Olavo Archive Collection

Política e Estado

Uma antologia curada e indexada por inteligência artificial do acervo de Olavo de Carvalho

Sumário da Obra

Ainda O Golpe De Estado No Mundo

“They must to keep their certainty accuse | O Globo

All that are different of a base intent;

Pull down established honour; hawk for news Whatever their loose fantasy invent And murmur it with bated breath, as though The abounding gutter had been Helicon Or calumny a song.”

(W. B. Yeats, “The leaders of the crowd”) Desde a década de 20 a nata da intelectualidade comunista — Lukacs, Horkheimer, Adorno, Gramsci — percebeu que sua guerra não era apenas contra “o capitalismo”, mas contra um alvo bem mais vasto e difuso: a “civilização judaico-cristã”. A ampliação do objetivo implicava, porém, uma diluição do perfil ideológico do próprio movimento comunista, de modo a que pudesse absorver, sem discussões paralisantes, todas as correntes anti-ocidentais as mais heterogêneas.

Na época, isso não era viável, porque o comunismo triunfante na Rússia ia na direção contrária, buscando consolidar a ortodoxia doutrinal que sustentava a ditadura do Partido.

Para que aquela intuição se disseminasse em círculos mais amplos e se tornasse o eixo articulador de uma nova estratégia mundial, foi preciso chegar às décadas finais do século XX, quando o desmantelamento do império soviético deu razão àqueles pioneiros.

Hoje, é impossível não perceber a aliança mundial de neocomunistas, anarquistas, neonazistas, radicais islâmicos e até budistas contra os EUA e Israel, as últimas fortalezas da civilização condenada, contra a qual, literalmente, vale tudo.

Nebulosa, porém não menos atuante nesse front , é a colaboração de algumas nações européias nominalmente herdeiras do legado judaico-cristão: debilitado seu apego a valores tradicionais pela imigração maciça e por uma longa e incansável sabotagem cultural, deixam-se cegar por interesses imediatos às vezes totalmente ilusórios e se prestam a servir de instrumentos da sua própria destruição.

Também essencial é a ajuda que o esquema recebe de alguns grupos político-econômicos norte-americanos, os quais, enlouquecidos pela ambição de mandar no mundo por meio do Estado global em germe na ONU, se voltam contra o seu próprio país. Se não fosse pelo Partido Democrata, pelas fundações Rockefeller e Ford, pelo New York Times e entidades semelhantes, há muito tempo a santa aliança anti-ocidental já teria se desfeito em cacos.

Nesse vasto front , a ausência de unidade ideológica formal é uma garantia contra polêmicas internas debilitantes. Ao mesmo tempo, serve para desorientar o adversário, que não sabe ao certo contra quem está lutando. A linha divisória, com efeito, não pode ser demarcada em termos de comunismo e anticomunismo, porque os comunistas sacrificaram a urgências maiores a antiga rigidez do seu discurso; nem de capitalismo e anticapitalismo, pois há poderosos interesses capitalistas de ambos os lados; nem de Estados em conflito, porque muitos Estados têm dentro de si inimigos piores que no exterior; nem de guerra civilizacional, como pretende Samuel Huntington, pois seria absurdo jogar sobre as costas do Islam a responsabilidade por uma doutrina tão “ocidental” quanto o marxismo, ainda um fator intelectual importante na luta pela conquista mundial.

O melhor estudo a respeito é “ Liberal Democracy vs. Transnational Progressivism “, de John Fonte.

Mas “progressismo transnacional” é apenas um nome provisório para designar a densa cobertura retórica de ódios irracionais e calúnias desencontradas que adorna um movimento cuja unidade estratégica é, no entanto, inegável.

Essa unidade revela-se da maneira mais patente na rapidez com que Estados, partidos, facções e ONGs das mais diversas filiações nominais acorrem disciplinadamente para apoiar todas as causas, mesmo inconexas em aparência, que sirvam para corroer as bases da civilização ocidental. Isto vai desde o anti-americanismo, o anti-israelismo, o anticristianismo explícitos, até as quotas raciais, o desarmamento civil, o casamento gay , o alarmismo ecológico, o abortismo, a imposição do vocabulário “politicamente correto”, a medicalização da sociedade e a liberação das drogas pesadas — com seu complemento dialético infalível, a proibição do tabaco. Todos esses movimentos vêm de fonte única — a intelectualidade ativista entrincheirada nos organismos internacionais –, mas entre eles o observador leigo não enxerga a menor ligação e, colaborando com a parte, não imagina estar ajudando o todo.

O ataque multilateral, além de apagar as pistas da unidade estratégica que o inspira, ainda se prevalece das vantagens da propaganda contraditória, psicologicamente mais eficaz que a persuasão coerente.

Contribui ainda para estontear o observador o fato de que as ações pautadas por essa estratégia não se executam por meio de canais uniformes de fácil identificação, mas de uma complexa rede de organizações diversas, abrangendo partidos, ONGs, jornais, canais de TV, igrejas, escolas, clínicas de psicologia, instituições assistenciais de fachada e até entidades sem existência legal como quadrilhas de traficantes, grupos guerrilheiros ou o nosso MST. Os vínculos ideológicos são aí tão evanescentes quanto são sólidas e manifestas as conexões políticas e financeiras, hoje bem conhecidas.

Nada disso é secreto, nem ao menos disfarçado: é apenas complicado demais para o observador burrinho (o que inclui boa parte das chamadas “elites”), porém simples para intelectuais do porte de Lukacs, Gramsci e seus sucessores.

Caste Of Phonies

“The greatest danger of a bomb | O Globo

is the explosion of stupidity that it causes.”

(Octave Mirbeau, 1850-1917) Following the September attacks, a wave of indignation has spontaneously washed over the hearts of Brazilian toward international terrorism. Since then, local academic leaders have dedicated themselves, with all their means and skills, to turn it against the victim. So vast is the mobilization of brain power to that end that, if the same energy were used on useful tasks, Brazil would break its long tradition of having won no prices in scientific research and, for a change, win them all. It’s frightening to see our society, always aghast at the disappearance of public money into the pockets of lawmakers, happily pay taxes to keep an even more useless and perverse caste in place than politicians. More useless, perverse, and expensive. Brazil has more university professors to students per capita than any other country: one for each eight students. One chief for eight little Indians. It might be said that we’re the most educated country on Earth. But, with some much honorable exceptions, each one of those chiefs has his own objectives, a secret agenda unrelated to teaching, culture, and civilization. Pretending to teach, each one merely attempts to promote a Socialist revolution that would make him, Mr. Little Joe, the Minister of State, an officer of the secret police, or at least a commissary of the people. Being an intellectual in this country is to conduct a Gramscian revolution, which is to put intellectuals in power. Being an academic intellectual is to do so while receiving public money. When one of these doctors, with an air of scientific superior impartiality, force into the reader mind the version that the attacks were the work of “extreme right-wing” Yankee forces, and not fanatics goaded by leftist international media, what he is doing is treating you, my friend, like Pavlov’s dog, a circus bear, a worthless little beast designed to dance and wag its little tail for the master, without being able or willing to think. He is lying and manipulating at the service of psychological warfare, which in this or all similar attacks serves to support terrorists and widen the political effects of their actions. He is not an analyst, a student, a professor: rather a celebrated terrorist, who is assigned to the misinformation section for being too cowardly, too old, or too smart to risk his life in truculent enterprises.

In other parts of the world, a counterfeiter would think twice before trying to pass off such a blatantly phony bill. In the world, there are people even in academic caste who know that extreme right militants in the U.S., including doomsday prophets, white supremacists and “tutti quanti”, number no more than 4,000, according to the FBI; that all of their steps are monitored by the police and, in the bottom line, represent the most insignificant political force on the planet; and who know that their only relevance is thanks to the leftist media, which uses them as a scarecrow... In the world, there are people who witnessed the fearful and boasted neo-Nazi movement in Germany dissolve alongside the Communist government in East Berlin that funded it... In the world, there are people who, in the face of the incriminating discourse of the “extreme right,” would soon realize the dubiousness of the term, used to fuse into a semantic cloud, from one side, those criminals accused by the establishment and, from the other, the very establishment: closet anarchists, Nazis and anti-Semites, conspiring with American capitalists and Jews in order to make Jews agree to blow themselves up in the pure goal of creating a wave of anti-left hatred. The image is so childish that a right-minded academic agitator would hardly dare to suggest it to a mature public. But in Brazil, we not only lend an ear to these people, we pay them to reduce us to mental childhood.

Equally powerful in making us complete imbeciles, while slightly less showy, is the general appeal of Fidel Castro’s argument regarding the attacks, which are evil per se, but morally justified as reactions to desperation amid the suffocating omnipresence of American power.

What omnipresence is that? No countries are currently under American occupation, while Lhasa, Tibet, has fewer Tibetans than Chinese soldiers; and in the very country that harbors Bin Laden, it was the Russians and not the Americans who killed a million Afghanis, halting the massacre only when American support tipped the scales toward the Muslims.

And what desperation is that, which turns against the most generous of benefactors? Excluding the events in Kuwait and Granada, the U.S. has for decades, manipulated by the UN, agreed to take part in foreign interventions only when they are intended to help Communists seize power or maintain it. This was what happened, for example, in the Communist aggressions in Angola and Goa. As in Katanga, where UN troops, subsidized and lauded by the U.S. government, laid waste to a rebel province only to integrate it into the bloody dictatorship of Patrice Lumumba, young son of KGB. As in South Africa today, where the UN and the New York establishment, underneath the anti-racist rhetoric, conceal the “ethnic cleansing” conducted by Communists against Boer farmers. And, when this type of policy leads to a massacre of colossal proportion on par with Rwanda in 1994, when 800,000 people were slaughtered by hordes intoxicated by equalitarian ideology, not only the State Department and the UN Security Council kept quiet, but the U.S. media made it possible to rebuff the ideologic sense od the events, and reduce it to a “war among savages,” which was actually the logical and foreseeable effect of a long revolutionary indoctrination. With nearly obsessive regularity, since President Roosevelt ignored the Chinese revolution with the dazzling excuse that Mao Tse-Tung was not a Communist but a “Christian agrarian reformer,” and until the suicidal concessions were made in light of Chinese arms build-up by a president elected with Chinese campaign funds, U.S. politics cyclically and increasingly revisits this perfidious and masochistic conduct: support the Communists through nebulous operations which, in a culmination of cynicism or lunacy, are presented to the public as anti-Communist. For the Communists, the benefit is two-fold. On one hand, they receive resources: money, weapons, support from international organizations. On the other, each new event creates a new realistic pretext for the press to speak against the sordid investments in Yankee anti-Communist spending. How could any leftist be “desperate” in such a comfortable situation?

Em 22 de setembro de 2001

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Cegos Caolhos E Videntes

“O diabo diz a verdade nove vezes para | O Globo

poder mentir melhor na décima” Provérbio árabe A cumplicidade entre esquerda oficial e violência revolucionária já se tornou tão patente que, como enfatiza o ex-ministro da Justiça, Paulo Brossard, só não a vê quem não quer. Mas, entre os que a vêem, há alguns que têm por ofício impedir que os outros vejam. Tais criaturas não são cegas nem videntes: são seres intermediários, que, tendo em terra de cegos um olho só, furam um de quem tenha os dois, para que não venha a tornar-se ameaça às suas prerrogativas reais de caolhos.

O nome de seu ofício é “desinformação”. Evidentemente não se pode exercê-lo sem ser também um expert em informação, pelas mesmas razões que tornariam dificultoso montar uma boa fraude fiscal sem conhecer as leis fiscais.

Para a consecução de sua tarefa, é indispensável pois adquirir primeiro um certo prestígio de fonte isenta e confiável, o que neste país é bem barato e pode se obter pela simples prática cotidiana da tucanidade, isto é, da duplicidade, ambigüidade, inocuidade ou quantas mais poses a imaginação popular associe, por motivos insondáveis, à idéia de justiça, bom-senso e savoir-faire (do mesmo modo como, em compensação e por razões igualmente misteriosas, toma como sinal de honestidade e bom caráter a obstinação vitalícia na mentira sectária).

A indefinição política exterior não prejudicará em nada o exercício das altas funções desinformáticas, pois nesse cargo de elite não se trata de fazer propaganda (isto fica para os militantes, os desprovidos de ambos os olhos), e sim de dar às lorotas partidárias, em momentos criteriosamente selecionados, a credibilidade das evidências acima de qualquer suspeita.

A prática desse ofício chega no entanto a ser desafiadora, pois há poucas coisas importantes que os brasileiros não ignorem, e é preciso uma inventividade incomum para desinformar os desinformados. Às vezes é preciso mesmo chegar à ousadia de negar que aconteceu algo que ninguém sabe que aconteceu. Assim, por exemplo, o público imagina que o PT é um partido como qualquer outro, diferente apenas pelo conteúdo das suas propostas de governo. Imagina isso porque não sabe que os demais partidos não têm um braço armado, nem contatos íntimos com organizações criminosas e revolucionárias de outros países, nem um serviço secreto particular com espiões e grampos por toda parte, nem uma rede de doutrinadores treinados para inocular ódio político nas crianças desde o pré-primário, nem um sistema de fiscalização para impedir que seus adversários conquistem empregos nas universidades, nem uma série de outros recursos aos quais o PT deve o seu sucesso e que o tornam, entre os partidos, uma raposa entre as galinhas, só não as comendo todas de uma vez porque não está seguro de poder digeri-las.

E como ninguém sabe que essas coisas existem, o profissional desinformático declara corajosamente que elas não existem, reforçando a crença estabelecida de que o PT quer apenas governar constitucionalmente e não derrubar o Estado constitucional, como, não obstante, é precisamente o que em seus documentos internos ele diz que vai fazer.

Caso o leitor deseje conservar o uso de seus dois olhos, minha recomendação é que, em vez de buscar informações em fontes que abrem ou fecham ao sabor de interesses políticos, passe a procurá-la nas que estão permanentemente abertas e brotem de lugares próximos à origem dos fatos.

O Rio Grande do Sul, por exemplo, é um dos poucos estados onde os não-petistas se interessaram em estudar e conhecer o fenômeno petista. Os gaúchos carregam o PT nas costas há uma década e, como dizia Nietzsche, “quem sofreu sob o teu jugo te conhece”. Alguns o conhecem tanto que foram removidos de seus postos na imprensa, sob ameaça governamental de cortar os anúncios oficiais, dos quais a mídia se torna tanto mais dependente quanto mais a economia local marcha para a total submissão ao Estado com resignação de carneiros rumo ao matadouro ou, em alguns casos, com obscena alegria masoquista.

Do Rio Grande chegam-nos quatro livros nos quais, da boca das vítimas e testemunhas diretas, o leitor obterá a descrição dos processos de governo petista: intimidação dos adversários, chantagem, desmontagem da polícia e sua redução ao estatuto de órgão auxiliar da violência revolucionária, substituição do poder legislativo por militantes e paus-mandados, uso abundante de crianças como instrumentos de propaganda ideológica, manipulação das verbas do Estado em favor do partido, politização totalitária de todas as relações humanas – enfim, uma imagem em miniatura do que será o Brasil de amanhã se a opinião pública continuar confiando naqueles que lhe asseguram que nada disso está acontecendo.

Esses livros são: “A nova classe no poder”, de J. H. Dacanal (Porto Alegre, Novo Século), “O impeachment do Governo Olívio Dutra”, do advogado Paulo Couto e Silva (Fundação Paulo do Couto e Silva); “Os 500 dias do PT no governo são outros 500”, do deputado estadual Onyx Lorenzoni (Sulina); e “Totalitarismo tardio: o caso do PT”, organizado por José Giusti Tavares (Mercado Aberto). O primeiro é lúcida narrativa da resistível ascensão do PT gaúcho; o segundo, o diagnóstico da ilegalidade essencial dos processos de governo petistas; o terceiro, o comentário do avanço revolucionário à medida que foi repercutindo na Assembléia Legislativa; o último, uma preciosa coleção de análises do totalitarismo petista, assinadas por um psiquiatra, um filósofo e dois cientistas políticos, que conseguiram furar o bloqueio e inserir esse tema explosivo num seminário para doutorandos em direito promovido por quatro prestigiosas instituições acadêmicas.

Em 28 de outubro de 2000

O Rock Do Brasileiro Doido

“Desencontrado, eu mesmo me contesto” | Época,

( Chico Buarque de Hollanda, em Calabar) O que aconteceu no Rock in Rio é a imagem viva da esquizofrenia nacional. O sujeito se veste de americano, pula e dança o dia inteiro ao som da música americana e, quando vê na tela a bandeira dos Estados Unidos, se inflama de brios patrióticos e brada contra o colonialismo cultural. Depois continua pulando – e joga latas de protesto na cabeça de Carlinhos Brown quando ele quer estragar o festival de americanidade tocando música baiana. Já viram uma coisa dessas? É Olívio Dutra tomando Coca-Cola numa cuia de chimarrão – para disfarçar – e fazendo um discurso contra a “água negra do imperialismo”.

Mas, no Fórum Social de Porto Alegre, a imagem adquiriu corpo, vida e movimento: entre vaias e apupos à Nova Ordem Mundial, a ilustrada assembléia manifestou seu amor ao direito trabalhista global, ao desarmamento civil, às quotas raciais preferenciais e ao controle da internet – quatro quintos do programa da Nova Ordem Mundial. O quinto restante foi objeto de debates só porque os participantes querem fazer tudo isso com os métodos econômicos de Cuba, do Vietnã e da Coréia do Norte, o que certamente não será motivo de discussão por muito tempo, já que a Nova Ordem Mundial sabe respeitar a independência das nações e largá-las sozinhas, num arrabalde infecto, quando elas fazem uma opção preferencial pelo suicídio. Com a maior tranqüilidade, ela virou as costas aos povos da África, que gritavam de revolta contra o capitalismo internacional que não os largava e hoje espumam de ódio contra o capitalismo internacional que os abandonou. No futuro Brasil socialista, quando estivermos disputando a tapa uma perna de rato, Olívio Dutra, exibindo indignado uma lata de Coca-Cola vazia, dirá que é tudo culpa da maldita Ford que o deixou na mão quando ele mais precisava dela.

Quando digo que este país está louco, insano, necessitado de urgentes cuidados psiquiátricos, as pessoas pensam que estou brincando. Mas vejam o número de nossos compatriotas que nos anunciam o socialismo com a seriedade e a compenetração de quem tivesse nas mãos um remédio salvador. O Estado socialista mais rico e poderoso que já existiu foi a URSS. Era a segunda potência industrial do mundo. Se o Brasil implantar o socialismo hoje, levará meio século, na melhor das hipóteses, para alcançar o patamar de desenvolvimento que a URSS havia escalado quando, em 1991, veio ao chão. Qual a altura desse patamar? Segundo dados oficiais, o cidadão médio soviético, em 1987, recebia metade da ração de carne que o súdito do czar comia em 1913. Os negros sob apartheid na África do Sul tinham mais carros per capita que os soviéticos. Em 1989, sem guerra nem nada, havia racionamento de comida em Moscou. A família média (média, não pobre) de quatro pessoas espremia-se num cômodo de 3 metros quadrados, como nossos favelados. O operário, trabalhando um ano inteiro, ganhava metade do que uma mãe americana desempregada recebia por mês do serviço social. Tudo isso, é claro, nas regiões mais desenvolvidas. Na periferia – Uzbequistão e Tadjiquistão, por exemplo – 93% das casas não tinham esgoto e 50% nem água encanada. A atmosfera era a mais poluída da Europa e os investimentos em saúde os mais baixos do mundo industrializado.

Mas o socialismo ao qual os brasileiros estão pedindo receitas de prosperidade não é nem o da URSS. É o de Cuba, da Coréia do Norte, do Vietnã, lugares aonde um russo só ia por aquele espírito de sacrifício patriótico com que um oficial inglês do século passado, abandonando o conforto de seu clube londrino, se aventurava nas matas do Sudão, entre mosquitos e orangotangos, pela glória da Rainha. E ainda dizem que o doido sou eu.

Em 3 de fevereiro de 2001

Antonio Gramsci Y La Teoria Del Chivo

“A distinguir me paro | IEE

las voces de los ecos, y escucho solamente, entre las voces, una.”

(Antonio Machado) El Lula que los brasileños han elegido no es el mismo que hace doce años fundó y desde entonces lidera el Foro de São Paulo, entidad creada para coordinar las acciones legales e ilegales del movimiento comunista en el continente, que tiene entre sus fuentes de financiación el narcotráfico de las Farc y los secuestros del MIR chileno.

El Lula del Foro no ha muerto, ni mucho menos se ha transmutado en otra cosa al término de una larga evolución interior. Hace menos de un año, en diciembre de 2001 firmó un compromiso de solidaridad con las Farc, demostrando que seguía siendo el mismo de siempre — y no puede haber cambiado tanto en tan poco tiempo.

Lo que pasa es que sencillamente ha desaparecido, arrebatado del horizonte visible por el silencio de los medios de comunicación, por la omisión cobarde o cómplice de sus rivales y, últimamente, por la decisiva intervención censuradora del Superior Tribunal Electoral.

En su lugar ha emergido un ente de ficción, creado por las artes publicitarias de Duda Mendonça, lanzado al mercado bajo el lema “Luliña Paz y Amor” e impuesto a los consumidores por el vocerío incesante de miles de chicos-propaganda reclutados en todas las elites intelectuales, artísticas, políticas y empresariales del país — y algunas del exterior.

Así se ha producido esa curiosa inversión de perspectivas, tal vez el fenómeno más extraño de psicología social de toda la historia nacional: aunque la existencia de uno de esos Lulas está atestiguada por documentos firmados de propio puño, y la del otro consta solamente por la proyección de sueños, deseos y esperanzas, sólo este último es admitido como real, y quienquiera que mencione al otro se convierte en sospechoso de paranoia o de embuste perverso.

Jamás la leyenda reiterada ha gozado de un primado tan absoluto sobre la verdad patente.

Lejos de mí la pretensión de explicar en pocas líneas fenómeno tan portentoso. Pero no cabe la menor duda de que al menos parte de la fuerza imperiosa de la leyenda proviene, precisamente, de la multiplicidad heterogénea de las aspiraciones que la han creado. Éstas, al proceder de muchos y muy variados ángulos, y al contradecirse unas a otras, dan al personaje una densidad, una tridimensionalidad que lo hacen hipnóticamente verosímil.

A los hombres del Foro les sirve de careta para encubrir, bajo facciones simpáticas y risueñas, el rostro hediondo de una estrategia que incluye la penetración de las Farc en el territorio nacional, el deterioro de nuestra sociedad mediante la inyección anual en ella de 200 toneladas de cocaína colombiana y la financiación de la revolución continental con el dinero de brasileños secuestrados.

Los líderes políticos tradicionales, en cambio, se apegan a la imagen del sueño porque esperan atrapar en ella al hombre de carne y hueso, induciéndole a ser lo que finge ser, más o menos como aquellos empleados del rico loco de la obra “Enrique IV” de Pirandello, que, al ser forzados continuamente a hacer el papel de servidumbre del rey, acaban no consiguiendo creer que son otra cosa.

Similar esperanza anima a los banqueros internacionales e incluso al gobierno americano, con la diferencia de que éstos tienen mucho dinero para financiar, si es necesario, la transfiguración de la leyenda en realidad.

A la intelligentzia izquierdista internacional encastillada en la ONU y en los grandes medios de comunicación de Nueva York y París, le es igual que el Lula presidente sea el antiguo o el nuevo: cualquiera de los dos sirve para fortalecer el bloque mundial anti-americano y anti- israelí, aunque, sin lugar a dudas, “Luliña Paz y Amor” hace eso con mucha mayor delicadeza que Arafat o Hugo Chávez.

Al actual presidente, que en la transición al socialismo siempre ha brincado alegremente del papel de freno al de acelerador y viceversa, la elección de Lula le sirve como prueba retroactiva de que en el fondo ha sido él, FHC, el autor de todo, lo mismo que sería el autor de lo contrario si pasase lo contrario.

Por más absurda que sea, una leyenda creada en el punto de convergencia de tantos intereses heterogéneos es, en realidad, imposible de refutar. Es más fuerte que la realidad. “Luliña Paz y Amor” es, en todos los aspectos, invencible.

Sólo hay un problema: es invencible porque no existe. Ni existe ni puede llegar a existir. La creatura publicitaria de Duda Mendonça puede a la vez rebajar los impuestos y subir los salarios, vaciar las arcas del Estado con el pago de las deudas y rellenarlas con el ahorro interno, dar todas las tierras al MST sin menoscabo alguno de la propiedad privada, imponer la uniformidad cultural sin suprimir el pluralismo democrático, combatir el narcotráfico sin herir los intereses de sus queridas Farc, alinearse con Castro y Chávez y ser amigo de los EUA. “Luliña Paz y Amor” puede. Luís Inácio da Silva, presidente electo, no puede. Ningún hombre de carne y hueso puede.

