma parte do Código está dito que educar as crianças em casa é privá-las de instrução.

Quer o governo persuadir-nos de que aquele que se incumbe de educar seus próprios filhos, provendo-lhes os conhecimentos, tomando-lhes lições, zelando todo dia pelo seu progresso nos estudos, assume pela instrução deles uma responsabilidade menor do que aquele que simplesmente os deixa num ponto de ônibus, ao alcance de quantos ladrões, estupradores e narcotraficantes se encontrem à espera deles no trajeto até à porta da escola ou mesmo dentro dela?

Notem bem. O Ministério da Educação foi fundado em 1930. É mais velho do que 95 por cento dos nossos conterrâneos. Mais velho do que praticamente todas as empresas particulares em operação no país. Que resultados obteve nessa longa existência? De 2001 até hoje, nossos estudantes secundários tiram sistematicamente os últimos lugares no Pisa – Programa internacional de avaliação promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas como poderia ser diferente, se o próprio MEC reconhece que 66 por cento dos professores não têm formação adequada? Ou seja: em 78 anos de esforços, o MEC deu provas cabais da sua incapacidade não só para prover uma educação de bom nível, mas até para formar os agentes encarregados de fazê-lo. Ele não é capaz de educar nem mesmo os educadores, quanto mais as crianças.

Que autoridade moral ou intelectual tem essa instituição para ditar regras sobre o que é educação e o que não é?

O presente ministro da Educação é muito elogiado por seus planos. Todos os seus antecessores também foram. E os frutos desses planos estão à vista de todos.

O sr. Fernando Haddad pode ter os talentos que bem entenda: o fato é que nunca educou ninguém – nem mesmo a si próprio. Vejam o currículo do homem: é só marxismo de alto a baixo. Depois que subiu ao Ministério, veio com umas conversas de pluralismo, de neutralidade ideológica. Por que não pensou nisso antes? Por que nunca deu o menor sinal de interessar-se pelo que quer que estivesse fora do estreito círculo de atenção da militância comunista?

Eu, que já eduquei várias centenas de jovens brasileiros e os tornei capazes de um confronto intelectual vantajoso com qualquer de seus professores universitários, não entregaria jamais um filho meu para ser educado pelo sr. Haddad, nem aliás por qualquer dos que o antecederam no cargo nos últimos vinte ou trinta anos.

Sugeri, e volto a fazê-lo, um Pisa, um teste internacional para os professores universitários, para os ministros da Educação. Se é verdade que pelos frutos os conhecereis, tenho a certeza de que os gênios do planejamento educacional brasileiro não obterão melhor classificação que a daqueles que eles educaram. Não há abandono intelectual mais danoso, triste e desesperançado, do que entregar nossos filhos aos cuidados dessas pessoas. Vejam este vídeo, por exemplo — http://www.youtube.com/watch? v=cSA239vNRGQ –, e digam se estou exagerando.

Será que não está na hora de contestar a idéia mesma de que um grupo de cérebros iluminados, pagos com dinheiro público, tenha a capacidade de planejar a educação de todo um país de dimensões continentais?

Será que não está na hora de tentar a única idéia que nunca foi tentada, isto é desregulamentar e desburocratizar a educação brasileira, reservar ao governo um papel meramente auxiliar na educação, deixar que a própria sociedade tenha o direito de ensaiar soluções, criar alternativas, aprender com a experiência?

Meras Coincidencias

31 de dezembro de 2007 | Diário do Comércio

Quando se divulgou que a organização abortista “Católicas pelo Direito de Decidir” (CDD) tinha escritório num edifício de propriedade da Igreja Católica, ao lado das salas ocupadas pela CNBB, logo vieram os beatos de sempre, jurando que era tudo uma inocente coincidência imobiliária.

Quando a mesma CDD promoveu uma conferência sobre “A Bíblia e o Homossexualismo” em parceria com a Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, foi também mera coincidência.

Mera coincidência, ainda, o fato de que essa universidade católica aprovasse com louvor a tese de Yury Puello Orozco, militante daquela organização, que culpava a Igreja Católica pela disseminação da Aids.

Coincidência, pura coincidência, que a Casa de Retiro Sagrado Coração de Jesus, entidade católica de São Paulo, acolhesse em sua sede um seminário sobre “Masculinidade e Religião”, depois outro sobre “Gênero , Religião e Mídia”, por fim mais um sobre “Aids, Sexualidade e Religião”, os três promovidos pela CDD, e pelo menos o último deles anunciado no próprio jornal da Arquidiocese de São Paulo.

E que mente maliciosa veria algo mais que coincidência no fato de que a Escola Dominicana de Teologia, em São Paulo , promovesse uma comemoração dos cinqüenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos com apoio e patrocínio de quem? Das “Católicas pelo Direito de Decidir”.

Diante de tantas coincidências, é portando dever dos fiéis bradar, com devota confiança na idoneidade do bispado nacional: a CNBB não tem nada, absolutamente nada a ver com a essa organização abortista. Qualquer sugestão de que haja uma aliança cúmplice entre as duas entidades só pode ser obra de malvados como o signatário deste artigo.

Tanto mais que esse mesmo colunista, em dois artigos publicados em O Globo ( Escolha o adjetivo e Católicas, uma ova!

), já demonstrou que a referida CDD não é de maneira alguma uma entidade católica, que só se denomina assim para ludibriar os fiéis, que é na verdade a filial nacional de uma organização satanista, criada com o propósito explícito de lutar pela destruição da Igreja. A presidente dessa organização esperneou um pouco diante do argumento, mas, com a desonestidade flagrante da sua resposta, acabou por lhe dar total confirmação.

A CNBB, é claro, jamais se associaria com uma entidade dedicada à destruição da Igreja.

Portanto, foi também por mera coincidência, e sem nenhuma culpa da CNBB, que uma entrevista com a Sra. Dulce Xavier, porta voz das “Católicas pelo Direito de Decidir”, foi parar no DVD oficial da “Campanha da Fraternidade” deste ano. Se o católico compra uma cópia do disco na expectativa de aí encontrar o discurso anti-abortista que a fé cristã e sucessivos decretos papais tornam obrigatório a todos os fiéis, e aí se depara, ao contrário, com a apologia do aborto, ele nem por um minuto deve suspeitar das elevadas intenções e da perfeita ortodoxia católica da CNBB. Obediente ao culto da hierarquia, mais que às palavra de Jesus Cristo e às tradições da Igreja, deve tratar de buscar logo alguma explicação tranqüilizante para o ocorrido. Se encontrar, me avise, porque eu não encontro nenhuma.

Em 31 de dezembro de 2007

Militares E A Memoria Nacional

31 de dezembro de 2000 | Ternuma,

Como todos os meninos da escola na minha época, eu não podia cantar o Hino Nacional ou prestar um juramento à bandeira sem sentir que estava participando de uma pantomima. A gente ria às escondidas, fazia piadas, compunha paródias escabrosas.

Os símbolos do patriotismo, para nós, eram o supra-sumo da babaquice, só igualado, de longe, pelos ritos da Igreja Católica, também abundantemente ridicularizados e parodiados entre a molecada, não raro com a cumplicidade dos pais. Os professores nos repreendiam em público, mas, em segredo, participavam da gozação geral.

Cresci, entrei no jornalismo e no Partido Comunista, freqüentei rodas de intelectuais.

Fui parar longe da atmosfera da minha infância, mas, nesse ponto, o ambiente não mudou em nada: o desprezo, a chacota dos símbolos nacionais eram idênticos entre a gente letrada e a turminha do bairro.

Na verdade, eram até piores, porque vinham reforçados pelo prestígio de atitudes cultas e esclarecidas. Graciliano Ramos, o grande Graciliano Ramos, glória do Partidão, não escrevera que o Hino era “uma estupidez”?

Mais tarde, quando conheci os EUA, levei um choque. Tudo aquilo que para nós era uma palhaçada hipócrita os americanos levavam infinitamente a sério.

Eles eram sinceramente patriotas, tinham um autêntico sentimento de pertinência, de uma raiz histórica que se prolongava nos frutos do presente, e viam os símbolos nacionais não como um convencionalismo oficial, mas como uma expressão materializada desse sentimento.

E não imaginem que isso tivesse algo a ver com riqueza e bem-estar social. Mesmo pobres e discriminados se sentiam profundamente americanos, orgulhosamente americanos, e, em vez de ter raiva da pátria porque ela os tratava mal, consideravam que os seus problemas eram causados apenas por maus políticos que traíam os ideais americanos.

Correspondi-me durante anos com uma moça negra de Birmingham, Alabama. Ali não era bem o lugar para uma moça negra se sentir muito à vontade, não é mesmo?

Mas se vocês vissem com que afeição, com que entusiasmo ela falava do seu país! E não só do seu país: também da sua igreja, da sua Bíblia, do seu Jesus. Em nenhum momento a lembrança do racismo parecia macular em nada a imagem que ela tinha da sua pátria.

A América não tinha culpa de nada. A América era grande, bela, generosa. A maldade de uns quantos não podia afetar isso em nada. Ouvi-la falar de matava de vergonha.

Se alguém no Brasil dissesse essas coisas, seria exposto imediatamente ao ridículo, expelido do ambiente como um idiota-mor ou condenado como reacionário um integralista, um fascista.

Só dois grupos, neste país, falavam do Brasil no tom afetuoso e confiante com que os americanos falavam da América.

O primeiro era os imigrantes: russos, húngaros, poloneses, judeus, alemães, romenos. Tinham escapado ao terror e à miséria de uma das grandes tiranias do século (alguns, das duas), e proclamavam, sem sombra de fingimento: “Este é um país abençoado!” Ouvindo-nos falar mal da nossa terra, protestavam: “Vocês são doidos.

Não sabem o que têm nas mãos”.Eles tinham visto coisas que nós não imaginávamos, mediam a vida humana numa outra escala, para nós aparentemente inacessível. Falávamos de miséria, eles respondiam: “Vocês não sabem o que é miséria”.Falávamos de ditadura, eles riam: “Vocês não sabem o que é ditadura”.

No começo isso me ofendia. “Eles acham que sabem tudo”, dizia com meus botões. Foi preciso que eu estudasse muito, vivesse muito, viajasse muito, para entender que tinha razão, mais razão do que então eu poderia imaginar.

A partir do momento em que entendi isso, tornei-me tão esquisito, para meus conterrâneos como um estoniano ou húngaro, com sua fala embrulhada e seu inexplicável entusiasmo pelo Brasil, eram então esquisitos para mim.

Digo, por exemplo, que um país onde um mendigo pode comer diariamente um franco assado por dois dólares é um país abençoado, e as pessoas querem me bater.

Não imaginam o que possa ter sido sonhar com um frango na Rússia, na Alemanha, na Polônia, e alimentar-se de frangos oníricos.

Elas acreditam que em Cuba os frangos dão em árvores e são propriedade pública. Aqueles velhos imigrantes tinham razão: o brasileiro está fora do mundo, tem uma medida errada da realidade.

O outro grupo onde encontrei um patriotismo autêntico foi aquele que, sem conhece-lo, sem saber nada sobre ele exceto o que ouvia de seus inimigos, mais temi e abominei durante duas décadas: os militares.

Caí no meio deles por mero acaso, por ocasião de um serviço editorial que prestava para a Odebrecht que me pôs temporariamente de editor de texto de um volumoso tratado O Exército na História do Brasil.

A primeira coisa que me impressionou entre os militares foi sua preocupação sincera, quase obsessiva, com os destinos do Brasil.

Eles discutiam os problemas brasileiros como quem tivesse em mãos a responsabilidade pessoal de resolvê-los. Quem os ouvisse sem saber que eram militares teriam a impressão de estar diante de candidatos em plena campanha eleitoral, lutando por seus programas de governo e esperando subir nas pesquisas junto com a aprovação pública de suas propostas.

Quando me ocorreu que nenhum daqueles homens tinha outra expectativa ou possibilidade de ascensão social senão as promoções que automaticamente lhes viriam no quadro de carreira, no cume das quais nada mais os esperava senão a metade de um salário de jornalista médio percebi que seu interesse pelas questões nacionais era totalmente independente da busca de qualquer vantagem pessoal.

Eles simplesmente eram patriotas, tinham o amor ao território, ao passado histórico, à identidade cultural, ao patrimônio do país, e consideravam que era do seu dever lutar por essas coisas, mesmo seguros de que nada ganhariam com isso senão antipatias e gozações.

Do mesmo modo, viam os símbolos nacionais – o hino, a bandeira, as armas da República – como condensações materiais dos valores que defendiam e do sentido de vida que tinham escolhido. Eles eram, enfim, “americanos” na sua maneira de amar a pátria sem inibições.

Procurando explicar as razões desse fenômeno, o próprio texto no qual vinha trabalhando me forneceu uma pista.

O Brasil nascera como entendida histórica na Batalha dos Guararapes, expandira-se e consolidara sua unidade territorial ao sabor de campanhas militares e alcançara pela primeira vez, um sentimento de unidade autoconsciente por ocasião da Guerra do Paraguai, uma onda de entusiasmo patriótico hoje dificilmente imaginável.

Ora, que é o amor à pátria, quando autêntico e não convencional, senão a recordação de uma epopéia vivida em comum?

Na sociedade civil, a memória dos feitos históricos perdera-se, dissolvida sob o impacto de revoluções e golpes de Estado, das modernizações desaculturantes, das modas avassaladoras, da imigração, das revoluções psicológicas introduzidas pela mídia.

Só os militares, por força da continuidade imutável das suas instituições e do seu modo de existência, haviam conservado a memória viva da construção nacional.

O que para os outros eram datas e nomes em livros didáticos de uma chatice sem par, para eles era a sua própria história, a herança de lutas, sofrimentos e vitórias compartilhadas, o terreno de onde brotava o sentido de suas vidas.

O sentimento de “Brasil”, que para os outros era uma excitação epidérmica somente renovada por ocasião do carnaval ou de jogos de futebol (e já houve até quem pretendesse construir sobre essa base lúdica um grotesco simulacro de identidade nacional), era para eles o alimento diário, a consciência permanentemente renovada dos elos entre passado, presente e futuro.

Só os militares eram patriotas porque só os militares tinham consciência da história da pátria como sua história pessoal.

Daí também outra diferença. A sociedade civil, desconjuntada e atomizada, é anormalmente vulnerável a mutações psicológicas que induzidas do Exterior ou forçadas por grupos de ambiciosos intelectuais ativistas apagam do dia para a noite a memória dos acontecimentos históricos e falseiam por completo a sua imagem do passado.

De uma geração para outra, os registros desaparecem, o rosto dos personagens é alterado, o sentido todo do conjunto se perde para ser substituído, do dia para a noite, pela fantasia inventada que se adapte melhor aos novos padrões de verossimilhança impostos pela repetição de slogans e frases-feitas.

Toda a diferença entre o que se lê hoje na mídia sobre o regime militar e os fatos revelados no site de Ternuma vem disso. Até o começo da década de 80, nenhum brasileiro, por mais esquerdista que fosse, ignorava que havia uma revolução comunista em curso, que essa revolução sempre tivera respaldo estratégico e financeiro de Cuba e da URSS, que ele havia atravessado maus bocados em 1964 e tentara se rearticular mediante as guerrilhas, sendo novamente derrotada.

Mesmo o mais hipócrita dos comunistas, discursando em favor da “democracia”, sabia perfeitamente a nuance discretamente subentendida nessa palavra, isto é, sabia que não lutava por democracia nenhuma, mas pelo comunismo cubano e soviético, segundo as diretrizes da Conferência Tricontinental de Havana.

Passada uma geração tudo isso se apagou. A juventude, hoje, acredita piamente que não havia revolução comunista nenhuma, que o governo João Goulart era apenas um governo normal eleito constitucionalmente, que os terroristas da década de 70 eram patriotas brasileiros lutando pela liberdade e pela democracia.

No Brasil, a multidão não tem memória própria. Sua vida é muito descontínua, cortada por súbitas mutações modernizadoras, não compensadas por nenhum daqueles fatores de continuidade que preservava a identidade histórica do meio militar.

Não há cultura doméstica, tradições nacionais, símbolos de continuidade familiar. A memória coletiva está inteiramente a mercê de duas forças estranhas: a mídia e o sistema nacional de ensino.

Quem dominar esses dois canais mudará o passado, falseará o presente e colocará o povo no rumo de um futuro fictício.

Por isso o site de Ternuma é algo mais que a reconstituição de detalhes omitidos pela mídia.

É uma contribuição preciosa à reconquista da verdadeira perspectiva histórica de conjunto, roubada da memória brasileira por manipuladores maquiavélicos, oportunistas levianos e tagarelas sem consciência.

O Velhinho Comunista

30 de setembro de 1999 | Jornal da Tarde

Nos tempos antigos, em cada cidade do interior existia um velhinho erudito que vivia entre livros e não conversava com ninguém. Como compensação talvez de seu isolamento, era em geral comunista – e se não era, ao menos tinha fama de ser, já que nesses meios ninguém sabia em que podia consistir o tal comunismo, razão pela qual a palavra que o nomeava era usada para designar qualquer conduta suspeita que não fosse adultério ou pederastia. E nada mais suspeito, é claro, do que ler livros.

Foi assim que ser comunista – ou, melhor ainda, parecer comunista – se tornou um emblema convencional de cultura. E quando a expansão do ensino público, obra dos governos militares açambarcada pela militância esquerdista, deu a imensas populações o acesso ao vocabulário do Partidão e da AP, aí foi uma festa: todo menino que adquirisse os cacoetes verbais do esquerdismo sentia-se um sujeito cultíssimo, habilitado a opinar sobre política, religião, moral, metafísica e viagens espaciais. As eleições trouxeram quantidades maciças dessas criaturas para o Parlamento, a seleção dos jornalistas por diploma colocou-as nas redações, o crescimento do ensino universitário elevou-as a professores e reitores. Foi inevitável que essa gente logo tratasse de nivelar todos os valores culturais pela sua própria estatura, sendo nisto reforçada pela providencial ascensão do “politicamente correto” na Grande República do Norte, a qual, justamente por ser a terra do abominável capitalismo, foi declarada testemunha insuspeita para opinar no caso. E tão universal aceitação alcançou o novo sentido da palavra “cultura”, que até as classes ricas, que tinham acesso a um ensino melhorzinho, abdicaram dele para não perder o trem da História, e hoje acham inteiramente natural pagar mensalidades pesadíssimas em colégios de luxo para que aí seus filhos aprendam, democraticamente, a não saber mais do que os outros. Na década de 70, o romancista Osman Lins fez um exame da nossa literatura didática e encontrou um panorama de desoladora estupidez. Na época, foi fácil atribuir ao governo militar a culpa das enormidades que esse material escrito impingia às nossas crianças. Mas as hordas esquerdistas que, com a redemocratização, tomaram de assalto todos os órgãos educacionais, estão lá há 20 anos e conseguiram tornar ainda mais patético, pelas altas presunções modernosas que o legitimam, o conteúdo dos livros didáticos.

Em resultado, a burrice das elites falantes brasileiras raia hoje o calamitoso e é, no fim das contas, o único problema nacional – o único problema substantivo, do qual todos os demais derivam como seqüelas e corolários que a eliminação dele suprimiria automaticamente, sem esforço.

No entanto, basta abrir os jornais, ligar a televisão ou – com um pouco mais de caridade – assistir a congressos acadêmicos para notar que todos os problemas são discutidos, menos esse. É lógico: quem discute é a própria elite falante, e ela necessita chamar a atenção para mil e um problemas para que ninguém perceba que ela mesma é o problema. Discute-se principalmente a educação popular, nunca a educação da elite incumbida de educar o povo – o que leva o ingênuo ouvinte a pressupor que, essa elite já existindo e estando preparadíssima, só falta educar os outros...

A incapacidade de pensar, a rombuda incompreensão de palavras e argumentos, a tendência incoercível a raciocinar por slogans e termos da moda, o empirismo tolo que se perde em detalhes e casuísmos por incapacidade de abstração, a compulsão senil de rebaixar o nível de exigência intelectual para agradar a uma platéia “popular” que no fundo está pouco se lixando para isso, a redução de todos os debates ao confronto mais imediatista de governo e oposição – tudo isto mostra que o Brasil entregou o seu destino mental ao guiamento de um bando de macacos que só sabem pular, se exibir e pedir pipocas.

Visto de longe, esse espetáculo se torna ainda mais grotesco. Gilberto Amado dizia que tinha um orgasmo cada vez que via um brasileiro capaz de juntar premissa e conclusão. Hoje ele viveria numa privação ascética de fazer inveja a Santo Antão.

E dizer que tudo isso começou porque o pessoal decidiu tornar-se culto e, vendo o exemplo do velhinho comunista, achou que para ser culto bastava ser comunista...

Em 30 de setembro de 1999

Aviso De Alberto Dines Consideracoes Sobre A Universidade

30 de junho de 2001 | 1. Após recalcitrar um pouco, no aguardo de provas que lhe enviei em seguida, o jornalista Alberto D

1. Após recalcitrar um pouco, no aguardo de provas que lhe enviei em seguida, o jornalista Alberto Dines me avisou por e-mail, ontem, estar persuadido de que não fui o autor dos ataques contra ele, e prometeu publicar isso na próxima edição do Observatório da Imprensa, terça-feira que vem, cancelando portanto as referências ofensivas que fez à minha pessoa.

Para documentar o que se passou realmente por ocasião da querela entre a UniverCidade e o prof. Gianotti, enviei a Alberto Dines e publico logo abaixo o ensaio, infelizmente incompleto, “Crise da universidade ou eclipse da consciência?”, que foi a minha resposta a Gianotti, publicada parcialmente na revista Livro Aberto, de São Paulo. Essa resposta, assinada, era de teor bem diverso daquela que logo a seguir saiu no Jornal do Brasil e que terminou por desencadear o conflito entre a UniverCidade e Alberto Dines. Não fui, não sou nem serei nunca o ghost writer de ninguém.

2. Como se depreenderá da leitura desse ensaio, minha posição no debate universidade pública versus universidade privada não coincide plenamente nem com a da UniverCidade nem com a da comissão Gianotti, endossada por Alberto Dines.

No meu entender, embora haja lugar tanto para a universidade empresa quanto para a universidade repartição pública, nenhuma dessas duas fórmulas atende satisfatoriamente ao objetivo essencial da idéia de universidade, que é a preparação da elite intelectual. A primeira é orientada para o mercado de trabalho, a segunda para um conceito gramsciano, vil e oportunista, de “elite intelectual” compreendida como o novo “Príncipe” de Maquiavel, sinistro planejador de tramóias revolucionárias. Dito de outro modo, a primeira faz empregados, a segunda militantes. Nenhuma das duas pode produzir o tipo de cientista e erudito acadêmico que o país necessita para se afirmar como potência cultural – o primeiro passo (e não o último, como o concebe a miserável imaginação uspiana) da construção de uma autêntica soberania nacional.

A fórmula que tenho em vista, e que nunca cheguei a expor satisfatoriamente por escrito, mas só oralmente nas minhas aulas, dá o marco orientador das atividades do Seminário de Filosofia, que concebi como um laboratório com a ambição de aí produzir a semente, ao menos teórica, dessa futura universidade essencial, que provavelmente permanecerá no reino das idéias, não havendo no momento as condições sociais que permitam realizá-la. Entre essas condições, a primeira é a existência de uma elite econômica e política consciente da verdadeira função da cultura superior – isto é, de uma elite que seja precisamente o contrário daquela que temos no Brasil.

Sobre o mesmo tema, peço também a atenção do leitor para o artigo “De volta à Academia”, que será publicado proximamente no Jornal da Tarde de São Paulo.

Olavo de Carvalho 30/6/01 Crise da universidade ou eclipse da consciência?

Olavo de Carvalho PARTE I Não é nada mau que um diagnóstico, por superficial que seja, do estado de coisas na universidade brasileira venha precedido, a título de aquecimento, por um breve retrospecto da idéia de universidade em sua evolução histórica.

E a primeira coisa que, nesse retrospecto, salta aos olhos, é a seguinte: quem busque retraçar, ao longo dos registros da história, o desenho das relações entre universidade e cultura superior, descobre que não apenas inexiste qualquer identidade entre esses dois termos, mas que sua oposição dialética é uma das principais alavancas do progresso cultural no Ocidente.

Poder universitário e vigor cultural são pólos que ora se atraem, ora se repelem, mas jamais chegam a identificar-se por completo.

Ï Para começo de conversa, as universidades não surgem como instituições oficiais, mas como clubes de aficionados, que, movidos pelo puro anseio de conhecimento, se cotizavam e mandavam vir os melhores professores de onde estivessem.

O entusiasmo dessa época pelo estudo e pela ciência é hoje coisa tão difícil de imaginar, que buscamos explicá-lo por motivações secundárias e acidentais de ordem utilitária e política. Dizemos, por exemplo, que as universidades “se destinavam” a formar funcionários, a produzir a legitimação ideológica do status quo, etc. etc. [1] Deformamos a perspectiva, projetando sobre homens bem diferentes a hierarquia de prioridades de nossos contemporâneos.

As prioridades típicas da nossa época, pelas quais os homens matam, morrem e – o que às vezes é pior – escrevem, são no fundo duas e apenas duas: a eficácia do aparato tecno-econômico, a divisão do poder político. Quase tudo o que fazemos, pensamos e dizemos em público tem uma destas duas finalidades: azeitar a máquina da produtividade, alterar a constituição do Estado. Essa alternativa expressa o conflito entre a burguesia capitalista e a intelligentzia de classe média, tantas vezes mais poderosa que ela; este conflito, por sua vez, se expressa na dupla concepção da cultura como mercado e da cultura como militância, oposição que por fim vai gerar as duas idéias de universidade que esgotam o repertório do que geralmente se diz a respeito nos debates nacionais: a universidade como formadora de mão-de-obra especializada, a universidade como berçário de teóricos e militantes da revolução. É fatal que os adeptos da primeira concepção enfatizem a praticidade imediata, enquanto os da outra lhes opõem argumentos de natureza fingidamente ética e idealística, fundados no pressuposto absurdo de que a fome de poder político é coisa essencialmente mais nobre que o desejo de riquezas. A constelação das idéias em debate esgota-se em dois lindos sistemas de racionalizações pro domo sua, ambos baseados no princípio de que a universidade deve “servir” a alguma classe, e divergindo apenas quanto a quem deve levar o prêmio: os senhores do capital ou a vanguarda autonomeada das “forças populares”. Que ambas as classes em disputa devam, elas sim, servir a algo que as transcenda (e transcendendo unifique na busca do bem comum); e que este algo possa estar simbolizado precisamente na idéia mesma de universidade, eis algo que escapa ao horizonte visual do debate universitário brasileiro; e esta limitação, por sua vez, projeta-se retroativamente sobre quanto digam uns e outros da universidade de outros tempos.

Ï Mas a universidade medieval era criação nova e, como tal, fruto tenro da inventividade pessoal ainda não fixada na cristalização entrópica das idéias no molde das ideologias de classe. Tudo o que é obra humana, afinal, nasce na intimidade de consciências livres e generosas, para depois ser usurpado pelos porta-vozes de ambições coletivas que, por si, nada criam. E quando ex post facto um intelectual de aluguel vem explicar as criações pelo interesse de classe a que acabaram servindo à revelia, age como o ladrão que fizesse de seu próprio interesse pessoal a razão e o propósito dos trabalhos de sua vítima. Muito do que chamamos “ciência social” é pura racionalização da mentira existencial de seus beneficiários. Eles não podem compreender que alguém sirva a propósito mais alto que o interesse deles ou de seus adversários. Eis por que não compreendem a universidade medieval.

Para os homens do fim da Idade Média, o estudo era parte inerente da devoção religiosa que absorvia suas almas num movimento para o alto. É tão estúpido explicar a universidade medieval pela sua função econômica, administrativa e política, quanto explicar o impulso religioso pelo desejo de subir na hierarquia eclesiástica.

A identidade da “cultura” e do “culto” remontava à época em que os limites entre o clero e o restante da sociedade eram fluidos. Data desse tempo a ambigüidade da palavra francesa clerc (inglês clerk), que designa ao mesmo tempo um sacerdote e um funcionário, um escrevente. Após a dissolução do Império Romano, a Igreja acumulou as funções de guiamento religioso, ensino básico e administração civil informal. De um lado, só os membros do clero sabiam ler e escrever; de outro, qualquer um que soubesse ler e escrever tinha automaticamente o estatuto de clérigo [2] . O clero incluía uma multidão de sacerdotes virtuais, que exerciam todas as funções de padres, exceto a administração dos sacramentos. A paixão da filologia, da conservação e decifração dos documentos antigos, foi ainda alimentada pelo profundo sentido de consciência histórica inerente à fé católica, tal como já aparece, por exemplo, em Sto. Agostinho e sua Cidade de Deus. São homens animados por esse espírito de devoção intelectual que, a partir do século XII, fundam as universidades.

De início, elas não têm nenhuma função senão facilitar o acesso dessas pessoas aos conhecimentos que desejavam. A massa de estudantes de todos os países que aflui aos primeiros centros universitários é designada como discere turba volens (“massa dos que querem aprender”).

Mais característica ainda da mentalidade que inspirava esses primeiros universitários foi justamente a importância central que, após algumas resistências iniciais de ordem eclesiástica, veio a assumir na nova instituição a doutrina aristotélica, que celebrava a contemplação, a vida teorética, como o mais alto estado humano, subordinando-lhe as atividades práticas, políticas inclusive [3] .

E se outra prova fosse preciso para demonstrar o infinito respeito que se tinha então pelo conhecimento como tal, independentememente de qualquer integração útil de seus resultados na prática coletiva, basta notar o estatuto privilegiado que então se concedia ao estudante, e que importava, no fim das contas, em isentá-lo de quase todas as obrigações civis para que pudesse ocupar-se tão somente de seus estudos. Esse fato mostra-se ainda mais relevante na medida em que a maioria dos estudantes era constituída de estrangeiros, que findo o período escolar iriam voltar para suas terras de origem e em nada poderiam beneficiar a sociedade local. Não obstante essa sua ostensiva “inutilidade” social – assim a chamaríamos hoje –, todo aluno estrangeiro tinha sempre a certeza de poder contar com a ajuda dos ricos cidadãos locais para custear seus estudos: o mecenato era geral e corriqueiro (como ainda hoje o é, por exemplo, na sociedade indiana para os estudantes de Vedanta das academias tradicionais), e não implicava a expectativa de nenhuma recompensa prática.

A universidade desse tempo é, por um lado, instituição estritamente privada, com estatuto similar ao de uma corporação de estrangeiros. Os professores vivem das contribuições de seus alunos e, em parte, da ajuda das dioceses. Nenhum governo local pensa, de início, em subordinar a universidade a seus interesses e objetivos, nem consta ter algum governante olhado com revolta e escândalo o crescimento do poder e da influência daquela massa turbulenta de mentalidade ferozmente independente e contestadora [4] . A condição privilegiada do estudante e do professor, mesmo pobres, mesmo estrangeiros, reflete uma sociedade onde o conhecimento ainda é tido como finalidade e valor em si mesmo, independentemente de seu uso em benefício de terceiros.

Por outro lado, a noção de universitas scientiarum, da universidade como detentora e transmissora do sistema total do saber, está completamente ausente durante os três primeiros séculos, a contar da fundação da Universidade de Bolonha, reconhecidamente a pioneira (1143). Essa pretensão só surgirá mais tarde, quando, com o aparecimento do Estado nacional absolutista, são fundadas as primeiras universidades estatais, já com ambição totalitária, prenunciando a esclerose do gênio acadêmico. No início, no período áureo, “universidade” é apenas universitas magistrorum et scholiarum, “o conjunto dos professores e estudantes” – é o nome de uma corporação, não de uma teoria sistêmica [5] . E, em retribuição talvez das atenções maternais que a sociedade em torno lhe dedica, essa corporação tem uma concepção muito modesta acerca da própria autoridade intelectual. Ela não abarca todo o saber, nem dá a última palavra quanto à verdade ou falsidade nas discussões correntes. Acima e em torno dela há outras instâncias que sabem e opinam – a começar pela autoridade eclesiástica que, detentora da tradição revelada, é reconhecida espontaneamente como guardiã de um fundo comum de crenças e valores a que se recorre, em última instância, para arbitrar as questões que o confronto dialético se veja impotente para resolver. Há também a palavra, não oficial mas poderosamente convincente, dos religiosos isolados, dos místicos, dos monges, que exercem, praticamente à margem de todo controle hierárquico, uma influência direta sobre a opinião pública. Há os poetas, os trovadores errantes, que de cidade em cidade vão levando novas idéias, novos sentimentos. Há os sábios independentes, muitos deles alquimistas, a ocupar-se de investigações nas quais só com muita prudência um universitário se arriscaria a opinar [6] . Há as corporações de ofícios, detentoras de conhecimentos espirituais, científicos e técnicos que escapam ao domínio universitário. A universidade é, no meio de todas essas fontes de ensino, apenas a maior em número de membros, mas não a mais poderosa ou importante. Nem mostra qualquer pretensão de tornar-se tal.

As relações entre a universidade e essas outras fontes exemplifica de maneira particularmente clara a concepção tipicamente medieval de um equilíbrio dinâmico entre poderes múltiplos, concepção que se perderá com o advento do absolutismo, para só ressurgir nas democracias do século XIX, mas agora apenas como um ideal e não como uma prática real e cotidiana.

Ï A universidade não apenas não surgiu para atender a qualquer necessidade do establishment, como foi a interferência cada vez maior dos poderes externos que provocou, entre os séculos XIV e XVII, as sucessivas mudanças mais ou menos traumáticas que afastaram o ambiente universitário do centro da vida intelectual.

Essas crises manifestaram-se a partir do momento em que a população universitária, crescendo muito, se revelou um depósito potencial de apoio político que passou a ser disputado entre a Igreja e os poderes civis: de um lado, o Sacro Império, de outro, os Estados nacionais nascentes. Esta disputa fez com que novas concepções de ensino se implantassem de fora para dentro, de cima para baixo, sufocando a criatividade que tinha sua raiz na iniciativa espontânea da discere turba volens – os homens desejosos de aprender.

Se, por um lado, a autoridade eclesiástica passou a exigir cada vez mais que o ensino se impusesse limites doutrinais que seriam mais próprios à pura catequese – o que mais tarde o grande teólogo John Henry Newman viria a excluir da definição mesma de universidade [7] –, por outro lado as novas monarquias não apenas fundaram universidades oficiais, de cuja direção a massa dos estudantes estava alijada quase que por hipótese, mas também foram forçando para fazer das já existentes instrumentos para a expressão culta de valores e crenças nacionais, até o ponto em que se perdeu por completo um dos valores essenciais da idéia original de universidade: o internacionalismo. Junto com ele perde-se também o sentido do conhecimento como finalidade, adotando-se em seu lugar o ponto de vista (hoje aceito como verdade de evangelho) de que a universidade deve “servir” a algum fim prático: ao progresso social, à indústria, à identidade nacional, à manutenção ou à alteração do status quo, e mil e um outros interesses em disputa. A idéia criadora fragmenta-se: terminou a era da universidade, começa a história das universidades. A fragmentação vai mais longe ainda quando, com a Reforma protestante, as novas facções religiosas (logo imitadas pela Igreja velha) convocam as universidades para torná-las guardiãs de suas respectivas ortodoxias.

Não por coincidência, a concepção totalizante do sistema do saber, e da universidade como seu depósito privilegiado, aparece justamente nessa época. Sua aceitação generalizada e quase automática (ao ponto de o novo sentido da palavra universitas como universitas scientiarum acabar se sobrepondo ao antigo no vocabulário corrente das classes letradas) reflete de um só golpe a queda e a ascensão das universidades: a queda de sua capacidade criativa, a ascensão, provavelmente compensatória, de suas ambições ao poder intelectual, ao guiamento ideológico de toda a sociedade. Tal como ensinam as antigas escrituras hindus, a perda do impulso ascensional (sattwa) é seguida de uma expansão “horizontal” (rajas) que a compensa de maneira mais ou menos ilusória; será preciso aguardar o século XX para que o movimento se complete, numa queda abissal (tamas) que transformará as universidades em quartéis-generais de movimentos totalitários (fascismo, nazismo, comunismo, fundamentalismo). Veremos isto mais adiante.

Ï Mas, como se diz, Deus não fecha uma janela sem abrir uma porta. Ao mesmo tempo que as universidades se fecham num orgulhoso dogmatismo, surge, fora dela, uma nova intelectualidade capaz de renovar a ciência e o pensamento. Não por coincidência, mas por uma espécie de efeito homeopático, ela nasce dentro da mesma aristocracia que fora responsável pela estatização do ensino. É uma intelectualidade palaciana, constituída de servos da corte, de altos funcionários da burocracia, de nobres independentes fechados em seus castelos, como esse extraordinário seigneur du Perron, René Descartes, militar aposentado que medita ousadamente sobre sua juventude perdida no dogmatismo universitário e, abdicando de toda a falsa ciência adquirida, decide recomeçar desde o único ponto de apoio capaz de subsistir à devastação da cultura: a consciência individual, que para existir basta pensar que existe. Idêntico recuo desde a autoridade coletiva à consciência própria realiza o juiz de instrução e par do Reino, Francis Bacon, proclamando que tudo é preciso averiguar com os olhos da cara. Do mesmo modo, um pouco antes, o movimento do humanismo literário, que puxa do esquecimento todo o legado literário da antigüidade, nada deve às universidades. Símbolo da independência da nova intelectualidade humanística, Petrarca recusa a cátedra que lhe oferece em 1550 a recém-fundada universidade oficial de Florença. O maior de todos os pensadores no período que vai do século XIV ao XVIII, quase um novo Aristóteles – G. W. von Leibniz – passa a vida entre os diplomatas e as damas da corte, longe dos muros da severa instituição. O mesmo vale para seu adversário, pensador superficial mas o mais poderoso divulgador de idéias de todos os tempos: Voltaire. E, seja entre os humanistas, seja entre os filósofos, seja entre os investigadores de ciências naturais, todos os que permanecem dentro da universidade enfrentam ali toda sorte de dificuldades, mostrando que os felizes tempos da liberdade acadêmica tinham acabado para sempre, ao passo que os progressos da indústria livreira criavam, para a nova intelectualidade independente, um vasto público fora das academias. Por isso, os grandes debates que, sobretudo na passagem do século XVII ao XVIII, mudam radicalmente a face intelectual do mundo são um acontecimento radicalmente extra-universitário [8] .

Mas não existe, em história, homogeneidade de etapas. Enquanto isso se passava nos centros dominantes, um movimento inverso se desenvolvia num país marginalizado, que só muito recentemente conquistara os meios de fazer cultura superior na sua língua nacional. A extraordinária revolução cultural que vai de Kant a Hegel, o chamado idealismo alemão, é fenômeno essencialmente universitário e inconcebível fora das condições do trabalho acadêmico. Também não por coincidência, mas por um nexo bastante plausível, o que possibilitou esse avanço foi precisamente o “atraso” em que as universidades alemãs se encontravam em relação a suas congêneres da França e da Itália. Ali conservavam-se muitos antigos usos e interesses medievais e, com eles, não apenas a velha liberdade acadêmica, mas uma flexibilidade que contrasta dramaticamente com a rigidez dogmática de períodos posteriores que, não obstante, se acreditaram mais esclarecidos e progressistas. Ao anunciar seu curso sobre Filosofia da Mitologia, F.-W. von Schelling observa:

“Esperais, talvez, não sem razão, que eu voz explique o título que dei a esta série de lições, e isto, sem dúvida, não por ser ele novo ou porque não se o tenha visto figurar senão recentemente nos programas de cursos universitários. Se, com efeito, se desejasse deduzir desta última observação uma objeção contra tal iniciativa, bastaria lembrar a louvável liberdade que reina nas nossas universidades, e que faz com que os professores não sejam obrigados a ater-se aos títulos das especialidades admitidas e consagradas, mas possam estender sua ciência a novos domínios que lhes estavam fechados, e introduzir assuntos até então estranhos e abordá-los de uma maneira livremente escolhida, o que com freqüência resulta não somente em dar a esses assuntos um sentido mais elevado, mas em ampliar, de certo modo, a ciência mesma.” [9] Se examinarmos brevemente o repertório de assuntos então abordados na universidade alemã, veremos o quão relativas podem ser as noções de “avanço” e “retrocesso” em história: pois, se esse repertório incluía temas então considerados anacrônicos e já de havia muito retirados do currículo das universidades francesas, como discussões em torno da mística, da alquimia, da astrologia, do simbolismo natural, dos “princípios ocultos da natureza” (todos abordados, em seu tempo, por Sto. Tomás de Aquino, Roger Bacon, S. Boaventura) e da interpretação de sonhos [10], não é menos verdade que, depois de Henry Corbin, Edgar Morin, Mircea Eliade, Gilbert Durand e Antoine Faivre, esse temário soa ousadamente “moderno”.

Não é preciso dizer que, se Alemanha pôde conservar essa força herdada de um passado distante e fazer dela uma semente do futuro, foi precisamente porque sua constituição como nação era incipiente, permanecendo como um amálgama “medieval” de principados e ducados independentes enquanto no resto da Europa se perfilavam rigidamente os novos Estados nacionais, com suas obedientes universidades oficiais. Daí também o estatuto ambíguo do professor universitário alemão na época, por um lado um dignitário habilitado a honras quase de ministro de Estado, por outro, às vezes, um pobretão dependente, como seus antepassados medievais, das mensalidades de parcos alunos [11] .

Ï O século XIX trará, por toda parte, a constituição formal e definitiva das universidades européias como organismos oficiais, partes integrantes da burocracia estatal, submetidas a regulamentos bastante uniformes para instaurar, desde cima, um arremedo do antigo internacionalismo [12] .

Num primeiro instante, a injeção de dinheiro público permite a instalação de imensas bibliotecas e laboratórios, o empreendimento de viagens de investigação que os eruditos já não sonhavam desde o tempo em que Alexandre subsidiava Aristóteles, e tudo concorre para uma efervescência geral da qual resulta uma floração de idéias, algumas realmente valiosas, outras infectadas de uma espécie de provincianismo temporal que se torna inevitável sempre que uma época, iludida por seus sucessos, encontra deleite em imaginar-se o auge e coroamento dos tempos [13] .

Data daí a formação de uma espécie de “consenso científico” dominante, que, do alto de sua autoridade acadêmica, julga implacavelmente as idéias e os homens, separando os eleitos e os reprovados. [14] E não é nem de longe uma coincidência que as idéias que, geradas entre esse tempo e o início do século XX, vieram a influenciar mais profundamente o curso dos tempos, fossem quase todas produtos de intelectuais autônomos, extra-universitários, às vezes marginais e réprobos, de Joseph de Maistre a Karl Marx e Tocqueville, de Darwin a Freud, de Kierkegaard ao próprio Nietzsche, o qual, embora fosse do ponto de vista empregatício um membro da casta ensinante, jamais produziu um único trabalho acadêmico e só escrevia fora dos cânones universitários. Também não é de estranhar que, prosseguindo a tendência inaugurada no século XIX, o debate público de idéias seja aí dominado por escritores independentes, Hugo, Zola, Péguy, Maurras, Mathew Arnold, cujo prestígio os acadêmicos se limitam a parasitar humildemente. Novamente, a ambição de mandar vem junto com a incapacidade de compreender.

Ao mesmo tempo, o desejo mesmo de integrar-se na praxis coletiva faz com que as universidades, decaindo intelectualmente, encontrem uma nova função para justificar sua existência: a preparação de técnicos para preencher as vagas na indústria, no comércio e na administração pública. Tornam-se meras escolas profissionais, para substituir o aprendizado tradicional nas corporações de ofícios que o advento do capitalismo moderno havia destruído. Aos poucos, a população universitária se hierarquiza em estratos: em baixo, uma vasta multidão de estudantes prodigiosamente incultos, voltados à aquisição de técnicas profissionais para subir (ou não naufragar) na vida econômica; em cima, uma elite que despreza essa massa de classe média e se sente acuada dentro da própria casa.

É no século XX que a estatização produz seu efeito fatal: a completa politização das universidades, tornadas servas atentas e obrigadas das modas ideológicas do momento, sempre prontas a produzir bibliotecas inteiras para legitimar as doutrinas extravagantes de caudilhos, ditadores, utopistas, agitadores de rua e loucos no sentido estrito do termo. Não é de espantar que, após o inusitado crescimento dos corpos discentes de um século para outro, a força nacionalizante e politizante que se apossara das universidades passasse a ser representada mais pelos estudantes do que pelo próprio establishment acadêmico, que perde o controle do monstro que gerara. A classe média estudantil adere com alegria feroz aos novos movimentos políticos, desiludida com um ensino que falhara às suas promessas de ascensão social, e a massa iletrada e diplomada vai constituir o grosso dos exércitos de militantes que depredam universidades, queimam bibliotecas, espancam e matam professores, à cata de judeus, de reacionários, de comunistas, de fascistas, de católicos, de negros, de brancos – enfim, dos bodes expiatórios apropriados ao estado de ânimo do momento. Otto Maria Carpeaux descreve em termos inimitáveis a massa estudantil a serviço dos totalitarismos [15] :

“Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência... Considerando... a ascensão de camadas novas, que o século XIX ainda não conhecia, verdadeiros exércitos de empregados privados, de funcionários públicos, de pequenos empresários, todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado, essas massas de homens, todos mais ou menos educados, essas multidões de “pequenos intelectuais”... deve-se precisar o pensamento: o fas­cismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa, violenta­mente revolucionária e antiintelectualista. Explica-se, por isso, que Georges Sorel, o pai espiritual comum do fascismo e do bolche­vismo, Georges Sorel, o ideólogo da violência, seja um homem pro­fundamente pequeno-burguês...

É uma criança essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dos déclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência.

...Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito... A violência antiintelectualista das no­vas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação... Em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas... Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse ‘proletariado intelec­tual’, sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as con­seqüências, amargamente, cruelmente.”

Ao mesmo tempo, a universidade em perpétua agitação já não pode concorrer, em produtividade científica e tecnológica, com duas novas instituições que vão surgindo: os laboratórios de pesquisas da empresas privadas e as forças armadas. Duas guerras mundiais produzem o crescimento ilimitado da pesquisa militar, cujas criações – dos microcomputadores ao leite condensado – se tornarão depois, em tempo de paz, a base da vida diária em todo o planeta [16] . A título de explicável compensação neurótica, a politização dentro das universidades radicaliza-se ao ponto de consagrar em formulações teóricas explícitas a redução da vida intelectual à afirmação peremptória e brutal dos desejos e ressentimentos dos grupos mais barulhentos, com a recusa de toda arbitragem racional.

Ï Este retrospecto teve apenas o intuito de fornecer aos leitores alguns lembretes, que se mostrarão úteis na hora de pensar sobre o estado da universidade brasileira, que é o que farei na continuação deste trabalho.

09/07/98 PARTE II A História mostra, desde logo, que o termo “universidade” é um ca­rimbo genérico aplicado mal e mal a uma pluralidade de coisas distintas, al­gumas antagônicas. O mais platônico dos essencialistas, espremendo até seu último neurônio, não conseguiria encontrar no céu das formas puras uma idéia capaz de abarcar, ao mesmo tempo, a discere turba volens medieval, sedenta de contemplação teorética, os elegantes institutos de formação de uma casta governante, os núcleos auxiliares para o treinamento de mão-de-obra indus­trial e as estações redistribuidoras de slogans político-ideológicos – quatro coisas que, ao longo da História, receberam um mesmo nome por motivos que não podem ter sido mais respeitáveis do que o simples desejo de comodidade léxica.

Não haveria nisso maior problema, se tudo fosse uma questão de dis­cernir entre nomes e coisas. A distinção das essências por trás da unidade de nome é atividade corriqueira não só do filósofo, mas do historiador profissio­nal. O problema está em que, enquanto a instituição vai mudando de natureza, não muda, em substância, a alta avaliação que a classe acadêmica faz de si mesma, como se os méritos de uma atividade extinta se conservassem, por mágica, após a mutação que a substituiu por algo de radicalmente novo e di­verso. Ontem fazíamos dialéticos e contempladores? Hoje, com o mesmo ar de dignidade, fabricaremos retóricos, homens práticos e governantes; amanhã, sem nada perder do nosso aplomb, despejaremos nas ruas milhões de empre­gadinhos sem retórica nem dialética, mas carregados dos conhecimentos úteis e práticos necessários aos que obedecem sem pensar; e, finalmente, quando já não pudermos fazer nem isso, infundiremos nessa massa de ignorantes o or­gulho da paixão, que fará o mundo tremer. Passaremos de filósofos a minis­tros, de ministros a gerentes, escriturários e caixas de banco, de gerentes e escriturários a agitadores de rua e consumidores preferenciais do mercado de drogas – sempre conservando intocado, acima de toda contingência histórica, o prestígio dos valores eternos que apadrinharam nossa primeira hora: o supe­rior desinteresse do conhecimento, a intangibilidade da consciência intelec­tual, a autonomia da casta pensante, o ar beatificamente blasé do sábio en­volto numa atmosfera que já não é deste mundo. Por mais que as coisas mudem, o discurso da autoveneração universitária jamais vacila; ele cresce mas não muda; ele pode acrescentar novas razões às que o mundo já tem para adorar essa instituição; abdicar das antigas, nunca. À razão aristotélica somar-se-á a razão de Estado; à razão de Estado, a razão contábil; e quando se come­çar a injetar no mercado uma massa incalculavemente grande de semiletrados a que nenhum arranjo contábil possa dar qualquer emprego lucrativo, então se acrescentará, a essas três razões que enaltecem a instituição universitária, a razão suprema: a superioridade numérica. Pois aí já serão tantos os doutores que todos desejarão sê-lo, e o simples risco de ter de diminuir o número dos formandos no ano vindouro espalhará o terror e a revolta por toda a popula­ção. A supremacia da universidade está, enfim, garantida: para onde quer que vá o carro da História, a instituição paira intacta acima do bem e do mal, se não aos olhos de todos, ao menos aos únicos olhos em que ela crê: os seus próprios.

Essa permanência é tanto mais estranha quando se considera que todas as principais instituições humanas, vendo mudar o quadro histórico maior e sua função dentro dele, passaram por angustiantes questionamentos de sua utilidade e valor na nova situação. Notem bem: eu disse todas. O exército, a polícia, as igrejas, a família, os parlamentos, o empresariado, os sindicatos, as organizações terroristas e sociedades secretas, os partidos políticos e entre eles até mesmo esse recordista de presunção que é o Partido Comunista – to­das essas entidades veneráveis tiveram de enfrentar um dia a hipótese de seu fracasso essencial e a eventualidade de uma auto-extinção saneadora. Sacudi­das uma após a outra pelas crises históricas dos últimos séculos, todas tiveram de responder à pergunta decisiva de Esperando Godot: “E se a gente se ma­tasse?” É fato que, de um modo ou de outro, todas sobreviveram, mas medi­ante arranjos traumáticos que lhes ensinaram, de uma vez por todas, as virtu­des da modéstia e a necessidade de negociar em vez de exigir.

A única instituição humana que jamais enfrentou essa crise de consci­ência foi, por ironia, aquela que se proclama o depósito privilegiado da cons­ciência humana. A única que conservou intacto a seus próprios olhos o antigo prestígio foi aquela que, na sucessão de suas mutações, mais perdeu de vista os feitos e valores que lhe valeram originariamente esse prestígio. A única que jamais duvidou de si foi aquela que mais vezes perdeu o senso de identi­dade e mais vezes trocou sua missão sacrossanta por algum papel de ocasião, pronta a despi-lo de novo na primeira oportunidade.

“Ocasião” e “oportunidade”, estará dizendo o leitor, talvez sejam as palavras-chave. A universidade seria a mais oportunista das entidades, o bicho mais camaleônico da fauna institucional humana, especialista em sobrevivên­cia e imbatível no marketing da própria alma. Isto não deixa de ter algo de verdade. Mas o que singulariza a instituição universitária, como vimos, não é apenas sua capacidade de adaptação, e sim sua imunidade às dúvidas e per­plexidades que acompanham normalmente todo processo de adaptação. E aí a adaptabilidade já nada explica, se não vier acompanhada de uma resistência coriácea a todo auto-exame, de uma indiferentismo moral que raia a inconsci­ência sociológica e a pura e simples mentalidade delinqüencial.

A adaptabilidade universitária não seria, então, um puro recorde de sobrevivência – em si mesmo neutro ou até meritório, sob certos aspectos –, mas o indício de algo obscuro, ameaçador e perverso no fundo da alma da in­telectualidade moderna, a marca visível de um escotoma na câmara ótica da classe social que se incumbiu a si mesma de enxergar por todos nós.

Esse diagnóstico não é, por enquanto, nada mais que mera hipótese. Mas três tendências suficientemente visíveis da conduta universitária parecem dar-lhe uma confirmação impressionante.

Em primeiro lugar, o discurso de autolegitimação permanece imune não só às transformações histórico-sociais mais amplas, e sim também às mu­danças no estatuto social, econômico e administrativo da própria instituição universitária.

Em segundo lugar, essa instituição, tão pronta a afirmar a continuidade de sua identidade ao longo dos tempos e a deduzir dela a persistência de seus méritos, é, dentre todas, a menos disposta a assumir a responsabilidade histó­rica de seus atos, a mais pronta a expulsar, do seu horizonte de consciência, as mais óbvias conexões de causa e efeito entre a formação universitária que as pessoas recebem e os grandes desastres que elas produzem na condução de suas vidas – ou da vida do mundo, no caso dos poderosos. É, enfim, a institui­ção mais cheia de defesas e racionalizações, no sentido psicanalítico destes termos: defesas contra a verdade do seu passado, racionalizações para fugir à responsabilidade das conseqüências presentes.

Em terceiro lugar, é a instituição mais propensa a encarar-se, na hora do acerto de contas, como mero agente passivo nas mãos de outras forças so­ciais, evitando por toda lei tomar consciência de si como sujeito agente e fonte autônoma de poder.

Ï No prosseguimento deste trabalho (Partes III, IV e V), vou, primeiro, examinar mais em detalhe essas três ordens de tendências; em seguida, mos­trar como as três, juntas, enformam o espírito, o conteúdo e a letra de um do­cumento bastante característico da mentalidade da classe universitária brasi­leira, isto é, o manifesto “Em defesa da universidade”, assinado por José Arthur Gianotti, Luiz Pinguelli Rosa e outras figuras típicas – ou até arquetí­picas – do nosso meio acadêmico [17] ; por fim, vou sugerir algumas linhas de análise que, costumeiramente abandonadas in limine em toda discussão da questão universitária no Brasil, me parecem no entanto nada desprezíveis.

14/07/98 PARTE III A idéia da universidade medieval como uma congregação discipli­nada, uniforme e obediente a uma ortodoxia imposta de cima é das mais tolas que já passaram por alguma cabeça humana. O mais breve exame dos debates filosóficos daquele tempo basta para mostrar que não só havia plena liberdade de palavra mas também que ali se incentivava entre os pro­fessores um ostensivo confronto de idéias que em qualquer universidade brasileira de hoje – e mesmo em muitas européias e norte-americanas – soaria como um escândalo intolerável.

O mais espantoso nisso é que, no meio de uma sociedade onde o cristianismo era o pressuposto inabalável de todas as crenças humanas, os autores não cristãos fossem es­tudados e debatidos com respeito e veneração. Aqueles que imaginam que a História vai no sentido da liberdade crescente, que todo passado foi um tempo de obscurantismo do qual o progresso nos libertou, simplesmente não se dão conta do que pode ter significado a existência, na universidade cristã, de discípulos devotos de Averroes e Avicena. Para fazer uma idéia do que isso representou em liberdade de pensamento, não é preciso nem mesmo tentar imaginar o destino que teria hoje uma filosofia judaica numa universidade islâmica, ou vice-versa. Não é preciso tanto. Não é pre­ciso nem mesmo mencionar episódios extremos de intolerância fanática, como aquele que recentemente foi patrocinado pela PUC-Rio [18] . Basta lembrar o isolamento profilático e rancoroso em que a iluminadís­sima Universidade de São Paulo aprisionou, durante décadas, o Prof. Ruy Affonso da Costa Nunes – autor da mais consistente História da Educação que já se escreveu no mundo –, pelo simples fato de ser um católico con­servador que se temia contaminasse perigosamente as alminhas estudantis criadas a puro leite progressista.

Os ignorantes de plantão sempre mencionam, a propósito da univer­sidade medieval, o domínio obsediante que, sobre todas as mentes, exer­ciam as doutrinas de Aristóteles. Nunca lhes passou pela cabeça perguntar como elas chegaram a conquistar esse privilégio. Pelo jeito com que eles que falam do assunto, parece que foi por decreto papal, com penalidades para os recalcitrantes. Mas foi exatamente ao contrário. Tão logo divulgada no Ocidente no século XIII, a partir das traduções árabes, a Física de Aris­tóteles foi impugnada por um concílio. A impugnação significava apenas rejeição dogmática de uma doutrina, não proibição de ensiná-la. Longe de desaparecer das salas de aula, como hoje acontece com qualquer doutrina que desagrade a um chefete de departamento, a ciência aristotélica tornou-se tema predomi­nante de exame e discussão na Universidade de Paris, a mais vigorosa da época. Evidentemente os primeiros a tocar no assunto não fizeram senão expor e desenvolver a condenação, que atingia 28 teses importantes da Fí­sica. Aconteceu que apareceram imprevistos defensores de Aristóteles, en­tre os quais Sto. Alberto Magno e Sto. Tomás de Aquino. Com isto, não só o lado aristotélico levou a melhor nos debates, mas a universidade, persua­dida, acabou adotando, como linha “oficial”, não a opinião que fora deter­minada pela autoridade do concílio, mas aquela que se sobressaíra no con­fronto puramente intelectual. O aristotelismo que vai progressivamente dominando as universidades do século XIII até o XVI não é filho do auto­ritarismo, mas de uma liberdade inspirada no respeito de todos à argumen­tação racional. Esse desprendimento, essa veneração aos direitos da inteli­gência, são inimagináveis, hoje, em qualquer debate acadêmico brasileiro, onde aqueles que são derrotados no campo intelectual logo recorrem a ex­pedientes admnistrativos ou à difamação pura e simples para boicotar e ca­lar os adversários, com sucesso infalível. Qualquer membro do esta­blishment universitário brasileiro que fale em “obscurantismo medieval” deve ser considerado, pois, um hipócrita, um ignorante ou ambas essas coi­sas. Mas, não por coincidência, as últimas décadas viram surgir no seio da universidade pátria uma verdadeira epidemia de estudos sobre a Inquisição e as guerras medievais contra as heresias – e esses estudos não precisam nem mesmo ser lidos para criar, entre os estudantes, um preconceito anti­medieval (e anticatólico, sobretudo) que os impede de fazer as compara­ções mais óbvias.

Mas, se estou fazendo essa apologia da liberdade de pensamento me­dieval, é porque ela nos introduz da maneira mais eficaz no tema da “auto­nomia universitária” – um item do discurso ideológico acadêmico que conserva inalterado prestígio desde os tempos do averroísmo latino.

As universidades medievais não lutavam por autonomia, pela sim­ples razão de que eram realmente autônomas. Organizações livres, apoia­das nos próprios estudantes e numa rede de solidariedades que se espalhava informalmente por todo o edifício social, não precisavam da proteção de nenhum poder em especial e podiam se mover entre os grandes deste mundo sem comprometer-se com eles, ora dando apoio a um contra o ou­tro, ora mudando de partido, ora se refugiando num soberbo indiferentismo. Imaginem o que seria, hoje, uma universidade brasileira que, por decisão corporativa, se permitisse apoiar ora a esquerda, ora a direita, ora nenhuma delas: não duraria até a eleição seguinte.

A autonomia da universidade medieval não era um ideal; era sim­plesmente um fato. A existência e a relativa durabilidade deste fato, porém, não resultaram da pura vontade, mas se assentaram numa base socio-eco­nômica compatível. Essa base resume-se em três coisas: 1) Em princípio, os únicos responsáveis pela manutenção de professores e servidores eram os alunos – a turba discente era turba pagante. 2) Por outro lado, a socie­dade em geral e especialmente as classes ricas e as dioceses se incumbiam de ajudar os alunos pobres, de maneira a neutralizar o quanto possível os efeitos da exclusão econômica. 3) Por fim, a universidade não tinha de dar lucro – nem econô­mico nem político –, já que o prestígio social e religioso do conhecimento induzia a sociedade a aceitar, de boa vontade, a repartição de gastos que não lhe pareciam de maneira alguma um prejuízo ou um desperdício.

Organizações privadas, sem fins lucrativos, apoiadas no consenso de seus membros e numa forte solidariedade cultural – não será preciso lem­brar o sucesso que essa fórmula viria a alcançar, seis séculos depois, na constituição das grandes universidades norte-americanas.

Mas o curioso é que, ao tornar-se órgãos da Igreja ou órgãos do Estado, as universidades pretenderam conservar intacto, sobre uma nova base fran­camente hostil, o antigo privilégio da “autonomia” – daí nascendo a secular comédia de erros que é a luta dos protegidos contra o protetor que deles espera serviços e recompensas.

Não é preciso dizer o que representou para a classe dos professores, economicamente, socialmente, politicamente, mentalmente, sua transfor­mação de intelectuais autônomos (free lancers, diríamos hoje) em funcio­nários eclesiais e estatais, incumbidos ex professo de falar em nome de uma autoridade, de um consenso estabelecido, de uma ortodoxia dominante. Não é fantástico que essa gente toda, trocando a liberdade pela segurança, jamais confessasse haver vendido a primogenitura por um prato de lenti­lhas, mas antes continuasse a exaltar idealisticamente a própria liberdade de pensamento como se ela ainda fosse uma realidade, passando mais tarde a culpar pelas inevitáveis restrições decorrentes do negócio tão-somente o comprador? Data daí, sem dúvida, o nascimento do espírito de pomposa hipocrisia, de dogma­tismo travestido de liberdade científica, que viria a se tornar, nos últimos dois séculos, a marca inconfundível da casta acadêmica em todo o mundo.

Ao longo de cinco séculos, quase ninguém enfatizou o bastante que a autonomia universitária, como qualquer outra forma de liberdade, não pode subsistir como forma pura, amputada das condições socio-econômicas que dão espaço à sua existência. É evidente que, mesmo nas piores condições, sempre haverá espíritos livres, indivíduos livres, capazes de sobrepor-se à coerção ostensiva ou sutil e manter alto o estandarte do pensamento. Mas pode-se razoavelmente esperar que esse dom seja compartilhado uniformemente por toda uma casta que cresce dia a dia e que se compõe de funcionários cada vez mais profissionalizados, mais limitados, mais dependentes?

A insistência verbal no ideal da autonomia, acompanhada de uma afoita disposição de vender a preço vil, uma a uma, todas as condições que permitiriam realizá-la, eis um traço constante e praticamente imutável da mentalidade da casta universitária.

27/07/98 [Continua] NOTAS [1] V. Kenneth Minogue, O Conceito de Universidade, trad. Jorge Eira Garcia Vieira, Brasília, UnB, 1981.

[2] Embora muitas das escolas paroquiais tivessem maioria de alunos do sexo feminino – numa época em que escrever e ler era tido por coisa indigna dos varões guerreiros –, nenhuma função administrativa se atribuía às mulheres, cujo aprendizado não tinha outra finalidade, enfim, senão o adorno de suas almas e o enriquecimento da cultura doméstica, que se afirma por fim como um esteio vital da tradição cultural e pedagógica européia que hoje se dilui com velocidade apocalíptica. Data daí, por exemplo, a origem remota do costume das leituras em família, em voz alta, após a refeição noturna, costume que se conservará até o século XIX nas principais nações e dará a base mercadológica essencial para a expansão da indústria livreira, na época dos grandes romances. Bastam esses fatos para comprovar, de um lado, o valor autônomo que a Idade Média atribuía à educação; de outro, o peculiar estatuto da mulher medieval, muito distinto do que hoje procura impingir-nos um doentio rancor feminista sob color de ciência histórica. V. George G. Coulton, Medieval Village, Manor and Monastery, New York, Harper & Row, 1960, e Life in the Middle Ages, selected, transl. and annotated by G. G. Coulton, 4 vols. in one, Cambridge, Univ. Press, 1954, bem como, só para períodos posteriores, Régine Pernoud, La Femme au Temps des Cathédrales, Paris, Stock, 1980.

[3] Ecoando um dogma estabelecido do automatismo mental esquerdista esquerdista, feito sob medida para pessoas de QI 12, nossas professorinhas uspianas (por exemplo D. Marilena Chauí, em Que é Ideologia?, São Paulo, Brasiliense, 1980, Col. “Primeiros Passos”) proclamam, como coisa líquida e certa, que o primado aristotélico da contemplação sobre a ação expressa a ideologia de uma classe aristocrática dominante hostil às “forças populares” que pegam no pesado. Mas como poderia ser assim, se a ocupação principal e obsessiva da classe dominante helênica era a praxis política e se sua educação se constituía exclusivamente de retórica e artes militares, disciplinas práticas por excelência? Expressão das idéias de um reduzido círculo de intelectuais não raro marginalizados e hostilizados, a nova concepção platônico-aristotélica da vida contemplativa só virá a se tornar dominante mil e tantos anos depois, e mesmo assim só entre membros do clero, continuando alheia à mentalidade da aristocracia guerreira.

[4] V. Jacques Le Goff, Os Intelectuais na Idade Média, trad. portuguesa, Lisboa, Europa-América, s/d.

[5] V. Maria Amélia Salgado Loureiro, História das Universidades, São Paulo, Estrela Alfa, s/d.

[6] Sto. Tomás, por exemplo, arrisca, com cuidadosa modéstia, alguma teorização astrológica na Summa contra gentios (Livro III) e alquímica em “Sobre as operações ocultas da natureza”, opósculo no. 2 do catálogo de Reginaldo.

[7] “The view taken of a University in these Discourses is the following: –That it is a place of teaching universal knowledge. This implies that its object is, on the one hand, intellectual, not moral; and, on the other, that it is the diffusion and extension of knowledge rather than the advancement. If its object were scientific and philosophical discovery, I do not see why a University should have students; if religious training, I do not see how it can be the seat of literature and science.” John Henry Newman, The Idea of a University Defined and Illustrated: I. In Nine Discourses delivered to the Catholics of Dublin; II. In occasional Lectures and Essays addressed to Members of the Catholic University, ed. Ian T. Ker (Oxford, 1976).

[8] V. Paul Hazard, La Crise de la Conscience Européenne: 1680-1715, Paris, Arthème Fayard, 1961.

[9] Ausgewählte Schriften, Frankfur-am-Main, Suhrkamp Verlag, 1985, Band 5, S. 11.

[10] V. Antoine Faivre, “La philosophie de la nature dans le romantisme allemand”, em Yvon Belaval (org.), Histoire de la Philosophie, Paris, Gallimard, 1974 (“Bibliothèque de la Pléiade”), pp. 11-45.

[11] O Privat-Dozent, figura típica do ensino da época, é precisamente isso: o professor que, ligado a uma universidade, não tem remuneração fixa, mas recebe o quanto se coleta entre os alunos no fim do mês.

[12] Mas a praga nacionalista tinha vindo para ficar: até hoje é espantoso, para um observador de Terceiro Mundo, que acompanha com beata admiração o progresso do conhecimento em todos os grandes centros simultaneamente, notar como em cada um deles os eruditos se permitem ignorar os trabalhos de seus colegas de outros países, só tomando ciência deles quando são traduzidos ou ganham destaque na imprensa internacional. Nada mais consternador, e ao mesmo tempo paradoxalmente reconfortante para o provinciano, do que constatar o provincianismo mental das grandes capitais.

[13] Sobre o provincianismo temporal e o cronocentrismo, v. meu livro O Futuro do Pensamento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo, 2a. ed., Rio, Faculdade da Cidade Editora, 1998, Cap. I.

[14] Sobre as conseqüências nefastas que a formação desse consenso teve especialmente para o ensino da filosofia em todo o mundo, v. meu breve ensaio “Estatais do pensamento”, em Bravo!, São Paulo, ano 1, no. 3, dez, 1997.

[15] Otto Maria Carpeaux, “A idéia de universidade e as idéias das classes médias”, em A Cinza do Purgatório, Rio, Casa do Estudante do Brasil, 1942, reproduzido em Ensaios Reunidos, 3 vols., Organização, prefácio e notas de Olavo de Carvalho (em curso de edição pela Topbooks em associação com a Faculdade da Cidade Editora).

[16] “Quase todos os confortos com que a tecnologia nos ajuda na vida diária foram criações da pesquisa militar. Enquanto isso, os universitários se ocupavam precipuamente de criar e fomentar as ideologias que produzem guerras. Da Revolução Francesa até hoje — com a notória exceção do expansionismo bismarckiano —, não se fez uma só guerra por exigência de militares, mas todas para realizar alguma doutrina acadêmica, fosse de Karl Ritter ou de Georges Sorel ou de Vilfredo Pareto, de Carl Schmitt ou de Régis Débray. Os militares sempre dizem que não dá, mas acabam se rendendo, como os caciques da Idade da Pedra, à mágica das palavras. Isso não quer dizer que, nos tempos modernos, as atribuições das castas tenham se invertido. Ao contrário: é da natureza das coisas que os homens de idéias inventem os pretextos de matar, obrigando os homens de armas a inventar os meios de sobreviver — os quais acabam, por inescapável conseqüência, melhorando a vida dos sobreviventes.” O. de C., “O pajé”, Jornal da Tarde, São Paulo, 12 de junho de 1997.

[17] “Em defesa da universidade”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 de julho de 1998. O documento, segundo nota de rodapé, “resulta de reunião promovida pela COPEA (Coordenação de Programas de Estudos Avançados da UFRJ) em 29 e 30 de maio de 1998”. Os 26 signatários formaram, na ocasião, o “Grupo de Defesa da Universidade Pública” e inauguraram uma coleta de adesões por e-mail, fax e correio – o que subentende que não apenas expressaram uma opinião, mas pretendem fazer dela uma força politicamente agente.

Minha Aluna E O Marcos Bagno

30 de junho de 2000 | 30 de junho de 2000

Carta e comentários Graça Salgueiro faz parte de um grupo de alunos do Recife, que se reúnem mensalmente para assistir às fitas do Seminário de Filosofia e depois me enviam perguntas por e-mail ou telefone. — O. de C.

Querido professor, Sou amiga de longuíssima data do escritor e lingüista Marcos Bagno, a quem o senhor se refere no artigo “Quem Come Quem”. Como sua homepage é muito extensa, só recentemente li esse texto e, sendo amiga da pessoa a quem o senhor se refere, e conhecedora do livro Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz , me senti, por uma questão de consciência, no dever de informar ao meu amigo o que se falava sobre sua obra. Fiquei estarrecida com o seu artigo, porque, na ocasião em que li o livro achei-o revolucionário (no sentido de transformador). Ocorre que o senhor enxerga o que ninguém mais viu! Seus comentários são absolutamente pertinentes e, por isso mesmo, acreditei ser importante que o autor conhecesse seus argumentos, porque essa é a tese que ele brevemente estará defendendo, no doutorado que faz na USP. Fiquei bem chateada com a resposta que ele me enviou, pois dizia que a sua opinião não contava, que o sr. era um reacionário direitista e que servia de chacota em todas as universidades. Isso me deixou triste por ele, porque mostrou não ter bom alcance de visão, além de não ter maturidade, nem humildade, para averiguar nas críticas, o que poderia melhorar a qualidade do seu trabalho. Mostrou-se bem uspiano, aquele que outrora eu via como uma das pessoas mais cultas e inteligentes que conheci.

Obs. — Não reclamemos do prof. Bagno. Ele merece até um pouco de gratidão. Não podendo refutar as críticas que fiz à sua tese, contenta-se, com exemplar modéstia, em cochichar pelos cantos no recinto fechado da universidade, bem protegido entre seus alunos, longe de mim e de um confronto que em tais condições lhe seria mais temível que a peste. Se ele reagisse em público, isto me obrigaria a desenvolver as observações casuais que fiz no meu artigo, entrando numa análise detalhada que reduziria a pó as demais pretensões científicas desse rapaz, e então eu seria, com justa razão, acusado de bater em criança. Deixemos, pois, as coisas como estão. Outro dia pensei em responder às críticas tolas que ele fizera a um projeto do deputado Aldo Rabelo em defesa da língua pátria. Mas depois admiti que não era necessário: um sujeito chamado Bagno já contém no próprio nome a indicação precisa do que deveria ir fazer.

Não fique triste, querida, pois decepções com amigos de juventude são uma fatalidade incontornável na vida de quem aprende, evolui e vê os companheiros de geração ficando cada vez mais para trás, cada vez mais burros, cada vez mais rígidos e encarquilhados naquela forma de velhice que é, de todas, a única realmente lamentável: a velhice de livre escolha. Certa vez um amigo meu, a quem a ditadura preservou da decadência obrigando-o a refugiar-se nos EUA, onde acabou casando e ficando, veio visitar a terrinha e me convidou a ir a um jantar de ex-alunos do nosso antigo colégio. “Não vá lá”, aconselhei. Ele foi. No dia seguinte estava acabrunhado com o espetáculo de decrepitude prematura que acabara por presenciar. Da infância e da adolescência devemos conservar somente o espírito — a curiosidade da primeira, a coragem da segunda —, nunca as pessoas, a não ser que elas conservem esse espírito também, mas aí já não se tratará de amigos de ontem, e sim de amigos de sempre. Curiosamente, a maior parte de meus amigos tem trinta anos a mais ou a menos que eu: meu círculo de relações divide-se numa ala geriátrica e outra pediátrica. Da minha geração sobraram só três, que estão, veja só, um nos EUA, outro na Itália, outro na China. Dos demais, pouco me importo, pois são a geração mais calhorda que este país já teve — a geração decadente por excelência, no sentido que Rosenstock dá à palavra: “Decadência é ficar acovardado por dúvidas e não ter a coragem de transmitir uma fé à geração seguinte. A decadência da geração mais velha produz a barbárie da mais jovem.” Olhe o José Serra e compreenderá o Marcos Bagno.

Estou lhe comentando esses fatos, embora saiba que em nada há de lhe afetar, para corroborar aquilo que penso a seu respeito. Quando lhe chamo “querido Professor” é por ter um respeito enorme pela sua condição de professor e filósofo, e por confirmar isso na prática, tomando como premissa o que o sr. fala na fita no 3: ” O filósofo é aquele que transmite um ensinamento, dá o exemplo e exerce uma influência”. Eu venho aprendendo com os seus ensinamentos, seus exemplos e isso, de certa forma, me influencia intelectualmente. Tenho aprendido a ver com olhos mais críticos e a exercitar a lógica, tão sua íntima. Por natureza (e formação – sou psicóloga clínica de linha freudiana) sou muito analítica: analiso tudo, levanto mil hipóteses, vejo todas as possibilidades, até chegar a uma conclusão. Mas, sempre que leio um artigo seu ou assisto uma fita das aulas do Seminário, acabo com a mesma pergunta: “Por que eu não pensei nisso antes?”

Obs. – “Por que é que eu não pensei nisso antes?” é o mais alto elogio que se pode fazer a um pensador. Muito obrigado, minha querida.

Sabe aquela história do ovo de Colombo? Pois é. Fiquei assim com a fita no 4, quando o sr. aborda a questão da Psicanálise, em que o Consciente, que é o descobridor das outras instâncias psíquicas, não é considerado na ordem das coisas. A sua interpretação é tão óbvia, tão fantástica, o sr. disseca os fatos, ponto por ponto, até chegar na raiz da questão, e por que ninguém viu isso antes? Nem o próprio Freud??? Pode rir, ou me apelidar de “a Louca do Jardim”, mas aplaudi nessa parte. Sou assim, completamente destrambelhada. Rio, choro, aplaudo quando assim tocada. Por isso mesmo fico chocada quando o chamam de raivoso, reacionário, arrogante. Não sei onde está isso tudo escondido, pois eu não consigo ver. Graças a Deus. Não estou lhe jogando confete, até porque acho isso medíocre e babaca; quando lhe digo essas coisas é por honestidade de pensamento e entusiasmo, enorme até, acreditando que o feed-back é uma coisa necessária (embora o sr. já não precise mais disso).

Obs. – “Raivoso” é óbvio que não sou. Uma das coisas que mais irritam certos fulanos é justamente sua incapacidade de me irritar, de me fazer perder o bom-humor e a desenvoltura verbal que vem dele. Não sou raivoso, mas eles adorariam que eu o fosse, pois a raiva emburrece e deixa a gente à mercê do adversário. Todo sujeito raivoso escreve naquele tom de pretensa dignidade ofendida que se infla e engrandece para impressionar e só consegue é cair no ridículo. Como eles ficariam felizes se eu lhes desse assim minha cara a tapa, como eles tão generosamente me dão as suas. Já “arrogante” vem de ab-rogare , = “exigir antes”, e designa o ator que exige aplausos antes do espetáculo. Decerto não é o meu caso, pois esperei até os 48 anos para publicar meu primeiro livro justamente para me certificar de que havia superado a ânsia juvenil de aplausos, mesmo depois do espetáculo. Quanto a “reacionário”, não é qualificativo totalmente injusto. “Reacionário” é a palavra com que os candidatos a tiranos designam aqueles que oferecem uma incômoda resistência às suas tentativas de assalto ao poder. Os comunistas usaram esse termo nos versos da “Internacional” e os nazistas na “Canção de Horst Wessel” para qualificar seus inimigos. A crença subentendida é que quem é contra eles é contra o progresso. Se o progresso consiste em botar essa gente no governo, então sou reacionário, sim, com muita honra, como o foram Nelson Rodrigues, T. S. Eliot, Jorge Luís Borges, Miguel de Unamuno, Fernando Pessoa e tantos outros cujo exemplo me inspira. Prefiro viver no passado a submeter-me a um futuro moldado por Hitler, Stalins, Castros e tutti quanti . Antes um passado vivo que um futuro morto.