Pero eso no da pie a poder especular sobre cuál de los muchos Lulas predominará entre tantos tirones antagónicos. De todos los Lulas, sólo hay uno verdadero, históricamente probado: el Lula del Foro de São Paulo. Sólo gracias a la supresión de éste han podido llegar a ser verosímiles los demás. En el momento debido, va a resurgir, porque nunca ha dejado de existir. Es el sustrato de materia que está por debajo de los velos de la fantasía.

El público que ha creído en esa fantasía es precisamente el mismo que, hace pocos años, se deshacía en lágrimas de emoción religiosa ante la figura del Sr. Herbert de Souza [Betinho] y se tomaba muy en serio la propuesta de beatificarlo — una apoteosis de entusiasmo devoto que se deshizo en humo en el preciso instante en que el ex-futuro-santo, al morirse, perdió su sustancia mediática y su utilidad política que constituían, en realidad, todo el relleno de su ser espiritual.

Lula E Lulas

“A distinguir me paro | O Globo

las voces de los ecos, y escucho solamente, entre las voces, una.”

(Antonio Machado) O Lula que os brasileiros elegeram não é o mesmo que fundou e há doze anos lidera o Foro de São Paulo, entidade criada para coordenar as ações legais e ilegais do movimento comunista no continente, que tem entre suas fontes de sustentação financeira o narcotráfico das Farc e os seqüestros do MIR chileno.

O Lula do Foro não morreu, nem muito menos se transmutou em outra coisa ao fim de uma longa evolução interior. Ainda em dezembro de 2001 ele assinou um compromisso de solidariedade com as Farc, provando que ainda era o mesmo de sempre — e não pode ter mudado tanto em tão pouco tempo.

O que aconteceu foi que ele simplesmente desapareceu, arrebatado do horizonte visível pelo silêncio da mídia, pela omissão covarde ou cúmplice de seus concorrentes e, no fim, pela decisiva intervenção censória do Superior Tribunal Eleitoral.

Em seu lugar entrou um ente de ficção, criado pela artes publicitárias de Duda Mendonça, lançado no mercado sob o rótulo de “Lulinha Paz e Amor” e imposto aos consumidores pelo vozerio incessante de milhares de garotos-propaganda recrutados em todas as elites intelectuais, artísticas, políticas e empresariais do país — e algumas do exterior.

Aí é que aparece a curiosa inversão de perspectivas, talvez o mais estranho fenômeno de psicologia social de toda a história nacional: embora a existência de um desses Lulas seja atestada por documentos assinados de próprio punho, e a do outro consista somente da projeção de sonhos, desejos e esperanças, só este último é admitido como real, e quem quer que mencione o outro torna-se suspeito de paranóia ou invencionice maldosa.

Jamais a lenda reiterada gozou de um primado tão absoluto sobre a verdade patente.

Longe de mim a pretensão de explicar, em poucas linhas, tão portentoso fenômeno. Mas, certamente, ao menos parte da força imperiosa da lenda provém, justamente, da multiplicidade heterogênea das aspirações que a criaram. Vindas de muitos lados diferentes, contradizendo-se umas às outras, elas dão ao personagem uma densidade, uma tridimensionalidade que o tornam hipnoticamente verossímil.

Para os homens do Foro, ele serve de máscara, encobrindo sob feições simpáticas e risonhas o rosto hediondo de uma estratégia que inclui a penetração das Farc no território nacional, a deterioração da nossa sociedade pela injeção anual de 200 toneladas de cocaína colombiana e o financiamento da revolução continental pelo dinheiro de brasileiros seqüestrados.

Já as lideranças políticas tradicionais apegam-se à imagem de sonho porque esperam aprisionar nela o homem de carne e osso, induzindo-o a tornar-se aquilo que finge ser, mais ou menos como aqueles empregados do rico louco na peça “Henrique IV” de Pirandello, que, forçados continuamente a representar a criadagem do rei, no fim já não conseguiam acreditar que eram outra coisa.

Similar esperança anima os banqueiros internacionais e o próprio governo americano, com a ressalva de que têm muito dinheiro para subsidiar, se preciso for, a transfiguração da lenda em realidade.

Para a intelligentzia esquerdista internacional encastelada na ONU e na grande mídia de New York e Paris, tanto faz que o Lula presidente seja o antigo ou o novo: qualquer dos dois serve para reforçar o bloco mundial anti-americano e anti-israelense, mas, convenhamos, “Lulinha Paz e Amor” faz isso com muito mais delicadeza do que Arafat ou Hugo Chávez.

Para o atual presidente, que na transição para o socialismo sempre saltitou alegremente do papel de breque para o de acelerador e vice-versa, a eleição de Lula serve como prova retroativa de que no fundo foi ele, FHC, o autor de tudo, como aliás seria o autor do contrário se o contrário acontecesse.

Por mais absurda que seja, uma lenda criada no ponto de convergência de tantos interesses heterogêneos é, a rigor, impossível de refutar. É mais forte que a realidade. “Lulinha Paz e Amor” é, sob todos os aspectos, invencível.

Só há um problema: ele é invencível porque não existe. Não existe e não pode vir a existir. A criatura publicitária de Duda Mendonça pode ao mesmo tempo cortar os impostos e elevar os salários, esvaziar os cofres públicos com o pagamento das dívidas e recheá-los de poupança interna, dar todas as terras ao MST sem desrespeitar a propriedade privada, impor a uniformidade cultural sem suprimir o pluralismo democrático, combater o narcotráfico sem pisar no calo de suas queridas Farc, alinhar-se com Castro e Chávez permanecendo amigo dos EUA. “Lulinha Paz e Amor” pode. Luís Inácio da Silva, presidente eleito, não pode. Nenhum homem de carne e osso pode.

Mas isso não é motivo para especular qual dos muitos Lulas há de predominar entre tantos repuxões antagônicos. De todos os Lulas, só um é verdadeiro, historicamente provado: o Lula do Foro de São Paulo. Foi somente a supressão dele que tornou os outros verossímeis. No momento devido, ele ressurgirá, porque nunca deixou de existir. Ele é o suporte de matéria por baixo dos véus da fantasia.

O público que acreditou nessa fantasia é aliás o mesmo que, uns anos atrás, se debulhava em lágrimas de emoção religiosa ante a figura do sr. Herbert de Souza e levava integralmente a sério a proposta de beatificá-lo — uma apoteose de entusiasmo devoto que se desfez em fumaça tão logo o ex-futuro-santo, morrendo, perdeu a substância midiática e a utilidade política que constituíam, no fim das contas, todo o estofo do seu ser espiritual.

Lula Y Lulas

“A distinguir me paro | O Globo

las voces de los ecos, y escucho solamente, entre las voces, una.”

(Antonio Machado) El Lula que los brasileños han elegido no es el mismo que hace doce años fundó y desde entonces lidera el Foro de São Paulo, entidad creada para coordinar las acciones legales e ilegales del movimiento comunista en el continente, que tiene entre sus fuentes de financiación el narcotráfico de las Farc y los secuestros del MIR chileno.

El Lula del Foro no ha muerto, ni mucho menos se ha transmutado en otra cosa al término de una larga evolución interior. Hace menos de un año, en diciembre de 2001 firmó un compromiso de solidaridad con las Farc, demostrando que seguía siendo el mismo de siempre — y no puede haber cambiado tanto en tan poco tiempo.

Lo que pasa es que sencillamente ha desaparecido, arrebatado del horizonte visible por el silencio de los medios de comunicación, por la omisión cobarde o cómplice de sus rivales y, últimamente, por la decisiva intervención censuradora del Superior Tribunal Electoral.

En su lugar ha emergido un ente de ficción, creado por las artes publicitarias de Duda Mendonça, lanzado al mercado bajo el lema “Luliña Paz y Amor” e impuesto a los consumidores por el vocerío incesante de miles de chicos-propaganda reclutados en todas las elites intelectuales, artísticas, políticas y empresariales del país — y algunas del exterior.

Así se ha producido esa curiosa inversión de perspectivas, tal vez el fenómeno más extraño de psicología social de toda la historia nacional: aunque la existencia de uno de esos Lulas está atestiguada por documentos firmados de propio puño, y la del otro consta solamente por la proyección de sueños, deseos y esperanzas, sólo este último es admitido como real, y quienquiera que mencione al otro se convierte en sospechoso de paranoia o de embuste perverso.

Jamás la leyenda reiterada ha gozado de un primado tan absoluto sobre la verdad patente.

Lejos de mí la pretensión de explicar en pocas líneas fenómeno tan portentoso. Pero no cabe la menor duda de que al menos parte de la fuerza imperiosa de la leyenda proviene, precisamente, de la multiplicidad heterogénea de las aspiraciones que la han creado. Éstas, al proceder de muchos y muy variados ángulos, y al contradecirse unas a otras, dan al personaje una densidad, una tridimensionalidad que lo hacen hipnóticamente verosímil.

A los hombres del Foro les sirve de careta para encubrir, bajo facciones simpáticas y risueñas, el rostro hediondo de una estrategia que incluye la penetración de las Farc en el territorio nacional, el deterioro de nuestra sociedad mediante la inyección anual en ella de 200 toneladas de cocaína colombiana y la financiación de la revolución continental con el dinero de brasileños secuestrados.

Los líderes políticos tradicionales, en cambio, se apegan a la imagen del sueño porque esperan atrapar en ella al hombre de carne y hueso, induciéndole a ser lo que finge ser, más o menos como aquellos empleados del rico loco de la obra “Enrique IV” de Pirandello, que, al ser forzados continuamente a hacer el papel de servidumbre del rey, acaban no consiguiendo creer que son otra cosa.

Similar esperanza anima a los banqueros internacionales e incluso al gobierno americano, con la diferencia de que éstos tienen mucho dinero para financiar, si es necesario, la transfiguración de la leyenda en realidad.

A la intelligentzia izquierdista internacional encastillada en la ONU y en los grandes medios de comunicación de Nueva York y París, le es igual que el Lula presidente sea el antiguo o el nuevo: cualquiera de los dos sirve para fortalecer el bloque mundial anti-americano y anti- israelí, aunque, sin lugar a dudas, “Luliña Paz y Amor” hace eso con mucha mayor delicadeza que Arafat o Hugo Chávez.

Al actual presidente, que en la transición al socialismo siempre ha brincado alegremente del papel de freno al de acelerador y viceversa, la elección de Lula le sirve como prueba retroactiva de que en el fondo ha sido él, FHC, el autor de todo, lo mismo que sería el autor de lo contrario si pasase lo contrario.

Por más absurda que sea, una leyenda creada en el punto de convergencia de tantos intereses heterogéneos es, en realidad, imposible de refutar. Es más fuerte que la realidad. “Luliña Paz y Amor” es, en todos los aspectos, invencible.

Sólo hay un problema: es invencible porque no existe. Ni existe ni puede llegar a existir. La creatura publicitaria de Duda Mendonça puede a la vez rebajar los impuestos y subir los salarios, vaciar las arcas del Estado con el pago de las deudas y rellenarlas con el ahorro interno, dar todas las tierras al MST sin menoscabo alguno de la propiedad privada, imponer la uniformidad cultural sin suprimir el pluralismo democrático, combatir el narcotráfico sin herir los intereses de sus queridas Farc, alinearse con Castro y Chávez y ser amigo de los EUA. “Luliña Paz y Amor” puede. Luís Inácio da Silva, presidente electo, no puede. Ningún hombre de carne y hueso puede.

Pero eso no da pie a poder especular sobre cuál de los muchos Lulas predominará entre tantos tirones antagónicos. De todos los Lulas, sólo hay uno verdadero, históricamente probado: el Lula del Foro de São Paulo. Sólo gracias a la supresión de éste han podido llegar a ser verosímiles los demás. En el momento debido, va a resurgir, porque nunca ha dejado de existir. Es el sustrato de materia que está por debajo de los velos de la fantasía.

El público que ha creído en esa fantasía es precisamente el mismo que, hace pocos años, se deshacía en lágrimas de emoción religiosa ante la figura del Sr. Herbert de Souza [Betinho] y se tomaba muy en serio la propuesta de beatificarlo — una apoteosis de entusiasmo devoto que se deshizo en humo en el preciso instante en que el ex-futuro-santo, al morirse, perdió su sustancia mediática y su utilidad política que constituían, en realidad, todo el relleno de su ser espiritual.

Picuinhas Comunistas (2)

— Roubaram-nos o Carpeaux! | 17 de julho de 1999

— Quem foi?

O mensageiro baixa os olhos:

— Foi... “a direita”!

Horror! Horror! Horror! Que fazer?, pergunta o secretário-geral, José Stálin Lênin da Silva. Descer o cacete não é possivel — dialetiza —: não podemos criticar quem faz o que seria nossa obrigação. Silenciar? Não podemos: seria deixar para a direita o domínio do espaço aéreo. Por fim, fazendo uso do centralismo democrático, ele mesmo responde, enunciando a linha justa :

— Celebrar a descoberta, omitindo o descobridor.

Assim, anos de pesquisas, setecentas e vinte notas de rodapé e uma introdução de oitenta páginas — o primeiro estudo abrangente que se fez da obra de Carpeaux, com dados inéditos e questões jamais perguntadas — desaparecem das folhas dos jornais, como se nunca tivessem existido. Nada podendo falar contra — porque, raios nos partam, o negócio está bom mesmo —, o melhor é não falar nada. Para não caracterizar juridicamente a falta de todo crédito (pois aí já seria dar a cara para apanhar), o nome de Olavo de Carvalho constará na ficha técnica, em letras miúdas, junto com a data e o preço do exemplar. Nem uma palavra sobre ele no corpo dos textos.

— E isso ainda tem uma vantagem: badalamos as editoras e assim as jogamos contra ele. E, se ele reclamar, diremos que é vaidade ofendida.

Um risinho de auto-lisonja percorre a assembléia: “Ai, como somos maquiavélicas!” Respingos de satisfação molham algumas calcinhas.

A linha justa já foi levada à prática na Folha de S. Paulo de 4 de julho. Agora, em O Globo do dia 17, em matéria assinada pelo velho Pires, o Pires propriamente dito — aquele mesmo d’ O Imbecil Coletivo —, escolhido para a tarefa precisamente por não poder ter isenção para falar de quem, em público e sem qualquer contestação, já o chamou de mentiroso.

Aguardam-se as manifestações de fidelidade do JB , de Veja , de Isto É e das demais células.

O mais curioso do caso é a desenvoltura com que esses comunistas consideram o Carpeaux coisa sua, esquecendo a brutal campanha de difamação que, orquestrada por Dalcídio Jurandir, Oswald de Andrade e o futuro dissidente Carlos Lacerda, moveram contra o escritor tão logo ele desembarcou no Brasil. O episódio é brevemente relatado na minha Introdução , e acaba de ser relembrado ao meu editor, José Mário Pereira, por Moacir Werneck de Castro, um dos participantes da operação, hoje aparentemente envergonhado dela, não sei se moralmente ou apenas politicamente, como é de praxe entre comunistas.

O leitor brasileiro não sabe que está sendo enganado, que cada página dos grandes jornais do país é calculada, controlada e censurada pela direção comunista que se apossou dessas publicações, cujos proprietários, atemorizados pelo apoio ostensivo do governo Clinton à esquerda brasileira, tentam salvar a pele ficando caladinhos e puxando, quando podem, o saco de seus seqüestradores.

Picuinhas Comunistas

— Roubaram-nos o Carpeaux! | 17 de julho de 1999

— Quem foi?

O mensageiro baixa os olhos:

— Foi... “a direita”!

Horror! Horror! Horror! Que fazer?, pergunta o secretário-geral, José Stálin Lênin da Silva. Descer o cacete não é possivel — dialetiza —: não podemos criticar quem faz o que seria nossa obrigação. Silenciar? Não podemos: seria deixar para a direita o domínio do espaço aéreo. Por fim, fazendo uso do centralismo democrático, ele mesmo responde, enunciando a linha justa :

— Celebrar a descoberta, omitindo o descobridor.

Assim, anos de pesquisas, setecentas e vinte notas de rodapé e uma introdução de oitenta páginas — o primeiro estudo abrangente que se fez da obra de Carpeaux, com dados inéditos e questões jamais perguntadas — desaparecem das folhas dos jornais, como se nunca tivessem existido. Nada podendo falar contra — porque, raios nos partam, o negócio está bom mesmo —, o melhor é não falar nada. Para não caracterizar juridicamente a falta de todo crédito (pois aí já seria dar a cara para apanhar), o nome de Olavo de Carvalho constará na ficha técnica, em letras miúdas, junto com a data e o preço do exemplar. Nem uma palavra sobre ele no corpo dos textos.

— E isso ainda tem uma vantagem: badalamos as editoras e assim as jogamos contra ele. E, se ele reclamar, diremos que é vaidade ofendida.

Um risinho de auto-lisonja percorre a assembléia: “Ai, como somos maquiavélicas!” Respingos de satisfação molham algumas calcinhas.

A linha justa já foi levada à prática na Folha de S. Paulo de 4 de julho. Agora, em O Globo do dia 17, em matéria assinada pelo velho Pires, o Pires propriamente dito — aquele mesmo d’ O Imbecil Coletivo —, escolhido para a tarefa precisamente por não poder ter isenção para falar de quem, em público e sem qualquer contestação, já o chamou de mentiroso.

Aguardam-se as manifestações de fidelidade do JB , de Veja , de Isto É e das demais células.

O mais curioso do caso é a desenvoltura com que esses comunistas consideram o Carpeaux coisa sua, esquecendo a brutal campanha de difamação que, orquestrada por Dalcídio Jurandir, Oswald de Andrade e o futuro dissidente Carlos Lacerda, moveram contra o escritor tão logo ele desembarcou no Brasil. O episódio é brevemente relatado na minha Introdução , e acaba de ser relembrado ao meu editor, José Mário Pereira, por Moacir Werneck de Castro, um dos participantes da operação, hoje aparentemente envergonhado dela, não sei se moralmente ou apenas politicamente, como é de praxe entre comunistas.

O leitor brasileiro não sabe que está sendo enganado, que cada página dos grandes jornais do país é calculada, controlada e censurada pela direção comunista que se apossou dessas publicações, cujos proprietários, atemorizados pelo apoio ostensivo do governo Clinton à esquerda brasileira, tentam salvar a pele ficando caladinhos e puxando, quando podem, o saco de seus seqüestradores.

Pt Forever Pt

marketing | 9 de dezembro de 2001

, parece que Mendonça sempre intuiu o pensamento de Hannah Arendt: “A política é feita, em parte, da fabricação de uma certa ‘imagem’ e, em parte, da arte de levar a acreditar na realidade dessa imagem”. E assim vai emergindo a imagem de um PT light no centro da qual refulge um candidatíssimo Lula de fala amena, embalado em terno e gravata e sempre pronto a fazer acordos à direita e à esquerda. Estas imagens reconfortantes vão conquistando aos poucos o próprio empresariado, e já não se teme o “Sapo Barbudo”, alcunha dada ao ex-sindicalista por Leonel Brizola.

Será que o partido dos trabalhadores já virou o partido dos patrões e ninguém percebeu?

Convenhamos, porém, que o especialista em marketing só deu uma melhoradinha no que já existia, não tendo executado nenhum passe de mágica, como aquele em que um sapo se transforma em príncipe. Isto porque, há muito tempo Lula trocou o macacão azul pelo colarinho branco. Para usar o jargão marxista, diria que o símbolo da classe trabalhadora se aburguesou. Nada de mais, uma vez que a luta de classes se resolveria se todos fossem burgueses, e todos querem alcançar o discreto charme da burguesia. Mas o fato é que o senhor Silva, ou “Lord Lula”, como o denominou recentemente Brizola, tomou gosto por charutos cubanos caríssimos, talvez por conta da amizade que entretém com o ditador Fidel Castro, com o qual esteve recentemente para tomar lições de democracia. Sim, o homem que quer ser presidente do Brasil entende que Cuba é uma democracia, e aqui não cabe maiores comentários, bastando a si mesmo o exotismo, digamos assim, da afirmação. Além do mais, Lula adora viagens ao exterior, onde realiza sua fantasia de estadista ao se avistar com certos chefes de Estado ou personagens de destaque do mundo fashion do socialismo. Nesses aprazíveis passeios ele vai a seus lugares favoritos como a China e a Venezuela, sendo que este país é governado por outra figura apreciada por Lula, o ditador disfarçado Hugo Chávez, amigão das Farcs. Mas se Lula, o eterno candidato do PT, tem sua imagem mais caprichada por obra do marketing, o que aconteceu ao seu partido? Ah, dirão muitos, o PT amadureceu, mudou. Já não é mais socialista, pela primeira vez tem um programa coerente de governo, seus membros deixaram de brigar entre si, abandonou o radicalismo, afirma que adotará em parte o Plano Real de FHC ao concordar com a manutenção do equilíbrio fiscal e a estabilidade da moeda, não fica apenas nas promessas. De fato o Partido dos Trabalhadores foi se tornando aos poucos um Partido de Classes Médias, que cultiva o moralismo udenista e se fortalece principalmente através do funcionalismo público, dos intelectuais universitários, dos profissionais liberais e dos devotos religiosos católicos, com algumas ramificações entre os protestantes politicamente corretos. Todos se dizem de esquerda, só que ninguém nunca conseguiu definir o tipo de socialismo que professam.

Na verdade, a idéia do socialismo se perde na noite dos tempos, espelhando a eterna luta entre ricos e pobres, a necessidade de igualdade que sempre foi muito forte no coração dos homens. O século XIX foi pródigo em socialistas, cada um com sua proposta igualitária como Saint-Simon, Fourier, Owen, Louis Blanc, Proudhon. Entretanto, o socialismo era um movimento relativamente burguês, e os burgueses tinham medo mesmo era do comunismo, este sim, um movimento operário por excelência. Por isso Marx e Engels, que se pretenderam socialistas científicos em oposição a todos os demais considerados por eles utópicos, acabaram preferindo para si mesmos a denominação de comunistas. Em 1848 lançam o “Manifesto do Partido Comunista”, panfleto destinado aos operários europeus, que substituía a divisa “todos os homens são irmãos”, excessivamente imbuída de cristianismo, de “devaneio amoroso” e debilitante, segundo os autores, pela epígrafe “proletários de todo o mundo, uni-vos”. Mais tarde, seguindo a tradição, os marxistas-leninistas se denominaram de comunistas e criticaram os sociais-democrátas por entenderem serem estes apenas reformadores das instituições capitalistas. O PT nunca soube a que socialismo veio e isso não mudou. É significativo, por exemplo, que no seu programa de governo exista uma só referência elogiosa ao socialismo. Depois afirmam paradoxalmente, que no seu partido “não existe nenhum compromisso com o socialismo”. Para complicar mais, asseguram que seu objetivo é o de “transformar o capitalismo selvagem em capitalismo democrático”, algo que deve soar enigmático aos ouvidos dos aguerridos militantes. O PT não mudou também em termos de brigas internas. Suas facções já estão se estranhando por conta justamente do programa de governo. E mesmo que o documento incorpore traços do Plano Real, não foge ao radicalismo nem às promessas impossíveis de se cumprir. Isso pode ser observado com relação ao antiamericanismo que rejeita a Alca, à centralização estatal, ao paternalismo trabalhista que acaba infelicitando aos trabalhadores, e outras mazelas que sempre conduziram ao atraso quem as cultiva. Além do mais, como observou o ex-ministro Maílson da Nóbrega, o documento do PT traz uma série de contradições, pois tem “propostas para aumentar os gastos, mas não explica como vai aumentar a arrecadação”. Tudo indica, portanto, que se Lula chegar lá, teremos não o efeito Orloff que vem da Argentina, mas o efeito caipirinha gelada com ressaca de cuba libre, pois, afinal, o PT é forever PT.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga e professora universitária.

E-mail:

mlucia@sercomtel.com.br Em 9 de dezembro de 2001

Leituras

Coisas Serias

julho de 1998 | Bravo!

O Brasil no Salão do Livro de Paris Se algumas décadas atrás o governo brasileiro resolvesse homenagear a cultura francesa e convidasse, para representá-la, Françoise Sagan em vez de André Malraux, Fernandel em vez de François Mauriac, Edith Piaff em vez de Raymond Aron , os franceses julgariam a coisa uma piada, e o general Charles de Gaulle, se nunca tivesse dito que o Brasil não é um país sério – como de fato parece que jamais o disse -, veria aí uma boa ocasião para dizê-lo.

No entanto nós, brasileiros, levamos perfeitamente a sério o Salão do Livro em Paris quando ele homenageia a nossa cultura literária nas pessoas dos srs. Chico Buarque, Frei Betto, Paulo Coelho, Fernando Gabeira, Zuenir Ventura, Luís Fernando Veríssimo e outros de calibre igual ou menor.

Ninguém negará que essas criaturas representam, de algum modo, a cultura brasileira. Mas de qual modo, precisamente?

Para ser representativo da cultura de um país e de um momento, o escritor tem de atender a três condições óbvias. Primeira: tem de ser ótimo, tem de expressar o melhor e o mais alto de que sua nação é capaz, tem de ter dado algo de valor ao mundo em nome do seu país. Segunda: tem de ser atual, isto é, atuante. Tem de estar up-to-date , seja pelas obras, seja pelos atos. Terceira: tem de ser influente, ser poderoso, ser muito lido e muito falado.

Dos trinta e sete escritores brasileiros da lista de homenageados do Salão de Paris, três e somente três, atendem a essas condições: Carlos Heitor Cony, João Ubaldo Ribeiro e Antonio Olinto. Todos os outros falham a uma, a duas ou às três.

Alguns deles são ótimos, mas inatuais. A falta de atualidade é, dos males, o menor. Tira a representatividade de um escritor sem diminuir em nada os seus méritos. Jorge Amado e Rachel de Queirós, por mais que tenham escrito coisas boas depois, nunca deixarão de ser o modernismo nordestino. Estão cravados nesse lugar do tempo. É um lugar honroso, o mais honroso de nossa literatura – mas não é o lugar onde estamos hoje. Lygia Fagundes Telles é maravilhosa, porém o melhor do que fez já tem duas décadas. Millor Fernandes jamais decaiu, mas ninguém dirá que, nos últimos vinte anos, fez coisa mais digna e de destaque do que Um Elefante no Caos ou Liberdade, Liberdade . Geraldo Mello Mourão é um gênio assombroso – mas há tempos ninguém ouve falar de suas obras. Quem dirá que Antonio Torres não é grande? É sim, mas não cresceu na última década: sua fama e sua melhor produção estão indissoluvelmente associadas aos anos tenebrosos da ditadura. O mesmo deve ser dito de Plínio Marcos. Há mais dois ou três nessa categoria, mas, não tendo a lista diante dos olhos, falo apenas do que conservo na memória. Por justo que seja homenageá-los, sua escolha jamais seria prioritária num evento destinado a apresentar a um povo estrangeiro a cultura brasileira de hoje.

Há um segundo grupo: o daqueles que são ótimos e atuais, mas não influem em nada, porque ninguém os leu. São uma possibilidade, uma esperança. Tenho esperança de que Adriano Espínola venha a ser o Brasil de amanhã, quando Língua-Mar e Táxi , como merecem, forem lidos em todas as escolas. No Brasil de hoje, é uma glória literária em estado de hipótese. Dizer que ele nos representa é fazer um discurso de posse antes de inscrever a candidatura. O terceiro grupo é o dos escritores que são apenas atuais sem ser influentes ou ótimos: fizeram recentemente coisas que não tiveram a menor repercussão e que, por coincidência, também não valiam nada. Sua presença na lista é um enigma insondável. Não citarei nomes.

Non raggionam di lor, ma guarda e passa .

A ala mais interessante é a dos que são influentes e atuais, apenas. Especializaram-se, aliás, em sê-lo, e não fariam o mínimo esforço para se tornar também ótimos, seja porque ignoram que raio de coisa é isso, seja porque imaginam que consista em ser exatamente aquilo que são. Por inacreditável que pareça, esses constituem o grosso da lista. Traduzem, portanto, a essência do critério que inspirou a seleção. São precisamente aqueles que citei no começo deste artigo e mais uma dezena de outros de idêntico teor intelectual. É pela análise dos motivos de sua escolha que descobriremos o que o Salão do Livro de Paris pensa do Brasil.

Não se pode dizer, repito, que esses nomes não representam a cultura nacional. Representam-na, porém não no sentido eminente em que a representaram Machado de Assis e Villa-Lobos, Gilberto Freyre e Portinari, ou no sentido em que representam, hoje, – e atendendo às três condições – Ariano Suassuna, Bruno Tolentino, Ferreira Gullar, Wilson Martins, Roberto Mangabeira Unger, Miguel Reale, Meira Penna, Amaral Viera, Edino Krieger e alguns outros que, como esses, não entram na lista. Aqueles escolhidos não representam o “gênio” brasileiro, mas, sim, apenas a “atualidade” brasileira, aquilo de que todos falam no dia-a-dia. Numa palavra, representam a nossa cultura no sentido antropológico do termo: gostos e hábitos do povo. Precisamente aquele sentido no qual estaria mais que justificada a escolha de Fernandel, Edith Piaff e Françoise Sagan como representantes da França.

Ora, o que define o ponto de vista antropológico é a abstenção de juízos de valor. Para o antropólogo, o canibalismo ou o controle da natalidade pelo estrangulamento dos recém-nascidos são meros fatos, “dados culturais”: como amostras de “cultura”, valem tanto quanto a Catedral de Chartres, as obras completas de Pascal ou o auto-sacrifício de Joana d’Arc. Do mesmo modo, Frei Betto ou Paulo Coelho não são valores brasileiros. São fatos e têm uma altíssima relevância antropológica. Não podemos negar que aconteceram, embora haja quem o lamente.

O ponto de vista antropológico pressupõe, no observador, uma neutralidade, um distanciamento, que dificilmente ele poderia ou desejaria sentir ante sua própria cultura. Malinovski nas Ilhas Trobriand ou Ruth Benedict entre os índios do Novo México podiam olhar as coisas de longe porque tinham vindo de longe e sabiam que iam voltar para longe – para o lugar onde estavam as coisas amadas e odiadas, as coisas verdadeiramente importantes e valiosas, as coisas que exigem decisões e compromissos. Comparada com as exigências concretas da vida, a “cultura” que o antropólogo estuda é um modelo funcional ou estrutural, uma cultura de brinquedo, desmontável e inofensiva.

Quem se coloca desse ponto de vista, geralmente, não pretende adotar para si nenhum dos valores da cultura estudada, mas, confortavelmente instalado nos valores da própria cultura, quer apenas observar com isenção de entomologista uns tipos exóticos que usam osso atravessado no nariz e comem criancinhas. Ninguém olha uma cultura com tamanha frieza quando pretende aprender com ela, isto é, incorporá-la, moldar por ela valores, hábitos, critérios e decisões pessoais, muito menos nacionais. Essa é a diferença que existe num francês quando ele estuda tribos nigerianas e quando lê Goethe ou Hegel, Shakespeare ou Leopardi. Ele aprende em ambos os casos, mas a diferença é a mesma que há entre um objeto de estudo e o professor que o ensina. O objeto é passivo e inerme ante o estudante. O professor ou mestre, ao contrário, ensina, dirige, molda. O interesse por uma cultura não é o mesmo conforme se trate, para o observador, de uma cultura-objeto ou de uma cultura-mestra. Se o Salão do Livro de Paris houvesse escolhido, para representar o Brasil, um Suassuna, um Tolentino, um Mangabeira, um Miguel Reale, haveria motivo para supor que a França, a orgulhosa França, consentira em aprender com brasileiros que têm algo a lhe ensinar. Como escolheu predominantemente aquelas pessoas que mencionei, torna-se claro que ela deseja aprender sobre nós, mas não de nós. Não nos quer como professores, mas como objetos de estudo. Como objetos de estudo, os escolhidos foram, sem dúvida, bem escolhidos: o sr. Chico Buarque é pelo menos tão significativo, antropologicamente, quanto um exemplar de Notícias Populares, as práticas orçamentárias do Congresso Nacional, o time do Corinthians ou a banheira do Gugu.

Um Novo Modelo De Transparencia

janeiro/fevereiro de 2009 | Digesto Econômico

Compreender os objetivos gerais da administração Obama com base nas suas primeiras medidas de governo não requer o mais mínimo esforço diagnóstico. Essas medidas falam por si mesmas de uma maneira tão clara que algum esforço seria necessário, isto sim, para não enxergar o que pretendem e aonde vão levar.

Desde logo, Obama tratou de acenar com um gesto de simpatia para os inimigos do país, escolhendo, para conceder sua primeira entrevista como presidente, a rede de TV Al-Arabiya. Chamá-la de canal terrorista não é nenhum exagero, não só pelo conteúdo editorial dos seus programas, mas pelo fato singelo de que o edifício-sede da emissora é usado como base para o lançamento de foguetes contra Israel.

Mais entusiasmo ainda entre as hostes anti-americanas ele despertou com o anúncio do fechamento da prisão de Guantanamo. Não há um só comunista ou radical islâmico no mundo que não considere isso uma vitória espetacular. A gritaria universal contra a “tortura” ali praticada conseguiu obscurecer por completo a diferença do tratamento concedido a prisioneiros de guerra nos EUA e entre os terroristas. Quem quer que tenha visto seres humanos implorando por suas vidas segundos antes de ter suas cabeças cortadas entende que a afetação de piedade pelos terroristas submetidos ao waterboarding (prática usada no treinamento dos próprios soldados americanos) é uma deformação monstruosa do senso moral. Impor essa deformação à mente das multidões tornou-se um objetivo sistemático da grande mídia e da intelectualidade esquerdista por toda parte. Obama julgou prioritário agradar a essa gente logo na sua primeira semana de governo, mesmo ao custo de endossar a difamação do seu país.

Uma onda de alívio percorreu as almas dos produtores de petróleo árabes, bem como de Hugo Chávez, quando Obama vetou a perfuração de novos poços em alto-mar, que o Congresso havia aprovado em obediência a pressões populares.

Nada, porém, pode ter ressoado mais docemente aos ouvidos do anti-americanismo do que o anúncio presidencial de que pretende cortar o estoque de armas nucleares dos EUA em nada menos de oitenta por cento. Os EUA têm atualmente 2.300 ogivas. A opinião geral dos especialistas militares é que abaixo de duas mil, a superioridade bélica dos EUA terá sido eliminada e o país estará exposto à derrota ao primeiro ataque. É universalmente reconhecido que a Rússia jamais cumpriu a sua parte em acordos de redução. Obama sabe perfeitamente bem que não há o mais mínimo motivo para esperar que o homem da KGB atualmente no poder vá agir de maneira diferente. A redução será unilateral, e Obama encara essa perspectiva sem pestanejar.

Já a simples composição de sua equipe de governo mostra da maneira mais patente o estofo moral e patriótico da nova administração. Leon Panetta, indicado para diretor da CIA, é um homem que não passaria em nenhum teste de segurança para ser um simples empregado burocrático nessa ou em qualquer outra agência de inteligência dos EUA, por suas ligações estreitas com o Institute for Policy Studies , reconhecidamente um braço da KGB. Nenhum outro governo americano jamais nomeou tanta gente errada logo nos primeiros dias. Após ter prometido que seu governo se pautaria pelo mais rígido controle ético jamais visto na história americana, Obama convocou para os altos postos os seguintes tipos inesquecíveis:

· O governador do Novo México, Bill Richardson, teve de renunciar à nomeação para secretário do Comércio, porque está sob investigação num grande júri por favorecimento ilícito aos seus colaboradores de campanha.

· Timothy Geithner, nomeado secretário do Tesouro, chegou lá com uma dívida jamais paga de 34 mil dólares em impostos.

· Thomas Daschle, nomeado para chefiar o Departamento de Saúde, renunciou à nomeação quando se soube que havia deixado de pagar impostos no valor de 146 mil dólares.

· O mesmo aconteceu com Nancy Killefer, nomeada chief performance officer (encarregada de enxugar o orçamento, atividade que de algum modo ela já vinha desempenhando ao abster-se de pagar seus impostos).

· A deputada Hilda Solis, nomeada secretária do Trabalho considera-se uma vítima inocente de perseguição porque há pessoas que a julgam incapacitada para o cargo só porque – vejam vocês – seu marido esteve envolvido em fraudes de imposto por dezesseis anos.

· Por fim, David Ogden, nomeado para segundo no comando da Procuradoria Federal, é conhecido como advogado de firmas de pornografia. Há mesmo quem o considere – quanta injustiça! – um hired gun (pistoleiro de aluguel) a serviço da indústria da obscenidade.

Por enquanto é só. Ninguém mais foi acusado de nada. No entanto, entre os demais nomeados, há pelo menos onze que pertencem à Comissão Trilateral, órgão fundado por David Rockefeller em 1973 com o propósito de dissolver a soberania americana e instalar um governo mundial. São eles:

· Timothy Geithner, já citado como secretário do Tesouro;

· Susan Rice, embaixadora nas Nações Unidas;

· Thomas Donilon, conselheiro de Segurança Nacional;

· Paul Volker, diretor da Comissão de Recuperação Econômica;

· General James L. Jones, conselheiro de Segurança Nacional;

· Almirante Denis C. Blair, diretor de Inteligência Nacional;

· Kurt M. Campbell, secretário-assistente de Estado para a Ásia e o Pacífico;

· James Steinberg, secretário-assistente de Estado;

· Richard Haass, Dennis Ross, Richard Holbrooke, enviados especiais do Departamento de Estado.

Muitos outros membros do gabinete têm ligação com a Trilateral: a secretária de Estado Hilary Clinton é casada com um membro da comissão; o grupo de conselheiros de Tim Geithner inclui quatro membros da comissão; e assim por diante: o governo Obama é uma fortaleza do globalismo.

Não espanta, portanto, que em suas políticas sociais o novo presidente venha tratando de implementar o mais rapidamente possível os programas mais apreciados pela elite globalista, como por exemplo o abortismo. Uma das primeiras medidas de Obama foi liberar algumas centenas de milhões de dólares para disseminar a prática do aborto não só nos EUA, mas no mundo todo. Numa significativa demonstração de elasticidade moral, o presidente declarou que “Deus jamais perdoará a matança de bebês inocentes”, no instante mesmo em que liberava o dinheiro do contribuinte americano para financiar essa matança. Mais abortos ainda serão provocados pela liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias, que o presidente já anunciou: as esperanças mais estapafúrdias de cura para todas as doenças possíveis e imagináveis embelezam e legitimam essas pesquisas, que até agora não deram o mais mínimo sinal de poder alcançar algum resultado, ao contrário do que acontece com as investigações de células-tronco adultas.

Complementarmente, o novo governo já demonstra da maneira mais inequívoca sua intenção de reprimir e boicotar as comunidades religiosas que se oponham aos novos modelos de “moralidade” propugnados pelo globalismo: no seu rol de “estímulos” à economia, toda ajuda é ostensivamente negada a qualquer organização escolar ou assistencial que dê abrigo, direta ou indiretamente, a empreendimentos religiosos. Se uma escola, por exemplo, permite que um grupo de católicos ou evangélicos crie dentro da sua sede um grêmio religioso, estará excluída de toda ajuda oficial. Para grupos de gays e abortistas, não há nenhuma limitação nesse sentido.

O “estímulo”, por fim, apresentado como socorro de emergência a uma economia em perigo, é nada mais que um pretexto para alimentar de dinheiro as organizações que apoiaram Obama durante a campanha: a Acorn, por exemplo, que caprichou no obamismo ao ponto de espalhar milhares de títulos de eleitor falsos para aumentar a votação do seu queridinho, recebeu nada menos de quatro bilhões de dólares, o que prova que ao novo presidente não falta a virtude da gratidão, embora posta em prática com o dinheiro alheio – um óbvio favorecimento eleitoral que, em circunstâncias normais, seria motivo cabal de impeachment . Mas nada no governo Obama é normal.

O estímulo, em todo caso, se não trouxe nem pode trazer maiores benefícios, já que apenas cinco por cento do total da verba se destinam aos setores afetados pela crise, pelo menos serviu para demonstrar que a mágica de Obama não é infalível. Ao convocar as organizações populares para um vasto movimento de apoio ao seu plano econômico, ele só obteve um comparecimento irrisório. Na própria capital do país, só quinhentas pessoas se inscreveram; em Sacramento, Califórnia, 78; em Fort Worth, Texas, 54; em Tacoma, Estado de Washington, 34: é a “mobilização de massas” mais micha que já se viu desde que Fernando Collor de Mello apelou ao povo para que saísse às ruas vestido de verde e amarelo.

Segundo uma pesquisa da Zogby, 53 por cento dos americanos acham que o plano de Obama vai atrasar a recuperação econômica; só 31 por cento acham que não. Cinqüenta e sete por cento das pessoas sem partido acham que a coisa gasta dinheiro demais, concordando nisso com 89 por cento dos republicanos. O mercado parece dar razão a eles: a Media Dow-Jones caiu 400 pontos tão logo o governo anunciou o gasto de 838 bilhões de dólares. A estupidez suicida do plano é ainda sublinhada pelo fato de que ele busca atrair para si o prestígio histórico do New Deal, na mesma semana em que um estudo empreendido por economistas da Universidade da Califórnia (insuspeita de quaisquer inclinações conservadoras) revela que o ambicioso projeto econômico de Franklin D. Roosevelt atrasou em pelo menos sete anos a recuperação econômica do país. Roosevelt, como Obama, jogava todas as culpas nas costas da competição capitalista, encobrindo os resultados desastrosos do intervencionismo praticado por seus antecessores e apostando tudo em doses ainda maiores de intervencionismo. O plano de Obama é ainda mais intervencionista e socialista. Nesse ponto parece haver acordo entre a direita e a esquerda. Rush Limbaugh, o mais ouvido comentarista de rádio conservador nos EUA, diz que Obama está implantando o socialismo nos EUA. Sam Webb, líder do Partido Comunista americano, concorda inteiramente. O primeiro joga pedras, o segundo aplaude – mas, no que diz respeito aos fatos, não têm a mínima divergência.

As Libelulas Da Usp

homepage | 7 de abril de 2000

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“Nasci no dia 03/01/1950, em Joaçaba, SC, no então distrito de Luzerna (atualmente, município). Sou militar da ativa, incorporei no Exército como soldado em 16 Jan. 1970 e fui promovido ao posto atual (1o Tenente) em 01 Jun. 1997. Estudei nos seminários franciscanos de Luzerna, SC, Rio Negro, PR, e Agudos, SP, nos anos de 1961 a 1969. Em 1971 fiz o curso de sargento (fotocinegrafista) na Escola de Comunicações, no Rio de Janeiro, RJ. Após o curso servi em unidades do Rio, até 1989, quando fui transferido para Brasília, onde sirvo até hoje. De 1972 a 1975 estudei economia nas Faculdades Mário Henrique Simonsen e Moacir Sroeder Bastos. Tive uma rápida experiência no cinema, ao ser o câmera do filme em esperanto La sesa raso (‘A Sexta Raça’), de Reginaldo Orestes Lima Cipolatti. (Como amante da 7a arte, tenho uma boa bibliografia sobre o assunto.) De 1990 a 1992 fui auxiliar do Adido Militar no Egito, experiência que deu origem ao meu livro Egito – Uma Viagem ao Berço de Nossa Civilização, concluído em 1995. O livro, disponível nas livrarias da Universidade de Brasília, foi rejeitado para constar nas vitrines da Siciliano e da Sodiler (por não ser “comercial”), porém tem agradado a muito mais pessoas do que eu podia imaginar.”

As libélulas da USP Uma estudante escreveu ao filósofo Olavo de Carvalho, reclamando do ensino ministrado na universidade. Faltava aprofundamento de estudo nas disciplinas e a quase totalidade dos professores discorria sempre sobre os mesmos assuntos, as mesmas frases codificadas e as mesmas palavras de ordem comuns na doutrinação comunista. Não havia chance nenhuma de o aluno discordar do dogma marxista proposto em sala de aula e os professores que não seguissem a mesma crença eram também discriminados. Dizia a moça que tinha a impressão de que até os porteiros da universidade, em ato reflexo, repetiam as mesmas frases pré-frabricadas dos professores.

Não é de hoje que a propaganda marxista se instalou em nossas escolas. Já há bastante tempo, em livros de história do 2o grau (1), a Revolução Cubana é ensinada como a redenção humana, são apresentadas afirmações que se anulam, pois uma educação imposta a todos pelo terror não pode ser considerada educação. Ela deve ser pluralista e honesta, não sectária e terrivelmente pobre, como é a educação marxista em Cuba. A Revolução Russa é apresentada como um marco da humanidade, são citadas obras de escritores marxistas para complemento dos estudos, assim como é sugerido assistir ao filme Encouraçado Potenkin , que é no fundo uma propaganda comunista, por apresentar a luta de classes, a revolta dos marinheiros contra seus “opressores”. Todos esses livros, porém, se calam sobre o que realmente ocorreu nesses países (e ainda ocorre em Cuba) e nenhum deles recomenda a leitura de Arquipélago Gulag , de Alexandre Soljenítsin (2), o livro mais contundente já escrito sobre os crimes da antiga URSS, especialmente sob a tirania de Stálin. Apesar de a esquerda tentar esconder o fato, os famigerados “Processos de Moscou” ocasionaram o fuzilamento de milhares de pessoas e a remessa para os trabalhos forçados nos campos de horrores dos gulags um contingente de pessoas ainda hoje desconhecido, uma multidão de 40 a 60 milhões de condenados, ninguém sabe ao certo. Ao todo, a URSS assassinou 25 milhões de pessoas, só em casa.

Sobre os gulags o cinema norte-americano deve à humanidade um filme tão ou mais contundente que a “Lista de Schindler”. Mas, como disse o cineasta Arnaldo Jabor, a respeito do filme italiano “A Vida é Bela”, que desbancou o brasileiro “Central do Brasil”, “americano gosta de filme que tenha judeu, criança e cachorrinho”. E os gulags não têm essas imagens tão caras ao subconsciente norte-americano. Provavelmente, Hollywood nunca irá fazer um filme sobre os gulags, já que entre suas hostes encontram-se mais vermelhos do que James Bond possa imaginar. Basta lembrar da cena de um Nolte sentado de braços cruzados, na noite de entrega do Oscar, tripudiando sobre a importância histórica do cineasta Elia Kazan, um dos homenageados, pelo simples fato de ele, apesar de imigrante, ter apoiado o macartismo, ou seja, ter sido um americano patriota e anticomunista. Ou ainda, na mesma ocasião, a saída rápida do auditório de nosso patrício Moreira Salles, diretor de “Central do Brasil”, também “enojado” com a presença daquele “traidor”. Na realidade, são todos farinha do mesmo saco, unha e carne, bagos e estrovenga.

Além do ensino marxista nas escolas secundárias, agora há um sistema de ensino criminoso sendo ministrado em acampamentos do MST. O jornal “O Estado de S. Paulo” denunciou essa “pedagogia do gueto” (3), onde as crianças, como os antigos balilas do fascismo italiano, são amestradas na doutrinação comunista. Nesses acampamentos, 7 de setembro não é Dia da Pátria, mas dia dos excluídos. Os heróis nacionais não são Tiradentes, Caxias, Santos Dumont, porém Antônio Conselheiro, Lampião, Lamarca, Marighela, Luís Carlos Prestes. As escolas têm nomes sugestivos como Che Guevara, Mao Tse Tung e outros crápulas. Desde a mais tenra idade, as crianças são ensinadas a ter ódio de quem tem uma propriedade e a não respeitar as leis vigentes no país, já que “a lei é feita para atender aos interesses da minoria e não do povo”, como prega a cartilha guerrilheira do MST, A Vez dos Valores . Para o MST, datas importantes são a morte de Guevara, o “massacre” de Eldorado do Carajás e outras aberrações. Com a ajuda financeira e promocional de muitas entidades do Brasil e do exterior, incluindo a CNBB (a banda vermelha e podre, vale ressaltar), a Unicamp (com seus seminários de incentivo à guerrilha dos camponeses), e o próprio Governo FHC, via INCRA, o MST está se fortalecendo dia a dia, impondo o terror aos proprietários rurais como se aqui estivesse ocorrendo o outubro vermelho de 1917. Com o acovardamento dos governadores, receosos da ocorrência de outros “eldorados do carajás”, e com a inoperância da justiça, que não garante o respeito à propriedade, o MST está se tornando um estado dentro do Estado brasileiro, em total desrespeito à Constituição.

No ensino superior, o sistema não é diferente. A baboseira marxista não tem fim nunca, os alunos são obrigados a xerocar (sem pagar direitos autorais – outra imoralidade) as mesmas coisas que quase todos os professores pedem, pois todos os autores indicados apresentam sua curta visão do conhecimento humano, já que se negam a ensinar a sabedoria acumulada pela filosofia mundial durante milhares de anos para beber apenas na fonte marxista. E uma fonte, por sinal, mal absorvida, pois retiram dos tais livros apenas frases e pensamentos que correspondem a seus interesses imediatos, quase nenhum dos autopropalados “intelectuais” leu por completo as obras de Marx, apenas algumas resenhas medíocres que permeiam os livros de filosofia e sociologia de nossos principais autores do momento. É o mesmo que extrair da Bíblia algumas passagens inusitadas e até ultrapassadas em relação ao atual estágio de evolução da humanidade para apenas enfatizar alguma argumentação de nosso interesse. Em Brasília um homem disse que estuprou sua filha porque havia um caso semelhante na Bíblia, de Lot que deitou com suas duas filhas, ou melhor, que foi embriagado pelas filhas para que a procriação da família não cessasse. Nesse incesto de teses promíscuas, nesse pacto mafioso de todos concordarem entre si, fazerem agrados mútuos e citarem-se uns aos outros, sem discordância nenhuma de suas premissas marxistas-gramscistas, pode-se imaginar o nível de mediocridade atingido por nossas universidades. Antigamente, os latinos já se defrontavam com esses “idiotas coletivos” (4), quando diziam que “asinus asinum fricat”. Na época, seria dizer que “um burro coça outro burro”. Hoje poderíamos traduzir a citação como “os cães lambem-se os rabos uns dos outros”.