Quanto a você, minha querida, pode ser destrambelhada o quanto queira, mas uma coisa é certa: sou seu fã. Sua sensibilidade às nuanças do meu discurso mostra que não assiste às aulas só com a inteligência, mas com o seu ser inteiro, condição, aliás, para que a inteligência esteja lá.

Agora, tem uma coisa que eu queria lhe dizer: a qualidade das fitas (ou a pouca qualidade) tem dificultado a compreensão das palavras ditas em certos momentos, pois com a tradutora, muitas vezes ela não espera o sr. acabar de falar, de modo que nem escutamos o que o sr. diz, nem o que ela diz. Às vezes, também, o sr. põe a mão na boca, num gesto super-comum, mas abafa o som, tornando-o ininteligível. É possível minimizar essas falhas? Estou tentando transcrever as fitas, mas esses acidentes dificultam bastante. Perdoe a exigência; é que tudo isso tem sido muito importante para mim. Até quando o sr. fica no Brasil? Depois que o sr. voltar, posso continuar escrevendo? Se eu não estiver sendo chata, cansativa, inconveniente, gostava imenso que isso fosse possível, mas, por favor, me informe se isso lhe desagrada.

Obs. – Tenho muitos cacoetes que um orador profissional policiaria com mais cuidado. Não prometo livrar-me deles, pois quando estou dando aula fico tão absorvido no assunto que não noto nem se estou de braguilha aberta. O que posso e prometo fazer é solicitar que os alunos me vigiem e que o encarregado da gravação peça repetições das falas obscuras. OK? Quanto à tradutora, minha queridíssima amiga romena Iulia Baran, ela não tem culpa de ser esperta e captar meu pensamento — com notável exatidão — antes de eu acabar a frase. Em todo caso, vou pedir-lhe que ela refreie sua exuberância.

Fico no Brasil enquanto me deixarem. Ainda este ano volto à Romênia, mas por poucas semanas. Quanto às suas cartas, pode enviá-las aos montes, que muito me alegram. Mas de vez em quando fale um pouco de mal de mim, senão os Bagnos vão achar que você está recebendo uma graninha da direita internacional.

Sinto uma necessidade muito grande de comentar as minhas descobertas e, nem sempre tenho com quem. Faço isso sempre com Ronaldo, mas ele está de férias, e por isso anda meio disperso, apesar de continuarmos com o grupo e de nos vermos. Ele também tem a mesma generosidade e paciência com as minhas ignorâncias, como o senhor. Obrigada, mais uma vez, por tudo que venho aprendendo.

Obs. – Obrigado por me deixar ensinar. Em geral, quando tento fazer isso, as pessoas querem me bater.

Beijinhos – Graça Salgueiro.

Consciencia Limpa

3 de setembro de 2010 | Diário do Comércio

Já tendo demonstrado que Vladimir Safatle possui a quota de burrice requerida para o preenchimento do cargo de professor de filosofia na USP (v. “Cabeça de uspiano” em http://www.olavodecarvalho.org/semana/090618dc.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/090623dc.html ), não me espanta que ele agora apareça clamando pela implantação de um regime totalitário no Brasil, nem muito menos que o faça com o ar inocente de quem defendesse, com isso, a mais pura normalidade democrática.

Não o acuso de ser fingido, hipócrita, manipulador. Ele não usa da língua dupla orwelliana para nos enganar. Ao contrário, ele deixou-se introxicar de doublespeak ao ponto de que, em vez de usá-la, é usado por ela, ecoando, com a inimputabilidade mecânica de um boneco de ventríloquo, o que quer que ela lhe instile na caixa craniana. Não imaginem portanto que ele tente nos vender, maquiavelicamente, o totalitarismo com o nome de democracia. Não! Ele acredita mesmo, com pia sinceridade, que totalitarismo é democracia, democracia é totalitarismo. Almas caridosas podem nutrir a esperança de que um dia ele venha a tornar-se capaz de distinguir ao menos um pouquinho essas duas coisas, mas para tanto ele necessitará de umas mil reencarnações, e eu não acredito em reencarnação. Safatleza não tem cura.

Em artigo recém-publicado na Folha (onde mais poderia ser?), ele critica os candidatos do PSDB por terem se permitido, na campanha eleitoral, dizer duas ou três coisas que estão um tanto à direita da linha oficial petista. O partido de José Serra e Índio da Costa, proclama o referido, “só teria alguma chance se tivesse ensaiado uma reorientação programática a partir de um discurso mais voltado à esquerda”.

Com toda a evidência, a democracia dos sonhos do prof. Safatle consiste na livre concorrência entre vários partidos iguais ao PT. Insisto: não creio que ele tenha o intuito de ludibriar a platéia ao usar a palavra “democracia” para designar o que é, em substância, um totalitarismo mal e porcamente camuflado – o regime de um partido único com nomes diversos. Ao contrário, ele acha mesmo que democracia é isso e nunca lhe ocorreu nem ocorrerá que possa ser outra coisa, tão funda, natural e espontânea é a sua crença de que à direita da esquerda só existe o inferno. E na cabeça dele – há indícios de que possui uma –, essa crença não é nem um pouco maniqueísta, pois maniqueísmo é coisa da direita, não é?

Eu sempre disse que o PT não era um partido normal, que aceitasse o rodízio de poder com outros partidos de direita ou de esquerda. O PT, repito há duas décadas, é um partido revolucionário, totalitário, firmemente decidido a banir da vida política tudo o que não seja ele próprio ou igual a ele próprio. O fato de que venha realizando esse programa com discrição homeopática e obstinada lentidão, em vez de fazê-lo aos gritos e estampidos como o partido governante da Venezuela, só torna Lula diferente de Chávez desde o ponto de vista estético: cada um é feio a seu modo. Lula é até um pouco mais, porque à força de facadas anestésicas logrou persuadir a direita a deixar-se morrer sem dizer um “ai”, ao passo que sua equivalente venezuelana não só continua gemendo mas de vez em quando arranca uns gemidos do próprio Chávez. O prof. Safatle sente-se inconformado de que a uniformização esquerdista do cenário eleitoral brasileiro não tenha alcançado aquele cume de perfeição em que nenhuma ínfima partícula de direitismo residual pode aparecer nem mesmo por equívoco, nem mesmo por lapso de atenção da parte de esquerdistas leais.

Tanto é assim que, ao chamar de “errática” a campanha de José Serra, assinalando a incoerência entre a denúncia das ligações PT-Farc e os elogios concomitantes – até exagerados – do candidato oposicionista à pessoa do sr. Presidente da República, em qual dessas atitudes vê ele um erro imperdoável? Em acusar o criminoso com provas factuais sobrantes ou em louvá-lo com base na mera opinião pessoal? Adivinhem. No entender do prof. Safatle, o sr. Serra, para ser um candidato sério, honesto, consistente, deveria, ao falar de Lula, ocultar os fatos desabonadores que conhece e mencionar somente as belas qualidades que imagina. O sr. Serra só mereceria o respeito do Prof. Safatle caso resistisse à tentação da sinceridade e se ativesse ao nobre exercício de um coerente puxa-saquismo.

Esse raciocínio não é nada estranho, no fundo. Um sujeito que concebe a democracia como eliminação de toda oposição ideológica só pode mesmo chamar de honestidade e seriedade aquilo que o restante da espécie humana entende por leviandade, vigarice e hipocrisia.

Quando digo que a mentalidade revolucionária enxerga tudo invertido, é disso que estou falando. O prof. Safatle exemplifica-o com aquela candura perversa de quem conserva a consciência limpa porque não tem nenhum contato com ela.

Em 3 de setembro de 2010

O Ovo Do Maluco

3 de outubro de 2013 | Diário do Comércio

Recentemente um estudante, todo assustado, foi contar ao prof. Renato Janine Ribeiro que um colega de classe, marxista de impecável formação uspiana e quase militante, dera de ler os meus escritos e – oh, horror! – começara a me dar razão. Na intenção piedosa de trazer de volta ao rebanho a ovelha desgarrada, o rapaz passou-lhe um velho artigo do próprio Janine, mas não adiantou.

Nem vejo como poderia ter adiantado. Esse artigo é um exemplo perfeito da inépcia acadêmica ante a qual o ex-futuro-militante, decepcionado, resolvera procurar algum ensinamento mais substantivo nos escritos deste abominável reacionário.

Décadas de esforço coletivo no sentido de isentar Lênin das culpas de Stálin só deram como resultado provar que o pior do estalinismo já estava contido em germe nas propostas de Lênin, o qual teve apenas a amabilidade de morrer de sífilis antes de poder realizá-las. Diante de tamanho desastre historiográfico, algumas almas devotas passaram ao Plano B: limpar Marx das culpas de Lênin. O prof. Janine é uma dessas belas almas, e o artigo mencionado é a prova da sua devoção.

Segundo ele, os líderes comunistas, a começar por Lênin, não entenderam Marx e por isso criaram um Estado-monstro, repressor e opressor. “Marx não defende o Estado máximo... O que ele defende é o Estado nenhum. A supressão do Estado é um princípio fundamental para ele, que aí se aproxima dos anarquistas.”

O estudante assustado dissera ao seu colega que para conhecer Marx é preciso ler Marx, não o que o Olavo de Carvalho diz a respeito. Muito justo. Mas não parece que o próprio Janine tenha tentado compreender Marx lendo Marx, e sim inventando-o. Se lesse pelo menos o Manifesto Comunista, encontraria lá o seguinte parágrafo:

“O proletariado servir-se-á da sua dominação política para arrancar progressivamente todo o capital da burguesia, para centralizar todos os meios de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado.”

Qualquer semelhança entre isso e o anarquismo é mero delírio de interpretação. O proletariado organizado, isto é, o Partido, não é uma alternativa ao Estado: ele é o próprio Estado. E Marx não concebe a autodissolução do Estado como substituição dele por alguma outra coisa, à maneira anarquista, e sim como uma auto-superação dialética, uma Aufhebung hegeliana ou, como diria Mao, um “salto qualitativo” — o processo pelo qual uma coisa muda de forma sem mudar de substância: quando o Estado houver dominado toda a sociedade, ele automaticamente cessará de existir como entidade distinta, pois será idêntico à sociedade mesma. A extinção do Estado coincide com a apoteose da dominação estatal, que, por onipresença, desaparece.

Há tempos escrevi que esse projeto é uma curiosa inversão da regra biológica de que quando o coelho come alface não é o coelho que vira alface, mas a alface que vira coelho. Se o Estado engole a sociedade, não é o Estado que desaparece: é a sociedade. A “autodissolução do Estado”, tal como Marx a concebia, é um exemplo típico da inversão revolucionária de sujeito e objeto.

O prof. Janine fica todo feliz ao pensar que o Estado comunista só socializará os meios de produção, sem tocar na pequena propriedade particular. Mas ele não pode querer isso e a “extinção do Estado” ao mesmo tempo: se resta alguma fronteira entre propriedade particular e propriedade pública, a diferença entre Estado e sociedade permanece intacta. Marx entendia que nenhum comunismo seria possível sem mudar até mesmo a natureza humana. Que “pequena propriedade” pode ficar fora disso?

Janine também se derrete ao pensar que Marx queria estatizar a economia sem controlar a conduta dos cidadãos, a vida privada. É ideia de criança. Como reeducar as pessoas para a economia comunista sem mudar seus hábitos diários, sentimentos, suas reações pessoais, sua vida familiar? E como mudar tudo isso sem intromissão estatal nesses domínios? Marx chamaria isso de idealismo burguês.

A simples presunção de definir o pensamento de Marx por um ideal abstrato, separado da práxis que o incorpora e que não pode realizá-lo sem transformá-lo no seu contrário, é antimarxista no mais alto grau. Janine, em matéria de marxismo, não passou do pré-primário.

No cérebro dele, o divórcio burguês entre o ideal e o real, que arrancava de Marx gargalhadas de sarcasmo, chega ao cúmulo de proclamar: “Não fossem a 1.a Guerra Mundial e a queda do czarismo, o socialismo marxista poderia estar associado hoje a uma opção democrática.”

Não é lindo? Se não acontecesse o que aconteceu, não teria acontecido. A culpa de tudo é da maldita História: ela não é mais o reino da práxis onde o marxismo se realiza por meio das contradições: é a perversa destruidora do ideal marxista. Que comédia!

“Não podemos deixar Marx refém do comunismo histórico”, diz ele, propondo um “Marx sem Lênin”. O comunismo é, de fato, o único movimento que quer ter o privilégio de ser ao mesmo tempo uma força histórica organizada e unificada, capaz de ação planejada e contínua ao longo das épocas, e uma coleção de “pensadores” isolados e inconexos, sem nenhuma responsabilidade de conjunto.

Burrice Temivel

3 de outubro de 2004 | Zero Hora

Mais que ódio às Forças Armadas, o fuzuê criado pela associação dos reitores (Andifes) contra a garantia de vagas para os militares nas universidades denota o analfabetismo funcional de Suas Excelências.

A lei que suscitou a indignação da entidade busca impedir que o militar estudante fique em desvantagem ante seus colegas civis, e que sofra essa injustiça em razão do próprio serviço que presta a um Estado investido do direito de mudá-lo constantemente de cidade. Um desequilíbrio constitutivo da condição de soldado é aí corrigido, restaurando a igualdade de oportunidades entre alunos de farda e à paisana, estes, aliás, quase sempre de classe mais rica.

Interpretar isso como “privilégio” é inverter o sentido dos termos, da relação lógica entre eles e da realidade que lhes corresponde. Esse não é um ponto que dependa de opiniões, de valores, de escolha pessoal. É simples questão de compreender um texto – e isto parece estar acima da capacidade dos senhores reitores.

Não o digo para atacá-los, mas para defendê-los. Excetuada a inépcia, a única hipótese restante para explicar sua atitude seria a incompreensão deliberada, maldosa, empenhada em torcer o sentido da lei para fomentar criminosamente o preconceito antimilitar e gerar uma crise institucional. Pois a Lei 9.536, de 1997, oferece a mesma garantia aos militares e aos funcionários civis, mas a Andifes protesta exclusivamente contra sua aplicação àqueles, não a estes. É confusão ou malícia? Na primeira hipótese, aquela assembléia de sábios inverte o sentido da palavra “privilégio” simplesmente porque não o compreende. Na segunda, utiliza-se maquiavelicamente de uma inversão proposital para instigar as ambições de uma classe em detrimento da outra, esfregando as mãos de contentamento por haver conseguido explorar com astúcia as contradições de interesses dentro da estrutura do Estado. Ou os senhores reitores são muito burrinhos, ou são intrigantes revolucionários. Não sendo da minha natureza atribuir más intenções a ninguém, escolho resolutamente a primeira alternativa. Resta, é claro, a possibilidade de que haja nas suas cabeças um misto de ambos os componentes, mas aí sua psicologia já se torna complexa demais para ser analisada num artigo de jornal.

Qualquer que seja o caso, a incapacidade é um fator presente, e por si já é grave o bastante.

A inépcia da elite universitária é a causa mais imediata e geral dos males que acometem este país, e a complacência, se não afeição masoquista da sociedade para com essa classe de mentecaptos subsidiados já ultrapassou, de há muito, o limite de segurança para além do qual uma nação arrisca perder, junto com a consciência intelectual, a capacidade de sobrevivência.

Mas a arrogância da Andifes contra as Forças Armadas torna-se ainda despropositada quando se sabe pelos resultados do Provão que, das instituições superiores de ensino, praticamente só as militares honram a educação brasileira. As outras — públicas e privadas — são em geral nada mais que tubos digestivos, onde por um lado entra o dinheiro do povo em impostos ou mensalidades, pelo outro sai anualmente uma enxurrada de incapazes.

Excetuadas as glórias da nossa engenharia aeronáutica, mérito de militares, a contribuição dos universitários brasileiros ao progresso do conhecimento humano é praticamente nula. Imensurável, em contrapartida, é sua contribuição ao incremento do ódio revolucionário e da crença messiânica no futuro da estupidez socialista. Os dois fatores estão interligados: a demagogia esquerdista, Ersatz consagrado dos estudos sérios, é uma via preferencial para subir na vida sem fazer força, com a ajuda do corporativismo predatório e de interesses partidários infames.

“Tolerância zero” para com a impostura acadêmica é a condição prévia para qualquer esperança de um Brasil melhor. É insensato pretender que um povo possa primeiro resolver seus problemas para só depois tratar de aprender o que tem de aprender.

* * * PS – A liminar concedida quinta-feira pelo juiz federal Aroldo José Washington, da 4.a Vara Federal Cível de São Paulo, em favor das pretensões da Andifes, suspendeu apenas o parecer da Advocacia Geral da União que garantia as vagas para os militares, mas não a lei Lei no 9.536, fundamento dessa garantia, que continua em vigor.

Em 3 de outubro de 2004

A Aposta Na Guerra

3 de janeiro de 2004 | O Globo

O fichamento de turistas nos EUA visa a controlar a avalanche de imigrantes ilegais e a entrada de possíveis suspeitos de terrorismo. Os dois males estão interligados, pois a imigração ilícita tem sido o meio mais fácil de contrabandear terroristas, além de ser usada, de maneira muito deliberada e consciente pelos radicais islâmicos, como instrumento de guerra cultural. Até que ponto ambas essas operações têm cúmplices poderosos entre os próprios americanos, elevando o risco ao nível de alerta máximo, é algo que pode ser avaliado por uma comparação bem simples. Tomem, de um lado, o fenômeno crescente da repressão anticristã que descrevi no artigo “Natal proibido”. De outro, fiquem sabendo que a multibilionária Fundação Ford introduziu em seus programas educacionais a sugestão de modificar a Constituição Americana para que proíba a “blasfêmia contra Allah”, categoria que abrange praticamente toda e qualquer manifestação verbal anti-islâmica. Um país cujos universitários são induzidos a admitir tranqüilamente a possibilidade de conceder privilégios especiais a uma comunidade religiosa recém-chegada, ao mesmo tempo que as religiões locais tradicionais são cada vez mais marginalizadas e perseguidas pelo establishment , é evidentemente um país que está sendo adestrado para imolar sua cultura no altar de seus inimigos. Entre a preparação psicológica de uma geração de estudantes e a mudança constitucional visada, o caminho é longo, mas não muito. Todo o “multiculturalismo” universitário que predispôs a população americana à passividade diante da perseguição anticristã começou, quatro décadas atrás, em programas semelhantes a esse da Ford. As armas da guerra cultural são sutis, suas ações deliberadamente lentas. Mas nunca isoladas. O anti-americanismo chique da Ford converge com a intriga corrente entre políticos europeus — os bons e velhos amigos da ONU — de que é um perigo mortal para uma democracia moderna ter um presidente cristão.

Isso sugere aliás outra comparação elucidativa.

O panorama da guerra cultural nos EUA é complexo, assustador e, como não poderia deixar de ser, totalmente ignorado pelos brasileiros. Mas, mesmo sem levá-lo em conta, a ameaça física do terrorismo, os constantes anúncios de novos ataques e a articulação internacional em favor dos terroristas — da qual o Brasil não está de todo inocente –, bastam para mostrar que nenhuma precaução de segurança nos aeroportos americanos, por mais constrangedora que seja, pode ser considerada excessiva, absurda ou insultuosa à dignidade humana.

No Brasil, em contrapartida, não há avalanche de imigrantes ilegais, muito menos provenientes dos EUA, nem qualquer organização terrorista em atividade, já que a única que poderia ser assim qualificada — as Farc –, está em boas relações com o nosso governo e só joga bombas na Colômbia, limitando suas atividades no território brasileiro à circunspecta distribuição de algumas centenas de toneladas de cocaína por ano, uma bobagenzinha incapaz de perturbar o sono de nossas autoridades.

Qual o motivo, então, para fichar os americanos que entram no Brasil? O motivo é um só: eles são americanos, e o juiz Julier Sebastião da Silva está cego de raiva contra o país de onde eles provêm. Tão cego, que perdeu totalmente o senso das proporções, chamando de nazista a fiscalização nos aeroportos de lá e não vendo nazismo nem racismo nenhum na ostensiva discriminação de viajantes legais contra os quais nada se tem a alegar exceto sua nacionalidade.

Mas decerto não é só o magistrado quem está cego. O alinhamento do Brasil com o anti-americanismo internacional, a aliança com Hugo Chávez e Fidel Castro, o cumprimento meticuloso, enfim, do programa do Foro de São Paulo, que ainda um ano atrás os guias iluminados da nossa opinião pública ridicularizavam como paranóias do sr. Constantine Menges, já são hoje fatos consumados — e suas conseqüências para o destino do país arriscam ser as mais devastadoras. Diante disso, que faz a mídia? Desvia as atenções do público para as semelhanças entre os governos Lula e FHC — as quais existem, sem dúvida, mas não têm no quadro presente senão uma função puramente diversionista — e amortece o impacto de notícias que revelam a aposta brasileira numa articulação mundial cujo resultado, a médio ou longo prazo, só pode ser um: a guerra.

Meses atrás, um famoso jornalista brasileiro expressava seu obsceno entusiasmo diante do antiamericanismo de alguns militares brasileiros, enaltecendo-os porque achavam lindo treinar soldados para matar marines na floresta amazônica. Ora, ninguém se alegra com preparativos militares se não pretende entrar em guerra. Mas por que logo contra os marines , se a única ameaça à nossa soberania na Amazônia vem de ONGs associadas ao globalismo anti-americano da ONU? O erro de alvo, segundo parece, não é nada acidental. Fichando americanos nos aeroportos, subsidiando as revoluções falidas de Chavez e Fidel, acobertando as Farc, debitando na conta dos EUA os crimes de seus inimigos ou afagando o ego dos regimes sudanês e norte-coreano, o Brasil parece já ter incorporado perfeitamente o papel que estrategistas internacionais insanos lhe destinaram: o de peão sonso num jogo que não pode terminar bem.

Morreu terça-feira última o prof. Og Francisco Leme, ex-presidente do Instituto Liberal do Rio. A época dos brasileiros honrados vai ficando cada vez mais longe.

Em 3 de janeiro de 2004

Lula Planetario

3 de janeiro de 2004 | O Globo

Se Homero tinha razão ao dizer que os moinhos dos deuses moem lentamente, o cérebro nacional deve ser divino, pois é infinita a lentidão com que processa as mais óbvias informações. O filósofo Raymond Abellio, que nos conhecia bem, observava que nesta parte do universo a germinação das idéias não segue o ritmo histórico, mas o tempo geológico. Nada o ilustra melhor do que a renitente ignorância das elites brasileiras em torno da questão do governo mundial. Nossos líderes empresariais e políticos ainda vivem na época em que toda menção ao assunto podia ser tranqüilamente rejeitada, com um sorriso de desdém, como “teoria da conspiração”. No entanto, há pelo menos dez anos a ONU já declarou oficialmente sua intenção de consolidar-se como administração planetária: “Os problemas da humanidade já não podem ser resolvidos pelos governos nacionais. O que é preciso é um Governo Mundial. A melhor maneira de realizá-lo é fortalecendo as Nações Unidas” ( Relatório sobre o Desenvolvimento Humano , 1994).

A autoridade avassaladora desse projeto constitui hoje a fonte única e central de onde jorram sobre toda a população terráquea legislações uniformes em matéria de indústria, comércio, ecologia, saúde, educação, quotas raciais, desarmamento civil, etc. A docilidade com que até nações poderosas como a Inglaterra se vergam às suas exigências — embora nenhuma com o entusiástico servilismo brasileiro — deve-se em parte à natureza informal, sutil e tácita do processo, que vai se implantando em doses homeopáticas, delicadamente, sem assumir sua existência de conjunto, transferindo para o recinto fechado das comissões técnicas as decisões rotuladas complexas demais para a competência da opinião pública e antecipando, assim, o fato consumado à mera possibilidade da discussão aberta.

As únicas resistências que tem encontrado vêm dos EUA e de Israel.

Mas os EUA permanecem num constante vaivém entre o desejo de afirmar sua independência contra as pretensões do globalismo e a tentação de tomar as rédeas do processo para conduzi-lo a seu modo. Assumir a liderança da uniformização mundial, arriscando perder a soberania e desarmar-se contra agressões letais, ou então entrincheirar-se numa auto-afirmação nacionalista com o risco de desmantelar a aparente “ordem internacional” e suportar a hostilidade conseqüente, eis as opções que se oferecem aos EUA. A primeira dessas tendências predominou no governo Clinton. O resultado foi que os americanos, de concessão em concessão, consentiram em se enfraquecer militarmente e em curvar-se à intromissão estrangeira em campos vitais como ecologia, educação e imigração, ao mesmo tempo que, envergando a máscara de líderes e beneficiários maiores da globalização, se tornavam o bode expiatório do próprio mal que os debilitava. Com o governo Bush, a orientação girou 180 graus. A virada veio em 2001, com a rejeição do Protocolo de Kyoto e a decisão de reagir ao 11 de setembro sem o beneplácito da ONU.

O projeto do governo mundial é originariamente comunista (v. Elliot R. Goodman, O Plano Soviético de Estado Mundial , Rio, Presença, 1965), e os grupos econômicos ocidentais que se deixaram seduzir pela idéia, esperando tirar proveito dela, sempre acabaram financiando movimentos comunistas ao mesmo tempo que expandiam globalmente seus próprios negócios. As fundações Ford e Rockefeller são os exemplos mais notórios. Nesses como em outros casos, a contradição entre o interesse econômico envolvido e as ambições políticas de longo prazo é origem de inumeráveis ambigüidades que desorientam o observador e, se ele é preguiçoso, o induzem a não pensar mais no assunto.

Uma coisa é certa: nos anos 70 e 80, a globalização parecia favorecer os EUA, mas na década seguinte ela tomou o rumo bem claro de uma articulação mundial anti-americana e, por tabela, anti-israelense. A eleição de George W. Bush e a política de afirmação nacional que ele tem seguido são as respostas lógicas a essa nova situação.

Como isso afeta o Brasil?

O sr. Luís Inácio da Silva foi posto no poder com o apoio da rede global de partidos e organizações tecida em torno da ONU. Essa rede constitui o núcleo do governo mundial em avançada fase de implantação. A exorbitância de aplausos internacionais que saudaram a eleição do candidato petista não veio do nada: foi a expressão natural de júbilo do criador ante o sucesso da criatura. Se a própria escolha do Brasil como sede do Fórum Social Mundial poucos meses antes das eleições já não fosse prova suficiente da articulação planetária montada para esse fim, bastaria como confirmação ex post facto a pressa obscena com que a rede se mobilizou para tentar dar ao cidadão um Prêmio Nobel pelo “Fome Zero” antes que uma só colherada de feijão estatal chegasse à boca de algum faminto. O primeiro Nobel-a-crédito da História não chegou a ser conferido, mas é revelador.

Nesse quadro, a mobilização contra o “império americano” é hoje apenas uma vasta operação diversionista para camuflar a implantação do verdadeiro império e para colocar a serviço dele as veleidades nacionalistas de povos pouco esclarecidos, mais propensos a esbofetear espantalhos convencionais do que a identificar e enfrentar as verdadeiras fontes das limitações que os oprimem. Lutando contra a mera possibilidade teórica de um domínio mundial americano, as nações de cretinos tudo cedem ante uma ditadura global já praticamente vitoriosa no presente.

Em 3 de janeiro de 2004

A Mae De Todas As Fraudes

3 de dezembro de 2009 | Diário do Comércio

Mal acabava eu de escrever aqui que “o uso maciço da fraude científica, em proporções jamais antes imaginadas, vem-se tornando o principal meio de imposição de novas políticas”, e no dia seguinte veio a público a fraude das fraudes: dois hackers invadiram o servidor da Universidade de East Anglia e copiaram e-mails nos quais eminentes cientistas revelavam ter apelado às trapaças mais abjetas para impingir ao mundo a balela do “aquecimento global” e as legislações draconianas alegadamente destinadas a “salvar o planeta” desse mal fantasmagórico (v.

www.aim.org/aim-column/media-ignore-climate-science-scandal/ ). Entre outros expedientes, constavam:

1. Suprimir dos relatórios da ONU quaisquer dados que pusessem em dúvida o aquecimento global ou suas alegadas causas humanas.

2. Complementarmente, inventar e enxertar na bibliografia técnica dados que comprovassem as hipóteses desejadas.

3. Boicotar sistematicamente as revistas científicas que publicassem estudos adversos à causa aquecimentista.

4. Orquestrar ataques a todos os cientistas adversários, questionando suas credenciais acadêmicas.

Se algum dia houve algo como um “crime intelectual hediondo”, foi esse. Por uma ironia providencial, a documentação colhida pelos hackers veio à tona na mesma semana em que um outro grupo de acadêmicos aquecimentistas, mais honesto, admitia francamente que, para desgraça da sua causa sacrossanta, a temperatura do planeta tinha permanecido estável nos últimos dez anos (v.

www.spiegel.de/international/world/0,1518,662092,00.html ).

Recordem que a campanha alarmista do aquecimento global teve seu momento mais significativo com o lançamento do livro de Al Gore, Uma Verdade Inconveniente , e verão até que ponto chega o cinismo dessas criaturas: põem em circulação uma farsa pseudocientífica construída de dados falsos, compram para ela o apoio da grande mídia, do show business , das universidades, de macro-empresas e dos maiores organismos internacionais e, ao mesmo tempo que já a alardeiam como verdade pioneira universalmente silenciada pelo establishment (como se não fossem eles próprios o establishment e não fizessem um barulho dos diabos), vão tratando de organizar preventivamente o boicote aos eventuais recalcitrantes e contestadores — tudo para produzir em benefício próprio a mais formidável concentração de poder que já se viu ao longo de toda a História humana.

Se isso não é golpe, conspiração, formação de quadrilha, então estas três expressões já não têm significado nenhum.

A isso reduz-se, hoje em dia, a autoridade da classe científica no mundo.

Mas é claro que, tão logo revelada a fraude, a grande mídia americana inteira já se pôs em marcha para proteger os criminosos, omitindo-se de mencionar a descoberta do embuste, noticiando-a com a maior discrição possível ou negando abertamente sua importância, contra toda a evidência dos fatos e contra todo senso das proporções.

Servida por esses bons préstimos, a Conferência da ONU sobre o Clima, a realizar-se em dezembro próximo em Copenhagen, poderá ignorar solenemente a denúncia, e, como se a idoneidade científica do aquecimentismo permanecesse intacta, seguir adiante, impávido colosso, no seu propósito de impor a uma cândida humanidade os controles globais destinados a salvá-la de um perigo inexistente.

Segundo o novo presidente da União Européia e office-boy do CFR, Hermann van Rompuy, que o anuncia com indisfarçado entusiasmo, esses controles já equivalem à plena instauração de um governo mundial, rebaixada a noção de soberanias nacionais ao estatuto de ficção jurídica condenada a dissolver-se suavemente em névoas, sem traumas nem prantos, num prazo de poucos anos. Adiantando-se à profecia, o governo Obama envia emissários a Haia para estudar os meios de estender aos EUA a jurisdição do Tribunal Penal Internacional: sim, com a mesma paixão com que busca livrar os terroristas estrangeiros da autoridade dos tribunais militares americanos, o homenzinho está ansioso para submeter os cidadãos de seu país às decisões de juízes estrangeiros.

As mais sombrias advertências de Lorde Christopher Monckton estão se materializando diante dos nossos olhos (v.

O Imbecil Juvenil

3 de abril de 1998 | Jornal da Tarde

Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.

O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.

Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder , sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da maioria – a supressão, em suma, da personalidade.

É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a imitação – literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo mimético de que fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.

Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.

Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.

Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.

Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.

Em 3 de abril de 1998

O Advento Da Ditadura Secreta

28 de março de 2012 | Diário do Comércio

Escolados pelo precedente do Foro de São Paulo, cuja existência lhes foi ocultada durante dezesseis anos pela mídia soi disant respeitável, alguns leitores brasileiros talvez não se sintam tão espantados ao ver que o New York Times, o Washington Post, a CNN e demais organizações jornalísticas de maior prestígio nos EUA, mesmo depois do pito que levaram do Pravda, continuam sonegando ao público qualquer notícia sobre os documentos forjados de Barack Hussein Obama.

Nos dois casos, a recusa de cumprir a mais primária obrigação do jornalismo pode se explicar, de início, pela reação automática de ceticismo ante condutas que, de tão perversas, maliciosas e abjetas, parecem inverossímeis. Quem poderia acreditar, assim sem mais nem menos, que a esquerda, desmoralizada e aparentemente moribunda após a queda da URSS, estava preparando um retorno triunfal na América Latina por meio de um acordo secreto entre organizações legais e criminosas, planejado para controlar, pelas costas do eleitorado, a política de todo um continente? Quem poderia engolir, na primeira colherada, a hipótese de que um bandidinho com identidade falsa, subsidiado por bandidões, ludibriou a espécie humana praticamente inteira e, da noite para o dia, saiu do nada para se tornar presidente da nação mais poderosa do mundo? É mesmo difícil. Mas quando nem mesmo o acúmulo incessante de provas inquestionáveis demove do seu silêncio obstinado os profissionais que são pagos para falar, então é impossível evitar a suspeita de que o engodo geral não foi tramado só por políticos, mas também pelos donos de jornais, revistas e canais de TV, secundados pelo proletariado intelectual das redações.

No entanto, como qualquer pessoa com mais de quinze anos tem a obrigação de saber, não há nada que esteja tão ruim que não possa piorar. Depois de ocultar a maior fraude política de todos os tempos, a mídia americana passou a esconder até decretos oficiais do governo Obama, que assim são impostos a toda uma população desprovida do elementar direito de saber que eles existem. Os leitores mais velhos devem se lembrar de que a nossa ditadura militar inventou, um belo dia, um treco chamado “decreto secreto”, que entraria em vigor sem precisar ser publicado. Inventou-o mas, que eu saiba, não teve a cara-de-pau de chegar a usá-lo. Pois bem, graças às empresas de comunicações de Nova York e Washington, essa coisa, essa deformidade jurídica inigualável, está em pleno uso na mais velha e – até recentemente – mais estável democracia do mundo.

Quando o amor fanático da classe jornalística a um político se coloca descaradamente acima da Constituição, das leis, da segurança nacional e de todas as regras básicas da moralidade, não há como explicar isso pela mera preferência espontânea dos profissionais de imprensa, por mais obamistas que eles comprovadamente sejam. Alguns jornalistas chegaram a queixar-se ao chefe da Comissão Arpaio, Michael Zullo, de que haviam recebido ameaças diretas do governo para que nada publicassem das investigações. Artigos a respeito foram misteriosamente retirados até de sites conservadores como www.townhall.com , e uma entrevista marcada com Jerome Corsi, o incansável investigador da fraude documental, foi suspensa na Fox News por ordem explícita da diretoria. Com toda a evidência, o bloqueio vem de muito alto, envolvendo tanto funcionários do governo quanto potentados da mídia.

Quando se conhece, porém, o conteúdo dos decretos ocultados, vê-se que a coisa é infinitamente mais grave do que o simples boicote organizado do direito à informação. Em 31 de dezembro, quando o povo estava distraído festejando o Ano Novo, Obama assinou o Defense Authorization Act, que lhe dava, simplesmente, o direito de mandar matar ou de prender por tempo indefinido, sem processo nem habeas corpus, qualquer cidadão americano. No crepúsculo da sexta-feira, 16 de março, veio uma ordem executiva (o equivalente da nossa “medida provisória”, com a diferença de que não é provisória) que confere ao presidente os poderes necessários para estatizar, a qualquer momento e sem indenização, todos os recursos energéticos do país, incluindo as empresas de petróleo, mais a indústria de alimentos, e ainda para instituir quando bem deseje, sem autorização do Congresso, o recrutamento militar obrigatório. Em suma: o homem deu a si mesmo poderes ditatoriais, e nas duas ocasiões fez isso em momentos calculados para desviar as atenções e frustrar a divulgação. A precaução acabou por se revelar desnecessária: jornais e canais de TV, levando a solicitude até o último limite do servilismo totalitário, não publicaram praticamente nada a respeito, de modo que, com exceção daqueles que já voltaram as costas à mídia elegante e preferem informar-se pela internet, os americanos, tendo adormecido numa democracia, acordaram numa ditadura sem ter a menor idéia do que havia acontecido (v. os comentários de Dick Morris em http://www.dickmorris.com/obama-assumes-dictatorial-powers/ ).

Não que esta seja a primeira ditadura a ocultar sua própria existência. O segredo, ensinava René Guénon, é da essência mesma do poder. As diferenças são duas:

(1) Pela primeira vez na história do mundo a ditadura secreta é implantada por um ilustre desconhecido cuja identidade permanece ela mesma secreta, bloqueada a todas as investigações.

(2) O episódio evidencia com clareza obscena o fenômeno mundial, a que já aludi muitas vezes, do giro de 180 graus na função da grande mídia, que de veículo de informação se transmutou maciçamente, nas últimas décadas, em órgão de censura e controle governamental da opinião pública.

Em 28 de março de 2012

Cuidado Com Os Analistas Politicos

28 de abril de 2008 | Diário do Comércio

Todo mundo se interessa pela política e tem alguma opinião a respeito. Alguns fazem disso uma profissão. Comentaristas de jornal, cientistas sociais, professores universitários, analistas estratégicos pagos a peso de ouro pelas grandes empresas, todos se acham capacitados para desvendar os mistérios do poder e explicá-los ao comum dos mortais.

O público está de tal modo habituado à ruidosa presença dessas pessoas, que já conta com ela como um componente essencial da política mesma. Nenhum político se aventura a agir sem contabilizar a possível reação dos opinadores de ofício: o cenário que eles comentam é em grande parte criado por eles próprios. O poder que exercem é às vezes maior que o dos políticos mesmos.

Suas palavras se superpõem aos fatos e não raro os encobrem por completo, criando novas situações que nascem da pura imaginação do comentarista, mas no dia seguinte já se tornaram uma realidade com que é preciso contar.

O exemplo mais eloqüente foi talvez a Ofensiva do Tet , quando a vitória dos americanos sobre o exército comunista do Vietnã do Norte foi transmutada em derrota pelo noticiário da TV americana e acabou, por isso mesmo, gerando efeitos políticos equivalentes aos de uma derrota militar genuína.

Designar como derrota uma vitória militar explorada em sentido político contrário pela propaganda adversa é, com toda a evidência, uma figura de linguagem, uma metonímia. E tomar figuras de linguagem como descrições literais da realidade é sintoma de grave confusão mental. Uma vez disseminada, a confusão gera situações políticas reais que podem em seguida ser usadas como “provas” retroativas para legitimar como verdade literal a transposição metonímica que deu origem ao engano.

Aquase totalidade do que hoje se denomina comentário político é constituída tão-somente de retro-alimentação desse mecanismo alucinatório. Por isso é que, quanto mais analistas estratégicos, comentaristas de mídia e cientistas políticos se ouvem discursando no palco do mundo, menos compreensíveis se tornam os processos políticos reais e menos previsíveis, para eles como para seus ouvintes, os desenvolvimentos mais óbvios das situações de fato.

Quantas dessas mentes iluminadas puderam prever, no meio dos anos 80, a queda da URSS?

O grande sucesso editorial de 1987 foi Ascensão e Queda das Grandes Potências , de Paul Kennedy, que anunciava como iminente a derrocada dos EUA e a subida da URSS à condição de potência dominante. Pior: o fator que ele apontava como causa essencial do declínio era o crescimento desmedido do orçamento militar – justamente o expediente usado logo em seguida por Ronald Reagan para vencer a Guerra Fria .

Mas o maior vexame acadêmico daquela década parece não ter deixado nenhuma lição para a década seguinte. Uma vez consumada a dissolução da URSS, quantos luminares do comentário político puderam prever que o movimento comunista não se extinguiria com ela, mas, ao contrário, cresceria formidavelmente e logo estaria em condições de “reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu”?

Praticamente não houve, entre aquelas criaturas maravilhosas, quem não se apressasse em noticiar o fim do comunismo , seja para celebrá-lo apressadamente no altar da economia de mercado, seja, ao contrário, com o intuito perverso de dar ao comunismo sua melhor oportunidade de fazer-se de morto para assaltar o coveiro.

Nessas duas ocasiões, as poucas vozes sensatas que enunciavam conclusões baseadas na realidade foram sufocadas pela tagarelice majoritária. Ludwig von Mises e Eric Voegelin previram muito claramente o fracasso da URSS, mas ninguém ligou. Lev Navrozov e Anatoliy Golytsin passaram por loucos quando disseram que o fim do regime soviético era um upgrade do movimento comunista.

Se a capacidade de previsão é a marca distintiva do conhecimento científico, não vejo como escapar à conclusão de que a ciência política atualmente aceita como tal nas universidades e na mídia é uma fraude retumbante. Mas muitos de seus praticantes não têm mesmo a mínima intenção de conhecimento: o que querem é produzir efeitos políticos para os quais a confusão e o erro são em geral os instrumentos preferenciais.

Alguns deles usam apenas a máscara do prestígio científico como um ladrão se disfarça de padre ou de velhinha. Outros, mais cínicos, confessam que não são devotos da ciência no sentido usual da palavra: são “agentes de transformação social”. Não querem compreender a realidade, mas transmutá-la à sua imagem e semelhança. Se, tomando sua declaração expressa como mera auto-ironia elegante, o público prefere antes confiar nos seus diplomas de ciência política e continuar levando esses indivíduos a sério como analistas idôneos, ele o faz em prejuízo próprio.

De fato, a transposição metonímica da realidade não é somente uma falsificação pontual. É a destruição da possibilidade mesma do estudo científico da sociedade e da política. Vinte e quatro séculos atrás, Platão e Aristóteles inauguraram esse estudo com a distinção fundamental entre o discurso do agente político e o discurso da análise teorética .

Desarmando As Criancinhas

27 de janeiro de 2013 | Diário do Comércio

Carmel, Pennsylvania, uma menininha de cinco anos foi suspensa da escola por ter ameaçado atirar na colega com um revólver de plástico cor-de-rosa que dispara... bolinhas de sabão.

Na iminência de passar das palavras aos atos, a perigosa criaturinha foi rovidencialmente desarmada pelas autoridades competentes e submetida à penalidade prevista no sábio regulamento escolar.

É a prova de que os EUA melhor fariam se proibissem logo todos os brinquedos em forma de armas, quer disparem bolinhas de sabão, tufos de pelúcia ou bilhetinhos de “Eu te amo”, e obrigassem todas as crianças a brincar de casinha, independentemente dos sexos, para que não cultivem o desejo maligno de algum dia atirar num bandido antes que o bandido atire nelas.

Mas a grande nação do norte não atingiu ainda aquele estágio superior de civilização que permitiu ao nosso País, mediante essa medida profilática e a drástica repressão do comércio de armas entre adultos, ter apenas 4,5 vezes mais assassinatos anuais a bala do que a truculenta sociedade gringa, embora tenha também cem milhões de habitantes a menos e trinta vezes menos armas legais em circulação.

Eu mesmo sou exemplo vivo do perigo extremo de deixar as crianças brincarem com armas. Passei a infância tentando ser Roy Rogers ou Hopalong Cassidy e, ao crescer, tornei-me um assassino intelectual de idiotas, um dano que poderia ter sido evitado se no meu tempo, em vez de uma indecente facilidade de acesso a revólveres e espingardas de plástico, existissem os Teletubbies, os Menudos e sr. Luiz Mott. Estes, infelizmente, só apareceram por volta da década de 90 do século XX, quando minha alma já estava corrompida.

Mas às vezes as criancinhas, essa parte especialmente temível da espécie humana, frustram as melhores intenções dos desarmamentistas e descobrem meios incomuns e patológicos de se dedicar à prática da violência mortífera. Numa escola de Maryland, dois meninos sofreram a mesma punição da garotinha da Pennsilvanya porque, sem armas de plástico ou de madeira ao seu alcance, mas empenhados assim mesmo em brincar de polícia e ladrão, trocavam tiros com pistolas imaginárias formadas com o indicador e o polegar, este imitando o cão do revólver, aquele o cano. Em situação tão inusitada, o educador, não podendo apreender equipamentos bélicos inexistentes nem cortar os dedinhos assassinos, só tem um caminho a seguir: investigar cientificamente de onde os meninos tiraram a ideia extravagante de que polícias e ladrões troquem tiros, e em seguida submetê-los a rigoroso treinamento de sensitividade para que entendam que essas duas classes de profissionais jamais se entregam a semelhante exercício.

Aí novamente os nossos vizinhos do norte muito teriam a aprender com a experiência brasileira. Por aqui não tiramos as armas somente das mãos das crianças, mas da sua mente, dirigindo sua atenção desde a mais tenra idade para práticas mais saudáveis como a masturbação solitária ou coletiva e a interbolinação de ambos os sexos.

Infelizmente, a dureza implacável do universo reacionário tem impedido que tão salutar medida surta os efeitos esperados. As forças do além coligam-se para frustrar as iniciativas mais belas dos nossos governantes iluminados e intelectuais progressistas.

Numa verdadeira conspiração voltada a desmoralizar em especial a nossa mídia, tão merecedora do nosso respeito e consideração, que com desvelo maternal nos adverte diariamente para a crescente epidemia de violência assassina nos EUA, o número total de homicídios naquele país vem caindo despudoradamente nas últimas três décadas, passando de 9,8 por cem mil habitantes em 1981 para menos da metade (4,7) em 2011, malgrado o aumento prodigioso do número de armas legais em posse da população civil.

No nosso País, ao contrário, com um controle de armas cada vez mais severo, a proibição total de brinquedos em forma de armas e as sucessivas campanhas de entregas voluntárias de revólveres, pistolas, rifles e espingardas ao governo, o número de homicídios duplicou no mesmo período, chegando a uns 36 por cem mil habitantes em 2010. Oh, mundo injusto!

Ainda assim, continuam existindo na república americana mentes lúcidas e corajosas, como a do presidente Barack Hussein Obama, que prometem eliminar, mediante a proibição das armas, os oito mil homicídios anuais que ali se verificam. É verdade que, no mesmo período de um ano, segundo as estatísticas oficiais, quatrocentos mil cidadãos e cidadãs dos EUA salvam suas vidas reagindo a bala contra serial killers, assaltantes, estupradores etc. Desgraçadamente as almas de pedra dos reacionários e sócios da National Rifle Association ainda se recusam a entender que para impedir oito mil assassinatos vale a pena fomentar outros 392 mil.

Em 27 de janeiro de 2013

A Tecnica Da Rotulacao Inversa Ii

27 de janeiro de 2011 | Diário do Comércio

Miguel Nicolellis é professor de neurociências na Duke University (EUA), fundador do Instituto de Neurociências Edmond e Lilly Safra (Macaíba, RN) e membro das Academias de Ciências do Brasil e da França. A esse currículo notável acrescentou-se recentemente sua nomeação, pelo Papa Bento XVI, para a Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano. O site Viomundo , do jornalista Luiz Carlos Azenha, apresenta-o agora em formato ainda mais atraente: o cientista seria vítima indefesa de uma vasta campanha de ódio e intimidação movida pela sempre abominável “extrema direita”.

Chocado e amedrontado ante a virulência assassina da campanha, o prof. Nicolellis, no tom de bom-mocismo que deve caracterizá-lo como um adepto incondicional do debate livre e democrático, alerta para os perigos da radicalização ideológica:

“O seu adversário político, ideológico, passa a ser o seu inimigo. E esse inimigo é passível de qualquer tipo de punição, até mesmo a morte. Eu não consigo imaginar que essas pessoas que propagam mensagens de ódio, vingança, violência, podem ao mesmo tempo se dizer cristãs.”

Mas em que consistiu, afinal, a mortífera campanha? Consistiu em duas coisas: Primeiro, uma notícia de dez linhas, publicada no site Rorate Coeli em 5 de janeiro (v.

http://rorate-caeli.blogspot.com/2011/01/pope-names-pro-abortion-and-pro-gay.html ), dando ciência de que o Prof. Nicolellis era um ardente defensor do abortismo e das políticas gayzistas (bem como, no ano passado, da candidatura Dilma Rousseff), sendo portanto um pouco estranha a sua presença numa instituição vinculada à Igreja Católica. Depois, um (1,hum) artigo escrito pelo jornalista americano Matthew Cullinan Hoffman, publicado no site Last Days Watchman (v.

http://www.lifesitenews.com/news/defender-of-pro-abortion-and-homosexualist-policies-appointed-to-vaticans-a ) e depois reproduzido com ou sem acréscimos e comentários nuns poucos sites cristãos, entre os quais a versão brasileira de Lifesitenews , Notícias Pró-Família , dirigida pelo escritor brasileiro Júlio Severo (voltarei a falar dele mais adiante). Hoffman, que é católico, comentava: “O Papa Benedito XVI é um inflexível defensor do direito à vida e dos valores da família, sendo improvável que ele estivesse ciente da biografia de Nicolellis ao indicá-lo para a Academia.”

Houve qualquer ameaça, qualquer esboço de planos agressivos? O prof. Nicolellis confessa: Não, não houve.

Contra aquelas expressões de discordância perfeitamente inofensiva, como reagiu o Prof. Nicolellis? Debatendo com os adversários? Que nada. Ele próprio descreve os seus procedimentos argumentativos:

“O pessoal do meu laboratório contatou a Duke, alertou sobre esses sites e a polícia da universidadade já começou a monitorar o caso. A segurança do meu laboratório foi reforçada... Ninguém chega lá sem passar pela segurança.”

E adverte: ao primeiro sinal de ameaça no Brasil, chamará imediatamente a Polícia Federal.

Dentre os potenciais agressores do prof. Nicolellis denunciados pelo site Viomundo , um dos principais já está sob controle. Júlio Severo, procurado pela polícia brasileira pelo crime hediondo de ter dito e insistido que o homossexualismo é pecado e tem cura, está escondido no exterior, trocando de país como quem troca de cuecas, vivendo em extrema penúria com mulher e quatro filhos pequenos. O repórter Luiz Carlos Azenha menciona esse fato com evidente satisfação. Celebra-o também, como sinal dos progressos da democracia no Brasil, o site Fórum , do colunista Luís Nassif ( http://blogln.ning.com/forum/topics/homofobia-em-preto-e-branco?page=1&commentId=2189391%3AComment%3A502681&x=1#2189391Comment502681 ).

As premissas lógicas embutidas nas declarações do Prof. Nicolellis e nas reportagens dos sites Viomundo e Fórum não poderiam ser mais evidentes:

1) Dizer qualquer palavra contra o homossexualismo, mesmo de maneira genérica e desacompanhada de qualquer ameaça, é incitação à violência, coisa indigna de pessoas que se dizem cristãs.

2) Um cidadão esclarecido, amante do debate livre e democrático, deve reagir a essas opiniões exibindo-se em público como vítima iminente de atentado, chamando a polícia e fazendo com que os desgraçados opinadores sejam perseguidos como bandidos, acossados como ratos.

A reação brutalmente exagerada, espera-se, induzirá o distinto publico a acreditar piamente que violentos são aqueles que emitiram as opiniões, não aqueles que mobilizaram contra eles a força armada do aparato repressor.

Se o leitor queria uma ilustração local do que escrevi sobre a técnica da rotulação inversa, aí está.

O emprego constante e obsessivo dessa técnica é uma das manifestações mais corriqueiras da inversão geral da realidade, característica da mentalidade revolucionária.

Educacao Ao Contrario

27 de janeiro de 2009 | Diário do Comércio

Clicando no Google a palavra “Educação” seguida da expressão “direito de todos”, encontrei 671 mil referências. Só de artigos acadêmicos a respeito, 5.120. “Educação inclusiva” dá 262 mil respostas. Experimente clicar agora “Educar-se é dever de cada um”: nenhum resultado. “Educar-se é dever de todos”: nenhum resultado. “Educar-se é dever do cidadão”: nenhum resultado.

Isso basta para explicar por que os estudantes brasileiros tiram sempre os últimos lugares nos testes internacionais. A idéia de que educar-se seja um dever jamais parece ter ocorrido às mentes iluminadas que orientam (ou desorientam) a formação (ou deformação) das mentes das nossas crianças.

Eis também a razão pela qual, quando meus filhos me perguntavam por que tinham de ir para a escola, eu só conseguia lhes responder que se não fizessem isso eu iria para a cadeia; que, portanto, deveriam submeter-se àquele ritual absurdo por amor ao seu velho pai. Jamais consegui encontrar outra justificativa. Também lhes recomendei que só se esforçassem o bastante para tirar as notas mínimas, sem perder mais tempo com aquela bobagem. Se quisessem adquirir cultura, que estudassem em casa, sob a minha orientação. Tenho oito filhos. Nenhum deles é inculto. Mas o mais erudito de todos, não por coincidência, é aquele que freqüentou escola por menos tempo.

A idéia de que a educação é um direito é uma das mais esquisitas que já passaram pela mente humana. É só a repetição obsessiva que lhe dá alguma credibilidade. Que é um direito, afinal? É uma obrigação que alguém tem para com você. Amputado da obrigação que impõe a um terceiro, o direito não tem substância nenhuma. É como dizer que as crianças têm direito à alimentação sem que ninguém tenha a obrigação de alimentá-las. A palavra “direito” é apenas um modo eufemístico de designar a obrigação dos outros.

Os outros, no caso, são as pessoas e instituições nominalmente incumbidas de “dar” educação aos brasileiros: professores, pedagogos, ministros, intelectuais e uma multidão de burocratas. Quando essas criaturas dizem que você tem direito à educação, estão apenas enunciando uma obrigação que incumbe a elas próprias. Por que, então, fazem disso uma campanha publicitária? Por que publicam anúncios que logicamente só devem ser lidos por elas mesmas? Será que até para se convencer das suas próprias obrigações elas têm de gastar dinheiro do governo? Ou são tão preguiçosas que precisam incitar a população para que as pressione a cumprir seu dever? Cada tostão gasto em campanhas desse tipo é um absurdo e um crime.

Mais ainda, a experiência universal dos educadores genuínos prova que o sujeito ativo do processo educacional é o estudante, não o professor, o diretor da escola ou toda a burocracia estatal reunida. Ninguém pode “dar” educação a ninguém. Educação é uma conquista pessoal, e só se obtém quando o impulso para ela é sincero, vem do fundo da alma e não de uma obrigação imposta de fora. Ninguém se educa contra a sua própria vontade, no mínimo porque estudar requer concentração, e pressão de fora é o contrário da concentração. O máximo que um estudante pode receber de fora são os meios e a oportunidade de educar-se. Mas isso não servirá para nada se ele não estiver motivado a buscar conhecimento. Gritar no ouvido dele que a educação é um direito seu só o impele a cobrar tudo dos outros – do Estado, da sociedade – e nada de si mesmo.

Se há uma coisa óbvia na cultura brasileira, é o desprezo pelo conhecimento e a concomitante veneração pelos títulos e diplomas que dão acesso aos bons empregos. Isso é uma constante que vem do tempo do Império e já foi abundantemente documentada na nossa literatura. Nessas condições, campanhas publicitárias que enfatizem a educação como um direito a ser cobrado e não como uma obrigação a ser cumprida pelo próprio destinatário da campanha têm um efeito corruptor quase tão grave quanto o do tráfico de drogas. Elas incitam as pessoas a esperar que o governo lhes dê a ferramenta mágica para subir na vida sem que isto implique, da parte delas, nenhum amor aos estudos, e sim apenas o desejo do diploma.

Em 27 de janeiro de 2009

Se Voce Ainda Quer Ser Um Estudante Serio

27 de fevereiro de 2006 | Diário do Comércio

“A tragédia do estudante sério no Brasil” resultou em tantas cartas, que acho melhor completar, com algumas dicas baseadas na experiência pessoal, as indicações de estudo que dei no final do artigo.

Começo com um exemplo casual.

Outro dia recebi de amigos a cópia de uma mensagem interessantíssima, postada em algum site da internet por uma senhorita, aparentemente culta e universitária, que, indecisa entre me admirar e me detestar, exigia uma explicação para o fato de eu acertar tantas previsões ao longo de quase duas décadas, apostando quase sempre no contrário do que anunciava a opinião geral dos bem-pensantes. No entender da remetente, bem como de outros participantes do debate, a hipótese mais plausível era a de eu ser um agente da CIA, conectado portanto a uma rede de informantes secretos espalhados por toda parte...

Guardei a mensagem com o carinho historiográfico que merece um eloqüente sinal dos tempos.

Que época mais adorável, esta, em que o sujeito não é cobrado por seus erros, mas por seus acertos! Se o normal é errar sempre, para que serviriam então os milhares de cientistas sociais, historiadores, jornalistas, economistas e doutores em filosofia que as universidades, sustentadas pelo trabalho suado de milhões de contribuintes que jamais as freqüentaram, despejam anualmente no mercado da tagarelice nacional? Resposta: não servem para entender o mundo, mas para transformá-lo. Não podendo, porém, conhecê-lo, já que não acreditam em verdade objetiva, levam-no sempre num rumo diferente do que pretendiam, sentindo-se — por isso mesmo, raios! — inocentes dos resultados monstruosos que produzem e sempre merecedores de um redobrado crédito de confiança para começar tudo de novo e de novo e de novo. A revolução, afinal, não seria revolucionária se não revolucionasse a si mesma e à sua própria história, mudando de identidade após cada novo crime e cada novo fracasso e não tendo satisfações a prestar senão a um futuro que, quando chega, já não é mais futuro e não tem portanto qualquer autoridade para cobrá-la do que quer que seja. Tal é, brutalmente resumida mas nem um pouco deformada, a essência da mentalidade que se pode adquirir em qualquer universidade deste país e em muitas do exterior. Equivale a um atestado de impecabilidade congênita, que confere o direito à estupidez laureada, ao amor-próprio ilimitado e ao crime inocente. Não espanta que tantos a desejem, mesmo sabendo que a remuneração dos ofícios universitários já não é lá essas coisas. Aliás, ganhar abaixo do que desejam reforça ainda o seu sentimento de méritos incalculáveis e sua revolta contra a malvada sociedade capitalista que não recompensa adequadamente as pessoas empenhadas em destruí-la.

É natural que, num ambiente assim formado, o sujeito acertar previsões políticas em série deva ser mesmo uma coisa muito esquisita, muito suspeita, denotando poderes demoníacos ou no mínimo algum truque sujo. Entendo mesmo que, no desespero, alguns apelem até à suposição “CIA”, sem ter em conta que essa entidade, há pelo menos quarenta anos, tem se especializado mais é em produzir informações erradas.

A hipótese de que exista uma realidade objetiva da vida política, de que ela possa ser conhecida, de que o indivíduo em questão tenha estudado muito com o objetivo de conhecê-la e de que depois de quatro décadas de esforço ele tenha conseguido montar um conjunto de critérios científicos razoáveis para fazer previsões acertadas dentro de um quadro definido de possibilidades, ah!, isso não ocorre a ninguém. É absurdo demais. É escandaloso. É repugnante. É impossível.

E eu lhes direi no entanto: foi precisamente isso o que aconteceu, patetas. Enquanto vocês enchiam sua cabeça de cocô universitário, tentando menos buscar conhecimento do que imitar trejeitos verbais para parecer bons meninos no ambiente ideológico em torno (v. meu artigo “O imbecil juvenil”, http://www.olavodecarvalho.org /textos/juvenil.htm ), preferi ficar em casa estudando, por achar que assim faria melhor uso das horas que o pessoal uspiano gastava em condução, papo furado, assembléias, greves, festinhas de embalo e surubas gerais no CRUSP, totalizando essas várias ocupações aproximadamente noventa e oito por cento da vida acadêmica útil. Preservando minha inteligência dessa centrifugação mortífera e da influência corruptora de orientadores ignorantes, estudei para saber, para aplacar minhas dúvidas, sem nenhuma esperança fútil de glórias escolares provincianas. Não nego que ganhei algo além do puro conhecimento. Ganhei o prazer de poder chamar os fulanos de burros sem nenhuma intenção insultuosa e com estrito realismo científico. Enquanto eles se intoxicavam de Eduardo Galeano, Noam Chomsky, Foucault, Derrida, e na melhor das hipóteses Nietzsche e Heidegger, brilhantes professores de confusão mental, coloquei para mim mesmo as questões fundamentais da filosofia política – que é ao mesmo tempo filosofia da História – e busquei respondê-las com toda a seriedade, cercando-me ainda de toda a ajuda disponível em livros de várias épocas, revistas científicas e contatos pessoais com estudiosos de vários países.

Os resultados foram sendo apresentados, aqui e ali, sob a forma de aulas e apostilas, sem a menor preocupação de publicá-los em livros. Livros para que? No Brasil de hoje, quanto mais sério o livro, maior a certeza de que será totalmente ignorado exceto pelo círculo de estudiosos que já o conheciam pela audição direta do autor. Numa época em que a literatura é personificada pelo sr. Luís Fernando Veríssimo, a filosofia por dona Marilena e a ciência política pelo dr. Emir Sader, qualquer esforço científico mais sério fica um pouco constrangido de se mostrar em público. Voltamos à era da difusão oral. Todo conhecimento efetivo tornou-se esotérico. O essencial do que aprendi e ensinei sobre a filosofia política está nas gravações dos meus cursos dados na PUC do Paraná, bem como nas apostilas “Ser e Poder”, “Que é a Psique?” e “O Método nas Ciências Humanas”. Quem teve acesso a esse material – que publicarei quando os afazeres jornalísticos me derem um descanso para poder editá-lo –, sabe que existem meios para descrever objetivamente uma situação político-social qualquer e prever com grande margem de acerto suas possibilidades de desenvolvimento. É isso, e nada mais, o mistério por trás das minhas previsões. Quanto aos erros alheios, não me cabe explicá-los.

Das questões a que me referi acima, algumas das mais importantes para a análise das situações políticas eram as seguintes:

1. Qual é a natureza do poder, não só na política mas em todas as relações humanas, e qual a diferença específica entre o poder político e as demais formas de poder?

2. Que é propriamente a “ação” em escala histórica? Em que condições a expressão “história disto” ou “história daquilo” se refere a uma entidade real, capaz de ação contínua ao longo do tempo, e quando se refere apenas, metonimicamente, a um sujeito ideal, sem unidade de ação própria, como por exemplo quando se fala em “História do Brasil”, ou “história da burguesia”? Em suma:

quem é o sujeito da História?

3. Qual a relação entre as “intenções” subjetivas dos agentes históricos e os efeitos reais de suas ações? Qual a equação que se forma entre o conhecimento objetivo dos dados da situação, as decisões tomadas, a execução, os resultados específicos e sua diluição num quadro maior onde outros fatores entram em jogo? Existe uma ação histórica eficiente, na qual os efeitos reproduzam mais ou menos fielmente as intenções? Ou, ao contrário, a História humana estará sempre condenada a ser, como dizia Weber, “o conjunto das conseqüências impremeditadas das nossas ações”?

4. Dando por pressuposto que ninguém pode se colocar fora do quadro comum da vida humana para observá-lo “de cima”, e que portanto toda observação é uma forma de participação, não é possível isolar totalmente observação e confissão. Qual a relação entre autoconhecimento e conhecimento histórico? Em que medida o conhecimento da história pode e deve ser um meio de integração da consciência pessoal do estudioso, e em que medida esta se reflete na veracidade da descrição histórica obtida? Em que medida toda história é autobiografia e, portanto, toda descrição de uma situação política, social e cultural determinada é uma confissão pessoal?

5. Em que medida, portanto, o estudo das ciências humanas é uma prática “ascética” de autoconhecimento, e em que medida as disciplinas ascéticas e místicas desenvolvidas pelas religiões tradicionais, bem como as técnicas modernas de psicoterapia e auto-ajuda, podem desempenhar nesse estudo uma função essencial?

6. Como é a psicologia do conhecimento na História e nas ciências humanas em geral? Da percepção dos dados sensíveis (documentos, monumentos, ações observadas) até as sínteses interpretativas gerais, qual o trajeto psicológico percorrido e como dirigi-lo para diminuir a possibilidade de erros?

Os filósofos que mais estudei para encontrar as respostas (e ficam aí como sugestões para os interessados) foram Platão, Aristóteles, Sto. Agostinho, Sto, Tomás, S. Boaventura, Duns Scot, Leibniz, Schelling, Husserl, Scheler, Lavelle, Croce, Ortega, Zubiri, Marías, Voegelin, Lonergan, o nosso Mário Ferreira dos Santos e o Albert Camus de L’Homme Révolté . Os grandes historiadores da filosofia, como Gomperz, Ueberweg e Zeller, devem ser lidos com devoção. Outros autores da área de ciências humanas que muito me ajudaram foram Ibn Khaldun, Vico, Ranke, Taine, Huizinga, Weber, Böhm-Bawerk, von Mises, Sorokin, Victor Frankl, Paul Diel, Eugen Rosenstock-Huessy, Franz Rosenzweig, Lipot Szondi, Maurice Pradines, Alois Dempf, Max Dvorak, Rudolf Arnheim, Erwin Panofsky, A. D. Sertillanges, Mortimer J. Adler, Oliveira Martins, Gilberto Freyre e Otto Maria Carpeaux. Apesar de inumeráveis erros de informação, a Life of Napoleon de Walter Scott também foi de muito proveito pela acuidade da sua psicologia histórica. O maior historiador vivo hoje em dia é Modris Eksteins (sabe o que significa “tem de ler”?). Dos poetas e ficcionistas, aqueles que produziram verdadeiras descrições científicas da condição humana, muito úteis nos meus estudos, foram Sófocles, Dante, Shakespeare, Camões, Cervantes, Goethe, Dostoiévski, Alessandro Manzoni, Pío Baroja, T. S. Eliot, W. B. Yeats, Antonio Machado, Thomas Mann, Jacob Wassermann, Robert Musil, Hermann Broch, Heimito von Doderer, Julien Green, Georges Bernanos e François Mauriac. A Bíblia tem de ser relida o tempo todo (não leia o Evangelho em busca de “religião”: leia como narrativa de alguma coisa que realmente aconteceu; atenção especial para Mateus 11:1-6, onde o próprio Jesus ensina o critério para você tirar as dúvidas a respeito d’Ele; penso nisso o tempo todo). O Corão, os Vedas, o Tao-Te-King e o I-Ching, assim como os escritos de Confúcio, Shânkara e Ibn’Arabi, merecem consultas periódicas. Dos conselhos pessoais que recebi de mestres generosos, a quem incomodei por meio de cartas, telefonemas e visitas, falarei outro dia.

Conhecimento E Controle

27 de dezembro de 2007 | Jornal do Brasil

Num dos últimos números da Prospect , Ian Stewart, professor de matemática na Universidade de Warwick, observa que os computadores tornaram possível construir demonstrações matemáticas que se estendem por milhões e milhões de páginas, subtraindo-se ao controle humano. Acreditar nessas provas – ou negá-las – será um salto no escuro: o hiperdesenvolvimento da racionalidade matemática ameaça desembocar na total irracionalidade. Será, pergunta Stewart, “a morte da prova”? Muitos dizem “sim”; ele se alinha com os que dizem “não” – mas, é claro, uma vez colocada a questão nesses termos, a prova da resposta teria de prolongar-se por alguns milhões de páginas.

O problema, porém, não está na dificuldade da resposta: está na questão mesma. Quem disse que a racionalidade humana pode ser incrementada mediante o aprimoramento da técnica lógico-matemática? Esta última consiste essencialmente da silogística, ou combinação de duas premissas para obter uma conclusão. Vários silogismos em seqüência formam uma cadeia dedutiva, ou demonstração.

As normas básicas dessa arte foram lançadas por Aristóteles e bastaram para as necessidades gerais da mente humana durante uns 2.300 anos. Foi a partir da segunda metade do século 19 que alguns estudiosos acharam conveniente preencher os hiatos, de modo que o raciocínio fosse contínuo, sem saltos intuitivos. Para facilitar o empreendimento, trocaram a linguagem verbal da lógica clássica pela simbolização matemática. Isso acelerava a construção das cadeias dedutivas e permitia a mecanização do raciocínio, antecipando os computadores.

Com o advento dos computadores, o processo tornou-se ainda mais rápido – tão rápido que permitia montar em poucos segundos demonstrações tão complexas que a mente humana já não as podia acompanhar. O projeto de tornar as demonstrações mais precisas e confiáveis acabou por torná-las impossíveis de conferir. É confiar nos computadores ou desistir de provar o que quer que seja.

Isso é alarmante só em aparência. Qualquer instrumento que se descubra ou invente, afinal, só existe precisamente para desempenhar alguma função com mais eficácia do que o ser humano poderia fazê-lo diretamente com os meios de que a natureza o dotou. O primeiro sujeito que teve a idéia de montar um cavalo só obteve nisso algum sucesso porque era mais rápido andar a cavalo do que a pé. As roupas só continuam sendo usadas há milênios porque protegem mais do que a pele.

O problema é que é muito incômodo você alimentar um computador com umas dúzias de milhares de premissas e dois segundos depois ele devolver a você uma conclusão pronta sem que você possa ter a menor idéia do trajeto que ele percorreu. Você se sente como se estivesse consultando um oráculo. Isso não seria nem um pouco desconfortável, é claro, se além da solução do problema você não desejasse também ter o controle da situação. E a desgraça é que os primeiros lógico-matemáticos se meteram nisso justamente com a esperança idiota de obter maior controle da situação. Como todos os cientistas modernos, eles não estavam interessados em conhecimento propriamente dito, mas em poder. “Savoir pour prévoir, prévoir pour pouvoir”, era a divisa de Auguste Comte. Eles queriam construir um Golem, mas um Golem obediente. O Golem, uma vez crescidinho, já não podia concordar com isso.

Toda técnica tem seus inconvenientes, e é pura bobagem acreditar que técnicas aumentam o poder “do” ser humano. Na melhor das hipóteses, elas aumentam o poder de uns à custa de diminuir o dos outros. Para compensar a diferença, é preciso inventar outras técnicas – políticas e sociológicas – cujos inconvenientes, em geral, são maiores ainda.

Em 27 de dezembro de 2007

Roendo A Grande Barreira

27 de agosto de 2007 | Diário do Comércio

O segredo tenebroso por trás do manifesto em prol de Quartim de Moraes Três menções nada honrosas mas inteiramente justas que, de passagem, fiz a João Carlos Kfouri Quartim de Moraes nos meus artigos suscitaram da intelectualidade comunista que domina as universidades neste país uma reação absurda, grotesca, desproporcionalmente histérica: um manifesto assinado por mais de seiscentos ativistas acadêmicos, que me acusam de caluniador, fascista, agente pago do governo americano e até “perseguidor político” do professor da Unicamp (maiores explicações no meu website, www.olavodecarvalho.org , sob o título “Resposta aos puxa-sacos de Quartim de Moraes”).

Os signatários enaltecem em termos candentes as virtudes intelectuais do referido, sem dizer quais são, é claro, mas contrastando-as com a total ausência delas na minha pessoa; e, sem responder a uma só das acusações que fiz a ele, ainda têm o imensurável cinismo de alardear que a mim, não a eles próprios, faltam argumentos para uma discussão séria do assunto.

O manifesto, publicado na internet , não só angariou automaticamente a adesão dos comunistas mais notórios, mas foi endossado pela direção nacional do PT e reproduzido no site oficial do partido, com as assinaturas dos srs. Ricardo Berzoini e Marco Aurélio Garcia. Tudo indica, portanto, que mexi num vespeiro, que o prof. Quartim é mais importante e mais intocável do que todos os outros esquerdistas que critiquei ao longo dos tempos.

Que é que há de tão notável, de tão sacrossanto no professor da Unicamp para que até o partido governante assuma as dores dele e consinta em participar de um empreendimento ridículo no qual nenhuma autoridade respeitável jamais se deixaria envolver?

O caso merece investigação.

Vejamos, em busca de pistas para a solução do enigma, a obra escrita do prof. Quartim. Para uma carreira acadêmica de quarenta anos, ela é pífia e composta quase que inteiramente de obras que ele apenas organizou, não escreveu (detalhe que sua bibliografia tem em comum com a do dr. Emir Sader). No conteúdo, a quase totalidade compõe-se de material de interesse exclusivo da militância (quando não de mera propaganda comunista), sem relevância cultural para pessoas cujo horizonte mental vá um pouco além disso. Olhando o conjunto, só uma conclusão é possível: a produção intelectual do prof. Quartim não pode ser nem mesmo motivo de orgulho pessoal, quanto mais de adoração geral. Logo, não foi por ter atacado um gênio, uma glória intelectual nacional, que meu artigo provocou tanta ira e escândalo.

Outra explicação possível é que feri os brios da tradição esquerdista, blasfemei contra o culto da “luta armada”. Mas esta hipótese também não funciona, porque já escrevi coisas piores contra outros ex-guerrilheiros e ninguém perdeu o sono por isso.

Resta a possibilidade de que as acusações em si sejam absurdas, infundadas e aptas a provocar uma justa revolta. Vejamos uma por uma. Tudo o que escrevi do prof. Quartim foi o seguinte:

1) Tendo sido um dos mandantes do assassinato do capitão Charles Chandler, ele é um assassino com sentença transitada em julgado, e chamá-lo de assassino é um direito elementar de qualquer cidadão brasileiro. Rotular isso de “calúnia” é inverter criminosamente o sentido do Código Penal, que define como tal a imputação falsa e não verdadeira de crime. Na letra e no espírito da lei, quem comete calúnia – contra mim – são os signatários do manifesto.

2) Quartim quer a aproximação entre os esquerdistas e os militares, mas com a condição de que os crimes cometidos pelos primeiros continuem esquecidos, se não premiados, e os dos segundos sejam investigados e punidos. Afirmei isso e repito, pois é traslado fiel de suas próprias palavras e atitudes.

3) Ao apontar como indício da desumanidade do regime escravagista no Brasil as constantes fugas de escravos, o prof. Quartim se omite de dizer que sinal idêntico se observa, em quantidade incomparavelmente maior, na debandada geral de refugiados do regime comunista, de cuja maldade descomunal o mesmo Quartim não diz jamais uma palavra, preferindo, em vez disso, fazer a apologia de Stálin (“Um outro olhar sobre Stalin”, http://www.revan.com.br/catalogo/0269c.htm ).

São afirmações óbvias em si mesmas, irrespondíveis. Que é que Quartim e seus seiscentos protetores têm a objetar a elas? Nada, absolutamente nada. Daí a raiva, o ódio impotente que, sem ter meios de agir, recorre a esse expediente pueril do “manifesto de intelectuais” para tentar impressionar pelo número e intimidar pela exibição de força.

A coleta de assinaturas, é claro, já virou palhaçada. A molecagem foi respondida com molecagem. Centenas de anônimos invadiram o espaço do abaixo-assinado, estourando com piadas escatológicas, ofensivas mas não imerecidas, o grotesco arremedo de seriedade com que seiscentos palhaços tentavam ludibriar o público.

Mas toda a trapaça que arriscaram é nada, em comparação com o ardil logo em seguida montado pela direção nacional do PT ao publicar sua versão do episódio (v.

http://www.pt.org.br/sitept/index_files/noticias_int.php?codigo=2710 ). Registrando que minhas críticas ao prof. Quartim começaram em resposta a uma entrevista dada por ele ao site www.vermelho.org , o partido prossegue:

“Nessa entrevista, [Quartim] aventava a possibilidade de estabelecimento de novos vínculos entre setores das Forças Armadas e a esquerda brasileira em torno de um programa nacional e democrático... Diante dos mínimos sinais de que possa haver tal diálogo democrático entre a esquerda e os militares na atualidade, Olavo de Carvalho vocifera...”

Com evidente malícia, o PT omite, do seu relato, justamente a única frase do prof. Quartim que critiquei na sua entrevista: “Cometeríamos a pior das infidelidades à memória de nossos mortos se consentíssemos em pagar, pelas boas relações com os militares de hoje, o preço do esquecimento dos crimes cometidos pela ditadura.”

Essa frase é uma promessa explícita de continuar tratando de maneira desigual os crimes da esquerda e os da direita, isto é, premiando os primeiros e punindo os segundos. Ao omitir esse trecho, o PT tenta dar a impressão de que tudo ia às mil maravilhas no relacionamento amoroso entre os comunistas e as Forças Armadas. Coloquem a frase no lugar e verão que esse relacionamento não passava de uma fachada montada pela liderança comunista para enganar os militares e obter, deles, tudo em troca de nada. Com essas palavras fatídicas, Quartim deu com a língua nos dentes, evidenciando a verdadeira intenção dos comunistas, e eu, em vez de deixá-las passar despercebidas num site que só comunistas lêem, lhes dei um destaque medonho num jornal de circulação nacional.

Eis aí a razão da histeria que o meu artigo provocou. O prof. Quartim, em primeiro lugar, não é um “intelectual esquerdista” comum e sobretudo não é um membro do PT. É um dirigente do Partido Comunista – organização internacional infinitamente mais poderosa do que mil PTs. É regra básica do movimento comunista que a sua atuação se desenvolva sempre em dois planos simultâneos: um, notório e público; o outro, discreto e, em caso de necessidade, clandestino. O comando estratégico esta sempre, por definição, na parte discreta, mesmo em épocas de tranqüila liberdade. Quando uma figura de intelectual comunista aparentemente secundária e modesta como a do prof. Quartim se revela, de repente, mais valorizada do que o próprio presidente da República (a quem chamei até de parceiro de narcotraficantes sem que ninguém perdesse o sono por isso), o que o episódio torna claro é que o personagem tem alguma função essencial na parte discreta da estratégia comunista. Ele não é um garoto-propaganda como o nosso presidente ou uma Angela Guadagnin qualquer. Ele está no centro obscuro de onde emanam as grandes operações que, a longo prazo, buscam decidir o curso da História. Ele não está no show , brilhando ante os holofotes. Está no coração das trevas.