Neste universo de cães lambendo-se os rabos sujos uns dos outros, destacam-se as libélulas da USP. Geradas espontaneamente a partir do grupo Libelu (5), aumentaram sua população a taxas indianas. As libélulas mais conhecidas são Leandro Konder, Paul Singer, Marilena Chauí, Cecília Coimbra e Emir Sader. Não há como negar que todos eles tenham alguma inteligência. O que não é louvor nenhum. Se até Washoe, uma chimpanzé trancada num zoológico nos EUA foi capaz de aprender 130 palavras da American Sign Language – uma linguagem para surdos-mudos -, por que as libélulas da USP não poderiam utilizar seu tutano para transformar os grunhidos em algumas dúzias de palavras impressas? Aparentemente, as libélulas da USP até escrevem bem. Mas só aparentemente. O “ópio dos intelectuais” que eles fumam há décadas em seus cachimbos acadêmicos já os anestesiaram há muito tempo e ficam repetindo como macacos os mesmos chavões marxistas, as mesmas frases engessadas e esclerosadas de sempre. São seres de outras galáxias, etês que não têm nenhuma ligação com nossa atividade terrestre. Apenas papagueiam teses ultrapassadas na teoria e na prática no que se refere a “luta de classes”, a “mais-valia”, a “burguesia” (6) e tudo o mais que se possa imaginar que passam por suas cabeças dopadas com o entulho de idiotices que absorveram desde a juventude, hoje com um tempero gramscista, para parecerem modernos e sintonizados com o mundo. O mundo em que vivemos, seja ele apelidado de capitalista, neoliberal, o que for, ou seja, aquele que anda de verdade, movido pela inexorável roda da história, não apresenta nada do que as libélulas da USP pregam em suas cartilhas, seja nas universidades, seja nos meios literários. Artigos ocos, bolorentos, primários, cheios de ódio e preconceito enxovalham nossos principais jornais. Cadê os artigos veementes e muitas vezes desconcertantes de um Santayanna no Correio Brazilense? Foram varridos pelo lodo fedorento de Emir Sader nas edições de domingo.

Uma das principais teses das libélulas da USP é a de se apresentarem como democratas, que combateram a vil ditadura dos militares. A história é testemunha desta mentira deslavada, pois todos os movimentos guerrilheiros no Brasil e nos demais países da América do Sul tiveram origem na Conferência da OLAS, em Cuba, no ano de 1967, quando Fidel Castro, junto com o então senador Salvador Allende, do Chile, e Carlos Marighela, do Brasil, entre outros, começaram a “criar vietnãs em cada país sul-americano”, para tentar a derrubada dos governos e instituir o comunismo, não para implementar a democracia. As libélulas da USP não se coram pelos crimes cometidos em nome do comunismo, aqui e no mundo todo, que ocasionaram 110 milhões de mortos, como atesta o Livro Negro do Comunismo (7). Diz o ditado que pelo fruto conhecemos a árvore. Os macacos esquerdistas continuam trepados na árvore plantada por Marx, porém não aceitam que se discuta os frutos podres que esta doutrina maligna espalhou pelo mundo inteiro. A moral que pregam perante o mundo tem o mesmo valor da NASCA, dos EUA, um clube que promove a suruba globalizante primeiro-mundista, os “swings”, ou seja, a troca de casais.

Reis e príncipes da mentira – emir, em árabe significa príncipe -, as libélulas da USP, além de reescrever a história à sua cara, escamoteiam informações e simplesmente ignoram tudo o que possa denegrir ainda mais sua doutrina satânica. Da mesma forma, a imprensa brasileira, impregnada de filhotes dessas libélulas, escondem informações preciosas ao público e sempre minimizam os crimes que os líderes comunistas praticaram. Recentemente, descobriu-se que um dos ícones do comunismo, a indígena guatemalteca Rigoberta Menchu, que havia recebido o prêmio Nobel da Paz por conta de sua biografia, onde são relatados perseguições e mortes contra sua família, não passava de uma mentirosa deslavada. A imprensa, como de costume, nada noticiou. Luiz Carlos Prestes, cantado em verso e prosa por Jorge Amado e pelos bicheiros das escolas de samba do Rio de Janeiro, foi um assassino frio, ao mandar “justiçar” Elza, sua comparsa na tentativa de implantar o comunismo no Brasil, em 1935. Documentos recentes liberados após a morte de Juarez Távora comprovam as maldades perpetradas pela Coluna Prestes em todo o país. O “cavaleiro da esperança” era na realidade o chefe dos cavaleiros do apocalipse, promovendo assaltos e roubos a residências, estupros e assassinatos. E os jornais, o que noticiaram sobre este agente de Moscou (8)? Nada.

Invariavelmente, as libélulas da USP (assim como as borboletas da UnB, as mariposas da UFRJ e outros insetos mais) se utilizam sempre da mesma cantilena anestésica e de seus truques de mister M de subúrbio para hipnotizar seus pobres alunos em sala de aula. Fazem lembrar a feira de Duque de Caxias, no Rio, onde espertalhões vendem pardais tingidos de amarelo como se fossem canários. Da mesma forma, as libélulas da USP tingem suas teses acadêmicas com um colorido psicodélico que hipnotiza e imbeciliza toda uma geração de jovens universitários. Quando saírem para o mercado de trabalho, os bacharéis verão que perderam a mais bela parte de suas vidas ouvindo mentiras, que têm um canudo que nada lhes acrescenta e que terão que aprender a duras penas o que realmente existe extra muros , longe do parque dos dinossauros habitado pelas libélulas da USP.

Hoje, infelizmente, não são apenas os porteiros que repetem em ato reflexo as idiotices marxistas-gramscistas em nossas universidades. Até os vira-latas perdidos nos campi da USP, da UnB e de tantas outras universidades brasileiras passaram a latir: mao, mao, mao! E os gatos respondem: tsssetung, tsssetung, tsssetung!

Notas:

PAZZINOTO, Alceu Luiz; SENISE, Maria Helena Valente.

História Moderna e Contemporânea . Editora Ática, 7a edição, São Paulo, SP, 1994.

SOLJENÍTSIN, Alexandre.

Arquipélago Gulag . Difel/Difusão Editorial S.A. São Paulo e Rio de Janeiro, 1976.

A Pedagogia do Gueto do MST . Jornal O Estado de S. Paulo, 11 de junho de 1999.

CARVALHO, Olavo de.

O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras . Faculdade da Cidade Editora e Academia Brasileira de Filosofia, Rio, 1996.

Libelu – Liberdade e Luta: movimento estudantil-lambertista atuante na USP durante os governos militares. Pierre Lambert foi um dos ideólogos da IV Internacional (Trotskista).

Quem é mais burguês hoje em dia do que os neoburgueses, ou seja, as libélulas da USP, os proprietários de milhares de ONG que se refestelam com o dinheiro alheio, e a “intelectualidade” que faz a festa no atual governo dos tucanos, aninhados em postos-chave, com polpudos salários, comissões, viagens com diárias pelo Brasil e pelo exterior?

COURTOIS, Stéphanie; WERTH, Nicolas; PANNÉE, Jean-Louis; PACZKOWSKI, Andrzej; BARTOSEK, Karel; e MARGOLIN, Jean-Louis.

The Black Book of Communism . Harvard University Press, USA, 1999.

WAACK, William.

Os Camaradas .

Reparando Uma Injustica Pessoal

em 31 de março de 1999. | Discurso pronunciado no

Transcrição revista pelo autor.

NB – Meu artigo “ A história oficial de 1964 “, publicado em O Globo de 19 de janeiro de 1999, que nenhum mandarim da esquerda ousou responder, todos deixando o espinhoso encargo para uma inábil professorinha do interior que acabou confirmando todos os meus argumentos, trouxe para o autor um presente inesperado e — nos dias que correm — bastante incômodo: a amizade dos militares. É preciso estar maluco para declarar isto em público, mas é certo que essa amizade muito me honra e me alegra. E foi ela que levou dois ilustres militares brasileiros, o Cel. Luís Paulo Macedo Carvalho, presidente do Instituto de História e Geografia Militar, e o Gen. Hélio Ibiapina Lima, presidente do Clube Militar, a me convidar para falar nessas duas instituições, respectivamente nos dias 30 e 31 de março passado. O que eu disse numa e na outra foi mais ou menos a mesma coisa, mas o discurso do Clube Militar foi gravado e transcrito, o que me permite reproduzi-lo nesta homepage . O discurso foi pronunciado de improviso, sem notas. Publico aqui a transcrição integral da gravação em fita, sem alterações, apenas corrigida em detalhes de linguagem e completada nos pontos truncados. — O. de C.

Agradeço comovido ao General Hélio Ibiapina e a todos os queridos amigos do Clube Militar este convite que muito me alegra, e peço permissão para começar esta conferência com uns detalhes autobiográficos, não por vaidade, absolutamente, mas apenas porque alguns fatos da minha vida se encaixam muito bem no assunto que vamos abordar aqui.

Existem pessoas que têm o dom de se aproximar de quem está no poder. Eu pareço que fui brindado com o dom contrário. No tempo dos governos militares, logo no começo, entre 1966 e 68, eu era um militante do Partido Comunista e odiava os militares; eu os chamava de “gorilas”, como aliás todo mundo naquele meio. Tive muitos amigos e parentes que foram prejudicados pelo governo militar e durante todo aquele período eu me senti marginalizado, como muitos membros da minha geração, em razão de minha hostilidade ao regime. Hoje em dia, quando os esquerdistas estão no poder, dominam tudo e estão passando muito bem de saúde, já não estou mais ao lado deles e estou aqui falando para vocês. Por isto é que digo que fui brindado com este dom de fazer sempre as amizades mais inconvenientes no momento. Todos conhecemos muitas pessoas que fizeram carreira no regime militar e tão logo a situação mudou trataram de trocar de amizades, porque era melhor para a sua saúde...

Ora, toda a experiência que vivi, primeiro ao lado dos esquerdistas e depois numa longa solidão para a qual me retirei após ter me desiludido com a perspectiva socialista, para poder meditar e refazer de certo modo o meu mundo de idéias, toda esta experiência me ensinou, em primeiro lugar, a inconveniência de falar quando não se tem um mínimo de certeza razoável. Devo lembrar aos senhores que a minha atuação pública começa apenas em 1996, com o livro O Imbecil Coletivo . Até aí a minha vida tinha sido muito modesta, muito discreta, dando minhas aulinhas e escrevendo uns livros de filosofia que ninguém lia. Só publiquei O Imbecil Coletivo porque observei a ascensão de um tipo de mentalidade destrutiva, não só do ponto de vista político mas sobretudo no que diz respeito à destruição da inteligência humana. Tendo observado fatos cada vez mais alarmantes, na área cultural, e vendo que ninguém dava sinal de tê-los percebido, eu disse a mim mesmo: “Parece que sobrou para mim”. Então, com competência ou sem ela, foi necessário fazer alguma coisa. Esse livro, na época, desencadeou uma onda que eu não diria de raiva, foi mais onda de pânico, entre pessoas do meio intelectual que jamais tinham sido criticadas no mais mínimo que fosse e que estavam acostumadas com o dogma da intangibilidade sacrossanta de suas pessoas. Um deles, lembro-me claramente, foi o prof. Leandro Konder, um comunista histórico, um homem que nunca foi criticado par nada, um homem sem defeito, um homem sem mácula e que, onde quer que vocês perguntem a respeito dele, lhes dirão: “O Leandro é uma moça”, “O Leandro é um cavalheiro, é um gentleman .” Dele não se fala mal. E esse homem, por conta do seu prestigio de gentleman , vinha não só mentindo compulsivamente em assuntos culturais, mas pregando idéias bastante destrutivas, por trinta anos protegido pelo manto de sua pretensa delicadeza. Então, quando ousei mexer nessa figura, muita gente ficou escandalizada, parecia que ia ter um enfarte, e eu notei que para essas pessoas doía mais nos seus corações ver alguém destratar intelectualmente um Leandro Konder, um Oscar Niemeyer ou alguém assim, do que ouvir blasfêmias contra Jesus Cristo. Eu cheguei a ver pessoas, em conferências minhas, passarem mal fisicamente ao ver-me desmascarar certas figuras da sua adoração. Tudo isso eu vi com estes dois olhos, não estou inventando nada. Eu vi no rosto dessas pessoas a emoção que a Bíblia chama “escândalo”. Que é o escândalo, no sentido bíblico do termo? O escândalo é um fato que desmente a nossa fé, que viola a integridade da nossa alma e abala a nossa confiança na ordem do universo.

Então, quando eu dizia certas coisas para certas platéias, as pessoas sentiam a emoção do escândalo, uma espécie de terror espiritual ante a morte do seu Deus. Não posso dizer que os artigos que publiquei, reunidos nesse livro, tenham suscitado propriamente ódio ou rancor. Eu tenho certeza de que suscitaram medo.

As pessoas sempre me perguntam se nunca recebi pressões ou se fui intimidado ou ameaçado. Sim, isso aconteceu algumas vezes, mas ninguém fica trinta anos quieto num canto, pensando, para depois recuar ao surgir a primeira reação adversa. Recuamos só quando, na juventude, no arrebatamento do entusiasmo, nos levantamos de improviso contra algo que no calor da hora nos parece errado e o adversário reage, aí sim nos intimidamos e corremos e pomos o rabo entre as pernas. Praticamente toda a minha geração fez isso. Fez isso baseada sobretudo no mito lisonjeiro de que a juventude é idealista e de que a juventude tem amor à justiça. Ora, o que vocês achariam de um juiz de quinze anos de idade que condenasse o réu sem sequer tê-lo ouvido? Não há amor à justiça quando não há amor à verdade, e não há amor à verdade quando não há sequer a paciência de esperar para conhecê-la. Isto quer dizer que esse famoso amor à justiça que se atribui à juventude é apenas vaidade, pretensão e arrogância. Evidentemente esses sentimentos baixos, como todas as paixões infames de que o ser humano é capaz, sempre podem ser muito bem trabalhados e aproveitados por pessoas sedutoras. A palavra “sedutor” vem do latim sub ducere .

Ducere é “conduzir”, e sub , “por baixo”. Quer dizer: o sedutor é alguém que nos conduz pela nossa parte inferior, pela nossa parte fraca e pelas nossas tendências abissais ocultas. Ora, não há tendência mais baixa do que a vaidade e a arrogância rancorosa. Quem quer que diga a um garoto de quinze anos que ele é superior à geração de seus pais porque tem o espirito da justiça é apenas um sedutor barato e mentiroso. Mas acho que não houve na história do século XX uma única geração que não tenha ouvido esse canto de sereia. Eu também ouvi, eu também fui seduzido, eu também achei maravilhoso me imaginar o grande justiceiro: aos dezessete, dezoito anos eu tinha a certeza de que sabia quais eram os males do mundo, de que eu sabia quais eram os culpados pelos males do mundo e qual a punição que deveria lhes ser aplicada. Também tinha a certeza de que o principal mal do mundo era que não me dessem os instrumentos de punir todos os culpados. Ou seja: para resolver tudo bastava uma só coisa — dar o poder absoluto ao Olavo de Carvalho e a seus cumpinchas. Então tudo estaria resolvido, isto eu achava aos dezessete anos e toda a minha geração pensava como eu. Vocês chamam isso de espirito de justiça? Eu chamo de espirito de estupidez, espirito de arrogância, espírito da pretensão boba. A diferença entre eu e os meus companheiros de geração é a seguinte: eu percebi isso e eles não.

Quando falo em companheiros de geração, às vezes se trata de pessoas que me eram bem mais próximas que meros companheiros de geração. Durante um certo tempo dividi um apartamento com o Rui Falcão, que foi presidente do PT, e ambos éramos amigões do José Dirceu, que não saía dali; então, esses eram os meus companheiros. Eu percebi que eu era um palhaço arrogante e eles nada perceberam de si mesmos até hoje.

Não sei se cheguei a ser alguma coisa que preste, mas aquela porcaria que eu era já não sou mais. Não consigo mais me enganar com tanta facilidade, não consigo dizer a mim mesmo, como naquela época: “Olavo, você sabe quem são os culpados dos males do mundo”, “Olavo, você tem o direito de reivindicar a posse do chicote universal para açoitar o lombo de todos os malvados”, e assim par diante. Ora, estou com 52 anos, alguma coisa devo ter aprendido neste período, mas certamente, se aprendi, foi porque me abstive de falar durante vinte anos ou mais. Ontem mesmo, na conferência que fiz no Instituto de Geografia e História Militar, estava contando que fiz como Buda, que, sendo tomado por uma dúvida, sentou ao pé de uma árvore e disse: Não me levanto daqui até descobrir a resposta. Eu também tive um amigo, já falecido, que foi um grande psicólogo clinico, Juan Alfredo César Müller, o qual, na sua juventude, tendo terríveis dúvidas vocacionais, entrou numa igreja e disse para si mesmo: “Vou me ajoelhar e vou rezar até obter a resposta ou vou morrer ajoelhado aqui.” Assim, ele obteve a evidência, uma espécie de sinal divino de que ele devia seguir a carreira de psicólogo, e raramente uma vocação foi tão acertada como a desse grande gênio da psicologia clinica . Quando a gente quer a verdade a gente faz assim, quando a gente não quer a gente inventa uma qualquer, a que nos pareça a mais lisonjeira, a que agrade ao nosso grupo de referência, e condenamos o resto do mundo porque ele não concorda conosco. Quem estudar brevemente a história do século XX verá que todos os movimentos destrutivos, todos os movimentos responsáveis por massacre de mi1hões de pessoas, todos eles, foram sempre encabeçados por jovens, e que a militância a serviço desses movimentos foi sempre de jovens. Isso será porque o jovem tem espirito de justiça? Somem o número dos mortos; cem milhões do comunismo, mais vinte mi1hões do fascismo e assim par diante, sem contar a maravilhosa militância de 1968 — Woodstock — em favor da disseminação das drogas, que transformou o mundo num feudo dos traficantes. Quantas pessoas as drogas mataram e a quem incumbe a culpa disso? A culpa inteira cabe a estes jovens, cujos pais covardemente continuam a lisonjeá-los, dizendo: “Vocês têm o espirito da justiça”, “Vocês têm o espirito da verdade”, “Vocês são melhores que nós”. Nunca se deve dizer isso a um filho, nunca, nunca, nunca. Um século de lisonja à juventude deu em duzentos mi1hões de mortos. Será que não está na hora de parar com isso? Será que não está na hora de os adultos aprenderem que os jovens não devem ser lisonjeados e sim educados, mesmo que isto os contrarie? Muito bem, eu tive um monte de filhos, tenho oito filhos, nunca os maltratei, nunca os humilhei, mas também nunca os lisonjeei. Eu disse apenas o que um pai deve dizer a um filho: “Eu te amo, meu filho”, “Saia de cima do muro que você vai cair”, “Pare de maltratar o seu irmãozinho”, e todas essas coisas de pai. Mas nunca disse: “Você é a encarnação do espírito de justiça”, “Você é a consciência moral do seu pai”, e nenhuma dessas coisas covardes que corrompem a alma da juventude. Podemos expressar bons sentimentos pelos nossos filhos sem lhes inocular a mais destrutiva das ilusões. Mas a nossa geração recebeu doses imensas, doses cavalares desta lisonja. E, assim lisonjeados, acreditamos que bastava nos dar armas e que o resto nós faríamos: construiríamos um mundo melhor. E como construiríamos um mundo melhor? Pelo velho expediente de matar — matar quem não o desejasse. Esta é sempre a solução, qualquer que seja o problema, não é mesmo? Nós tomamos em sentido literal o que dizia Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros”. Basta matá-los e está tudo resolvido, basta matar quem não concorda conosco. Sendo educado nesta mentalidade, — da qual felizmente me livrei, mas me livrei progressivamente, porque é uma ilusão pensar que você se livra do veneno marxista simplesmente trocando a carteirinha do seu clube; não é assim, é um processo interior que requer uma verdadeira psicanálise, uma retirada progressiva dos enclaves, dos complexos, dos cacoetes mentais que se impregnam profundamente na nossa alma —, tendo sido educado nesta mentalidade, foi assim que julguei o movimento de 1964. Para julgá-lo, condená-lo e abominá-lo eu não precisei saber quase nada a respeito dele. Bastou ouvir uma palavra. E qual era essa palavra? Era a palavra mágica – “ a Direita “. Qual era o crime dos militares? Eles eram a Direita . Ora, a Direita quer dizer necessariamente o mal, portanto eles eram o mal encarnado. Não interessava saber o que estavam fazendo, por que estavam fazendo, etc. Não era preciso saber nada a respeito deles para odiá-los e condená-los. Era uma espécie de maldade onto1ógica que estava grudada na constituição deles, independentemente do que fizessem ou deixassem de fazer. Se um militar socorresse um doente na rua ele continuaria sendo mau, e se um homem da esquerda maltratasse uma criancinha, ainda assim ele continuaria sendo bom, porque a bondade e a maldade não dependiam dos atos e sim da identidade ideológica. Ora esta metafísica, esta horrenda metafísica maniquéia, ela na verdade é a essência mesma da política. Um dos grandes teóricos da política no século XX foi Carl Schmitt. Ele se perguntou qual a essência da política, o que distingue a política de outras atividades, o que distingue a política da moral, do direito da economia etc. E ele diz o seguinte: quando um conflito entre facções não pode ser arbitrado racionalmente pela análise do conteúdo dos conceitos em jogo e quando portanto o conflito se torna apenas confronto nu e cru de um grupo de amigos contra um grupo de inimigos, isto chama-se — Política . Ora, é fácil você compreender que nesse sentido a definição de Schmitt inverte a definição de Clausewitz que diz que a guerra é uma continuação da política por outros meios. Schmitt descobriu, muito mais realisticamente, que a política é uma continuação da guerra par outros meios. Ora, durante toda a história humana existiu política mas havia outras dimensões e outras atividades que eram consideradas mais importantes. A religião era uma delas, mesmo os governantes se ocupavam mais de religião que de política. No século XIX, um homem chamado Napoleão Bonaparte descobre uma coisa terrível:

a política, diz ele, é o destino inevitável dos tempos modernos . Tudo vai virar política e os homens não se ocuparão senão de política. Ele descobre a politização geral de tudo. E o que significa a politização geral? Significa que todos os conflitos já não poderão mais ser arbitrados pela análise dos conteúdos dos termos em questão, mas serão resolvidos sempre por um confronto de forças entre o grupo dos amigos e o grupo dos inimigos. Ou seja, terminou a civilização e começou a barbárie. A politização geral de tudo é simplesmente a barbárie, a violência institucionalizada, seja sob a forma de violência física, seja como a violência moral da mentira imposta como verdade obrigatória. Napoleão previu isso no começo do século XIX, mas a previsão dele só se torna plenamente efetiva no Século XX. No século XX tudo é politizado, e por isso mesmo este foi o século mais violento e mais sanguinário da história humana. A partir do século XIX você vê um crescimento do índice de violência, absolutamente incomparável com o crescimento paralelo da população. A politização geral da vida quer dizer que um garoto de quinze, de dezesseis anos, que mal está entrando na vida, que não tem a menor idéia do que se passa neste planeta, já está cooptado, já está inscrito no grupo dos amigos, cuja única finalidade é matar o grupos dos inimigos. Mas isto é vida? Isto é perspectiva que se ofereça a um jovem: politizá-lo desde o berço, oferecer-lhe o vício da militância política como se fosse a encarnação mais alta da ética e do bem? Ora, quantas vezes não ouvi intelectuais brasileiros fazendo a apologia da politização, condenando as pessoas que não são politizadas! Por exemplo, um homem que se ocupe mais de religião do que de política é condenado como um cretino ou um inconsciente, um indivíduo que se ocupa mais com o sustento de sua família do que de política parece uma criatura inferior. Quando analisamos o termo e entendemos as implicações praticas deste conceito, vemos que esta apologia da politização é a coisa mais monstruosa que algum ideólogo já inventou. Ora, foi à luz desta mentalidade que eu julguei, sem conhecê-lo, o movimento de 1964. Tendo percebido que eu já tinha condenado o réu sem nem tê-lo ouvido, sem nem ter visto a cara dele, sem nem ter sabido onde ele estava, um dia constatei a minha própria ignorância e disse: Bem, agora tenho de ir para casa e pensar no assunto.