O papel específico do prof. Quartim no presente estado de coisas acabou sendo revelado pela própria nota do PT. Independentemente de outras funções que possa ter no esquema comunista, ele era o homem encarregado de restaurar a esquerda militar que existia antes de 1964, fazendo das Forças Armadas, ou de uma parcela delas, um instrumento da revolução continental. Ele se preparou longamente para isso, promovendo os estudos que depois publicou na série “A Esquerda Militar no Brasil” e em vários artigos de jornais e revistas. Que a infiltração comunista nas Forças Armadas conseguiu alguns resultados efetivos nos últimos anos, é a coisa mais evidente do mundo. A transformação da ESG em megafone da esquerda prova-o da maneira mais evidente. A passividade dos militares ante a escalada subversiva, que em épocas mais saudáveis eles já teriam interrompido com um simples pronunciamento de generais, mostra que a intoxicação comunista conseguiu, pelo menos, espalhar no meio castrense uma espécie de paralisia. Mas a conquista ainda estava longe de ter alcançado seus objetivos. A maioria absoluta dos militares brasileiros continua patriota e conservadora como o era em 1964. Ainda faltava muito para que a obra de engenharia concebida pelo prof. Quartim alcançasse o sucesso pretendido, pondo abaixo, mediante lisonjas e promessas, a “Grande Barreira” – como a chamou, num livro memorável, o general Agnaldo Del Nero Augusto — que sempre se opôs à transformação das Forças Armadas em instrumentos da subversão comunista. A Grande Barreira foi roída, mas não derrubada.

Ao evidenciar as intenções maliciosas e traiçoeiras com que Quartim e seus colaboradores tentavam seduzir os militares, coloquei em risco uma das operações mais delicadas e ambiciosas de infiltração comunista já tentadas nesse país. Eis o motivo do pânico que meus artigos espalharam entre os ativistas acadêmicos.

A Educacao Grega E Nos

25 de novembro de 2013 | Diário do Comércio

A educação na Grécia antiga, cujo sucesso inegável é amplamente comprovado pela criatividade em todos os campos do saber e da arte, voltava-se, acima de tudo, à preparação dos jovens para os altos postos da vida pública: a política, a magistratura e a educação mesma. Se não é, portanto, uma fórmula que se possa copiar na instrução das massas em geral, e se nos dias de hoje seria utópico tentar imitá-la até mesmo para a formação da classe dominante, dos políticos, dirigentes de empresas, comandantes militares, bispos e cardeais, ela continua, no entanto, um modelo excelente para a educação da elite intelectual.

Não pretendo que seja possível ou mesmo desejável montar uma escola, muito menos um sistema nacional de educação, segundo o formato grego. Não é nesse sentido que uso a palavra “modelo”. Uso-a para designar apenas uma unidade de comparação e de medida que possa servir para a orientação pessoal, seja de alguns educadores, seja de pais de família interessados em homeschooling, seja de estudantes devotados a educar-se ou reeducar-se a si mesmos. Alguns dos meus alunos já têm clara consciência disso e vêm tirando proveito do exemplo grego, tanto para si mesmos quanto para seus filhos e, quando são professores, para seus alunos (v., por exemplo, http://radiovox.org/2013/10/24/carlos-nadalim-encontrando-alegria/).

Atendida essa limitação, a primeira coisa que deve nos chamar a atenção é a prioridade absoluta que, na educação infantil, se dava ao treinamento literário e artístico. Após a instrução moral básica dada pela educação doméstica, praticamente só o que se ensinava às crianças, tão logo elas estivessem alfabetizadas, era ler e decorar as obras dos grandes poetas, participar de encenações teatrais, cantar, dançar e fazer ginástica. Isso era tudo. O resto cada um aprendia por si ou com professores particulares.

Eis como Platão descreve esse processo:

“Quando os alunos aprendem a ler e começam a compreender o que está escrito, tal como faziam antes com os sons, dão-lhes a ler em seus banquinhos as obras de bons poetas [épicos], que eles são obrigados a decorar; obras cheias de preceitos morais, com muitas narrativas de louvor e glória dos homens ilustres do passado, para que o menino venha a imitá-los por emulação e se esforce por parecer-se com eles... Depois de haverem aprendido a tocar cítara, fazem-nos estudar as criações de outros grandes poetas, os líricos, a que dão acompanhamento de lira, trabalhando, desse modo, para que a alma dos meninos se aproprie dos ritmos e da harmonia, a fim de que fiquem mais brandos e, porque mais ritmados e harmônicos, se tornem igualmente aptos tanto para a palavra quanto para a ação. Pois, em todo o seu decurso, a vida do homem necessita de cadência e harmonia. Em seguida, os pais entregam-nos ao professor de ginástica, para que fiquem com o corpo em melhores condições de servir ao espírito virtuoso, sem virem a ser forçados, por fraqueza de constituição, a revelar covardia, tanto na guerra quanto em situações semelhantes.” (Protágoras, 325 d7 ss. Tradução de Carlos Alberto Nunes ligeiramente modificada.)Em seu livro densamente documentado, Arts Libéraux et Philosophie dans la Pensée Antique (Paris, Vrin, 2005), a erudita germano-francesa Ilsetraut Hadot acrescenta: “Os jovens de famílias prósperas recebiam também, desta vez gratuitamente, uma educação complementar tomando parte num côro trágico ou lírico, por ocasião das festas cultuais locais. Essas demonstrações eram, com freqüência, primeiras representações de uma peça de teatro ou de uma poesia lírica de autor contemporâneo; eram portanto a ocasião, para os jovens, de ser colocados em contato com todas as novas criações literárias do seu tempo e de aprendê-las de cor. Esta espécie de educação era tão importante, que Platão, nas Leis (II, 654 a-b), se vê levado a identificar o homem culto (pepaidymênos) com aquele que participou de um côro com freqüência suficiente (ikanos kekoreykôta) e, ao contrário, o homem sem cultura com aquele que jamais fez parte de um côro (akôreytos).”

Não há exagero em dizer que os jovens gregos, muito antes de entrar na vida pública, já tinham uma cultura literária superior à da média dos nossos atuais professores de Letras.

A preparação para a cidadania só começava depois de encerrada a etapa da educação escolar:

“Quando saem da escola, a cidade, por sua vez, os obriga a aprender leis e a tomá-las como paradigma de conduta, para que não se deixem levar pela fantasia e praticar alguma malfeitoria.”

Isso já era assim desde antes do advento dos sofistas, professores ambulantes que iam de cidade em cidade ensinando a arte da oratória e dos debates públicos. Os sofistas introduziram essas matérias na educação de alunos que já vinham não só com uma boa base literária e artística, mas com algum conhecimento das leis e princípios que regiam a vida social, conhecimento do qual a sofística era apenas um complemento técnico mais avançado. Prossigo esta explicação e tiro algumas conclusões dela no próximo artigo.

Em 25 de novembro de 2013

Carta De Uma Estudante

25 de junho de 1999 | Post scriptum

Sr. Olavo de Carvalho, Meu nome é N., tenho 19 anos, curso o segundo ano de jornalismo. Acabo de ler seu artigo, “Patifarias”, no JT de hoje, 5 de agosto. Confesso que fiquei muito intrigada com algumas afirmações suas e gostaria de saber exatamente de que se trata. Que relações existem entre índios e estrangeiros? Eu realmente ignoro qualquer informação sobre o assunto e é algo que me preocupa. O que você quis dizer com: “está sendo levado ao comunismo (...)”, ao referir-se a uma aliança entre FHC e a esquerda?

Infelizmente, sou obrigada a reconhecer que a nossa imprensa está “tomada”, por assim dizer, por pensamentos antiquados e esquerdistas que a impedem de exercer sua função com a transparência que seria devida. Noto isso dentro da própria Faculdade, motivo de algum desencanto meu, em que somente os pensadores com alguma inclinação esquerdista são valorizados. Discute-se muito Karl Marx e dá-se pouca – ou nenhuma – importância a alguém que discorde dele, em qualquer aspecto que seja. Todos – professores, alunos e, se bobear, até os porteiros – dizem as mesmas coisas, têm as mesma opiniões... Chega a ser entediante. Os ricos são sempre os vilões e os pobres, coitadinhos. Não estou fazendo apologia da usura, da ganância, das desigualdes sociais gritantes. Apenas acredito que essa visão simplista é patética, beirando o absurdo.

Aproveito para parabenizá-lo pela coragem de ser uma voz dissonante no lamaçal de unanimidade estúpida. Li seu livro, O Imbecil Coletivo , e embora discordasse de alguns de seus argumentos e não tivesse exatamente as mesmas convicções, não posso deixar de congratulá-lo pelo serviço essencial de enxergar além daquilo que Karl Marx disse.

Gostaria, sinceramente, de uma resposta para as inquietações que você acaba de causar com seu artigo. Agradeço a atenção, N.

Resposta de Olavo de Carvalho Prezada amiga, Muito obrigado pela sua atenção aos meus escritos e pelas palavras gentis com que se refere a eles. Quanto ao assunto dos índios, ligue para a Biblioteca do Exército (021 519-5707, 516-2366) e peça um exemplar do livro “A Farsa Yanomami”. É um depoimento escrito por um major do Exército, ex-secretário de Segurança de Roraima, quando estava para morrer de câncer, e tem o peso das palavras dos moribundos. Esse livro lhe dará uma idéia de coisas abismantes que se passam dentro do território nacional com a cumplicidade do governo e da imprensa. O único jornalista que se atraveu a tocar no assunto, Janer Cristaldo, foi posto na lista negra e não há mais lugar para ele na imprensa de São Paulo.

Só para lhe dar uma idéia, o mapa da reserva indígena de Roraima coincide exatamente com a das mais ricas reservas minerais do país. Para ocupá-la, uma ONG inglesa inventou uma tribo (nunca existiram ianomâmis), reunindo 5.000 índios dispersos e convencendo o governo de que, para morar, eles necessitavam de um território do tamanho do Estado do Pará. A reserva foi delimitada e hoje lá é proibida a entrada de brasileiros. Leia o livro.

Quanto ao comunismo, o ex-secretário de Estado norte-americano Warren Christopher foi bastante enfático ao anunciar que qualquer governo de esquerda que chegasse ao poder pelo voto seria garantido pelas Forças Armadas dos EUA. A política americana com relação ao comunismo mudou muito desde os tempos de Ronald Reagan. Sem compreender isto, nada se compreenderá do que acontece no Brasil. Clinton, que na juventude viveu em Moscou num daqueles programas para estudantes, montados pelo Partido Comunista para cooptar colaboradores e espiões, foi eleito Presidente com o apoio do Partido Comunista e logo nomeou a China “Parceiro Preferencial” para investimentos dos EUA, desobrigando-a de qualquer cláusula referente a direitos humanos (uma moleza que nunca se deu a nenhum país do mundo). O principal sócio dos investimentos americanos na China é o Exército chinês, de modo que, quanto mais dinheiro os americanos ganham lá, mais aumenta o poderio militar dos chineses. Recentemente, foi descoberto um caso de espionagem nuclear chinesa no Laboratório de Los Alamos, e a Casa Branca fez tudo para bloquear as investigações. Após alguns anos de experiência em “negócios da China”, o governo americano agora declara abertamente que é indiferente ao regime das nações com que comercia, e que qualquer país da América Latina, por exemplo, que se torne comunista, continuará sendo bem tratado pelos EUA desde que preserve os investimentos norte-americanos. O que a experiência chinesa ensinou aos americanos é que um governo comunista é o melhor parceiro dos investimentos estrangeiros, porque, numa sociedade policial, há mão de obra barata, sem greves nem arruaças, e no mercado não há concorrência. O paraíso, em suma. Para garantir as boas relações com a China, o governo norte-americano chegou a pressionar os estúdios de Hollywood que tinham feito filmes como “Sete Anos no Tibete”, “Kundun” e “Justiça Vermelha” (que denunciavam atrocidades chinesas no Tibete: um milhão de mortos), para que tirassem logo os filmes de cartaz. “Kundun” de Martin Scorsese, ficou em exibição no Brasil menos de uma semana. Paul Eisner, o novo chefão da Disney e homem de Clinton, admitiu ter boicotado “Sete Anos no Tibete” para agradar aos chineses. A coisa foi muito criticada na Câmara e Clinton disse que ia rever suas decisões, mas substancialmente a política pró-chinesa não mudou nada.

Com o que aprenderam na experiência chinesa, os americanos mudaram sua política para a América Latina e passaram a dar dinheiro e apoio a movimentos esquerdistas – todos, é claro, devidamente compromissados a, uma vez no poder, ser bonzinhos para com os investimentos estrangeiros. Um acordo nesse sentido foi sacramentado pelo secretário de Estado Christopher numa reunião com FHC e Lula (lembra-se de que Lula voltou dos EUA falando bem dos investimentos americanos, rompendo uma tradição de cinqüenta anos da esquerda brasileira sem que ninguém na esquerda protestasse?). A ascensão das esquerdas nos últimos anos é inteiramente devida à ajuda norte-americana. A Inglaterra dá uma ajudinha também.

A nova política neoliberal imposta aos países do Leste Europeu exige que cada país que entre na comunidade econômica mundial implante imediatamente em seu território um conjunto de novas leis (veja o depoimento do ministro Andrei Pleshu na minha homepage). No campo social, as principais leis são: desarmanento dos civis, legalização do aborto, casamentos gays , quotas raciais – quase todo o programa da nossa esquerda . O governo e a oposição esquerdista obedecem igualmente as imposições da nova ordem neoliberal e divergem somente no que diz respeito às privatizações, um item que é absolutamente irrelevante do ponto de vista do capital estrangeiro, pois nesse campo nenhuma decisão é jamais definitiva, pois, por definição, o que é estatizado hoje pode ser privatizado amanhã e vice-versa.

Quanto ao MST, com uma das mãos recebe dinheiro do Exterior e com a outra vai atacando e desmantelando a estrutura agrária brasileira até o ponto em que as fazendas se tornam inviáveis e têm de ser vendidas a firmas estrangeiras. Você já notou que nenhuma propriedade americana foi invadida até hoje pelo MST?

Vou parar por aqui, porque estou cansado e tenho de ir dormir. Mas acho que já dá para você fazer uma idéia de quanto o nosso país está cercado e amarrado, e de quanto a esquerda, junto com o governo, é responsável por isso.

Com meus melhores votos, Olavo de Carvalho Post scriptum 7 de agosto de 1999 Nossa esquerda procura dar ao povo a impressão falsa de que neoliberalismo consiste em privatizações, de que combatendo privatizações ela está combatendo a Nova Ordem Mundial e sendo muito nacionalista. Conversa mole. As privatizações são um item secundário dentro da Nova Ordem Mundial, cujas diretrizes, no essencial, os esquerdistas obedecem fielmente, uns por safadeza, a maioria sem saber a quem serve.

Quanto aos nossos nacionalistas, quase todos estão no caminho errado. Uns procuram se aliar com a esquerda, que se aproveita deles para atrair sobre si o prestígio histórico do discurso nacionalista. Outros estão com tanta raiva de FHC que chegam a imaginar que, derrubado o presidente, a Nova Ordem Mundial estará vencida e o Brasil erguerá a cabeça. Outros, ainda, recebem o seu discurso nacionalista pronto de organizações estrangeiras que se fingem de inimigas da Nova Ordem Mundial. Santa Mãe de Deus! Só mesmo um brasileiro pode ser tonto o bastante para acreditar num nacionalismo importado.

Toda a política brasileira, no momento, é farsa e engano. Não pode haver uma política sã quando a vida intelectual de um país está podre. Os intelectuais têm a obrigação de tentar enxergar claro e de informar ao país o que realmente está acontecendo. Em vez disso, deixam-se tomar por paixões políticas estereotipadas. Ninguém pode se instalar na realidade de hoje ao mesmo tempo que, na imaginação, ainda está vivendo uma história de trinta anos atrás. Quando ouço os discursos da esquerda, sinto que estou assistindo a um filme sobre 1968, um ano que de fato, para essa gente, não terminou . Um trauma, dizia o meu amigo Juan Alfredo César Müller, paralisa o tempo e faz você viver no passado. Nossa esquerda ainda está lutando contra os militares, enquanto a Nova Ordem Mundial já a engoliu e já a subjugou a seus interesses sem que ela o perceba. Nacionalistas, liberais, esquerdistas estão todos dormindo, hipnotizados, com a cabeça no mundo da Lua. Só quem não está dormindo são os representantes locais da Nova Ordem Mundial, que estão muito bem distribuídos, sem dar na vista, entre os partidários dessas três correntes.

A tragédia brasileira é que o nosso país ainda tem um sonho a realizar e está lutando para se afirmar como nação numa época em que tudo vai contra isso. Nossa chance é pequena e temos de usar a cabeça, senão seremos esmagados entre as tenazes da Nova Ordem Mundial. O maior perigo é a divisão do nosso país entre forças políticas — estatizantes versus privatizantes, MST versus FHC, negros versus brancos — cujo confronto foi planejado pelos senhores da Nova Ordem para produzir, pela técnica do “gerenciamento de conflitos”, os mesmos resultados independentemente de quem seja o vencedor nominal da parada. Esse resultado chama-se: dissolução do poder nacional.

Sobre O Ensino Da Filosofia

25 de abril de 2002 | Jornal da Tarde

Se você examinar algum manual de introdução a Platão, a Aristóteles ou a qualquer outro filósofo verá que as preocupações essenciais de seus autores são três. Primeira, reconstituir o quanto possível a unidade sistemática do pensamento do filósofo, expondo-a numa ordem lógica mais direta do que aquela que se encontra nos seus escritos. Segunda, assinalar as mudanças de rumo eventualmente observadas na evolução intelectual do filósofo em direção a essa unidade. Terceira, relacionar de algum modo o pensamento dele à cultura e à sociedade do “seu tempo”. O sistema filosófico é assim enfocado sob três aspectos: sua estrutura lógica, a história da sua formação e suas raízes no ambiente humano em torno.

Essas três coisas são importantes, mas há um porém: você pode estudá-las pelo resto dos seus dias e não chegar a compreender grande coisa da filosofia do filósofo, ao menos tal como ele próprio a compreendia.

O problema é que essas modalidades de estudo tomam a filosofia de fulano ou beltrano como objeto de sua investigação, ao passo que nenhuma filosofia surgiu como objeto de investigação de si própria e sim como canal para a investigação de alguma outra coisa.

Aristóteles jamais estudou “filosofia de Aristóteles”. Estudou os meteoros, a fisiologia animal, o funcionamento da psique, a estrutura do discurso, os princípios da validade do saber, a organização das sociedades políticas, as metas da vida humana, a constituição do universo e a natureza de Deus.

Se você não olhar diretamente para essas coisas, tirando suas próprias conclusões e comparando-as com as de Aristóteles, pouco entenderá destas últimas. Sua visão de Aristóteles será tão falseada quanto a de alguém que quisesse julgar a narração de uma partida de futebol sem levar em conta se ela corresponde ou não ao que efetivamente se passou no campo.

Toda filosofia, afinal, não é mais que a exposição de um conjunto de atos intelectivos realizados por um indivíduo que queria saber alguma coisa sobre algo que, decididamente, não era a sua própria obra filosófica. Só a revivescência pessoal desses atos, com foco nos mesmos alvos a que se dirigiam originariamente, permite apreender a filosofia in statu nascendi, isto é, não como produto cultural acabado, estratificado, congelado, mas como atividade real e vivente da inteligência humana no confronto com os dados da realidade.

Fora disso, você pode aprender algo sobre filosofia, mas não aprender filosofia.

É claro que, de vez em quando, será preciso retornar dos objetos da filosofia à própria filosofia tomada como objeto, para averiguar se as conclusões do filósofo conferem com outras conclusões enunciadas por ele em outras partes do seu sistema, ou se estão em acordo ou desacordo com as teorias de outros filósofos. Mas é evidente que esta é uma atividade apenas de controle, de importância derivada e secundária. Esse controle é como olhar no espelho retrovisor: é uma coisa útil para você dirigir um automóvel, mas ninguém pode dirigir um automóvel mantendo a atenção fixa no espelho retrovisor o tempo todo, sem nunca olhar para a frente.

Ou a filosofia é um saber, ou é apenas uma atividade lúdica sem propósito.

Se ela é um saber, é um saber a propósito de algum objeto que, evidentemente, não pode ser somente ela mesma.

Os antigos estavam mais conscientes disso do que os modernos estudiosos de filosofia. Por isso preocupavam-se pouco com os sistemas filosóficos enquanto tais – seja considerados do ponto de vista estrutural, seja evolutivo, seja cultural e sociológico -, mas buscavam sobretudo testar, no confronto com os objetos, a veracidade ou a falsidade do que esses sistemas diziam a respeito. Esse método pode parecer ingênuo e primitivo desde o ponto de vista das técnicas eruditas altamente sofisticadas que hoje se empregam para estudar filosofia. Mas nenhum acúmulo de técnicas e de sofisticação pode substituir uma atitude cognitiva apropriada ao objeto.

Essa arte, esse talento de ajustar o foco é exatamente o que vem se perdendo na sofisticação crescente das técnicas, e que os antigos possuíam em abundância. Por isso é que, no meio de tantos estudos que a cada ano se produzem sobre Aristóteles nas universidades do mundo, pouquíssimos são de leitura tão proveitosa quanto os velhos comentários de Sto. Tomás, de Duns Scot ou de Avicena.

Debatendo O Liberalismo Classico

24 de julho de 2002 | 24 de julho de 2002

Quem mora no Rio de Janeiro e adjacências e se interessa por filosofia, história, política e economia não pode perder as palestras sobre o liberalismo clássico promovidas pelo Instituto Liberal, na Universidade Cândido Mendes, Rua da Assembléia, 10/1105 (tel. 2531-3911). As conferências acontecem às terças-feiras, 18:30 hs, tendo por tema o pensamento de grandes autores como Locke, Hume, Kant, Bentham e Adam Smith, e são seguidas por estimulantes debates abertos ao público. Entre os palestrantes há estudiosos de renome nacional, como Ricardo Vélez, Ubiratan Iorio e muitos outros. Mesmo quem não simpatiza com o liberalismo tem muito o que aprender no evento, inclusive expondo livremente suas críticas, se assim o desejar.

O ciclo atual já teve três palestras. Infelizmente não pude comparecer à primeira delas, pronunciada pelo Professor Og Leme, sobre os fundamentos do liberalismo. Para minha sorte, contudo, já tive a oportunidade de assistir a uma conferência do Professor Og em um ciclo anterior. Conversar com ele é até engraçado, pois os grandes autores como Mises, Knight, Hayek, Rothbard e Friedman, que para mim são clássicos tão inacessíveis quanto Adam Smith ou Frédéric Bastiat, ele os recorda como seus professores (estudou economia na Universidade de Chicago) e amigos pessoais.

As duas palestras seguintes versaram respectivamente sobre as raízes do liberalismo clássico e sobre Thomas Hobbes. O conferencista foi o Professor Alex Catharino de Souza., que, com sua esposa Márcia Xavier de Brito e André Andrade organizam o ciclo já há vários anos. São verdadeiros agitadores liberais esses três mosqueteiros. Jovens, simpáticos e muito cultos, eles estão sempre planejando e empreendendo projetos como cursos, palestras, traduções, publicações e muito mais. Não sei como arranjam tempo e energia para fazer tanta coisa ao mesmo tempo.

A palestra sobre o autor do famoso Leviathan, livro mais citado do que lido, foi soberba. Alex Catharino traçou um belo painel da vida e obra do pensador inglês, contextualizando seus escritos, relatando o estado da questão na ciência política da época, seus interlocutores e adversários intelectuais, quem o influenciou, sua metodologia, seus melhores intérpretes (Voegelin, Oakeshott). Uma aula completa. Eu saí de lá ansioso por tirar o meu exemplar do Leviathan da prateleira empoeirada onde ele descansa há anos. Alguns podem estranhar que Hobbes seja situado entre as fontes do liberalismo, pois ele é visto por muito apenas como um teórico do absolutismo e até um apologista do Estado. Alex refuta essa visão superficial do filósofo, lembrando que ele defendia a monarquia e o Estado como um meio de garantir o exercício das liberdades individuais, e com a condição de que o poder político fosse legítimo, ou seja, repousasse sobre o consentimento dos súditos. Nada contra a democracia ou a aristocracia em tese, desde que legítimas. Hobbes, porém, desconfiava da democracia, regime de governo tendente à corrupção e à demagogia. Olhando à nossa volta, como censurá-lo por isso? Mas Hobbes é o primeiro a reconhecer que um governo ilegítimo deve ser derrubado pelo povo. Lembra o Prof. Alex ademais que o famoso “estado da natureza” hobbesiano, a luta implacável de todos contra todos, era apenas um “começo epistemológico”, uma construção mental ou um modelo, diriam os economistas, não o relato de um período histórico.

O filósofo britânico viveu numa época de revoluções e guerras civis. A violência o marcou profundamente e da perplexidade diante dela ele construiu o seu sistema. Pessimista, para ele o Estado era mesmo um mal inexoravelmente necessário. Mas, atenção: Estado mínimo, na terminologia atual. A função do governo é a de prover segurança e nada mais. Hobbes rompe com a tradição filosófica no campo da moral desde Aristóteles, pois, ao invés de enfatizar o Bem, ele se preocupa antes com a liberdade negativa, cristalizada na “regra de ouro”: Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a ti. Por isso e pela concepção ontológica e epistemológica individualista, fica evidente a influência que Hobbes exerceu sobre Locke, o grande teórico dos Direitos Naturais.

O debate que se seguiu contou com a participação do eminente filósofo Mario Guerreiro, que traçou um sombrio paralelo entre a época conturbada de Hobbes e o nosso próprio tempo, marcado pela falência do Estado brasileiro em prover um mínimo de segurança para a população. Guerreiro manifestou grave preocupação com o momento atual, lembrando a contemporaneidade de Hobbes numa ocasião em que a ordem e a autoridade estão em dissolução no Brasil. O que esperar de um governo que sequer garante a integridade física dos cidadãos? Nada, de modo que todas as propostas edificantes dos candidatos às próximas eleições de nada valem. Na sequência, a interessante discussão pegou fogo quando um assistente objetou corretamente que também o excesso de ordem e autoridade estatais, como na União Soviética de Stalin, pode ser profundamente caótico e infrutífero. O mesmo se pode dizer do Brasil e suas milhares de leis contraditórias e prolixas que não são obedecidas e não “pegam”. O Professor Alex então invocou o conceito hayekiano de “ordem espontânea” para frisar que nem toda ordem é compatível com uma sociedade justa e saudável, mas somente aquela em que o Estado provê as condições para que os direitos individuais à vida, à liberdade e à propriedade possam ser exercidos livremente. Postas essas condições, os rumos que a evolução social toma não podem ser previstos nem pré-determinados. Nada mais se pode pedir do governo. Hobbes com certeza aprovaria essa conclusão.

De qualquer maneira, a admissão hobbesiana da necessidade de um governo não anula a inquietação e as incisivas investigações sobre a natureza do Estado levadas a cabo por anarcoliberais como Murray Rothbard (Anatomy of the State, por exemplo). O impulso de dominar e espoliar é inato ao homem e o Estado é o veículo perfeito e consumado para o exercício da violência, da dominação e da espoliação. Até mesmo no contexto estatal é concebível um estado da natureza de Hobbes, a luta de todos contra todos pelas posições mais vantajosas no saque generalizado e sistematizado que o “Estado do Bem-Estar” se torna, fenômeno aliás presenciado e relatado magistralmente por Frédéric Bastiat já no século 19. Rothbard gostava de citar um adágio de Proudhon: A liberdade é a mãe, não a filha, da ordem. Nada mais correto. Sem a liberdade dos direitos naturais e ordem é inútil. É uma desordem disfarçada e de curta duração.

Em 24 de julho de 2002

Leituras

A Fonte Da Criacao

24 de fevereiro de 2015 | Diário do Comércio,

Toda verdade que se espalha por muitos ouvidos logo se torna um lugar-comum, uma fórmula repetida mecanicamente, esvaziada da sua substância intuitiva originária. É ainda uma verdade “material”, mas não “formal”, diriam os escolásticos — isto é, um conteúdo verdadeiro apreendido de maneira falsa.

O conhecimento da verdade, no seu sentido pleno, material e formal ao mesmo tempo, é um privilégio da consciência individual humana. Pode ser repassada de um indivíduo a outros, mas cada um tem de fazer por si mesmo o esforço de apreendê-la. Não existe verdade comunitária.

Todo professor confirma isso diariamente. Um aluno isolado pode compreender a explicação que escapa totalmente ao resto da classe, mas é impossível que a classe como um todo apreenda algo que nenhum dos seus membros entendeu individualmente.

A civilização inteira do Ocidente nasce com a proclamação dessa ideia: Abraão guarda no segredo da sua alma a instrução que recebeu de Deus. Moisés sobe sozinho ao Monte Sinai. Cristo no alto da cruz encarna a Verdade solitária, incompreensível aos que O rodeavam – até mesmo, em determinada medida, aos seus discípulos mais próximos.

Em ciência, a colaboração entre vários pesquisadores prossegue no escuro até que um deles enxergue o que os outros não enxergaram.

Ninguém em volta compreende o que se passa na alma do artista quando ele transfigura a pedra informe na Pietà ou as palavras do dicionário na Divina Comédia.

No entanto, é certo que a consciência individual, para chegar a essas alturas, precisa da ajuda da comunidade, que a protege, a estimula e a nutre de conhecimentos até que ela possa alçar seu voo solitário. E mesmo então ela continua precisando do diálogo com outras consciências, nas quais se reconhece e das quais se distingue pouco a pouco na individualidade irredutível da sua solidão criadora.

A tensão entre a independência individual e a participação numa comunidade de inteligências afins é um dos traços mais constantes da História ocidental. Sócrates busca sua audiência entre os jovens da aristocracia ateniense, mas foge dela quando eles, na sua fragilidade de moços, repousam da filosofia, entregando-se a jogos e prazeres indignos de um filósofo.

Sto. Tomás adestra sua inteligência nas disputas universitárias, mas, quando obtém por fim as respostas mais altas que desejava, sabe que vai levá-las sozinho para a vida eterna, sem poder dizer mais uma palavra sequer. Goethe busca a perfeição do caráter na agitação do mundo, mas a do talento na solidão.

O equilíbrio dinâmico esboroa-se, porém, quando a atividade intelectual e criativa se padroniza ao ponto de identificar-se com a participação numa determinada categoria profissional.

William Faulkner ou Henry Miller ririam se alguém lhes pedisse um currículo universitário ou uma carteira sindical de escritor. Hoje, nos EUA, a literatura, para não falar da filosofia, foi quase que integralmente absorvida pelas profissões universitárias correspondentes.

Por isso não há mais nenhum Henry Miller ou William Faulkner, apenas uma profusão de talentos médios ou sofríveis. Nenhum aprendizado universitário substituirá jamais a densa experiência da vida, as “impressões autênticas” de que falava Saul Bellow.

Por isso mesmo, o que há de mais vigoroso na literatura americana das últimas décadas vem de tipos marginais e extravagantes, como John Kennedy Toole ou Hubert Selby Junior. E Thomas Pynchon salvou seu talento ao escapar da carreira acadêmica a que tudo parecia destiná-lo.

Na França, o caso de Emil Cioran é exemplar. Talvez o mais poderoso artista da língua francesa na segunda metade do século XX, nasceu na Romênia e, ao fugir para Paris, evitou cuidadosamente não só meter-se ali em instituições acadêmicas, mas exorcizou toda identidade profissional concebível: durante décadas viveu espremido num sótão, comendo diariamente no restaurante da Aliança Francesa e renovando ilegalmente, até à velhice, uma bolsa de jovem estudante.

Justamente na época em que o governo Pompidou seduzia a intelectualidade inteira com cargos universitários, enquadrando até os rebeldes de 68 e estrangulando com um cordão de ouro o mais animado ambiente de debates que já existiu, ele se manteve ferozmente à margem de toda vida oficial, recusando até mesmo prêmios literários.

No Brasil, é notório que a crítica literária morreu ao ser absorvida pela universidade. Com ela, foi para o túmulo também a literatura de ficção. E décadas de empombadíssima filosofia universitária não nos deram um Mário Ferreira dos Santos, um Vilém Flusser, um Vicente Ferreira da Silva, um Miguel Reale, que nada deveram à universidade. O exemplo brasileiro ilustra com perfeição o aforisma de Nicolás Gomez Dávila: “Un diploma de dentista es respetable, pero uno de filósofo es grotesco.”

Sim, um escritor, um pensador, um artista precisa de companheiros, de diálogo. Mas nada substitui os encontros espontâneos, os círculos de convivência informal, a amizade fundada na comunidade de sonhos e valores, longe de todo enquadramento burocrático, de toda organização profissional. O tipo de convívio que não estrangula a individualidade no garrote vil dos regulamentos e dos planos de carreira, mas a preza e estimula.

Foi justamente nesses círculos que se formou a mais talentosa geração de escritores que o nosso país já produziu, aquela que ingressou na vida literária na década de 30 e dominou o panorama até os anos 70 do século XX. Tudo o que veio depois, trazido nos braços da universidade, é lixo em comparação.

Educacao Ou Deformacao

23 de outubro de 2009 | Diário do Comércio

O pronunciamento do MEC, que considerou inconstitucional a legalização do homeschooling por violar o direito de todos à educação gratuita, é só mais um exemplo do barbarismo que, a pretexto de educar nossos filhos, lhes impõe todo um sistema de deformidades mentais e morais para fazer deles idiotas criminosos à imagem e semelhança de nossos governantes.

Lembrem o que eu disse dias atrás, sobre as afirmações que não podem ser discutidas, apenas analisadas como sintomas da demência que as produziu. O parecer do MEC sobre o homeschooling inclui-se nitidamente nessa categoria. Desde logo, um direito que, sob as penas da lei, se imponha ao seu alegado beneficiário como uma obrigação, não é de maneira alguma um direito. Direito, como bem explicava Simone Weil, é obrigação reversa: se tenho um direito, é porque alguém tem uma obrigação para comigo. Ter direito a um salário é ter um empregador que está obrigado a pagá-lo. Se, ao contrário, sou eu mesmo o titular do direito e da obrigação de satisfazê-lo, é claro que não tenho direito nenhum, apenas a obrigação. É assim que os luminares do MEC entendem a educação gratuita: as pobres crianças brasileiras, por serem titulares desse direito, são obrigadas a engolir a cafajestada estatal inteira que se transmite nas escolas, sob pena de que seus pais sejam enviados à cadeia. Isso não é um direito: é uma imposição e um castigo. Para sofrê-lo, basta ser criança e inocente.

O pior é que os apologistas dessa coisa nem reparam na impropriedade do vocabulário com que a defendem, indício não só de suas más intenções como também da sua falta da cultura superior indispensável aos cargos que ocupam na Educação nacional. Segundo a agência de notícias da Câmara dos Deputados, o diretor de Concepções e Orientações Curriculares do Ministério, Carlos Artexes Simões, acredita que “a obrigatoriedade de o Estado garantir o ensino fundamental, conforme prevê a Constituição, deve ser exercida na escola”. Qual o nexo lógico que essa criatura crê enxergar entre a obrigação estatal de garantir isto ou aquilo e o direito de o governo mandar para a cadeia quem prescinda desse suposto benefício? Desde quando a obrigação de um se converte automaticamente em obrigação de outro, e, pior ainda, em obrigação do titular do direito correspondente? O Estado tem também a obrigação de garantir assistência médica: deveriam então ser processados e presos os cidadãos que recorram a um médico particular, poupando aos cofres públicos uma despesa desnecessária? O Estado tem a obrigação de pagar aposentadorias: nunca fui buscar a minha, à qual tenho direito há mais de uma década. Não fui buscá-la porque ainda estou forte e saudável, graças a Deus, e fico feliz de poupar ao Estado uma quantia que será melhor empregada em benefício de doentes e incapacitados. Devo ser preso por isso? Quanto custa ao Estado a educação de uma criança? Se um indivíduo tem seus impostos em dia e ainda, possuindo dons de educador, dá instrução a seus filhos em casa, cabe ao Estado ser grato ao cidadão exemplar que o auxilia duplamente, com seu dinheiro e com seus serviços, sem nada pedir em troca. Punir essa conduta honrosa é inversão total da moralidade. Sendo nosso governo o que é, não se poderia mesmo esperar dele outra coisa.

Em terceiro lugar, qual a oposição lógica que esses loucos crêem existir entre o homeschooling e o direito à educação gratuita? Imaginam eles que os pais cobram mensalidades dos filhos para educá-los em casa? A coisa é de um contrasenso tão evidente que não percebê-lo à primeira vista indica deficiência mental.

Por fim, o próprio Carlos Artexes Simões não percebe a monstruosidade comunofascista que profere ao declarar que “a escola ainda é a vanguarda do ponto de vista do conhecimento necessário para a construção de um Estado republicano”. Por que as crianças deveriam ser usadas como tijolos para a construção deste ou daquele regime político que interesse ao sr. Simões? Se o regime fosse monárquico, isso mudaria em alguma coisa o conteúdo das disciplinas essenciais, como gramática, aritmética e ciências? Mesmo a História e a informação básica sobre direitos humanos não têm por que ser alteradas conforme as preferências do regime. Bem ao contrário: qualquer regime que exista só se legitima na medida em que se submeta aos valores e critérios universais dos quais a educação é portadora, em vez de torcê-los para amoldá-los à política do dia. Como expressão da cultura, a educação deve moldar o governo, não este a educação. Transformar a cultura e a educação em instrumentos do Estado foi o que fizeram Stalin, Hitler, Mussolini, Mao, Fidel Castro e Pol-Pot. O sr. Simões defende essa concepção com a naturalidade sonsa de quem não é capaz de enxergar nada acima de uma política mesquinha, abjeta, oportunista. Talvez ele não o note, mas o que ele entende por educação é manipulação, é abuso intelectual de menores.

Mais desprezível ainda se torna a sua opinião quando ele acrescenta que a escola não visa só à educação, mas à socialização. Não sabe ele que tipo de socialização nossas crianças encontram nas escolas públicas? Não sabe que estas são fábricas de desajustados, de delinqüentes, de criminosos? Não sabe que, em nome da socialização, as condutas piores e mais violentas são ali incentivadas pelo próprio governo que ele representa? Não sabe que agredir professores, destruir o patrimônio das escolas, consumir drogas, entregar-se a obscenidades em público, são atos considerados normais e até desejáveis nessas instituições do inferno? Não sabe ele que há um crescimento proporcional direto da criminalidade infanto-juvenil à medida que se amplia a escolarização?

Por que se faz de inocente, defendendo a escola em abstrato, como um arquétipo platônico, fingindo ignorar a realidade miserável que as escolas públicas brasileiras impõem a seus alunos, ou melhor, às suas vítimas? Por que finge ignorar que, além da deformidade moral e social que ali aprendem, tudo o que os nossos estudantes adquirem nessas instituições é a formação necessária para tirar, sempre e sistematicamente, as piores notas do mundo nas avaliações internacionais?

Com que direito o fornecedor de lixo, de veneno, de dejetos, há de punir quem se recuse a ingeri-los, ou a dá-los a seus filhos?

O que se deve questionar não é o direito de os pais educarem seus filhos em casa: é o direito de politiqueiros e manipuladores ideológicos interferirem na educação das crianças brasileiras. É o próprio direito de o Estado mandar e desmandar numa instituição que o antecede de milênios e à qual ele deve o seu próprio ingresso na existência. Muito antes de que o Estado moderno aparecesse sequer como concepção abstrata, as escolas para crianças e adolescentes, anexas aos monastérios e catedrais (e nem falo das grandes universidades), já haviam alcançado um nível de perfeição que nunca mais puderam recuperar desde que a educação caiu sob o domínio dos políticos.

Se queremos melhorar a educação nacional, a primeira coisa que temos de fazer é tirá-la do controle de manipuladores e demagogos que não se educaram nem sequer a si próprios, a começar pelo sr. presidente da República, que se vangloria obscenamente de sua incapacidade de ler livros.

Publicado no Diário do Comércio com o título “Os novos demiurgos (2)”.

A Maior Fabrica De Mentiras

23 de março de 2002 | O Globo

Oficiais do FBI andam dizendo que o núcleo vivo do terrorismo internacional não está em Bagdá ou em Cuba, mas dentro dos EUA, onde entrou de contrabando na bagagem da imigração irrestrita. Mas essa maciça importação de encrencas não começou do nada. Foi longamente preparada pela “revolução cultural” que, desde os anos 60, impôs como doutrina oficial do governo e das elites americanas todo um repertório de crenças que, antes, até uma criança saberia reconhecer à primeira vista como amostras típicas do discurso stalinista.

Não há hoje uma só universidade americana que não subscreva como autêntico relato da história da guerra do Vietnã as mais torpes invencionices da propaganda vietcongue, ou que não aceite como descrição adequada da geopolítica mundial a idéia de que a mais agressiva potência imperialista que já existiu são os EUA — uma potência que, não obstante, jamais manteve sob ocupação um país estrangeiro, que, bem ao contrário, sempre ajudou seus inimigos derrotados a reerguer-se como nações independentes e que, no conjunto das guerras em que se envolveu ao longo de um século, matou menos gente do que a China matou só no Tibete ou a URSS no Afeganistão.

Não há uma só universidade americana que não ensine que o Ocidente cristão foi a mais escravagista das civilizações, quando na verdade foi a única civilização antiescravagista que já existiu e, confrontada com o recrutamento de trabalho escravo durante apenas umas décadas na URSS e na China comunista, a totalidade do escravismo ocidental de dois milênios se reduz um fenômeno de proporções bem modestas.

Não há uma só grande universidade americana que não ensine que o “macarthismo” dos anos 50 foi uma cruel perseguição a inocentes, quando hoje se sabe, pelos Arquivos de Moscou, que praticamente todos os interrogados pelo Comitê McCarthy estavam realmente a serviço da espionagem soviética.

Nas artes e espetáculos, o panorama não é diferente. Filmes, peças de teatro, shows, exposições de pinturas e fotografias, uma boa parte com financiamento oficial, são um incessante bombardeio de propaganda esquerdista. O leitor pode avaliar o conjunto por uma amostragem simples: veja quantos filmes americanos produzidos desde os anos 60 passam num só dia nos vários canais de TV a cabo e anote quantos deles contêm mensagens de antiamericanismo explícito ou pelo menos implícito. São praticamente todos. E ainda há na nossa imprensa canalhas ou imbecis que exploram o estereótipo de Hollywood como “usina de sonhos” (expressão do crítico comunista Bela Balász) voltada à glorificação do “american way of life”. Hollywood tornou-se uma máquina de propaganda comunista e de arrecadação de fundos para o Comintern já desde a década de 30, numa operação engenhosa e sutil coordenada pessoalmente por Stálin, e até hoje não mudou em nada. As manifestações de ódio compacto da classe cinematográfica a Elia Kazan -— um patriota que ousou falar contra o genocídio stalinista -— já bastariam para ilustrar o que estou dizendo. Mas, se têm dúvidas, leiam “Hollywood Party”, de Kenneth Billingsley, e pasmem diante da astúcia com que a “intelligentzia” comunista soube tirar proveito do “show business” e ainda denunciá-lo como instrumento do imperialismo ianque.

E a imprensa, então? Já na década de 30, o “New York Times”, por meio de seu correspondente em Moscou, Walter Duranty, homem da KGB, ocultou premeditadamente a extinção de seis milhões de ucranianos pela “arma da fome”, como a chamava Stálin. Desde então, a falsificação pró-comunista do noticiário cresceu em escala industrial. Leiam “Bias”, de Bernard Goldberg, “Beyond Elian Gonzalez”, de Carlos Wotzkow e Agustin Blazquez, e “Cuba in revolution”, de Miguel A. Faria Jr., e verão que não há limites para a mendacidade comunista que se apossou da grande mídia nos EUA.

Ao irradiar-se sobre o Terceiro Mundo, a falsificação do noticiário americano chega a produzir efeitos de uma absurdidade grotesca. Recentemente, no Brasil, houve intensa mobilização de esquerdistas contra uma planejada homenagem ao sr. Henry Kissinger. Acusavam-no de conspiração em favor da ditadura de Augusto Pinochet e até de envolvimento no assassinato de um general chileno de oposição. Bem, pode até ser que Kissinger estivesse metido nessas coisas. Isso faria dele um criminoso, é claro. Mas não há provas concludentes de nada disso. Em compensação, é pública, notória e arquiprovada a cumplicidade ativa do ex-secretário de Estado no maior genocídio ocorrido no mundo desde o fim da II Guerra. Ao negociar a paz no Vietnã, sua preocupação essencial foi a de evitar que os vietcongues desmobilizados caíssem nas mãos do Vietnã do Sul. Para salvar os coitadinhos, ele ajeitou as coisas de modo que, bem ao contrário, o Vietnã do Sul caísse nas mãos dos vietcongues, que aí, como era obviamente de se esperar, empreenderam a completa liquidação dos adversários e ajudaram a estender a ditadura comunista ao vizinho Camboja. Resultado: três milhões de mortos — quinze vezes o total de vítimas da própria guerra.

A longa folha de serviços pró-comunistas de Henry Kissinger ultrapassa infinitamente qualquer ajudinha que ele possa ter dado, como vil gorjeta, a ditadores direitistas. É fato notório, por exemplo, que ele forçou seu governo a vender aos soviéticos a tecnologia que os habilitou a produzir seus primeiros mísseis de ogivas múltiplas, colocando em risco a segurança dos EUA. Terá ele feito algo de comparável em favor de Pinochet, dos presidentes militares brasileiros ou do seu próprio país?

Kissinger, de fato, é um criminoso. Um grande criminoso pró-comunista. Provavelmente o maior que já houve nos EUA. Mas, graças ao milagre da mentira midiática, os comunistas puderam desfrutar dos seus serviços no campo diplomático-militar e reciclá-lo depois como espantalho imperialista para assustar uma população de basbaques tupiniquins, com a prestimosa, solícita e unânime —- desavergonhadamente unânime —- ajuda da imprensa local.

Sim, porque a única diferença entre a farsa midiática nos EUA e no Brasil é que, lá, ainda há muitos jornalistas corajosos capazes de se opor à massa de seus colegas, ao passo que aqui até mesmo as vítimas diretas de agressão por parte da mídia são as primeiras a derramar-se em rapapés e salamaleques ante a autoridade suprema da classe jornalística, autoconstituída numa espécie de semente dos serviços de inteligência de um futuro Brasil socialista.

Mas, malgrado a valente resistência de um David Horowitz, de um Brent Bozell, de um Walter Williams, de Thomas Sowell, de um Bernard Goldberg e tantos outros, a mídia dominante dos EUA é hoje a maior força de propaganda antiamericana que já existiu.

Da Ignorancia A Loucura

23 de junho de 2001 | O Globo,

Já assinalei mil vezes, em cursos e artigos, mas igualmente em vão em ambos os casos, esse traço inconfundível do leitor brasileiro atual, sobretudo universitário, que é a incapacidade de discernir entre a expressão de um estado emocional e a referência a um fato percebido. O que quer que um autor diga é interpretado sempre como manifestação de seus desejos, gostos, preferências, ódios e temores, e nunca como descrição adequada ou inadequada de um dado do mundo objetivo. Nos termos da teoria clássica de Karl Bühler, a linguagem é reduzida à sua função expressiva, com exclusão da denominativa. Isso configura nitidamente um quadro de analfabetismo funcional.

O que hoje se chama “ensino universitário” neste país consiste essencialmente na transmissão sistemática dessa incompetência às novas gerações. Se é verdade que a incapacidade de compreender o que se lê é um sinal de educação deficiente, então a quase totalidade da educação superior tal como praticada no Brasil deve ser condenada, simplesmente, como propaganda enganosa.

Esse estado de coisas não resulta apenas da “má qualidade”, genérica e abstratamente. Ele vem de um aglomerado de influências culturais bem ativas, constituído de marxismo gramsciano, psicanálise, relativismo antropológico, nietzscheanismo, desconstrucionismo, mais teoria dos paradigmas científicos de Thomas S. Kuhn. O sincretismo dessas influências, que hoje constitui a típica atmosfera ideológica do nosso ambiente universitário, tem sobre as inteligências juvenis um efeito embrutecedor e paralisante, agravado pelos cacoetes do vocabulário “politicamente correto” que se impõe como idioma obrigatório das discussões pretensamente letradas.

Cada uma dessas correntes, considerada individualmente, se caracteriza por ser uma hipótese limitada e provisória, elaborada dentro de categorias que só se aplicam a classes de objetos muito determinados e fundada numa base empírica muito estreita. Mas o efeito conjugado delas, na exclusão de quaisquer outras influências culturais de maior envergadura que pudessem relativizá-las e reduzir cada uma ao tamanho que lhe é próprio, é produzir no estudante uma falsa impressão de universalidade que lhe dá a ilusão de estar muito bem orientado no horizonte maior da cultura, justamente no instante em que suas perspectivas se comprimem até à medida do provinciano e do gremial.

Nenhuma dessas correntes, e muito menos a soma delas, tem a universalidade necessária para poder constituir a base de uma educação superior. Para quem já viesse do curso secundário com essa base, o estudo delas poderia ser útil, à guisa de tempero crítico e contrapeso relativizador. O que não se pode é admitir uma bagagem cultural constituída apenas de contrapesos ou uma alimentação constituída somente de temperos. É precisamente essa falsa bagagem e esse falso alimento que hoje formam a substância mesma da educação superior no país.

Quando me refiro a base, o que quero dizer é o conhecimento dos dados fundamentais da civilização e a aquisição de um quadro de referências histórico-cultural suficientemente amplo. Isto só se adquire pela absorção do legado grego, cristão-medieval, renascentista e moderno, de preferência encaixado no panorama maior das culturas antigas e orientais.

Na mente que possua essa base, aquelas modas culturais ingressam como acréscimos de detalhe que podem exercer um efeito vivificante sobre a visão do conjunto. Sem base, os detalhes, boiando soltos no vazio, acabam por constituir um “Ersatz” de totalidade, preenchendo com opiniões genéricas e frases de efeito o espaço que deveria estar repleto de conhecimentos positivos. A deformidade intelectual daí resultante faz da mente do estudante brasileiro uma caricatura grotesca da inteligência humana.

Caracterizam-na a completa falta do senso das proporções, a quase impossibilidade de distinguir entre forma e matéria, a ênfase obsessiva em detalhes de ocasião, a completa cegueira para as contradições mais patentes.

Um exemplo é a transformação que o relativismo sofreu ao tornar-se moda nos nossos círculos acadêmicos. Ele já não é mais aquela precaução elegante que buscava compensar a unilateralidade das afirmações mediante o reconhecimento da verdade ao menos parcial das suas contrárias. É um ceticismo ou negativismo militante, fanático, agressivo, irracional, que afirma peremptoriamente a inexistência de quaisquer verdades objetivas e tem um acesso de cólera sagrada à menor cogitação de que alguma talvez exista. Não há nada mais ridículo do que um relativista que se apega ao relativismo com fé dogmática e rejeita como tentação demoníaca a possibilidade de que alguma afirmação talvez seja menos relativa que as outras.

O efeito desse hábito sobre a inteligência é devastador. Não existindo verdades objetivas, a linguagem só pode ser compreendida como expressão de estados subjetivos — mas não ocorre jamais aos viciados nesse enfoque a idéia de que também sua apreensão dos estados subjetivos alheios não poderia, nesse caso, ser uma percepção objetiva mas somente a projeção dos seus próprios estados subjetivos. O alardeado “pensamento crítico”, em tais circunstâncias, torna-se apenas um tiroteio cego de imputações projetivas que se ignoram, até o ponto de que o “objeto” em discussão, reduzido a mero pretexto de afirmações da vontade, desaparece completamente de vista. A possibilidade de uma “argumentação” é aí evidentemente nula, e o único fator decisivo que condiciona a vitória ou derrota nas discussões é a maior ou menor capacidade de impressionar mediante uma “performance” psicológica mais exibicionista e mais insana, e por isto mesmo mais de acordo com as expectativas doentias da platéia.

O ambiente dessas discussões é evidentemente psicótico, e a aquisição desta psicose é hoje considerada não apenas um sinal de cultura, mas um requisito indispensável para o cidadão ser aceito como pessoa normal no ambiente universitário. A formação superior, nessas condições, consiste em passar da ignorância natural à inconsciência militante e desta à onipotência cega que culmina na loucura.

Em 23 de junho de 2001

A Vinganca Da Inepcia

23 de janeiro de 2007 | Diário do Comércio

Aviso chocante a uma nação estupefata: o a craseado não é nenhuma monstruosidade abominável, é apenas o feminino da contração “ao”. É o equivalente de “aa”, onde o primeiro “a” significa a preposição “a” (ou “para”) e o segundo o artigo definido “a”. Quem quer que leve mais de dois segundos para entender isso e mais de três para aprender a aplicá-lo corretamente é um retardado mental incapacitado para o exercício da cidadania adulta. Deve ser imediatamente destituído de qualquer função pública e entregue aos cuidados do INSS antes que faça alguma besteira perigosa.

Infelizmente, no Brasil, a quase totalidade dos parlamentares e governadores de Estado se inclui nessa classificação junto com o sr. Presidente da República e uma infinidade de jornalistas, professores universitários, oficiais de alta patente, juízes de direito, empresários e doutores em geral.

O acento grave destina-se a indicar uma contração preposicional que sem ele teria de ser adivinhada. Acreditar que pessoas incapazes de perceber essa contração com a ajuda do acento haveriam de apreendê-la mais facilmente sem ele é uma espécie de otimismo às avessas, bem característica de boçais inaptos para imaginar mesmo as hipóteses mais simples e óbvias da vida. Aqueles que se confessam humilhados pela crase não atinam com os abismos de humilhação e confusão a que a ausência dela os jogaria perante uma frase como: “Não envie à polícia.” Suprimam o acento grave e me digam se algo não deve ser enviado à polícia ou se a polícia não deve ser enviada a algum lugar. Nem o parlamento inteiro, reunido em sessão extraordinária permanente e empanturrado de jetons , poderia tirar essa dúvida.

Isso não quer dizer que a proposta de abolição da crase não tenha nenhum sentido. Ela tem um profundo sentido político, tanto que provém do mesmo partido que advoga a substituição dos exames vestibulares por sorteios, onde o acesso ao ensino superior será aberto igualitariamente aos capacitados e aos incapacitados, compensando por meio da ação estatal a injusta distribuição do QI entre os cidadãos. Ainda do mesmo partido provieram idéias como o salário mínimo vitalício, pago desde o berço talvez como compensação pelo destino cruel de nascer brasileiro, e a “poupança fraterna”, que nivelará por baixo os ganhos de todos, instaurando a distribuição igualitária da pobreza.

A inspiração comum de todos esses projetos de lei é o ódio radical dos complexados, burros, preguiçosos e incapazes às pessoas normais, saudáveis, diligentes e estudiosas. É o ressentimento da inépcia contra a capacidade, é a vingança do demérito contra o mérito. Isso faz muito sentido, faz sentido até demais: é a razão de ser do próprio PT.

Em 23 de janeiro de 2007

Apontamentos A Um Panfleto

23 de dezembro de 2001 | Bráulio Porto Matos

Embora publicado aqui com considerável atraso, este trabalho notável do prof. Bráulio Porto Matos é um documento de primeira importância. Ele demonstra que as denúncias feitas por Edmundo Campos Coelho contra a mesquinharia e o oportunismo da casta de professores universitários são hoje ainda mais atuais do que quando publicadas em 1973 no livro A Sinecura Acadêmica.

– O. de C, Informação incompleta e mentira deslavada são duas fontes comuns de meias-verdades. De qualquer forma, meias-verdades devem ser recusadas mesmo quando enunciadas em uma peça predominantemente retórica. O Comunicado Andes-ADUnB , intitulado “Á opinião pública em geral e à comunidade universitária em particular”(06.08.2001) , apresenta, em pouco menos de duas páginas, algumas informações precárias, inverdades e insinuações perigosas que passo a considerar.

Comecemos pelas inverdades. O documento diz que estamos sofrendo um:

“...

arrocho salarial decorrente de sete anos de congelamento salarial, visto que a gratificação imposta pelo MEC, além de irrisória e antiacadêmica, discrimina aposentados e docentes da carreira do ensino básico das IFES ”.

Primeiro, não é verdade que a nossa remuneração permaneceu inalterada nesses últimos sete anos. Ao contrário, ela mais que dobrou nesse período. Os dados do Gráfico 1, extraídos de meus próprios contra-cheques, ilustram claramente a evolução dos rendimentos de um Professor Adjunto 1 da UnB (doutorado) nesse período. Para “regularizar” a curva dos “Rendimentos Brutos” distribuí a média aritmética simples do 13o salário e das férias ao longo dos doze meses subseqüentes (pareceu-me mais adequado usar esse procedimento do que o cálculo de médias móveis de ordem 12). Excluí desse cálculo as parcelas atrasadas do reajuste de 28% (MS 929-o STJ/DF 2605), posto que elas variam em função do tempo de serviço. Verifica-se, então, que o rendimento bruto subiu da casa dos R$ 2.000,00 (dois mil reais) para a casa dos R$ 5.000,00 entre o início de 1995 e meados de 2001. Um aumento, portanto, bastante superior ao que o movimento grevista ora reivindica:

“75% a mais de qualidade no ensino!”

, diz um cartaz afixado no corredor de minha faculdade, provavelmente por alguém que considera a avaliação do Provão ignominiosa “quantificação positivista” do saber.

Poder-se-á argumentar: que o congelamento diz respeito ao “Vencimento Básico” registrado no contra-cheque (correspondente a apenas 1/3 do valor do rendimento bruto atual); que a Constituição Federal define aumento salarial em termos dessa rubrica; e que a essa mesma rubrica pesa sobremodo na definição do valor das aposentadorias. Tudo isso é discutível (no lugar de reivindicar a incorporação permanente de todo rendimento “extra” ao vencimento do cargo efetivo, pode ser mais adequado fixar de maneira menos “fantasiosa” esse vencimento básico e criar um adicional de produtividade desonerado de desconto previdenciário, cabendo ao docente decidir se fará aplicações em previdência privada complementar). De qualquer forma, não é verdade que continuamos a receber o mesmo que recebíamos há sete anos atrás.

Apresento também no Gráfico 1 as curvas dos “Tributos” (Imposto de Renda e Previdência Social), do “Aluguel/Condomínio” e da “Gratificação de Estímulo à Docência – GED”. Primeiro, porque fiquei curioso em saber em que medida o aperto fiscal do governo tem nos atingido. Nesse sentido, não se verifica um aumento muito acima do aumento salarial como se poderia esperar. Segundo, porque o apartamento funcional que muitos de nós ocupa constitui um subsídio indireto expressivo. No presente caso (apartamento de três quartos em área nobre do Plano Piloto), estamos falando de um adicional de aproximadamente R$500,00 ao mês no salário. Em sete anos, portanto, teremos recebido algo em torno de R$42.000,00 de subsídio-moradia. Terceiro, porque os dados da GED mostram que ela não é irrisória, conforme afirma o Comunicado Andes/ADUnB . Como diria meu velho pai, “R$1.400,00 é dinheiro em qualquer lugar do mundo”.

Além disso, não é verdade também que a GED seja “antiacadêmica”. Trata-se de um instrumento de avaliação construído por colegas da própria universidade onde trabalhamos, e, no caso da UnB, tem-se levado em conta indicadores bastante razoáveis (número de turmas ministradas, número de orientações, artigos e livros publicados, patentes registradas, etc...). Diria até que o sentimento de que MEC está nos empurrando a GED goela abaixo tende a ser mais forte entre aqueles que recusam qualquer avaliação efetiva do desempenho docente. Mesmo que caiba aprimorar os sistemas de avaliação em curso, fato é que muitos colegas se contentam em empurrar com a barriga a situação que Edmundo Campos Coelho identificou em seu A sinecura acadêmica (1988) , um livrinho que desagradou tanto o “baixo clero”, quanto o “alto clero” das universidades públicas federais. Munido de poucos -mas expressivos- indicadores da baixa produtividade nas universidades federais, Coelho reclamou da hiper-politização da vida universitária por parte dos docentes menos qualificados, e do relativo abandono da graduação por parte daqueles que, academicamente melhor preparados, deveriam assumir a liderança dessa instituição.

[1] Acredito que a GED tem ajudado a corrigir algumas dessas distorções. Tem-se dito que essa gratificação está forçando o professor a abandonar suas pesquisas para assegurar um aumento salarial mediante mais horas-aula. Cabe realmente investigar o tamanho desse prejuízo, mas desconfio que seja pequeno o número de docentes que, havendo obtido financiamento para suas projetos, não encontra o devido respaldo de seus departamentos para desenvolvê-los.

Naturalmente, não quero justificar aqui a centralização da avaliação institucional nas mãos de uma tecnocracia acadêmica federal tendencialmente arrogante, mas devemos reconhecer que, em geral, as iniciativas efetivas das universidades nessa área foram muito tímidas até bem pouco tempo.

[2] O Comunicado Andes/ADUnB veicula também uma informação incompleta acerca do orçamento das universidades federais, informação essa que conta apenas uma parte dessa história. Diz-nos ele:

“Estudo do IPEA (CORBUCCI, P.R – Indicações sobre o Orçamento das IFES, Texto para discussão no 752, RJ:IPEA, agosto de 2000) atesta a violenta redução das verbas de manutenção e desenvolvimento das IFES. O gasto total das 39 universidades federais aparentemente se manteve relativamente inalterado no período após 1995. Mas se os valores forem desagregados, o quadro é outro: os gastos com ́despesas de capital` (recurso destinado à bibliotecas, insumos, melhoria de instalações etc.) despencou 80% de já irrisórios R$173 milhões em 1995 para R$31 milhões em 1998.”

Pois bem, os dados que o texto do IPEA apresenta vão muito além da rubrica “Despesas de Capital” e o próprio autor da pesquisa, Paulo Roberto Corbucci, extrai conclusões divergentes das ilações catastróficas feitas pela Andes/ADUnB. A Tabela 1 apresenta alguns dados extraídos do referido estudo. Verifica-se que o “Gasto Total” não se manteve “aparentemente” inalterado no período. Ele subiu 7,7% no conjunto das instituições e 42,3% na UnB entre 1995 e 1998.

As “Despesas de Capital”, única rubrica a que o Comunicado Andes/ADUnB faz referência, realmente caíram –81,9% no conjunto das instituições e subiram apenas 2,4% na UnB. Contudo, essa rubrica, ainda que muito importante, correspondia a 3,19% do “Gasto Total” do conjunto das instituições em 1995 (1,57% no caso da UnB). Ademais, o comunicado omite a seguinte observação complementar feita pelo próprio pesquisador do IPEA no referido texto:

“ A tendência assumida em relação aos investimentos em capital pode conduzir a inferências sobre o possível sucateamento do aparato tecnológico das universidades, na medida em que mesmo a sua simples manutenção em funcionamento requer a reposição de peças e componentes, quando não sua completa substituição. Entretanto, a realidade tem mostrado que várias instituições universitárias têm buscado mecanismos alternativos de financiamento dessas e de outras de suas demandas, por meio de fundações de apoio à pesquisa .” (p.18) Ora, contrariamente à observação positiva feita pelo pesquisador do IPEA, o Comunicado Andes/ADUnB refere-se a essas fundações nos seguintes termos:

“Fundações privadas foram constituídas nas IFES, redefinindo-as como instituições de venda de serviços, em detrimento de seu caráter de instituição fomentadora de pesquisa orientada pelas questões lógicas internas do campo científico e pelas necessidades sociais.”

No caso da UnB, existem hoje inúmeras fontes novas de captação de recursos. O CESPE, a FASUBRA, o CEAM, o DEX, a FINATEC, a Escola de Empreendedores (e até Consultorias Juniores criadas por alunos talentosos) têm conseguido captar um volume muito grande de recursos no “mercado do conhecimento”, mercado esse altamente concorrencial, dado que nele atuam “analistas simbólicos” de todo tipo. Não vejo como a universidade possa se beneficiar de uma postura puramente defensiva em relação a essas novas formas de inserção institucional. Naturalmente, os colegas de esquerda vêem com maus olhos o mercado. Tendem a achar os colegas que estão prestando consultorias uns “caça-níqueis”. Contudo, isso me parece incorreto e injusto. Incorreto, porque esses bens e serviços costumam ser bem pagos (as bolsas oferecidas pelas agências de fomento à pesquisa, por exemplo, Tabela 1 – Gastos nas Universidades Federais Brasileiras (39 instituições) e na UnB entre 1995 e 1998 Categoria 1995 1996 1997 1998 98/95 (%) Gasto Total Brasil 5.415.265.258,0 5.402.465.927,0 5.739.335.828,0 5.832.607.016,0 7,7 UnB 192.881.230,0 208.802.759,0 232.358.084,0 274.408.021,0 42,3 Gasto com Pessoal (Ativo e Inativo) Brasil 4.370.955.881,0 4.297.945.376,0 4.875.819.838,0 4.949.459.484,0 13,2 UnB 150.312.049,0 152.972.895,0 155.722.545,0 193.942.465,0 29,0 Gasto com Pessoal Ativo Brasil 3.194.821.789,0 3.005.753.520,0 3.023.022.202,0 3.379.512.107,0 5,8 UnB 124.885.922,0 118.183.144,0 99.317.894,0 151.196.852,0 21,1 Gasto com Inativos Brasil 1.176.134.092,0 1.292.191.856,0 1.395.199.764,0 1.569.947.377,0 33,5 UnB 25.426.127,0 34.789.751,0 34.300.203,0 42.745.613,0 68,1 Gasto Operacional com Pessoal (s/ Inativos e judidiciais trabalhistas) Brasil 2.964.212.476,0 2.862.069.451,0 2.989.953.736,0 3.070.632.590,0 3,6 UnB 113.365.606,0 107.789.083,0 99.317.894,0 107.881.464,0 -4,8 Gasto com Sentenças Judiciais (Precatórios) Brasil 230.609.313,0 143.684.069,0 490.666.338,0 308.878.502,0 * UnB 11.520.316,0 10.394.061,0 22.104.448,0 43.315.388,0 ** Despesas de Capital (equipamentos, bibliotecas, etc...)

Brasil 172.955.869,0 108.519.852,0 90.902.638,0 31.378.490,0 -81,9 UnB 3.032.076,0 3.907.077,0 4.415.958,0 3.105.320,0 2,4 Outras Despesas Brasil 383.883.785,0 473.461.873,0 495.803.011,0 527.325.391,0 37,3 UnB 31.351.967,0 39.385.286,0 56.570.031,0 64.134.900,0 104,4 Gasto Operacional por Aluno de Graduação de Graduação *** Brasil 11.348,0 10.609,3 10.064,7 10.063,8 -8,8 UnB 12.171,9 12.047,6 12.417,3 12.855,6 1,1 Fonte : Compilados de CORBUCCI, P.R. “As Uiversidades Federais: gastos, desempenho, eficiência e produtividade. RJ: IPEA, 2000.

* Entre 1995 e 1998, foram gastos 1,17 bilhões de reais em Sentenças Judiciais (Precadatórios) nessas 39 instituições.

** A UnB recebeu 7,44% do montante total de precatórios pagos aos docentes dessas instituições no período considerado.

*** O Gasto Operacional corresponde ao Gasto Total subtraído do pagamento dos Aposentados/Inativos e despesas extraordinárias com sentenças judiciais.

giram em torno de R$3.000,00); injusto porque deveríamos admirar o “espírito de empreendimento” e entendê-lo como parte das “necessidades sociais” do país. Além disso, dados obtidos através de “pesquisas institucionais” podem ser muito valiosos para a ciência (informações sobre eficiência empresarial, comportamento eleitoral, violência nas escolas, e tantas outras, envolvem custos elevados e demandam o consentimento dos pesquisados).

É certo que o “Gasto Operacional com Pessoal” (excluindo-se os dispêndios com Inativos e Pensionistas e os pagamentos de sentenças judiciais trabalhistas) sofreu um aumento de apenas 3,6% no conjunto das instituições e uma redução de –4,8% no caso da UnB (única rubrica em que a situação desta universidade apresentou uma involução e uma performance inferior ao conjunto das instituições!). E, de fato, essa relativa estagnação/redução do “Gasto Operacional com Pessoal” das universidades tem relação com a redução do quadro docente promovida pelas restrições impostas pelo Governo à realização de concursos públicos para as vagas abertas pelas aposentadorias.

Ocorre que esse tipo de restrição orçamentária acabou forçando as universidades a melhorarem seus indicadores de produtividade, conforme atestam os dados da Tabela 2, elaborada a partir de informações fornecidas por Corbucci. A matrícula na graduação expandiu 11,2% no conjunto das instituições e 14,4% na UnB. Também em relação à pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) e à publicação de trabalhos científicos houve considerável melhora nos indicadores no período considerado. Daí o pesquisador do IPEA concluir seu estudo dizendo que:

“A maior parte dos resultados deste estudo indica que as universidades federais têm demonstrado aumento de eficiência e eficácia, apesar de seus gastos operacionais terem sido comprimidos e, paralelamente, ter-se ampliado a matrícula e os quadros profissionais formados, ao mesmo tempo em que cresceu a sua produção científica. Assim, o objetivo principal do presente estudo foi oferecer algumas evidências empíricas para o debate acerca da universidade pública no Brasil, e contribuir para a desideologização dos discursos, tanto daqueles de teor mais apologético, quanto os que visam à deslegitimação do ensino superior público (p.63) ”.

Além de inverdades e informações incompletas, o Comunicado Andes/ADUnB contém também pelo menos três insinuações perigosas. A primeira delas:

“ ... as medidas governamentais que objetivam viabilizar um superávit orçamentário de 3,5% do PIB, conforme acordo com o FMI, para o pagamento da dívida pública, inviabilizarão o funcionamento digno das instituições Federais de Ensino. É responsabilidade da comunidade universitária exigir um basta a essas medidas.

” O que quer dizer isso? Que a sobrevivência da universidade está condicionada a um calote das dívidas interna e externa brasileiras? Será que os colegas acreditam mesmo que a fuga de capitais do país irá melhorar o orçamento das universidades públicas?

A segunda insinuação é feita na conclusão de uma crítica ao Ministro da Educação, professor Paulo Renato, que elogiou a terceirização coreana das universidades:

“O Sr. Ministro parece esquecer que 99% das patentes pertencem a corporações multinacionais dos países do G-7 e que os custos da propriedade intelectual inviabilizam o acesso da população a direitos essenciais como os medicamentos, insumos agrícolas, etc...

”.

O que quer dizer isso? Que as universidades devem apoiar o desrespeito aos direitos de propriedade intelectual? Disse-me um amigo que a única referência feita por Hitler ao Brasil, durante os jantares que oferecia aos seus oficiais, foi essa:

“Até o Brasil, que até hoje nunca produziu uma invenção digna de nota, se arroga o direito de suspender a lei de proteção às patentes e usar nossas invenções!”

Obviamente, Hitler foi duplamente injusto com Santos Dumont (que morreu de desgosto por ver seu invento usurpado pelos militaristas). É impressionante verificar, contudo, a atenção conferida por um país industrialmente avançado ao problema das patentes mesmo sob um regime “nacional-socialista” e chefiado por um maluco genocida. Nesse sentido, talvez caiba avisarmos ao Ministro José Serra, que tantos aliados vem fazendo contra o pagamento de royalties aos laboratórios que criaram a vacina contra a AIDs, que os países cientificamente desenvolvidos também possuem Constituições e estão muito mais determinados do que nós a fazer valer – enforcemment – o direito de propriedade. Para se ter uma idéia da precariedade do direito de propriedade intelectual no Brasil, confira-se a batalha ingente do brasileiro Nélio José Nicolai para obter a patente dessa extraordinária invenção sua, o BINA, um dispositivo presente hoje em milhões de telefones celulares mundo afora.

[3] A terceira insinuação :

“A liberalização do ́mercado educacional` fez com que o crescimento do setor privado fosse não apenas, acentuado social.

” O que quer dizer isso? Que o estado deve dizer Tabela 2 – Indicadores de Produtividade nas Universidades Federais Brasileiras (39 instituições) e na UnB entre 1995 e 1998 Categoria 1.995 1.996 1.997 1.998 * /95 (%) Alunos Matriculados na Graduação Brasil 353.235 373.880 382.869 392.873 11,2 UnB 12.811 13.581 14.170 14.651 14,4 Alunos Diplomados na Graduação Brasil 44.493 47.593 49.477 11,2 UnB 1.375 1.722 1.648 19,9 Alunos Matriculados no Mestrado Brasil 21.228 23.416 10,3 UnB 997 1.035 3,8 Alunos Titulados no Mestrado Brasil 4.832 6.311 30,6 UnB 234 405 73,1 Alunos Matriculados no Doutorado Brasil 268 448 67,2 UnB 6.902 9.216 33,5 Alunos Titulados no Doutorado Brasil 824 1.261 53,0 UnB 26 43 65,4 Trabalhos Científicos Publicados no País por Universidade Brasil 19.569 23.490 UnB 985 1.168 Trabalhos Científicos Publicados no Exterior por Universidade Brasil 7.659 9.241 UnB 440 505 Fonte : Compilados de CORBUCCI, P.R. “As Uiversidades Federais: gastos, desempenho, eficiência e produtividade. RJ: IPEA, 2000.

* Último ano informado por 1995 quem pode e quem não pode abrir uma escola e o que deve ser ensinado nela? Ora, até Marx, que não podemos tomar como exemplo de sujeito tolerante, tinha ojeriza da intervenção estatal no currículo escolar.

[4] Definitivamente, a existência de escolas privadas constitui uma importante garantia da liberdade de expressão!

Por fim, uma palavra ainda sobre essa frase-síntese do Comunicado Andes/ADUnB :

“...salários incompatíveis com a dignidade e a responsabilidade da profissão docente.”

Como se sabe, é muito difícil determinar o “salário justo” no setor público, especialmente no caso dos “bens públicos” (definidos pela impossibilidade de limitar o seu uso àqueles que pagam por eles). Sabe-se também que, embora a educação não seja um “bem público” nesse sentido estrito, gera externalidades positivas que justificam a atuação estatal nessa área. No caso do ensino superior brasileiro, em particular, um fator adicional limita a “equalização” dos salários docentes entre o setores público e privado: a forte concentração da pesquisa nas instituições públicas, atividade que envolve custos elevados e demanda um regime de trabalho diferenciado (incompatível, por exemplo, com regime “horista” praticado por quase todas universidades particulares). Essas especificidades acabam, então, alimentando nossa imaginação sobre qual deveria ser o “salário digno” do professor universitário: um valor indexado aos superávits fiscais obtidos pelo governo (no melhor estilo da Segunda Lei de Parkison )?; ou um valor equiparado à remuneração dos colegas do Primeiro Mundo? Ou... Não tenho competência para propor uma boa solução para o nosso sistema de remuneração, um regime de vencimentos e incentivos que evite a evasão de talentos de nosso país e encurte nosso caminho para os Prêmios Nobel. Mas decidi escrever esses apontamentos por estar convencido ao menos disso: que não é correto dar a entender à “opinião pública em geral” que recebemos o mesmo salário há sete anos; que não que estamos recebendo “um salário de fome” (parece-me até ofensivo aos pobres dizer isso); que é vergonhoso fazer greve recebendo o contra-cheque em casa; e que, afinal, a dignidade humana não promana do salário.

Notas [1] Haveria muito ainda o que dizer sobre a mentalidade do “baixo clero”. Acerca desse importante problema, contudo, remeto o leitor à homepage de Olavo de Carvalho, www.olavodecarvalho.org , filósofo que tem analisado os efeitos danosos da ideologia gramsciana disseminada nas universidades brasileiras (inclusive privadas!).

[2] Em verdade, o Brasil ainda não conseguiu desarmar uma espécie de paradoxo envolvendo centralização-descentralização política e modernização-estagnação socioeconômica. Salvo exceções, o país tem se modernizado socioeconomicamente sob regimes políticos autoritários e estagnado sob regimes democráticos. Como a nossa atual rede pública de ensino superior deve muito de sua criação e expansão a essa “modernização autoritária”, compreende-se então por que por que a “autonomia universitária” costuma ser pensada entre nós como fruto de uma dupla demanda dirigida ao poder central:

garantia financeira e independência políticas inquestionáveis . No contexto das polêmicas entre os sindicatos docentes locais e o governo federal, a “arrogância” não tem sido exclusividade de nenhuma das partes.

[3] Para detalhes sobre esse assunto, confira-se a homepage do próprio inventor:

www.nelio.hpg.com.br [4] Em sua “Crítica do Programa Social-Democrata de Gotha”, diz Marx: “O que é absolutamente preciso condenar, é ́ uma educação popular pelo Estado `. Determinar por meio de uma lei geral os recursos das escolas primárias, a qualificação necessária do pessoal docente, as disciplinas ensinadas, etc., e – como isso se passa nos Estados Unidos – mandar verificar por inspetores de Estado a execução das prescrições legais, é totalmente diferente de fazer do Estado o educador do povo! Antes pelo contrário, é preciso banir da escola, pela mesma razão, qualquer influência do governo e da Igreja. E precisamente no Império prusso-alemão (e que não se fale, precorrendo a um subterfúgio ilusório, do ́estado do futuro`, porque vimos o que é), é pelo contrário o Estado que tem necessidade de uma muito rude educação pelo povo!”. In: – Marx, K. e Engels, F.

Educando Para A Boiolice

23 de abril de 2007 | Diário do Comércio

Mal eu havia acabado de escrever que os alunos das escolas americanas são “sitting ducks”, e um dos sobreviventes do massacre da Virginia Tech apareceu no show “Today”, da MSNBC, dizendo a mesma coisa. Mas justamente esse, Zach Petkewicz, não foi pato nem ficou sentado. Encostou uma mesa na porta e impediu que Cho Seung Hui fizesse na sua sala de aula o que acabara de fazer nas salas vizinhas. Salvou uma classe inteira. Por que tão poucos, entre milhares de alunos, professores e funcionários, tiveram idêntica presença de espírito? Por que ninguém atacou o coreano maluco enquanto ele recarregava sua pistola automática ou trancava as portas com corrrentes?

Meu filho Pedro, que suportou pacientemente um ano e meio de escola pública na Virginia, garante: “É uma educação para boiolas.” O equivalente inglês da palavra é sissies . Uma sissy não é necessariamente um gay . Sujeitos que nunca tiveram um único impulso homossexual podem ser sissies perfeitas. Basta lhes ensinar que o macho branco heterossexual cristão americano é o bicho mais desprezível da face da Terra e que, se ele for exatamente um deles, deve fazer o possível para parecer outra coisa. Aos mais sortudos dentre eles ocorrerá a idéia, ridícula mas inofensiva, de usar trancinhas afro nos cabelos louros. Outros tentarão formas de adaptação mais incisivas – e, dentre elas, a mais popular e politicamente correta é tornar-se tão tímidos, fracotes e efeminados quanto possível. Depois de alguns anos desse adestramento, o sujeito está pronto para desmaiar, ter crise histérica ou ficar paralisado de medo ante o agressor, exibindo ainda mais fragilidade na esperança insensata de comovê-lo.

Impossível, diante do espetáculo de pusilanimidade coletiva na Virginia Tech, não recordar aquela vovó tagarela e empombada do conto “A Good Man is Hard to Find”, de Flannery O’Connor, que, diante do assassino armado que acaba de matar a tiros toda a sua família, se apega até o último instante à crença idiota de que ele é no fundo um homem bom, incapaz de lhe fazer dano. Mais ou menos a mesma idéia com que aqueles cabeças-de-toucinho do “Viva Rio” subiram o morro levando flores no “Dia do Carinho” – e foram expulsos a bala.

Há gays valentes e heterossexuais boiolas. A quintessência da boiolice não tem nada a ver com sexo. É uma covardia abjeta, um desfibramento da alma, uma pusilanimidade visceral – que os educadores de hoje em dia consideram o suprassumo da perfeição moral e os engenheiros sociais da ONU gostariam de espalhar por toda a humanidade. É a fórmula da pedagogia usada nas escolas públicas americanas. É por isso que o pessoal cristão foge delas, preferindo o homeschooling . Os meninos educados em casa só vão à escola no fim do ano, fazer exame, e tiram sempre melhores notas do que os trouxas que ficaram lá o ano inteiro só aprendendo boiolice.

Para os negros, as mulheres, os gays e os membros de “minorias” em geral, o establishment usa uma outra receita corruptora, simetricamente inversa. Lisonjeia-os até enlouquecê-los por completo. Infla seus egos até à divinização. Ensina-os a achar que são credores do universo, que o simples fato de dirigirem a palavra a um branco adulto é um ato de generosidade imperial. O fato de que negros e asiáticos, aqueles vindos nas tropas muçulmanas, estes nas hordas bárbaras, tenham atacado e escravizado milhões de europeus séculos antes de que o primeiro português desembarcasse na África é suprimido da História como se jamais tivesse acontecido. O branco – e, por ironia, especialmente o americano, dos povos ocidentais o que escravizou menos gente e por menos tempo – é definido como escravagista por natureza, o escravagista eterno, herdeiro de Caim, só digno de viver por uma especial concessão da ONU. Cada página dos manuais didáticos usados nas escolas americanas traz essas crenças insinuadas nas entrelinhas. Cada vez que um professor abre a boca em sala de aula, espalha mais um pouco desse entorpecente pedagógico nos cérebros infanto-juvenis. A coisa foi evidentemente calculada para estragar as almas, para alimentar o ódio e o ressentimento, para destruir o país por desmontagem sistemática.

Todos os preconceitos que existem no mundo surgiram espontaneamente dos conflitos entre os seres humanos. Agora, pela primeira vez na História, há o preconceito planejado, calculado matematicamente por engenheiros comportamentais e inoculado com requintes de técnica pedagógica nas cabeças da molecada. É por isso que há aqui um verdadeiro abismo entre as gerações. As pessoas de quarenta anos para cima são simpáticas, prestativas, generosas e patriotas. Os jovens são ranhetas insuportáveis, tanto mais pretensiosos e arrogantes quanto mais dependentes, incapazes de cuidar de si próprios e defender-se nas situações difíceis. Falo, é claro, daqueles que foram educados nas escolas públicas. Os que não querem ficar como eles buscam refúgio nas escolas particulares conservadoras (que existem aos montões mas são caras), nas igrejas, no homeschooling e nas Forças Armadas.

Alguns anos atrás, a escritora Christina Hoff Sommers, em The War Against Boys: How Misguided Feminism is Harming Our Young Men (Simon & Schuster, 2000) já advertia contra a epidemia de frescura planejada que educadores e psicólogos feministas, desarmamentistas, pacifistas, gayzistas etc. estavam montando, muitos deles imbuídos da alta missão de amansar por meio da castração generalizada a “cultura americana da violência” – um estereótipo hollywoodiano em cuja realidade acreditavam piamente pelo simples fato de ter sido inventado por feministas, desarmamentistas, pacifistas, gayzistas iguais a eles. “Asinum asinus fricat”, já observavam os romanos: o asno afaga o asno – um panaca esquerdista inventa uma lenda difamatória, os outros levam a coisa mortalmente a sério, e dali a pouco há milhares de teses universitárias a respeito, com ares de profunda ciência social, e comissões técnicas pagas a peso de ouro pelas fundações beneméritas para criar soluções geniais. O resultado é Cho Seung Hui. Cada um desses garotos que de repente saem matando gente a esmo tem a cabeça cheia de ódio ao país que lhe deu tudo. Tim McVeigh queria derrubar o sistema, os meninos de Columbine eram gays intoxicados de falatório anticristão, Cho Seung Hui sonhava em tornar-se um vingador ismaelita para fazer o Ocidente em cacos. Cada um foi educado e doutrinado para fazer o que fez. Enquanto uns intelectuais iluminados lhe infundiam o desejo de vingança contra quem nunca lhe fez mal algum, outros votavam leis que desarmavam os professores e funcionários nas escolas, os padres e pastores nas igrejas. Uns preparavam psicologicamente o assassino, outros amarravam as mãos das vítimas. Vocês já repararam que os invasores armados de pistolas e rifles só atacam igrejas e escolas? Já ouviram falar de algum que invadisse um clube de caça, um estande de tiro, uma assembléia da National Rifle Association? Aí vigora o princípio do “loco si, pero no tonto”. O país está repleto de estandes de tiro ao pato – e os Zachs Petkewicz se tornam cada vez mais raros. E depois aqueles que criaram propositadamente essa situação saem diagnosticando o fenômeno como produto da “cultura americana”, recomendando mais desarmamento civil, mais anti-americanismo, mais efeminamento compulsório da juventude nas escolas. Tiram proveito publicitário retroativo da sua própria maldade. É a receita infalível da propaganda revolucionária: “Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz.”

Mas o pessoal por aqui já começou a perceber o truque, ainda que com um bocado de atraso. Allen Hill, um consultor de segurança entrevistado no mesmo programa que divulgou o episódio de Zach Petkewicz, declarou alto e bom som que as escolas têm de ensinar os meninos a ser mais valentes e agressivos. “Os bandidos estão contando com que os americanos fiquem sentados e não façam nada.”

“Os maus planejam seus ataques. As escolas têm de planejar sua defesa e reagir com igual agressividade. O treinamento tem de ser tão intensivo e levado tão a sério quanto o assassino leva a sério sua missão de matar.”

Há um país da América do Sul que, se ouvisse esse conselho, talvez não fosse vítima de cinqüenta mil homicídios por ano. Com uma diferença: ali os jovens não são tão fracotes. A boiolice está espalhada entre os homens adultos, nas ruas, nas fábricas, nos escritórios. Essa gente tem medo de armas até quando vistas pelo lado do cabo. E o governo, a Rede Globo e a Folha de S. Paulo querem lhe infundir mais medo ainda. É uma situação muito mais desesperadora que a dos americanos. Com o dobro da população brasileira, os EUA têm cinco vezes menos crimes violentos do que o Brasil.

Teses sobre o movimento revolucionário mundial Para informação dos leitores, transcrevo abaixo umas notas que tomei para a conferência que vou pronunciar hoje para oficiais de Estado-Maior, americanos e brasileiros, na Academia Militar de West Point. Elas são só um esquema para desenvolvimento oral, mas nos próximos artigos darei mais detalhes a respeito.

1. O movimento revolucionário é um fenômeno único e contínuo ao longo do tempo, pelo menos desde o século XV. Cada geração de revolucionários tem consciência de ser herdeira e continuadora das anteriores. Isso está abundantemente documentado nos seus escritos. É um fato, não uma interpretação minha.

2. O movimento é contínuo mas não linear nem unidirecional. Ele progride através de mutações e revoluções internas e alimenta-se de seus próprios fracassos, que fornecem â geração seguinte uma poderosa motivação para o aprofundamento crítico das metas e da estratégia.

Como suas metas declaradas mudam de geração em geração, o movimento geral tem flexibilidade bastante para absorver ou repelir os movimentos parciais, conforme as necessidades estratégicas e retóricas de cada situação. Um mesmo movimento parcial pode ser considerado revolucionário num momento e contra-revolucionário no momento seguinte.

3. A continuidade consciente do movimento revolucionário não implica de maneira alguma que as gerações subseqüentes assumam a responsabilidade pelos erros e crimes das anteriores. A consciência de continuidade histórica que é afirmada no plano dos fatos é negada no plano do julgamento moral. Como na perspectiva do movimento revolucionário as culpas pertencem ao passado, a inocência de cada nova geração de revolucionários é um pressuposto da própria existência do movimento. Por isso mesmo, os revolucionários antigos, se alguma culpa têm, a têm enquanto personagens do passado, e não enquanto revolucionários. Suas culpas são imputáveis ao “seu tempo”, não à sua atividade revolucionária em si. O inimigo do movimento, ao contrário, arca não só com suas próprias culpas mas também com as de seus antepassados reais ou figurados, isto quando não é acusado também pelos crimes da revolução: o revolucionário, depois de matar meia dúzia de reacionários, os odeia mais ainda porque esses malvados o obrigaram a matá-los, sujando de sangue suas mãos puríssimas.

4. O movimento revolucionário não se identifica com nenhuma de suas metas em particular, mas também não sabe definir de uma vez por todas a “essência” permanente por trás de todas elas. Essa essência, de fato, não pode ser definida substantivamente, só negativamente: (1) o movimento é efetivamente um movimento , uma agitação permanente em busca de (2) uma meta móvel que não pode ser definida no presente porque só o futuro que a realizar a terá diante dos olhos como objeto de conhecimento. O movimento revolucionário é portanto movimento permanente e movimento futurista . O futuro, por definição, permanece futura. O dia do ajuste de contas do revolucionário com sua própria consciência é adiado automaticamente. A coisa mais próxima de um exame de consciência, na mente de um revolucionário, é a crítica aos antecessores.

5. O movimento revolucionário é, desde suas origens, um esforço para tomar o lugar do Cristo anunciado no Apocalipse e substituí-lo por um agente terrestre no papel de salvador da humanidade. Os fins concretos do movimento prevalecem-se assim da dignidade de um mistério que pode ser vagamente anunciado mas não pode ser revelado antes do fim dos tempos. Daí o descompromisso do movimento revolucionário para com suas próprias metas concretas, que ele muda ou abandona à vontade.

Um Inimigo Do Povo

22 dez. 2001 | O Globo

Em “Os Demônios” de Dostoiévski, publicado em 1872, um revolucionário diz a outro: “Você sabia que já somos tremendamente poderosos? Preste atenção. Já fiz a soma de todos eles. Um professor que, com as crianças, ri do Deus delas, é alguém que está do nosso lado. O advogado que defende o assassino educado porque ele é mais culto que suas vítimas... é um de nós. O promotor que, num julgamento, treme de medo de não parecer progressista o bastante, é nosso, nosso... Você sabe quantos deles vamos conquistar aos pouquinhos, por meio de pequenas idéias prontas?”

Quase meio século antes da tomada do Palácio de Inverno, um século antes da difusão mundial das obras de Antônio Gramsci, o romancista já havia captado a estratégia macabra da “revolução cultural”, à qual o fundador do Partido Comunista Italiano deu apenas um embelezamento teórico mas que, em essência, já estava em ação desde o século XVIII, nos salões onde aristocratas se deliciavam com as idéias de Diderot e Rousseau sem perceber que o único propósito delas era legitimar sua decapitação.

Os homens que se gabam de ser práticos — empresários, políticos, comandantes militares — são os mais lentos em perceber o sentido prático de certas modas culturais sem teor político demasiado aparente, nas quais não enxergam senão curiosidades acadêmicas ou até exigências morais legítimas, mas cujo efeito, temporariamente obscurecido pela variedade e confusão das palavras que as veiculam, mais cedo ou mais tarde acaba por se manifestar da maneira mais brutal. Invariavelmente, esse efeito é um só: o assassinato político em massa, o genocídio.

Em geral, só dois tipos de observadores estão conscientes dessa conexão: os intelectuais ativistas, que desejam produzi-la, e os estudiosos independentes. Os primeiros têm todo o interesse de mantê-la oculta sob um véu de pretextos diversionistas, de ordem moral, estética, pedagógica, econômica, etc., sob cuja profusão as vítimas não apreendam a unidade do processo revolucionário subjacente. Os segundos, quando tentam alertar a sociedade para o que se passa, quase que invariavelmente são rejeitados como alarmistas e paranóicos por aquela mesma parcela parcela do tecido social que a revolução há de extirpar da maneira mais cruel e sangrenta.

Basta a constatação desse fato, aliás, para dar por terra com a teoria gramsciana do “intelectual orgânico”, segundo a qual as classes criam seus intelectuais sob medida para a defesa de seus interesses: com regularidade sinistra, de Voltaire a Antonio Negri, é sempre o inimigo da classe dominante que é cortejado por ela, enquanto o intelectual que desejaria preservar o sistema, por descrer da bondade e utilidade das revoluções, é estigmatizado, no mínimo, como excêntrico e marginal.

Dostoiévski, que defendia a monarquia e a religião, continuou sempre um “outsider”, enquanto os escritores revolucionários eram recebidos nos círculos elegantes, onde gozavam de toda a estima e consideração — quando não da confiança cega — de suas futuras vítimas. Nicolai Berdiaev, aristocrata de nascimento, revolucionário de convicção, conta em suas memórias como, na juventude, gostava de escandalizar princesas e condessas com discursos inflamados contra a moral e a hierarquia. Só mais tarde, ao saber que todas elas tinham morrido na Revolução, se deu conta de que contribuíra levianamente para a consecução de um crime hediondo. O caso mostra que nem mesmo os próprios colaboradores mais ativos da “revolução cultural” precisam ter plena consciência da finalidade a que seus atos, aparentemente inócuos ou então rodeados de uma aura de piedoso idealismo, concorrem quando somados a milhões de outros atos semelhantes, praticados nesse mesmo instante por uma legião dispersa de militantes, colaboradores e simpatizantes que se ignoram uns aos outros. No topo, só uma elite muito restrita tem a visão intelectual do conjunto, que não precisa ser “dirigido” como uma conspiração organizada, mas apenas sutilmente orientado, de tempos em tempos, por intervenções oportunas. O automatismo, o espírito de imitação e a atração incoercível das modas fazem o resto.

Mesmo quando não resulta diretamente numa tomada do poder político, a revolução cultural deixa marcas profundas e indeléveis no corpo da sociedade. Dois estudos recentes de Roger Kimball, editor de “New Criterion” — “Tenured Radicals: How Politics Has Corrupted Our Higher Education” e “The Long March: How The Cultural Revolution of the 1960’s Changed America” — mostram como a incansável guerra psicológica movida pelos intelectuais ativistas contra a religião, a moral, a lógica e o bom-senso produziram, na vida americana, resultados catastróficos praticamente irreversíveis: a perda coletiva dos padrões mais elementares de julgamento, a prematura decrepitude intelectual dos estudantes, a disseminação endêmica das drogas, a criminalidade desenfreada. Não por coincidência, os mesmos intelectuais que conscientemente se esforçaram para criar esse estado de coisas (muitos deles a serviço da KGB ou da espionagem chinesa, como hoje se sabe graças à abertura dos Arquivos de Moscou) são os primeiros a tirar redobrado proveito político de seus próprios atos, imputando os resultados deles ao “sistema”, à “corrupção intrínseca do capitalismo” etc. etc.

É preciso ser muito cego para não perceber que coisa idêntica se passa no Brasil, com o agravante — verdadeiramente desesperador — de que estudos como os de Kimball (e centenas de outros similares) nem são traduzidos nem há equivalentes produzidos pela intelectualidade local, dividida entre a maioria de ativistas enfurecidos e a minoria de observadores acovardados, mudos, ou então acomodatícios e cúmplices. Em resultado, a simples tentativa de diagnosticar o estado de coisas é rejeitada — mesmo por parte do “establishment” — como ousadia impolida e abuso intolerável, quando não como conspiração de extrema direita.

A revolução cultural, aqui, já alcançou seu máximo triunfo, que é o de tornar proibitiva a sua própria discussão. Pouparei aos leitores o relato dos constrangimentos, ameaças e boicotes que tenho sofrido em resposta à minha simples iniciativa de analisar e mostrar à plena luz do dia a marcha de uma revolução que desejaria poder continuar florescendo à sombra protetora do implícito, do nebuloso e do não declarado. Mas, quando um escritor independente, isolado, sem conexões políticas ou protetores de espécie alguma, é combatido não por meio de argumentos e sim de manobras de bastidores e mobilizações coletivas de ódio, como se fosse um governante ou um poderoso líder de massas, então é que a atividade intelectual já se encontra inteiramente submetida aos cânones da “revolução cultural”, e quem quer que ouse contrariá-los, mesmo em pura teoria, mesmo a título pessoal e sem qualquer pretensão de reagir politicamente ao curso dos acontecimentos, já é considerado um elemento perigoso e um inimigo do povo.

Em 22 de dezembro de 2001

Os Novos Demiurgos

22 de outubro de 2009 | Diário do Comércio

O que torna ainda mais odioso o dirigismo estatal na educação, universalmente buscado e ardentemente defendido pelos sapientíssimos intelectuais de esquerda, é que ele desmente da maneira mais flagrante e cínica o discurso educacional esquerdista de três ou quatro décadas atrás, do qual eles se serviram como puro instrumento de sedução, prontos a jogá-lo fora na primeira oportunidade, como estão fazendo agora.

Nos anos 60, 70, os mais destacados próceres da pedagogia esquerdista posavam de libertários, acusando a “educação burguesa” de ser um aparato de dominação que sacrificava o livre desenvolvimento intelectual e emocional das crianças em favor de objetivos de mero poder político-econômico.

A acusação, verdadeira quanto a alguns casos isolados bem pouco significativos, observados quase sempre em grotescas ditaduras de Terceiro Mundo (por ironia, sempre mais estatistas do que pró-capitalistas), era completamente falsa quando generalizada a toda a “civilização ocidental” ou mesmo a qualquer das grandes democracias capitalistas em particular — mas seus porta-vozes insistiam em ampliar-lhe o alcance ilimitadamente, dando-lhe foros de teoria científica geral.

No mínimo, a educação ocidental não podia de maneira alguma ser pura dominação de classe, pela simples razão de que se amoldava, com humilde reverência, a valores e critérios velhos de séculos e milênios, muito anteriores e estranhos a qualquer “interesse burguês”, como por exemplo a moral judaico-cristã, a arte clássica, medieval e renascentista, o ideal aristotélico da ciência racional e o direito romano.

Justamente ao contrário do que proclamavam os acusadores, por toda parte a educação e a alta cultura eram um freio às ambições cruas dos capitalistas mais assanhados, forçando-os pela pressão moral da sociedade — especialmente nos EUA — a sacrificar boa parte de suas fortunas em doações para museus, escolas, fundações educacionais e institutos de pesquisa empenhados nas atividades mais alheias a qualquer imediatismo dinheirista ou interesse de classe.

Não deixa de ser significativo que o projeto educacional mais bem sucedido da história americana tenha sido o dos liberal arts colleges , hoje espalhados por toda parte nos EUA e responsáveis diretos pela vitalidade cultural do país, que não transmitem a seus estudantes nenhuma “ideologia burguesa” ou técnica utilitária, mas o modelo de alta cultura desenvolvido na tradição greco-romana e medieval do trivium , do quadrivium , da filosofia e das belas artes. Se a educação americana tencionasse mesmo criar servos mecanizados do capital, não se esforçaria tanto para infundir nos estudantes as virtudes dos estadistas romanos e a acuidade crítica dos eruditos escolásticos. E notem que isso não vem de hoje. Eric Voegelin, ao estudar em Columbia entre 1924 e 1926, teve a grata surpresa de descobrir que estava num país onde Platão, Aristóteles, o direito romano e a teologia cristã não eram assuntos só para acadêmicos, mas presenças vivas nos debates públicos.

Ademais, como já observei aqui a propósito de um daqueles teorizadores do inexistente (Pierre Bourdieu), se os burgueses quisessem mesmo fazer da educação um instrumento de dominação de classe, deveriam ter ao menos elaborado um plano de engenharia social nesse sentido, e as marcas do trabalho desenvolvidos para isso — organizações, atas de assembléias, publicações, orçamentos — deveriam ser visíveis por toda parte, quando o fato é que nada dessa papelada existe nem existiu jamais, o próprio Bourdieu sendo incapaz de citar um só documento que ateste alguma premeditação técnica por trás da alegada “máquina de reprodução”. A única possibilidade de dar razão à sua teoria seria apostar na hipótese de que o controle burguês da educação se construiu por transmissão inconsciente e muda, como que por telepatia (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/090204dc.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/090212dc.html ).

Em todo caso, o ódio que esse e outros pop stars intelectuais do esquerdismo votavam àquele fantasma de sua própria invenção fazia com que parecessem, em comparação com ele, os maiores defensores da liberdade e criatividade infantis, supostamente ameaçadas pelo dirigismo mental do “aparato ideológico burguês”. Alguns deles chegavam mesmo, como o Pe. Ivan Illitch, a pregar a “desescolarização” integral da sociedade, a supressão pura e simples do sistema educacional, o advento do homeschooling universal. Alexander S. Neill, um discípulo do psiquiatra e doente mental marxista Wilhelm Reich, anunciava provar que “a liberdade funciona”, usando crianças como cobaias de um experimento desastroso — uma escola onde meninos de cinco anos de idade tomavam decisões administrativas e fumavam durante as aulas, enquanto seus colegas mais velhos preferiam masturbar-se no pátio diante dos olhos complacentes de professores e funcionários. Logo após a morte do fundador, os alunos deram um passo adiante na conquista da liberdade: atearam fogo à escola.

Não por coincidência, esses protetores da meninada ocidental nunca se preocuparam muito com as crianças da URSS, da China e de Cuba, forçadas diariamente a repetir slogans e a fiscalizar-se umas às outras como pequenos policiais, em busca de sinais de desvio ideológico mirim.

Quando, por fim, o Império Soviético veio abaixo, seguiu-se a isso a tremenda ascensão do esquerdismo no Ocidente. Aí os intelectuais ativistas, no poder ou próximos dele, trataram de se livrar do velho libertarismo fingido e encarar a sério a “construção do socialismo”. Para isso era preciso admitir que “a liberdade não funciona” e que a educação tem de ser, conforme as recomendações de Antonio Gramsci, um dócil instrumento nas mãos do partido-Estado. Passaram em suma a praticar, na realidade e mil vezes aumentado, o delito que antes atribuíam falsamente à educação burguesa. É sempre assim: quando essa gente planeja um crime, a primeira coisa que faz é acusar dele algum inocente, a título preventivo, para que quando o crime venha mesmo a ser praticado o público se recuse a enxergá-lo, acreditando que é um mal já superado, de outra época. Não por coincidência, os valores universais que antes preservavam a educação de transformar-se em instrumento da ideologia de classe são agora jogados ao lixo. Claro: revolucionários iluminados, imunes aos escrúpulos da burguesia, não iriam deixar-se inibir por tradições milenares — para eles, meras “construções culturais” tão desprovidas de fundamento quanto as doutrinas que eles próprios inventam. Com a maior desenvoltura, a nova pedagogia estatal cria do nada novos códigos morais, novos padrões de conduta e julgamento, os mais postiços, insensatos e disformes que se possa imaginar, punindo e marginalizando a criança que não se adapte aos mandamentos da recém-criada “socialização” invertida. Como disse o diretor de Concepções e Orientações Curriculares do Ministério da Educação, Carlos Artexes Simões, a escola está aí para “construir um Estado republicano”. De seres livres e inventivos, como as proclamavam os Illichs e os Neills, as crianças transformaram-se em tijolos, blocos de argila mudos e passivos nas mãos dos novos demiurgos: Carlos Artexes Simões e similares.

Em 22 de outubro de 2009

A Onipotencia Da Tagarelice

21 de outubro de 2010 | Diário do Comércio

Os signatários do recente manifesto de acadêmicos em favor da candidatura Dilma Rousseff apresentam-se, com modéstia exemplar, como “professores e pesquisadores de filosofia”. Não ousam denominar-se filósofos porque no fundo sabem que não o são nem o serão jamais, mas também porque esperam que a mídia, por automatismo, lhes dê essa qualificação imerecida ao publicar a porcaria com o nome de “Manifesto dos Filósofos”, conferindo-lhes o título honroso no mesmo ato em que os dispensa do vexame de atribuí-lo a si mesmos.

A filosofia surgiu na Grécia como um esforço de apreender e dizer o “ser” das coisas. A palavra “ser” implica o reconhecimento de uma realidade objetiva estruturada, inteligível, comunicável de homem a homem. O empreendimento filosófico voltava-se diretamente contra uma tradição de ensino para a qual o ser e a realidade objetiva não contavam, podendo ser livremente inventados pela força da palavra e da persuasão. Essa tradição denominava-se “sofística”.

Decorridos vinte e cinco séculos, a denominação inverteu-se. O que se chama de filosofia em muitas universidades, especialmente no Brasil, é a convicção de que não existe realidade nenhuma e tudo é construído pela linguagem. Quem ouse praticar a filosofia no sentido que tinha em Sócrates, Platão e Aristóteles, é marginalizado como reacionário indigno de atenção. A sofística, com o nome de “desconstrucionismo”, é o que hoje ostenta nos documentos oficiais o nome da sua velha inimiga, a filosofia.

Atribuindo psicoticamente à fala humana o poder criador do Logos divino, Martin Heidegger, militante nazista aposentado e um dos ídolos do establishment acadêmico, declara: “A linguagem é a morada do ser” – como se o ato de falar existisse fora e acima da realidade, e não dentro dela.

No mesmo espírito, Ernesto Laclau, no livro “Hegemonia e Estratégia Socialista” – talvez a proposta política mais influente nos meios esquerdistas das três últimas décadas – ensina que o partido revolucionário não precisa representar nenhum interesse social objetivo e nenhuma classe existente: pode criar esse interesse e essa classe retroativamente, pela força do discurso e da propaganda. O PT, que surgiu como partido de estudantes e socialites , gabando-se por isso de ser a voz das pessoas mais inteligentes (v. o estudo feito em 2000 pelo cientista político André Singer:

http://epoca.globo.com/edic/20000717/brasil3a.htm ), criou com dinheiro do governo a classe pobre que o apóia, e passou desde então a ser o partido dos desamparados e analfabetos, condenando os outros partidos como representantes da elite letrada. Na mesma lógica, a “democracia”, segundo Laclau, é um “significante vazio”, ao qual o partido revolucionário pode atribuir o sentido que bem lhe convenha. O PT designa com esse nome a aliança entre o governo e as massas alimentadas com dinheiro dos impostos, aliança montada em cima da destruição de todos os poderes intermediários, a começar pela mídia. Que essa aliança e essa destruição, historicamente, tenham sido a estratégia essencial de todos os regimes tirânicos do mundo (leiam Bertrand de Jouvenel, “Do Poder: História Natural do seu Crescimento”), é um detalhe irrisório: o “significante vazio” admite todos os conteúdos – com a vantagem adicional de que o eleitorado, ao ouvir a palavra “democracia” nas bocas dos próceres petistas, imagina que se trata de democracia no sentido tradicional do termo, porque não leu Ernesto Laclau e não sabe que eles a usam como palavra-código de duas caras, com um significado esotérico para os iniciados e outro, exotérico, para enganar os trouxas.

Não espanta que os servidores das duas maiores mentiras do século XX – o comunismo e o nazismo – tenham acabado por aderir maciçamente à teoria da onipotência criadora das palavras. Essas ideologias juravam basear-se numa descrição completa e objetiva da realidade, capaz de fundamentar a previsão acertada e científica do curso da História. Quando a História as desmentiu da maneira mais acachapante, os adeptos de ambas as correntes, em vez de penitenciar-se de seus erros e crimes, preferiram redobrar o blefe: apelaram ao desconstrucionismo e proclamaram que a realidade não existia mesmo, que tudo era uma questão do jeito de falar.

Também não espanta que, nessas condições, os inimigos de ontem se tornassem amigos, unidos no mesmo projeto sublime de trocar os fatos por uma ficção verbal eficiente. É por isso que tantos comunistas e socialistas amam de paixão os nazistas Martin Heidegger e Paul de Man. Nada une as pessoas mais apaixonadamente do que um projeto solidário de ludibriar todas as outras.

O Manifesto, por exemplo, declara que “Dilma Rousseff tem sido alvo de campanha difamatória baseada em ilações sobre suas convicções espirituais e na deliberada distorção das posições do atual governo sobre o aborto.”

Em que consiste a “campanha difamatória”? Em dizer que a candidata petista defende a liberação do aborto. E a “deliberada distorção das posições do atual governo sobre o aborto”? Consiste em dizer que o governo quer liberar o aborto.

Desde quando publicar verdades bem documentadas é “campanha difamatória”? A lógica dessa rotulação é a mesma que o conhecido “professor e pesquisador de filosofia”, João Carlos Quartim de Moraes, seguiu quando se gabou de ter cumprido pena de prisão pelo assassinato do capitão americano Charles Chandler e em seguida saiu posando de difamado ao ver que, iludido por essa declaração, da qual não tinha motivos para duvidar, eu o qualificava de assassino político condenado pela Justiça. Segundo Quartim de Moraes, acreditar em Quartim de Moraes é crime. Mudar de significado no dia seguinte é um dos mais deliciosos privilégios da mentira.

Do mesmo modo, quem assista ao vídeo http://www.youtube.com/watch?v=TdjN9Lk67Io , e ali veja e ouça Dilma Rousseff expressando seu apoio irrestrito à liberação do aborto, se tornará automaticamente um difamador se acreditar que ela disse o que disse.

No mesmo espírito do manifesto, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos jura: “O PNDH-3 não trata da legalização do aborto. Sua redação sobre o tema é: ‘Considerar o aborto como tema de saúde pública, com garantia do acesso aos serviços de saúde’.”

Reacao Debil E Tardia

20 de setembro de 2007 | Jornal do Brasil

Em 17 de setembro de 1998, no Jornal da Tarde de São Paulo, denunciei a propaganda comunista mentirosa e emburrecedora que, a pretexto de ensinar História, o governo do sr. Fernando Henrique Cardoso — sim, o governo tucano — espalhava pelas escolas brasileiras. Mencionei especialmente, entre outras obras usadas para esse fim, a Nova História Crítica , de Mário Schmidt (v. ).

Não me limitei a expor esse e inumeráveis fatos similares. Tanto em livros e conferências quanto em artigos, mostrei, com todo o rigor possível, que não se tratava de episódios isolados, mas de uma imensa articulação estratégica baseada “revolução cultural” de Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano, da qual o então presidente da República se gabava de ser ainda melhor conhecedor e implementador do que seus amigos, concorrentes e depois sucessores petistas. Segundo essa proposta, o movimento revolucionário deveria conquistar o controle hegemônico da cultura, do imaginário social e dos debates públicos antes de se aventurar a introduzir mudanças radicais na política econômica ou na estrutura de poder.

Decorridos nove anos, O Globo finalmente conseguiu notar a existência do livro acima mencionado – como se fosse o único do mesmo teor — e, ao comentá-lo na coluna de Ali Kamel, ainda se gaba de fazê-lo “sem incomodar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia etc.”

Se até um jornalista competente como Ali Kamel leva quase uma década para notar o que está acontecendo, se o percebe somente por um ângulo isolado e se ao falar do assunto ainda se sente inibido de pedir ao leitor um pequeno esforço intelectual para apreender o conjunto de uma situação que nesse ínterim evoluiu do perigoso ao catastrófico, tão persistente letargia pode parecer estranha, mas não para mim. Sem medo de incomodar, informo aos interessados que hegemonia é precisamente isso: é dominar o fluxo das idéias ao ponto de controlar a velocidade de percepção do adversário, de modo que ele só note o perigo quando já não tenha mais tempo nem força para reagir.

De 1998 até agora, a ideologia comunista que entrou pelos livros de História se alastrou pelo sistema de ensino inteiro e infectou todas as disciplinas — até matemática e educação física –, de modo que para as novas gerações de estudantes brasileiros tudo o que escape da cosmovisão marxista se tornou inexistente e impensável. Como previa Gramsci, o “senso comum modificado” é algo de mais profundo e arraigado do que a mera crença consciente.

Ao longo desses anos, as organizações Globo, em parte iludidas pelo mito da morte do comunismo, em parte manipuladas desde dentro por agentes esquerdistas, não fizeram outra coisa senão colaborar com o empreendimento gramsciano, cultuando os santos do panteão comunista e glamurizando tudo aquilo que Roberto Marinho detestava.

Não espanta que, agora, ao emergir pouco a pouco de um longo torpor mental, o grupo não consiga esboçar senão gestos de reação débeis e acovardados, dizendo mui polidamente umas palavrinhas pró-capitalistas pela boca do sr. Eduardo Gianetti da Fonseca ou fazendo na coluna de Ali Kamel um eco parcial, tímido e quase inaudível a minhas denúncias de uma década atrás.

Também não espanta que, como prêmio de sua paternal solicitude para com os esquerdistas, a Globo agora receba deles toda sorte de insultos, acompanhados da ameaça de fazer com ela o que Hugo Chávez fez com a RCTV. Vocês não imaginam com que satisfação os comunistas atiram ao lixo um “companheiro de viagem” quando não precisam mais dele.

Em 20 de setembro de 2007

Fora De Pareo

20 de junho de 2011 | Diário do Comércio

Em artigo recentemente publicado no Estadão ( http://www.estadao.com.br/noticias/geral,a-direita–o-papagaio-e-o-facao,726992,0.htm ), Eugênio Bucci, que se diz professor universitário e, pior ainda, talvez o seja realmente, denuncia, com horror sacrossanto, a emergência de uma nova direita que tem o desplante, a arrogância, a intolerável empáfia de ir além do limite que lhe foi fixado pela esquerda – a defesa da economia de mercado – e externar opiniões até mesmo em assuntos morais, culturais e filosóficos.

Contra esse abuso criminoso das liberdades civis, Bucci não perde tempo refutando argumentos: dispara contra o objeto de sua indignação cívica o arsenal inteiro dos chavões consagrados (“intolerância”, “xenofobia”, “anacronismo”, “sanha persecutória”, “fundamentalismo”, “prepotência”, “extremismo”, “retrocesso”, etc. etc.) e sai todo satisfeito, acreditando que disse alguma coisa.

Incapaz de fornecer um só exemplo concreto de ação ou opinião que mereça esses rótulos, ele apela à clássica inversão revolucionária de ataque e defesa, qualificando de “perseguição aos homossexuais no Congresso” o esforço que católicos e evangélicos têm feito para defender-se de uma lei inventada com o propósito explícito de levá-los todos à cadeia por “crime de homofobia”. Inversão tanto mais insultuosa e ridícula porque, no caso, o perseguido tem a força do governo, da grande mídia, do show business e do establishment universitário, enquanto o perseguidor não tem sequer a totalidade dos púlpitos nas igrejas. O lobo da fábula inventou mil e uma contra o cordeiro, mas não o acusou de persegui-lo.

Esquivando-se ao debate com representantes nacionais da tal direita, dos quais parecia estar falando, Bucci ataca à distância a sra. Marine Le Pen por defender a opinião hediondamente direitista de que o escândalo Strauss-Kahn revela algo da podridão moral da classe política francesa – como se não fosse prática geral, centenária e obrigatória, entre esquerdistas, apontar cada sem-vergonhice pessoal de líderes, governantes ou empresários como prova da ruindade intrínseca do capitalismo.

Chega a ser admirável o despudor com que o articulista do Estadão ostenta em público sua incapacidade (ou recusa) de raciocinar com algum senso de eqüidade, de justiça, de equilíbrio. “O fato de ser acusado de um crime sexual não transforma Strauss-Kahn no representante de uma elite estupradora”, protesta ele (fingindo ignorar que a noção mesma de “elite estupradora” é uma invenção da esquerda feminista), e já dois parágrafos adiante joga sobre nós, os porta-vozes daquilo que ele chama “direita histriônica”, a responsabilidade por “assassinatos de líderes ambientalistas”, como se o fato de escrevermos contra a União Européia ou a PL-122 nos transformasse em mandantes de crimes no interior do Brasil. O desejo irrefreável de imputar culpas mediante associações fantasiosas já é imoral o bastante, mas Bucci soma à calúnia o insulto quando reconhece que os autores daqueles crimes jamais foram descobertos, donde se conclui que, na cabeça dele, a total incerteza quanto aos agentes materiais do delito é fonte de certeza quanto aos seus culpados intelectuais remotos. Será exagero meu dizer que esse professor de moralidade tem um senso moral pervertido, baseado em ódio insano e sem o mínimo controle racional?

Mas, hiperbólico e desgovernado o quanto seja nos seus julgamentos morais, Bucci não é destituído daquele senso de autopreservação que é, na esfera da mesquinharia humana, a versão caricatural da prudência evangélica. Ao fulminar a direita no tom de um Júpiter tonitroante, ele não ousa citar por nome um só teórico ou polemista da execrada corrente. Limita-se a aludir de passagem ao deputado Jair Bolsonaro, que não é nem uma coisa nem a outra e que, sendo pessoa alheia aos debates intelectuais, não lhe oferece o menor perigo de um revide.

Escrevendo com os típicos esgares patéticos de quem se esmera na ginástica impossível de alegar indiferença superior enquanto gesticula e berra para infundir na platéia o temor de um perigo iminente, ele torna ainda mais problemática essa operação, já de si complexa, ao fundi-la com o esforço teatral de fingir coragem ante adversários que ao mesmo tempo insiste em conservar ausentes, anônimos e abstratos. Quando ele os chama “histriônicos”, é impossível não ver nisso o mecanismo grosseiro e típico da acusação projetiva.

Se o estilo é o homem, Eugênio Bucci está definitivamente fora de páreo em qualquer debate sério. Falta-lhe franqueza, consistência e aquele mínimo de controle autocrítico sem o qual o melhor mesmo é só puxar discussão com entidades genéricas, fugindo ao confronto com interlocutores de carne e osso.

Em 20 de junho de 2011

Armados E Desarmados

20 de fevereiro de 2013 | Diário do Comércio

O Homeland Security está distribuindo às escolas, igrejas, clubes e outras instituições um vídeo em que ensina como reagir a um invasor armado de pistola, rifle ou metralhadora. Receita número um: saia correndo. Número dois: esconda-se debaixo da mesa. Número três: ataque o sujeito com uma tesoura, um hidrante, um cortador de papéis, um grampeador ou algum outro instrumento mortífero em estoque no almoxarifado. E assim por diante . (Não é gozação minha. Veja em http://www.youtube.com/watch?v=5VcSwejU2D0 ).

A hipótese de manter um guarda armado ou de permitir que funcionários habilitados portem armas não é nem mesmo mencionada. É exorcizada. Há lugares, é claro, onde o exorcismo não funciona: a comissão de educadores da cidade de Newtown, aquela onde duas dezenas de crianças morreram assassinadas por um atirador alucinado, já declarou que vai seguir a sugestão da National Rifle Association e não as lições sapientíssimas do Homeland Security.

Para sua própria proteção, é claro, o Homeland Security apela ao remédio exatamente inverso daquele que recomenda aos outros. Alegando, vejam só, “defesa pessoal”, o departamento acaba de comprar sete mil fuzis AR-15 – aquele mesmo que o governo quer tomar dos cidadãos – e dois bilhões, sim, dois bilhões de balas hollow point, daquelas que espalham estilhaços no corpo da vítima. Essa munição é proibida para uso militar pela Convenção de Genebra, só podendo ser usada, portanto, contra a população civil. O inferno não está cheio só de boas intenções.

O Homeland Security é o monstro burocrático criado após o 11 de setembro, teoricamente com a finalidade de impedir o ingresso de inimigos no território. Hoje é a menina-dos-olhos do presidente Barack Hussein Obama, que conta com ele para desarmar a população e, de quebra, intimidar seus inimigos políticos.

Uma de suas grandes realizações foi instalar nos aeroportos aquelas máquinas de raios-x que revelam às autoridades o tamanho dos pênis e os modelos das calcinhas. Nenhum terrorista foi jamais descoberto por esse meio. Em compensação, milhões de velhinhas passaram mal, milhões de senhoras e senhoritas se sentiram bolinadas, milhões de empresários perderam encontros de negócios e milhões de maridos estão até hoje tentando explicar por que chegaram tarde em casa. Mas nem tudo é prejuízo: é possível que algum namoro tenha começado nas filas de espera.

Uma das funções básicas do Homeland Security é, por definição, impedir o ingresso e a permanência de imigrantes ilegais nos EUA, mas, com o mesmo desvelo com que vasculha as partes íntimas dos viajantes nos aeroportos, o departamento se empenha em facilitar o ingresso e assegurar a permanência dos invasores: sabendo que a massa dos ilegais não vem por via aérea, desarticula a vigilância nos postos de fronteira, franqueando a passagem dos indesejáveis, e faz corpo mole na hora de expulsar os que já entraram, alegando que são muitos e não há condições de pegar um por um.

Não é preciso dizer que o presidente Barack Hussein Obama enxerga nos ilegais um delicioso contingente de futuros eleitores do Partido Democrata, assim como vê na metade nacionalista, conservadora e armada da população americana um inimigo a ser destruído por todos os meios, a começar pela sua rotulação – por enquanto oficiosa – de radical e terrorista.

Por isso mesmo, o departamento que acha impossível expulsar doze milhões de ilegais não recua ante o projeto infinitamente mais ambicioso e complexo de desarmar uma quantidade doze vezes maior de cidadãos americanos; e aliás, como vimos, já se prepara para isso estocando armas e munições, o mais convincente argumento contra os obstinados e recalcitrantes.

O presidente tem boas razões para apostar todas as suas fichas no Homeland Security, já que o pessoal das polícias estaduais não está nem um pouco assanhado para desarmar os americanos e muito menos para atirar neles.

Em vários Estados, as associações de xerifes já declararam que, se algum agente federal aparecer por lá para tomar as armas dos cidadãos, vão simplesmente prendê-lo.

Se há uma realidade que se torna mais óbvia a cada dia que passa, é esta: o governo Obama não quer desarmar a população – quer é desarmar os inimigos e armar os amigos, exatamente como fez Hitler nos anos 30. O próprio Obama, ainda enxugando aquela lagriminha forçadíssima e festejadíssima que dedicou às crianças mortas de Newtown, acha horrível colocar guardas armados nas escolas, mas envia suas filhas a uma onde há pelo menos onze deles; e ainda tem a cara de pau de espalhar uma foto onde aparece disparando um rifle de caça capaz de estourar os miolos de um elefante.

Outro dia, o repórter Jason Mattera encostou na parede um dos mais fanáticos desarmamentistas, o prefeito novaiorquino Bloomberg, ao surpreendê-lo circulando pela cidade com cinco seguranças armados, mas não conseguiu obter dele uma resposta à pergunta: “Por que diabos você tem o direito de se proteger, e nós não?” Em vez de responder, o prefeito mandou um dos seguranças seguir o repórter para assustá-lo.

Por Que O Socialismo Nao Funciona

20 de agosto de 2001 | Vice-presidente do Instituto Liberal-MG

Todas as doutrinas políticas prometem o bem-estar do povo, ou o que as esquerdas chamam de ‘justiça social’, conceito que ninguém consegue definir com clareza. Aliás, nem Marx nem seus seguidores jamais explicaram o funcionamento de uma sociedade socialista. Porém, Ludwig von Mises, economista e professor austríaco, em seu livro ‘Socialismo’, publicado em 1922, previu com acerto que o socialismo, se levado às suas útimas conseqüências, não poderia funcionar, isto é, satisfazer a sua promessa de prover o verdadeiro bem-estar da sociedade. Isto porque, com o planejamento centralizado em lugar de um sistema de preços livremente estabelecidos pelo mercado, não poderia contar com esta ferramenta – os preços livres – indispensável para que os agentes econômicos possam determinar, com a menor margem de erro possível, o que produzir, em que quantidades e momentos. Somente uma economia de livre mercado, com a mínima intervenção do governo, oferece as condições para maximizar-se a produção e o consumo, mantendo elevada a taxa de emprego. Além disso, uma economia sadia para funcionar bem requer um sistema político assentado num arcaboço legal (constituição) que limite o poder de legislar dos políticos e da burocracia do Estado, e defenda os direitos fundamentais dos cidadãos, como o direito à vida, à propriedade privada, enfim, assegure a liberdade individual, vedando qualquer tipo de privilégio a quem quer que seja. Trata-se de um sistema em que prevaleça o governo da lei e não a lei do governo. Este corpo de leis fundamentais deve conter apenas os artigos que tratem destas questões fundamentais, deixando para a legislação ordinária outros detalhes de organização da sociedade. Mas a Constituição deve impedir também que a legislação ordinária conceda quaisquer privilégios a pessoas, grupos ou empresas.

Na Inglaterra, um outro professor austríaco, ex-aluno e colaborador de von Mises em Viena, Friedrich Hayek, que receberia o prêmio Nobel de Economia de 1974, publicou em 1944 seu livro ‘O caminho da servidão’, confirmando a previsão de Mises de que o socialismo, mesmo moderado, acabaria levando a sociedade que o adotasse à tirania e ao fracasso econômico e social. O que se confirmou após quase trinta anos de governo socialista do Partido Trabalhista inglês, que estatizou a economia, produzindo inflação, alto desemprego e sucateamento da indústria britânica, até que o governo liberal do Partido Conservador, com Margaret Thatcher no poder, restaurasse a economia e o emprego. Na União Soviética, desde 1917, o socialismo já havia sido implantado à custa de umas 50 milhões de vidas. O nacional-socialismo (ou nazismo) na Alemanha resultou na Segunda Grande Guerra, com 44 milhões de mortos, aí incluído o extermínio de 6 milhões de judeus. Isto é o socialismo real. Veja-se também Cuba, Albânia e Coréia do Norte, que proporcionam literalmente a fome de seus povos.

No Brasil as esquerdas vêm há décadas se preparando para implantar o socialismo, através do lento processo gramsciano de doutrinação nas escolas públicas de todos os níveis e através da imprensa. Seria o socialismo tardio, pois o fracasso desse sistema político como forma de distribuição de riqueza está mais do que comprovado. As esquerdas argumentam que o capitalismo, e mais recentemnte o neoliberalismo adotado no governo FHC levaram à elevada concentração da renda e da riqueza. Ora o Brasil nunca adotou o regime democrático de livre mercado capitalista, e somente as privatizações do governo FHC não são suficientes para caracterizá-lo como liberal. Continuamos no sistema mercantilista da colonização portuguesa, com o velho Estado patrimonialista e cartorial de sempre, onde o desenfreado empreguismo com nepotismo levaram este país a ter uma das mais altas cargas tributárias do mundo, concentrada numa minoria da sociedade, que se destina a satisfazer os ganhos exorbitantes e as gordas aposentadorias da alta burocracia, e nada beneficia os cidadãos contribuintes ou não. Estes, por não terem, em sua maioria, acesso ao ensino básico, nem ao saneamento nem à saúde pública, não se podem habilitar a bons empregos, com remuneração condigna, e se mantêm na condição de “excluídos” da economia monetária, na pobreza ou mesmo na miséria. A implantação do socialismo não vai alterar essas causas. Vai mantê-las, distribuindo a pouca riqueza entre os militantes dos partidos socialistas então aboletados nos cargos públicos, formando a nova Nomenklatura . As massas pobres continuarão iludidas por promessas vazias, como em Cuba.

Em 20 de agosto de 2001

Leituras

Clinton A Guerra E A China

2 de maio de 1999 | CENSURADO

Este artigo, escrito durante os bombardeios em Kosovo, foi recusado pela revista República . — O. de C.

Na juventude, Bill Clinton foi um dos milhares de estudantes esquerdistas que se beneficiaram das verbas da KGB, ganhando uma daquelas viagens à URSS que eram o meio preferencial para o recrutamento de agentes soviéticos nos meios universitários do Ocidente. Na década de 60, isso seria impedimento bastante para qualquer candidatura a prefeito de cidade do interior. Nos anos 90, após três décadas de revolução cultural gramsciana, as ligações perigosas não impediram que Clinton fosse eleito presidente dos EUA com o apoio do Partido Comunista Americano. Graças a um bem calculado discurso “politicamente correto”, o novo governante tornou-se um ídolo da esquerda, a qual moveu céus e terras para mantê-lo no cargo a despeito de um variado leque de acusações que, entre futilidades sexuais, imbróglios financeiros e uma multidão de pequenos watergates , incluía alguma coisa de perfeitamente sério e apavorante: a suspeita de favorecimento à espionagem nuclear chinesa. A imprensa bem-pensante resistiu a toda investigação do assunto.

Agora, quando o pobre inocente lança os EUA numa aventura militar despropositada e cruel, a decorrente onda de indignação universal preserva misteriosamente a sua pessoa, preferindo falar em tom genérico contra a OTAN e o “imperialismo”, de modo que aos olhos do público a culpa das atrocidades acabe recaindo, por via subliminar, sobre aqueles que nos EUA mais energicamente se opuseram à iniciativa brutal do queridinho das esquerdas. Ato contínuo, segundo denuncia o Wahington Post , a máquina policial do Estado comandado por Clinton faz o possível para abafar as investigações sobre o recém-desmascarado espião Wen Ho Lee, que passou à China informações secretas do Laboratório Nuclear de Los Alamos, enquanto a alta hierarquia militar chinesa já se permite falar indiscretamente de seus preparativos bélicos e da formação de uma aliança internacional para reagir à agressão americana e começar a III Guerra Mundial. A imagem dos EUA deteriora-se a cada dia, enquanto a de Clinton permanece intocável, permitindo que ele continue a dar aos chineses os motivos, a ocasião e, para cúmulo de generosidade, os meios materiais para uma “guerra justa” contra o imperialismo americano.

Tudo isso é tão perverso, tão cínico e ao mesmo tempo tão assustadoramente claro e lógico, que chego a duvidar de que a esquerda ocidental esteja apenas agindo com a sua tradicional frivolidade e inconseqüência histórica. Chego a me perguntar se ela e Bill Clinton não sabem perfeitamente para onde as coisas estão indo e não desejam ardentemente chegar lá.

É claro que esse prodígio de mistificação não se poderia produzir sem algum controle das informações. Coincidência ou não, continua desprovido de qualquer repercussão mundial o combate feroz que a opinião pública direitista vem movendo nos Estados Unidos contra o bombardeio de Kosovo. Quem leia os colunistas conservadores de maior sucesso, como William Buckley Jr., Thomas Sowell, Joe Sobran, Pat Buchanan, George Will, será informado de que, na opinião unânime da direita, o bombardeio é uma conspiração esquerdista pelo menos tanto quanto a exploração do caso Lewinsky foi, segundo Hillary Clinton, uma conspiração direitista. Para que a esquerda conserve seu monopólio das denúncias de conspiração, facilmente impugnando como paranóia toda acusação similar que parta do lado contrário, a audiência destes colunistas deve ficar restrita ao território americano, sem abalar o consenso mundial que lança sobre a imagem do imperialismo direitista as culpas de William Jefferson Clinton e de sua curriola comunista.

Se o prezado leitor deseja furar o bloqueio, dirija-se às fontes, hoje acessíveis graças à internet . Leia:

Buckley em http://www.sacbee.com/voices/national/buckley , Sobran em http://www.uexpress.com/ups/opinion/column/js/archive/, Sowell em http://www.jewishworldreview.com/cols/sowell1.asp , Buchanan em http://www.theamericancause.org/pat_buchanan.html e Will em http://www.sacbee.com/voices/national/will .

Depois tire suas próprias conclusões. Diga se não há algo de estranho num ataque imperialista que é tão condenado pela direita e que a esquerda só critica tomando meticuloso cuidado para ocultar a responsabilidade pessoal do comandante supremo que o determinou.

Em 2 de maio de 1999

Leituras

O Evangelho Segundo Luiz Mott

2 de julho de 2007 | Diário do Comércio

O líder gay Luiz Mott, que se diz “Professor Doutor” e talvez o seja mesmo, já que os portadores desses títulos abundam nesta parte do universo, enviou ao jornal eletrônico Mídia Sem Máscara uma carta em que faz restrições literárias e teológicas ao meu artigo “ Conspiração de Iniqüidades ” (aqui publicado em 25 de junho). Sob o primeiro aspecto, ele o chama de “prolixo e pedante texto”. Achei particularmente adorável esse negócio de “tetexto” logo na entrada de uma reprimenda estilística. Mas deixemos isso para lá. Os professores doutores, no Brasil, escrevem assim mesmo, e de há muito já desisti de fazer algo por eles.

No que diz respeito ao conteúdo, meu artigo, segundo o referido, “ peca pelo abuso dos silogismos e calúnias contra a estratégia do Movimento Homossexual Brasileiro em ter reconhecidos seus direitos elementares de cidadania: do mesmo modo como os pastores e padres não podem nos púlpitos ou nas suas televisões citar e defender os versículos bíblicos que estimulam e abençoam o racismo, a discriminação contra as mulhres e a intolerância religiosa, assim também, a Lei deve proteger os homossexuais dos ataques e calúnias de quantos abusam do santo nome de Deus para semear o ódio contra cidadãos homossexuais que jamais foram condenados pelo Filho de Deus, Nosso Senhora Jesus Cristo. Portanto, Olavo de Carvalho, o Papa Ratzinger, os pastores fundamentalistas et caterva podem espernear a vontade, pois a história mais cedo que se espera, fará justiça contra esses fariseus, reconhecendo que também os homossexuais são templos do Espírito Santo e revelam, quando discriminados, a verdadeira face de Jesus. É legal ser homossexual!

” Eu gostaria de responder a isso, mas creio que não posso fazê-lo. A mensagem, breve o quanto seja, traz tantos pressupostos subentendidos que o simples esforço de elucidar o seu sentido vai consumir praticamente todo o espaço desse artigo.

Em primeiro lugar, se há na Bíblia “ versículos que estimulam e abençoam o racismo, a discriminação contra as mulhres e a intolerância religiosa ”, então, evidentemente, o delito nefando de homofobia não está só nuns quantos padres, pastores e rabinos que “abusam do santo nome de Deus” , e sim na própria Bíblia. O livro sagrado dos cristãos e judeus, segundo o Professor Doutor Mott, é criminoso em si. O Professor Doutor se faz de humilde e inofensivo, fingindo criticar apenas uns tantos abusados, quando na verdade ataca e criminaliza duas religiões na sua base mesma, na raiz da sua tradição.

O Professor Doutor não prega abertamente a proibição do livro, mas deixa claro que só está disposto a permitir sua leitura em voz alta se ele for expurgado de todos os trechos considerados inconvenientes. A pergunta “Quem fará a seleção?” é ociosa, pois, de um lado, o Professor Doutor já considerou desqualificados para essa função “o Papa Ratzinger, os pastores fundamentalistas et caterva ”, subentendendo por esta expressão latina todos os desafetos do movimento gay ; de outro lado, ele próprio já fixou o critério seletivo: devem ser excluídos todos os versículos desagradáveis aos gays, às feministas, aos abortistas, aos adeptos de religiões fetichistas e animistas, bem como aos não-cristãos e não-judeus em geral, que se sentem barbaramente discriminados ao ouvir dizer que os primeiros são Filhos de Deus e os segundos são o Povo Eleito. Também não é preciso perguntar o que sobrará da Bíblia depois dessa amputação. Não sobrará nada daquilo que hoje se entende por judaísmo ou cristianismo. O resíduo final não soará ofensivo a ninguém, exceto aos cristãos e judeus, esses discriminadores malditos. Com relação aos versículos condenados, o Professor Doutor afirma taxativamente que os sacerdotes “não podem” citá-los ou defendê-los nem mesmo dentro de seus templos respectivos. Notem bem. Ele não diz que eles “não devem” fazê-lo. Ele não diz que eles “não poderão” fazê-lo se for aprovada uma lei que os proíba. Ele diz simplesmente “não podem”, no presente do indicativo. A proibição vigora portanto desde já, independentemente de aprovado ou não o projeto de lei dito “anti-homofóbico”. E não estão proibidos só os versículos anti-homossexuais, mas também os anti-feministas, anti-fetichistas, etc. etc. Estão proibidos não por alguma lei aprovada no Congresso, mas pela decisão soberana do Professor Doutor. Mais ainda: a expressão “não poder” não significa apenas ilegalidade ou proibição. Significa impedimento real, impossibilidade objetiva. Tão logo o Professor Doutor anunciou sua vontade, ela se impõe por si mesma como uma lei cósmica, e contrariá-la se torna tão inviável quanto reverter o curso dos astros ou fazer com que dois mais dois dêem cinco.

Se os leitores duvidam que a autoridade do Professor Doutor é divina, onipotente e onipresente, leiam com atenção. Ele acaba de impugnar o texto da Bíblia, e no instante seguinte fala em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só podemos concluir que a fonte de onde ele recebeu a mensagem divina não é a Bíblia nem as tradições baseadas nela. É uma revelação direta, que revoga a anterior e traz ao mundo um novo corpo de mandamentos. Mas, se os senhores, com algum ceticismo, perguntam como chegou ao Professor Doutor essa revelação, é porque não entenderam a dupla afirmativa essencial da sua carta: “ Os homossexuais são templos do Espírito Santo e revelam, quando discriminados, a verdadeira face de Jesus”.

Com relação à primeira parte, é claro que templos do Espírito Santo somos todos nós, membros da espécie humana. O Professor Doutor não iria descer do seu pedestal só para repetir uma mensagem velha de dois mil anos. A novidade que ele introduz aí é formidável: os homossexuais são templos do Espírito Santo não enquanto meros seres humanos, mas enquanto homossexuais. Há portanto uma forma especial de ser templo do Espírito Santo, a qual não deriva da condição humana em geral, mas da prática do homossexualismo. O macho da espécie torna-se um templo do Espírito Santo no instante em que vai para a cama com outro igual. A sodomia tornou-se o oitavo sacramento, revelado ao mundo pelo Professor Doutor.

Mas não pensem, por favor, que ele é apenas um profeta a mais, um Jeremias ou Isaías qualquer. Seu verdadeiro estatuto espiritual, infinitamente superior, é elucidado na segunda parte da afirmativa, onde ele declara que o homossexual discriminado – ele próprio, modéstia à parte – “revela a verdadeira face de Jesus”.

Eis aí resolvido o enigma das fontes da revelação. O Professor Doutor não “recebeu” a revelação de parte alguma, ele simplesmente é a revelação, é o Logos encarnado que vem ao mundo castigar os fariseus, rasgar as páginas da Bíblia e instaurar a nova legalidade cósmica com a lista do que pode e do que não pode.

A diferença, a novidade radical desse acontecimento é que Cristo, na sua primeira vinda ao mundo, excluiu categoricamente a possibilidade de mudar uma só letra que fosse da Lei e dos profetas. O Segundo Advento copidesca, modifica e exclui páginas inumeráveis, institui o sacramento da sodomia e destina às penas do inferno todos aqueles que, como os profetas hebraicos, enxerguem nessa prática alguma coisa de errado.

Tão logo compreendido o sentido da mensagem do Professor Doutor, nota-se facilmente que ela não pode ser respondida. Não se discute com a autoridade divina, sobretudo quando ela não vem pelos canais indiretos da profecia e da tradição, mas pela própria presença do Verbo que se fez banhas e foi sacudi-las na Parada Gay.

Tudo o que posso fazer diante de acontecimento de tal magnitude é imergir em profundo silêncio contemplativo.

Não poder responder à mensagem do Professor Doutor não impede, no entanto, que eu faça a respeito uma distinção básica entre o paranóico megalômano ostensivo e o camuflado. O primeiro declara abertamente que é Deus. O segundo deixa isso subentendido nas entrelinhas. O primeiro desmoraliza-se a si mesmo instantaneamente. O segundo fascina a platéia com um discurso apenas vagamente incoerente mas ao mesmo tempo envolto na aura misteriosa de uma autoridade desconhecida. Uma vez analisado o discurso, ele se revela, ao contrário do que parecia, uma construção lógica perfeitamente coerente, com um só ponto absurdo: a premissa oculta que o sustenta, a fonte mesma da sua credibilidade. Assim, por exemplo, o Professor Doutor pode ao mesmo tempo impugnar a autoridade da Bíblia e falar em nome do Cristo que a consagrou como definitiva e imutável. Parece incoerente, não é mesmo? Vindos logo em seguida um ao outro, esses dois trechos revelariam na mente do seu autor uma desatenção patológica, uma incompreensão radical do sentido do que ele próprio diz. O Professor Doutor Mott, nesse caso, seria apenas um idiota. Mas, por favor, compreendam que o Professor Doutor é o próprio Cristo reencarnado, e a impressão de incoerência se dissipará no mesmo instante. O megalômano ostensivo é apenas um louco vulgar inflado de mania de grandeza. No megalômano camuflado, a mania de grandeza soma-se à astúcia de um sociopata manipulador, capaz de fazer da sua própria loucura uma fonte de autoridade. Ele é muito mais louco, evidentemente, do que o megalômano vulgar, mas não é nem um pouco idiota, como não o era o Doutor Mabuse. É esperto ao ponto de vender sua loucura, com sucesso, como sabedoria divina.

A eficácia hipnótica desse tipo de discurso deriva, na verdade, de um truque bem elementar. A mensagem tem de vir simultaneamente em dois planos: o da contradição aparente e o da premissa oculta que a resolve trocando-a por uma absurdidade substantiva. A contradição, entrevista de longe, provoca no ouvinte um vago desconforto intelectual. Mas, se é um ouvinte de boa vontade, disposto a aceitar o orador como guia confiável, ele atribuirá essa contradição a um erro de percepção dele próprio, não do orador, e por mero automatismo apostará na existência de alguma explicação mais profunda que lhe escapa no momento. Como essa explicação profunda existe realmente, mas o ouvinte não sabe que ela é absurda, a absurdidade oculta adquire então a força estupefaciente de um atrativo mágico, de uma fonte de autoridade secreta e inapreensível. Só a análise integral do raciocínio implícito pode desfazer o encantamento, mas raros ouvintes terão a prudência – e os meios intelectuais – de realizá-la.

Se o Professor Doutor houvesse inventado essa técnica ele seria, além de Deus, um gênio. Mas ela é de uso corrente no movimento revolucionário desde o século XIV pelo menos. O homem são sabe quanto é difícil agir com justiça para com seus próximos. Mas desde aquela época têm aparecido milhões de pessoas que se julgam habilitadas a implantar o reino da justiça no planeta inteiro. Implícita nessa promessa está a pretensão de deslocar o Juízo Final da eternidade para o tempo. De passagem mística para o supratempo que transcende o fim da História, o Dia do Juízo torna-se um episódio da própria História, trazido ao mundo pelas mãos humanas dos revolucionários gnósticos. Cada revolucionário é portanto o próprio Cristo vingador, que baixa dos céus com o látego divino para castigar todos os fariseus, entre os quais, é claro, “Olavo de Carvalho, o Papa Ratzinger, os pastores fundamentalistas et caterva ”.

Não há, pois, grande originalidade no ardil empregado pelo Professor Doutor. Original, sim, é o ato falho que ele comete logo no início da sua mensagem, ao imputar ao meu artigo o delito de “abuso de silogismos”. A acusação é monstruosamente extemporânea, pois esse artigo é uma descrição e análise psicológica de certos fatos, e não uma demonstração silogística do que quer que seja. Ao proferi-la, o Professor Doutor nada disse a meu respeito, mas também não atirou no vazio. Acertou em si mesmo. Não pode haver maior abuso da técnica silogística do que usar uma contradição como anzol para fisgar o ouvinte numa premissa oculta absurda, psicótica em sentido estrito.

Para a desgraça da humanidade, esse tipo de discurso é o de uso mais freqüente entre os revolucionários, profetas do mundo novo e justiceiros globais em geral. Tão freqüente, que já o empregam por mero automatismo e rotina, sem nem precisar conscientizar a intenção maligna com que o fazem.

Deuses De Ocasiao

2 de julho de 2005 | O Globo

“Quando os homens já não acreditam em Deus, não é que não acreditem em mais nada: acreditam em tudo.” Se essa observação de G. K. Chesterton já não tivesse sido comprovada milhares de vezes, bastaria a experiência brasileira das últimas semanas para mostrar sua veracidade. Quanto mais este país renega a fé cristã que esteve nas raízes da sua formação, com tanto mais crédulo entusiasmo se entrega ao culto de ídolos de ocasião, e quanto mais se avilta na adoração do desprezível menos força tem para arrepender-se e mudar de rumo quando uma nova divindade postiça e impotente, seguindo o caminho das anteriores, o decepciona pela enésima vez. Ao contrário: cada desilusão sucessiva não só reforça a propensão idolátrica, mas a torna ainda mais tolerante para com a inépcia dos deuses, mais pronta a fabricar desculpas para as lacunas da sua onipotência e as manchas do seu véu de santidade. Por esse caminho, as relações entre a alma devota e seu objeto de culto chegam à completa inversão: já não é a criatura que vive da misericórdia divina, é a divindade pecadora e criminosa que se alimenta do perdão humano, não recebido como um dom da graça, é claro, mas extorquido como um dever, como um imposto, de tal modo que o fiel, quanto menos recebe de seu deus, mais se sente obrigado a lhe dar em profissões de fé e atos de sacrifício, numa espécie de masoquismo teológico.

Tal é, com efeito, o deus da “teologia da libertação”. A única entidade imaterial e transcendente em que os doutores dessa escola acreditam é aquela força a que chamam “processo revolucionário”, lei suprema que, a seu ver, governa o curso da história. Mas é uma lei que funciona às avessas. Ao contrário do Deus bíblico, cuja credibilidade advém do cumprimento de Suas promessas, ela jamais precisa cumprir as suas. A autoridade de que desfruta ante os fiéis assenta-se no próprio rastro de crimes e fracassos que constitui até o momento o único legado do processo revolucionário na URSS, na China, no Vietnã, na Coréia do Norte ou em Cuba. Esse aparente paradoxo explica-se pela dialética do prejuízo intolerável: quanto maior a dose de sacrifício inútil, tanto mais dificultoso admitir que foi inútil. Tanto maior, por isso, a necessidade compulsiva de redobrar indefinidamente a aposta perdida, reafirmando a fé contra os fatos em escala de progressão geométrica. O credo quia absurdum, que em Agostinho era uma figura de retórica, torna-se aí um preceito literal, o dogma constitutivo da igreja revolucionária.

Não espanta que, numa cultura intoxicada desse dogma ao ponto de já não poder reconhecê-lo como tal mas apenas obedecê-lo como impulso inconsciente, as esperanças do povo acabem se voltando para personagens cada vez menores, mais desprovidos de real valor e das condições mais mínimas para honrar a confiança neles depositada.

Quando, mais de uma década atrás, o sr. Herbert de Souza foi aceito pelas classes letradas como a máxima encarnação da virtude e um candidato à beatificação, tomei isso como indício de um embotamento da sensibilidade moral coletiva, incapaz de distinguir entre um santo e um mero estrategista esperto, cujo único mérito era o de ter ensinado a esquerda a sugar o prestígio das entidades caritativas em vez de acusá-las de instrumentos da classe dominante.

Os anos que se seguiram confirmaram esse diagnóstico, quando uma nação quase inteira apostou na moralidade superior de um partido cuja improbidade e malícia, no entanto, eram claramente visíveis no teor mesmo das suas discussões internas e na rede de suas alianças criminosas internacionais, alianças que ora ele ocultava sob negações peremptórias, ora adornava com um manto de subterfúgios dourados, sem que a mídia cúmplice consentisse em notar, sequer, a duplicidade do discurso, prova inequívoca da mentira.

Por isso, agora, que toda a indigência moral desse partido veio à tona, não é impossível que o esplendor mesmo da sua feiúra ofusque a visão popular, produzindo, após o choque passageiro das más notícias, uma restauração da confiança inicial jamais merecida.

Em 2 de julho de 2005

Os Construtores Do Abismo

2 de agosto de 2007 | Diário do Comércio

A experiência me ensinou que, quando uma situação se torna confusa e incompreensível ao ponto de ter algo de sinistro, não se deve ir logo jogando a culpa no diabo antes de averiguar se não houve alguma mentira humana na origem da mixórdia toda. Como é da natureza da mentira ocultar-se a si própria, depois ocultar a ocultação e por fim apagar da memória todos os rastros da sua origem, não existe mentira isolada: há uma progressão geométrica de falsificações e aquilo que parecia uma toca de coelho acaba por se tornar uma cratera imensa, um abismo insondável.

Não que o diabo não tenha participação nenhuma na coisa, mas às vezes todo o seu trabalho consiste em inspirar a mentirinha inicial, deixando o resto da arquitetura abissal por conta da estupidez humana.

No caso brasileiro, a mentira começou com o silêncio da mídia em torno da existência do Foro de São Paulo. Quando dezenas de governantes, ministros de Estado, líderes guerrilheiros e chefes de gangues de narcotraficantes se reúnem em lugares anunciados de antemão e milhares de repórteres usualmente orgulhosos de seus dons investigativos não têm a mínima curiosidade de saber do que eles estão falando, a hipótese da mera coincidência de omissões preguiçosas deve ser afastada in limine como violação da lei das probabilidades. É claro, é patente, é insofismável que a classe jornalística e os donos de empresas de mídia, assim como todos os políticos de esquerda, são cúmplices conscientes do segredo. Mas, quando o segredo se desenvolve em proteção ostensiva dada pelas autoridades aos técnicos de guerrilha que treinam e dirigem quadrilhas de delinqüentes para a matança anual de cinqüenta mil pessoas, a manutenção da mentira e sua transformação em dogma se tornam necessidades absolutas para todos os envolvidos. Se os farsantes decidirem voltar atrás e revelar o que ocultavam, terão de assumir sua parcela de culpa em crimes inumeráveis. A culpa está aí, latente, e é preciso enterrá-la ainda mais fundo do que o fato inicial que lhe deu origem. Para isso é preciso falsificar toda a vida nacional, induzir a população inteira a viver uma situação hipotética, construída postiçamente como cenário real da sua vida. Não é de espantar que, nessas circunstâncias, o medo, a raiva e as suspeitas espouquem por toda parte, num festival de recriminações anárquicas que voam em todas as direções sem jamais acertar o alvo.

O fato é que não há praticamente, entre as lideranças nacionais – políticas, militares, empresariais, culturais e jornalísticas –, uma única que não carregue alguma dose de culpa por esse estado de psicose nacional. As exceções se tornam tanto mais honrosas quanto mais isoladas e, por isso mesmo, ineficazes no conjunto. Mesmo a voz possante da Associação Comercial de São Paulo acaba sendo abafada pela mais portentosa orquestra de falsificações e desconversas que já estreou no palco da loucura nacional. Nunca, na história do mundo, uma rede tão coesa de mentiras e omissões se manteve imune por tanto tempo às investidas da verdade, persistindo na obediência a um pacto diabólico a despeito das conseqüências catastróficas que ele dissemina. Nunca o apego à mentira foi tão geral e obstinado, nunca a persistência na farsa foi tão longe na sua disposição de encobrir seus próprios crimes com o sangue dos inocentes.

As elites falantes deste país, na sua quase totalidade, são criminosas até à medula. Não há castigo que não mereçam. O sofrimento brasileiro está apenas começando.

Em 2 de agosto de 2007

Eurasianismo E Genocidio

19 de junho de 2014 | Folha de São Paulo

Não é muito difícil entender que uma ideologia voltada à reconstrução de um dos impérios mais sangrentos de todos os tempos acabará, mais dia menos dia, revelando a sua própria índole cruel e homicida.

Estudantes da Universidade Estatal de Moscou estão exigindo a demissão do prof. Alexandre Duguin por ter defendido, desde o alto da sua cátedra, a matança sistemática dos ucranianos, que segundo ele não pertencem à espécie humana. “Matem, matem, matem”, disse ele. “Não há mais o que discutir. Digo isso como professor.”

A declaração integral e exata está aos 17m50s deste vídeo:

http://goo.gl/YSjcB3 O Império Eurasiano tal como o concebem Alexandre Duguin e seu principal discípulo, o presidente Vladimir Putin, é uma síntese da extinta URSS com o Império tzarista. Como a teoria que fundamenta o projeto é por sua vez uma fusão de marxismo-leninismo, messianismo russo, nazismo e esoterismo, e como dificilmente se encontra no Ocidente algum leitor que conheça o suficiente de todas essas escolas de pensamento, cada um só enxerga nela a parte que lhe é mais simpática, comprando às cegas o resto do pacote.

Os saudosistas do stalinismo veem nela a promessa do renascimento da URSS. Conservadores aplaudem o seu moralismo repressivo soi disant religioso. Velhos admiradores de Mussolini e do Führer apreciam a sua concepção francamente antidemocrática do Estado, bem como seu desprezo racista pelos povos destinados à sujeição imperial.

Esoteristas, seguidores de René Guénon e Julius Evola, julgam que ela é a encarnação viva de uma “metapolítica” superior, incompreensível ao vulgo, mais ou menos como aquela que é descrita pelo romancista (e esoterista ele próprio) Raymond Abellio, em La Fosse de Babel. Muçulmanos acabam às vezes aderindo ao projeto por conta do seu indisfarçado e odiento anti-ocidentalismo, na vaga esperança de utilizá-lo mais tarde como trampolim para a criação do Califado Universal, que por sua vez os “eurasianos” acreditam poder usar para seus próprios fins.

Não seria errado entender o eurasianismo como uma sistematização racionalizada do caos mental internacional. Neste sentido, sua unidade essencial não pode ser buscada no nível ideológico, mas na estratégia de conjunto que articula num projeto de poder mundial uma variedade de discursos ideológicos heterogêneos e, em teoria, conflitantes.

Não se deve pensar, no entanto, que esse traço definidor é único e original. Ao contrário do que geralmente se imagina, todos os movimentos revolucionários, sem exceção, cresceram no terreno fértil da confusão das línguas. O eurasianismo só de destaca dos outros por cultivar, desde a origem, uma consciência muito clara desse fator e, portanto, um aproveitamento engenhoso do confusionismo revolucionário.

Qualquer que seja o caso, o uso da violência genocida como instrumento de ocupação territorial está tão arraigado nos seus princípios estratégicos que, sem isso, o projeto inteiro não faria o menor sentido.

Essa obviedade não impede, no entanto, que cada deslumbrado do eurasianismo continue vendo nele só aquilo que bem entende, tapando os olhos para as partes desagradáveis. Se milhões de idiotas fizeram isso com o marxismo durante um século e meio, recusando-se a enxergar o plano genocida que ele trazia no seu bojo desde o princípio – e explicando “ex post facto” os crimes e desvarios como meros acidentes de percurso – , por que não haveriam de dar uma chance ao mais novo e fascinante estupefaciente revolucionário à venda no mercado?

A propósito do xingamento coletivo à Sra. Dilma Rousseff, que tanto indignou o ex-presidente Lula e o levou abrir guerra contra os que “não sabem do que somos capazes”, coloquei na minha página do Facebook estas duas notinhas, que se tornaram imediatamente virais e que acho oportuno reproduzir aqui:

(1) O governo petista habituou a população a desrespeitar tudo – a ordem, a família, a moral, as Forças Armadas, a polícia, as leis, o próprio Deus. Se esperava sair ileso e ser aceito como a única coisa respeitável no meio do esculacho universal, então é até mais louco do que parece.”

O Tamanho Do Crime

19 de fevereiro de 2009 | Diário do Comércio

O estudo mais completo já empreendido sobre assassinatos em massa no mundo é o do professor de Ciência Política da Universidade do Havaí, Rudolph J. Rummel, que lhe rendeu o Lifetime Achievement Award da American Political Science Association em 1999. O essencial da pesquisa é resumido em Never Again: Ending War, Democide & Famine Through Democratic Freedom (Coral Springs, FL, Lumina Press, 2005), e os dados completos estão no site http://www.hawaii.edu/powerkills . Rummel substituiu ao conceito de “genocídio”, que lhe parece muito vago, o de “democídio”, com o qual designa especificamente a matança de populações civis por iniciativa de governos. Resenhando os episódios de democídio documentados desde o século III a.C. até o fim do século XIX, ele chega a um total aproximado de 133.147.000 vítimas, destacando-se aí, como supremos assassinos em massa, os imperadores chineses (33.519.000 mortos em 23 séculos) e os invasores mongóis na Europa (29.927.000 mortos entre os séculos XIV e XV).

Quando a pesquisa chega ao século XX e entram em cena os governos revolucionários, as taxas de assassinato em massa sofrem um upgrade formidável, subindo para 262 milhões de mortos entre 1900 e 1999 – quase o dobro do que fôra registrado em toda a história universal até então. Desses 262 milhões, nem tudo, é claro, foi obra de governos revolucionários, mas a diferença entre eles e seus concorrentes é significativa. Todos os colonialismos somados (Inglaterra, Portugal, etc.) mataram 50 milhões de pessoas, das quais pelo menos 10 milhões foram assassinadas por um só governo proverbialmente cruel, o do Rei Leopoldo da Bélgica. O império japonês, por seu lado, matou aproximadamente 5 milhões, quase todos na China.

Vejam agora o desempenho dos governos revolucionários: China, 76.702.000 mortos entre 1949 e 1987; URSS, 61.911.000 mortos entre 1917 e 1987; Alemanha nazista, 20.946.000 mortos entre 1933 e 1945; China nacionalista (Kuomintang) 10.075.000 mortos entre 1928 e 1949 (o Kuomintang, embora inimigo dos comunistas, era também um governo revolucionário, responsável pela destruição da mais antiga monarquia do mundo). Às sete dezenas de milhões de vítimas do governo comunista chinês devem se acrescentar 3.468.000 civis assassinados pelo Partido Comunista de Mao Dzedong nas áreas sob o seu controle antes da tomada do poder sobre toda a China, o que eleva o desempenho do comunismo chinês a nada menos de 80 milhões de mortos – equivalente à metade da população brasileira.