Então eu me fiz a pergunta filosófica decisiva. A pergunta filosófica decisiva é “Quê?” — Quid?

Eu me perguntei:

Quê aconteceu em 1964? O que foi exatamente aquilo? Ou seja, vamos deixar de lado por uns momentos a avaliação dos acontecimentos, a investigação de suas causas profundas, a conjeturação de suas conseqüências a longo prazo, etc. etc., e vamos fazer a mais simples e a mais decisiva das perguntas.

Quê aconteceu?

Ora, o que aconteceu em 1964 foi o seguinte. Em janeiro daquele ano, Luiz Carlos Prestes esteve em Moscou, apresentando a Mikhail Suslov um relatório da situação brasileira. Não sei qual foi o conteúdo deste relatório, mas a conclusão de Suslov foi bastante significativa: ele chegou à conclusão que o Brasil estava maduro para ter uma guerra civil no campo, e autorizou então Luiz Carlos Prestes, em seu retorno ao Brasil, a desencadear essa guerra civil no campo. Luiz Carlos Prestes voltou com a autorização e, se não executou a tarefa de imediato, decerto a teria executado ao longo do tempo. Se não havia ainda a condição para desencadear uma guerra civil no campo em escala nacional, havia no entanto condições para paralisar a economia, instaurar a rebelião entre as Forças Armadas e fazer tudo para tornar viável a guerra civil encomendada por Suslov. Em suma, estava sendo montado aqui algo cujo tamanho as pessoas às vezes não avaliam. O que seria uma revolução comunista num país do tamanho do Brasil? Seria certamente a maior revolução comunista da história das Américas. Era isso que estava sendo montado aqui. Ao mesmo tempo é evidente que estava sendo montada uma reação a essa revolução. Que reação era esta? De onde partia? Partia sobretudo de algumas lideranças civis. Particularmente em São Paulo do Governador Adhemar de Barros e no Rio do Governador Cantos Lacerda. Um dos recursos que estes dois líderes utilizaram para fazer face a uma eventual ameaça comunista foi a constituição de tropas paramilitares com dinheiro que recolhiam de empresários e com o apoio discreto e evidentemente ilegal das policias militares desses dois Estados. Os detalhes do Rio eu não conheço (o assunto está sob pesquisa e não posso assegurar nada sobre a extensão dos recursos paramilitares sob o comando de Lacerda), mas a situação de São Paulo eu conhecia muito bem. A Policia Militar, que então se chamava Forca Pública, era uma espécie de igreja ademarista, um culto ademarista, uma seita. Os oficiais da PM parecia que já nasciam ademaristas, como se estivesse no ADN. Se o Adhemar de Barros lhes dissesse: “Vocês peguem um carregamento de três mil metralhadoras e entreguem na rua tal numero tanto”, eles fariam. E assim foram se construindo certas organizações paramilitares como par exemplo a PAB (Patrulha Auxiliar Brasileira), que era uma tropa de vagabundos e arruaceiros, lumpenproletários, exatamente como as tropas fascistas de Mussolini. Ora, eu não acredito que o fascismo seja o pior dos males, o fascismo é uma reação ao comunismo, o fascismo está para o comunismo assim como a febre está para uma infecção. O fascismo não é causa sui , não é ele que se produz a si mesmo, mas ainda assim é uma coisa bastante perigosa. Não sei medir a extensão destas tropas paramilitares fora de São Paulo. Na Paraíba certamente havia organizações desse tipo. Um historiador comunista chamado Moniz Bandeira que apesar de comunista sempre me pareceu honesto no que escreve, diz que provavelmente havia na Paraíba por volta de dez mil homens armados. Muito bem, descobri essas coisas uns anos atrás, quando estava estudando para poder reescrever os capítulos finais de uma obra chamada O Exército na História do Brasil , publicada pela Odebrecht e pela Biblioteca do Exército. Na época eu era um redator autônomo contratado pela Odebrecht, e um dos serviços que vieram parar na minha mesa foi o de corrigir o texto desse livro. O capítulo referente à Revolução de 1964 tinha muitas lacunas e decidi completá-lo por minha conta. Foi revirando livros e documentos, fazendo entrevistas com testemunhas da época, que me dei conta dessas coisas, mas havia alguém que já havia descoberto tudo isso muito antes de mim: o então General Humberto de Alencar Castello Branco, em setembro de 1963, era chefe do Estado Maior do Exército, e fez um discurso alertando seus companheiros para o perigo da proliferação de organizações paramilitares, que num momento de crise poderiam usurpar as funções das Forças Armadas. Ele não se referiu apenas à famosa organização de esquerda, os “Grupos dos Onze”, nem às Ligas Camponesas: ele falou no plural, sem mencionar cor ideo1ógica, e subtendendo que quaisquer organizações paramilitares eram um insulto e um perigo para as Forças Armadas regularmente constituídas. Ora, eu vim a me preocupar com isto em 1996, o Gen. Castelo Branco se preocupou em 1963: dá para medir o tamanho da minha sonolência, da minha burrice, da minha idiotice? Dá para vocês medirem o estado de hipnose em que vivi durante todos esses anos entre 1964 e 1996, para um dia acordar e ver que este homem já havia percebido tudo isso trinta e três anos antes? Muito bem, estavam lá os comunistas montando a sua revolução e os governadores direitistas montando suas tropinhas paramilitares de fascistinhas, a PAB tinha até aquela vestimenta cáqui, muito característica, que lembrava as camisas pardas das SA. Então, com um monte de comunistas armados de um lado e fascistas armadas do outro, que é que ia acontecer? Certamente, a Noite de São Bartolomeu. Mas a direita sempre foi mais combativa, mais corajosa, e estava mais armada: isto quer dizer que se a iniciativa da reação aos comunistas dependesse exclusivamente dos lideres civis, não teria chegado um único comunista vivo ao fim do ano de 1964 . A revolução comunista teria falhado. Os comunistas seriam derrotados, como o foram pelas Forças Armadas. Mas quantos eles teriam matado e quantos deles teriam morrido? O número é incalculável, mas além disso ainda podemos compreender que, em plena época da chamada Guerra Fria, as duas grandes potências não duelavam diretamente, mas sim através de situações exatamente como essa, montadas em países periféricos. Portanto, se houvesse uma guerra civil aqui, todo mundo iria querer ajudar os dois lados. Seria um festival de generosidade universal: os Estados Unidos mandando armas e assistência técnica para um lado e a União Soviética e a China mandando armas e assistência técnica para o outro. Seria uma efusão de bondade fantástica, como foi no Vietnã. E teríamos vivido este drama par uma década ou duas. Isto era o cenário que estava montado, isto não é uma conjetura feita a posteriori , isto eram os planos que já estavam em andamento de parte a parte. Na noite de 31 de março para 1 o . de abril, o que faz porém o Exército? Ele toma a dianteira, ocupa as ruas, desmonta a máquina comunista, coloca uma focinheira nas tropas direitistas e por fim corta a cabeça dos seus líderes, primeiro encostando-os, depois chegando a cassar os mandatos de Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, porém, antes mesmo disto, tomando uma medida mais decisiva ainda que foi criar a Inspetoria Geral das Polícias Militares, com o que todas as policias militares estaduais, virtuais colaboradoras das tropas paramilitares de direita do Brasil inteiro, foram submetidas diretamente à autoridade do Exército e voltaram à disciplina normal. Esta imensa operação de desmontagem de uma revolução esquerdista e de um aparato bélico direitista, quantas mortes custou? Duas, três, cinco no máximo. Quantas pessoas morreram em conflitos políticos entre 1964 e o fim do mandato do Marechal Castelo Branco? Quantas? Cinco? Seis? Este foi o preço que nós pagamos pela desmontagem não só da maior máquina revolucionária já construída pelos comunistas em toda a América Latina, em todas as três Américas, mas também, pela desmontagem do aparato bélico de reação direitista civil, que simplesmente desapareceu da história e entrou no esquecimento. Foi isto o que aconteceu em 1964. Quando vemos isto, só há uma coisa que podemos dizer:

Foi absolutamente genial . Não é qualquer um que desmonta uma bomba desse tamanho com uma perda de vidas humanas tão reduzida, tão insignificante. É claro que depois houve alguma violência porque decorridos quatro anos a esquerda se rearmou e se lançou à aventura das guerrilhas. Em razão das guerrilhas morreram umas trezentas pessoas entre os guerrilheiros e duzentas pessoas do outro lado. Na pior das hipóteses, quinhentas pessoas — isto ao longo de mais de uma década, num pais do tamanho de um continente. Este talvez tenha sido o preço mais barato em vidas humanas que qualquer regime do mundo já pagou pela reconquista da sua própria estabilidade. Nunca se deteve uma revolução comunista com tão poucas mortes. Ora, mas sempre vamos encontrar um engraçadinho para nos dizer: “Mas uma só morte já é revoltante!” Ora, nós sabemos perfeitamente que essa atitude é um teatro histérico, um fingimento. Quando se diz que um total de quinhentas mortes é menos grave que um de mil mortes — ou do que as dezessete mil mortes de adversários do regime cubano —, aí já está implícito que todas as mortes são más. Só podemos fazer um cálculo do mal maior ou menor se já admitimos que ambos são males. Mas toda vez que se diz que aqui houve menos violência, que um adepto do regime sanguinário de Fidel Castro não tem autoridade moral para criticar o uso moderado que o nosso governo militar fez de uma violência que a própria esquerda inaugurou, sempre aparece um hipócrita, um sofista, um mentiroso comunista para fingir que é tão cristão, tão bondoso, que não admite a morte de um mosquito, e é precisamente esse tipo de calhorda que vem nos atirar ao rosto a bela frase: “Mas uma só morte já é revoltante!” Ora, qualquer principiante de lógica sabe que não é possível nivelar urna afirmação categórica e uma afirmação comparativa. Por exemplo, se digo que Aids é mais grave do que gripe, não estou fazendo apologia da gripe, estou subentendendo que ambas são doenças, que ambas são males, não é isso? E, se um indivíduo ameaçado de Aids descobre que tem apenas gripe e se regozija com isto, devemos concluir que ele gosta de gripe, que ele ama a gripe, que ele é um apologista da gripe e desejaria espalhar os germes da gripe no mundo? O alívio do mal menor será uma apologia do mal? Só um tipo perverso, como são intelectualmente perversos todos os comunistas sem exceção, pode fingir que acredita numa coisa dessas. Quando nós mostramos que o preço pago por este país para se libertar de urna guerra civil que provavelmente não terminaria nunca foi um preço baixo, sempre aparece não só um farsante para insinuar que adoramos pagar esse preço, mas também aparece sempre um engraçadinho que nos diz que o que estamos fazendo é “contabilidade macabra”. Qual de vocês já não ouviu esta expressão? Ora, todos sabemos que os comunistas odeiam “contabilidade macabra”. E por que a odeiam? Odeiam-na por um motivo muito simples. Odeiam-na porque toda soma do número de vítimas mostra que eles são os maiores assassinos, que eles têm o primeiro prêmio do morticínio universal, que nenhum regime do mundo pode se igualar, em sanha mortífera, ao desses benfeitores do gênero humano. Se somamos o número total de vítimas do comunismo neste século, vemos que é superior ao número de mortes de duas guerras mundiais, somado ao número de vitimas de todas as ditaduras de direita, mais o número total de vitimas de terremotos, enfartes e epidemias variadas. Isto não é força de expressão: é um simples fato, medido matematicamente. Ou seja, o comunismo foi o pior flagelo conhecido pela humanidade desde o dilúvio universal. Não há outro termo de comparação. A peste negra, proporcionalmente, foi menos grave do que o comunismo. Será que perdemos totalmente o senso das proporções? Ou será que o medo de sermos acusados de fazer “contabilidade macabra” nos torna cegos para as proporções dos males? Será que os defensores de uma ideologia tão assassina, tão intrinsecamente homicida, têm alguma autoridade moral para falar mal da nossa “contabilidade macabra”, coma se o feio, como se o mal, não estivesse em cometer os homicídios e sim em somá-los? Como se fazer cadáveres fosse menos grave do que contá-los? Quem condena a “contabilidade macabra” é sempre aquele que tem mais crimes a esconder, que tem portanto uma boa razão para não querer fazer as contas. Pois a contabilidade, macabra ou não, mostra que num país de mais de uma centena de milhões de habitantes um governo militar conseguiu deter uma revolução sem fazer mais de cinco vítimas, e que em seguida esse mesmo governo conseguiu desmontar uma guerrilha sem matar mais de trezentos combatentes (perdendo ele próprio duzentos), enquanto na vizinha ilha de Cuba, em tempo de paz e sem ser desafiado por qualquer guerrilha, o governo comunista matava quase duas dezenas de milhares de pessoas . Não, macabra não é a contabilidade: macabro é o esforço de ocultar os resultados do balancete.

Ora mas foi somente isso que aconteceu em 1964 — um movimento muito bem sucedido, que desmonta duas máquinas de guerra e devolve a paz à nação, com um número de perdas insignificante? Não! Em seguida, as pessoas que fizeram o movimento tinham de governar. Governar como? Tinham um programa? Tinham ao menos uma ideologia pronta? Não tinham. Tanto não tinham, que os governos nascidos da Revolução de 1964 tentaram, nos anos subseqüentes, duas políticas exatamente contrárias: primeiro uma política liberal internacionalista, com Castelo, e depois uma política estatizante nacionalista, com Geisel. Ou seja, eles tentaram as duas pontas do espectro ideo1ógico que então havia no país. Isso prova que não tinham ideologia nenhuma. Ora, não ter ideologia nenhuma significa que esse movimento não foi feito para implantar uma ideologia determinada, mas que foi feito simplesmente para tirar o pais de uma emergência catastrófica, e que, apesar de não se apresentar com programa algum, acabou tendo uma folha de realizações bem superior, seja à da Era Vargas, seja à dos governos que lhe sucederam. Quais são essas realizações? Voltemos à definição: o movimento de 1964 foi um movimento de emergência para desmontar duas máquinas de guerra, para impedir que o pais entrasse numa guerra civil e que em seguida, mesmo não tendo ideologia nem planos definidos, conseguiu — o quê? Vamos ver: em 1964, o número de pessoas que viviam na miséria, que viviam com menos de um salário mínimo neste país era de sessenta por cento da população nacional. Quando terminou o regime militar, eram vinte e poucos por cento . Ou seja, esse regime que não tinha ideologia, que não tinha planos, que nem sabia o que haveria de fazer, conseguiu tirar da miséria quarenta por cento da população brasileira. O que são quarenta por cento da população brasileira? São, hoje, setenta milhões de pessoas, na época uns cinqüenta milhões. Aí é que eu me pergunto: Será que estamos todos dormindo? Será que não percebemos as coisas? Será que perdemos o senso das proporções? Digam-me vocês: Qual o regime do século XX, qual o plano econômico, por mais genial que fosse, seja o Plano Qüinqüenal de Stálin ou o New Deal de Roosevelt ou qualquer outro, que conseguiu retirar da miséria e deu condições de vida humana a 50 mi1hões de pessoas no prazo de uma geração? Quem fez isso? Quem pode se gabar de tanto?

Nós conseguimos fazer. Quando digo “nós”, “nós, brasileiros, fizemos”, — vejam que coisa irônica! —, estou atribuindo a mim as obras e as g1órias daqueles a quem eu abominava e a quem chamava de “gorilas”. E eles, os abomináveis gorilas, me deram a possibilidade de hoje poder dizer com orgulho:

Nós , brasileiros, fizemos isso, nós tivemos a vitória — a maior vitória sabre a miséria que se conheceu no século XX. E será que temos motivo para sentir vergonha disso? Será que um daqueles meninos de quinze anos que eram meninos de quinze anos aos quinze anos e que agora aos cinqüenta e tantos continuam meninos de quinze anos, bobocas irresponsáveis e sobretudo mentirosos, será que um desses meninos tem autoridade para julgar e condenar o movimento que fez isso?

Quando nos perguntamos o que aconteceu em 64, foi isto. Houve prisões, houve torturas, houve mortes. Eu tive parentes que foram torturados, eu próprio passei muito medo e humilhações. Tive amigos que foram mortos. Um amigo querido meu, João Leonardo da Silva Rocha, apanhou tanto de alguns soldados, segundo se dizia, que ficou louco. Nunca mais ficou bom. Mas eu teria de ser um monstro de mesquinharia para condenar em bloco, por esses atos de violência, por revoltantes e intoleráveis que sejam em sua própria escala, um regime que salvou o pais de uma guerra civil e que salvou cinqüenta milhões pessoas da miséria. Porque ninguém conseguiu fazer tanto com tão pouca violência. Ora, falamos em trezentos, quatrocentos, quinhentos mortos! Quantas pessoas morreram nos Estados Unidos em conflitos políticos no mesmo período? Quantos negros foram espancados e mortos, quantos brancos assassinados em represália? E isto em plena vigência da democracia, com todas as garantias da ordem jurídica, sem o perigo de uma guerra civil. Para matar quatrocentos, quinhentos ou trezentos, os americanos não precisam de uma guerra civil. Na guerra civil deles morreram cinco milhões — foi a maior guerra que o mundo conheceu até então. E o nosso regime, para parar uma guerra civil, e depois para desmontar a guerrilha, matou trezentos e perdeu duzentos. Devemos comparar os nossos militares aos governantes de outras nações, aos cubanos, aos espanhóis antepassados do Dr. Garzón que queimavam freiras em massa, aos americanos que se matam sem cessar, aos lindos lordes ingleses que nunca pararam de matar irlandeses, aos russos que mataram trinta milhões de seus compatriotas, aos chineses que mataram sessenta milhões, ou devemos compará-los a Deus e condená-los por não serem perfeitos? Se houve um governo humano que fez melhor, me mostrem qual. Sobretudo, se houve um governo comunista que fez melhor, me mostrem. Eu nunca vi. Mas todas estas coisas óbvias que estou dizendo parece que foram perdidas de vista, que se tornaram invisíveis e incompreensíveis, ofuscadas por tantas mentiras e tanto falatório comunista recompensado a peso de ouro por empresários de imprensa venais e irresponsáveis. E tudo isso foi perdido de vista por um motivo muito simples: esse governo militar, que era não opressivo, que não era um governo fascista, não tinha um dos principais traços que caracterizam todas as ditaduras e todos os movimentos fascistas: ele não tinha a menor vontade de inculcar uma ideologia na população. Ele não tinha nenhuma ideologia para inculcar. De vez em quando fazia uns cartazes, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, ou mandava passar uns anúncios de suas realizações, uma estrada, uma usina, uma ponte — tudo com menos alarde e menos despesa do que qualquer governo civil antes ou depois dele. Isso foi tudo. Pergunto eu: Havia doutrinação fascista nas escolas? Havia um cinema doutrinário pago pelo governo para inculcar idéias fascistas na população? Não: O governo dava dinheiro para a oposição fazer filmes! Havia programas de TV martelando e remartelando o discurso oficial 24 horas por dia, como em Cuba e em todos os países comunistas e fascistas? Não! Não havia. As novelas, o gênero mais popular de TV, eram usadas pelo governo para transmitir propaganda ideológica? Não. As novelas eram todas escritas por comunistas notórios como Dias Gomes e Janette Clair, e quando o governo censurava alguma cena erótica julgando-a imprópria para o horário das oito quando as crianças estavam acordadas, era uma tempestade de protestos! Havia editoras dominadas pelo governo publicando material ideológico o tempo todo para inculcar a doutrina oficial na população? Não! Ao contrário, nunca o mercado de livros esquerdistas foi tão próspero — no mais das vezes com subsídios do governo —, nas universidades só havia propaganda comunista e simplesmente não se notou um esforço ideo1ógico par parte do governo. O único passo que o governo deu nesta direção foi a disciplina de Educação Moral e Cívica. Mas o que aconteceu com a EMC? Eu estava lá, “meninos, eu vi”. Eu vi isto acontecer. Eu vi o Partido Comunista decidir, muito simplesmente: colocaremos os nossos militantes em todas as cátedras de EMC e as transformaremos em canais de propaganda comunista. Assim disse e assim fez. O governo o impediu? Fez algo para impedir? Não! Ou seja, além de dar liberdade para os comunistas fazerem o que fizeram, ainda criou instrumentos, financiou filmes comunistas, deixou comunistas ocuparem as cátedras de EMC, deixou que os comunistas tomassem toda a imprensa e toda a universidade onde hoje exercem cinicamente um poder de censura. Tudo isso aconteceu porque havia um cidadão chamado Golbery do Couto e Silva que acreditava numa tal teoria da “panela de pressão”. E o que era a panela de pressão? Era que, dizia ele, “não podemos tampar todos as buracos, tem de haver uma valvulazinha...” E onde era essa valvulazinha? Eram as universidades e a cultura, o movimento editorial e o show business — eram todos os canais de comunicação das idéias. Tudo isso foi entregue pelo próprio governo nas mãos dos comunistas. Mas que bela teoria, hein? Era só o que as comunistas queriam. Era só o que eles queriam para fazer da sua derrota militar a sua vitória política, porque naqueles anos estavam começando a entrar no Brasil as obras do ideólogo italiano Antonio Gramsci. Este dizia adeus à teoria leninista da insurreição e criava uma nova estratégia baseada em duas coisas: de um lado, aquilo que chamava de Revolução Cultural , ou seja, o domínio do vocabulário, o domínio dos automatismos mentais, de modo que as pessoas, sabendo ou não, passem a falar e pensar como os comunistas e acabem aceitando o comunismo, com ou sem esse nome, como se fosse a coisa mais natural do mundo; de outro lado, o que ele chamava de a longa marcha da esquerda para dentro do aparelho de Estado , ou seja: ocupar todos os postos da burocracia. Lentamente, com muita calma, através de ocupação de espaço, de nomeações, até mesmo de concursos, — par exemplo, o governo abre um concurso para a Policia Federal e, quando você vai ver, noventa por cento dos candidatos que se apresentam são comunistas, foram mandados ali para isso.

Ora que raio de governo fascista era esse, que não tinha militância, que não tinha partido de massas, que não tinha ideologia, que não tinha sequer um programa de doutrinação das massas, um discurso para ser repetido nas escolas? É simples: esse governo nunca foi fascista. Foi um governo de emergência, criado para impedir uma guerra civil e que chegou ali e teve de governar de alguma maneira, sem nunca ousar aprofundar sua intervenção na história brasileira, ao ponto de constituir uma legitima revolução. O movimento de 64 foi uma revolução? Eu acho que não foi. Também acho que disputar com as esquerdistas e insistir no termo “revolução” quando dizem que foi apenas um golpe é ceder a uma tábua de valores esquerdistas, a um vocabulário esquerdista. Porque para um esquerdista uma revolução é a melhor coisa do mundo. Comunistas é que adoram revoluções. Para que temos de imitá-los? O que temos de responder-lhes é: Vocês, comunistas, que façam suas revoluções. Nós fazemos coisas modestas, nas quais morre menos gente, nós não somos assassinos profissionais, nós não estamos o tempo todo tentando virar o mundo de cabeça para baixo, nós só agimos na emergência para impedir catástrofes. Porque nós não somos como vocês, nós não temos a solução de todos males, nós não somos o bem encarnado, nós não acreditamos que temos a verdade revelada que nos autorize a matar metade do mundo para salvar a outra metade. Em suma, nós somos gente, somos seres humanos, não somos anjos do Senhor como vocês, não temos autoridade para fazer a História à nossa imagem e semelhança, e por isto mesmo, ao tomar o poder em 1964, governamos com sabedoria, com paciência, com bondade, com brandura e sobretudo protegemos vocês contra a direita civil que queria matá-los. Se chegou um único comunista viva ao fim de 1964, ele deveu isso a quem? Às Forças Armadas.

Filosofo Acidental

em 25 de maio de 2000 | Publicada em

Ano passado, Olavo de Carvalho recebeu o telefonema de um militante de esquerda avisando que havia um complô para assassiná-lo. Filósofo autodidata e autor de livros como “O imbecil coletivo”, que causou ira em segmentos da intelectualidade, Olavo ficou assustado. Mesmo sem saber se a informação era verdadeira, aceitou o convite de um amigo para trabalhar na Romênia. Ficou quatro meses fora e na volta não deixou a pena cair: continuou a escrever, diariamente, suas apostilas, tratados de filosofia, críticas agudas à política, aos intelectuais, à imprensa. Agora, oferecerá um pouco de sua verve aos leitores do GLOBO, escrevendo semanalmente a partir deste sábado na página 7 do jornal. Também estreará na revista “Época”.