Governos revolucionários em áreas menores também não se saíram tão mal, comparativamente à modéstia de seus territórios: Camboja, 2.035.000 mortos entre 1975 e 1979; Turquia, 1.883.000 mortos entre 1909 e 1918; Vietnam, 1.670.000 mortos entre 1945 e 1987 (quase o dobro do total de vítimas da guerra, que renderam aos EUA tantas críticas da mídia internacional); Polônia, 1.585.000 mortos entre 1945 e 1948; Paquistão, 1.503.000 mortos entre 1958 e 1987; Iugoslávia sob o Marechal Tito (tão louvada como alternativa de “socialismo democrático” à brutalidade soviética), 1.072.000 mortos entre 1944 e 1987; Coréia do Norte, 1.663.000 mortos entre 1948 e 1987; México, 1.417.000 mortos entre 1900 e 1920 (especialmente cristãos).

O total sobe a aproximadamente 205 milhões de mortos. Tudo ao longo de um só século. As duas guerras mundiais somadas mataram 60 milhões de pessoas, entre combatentes e civis. A Peste Negra, de 541 até 1912, matou 102 milhões. Nada, absolutamente nada no mundo se compara ao instinto mortífero dos governos revolucionários. A promessa de um “outro mundo possível” transformou-se no mais letal pesadelo que a humanidade já viveu ao longo de toda a sua história. Aristóteles já dizia que a essência da tragédia política é quando o perfeito se torna o inimigo do bom, mas ele se referia somente a casos individuais. Ele não poderia prever que um dia sua definição teria uma confirmação sangrenta em escala mundial, arrastando povos inteiros para os pelotões de fuzilamento, as câmaras de gás e a vala comum.

Em 19 de fevereiro de 2009

Professores

19 de agosto de 2013 | Diário do Comércio

No debate da TV Futura com o intelectual católico Sidney Silveira, talento que merecia adversários bem melhores, um sr. Ricardo Figueiredo de Castro, professor de História Contemporânea na UFRJ, deu um show de ignorância à altura do que é de se esperar da classe universitária hoje em dia, enquanto seu colega Paulo Domenech Onetto, professor de Filosofia Política na mesma instituição, preferiu caprichar na baixeza e na mendacidade, como seria mais próprio de um ministro de Estado.

O primeiro, com aquele olhar de tranquilidade soberana que dá a qualquer um os ares de uma tremenda autoridade científica, assegurou que “os conservadores de hoje em dia, como os do século 19, tendem a pensar o processo histórico desde uma perspectiva rígida, formalista, que não aceita a mudança”.

Sei o quanto é injusto exigir que um professor universitário atual conheça alguma coisa, mas, se esse professor conhecesse ao menos a história da disciplina que leciona, saberia que o senso do tempo, da história e da mutabilidade foi introduzido no pensamento europeu por historiadores e intelectuais conservadores, em reaçãoà ideia dos revolucionários de 1789 que, inspirados na física newtoniana, acreditavam numa sociedade moldada segundo os cânones universais e imutáveis da Razão.

Os nomes de Georg W. F. Hegel, Edmund Burke, François-René de Chateaubriand, Leopold von Ranke e, mais tarde, os de Jacob Burckhardt e Hippolyte Taine, deveriam bastar – para quem os leu, o que não é o caso – para eliminar qualquer dúvida a respeito.

Já entre os revolucionários, nem mesmo em Karl Marx aparece claramente o senso da “mudança como algo inerente ao processo histórico”, para usar os termos do prof. Figueiredo, já que a visão marxista da história é a de um processo predeterminado por leis tão imutáveis quanto as de Newton, caminhando de fatalidade em fatalidade até desembocar no socialismo.

A elevação da “mudança” às alturas de mito abrangente e força universal soberana não aparece no pensamento ocidental moderno antes de Nietzsche, embora tenha tido alguns precursores nas fileiras do anarquismo e em alguns obscuros representantes da intelectualidade revolucionária russa pré-marxista.

Confiante na sua devota ignorância histórica, o referido sentenciou ainda que os conservadores “tendem a exagerar o papel dos políticos de esquerda na condução do processo de transformação, como se este fosse gerido por pequenos grupos de intelectuais e não algo que faz parte da dinâmica da sociedade”.

Ele deveria ter ensinado isso a Lênin, que zombava de todo “espontaneísmo”, como ele o chamava, e enfatizava mais que ninguém o papel da vanguarda revolucionária. Poderia também ter dado lições a Georg Lukács, para o qual a consciência de classe do proletariado não era sequer uma realidade presente, mas uma possibilidade abstrata a ser concretizada pela ação da elite. Poderia também passar uns pitos em Antonio Gramsci, para o qual a força criadora da revolução está acima de tudo na elite intelectual. Ou poderia escrever uma tese de que Lênin, Lukács e Gramsci foram conservadores.

É claro que na sociedade há processos de transformação espontâneos mesclados à ação planejada de grupos políticos. Já disse aqui que a distinção meticulosa desses fatores, bem como a análise das suas múltiplas relações e interfusões é a chave de toda narrativa histórica decente.

Mas quererá o prof. Figueiredo dizer que setenta milhões de chineses foram para o beleléu assim sem mais nem menos, por força da mera “dinâmica da sociedade”, sem que alguém no topo do governo ordenasse a sua extinção? Quer dizer que 20 milhões de russos foram morrer no Gulag levados por forças impessoais e anônimas e não por um decreto oficial?

Quer dizer que 30 mil vítimas das Farc morreram porque estavam acidentalmente na direção de balas perdidas, e não porque a narcoguerrilha as matasse? Quer dizer que 17 mil cubanos foram fuzilados por acidente e não por ordem de Fidel Castro e Che Guevara? Quer dizer que 6 milhões de judeus pereceram no Holocausto por mera coincidência, sem que ninguém no governo alemão decidisse dar cabo deles? Quer ele ignorar que os acontecimentos de maior impacto desde o início do século 20 foram decisões fatais de elites governantes e grupos ativistas?

Pois já que ele acredita tanto no poder da mudança, deveria saber que a principal mudança histórica dos últimos 100 anos foi a criação de meios técnicos de ação que aumentam formidavelmente o poder das elites governantes e dos grupos ativistas bem financiados, reduzindo a população a um estado de inermidade patética.

O professor também disse que não vê “nenhuma animosidade contra os conservadores na universidade brasileira” e que “os comunistas nunca foram hegemônicos no PT”. Tsk, tsk, tsk.

Seu colega, o sr. Paulo Domenech Onetto, também tem algumas opiniões, mas não vêm ao caso. Na ânsia de dizer algo contra mim, afirmou, com ares de quem acreditava nisso, que tenho à minha volta um pelotão de guarda-costas eletrônicos, que barram o acesso à minha pessoa na internet, para me proteger de debates.

Novas Cartas A Epoca (2)

18 de novembro de 2001 | 16-18 de novembro de 2001

Estas são algumas das cartas enviadas à revista Época durante a semana passada. Não requerem o mínimo comentário, mas agradeço de coração a todos os remetentes. – O. de C.

______________________________________________________________ Prezados senhores, Fiquei impressionado ao ir comprar nessas semanas a revista e não encontrar lá o artigo do professor Olavo de Carvalho. Pensei no início tratar-se de mero problemas de editoração da revista o que por si só já seria impressionante), então a comprei de qualquer jeito. Foi apenas um dia depois que fui avisado que seus artigos iriam passar de semanais a mensais. Eu simplesmente não posso acreditar nisso. Primeiramente por motivos pessoais, já que já fui assinante da revista, e mesmo após ter expirado a assinatura da mesma continuei comprando-a regularmente meramente para ter acesso aos artigos de Olavo de Carvalho. Enquanto uma de suas principais concorrentes tem entre seus colunistas pensadores da envergadura de Stephen Kanitz, Diogo Mainardi, Gustavo Franco, entre outros, a revita Época, com a singela mas sempre brilhante análise de Olavo bastava para que eu optasse por sua compra. Em segundo lugar, por motivo de coragem da própria revista, que sempre vi como audaciosa e progressista ao disponibilizar textos tão polêmicos e agressivos como o do profesor Olavo, fugindo do status quo politicamente correto e pensamento cultural “main stream” em nosso país retrógrado. Não me parece que haja nenhuma razão lógica para esse comportamento, exceto duas coisas: covardia e submissão. Covardia ao se esquivar da responsabilidade de trazer a luz uma forma de pensar que é reiteradamente boicotada pela “intellgentzia” terceiro-mundista nacional. Submissão às pressões de grupos com muito pouco QI, mas muito interesse político e ideológico em jogo, do qual essa revista acaba se tornando mero peão. É muito triste e revoltante constatar que mesmo revisats de grande porte e respeitadas como Época possam se render a esse tipo de atitude. Com toda a sinceridade, espero que a revista não sofra em suas vendas e repercussão o prejuízo que certamente a falta de Olavo de Caravalho representa. O que, desde logo, duvido muito. Ao menos no que toca a mim, a Editora Abril tem mais motivos para festejar.

Sinceramente, Roberto Dala Barba Filho

Caro Olavo:

O objetivo desta é associar-me ao que diz o Sr. José Nivaldo Cordeiro em artigo publicado em seu “site”, com o título “A voz do trovão”, leituras recomendadas – 81, de 6 de novembro passado. Cumpre-me lembrar que os atuais responsáveis por “Época”, há pouco tempo, o eram por “Zero Hora” de Pôrto Alegre. Na ocasião, um leitor cujo nome não lembro, reclamou, na seção “sobre ZH”, das repetitivas colunas do Sr. Lula da Silva no referido jornal. Obteve como resposta, que os artigos do Lula eram um contraponto (sic), aos de Roberto Campos. Acontece que, pouco depois, adoeceu Roberto Campos, e, Zero Hora, como contraponto ‘a Lula, por muito tempo, publicava na mesma edição, artigos de Olívio Dutra, Tarso Genro, Miguel Rossetto e Tutti Quanti . Sem outro particular, com minha admiração envio o meu abraço Hermes Silva Pinto Uruguaiana RS hspinto@bnet.com.br

Prezados senhores, Venho somar o meu ao (felizmente) grande número de protestos pela redução do espaço reservado a Olavo de Carvalho na revista Época . Se o número de expoentes do pensamento liberal neste País é mínimo, o número de seus ouvintes atentos é elevado. Manifesto meu repúdio diante desta infeliz decisão de conceder ao filósofo Olavo de Carvalho uma participação meramente simbólica de um único artigo por mês. Prefiro acreditar que não se trata de censura pelas suas opiniões. Se, contudo, for esse o caso, pior para vocês. Acabaram de perder um potencial comprador ou assinante da revista – até então eu a acompanhava pelo site e cogitava, cada vez mais, em passar a adquiri-la. Seu principal atrativo para mim era justamente o colunista cujo espaço os senhores acabaram de mutilar. Aguardo a revisão dessa decisão.

Felipe Augusto Trevisan Ortiz São Caetano do Sul, SP felipeortiz@directnet.com.br

Senhor editor, Descobri, recentemente, que a maré vermelha, sorrateira para os cegos e detestável para os que usam seus olhos para realmente ver, chegou aos nossos lares. Não nos atingindo propriamente, mas fechando (a força) nossos olhos e aquele que nos ensinava a ver. O que a Revista Época fez, foi um golpe fulminante na sociedade, pois as pessoas que tem acesso à sua leitura são formadores ou “difundidores” de opinião, o que nos indica que uma grande quantidade de pessoas que eram “atingidas” pelos conhecimentos de Olavo de Carvalho direta ou indiretamente também foram atingidas. É com muita tristeza que declaro-me órfão, como todos os outros que esta maré atingiu e atingirá futuramente.

Luigi R. F. Flores Castro, PR kuda@convoy.com.br

Senhor Editor, Acho que tenho uma boa solução para o “problema” da coluna de Olavo de Carvalho: que tal contratar como articulista para Época um intelectual de esquerda que tenha a capacidade de contra-argumentar Olavo? Tenho certeza que nós os leitores é que sairíamos ganhando. Mas há um problema: acho dificílimo que tal pessoa seja encontrada, ou mesmo que exista — pelo menos entre a massa acadêmica que forma o imbecil coletivo — e tenho certeza que V.Sa por saber disso é que lançou mão de tão baixo expediente: diminuir em 3⁄4 o espaço do filósofo nesse periódico. Sabendo como isso vai acabar – V.Sa não encontrará tal gigante que faça frente ao outro gigante e este deverá perder também sua coluna mensal – só me resta deixar de reservar meu exemplar semanal de Época com meu jornaleiro e solidarizar-me com Olavo de Carvalho, lembrando a ele o que disse Millôr Fernandes ao sair de O Cruzeiro: o navio está abandonando os ratos.

Atenciosamente, Paulo Sérgio Escóssio paulo.vieira@trf1.gov.br

À Revista Época:

Só vim a saber de um certo rodízio de articulistas que torna mensais os brilhantes artigos do Filósofo Olavo de Carvalho e da indignação resultante dessa decisão através da página desse autor na Internet, pois sou assinante de Veja e não leio Época. Pretendia fazer um esforço (já que ler as duas publicações toda semana tomaria muito de meu tempo) para também assinar Época ao final do ano, como forma de prestigiar uma publicação que tem a coragem de dar divulgação ao trabalho de Olavo de Carvalho. Pretendia.

Os textos de Olavo de Carvalho permitem a cada vez mais rara experiência de acesso a idéias não comprometidas com o avanço esquerdista e com a repetição monótona de distorções e chavões ridículos sobre a história e a sociedade atual. Seu trabalho é uma luz animadora nessa triste “época” em que o anormal e o ilegal são tolerados em nome de ideologias massacrantes e fanatizantes.

Óbvio que não faz diferença para Época perder este leitor (em potencial) ou tantos outros, mas é lamentável que o cerco esquerdista à informação tenha chegado ao ponto da censura. Época pode não tê-lo feito deliberadamente, mas se é inconsciente das implicações de suas decisões, ainda mais alarmante é a posição da revista, pois denota desconhecimento do que se passa. Peço que a revista reconsidere sua decisão e volte a publicar semanalmente os artigos de Olavo de Carvalho, que mereceria até mais espaço, pois não lhe faltam talento, conhecimento, inspiração e perspicácia.

Atenciosamente, Alceu Dias de Oliveira alcdias@terra.com.br

Caro sr. Olavo de Carvalho:

Escrevo-lhe para manisfestar minha admiração por sua obra e pela verdadeira missão que o sr. tem exercido no sentido de ser a águia do bom senso. Se houve a Águia de Haia, o sr. pelo menos já é a Águia de Campinas! E também para apoiar-lhe quanto à censura por demais covarde de que foi vítima na revista Época, que certamente merece uma queda nas vendas por tal ato que só merece repúdio de todos. Muito sucesso nessa sua trilha brilhante! Álvaro Gomes dos Reis Neto agrn@hotmail.com

Caro Olavo, Não seria mais correto escrever “madrassa” ? Tenho-lhe enviado dicas ou comentários que mando para meus amigos.Tenha certeza que não envio-lhe nada automaticamente. Imagino que receba grande quantidade de correspodência por e-mail a cada dia, envio apenas o q talvez possa interessar-lhe. Lamentoque deixe de difundir tão boas idéias na Época. Acho que o público é heterogêneo demais e uma variação de temas, até para mostrar a muitos o quanto é capaz de discutir assuntos os mais diversos, e, surpreênde-los, teria sido um bom recurso. Quanto a min, desde que tenho Internet há três anos, visito regularmente seu site, tendo impressas colunas que já nem estão mais online ( do JT). Continuo a visitá-lo e a acumular todos seus artigos, pex, nessa semana tive pouco tempo e houve muitos. Leio e, muitas vezes, releio. Os melhores votos, Sílvia Alves alves.@uai.em.com.br

Senhor editor, Estou muito decepcionado com Época, isto porque não encontro mais os inigualáveis artigos de Olavo de Carvalho, que eram meu principal interesse na revista inteira. Com a súbita e inexplicada decisão de suprimir a página semanal de que ele dispunha, os senhores fazem um desserviço à inteligência nacional. Espero que ponderem um pouco mais sobre o assunto e devolvam a Olavo de Carvalho o espaço que habitualmente ocupava. Respeitosamente, Henri Carrières Rio de Janeiro, RJ hcarrieres@hotmail.com

Prezado Olavo de Carvalho, Não pude deixar de notar em sua Home Page as manifestações de alguns de seus leitores, a respeito da diminuição de suas colunas semanais da rev. Época. Faço minhas as palavras deles. Confesso que fiquei muito surpreso e indignado. Deixo aqui registrada, também, a minha mais profunda frustação de leitor assíduo e aprendiz. Eu tb, na última semana, registrei queixa junto à redação da revista. Não ́foi um grande ou brilhant manifesto, porém... foi mais um. Um forte abraço, André Frantz Porto Alegre – RS rocker77@terra.com.br

Senhor editor, Gostaria de saber o motivo da redução das colunas semanais do professor Olavo de Carvalho. Assino a revista Época justamente por motivo de tais colunas.

Quero continuar lendo-as semanalmente..

Aguardo resposta. Atenciosamente, André Frantz rocker77@terra.com.br Caro André, Obrigada pelos envios de seus comentários. Olavo de Carvalho terá os seus artigos publicados uma vez por mês, porque resolvemos abrir espaço em Época para outras idéias e visões de mundo.

Esperamos continuar com a sua atenção e participação.

Um abraço, A Redação epoca@edglobo.com.br

Caro Editor:

Não consigo acreditar que a revista Época faz calar a única voz que, de fato, nos defende desta mídia brasileira Stalinista !

A sua substituição por uma professora “vermelha” e irresponsável da USP, central de propaganda do PT, me faz sentir duplamente agredido. Uma representante da vil classe marxista dos professores universitarios que, em conjunto com uma mídia sem escrupulos insiste, ainda hoje, em defender o comunismo, o regime que mais assassinou seres humanos em todos os tempos.

Espero que o genial Olavo de Carvalho volte às páginas da revista Época SEMANALMENTE, como acontecia antes desta esdrúxula decisão.

Sou assinante de Veja e à tempos venho pensando em tambem assinar a revista Época mas, confesso que, sem a coluna SEMANAL do Olavo de Carvalho, meu principal motivo para a compra e leitura desta revista, fico seriamente inclinado à desistir desta idéia.

Com muito pesar pelo acontecido, espero, insisto em dizer, o retorno da brilhante mente do Professor Olavo à página central de Época.

Luiz Gentil Junior lgentil@daterranet.com.br

Senhores, Quero manifestar meu pesar pela infeliz idéia de reduzir os artigos de Olavo de Carvalho nessa revista. Era um indicador de qualidade e liberdade de expressão que se perderá, assim como perderão muitos leitores que, como eu, a adquiriam no domingo certos de ler algo original e acima da mediocridade costumeira. Como falta de interesse e de repercussão dos artigos certamente não é, resta a hipótese de concessão ao habitual patrulhamento. Lamentável! Perde a revista e perdemos todos. Atenciosamente, Antonio Roberto Batista arbc@uol.com.br

Senhor editor, “Frutos de mentes raivosas, destemperadas e sem real percepção da realidade que as cercam”, é o que venho observando nos escritos de articulistas de última hora, intelectualóides de meia tigela dos redutos esquerdosos, como a autora desse texto, por exemplo. É mais fácil projetar no outro, aquilo que não queremos que saibam que temos em nós. A professora uspiana não percebe que faz parte (ou faz com muito prazer) do Imbecil Coletivo, que continua a repetir o velho discurso da inteligentzia esquerdosa e emburrecedora, com chavões e conceitos completamente ultrapassados e desprovidos de sentido. Essa casta de gente já não sabe mais distinguir quem é vítima e quem é réu. A revista Época perdeu enormemente ao trocar o grande Filósofo Olavo de Carvalho, por uma mera palpiteira de botequim que, ela sim, odeia tudo que vem dos americanos, seja o que for, tenham eles razão ou não. Seu artigo não faz uma análise lúcida dos fatos que vêm ocorrendo nesse episódio de guerra, mas apenas reforça o coro dos estupradores de mentes e consciências, num processo bem articulado e maléfico de lavagem cerebral, orquestrado pelas esquerdas do mundo inteiro. E de tanto repetir a mesma mentira, eles acabam acreditando que falam a verdade mais absoluta, num processo de preservação da “espécie”. Meus pêsames à Época que foi, há não muito tempo atrás, a melhor revista informativa semanal. Hoje, ela mal serve para embrulhar o peixe comprado na mercadinho mais próximo.

Graça Salgueiro irinna@terra.com.br

Sr.Diretor de Redação, É um ato de insensatez reduzir o espaço do filósofo Olavo de Carva- lho, que muito ajudou ( e ajuda ) a consolidar o prestígio de Època, por ter ele apontado o atual ministro da Justiça, Aluysio Nunes Ferreira, como ex-terrorista envolvido na luta armada e “expropiações bancárias” – coisa que, de resto, o ministro não contesta e todo leitor consciente, à direita ou esquerda, sabe. Por outro lado, reduzir o espaço do filósofo e não reduzir, por exemplo, o de Zuenir Ventura, um tradicional “quadro” da esquerda na imprensa, demonstra claramente aos leitores da revista que o novo diretor de redação acionou – “estrategicamente” – o dispositivo da censura ideológica – o que em jornalismo só leva ao descrédito, arbítrio e repúdio dos leitores. O espantoso de tudo é que Época e O Globo são orgãos historicamente comprometidos com a democracia política e econômica (pois vive delas) e, no caso de O Globo, com a figura histórica de Roberto Marinho, ligado por um hífen a luta contra qualquer forma de totalitarismo. Estou tomando a providência de não mais comprar nas bancas a revista Época até que o ato de pura violência e discriminação contra a liberdade de expressão seja revisto. E de hoje em diante, sempre que possível, citarei nos meus escritos e palestras Época como exemplo de revista que exerce a censura ideológica contra os seus colaboradors mais capazes. Cordialmente, Ipojuca Pontes brandwain@uol.com.br

Senhor editor, Lamentável o fato da exclusão do Prof. Olavo de Caravalho da coluna semanal da revista. Infindas palavras tácitas ficam na atmosfera deste feito, e a nudez visceral que para os Senhores, a democracia não transcende as letras dos manuais de ética jornalística. Cordialmente, Rafael Gustavo Santos Vieira rafaelgu@brfree.com.br

Prezados Srs, Causou-me espanto a nao publicacao do ultimo artigo de Olavo de Carvalho. Qual o motivo? Contando com sua pronta resposta, Marilia Tavares chez_moi@hotmail.com

Prezado Marilia, Agradecemos o envio de sua mensagem. Seus comentários foram transmitidos ao editor. Os artigos de Olavo de Carvalho serão publicados uma vez por mês. Esperamos continuar contando com a sua atenção e participação.

Um abraço, A Redação epoca@edglobo.com.br

Senhor redator, Por que? Se eram tao bons e imperdiveis? Obrigada pela atencão.

Marilia Tavares chez_moi@hotmail.com

Senhor Editor:

Dirigimo-nos a essa prestigiada revista para estranhar a ausência dos artigos do Prof Olavo de Carvalho, ultimamente, em suas páginas. Motivados pelo costume e pela necessidade de ler as lúcidas e precisas colocações do Professor, solicitamos que sua publicação não volte a ser interrompida, o que traria um enorme vácuo ao ambiente intelecto- cultural do país, já insuportavelmente árido, medíocre e monocórdio Atenciosamente, AbelMonteiro Porto Alegre RS kero500@terra.com.br Caro Abel, Agradecemos o envio de sua mensagem. Os artigos de Olavo de Carvalho serão publicados uma vez por mês. Esperamos continuar contando com a sua atenção. Um abraço, A Redação epocaleitor@edglobo.com.br

Prezados Senhores:

Foi justamente essa a estranheza que assinalei: vocês cortaram 75% do espaço do OC, e nós ficamos privados de 75% de suas opiniões. Não haveria uma maneira de voltarem a lhe conceder a periodicidade semanal ? A “intelligentsia” brasileira agradeceria.

Saudações patrióticas, Abel Monteiro kero500@terra.com.br

Prezado Olavo, Mais uma vez para cumprimentá-lo, não só pelo artigo de hoje “Diagnóstico” publicado no Globo , como pela idéia de reproduzir em sua homepage algumas das incontáveis cartas endereçadas a você e à Redação de Época, em virtude da censura que lhe foi imposta pelo novo Diretor daquela Revista. A destacar é que tais manifestações não foram sequer mencionadas na seção de Cartas dos Leitores da referida revista. Ou seja , a censura é mesmo para valer. Aliás, seu artigo de hoje retrata com perfeição essa realidade que nos está sendo imposta. Nossa esperança é que eles venham a tropeçar nas próprias pernas daquí mais um pouco, como nos revela aquela passagem de Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (3,19) ” pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia”.

Um forte abraço Carlos Scheliga cbs@ajato.com.br

Caros Senhores, Estava exatamente aguardando o final de minha assinatura da revisa VEJA, previsto para o próximo mês, para, transferi-la para ÉPOCA, quando, estarrecido, constatei que os senhores também são ingênuos (?) censuradores bolcheviques. Reduzir a participação do colunista Olavo de Carvalho, cujos textos acompanhava semanalmente com a compra de exemplares avulsos, reduzirá os lucros da revista mas, no seu entender, os fins justificam os meios, não é mesmo? Serei cristalino: como formadores de opinião, o que lhes interessa é acabar logo com essa ensebação e ajudar a promover de vez a tão esperada revolução comunista. Acaso passou-lhes pela cabeça qual o papel que essa revista e quase toda a mídia nacional, que ainda exercem alguma função “social” orientadora, desempenhariam sob um regime onde a orientação social é sempre ditada pela “ditadura militar” de plantão? E o que farão então? Levantarão barricadas em favor da democracia? Esse tipo de idealismo inconseqüente já custou cerca de 100 milhões de vidas em um século. Quantos brasileiros terão que ser sacrificados até que percebam que o sonho não pode ser realizado? Sinceramente... mesmo, Walmor Grade wgrade@onda.com.br

Caro Olavo de Carvalho, Gostaria de expressar toda a minha solidariedade e adimiração por você que, sendo uma voz única no cenário cultural brasileiro, foi praticamente “censurado” pelos veículos de comunicação “globais” nos quais, por milagre, tinha algum espaço. Confesso que já imaginei que isso iria, mais cedo ou mais tarde, acontecer, vindo de um conglomerado que, entre outras coisas, fez propaganda explícita do MST na novela “O Rei do Gado”, do comunismo nos seriados “Hilda Furacão” e “Anos Rebeldes” e do anarquismo na novela “Terra Nostra”, além de empregar em seus estúdios e redações gente da pior qualidade, entre eles antigos bandidos e terroristas. Você é para nós brasileiros uma referência única nesse tempo dominado por professorinhas comunistas. Não desanime e continue a escrever seus artigos, mesmo que não venha a ter como publicá-los na mídia. A Internet é um magnífico meio de divulgação de idéias e, confesso, é através dela e não de nenhum meio de comunicação “usual” que desfruto periodicamente de seus escritos. Um abraço, Rodrigo Tassara Belo Horizonte MG rod.bhz@zaz.com.br

Prezado Olavo, Os seus artigos não são mais publicados na Época? Porque? Será que houve censura?

Desde já obrigado pela sua atenção.

Hamilton Coragem coragem@uol.com.br

Prezado Professor Olavo de Carvalho, Encaminho ao senhor as mensagens trocadas entre um meu amigo, Miguel, e o novo diretor da Revista Época, “jornalista preocupado com a democracia, o pluralismo e o confronto de idéias”. Um abraço, Amílcar Nadu paulofrancis@hotmail.com

Caro Senhor Editor, Como sempre acompanhei suas reportagens desde a época em que o senhor trabalhou na Veja até na Gazeta Mercantil, não fiquei surpreso com o seu gesto de reduzir a participação do professor Olavo de Carvalho em sua equipe. Afinal, sei que o senhor é um jornalista de formação socialista “light”, tipo arquetípico da esquerda que, no plano político, está muito bem encarnado em figuras como Blair, Clinton e Gore.

Apesar disso, insisto em protestar que isso não deixa de ser lamentável, pois mostra que o senhor, ao invés de evoluir em sua formação intelectual, regrediu.

A única coisa boa nisso tudo é que, agora, pelo menos alguns amigos meus vão economizar mais, pois só precisarão comprar a revista uma vez por mês.

Saudações de um ex-admirador.

Miguel Gustavo Lopes Kfouri miguelgustavolopes@zipmail.com Caro Miguel, Quem acompanha minha trajetória profissional sabe que sempre fui um jornalista preocupado com a democracia, o pluralismo e o confronto de idéias. Creio que ninguém tem o monopólio da verdade nem o direito exclusivo a expressar sua opinião. Por isso, resolvi abrir Época para outras idéias e visões de mundo. Acho que você só terá a ganhar se resolver conhecer outros olhares sobre velhos problemas.

Paulo Moreira Leite diretor de Redação

Prazado Olavo de Carvalho, Puxa, diante de todas essas mensagens estou até pensando em acrescentar um ps de 50 parágrafos ao e-mail que mandei pra redação da Época: “Ele incomoda, né?”. Muito obrigado por tudo, professor. Que Deus o abençoe (e ainda te vejo católico!) e aos seus.

Alexandre Ramos da Silva alexandrers@convoy.com.br

Caro Olavo, Não vi nas duas últimas semanas sua coluna na Época.Imagino que os totalitaristas tenham conseguido acabar com uma das últimas cidadelas da inteligência e da liberdade.Lamento profundamente.Mandei uma cartinha para eles, que anexo. Abraço.

Bem, demorou mas a Opinião acabou na revista Época também: a fantástica máquina de propaganda do esquerdismo brasileiro derrubou Olavo de Carvalho e instalou no seu lugar uma de suas mais representativas ativistas. É a marcha da insensatez burra exatamente no sentido contrário da História. Que tal pôr Fidel Castro aí, como colunista, enquanto ele agüenta. Assim ele já vai dando in loco todas as instruções para a rapaziada transformar isto aqui em mais uma lata de lixo do esquerdismo de uma vez. Ou chamam alguém de Angola, Moçambique, Coréia do Norte, Vietnã, exemplos de outros brilhantes dos resultados do comunismo, para passarem suas experiências e maldizerem também os Estados Unidos, assim como a dona Maria Aparecida, por quem, pior, estão sendo conduzidas as cabeças da juventude, naUSP. Parabéns, vocês vão conseguir transformar tudo em... bem, não vale o palavrão. Pô, será que vocês não acordam?!

Sergio Storti Mestre em Ciências da Comunicação pela USP

Prezado Olavo, Indignada com o corte que a revista Época fez de seus artigos, também eu mandei uma mensagem à redação, e depois outra em resposta à que eles me mandaram. Aqui vão elas. Um forte abraço.

Procurei a Época desta semana somente para ler o artigo do Olavo de Carvalho, mas logo fiquei sabendo que ele não estava lá. Lamentável. Infelizmente serei obrigada a deixar de comprar a revista, já que sua maior contribuição para o leitor brasileiro eram justamente a lucidez e a absoluta franqueza do filósofo Olavo de Carvalho, sem o que o periódico perde todo o seu sentido. Espero que em breve possa ver novamente nosso maior filósofo nas páginas de Época.

Atenciosamente, Marli Nogueira Brasília DF themis14@uol.com.br

Senhor Editor, Tornei-me assinante de Época por apenas um motivo: a promoção que me daria a passagem aérea para qualquer capital do Brasil. Recebi a passagem, fiz uma bela viagem a Recife nas minhas férias. Estava concluído na minha opinião o meu interesse pela revista. Como a sssinatura estava paga, receberia os exemplares que tinha direito e depois cancelaria a assinatura. Mas acontece que sua revista prendeu o meu interesse de maneira muito forte, de tal forma que eu aguardava os exemplares com ansiedade e não deixava ninguém lê-los em casa antes de mim. O motivo de tamanho interesse? A coluna do filósofo Olavo de Carvalho. Ele é um homem brilhante, com um texto como há muito não se via no nosso jornalismo basal. E o que é mais importante, ele DIZ o que pensa, exibe claramente no peito a sua opinião política, o que é mais raro ainda na nossa mídia tendenciosa e ladina. Entrei na faculdade para fazer jornalismo e abandonei o curso nauseada com a falta de ética dos professores e dos profissionais da área. Olavo de Carvalho restaurou meu interesse pela leitura das publicações periódicas, mesmo que apenas em busca de artigos seus. Agora ele sumiu de Época. Hoje eu digo aos senhores: se Olavo de Carvalho foi excluído de sua revista, mesmo que os senhores me oferecessem uma passagem grátis para Paris, eu não renovaria minha assinatura. E estou pensando sériamente em cancelar o recebimento do resto do ano. A Editora Globo ao menos eu pensei que manteria um canal aberto com a opinião da maioria dos brasileiros (veja historicamente os resultados das eleições no Brasil). Senão por uma objetividade jornalística ao menos por um senso mercadológico.

Assunção Medeiros suemedeiros@gbl.com.br

Novas Cartas A Epoca

18 de novembro de 2001 | 16-18 de novembro de 2001

Estas são algumas das cartas enviadas à revista Época durante a semana passada. Não requerem o mínimo comentário, mas agradeço de coração a todos os remetentes. – O. de C.

______________________________________________________________ Prezados senhores, Fiquei impressionado ao ir comprar nessas semanas a revista e não encontrar lá o artigo do professor Olavo de Carvalho. Pensei no início tratar-se de mero problemas de editoração da revista o que por si só já seria impressionante), então a comprei de qualquer jeito. Foi apenas um dia depois que fui avisado que seus artigos iriam passar de semanais a mensais. Eu simplesmente não posso acreditar nisso. Primeiramente por motivos pessoais, já que já fui assinante da revista, e mesmo após ter expirado a assinatura da mesma continuei comprando-a regularmente meramente para ter acesso aos artigos de Olavo de Carvalho. Enquanto uma de suas principais concorrentes tem entre seus colunistas pensadores da envergadura de Stephen Kanitz, Diogo Mainardi, Gustavo Franco, entre outros, a revita Época, com a singela mas sempre brilhante análise de Olavo bastava para que eu optasse por sua compra. Em segundo lugar, por motivo de coragem da própria revista, que sempre vi como audaciosa e progressista ao disponibilizar textos tão polêmicos e agressivos como o do profesor Olavo, fugindo do status quo politicamente correto e pensamento cultural “main stream” em nosso país retrógrado. Não me parece que haja nenhuma razão lógica para esse comportamento, exceto duas coisas: covardia e submissão. Covardia ao se esquivar da responsabilidade de trazer a luz uma forma de pensar que é reiteradamente boicotada pela “intellgentzia” terceiro-mundista nacional. Submissão às pressões de grupos com muito pouco QI, mas muito interesse político e ideológico em jogo, do qual essa revista acaba se tornando mero peão. É muito triste e revoltante constatar que mesmo revisats de grande porte e respeitadas como Época possam se render a esse tipo de atitude. Com toda a sinceridade, espero que a revista não sofra em suas vendas e repercussão o prejuízo que certamente a falta de Olavo de Caravalho representa. O que, desde logo, duvido muito. Ao menos no que toca a mim, a Editora Abril tem mais motivos para festejar.

Sinceramente, Roberto Dala Barba Filho

Caro Olavo:

O objetivo desta é associar-me ao que diz o Sr. José Nivaldo Cordeiro em artigo publicado em seu “site”, com o título “A voz do trovão”, leituras recomendadas – 81, de 6 de novembro passado. Cumpre-me lembrar que os atuais responsáveis por “Época”, há pouco tempo, o eram por “Zero Hora” de Pôrto Alegre. Na ocasião, um leitor cujo nome não lembro, reclamou, na seção “sobre ZH”, das repetitivas colunas do Sr. Lula da Silva no referido jornal. Obteve como resposta, que os artigos do Lula eram um contraponto (sic), aos de Roberto Campos. Acontece que, pouco depois, adoeceu Roberto Campos, e, Zero Hora, como contraponto ‘a Lula, por muito tempo, publicava na mesma edição, artigos de Olívio Dutra, Tarso Genro, Miguel Rossetto e Tutti Quanti . Sem outro particular, com minha admiração envio o meu abraço Hermes Silva Pinto Uruguaiana RS hspinto@bnet.com.br

Prezados senhores, Venho somar o meu ao (felizmente) grande número de protestos pela redução do espaço reservado a Olavo de Carvalho na revista Época . Se o número de expoentes do pensamento liberal neste País é mínimo, o número de seus ouvintes atentos é elevado. Manifesto meu repúdio diante desta infeliz decisão de conceder ao filósofo Olavo de Carvalho uma participação meramente simbólica de um único artigo por mês. Prefiro acreditar que não se trata de censura pelas suas opiniões. Se, contudo, for esse o caso, pior para vocês. Acabaram de perder um potencial comprador ou assinante da revista – até então eu a acompanhava pelo site e cogitava, cada vez mais, em passar a adquiri-la. Seu principal atrativo para mim era justamente o colunista cujo espaço os senhores acabaram de mutilar. Aguardo a revisão dessa decisão.

Felipe Augusto Trevisan Ortiz São Caetano do Sul, SP felipeortiz@directnet.com.br

Senhor editor, Descobri, recentemente, que a maré vermelha, sorrateira para os cegos e detestável para os que usam seus olhos para realmente ver, chegou aos nossos lares. Não nos atingindo propriamente, mas fechando (a força) nossos olhos e aquele que nos ensinava a ver. O que a Revista Época fez, foi um golpe fulminante na sociedade, pois as pessoas que tem acesso à sua leitura são formadores ou “difundidores” de opinião, o que nos indica que uma grande quantidade de pessoas que eram “atingidas” pelos conhecimentos de Olavo de Carvalho direta ou indiretamente também foram atingidas. É com muita tristeza que declaro-me órfão, como todos os outros que esta maré atingiu e atingirá futuramente.

Luigi R. F. Flores Castro, PR kuda@convoy.com.br

Senhor Editor, Acho que tenho uma boa solução para o “problema” da coluna de Olavo de Carvalho: que tal contratar como articulista para Época um intelectual de esquerda que tenha a capacidade de contra-argumentar Olavo? Tenho certeza que nós os leitores é que sairíamos ganhando. Mas há um problema: acho dificílimo que tal pessoa seja encontrada, ou mesmo que exista — pelo menos entre a massa acadêmica que forma o imbecil coletivo — e tenho certeza que V.Sa por saber disso é que lançou mão de tão baixo expediente: diminuir em 3⁄4 o espaço do filósofo nesse periódico. Sabendo como isso vai acabar – V.Sa não encontrará tal gigante que faça frente ao outro gigante e este deverá perder também sua coluna mensal – só me resta deixar de reservar meu exemplar semanal de Época com meu jornaleiro e solidarizar-me com Olavo de Carvalho, lembrando a ele o que disse Millôr Fernandes ao sair de O Cruzeiro: o navio está abandonando os ratos.

Atenciosamente, Paulo Sérgio Escóssio paulo.vieira@trf1.gov.br

À Revista Época:

Só vim a saber de um certo rodízio de articulistas que torna mensais os brilhantes artigos do Filósofo Olavo de Carvalho e da indignação resultante dessa decisão através da página desse autor na Internet, pois sou assinante de Veja e não leio Época. Pretendia fazer um esforço (já que ler as duas publicações toda semana tomaria muito de meu tempo) para também assinar Época ao final do ano, como forma de prestigiar uma publicação que tem a coragem de dar divulgação ao trabalho de Olavo de Carvalho. Pretendia.

Os textos de Olavo de Carvalho permitem a cada vez mais rara experiência de acesso a idéias não comprometidas com o avanço esquerdista e com a repetição monótona de distorções e chavões ridículos sobre a história e a sociedade atual. Seu trabalho é uma luz animadora nessa triste “época” em que o anormal e o ilegal são tolerados em nome de ideologias massacrantes e fanatizantes.

Óbvio que não faz diferença para Época perder este leitor (em potencial) ou tantos outros, mas é lamentável que o cerco esquerdista à informação tenha chegado ao ponto da censura. Época pode não tê-lo feito deliberadamente, mas se é inconsciente das implicações de suas decisões, ainda mais alarmante é a posição da revista, pois denota desconhecimento do que se passa. Peço que a revista reconsidere sua decisão e volte a publicar semanalmente os artigos de Olavo de Carvalho, que mereceria até mais espaço, pois não lhe faltam talento, conhecimento, inspiração e perspicácia.

Atenciosamente, Alceu Dias de Oliveira alcdias@terra.com.br

Caro sr. Olavo de Carvalho:

Escrevo-lhe para manisfestar minha admiração por sua obra e pela verdadeira missão que o sr. tem exercido no sentido de ser a águia do bom senso. Se houve a Águia de Haia, o sr. pelo menos já é a Águia de Campinas! E também para apoiar-lhe quanto à censura por demais covarde de que foi vítima na revista Época, que certamente merece uma queda nas vendas por tal ato que só merece repúdio de todos. Muito sucesso nessa sua trilha brilhante! Álvaro Gomes dos Reis Neto agrn@hotmail.com

Caro Olavo, Não seria mais correto escrever “madrassa” ? Tenho-lhe enviado dicas ou comentários que mando para meus amigos.Tenha certeza que não envio-lhe nada automaticamente. Imagino que receba grande quantidade de correspodência por e-mail a cada dia, envio apenas o q talvez possa interessar-lhe. Lamentoque deixe de difundir tão boas idéias na Época. Acho que o público é heterogêneo demais e uma variação de temas, até para mostrar a muitos o quanto é capaz de discutir assuntos os mais diversos, e, surpreênde-los, teria sido um bom recurso. Quanto a min, desde que tenho Internet há três anos, visito regularmente seu site, tendo impressas colunas que já nem estão mais online ( do JT). Continuo a visitá-lo e a acumular todos seus artigos, pex, nessa semana tive pouco tempo e houve muitos. Leio e, muitas vezes, releio. Os melhores votos, Sílvia Alves alves.@uai.em.com.br

Senhor editor, Estou muito decepcionado com Época, isto porque não encontro mais os inigualáveis artigos de Olavo de Carvalho, que eram meu principal interesse na revista inteira. Com a súbita e inexplicada decisão de suprimir a página semanal de que ele dispunha, os senhores fazem um desserviço à inteligência nacional. Espero que ponderem um pouco mais sobre o assunto e devolvam a Olavo de Carvalho o espaço que habitualmente ocupava. Respeitosamente, Henri Carrières Rio de Janeiro, RJ hcarrieres@hotmail.com

Prezado Olavo de Carvalho, Não pude deixar de notar em sua Home Page as manifestações de alguns de seus leitores, a respeito da diminuição de suas colunas semanais da rev. Época. Faço minhas as palavras deles. Confesso que fiquei muito surpreso e indignado. Deixo aqui registrada, também, a minha mais profunda frustação de leitor assíduo e aprendiz. Eu tb, na última semana, registrei queixa junto à redação da revista. Não ́foi um grande ou brilhant manifesto, porém... foi mais um. Um forte abraço, André Frantz Porto Alegre – RS rocker77@terra.com.br

Senhor editor, Gostaria de saber o motivo da redução das colunas semanais do professor Olavo de Carvalho. Assino a revista Época justamente por motivo de tais colunas.

Quero continuar lendo-as semanalmente..

Aguardo resposta. Atenciosamente, André Frantz rocker77@terra.com.br Caro André, Obrigada pelos envios de seus comentários. Olavo de Carvalho terá os seus artigos publicados uma vez por mês, porque resolvemos abrir espaço em Época para outras idéias e visões de mundo.

Esperamos continuar com a sua atenção e participação.

Um abraço, A Redação epoca@edglobo.com.br

Caro Editor:

Não consigo acreditar que a revista Época faz calar a única voz que, de fato, nos defende desta mídia brasileira Stalinista !

A sua substituição por uma professora “vermelha” e irresponsável da USP, central de propaganda do PT, me faz sentir duplamente agredido. Uma representante da vil classe marxista dos professores universitarios que, em conjunto com uma mídia sem escrupulos insiste, ainda hoje, em defender o comunismo, o regime que mais assassinou seres humanos em todos os tempos.

Espero que o genial Olavo de Carvalho volte às páginas da revista Época SEMANALMENTE, como acontecia antes desta esdrúxula decisão.

Sou assinante de Veja e à tempos venho pensando em tambem assinar a revista Época mas, confesso que, sem a coluna SEMANAL do Olavo de Carvalho, meu principal motivo para a compra e leitura desta revista, fico seriamente inclinado à desistir desta idéia.

Com muito pesar pelo acontecido, espero, insisto em dizer, o retorno da brilhante mente do Professor Olavo à página central de Época.

Luiz Gentil Junior lgentil@daterranet.com.br

Senhores, Quero manifestar meu pesar pela infeliz idéia de reduzir os artigos de Olavo de Carvalho nessa revista. Era um indicador de qualidade e liberdade de expressão que se perderá, assim como perderão muitos leitores que, como eu, a adquiriam no domingo certos de ler algo original e acima da mediocridade costumeira. Como falta de interesse e de repercussão dos artigos certamente não é, resta a hipótese de concessão ao habitual patrulhamento. Lamentável! Perde a revista e perdemos todos. Atenciosamente, Antonio Roberto Batista arbc@uol.com.br

Senhor editor, “Frutos de mentes raivosas, destemperadas e sem real percepção da realidade que as cercam”, é o que venho observando nos escritos de articulistas de última hora, intelectualóides de meia tigela dos redutos esquerdosos, como a autora desse texto, por exemplo. É mais fácil projetar no outro, aquilo que não queremos que saibam que temos em nós. A professora uspiana não percebe que faz parte (ou faz com muito prazer) do Imbecil Coletivo, que continua a repetir o velho discurso da inteligentzia esquerdosa e emburrecedora, com chavões e conceitos completamente ultrapassados e desprovidos de sentido. Essa casta de gente já não sabe mais distinguir quem é vítima e quem é réu. A revista Época perdeu enormemente ao trocar o grande Filósofo Olavo de Carvalho, por uma mera palpiteira de botequim que, ela sim, odeia tudo que vem dos americanos, seja o que for, tenham eles razão ou não. Seu artigo não faz uma análise lúcida dos fatos que vêm ocorrendo nesse episódio de guerra, mas apenas reforça o coro dos estupradores de mentes e consciências, num processo bem articulado e maléfico de lavagem cerebral, orquestrado pelas esquerdas do mundo inteiro. E de tanto repetir a mesma mentira, eles acabam acreditando que falam a verdade mais absoluta, num processo de preservação da “espécie”. Meus pêsames à Época que foi, há não muito tempo atrás, a melhor revista informativa semanal. Hoje, ela mal serve para embrulhar o peixe comprado na mercadinho mais próximo.

Graça Salgueiro irinna@terra.com.br

Sr.Diretor de Redação, É um ato de insensatez reduzir o espaço do filósofo Olavo de Carva- lho, que muito ajudou ( e ajuda ) a consolidar o prestígio de Època, por ter ele apontado o atual ministro da Justiça, Aluysio Nunes Ferreira, como ex-terrorista envolvido na luta armada e “expropiações bancárias” – coisa que, de resto, o ministro não contesta e todo leitor consciente, à direita ou esquerda, sabe. Por outro lado, reduzir o espaço do filósofo e não reduzir, por exemplo, o de Zuenir Ventura, um tradicional “quadro” da esquerda na imprensa, demonstra claramente aos leitores da revista que o novo diretor de redação acionou – “estrategicamente” – o dispositivo da censura ideológica – o que em jornalismo só leva ao descrédito, arbítrio e repúdio dos leitores. O espantoso de tudo é que Época e O Globo são orgãos historicamente comprometidos com a democracia política e econômica (pois vive delas) e, no caso de O Globo, com a figura histórica de Roberto Marinho, ligado por um hífen a luta contra qualquer forma de totalitarismo. Estou tomando a providência de não mais comprar nas bancas a revista Época até que o ato de pura violência e discriminação contra a liberdade de expressão seja revisto. E de hoje em diante, sempre que possível, citarei nos meus escritos e palestras Época como exemplo de revista que exerce a censura ideológica contra os seus colaboradors mais capazes. Cordialmente, Ipojuca Pontes brandwain@uol.com.br

Senhor editor, Lamentável o fato da exclusão do Prof. Olavo de Caravalho da coluna semanal da revista. Infindas palavras tácitas ficam na atmosfera deste feito, e a nudez visceral que para os Senhores, a democracia não transcende as letras dos manuais de ética jornalística. Cordialmente, Rafael Gustavo Santos Vieira rafaelgu@brfree.com.br

Prezados Srs, Causou-me espanto a nao publicacao do ultimo artigo de Olavo de Carvalho. Qual o motivo? Contando com sua pronta resposta, Marilia Tavares chez_moi@hotmail.com

Prezado Marilia, Agradecemos o envio de sua mensagem. Seus comentários foram transmitidos ao editor. Os artigos de Olavo de Carvalho serão publicados uma vez por mês. Esperamos continuar contando com a sua atenção e participação.

Um abraço, A Redação epoca@edglobo.com.br

Senhor redator, Por que? Se eram tao bons e imperdiveis? Obrigada pela atencão.

Marilia Tavares chez_moi@hotmail.com

Senhor Editor:

Dirigimo-nos a essa prestigiada revista para estranhar a ausência dos artigos do Prof Olavo de Carvalho, ultimamente, em suas páginas. Motivados pelo costume e pela necessidade de ler as lúcidas e precisas colocações do Professor, solicitamos que sua publicação não volte a ser interrompida, o que traria um enorme vácuo ao ambiente intelecto- cultural do país, já insuportavelmente árido, medíocre e monocórdio Atenciosamente, AbelMonteiro Porto Alegre RS kero500@terra.com.br Caro Abel, Agradecemos o envio de sua mensagem. Os artigos de Olavo de Carvalho serão publicados uma vez por mês. Esperamos continuar contando com a sua atenção. Um abraço, A Redação epocaleitor@edglobo.com.br

Prezados Senhores:

Foi justamente essa a estranheza que assinalei: vocês cortaram 75% do espaço do OC, e nós ficamos privados de 75% de suas opiniões. Não haveria uma maneira de voltarem a lhe conceder a periodicidade semanal ? A “intelligentsia” brasileira agradeceria.

Saudações patrióticas, Abel Monteiro kero500@terra.com.br

Prezado Olavo, Mais uma vez para cumprimentá-lo, não só pelo artigo de hoje “Diagnóstico” publicado no Globo , como pela idéia de reproduzir em sua homepage algumas das incontáveis cartas endereçadas a você e à Redação de Época, em virtude da censura que lhe foi imposta pelo novo Diretor daquela Revista. A destacar é que tais manifestações não foram sequer mencionadas na seção de Cartas dos Leitores da referida revista. Ou seja , a censura é mesmo para valer. Aliás, seu artigo de hoje retrata com perfeição essa realidade que nos está sendo imposta. Nossa esperança é que eles venham a tropeçar nas próprias pernas daquí mais um pouco, como nos revela aquela passagem de Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (3,19) ” pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia”.

Um forte abraço Carlos Scheliga cbs@ajato.com.br

Caros Senhores, Estava exatamente aguardando o final de minha assinatura da revisa VEJA, previsto para o próximo mês, para, transferi-la para ÉPOCA, quando, estarrecido, constatei que os senhores também são ingênuos (?) censuradores bolcheviques. Reduzir a participação do colunista Olavo de Carvalho, cujos textos acompanhava semanalmente com a compra de exemplares avulsos, reduzirá os lucros da revista mas, no seu entender, os fins justificam os meios, não é mesmo? Serei cristalino: como formadores de opinião, o que lhes interessa é acabar logo com essa ensebação e ajudar a promover de vez a tão esperada revolução comunista. Acaso passou-lhes pela cabeça qual o papel que essa revista e quase toda a mídia nacional, que ainda exercem alguma função “social” orientadora, desempenhariam sob um regime onde a orientação social é sempre ditada pela “ditadura militar” de plantão? E o que farão então? Levantarão barricadas em favor da democracia? Esse tipo de idealismo inconseqüente já custou cerca de 100 milhões de vidas em um século. Quantos brasileiros terão que ser sacrificados até que percebam que o sonho não pode ser realizado? Sinceramente... mesmo, Walmor Grade wgrade@onda.com.br

Caro Olavo de Carvalho, Gostaria de expressar toda a minha solidariedade e adimiração por você que, sendo uma voz única no cenário cultural brasileiro, foi praticamente “censurado” pelos veículos de comunicação “globais” nos quais, por milagre, tinha algum espaço. Confesso que já imaginei que isso iria, mais cedo ou mais tarde, acontecer, vindo de um conglomerado que, entre outras coisas, fez propaganda explícita do MST na novela “O Rei do Gado”, do comunismo nos seriados “Hilda Furacão” e “Anos Rebeldes” e do anarquismo na novela “Terra Nostra”, além de empregar em seus estúdios e redações gente da pior qualidade, entre eles antigos bandidos e terroristas. Você é para nós brasileiros uma referência única nesse tempo dominado por professorinhas comunistas. Não desanime e continue a escrever seus artigos, mesmo que não venha a ter como publicá-los na mídia. A Internet é um magnífico meio de divulgação de idéias e, confesso, é através dela e não de nenhum meio de comunicação “usual” que desfruto periodicamente de seus escritos. Um abraço, Rodrigo Tassara Belo Horizonte MG rod.bhz@zaz.com.br

Prezado Olavo, Os seus artigos não são mais publicados na Época? Porque? Será que houve censura?

Desde já obrigado pela sua atenção.

Hamilton Coragem coragem@uol.com.br

Prezado Professor Olavo de Carvalho, Encaminho ao senhor as mensagens trocadas entre um meu amigo, Miguel, e o novo diretor da Revista Época, “jornalista preocupado com a democracia, o pluralismo e o confronto de idéias”. Um abraço, Amílcar Nadu paulofrancis@hotmail.com

Caro Senhor Editor, Como sempre acompanhei suas reportagens desde a época em que o senhor trabalhou na Veja até na Gazeta Mercantil, não fiquei surpreso com o seu gesto de reduzir a participação do professor Olavo de Carvalho em sua equipe. Afinal, sei que o senhor é um jornalista de formação socialista “light”, tipo arquetípico da esquerda que, no plano político, está muito bem encarnado em figuras como Blair, Clinton e Gore.

Apesar disso, insisto em protestar que isso não deixa de ser lamentável, pois mostra que o senhor, ao invés de evoluir em sua formação intelectual, regrediu.

A única coisa boa nisso tudo é que, agora, pelo menos alguns amigos meus vão economizar mais, pois só precisarão comprar a revista uma vez por mês.

Saudações de um ex-admirador.

Miguel Gustavo Lopes Kfouri miguelgustavolopes@zipmail.com Caro Miguel, Quem acompanha minha trajetória profissional sabe que sempre fui um jornalista preocupado com a democracia, o pluralismo e o confronto de idéias. Creio que ninguém tem o monopólio da verdade nem o direito exclusivo a expressar sua opinião. Por isso, resolvi abrir Época para outras idéias e visões de mundo. Acho que você só terá a ganhar se resolver conhecer outros olhares sobre velhos problemas.

Paulo Moreira Leite diretor de Redação

Prazado Olavo de Carvalho, Puxa, diante de todas essas mensagens estou até pensando em acrescentar um ps de 50 parágrafos ao e-mail que mandei pra redação da Época: “Ele incomoda, né?”. Muito obrigado por tudo, professor. Que Deus o abençoe (e ainda te vejo católico!) e aos seus.

Alexandre Ramos da Silva alexandrers@convoy.com.br

Caro Olavo, Não vi nas duas últimas semanas sua coluna na Época.Imagino que os totalitaristas tenham conseguido acabar com uma das últimas cidadelas da inteligência e da liberdade.Lamento profundamente.Mandei uma cartinha para eles, que anexo. Abraço.

Bem, demorou mas a Opinião acabou na revista Época também: a fantástica máquina de propaganda do esquerdismo brasileiro derrubou Olavo de Carvalho e instalou no seu lugar uma de suas mais representativas ativistas. É a marcha da insensatez burra exatamente no sentido contrário da História. Que tal pôr Fidel Castro aí, como colunista, enquanto ele agüenta. Assim ele já vai dando in loco todas as instruções para a rapaziada transformar isto aqui em mais uma lata de lixo do esquerdismo de uma vez. Ou chamam alguém de Angola, Moçambique, Coréia do Norte, Vietnã, exemplos de outros brilhantes dos resultados do comunismo, para passarem suas experiências e maldizerem também os Estados Unidos, assim como a dona Maria Aparecida, por quem, pior, estão sendo conduzidas as cabeças da juventude, naUSP. Parabéns, vocês vão conseguir transformar tudo em... bem, não vale o palavrão. Pô, será que vocês não acordam?!

Sergio Storti Mestre em Ciências da Comunicação pela USP

Prezado Olavo, Indignada com o corte que a revista Época fez de seus artigos, também eu mandei uma mensagem à redação, e depois outra em resposta à que eles me mandaram. Aqui vão elas. Um forte abraço.

Procurei a Época desta semana somente para ler o artigo do Olavo de Carvalho, mas logo fiquei sabendo que ele não estava lá. Lamentável. Infelizmente serei obrigada a deixar de comprar a revista, já que sua maior contribuição para o leitor brasileiro eram justamente a lucidez e a absoluta franqueza do filósofo Olavo de Carvalho, sem o que o periódico perde todo o seu sentido. Espero que em breve possa ver novamente nosso maior filósofo nas páginas de Época.

Atenciosamente, Marli Nogueira Brasília DF themis14@uol.com.br

Senhor Editor, Tornei-me assinante de Época por apenas um motivo: a promoção que me daria a passagem aérea para qualquer capital do Brasil. Recebi a passagem, fiz uma bela viagem a Recife nas minhas férias. Estava concluído na minha opinião o meu interesse pela revista. Como a sssinatura estava paga, receberia os exemplares que tinha direito e depois cancelaria a assinatura. Mas acontece que sua revista prendeu o meu interesse de maneira muito forte, de tal forma que eu aguardava os exemplares com ansiedade e não deixava ninguém lê-los em casa antes de mim. O motivo de tamanho interesse? A coluna do filósofo Olavo de Carvalho. Ele é um homem brilhante, com um texto como há muito não se via no nosso jornalismo basal. E o que é mais importante, ele DIZ o que pensa, exibe claramente no peito a sua opinião política, o que é mais raro ainda na nossa mídia tendenciosa e ladina. Entrei na faculdade para fazer jornalismo e abandonei o curso nauseada com a falta de ética dos professores e dos profissionais da área. Olavo de Carvalho restaurou meu interesse pela leitura das publicações periódicas, mesmo que apenas em busca de artigos seus. Agora ele sumiu de Época. Hoje eu digo aos senhores: se Olavo de Carvalho foi excluído de sua revista, mesmo que os senhores me oferecessem uma passagem grátis para Paris, eu não renovaria minha assinatura. E estou pensando sériamente em cancelar o recebimento do resto do ano. A Editora Globo ao menos eu pensei que manteria um canal aberto com a opinião da maioria dos brasileiros (veja historicamente os resultados das eleições no Brasil). Senão por uma objetividade jornalística ao menos por um senso mercadológico.

Assunção Medeiros suemedeiros@gbl.com.br

Casal De Coelhos

18 de julho de 2013 | Diário do Comércio

Ainda a propósito da entrevista do sr. Alberto Carlos Almeida, suspeito que uma pergunta continua zumbindo nas cabeças dos leitores: se a culpa da má educação brasileira não foi da Igreja Católica, foi de quem?

Não sei, nem me considero presidente de um Tribunal de Crimes Educacionais, mas uma coisa é certa: o desprezo pelo conhecimento, neste País, veio sempre junto com o culto dos signos exteriores que o representam e que, aparentemente com vantagem, o substituem: títulos, diplomas, cargos, honrarias, espaço na mídia, boas amizades nos altos círculos, etc. O fenômeno já foi tão documentado e satirizado na nossa literatura (Lima Barreto e Graciliano Ramos, por exemplo), que não há necessidade de insistir nele. Mas o pior é que entre esses dois vícios complementares se formou, há tempos, um círculo de reforço mútuo que parece impossível de romper.

Funciona assim: como nossa elite empresarial e política não é das mais cultas, as almas bem intencionadas que dela emergem com o propósito louvável de remediar os males nacionais não têm por si próprias a capacidade de avaliar, pelo exame direto das obras e ideias, quem, entre os intelectuais disponíveis, é competente ou um emérito medalhão de cabeça oca. Resultado: têm de julgá-los pelos sinais exteriores, os títulos e cargos, e acabam dando ouvidos a quem não tem nada de sério a lhes informar nem de útil a lhes sugerir. A incultura gera incultura com a fecundidade de um casal de coelhos.

Mais grave ainda é quando o prestígio enganador vem de fora, desembarcando aqui com as pompas do “ultramoderno”. No governo Vargas, um belo projeto de educação popular acabou tomando por modelo as ideias de John Dewey, então celebrado na mídia dos Estados Unidos como um grande inovador. Hoje sabe-se que Dewey foi, de fato, o destruidor da educação americana, até então a melhor do mundo. Dos anos 60 em diante – sim, já em pleno governo militar – veio a moda do socioconstrutivismo, adornado com os nomes de Jean Piaget, Emilia Ferrero, Vigotsky e não sei mais quantos.

Há meio século a aplicação dessa teoria insensata vem embrutecendo a inteligência das nossas crianças, ao mesmo tempo que a expansão triunfal do número de escolas e o controle cada vez mais centralizado da educação nacional levam a democratização da inépcia aos rincões mais afastados e às populações mais pobres. Com muita coerência aliás, o sr. Almeida prefere culpar por isso os jesuítas do tempo do Brasil-Colônia em vez de enxergar o que está ocorrendo bem diante do seu nariz.

E por que acontecem essas coisas? Porque a elite inculta se deixa levar pela mídia e pelos prestígios fosfóricos do dia em lugar de examinar e testar, e assim acaba somando erros e desastres com uma persistência obscena.

Quem nota esse fenômeno não pode deixar de concluir que o problema do Brasil é o inverso daquele apontado pelo sr. Almeida: em vez de educar apenas a elite sem dar atenção ao povo, temos tentado dar educação a todo o povo antes de ter uma elite qualificada para educá-lo, ou até mesmo para examinar seriamente o problema da educação popular.

Quem quer que tenha lecionado ao menos por um dia percebe que o processo educacional tem uma estrutura irradiante: primeiro você educa dez, que educam cem, que educam mil, que educam um milhão e assim por diante. Inverter essa ordem é como querer que os filhos gerem os pais.

Os governos deste país prometem educação a milhões antes de poder reunir dez educadores sérios para discutir como fazê-lo. Por que não formar os dez primeiro? Os que objetem que isso é elitismo direitista deveriam ler Lênin e perguntar por que ele organizou primeiro a elite do Partido e depois a massa. Lênin sabia que o rabo não abana o cachorro.

Como quebrar o círculo vicioso de uma elite inculta, guiada por palpiteiros tão ineptos quanto ela mesma? Só há um jeito, no meu entender: criar, fora do sistema educacional, longe da grande mídia, longe dos prestígios consolidados, uma nova intelectualidade preparadíssima, sincera e agressiva o bastante para, no momento devido, cortar as cabeças ocas, expulsar as vacas sagradas e começar a tratar dos problemas com seriedade.

Não por coincidência, é por isso mesmo que, em geral, acho inútil ficar “tomando posição”, a cada momento, ante os descalabros do dia. Pois já não sabemos de onde, em última análise, provêm todos eles? Não sabemos que, por trás de tudo de mau que acontece no País, está a ignorância pomposa e irresponsável de uma elite que só dá ouvidos a medalhões ainda mais ignorantes, pomposos e irresponsáveis? Para que ficar criticando políticos de alta rotatividade se sabemos que um só pseudo-intelectual basta para gerar milhares deles e substituí-los por outros piores a cada dez ou quinze anos?

Para que ficar tentando matar baratas pelo método de jogar uma naftalina na cabeça de cada uma que aparece? O que é preciso é armar umas quantas centenas de jovens com um spray intelectual capaz de, amanhã ou depois, sanear o ambiente.

Pato Sentado

18 de abril de 2007 | Diário do Comércio

Vocês conhecem a expressão americana Sitting Duck ? É o pato sentado, o alvo mais fácil até mesmo para o atirador inepto. As escolas da Virginia estão repletas de patos sentados, porque uma lei demagógica, maliciosa e, a rigor, criminosa, proíbe o porte de arma aos professores e funcionários em serviço nessas entidades e até aos pais de alunos que por ali transitem.

Qualquer maluco que deseje iniciar uma carnificina sabe qual é o lugar mais seguro onde montar o espetáculo. Se apontasse uma arma para um caixa do WalMart , para um garçom de restaurante ou para um vendedor de cachorro quente numa praça de Richmond, levaria chumbo de dez fregueses ao mesmo tempo.

Mas para que o sujeito há de correr esse risco, se logo na esquina há uma multidão de trouxas desarmados, entregues à sanha dos assassinos por legisladores iluminados? O massacre de anteontem foi na Virginia Tech , mas podia ter sido em qualquer outra instituição de ensino do “Old Dominion”.

Mais ou menos um ano atrás, a Assembléia Geral da Virginia vetou uma emenda legal que, voltando atrás no desarmamentismo insano, devolvia aos professores, funcionários e alunos devidamente qualificados o seu antigo direito de portar armas no local de trabalho e estudo.

Na ocasião, o representante da Virginia Tech , Larry Hinckler, disse em entrevista ao jornal Roanoke Times (tão fanaticamente desarmamentista quanto a Folha e o Globo ) que estava muito feliz com a derrota da emenda: “Tenho a certeza de que a comunidade universitária está agradecida à Assembléia, porque sua decisão ajudará os pais, estudantes, professores e visitante a sentir-se seguros no nosso campus.”

O resultado aí está.

As escolas têm sido há décadas um dos instrumentos principais de que se servem os agentes do globalismo para dissolver o tradicional espírito americano de altiva independência e implantar uma nova cultura em que o cidadão se torna cada vez mais indefeso, mais boboca, mais dependente da proteção estatal.

Até os anos 60, os EUA tinham as melhores escolas do mundo, e nenhum ministério da Educação. Desde a criação do ministério e da adoção dos “parâmetros curriculares” politicamente corretos ditados pela ONU, não só a qualidade da educação caiu formidavelmente, mas a delinqüência infanto-juvenil cresceu na mesma proporção.

Leiam, a respeito, The Deliberate Dumbing Down of America , de Charlotte Thomson Iserbit (Ravenna, Ohio, Conscience Press , 2001).

As provas que a autora aí apresenta são tantas, que a conclusão se segue inevitavelmente: crimes como os do jovem sul-coreano Cho Seung-Hui são o produto acabado de um longo e meticuloso esforço de engenharia social.

Muita gente por aqui reclama que os burocratas esquerdistas que dominam o sistema sistema oficial de ensino estão empenhados numa guerra cultural contra os EUA, destruindo a educação e a moral para em seguida atribuir os resultados medonhos de suas próprias ações à “lógica do sistema”.

Na mídia de todos os países do mundo há sempre uma multidão de papagaios prontos para repetir esse chavão de propaganda. Na infalível Rede Globo , incumbiu-se disso uma psicóloga da PUC, Sandra Dias, segundo a qual o morticínio foi “um ato heróico” por voltar-se contra “o consumismo americano”.

Neutralidade E Ortodoxia

17 de setembro de 1998 | Jornal da Tarde

As novas diretrizes para a educação primária, emanadas do MEC em elegantes volumezinhos coloridos sob o imponente rótulo Parâmetros Curriculares Nacionais , sugerem que, em matéria de instrução sexual, os professores devem assumir uma atitude de neutralidade moral verdadeiramente weberiana. Sem dizer uma palavra contra ou a favor, devem descrever diante da classe, com sublime indiferença científica, “as orientações sexuais existentes”, para que as criancinhas, livres de pressões autoritárias, “façam suas próprias opções”. Não sei o que é aí mais comovente: o respeito devoto pela liberdade dos infantes ou o rigor da isenção científica que inspira as diretrizes do ministério. Pergunto-me, apenas, quais e quantas seriam as orientações sexuais que viriam a merecer inclusão no currículo – um ponto de magna importância pedagógica sobre o qual o MEC nada nos informa. À luz da neutralidade axiológica e do rigor científico, porém, não haveria a menor justificativa para reduzi-las às três mais vulgares (hetero, homo e bi), excluindo as variedades minoritárias como o sadomasoquismo, a pedofilia, a coprofilia e a bestialidade (termo pejorativo que busca cobrir de preconceituosa infâmia a prática do amor com vacas, jumentas e outras dignas criaturas do reino animal). A exclusão dessas práticas, além de ser cientificamente indefensável, resultaria numa autoritária limitação do leque de opções que a educação deve oferecer aos pimpolhos, que afinal são, porca miséria!, o futuro da Pátria. Diante da omissão dos livretos, e para não alimentar na opinião pública suspeitas de que haja nas concepções sexológicas do ministério algum resíduo de moralismo preconceituoso, o ministro Paulo Renato faria bem em divulgar a lista completa e explícita das opções sexuais atualmente reconhecidas pela ciência, sem esquecer, é claro, aquelas jamais vistas e só conhecidas em estado de hipóteses. Somente assim a tranqüilidade voltará a reinar no seio e demais partes erógenas da família brasileira.

Mas, em contraste com a neutralidade e frieza que devem imperar na escolha dos objetos de desejo, o MEC não julga que idêntica objetividade científica deva prevalecer em outros domínios do conhecimento, como por exemplo a História e as ciências sociais. Aqui, não apenas é desnecessário examinar com imparcialidade as várias escolas, estilos e teorias explicativas, mas, bem ao contrário, a escolha pode ser dada por pressuposta sem que seja preciso sequer informar às crianças que houve alguma escolha. A interpretação marxista da História deve ser ensinada não como uma teoria entre outras, mas como a única teoria possível, a ortodoxia suprema jamais contestada. É o que se vê em vários textos aprovados pelo ministério para o ensino dessas disciplinas, como por exemplo a Nova História Crítica, de Mário Schmidt, para o 2.o grau (Editora Nova Geração), Iniciação à Sociologia , de Nelson Dacio Tomazzi, e outros (Atual Editora), Estudando as Paisagens , de Oswaldo Piffer, para a 7.a série (Ibep) e dezenas de outras obras do mesmo teor. Nessas cartilhas sacramentadas pelo aval mequiano, o predomínio absoluto dos fatores econômicos, a luta de classes, a conveniência de uma aliança operário-camponesa para liquidar os malditos capitalistas, bem como outros itens do cardápio marxista tradicional, não são ensinados como opiniões de uma determinada corrente ideológica contestadíssima por muitas outras, mas como verdades universais primeiras e últimas que jamais foram ou serão objeto de dúvida.

Nos casos em que não tenha sido possível evitar toda menção a escolas e teorias divergentes, como por exemplo as de Weber e Pareto, Ortega e Croce, Jouvenel e Voegelin, estas são cuidadosamente reduzidas a meros instrumentos de dominação ideológica a serviço da execrável classe capitalista, de modo a que, neutralizadas pela vacina marxista, não possam fazer mal às mentes juvenis dando-lhes a impressão de que nesses campos do conhecimento exista algo a discutir.

Educada desde pequena na linha justa do materialismo dialético, a alma infantil é assim poupada de dúvidas e perplexidades intelectuais, podendo resguardar o melhor das suas energias para dedicá-las a questões mais puramente teóricas e científicas, como por exemplo a da escolha de um objeto de desejo erótico numa gama de opções que abrange imparcialmente loiras, morenas, estivadores, soldados da PM, cães, bebês, chicotes e vibradores.

Em 17 de setembro de 1998

Puc Vira Madrassa

17 de novembro de 2001 | Baguete Diário, 17 de novembro de 2001

Entre as muitas anomalias da universidade brasileira, estão os mestrandos quarentões. Aquela iniciação à pesquisa, pela qual o candidato deveria optar tão logo terminasse o curso superior, é adiada para uma idade em que do acadêmico já se espera obra consolidada. Pior mesmo, só os doutorados de terceira idade. Marmanjos de cinqüenta e mais anos, em idade de aposentar-se, postulando um título que só vai servir para pendurar junto com as chuteiras.

Estas pós-graduações temporãs são mais umas das tantas “coisas nossas”. Como a jabuticaba, só existem no Brasil. Estudei em três universidades de três países no Exterior, e jamais vi – pelo menos em minhas cercanias – vetustos adquirindo formação própria de jovens. Mestrado não é para carecas. Já um doutorando, este deveria defender sua tese no máximo aos trinta e poucos, para que sua experiência em pesquisa possa ser útil ao ensino e à sociedade. Que mais não seja, é patético ver um homem já maduro humilhando-se, ao tentar iniciar-se em metodologias que devia desde jovem dominar. Na universidade brasileira, o doutorado nem sempre é visto como início de uma carreira, mas como louro a coroar a calva do acadêmico quando este está prestes a usar pijamas. Quem paga tais vaidades senis? Como sempre, o contribuinte.

Mês passado, um fato insólito perturbou o mundo acadêmico. Francisco Wanderley Rohrer, 47 anos, tentou apresentar – pela quarta vez – sua tese de mestrado, A Identidade do Policial Militar Comunitário: Metamorfose e Emancipação , a uma banca da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tentou, apenas. Pois foi impedido por um tal de Comitê da PUC de Ação Global contra o Capitalismo, onde se abrigam os derrotados do século. (Depois da Queda do Muro, das prestigiosas bandeiras socialistas só restou um antiamericanismo pueril). Os universitários, além de insultá-lo, jogaram-lhe uma torta na cabeça. Mas os jovens acadêmicos não estavam protestando contra a idade provecta do candidato. Protestavam porque Rohrer era capitão da Polícia Militar e, nesta condição, teria comandado uma tropa chamada a “reprimir” protesto antiglobalização na Avenida Paulista, em abril passado.

Rohrer nega ter comandado qualquer tropa na ocasião. E, se a comandasse, nada mais faria senão cumprir seu ofício, a manutenção da ordem, que a imprensa convencionou chamar de repressão. Os meninos da PUC paulista são incondicionais defensores dos Direitos Humanos, sempre prontos a denunciar qualquer indício de discriminação ou preconceito. Mas não aceitam que um policial militar exerça seu direito de defender uma tese na universidade que está cursando normalmente. Tentam fazer da PUC uma madrassa, onde todo seminarista deve seguir os mesmos dogmas.

Capitão não pode. A menos que fosse, por exemplo, um capitão Lamarca, terrorista em prosa e filme cantado, que assassinou friamente um colega de armas indefeso e hoje é matéria de muitos currículos. Enfim, a reação dos taleban da PUC não é incompatível com uma universidade que tem como chanceler um cardeal que apóia a ditadura de Castro. Em 89 o cardeal Evaristo Arns via em Cuba “um exemplo de justiça social. A fé cristã descobre nas conquistas da Revolução, os sinais do Reino de Deus que se manifestam em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da convivência política uma obra de amor”.

Quem vê sinais de amor numa tirania que fuzilou 17 mil cubanos e levou um país à miséria é chanceler da PUC. Um oficial da PM que quer fazer uma reflexão sobre seu ofício, recebe tortas na cara. Enfim, nada incoerente com a universidade tupiniquim. Fidel Ruz Castro é Dr. Honoris Causa pela Universidade Federal de Santa Catarina. E esta é nossa trágica realidade.

Desde os primórdios da USP, centro irradiador do marxismo no país, a universidade tem sido a vanguarda do obscurantismo tupiniquim. Seus cursos de humanidades, em vez de centros de elaboração de cultura, viraram laboratórios de utopias desvairadas. É graças aos acadêmicos que o país todo está contaminado de marxismo, castrismo, maoísmo. E isto vem de longe.

“Nos anos 50, dourados segundo alguns – escreve o ensaísta José Arthur Rios, em Raízes do Marxismo Universitário – a instituição universitária entrou em cheio na polêmica do desenvolvimento, virou presa fácil dos ideólogos de Esquerda. (...) Foi então que espíritos ardentes descobriram a luta de classes dentro do campus, sua submissão ao capital estrangeiro e aos agentes do Imperialismo. A Academia seria, ela própria, agente de alienação. E confundia-se espírito crítico com politização. Esses chavões marxistas não eram brandidos apenas por estudantes incipientes, mas por professores que não se pejavam de tentar coagir ou intimidar colegas quando esposavam pontos de vista contrários”.

Ainda segundo Arthur Rios, os anos 70 viram a tranqüila ocupação da Universidade brasileira por esse marxismo faccioso. “A penetração marxista em nosso ensino universitário deixou marcas indeléveis. (...) Persiste, sob a fachada da democracia liberal ou debaixo das tênues maquilagens do socialismo caboclo – nas invasões de propriedades, nas ocupações de gabinetes de Reitores e Ministros; no sindicalismo tumultuário que não mais se limita a reivindicações de classe, mas se arroga o direito de mudar o regime político e exigir a renúncia do Presidente, em marchas e demonstrações de cunho fascista; no convívio fronteiriço com movimentos subversivos tais como o Sendero Luminoso, a guerrilha e o narcotráfico colombiano; na ternura com que acolhe o ditador cubano”.

E nisto estamos. Uma década depois da Queda do Muro e do desmoronamento da URSS, a elite intelectual deste país que se pretende moderno reivindica uma filosofia assassina do século XIX. Professores que fizeram suas carreiras sentados em cima do marxismo jamais irão jogar no lixo seus livros e papers. Por um movimento de inércia, repassam às novas gerações suas ideologias obsoletas e temos então os taleban da PUC censurando uma defesa de tese só porque o candidato é policial.

E não faltam castas alminhas que ainda acham que o marxismo já morreu. Morreu lá na Europa. Cá nas terras de Cabral, continua vivo e vibrante.

Em 17 de novembro de 2001

Leituras

Um Caso Exemplar

17 de dezembro de 2013 | Diário do Comércio

O episódio do estudante de Santa Catarina que provocou uma onda de protestos com uma foto-caricatura considerada racista (v.

aqui ) é um condensado simbólico de toda a loucura nacional. Vale a pena desmembrá-lo analiticamente nos seus elementos constitutivos:

1. O autor da piada jura não ter tido intenção racista, mas a foto é objetivamente ofensiva. A oferta de bananas em lugar de flores reduz o amor do casal negro a uma paixão entre macacos. A comparação remonta ao século XIX, quando o sucesso da concepção darwiniana do ser humano que se destacava progressivamente de seus ancestrais símios, fundindo-se com a visão do atraso e barbarismo do continente africano, espalhou entre os brancos europeus a ilusão de uma superioridade racial tanto mais persuasiva quanto mais confirmada, aparentemente, pelos testemunhos convergentes da ciência e dos viajantes. O sentido da cena remonta portanto a uma tradição cultural inconfundível, da qual nenhum estudante universitário pode razoavelmente alegar ignorância.

2. Subjetivamente, a mesma figura pode ser usada com graus diversos de intenção ofensiva, desde o gracejo inócuo entre amigos até a afirmação franca e brutal de um programa ideológico assumido. Como a foto foi publicada, em vez de circular apenas num grupo privado, ela já não está, obviamente, no primeiro grau dessa escala, mas também não chega ao último, pois o autor parece sincero ao negar que seja ideologicamente racista e ao dizer-se perplexo ante a reação hostil da coletividade negra local. Não sendo nem uma brincadeira inocente nem uma tomada de posição ideológica, o ato só pode ser explicado como um caso de inocência perversa, o mal crônico da sociedade histérica baseada no auto-engano geral. É preciso uma boa dose de ilusão histérica para um sujeito achar que pode fazer bonito com um estereótipo racial, em público, sem parecer racista. O histérico não sente o que percebe, mas o que imagina.

3. Alguma reação indignada dos seus colegas negros era, portanto, não somente razoável, mas inevitável. A coisa escapou da psicologia normal, porém, a partir do instante em que a militância negra recusou ouvir um pedido formal de desculpas e preferiu partir para o protesto coletivo organizado e a exigência de punição administrativa. Essa decisão evidencia o desejo de forçar o senso das proporções para dar ao caso uma dimensão que ele por si não tem, transformando um erro individual momentâneo numa atitude política que devia ser respondida com outra atitude política. Isso também é pura histeria. O histérico não reage proporcionalmente aos estímulos, mas avalia “ex post facto” o estímulo pela intensidade da sua reação. Por exemplo, se morre de medo de um gato, persuade-se de que ele é perigoso como um tigre, ou, se tem uma explosão de cólera ante uma pequena ofensa, imagina que ela foi brutal e imperdoável. É compreensível que, num reflexo automático de autojustificação, ele então deseje instilar a mesma reação nos outros, produzindo uma resposta desproporcional para espalhar a impressão de que o estímulo foi maior do que realmente foi. Essa conduta é tanto mais irresistível quando não se trata de mera reação individual, mas de um contágio coletivo. A gritaria da massa passa então a ser a unidade de medida do motivo que alegadamente a provocou. A elite revolucionária, que não se constitui de histéricos mas de psicopatas, conhece perfeitamente bem esse mecanismo e sabe desencadeá-lo repetidas vezes até que, num meio social altamente carregado de paixões ideológicas, ele se torne automático e rotineiro. Praticamente todos os “movimentos sociais”, hoje em dia, vivem disso. No caso de Santa Catarina, forçar um protesto coletivo a contrapelo do pedido de desculpas que o tornava desnecessário foi o meio encontrado para dar a um miúdo desatino individual o alcance postiço de um sinal de racismo organizado, endêmico, ameaçador.

4. Objetivamente, uma sociedade onde a única manifestação pública de racismo observada em muitos anos foi apenas uma piada é, com toda evidência, uma sociedade sem racismo praticamente nenhum. Mas o senso de identidade da militância negra depende, em grande parte, da expectativa comum de estar permanentemente ameaçada por uma militância igual e contrária, por um racismo antinegro endêmico e perigoso. A reação à foto-piada foi produzida exclusivamente por essa predisposição, totalmente alheia à gravidade maior ou menor dessa ofensa em particular. Uma vez desencadeada, era preciso portanto dar à ofensa as dimensões de um perigo iminente e grave contra o qual era obrigatório defender a todo custo a integridade do grupo. A reação desproporcional visou precisamente a dar a impressão de racismo generalizado, de modo a justificar novas e mais violentas reações. É estímulo a um racismo negro em resposta a um racismo branco praticamente inexistente ou inofensivo, que se deseja pintar como uma ameaça temível para daí tirar vantagem psicológica e política: reforçar a identidade do grupo e ao mesmo tempo ganhar para ele o apoio da opinião pública.

As lições do psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski em “Political Ponerology: A Science on the Nature of Evil Adjusted for Political Purposes” (Red Pill Press, 2007) são ilustradas diariamente pelo noticiário nacional. A esse jogo abjeto de intercontaminação histérica reduz-se a política de um país governado por psicopatas.

Em 17 de dezembro de 2013

Sugestao Aos Colegas

17 de Fevereiro de 2001 | Época

Por que ninguém entrevista Ladislav Bittman, o ex-espião tcheco que sabe tudo sobre 1964?

Milhões de crianças brasileiras, nas escolas oficiais, são adestradas para repetir que o golpe militar de 1964 foi obra dos Estados Unidos, como parte de um projeto de endurecimento geral da política exterior ianque na América Latina.

Sabem quem inventou essa história e a disseminou na imprensa deste país? Foi o serviço secreto da Tchecoslováquia, que naquele tempo subsidiava numerosos jornalistas e jornais brasileiros. O próprio chefe do serviço tcheco de desinformação, Ladislav Bittman, veio inspecionar as fases finais do engenhoso empreendimento que se chamou “Operação Thomas Mann”. O nome não aludia ao romancista, mas ao então secretário-adjunto de Estado, Thomas A. Mann, que deveria constar como responsável por uma “nova política exterior” de incentivo aos golpes de Estado.

A safadeza foi realizada através da distribuição anônima de documentos falsificados, que a imprensa e os políticos brasileiros, sem o menor exame, engoliram como “provas” do intervencionismo americano. O primeiro lance foi dado em fevereiro de 1964: um documento com timbre e envelope copiados da Agência de Informação dos EUA no Rio de Janeiro, que resumia os princípios gerais da “nova política”. A coisa chegou aos jornais junto com uma carta de um anônimo funcionário americano, investido, como nos filmes, do papel do herói obscuro que, por julgar que “o povo tem o direito de saber”, divulgava o segredo que seus chefes o haviam mandado esconder.

O escândalo explodiu nas manchetes e os planos sinistros do senhor Mann foram denunciados no Congresso. O embaixador americano desmentiu que os planos existissem, mas era tarde: toda a imprensa e a intelectualidade esquerdistas das Américas já tinham sido mobilizadas para confirmar a balela tcheca. A mentira penetrou tão fundo que, três décadas e meia depois, o nome de Thomas A. Mann ainda é citado como símbolo vivo do imperialismo intervencionista.

A essa primeira falsificação seguiram-se várias outras, para dar-lhe credibilidade, entre as quais uma lista de “agentes da CIA” infiltrados nos meios diplomáticos, empresariais e políticos brasileiros, que circulou pelos jornais sob a responsabilidade de um “Comitê de Luta Contra o Imperialismo Americano”, o qual nunca existiu fora da cabeça dos agentes tchecos. Na verdade, confessou Bittman, “não conhecíamos nem um único agente da CIA em ação no Brasil”. Mas a mais linda forjicação foi uma carta de 15 de abril de 1964, com assinatura decalcada de J. Edgar Hoover, na qual o chefe do FBI cumprimentava seu funcionário Thomas Brady pelo sucesso de uma determinada “operação”, que, pelo contexto, qualquer leitor identificava imediatamente como o golpe que derrubara João Goulart.

Toda uma bibliografia com pretensões historiográficas, toda uma visão de nosso passado e algumas boas dúzias de glórias acadêmicas construíram-se em cima desses documentos forjados. Bem, a fraude já foi desmascarada por um de seus próprios autores, e não foi ontem ou anteontem. Bittman contou tudo em 1985, após ter desertado do serviço secreto tcheco. Só que até agora essa confissão permaneceu desconhecida do público brasileiro, bloqueada pelo amálgama de preguiça, ignorância, interesse e cumplicidade que transformou muitos de nossos jornalistas e intelectuais em agentes ainda mais prestimosos da desinformação tcheca do que o fora o chefe mesmo do serviço tcheco de desinformação. Quantos, nesses meios, não continuam agindo como se fosse superiormente ético repassar às futuras gerações, a título de ciência histórica, a mentira que o próprio mentiroso renegou 15 anos atrás?

Neurose, dizia um grande psicólogo que conheci, é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita. Redescobrir a verdade sobre 1964 é curar o Brasil. Entrevistar Ladislav Bittman já seria um bom começo.

Em 17 de fevereiro de 2001

O Pais Mais Burro Do Mundo

16 dez. 2001 | Zero Hora

Dentre estudantes de 32 países, testados em sua compreensão de leitura, os brasileiros tiraram o último lugar. Não o penúltimo ou o antepenúltimo. O último. Com uma das maiores redes de ensino público do universo, com uma quantidade impressionante de professores “ per capita ”, com investimentos maciços do governo e o esforço conjugado de milhares de ONGs e empresas milionárias empenhadas “ soi disant ” em “elevar o nível” da nossa educação, o Brasil é, hoje mais que nunca, um país de analfabetos funcionais.

Nada do que saiu impresso nos últimos dias pode dar, como esse fato alarmante, uma idéia da verdadeira situação do Brasil no mundo.

Por que uma notícia tão significativa — a mais importante da semana, sob certos aspectos — suscita na mídia e nos meios ditos intelectuais uma quantidade tão escassa de comentários? Por que as poucas reações que se fazem discretamente ouvir se limitam às lamentações convencionais de sempre, quando não a desculpas de ocasião?

A resposta é simples. A estupidez da nossa classe estudantil não se explica por causas menores, de ordem administrativa ou econômica, nem por curiosas coincidências. Ela não é um fato isolado. Ela reflete o estrago geral da cultura brasileira que tenho documentado desde 1996 nos dois volumes publicados e nos três inéditos de “O Imbecil Coletivo. Atualidades Inculturais Brasileiras” — uma amostragem suficientemente ampla para que ninguém possa negar a realidade dos fatos. Ela reflete os efeitos de uma devastadora “revolução cultural” que, iniciada nos anos 70 e empenhada em reduzir a rede de ensino e todas as instituições de cultura a instrumentos do mais maquiavélico oportunismo político de todos os tempos, estampa agora diante de nós o seu abjeto resultado. Não se pode manipular a inteligência humana sem engessá-la, imobilizá-la e atrofiá-la.

Vinte anos atrás eu trabalhava numa revista de educação, distribuída a professores da rede pública. Por intermédio dessa publicação e de outras análogas, os intelectuais ativistas faziam críticas ferozes ao que chamavam “educação tradicional” e infundiam nas professorinhas uma confiança ilimitada nos novos modelos que, a seu ver, dariam aos jovens brasileiros a educação ideal. Esses modelos traziam algo das idéias de Jean Piaget mas eram inspirados sobretudo nos ídolos pedagógicos do esquerdismo militante: Paulo Freire, Demerval Saviani, Emília Ferrero e, no fundo de tudo, Antonio Gramsci. Sinceramente: eu lia aquela porcaria toda e previa uma catástrofe. Hoje a catástrofe está aí, mas ela é tão profunda que já não pode tomar consciência de si mesma. Aquelas entusiasmadas professorinhas que imaginavam fazer uma revolução por meio de seus alunos, convertidos em “agentes de transformação social”, foram elas próprias transformadas no curso do processo: já estão burras demais para atinar com a conexão de causa e efeito. Por isto a revelação brutal dos resultados da mutação idiotizante não suscita nenhum debate sério, nenhuma tomada de consciência, nenhuma corajosa admissão do erro fundamental. As professorinhas não apenas esqueceram o que sabiam: esqueceram que esqueceram. Estão amortecidas e estupidificadas pelo seu próprio discurso.

Revoluções análogas ocorreram nos EUA, na França e em outros países, com resultados igualmente perversos, documentados, por exemplo, em “A Escola dos Bárbaros” de Isabelle Stahl, “Machiavel Pédagogue” de Pascal Bernardin, “Brave New Schools” de Berit Kjos e “The Long March. How the Cultural Revolution of the 1960’s Changed America” de Roger Kimball. Quem leia esses livros verá que os brasileiros não apenas são os piores estudantes do mundo, mas que o são em comparação com uma média geral monstruosamente inferior à dos anos 60. Há uma queda mundial do nível de inteligência, e o Brasil está na vanguarda do abismo.

Não há também nenhum motivo para supor que o baixo desempenho dos estudantes não se repita, igualzinho, em outros setores da sociedade. Estudantes não são uma entidade separada e distinta, mas uma fatia, uma amostra do bolo. Os índices de burrice seriam muito provavelmente os mesmos se a comparação fosse entre empregados da indústria. Uma pesquisa local do antropólogo Luiz Marins mostrou que nas fábricas brasileiras é inútil passar um aviso por escrito: ou o aviso é dado oralmente, ou o conteúdo simplesmente não entra na cabeça dos operários. É razoável conjeturar que os índices comparativos de incompreensão de leitura não seriam muito diferentes se a avaliação não fosse entre estudantes, mas entre políticos, jornalistas, professores universitários — ou profissionais da escrita. A prodigiosa degradação do gosto literário nacional fez com que os poucos escritores valiosos que restam se tornassem confidenciais, cedendo o lugar nas páginas do noticiário editorial a uma galeria de patetas mais ou menos alfabetizados que passam por escritores. O público “letrado” já perdeu até mesmo a distinção entre um escritor e um sujeito qualquer que escreve qualquer coisa. Um escritor é membro de uma confraria artesanal milenar. Ele conhece os instrumentos expressivos criados por uma tradição que vem de Homero a Naipaul, e no que ele escreve se percebe, nas entrelinhas, o diálogo com seus parceiros de ofício, por cima das fronteiras de épocas. Um sujeito qualquer que escreve, mesmo que o faça direitinho, não dispõe senão dos instrumentos usuais da mídia — ele não dialoga senão com os tagarelas do momento: quando morrerem, sua escrita morrerá com eles. Essa distinção, que deveria ser a base da educação literária nas escolas, já se tornou imperceptível à média dos leitores “cultos”. Daí o fenômeno espantoso dos nomes mais cogitados para a última vaga aberta na Academia Brasileira. Não havia entre eles um único escritor: apenas sujeitos que escreviam direitinho. E ninguém notava a diferença.

Em 16 de dezembro de 2001

Vocabulario Da Insensatez 2

16 de setembro de 2000 | O Globo

Duas habilidades que a educação deve desenvolver no estudante são o senso das relações e proporções no mundo real e o senso das nuances e ambigüidades na linguagem.

Daí a importância da matemática e das línguas em todo ensino. As duas estão estreitamente ligadas: sua articulação permite perceber as coisas com nitidez e verbalizá-las com exatidão. Não é preciso dizer que isso não serve só para os estudos e o trabalho, mas entra na constituição da personalidade, da consciência e dos valores pessoais.

Nem é preciso informar que esse efeito não se produz espontaneamente: sua conquista depende de uma luta interior. Conduzir a alma nessa luta é a mais alta finalidade da educação, que por isso mesmo recebe seu nome da raiz “ex ducere” = “conduzir para fora”: letras e números transportam a alma para além do seu horizonte imediato de sensações e reações, abrindo-lhe o acesso à dimensão da cultura, da História, do espírito.

Sem ter chegado até aí, ninguém está apto a participar utilmente de um debate público. Tão logo sai do círculo da sua prática corriqueira para opinar sobre questões maiores, a alma impropriamente educada está tão desguarnecida, tão fora do seu elemento, que em sua performance as funções da percepção e da linguagem se invertem.

Se a percepção normalmente serve para a orientação na realidade e a linguagem para a articulação e expressão das realidades percebidas, no homem mal instruído que se debate com questões elevadas a capacidade de aprender direto da percepção torna-se muito reduzida, e desenvolve-se em seu lugar o hábito de criar falsas impressões a partir da linguagem: ele reage às palavras por associações emocionais diretas, sem passar pela referência aos fatos percebidos. Daí uma atmosfera de falsa coerência, em que a simples coordenação de emoções dentro da psique funciona como substitutivo do senso de realidade: basta que a reação do indivíduo a uma idéia lhe seja habitual e familiar para que ele creia saber toda a verdade a respeito.

Em contrapartida, a estranheza, o medo, a aversão são tomados como provas de que a idéia é falsa e inaceitável em si. O julgamento já não se baseia no exame do objeto, do assunto, mas na simples constatação passiva do estado interior do próprio sujeito. Quando essa reação subjetiva é confirmada por análogas reações de outras pessoas do seu grupo de referência, aí então a falsa sensação de realidade é reforçada ao ponto de tornar-se uma certeza inabalável, um dado do senso comum.

Infelizmente, boa parte da educação brasileira hoje em dia — do primário ao doutorado — visa a aprisionar as pessoas definitivamente nesse estado de auto-referência grupal.

Para averiguar quanto essa deficiência intelectual está hoje disseminada nas classes letradas, basta analisar um pouco a linguagem da mídia e dos debates políticos. Os termos mais carregados de valorações, os mais decisivos e de efeito mais garantido são justamente aqueles que não designam nada, absolutamente nada de real, mas apenas um complexo de emoções produzidas pela pura imaginação.

O termo conservador, por exemplo, tem no linguajar midiático brasileiro um conjunto de conotações negativas que, bem examinadas, revelam não corresponder a nenhuma corrente política existente ou concebível, mas expressar apenas a ojeriza mental suscitada, na mente coletiva, por uma imagem de fantasia.

O conservador, nessa acepção, é um catolicão moralista e retrógrado, saudoso de uma civilização agrária tradicional, mas ao mesmo tempo é um industrialista voraz sem o mínimo respeito pela ecologia; é um adepto da Nova Ordem Mundial e um nacionalista xenófobo; é um neoliberal que anseia por desmontar o Estado e um fascista que sonha em instaurar o Estado autoritário onipotente; é um fundamentalista que tem horror à teoria da evolução e um darwinista social entusiasta do domínio tecnocrático dos fracos pelos fortes, sendo ademais um fanático e um corrupto aproveitador sem convicções. Eventualmente é também malufista.

É evidente que o tipo assim delineado não existe e não pode sequer ser concebido como possível. Não obstante, o epíteto conservador é usado correntemente para lançar sobre sua vítima todas essas suspeitas ao mesmo tempo e torná-la tanto mais asquerosa quanto mais indefinível e envolta em mistério. O conservador é aí propriamente um Frankenstein, composto heteróclito de peças inconexas e sem a mínima possibilidade de encaixe. Não podendo existir no mundo real, ele é apenas a projeção das imagens disformes que se agitam na mente que o criou para temê-lo e odiá-lo. E é tanto mais fácil odiá-lo quanto menos ele pode existir no mundo real.

Uma discussão empreendida com esse tipo de vocabulário jamais será outra coisa senão um intercâmbio de alucinações. Alucinações, é claro, podem ser disciplinadas e uniformizadas, de modo que, todos delirando ao mesmo tempo segundo a mesma pauta, o geral sentimento de concordância forneça à coletividade de alucinados uma forte impressão de realidade e todos saiam persuadidos de que sabiam do que estavam falando.

Vocabulario Da Insensatez

16 de setembro de 2000 | O Globo

Duas habilidades que a educação deve desenvolver no estudante são o senso das relações e proporções no mundo real e o senso das nuances e ambigüidades na linguagem.

Daí a importância da matemática e das línguas em todo ensino. As duas estão estreitamente ligadas: sua articulação permite perceber as coisas com nitidez e verbalizá-las com exatidão. Não é preciso dizer que isso não serve só para os estudos e o trabalho, mas entra na constituição da personalidade, da consciência e dos valores pessoais.

Nem é preciso informar que esse efeito não se produz espontaneamente: sua conquista depende de uma luta interior. Conduzir a alma nessa luta é a mais alta finalidade da educação, que por isso mesmo recebe seu nome da raiz “ex ducere” = “conduzir para fora”: letras e números transportam a alma para além do seu horizonte imediato de sensações e reações, abrindo-lhe o acesso à dimensão da cultura, da História, do espírito.

Sem ter chegado até aí, ninguém está apto a participar utilmente de um debate público. Tão logo sai do círculo da sua prática corriqueira para opinar sobre questões maiores, a alma impropriamente educada está tão desguarnecida, tão fora do seu elemento, que em sua performance as funções da percepção e da linguagem se invertem.

Se a percepção normalmente serve para a orientação na realidade e a linguagem para a articulação e expressão das realidades percebidas, no homem mal instruído que se debate com questões elevadas a capacidade de aprender direto da percepção torna-se muito reduzida, e desenvolve-se em seu lugar o hábito de criar falsas impressões a partir da linguagem: ele reage às palavras por associações emocionais diretas, sem passar pela referência aos fatos percebidos. Daí uma atmosfera de falsa coerência, em que a simples coordenação de emoções dentro da psique funciona como substitutivo do senso de realidade: basta que a reação do indivíduo a uma idéia lhe seja habitual e familiar para que ele creia saber toda a verdade a respeito.

Em contrapartida, a estranheza, o medo, a aversão são tomados como provas de que a idéia é falsa e inaceitável em si. O julgamento já não se baseia no exame do objeto, do assunto, mas na simples constatação passiva do estado interior do próprio sujeito. Quando essa reação subjetiva é confirmada por análogas reações de outras pessoas do seu grupo de referência, aí então a falsa sensação de realidade é reforçada ao ponto de tornar-se uma certeza inabalável, um dado do senso comum.

Infelizmente, boa parte da educação brasileira hoje em dia — do primário ao doutorado — visa a aprisionar as pessoas definitivamente nesse estado de auto-referência grupal.

Para averiguar quanto essa deficiência intelectual está hoje disseminada nas classes letradas, basta analisar um pouco a linguagem da mídia e dos debates políticos. Os termos mais carregados de valorações, os mais decisivos e de efeito mais garantido são justamente aqueles que não designam nada, absolutamente nada de real, mas apenas um complexo de emoções produzidas pela pura imaginação.

O termo conservador, por exemplo, tem no linguajar midiático brasileiro um conjunto de conotações negativas que, bem examinadas, revelam não corresponder a nenhuma corrente política existente ou concebível, mas expressar apenas a ojeriza mental suscitada, na mente coletiva, por uma imagem de fantasia.

O conservador, nessa acepção, é um catolicão moralista e retrógrado, saudoso de uma civilização agrária tradicional, mas ao mesmo tempo é um industrialista voraz sem o mínimo respeito pela ecologia; é um adepto da Nova Ordem Mundial e um nacionalista xenófobo; é um neoliberal que anseia por desmontar o Estado e um fascista que sonha em instaurar o Estado autoritário onipotente; é um fundamentalista que tem horror à teoria da evolução e um darwinista social entusiasta do domínio tecnocrático dos fracos pelos fortes, sendo ademais um fanático e um corrupto aproveitador sem convicções. Eventualmente é também malufista.

É evidente que o tipo assim delineado não existe e não pode sequer ser concebido como possível. Não obstante, o epíteto conservador é usado correntemente para lançar sobre sua vítima todas essas suspeitas ao mesmo tempo e torná-la tanto mais asquerosa quanto mais indefinível e envolta em mistério. O conservador é aí propriamente um Frankenstein, composto heteróclito de peças inconexas e sem a mínima possibilidade de encaixe. Não podendo existir no mundo real, ele é apenas a projeção das imagens disformes que se agitam na mente que o criou para temê-lo e odiá-lo. E é tanto mais fácil odiá-lo quanto menos ele pode existir no mundo real.

Uma discussão empreendida com esse tipo de vocabulário jamais será outra coisa senão um intercâmbio de alucinações. Alucinações, é claro, podem ser disciplinadas e uniformizadas, de modo que, todos delirando ao mesmo tempo segundo a mesma pauta, o geral sentimento de concordância forneça à coletividade de alucinados uma forte impressão de realidade e todos saiam persuadidos de que sabiam do que estavam falando.

Primores De Ternura 2

16 de outubro de 2009 | Diário do Comércio

Nos anos 50-60, a união simbiótica de revolução e crime passou por um upgrade formidável, deixando de ser apenas uma prática consagrada e um objeto de exortações retóricas e tornando-se alvo de teorização sistemática por parte dos pensadores marxistas, especialmente da Escola de Frankfurt. Segundo Herbert Marcuse, o mais popular dentre esses autores na época e um queridinho da grande mídia americana, o proletariado industrial já não servia como classe revolucionária, por ter sido corrompido pelas benesses do capitalismo. Em vez de tirar desse óbvio desmentido dos prognósticos de Marx quanto à miséria crescente dos trabalhadores no livre mercado a conclusão lógica de que o marxismo não servia para grande coisa, Marcuse achou que podia consertar a teoria simplesmente buscando uma nova classe revolucionária, definida não pela desvantagem econômica, mas por qualquer tipo de frustração psicológica. Em vez de uma ele descobriu três: (1) os intelectuais e estudantes, sempre revoltados contra uma sociedade que não lhes dá toda a importância que julgam merecer; (2) todos os insatisfeitos com qualquer coisa – esposas mal amadas, gays enfezados com a empáfia masculina, crianças rebeldes à autoridade paterna, etc.; (3) os marginais em geral: prostitutas, viciados, assassinos, estupradores e tutti quanti. Eram essas pessoas maravilhosas, e não os proletários, que tinham de ser organizadas para corromper o “sistema”, enfraquecê-lo e destruí-lo por dentro. A influência de Marcuse, fundindo-se às propostas de “revolução cultural” inspiradas em Antonio Gramsci, foi tão vasta e profunda que hoje o marcusismo em ação já nem aparece associado ao nome de seu inventor: tornou-se o modo de ser natural e universal do movimento revolucionário por toda parte.

No Brasil, a íntima colaboração entre a esquerda revolucionária e o banditismo, da qual já se viam amostras esporádicas desde os anos 30, começou a existir de forma mais organizada durante o regime militar, quando os terroristas adestrados em Cuba, na Coréia do Norte e na China passaram a transmitir seus conhecimentos de estratégia e tática da guerrilha urbana aos delinqüentes comuns com os quais compartilhavam o espaço no Presídio da Ilha Grande, RJ. Foi daí que nasceram as mega-organizações criminosas, o Comando Vermelho e depois o PCC. A esperança que inspirou a sua fundação não foi decepcionada. Em poucos anos, o guru do narcotráfico carioca, William Lima da Silva, o “Professor”, já podia se gabar de haver superado seus mestres:

“Conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu: o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas serão três milhões de adolescentes, que matarão vocês nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas?”

O recorde anual de homicídios no Brasil, entre 40 e 50 mil mortos, segundo a ONU, e o crescimento acelerado do consumo de drogas neste país – enquanto diminui nos países em torno – mostram que esta segunda expectativa também não foi totalmente frustrada.

Mais tarde os terroristas subiram na vida, tornaram-se deputados, senadores, desembargadores, ministros de Estado, tendo de afastar-se de seus antigos companheiros de presídio. Estes não ficaram, porém, desprovidos de instrutores capacitados. A criação do Foro de São Paulo, iniciativa daqueles terroristas aposentados, facilitou os contatos entre agentes das Farc e as quadrillhas de narcotraficantes brasileiros – especialmente do PCC –, dos quais logo se tornaram mentores, estrategistas e sócios. Foi o que demonstrou o juiz federal Odilon de Oliveira, de Ponta Porã, MS, pagando por essa ousadia o preço de ter de viver escondido, como de fosse ele próprio o maior dos delinqüentes (v.

http://www.eagora.org.br/arquivo/Farc-ensina-seqestro-a-PCC-e-CV-afirma-juiz/ e sobretudo http://odilon.telmeworlds.sg/ ), enquanto os homens das Farc transitam livremente pelo país, têm toda a proteção da militância esquerdista em caso de prisão e até são recebidos como hóspedes de honra por altos próceres petistas. (O secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, diz que as Farc nem mesmo pertencem ao Foro de São Paulo.. Ele mente e sabe que mente. Dezenove anos de documentos oficiais do Foro provam isso acima de qualquer possibilidade de dúvida.)

Mesmo apoiada pela mais vasta e permanente campanha de mutação cultural, a articulação direta de bandidos e revolucionários não seria suficiente para produzir seus efeitos se, ao mesmo tempo, a própria estrutura jurídico-policial do Estado não fosse submetida a alterações destinadas a dificultar a atividade repressiva, fornecendo aos delinqüentes todas as vantagens na sua luta contra a sociedade. O desarmamento da população civil, a criminalização fácil das ações policiais mais corriqueiras, a leniência proposital para com os delinqüentes juvenis, a tolerância ou mesmo incentivo à violência nas escolas – tudo isso converge com a estratégia geral do movimento revolucionário em seu empenho de demolir as defesas da sociedade por meio da criminalidade triunfante.

O auxílio-reclusão – ou “Bolsa-Bandido”, como o povo prefere chamá-lo – não tem nada de extravagante ou surpreendente. É apenas mais uma expressão da “imensa ternura para com os ferozes”, o sentimento mais profundo e permanente da religião revolucionária, que de há muito já deixou de ser só um estado de alma e se transformou em temível instrumento de ação prática.

Em 16 de outubro de 2009

Mais Duguinismo

16 de março de 2014 | Diário do Comércio

Num post publicado na semana passada em sua página do Facebook, o professor Alexandre Duguin afirma: “Os americanos estão nas mãos de um grupo de terroristas extremistas. Estes não são verdadeiros americanos. Eles não compartilham dos reais e profundos valores americanos. Eles sacrificam a América aos interesses de uma oligarquia financeira internacional e global.”

É no mínimo estranho que ele agora diga isso, pois essa foi precisamente a tese que defendi no debate que tive com ele, e contra a qual ele esperneou o quanto pôde, insistindo na balela de que o globalismo é a expressão do interesse nacional americano.

O livro que transcreve o debate na íntegra levou o título de Os EUA e a Nova Ordem Mundial (Vide Editorial, 2012), precisamente porque esse era o ponto crucial da nossa divergência: a Nova Ordem Mundial é o poderio americano expandindo-se para dominar o mundo ou é, ao contrário, uma estratégia para demolir a nação americana e subjugá-la aos seus principais inimigos?

Ao ver finalmente a luz, o prof. Duguin poderia pelo menos ter tido a gentileza de reconhecer que não a enxergou por iniciativa própria, mas que foi levado a isso a contragosto, pelas razões mais fortes dadas pelo seu adversário.

Mas ele teve motivos muito sérios para infringir tão patentemente as regras da concorrência intelectual. Ao contrário deste articulista, o prof. Duguin não é um escritor independente, empenhado tão somente em tentar orientar-se na confusão do mundo. É um ideólogo e um líder, o condutor de um movimento político mundial apoiado e subsidiado pelo governo russo.

O objetivo desse movimento é declaradamente destruir a aliança Estados Unidos -Inglaterra-Israel e impor o domínio russo a todo o planeta, tudo sob as vestes de um hipotético e simbólico “Império Eurasiano”.

É por isso mesmo que o prof. Duguin, ao endossar finalmente as palavras de que discordava, não pode confessar de quem as ouviu. Se o fizesse, teria de lhes dar o sentido que tinham na emissão originária. Mas, em vez disso, ele quer usá-las para os seus próprios fins, que continuam incompatíveis com as convicções do seu adversário.

Noutros termos: se ele não conseguiu derrotar o oponente, vai tentar tirar proveito da vitória deste, fingindo que foi sua própria.

Para isso o prof. tira, das palavras que repete, uma conclusão que, parecendo imitar, na verdade, inverte a que elas impunham originalmente. As forças anti-americanas que dominam a América, prossegue ele, “subsidiam o wahabbismo, o terrorismo, Israel, os neonazistas ucranianos e os trotsquistas”.

Vamos por partes.

1 Wahabbis são a classe dominante da Arábia Saudita. Ninguém os subsidia. Eles é que subsidiaram a carreira de Barack Hussein Obama, compraram boa parte da grande mídia norte-americana e atualmente são praticamente os donos de metade da cidade de Nova York. É o presidente americano que se prosterna ante o rei saudita, e não ao inverso. Os Wahabbis são parte integrante da elite anti-americana que hoje persegue e marginaliza os cristãos e que favorece a ascensão islâmica por todos os meios possíveis e imagináveis.

2 É verdade que essa elite financia os trotsquistas, mas não só eles: financia toda sorte de movimentos esquerdistas e anti-americanos, inclusive aqueles que o “eurasianismo” procura agora seduzir para disputar com os globalistas quem destrói mais depressa os EUA.

3 Também é verdade que a elite globalista financia movimentos terroristas; porém entre estes se incluem aqueles que têm excelentes relações com a Rússia, como por exemplo o Hamas. Onde quer que se prenda um terrorista islâmico, ele tem invariavelmente na mão uma arma russa, ou às vezes chinesa.

4 Os americanos obviamente apoiam a rebelião ucraniana, mas até agora não surgiu nenhuma prova razoável de que os tais “grupos neonazistas” tenham sido criados ou subsidiados pela CIA. Ao contrário, criar esses grupos, infiltrá-los em nações adversárias e em seguida choramingar que apenas está se defendendo contra uma agressão nazista é uma velha e clássica especialidade da KGB e dos serviços secretos dos antigos “países satélites”. O tempo vai dizer de onde surgiram os neonazistas ucranianos. Por enquanto, o que não faz sentido é acreditar, a priori, na propaganda russa.

5 E Israel? Nos EUA até as crianças sabem que a política globalista da dupla Obama-Kerry é isolar Israel e dar mão forte aos palestinos. Quem luta para restaurar a aliança EUA-Israel são justamente os cristãos conservadores apegados aos “reais e profundos valores americanos”, hoje tão achincalhados pelo establishment.

Em suma: na sua luta pelo domínio do mundo, os globalistas ocidentais e o “Império Eurasiano” estão de pleno acordo em um ponto: eles querem tirar do caminho a América e Israel.

De acordo com o apóstolo do eurasianismo, dá na mesma fazer isso culpando a nação americana pelos desvarios dos globalistas que a exploram, ou, pelo contrário, fingir protegê-la deles para com isso jogá-la contra Israel.

Talvez não seja uma coincidência: ao mesmo tempo que o prof. Duguin usurpa minhas palavras para lhes dar um uso que não aprovo, devotos duguinistas se empenham numa campanha insana de “character assassination”, contra mim, alardeando, no site de um certo Institute for Eurasian Studies, que eu sou um perigosíssimo “agente islamo-sionista-maçom” (alguém pode me dizer o que é isso?), empenhado em destruir a Igreja Católica e “fomentar uma guerra civil no Brasil”.

O Povo Merece

16 de maio de 2004 | Zero Hora

Outro dia fui procurado por um professor de faculdade que pedia informações sobre o movimento conservador nos EUA para uma tese de relações internacionais. Ele tinha vasculhado as principais bibliotecas universitárias do país, sem encontrar mais que cinco ou seis títulos. Isso dá a medida de quanto o Brasil, mergulhado há duas décadas num poço de ilusões solipsísticas, foi parar longe da realidade do mundo.

Analisar o atual governo americano sem conhecer sua retaguarda doutrinal e ideológica é como seria, na década de 40, pontificar sobre Stalin sem nunca ter ouvido falar de Marx ou de Lênin. Nossos comentaristas de mídia e professores universitários fazem isso com a maior sem-cerimônia, parecendo acreditar-se detentores de uma ciência infusa que prescinde de todo contato com os fatos e os textos.

Anos atrás, denunciei a fraude de um “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita”, elaborado com dinheiro público por uma centena acadêmicos. Prometendo um panorama científico de uma importante corrente política mundial, a obra omitia todos os principais escritores e filósofos conservadores e colocava em lugar deles panfletários de quinta categoria, premeditadamente escolhidos para criar uma impressão de miséria intelectual e fanatismo selvagem.

Pela amostragem numericamente significativa dos signatários da empulhação, era obrigatório concluir que o establishment universitário brasileiro havia perdido os últimos escrúpulos de seriedade, consentido em tornar-se instrumento consciente da exploração da ignorância popular.

Como movimento intelectual assumido, o conservadorismo anglo-saxônico começou em 1945, e a ele estão associados os nomes de alguns dos maiores pensadores do século XX, como Leo Strauss, Eric Voegelin, Thomas Molnar, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, James Burnham, Roger Scruton, Irving Kristol, Thomas Sowell. Se esses e tantos outros do mesmo nível estão excluídos das bibliotecas universitárias e das prateleiras de livrarias brasileiras, não há nisso nada de surpreendente: nenhum esforço ativo de desinformação pode prosperar sem a prévia supressão das fontes que o desmintam. É preciso tornar essas leituras inacessíveis, antes de tudo, em razão da força intelectual que delas irradia, capaz de contaminar perigosamente uma juventude que só a virgindade mental conserva presa na jaula do obscuratismo esquerdista. A riqueza e a abrangência crescentes do debate cultural e político norte-americano, especialmente na ala conservadora, já o tornaram tão inacessível à imaginação brasileira que esta prefere refugiar-se na confortadora ilusão de que ele não existe.

Mas não é somente às idéias que o acesso está bloqueado. É também aos fatos. Por falta de fontes, ninguém neste país sabe nada do que os historiadores ocidentais descobriram nos Arquivos de Moscou desde 1990 sobre a história do comunismo, retaguarda indispensável à compreensão do estado atual desse movimento, que vai dominando a América Latina ante os olhos cegos de milhões de paspalhos que o imaginam morto e inexistente.

Não há precedente histórico de uma privação de informações tão vasta, tão profunda, tão duradoura. Nem muito menos de um povo que, com o despreocupado conformismo dos inconseqüentes, se acomodasse tão deleitosamente à ignorância imposta.

Essa indolência mental, esse desprezo pela busca do conhecimento, concomitante à orgulhosa afirmação de certezas arbitrárias, produz fatalmente um desajuste na ordem prática, que se traduz, retoricamente, no ufanismo patético dos derrotados e dos impotentes.

Não é verdade que todo povo tem o governo que merece. Mas o brasileiro, sem dúvida alguma, tem.

Em 16 de maio de 2004

Da Barbarie A Decadencia

15 de novembro de 2003 | O Globo

Vocês já devem ter ouvido dizer que o Brasil saltou da barbárie à decadência sem ter passado pela civilização. Antigamente isso era piada, mas cada vez mais adquire toda a aparência de uma verdade passível de confirmação empírica.

Observo, por exemplo, que a vulgata marxista mais infame, desprezada como lixo burocrático pelos intelectuais de esquerda dos anos 60, é hoje aceita como alta cultura universitária, sem que ninguém mais pareça notar a diferença.

Acabo de ler, nas apostilas de um professor da Faculdade de Direito da USP, tido como um dos mais brilhantes intelectuais da instituição, que a linguagem e o pensamento estão tão profundamente interligados que “quem não fala não pensa”. Alunos do cidadão repassam-me essa enormidade com toda a inocência, sem dar-se conta de sua implicação mais óbvia: se não se pode pensar sem palavras, uma criança tem de aprender a falar para depois poder pensar, donde se conclui que a pobrezinha terá de enfrentar o aprendizado da fala sem nenhum auxílio da capacidade pensante. Crianças assim só existem no corpo docente da USP. Se as outras funcionassem como elas, não restaria alternativa senão explicar a sua aquisição da linguagem pela mera reflexologia animal, levando o materialismo pavloviano às últimas conseqüências, coisa que mesmo a velha Academia de Ciências da URSS temia fazer. A mais elementar observação dos fatos ensina que o pensamento lógico está presente já na comparação e catalogação imaginativa das propriedades sensíveis dos corpos — forma, cor, movimento –, e que sem o sistema de categorias aí subentendido seria impossível, depois, apreender as diferenças entre classes de palavras. Dos estudos clássicos de Rudolf Arnheim sobre o “pensamento visual” até as análises de Xavier Zubiri divulgadas na década de 90, ninguém mais nega a obviedade proclamada 2.400 anos atrás por Aristóteles, de que não há linguagem sem abstração, nem abstração sem um senso lógico das categorias embutido de algum modo na simples percepção sensível. Zubiri vai até além e proclama que a apreensão da “realidade” como tal, distinta da simples estimulação recebida por um corpo, é a forma propriamente humana de percepção, a diferença mais imediata e decisiva entre o homem e o animal.

Inversa e complementarmente — e a própria apostila que mencionei dá exemplo disso –, é claro que se pode “pensar” com meras palavras, formando cadeias inteiras de silogismos sem a mínima apreensão das entidades referidas, portanto sem nenhuma consciência da diferença entre as definições nominais dos termos e as qualidades objetivas dos seres e estados respectivos. O falante, aí, tão logo consiga formar uma combinação de palavras que lhe pareça razoável desde o ponto de vista gramatical e semântico, acreditará piamente estar pensando sobre coisas existentes, e nada poderá tirá-lo da ilusão de que seu universo de frases é o extremo limite do mundo real. É precisamente isso o que no Brasil de hoje se chama “pensar”, e é natural que, generalizando suas limitações pessoais, os praticantes desse vício acabem chegando à conclusão de que, para o restante da humanidade, pensar sem palavras é tão impossível quanto para eles próprios.

Toda a possibilidade de um ser humano conhecer a realidade objetiva repousa na capacidade que ele tenha de analisar criticamente sua própria linguagem com base na experiência sensível, externa e interna, percorrendo em marcha-a-ré toda a cadeia que sobe das percepções mudas — experiência pessoal direta — até os complexos semânticos e sintáticos mais elaborados. Um escritor que busca o “termo próprio”, com a obsessão de um Flaubert ou de um Eça de Queiroz, não faz senão comparar sua percepção das propriedades sensíveis com os registros convencionais da memória verbal coletiva anotados na fala popular, na tradição literária e nos dicionários. O domínio superior da expressão lingüística é impossível sem um senso agudo da distância que há entre linguagem e percepção, senso cujo exercício é justamente a base da conexão crítica entre pensamento e realidade. Especialmente aprimorado nos escritores e filósofos, esse exercício é no entanto uma capacidade elementar sem a qual os seres humanos não poderiam jamais escapar das malhas de qualquer ilusão verbal tecida por eles próprios. Um escritor de verdade é portanto um especialista em percepções, empenhado em protegê-las contra a força dissolvente do fluxo lingüístico, e assim, mallarmeanamente, em “dar um sentido mais puro às palavras da tribo”. Não é necessário dizer que, nessa acepção, a maioria dos indivíduos que neste país ostentam hoje em dia o título de escritores não são escritores de maneira alguma, e sim precisamente o contrário: são profissionais da tagarelice, dedicados a sobrepô-la de tal modo ao mundo percebido que no fim já não seja possível recorrer ao testemunho da percepção para confirmar ou impugnar o que dizem. Quando adquirem nisso um certo grau de habilidade, estão maduros para declarar o primado da linguagem não só sobre o pensamento, mas sobre a realidade, transformando o psitacismo no mais alto dos deveres intelectuais. Que o façam sob pretextos desconstrucionistas elegantíssimos, nada mais natural. A linguagem dessa gente não é “bárbara”, no sentido de elementar e simplória. Ao contrário, é tanto mais sofisticada quanto mais burra, mais postiça e mais incapaz de confronto com a realidade. Que, por outro lado, os indivíduos assim formados ou deformados sintam cada vez mais atração pelo vulgar e grosseiro, até o ponto de colocar sua pena orgulhosamente a serviço de demagogias revolucionárias torpes e sangrentas, celebrando o “humanismo de Che Guevara”, a compaixão social do genocídio maoísta, os ideais justiceiros do narcotráfico ou a piedade cristã do aborto em massa, é algo que se compreende sem muita dificuldade: pois a mente que disse adeus ao mundo das percepções sente mesmo a nostalgia da realidade e tem de buscar no “popular”, como ela mesma o nomeia, um sucedâneo simbólico daquilo que perdeu para sempre. É o salto, se não da barbárie à decadência, ao menos da decadência á barbárie.

Em 15 de novembro de 2003

A Arrogancia Da Incultura

15 de junho de 2002 | O Globo

Está circulando pela internet um artigo assinado por Rubens Alves, educador e professor da Unicamp, que defende a eleição de Lula para presidente mediante um truque de argumentação que tem tudo para enganar milhares de leitores.

O professor Alves começa reproduzindo, como se pretendesse defendê-las, duas das objeções de praxe contra o candidato do PT:

Primeira: é um caipira inculto, que mal terminou o curso primário e, habilitado a trabalhar antes com os músculos do que com o cérebro, não tem o mínimo preparo para lidar com as grandes questões nacionais. Segunda: tem umas propostas de política agrária que, se aplicadas, levarão o país a uma convulsão social.

Uma vez expostas essas objeções, o autor as neutraliza de repente, com grande efeito persuasivo, mostrando que as copiou de discursos feitos não contra Lula, mas contra Abraham Lincoln, o qual, a despeito delas, veio a tornar-se um dos maiores presidentes dos EUA.

Conclusão: Lula na presidência não há de ser mais perigoso — ou vexaminoso — do que o foi Abraham Lincoln.

Pois bem, esse artigo, para mim, só prova uma coisa: a incultura pretensiosa de um certo tipo de educador e professor universitário — certamente o mais comum hoje em dia — que emporcalha sua cátedra fazendo dela um palanque para a difusão de mentirinhas tolas convenientes ao seu partido. Aí já estamos um passo além da simples politização abusiva da vida universitária. Politiqueiros de cátedra sempre existiram, mas eles buscavam conservar ao menos uma aparência de dignidade intelectual. Agora, a ânsia eleitoreira suprimiu esse último resíduo de escrupulosidade: para promover o candidato, não se vexa de apregoar tolices que estão abaixo do nível de exigência do ensino primário.

O paralelo entre a educação de Lula e a de Abraham Lincoln é falso até o limite da alucinação. Ambos esses políticos vieram, é certo, de família pobre, e mal tiveram educação formal. A diferença é que Lincoln, estudando sozinho, tornou-se um grande conhecedor de história e de literatura, e dominou seu idioma natal ao ponto de escrever, já aos vinte e poucos anos, como um autêntico clássico da língua inglesa. Já o sr. Lula da Silva só o que consegue é pronunciar com língua presa uns discursinhos miseráveis que, se lhe granjeiam alguns votos, é apenas graças ao efeito tranqüilizante que a exibição de mediocridade pode ter sobre platéias de invejosos doentios que fogem do admirável como da peste. Para estes, a melhor qualidade que um candidato pode apresentar é a de não ser melhor que eles. Votando em Lula, votam em si mesmos, porque se sentem capazes de fazer tudo o que ele faria e, elegendo-o, não serão obrigados a respeitá-lo.

O sucesso de Lula é, de fato, a plena legitimação da incultura orgulhosa. Este senhor não se deu o trabalho de aprimorar sua formação nem mesmo depois de salvo da miséria pela ascensão política. Gasta seu dinheiro com a satisfação de vaidades tolas, mas não com auto-educação. Usa ternos elegantes e fuma charutos caros, mas não contrata um fonoaudiólogo para corrigir aquele medonho ceceio na sua pronúncia, que ele prefere continuar ostentando como uma grife.

Eu próprio vim de família pobre, mal tinha dinheiro para comprar livros, e além de pobre era doente. Só soube o que era saúde aos vinte e oito anos, e comprei meu primeiro e único carro (usado e esculhambado) aos quarenta e tantos. Isso não me impediu de adquirir conhecimentos bem superiores aos de várias dúzias de Lulas somados a uns quantos Rubens Alves. Mas me impediu de aviltar minha pobreza utilizando-a como desculpa para meus defeitos ou, mais ainda, de alegar esses defeitos como qualidades excelsas, cavando votos mediante a ostentação deles. Vocês podem avaliar quanto o embelezamento eleitoral da incultura luliana me soa incongruente e insultuoso. Insultuoso não só a mim: num país cuja cultura superior é quase toda ela obra de pobretões esforçados, a beatificação da incultura de um ex-pobre é de um cinismo quase macabro.

Se a biografia de Lula ilustra a perfeita compatibilidade da indolência intelectual com a ambição avassaladora de subir na vida, a argumentação do professor Alves demonstra a total harmonia entre o estatuto de intelectual acadêmico e uma mentalidade mesquinha de cabo eleitoral. Um insulta os pobres estudiosos, o outro ostenta com orgulho o emblema da prostituição intelectual. E é essa gente que pretende julgar e corrigir o país.

E o mais espantoso na argumentação é justamente a sua segunda parte, na qual, ironizando como se fosse uma estupidez sem mais tamanho o temor de que a política agrária de Lula venha a produzir uma convulsão social, o professor esquece que a de Lincoln produziu não apenas isso, mas uma guerra civil que foi o maior conflito armado registrado na História até então. Essa guerra, fruto da pura prepotência burocrática, teve como efeito colateral, é certo, a libertação dos escravos, mas esse mesmo efeito poderia ter sido obtido por outros meios, sem tanto derramamento de sangue e sem consolidar o ódio racial cujas conseqüências ainda são visíveis na sociedade americana. Meninos de escola não têm o direito de ignorar isso. Mas o professor Alves acha que tem.

Uma Intentona E Tanto

15 de agosto de 2001 | 15 de agosto de 2001

Há algum tempo que as polêmicas em torno do professor Olavo de Carvalho nos divertem e nos enriquecem com seu inigualável brilhantismo intelectual. Um verdadeiro filósofo, sem a empáfia dos jargões, a nos brindar em periódicos e pela Internet, com o mais fino dos temas filosóficos, surgiu como num passe de mágica, para horror dos ídolos de plantão. Mas seu empreendimento filosófico não se resume aos temas, ditos, específicos da filosofia. Sua bondade intelectual nos propicia uma das mais profundas e catárticas análises da cultura que esse país já teve, conforme o best-seller O Imbecil Coletivo pode atestar.

A cruzada que Olavo empreende contra a perigosa hegemonia ideológica esquerdista nunca foi respondida à altura. A esquerda não tem pensadores, quiçá filósofos, e nenhuma das questões que o professor Olavo denuncia, com objetividade e clareza escandalosas, foram respondidas. Quantas vezes, entre amigos, eu reclamei da mudez sórdida dos intelectuais e dos fazedores de opinião desse país?! Orava para que alguém pudesse dialogar com ele. Era triste ver quão solitária era a verdade. Não reclamo da solidão do professor, tão já afeiçoado a ela, mas a solidão mórbida de todos os que se interessam pela verdade dos fatos e esbarram na ideologia, na mentira cotidiana da modernidade, da esquálida cultura juvenil que odeia o que ignora. Mas, passada a fase de entusiasmo, que sua socrática intervenção na cultura brasileira nos traz, pois o império da burrice maliciosa e arrogante ainda sobrevive, uma tristeza, ainda que terapêutica, substitui o encanto.

É claro que não me refiro nem ao valor nem a qualidade das aulas do professor Olavo, mas uma suposta reação à elas. A mudez foi substituída por uma gritaria. Surge agora um grupo, dito católico, que, ao contrário da esquerda brasileira, parece pensar e se coloca contra o projeto, devo dizer, pedagógico do professor Olavo. A arrogante mudez coletiva da mídia parece já menos escandalosa que a balbúrdia inquisitorial que esse grupo dito católico, repito, empenha.

Um grupo, cujas citações em latim apenas douram um barroco podre, sente-se honrado de dispersar a unidade inegável que o professor Olavo aponta entre as várias tradições espirituais da humanidade. Condenar o professor e a toda a sua obra de herética, justamente aquele que já figura como um dos que mais fez pela dignidade intelectual de nosso país, é uma outra maneira de apagar os sinais da autêntica espiritualidade em nome de um discurso canônico míope, de um rigor anacrônico, vazio de espírito.

Artigos de um aluno do grupo fedeliano, arrotam uma pseudo erudição, específica e afetada, cheia de sarcasmos e arrogâncias, parecido, aparentemente, com o sarcasmo do próprio Olavo de Carvalho. É certo que alguns fedelianos também foram breves alunos do professor Olavo, mas, como a intenção sórdida de apreender-lhe apenas contradições já dominavam seus corações, suas mentes não puderam apreender nada mais que um estilo, um dentre os vários. A crítica de Olavo ao Concílio Vaticano II, à infalibilidade papal, à equivocada generalização sobre a gnose, esse esplêndido conceito grego do conhecimento, é tratada como uma heresia digna das fogueiras. E os fedelianos se arrogam seus mais resolutos vestais. É sabido que, após o Vaticano II, a nova missa não é um ato do sacerdote a quem o povo se une, mas um ato do povo a quem os ministros servem. Os altares foram transformados em mesas e isso, nem mesmo um filósofo deve dizer. Pelo menos é assim que pensam esses “guardiões romanos”. Mas Olavo não pode e não deve ficar calado. A Teologia da Libertação não é um fenômeno sul-americano , nem restrito à Igreja Católica, é ensinada em universidades americanas e européias, disseminada na maioria das denominações protestantes e, acima de tudo, pelo Concílio Mundial de Igrejas. É notório que é uma tentativa de misturar ideologia marxista com os valores religiosos mais superficiais. O grupo dos fedeli é mais uma manifestação de nosso tempo: riqueza religiosa e pobreza espiritual. As análises de Olavo de Carvalho sobre a Igreja, sobre a religião são de uma clareza e bondade que falta até mesmo à maioria dos próprios religiosos. Ninguém tem a palavra definitiva, é certo, mas o caminho que se percorre já diz muito, e a trilha intelectual que o professor percorre é de um inegável brilho espiritual cuja reação ígnea dos seguidores de Fedeli realmente nos espanta. Há uma série de questões sobre a Igreja que são de suma importância para o filósofo discutir, para benefício não só do povo, mas da própria Igreja. Não podemos esquecer que ela também é uma instituição humana e que as soluções que se buscam para os dilemas da humanidade, ainda que inspiradas, não são absolutas, pois seriam, ai sim, uma grande heresia.

Só Deus é Absoluto. A Verdade deve ser buscada. Não a encontraremos por decreto. Os que se dizem defensores da Tradição, especialmente os que o fazem com as tochas em punho, não podem esquecer que devem continuamente se manifestar a respeito do problema da miséria, e das contínuas contradições da humanidade. A busca do conhecimento, sendo a busca do sentido da vida, comunga de uma dimensão comum com a mística. Não se confunde com ela, mas não lhe é estranho. O divórcio que o grupo fedeliano quer reeditar entre Ser e Conhecer, açoitando-nos com dogmas literais, é no mínimo um ultraje filosófico. Mas creio que mandar a filosofia às favas não é exclusividade dos fedeli, e a esquerda materialista agradece mais essa intentona.

Ronaldo Castro castro@recife.pe.gov.br Em 15 de agosto de 2001

Leituras

90 Anos Em 9 Segundos

14 de setembro de 2000 | Jornal da Tarde

“No início da era cristã, a filosofia adormeceu. Seus cochilos acabaram por produzir o sonho filosófico conhecido como escolástica, que tinha por base Aristóteles e os ensinamentos da Igreja. A filosofia foi rudemente despertada desses devaneios medievais no século 17 pela chegada de Descartes, com sua declaração `Cogito, ergo sum’ (Penso, logo existo). Uma era de esclarecimento havia começado: o conhecimento baseava-se na razão.”

(Paul Strathern, Nietzsche em 90 minutos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1997.)

O livro que traz essa afirmação, escrito para jovens, é hoje abundantemente distribuído entre estudantes do ensino médio. Quem quer que ingresse no estudo da filosofia por meio dele levará consigo, provavelmente pelo resto da vida útil do seu intelecto, um escotoma, um ponto cego bem no meio do seu horizonte de visão. Nada tem mais força hipnótica sobre as mentes juvenis do que um tacanho preconceito revestido da aura de uma verdade libertária. Uma vez introjetado o esquema do sr. Strathern, o cérebro do leitor já não poderá ser reconduzido à normalidade nem mesmo pela improvável leitura direta dos textos aludidos – porque os textos escolásticos estarão acima da capacidade de quem aprendeu filosofia com o sr. Strathern e os de Descartes serão lidos na linha sugerida pelo sr. Strathern.

Na realidade, o que ele diz é o contrário do que se encontra nos textos. Nas célebres Meditações de Filosofia Primeira, René Descartes, em busca da certeza absoluta, fundamento de todas as ciências, encontra como primeiro e inabalável ponto de apoio a certeza do próprio pensamento. Se penso, existo, ao menos enquanto penso. Não posso pensar e, ao mesmo tempo, negar que existo. Tal é a descoberta que ele enuncia no “Cogito ergo sum”. Só que, em seguida, ele percebe que dessa certeza puramente subjetiva ele não pode deduzir nada sobre o mundo exterior, nem mesmo a existência de um universo físico em torno. Preso na sua jaula solipsista, Descartes constata que, para sair dela, precisa de uma segunda certeza: a certeza do mundo físico. E onde ele vai buscá-la? Vai buscá-la no seguinte argumento: se tenho em mim o sentimento da existência do mundo exterior e se este sentimento não pode ser deduzido de mim mesmo, isto é, da certeza inicial do “cogito”, então só pode ter sido posto na minha alma pelo próprio Deus; e, como Deus é bom, não iria me enganar infundindo-me a certeza de coisas erradas. Logo, fica provado que o mundo exterior existe.

Compreenderam bem? Numa só penada, o devoto milico aposentado, que acabara de fazer uma peregrinação à Igreja de Nossa Senhora de Loreto para pedir inspiração, faz, não da razão, mas da fé cega na bondade de Deus, a base da certeza do mundo exterior, o princípio de todo conhecimento objetivo, o fundamento das ciências da natureza. É um monumental exagero de carolice a que nem o mais piedoso dos escolásticos jamais ousaria chegar, de vez que todos estavam advertidos, pelo menos desde Boécio (século 6) da necessidade de depurar a fé no cadinho da razão.

Por isso mesmo, F. W. von Schelling, um dos gigantes da modernidade, sobre o qual aliás não poderia pesar a menor suspeita de ser católico, dizia que, na passagem da escolástica ao cartesianismo, a filosofia tinha caído para um nível pueril. Leibniz, de maneira mais delicada, afirmava a mesma coisa, e também Husserl, entre homenagens de praxe a René Descartes, deixava claro não compactuar com o que chamava, pejorativamente, “exercícios de cinegética antiescolástica”.

Está claro que o sr. Strathern, seja ele quem for, jamais leu Descartes. Seu Descartes não é o filósofo de carne e osso, autor do Discurso do Método e das Meditações. É uma imagem popular, colhida na cultura de almanaque e reproduzida em milhões de almanaques para a imbecilização geral dos jovens.

Para metê-la no miolo mole de um ginasiano distraído, não é preciso nem os 90 minutos mencionados no título: sua ação cretinizante é instantânea, seu efeito, duradouro. Em nove segundos o leitor terá a garantia de, pelos 90 anos seguintes, não compreender nem René Descartes, nem a escolástica, nem, a rigor, coisa nenhuma.

No entanto, não é somente pela sua facilidade de absorção que o ensinamento do sr. Strathern será bem recebido. É também porque coincide, no tom geral, com o discurso anticatólico cuja repetição psitacídea é a condição inicial para, nas classes falantes, um sujeito ser admitido como espírito esclarecido.

E é assim que, de esclarecimento em esclarecimento, com a ajuda de solícitas professorinhas e devotados jornalistas culturais, a burrice, cada vez mais, rege o mundo.

Em 14 de setembro de 2000

A Alma Americana Debilitada Completo

14 de janeiro de 2008 | Diário do Comércio

O discurso dominante na grande mídia, no show business e nas universidades dos EUA é hoje tão francamente anti-americano que só em detalhes de estilo – se tanto – é possível distingui-lo das campanhas de difamação empreendidas pela URSS nos anos 50 e 60. A elite americana gaba-se de ter vencido a Guerra Fria, mas parece que foi psicologicamente dominada pelo inimigo perdedor e acabou acreditando em tudo o que ele dizia contra ela. A vingança póstuma dos soviéticos brilha nas páginas do New York Times , no horário nobre da CBS e nos filmes de Michael Moore e George Clooney com um esplendor que nem Willi Münzenberg, o gênio da desinformação comunista, jamais teria ousado sonhar.

O que quer que se diga contra o governo americano, contra os militares americanos, contra a cultura americana parece hoje gozar de credibilidade automática, além de poder ser gritado desde o alto dos telhados sem o menor temor de uma resposta exasperada, ao passo que toda palavra pró-americana tem de vir cercada de precauções politicamente corretas, por medo de represálias infalíveis e ruidosas, se não de um processo judicial. Acompanhar o debate político americano é confirmar diariamente o sentido profético do verso de William Butler Yeats: ” The best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity .” Algo mudou radicalmente no coração da América na segunda metade do século XX, e mudou exatamente no sentido em que os mais odientos inimigos do país teriam desejado que mudasse.

Como isso foi possível? Os agentes da mudança querem fazer-nos crer que foi tudo um processo espontâneo, natural e inevitável, dando ao curso da transformação a autoridade de uma lei histórica impessoal que só a tacanhice reacionária ousaria contestar. Mas há tempos já compreendi que leis históricas impessoais são quase sempre mera camuflagem de ações humanas que desejariam passar despercebidas para que seus efeitos se recubram de uma aura de mistério divino.

A mudança que debilitou a alma americana foi precipitada por três grandes e bem sucedidas operações de desinformação que, por serem lançadas desde Washington e não desde Moscou, conseguiram enganar a nação inteira e forjar um novo “senso comum” (no sentido gramsciano do termo) a cuja influência nem os mais conservadores e patriotas escapam por inteiro. Nas três ocasiões as mentiras cuidadosamente elaboradas pelo próprio governo para lançar sobre os EUA a culpa pelas ações maliciosas de seus inimigos não só se tornaram verdade oficial, até hoje repetida uniformemente pela mídia e pelo sistema de ensino, mas se propagaram pelo mundo, criando a imagem monstruosamente deformada que hoje alimenta e legitima o ódio anti-americano por toda parte. Pode parecer absurdo que governantes escolham acumpliciar-se à difamação do seu próprio país para evitar problemas com a URSS ou para salvar sua própria imagem eleitoral, mas foi exatamente isso o que fizeram três presidentes americanos, dois dos quais, por ironia, são apresentados pela retórica esquerdista como personificações exemplares do anticomunismo e do “imperialismo ianque”.

As três operações foram concebidas nas altas esferas do Partido Democrata, mas pelo menos uma delas com intensa colaboração republicana. Três livros recentemente publicados, um dos quais já comentei aqui e o outro mencionei de passagem (v.

Lições da Guerra Fria e A autoridade religiosa do mal ), revelam por fim o que se passou por trás do palco nessas ocasiões, as incríveis maquinações de políticos e jornalistas que por interesses imediatistas não hesitaram em favorecer o inimigo e legar às gerações seguintes um país cada vez mais enfraquecido moralmente.

O primeiro desses episódios foi a operação montada pela administração Harry Truman – e prosseguida fielmente por Eisenhower – para negar ou dissimular a presença maciça de agentes soviéticos em altos postos do governo americano, especialmente no Departamento de Estado, bem como em funções técnicas e administrativas onde tinham acesso a informações secretas de natureza militar.

A história é contada com detalhes e extensa documentação por M. Stanton Evans em Blacklisted by History.

The Untold Story of Senator Joseph McCarthy and his Fight Against America ‘s Enemies , New York , Crown Forum 2007. Enquanto vocês não lêem o livro, podem ouvir um bom resumo feito pelo autor na Heritage Foundation, com comentário de Herbert Rommerstein, ele próprio responsável por importantes pesquisas sobre a infiltração soviética nos EUA (v.

Blacklisted by History: The Untold Story of Senator Joe McCarthy ).

Para fazer uma idéia dos riscos estratégicos envolvidos na situação, basta saber que praticamente toda a orientação da política norte-americana na China durante a revolução comunista foi decidida com base em relatórios forjados por agentes soviéticos infiltrados no serviço diplomático americano em Beijing. Mediante falsificações prodigiosas, esses agentes conseguiram persuadir o governo de Washington a sonegar ajuda a seu aliado Chiang Kai-Chek e a apoiar as tropas comunistas de Mao Dzedong, que sem isso jamais teriam conseguido derrubar o governo chinês e instaurar a mais sangrenta das ditaduras genocidas que o mundo já conheceu. O embaixador americano Patrick Hurley percebeu a trama e avisou Washington em tempo, mas suas mensagens foram desprezadas. Sentindo-se insultado, Hurley pediu demissão, sendo substituído pelo general George Marshall, que acreditava naqueles relatórios como se fossem evangelhos revelados. Marshall não era pró-comunista, evidentemente, mas se o seu procedimento no caso não foi um exemplo claro daquilo que Eric Voegelin chamava de “estupidez criminosa”, não sei o que mais possa se enquadrar nessa classificação. Após o recorde genocida de 70 milhões de pessoas, o governo chinês, acumulando bombas atômicas com o dinheiro que lhe é facultado generosamente pelos investidores americanos, é hoje o maior risco de segurança para os EUA.

Alertado sobre esse e outros inumeráveis casos de infiltração soviética, o governo Truman optou por bater no carteiro, fazendo tudo para dar a impressão de que o único perigo sério para a América era o anticomunismo, especialmente o do Senador Joe McCarthy, cuja imagem demonizada ainda permanece viva na memória mundial. Para obter esse resultado, a tropa-de-choque de Harry Truman não hesitou em dar sumiço a documentos essenciais que, só agora revelados, mostram que em substância todas as acusações lançadas por McCarthy eram verdadeiras e até modestas, em comparação com as dimensões reais do problema. Além de sonegar provas e proteger-se por trás de testemunhos falsos, o governo Truman, em vez de afastar os suspeitos, preferiu apadrinhar suas carreiras, permitindo que subissem na hierarquia e continuassem prestando serviços à ditadura soviética com dinheiro dos contribuintes americanos.

Toda uma cultura de antimacartismo que se espalhou pelos livros didáticos, pelo cinema e pelo jornalismo teve origem nesse empreendimento de falsificação proposital. As conseqüências disso prolongam-se até hoje, fazendo com que os americanos, arrependidos de pecados que jamais cometeram contra os comunistas, sintam mais pavor ante a possibilidade de um “retorno à era McCarthy” do que ante a de um ataque conjugado de generais chineses e radicais islâmicos.

O segundo episódio da série veio quando Lee Harvey Oswald matou o presidente John F. Kennedy em 22 de novembro de 1963. Tanto na Casa Branca quanto na CIA ou no FBI, todo mundo sabia que Oswald era um comunista fanático e que seu intuito ao atirar em Kennedy fôra o de frustrar qualquer iniciativa americana contra a ditadura de Fidel Castro. Aterrorizado ante a perspectiva de que uma explosão nacional de revolta anticomunista respingasse sobre o Partido Democrata, reavivando suspeitas do tempo de Harry Truman, o presidente Lyndon Johnson fez o que podia para que a comissão Warren desviasse as atenções desse ponto sensível, explicando o crime de Oswald não como resultado de suas convicções ideológicas, mas de motivações genéricas como instabilidade emocional, problemas de família, etc. Por incrível que pareça, a comissão consentiu em analisar o mais famoso homicídio político do século XX sem falar em política. Vindo em socorro do presidente, a mídia chique e os intelectuais iluminados produziram então uma caudalosa literatura de pretensões pseudo-sociológicas, que lançava a culpa do delito sobre a “cultura americana de violência” e outras generalidades ocas que, no acerto final, eram debitadas na conta dos conservadores. O discurso anti-americanista da New Left, que então começava a ganhar algum destaque, recebeu assim um poderoso apoio vindo do próprio governo de Washington contra o qual ele voltava a sua histérica eloqüência. Esse discurso acabou por se incorporar no “senso comum”, ao ponto de que hoje é repetido rotineiramente pela grande mídia sem que ninguém note nisso nada de estranho. O livro que descreve essa imensa mutação psicológica que nasceu nas altas esferas de Washington e se propagou por toda a cultura americana é Camelot and the Cultural Revolution. How the Assassination of John F. Kennedy Shattered American Liberalism, de James Piereson (New York, Encounter Books, 2007).

O mais irônico em tudo isso é que, se Lee Oswald, convertido ao comunismo desde a adolescência, não podia de maneira alguma ser considerado representativo das correntes reacionárias supostamente responsáveis pela “violência americana” que o teria induzido ao homicídio, muito menos poderia sê-lo o fanático palestino Sirhan Bishara Sirhan, que em 1968 assassinou o irmão do ex-presidente, Robert Kennedy. Não por coincidência, hoje sabemos que a Autoridade Palestina da Yasser Arafat foi de cabo a rabo uma criação da KGB (v. http://www.weizmann.ac.il/home/comartin/israel/pacepa-wsj.html), mas, na época, a incansável fábrica de mitos da elite esquerdista conseguiu fazer que dois crimes praticados por agentes pró-comunistas contra dois políticos notoriamente anticomunistas parecessem obras da “direita reacionária”, e que essa versão rigorosamente invertida da realidade se incorporasse à psique americana tão profundamente que será preciso muitas décadas para desarraigá-la, se ainda for possível.

A terceira grande mentira, também definitivamente incorporada aos rituais do masoquismo pseudo-moralista da América contra si mesma, foi igualmente obra de Lyndon Johnson. Após ter dificultado por todos os meios possíveis a ação das tropas americanas no Vietnã, Johnson tirou a conclusão lógica da sua própria estratégia, transfigurando a vitória em derrota. Em 31 de janeiro de 1968, o exército norte-vietnamita de Ho Chi-Minh lançou uma grande ofensiva contra os americanos e sul-vietnamitas. A idéia era ocupar de uma vez todas as cidades do Vietnam do Sul, a começar pela capital, Saigon, preparando um levante geral com o auxílio dos guerrilheiros vietcongues. Militarmente, a ofensiva foi um fracasso monumental. Os comunistas perderam em poucos dias cinqüenta mil soldados e todos os objetivos que haviam conquistado. Mesmo o famoso ataque à embaixada americana em Saigon foi um fiasco: nem um único vietcongue conseguiu entrar no edifício – todos morreram na porta. Como, no entanto, o exército americano, procedendo segundo a norma de praxe nessas ocasiões, retirasse velozmente os funcionários civis por meio de helicópteros colocados no topo da embaixada, as imagens da retirada foram exibidas pela TV americana como provas de pânico geral e indício certo da derrota iminente do Vietnam do Sul. Quando o presidente Johnson viu essas cenas assim interpretadas pelo veterano comentarista de TV Walter Cronkite, ponderou: “Se perdi o Cronkite, perdi a nação.” O comandante norte-vietnamita, general Giap, deu-lhe toda a razão, ao admitir que sua principal arma contra o Vietnã do Sul tinha sido a mídia americana. Endossando a lenda da derrota americana, Johnson impôs a seu país uma humilhação que a mídia elegante e a intelectualidade tagarela não cessaram de celebrar desde então como um castigo justo imposto ao povo reacionário, fanático e violento que perseguira inocentes na era McCarthy e assassinara dois Kennedys...

Só agora, com o primeiro volume do livro consagrado pelo historiador Mark Moyar à guerra do Vietnã, a realidade da vitória artificialmente travestida em derrota começa a aparecer. Leiam Triumph Forsaken. The Vietnam War 1954-1964 (Cambridge University Press, 2006).

Da Duvida Credula

14 de dezembro de 1999 | 14 de dezembro de 1999

O que leva um homem a duvidar é ou a percepção de um problema sugerido pelos dados de uma realidade ao menos aparentemente contraditória, ou uma sugestão de sua própria imaginação excitada pelo medo, pela suspeita, pela incompreensão, pela simples má vontade. Tal é a diferença entre a dúvida filosófica e a dúvida ociosa.

A mente treinada não tem dificuldade em distinguir esses dois tipos de dúvidas e em rejeitar o segundo como indigno de atenção filosófica. Quatro séculos de cultura céptica, porém, fizeram da dúvida imaginária um hábito, um valor e um dogma do senso comum, tão difícil de desarraigar quanto as mais toscas superstições e crendices, e igualmente danoso para a inteligência.

Num meio social desguarnecido de valores culturais consolidados, a dúvida ociosa pode alastrar-se para todos os domínios da atividade pensante, paralisando as inteligências e tornando impossível o aprendizado. Não hesito em dizer que, entre os jovens estudantes brasileiros, esse fenômeno é o maior obstáculo à aquisição de uma cultura filosófica.

É da própria essência da dúvida filosófica articular-se racionalmente em vista de uma solução, ao passo que a dúvida ociosa é, por natureza, obsessiva e proliferante. Enquanto o questionador filosófico só rejeita uma afirmação quando os motivos de negá-la sejam patentemente mais razoáveis que os de aceitá-la, o espírito acometido de dúvida ociosa não hesita em proceder como se simples hipóteses inventadas, pelo simples fato de serem destrutivas, devessem ser mais confiáveis do que as crenças do senso comum ou os dados dos sentidos. Ao velho prestígio romântico do negativo e do macabro acrescenta-se a moda mais recente: a apologia geral da “independência” e da “rebeldia” faz com que cada um se sinta um grande homem quando em nome de hipóteses artificiosas nega aquilo que vê ou sente, sem notar que, ao fazê-lo, sacrifica suas percepções autênticas e pessoais no altar de um cacoete coletivo, e que sua afetação de independência crítica não passa, assim, do mais puro servilismo e espírito de rebanho.

Duas influências filosóficas remotas que, por estar incorporadas em correntes de opinião coletivas, exercem facilmente sobre a mente dos principiantes uma autoridade tendente a legitimar o ceticismo ocioso, são a filosofia analítica e o marxismo . A primeira oferece ao estudante a possibilidade de viver imerso num mar de dúvidas paralisantes, das quais se sente ao mesmo tempo solidamente abrigado sempre que foge para o recinto estreito do “método científico”, como se este não fosse apenas um conjunto de procedimentos coletivos de verificação e prova que subentende, na mente individual que o pratica, a capacidade para uma infinidade de certezas diretas que transcendem, em muito, os dois critérios admitidos nesse mesmo método, isto é, os dados atomísticos dos sentidos e as leis da lógica indutiva. Quanto ao segundo, oferecendo para as dúvidas filosóficas a falsa solução de absorvê-las na praxis revolucionária, o que no fim das contas não é senão mudar de assunto, permite que na mente do estudante coexistam, sem choque aparente, a dúvida mais corrosiva ante os valores e crenças do adversário e a mais sonsa credulidade ante as pretensões da sua própria ideologia. Que ambas essas filosofias acabem sempre se fechando nas suas “tradições” próprias, incapazes de dialogar com o que quer que não consinta em obedecer às regras de seus respectivos “universos de discurso”, e que cada uma delas esteja inseparavelmente associada a um esquema de poder – capitalista e comunista –, já deveria ser suficiente para mostrar que a mente que se pretenda livre e independente não deve, desde logo, aceitar as premissas de uma ou de outra. Mas a dúvida ociosa, sendo por natureza irracional e sentimental, não busca verdadeiro conhecimento, e sim apenas o apoio prestigioso de uma coletividade que a estimule a duvidar seletivamente daquilo que odeia e crer não menos seletivamente naquilo que adora. Por isto mesmo ela sente uma atração irresistível por uma dessas ideologias, quando não pelas duas ao mesmo tempo, dizendo ante Wittgenstein e Marx:

Entre les deux, mon coeur balance .

A dúvida crítica é apenas uma dentre as muitas operações da inteligência discursiva, e seu exercício fecundo subentende a inteligência íntegra, informada e culta, armada daquele senso das proporções que só uma longa educação pode dar. Mas, precisamente, a dúvida prematuramente estimulada, seja pela moda, seja por interesses políticos maldosos, faz com que o exercício dessa operação em particular se antecipe e se substitua ao todo da inteligência, bloqueando qualquer aprendizado possível.

Enquanto não libertarmos desse círculo vicioso a mente do estudante brasileiro, não haverá autêntica filosofia entre nós.

Em 14 de dezembro de 1999

Leituras

Olavo E A Tempestade

13 de setembro de 2012 | Jornal do Commercio,

A maioria dos mestres que conheço se caracteriza mais por sua pose que por seu conhecimento ou, quando muito, o seu conhecimento é a extensão dessa pose que, com frequência, se constitui no único indicativo de sua presença entre os homens. Os nossos mestres se ligam antes às instituições que repres entam que ao valor daquilo que dizem defender. Por tudo isso Olavo de Carvalho se torna uma completa exceção, quer como filósofo e autor de obras realmente definitivas, – a exemplo de O imbecil coletivo, O jardim das aflições e Aristóteles em nova perspectiva – quer como professor de filosofia: e uma tal exceção nenhuma universidade, por melhor que fosse, poderia produzir.

Principalmente ao se tratar de alguém que, em suas aulas-conferências, costuma dispensar o uso de quaisquer anotações durante uma exposição oral. E assim aconteceu numa de suas mais recentes aulas, sob a forma de vídeo-conferência, diretamente do endereço onde vive na Virginia, USA, quando ele procurava alinhar, com uma inesgotável paciência, temperada de uma fina argúcia, uma série de argumentos em relação a cada passo das Meditações, de Descartes, demonstrando, ponto por ponto, que as questões levantadas pelo filósofo não poderiam ser respondidas, de modo definitivo, segundo a ótica de seu tempo. Ou esclarecendo melhor: jamais, por extraordinário que tenha sido Descartes, ele poderia visualizar, em todas as consequências, o rumo que elas tomariam no futuro, de acordo com a visão que hoje delas possuímos.