– Posso até ser um polemista, mas não é este o centro das minhas atenções. Estou contente com essas novas colaborações. Serão oito artigos por mês, em que falarei de assuntos variados, não só dos polêmicos. Terei espaço para explicar minhas posições – afirma Olavo, de 53 anos, e que só há cinco começou a se lançar em controvérsias públicas, quando seu desentendimento com a Sociedade Brasileira para a Pesquisa Científica (SBPC) ganhou ampla cobertura na imprensa.

Um comitê da entidade rejeitara a publicação de um trabalho seu sobre Aristóteles com argumentos cujas críticas Olavo passou a distribuir encartadas na apostila de aula. Em pouco tempo, o caso virou notícia. Nessa época, publicou por insistência do poeta Bruno Tolentino seu primeiro livro de filosofia, “O jardim das aflições – de Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o materialismo e a religião civil”.

Prazer e divertimento na esgrima intelectual A fama de polemista cresceu com a publicação de “O imbecil coletivo”, em 1997, uma reunião de críticas ao tratamento dado à cultura nos jornais.

– Fazia anos eu acompanhava o movimento intelectual brasileiro e via uma decadência acentuada cada vez que abria o suplemento de cultura de um jornal. Eram publicadas coisas de um primarismo que há 20 anos não seriam aceitas no ginásio – afirma Olavo, que contesta o tipo de reação que causou. – Por que não podemos ser contra uma, duas, três ou 20 coisas ao mesmo tempo? Mas no Brasil, se somos contra algo, cria-se logo a idéia de que somos a favor do seu contrário.

A principal crítica à esquerda e aos intelectuais brasileiros em geral refere-se à falta de rigor que advém, segundo Olavo, do pensamento ideológico, modelo concebido a partir de Gramsci. A expressão “imbecil coletivo” é uma paródia do intelectual coletivo proposto pelo filósofo italiano.

– O pensamento ideológico não quer saber da realidade, mas busca produzir acontecimentos. Todo o conhecimento vira pretexto para forçar acontecimentos. Sou contra o próprio Gramsci, culpado dessa concepção que abre a porta ao vale-tudo. A ideologização da cultura imbecilizou as pessoas. No século XX, o malefício do pensamento ideológico é contado em milhões de mortos.

Na raiz da sua crítica, porém, não há apenas indignação. Olavo confessa ter prazer com a esgrima intelectual.

– Divirto-me um bocado. Enquanto escrevo, fico rindo, prevendo como o adversário ficará bravo e será em vão. Nunca tive raiva de ninguém nesse negócio. Mas se o sujeito quer virar objeto de gozação, a gente faz isso – afirma ele rindo.

Olavo não se diz de direita, mas gostaria que houvesse um partido de direita no país, “pela democracia”. A política brasileira, na sua visão, é hoje um jogo exclusivo de partidos de esquerda. Nos artigos do GLOBO, discutirá essas opiniões e questões que o inquietam e são temas dos livros em preparação. Em “O olho do Sol”, já com 700 páginas, busca fundamentar a idéia de evidência científica; em “Ser e poder: a questão fundamental da filosofia política”, até o momento com 200, apresenta uma nova definição do poder. Sua homepage ( http://www.olavodecarvalho.org/ ) é uma boa porta para se entrar em contato com esse universo.

Olavo diz que o saber foi sua única ambição. Na adolescência, vivia com a deprimente sensação de nada entender. Na escola, a biologia e o latim foram seus únicos interesses, por influência de dois ótimos professores. Quando, aos 17 anos, começou a trabalhar em jornal – no “Notícias populares”, de São Paulo – e filiou-se ao Partido Comunista, sentiu um buraco em sua formação. Freqüentou como ouvinte aulas na PUC e na USP, mas se decepcionou.

– Tive uma impressão de carência: eu precisava me educar e não encontrava educação à altura do que queria. Faltava-me um abismo de conhecimento e nas aulas não aprenderia nada – conta Olavo, que então decidiu traçar um programa individual de estudo.

Ao jornal, precisava dar apenas cinco horas por dia e o resto do tempo passou a ser ocupado com aulas de cinema, teatro e muita leitura. Formou pouco a pouco uma biblioteca que refletia o desenvolvimento histórico das disciplinas que elegera: filosofia, estudos literários e religiões comparadas. Ao longo dos anos e das mudanças – teve oito filhos em três casamentos – vendeu quatro bibliotecas, com cerca de 15 mil volumes no total.

– Na ditadura militar, com muitos amigos presos, torturados, mortos, percebi que o Brasil ia ladeira abaixo para as trevas. Achei que o melhor era me retirar e estudar para entender o que se passava. Isolei-me dos 20 aos 47 anos.

A astrologia da Idade Média como base Com o tempo, diminuiu a atividade jornalística para se dedicar mais aos cursos, os Seminários de Filosofia, que dá duas vezes por mês no Rio e em São Paulo. Calcula ter tido cerca de cinco mil alunos e escrito umas dez mil páginas. A filosofia veio por contingência.

– Quando quis estudar, estava resolvendo um problema pessoal. A perspectiva profissional em filosofia é muito prejudicial. Quando se quer virar filósofo ou professor de filosofia, estuda-se já com esse canal, como se fosse uma profissão. Mas a filosofia não é essencialmente isso, ela é acidentalmente isso. A filosofia é sobretudo um saber, uma consciência que se adquire.

A visão de mundo de Olavo tem raiz no mergulho que fez aos 30 anos na cultura da Idade Média, época que estudou por mais de dez anos, aproveitando seus conhecimentos de latim. Ele diz-se aficionado por astrologia.

– Sem conhecer astrologia não se conhece nada da cultura medieval. Quis estudar a simbólica daquela época.

A Logica Da Tribo E A Guerra Nuclear

disputa? | 1 de Junho de 2002

Objetivamente, o que vemos é um governo tribal – o Paquistão – confrontar uma democracia, alimentando de forma irresponsável um movimento separatista. Seu ponto de vista da revolução islâmica é um perigo, não apenas para a Índia, mas para o mundo civilizado em geral. Dar a chefes tribais o poder de manejar artefatos com tal poder de destruição é algo que remete aos finais dos tempos.

A doutrina nuclear da Índia é sensata e responsável. Ogivas, mísseis e detonadores ficam em locais diferentes e só podem ser juntados para o respectivo disparo com decisão envolvendo inúmeros pessoas – incluindo todo o Parlamento. Dificilmente uma guerra nuclear de ataque pode ser gerada com tal estrutura decisória.

Já o governo do Paquistão delegou aos chefes militares das suas unidades o poder solitário de decisão, algo muito perigoso, sobretudo se levarmos em conta a psicologia desses guerreiros islâmicos. Estão sempre com o dedo no gatilho.

Esse conflito me faz lembrar a ação de Israel, destruindo preventivamente a capacidade industrial que poderia fazer do Iraque uma potência nuclear.

Israel agiu muito corretamente, livrando o mundo da ameaça de um outro chefe tribal, muito mais irresponsável e arrogante, para manipular tais meios de destruição. Se a Índia tivesse feito o mesmo não estaria envolvida agora nesse pesadelo.

Isso coloca a responsabilidade das democracias ocidentais para mediar e prevenir tais conflitos. É inevitável imaginar que se aqueles dois países forem à guerra nuclear, o mundo jamais será o mesmo, pois os países mais poderosos terão que servir de polícia anti-nuclear. Acho até que já deveriam exercer tal papel. Até porque atentados com artefatos nucleares nos EUA e na Europa só poderão acontecer a partir de artefatos fabricados nesses países, geridos como se fossem tribos no deserto. Prevenir a guerra nuclear em regiões distantes é também preveni-la no seu próprio território.

A questão crucial é se a eclosão de um conflito desse tipo será necessária para que seja feito o que é preciso de modo preventivo. Os líderes dos países mais importantes não poderão se omitir, sob pena de o mundo pagar um preço muito caro.

Em 1 de junho de 2002

Leituras

A Familia Em Busca Da Extincao

de outubro de 2012 | Diário do Comércio

A “família tradicional” que os cristãos e conservadores defendem ardorosamente contra o assédio feminista, gayzista, pansexualista etc., bem como contra a usurpação do pátrio poder pelo Estado, é essencialmente a família nuclear constituída de pai, mãe e filhos (poucos). O cinema consagrou essa imagem como símbolo vivente dos valores fundamentais da cultura americana, e a transmitiu a todos os países da órbita cultural dos EUA.

Mas esse modelo de família nada tem de tradicional. É um subproduto da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. A primeira desmantelou as culturas regionais e as unidades de trabalho familiar em que habilidades agrícolas ou artesanais se transmitiam de pai a filho ao longo das gerações; as famílias tradicionais desmembraram-se em pequenas unidades desarraigadas, que vieram para as cidades em busca de emprego. A Revolução Francesa completou o serviço, abolindo os laços tradicionais de lealdade territorial, familiar, pessoal e grupal e instaurando em lugar deles um novo sistema de liames legais e burocráticos em que a obrigação de cada indivíduo vai para o Estado em primeiro lugar e só secundariamente – por permissão do Estado – a seus familiares e amigos. A sociedade “natural”, formada ao longo dos séculos sem nenhum planejamento, por experiência e erro, foi enfim substituída pela sociedade planejada, racional-burocrática, em que os átomos humanos, amputados de qualquer ligação profunda de ordem pessoal e orgânica, só têm uns com os outros relações mecânicas fundadas nos regulamentos do Estado ou afinidades de superfície nascidas de encontros casuais nos ambientes de trabalho e lazer. Tal é a base e origem da moderna família nuclear.

Max Weber descreve esse processo como um capítulo essencial do “desencantamento do mundo”, em que a perda de um sentido maior da existência é mal compensada por sucedâneos ideológicos, pela indústria das diversões públicas e por uma “religião” cada vez mais despojada da sua função essencial de moldar a cultura como um todo. Nessas condições, assinala Weber, é natural que a busca de uma ligação com o sentido profundo da existência reflua para a intimidade de ambientes cada vez mais restritos, entre os quais, evidentemente, a família nuclear. Mas, na medida mesma em que esta é uma entidade jurídica altamente regulamentada e cada vez mais exposta às intrusões da autoridade estatal, ela deixa de ser aos poucos o abrigo ideal da intimidade e é substituída, nessa função, pelas relações extramatrimoniais.

Separada da proteção patriarcal, solta no espaço, dependente inteiramente da burocracia estatal que a esmaga, a família nuclear moderna é por sua estrutura mesma uma entidade muito frágil, incapaz de resistir ao impacto das mudanças sociais aceleradas e a cada “crise de gerações” que as acompanha necessariamente. Longe de ser a morada dos valores tradicionais, ela é uma etapa de um processo histórico-social abrangente que vai em direção à total erradicação da autoridade familiar e à sua substituição pelo poder impessoal da burocracia.

Não por coincidência, o esfarelamento da sociedade em unidades familiares pequenas permanentemente ameaçadas de autodestruição veio acompanhada do fortalecimento inaudito de umas poucas famílias patriarcais, justamente aquelas que estavam e estão na liderança do mesmo processo. Refiro-me às dinastias nobiliárquicas e financeiras que hoje constituem o núcleo da elite globalista. Quanto mais uma “ciência social” subsidiada por essas grandes fortunas persuade a população de que a dissolução do patriarcalismo foi um grande progresso da liberdade e dos direitos humanos, mais fortemente a elite mandante se apega à continuidade patriarcalista que garante a perpetuação e ampliação do seu poder ao longo das gerações. Com toda a evidência, a família patriarcal é uma fonte de poder: a história social dos dois últimos séculos é a da transformação do poder patriarcal num privilégio dos muito ricos, negado simultaneamente a milhões de bocós cujos filhos aprendem, na universidade, a festejar o fim do patriarcado como o advento de uma era de liberdade quase paradisíaca. O desenvolvimento inevitável desse processo é a destruição – ou autodestruição — das próprias famílias nucleares, ou do que delas reste após cada nova “crise de gerações”.

A “defesa da família” torna-se, nesse contexto, a defesa de uma entidade abstrata cujo correspondente no mundo concreto só veio à existência com a finalidade de extinguir-se. A ameaça feminista, gayzista ou pansexualista existe, mas só se torna temível graças à fragilidade intrínseca da entidade contra a qual se volta.

Ou as famílias se agrupam em unidades maiores fundadas em laços pessoais profundos e duradouros, ou sua erradicação é apenas questão de tempo. As comunidades religiosas funcionam às vezes como abrigos temporários onde as famílias encontram proteção e solidariedade. Mas essas comunidades baseiam-se numa uniformidade moral estrita, que exclui os divergentes, motivo pelo qual se tornam vítimas fáceis da drenagem de fiéis pela “crise de gerações”. A família patriarcal não é uma unidade ético-dogmática: é uma unidade biológica e funcional forjada em torno de interesses objetivos permanentes, onde os maus e desajustados sempre acabam sendo aproveitados em alguma função útil ao conjunto.

Em últimas contas, se o patriarcalismo fosse coisa ruim os ricos não o guardariam ciumentamente para si mesmos, mas o distribuiriam aos pobres, preferindo, por seu lado, esfarelar-se em pequenas famílias nucleares. Se fazem precisamente o oposto, é porque sabem o que estão fazendo.

Em 1 de outubro de 2012

Ainda A Argentina

de janeiro de 2002 | 1

Uma das seqüelas mais sérias das desastradas intervenções do Estado argentino na economia é ter criado uma forte desconfiança do público com relação ao sistema bancário. Isso significa que a flexibilização do limite de saques de US$ 1.000,00 poderá decretar a morte desse sistema, com quebra de bancos e, em conseqüência, a impossibilidade de manter a liquidez da economia como um todo. De quebra, a desintermediação bancária reduzirá dramaticamente a disponibilidade de recursos para investimento, com sérios e imediatos desdobramentos.

O problema é que a recuperação da confiança do público poderá levar muito tempo, qualquer que venha a ser o novo presidente e qualquer que seja a sua política econômica. Os argentinos poderão preferir, por muito tempo, guardar o seu dinheiro em casa ou simplesmente antecipar os seus gastos, para se livrar da moeda. Ou adquirir moeda estrangeira, para lastro. É uma situação dramática.

Vai ser muito difícil escapar de uma corrida bancária, que poderíamos chamar de a herança maldita do ministro Cavallo. Certamente não será um aleijão fácil de superar.

O drama é a reconstrução. Será preciso a implantação de séria e confiável política econômica para restabelecer a confiança. Com um governo de continuismo peronista, é difícil imaginar um cenário em que isso aconteça. É provável que surpresas e fortes emoções – tudo o que o mercado não quer e não precisa – venham ser a marca registrada, nos próximos meses, na área econômica. Infelizmente.

Mas já diz o ditado popular: não há mal que sempre dure e nem bem que nunca acabe. O inferno econômico e político da Argentina será superado, mais dia, menos dia. Quando as trevas são as mais profundas é que nasce a luz, ensinam as religiões em todos os quadrantes. Elas sempre estiveram certas.

Quem viver, verá.

Em 1 de janeiro de 2002

Leituras

A Verdadeira Direita Burra

Vídeos | Em 8 de janeiro de 2021

Yearly Archive For 2020

Vídeos | Em 29 de dezembro de 2020

Por que a direita só se funhanha

Resumo Didatico

Vou repetir, com todo o didatismo e paciência: | Jornal do Brasil

1. Lula é o fundador e mentor do Foro de São Paulo, entidade que articula o combate político legal com a prática de crimes — narcotráfico, seqüestros, homicídios, terrorismo –, para que da convergência e suporte mútuo dessas duas linhas de ação resulte a sujeição integral da América Latina ao movimento comunista, aquele mesmo que matou cem milhões de pessoas e impôs o terror e a miséria a continentes inteiros.

2. Jamais houve nas Américas uma organização criminosa tão gigantesca e temível quanto o Foro, nem delinqüente tão perverso e malicioso quanto o criador e líder máximo dessa geringonça infernal.

3. Durante dezesseis anos, a elite brasileira, que ele professava destruir, tratou de lisonjeá-lo, subsidiá-lo e protegê-lo, encobrindo sua atividade criminosa e condenando ao ostracismo quem ousasse tocar no assunto. Carreiras foram destruídas, sementes de renovação cultural foram arrancadas, idéias promissoras foram abortadas para que o bandido passasse por cidadão honesto, quando não por ungido e santo.

4. Durante a gestão do indivíduo na Presidência, a mesma elite, vendo que ele mentia, subornava e trapaceava com naturalidade demoníaca, protestou contra alguns de seus delitos avulsos, mas ainda ocultando o crime inicial e maior, o crime-raiz, de modo que aqueles parecessem o desvio acidental e tardio de uma conduta ética exemplar e não a simples continuação lógica de uma década e meia de delinqüência colossal. Tão resguardado ele se sentia, entre os muros da fortaleza de desconversas, acobertamentos e eufemismos erguida pelos seus próprios críticos e adversários nominais, que até em discurso oficial ele podia gabar-se do embuste supremo, rindo da opinião pública, seguro de que ela continuaria na mais completa ignorância do sentido de suas palavras (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/050926dc.htm ).

5. Por fim, cansando-se de ser humilhada pelo seu protegido, a elite decidiu livrar-se dele, mas ainda abstendo-se de revelar a verdadeira identidade do sujeito e só admitindo, para derrotá-lo, o uso de meios eleitorais, reduzindo portanto a diferença entre a lei e o crime a uma mera questão de livre escolha. Nas últimas semanas, vendo que a divulgação de casos escabrosos não diminuía a popularidade do indigitado, ela tratou de elevar um pouco o tom das denúncias, mas teimando em omitir o essencial, consagrando o ludíbrio dos eleitores como um direito adquirido do excelentíssimo e fazendo da eleição de 2006 uma farsa ainda mais grotesca que a de 2002.

Aceitar que o criminoso, em vez de ir para a cadeia, se apresente candidato, já é favorecê-lo acima de toda generosidade cabível. Mas Lula vai para as urnas tão armado de imunidades e privilégios que, mesmo na hipótese improvável da sua derrota, o poder semi-secreto que ele criou continuará pairando acima da leis, do Estado e da moral, tendo nas mãos, como refém inerme, o presidente eleito. Vocês, a elite, fortaleceram esse monstro e lhe concederam o benefício da quase total invisibilidade. Quando ele os devorar, quem chorará por vocês?

Em 28 de setembro de 2006

Entrevista De Olavo De Carvalho A Revista Digital

Universidade Para Quê?– | Revista Digital, 23 de março de 2001

, o polêmico filósofo e jornalista Olavo de Carvalho fala de assuntos na pauta dos gaúchos: o papel da universidades e a Uergs, o governo Olívio Dutra e os guerrilheiros colombianos, Fórum Social x Fórum da Liberdade, a ascensão do PT ao poder, segurança pública, e muito mais! Leia e discuta essa entrevista exclusiva para a Revista Digital .

Professor, o senhor está visitando o Estado a convite da Aclame (Associação da Classe Média do Rio Grande do Sul), para um ciclo de palestras intitulado Universidade pra quê?. Qual é a função da universidade, na opinião do senhor? O senhor acredita que a universidade brasileira perdeu sua função original?

— A universidade pode ter inúmeras funções diferentes. Porém, a característica que a define é a de constituir o maior centro de busca e preservação do conhecimento. É uma grande ilusão pensar que a universidade se destinasse a formar a classe dominante. Na Idade Média, havia esta consciência do benefício incalculável que o conhecimento representa, pela sua simples posse. Não se pensava na hipótese de usar isto para outra coisa, ao contrário, isto era o supremo benefício.

Com o tempo, a universidade vai adquirindo finalidades secundárias. Em primeiro lugar, na Renascença, começou a disputa entre os reis e o papado pelo domínio da universidade. O declínio da intelectualidade católica dominante da época é terrível – se você compara os intelectuais dos séculos XII e XIII com aqueles idiotas do Concílio de Trento, é algo absolutamente deplorável. Há uma queda do nível das universidades ocasionada pela sua politização, por culpa dos papas e dos reis. Com a restauração na Alemanha, a universidade conserva uma imensa autonomia, possibilitando o surgimento do movimento notabilíssimo que foi o romantismo e o idealismo alemão. Filho direto da liberdade, da não interferência dos poderes externos na universidade.

No entanto, a partir daí, esta intervenção é cada vez maior, sobretudo e em primeiro lugar no sentido comercial. A universidade vai se transformando em uma instituição para a formação profissional, e, logo em seguida, como efeito quase imediato, vem a politização da universidade. Não que essas finalidades econômicas e políticas não devam ser atendidas, mas para elas há outros instrumentos.

O senhor acha então que dever-se-ia separar essa questão do conhecimento instrumental, voltado para fins técnicos e para a formação profissional?

— A universidade pode abranger tudo isso, mas sem abrir mão da consciência do valor do conhecimento objetivo. Nesse sentido, ela poderia se tornar o árbitro das disputas sociais e políticas, realmente dando uma ajuda na esfera econômica. Mas, se ela perder a sua função própria e se prostituir a fins comerciais ou políticos, ela perde a autoridade e se transforma em um órgão auxiliar, ela é subjugada. É o que acontece hoje.

A maioria dos políticos usa a universidade sem nenhum respeito ao conhecimento objetivo. Os partidos, sobretudo o famoso PT e esse pessoal comunista todo, quer instituir a sua doutrina partidária como programa de universidade, vetando inclusive o conhecimento de doutrinas antagônicas. Isto é o máximo da prostituição que se pode conceber na universidade. E no Brasil isto acontece em todas as universidades, sem exceção.

O senhor traçou uma origem bastante antiga para esse processo de intervenção política. E no Brasil, quando é que isso começou?

— O Brasil não tem tradição universitária. Ele tem, ao contrário, uma tradição das faculdades isoladas, que, por não poderem exercer esta função mais elevada, acabavam virando centros de agitação política. O tempo que os estudantes perderam fazendo passeatas e revoluções foi tempo roubado à formação da elite intelectual nacional. A desvantagem que o Brasil leva no cenário internacional ocorre simplesmente pelo despreparo e pela burrice da sua elite política. Em vez de estudar, ficavam fazendo passeata. Hoje, temos como resultado esse Congresso de analfabetos. Em outros países, é uma tradição os políticos de primeiro plano serem homens que dominam a arte da palavra. Na França, um político não se incomodará de ser acusado de corrupção, mas o desafiará para um duelo se você disser que ele cometeu um erro de gramática. Nos Estados Unidos, um dos políticos mais populistas, como Theodore Roosevelt, era autor de ensaios literários de valor extraordinário. Abraham Lincoln era um dos maiores estilistas da língua inglesa. E isso é uma tradição, que há em quase todos os países.

E o Brasil também tinha esta tradição intelectual, até as décadas de 40 e 50. O tempo da ditadura ainda conservou um pouco, mas, pelo simples fato de ser uma ditadura, por não se ter uma circulação normal das idéias e dos debates políticos, rompe-se a tradição. E, na constituinte, se elegeram pessoas que não sabem conjugar um verbo, completar uma frase, não têm domínio do idioma. Você tem o exemplo grotesco do Lula, da Benedita, pessoas que oferecem a desculpa da sua origem pobre, mas a origem deles não é mais pobre que a de Machado de Assis, ou mais pobre do que a minha. Machado de Assis era filho de lavadeira, eu sou neto de lavadeira.

Qual tem sido a reação das comunidades acadêmicas visitadas pelo senhor neste ciclo de palestras?

— Em geral, eles gostam. Quando não gostam, não respondem nada. Ficam quietinhos [risos].

Existe alguma perspectiva de mudança deste quadro? E, se existe, qual o papel do governo nisto, ele ajuda ou atrapalha?

— O governo só atrapalha! Ele é o culpado direto disso aí. Não só este governo, mas todos os governos! Todos os governos sempre tentaram usar a universidade como instrumento de ação política.

E isto independentemente de partidos?

— E sobretudo criando esta ilusão de que a universidade deve prestar serviço público. A existência da universidade já é o serviço público! A finalidade da universidade se esgota na busca e na transmissão do conhecimento. Se você disser que a universidade tem que planejar a reforma social, então qual é a diferença entre a universidade e um ministério? Ou um partido político? Aí se cria uma confusão, perdendo-se a noção da função específica das várias instituições.

O senhor tem acompanhado a experiência do Rio Grande do Sul na área da educação, onde se discute a questão da criação da universidade estadual, a Uergs?

— Sim. Isso é uma palhaçada, mais uma palhaçada. Primeiro, você já tem um montão de universidades. Essa vai ser mais um cabide de empregos. Imagine, vai ser uma universidade feita pelo PT, vai ser uma universidade petista. E é apenas isso o que eles querem: mais um megafone para fazer propaganda. Aliás, a única coisa que esse governador daqui sabe fazer é propaganda, alardeia obras que ele não fez, até obras dos seus adversários.