Enquanto ele assim dissertava sobre o pensamento de Descartes para seus milhares de ouvintes e admiradores, uma tempestade acaba de desabar sobre o seu próprio teto no estado da Virginia, de onde essa aula estava justamente sendo transmitida... Como se tentasse, inconscientemente, seguir o exemplo de Jesus ao aplacar uma tempestade, no mar da Galiléia, para espanto dos seus discípulos, Olavo de Carvalho – que parecia até então alheado de tão colossal fenômeno meteorológico – começa em dado momento a informar, com a máxima segurança, para sua seleta assistência, com a imperturbabilidade de um estoico ou de um touro indomável a encarar o furor dos elementos, que as transmissões seriam interrompidas apenas por meia hora, mas que, dentro em pouco, tudo voltaria ao normal...

Dessa forma Olavo consegue enfrentar as tempestades do mundo, com o ar mais impávido que o próprio Cogito cartesiano em face das reviravoltas, quase sempre inesperadas, do tempo e da história...

Em 13 de setembro de 2012

Leituras

A Usp E A Folha

13 de novembro de 2011 | Folha de S. Paulo

Nos anos 30-40, quando a USP ainda estava se constituindo administrativamente e o espírito dessa comunidade se condensava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a luta dos estudantes contra a ditadura getulista expressa o anseio de uma ordem constitucional democrática como viria a ser proposta consensualmente em 1945 pelas duas alas da UDN, o conservadorismo cristão e a Esquerda Democrática.

O suicídio de Getúlio Vargas e o recrudescimento espetacular do getulismo na década seguinte afetam profundamente a mentalidade uspiana, que, num giro de 180 graus, adere ao discurso nacional-progressista onde a ênfase já não cai no culto das liberdades democráticas mas nos programas sociais nominalmente destinados a erradicar a pobreza, ainda que ao custo do intervencionismo estatal crescente. Surge nessa época o mito da “camada mais esclarecida da população” que, se conferia aos estudantes o estatuto de guias iluminados da massa ignara, ao menos lhes infundia algum senso de gratidão e responsabilidade.

Nos anos 60, o nacional-progressismo uspiano transmuta-se em marxismo explícito, com a adesão maciça do estudantado à revolução continental orquestrada em Cuba. As correntes liberais e democráticas desaparecem, só restando, como simulacro de pluralismo, as divisões internas do movimento comunista: estalinistas, trotsquistas, maoístas etc.

Nas duas décadas seguintes a esquerda internacional, sob a inspiração da New Left americana (herdeira da Escola de Frankfurt), vai abandonando as formulações marxistas dogmáticas para ampliar a base social do movimento, absorvendo como forças revolucionárias todas as insatisfações subjetivas de ordem racial, familiar, sexual etc., muitas das quais a alta hierarquia comunista, até então, condenava como irracionalistas e pequeno-burguesas. Ao mesmo tempo, no Brasil, a derrota das guerrilhas abre caminho à adoção da estratégia gramsciana, que integra como instrumentos de guerra cultural o sex lib , a apologia das drogas e a legitimação da criminalidade como expressão do “grito dos oprimidos”.

O fracasso do modelo soviético acentua ainda a flexibilização do movimento revolucionário, com o abandono da hierarquia vertical e a adoção do modelo organizacional em “redes”. Bilionários globalistas passam a patrocinar movimentos esquerdistas por toda parte, de modo que rapidamente o discurso agora chamado “politicamente correto” se erige em opinião dominante, inibindo e marginalizando toda oposição conservadora ou religiosa, que se refugia em grupos minoritários cada vez mais desnorteados ou entre as camadas sociais mais pobres, desprovidas de canais de expressão.

Os efeitos desse processo na alma uspiana foram profundos e avassaladores: consagrados como representantes máximos do novo ethos global, os estudantes já não têm satisfações a prestar senão a seus próprios impulsos e desejos. O jovem radical ególatra, presunçoso e insolente, a quem todos os crimes são permitidos sob pretextos cada vez mais charmosos, tornou-se o modelo e juiz da conduta humana, a autoridade moral suprema a quem o próprio consenso da mídia e do establishment não ousa contrariar de frente, sob pena de autocondenar-se como reacionário, fascista, assassino de gays , negros e mulheres, etc. etc. etc.

Há quem reclame dos “excessos” cometidos por aqueles jovens, mas a expressão mesma denota a queixa puramente quantitativa, a timidez mortal de contestar na base uma ideologia de fundo que é, em essência, a mesma de deputados e senadores, professores e reitores, ministros de Estado e empresários de mídia – a ideologia de todo o establishment , de todas as pessoas chiques. A ideologia, em suma, da própria Folha de S. Paulo .

Em 13 de novembro de 2011

O Imperio Do Segredo

13 de novembro de 2008 | Jornal do Brasil

Desde que os eleitores americanos aceitaram confiar num candidato presidencial do qual não sabiam praticamente nada e que escondia deles sua certidão de nascimento, seu histórico escolar, sua lista de contribuintes e qualquer outro documento que comprovasse sua biografia oficial de campanha, ficou claro que a noção tradicional de “transparência” em política tinha sofrido um golpe mortal, do qual talvez não se recuperaria nunca mais.

O ritual funerário veio bem depressa: o Federal Reserve, que no início da crise financeira prometera tratar do assunto do modo mais “transparente” possível, agora recusa-se a divulgar os nomes dos recebedores de mais de dois trilhões de dólares em “empréstimos de emergência”. O motivo não é difícil de imaginar: causas diretas da encrenca, esses empréstimos foram arrancados dos bancos à força, pela pressão das ONGs esquerdistas, como por exemplo a Acorn, que deu emprego a Obama, financiou sua candidatura e ainda distribuiu alguns milhões de títulos de eleitor falsos para garantir o investimento. É impossível remexer essa sujeira sem fazê-la respingar na imagem do presidente eleito. Bondosamente, o Federal Reserve poupa dessa cruel decepção os fãs de Obama, e o faz mediante o expediente obâmico usual: sumir com as informações. O pressuposto mais básico da democracia americana – o acesso público aos dados relevantes – está morto e sepultado.

Para todos os bocós que votam às tontas, guiados tão somente pelo show business , isso não fará a menor diferença. Nem perceberão a mudança. Cada vez que puderem dissolver-se de novo na massa, gritando “Obama! Obama”, acreditarão estar exercendo a democracia. Para os eleitores conscientes, é a extinção de tudo o que entendem como “cidadania”, “direitos civis”, “império da lei”, etc. Doravante o povo está separado do seu governante por um abismo de silêncio, preenchido tão-somente pela obrigação de acreditar sem questionar. Ao transformar Obama num deus, a propaganda conferiu o privilégio da invisibilidade ao personagem real oculto sob a máscara. Eleita a criatura, o privilégio foi estendido a toda a administração federal, deixando à mostra apenas os símbolos convencionais da democracia, para consumo da massa crédula.

No mesmo dia – parece brincadeira –, a lista de promessas de campanha do presidente eleito desapareceu do site de transição, www.change.gov . Logo desaparecerá também da memória popular, e Obama estará apto a “distribuir riqueza” ( sic ) com a mesma generosidade com que, uma vez milionário, abandonou seus parentes em favelas – inclusive aquela tia que, segundo ele se gaba nas suas memórias, o ensinou a ser o provedor responsável da família –, e com o mesmo senso de dever com que deixou milhares de funcionários de campanha, perplexos, esperando até agora o salário prometido.

Tenham paciência, irmãos. Com a experiência, pouco a pouco vocês irão conhecendo o verdadeiro Obama. Mas, por enquanto, não perguntem nada. O presidente eleito já tem livre acesso a todos os mais altos segredos de Estado da nação americana, mas a realidade da sua vida permanece um segredo inviolável. Pretender investigá-la é crime de racismo. Aguardem para breve a “Fairness Doctrine”, velho sonho democrata já em avançado estado de implementação, que acabará com as perguntas incômodas nas estações de rádio, e o advento da “Força Civil de Segurança Nacional”, militância armada, do tamanho do Exército, a qual, nada tendo de sério a fazer na esfera policial, só servirá para perseguir “fundamentalistas” (não islâmicos, é claro), “homofóbicos”, “extremistas de direita” e outros tipos abomináveis.

Se essa elitização sem precedentes vem em nome da igualdade, é algo que pode parecer uma ironia cruel, mas nada tem de inusitado. Ao longo da História, cada vez que um governante quis elevar seu coeficiente de poder, fez isso estrangulando, com a ajuda da massa idiotizada, as hierarquias intermediárias. Ivan o Terrível e Luís XIV deram a fórmula, que ainda funciona.

Em 13 de novembro de 2008

Linguagem Criminosa

13 de novembro de 2003 | Jornal da Tarde

Alguns antipetistas regozijam-se de que, por uma frase dita na África, o presidente da República esteja sendo fritado na mesma frigideira politicamente correta que durante três décadas ele ajudou a aquecer. Mas isso é o cúmulo da mesquinharia. O homem tem toda a razão ao alegar que não disse nada de mais. A mídia internacional nos bombardeia diariamente com tantas imagens apocalípticas da miséria e violência africanas, que qualquer um, ao encontrar nesse continente uma cidade limpa, bonita e pacífica, tem a impressão de estar em outro lugar. A tentativa de desencavar do fundo da observação banal um pérfido intuito racista é ela própria uma perfídia criminosa.

Na verdade, é algo mais: é uma técnica muito precisa de atribuição de intenções, hoje de emprego universal e sistemático como arma de guerra cultural, inspirada nas especulações semânticas da Escola de Frankfurt e calculada para fomentar artificialmente o ódio político por meio de uma astuta engenharia da cizânia.

O argumento implícito que aí o público é levado a aprovar baseia-se numa premissa racista oculta que o ouvinte, na quase totalidade dos casos, não está em condições de trazer à luz por meio da análise, e que ele acaba aceitando às tontas ao endossar-lhe as conclusões. Trata-se de criar nele uma culpa inconsciente por crime de racismo, da qual ele tentará se livrar pela inculpação do bode expiatório que no mesmo instante lhe é oferecido para esse fim.

Se todo sujeito que faz uma crítica à sociedade ou à cultura africanas está, no mesmo ato, depreciando a raça negra, isso significa que raça e sociedade, portanto cultura, têm um vínculo inseparável de dependência intrínseca. Cada raça tem uma cultura e cada homem está condenado a identificar-se com a cultura originária “da sua raça”, sem poder desligar-se dela e integrar-se em outra.

Essa premissa ostensivamente racista já não é subscrita por nenhum cientista sério. Está provado e bem provado que qualquer homem, de qualquer origem racial, pode integrar-se em qualquer cultura e passar a representá-la com tanta autenticidade quanto os membros da raça que a criou, como o negro Púchkin personifica a cultura russa e o judeu Heine a alemã.

Ao aceitar a premissa não declarada de que a crítica à sociedade africana deprecia a raça negra, o ouvinte ingênuo entra na linha de raciocínio que identifica raça e cultura e se torna ele próprio virtualmente um racista malgré lui . Justamente por não perceber com clareza as implicações de sua atitude, ele não pode evitar o desconforto psicológico da incongruência mal conscientizada, do qual então ele buscará alívio projetando a acusação sobre o primeiro suspeito ao seu alcance.

Todo o patrulhamento verbal politicamente correto constitui-se de truques dessa natureza, construídos para paralisar a inteligência e inocular nas almas uma confusão de sentimentos ruins pronta para ser canalizada na direção do ódio irracional mais desejado. A operação, que se reproduz automaticamente usando as suas próprias vítimas como novos agentes de propagação, acaba por fazer de cidadãos pacíficos e bem intencionados os instrumentos de uma campanha de ódio com a qual, informados da situação, jamais admitiriam colaborar.

Se existe um uso criminoso da linguagem, é esse. Voltado contra líderes do velho regime militar ou contra o sr. Luís Inácio Lula da Silva, é igualmente maligno, desumano e porco.

Tanto quanto muitos outros brasileiros, eu desejaria ver o sr. Luís Inácio bem longe da presidência. Mas se para tirá-lo de lá for preciso recorrer a tais expedientes, prefiro que ele seja brindado com um mandato vitalício. Quando usado por “direitistas” ou “conservadores”, ou, melhor dizendo, pelos oportunistas sem convicção que a esquerda convencionou designar por esses nomes, o ardil se torna ainda mais desprezível por acrescentar, à malícia, a burrice (sua contrapartida inseparável, já que a malícia não é outra coisa senão a caricatura demoníaca da inteligência). Pois é preciso ser muito, muito burro para achar que é esperteza destruir a reputação de um político esquerdista à custa de consolidar na alma popular a autoridade do preconceito politicamente correto, a grande arma dos fanáticos esquerdistas na sua luta contra a sanidade, a moral e convivência civilizada.

Em 13 de novembro de 2003

A Universidade Ou Seja La O Que For

13 de novembro de 2001 | 13 de novembro de 2001

Foi com muita tristeza que li o artigo de Kujawski no Jornal da Tarde (12/10/2001). Sempre que um intelectual desqualifica outro por estar opinando sobre um campo do saber que não é sua “especialidade”, vejo-me atacado de uma forte vontade de pegar meu passaporte e partir desse país. Durante 4 anos de estudos na PUC de Belo Horizonte, onde estudei Comunicação, sempre vi confirmadas na prática todas as acusações feitas por pessoas como Meira Penna, Olavo de Carvalho e José Carlos Azevedo.

Quando estava no primeiro período, cursei uma disciplina que se chamava “Filosofia 1”. Passamos – eu e minha turma – pelos pré-socráticos e gregos em três semanas, graças à ajuda de nosso glorioso Jostein Gaarder e seu “Mundo de Sofia”, publicação infanto-juvenil (e olhe lá) que há muito substituiu os manuais de filosofia nos cursos superiores. O conteúdo consistia basicamente em saber que filósofo pré-socrático gostava da água, qual deles achava que tudo vinha do fogo ou da terra. Mais adiante, veio Platão, que era o “da caverna” ou do “mundo das idéias”. Aristóteles foi o que criou as ciências. Depois, fizemos alguns anúncios publicitários que deveriam “se inspirar” nos filósofos “estudados” (com bastantes aspas). Algo como: “Venha para a Boate Heráclito e encontre o fogo de que você precisa”.

Então, depois de passar por cima de Sto. Tomás e de toda a Idade Média, chegamos em Descartes, que era o do “penso, logo existo” e dele pulamos para Sérgio Paulo Rouanet, que resumia em poucas linhas o que era o Iluminismo e quase tudo que veio depois. Fomos parar finalmente em Derrida, que foi o único filósofo que lemos no original, ou seja, o único que ficamos conhecendo diretamente, e não por meio de textos de terceiros.

Ainda no primeiro semestre, cursei “Sociologia”, disciplina da qual saí com uma noção vaga de que Weber foi o que falou que o protestantismo possibilitou o sucesso do capitalismo nos EUA. Noção essa que adquiri lendo doze páginas da introdução da “Ética Protestante”, que foi tudo que a professora exigiu para a prova. Durkheim e Marx foram ensinados através dos livros de Peter Berger. Entre os dois, Marx foi aquele que mereceu maior destaque, já que – feliz coincidência! – estava saindo na época um caderno “Mais!” sobre a atualidade do manifesto comunista, caderno que foi levado à sala de aula e amplamente discutido. Todo o conteúdo do semestre, exigido pela professora e “deixado no xerox”, não somava 40 páginas.

Depois disso, cursei “Filosofia “”, Disciplina totalmente ministrada através do “Convite à Filosofia”, de Marilena Chauí, recentemente desmoralizado por Gonçalo Armijos Palácios, professor de filosofia da UFG, no jornal Opção, de Goiânia. Além dessa discilina, cursei muitas outras, todas elas fartamente apoiadas em filósofos pós-modernos, como Deleuze e Derrida, e em outros de tendência irracionalista e dualista, como Bergson. E sei que em outras universidades também é assim, pois muitos dos textos que li vinham da USP e de outras PUCs do Brasil.

De todas as disciplinas, entretanto, a que de longe tem mais destaque dentro do departamento é a de “Semiótica”. A professora, admiradora incondicional de Charles S. Peirce e da “praga do pragmatismo”, é a única – dentro do departamento – que faz admiradores e discípulos. Muitos desistem da publicidade para seguir carreira acadêmica, logo estabelecendo contato com a PUC de São Paulo – onde há um núcleo de estudos de semiótica – e com o departamento de Letras, onde há muito se ensinam os futuros professores e críticos a tudo interpretar pragmaticamente.

Durante todo o tempo em que estive na universidade, não li uma linha sequer de qualquer filósofo clássico. E as poucas linhas que li sobre alguns deles, escritas por terceiros, tiveram seu efeito anulado de longe pela enxurrada de textos sobre a pós-modernidade e seus infindáveis “novos paradigmas”. Além disso, qualquer “crença” que o aluno queira ter na realidade das coisas deve ser guardada para si, pois Baudrillard (único “filósofo” de quem foi exigida a leitura – pasmem! – de um livro inteiro) ensina que tudo é virtual hoje em dia e Peirce, Lacan e Freud trabalham em conjunto para provar de uma vez por todas que os objetos não existem – mas apenas os “signos” deles em nossas mentes – e que a mente humana está isolada do mundo objetivo, mergulhada e presa que está na linguagem. Todo o conhecimento crítico que me fez enxergar o fosso onde me meti foi por mim adquirido por outros meios, entre os quais constam excursões esporádicas e solitárias à biblioteca, leitura de artigos de jornais, “passeios” pela Amazon.com, aulas e textos de Olavo de Carvalho, copiadas do site e coladas em meu computador.

É por tudo isso que mil Kujawskis não vão conseguir me convencer de que os maravilhosos professores que se formam em nossas universidades vão ensinar a verdadeira filosofia – e muito menos a sociologia – aos nossos jovens e dar a eles um chão firme para pisar em meio ao solo pegajoso do pseudo-conhecimento pós-moderno, pragmático, materialista ou seja lá o que for. É mais provável que Aristóteles saia de sua tumba e comece a escrever em português (com acentos).

Evandro Ferreira e Silva, estudante universitário, E-mail:

evandros@bol.com.br Em 13 de novembro de 2001

Leituras

E Proibido Saber

13 de junho de 2004 | Zero Hora

O heróico e patriótico governo federal decidiu restabelecer o imposto sobre a importação de livros. A medida terá o efeito de um genocídio cultural, mas este nem será notado pela população, já que os leitores de livros importados são uma minoria de estudiosos especializados, e o conhecimento, na ética dominante, é um luxo burguês perfeitamente dispensável.

A indústria editorial local, devotada à produção de lixo escolar e de futilidades elegantemente impressas, nada ganhará com a eliminação da concorrência estrangeira, pois os livros que vêm de fora são de tipos que não interessam a nenhum editor brasileiro. Eu, por exemplo, acabo de receber, pelo correio, “History of Japanese Thought”, de Hajime Nakamura; “Aristotle’s Modal Logic”, de Richard Patterson; “Gnostic Return in Modernity”, de Cyril O’Regan; “The Dynamics of Aristotelian Natural Philosophy from Antiquity to the Seventeenth Century”, de Cees Leijenhorst. Quem, no Brasil, é louco de publicar essas coisas que não terão três leitores? Doravante, os três leitores não vão lê-las nem em português nem em língua nenhuma.

Há outras obras estrangeiras, de interesse bem mais geral, que poderiam até fazer algum sucesso em tradução. Mas essas é que nenhum editor nacional jamais ousará colocar na praça, expondo-se à perda de subsídios estatais, ao boicote da mídia ou a outros danos mais substantivos.

Refiro-me aos livros – milhares deles – que atualizam o mundo civilizado quanto à história do movimento comunista e à sua estratégia atual. Divulgado esse material, ninguém mais neste país continuaria acreditando na balela de que o comunismo acabou. Pior: alertado para o fato de que o movimento comunista cresceu e está muito bem articulado com o terrorismo islâmico, com os organismos internacionais, com a grande mídia ocidental e com vários governos europeus, o público poderia juntar os pontos de uma figura que agora lhe parece informe e caótica e tirar uma conclusão que, para o restante da espécie humana, é simplesmente óbvia: que a América Latina está hoje mais próxima do comunismo do que jamais esteve. Por enquanto, a pétrea ignorância geral garante, a quem quer que enuncie essa conclusão em voz alta, o diagnóstico infalível de mitômano paranóico.

Para vocês fazerem uma idéia, porém, de como estamos atrasados nessa área, basta notar que até hoje não saiu neste país um só livro ou reportagem sobre algo que a população dos EUA sabe desde 11 de julho de 1995. Nesse dia foram divulgadas pelo FBI as decodificações de telegramas passados pelo serviço secreto da URSS a seus agentes nos EUA nos anos 40-50. Cinco décadas de negações indignadas chegaram aí ao mais patético dos desenlaces: todos os supostos inocentes que o famigerado senador Joe McCarthy acusara de espiões soviéticos, com uma única exceção, eram mesmo espiões soviéticos. McCarthy havia calculado que eram 57. Eram mais de trezentos. Os livros sobre isso são hoje abundantes, e as débeis tentativas remanescentes de negar os fatos já foram totalmente desmoralizadas.

Os brasileiros, imunizados contra essas informações pelo descaso proposital da mídia e do mercado editorial, agora estão ainda mais protegidos delas pelo novo imposto. Ninguém aqui lerá, no original ou em tradução, “The Venona Secrets” de Herbert Rommerstein e Eric Breindel; “In Denial”, de John Earl Haynes e Harvey Klehr; “Treason”, de Ann Coulter; “Dossier: The Secret History of Armand Hammer”, de Edward Jay Epstein, ou qualquer de seus inumeráveis similares. Muito menos terá acesso aos “Annals of Communism” da Universidade de Yale, que documentam, em fac-símile , oitenta anos de traições gentilmente encobertas pelo New York Times , pela CBS, pelos Clintons, pelos Gores, pelos Kerrys, por toda a esquerda chique. Aqui, a lenda que apresenta o “macartismo” como uma longa noite de terror que se abateu sobre pobres inocentes continua e continuará um dogma inabalável “in aeternum”.

Em 13 de junho de 2004

O Comunismo Real

13 de abril de 2014 | Diário do Comércio

Nos dicionários e na cabeça do povinho semi-analfabeto das universidades, a diferença entre capitalismo e comunismo é a de um “modo de produção”, ou, mais especificamente, a da “propriedade dos meios de produção”, privada num caso, pública no outro. Mas isso é a autodefinição que o comunismo dá a si mesmo: é um slogan ideológico, um símbolo aglutinador da militância, não uma definição objetiva. Se até os adversários do comunismo a aceitam, isto só prova que se deixaram dominar mentalmente por aqueles que os odeiam – e esse domínio é precisamente aquilo que, no vocabulário da estratégia comunista, se chama “hegemonia”.

Objetivamente, a estatização completa dos meios de produção nunca existiu nem nunca existirá: ela é uma impossibilidade econômica pura e simples. Ludwig von Mises já demonstrou isso em 1921 e, após umas débeis esperneadas, os comunistas desistiram de tentar contestá-lo: sabiam e sabem que ele tinha razão.

Em todos os regimes comunistas do mundo, uma parcela considerável da economia sempre se conservou nas mãos de investidores privados. De início, clandestinamente, sob as vistas grossas de um governo consciente de que a economia não sobreviveria sem isso. Mais tarde, declarada e oficialmente, sob o nome de “perestroika” ou qualquer outro. Tudo indica que a participação do capital privado na economia chegou mesmo a ser maior em alguns regimes comunistas do que em várias nações tidas como “capitalistas”.

Isso mostra, com a maior clareza possível, que o comunismo não é um modo de produção, não é um sistema de propriedade dos meios de produção. É um movimento político que tem um objetivo totalmente diferente e ao qual o símbolo “propriedade pública dos meios de produção” serve apenas de pretexto hipnótico para controle das massas: é a cenoura que atrai o burro para cá e para lá, sem que ele jamais chegue ou possa chegar ao prometidíssimo e inviabilíssimo “modo de produção comunista”.

No entanto, se deixaram a iniciativa privada à solta, por saber que a economia é por natureza a parte mais incontrolável da vida social, todos os governos comunistas de todos os continentes fizeram o possível e o impossível para controlar o que fosse controlável, o que não dependesse de casualidades imprevisíveis mas do funcionamento de uns poucos canais de ação diretamente acessíveis à intervenção governamental.

Esses canais eram: os partidos e movimentos políticos, a mídia, a educação popular, a religião e as instituições de cultura. Dominando um número limitado de organizações e grupos, o governo comunista podia assim controlar diretamente a política e o comportamento de toda a sociedade civil, sem a menor necessidade de exercer um impossível controle igualmente draconiano sobre a produção, a distribuição e o comércio de bens e serviços.

Essa é a definição real do comunismo: controle efetivo e total da sociedade civil e política, sob o pretexto de um “modo de produção” cujo advento continuará e terá de continuar sendo adiado pelos séculos dos séculos.

A prática real do comunismo traz consigo o total desmentido do princípio básico que lhe dá fundamento teórico: o princípio de que a política, a cultura e a vida social em geral dependem do “modo de produção”. Se dependessem, um governo comunista não poderia sobreviver por muito tempo sem estatizar por completo a propriedade dos meios de produção. Bem ao contrário, o comunismo só tem sobrevivido, e sobrevive ainda, da sua capacidade de adiar indefinidamente o cumprimento dessa promessa absurda. Esta, portanto, não é a sua essência nem a sua definição: é o falso pretexto de que ele se utiliza para controlar ditatorialmente a sociedade.

Trair suas promessas não é, portanto, um “desvio” do programa comunista: é a sua essência, a sua natureza permanente, a condição mesma da sua subsistência.

Compreensivelmente, é esse mesmo caráter dúplice e escorregadio que lhe permite ludibriar não somente a massa de seus adeptos e militantes, mas até seus inimigos declarados: os empresários capitalistas. Tão logo estes se deixam persuadir do preceito marxista de que o modo de produção determina o curso da vida social e política (e é quase impossível que não acabem se convencendo disso, dado que a economia é a sua esfera de ação própria e o foco maior dos seus interesses), a conclusão que tiram daí é que, enquanto estiver garantida uma certa margem de ação para a iniciativa privada, o comunismo continuará sendo uma ameaça vaga, distante e até puramente imaginária. Enquanto isso, vão deixando o governo comunista ir invadindo e dominando áreas cada vez mais amplas da sociedade civil e da política, até chegar-se ao ponto em que a única liberdade que resta – para uns poucos, decerto – é a de ganhar dinheiro. Com a condição de que sejam bons meninos e não usem o dinheiro como meio para conquistar outras liberdades.

Ao primeiro sinal de que um empresário, confiado no dinheiro, se atreve a ter suas próprias opiniões, ou a deixar que seus empregados as tenham, o governo trata de fazê-lo lembrar que não passa do beneficiário provisório de uma concessão estatal que pode ser revogada a qualquer momento. O sr. Silvio Santos é o enésimo a receber esse recado.

É assim que um governo comunista vai dominando tudo em torno, sem que ninguém deseje admitir que já está vivendo sob uma ditadura comunista. Por trás, os comunistas mais experientes riem: “Ha! Ha! Esses idiotas pensam que o que queremos é controlar a economia! O que queremos é controlar seus cérebros, seus corações, suas vidas.”

Um Martir Da Ciencia

13 de abril de 2011 | Diário do Comércio

A narrativa praticamente inteira da origem das ciências modernas, tal como aparece na mídia popular, em livros escolares, em filmes, em peças de teatro e até numa boa quantidade de obras escritas por acadêmicos, é uma farsa publicitária de dimensões colossais, que a pesquisa histórica das últimas décadas vem desmascarando impiedosamente.

As biografias convencionais de Giordano Bruno, Galileu, Newton, Copérnico, Descartes e outros pais da modernidade falsificam não somente as suas doutrinas, para torná-las mais palatáveis ao gosto do público, mas os fatos materiais de suas vidas, para embelezar esses personagens à custa da difamação de seus contemporâneos.

Se você pretende que seus filhos venham a ter uma educação de verdade, comece por não permitir que eles sejam alimentados, por um sistema educacional criminoso, com balelas idiotas que deformarão para sempre sua visão do passado histórico e farão deles bois-de-presépio, prontos a dizer “amém” aos professores analfabetos que não vêem neles almas imortais a ser protegidas, mas militantes e eleitores em potencial, para a glória dos picaretas que nos governam.

Entre muitas outras, a lenda mais deformante é talvez a de Galileu Galilei como “mártir da ciência”, fundador da ciência experimental e homem corajoso que enfrentou a Inquisição em nome do direito de investigar a verdade.

Para começar, qualquer pesquisador sério da história das ciências sabe que Galileu nunca raciocinou a partir de dados experimentais, mas de construções matemáticas hipotéticas que depois ele legitimava com pseudo-experimentos puramente imaginários, jamais levados à prática, e usados sempre como meios de persuasão retórica, nunca de verificação. Os poucos experimentos efetivos que ele realizou foram todos errados. No que Galileu estava mesmo interessado eram antigas doutrinas ocultistas e esotéricas, das quais obteve a inspiração para suas teorias e dinheiro para sustentar uma vida senhorial como autor de horóscopos para celebridades.

Em segundo lugar, ele jamais sofreu pressão ou intimidação de qualquer natureza. Sob recomendação pessoal do Papa Urbano VIII, aliás seu padrinho, ele foi tratado com o maior respeito e deferência pelos inquisidores. Ao longo de todo o processo, teve completa liberdade de movimentos e ficou hospedado na embaixada da Toscana, que seu amigo Benedetto Castelli descreveu como “a melhor de Roma” e sua filha Maria Celeste como “um lugar tão delicioso”.

O confronto com a Inquisição não foi uma disputa entre “ciência e fé”, nem muito menos entre “ciência e superstição”, mas entre a pseudo-ciência presunçosa de Galileu e a ciência superior de São Roberto Belarmino, que desmantelou com argumentos irrefutáveis a presunção galilaica de que o Sol fosse o centro do universo (e não só de um sistema planetário em particular).

A famosa abjuração, ante a qual gerações de vigaristas intelectuais derramaram oceanos de lágrimas de crocodilo, foi apenas uma declaração pro forma feita ante o tribunal, após a qual Galileu, sob a proteção do Papa, pôde continuar a ensinar suas mesmas doutrinas de antes sem jamais voltar a ser incomodado.

Por fim, a única penalidade que a Inquisição lhe impôs foi de uma benevolência quase obscena, que hoje soaria como favorecimento ilícito: ele foi condenado a rezar uma vez por semana, durante três anos, os sete salmos penitenciais, podendo fazê-lo em privado, isto é, sem nenhum controle da autoridade. A coisa inteira levava quinze minutos no máximo, e ele ainda não precisava submeter-se à penitência pessoalmente, podendo solicitar que suas duas filhas, ambas freiras, a fizessem em seu lugar.

Nisso consistiu o “martírio” do grande homem.

Comparem esse e outros episódios do mesmo teor com os de centenas de milhões de inocentes torturados e assassinados em nome da ciência por iluministas, evolucionistas, marxistas ou nazistas, e verão que a famosa “opressão religiosa” da qual a modernidade teria nos libertado era um reino de tolerância e benevolência que a brutalidade da vida moderna soterrou num passado cada vez mais distante, cada vez mais inimaginável.

Em 13 de abril de 2011

Diana Nedelcu Entrevista Olavo De Carvalho

12 de novembro de 1998 | , Bucareste, 12 de novembro de 1998

1. Quem é você, que teve a coragem de ter um pensamento tão livre neste fim de século?

Quando era jovem eu queria me tornar escritor, já possuía um domínio sólido de minha língua natal e todos me diziam que eu escrevia muito bem, mas eu me dei conta de que não tinha absolutamente nada a escrever, de que eu estava vazio de todo conteúdo que valesse a pena escrever. Assim, deixei de lado meu plano de me tornar escritor e concebi um novo plano de vida, que era o de me tornar um homem que soubesse verdadeiramente alguma coisa, mesmo não escrevendo nada. Desde então, tenho feito grandes esforços de atenção para extrair conclusões válidas daquilo que a vida me trazia e também daquilo que eu lia. Pus-me a distinguir minuciosamente, na massa de meus pensamentos e conhecimentos adquiridos, entre aqueles que eram certos e verdadeiros, aqueles que eram ao menos razoáveis e prováveis, aqueles que não eram mais que opiniões verossímeis e aqueles que eram puras fantasias da minha imaginação. Abdiquei de toda pretensão de ter uma carreira de homem de letras, para me devotar somente àquilo que se pode chamar a pesquisa da verdade para meu uso pessoal. Foi assim que me tornei filósofo. E foi assim que o mundo foi poupado de ler os execráveis livros de juventude que eu jamais escrevi.

Até os 35 anos, eu não falava de assuntos filosóficos com ninguém a não ser comigo mesmo; vivia numa solidão intelectual quase completa. Então, comecei a dar conferências para um pequeno grupo de estudantes. Eu também escrevia, mas apenas resumos para os meus alunos, e teria continuado de bom grado a fazer o mesmo a vida inteira se as circunstâncias não me tivessem tirado de minha solidão para fazer de mim uma espécie de inspetor da saúde mental dos intelectuais brasileiros. Estou feliz por ter abandonado a modéstia da vida solitária unicamente para fazer algo de útil e objetivo, sem concessões às minhas vaidades de juventude, as quais já estavam mortas.

Publiquei o meu primeiro livro apenas aos 47 anos, a pedido de meu amigo, o poeta Bruno Tolentino, e desde então não parei de publicar livros e artigos, mas tenho ainda mais de dez mil páginas de notas de aula, que talvez venham algum dia a se transformar em livros.

Eu não diria que a liberdade de pensamento é uma questão de coragem. Trata-se unicamente de ver as coisas como elas são, e para tal é preciso tempo, paciência e modéstia. Creio que uma carreira profissional de escritor ou professor universitário pode muito bem desviar um homem da pesquisa da verdade e, como eu sempre soube que era fraco como todos os outros homens, tratei de me colocar fora do alcance dessas tentações.

Se posso dizer as coisas tais como eu as vejo, sem fazer concessões à moda ou à pressão de grupos de opinião, é precisamente porque socialmente e profissionalmente não sou absolutamente nada. Sou apenas um homenzinho que não exige de forma alguma ser levado a sério pelas pessoas que se imaginam sérias.

2. Por que você escolheu o caminho do comunismo, quando era jovem?

Eu não escolhi nada. O comunismo tinha na ocasião o prestígio de uma verdade estabelecida; bastava ser comunista para ter o prestígio de um homem de idéias. Mas eu me dei conta de que o comunismo não era para mim, como para todos os outros, nada mais que o disfarce da minha ignorância, da minha mediocridade, da minha assustadora preguiça intelectual. Foi por causa disso que eu renunciei a fazer-me um jovem escritor: eu não tinha nada a dizer além do que já havia sido escrito mil vezes por outros escritores comunistas, jovens e velhos. O que é uma pena é que muitos de meus companheiros de geração tenham continuado a escrever as mesmas coisas durante três décadas e hoje eles não possam admitir que alguém tenha abandonado as suas mesmices para se lançar à pesquisa de algo mais interessante. Eles tomam isso como um insulto à dignidade da sua filiação ideológica.

Ademais, é falso pensar que as pessoas se tornam comunistas porque têm sede de justiça. Aquele que tem sede de justiça procura, em primeiro lugar, se abster de cometer injustiças ele mesmo e nunca se toma por um justiceiro supremo que vai punir todos os maus, porque isso não é senão uma vaidade pomposa e, em suma, a pior das injustiças. Os jovens somente se tornam comunistas por vaidade e por preguiça. A diferença entre mim e meus companheiros de geração é que eles tiveram mais sucesso do que eu em enganar-se quanto aos motivos íntimos de sua conduta. Eu não pude me impedir de ver a mim mesmo tal qual eu era: nada mais que um pequeno farsante comunista, que queria se descarregar de sua responsabilidade pessoal sobre as costas de bodes expiatórios abstratos — o capitalismo, os burgueses, etc. Quando eu me dei conta disso, compreendi o que Nietzsche queria dizer quando afirmava que “a vergonha é a mãe do aprendizado”. Os jovens esquerdistas de outrora que se tornaram apenas os velhos esquerdistas de hoje nunca tiveram consciência da miséria moral de suas motivações, auto-proclamadas idealistas e humanitárias.

3. Os brasileiros são tão superficiais quanto aparenta ser a sua imagem estereotipada?

Sim, a superficialidade, a leviandade são os pecados capitais dos brasileiros. Mas eu acho que isso só é verdadeiramente grave nos círculos intelectuais, porque entre o povo uma certa falta de seriedade foi o preço a pagar para construir uma sociedade como a nossa, onde as pessoas de todas as raças e de todas as culturas podem se entender e se amar umas às outras. Veja: os Estados Unidos são também uma sociedade multicultural, mas lá os grupos diversos trilham caminhos separados, cada qual no seu gueto, e dialogam somente ao nível político, por intermédio de seus representantes e sob a proteção da polícia. Enquanto que no Brasil, os negros, os árabes, os portugueses, os italianos, os alemães, os judeus sempre viveram juntos dentro dos mesmos bairros e são todos misturados ao nível da vida social, da amizade, do casamento, etc., sem que o Estado tenha jamais feito o menor esforço para ensinar-lhes essas coisas. No Brasil nunca houve combates de rua entre grupos raciais diferentes (exceto alguns conflitos menores durante a guerra, quando as pessoas de ascendência italiana e alemã eram um pouco perseguidas, mas mesmo isso terminou por completo da noite para o dia assim que a paz foi assinada). Para um homem viver em paz com pessoas muito diferentes é preciso que ele não se leve muito a sério, e os brasileiros se habituaram a pensar que as crenças políticas ou mesmo religiosas têm menos importância, na prática, do que a paz e o amor. Os brasileiros também são cristãos pragmáticos: eles acreditam que ter razão vale menos do que fazer um amigo.

É por isso que os brasileiros são o que são: um povo maravilhoso, fraternal, generoso, mas estranhamente desprovido de convicções sólidas e profundas. Mas se naquilo que diz respeito às pessoas do povo isso não é grave, nos intelectuais a falta de solidez se torna um perigo e uma doença assustadora, porque os intelectuais têm responsabilidades incomparavelmente mais pesadas. É por isso que eu vejo os brasileiros como um povo maravilhoso que produz os intelectuais mais abomináveis do universo.

4. Qual é o seu ponto de vista sobre a cultura norte-americana e européia de hoje?

Brasil Macunaimico

12 de março de 2007 | Diário do Comércio

Inspirado em Antonio Gramsci e na Escola de Frankfurt, bem como nos ideais da nova civilização apregoada pela ONU, nosso governo tem feito o que pode para libertar dos grilhões do moralismo fundamentalista os pobres e oprimidos que há séculos padecem os horrores da repressão sexual.

Já assinalei esse fenômeno, em artigo aqui publicado em 17 de julho de 2006 ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/060717dc.html ):

“Na página do Ministério do Trabalho, www.mtecbo.gov.br/busca/competencias.asp?codigo=5198 , encontra-se um manual de ensino distribuído pelo governo brasileiro a interessadas e interessados em seguir carreira no ofício de prostituta ou prostituto. Muitos visitantes do site se escandalizam com o conteúdo das instruções. Eu não. Vejo nelas um auspicioso sinal de restauração da moralidade. Num país onde todos pontificam sobre o que ignoram, nossos governantes dão um exemplo de probidade intelectual lecionando matéria na qual têm a autoridade da longa prática.”

Mas agora, graças aos bons préstimos de um leitor, descubro que a coerência petista na busca da democracia sexual é ainda mais profunda do que eu poderia ter imaginado.

Se você duvida, faça o seguinte experimento. Dá um pouco de trabalho mas é tremendamente elucidativo. Primeiro, vá ao seu computador e abra a página oficial da Presidência da República, http://www.brasil.gov.br/governo_federal/estrutura/presidencia/ . Chegando la, clique no link “Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres”. Vai dar na página http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sepm/ . Agora clique em “Links”, depois em “Governo Federal e Mulheres”, aí em “Mulheres” e por fim em “Grupo Transas do Corpo”. Pronto: você chegou ao site da loja de produtos eróticos Erosmania ( http://www.erosmania.com.br/ ). Não tema: o estabelecimento deve ser confiável, já que o link vale como recomendação oficial. O produto em destaque na página chama-se “Anal Slim Jim”. É – quem diria? — um pênis de borracha cor-de-rosa, com vibrador, de uns quinze centímetros de comprimento por dois e meio de largura. Não sei se a esta altura o emprego de instrumento tão útil já se disseminou entre os altos escalões da República, mas imagino que o sr. Presidente da República e seus ministros não seriam levianos ao ponto de pregar uma coisa e fazer outra. Não digo que o empreguem necessariamente em si próprios – isso é uma questão de preferência pessoal na qual não desejo interferir –, mas sempre haverá em torno pessoas amigas interessadas em beneficiar-se da oportunidade democraticamente oferecida a todos, ou todas, pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Em caso de dificuldade no manejo do equipamento, a loja sugere o apelo ao lubrificante “Lubrigel Intimus”. Para maior esclarecimento, os visitantes da página poderão também adquirir ali filmes educativos como “O Estuprador de Coroas” e alguns de interesse médico, como “A Síndrome do Furor Uterino”.

Um indício ainda mais eloqüente da fidelidade do PT à sua ideologia erótica foi dado aos eleitores, aliás em dose dupla, pelo governador da Bahia, Jacques Wagner. Depois de aparecer completamente bêbado num vídeo do youtube ( http://video.google.com/videoplay?docid=-6212632340540114758&hl=en ), o ativíssimo ex-ministro do Trabalho revela-se agora um pioneiro na aplicação prática dos princípios que orientam a reforma petista dos costumes. Nas fotos que acompanham esta matéria, ele é visto no “Expresso 2222”, o trio elétrico de Gilberto Gil, empurrando sua esposa Fátima para um ardente beijo lésbico na boca da esposa do ministro da Cultura, Flora Gil, diante de incontáveis e estupefatos eleitores. Vejam vocês. Em países atrasados, como os EUA, o pessoal reclama até quando estrelas do show business fazem essas coisas na TV. No Brasil, são as altas esferas da República que dão o exemplo, mandando às urtigas o moralismo vitoriano (eu ia quase esquecendo: moralismo vitoriano da Idade Média, não é mesmo?) e levando às últimas conseqüências o exercício público da democracia sexual.

Para que ninguém suponha que a lição petista não frutificou em escala internacional, a coluna do Cláudio Humberto do último dia 8, sob o título “Deputados do Peru perdem a cabeça no Brasil”, publica as fotos da revista Caretas , aqui reproduzidas, que mostram dois deputados peruanos, Javier Velásquez e José Veja. Eles vieram em visita oficial à XXII Assembléia do Parlatino, dia 8 de dezembro, mas rapidamente assimilaram a filosofia política local e caíram na maior gandaia numa boate paulista. De volta ao seu país, onde ainda vigoram as leis bárbaras da Inquisição, os dois estão ameaçados de ter de responder à Comissão de Ética do parlamento peruano. Aqui, não. O máximo que vai acontecer ao governador Jacques Wagner é uma ressaca.

Significativamente, o jornalista Merval Pereira, na sua última coluna em O Globo , comentando a morte de Jean Baudrillard, lembra que o sociólogo francês, em conversa que tiveram um ano atrás na conferência da Academia da Latinidade em Baku, capital do Azerbaijão, lhe falou do Brasil como “uma espécie de variação, de desvio em relação ao modelo internacional”.

“Ele imaginava que o Brasil poderia constituir ‘uma espécie de santuário, uma bolsa de resistência contra estes modelos de civilização, por tudo aquilo que devia ser jogo, teatro, carnaval’.”

Baudrillard “via a magia brasileira como uma espécie de utopia realizada sobre a Terra”, mas acrescentava, cético, que ‘a utopia, quando já realizada, é um pouco perigosa’.”

Um pouco perigosa? Que exagero! Que são cinqüenta mil homicídios anuais, em comparação com os prazeres que o sex lib petista promete aos sobreviventes? Logo após o assassinato do menino João Hélio, o colunista Diogo Mainardi propôs uma semana de luto nacional, ameaçando reacionariamente estragar os festejos carnavalescos. Graças à coragem cívica do governador Jacques Wagner, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, do ministro da Cultura e sua digníssima, esses arreganhos golpistas (é assim que se escreve?) não prevalecerão em terras brasileiras. Como dizia Dolores Ibarruri, No pasarán. Ou, parafraseando a campanha épica da Petrobrás, a gandaia é nossa.

Em 12 de março de 2007

Do Brasil Ao Brejil

12 de março de 2004 | O Globo

Antigamente — ainda ontem, quando eu tinha vinte anos —-, exigia-se muito de um escritor. Ele tinha de dominar os recursos da sua arte ao ponto de que toda a história dela, de algum modo, transparecesse no seu estilo. Tinha de possuir uma visão espiritualmente madura do universo e da vida e haver absorvido nela a cultura dos milênios. E essa visão devia estar tão bem integrada na personalidade dele que sua expressão escrita não comportasse o mínimo hiato entre idéia e palavra.

Hoje não é preciso nada disso. Basta uma afetação de sentimentos politicamente corretos na linguagem dos estereótipos mais sufocantes — e pronto: o pimpolho garantiu seu lugar nos suplementos de cultura e nas antologias escolares. Se escreve no estilo padronizado dos manuais de redação, é um primor de nitidez cartesiana. Se embrulha idéias sonsas em jargão lacaniano indigerível, é um assombro de profundidade. Se não articula sujeito e predicado, é um grande comunicador, sensível à linguagem do povo.

Na literatura de ficção, o único autor que produziu algo de notável nos últimos tempos foi Duda Mendonça. Tão profundo foi o impacto da sua obra, que só agora alguns brasileiros começam a despertar do enredo em que ele os meteu em 2002.

A quintessência do estilo literário nacional, hoje em dia, encontra sua expressão perfeita nas palavras que, segundo circula na internet, foram proferidas pelo ministro Gilberto Gil em discurso recente:

“É... Bom... Eu queria dizer que a metáfora da música brasileira na globalização efetiva dos carentes objetos da sinergia fizeram a pluralização chegar aos ouvidos eternos da geografia assimétrica da melodia.”

Tudo — o melhor do Brasil — encontra-se nesse parágrafo: a quota de dislexia requerida para os altos cargos federais, a absoluta incapacidade para a concordância verbal, a total inconexão lógica, o dispêndio exibicionista de termos pedantes sem nenhum significado no contexto.

Em outras épocas, vendo um sujeito desses no Ministério da Cultura, eu gritaria: “Basta!”, “Fora!”. Hoje, com serenidade olímpica, admito que ele está no lugar certo. Quem poderia representar mais condignamente a inteligência brasileira no seu estado atual?

Mas não lhe faltam imitadores. O PFL, por exemplo, depois de ter passado anos diluindo sua identidade até abaixo do número de Avogadro, cansou de fisiologismo e tomou a máscula resolução de autodefinir-se ideologicamente. Sacudindo de si o comodismo, juntou todas as suas forças morais e, num rompante de coragem, assumiu: é e será sempre... um partido de centro. Direi até mesmo: de extremo-centro.

Afinal, who cares ?

Também não revolta a ninguém o arquivamento do processo movido pelo PSDB contra o presidente. Esse processo não chegou sequer a ser um blefe. Foi um arremedo de blefe, concebido para impressionar não o adversário, mas a platéia. Diante da decisão do STF, o tucanato respirou com alívio, liberto do risco apavorante de ser levado a sério.

Qualquer brasileiro com QI superior a 12 sabe que as leis, neste país, são espadas de geléia brandidas contra o aço do esquema esquerdista dominante, respaldado na estratégia continental de Fidel Castro e em sólidas alianças européias e asiáticas.

Como os casos Waldomiro e Celso Daniel provaram com evidência sobrante, qualquer bandidinho apadrinhado pelo esquema é mais poderoso do que o conjunto das instituições nacionais.

O Brasil só tem três instituições estáveis: o Foro de São Paulo, a Receita Federal e o narcotráfico. O resto é ilusão.

Travessia Perigosa

12 de maio de 2008 | Diário do Comércio

Em seu livro America and the World Revolution (Oxford University Press 1962), transcrição de conferências pronunciadas na Universidade da Pennsylvania na primavera de 1961 (tradução brasileira pela Zahar, 1963), Arnold Toynbee escreveu:

“Se queremos evitar o suicídio em massa, precisamos ter o nosso Estado mundial rapidamente, e isto provavelmente significa que precisaremos instaurá-lo numa forma não democrática, para começar.”

Não era uma profecia, era uma proposta. Ou melhor, era a reafirmação de uma proposta que já vinha sendo trabalhada nos altos escalões do establishment anglo-americano pelo menos desde 1928, quando Herbert George Wells publicou a primeira versão popular do plano, sob o título altamente sugestivo The Open Conspiracy . Alguns historiadores fazem o projeto remontar a finais do século XIX e apontam sua presença já entre as causas da I Guerra Mundial, mas nós não precisamos ir tão longe. Os melhores estudos sobre a vida e obra de Wells (W. Warren Wagar, H. G. Wells and the World State , Yale University Press, 1961; Michael Foot, The History of Mr. Wells , Washington DC, Counterpoint, 1995) não deixam dúvidas quanto ao papel desempenhado pelo autor de A Guerra dos Mundos na transformação de uma idéia geral num projeto político viável. Tal como Wells, Toynbee não foi apenas um intelectual, mas um ativista, colaborador íntimo do governo britânico e dos círculos globalistas. Sua obra monumental A Study of History (1939-1961) fornece a visão unificada do desenvolvimento histórico mundial, indispensável à preparação do terreno para o advento do governo mundial.

O estado mais recente de implementação dos planos traçados por esses visionários pode ser avaliado pelos seguintes parágrafos publicados no Taipei Times de 21 de fevereiro de 2006 (v. “ State sovereignty must be altered in globalized era “) , aos quais nenhum comentarista político brasileiro prestou muita atenção embora seu autor fosse nada menos que Richard Haas, presidente do CFR, Council on Foreign Relations , o mais poderoso think-tank dos EUA e praticamente uma ante-sala da Presidência americana:

“Na era da globalização... os Estados têm de estar preparados para ceder algumas parcelas da sua soberania aos órgãos mundiais... Isso já está acontecendo no comércio...

“Alguns governos estão preparados para desistir de elementos de soberania para enfrentar a ameaça da mudança global do clima. Por um desses acordos, o protocolo de Kyoto, que vigora até 2012, os signatários concordam em eliminar certas emissões específicas. O que é preciso agora é uma ampliação do acordo, pela qual um número maior de governos, incluindo o dos EUA, da China e da Índia, aceitem limites às emissões e adotem padrões comuns por reconhecer que seria pior se nenhum país o fizesse.

“A globalização, portanto, implica não somente que a soberania está se tornando mais fraca na realidade, mas que ela deve mesmo se tornar mais fraca... A soberania já não é um refúgio.”

Observações:

1. O apelo sucessivo aos exemplos do comércio e da “mudança global do clima” mostra que o plano do Estado mundial tanto pode se legitimar como resposta unificada a problemas de escala internacional, quanto pode espalhar ele próprio uma onda alarmista em torno de problemas inexistentes para se legitimar por meios postiços e fraudulentos. Em 2006 o slogan “aquecimento global” ainda podia parecer um aviso de amigo. Decorridos dois anos, não só milhares de cientistas contestam abertamente esse dogma, mas até crianças de escola estão aptas a desbancar a lenda imposta ao mundo pela campanha bilionária em que brilha como supremo garoto-propaganda o ex-vice-presidente americano Al Gore (v. “ Al Gore’s global warming debunked – by kids!

”).

2. Os procedimentos usados para impor as reformas globalizantes contornam as vias democráticas normais por meio de decisões tomadas em discretas comissões tecno-científicas e administrativas cuja atividade o público mal pode compreender (v. “ Golpe de estado no mundo “). A rapidez mesma das mudanças torna impossível ao cidadão comum perceber o sentido dos acontecimentos. A “opinião pública”, que em geral já não passa mesmo de um conjunto de impressões vagas sem grande conexão com a realidade, torna-se então um mero instrumento para a implantação de mutações que ela própria não pode nem entender nem influenciar. O programa de Toynbee surge aí realizado da maneira mais clara: o Estado mundial não suprime a democracia, mas a engole. Ela continua existindo, mas como órgão de um corpo superior que a abrange e controla sem que ela tenha disso a menor idéia.

3. Se outros fatos que tenho citado em meus artigos não o comprovassem abundantemente, o caso do Protocolo de Kyoto basta para mostrar uma coisa óbvia que muitos dos nossos nacionalistas relutam em entender: que nem os centros de comando do poder globalista se encontram no governo americano, nem os interesses do Estado global se identificam no mais mínimo que seja com os do bom e velho “imperialismo ianque”. Da Califórnia à Nova Inglaterra, da Flórida ao Oregon, ninguém ignora que curvar-se à ampliação do Protocolo de Kyoto é destruir na base a economia americana, reduzindo os EUA à condição de potência de segunda classe. Nem escapa à atenção geral o fato de que outros projetos globalistas propugnados pelo CFR, como o Tratado da Lei do Mar ou a dissolução das Fronteiras com o México e o Canadá, completariam essa destruição e fariam da nação americana um capítulo encerrado da História. Curiosamente, o mais lúcido intelectual de esquerda no mundo, Antonio Negri, já explicou e repetiu mil vezes que “Império” e “Estados Unidos” não são a mesma coisa, que o Império global em formação é supranacional não somente nos objetivos mas na sua própria constituição interna (não que Negri tenha descoberto pioneiramente alguma coisa: com pequenas diferenças, o essencial da sua concepção do Império, publicada em 2000 pela Harvard University Press sob o título Empire , já estava todo no meu livro O Jardim das Aflições , de 1996). Mas o fato de que nem mesmo a palavra de um esquerdista ilustre baste para desfazer a confusão de globalismo e americanismo já mostra que muito do nacionalismo brasileiro é antes uma forma de atavismo doentio do que um patriotismo inteligente. A linguagem cotidiana da política reflete isso: embora o único Império que existe no mundo seja aquele a que se refere Negri, no Brasil usa-se o termo “Império” como sinônimo de “Estados Unidos”, seguindo nisso a retórica comunista de Fidel Castro (v. o artigo dele “ “Nuestro espiritu de sarificio y el chantaje del Imperio” , de 25 de abril). Com isso, o grande e verdadeiro Império, do qual a esquerda latino-americana é um dos principais instrumentos, fica a salvo da hostilidade pública, voltada contra uma nação em particular, a qual por ironia – mas não por coincidência – é justamente aquela que maiores obstáculos oferece às pretensões imperiais.

4. O esquema globalista apoiado pelo CFR não é o único que existe. Há um globalismo russo-chinês, consolidado no Pacto de Solidariedade de Shangai (v. “ Sugestão aos bem-pensantes: Internem-se “), que atua principalmente por duas vias: o financiamento ao terrorismo e o domínio de nações inteiras por intermédio da mais formidável máquina de corrupção que já existiu no mundo. E há o globalismo islâmico, que se expande através da imigração usada como arma de guerra cultural, numa eficientíssima estratégia de ocupação por dentro. As relações entre esses três esquemas de dominação são extremamente complexas e sutis. O Pacto de Shangai, por exemplo, apresenta-se como reação de esquerda ao “globalismo imperialista”, mas na verdade não se opõe a ele de maneira alguma, e sim apenas aos EUA, ajudando portanto o globalismo a minar a resistência americana (o cacoete lingüístico brasileiro acima mencionado é amostra local desse fenômeno). O esquema islâmico e o russo-chinês podem, até certo ponto, ser vistos como concorrentes entre si, mas aí também uma rede de atenuações e ambigüidades torna proibitiva toda simplificação esquemática.

A Tragedia Do Estudante Serio No Brasil

12 de fevereiro de 2006 | Diário do Comércio

Toda semana, recebo dezenas de cartas de estudantes que, em busca de alguma formação intelectual, encontraram nas universidades que freqüentam apenas propaganda comunista rasteira, porca, subginasiana.

Não são, como em geral imaginam, vítimas de puras circunstâncias políticas imediatas. Gemem sob uma montanha de fatores adversos à inteligência humana, que foram se acumulando no mundo, e não só no Brasil, ao longo das últimas décadas. Se a primeira metade do século XX trouxe um florescimento intelectual incomum, a segunda foi uma devastação geral como raramente se viu na História. A queda foi tão profunda que já não se pode medi-la. Num panorama inteiramente dominado por charlatães caricatos como Noam Chomsky, Richard Dawkins, Edward Said, Jacques Derrida, Julia Kristeva, a época em que floresceram quase que simultaneamente Edmund Husserl, Karl Jaspers, Louis Lavelle, Alfred North Whitehead, Benedetto Croce, Jan Huizinga, Arnold Toynbee – e na literatura T. S. Eliot, W. B. Yeats, Ezra Pound, Thomas Mann, Franz Kafka, Jacob Wassermann, Robert Musil, Hermann Broch, Heimito von Doderer – já se tornou invisível, inalcançável à imaginação dos nossos contemporâneos. Toda comparação é entre alguma coisa e alguma outra coisa. Não se pode comparar tudo com nada.

Isso não quer dizer que as fontes do conhecimento tenham secado. Pensadores de grande envergadura – um Eric Voegelin, um Bernard Lonergan, um Xavier Zubiri – sobreviveram à debacle dos anos 60 e continuaram atuantes, o primeiro até 1985, o segundo até 1984, o terceiro até 1983. Mas seus ensinamentos são ainda a posse exclusiva de círculos seletos. Não entram na corrente geral das idéias, nem poderiam entrar sem sujar-se, sem transformar-se em matéria de discussões idiotas como vem acontecendo, graças à ascensão política de alguns de seus discípulos, com o infeliz Leo Strauss.

Pois a desgraça se deu justamente na “corrente geral”. O fim da II Guerra Mundial trouxe uma prodigiosa reorganização das bases sociais e econômicas da vida intelectual no mundo. Novas instituições, novas redes de comunicação, novos mecanismos de estocagem e distribuição das informações acadêmicas, novos públicos e, sobretudo, a ampliação inaudita do apoio estatal e privado à cultura e a formação dos grandes organismos internacionais como a ONU e a Unesco. Tudo isso veio junto com o descrédito do marxismo soviético e a profunda mutação interna da militância esquerdista internacional, a essa altura já plenamente imbuída das duas lições aprendidas da Escola de Frankfurt e de Georg Lukacs (mas também, mais discretamente, de Martin Heidegger): (1) a luta essencial não era propriamente contra o capitalismo, mas contra “a civilização ocidental”; (2) o agente principal do processo era a classe dos intelectuais.

Nessas condições, o crescimento fabuloso dos meios de atuação veio junto com o esforço multilateral de apropriação desses meios por parte de grupos militantes bem pouco interessados em “compreender o mundo” mas totalmente devotados a “transformá-lo”. A redução drástica da atividade intelectual ao ativismo político foi a conseqüência desejada e planejada dessa operação, realizada em escala mundial a partir dos anos 60.

Não que o fenômeno fosse totalmente desconhecido antes disso. Um vasto ensaio geral já vinha sendo realizado nos EUA desde a década de 30 pelo menos, através das grandes fundações “não lucrativas” que descobriram seu poder de orientar e manipular a seu belprazer a atividade intelectual, científica e educacional mediante a simples seleção ideologicamente orientada dos destinatários de suas verbas bilionárias.

Em 1954, uma comissão de investigações do Congresso americano já havia descoberto que fundações como Rockefeller, Carnegie e Ford exerciam controle indevido sobre as universidades, as instituições de pesquisa e a cultura em geral, orientando-as num sentido francamente anti-americano, anticristão e até anticapitalista. (Não me perguntem pela milésima vez com que interesse os grandes capitalistas podem agir contra o capitalismo. A explicação está resumida em http://www.olavodecarvalho.org /semana/040617jt.htm e http://www.olavodecarvalho.org /textos/debate_usp_4.htm .) Inevitavelmente, a influência exercida por essas organizações não consistiu só em introduzir uma determinada cor política na produção cultural, mas em alterá-la e corrompê-la até às raízes, subordinando aos objetivos políticos e publicitários visados todas as exigências de honestidade, veracidade e rigor. Sem essa interferência, fraudes cabeludas como o Relatório Kinsey ou a pseudo-antropologia de Margaret Mead jamais teriam conseguido impor-se ao meio acadêmico e à mídia cultural como produtos respeitáveis de uma atividade científica normal.

A comissão foi alvo de ataques virulentos de toda a grande mídia, e seu trabalho acabou por ser esquecido, mas ele ainda é uma das melhores fontes de consulta sobre a instrumentalização política da cultura (v. René Wormser, Foundations, Their Power and Influence , New York, Devin-Adair, 1958 – vocês podem comprá-lo pelo site www.bookfinder.com ). Na verdade, sem ele não se pode compreender nada do que se passou em seguida, pois o que se passou foi que o experimento tentado em escala americana foi ampliado para o mundo todo: a apropriação dos meios de ação cultural pelas organizações militantes e o sacrifício integral da inteligência humana no altar da “vontade de poder” simplesmente se globalizaram.

Recursos incalculavelmente vastos, que poderiam ter sido utilizados para o progresso do conhecimento e a melhoria da condição de vida da espécie humana foram assim desperdiçados para sustentar a guerra geral da estupidez militante contra a “civilização ocidental” que havia gerado esses mesmos recursos.

Embora esse processo seja de alcance mundial, é claro que o seu peso se fez sentir mais densamente em países novos do Terceiro Mundo, onde as criações das épocas anteriores não tinham sido assimiladas com muita profundidade e as raízes da civilização podiam ser mais facilmente cortadas. No Brasil, da década de 60 em diante, os progressos da barbárie foram talvez mais rápidos do que em qualquer outro lugar, destruindo com espantosa facilidade as sementes de cultura que, embora frágeis, vinham dando alguns frutos promissores. A comparação impossível entre as duas épocas, que mencionei acima, é ainda mais impossível no caso brasileiro. Na década de 50, tínhamos, vivos e atuantes, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Àlvaro Lins, Augusto Meyer, Otto Maria Carpeaux, Mário Ferreira dos Santos, Vicente Ferreira da Silva, Herberto Sales, Cornélio Penna, Gustavo Corção, Nelson Rodrigues, Lúcio Cardoso, Heitor Villa-Lobos, Augusto Frederico Schmidt, a lista não acaba mais. Hoje, quem representa na mídia a imagem da “cultura brasileira”? Paulo Coelho, Luís Fernando Veríssimo, Gilberto Gil, Arnaldo Jabor, Emir Sader, Frei Betto e Leonardo Boff. Perto desses, Chomsky é Aristóteles. É o grau mais alto pelo qual se medem. Chamar isso de crise, ou mesmo de decadência, é de um otimismo delirante. A cultura brasileira tornou-se a caricatura de uma palhaçada. É uma coisa oca, besta, disforme, doente, incalculavemente irrisória.

A inteligência, ao contrário do dinheiro ou da saúde, tem esta peculiaridade: quanto mais você a perde, menos dá pela falta dela. O homem inteligente, afeito a estudos pesados, logo acha que emburreceu quando, cansado, nervoso ou mal dormido, sente dificuldade em compreender algo. Aquele que nunca entendeu grande coisa se acha perfeitamente normal quando entende menos ainda, pois esqueceu o pouco que entendia e já não tem como comparar. Uma das coisas que me deliciam, que me levam ao êxtase quando contemplo o Brasil de hoje, é o ar de seriedade com que as pessoas discutem e pretendem sanar os males econômicos, políticos e administrativos do Brasil, sem ligar a mínima para a destruição da cultura, como se a inteligencia prática subsistisse incólume ao emburrecimento geral, como se inteligência fosse um adorno a ser acrescentado ao sucesso depois de resolvidos todos os problemas ou como se a inépcia absoluta não fosse de maneira alguma um obstáculo à conquista da felicidade geral. A prova mais evidente da insensibilidade torpe é o sujeito já nem sentir saudade da consciência que teve um dia.

Mas não, a inteligência nacional não acabou no dia em que os nossos estudantes tiraram o último lugar numa avaliação entre alunos do curso secundário de 32 países: acabou logo em seguida, quando o ministro da Educação disse que o resultado poderia ter sido pior.

Num sentido mais profundo do que o ministro imaginava, poderia mesmo. Na eleição seguinte, o país colocou na presidência um carreirista enriquecido, de terno Armani e unhas polidas, que, por orgulhar-se de jamais ler livros, foi proclamado um símbolo da autenticidade popular. A imagem era falsa, grotesca e insultuosa, mas ninguém percebeu. Se existe um grau abaixo do grotesco, porém, ele foi atingido logo em seguida, quando o escritor Raymundo Faoro, quanto mais bobo mais celebrado nas esquerdas como inteligência luminosa, sugeriu o nome do então presidenciável para ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Perto disso, tirar o último lugar num teste chegava a ser meritório.

Se o desespero dos estudantes que me escrevem viesse só da situação política, haveria esperança de saná-lo por meio da ação política. Mas a ação política é um subproduto da cultura e, no estado em que as coisas estão, nenhuma ação política inteligente, ao menos em escala federal, é previsível nas próximas duas ou três gerações. Nas próximas eleições, por exemplo, o país terá de optar novamente entre PT e PSDB, isto é, os dois filhotes monstruosos gerados no ventre da USP, a mãe da esterilidade nacional, ou como bem a sintetizou o poeta Bruno Tolentino, a “p... que não pariu”. Sim, a política brasileira virou uma imensa assembléia de estudantes da USP, com o Partido Comunista de um lado, a Ação Popular de outro, num torneio de arrogância, presunção, hipocrisia, sadismo mental, mendacidade ilimitada e estupidez sem fim. A USP levou meio século para chegar ao poder, e ainda não parou de gerar pseudo-intelectuais ambiciosos, ávidos de mandar, sedentos de ministérios. Sua obra de destruição está longe de haver-se completado.

Da política nada de bom se pode esperar num prazo humanamente suportável. Uma ação cultural de grande escala – a fundação de uma autêntica instituição de ensino superior, para contrabalançar a desgraça uspiana – também não é nada provável, dada a omissão das chamadas “elites”, sempre de rabo entre as pernas, oscilando entre lamber mais um pouco os pés da canalha petista ou apegar-se ao primeiro zesserra que apareça.

Ao estudante que consiga ainda vislumbrar o que é vida intelectual e faça dela o objetivo de sua existência, restam dois caminhos: o exílio, que pode levar ao lugar errado (a miséria brasileira nasce em Paris), e o isolamento, que pode levar os mais fracos a um desespero ainda mais profundo do que aquele em que se encontram.

A única solução viável, que enxergo, é a formação de pequenos grupos solidários, firmemente decididos a obter uma formação intelectual sólida, de início sem nenhum reconhecimento oficial ou acadêmico, mas forçando mais tarde a obtenção desse reconhecimento mediante prova de superioridade acachapante. Já não leciono no Brasil, mas a experiência mostrou que muito aluno meu, com alguns anos de aulas e bastante estudo em casa, já está pronto para dar de dez a zero, não digo em alunos, mas em professores da USP do calibrinho de Demétrio Magnoli e Emir Sader, o que, bem feitas as contas, é até luta desigual, é até covardia.

O processo é trabalhoso, mas simples: cumprir as tarefas tradicionais do estudo acadêmico, dominar o trivium , aprender a escrever lendo e imitando os clássicos de três idiomas pelo menos, estudar muito Aristóteles, muito Platão, muito Tomás de Aquino, muito Leibniz, Schelling e Husserl, absorver o quanto possível o legado da universidade alemã e austríaca da primeira metade do século XX, conhecer muito bem a história comparada de duas ou três civilizações, absorver os clássicos da teologia e da mística de pelo menos três religiões, e então, só então, ler Marx, Nietzsche, Foucault. Se depois desse regime você ainda se impressionar com esses três, é porque é burro mesmo e eu nada posso fazer por você.

A Briga Que Ninguem Quer Comprar

12 de abril de 2010 | Diário do Comércio

Em cada momento do tempo, o estado geral de uma sociedade é indicado por uma série de fatores que podem ser medidos e comparados, como por exemplo a renda média, a criminalidade, o aproveitamento escolar, o número de casamentos e divórcios, etc.

A comparação entre esses fatores permite avaliar a importância relativa de cada fato – ou série de fatos – no conjunto da vida social. Por exemplo, o número de crimes e de vítimas, distribuído entre várias regiões, grupos sociais e faixas etárias. O conhecimento geral desse quadro desperta na população o senso das proporções que servirá de régua para medir a credibilidade das opiniões circulantes. Acima das preferências pessoais e grupais, o núcleo factual conhecido por todos é o tribunal de última instância no qual as idéias e propostas serão julgadas conforme sua adequação ou inadequação à realidade.

Ora, só há um canal por onde o conhecimento do quadro geral pode chegar à população: a mídia. O desempenho normal e saudável dessa função pelos jornais depende não somente de que eles divulguem os fatos, mas de que os selecionem e lhes confiram destaque maior ou menor conforme a sua importância real naquele quadro comparativo, de modo que os focos de atenção popular se hierarquizem segundo a importância objetiva dos fatores.

Em toda sociedade há um determinado número de estudiosos que têm acesso a fontes diretas e não dependem da mídia popular para formar sua visão das coisas. Para a população em geral, no entanto, vigora uma espécie de movimento circular: a constância e o destaque com que os fatos são noticiados na mídia tornam-se o padrão de aferição para o julgamento dos fatos subseqüentes divulgados pela mesma mídia. Em suma: a mídia cria sua própria regra de credibilidade, não havendo, para o grosso da população, nenhum outro quadro de referência pelo qual essa credibilidade possa ser julgada.

Até os anos 50-60, cada órgão de mídia neste país, malgrado a multiplicidade de interesses a que devia atender, mantinha-se razoavelmente submisso à ordem objetiva dos fatores, por saber que exageros ou distorções muito visíveis seriam, no dia seguinte, desmascarados por seus concorrentes. Até certo ponto, a imagem geral da sociedade tal como aparecia nos jornais coincidia com o quadro quantitativo real: o que merecia destaque e cobertura continuada era aquilo que, na vida social, tinha alguma importância objetiva.

Quatro fatores contribuíram para libertar a mídia nacional desses escrúpulos de realismo.

O primeiro foi a solidariedade maior entre as empresas, forjada durante o regime militar para a defesa comum contra as imposições do governo. As denúncias mútuas de fraude e de mau jornalismo desapareceram quase que por completo, colocando cada empresa jornalística na posição confortável de poder mentir a salvo de represálias dos concorrentes. Na mesma medida, a disputa de mercado praticamente cessou, distribuindo-se os leitores mais ou menos equitativamente entre as maiores publicações.

O segundo foi a diversificação das atividades lucrativas das empresas jornalísticas, que passaram a depender cada vez menos da aprovação dos leitores. A prova máxima dessa transformação é que essas empresas se tornaram formidavelmente mais ricas e poderosas sem que a tiragem de seus jornais aumentasse no mais mínimo que fosse. Com a escolaridade crescente, o número de leitores potenciais subiu de ano para ano, mas os maiores jornais brasileiros não vendem, hoje em dia, mais exemplares do que nos anos 50. É um fenômeno único no jornalismo mundial.

Em terceiro lugar, a obrigatoriedade do diploma universitário promoveu a uniformização cultural e ideológica da classe jornalística, de modo que já não há diferenças substantivas entre os climas de opinião nas várias redações de jornais e revistas. Na homogeneidade geral, as exceções individuais tornam-se irrelevantes.

Por último, as influências intelectuais que vieram a dominar as faculdades de jornalismo, deprimindo a confiança nos velhos critérios de objetividade e enfatizando antes a função dos jornalistas como “agentes de transformação social”, acabaram transmutando maciçamente as redações em grupos militantes imbuídos de uma agenda político-cultural e dispostos a implementá-la por todos os meios. Por isso é que, de milhares de profissionais de mídia que ocultaram a existência do Foro de São Paulo por dezesseis anos, só um, um único, mostrou algum arrependimento. Os outros, inclusive os autonomeados fiscais da moralidade jornalística alheia, preferiram, retroativamente, ocultar a ocultação – e não perderam um minuto de sono por isso.

Some-se a tudo isso um quinto fator, de dimensões internacionais: o tremendo desenvolvimento, nas últimas décadas, das técnicas de engenharia social e da sua aplicação pelos meios de comunicação.

Quem pode impedir que empresas mutuamente solidárias, libertas até mesmo do temor ao público, tendo a seu serviço uma massa bem adestrada de “transformadores do mundo” e um conjunto de instrumentos de ação tão discretos quanto eficientes, mandem às favas todo senso objetivo das proporções e se empenhem em criar uma “segunda realidade”, uma nova ordem dos fatores, totalmente inventada, legitimando de antemão qualquer nova mentira que lhes ocorra distribuir amanhã ou depois?

Nessas condições, toda presunção de “objetividade jornalística”, personificada ou não nessa moderna versão do bobo-da-côrte que é o ombudsman , tornou-se hoje apenas um adorno publicitário sem qualquer eficácia real na prática das redações.

O total desprezo pelos critérios quantitativos de aferição da importância das notícias tornou-se, portanto, a norma usual e corriqueira em todas as maiores publicações. Não havendo padrão de medida exterior pelo qual o jornalismo possa ser julgado, os jornais passaram a viver de um noticiário autofágico e uniforme, publicando todos as mesmas coisas, com igual destaque, e confirmando-se uns aos outros no auto-engano comum.

Não há um só jornal ou grande revista, por exemplo, que gradue o destaque dado à denúncias de padres pedófilos pelo exame comparativo de casos similares em outros grupos sociais. Esse exame mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos é muito, muito menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade humana, embora o destaque dado na mídia a esses casos induza a população a crer o contrário. Em artigo recente, o sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num periodo de várias décadas, apenas cem sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto seis mil professores de educação física sofriam condenação pelo mesmo mesmo delito. Introvigne citou os professores de educação física apenas como grupo-controle. Poderia ter mencionado dezenas de outros: no conjunto, os casos de padres pedófilos revelariam ser as raridades que são, contrastando dramaticamente com a disseminação alarmante do crime de pedofilia na sociedade em geral. Eu mesmo, examinando as estatísticas alardeadas pela campanha anticlerical na Irlanda, e tirando delas as conclusões aritméticas que os autores do documento maliciosamente se recusavam a tirar, mostrei que, em cada escola católica daquele país, ocorrera não mais de um caso de pedofilia a cada dezesseis anos. Chamar isso, como a mídia o chama, de “pedofilia epidêmica”, é evidentemente uma fraude, mas como pode a população percebê-lo se não tem acesso a outro critério comparativo senão aquele que lhe é fornecido pela própria mídia segundo o recorte de uma agenda politicamente interesseira?

Mutatis mutandis , o número e a gravidade das ocorrências entre os Legionários de Cristo – mesmo sem contar as peculiaridades organizacionais que destaquei no meu artigo anterior – são tão maiores que os dos casos registrados em qualquer outra instituição católica, que tratar delas sem sublinhar a diferença, antes reduzindo-as a exemplos de “pedofilia católica” como quaisquer outros, é falsificar por completo a visão dos fatos.

Uma coisa é a realidade da vida social, outra a sua imagem na mídia e nos debates públicos. A segunda pode estar muito deslocada da primeira, fazendo com que a atenção pública se aliene da realidade ao ponto de a população tornar-se incapaz de compreender o que está acontecendo. O deslocamento completo assinala um estado de psicose social.

Brilhando No Youtube

11 de julho de 2011 | Diário do Comércio

A facilidade, a leviandade, a segurança de si com que todo imbecil se gaba de ter “opiniões próprias”, de ser “independente de ideologias”, de “pensar com a própria cabeça”, etc., é apenas a prova cabal de que a educação pública, do primário à universidade, não transmite aos cidadãozinhos nem uma migalha sequer daquilo que precisariam saber para poder pensar razoavelmente sobre política, moral e assuntos congêneres.

A linguagem é a armadura do pensamento. O que não cabe nela desaparece da memória em poucos segundos, mesmo na hipótese remota de que por momentos tenha sido percebido com clareza. Excetuada a hipótese de que você seja um Holbein, um Velásquez, um Escher, capaz de fixar em imagens uma intuição complexa, os limites da sua capacidade pensante estão rigidamente delimitados pelo seu domínio – ou falta de domínio – da língua falada e principalmente escrita.

Um pensamento pessoal requer, antes de tudo, uma linguagem pessoal. Não há espetáculo mais patético que o de um arremedo de “opinião própria” expressando-se mediante chavões e lugares-comuns da língua geral, confessando, no ato mesmo de proclamar autonomia, a sua total dependência das opiniões correntes, padronizadas, iguais às da platéia do Faustão.

Observo isso na quase totalidade dos sapientíssimos pareceres que circulam no Orkut, no Facebook, no Youtube e numa infinidade de blogs sobre aquilo que seus autores imaginam ser minhas idéias e opiniões.

Meus amigos, almas sádicas e perversas, enviam-me toneladas desse material, sob a desculpa de me fazer rir. Não sabem o trabalho que me dão. Penetrar os meandros da estupidez humana, compreender o modus pensandi de um cretino, é tarefa mais árdua que a de ler Hegel ou Aristóteles. Hegel e Aristóteles, afinal, são filósofos, o que significa que cada linha de seus escritos remete a um núcleo unitário de preocupações, o qual, uma vez apreendido, esclarece todo o resto – até mesmo os trechos ambíguos e incoerentes.

Já o pensamento de um imbecil é o reflexo do seu estado momentâneo, inspirado por coisas que ele ouviu falar mas das quais já não se lembra. Sua mente é um caleidoscópio de estilhaços, expressão fortuita de uma alma dispersa e fragmentária, cuja pouca e frágil unidade vem apenas dos automatismos consagrados que ele, imaginando serem criações suas e originalíssimas, repete com a fidelidade de um copy and paste . Por trás de cada uma dessas “opiniões pessoais” há uma identidade coletiva que permanece inconsciente e, desde as sombras, manipula o infeliz para fazê-lo acreditar que ele é ele mesmo.

Não espanta que, nessas condições, tudo o que o distinto pode fazer consista nestas quatro coisas, juntas ou separadas:

1. Catalogar minhas opiniões na gama paupérrima das classes estereotipadas que ele conhece, as quais, para ele, constituem tudo o que existe.