O senhor fez duras críticas ao governador Olívio Dutra em seu artigo O direito de duvidar , publicado em Zero Hora de 11/03/2001. O senhor vê mesmo uma relação entre a guerrilha colombiana, o narcotráfico e a ascensão da esquerda ao poder no Brasil?

— Mas essa relação não sou eu que vejo, são eles mesmos que afirmam! Eles dizem isso! Eles se irmanam na luta pelo socialismo na América Latina, eles declaram isso. Não é uma interpretação que eu estou fazendo. Então, é evidente que, se o PT ganha votos aqui, isso é bom para a guerrilha colombiana lá. Se o colombiano ganha mais meio metro quadrado de terra, isto é bom para o PT aqui. Agora, se o dr. Olívio Dutra não tem interesses ligados a isso, ele que condene as violências da guerrilha. Eu o desafio em público a fazer isso! Essa guerrilha todo mundo viu na televisão: os guerrilheiros amarraram uma bomba na cabeça de uma prisioneira e a mulher explodiu. Essa é a maior organização criminosa que já existiu no continente. Se o dr. Olívio Dutra for sincero, que condene esses crimes. Ele que chame o representante da guerrilha de criminoso, se ele tiver coragem. Esse é o tratamento que o governador tem obrigação de dar a essa gente. É esse o tratamento que ele está dando? Não, ele está tratando esses sujeitos como hóspedes normais! Você recebe o Al Capone na sua casa e o trata como se fosse um homem honrado e, sobretudo, empresta um megafone nacional para o sujeito falar, para fazer propaganda? O que fez o Fórum Social Mundial se não dar a esse pessoal da guerrilha instrumentos de propaganda? Ora, dar instrumento de propaganda não é cumplicidade? É o caso de facilitar meios para a apologia do crime. E essa guerrilha é criminosa.

O senhor tem alguma avaliação de por que este processo de ascensão do PT ao poder começou no Rio Grande do Sul?

— Em parte é porque você tem uma tradição de estatismo forte, muito arraigada. Mas é curioso que justamente o gaúcho tenha essa mania, porque ele não precisa disso, o gaúcho é um tipo independente, que sempre teve iniciativa própria. Se fosse um povo fracote, incapaz, que precisa de um governo forte que o proteja, eu admitiria isso. Mas o gaúcho realmente não precisa disso, esta é uma situação irônica, uma excrescência. Isso ficou assim por falta de repertório cultural. Sobretudo, quando não há outras idéias em circulação, você adere às idéias que estão aí. Por exemplo, a tradição liberal é todinha ignorada aqui neste país. Você fala de liberalismo, as pessoas não sabem a que autores você está se referindo, não têm as fontes, nunca leram nada a respeito, você não vê os livros liberais nas livrarias. Você encontra, no máximo, um ou outro best seller sobre globalização, livros de terceira ou quarta categoria. Você não encontra os livros do von Mises, do Hayek, do Rothbard. Tudo o que há de mais significativo do pensamento liberal não chega aqui.

Falando nisso, o senhor vai ter uma participação no Fórum da Liberdade, que está em sua 14a edição. Como o sr. vê a sua participação nesse fórum e mesmo a existência deste tipo de iniciativa, que já está consagrada no estado?

— Ah, isso vai ser muito divertido! Em primeiro lugar, porque eu tive um debate pela imprensa com o deputado José Dirceu, e eu vou encontrá-lo lá, eu quero que ele me diga, cara a cara, que ele não é um técnico em inteligência militar formado em Cuba. Ele diz que o PT só investiga nas fontes oficiais, o que é uma impossibilidade pura e simples porque, em certas CPIs, o PT aparecia sabendo até o número da cédula que foi dada em propina para um sujeito. O que mostra que existe espionagem. E o deputado José Dirceu nega isso aí. Ameçou até me processar. Agora, ele deve explicar como é que se deu essa estranha mutação na cabeça dele que, de agente secreto, se transformou em jurista. Esse é um dos motivos pelos quais eu estou ansiosíssimo para chegar lá, eu quero que ele me conte essa história.

Como é que o senhor contrasta uma iniciativa como o Fórum da Liberdade com o Fórum Social, por exemplo? No Fórum da Liberdade a gente vê que existe contraste de opiniões, o que não parece ser o caso do Fórum Social.

— O Fórum Social, que pretendeu ser um contraponto ao Fórum de Davos, verdade foi apenas uma caricatura do Fórum da Liberdade, uma macaquice muito mal feita, porque ali não tem Fórum nenhum, aquilo é um coro, o Coro Social Mundial. O conceito de debate deles é o do centralismo democrático leninista. É o debate interno dos comunistas. Nesse sentido, não digo nem que eles sejam contra a liberdade: eles são a favor da liberdade, só que da liberdade para eles! Quem não é da curriola deles não precisa de liberdade. Esse Fórum Social Mundial foi duplamente fraudulento: não só por se apresentar como Fórum, o que não verdade não foi, mas também por posar como o grande inimigo da Nova Ordem Mundial, que o financiou e o paparicou, passou a mão na cabeça dele e o carregou no colo. Toda a constelação dos grão-senhores da Nova Ordem Mundial apoiou essa porcaria e esses meninos ficam fazendo o papel de enfants terribles : “Nós somos os revoltadinhos.” São nada, são uns vendidos!

O senhor também atribuiu aos intelectuais de esquerda um papel de formadores de guerrilheiros, durante os anos em que estes intelectuais estiveram encarcerados com ladrões comuns, durante a época da ditadura no Brasil.

— Isso é um longo processo. A utilização do banditismo para a revolução é uma tradição. Começa na Revolução Francesa, Lênin aperfeiçoou a coisa e ela segue sendo usada, de maneira que não há novidade alguma nisso aí.

O senhor deve ter visto os movimentos de pequenos agricultores invadindo a Secretaria da Agricultura do Estado. Será que isso aí é o feitiço se voltando contra o feiticeiro, ou é pura tática de desinformação?

— Eu não creio que isso configure um caso de o feitiço virar contra o feiticeiro em escala maior. Essas coisas não são muito difíceis de controlar e são percalços no caminho de uma estratégia revolucionária. Isso acontece mesmo. Agora, no caso dos bandidos, é mais difícil governá-los. Mas nem por isso foi impossível fazer uma rebelião simultânea de 29 presídios em São Paulo, preparada desde a década de 70 por intelectuais esquerdistas presos, que ensinaram a essa gente as técnicas de guerrilha e de organização política. Esses mesmos intelectuais e líderes esquerdistas aparecem na televisão, falando das causas do banditismo como se fossem autoridades neutras e superiores no assunto. Ora, as causas são eles mesmos! Nosso banditismo não tem a ver com problemas sociais, miséria, principalmente porque os grandes centros produtores de violência não são as regiões mais pobres. Para falar em causas sociais do banditismo, você precisaria de causas sociais para transformar o sujeito pobre em um traficante em grande escala, e isso é impossível. Mas a idéia de que o banditismo tem causas sociais acaba funcionando como um pretexto legitimador do banditismo. Para o bandido, essa é uma retórica agradável aos ouvidos dele: o sujeito investe contra a sociedade e a sociedade é que é culpada. Para o bandido isso é uma delícia.

Do ponto de vista da segurança pública, o sr. deve ter acompanhado os protestos de cidades do interior do RS, nas quais a Brigada Militar está sendo retirada, concentrando suas operações em uns poucos municípios. Como é que o senhor vê esse processo?

— Isso tem uma lógica. Por um lado, você fomenta a formação de organizações revolucionárias, como o MST. Você paparica e dá apoio publicitário à guerrilha. E, por outro lado, você desmonta o aparato policial civil e militar. Você está agindo com muita lógica. Você está preparando uma revolução. Mas, como as pessoas hoje em dia não estudam mais estratégia leninista, só os que a praticam ainda a estudam, elas vêem esse fatos e os consideram coisas isoladas, quando tudo isso é de uma lógica absolutamente implacável. A Brigada Militar é um centro de resistência ao processo revolucionário, logo, temos de desmontá-la, é óbvio!

O senhor acha que isso é apenas a ponta do iceberg?

— Nem ponta de iceberg: o processo é visível! Não se pode nem mesmo dizer que é uma conspiração, porque o processo está acontecendo na nossa cara! Por exemplo, toda essa campanha pela ética, inventada em 1990, com a finalidade de atribuir à esquerda o monopólio da autoridade moral e de jogar as demais tendências umas contra as outras, está sendo feita na nossa cara, e, depois de doze anos de experiência, as pessoas ainda não se deram conta disso. A incapacidade de aprender com a experiência assinala uma grave deficiência mental. Um país que ainda não aprendeu a unidade desse processo está em um estado de torpor mental absolutamente patético!

O senhor chegou mesmo a comentar que a briga recente do ACM com o FHC era resultado desse processo.

— Esse foi um resultado maravilhoso! Prova que a coisa está funcionando. Eles estão arrebentando com todas as lideranças que possam se opor no caminho deles, desmontando o país com base em acusações de corrupção, com uma ressalva: eles próprios nunca são investigados, porque antes tiveram o bom senso de penetrar na Polícia Federal, no Ministério Público, e sobretudo na mídia. Se o petista que está no Ministério Público quer investigar um sujeito, o que ele faz? Ele solta aquilo para a imprensa, a imprensa noticia e aí ele usa o noticiário da imprensa como motivo para iniciar a investigação. Na hora que se inicia a investigação, o sujeito já está queimado, com indisponibilidade de bens, já se abre seu sigilo bancário. A reputação do sujeito está acabada. No fim, se ele for inocentado pela Justiça, a reputação dele será restaurada? Não, a reputação do juiz é que estará acabada! Se o sujeito é inocentado, isso não é prova de que ele é inocente, mas é prova de que o juiz é culpado. E as pessoas ainda não são capazes de ver aí a unidade de uma estratégia revolucionária, a qual os próprios revolucionários já confessaram.

E o senhor acha que há a possibilidade de mudança? Ou o processo de aprendizado vai ser muito longo?

President Lula Guilty By Confession

Translated by David Carvalho and Donald Hank to | Diario do Comercio

Laigle’s Forum .

I should be grateful to President Lula. When practically all the national media makes an effort to cover up the activities of the Sao Paulo Forum or even to deny its existence, labeling as a “madman” or “fanatic” anyone who denounces them, cometh the very founder of the entity and does the job, proving by his own words the most depressing suspicions and some even worse.

The presidential speech on July 2, 2005, stated in the fifteen year anniversary of the Forum and reproduced in the government’s official site , is the explicit confession of a conspiracy against the national sovereignty, an infinitely more serious crime than all crimes of corruption perpetrated and covered up by the current government; a crime that, by itself, would justify not only impeachment but also the imprisonment of its perpetrator.

At the distance at which I find myself, I have only now become fully aware of this unique document, and yet the editors-in-chief of the major newspapers and of all the radio and TV news broadcasts in Brazil were there the whole time. Though aware of the speech since the date it was made, they remained silent, proving that their persistent hiding of the facts was not the result of distraction or pure incompetence: it was subservient, Machiavellian complicity with a crime, of which they expected to enjoy profits unknown.

The meaning of these paragraphs, once unearthed from the verbal garbage that wraps it, is crystal clear:

“As a function of the existence of the Sao Paulo Forum, comrade Marco Aurelio has played an extraordinary role in this effort to consolidate what we started in 1990... This was how we, in January 2003, proposed to our comrade, president Chavez, the creation of the Group of Friends to find a peaceful solution that, thank God, took place in Venezuela. And it was only possible thanks to political action between comrades. It was not a political action of either a State with another State, or one president with another president. Some will remember, Chavez attended one of the forums we held in Havana. And thanks to this relationship it was possible for us to build, with many political divergences, the consolidation of what took place in Venezuela, with the referendum that installed Chavez as president of Venezuela.

“In this way we could act, together with other countries, with our comrades of the social movement, of those countries’ parties, of the union movement, always using the relationship built in the Sao Paulo Forum so that we could talk without appearing to do so, and so that people would not understand any political interference taking place.”

What the President admits in these excerpts is that:

1. The Sao Paulo Forum is a secret or at least undercover entity (”built... so that we could talk without seeming to do so, and so that people would not understand any political interference taking place”).

2. This entity is actively involved in the internal politics of many Latin-American nations, making decisions and determining the course of events, at the fringes of all supervision by government, parliaments, justice and public opinion.

3. The so called “Group of Friends of Venezuela” was but an arm, agency or facade of the Sao Paulo Forum (”as a function of the existence of the Forum... we proposed to our comrade president Chavez.”..).

4. After being elected in 2002, he, Luis Inacio Lula da Silva, while having abandoned pro forma his position as president of the Sao Paulo Forum, giving the impression that he was free to rule Brazil without commitments with ill-explained foreign alliances, kept working underground for the Forum, helping, for instance, to produce the results of the Venezuelan referendum of August 15, 2004 (”thanks to this relationship it was possible for us to provide the consolidation of what took place in Venezuela”), without giving his voters the slightest satisfaction for this.

5. The orientation in vital issues of Brazilian foreign policy was decided by Mr. Lula not as President of the Republic at meetings with his ministers, but as an attendee and advisor of underground meetings with foreign political agents (”it was a political action between comrades, not a political action either of one State with another, or of one president with another”). He put loyalty to his “comrades” above his duties as a president.

The President confesses, in short, that he subjected the country to decisions made by foreigners, gathered in conferences of an entity whose actions the Brazilian people would not be made privy to, much less understand.

The active humiliation of the national sovereignty could not be more evident, especially when one realizes that the attending entities of these decision-making meetings include organizations such as the Chilean MIR, kidnapper of Brazilians, and the FARC, Colombian narcoguerilla, responsible, according to its member Fernandinho Beira-Mar, for the annual injection of two hundred tons of cocaine into the national market.

Never before has an elected president of any civilized country showed such complete disdain for the Constitution, the laws, the institutions and the entire electorate, while giving all confidence, all authority, to a conclave swarming with criminals, in tracing the nation’s destiny and its relations with its neighbors behind the people’s backs. Never before in Brazil was there as brazen, complete and cynical traitor as Luis Inacio Lula da Silva.

The greatest proof that he consciously eluded the opinion of the public, keeping them ignorant of the operations of the Sao Paulo Forum, is that, as the elections approached, fearing my constant denunciation of this entity, he told his “advisor for international affairs,” Giancarlo Summa, to appease the newspapers by means of an official note from the Workers Party stating that the Forum was just an innocent debating club, devoid of any political action (see http://www.olavodecarvalho.org/semana/10192002globo.htm ). And now he boasts of the “political action of comrades,” performed with resources from the Brazilian government and hidden from Congress, justice and public opinion.

Compared to such an immense crime, what importance can the Mensalao and the like phenomena have but as a means of financing operations that are only part of the overall strategy of transferring national sovereignty to the secret authority of foreigners?

Can there be greater disproportion than between ordinary cases of corruption and this supreme crime for which they served as instruments?

The answer is obvious. But why then did many readily denounce the means while agreeing to keep covering up the ends?

Here the answer is less obvious. It requires presorting. The denouncers are divided into two types: (A) individuals and groups committed to the Sao Paulo Forum’s scheme, but not directly involved in the use of these illicit means in particular; (B) individuals and groups unrelated to both things.

The rationale of the former is simple, to whit: off with the rings, but keep the fingers. Once it has become impossible to keep hiding the use of illicit instruments, they agree to throw their most notorious operators under the bus, in order to keep perpetrating the same crime by other means and agents. The content and even the style of the charges leveled by these people reveal their nature as pure decoys. When they attribute the Workers Party corruption, which started as early as 1990, to settlements with the IMF signed in 2003 on, they show that their need to lie does not shrink even before the plain and simple material impossibility. When they cast the blame on some “group,” hiding the fact that the ramifications of the criminal structure extended from the Presidency of the Republic to the rural town halls, implicating practically the whole party, they prove that they have as much to hide as those who were charged at the time.

More complex are the motivations of group B. In part, it is composed of characters devoid of fiber, physical and moral cowards, who would rather focus on the lesser details for fear of seeing the continental dimensions of the overall crime. There is also the subgroup of the intellectually weak, who stake their bets on the “death of communism” nonsense and now, in order not to contradict themselves, feel obliged to reduce the greatest coup scam in the history of Latin America to the more manageable dimensions of an ordinary corruption scheme, depoliticizing the meaning of the facts and pretending that Lula is nothing more than a Fernando Collor without a jet ski. There are those who, out of either opportunism or stupidity, collaborated way too much with the rise of the criminal party to power and now feel divided between the impulse to cleanse themselves of the stench of the bad company they kept, and the impulse to lessen the crime to avoid the burden of their complicity in it. There are also the pseudo-wise guys who aided and abetted the enemy, blinded by the insane illusion that it is more viable to defeat him by gnawing at him from the edges than by lunging a death blow in his heart. There are, finally, those who truly understand nothing of what’s going on and, parroting Brazilian speech patterns, just repeat what they hear, in hopes of blending in.

I earnestly ask all the flaming anti-corruption accusers of recent weeks – politicians, media owners, businessmen, journalists, intellectuals, judges, and military – to examine carefully their own consciences, if they have any left, to see into which of these subgroups they fall. Because, aside from those few Brazilians of valor who supported in timely fashion the charges against the Sao Paulo Forum, all the others will inevitably fall into one of them.

It would be absurd to blame only Lula and the Sao Paulo Forum for the Brazilian moral decay, forgetting the contribution they got from these fair-weather moralists, as eager to denounce the parts as they are to hide the whole picture. Nothing could have fueled national self-deceit more than this marvelous network of complicities and omissions born of motivations that, while varied, converge into the same result, namely, the creation of a false impression of transparent investigations, and a facade of normality and lawfulness even as the entire order crumbles, invisibly gnawed away from the inside.

The destruction of order and its replacement by “a new pattern of relationships between State and society,” decided in secret meetings with foreigners – such was Mr. Lula’s confessed objective. This objective, as he said in another part of the same speech, must be attained and consolidated “in a manner such that it can be sustained, regardless of who is governing the country.”

What is perceived from the behavior of Mr. Lula’s critics and accusers is that, in this general objective, he has already emerged victorious, regardless of the success or failure that he may have in the rest of his term. The new order whose name may not be spoken is already in place, and its authority is such that not even the president’s fiercest enemies dare to challenge it. All of them, in one way or another, have already committed themselves at least implicitly to put the Sao Paulo Forum above the Constitution, the laws and the institutions of Brazil. If they complain about looting, embezzlement, vote buying and bribes, it is precisely to avoid complaining about the transfer of national sovereignty to the continental conference of “comrades,” like Hugo Chavez, Fidel Castro, the Colombian narcoguerillas and the Chilean kidnappers. It is like a rape victim protesting the damage to her hairdo, neglecting to mention, even politely, the rape itself.

A Teoria Da Exploracao Do Socialismo Comunismo Capitulo I

Tradução: LYA LUFT | A idéia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômic

I. Pesquisa histórica da teoria da exploração A. Características gerais da teoria da exploração 1. Luta mortal entre socialismo e capitalismo Chego agora àquela teoria memorável, cuja formulação talvez [p.241] * não seja um dos mais agradáveis acontecimentos científicos do século XIX, muito embora seja um dos mais importantes destes acontecimentos. Situada no berço do moderno socialismo, esta teoria com este se desenvolveu e atualmente constitui o ponto crucial em torno do qual giram ataque e defesa na disputa pela organização da sociedade moderna.

1 2. Teoria socialista de que o juro se fundamenta na exploração No entanto, essa teoria ainda não tem nome certo nem característico. Se eu quisesse retirar tal nome de uma característica de seus principais partidários, poderia chamá-la teoria socialista do juro. Se, conforme julgo mais conveniente, quiser fazer valer para essa denominação o conteúdo teórico da doutrina, parece-me que o melhor nome será teoria da exploração, termo que empregarei daqui por diante. Condensada em algumas frases, a essência da teoria pode ser caracterizada da maneira que se segue.

Todos os bens de valor são produtos do trabalho humano; do ponto de vista econômico, são exclusivamente produto do trabalho humano. Contudo, os trabalhadores não recebem o produto integral do que sozinhos produziram, pois os capitalistas, utilizando-se do controle que, pela instituição da propriedade privada, exercem sobre indispensáveis auxiliares da produção, tomam para si parte do produto dos trabalhadores. Fazem isso através do contrato de trabalho, por meio do qual compram a força de trabalho dos verdadeiros produtores, obrigados pela fome a concordarem, enquanto o restante do produto reverte para os capitalistas, sem qualquer esforço de sua parte. O juro de capital consiste, pois, numa parte do produto de trabalho alheio que se obtém através da exploração da condição de oprimidos dos trabalhadores.

B. Economistas pré-socialistas influenciados pela teoria da exploração 3. Adam Smith e David Ricardo, fontes ambíguas O surgimento dessa doutrina, que há longo tempo já vinha sendo preparado, tornou-se quase inevitável devido à singular direção assumida pela doutrina econômica do valor dos bens desde Smith, e, mais ainda, depois de Ricardo. Ensinava-se e acreditava-se, generalizadamente, que o valor de todos ou da maioria dos bens econômicos se medisse pela quantidade de trabalho que tinham incorporado, e que essa era a causa do valor dos bens. Assim, não foi possível evitar que, cedo ou tarde, se começasse a indagar: por que então o trabalhador não detém todo o valor que nasceu do seu trabalho? E, quando era feita essa pergunta, a única resposta condizente com o espírito daquela doutrina era: uma parte da sociedade, os capitalistas, apodera-se de parte do valor dos bens que resultam unicamente do trabalho da outra parte da sociedade, os trabalhadores.

Smith e Ricardo, criadores dessa teoria do valor do trabalho, como vimos, não forneceram tal resposta. Vários de seus primeiros seguidores, prudentemente, também evitaram respondê-la. Enfatizaram que o trabalho tem o poder de criar valor; na concepção geral da economia, no entanto, seguiram fielmente a trilha de seus mestres. Assim agiram os economistas alemães Soden e Lotz. Mas a resposta estava imanente, como conseqüência lógica, na sua doutrina. Bastariam uma condição. adequada e um discípulo mais conseqüente para que ela emergisse. Smith e Ricardo podem, pois, ser considerados padrinhos involuntários da teoria da exploração. Também os seguidores dessa teoria os encaram como tal. Eles, e praticamente só eles, são também considerados, pelos mais dogmáticos socialistas, com o respeito devido aos descobridores da “verdadeira” lei do valor. A única acusação que lhes fazem é a de não terem chegado à conseqüência lógica, que os teria habilitado a coroar sua própria obra com a teoria da exploração.

4. Outros precursores da teoria da exploração Quem gosta de pesquisar árvores genealógicas, não apenas de famílias mas também de teorias, poderá encontrar, já em séculos passados, muitas manifestações que se adaptam bem à escola de pensamento da teoria da exploração. Sem falar nos canonistas, que concordam mais por acaso com as conclusões dessa teoria, cito Locke, que em determinada passagem aponta com muita ênfase o trabalho como fonte de todos os bens 2 e, em outra ocasião, apresenta o juro como fruto de trabalho alheio 3 ; James Stuart, que se move, embora com menor ênfase, nesta mesma linha de pensamento; Sonnenfels, que eventualmente designa os capitalistas como a classe daqueles “que não trabalham e se alimentam do suor das classes trabalhadoras” 4 ; e Busch, que também considera o juro de capital (é verdade que ele só trata do juro estipulado para empréstimos) [p.243] o “ganho de propriedade obtido por indústria alheia” 5 .

Provavelmente esses exemplos poderiam ser multiplicados se fizéssemos uma pesquisa ativa na literatura mais antiga.

5. Fontes de teorias da exploração mais explícitas e mais agressivas Contudo, o nascimento da teoria da exploração como doutrina consciente e coerente só se pode situar num período posterior. Antes dele aconteceram mais dois fatos preparatórios. Primeiro, como foi mencionado acima, o desenvolvimento e popularização da teoria do valor, de Ricardo, que forneceu a base teórica na qual a teoria da exploração pode crescer naturalmente; e, depois, o avanço vitorioso de uma produção capitalista em massa, que, criando e expondo uma abissal oposição entre capital e trabalho, propôs simultaneamente a questão do juro de capital sem trabalho como um dos grandes problemas sociais.

Sob tais influências, parece que nossa era está madura, desde os anos vinte do século XIX, para a elaboração sistemática da teoria da exploração. Entre os primeiros teóricos que a fundamentaram mais amplamente (deixo de lado, nessa história da teoria, os “comunistas práticos” cujos esforços naturalmente se enraizavam em idéias semelhantes) temos William Thompson na Inglaterra e Sismondi na França.