2. Fazer a lista daquilo que, no entender da criatura, aprovo ou desaprovo. Ser “a favor” ou “contra”, gostar ou desgostar, é, nessa cosmovisão de jurados de TV, a atividade essencial ou única da inteligência humana.

3. Negar uma ou duas frases minhas ditas num programa de rádio e sair proclamando: “Derrotei o Olavo de Carvalho.”

4. Na impossibilidade de realizar qualquer dos três feitos anteriores, ou na eventualidade de não ter obtido com eles o desejado alívio dos maus instintos, resta a hipótese de repetir, com um tremendo sentimento de originalidade, alguma das rotulações postas em circulação cinco ou dez anos atrás por Sebastião Nery, Janer Cristaldo, Mário Augusto Jacobskind, Rodrigo Constantino ou qualquer outro de idêntico valor e estatura. Dirão então que sou vaidoso, arrogante, fanático religioso, boca-suja, filósofo entre aspas, astrólogo enrustido ou coisa assim. Feito isso, encerrarão o assunto voltando-se orgulhosamente para os lados da cozinha e gritando: “Mãe, olha eu no Youtube.”

Em 11 de julho de 2011

O Sul No Norte

11 de janeiro de 2012 | Diário do Comércio

Se você quer saber qual será a política de amanhã, leia as publicações acadêmicas de hoje: nada se grita nas praças que antes não se tenha sussurrado em sala de aula, longe das atenções dos “analistas políticos” da mídia, sempre os últimos a saber. O prazo de maturação em que as idéias dos professores se transformam em moda política é de uns vinte e cinco ou trinta anos, o tempo de uma troca de gerações.

Decorridos alguns meses do desmantelamento da URSS, um amigo meu, militar de alta patente, veio entusiasmado me mostrar uns trabalhos publicados em revistas de estudos estratégicos, que falavam de uma nova divisão geopolítica do mundo: em vez do conflito Leste-Oeste entre regimes comunistas e capitalistas, tínhamos então a disputa Norte-Sul entre países ricos e países pobres.

Em linguagem popularizada, dramatizada em slogans e chavões de fácil repetição, a tese ressurge agora pela boca de dois entre os mais notórios garotos-propaganda do esquerdismo internacional: o escritor uruguaio Eduardo Galeano e o deputado suíço Jean Ziegler (v.

http://www.youtube.com/watch?v=MyxO-gL_ZnM ). Falta só um pouquinho, portanto, para que a guerra Norte-Sul se consolide como verdade de evangelho, repetida em todos os jornais e botequins do universo pela “parcela mais esclarecida da população”.

No entanto, a teoria não se tornou nem um pouquinho melhor nesse ínterim. Ao contrário, a falsidade e a má intenção que a inspiravam no começo tornaram-se ainda mais patentes. Não preciso, por isso, senão repetir aqui o que naqueles dias remotos expliquei ao meu estupefato amigo.

Primeiro: Desníveis econômicos entre nações não podem, por si, ser causa de conflitos políticos ou de guerras sem que uma longa e complexa manobra estratégica e propagandística os converta nisso. Mas mesmo neste caso não se pode dizer que a pobreza seja a “causa” da disputa: a causa verdadeira é a ação política deliberada que a usou eficazmente como pretexto. E notem que não é do dia para a noite que se infunde na cabeça de um povo empobrecido por oligarquias ociosas e corruptas a idéia de que todos os seus males vêm do estrangeiro.

Segundo: Política e guerra custam muito dinheiro, especialmente numa era de tecnologia avançada, e nenhuma nação pobre se arriscaria a enfrentar os vizinhos mais prósperos, nem mesmo no campo puramente político-diplomático, se não tivesse por trás um amigo rico e poderoso a instigá-la e financiá-la para isso. Mas neste caso o verdadeiro agente não seria a nação pobre e sim o aliado rico, empenhado em bater com mão alugada. Era exatamente a situação que se havia observado nas guerras da Coréia e do Vietnã, onde os americanos não se batiam contra tropas locais esfarrapadas, mas contra o bloco comunista inteiro que as movia como peças de xadrez. Havia também a possibilidade de tratar-se de uma falsa nação pobre, isto é, uma nação rica com povo pobre, cujas oligarquias exploradoras tentassem aliviar conflitos internos canalizando o ódio popular contra bodes expiatórios estrangeiros, tal como faz hoje o Irã. Mas mesmo neste caso o dedo do aliado rico estaria lá, orientando e dirigindo tudo mais ou menos discretamente.

Terceiro: A teoria original de Marx enfocava a luta de classes na escala das nações individuais, cada uma com sua burguesia e seu proletariado supostamente em antagonismo perpétuo. Mas já na década de 30 Josef Stálin lançou a idéia de enfocar os conflitos internacionais, reais ou possíveis, como lutas de classes, as nações pobres no papel de “proletariado”, as ricas no de “burguesia”. Com a ajuda de centenas de milhares de agentes espalhados pelo mundo, e com aquela desenvoltura que os comunistas têm de tomar figuras de linguagem como se fossem descrições científicas da realidade, logo a idéia se universalizou sob a forma do “terceiromundismo”. Na época, só gente muito burra ignorava que as nações pobres alegadamente neutras, mas dedicadas a uma política anti-ocidental sistemática, eram manipuladas pelo bloco comunista. Sabendo-se que a queda da URSS não modificou substancialmente o esquema de poder na Rússia nem atenuou em nada a ação do movimento comunista internacional, a teoria Norte-Sul não passava em 1990, como não passa hoje, de uma reedição melhorada do “terceiromundismo” stalinista, a ser acionada em condições estratégicas mais que favoráveis. De um lado, o triunfalismo ocidental empenhado em celebrar afoitamente a “vitória na guerra fria” encobriu sob um manto de confortável invisibilidade a ação comunista internacional, dando-lhe o descanso necessário para se rearticular em novo formato (que já expliquei em inúmeros artigos, por exemplo http://www.olavodecarvalho.org/semana/030309zh.htm , http://www.olavodecarvalho.org/semana/110718dc.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/060724dc.html ) e reaparecer no mundo com identidade trocada, sem um centro de comando aparente e dispensada, portanto, de arcar com qualquer responsabilidade histórica pelos crimes da URSS e da China. De outro lado, o processo mesmo da “globalização” e o fortalecimento inaudito dos organismos internacionais como núcleos de um governo mundial em formação determinaram claramente o desmantelamento da indústria norte-americana, a transformação maciça da imigração forçada em arma de dissolução das soberanias nacionais no Ocidente, o desgaste dos EUA e da Europa em sucessivas crises econômicas e a emergência da China como potência concorrente ameaçadora. Que momento melhor haveria para um ataque geral ao Ocidente sob o pretexto de guerra dos pobres contra os ricos, do “Sul” contra “o Norte”? Quem, numa hora dessas, se lembrará de observar que os agentes principais do processo – Rússia, China, Irã – ficam no Norte?

Em 11 de janeiro de 2012

Fugindo Da Filosofia

10 de setembro de 2012 | Diário do Comércio

Na universidade brasileira – e refiro-me somente às mais prestigiadas –, a lógica e a filologia foram consagradas como os refúgios convencionais da impotência filosófica. Ambas constituem, é claro, domínios autônomos, com seus objetos e métodos respectivos, que às vezes podem ser freqüentados indefinidamente sem nenhum suporte filosófico especial, mas que, como todas as demais ciências, podem suscitar problemas de ordem filosófica para os quais não encontram solução dentro dos seus critérios e terrenos próprios.

Nenhuma das duas é a filosofia, embora ambas prestem a ela os serviços de ciências auxiliares freqüentemente indispensáveis.

A lógica está para a filosofia como a gramática está para a literatura. Idealmente, espera-se que tudo o que um escritor escreve seja compatível com as regras consagradas da gramática, seja por segui-las em sentido estrito, seja por transcendê-las criativamente, seja por transgredi-las em detalhes menores amplamente compensados – ou até justificados — pelo valor do conjunto. O que não se espera nunca é que um escritor sacrifique a vivacidade direta das suas intuições estéticas às exigências de algum gramático ranheta. Do mesmo modo, espera-se que aquilo que um filósofo diz resista ao teste da consistência lógica, mas não que ele próprio forneça a cabal demonstração lógica de tudo o que disse.

Isso é assim por dois motivos. Primeiro: em filosofia não há cabal demonstração lógica de praticamente nada. Todas as teses filosóficas podem ser recolocadas em questão à medida que se descobrem nelas novas nuances insuspeitadas à primeira vista ou que o desenvolvimento das ciências traz à luz novos aspectos dos seus objetos. Segundo: o trabalho de demonstração lógica exaustiva só é possível em questões filosóficas já longamente elaboradas por uma tradição de interpretações e debates, quando as dificuldades de expressão foram superadas e os conceitos estabilizados. Acontece, por fatalidade, que essa condição quase nunca é cumprida pelas grandes filosofias. O que caracteriza essas filosofias – acima de tudo a de um Platão, a de um Aristóteles – é que desbravam continentes desconhecidos, para os quais não há ainda uma linguagem consagrada nem conceitos descritivos prontos. A busca da perfeita (ou mais perfeita) consistência lógica é antes ocupação de continuadores e epígonos que dos espíritos criadores. Na exploração do desconhecido, uma certa margem de imprecisão e nebulosidade é inevitável. Prova-o acima de qualquer possibilidade de dúvida o fato de que, decorridos dois milênios e picos, ainda se discute o sentido preciso de tais ou quais termos nos escritos daqueles dois filósofos.

É aí, precisamente, que entra a filologia. Sua tarefa é reconstituir a forma e, se possível, o sentido originário dos textos antigos – ou não tão antigos –, de modo a que o estudioso deles tenha em mãos um material confiável, de onde se depreenda com clareza máxima o pensamento dos autores, bem como o seu encadeamento histórico e os seus nexos com o ambiente social e mental das épocas respectivas.

Com isso chegamos um pouco mais perto da filosofia. Estudar e compreender os escritos dos grandes filósofos já é, de algum modo, tomar parte numa atividade filosófica. Tanto que aqueles que a praticam se consideram filósofos. Alguns até acreditam que nisso e somente nisso consiste a filosofia. O prof. José Arthur Gianotti declarou peremptoriamente ser a filosofia, em essência, “um trabalho com textos”. Não lembro se a expressão foi bem essa, mas essa era a idéia.

Essa idéia tem o mérito de demarcar precisamente a diferença entre a filosofia e o que dela se transmite, na melhor das hipóteses, aos estudantes das universidades brasileiras. Estes ocupam-se de textos (quando se ocupam de alguma coisa). Os grandes filósofos, ao contrário, não se dedicavam eminentemente ao estudo de seus próprios textos, nem mesmo ao dos seus antecessores, contemporâneos e concorrentes, mas ao estudo de objetos que existiam antes, fora e independentemente da filosofia: Deus, a vida após a morte, a constituição dos Estados e governos, a sociedade e os costumes, a conduta moral ou imoral dos seres humanos, os sonhos e emoções, a ordem do universo material, a estrutura da realidade. Nenhum desses objetos foi inventado pelos filósofos. Estes os encontraram prontos na experiência da vida (que inclui, é claro, uma parcela de herança filosófica), e fizeram um gigantesco esforço de compreendê-los. Desse esforço sempre fez parte, é claro, a meditação do que os filósofos anteriores – ou os homens cultos em geral – haviam dito a respeito. Aristóteles diz mesmo que o exame das opiniões inteligentes é bom começo de investigação filosófica; e esse começo, decerto, exige a leitura dos textos. A diferença é que Aristóteles os lia para encontrar, justamente, o que não estava neles: o objeto enquanto tal, que só muito parcialmente, e não raro impropriamente, transparecia nas opiniões estudadas. Dito de outro modo, ele usava os textos como perspectivas auxiliares para enriquecer, às vezes por contraste, a sua própria experiência direta dos objetos. Foi nesse sentido que Eric Voegelin aconselhava a seus alunos: “Não estudem a filosofia de Eric Voegelin. Estudem a realidade.”

A transmutação da realidade em conceito filosófico requer uma técnica apropriada, a técnica filosófica, elaborada ao longo de milênios de experiência, que descrevi breve e toscamente no livro A Filosofia e seu Inverso . Essa técnica é especificamente diversa da lógica e da filologia e não pode ser adquirida pelo estudo exaustivo, ou mesmo maníaco, dessas duas disciplinas.

Em 10 de setembro de 2012

Escola De Costureiras

10 de junho de 2013 | Diário do Comércio

Glenn Greenwald, o repórter do jornal inglês Guardian que descobriu o grampo geral e endêmico instalado pela administração Obama nos EUA, e no qual ninguém queria acreditar até uns dias atrás, disse que o atual governo deu uma interpretação deformada e monstruosa ao “Patriot Act”, criando uma gigantesca máquina de espionagem ilegal “para eliminar a privacidade e o anonimato não apenas na América como no resto do mundo” ( ver aqui ).

Espionar não é tudo. Intimidar e manipular é o mais importante. O governo americano não só usou o Imposto de Renda como arma de chantagem para paralisar e destruir toda oposição conservadora e cristã, como, ao mesmo tempo, cobriu de isenções e regalias muitas ONGs notoriamente associadas a movimentos radicais islâmicos, inclusive uma, de propriedade do irmão do presidente, destinada a dar suporte político ao governo genocida do Sudão.

Para completar, o governo Obama mudou os regulamentos militares para ameaçar de corte marcial qualquer soldado que falasse em público da sua fé cristã, ao mesmo tempo que convocava um religioso muçulmano para discursar no enterro de soldados mortos pelo terrorismo islâmico, os quais o distinto teve, na oração fúnebre, a gentileza de rotular como “infiéis a Allah”.

Ecada vez vai-se tornando mais claro que o desastre de Benghazi, seguido de repugnantes esforços de acobertamento, nasceu de um falso sequestro encenado para dar ao governo americano uma desculpa para colocar em liberdade o sheikh cego, Omar Abdurrahman, mentor de organizações terroristas.

Para quem quer que investigasse por conta própria e raspasse um pouco a superfície das coisas, já eram mais que previsíveis em 2008 toda a perversidade, a mendacidade psicopática e o caráter golpista daquilo que viria a ser o governo Obama. Para quem confia na grande mídia, entretanto, eram invisíveis, impossíveis e impensáveis.

A redação dos maiores jornais e canais de TV, neste país até mais claramente do que no restante do universo, compõe-se de dez por cento de trapaceiros e noventa por cento de cretinos que os admiram, que os repetem servilmente e que sonham em ser como eles quando crescerem. E destes, apenas dez por cento crescem. Sobem aos postos de chefia e ganham espaço personalizado quando transpõem com sucesso o rito de passagem que os habilita a fazer por malícia o que antes faziam por idiotice e espírito de imitação.

Aqueles que não consentem em ser nem trapaceiros nem idiotas acabam por se marginalizar ou ser marginalizados.

O leitor quer ter a gentileza de me apontar, entre os luminares da Folha de S. Paulo, do Estadão e do Globo, um, unzinho só, que lhe advertisse em tempo que Obama era um totalitário quatro cruzes, devoto do comunismo e dos radicais islâmicos, disposto a fazer da América um Estado policial – e não para perseguir os terroristas, mas sim aqueles que os combatem?

Não, é claro. De fato, todos eles anunciaram uma era de lindezas incomparáveis, o fim da idade das trevas, a apoteose da liberdade e do progresso. E agora, como não podem mais negar aquilo que o planeta inteiro já ficou sabendo sem a ajuda deles, não lhes resta senão apelar, com a maior cara de pau, à desculpa de que tudo o que o Obama faz é culpa de George W. Bush.

Não dá vontade de bater nesses desgraçados? E pensa que algum deles sente um pingo de vergonha? Que nada! São todos discípulos do Zé Dirceu: pegos com a mão na cumbuca, trocam de nariz e seguem em frente, impávidos colossos, arrotando sapiência.

Não vou citar nomes porque eles brilham todo dia nas telas e nas páginas, padecendo de um excesso de visibilidade.

O que esses sujeitos e todos os seus similares entendem de política está no nível do que eu entendo de corte e costura. Quando criança, eu ouvia de longe minhas tias conversando a respeito numa linguagem esotérica em que abundavam termos como retrós, sianinha, ponto-cruz, pence, viés, o diabo. Conheço as palavras todas, mas até hoje não faço a menor ideia de quais objetos lhes correspondem no mundo real, se é que aquelas coisas existiam mesmo e as velhinhas não estavam apenas se divertindo às minhas custas.

Desejo De Conhecer

10 de janeiro de 2011 | Diário do Comércio

“É natural no ser humano o desejo de conhecer.” Quando li pela primeira vez esta sentença inicial da Metafísica de Aristóteles, mais de quarenta anos atrás, ela me pareceu um grosso exagero. Afinal, por toda parte onde olhasse – na escola, em família, nas ruas, em clubes ou igrejas – eu me via cercado de pessoas que não queriam conhecer coisíssima nenhuma, que estavam perfeitamente satisfeitas com suas idéias toscas sobre todos os assuntos, e que julgavam um acinte a mera sugestão de que se soubessem um pouco mais a respeito suas opiniões seriam melhores.

Precisei viajar um bocado pelo mundo para me dar conta de que Aristóteles se referia à natureza humana em geral e não à cabeça dos brasileiros. De fato, o traço mais conspícuo da mente dos nossos compatriotas era o desprezo soberano pelo conhecimento, acompanhado de um neurótico temor reverencial aos seus símbolos exteriores: diplomas, cargos, espaço na mídia. Observava-se essa característica em todas as classes sociais, e até mais pronunciada nas ricas e prósperas. Qualquer ignorante que houvesse recebido em herança do pai uma fábrica, uma empresa de mídia, um bloco de ações da Bolsa de Valores, julgava-se por isso um Albert Einstein misto de Moisés e Lao-Tsé, nascido pronto e habilitado instantaneamente a pontificar sobre todas as questões humanas e divinas sem a menor necessidade de estudo. Se houvesse lido alguma coisa no último número da Time ou do Economist , então, ninguém segurava o bicho: suas certezas erguiam-se até às nuvens, imóveis e sólidas como estátuas de bronze – sempre acompanhadas, é claro, das advertências cépticas de praxe quanto às certezas em geral, sem que a criatura notasse nisso a menor contradição. Caso faltassem os semanários estrangeiros, um editorial da Folha supria a lacuna, fundamentando verdades inabaláveis que só um pedante viciado em estudos ousaria contestar.

Dessas mentes brilhantes aprendi lições inesquecíveis: o comunismo acabou, esquerda e direita não existem, Lula é um neoliberal, a Amazônia é o pulmão do mundo, o Brasil é um modelo de democracia, a Revolução Francesa instaurou o reino da liberdade, a Inquisição queimou cem milhões de hereges, as armas são a causa eficiente dos crimes, o aquecimento global é um fato indiscutível, os cigarros matam pessoas à distância, o narcotráfico é produzido pela falta de dinheiro, as baleias são hienas evoluídas e o Foro de São Paulo é um clube de velhinhos sem poder nenhum.

Se continuasse a dar-lhes ouvidos, hoje eu seria reitor da Escola Superior de Guerra ou talvez senador da República.

Longe do Brasil, encontrei enfermeirinhas, caixeiros de loja e operários da construção civil que, ao saber-me autor de livros de filosofia, arregalavam dois olhos de curiosidade, me crivavam de perguntas e me ouviam com a atenção devota que se daria a um profeta vindo dos céus. Por incrível que pareça, interesse e humildade similares observei entre potentados da indústria e das finanças, figurões da mídia e da política. Até mesmo professores universitários, uma raça que no Brasil é imune a tentações cognitivas, mostravam querer aprender alguma coisa.

Aristóteles tinha razão: o desejo de conhecer é inato. O Brasil é que havia falhado em desenvolver nos seus filhos a consciência da natureza humana, preferindo substituí-la por um arremedo grotesco de sabedoria infusa.

Em 10 de janeiro de 2011

No Limite Da Candura

10 de fevereiro de 2002 | Zero Hora

Espero que, antes de solidarizar-se com as efusões de revoltafingida da esquerda chique contra a ascensão da delinqüência, o leitor se lembre de que essa gente apregoou aos quatro ventos as virtudes revolucionárias do banditismo, ensinou técnicas de guerrilha e organização paramilitar aos detentos da Ilha Grande e por fim encabeçou o movimento internacional de solidariedade aos seqüestradores de Abílio Diniz, em 1989, dando a seus sucessores na carreira do crime a esperança, senão a certeza, do respaldo midiático e da impunidade.A candura sonsa, a incapacidade de enxergar a malícia alheia, tem limites: ultrapassado um certo ponto, torna-se cumplicidade ativa do otário com o vigarista, do sequestrado com o seqüestrador, da vítima com os advogados de seus agressores e assaltantes.

Se a opinião pública brasileira, malgrado os alertas que lhe chegam, ainda que parcos e escondidos nas entrelinhas de um noticiário fortemente policiado pelos gerentes da boa imagem esquerdista, se recusar por mais tempo a tomar consciência da índole essencialmente criminosa, golpista e manipuladora da política de esquerda neste país, mais cedo ou mais tarde terá de se submeter calada às exigências ditatoriais dessa política, que não serão diferentes aqui do que foram em Cuba ou no Camboja.

É verdade que à índole do brasileiro repugna ver na alma alheia qualquer dose de maldade superior àquela de que ele próprio se imagina capaz. Exposto diariamente à tentação vulgar de obter miúdas vantagens ilícitas aqui e ali, com a maior facilidade ele adivinhará intenções idênticas no coração do próximo. Mas a perfídia maior, o grande conluio da revolução continental da narcoguerrilha, é algo que ultrapassa a sua concepção do mal. Incapaz de conceber um criminoso maior que o juiz Lalau ou do que os delinqüentes avulsos que pululam no noticiário, ele tenderá, instintivamente, a rejeitar com horror a mera sugestão de que certas coisas possam estar acontecendo. De início, ele o fará com uma certa afetação de tranqüilidade superior, rindo do interlocutor e atirando-lhe na cara o estereótipo fácil da “teoria da conspiração”, do qual aliás só tomou conhecimento por um título de filme e cujo sentido desconhece por completo. Depois, aos poucos, sob o bombardeio dos fatos que se sucedem, ele sentirá vacilar a falsa segurança de sua certeza inicial e, diante de qualquer tentativa mínima de tirar desses fatos as conclusões que eles logicamente impõem, começará a reagir com quatro pedras na mão. Fará do interlocutor o emissário do mal, vingando-se das más notícias na pessoa do carteiro.

Mas nem mesmo um cego de nascença, vendado e preso num quarto escuro, pode se impedir de enxergar, com os olhos da inteligência, o sentido nítido e patente de certos fatos. Que há uma articulação política entre Hugo Chávez, Fidel Castro, as Farc e a esquerda brasileira, por exemplo, é algo que ninguém pode negar, pois essa parceria foi afirmada e reafirmada vezes sem conta pela própria esquerda, seja no Foro de São Paulo, discreta reencarnação do Comintern, seja, mais espetaculosamente, nos dois Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre. Mas a parceria vai além das declarações de intenção. Chávez, segundo se revelou num vídeo recentemente divulgado, é fornecedor de armas às Farc, enquanto estas, conforme o provaram os arquivos do “laptop” do delinqüente Fernandinho Beira-Mar, estão intimamente associadas à rede brasileira de tráfico, e Fidel Castro, por sua vez, é acusado por seu ex-assessor Ernesto Bettancourt de manter uma conta pessoal na Suíça para lavagem de dinheiro do comércio latino-americano de drogas. Os partidos esquerdistas legais, por seu lado, em vez de combater de frente a articulação revolucionária, como em Portugal o fez Mário Soares contra as tropas militantes de Álvaro Cunhal — e como seria de fato a única atitude digna de esquerdistas convertidos ao constitucionalismo democrático –, fazem o possível e o impossível para acobertar essa gigantesca manobra, para infundir no público a impressão de que ela não existe, para protegê-la enfim de todo risco de investigação e denúncia. Com isso, dão à revolução em marcha o tempo precioso que ela necessita para fortalecer-se à sombra, até estar pronta para dar sobre o continente o seu bote fatal. Fecha-se assim o círculo: é absolutamente inescapável a conclusão de que a liderança esquerdista deste país está de braços dados com a revolução continental armada, financiada pelo narcotráfico. Quem quer que se recuse a ver uma coisa tão óbvia, não estando ele próprio amarrado por algum compromisso com essa gente, é na melhor das hipóteses um ingênuo, um incurável ingênuo.

(PS O mesmo assunto, sob ângulo diverso e complementar, foi analisado no meu artigo de ontem, sábado, em “O Globo”, que se encontra hoje reproduzido na minha homepage, http://www.olavodecarvalho.org.

Em 10 de fevereiro de 2002

Falta De Respeito

10 de dezembro de 2010 | Diário do Comércio

Por que devemos consentir em continuar chamando de “Sua Excelência, o Senhor Ministro da Educação” um semi-analfabeto que não sabe sequer soletrar a palavra “cabeçalho”? Por que devemos continuar adornando com o título de “Sua Excelência, o Senhor Ministro da Defesa” um civil bocó que se fantasia de general sem nem saber que com isso comete ilegalidade? Por que devemos honrar sob a denominação de “Sua Excelência, o Senhor Ministro da Cultura” um pateta sem cultura nenhuma? Por que devemos curvar-nos ante a magnificência presidencial de um pervertido que se gaba de ter tentado estuprar um companheiro de cela e diz sentir nostalgia do tempo em que os meninos do Nordeste tinham – se é que tinham – relações sexuais com cabritas e jumentas?

Essas criaturas, é certo, têm o direito legal a formas de tratamento que as elevam acima do comum dos mortais, mas até quando nossos nervos suportarão o exercício supremamente antinatural e doentio de fingir respeito a pessoas que não merecem respeito nenhum, que só emporcalham com suas presenças grotescas os cargos que ocupam? Respeito, afinal de contas, é noção hierárquica: sem o senso da distinção entre o melhor e o pior, o alto e o baixo, o excelso e o vulgar, não há respeito possível. Nietzsche já observava:

Quem não sabe desprezar não sabe respeitar.

Se um sujeito que só merece desprezo aparece envergando um uniforme, ostentando um título, exibindo um crachá que o diz merecedor de respeito, estamos obviamente sofrendo uma agressão psicológica, um ataque de estimulação contraditória, ou dissonância cognitiva, que esfrangalha o cérebro mais vigoroso e reduz ao estado de cãezinhos de Pavlov as mentes mais lúcidas e equilibradas. Um povo submetido a esse regime perde todo senso de gradação valorativa, todo discernimento moral. Prolongado o tratamento para além de um certo ponto, a sociedade entra num estado de desmoralização completa, de apatia, de indiferentismo, onde só os mais cínicos e desavergonhados podem sobreviver e prosperar.

Mas não é só nas pessoas que o encarnam que o presente governo é uma usina de estimulações desmoralizantes. Impondo a sodomia como o mais sacrossanto e incriticável dos atos, as invasões de terras como modalidade superior de justiça fundiária, o abortismo como dever de caridade cristã, a distribuição de pornografia às crianças como alta obrigação pedagógica, Suas Excrescências estão fazendo o que podem para sufocar, na alma do povo brasileiro, toda capacidade de distinguir entre o bem e o mal e até a vontade de perceber essa distinção.

Nunca, na história de país nenhum, se viu uma degradação moral tão rápida, tão geral e avassaladora. Os crimes mais hediondos, as traições mais flagrantes, os escândalos mais intoleráveis são aceitos por toda parte não só com indiferença, mas com um risinho de cumplicidade cínica que, nesse ambiente, vale como prova de realismo e maturidade.

Em cima de tudo, posam as personalidades mais feias e disformes, ante as quais mesmo homens sem interesses obscuros em jogo se sentem obrigados a debulhar-se em louvores e rapapés.

Num panorama tão abjeto, destacam-se quase como um ato de heroísmo as manifestações de desrespeito ostensivo com que os estudantes da Universidade de Brasília saudaram, na inauguração do “beijódromo”, o presidente da República, seu ministro da Incultura e o reitor José Geraldo Souza Júnior.

Que é um “beijódromo”, afinal? Idéia suína concebida na década de 60 por Darci Ribeiro, um dos intelectuais mais festeiros e irresponsáveis que já nasceram neste país, então deslumbrado com a doutrina marcusiana da gandaia geral como arma da revolução comunista, o “beijódromo” é um estímulo à transformação da universidade em espaço lúdico-erótico onde um governo de vigaristas possa obter ganhos publicitários explorando calhordamente os instintos lúbricos da população estudantil, assim desviada dos deveres mais óbvios que tem para consigo mesma e para com o país. Meu caro amigo Reinaldo Azevedo assim resumiu o caso: “ Um estado totalitário reprime o tesão. Um estado demagogo o estatiza.

” Peço vênia para discordar. Excetuados os países islâmicos, só alguns regimes autoritários, de natureza transitória, ousaram impor a repressão sexual. A exploração estatal do erotismo é característica inconfundível dos regimes totalitários e revolucionários. Quem tenha dúvida fará bem em percorrer as 650 páginas do estudo magistral de E. Michael Jones, Libido Dominandi: Sexual Liberation and Political Control (St. Augustine’s Press, 2000). O “beijódromo” é a cristalização mais patente de um totalitarismo em gestação.

Os gritos e insultos com que Lula foi recebido por estudantes que querem algo mais que pão, circo e orgasmo, refletem um fundo de sanidade que ainda resta na alma popular: nem todos os cérebros, neste país, estão perfeitamente adestrados na arte de bajular o que não presta.

Demonstracao De Autoridade

10 de abril de 2008 | Diário do Comércio

Esta notícia passou quase despercebida, mas é uma das mais importantes dos últimos tempos: segundo o Daily Mail de 2 de abril, as autoridades britânicas, pressionadas pela comunidade muçulmana, retiraram os livros homossexuais do currículo de duas escolas da cidade de Bristol.

Até hoje, nenhum protesto cristão obteve resultado tão espetacular, seja em escolas da Europa ou dos EUA. Ao contrário, o ensino do homossexualismo expande-se formidavelmente até mesmo para crianças pequenas que não têm ainda sequer uma idéia clara do que são relações heterossexuais . Na mesma medida, aumenta a pressão do establishment contra as pregações religiosas, multiplicando-se por toda parte as ameaças. boicotes e punições voltados exclusivamente contra as organizações cristãs (v.

http://www.silencingchristians.com/ ), jamais contra as muçulmanas. À atenção especial que estas últimas recebem do governo britânico correspondem, nos EUA, inúmeros e crescentes sinais de uma política midiática e empresarial calculada para dar à comunidade islâmica um estatuto privilegiado. O Walmart, a maior rede de supermercados da América, que em nome da “não-discriminação” chegou a trocar os votos de “Feliz Natal” por “Boas Festas” e a proibir a presença dos músicos do Exército da Salvação até mesmo no pátio dos seus estabelecimentos, acaba de abrir uma loja especial para muçulmanos, com funcionários obrigados a falar árabe e a receber seus clientes com cumprimentos religiosos islâmicos. O significado da medida torna-se mais que nítido quando se sabe que muitos lojistas têm sido punidos pela justiça por insistir em usar somente o inglês nos seus estabelecimentos. Quando a classe empresarial, o governo e a justiça boicotam o uso do idioma nacional e impõem o de uma língua estrangeira, a guerra cultural já alcançou aquele ponto em que a defesa da cultura local se torna crime, e a promoção da cultura estrangeira uma obrigação legal.

Nos EUA, o desprezo da mídia aos sentimentos religiosos dos cristãos contrasta com suas manifestações de deferência quase psicótica ante as sucetibilidades islâmicas, ao ponto de que a simples menção ao sobrenome do meio do pré-candidato democrata Barack Hussein Obama é condenada como sinal de discriminação e “hate crime”.

No episódio de Bristol, a proteção governamental ao movimento gay , que jamais aceitaria recuar ante a indignação das comunidades cristãs, admitiu tranqüilamente fazê-lo por exigência de uma minoria numericamente insignificante, mas acobertada, como já destaquei aqui, pelas simpatias cúmplices de membros da própria Casa Real (v. a nota “Absurdo sensato” em Para compreender a revolução mundial ).

No caso, o reconhecimento oficial da autoridade religiosa como princípio demarcador dos limites últimos entre a decência e a indecência foi ostentivamente transferido das entidades cristãs e judaicas para as islâmicas, que se revelaram mais poderosas até do que as organizações gayzistas mais ruidosas e arrogantes. Após expulsar do espaço público a autoridade religiosa tradicional, a cultura do “humanismo secularista” se mostra impotente e servil ante as pretensões de uma nova autoridade, mais prepotente, vinda de fora. O secularismo não entrou na História para fundar uma nova civilização, mas para servir de tampão provisório entre duas civilizações religiosas.

Em 10 de abril de 2008

A Mae Dos Trambiqueiros

1 de setembro de 2005 | Jornal do Brasil

Caindo Sem Parar

1 de fevereiro de 2010 | Diário do Comércio

Em editorial do dia 25 último, a Folha de S. Paulo faz as mais prodigiosas acrobacias estatísticas para induzir o leitor a acreditar que a queda do Brasil do 76° para o 88° lugar em educação básica, na escala da Unesco, representa na verdade um progresso formidável. Não vou nem entrar na discussão. Entre a Unesco, o Ministério da Educação e o jornal do sr. Frias, não sei em quem confio menos. Mas confio nos testes internacionais em que os nossos alunos do curso médio tiram invariavelmente os últimos lugares entre concorrentes de três dezenas de países. Numa dessas ocasiões o então ministro da Educação buscou até consolar-se mediante a alegação sublime de que “poderia ter sido pior”. Claro: se ele próprio fizesse o teste, a banca teria de criar ad hoc um lugar abaixo do último. Seríamos hors concours no sentido descendente do termo.

Confio também na proporção matemática entre o número de profissionais da ciência em cada país e o de seus trabalhos científicos citados em outros trabalhos, tal como aparece no banco de dados da Scimago (v. o site do prof. Marcelo Hermes, http://cienciabrasil.blogspot.com/2010/01/citacoes-por-paper-numero-minimo-de.html ). Aí vê-se que, em número de citações — medida da sua importância para a ciência mundial –, os cientistas brasileiros vêm caindo de posto com a mesma velocidade com que, forçada pelo CNPq e pela Capes, aumenta de ano para ano a sua produção de trabalhos escritos. Ou seja: quanto mais escrevem, menos utilidade o que escrevem tem para o progresso da ciência. Em medicina, passamos do 24° lugar, em 1997, para o 36° em 2008. Em bioquímica e genética, no mesmo período, do 19° para o 36°. Em biologia e agricultura, do 18° para o 32°. Em química, do 15° para o 28°. Em física e astronomia, do 18° para o 29°. Em matemática, do 13° para o 28°. Não houve um só setor em que os nossos cientistas não escrevessem cada vez mais coisas com cada vez menos conteúdo aproveitável para os outros cientistas. Em doses crescentes, o que se entende por ciência no Brasil vai-se tornando puro fingimento burocrático, pago com dinheiro público em doses também crescentes. Segundo o prof. Hermes, a coisa começou em 2003, mas piorou muito (ele grafa “muito” com letras maiúsculas) entre 2005 e 2008.

No entanto, de 1999 a 2009 “houve um aumento de 133 por cento no número de artigos científicos publicados em revistas especializadas. O investimento do ministério da Ciência e Tecnologia neste setor duplicou de 2000 a 2007. O investimento privado também aumentou nesse período” (v.

http://labjor09.blogspot.com/2009/03/desafios-serem-enfrentados-neste-novo.html ).

Obviamente, portanto, o que está faltando não é dinheiro. É o CNPq, a Capes e o governo em geral admitirem que há uma diferença substantiva entre fazer ciência e mostrar serviço para impressionar o eleitorado.

Se essa diferença parece obscura ou inexistente para os atuais senhores das verbas científicas no Brasil (bem como para a mídia que os bajula), fenômeno similar ocorre na educação primária e média, onde o governo dá cada vez menos educação a um número cada vez maior de alunos, democratizando a ignorância como jamais se viu neste mundo.

Mas, esperem aí, coisa parecida também não acontece no ramo editorial, onde a produção crescente de livros para o público de nível universitário acompanha pari passu o decréscimo de QI dos autores que os escrevem? Confio, quanto a esse ponto, na minha própria memória de leitor. Vejam bem. Entre as décadas de 50 e 70 ainda tínhamos, vivos e em plena efusão criativa, alguns dos mais notáveis escritores e pensadores do mundo. Tínhamos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Herberto Sales, Josué Montello, Antonio Olinto, João Guimarães Rosa, Jorge Andrade, Nélson Rodrigues, Vicente Ferreira da Silva, Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, José Honório Rodrigues, Gilberto Freyre, José Guilherme Merquior, além dos importados Otto Maria Carpeaux, Vilém Flusser, Anatol Rosenfeld e tutti quanti . Que me perdoem as omissões, muitas e volumosas. O Brasil era um país luminoso, capaz, consciente de si, empenhado em compreender-se e compreender o mundo. Agora temos o quê? Fora os sobreviventes nonagenários e centenários, dos quais não se pode exigir que repitam as glórias do passado, é tudo uma miséria só, uma fraqueza, a obscuridade turva do pensamento, a paralisia covarde da imaginação e a impotência da linguagem. “Cultura”, hoje, é rap , funk e camisinhas, “educação” é treinar as crianças para shows de drag queens ou — caso faltem aos pimpolhos as requeridas aptidões gays — para a invasão de fazendas, “pensamento” é xingar os EUA no Fórum Social Mundial, e “debate nacional” é a mídia competindo com a máquina estatal de propaganda para ver quem pinta a imagem mais linda do sr. presidente da República. Nesse ambiente, em que poderia consistir a “ciência” senão em imprimir cada vez mais irrelevâncias subsidiadas?

Será possível que todas essas quedas, paralelas no tempo e iguais em velocidade, tenham sido fenômenos autônomos, separados, casuais, sem conexão uns com os outros? Ou, ao contrário, compõem solidariamente, como efeitos de um mesmo processo causal geral, o quadro unitário da autodestruição da inteligência nacional?

E será mera coincidência que toda essa corrupção mental sem paralelo no mundo tenha sobrevindo ao Brasil justamente nas décadas em que a intromissão do governo na educação e na cultura veio crescendo até ao ponto de poder, hoje, assumir abertamente suas intenções dirigistas e controladoras sem que isto cause escândalo e revolta proporcionais ao tamanho do mal?

A resposta a essas duas perguntas é: Não, obviamente não. A História não se compõe de curiosas coincidências. A debacle da vida intelectual no Brasil é um processo geral, unitário, coerente e contínuo há várias décadas, e o fator que unifica as suas manifestações nos diversos campos chama-se: intromissão estatal, governo invasivo, controle oficial e transformação da cultura e da educação em instrumentos de propaganda, manipulação e corrupção.

A cultura, a arte, a educação e a ciência no Brasil só se levantarão do seu presente estado de abjeção quando a máquina governamental que as domina for totalmente destruída, quando toda presunção de autoridade dos políticos nessas áreas for abertamente condenada como um tipo de estelionato.

Bobinha

1 de dezembro de 2013 | Diário do Comércio

Na Carta Maior desta semana, uma professora de ciências políticas da Universidade Federal de Pelotas, Luciana Ballestrin, adverte que enxergar alguma hegemonia comunista nas instituições superiores de ensino é “paranóia” e insinua que, ao contrário, o verdadeiro perigo que se esboça no horizonte nacional é o do fascismo.

A prova que ela oferece desse deslumbrante diagnóstico é que três pessoas reclamaram contra o comunismo universitário. Firmemente disposta a dizer qualquer coisa contra essas três minguadas vozes, ela as acusa, ao mesmo tempo, de provir de “um gueto” e de obter “grande repercussão na mídia”.

É notório que, entre os estudantes universitários brasileiros, quatro em cada dez são analfabetos funcionais. Temo que entre os professores da área de humanas essa proporção seja de nove para dez. A profa. Ballestrin é mais um exemplo para a minha coleção. Ela fracassa tão miseravelmente em compreender o significado das palavras que emprega, que no seu caso o adjetivo “funcional” é quase um eufemismo.

Desde logo, se os direitistas vivem num “gueto”, quem os colocou lá? Enclausuraram-se por vontade própria ou foram expelidos da mídia, das cátedras e de todos os ambientes de cultura superior pela política avassaladora de “ocupação de espaços” que a esquerda aí pratica desde há mais de meio século? Um gueto, por definição, não é um hotel onde a minoria se hospede voluntariamente para desfrutar os prazeres de uma vida sombria, fechada e opressiva, sem perspectivas de participação na sociedade maior. É uma criação da maioria dominante, um instrumento de exclusão usado para neutralizar ou eliminar as presenças inconvenientes. A maior prova de que o esquerdismo domina o espaço é que a direita vive num gueto. Ao acusá-la precisamente disso, essa porta-voz do esquerdismo oficial só dá testemunho contra si própria.

Com igual destreza ela maneja a segunda acusação: a de que as três vozes obtiveram “grande repercussão na mídia”. Que grande repercussão? Alguma delas foi manchete de um jornal, foi alardeada no horário nobre da Globo, deu ocasião a uma série infindável de reportagens, congressos de intelectuais e debates no Parlamento como acontece com qualquer denúncia de “crimes da ditadura” ocorridos cinqüenta anos atrás? Nada disso. Foram apenas noticiadas aqui e ali, discretamente, num tom de desprezo e chacota. Mas, para a profa. Ballestrin, mesmo isso já é excessivo. Ela nem percebe que, ao protestar que três direitistas saíram do gueto, ela os está mandando de volta para lá.

Mas onde ela capricha ao máximo em não entender nada é ao enxergar uma “paranóia” em três denúncias isoladas, só notáveis pela raridade, e nenhuma nos gritos de alarma contra a “ameaça fascista” que pululam aos milhares, com estridência obscena, em publicações e salas de aula por todo o país. Na própria Carta Maior o toque de alerta antifascista ressoa diariamente. Qualquer observador isento nota a desproporção entre a iminência objetiva desses dois perigos e a intensidade do temor real ou fingido que despertam. Apontar o avanço comunista é apenas registrar as vitórias que centenas de organizações comunistas alardeiam e celebram nas assembléias do Foro de São Paulo (prontas, decerto, a negá-las em público quando lhes convém). Mas e o fascismo? Onde estão as organizações que o representam, os partidos que buscam elevá-lo ao poder, as verbas bilionárias que o sustentam, a militância adestrada para impô-lo a um povo inerme, os milhares de livros que infectam com o vírus fascista as prateleiras das livrarias e as bibliotecas das universidades? Nada disso existe. Nada, absolutamente nada. Tanto não existe, que, para fingir que existe, é preciso até mesmo chamar de fascistas as massas de agitadores comunistas pagos pelo governo para espalhar o terror nas ruas e forçar a transição para o socialismo explícito e descarado.

A inversão das proporções é, decerto, um dos traços mais típicos e constantes da mentalidade revolucionária, mas nem todos a ostentam com a cândida desenvoltura dessa mulherzinha boba.

Saber qual orientação ideológica predomina em determinado ambiente social não deveria ser muito difícil para uma “cientista política”, especialmente quando esse ambiente é o dela própria – o seu departamento universitário. Ela poderia perguntar, por exemplo, quantos de seus colegas votam na esquerda, quantos na direita. Ou poderia, com um pouco mais de esforço, averiguar a linha ideológica majoritária dos autores cuja leitura eles recomendam a seus alunos. Poderia até, se quisesse, fazer inspeção semelhante em outros departamentos de ciências humanas pelo Brasil a fora, para verificar se as várias correntes de pensamento estão aí representadas equitativamente ou se uma delas predomina até o ponto do monopolismo absoluto.

Tudo isso, no entanto, para a profa. Ballestrin, é esforço excessivo, cruel e desumano. Tudo o que se pode exigir dela é que raciocine pelo método histérico da auto-impregnação auditiva. Eis como funciona. Nos seus anos de estudante, você faz um esforço danado para macaquear o discurso dos seus professores. Ouve, presta atenção e imita cada de linguagem, cada cacoete, cada chavão. Quando por fim consegue falar como eles, você ouve o que você próprio diz e, orgulhoso de tamanha realização, acredita que é tudo verdade. Então está maduro para lecionar e para escrever artigos na Carta Maior .

Em 1 de dezembro de 2013

A Gloria Definitiva Da Inepcia

08 de novembro de 2007 | Jornal do Brasil

O benefício essencial da educação universitária, segundo a fórmula consagrada que nominalmente a define, é fornecer ao estudante um ambiente highbrow onde ele possa ter uma experiência condensada do conjunto sistêmico dos conhecimentos disponíveis, de modo a que o desenvolvimento da sua mente individual se amolde à “forma” geral da cultura superior existente.

Ora, esse benefício é precisamente o que não se pode receber de nenhuma universidade brasileira. As lacunas de conhecimento evidenciadas na obra dos mais afamados profissionais acadêmicos neste país, ao menos nas áreas de filosofia e ciências humanas, são tão imensas, tão graves e tão imperdoáveis, que o conteúdo restante tem a figura exata das produções autodidáticas mais descabidas, provincianas e distanciadas das correntes vivas do pensamento universal.

A prova do que estou dizendo foi dada uns anos atrás pelo “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita”, que, por ser obra de cento e tantos dentre os mais badalados professores universitários brasileiros, ricamente subsidiada pelo governo e por grandes empresas, refletia muito bem aquilo que no Brasil se aceita como autoridade intelectual e prestígio acadêmico. O que nessa obra se via era a ignorância radical de um assunto por parte daquelas mesmas criaturas que eram reconhecidas pelo Estado e pelas classes falantes como capacitadas maximamente a ensiná-lo (v.

Tudo o que você queria saber sobre a direita – e vai continuar não sabendo ). O fato de que o principal apologista da coisa, em vez de penitenciar-se da cumplicidade com o vexaminoso embuste, se arvore ele próprio em arquiteto e coordenador de uma portentosa summa coletiva, desta vez consagrada à política latino-americana mas tão carregada de inépcias quanto o supracitado cartapácio, já seria por si indício grave de que está extinta ou em vias de extinção entre nós a consciência do que possam ser os deveres, mesmo mínimos, da probidade acadêmica. Mas que o fruto dessa impudência, em vez de ser examinado com a severidade que a lembrança do episódio anterior recomenda, seja afoitamente laureado com o prêmio maior da indústria livreira nacional, torna claro que a leviandade e a torpeza se transmutaram, de puras carências que eram, em deveres positivos e em provas de mérito socialmente reconhecidas. Se, reduzido a uma paródia grotesca em virtude dessa celebração da estupidez, o mesmo prêmio é oferecido postumamente a Bruno Tolentino, eis algo que não posso considerar senão uma ofensa à memória daquele que foi não somente o maior dos nossos poetas, mas também um autêntico scholar — algo que entre os donos da opinião pública já ninguém mais parece saber o que seja.

È inevitável, aliás, que estas minhas observações venham a ser diagnosticadas por aí como meras efusões de “divergência política”, senão de um fanático “extremismo de direita”. A facilidade mesma com que simples cobranças de seriedade no exercício da função intelectual sejam rotineiramente desconsideradas em nome de pretextos ideológicos é o sinal mais patente de que a carteirinha de identidade partidária se tornou, neste país, o critério único para a admissão nos altos postos da educação e da cultura, pouco importando que seu portador escreva “Getúlio” com LH.

N. B. – Creio ter errado ao informar, no artigo anterior, que Tim Berners-Lee é católico. Leitores, aos quais agradeço a informação, asseguram-me que é unitarista.

Em 8 de novembro de 2007

De Platao A Mangabeira

04 de outubro de 2007 | Jornal do Brasil

Depois que os brasileiros tiraram o último lugar entre estudantes secundários de 32 nacionalidades, os progressos da ignorância pátria não cessaram de assombrar o mundo. O “Índice Global de Talentos” da consultorias Economist Intelligence Unit e Heidrick & Struggles mostra que o Brasil é um dos países com menor capacidade de criar ou atrair mentes brilhantes. Num total de trinta concorrentes, estamos em 23o lugar.

Não me venham com as explicações econômicas de sempre. “Nêfte paíf”, recordista mundial de professores universitários per capita (um para cada oito alunos), a classe dos intelectuais subsidiados prospera dia-a-dia desde que a USP chegou ao poder com Fernando Henrique e nunca mais saiu de cima de nós. Os dois fatores estão interligados. À progressiva míngua de talentos corresponde o vigoroso crescimento da máfia intelectual ativista. “Ativista” não quer dizer mentalmente ativo, mas “politicamente participante”, isto é, o sujeito que tem a generosidade de ocupar quantos cargos públicos lhe ofereçam, de embolsar todas as verbas estatais disponíveis e de assinar todos os manifestos que se publiquem em favor de pessoas envolvidas solidariamente nas duas tarefas anteriores.

Desde o tempo de O Imbecil Coletivo , já documentei tão amplamente a inépcia grotesca das figuras mais badaladas da intelectualidade nacional, que oferecer novas provas seria redundância. Mas não resisto a apontar o exemplo do prof. Roberto Mangabeira Unger, que de certo modo condensa na sua desengonçada pessoa todo esse fenômeno sociológico.

Outro dia, rememorando Platão, escrevi que filósofo é o indivíduo que tenta encontrar um princípio de ordem na sua própria alma e então – só então – diagnosticar ou mesmo tentar curar a desordem do mundo. Com essa idéia na cabeça, tomei um susto quando li a declaração do supracitado Mangabeira: “Para ajudar a transformar o Brasil, em primeiro lugar tenho que transformar a mim mesmo.”

Será que o Mangabeira virou filósofo após tê-lo parecido tão bem?, perguntei. Na continuação, porém, o iluminado esclarecia o sentido da transformação interior a que almejava: “Sou um homem sem charme num país de charmosos. Isso é uma séria complicação. Eu preciso aprender a ter charme.”

Platão, logo após seu fracasso político juvenil, descobriu que não estaria apto a orientar governantes enquanto não encontrasse dentro de si a raiz que o ligava ao fundamento último da existência. Tal foi a meta a que dirigiu seus esforços de uma vida inteira. O guru presidencial, em contraste, sente que para o desempenho de suas altas responsabilidades não lhe falta senão o que pode haver de mais exterior e efêmero. Sem querer, ele enuncia aí o princípio supremo da pedagogia filosófica nacional, que Machado de Assis já havia resumido na “Teoria do Medalhão”: o ser é nada, o parecer é tudo. Tal é a distância que separa Atenas de Brasília.

Guiada por tipos que não são nem mesmo o Mangabeira Unger mas aspiram a sê-lo quando crescerem, a inteligência brasileira entrou em parafuso, veio ao solo e, rompendo-lhe a superfície, mergulhou na treva infernal da estupidez auto-satisfeita. Desde então nossas universidades, sustentadas pelo dinheiro público, despejam anualmente no mercado milhões de imbecis qualificados para a devoção ao Che, o consumo de drogas e o culto emocionado da sua própria superioridade moral, medida pela raiva assassina que sentem do restante da espécie humana. Nessas condições, a educação nacional, hoje em dia, só se distingue do crime organizado porque o crime é organizado.

Em 4 de outubro de 2007

Hegemonia

02 de julho de 2008 | Diário do Comércio

Desde a década de 30, o Partido Comunista foi-se tornando cada vez mais a influência cultural dominante no Brasil, não por sua superioridade intelectual, é certo, mas por sua capacidade de arregimentar escritores, artistas, jornalistas e professores numa elite militante bem organizada, consciente da sua missão de transformar toda a vida do espírito em arma de guerra revolucionária.

A astuta manipulação de cargos e prestígios, a ocupação de espaços, o boicote feroz aos adversários logo reduzidos a servos dóceis da polítca comunista por meio da intimidação e da chantagem – tais foram os instrumentos com que o Partido acabou por emascular uma intelectualidade conservadora na qual avultavam tipos do porte de um Manuel Bandeira, de um Gilberto Freyre, de um Nelson Rodrigues, de um João Camilo de Oliveira Torres, de um Lúcio Cardoso, de um Gustavo Corção, de um Antônio Olinto, de um Paulo Mercadante, de um Otto Maria Carpeaux e tantos outros, com os quais a esquerda jamais poderia concorrer no campo do livre debate.

Eleitoralmente, o Partido jamais foi grande coisa, mas sua influência tornou-se desproporcionalmente maior que seu minguado número de eleitores, ao ponto de impor à nação um presidente pró-comunista e consolidar o seu poder mediante um plebiscito em que a linguagem da lei e da ordem foi habilmente posta a serviço da subversão e da desordem.

Longe de debilitar essa influência, o novo regime advindo em 1964 acabou por fortalecê-la, na medida em que, concentrando seus esforços no combate à subversão armada e esquivando-se preguiçosamente ao dever da luta cultural, permitiu que a esquerda se revigorasse mediante o debate interno, a autocrítica e a reorganização estratégica segundo as linhas preconizadas por Antonio Gramsci, cujas obras, não por coincidência, chegaram ao alcance da militância intelectual esquerdista local precisamente a partir de 1965. Nessa data começou também a circular a mais importante publicação cultural esquerdista, a “Revista Civilização Brasileira” de Ênio Silveira, que marcou um upgrade intelectual da esquerda e provou sua capacidade de reagir criativamente, agressivamente, a uma derrota política que hoje sabemos ter sido apenas superficial e provisória.

Em meados da década de 1970, a hegemonia cultural da esquerda já era, mais que um fato consumado, um direito adquirido. Sem isso, a total falsificação da história do período, hoje consagrada como verdade incontestável em todo o sistema de ensino e em toda a grande mídia sem exceção, jamais teria sido possível – e, sem ela, a escalada triunfal da esquerda rumo ao poder absoluto jamais teria acontecido.

Ao longo de todo esse trajeto, só duas tentativas de resistência liberal-conservadora organizada se esboçaram, ambas tímidas e débeis.

A primeira veio da Igreja, entre os anos 40 e 60, mas foi logo diluída pela infiltração que veio a fazer da intelectualidade católica o mais eficiente instrumento de camuflagem e legitimação do esforço subversivo. A conversão de Alceu Amoroso Lima e de Dom Hélder Câmara ao esquerdismo, a devassidão ideológica fomentada pelo Concílio Vaticano II e a tomada dos seminários por uma hoste de endemoninhados “teólogos da libertação” resultaram na fundação do PT mediante a tripla união adúltera dos bispos com a intelectualidade comunista e com a militância sindical de esquerda, tudo sob as bênçãos da elite globalista bilionária e da mídia chique internacional.

A segunda foi a fundação do Instituto Liberal no Rio de Janeiro em 1983 e do Instituto de Estudos Empresariais no Rio Grande do Sul no ano seguinte, daí resultando o Fórum da Liberdade, que desde 1988 leva anualmente a Porto Alegre os melhores palestrantes liberais e conservadores do mundo. Essa iniciativa meritória, porém, ademais de ser sistematicamente boicotada pela mídia nacional inteira, ainda padece de duas autolimitações congênitas:

(1) Cinge-se ao debate doutrinal, sem nenhuma perspectiva de ação política e muito menos de uma ofensiva antigramsciana organizada na esfera cultural.

(2) Tende a concentrar-se nos temas econômicos, ignorando as questões essenciais da guerra cultural e da estratégia revolucionária e combatendo antes o estatismo enquanto idéia geral do que a esquerda enquanto força política concreta.

Em 2 de julho de 2008

A Hora Dos Ruminantes As Falacias Da Neopedagogia

(Goiânia), 21 de outubro de 2001 | silvajm@uol.com.br

Ao contrário do que crêem os neopedagogos e eventos como o Pensar XXI, a função da escola não é andar na vanguarda da sociedade, mas na sua retaguarda — quem quiser educar para o futuro deve voltar-se definitivamente para o passado.

“Tudo se torna visualizado. Mas, neste caso, o que vai acontecer com as coisas que não são visíveis, que constituem de fato a maior parte da realidade?”

Giovanni Sartori, Homo Videns (Edusc, 2001) Em meados da década de 80, o filólogo Antônio Houaiss, idealizador do festejado Dicionário Houaiss e tradutor do Ulisses de James Joyce, liderou uma proposta de reformulação ortográfica do português. Ele queria internacionalizar — por decreto — a língua portuguesa e, para tanto, propunha a retirada de todos seus acentos, espelhando-se no antigo domínio do latim e na presente hegemonia do inglês, línguas em que a sintaxe é quem determina a fonética. Um dos argumentos basilares da proposta de Houaiss era o fato de que os computadores não admitiam acentos e, caso teimasse em permanecer com os seus, a língua portuguesa seria expurgada da história, condenando-se a ser um dialeto na periferia da civilização. Na época, os Fernandos Collor e Henrique ainda não tinham iniciado a abertura de mercado e o Brasil só conhecia computador pessoal por ouvir dizer — o que sabia deles é que tinham como língua-mãe o inglês e não admitiam agudos, circunflexos ou qualquer outro sinal lingüístico que não fossem vogais e consoantes.

Em qualquer país com um pouco mais de respeito pela própria história, um ancião como Houaiss (na época com mais de 70 anos) seria o primeiro a insurgir-se contra o computador, escrevendo libelos em defesa do vernáculo e distribuindo bengaladas em quem ousasse contestá-lo. Entretanto, como é comum no Brasil, Houaiss preferiu fazer o decrépito papel do velho moderno — aquele que não cobra a reverência que a juventude lhe deve e se curva na mesura ao novo para fingir-se atual. O resultado é que o socialista Houaiss impediu a verdadeira dialética social, aquela que se faz da síntese entre a rebeldia imberbe e a reprimenda experiente. Mas Houaiss não estava sozinho em seu erro. Cortejar a juventude é a doença das pessoas de mais idade no Brasil. Aqui, o Maio de 68 tornou-se uma espécie de segunda alma de toda gente. E a escola, que deveria contrapor-se a essa barbárie (porque juventude nunca significou outra coisa em qualquer tempo), é a primeira a estimulá-la, como se vê nos livros didáticos, nas diretrizes do MEC e em eventos como o Pensar XXI, feira realizada anualmente pelo jornal O Popular e que encerrou sua segunda edição na semana passada.

Em todos esses escritos e encontros impera a monomania de que a educação do século XXI deve sujeitar alunos e professores à égide do “aprender a aprender”. Ora, os pedagogos que repetem essa falácia, fingindo-se humildes, revelam, ao enunciá-la, um delírio maior que o do professor Rubião, o novo rico de Machado, em seus espasmos napoleônicos. O que faz o ser humano, a partir mesmo de quando nasce, senão aprender a aprender? Toda a civilização se deve a essa capacidade inata do homem de não apenas aprender o dado, mas de reconstruir o aprendido. E uma escola que se arvora a ensiná-lo a fazer isso, como se ele já não o soubesse, não é mais escola de homens e, sim, oficina de deuses. Uma criança de cinco a sete anos só não “aprendeu a aprender” se porventura tiver um déficit cognitivo irremediável, o que a colocaria na escala dos alunos especiais. E, obviamente, o homem é capaz de transformar a natureza, mas dentro dos limites que ela própria estabelece. Na verdade, uma certa pedagogia edificada na ignorância é que ainda não aprendeu que o homem pode até ter criado Deus, mas é incapaz de substituí-lo.

Escola Escravizada — A primeira conseqüência nefasta dessa falaciosa “educação do século XXI” é a escravização da escola às novas tecnologias, especialmente a televisão. (O próprio culto ao computador não passa de um corolário dessa deificação da tevê.) É, sem dúvida, desejável que a educação se aproprie de todos os meios tecnológicos criados pelo homem. Se até as religiões, que tendem a ser apegadas à tradição, não relutam em incorporar os meios tecnológicos em seus cultos, por que a educação seria refratária a eles? Na medida do possível, a escola tem que ir propiciando aos alunos o conhecimento das novas tecnologias da informação e comunicação. Entretanto, assim como os atributos divinos que a Igreja Católica reconhece em Deus não podem mudar apenas porque o padre Marcelo Rossi transformou as missas em concertos de rock, também os valores intrinsecamente educacionais não podem ser modificados para se adaptarem à tecnologia. Da mesma forma que Houaiss deveria ter lutado para que os computadores se adequassem ao português (como de fato ocorreu), também a escola deve lutar para que a tecnologia se adapte a ela — e a respeite.

A função da escola não é andar na vanguarda da sociedade, mas na sua retaguarda. Quem quiser educar para o futuro deve voltar-se — definitivamente — para o passado. Se até o gato escaldado da água quente pauta-se numa memória instintiva para ter medo da fria, como se pode querer que o homem abdique da experiência (para inspirar-se) e dos fatos (para corrigir-se)? Todavia, é o que pretendem as pedagogias contemporâneas. Elas repudiam a razão e a memória para instaurarem em seu lugar a falsa experiência dos sentidos. Daí uma outra falácia muito em moda — a de que educação é pesquisa. Trata-se de um modismo, cujos efeitos já não se limitam ao ensino superior e se estendem à base da educação. Não se pode confundir instituto de pesquisa com escola primária. Há muito de falácia na idéia de se “educar pela pesquisa”, tão propalada entre educadores a partir do livro homônimo de Pedro Demo e à revelia das nobres intenções de seu autor, que não renega o conhecimento historicamente acumulado em nome de se experimentar por experimentar.

A função primordial da escola — já enfatizavam os essencialistas dos anos 30, como Mortimer Smith — é uma preparação para a vida, não uma imitação canhestra dela. Se a escola não educar o aluno para a disciplina mental (que exige trabalho árduo e não recreação), que outra instância social irá fazê-lo em lugar dela? E a disciplina mental, obviamente, não nasceu com a tecnologia desse século. Ela remonta à filosofia clássica, datada de mais de 2 mil anos. Esfalfar-se atrás de toda nova tecnologia que surge no mercado é olvidar esse passado do qual a escola deve ser herdeira e transmissora. E aqui se recupera outro conceito estigmatizado — o da herança genética e social. Boa parte da constituição biopsicológica do ser humano, a começar de seus genes, é transmitida à revelia do indivíduo; portanto, o professor não pode querer construir tudo junto com o aluno, a partir do nada, recusando-se a ser também um transmissor de conhecimento. Isso é acreditar-se habitante de um mundo que não existe.

Soma de Ignorâncias — A escola contemporânea não se interessa pelo passado da humanidade. Quando finge interessar-se por ele é apenas para subjugá-lo aos interesses imediatos do aluno. O jovem tornou-se medida de todas as coisas, inclusive na escola, onde a pedagogia contemporânea, inspirada em Vygotsky, acredita que o conhecimento emana do coletivo, como se a soma de ignorâncias pudesse dar em conhecimento e não em mais ignorância. É verdade que a escola é para a criança um outro que lhe causa estranhamento e sua inserção nela raramente se dá pelo conhecimento em si, mas pela convivência com os demais alunos. Obviamente essa convivência é desejável, mas a função principal da escola não é fortalecer o espírito gregário do aluno (muitas outras instâncias sociais já fazem isso) e, sim, inseri-lo no mundo do conhecimento historicamente construído (exclusividade da educação formal). Para isso só há um caminho — o da razão, que continua sendo interior ao ser humano, por mais que queiram socializá-la. Pensar verdadeiramente exige uma solidão interior que a algaravia construtivista e pós-construtivista dos neopedagogos vem destruindo sistematicamente.

Transformar o conhecimento historicamente construído num autoconhecimento existencialmente transformador é a função de toda educação que se proponha autêntica — não a partir do decantado Piaget, mas desde o esquecido Sócrates. Caberia à escola fazer com que o aluno se sentisse em casa entre os luminares da ciência, das artes, da cultura, mas isso raramente ocorre, vez que o conhecimento apresentado pelo ensino formal é quase sempre dissociado da realidade autêntica (aquela que transcende espaços e tempos). Além disso, é um saber excessivamente enciclopédico e fragmenta-se em disciplinas estanques, o que o torna árido e aparentemente inútil para a vida.

Para contrapor-se a isso, construtivistas e afins referendam a tese de que a criança é sujeito de seu próprio conhecimento. Dessa premissa correta, retiram uma conclusão torta — a de que essa criança-sujeito, exatamente por ser sujeito, pode ser construída de fora pela neopedagogia. Infelizmente, quase toda a literatura pedagógica que se lê hoje em dia parte dessa presunção. Ora, ninguém pode ser sujeito e crítico a partir de fora, mediante a ação de pedagogos — só se é sujeito e crítico a partir de dentro. Portanto, como é que uma pedagogia qualquer pode arvorar-se a prever a produção de um aluno crítico e sujeito do conhecimento a não ser arrogando-se um direito divino de ler o interior do aluno sob as graças de algum deus Piaget? Há algo de fanatismo religioso no modismo construtivista que impera na quase totalidade das obras da pedagogia contemporânea.

Como essa lógica é um arrematado contra-senso, o que os construtivistas têm conseguido é exatamente o contrário — estão destruindo a escola e a criança. À força de centrar o conhecimento no aluno, a escola tem feito dele o umbigo da humanidade, reduzindo a educação aos seus instintos. Se, para o aluno, Galileu é chato, dane-se Galileu. O aluno já não se sente obrigado a fazer nenhum esforço para aprender nada e espera que o professor reduza todo o conhecimento da humanidade aos limites do seu prazer imediato, o que transforma muito professor em artista circense e a escola em Escolinha do Professor Raimundo. Muitas iniciativas pedagógicas premiadas nacionalmente e enaltecidas por revistas especializadas como a Nova Escola não passam de macaqueação com rótulo de educação. Exemplos não faltam: alunos que reduzem a história do Brasil a paupérrimas letras de rap; professores que vêem no filme Carlota Joaquina , de Carla Camuratti, um tratado de história; escolas que fazem de Lampião e Maria Bonita um melodrama da Globo em salas de 6a série.

Profecia Determinista — A mensuração da história pelo presente, travestida de modernidade pedagógica, não passa de um perigoso anacronismo, que reduz o ser humano ao imediatismo das circunstâncias, como se o presente fosse, ao mesmo tempo, a razão de ser do passado e a profecia determinista do futuro. No caso do ensino de literatura, esse culto ao presente tem levado a uma indisfarçável assunção do modernismo ao cume das artes e da civilização. Como o poeta Alexei Bueno disse certa vez, é como se Homero tivesse existido apenas para justificar Mário de Andrade. Entretanto, há 128 anos, Machado de Assis (então um jovem com apenas 24 anos) já ensinava no artigo “O Instinto da Nacionalidade”: “Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum”. Seis anos depois, no artigo “A Nova Geração”, ele insistia: “Aborrecer o passado ou idolatrá-lo vem a dar no mesmo vício; o vício de uns que não descobrem a filiação dos tempos e datam de si mesmos a aurora humana, e de outros que imaginam que o espírito do homem deixou as asas no caminho e entra a pé num charco”.

É verdade que o ensino de literatura brasileira nas escolas sempre pecou pela excessiva periodização em escolas literárias, reduzidas a catálogo de autores associados a características estanques, num paroxismo positivista. Ao optar pela valorização do presente, sob a égide construtivista, o ensino de literatura passou a centrar-se no texto, o que, em tese, parece o ideal. Entretanto, acabou incorrendo em outro paroxismo: o metalingüismo, no aspecto formal, e a telenovelização, no aspecto dos conteúdos. Ao tornar secundário o diálogo da literatura com outros ramos do conhecimento, desprezando até mesmo a erudição de autores universais, a escola trata todo aluno do ensino médio como futuro professor de letras. Em todo o Brasil, e também em Goiás, os livros adotados nos vestibulares locais geram uma indústria paralela dos comentários e resumos, que ora transformam um simples romance de entretenimento numa exegese bíblica, tornando sua fruição enfadonha, ora, sintetizam o enredo de uma obra-prima universal numa mera triangulação amorosa, como ocorre freqüentemente com o Dom Casmurro , de Machado de Assis, vítima fácil desses dois extremismos.

E por que ao abordar um livro literário a escola não consegue o equilíbrio entre a análise crítica, mas não exegética, textual, mas não formalista, como convém a um aluno de segundo grau? Porque, para isso, ela precisaria dialogar, ao mesmo tempo, com o texto em questão, o mundo do autor e o mundo em geral, o que pressupõe a erudição dos grandes críticos, como um Otto-Maria Carpeaux. Só que a erudição, além de não ser moeda corrente nas escolas, tornou-se anátema entre os educadores — é vista como pedantismo, auréola abjeta dos positivistas. E os que a condenam são incapazes de perceber que a erudição é o desejável diálogo universal da humanidade consigo mesma contrapondo-se ao solilóquio redutor das especializações, este, sim, pedante, porque tenta reduzir o mundo ao seu próprio nicho cognitivo.

Ensino Empanturrado — Resgatar o papel da erudição na escola é uma tarefa que compete, sobretudo, à disciplina de literatura — se os neopedagogos deixassem. A literatura é ferramenta, por excelência, da interdisciplinaridade. Por intermédio dela é possível preencher duas gravíssimas lacunas da educação brasileira — a falta de uma história das ciências e de uma história das artes no currículo do ensino médio. Muito mais importante do que empanturrar o adolescente com baterias de equações — que jamais serão utilizadas por ele em outro contexto que não o da prova — seria melhor mostrar-lhe a história do desenvolvimento da matemática. O mesmo vale para a química de giz, cujo laboratório é o quadro, e para todas as outras disciplinas biológicas e exatas estudadas no ensino médio de um modo enciclopédico, que exige do pré-vestibulando um conhecimento às vezes muito mais abrangente e profundo do que aquele que lhe será cobrado posteriormente nas faculdades.

A recente tentativa de inclusão da filosofia e sociologia no currículo de 2o grau, por exemplo, partiu da constatação de que a escola há muito deixou de ser escola para se tornar uma linha de montagem. Entretanto, é pouco provável que a filosofia e a sociologia corrigiriam esse problema. Elas também foram afetadas pelo irracionalismo do mundo contemporâneo, ao menos em sua versão acadêmica, que no Brasil tem a USP por espelho. A arte e a ciência, juntas, é que talvez possam humanizar o ensino. Não apenas a arte-educação lúdica nem a feira de ciências utilitária, mas, sobretudo, uma história da arte e uma história das ciências que pudessem pôr o aluno em contato com os grandes gênios da história. Hoje, a pedagogia pensa ter descoberto (secundando os psicólogos) que não há razão sem emoção e que conhecimento também depende de afetividade. Ora, há quase 500 anos o poeta Luís de Camões já sabia disso e outros, antes dele, com outras palavras, também disseram que o homem não pode prescindir do engenho e da arte, da emoção e da razão, do apolíneo e do dionisíaco.

Toda arte verdadeira comporta uma intra-objetividade e toda verdadeira ciência nasce da intersubjetividade. A ciência, sob a superfície de certezas, esconde as águas profundas da subjetividade dos homens e pode tornar-se ambígua, escorregadia, máscara da realidade; enquanto a arte, sob a superfície de sonhos, emerge das águas torrenciais da objetividade dos homens e pode fazer-se precisa, límpida, instrumento de cognição. Mas esse diálogo entre emoção e razão, ciência e arte, não cabe nos limites de um só cérebro e seus cinco sentidos — é inapreensível, pois tem o tamanho do próprio universo, com tudo o que ele comporta de matéria e antimatéria. Na verdade, não se trata de um diálogo, mas de uma eterna luta e, como toda luta, seus resultados são imprevisíveis, daí a ilusão da pedagogia ao tentar educar para a criatividade. Uma criatividade que pudesse ser prevista e praticada em laboratório deixaria automaticamente de ser criatividade. Só há um modo de se educar alguém para a criatividade — materializando exemplos bem-sucedidos de criação humana. No caso da escola, criação artística ou científica, extraídas do repositório cultural das grandes civilizações, como queriam os essencialistas dos anos 30.

Cabe à escola mostrar como o mundo subjetivo costuma ser objetivado pelo cientista e como o mundo objetivo tende a ser subjetivado pelo artista. O filósofo da ciência Alexandre Koyré, numa resenha que publicou em 1954, em Haia, sobre o livro Galileo as Critic of the Arts ( Galileu como Crítico de Artes ), de Erwin Panofsky, mostra que o pensamento estético de Galileu (profundo conhecedor de literatura e artes plásticas) influiu decisivamente na sua física, levando-o a ignorar completamente as descobertas astronômicas de Kepler, seu companheiro na luta pelo reconhecimento do sistema de Copérnico. Esteta da harmonia, Galileu, como mostra Panofsky, não quis aceitar as órbitas elípticas dos planetas descobertas por Kepler por achá-las incompatíveis com a perfeição estética que, para ele, se traduzia no círculo. Da mesma forma, muito da física de Kleper emana de seu subterrâneo místico. Entretanto, nem Kleper nem Galileu consultaram o manual de Daniel Goleman, o autor de Inteligência Emocional , para produzir sua ciência, assim como Balzac ou Zola não precisaram dele para edificar uma literatura que vale por muita sociologia.

Síntese Necessária — Inteirando-se das obras desses autores é que o aluno, à sua maneira, pode entender a eterna dialética entre razão e emoção, fazendo sua própria síntese — longe dos olhos de babá da pedagogia, isto é, em seu interior. O que a escola pode fazer para contribuir com essa reflexão é proporcionar ao aluno um pouco de história da arte e das ciências, daí a importância que essas disciplinas poderiam ter no currículo. O estudo da literatura brasileira, por exemplo, vista não como catálogo de correntes literárias, mas como um diálogo com a história e a ciência, pode servir para essa reflexão. No 2o ano do ensino médio, por exemplo, os alunos costumam estudar o romantismo e o realismo, com sua corrente naturalista, dogmaticamente fiel ao progresso científico. É a hora de se introduzir o estudante no espírito científico que marcou fanaticamente o século XIX. Até a própria religião que surgiu naquele século, o espiritismo de Alan Kardec, é fundamentalmente cientificista, filho do positivismo de Comte, por sua vez, uma religião da ciência, com templos e cientistas-sacerdotes.

Curiosamente, foi no Brasil que tanto o positivismo quanto o espiritismo vingaram: além de ser o maior país espírita do mundo, o Brasil tem o ideal de “ordem e progresso” de Comte incrustado na Bandeira Nacional. Nada mais pertinente, portanto, do que levar o aluno brasileiro a refletir sobre essas relações entre artes, ciências e sociedade, que consolidam, no século XIX, as conquistas do Iluminismo imediatamente anterior e ajudam a conformar o progresso científico do século XX. Até porque é nessa fase que o aluno começa a refletir sobre o que fazer de seu futuro e essa reflexão profunda sobre a ciência — que implica em saber o que ele, aluno, tem a ver com ela — poderá ser possível a partir do diálogo interdisciplinar que será suscitado pela literatura e as artes. Algo que ajuda no próprio amadurecimento moral do aluno, desde que a escola crie ídolos positivos para a juventude — os grandes gênios da arte e da ciência que, superando seus defeitos individuais, foram capazes de deixar um legado reconhecido além de seu tempo.

No Brasil, dificilmente um jovem vai sonhar em ser um cientista, porque, no seu imaginário, não existe nenhuma figura de cientista, a ponto de ele achar que o Brasil só produz sambista e jogador, jamais cientistas ou filósofos. Que estudante do ensino médio sabe da existência de César Lattes, um ícone ainda vivo da física moderna, descobridor do méson-pi e quase ganhador do Nobel de Física? É claro que não é fácil criar esses ídolos a partir unicamente da escola, em face do poderio da televisão e do mercado juntos. Mas, como observa Giovanni Sartori, “a cultura audiovisual é inculta” e o dever da escola é rechaçá-la não imitá-la, como vem acontecendo. A escola tem o dever de tentar se contrapor à ditadura do imaginário imposta pela mídia. Ao valorizar demais o contexto e idealizar demais o aluno, o construtivismo se esquece que o jovem urbano médio é quase marionete da televisão. O grau de autonomia cognitiva da maioria dos alunos é apenas o suficiente para mantê-los entre as espécies superiores.

O que admira é que essa questão — tão crucial para a educação brasileira — raramente seja abordada em cursos e livros para preparação de professores. O discurso mecanicamente repetido de que o importante é “aprender a aprender”, que “professor é o que de repente aprende” e que “o aluno é construtor do conhecimento” parte do pressuposto ideal — para não dizer ilusório, ingênuo ou, simplesmente, alienado — de que todo aluno quer aprender, só carece de o professor ensiná-lo. Ora, isso é absolutamente falso. Para a maioria das pessoas, e não só dos jovens, conhecer é um castigo, como já sabiam o Gênesis e o Eclesiastes. Imaginar que o conhecimento é indolor e que toda atividade pedagógica tem de ser transformada num recreio é penalizar ainda mais o professor, que, ao longo das duas últimas décadas, além de não ter salário, já não tem prestígio nem goza do respeito de seus alunos.

Canga Fanática — Toda educação verdadeira tem que ser eclética em seus métodos, caso contrário, não é educação, é doutrinação — algo que o construtivismo e outras monomanias não percebem. Repetir, por exemplo, que a escola tradicional faz tábula rasa do aluno, que ela enfoca somente o professor, que ela trata o aluno como receptor passivo e que se pauta apenas pela memorização, atribuindo ao construtivismo qualidades positivas e contrárias, como costumam fazer os neopedagogos, é falsificar a realidade da educação. Não há metodologia absolutamente pura, com todos os defeitos ou com todas as qualidades. Apenas uma metodologia que fosse adotada somente entre anjos ou somente entre demônios, incluindo o professor, é que conseguiria essa façanha sobrenatural. Porque o meio influencia o método e a pureza da metodologia seria reforçada pela pureza de seu contexto.

Mas o mundo é misturado, por isso, a neopedagogia é um dogma como o neoliberalismo. Toda classe é heterogênea e os alunos estabelecem infinitas interações entre si, inclusive hierárquicas. O professor, limitado ser humano que é, não tem a menor possibilidade de prevê-las e monitorá-las todas. Portanto, haverá momentos em que, se não apelar para abordagens tradicionais, como a própria autoridade, ele se inviabiliza completamente como professor e passa a ser manipulado pelos alunos, especialmente pelos piores, que são os verdadeiros mandantes das escolas hoje.