6. William Thompson e a exploração dos trabalhadores Thompson 6 elaborou de maneira breve mas notavelmente clara e perspicaz os princípios básicos da teoria da exploração. Começa com a premissa teórica de que o trabalho é a fonte de todo valor, e chega à conclusão prática de que os produtores devem receber todo o lucro do que produziram. Com relação a essa exigência do lucro total do trabalho, constata que os trabalhadores, na verdade, se limitam a receber um salário que mal cobre suas necessidades de sobrevivência, enquanto a mais-valia (valor adicional, superávit ), que pode ser provocada com auxílio de maquinaria e de capital adicional com a mesma quantidade de trabalho, é auferida pelos capitalistas, que juntaram capital e o adiantaram aos trabalhadores. Por isso, renda de terras e juro de capital representam descontos no produto total do trabalho a que os trabalhadores teriam direito.

7 Há uma cisão nos pontos de vista quanto à medida da influência de Thompson sobre a posterior evolução da literatura. Suas pistas visíveis são muito poucas. Na literatura especializada inglesa, a orientação de Thompson teve pouco eco, 8 e os mais conhecidos socialistas da literatura especializada francesa e alemã pelo menos externamente não se ligaram a ele. E difícil decidir se a idéia que Anton Menger 9 recentemente defendeu com entusiasmo, de que Marx e Rodbertus tiraram suas mais importantes teorias socialistas de modelos ingleses e franceses antigos, especialmente de Thompson, tem fundamento. Não considero essa idéia muito convincente. Quando uma doutrina, por assim dizer, está “no ar”, nem sempre se deve considerar “empréstimo” a concepção do mesmo pensamento: a originalidade de um escritor não se fundamenta nem se prejudica por ele ter expressado alguns anos antes ou depois um pensamento desses. Ao contrário, sua força criadora prova-se no fato de ele conseguir [p.244] fazer acréscimos originais à idéia, assim construindo uma doutrina viva e coerente. Aliás, em assuntos científicos — embora haja exceções — muitas vezes a manifestação intuitiva de uma idéia é muito menos importante e meritória do que a fundamentação e execução bem alicerçadas dessa idéia. Lembro a conhecida relação de Darwin para com a premonição de Goethe quanto à teoria evolucionista. Ou, em nosso campo, recordo Adam Smith, que, das sementes do pensamento de Locke, no sentido de que trabalho é fonte de toda riqueza, desenvolveu seu famoso “sistema industrial”. Em nosso caso parece-me que Rodbertus e Marx conceberam e desenvolveram com tamanha originalidade a idéia da exploração, que, pessoalmente, não os pretendo apresentar como “emprestadores”, nem reciprocamente nem com relação aos antecessores.

10 7. Sismondi e a exploração dos trabalhadores Em contrapartida, é indubitavelmente grande e abrangente a influência de Sismondi.

Quando cito Sismondi como representante da teoria da exploração, faço-o com certa reserva. É que Sismondi elaborou uma doutrina que contém em si todos os traços essenciais da teoria da exploração, menos um: ele não pronuncia uma sentença de repúdio ao juro de capital. Ele é, simplesmente, o escritor de um período de transição: no fundo, devotado à causa da nova teoria, ainda não rompera por inteiro com a teoria antiga, e por isso recuava diante de certas conseqüências extremas da nova posição.

A grande e influente obra de Sismondi, que interessa principalmente à nossa questão, são seus Nouveaux principes d’économie politique 11 . Sismondi nela se aproxima de Adam Smith. Aceita a tese deste de que o trabalho é a única fonte de toda riqueza, 12 concordando entusiasticamente com ela (p. 51). Censura o fato de que freqüentemente se considerem as três formas de ganho — renda, ganho de capital e salário — como três fontes diversas, relacionadas à terra, ao capital e ao trabalho. Na verdade, segundo ele, todo ganho vem só do trabalho, e aquelas três categorias seriam maneiras diferentes de se participar dos frutos do trabalho humano (p. 85). O trabalhador, que pelo seu trabalho cria todos os bens, não conseguiu, “em nosso estágio de civilização”, manter a propriedade sobre os meios necessários de produção. De um lado, a terra é habitualmente propriedade privada de outra pessoa, que, como recompensa ao trabalhador pela colaboração da “força produtiva”, toma para si uma parte dós frutos do trabalho; essa parcela — que fica para o proprietário — chama-se lucro da terra. De outro lado, o trabalhador produtivo habitualmente não tem suficiente provisã9 de alimentos dos quais pudesse viver durante a execução de seu trabalho. Tampouco possui a matéria bruta necessária à produção ou os — não raro dispendiosos — instrumentos e máquinas. O rico, que possui todas essas coisas, [p. 245] obtém assim certo controle sobre o trabalho do pobre: sem participar ele mesmo do trabalho, toma a si, como recompensa pelas vantagens que oferece ao pobre, a melhor parte dos frutos do trabalho (“Ia part Ia plus importante de son trauail “). Essa parte é o ganho de capital (pp. 86 e 87). Assim, como decorrência da organização da sociedade, a riqueza adquiriu a capacidade de multiplicar-se através do trabalho alheio (p.82).

Embora no trabalho diário o trabalhador produza bem mais do que sua necessidade de cada dia, depois da divisão com donos das terras e capitalistas raramente lhe sobra mais do que um sustento mínimo irrecusável que recebe em forma de salário. A razão disso está na dependência em que ele se encontra em relação ao empresário, dono do capital. O trabalhador precisa muito mais do seu sustento do que o empresário precisa do trabalho dele. O trabalhador necessita do salário para viver, enquanto o empresário apenas necessita do trabalho alheio para obter lucro. Assim, geralmente a barganha desfavorece o trabalhador: este precisa contentar-se com um salário insignificante, enquanto a parte do leão nas vantagens decorrentes da produtividade crescente fica nas mãos do empresário (p. 91 ss.).

Quem tiver seguido até aqui as idéias de Sismondi, lendo entre [p.246] outras a frase que diz que “os ricos devoram o produto do trabalho alheio” (p. 81), deve esperar que Sismondi finalmente declare, e repudie, o juro de capital como um ganho extorsivo, que deve ser condenado. Mas Sismondi não tira essa conclusão de suas idéias. Ao contrário, num inesperado volteio, em algumas expressões vagas e obscuras, favorece o juro de capital, e o apresenta como coisa justa. Primeiramente, diz que o dono da terra adquiriu, pelo trabalho original de tornar a terra cultivável, ou pela ocupação de terras sem dono, um direito sobre o lucro da terra (p. 1] O). Analogamente, atribui ao dono do capital o direito ao juro do capital, que se fundamenta no mesmo “trabalho origina!” graças ao qual esse capital existe (p. 111). Esses dois tipos de renda têm uma característica comum, qual seja a de constituírem, ambos, renda de propriedade, e podem, pois, ser contrastados com a renda advinda do trabalho. Mesmo assim, Sismondi procura atribuir-lhes uma boa reputação, demonstrando que eles também devem sua origem ao trabalho, sendo a única diferença decorrente do fato de que sua honrosa origem data de um período anterior. Os trabalhadores ganham anualmente um novo direito de renda por novo trabalho, enquanto os proprietários, em época anterior, obtiveram, através de um trabalho inicial, um direito permanente que possibilita um trabalho anual cada vez mais vantajoso(p. 112).

13 “Cada um recebe sua parte nos ganhos nacionais unicamente na medida em que ele próprio, ou seu representante, colaborou, ou colabora, para a existência de tais ganhos”, conclui ele. Naturalmente não diz se, nem como, essa afirmação pode-se harmonizar com a anterior de que o juro de capital é retirado dos frutos do trabalho alheio.

As conclusões que Sismondi não havia ousado tirar da sua teoria foram logo tiradas por outros, e de maneira muito decidida. Ele é a ponte entre Smith e Ricardo e as subseqüentes doutrinas do socialismo e comunismo. Estes, com sua teoria de valores, tinham proporcionado o surgimento da teoria da exploração, mas ainda não a haviam elaborado. Sismondi virtualmente levara a efeito a teoria da exploração, sem, contudo, orientá-la para o terreno político-social. A ele segue-se aquela força maciça que, sob o rótulo de socialismo e comunismo, continua a seqüência lógica da antiga doutrina de valores com todas as suas conseqüências teóricas e práticas, e chega finalmente à conclusão de que “ juro é exploração, e, portanto, deve ser eliminado “.

C. Socialistas Para mim não haveria interesse teórico em fazer excertos da volumosa literatura socialista do século XIX em todas as passagens em que ela anuncia a teoria da exploração. Eu teria de cansar meu leitor com grande quantidade de paralelos que, quase sem variação de vocábulos, resultariam numa longa monotonia, e que na sua maior parte se contentam em afirmar as teses cardinais da teoria da exploração, sem acrescentar, para sua comprovação, mais do que referências à autoridade de Ricardo, ou alguns lugares-comuns. A maioria dos socialistas “científicos” exercitou a sua força intelectual muito mais no ataque cáustico às teorias adversárias do que na fundamentação de suas próprias teorias.

Por isso, contento-me com mencionar, na massa de autores com tendências socialistas, alguns poucos homens que se tornaram importantes para a evolução ou divulgação da teoria em questão.

8. Proudhone a exploração dos trabalhadores Entre esses autores destaca-se P. J. Proudhon, autor de Contradictions économiques, graças à clareza de seus pontos de vista e à sua dialética brilhante, qualidades que fizeram dele o mais eficaz apóstolo da teoria da exploração na França. Como nos interessa mais o conteúdo do que a forma, deixo de lado a reprodução detalhada de exemplos do estilo de Proudhon, contentando-me em resumir em poucas frases a essência de sua doutrina. Há de se notar imediatamente que, excetuando algumas singularidades externas, ela se distingue muito pouco do esquema geral inicial da teoria da exploração.

Para começar, Proudhon considera certo que o trabalho cria todo valor. Por isso o trabalhador tem um direito natural de propriedade de seu produto integral. No contrato de salário ele cede esse direito ao dono do capital, em troca de um salário pelo trabalho, salário este que é menor do que o produto cedido. Com isso ele é logrado, uma vez que, não conhecendo seu direito natural, não sabe a magnitude da concessão que fez, nem o sentido do contrato que o proprietário firma com ele. E este último se utiliza do engano e da surpresa, para não dizer mesmo que pratica dolo e fraude (“ erreur et surprise, si même on ne doit dire doI et fraude “) [p. 247].

Acontece, assim, que hoje em dia o trabalhador não consegue comprar seu próprio produto. No mercado seu produto custa mais do que a quantia que ele recebeu como salário; custa mais em função da soma de toda sorte de ganhos ligados ao direito de propriedade que, agora, sob diversas denominações, tais como lucro, juro, interesse, renda, arrendamento, dízimo etc..., constituem uma soma de “tributos” (aubaines) que são impostos sobre o trabalho. O que, por exemplo, 20 milhões de trabalhadores produziram por um salário anual de 20 bilhões de francos, custa, por causa desses ganhos, que passam a ser incluídos no custo, 25 bilhões. Mas isso significa “que os trabalhadores que, para poder viver, são forçados a comprar de volta esses mesmos produtos, têm de pagar cinco pelo mesmo que produziram por um salário de quatro, ou que terão de jejuar um em cada cinco dias”. Assim o juro é um imposto adicional sobre o trabalho, uma retenção ( retenue ) no salário de trabalho.

14 9. Rodbertus e a exploração dos trabalhadores Equiparável a Proudhon por sua pureza de intenções, mas muito superior a ele em termos de profundidade de pensamentos e de ponderação, embora inferior ao ardente francês no que concerne à exposição das idéias, é o alemão Rodbertus. Para o historiador de economia, ele é a mais importante personalidade aqui citada. Por longo tempo desconheceu-se a sua importância científica, e, por estranho que pareça, Isso deveu-se precisamente ao tato de seu trabalho ser tão científico. Por não se dirigir, como outros., diretamente ao povo, por se restringir particularmente à pesquisa teórica, por ser comedido e reservado em relação às sugestões práticas voltadas para o interesse direto das massas, por longo tempo foi bem menos famoso do que homens menos importantes que pegavam em segunda mão suas idéias e as apresentavam numa forma agradável às massas. Só mais recentemente Rodbertus, esse socialista sedutor, foi tratado com justiça e reconhecido como par espiritual do moderno socialismo científico. Em lugar das acaloradas agressões e antíteses retóricas que a massa dos socialistas tanto gosta de exibir, Rodbertus deixou uma doutrina profunda, de pensamento honesto, sobre a distribuição dos bens. Essa doutrina, embora enganada em muitos pontos, tem suficiente valor para assegurar ao seu autor uma importância permanente entre os técnicos da economia.

Reservo-me o direito de voltar, mais adiante, detidamente à sua fórmula de teoria da exploração. No momento, falarei de dois seguidores seus, que se distinguem um do outro tanto quanto de seu antecessor Rodbertus.

10. Ferdinand Lassalle e a exploração dos trabalhadores Um dos seguidores de Rodbertus é Ferdinand Lassalle, o mais eloqüente — embora, em conteúdo, menos brilhante — dos líderes socialistas. Menciono-o aqui apenas pelo muito que influiu, graças à sua brilhante eloqüência, na difusão da teoria da exploração. No entanto, sua contribuição para o desenvolvimento dessa teoria é nula. Por isso não [p. 248] é necessário reproduzir, através de citação de textos, sua doutrina, que é a de seus antecessores. Contento-me em indicar, através de notas de rodapé, algumas das passagens mais marcantes de sua obra .

15 D. Aceitação da teoria da exploração não restrita aos socialistas 11. Idéias de Guth sobre a exploração dos trabalhadores Embora a teoria da exploração tenha sido desenvolvida especialmente por teórico, socialistas, as idéias que lhes eram próprias encontraram aceitação em outros meios intelectuais, em diversos graus e maneiras.

Muitos aceitam por completo a teoria da exploração, ou quando muito recusam apenas suas aplicações práticas mais extremas. Nessa posição encontra-se, por exemplo, B. Guth.

16 Ele aceita integralmente todos os princípios essenciais dos socialistas. Para ele, o trabalho é a única fonte de valor. O lucro nasce porque, em função da concorrência desfavorável, o salário do trabalho fica sempre aquém do seu produto. Aliás, Guth não receia empregar para esse fato a expressão áspera “exploração”, como termo técnico. Mas, ao final, esquiva-se das conseqüências práticas dessa doutrina, através de algumas cláusulas de tergiversação: “Longe de nós querer tachar a exploração do trabalhador — considerada como fonte do lucro original — de ação injustificada do ponto de vista legal: até certo ponto, ela se fundamenta num acordo livre entre o empregador e o empregado, realizado, é verdade, em condições habitualmente desfavoráveis a este último.” O sacrifício realizado pelo trabalhador “explorado” é antes um “adiantamento a ser recompensado”. Isto porque a multiplicação do capital aumenta sempre mais a produtividade do trabalho; consequentemente, os produtos do trabalho se tornam mais baratos, e o trabalhador pode comprar mais com seu salário: seu salário concreto, portanto, também sobe. Por causa da “maior procura, cresce o campo de trabalho do trabalhador, fazendo subir seu salário em dinheiro”. A “exploração” assemelha-se, pois, a um emprego de capital que, através de seu efeito indireto, aumenta em porcentagens crescentes o lucro do trabalhador.

17 12. Idéias de Dühring sobre a exploração dos trabalhadores Também Dühring, em sua teoria do juro, se restringe à visão socialista... “O caráter do ganho de capital é uma usurpação da parte principal do produto da força do trabalho... O aumento da produtividade do trabalho e a diminuição do tempo despendido nesse trabalho [p. 249] são efeitos do aperfeiçoamento e da expansão dos meios de produção; mas o fato de que os obstáculos e dificuldades da produção se reduzem, acrescido ao fato de que o trabalho não-especializado se torna mais produtivo pela aquisição de novas técnicas, não dá ao instrumento.

Inanimado o direito de absorver o mínimo ganho além daquele que é exigido para a sua reprodução. O ganho de capital, portanto, não é conceito que se possa desenvolver na base de afirmações relativas unicamente à produção, ou de afirmações que se encaixem no esquema de um determinado sistema econômico. É uma forma de apropriação, e um resultado das condições de distribuiçao”.

18 Um segundo grupo de escritores aceita ecleticamente as idéias da teoria da exploração incorporando-as a seus outros pontos de vista sobre o problema do juro. Assim fazem, por exemplo, John Stuart Mill e Schaffle.

* Finalmente, outros ainda, se não se impressionaram com .os textos socialistas a ponto de aceitarem todo o seu corpo de doutrinas, mesmo assim incorporaram isoladamente alguns dos seus traços importantes. Parece-me que o mais importante acontecimento nesse campo foi o fato de um renomado grupo de professores universitários alemães, os “socialistas de cátedra”, terem revivido o velho conceito de que o trabalho é a única fonte de todo valor, a única força “criadora de valor”.

E. O princípio essencial da teoria: o trabalho é a única fonte de todo valor É estranho o destino que teve esse conceito, cuja aceitação ou rejeição é de enorme importância para se julgarem os mais relevantes fenômenos da economia. Ele surgiu originalmente na economia inglesa, e, nos primeiros decênios após a publicação da teoria de Smith, foi juntamente com ela divulgado. Mais tarde, por influência dos ensinamentos de Say, que elaborou a teoria dos três fatores da produção — natureza, trabalho, capital —, e depois por influência de Hermann e Senior, o conceito caiu em descrédito entre a maioria dos economistas, mesmo da escola inglesa. Por algum tempo só foi cultivado pelo grupo dos intelectuais socialistas. Quando os intelectuais socialistas alemães o retomaram, retirando-o dos textos de Proudhon, Rodbertus e Marx, esse conceito voltou a receber firme apoio dos economistas acadêmicos. Parece mesmo que, sustentado pela boa reputação dos líderes daquela escola alemã, ele poderá ressurgir vitorioso na literatura de todas as nações.

19 Passo agora ao exame crítico da teoria da exploração: veremos se ela é ou não desejável.

Notas * Os números entre colchetes correspondem à paginação original de Capital e juro , Libertarian Press, South Holland, lIIinois, 1959. As referências de Böhm- Bawerk se baseiam nessa paginaçao original 1 Escrito em 1884 e mantido nas edições de 1900, 1914 e 1921.

2 Civil Government (Vol. II, cap. V, § 40). O trecho que reproduzo aqui, segundo tradução de “Roscher em seu trabalho História” da economia inglesa, diz o seguinte: “ Também não causa tanta estranheza. como poderia parecer à primeira vista, o fato de que a propriedade do trabalho consiga superar a comunidade da terra, Pois. com efeito, é o trabalho que dá a cada coisa um valor diverso, Pensemos na diferença entre um acre de terra plantado com tabaco ou açúcar, semeado com trigo ou cevada. e um acre da mesma terra não cultivado, e veremos que a melhoria introduzida pelo trabalho constitui a maior parte do valor. Penso que é uma avaliação muito moderada dizer que 9/10 dos produtos do solo úteis à vida humana provem do trabalho: sim, se quisermos avaliar corretamente as coisas conforme as usamos, calculando-lhes os vários gastos – o que nelas vem da natureza e o que se deve ao trabalho -, veremos que em geral 99 por cento se devem inteiramente ao trabalho “.

3 Considerations of the consequences of the /owering of interest etc.

1691 (p, 24).

4 Hand/ungswissenscha /t. 2, ed. (p.430).

5 Geldumlaul (Cap. 111, § 26).

6 An Inquiry into the Principies of the Distribution of1 Wealth most Conducive to Human Happiness,, 1824.

Sobre Thompson e seus antecessores imediatos Godwin e Hall, ver Anton Menger, Das Recht auf den uollen Arbeitsertragl.

Stuttgart 1866. § § 3-5, e Held, Zwei Bücher zur sozialen Geschichte Englands, Leipzig.

1881 (pp. 89 ss., e 378ss.).

7 Cf. Anton Menger. op. cit., § 5.

8 Dois trabalhos de Hodgskin pertencem a este mesmo período e orientação: um é o seu pouco conhecido Popular Political Economy ; o outro, um texto publicado anonimamente com o significativo título Labour Defended against the Claims of Capital . Eu próprio não tive acesso aos livros, e só tomei conhecimento deles através de citações encontradas em outros autores ingleses da mesma época. Especialmente Read e Scrope os citam muitas vezes, polemizando contra seu conteúdo. O título completo do texto anônimo é:

Labour Defended against lhe Claims of Capital ;

or the Unproductiueness o/ Capital Proued. by a labourer , London, 1825. Deduzo que Hodgskin seja o autor desse trabalho por causa de um. comentário de Scrope, na p. 150 do seu Principies of Political Economy , Londres. 1833. Reproduzo algumas passagens características. segundo citações de Read::”

All the benefits attributed to capital arise from co-existing and skilled labor ” (Introdução). Mais adiante admite-se que, com a ajuda de instrumentos e máquinas. se podem produzir mais e melhores pr9dutos do que sem eles: mas segue-se a seguinte observação:

“ But the question then occurs what produces instruments and machines. and in what degree do they aid production independent of the labourer, so that the owners of them are entitled to by far the greater part of the whole produce of the country? Are they or are they not lhe produce of labour? Do they or do they not constitute an efficient means of production separate from labour? Are they or are they not so much inert. decaying, and dead matter. of no utility whatever, possessing; no productive power wbatever, but as they are guided, directed and applied by skillful hands?

(p. 14).

9 Cf. Anton Menger, op. cit. Prefácio (p. V, e p. 53, 79 e ss., 97 e muitas outras).

10 A. Wagner expressou-se de forma semelhante em Grundlegung,3. ed. (Parte I p. 37. Nota 1. e Parte II p.281).

11 1a ed, 1819, 2a ed. Paris. 1827. A citação é tirada da última edição. Na obra anterior de Sismondi, ainda muito próxima da doutrina clássica. De La richesse commerciale . 1803, encontra-se entre outros um comentário interessante, de que o emprego de cada trabalhador produtivo envolve uma troca de bens presen- tes por bens futuros. Os bens presentes são os que são dados ao trabalhador como salário. em troca dos bens futuros. ou seja. aqueles que ele receberá no futuro com o produto do seu trabalho (op. cit., p. 53). Uma citação de Salz.

Beiträge zur Geschichte und Kritik der Lohnfondstheorie , 1905 (p. 65), chamou minha atenção para essa expressão precoce de um pensamento que muitas décadas depois usei mais amplamente em minha teoria do juro (cf. p. ex. minha Positive Theori e, 3.ed., pp. 503 ss e 524; 4.ed., pp. 374 ss. e 391).

12 Princípio que, aliás, nem sempre foi coerentemente sustentado por Smith. Além de labor, ele menciona com certa freqüência “terra” e “capital” como fontes de bens.

13 Se quisermos, poderemos ver nessas palavras uma expressão muito resumida da teoria do trabalho de James Mill.

14 Cf. várias passagens dos numerosos textos de Proudhon. Especialmente “ Qu’est-ce que la propriété ” (1840; na ed., Paris, 1849, p.’ 162);

Philosophie der Not (em tradução alemã de Wilhelm Jordan, 2.ed.) (p. 62, 287′ ss); “ Verteidigungsrede vor den Assisen von Besançon “, pronunciado a 3 de fevereiro de 1842 (eq. Obras completas, Pa- ris, 1868, vol.II). Sobre Proudhon, ver a abrangente obra de Diehl, P. J. Proudhon, Seine Lehre und sein Leben , em três seções, Jena, 1888 -1896.

15 Entre seus muitos textos, é Herr Bastiat.

Schulze von Delitzsch, der ökonomische Julian. oder Kapital und Arbeit (Berlim, 1864), aquele em que Lassalle expressa mais resumidamente suas opiniões sobre o problema do juro, e ao mesmo tempo apresenta com maior brilhantismo seu qênio aqitador. Trechos principais: o trabalho é “fonte e gerador de todos os valores” (p. 83, 122, 147). O trabalhador, porém, não recebe todo o valor, e sim apenas o preço de mercado do trabalho, encarado como mercadoria, que é o equivalente de seu custo de produção, ou seja, a sua mera subsistência (p. 186 ss). Todo o excedente recai sobre o capital (p. 194). Por isso, o lucro é uma dedução do produto do trabalho, que pertence ao trabalhador (p. 125), e de forma muito drástica (p. 97). Contra a doutrina da produtividade do capital, ver p. 21 ss. Contra a teoria da abstinência. ver p. 82 ss, e especialmente 110 ss. Cf. também os demais escritos de Lassalle.

16 Die Lehre uom Einkommen in diesen Gesamtzweigen , 1869. Cito pela 2a. ed., de 1878.

17 Op. cit. (p. 109 ss. Cf. também p. 271 ss).

18 Kursus der Nationa/-und Sozia/õkonomie , Berlim 1873, p. 183. Um pouco adiante (p. 185), ele declara, em visível reminiscência do “ droít d’aubaíne ” de Proudhon, que o lucro é um “imposto” arrecadado para compensar a renúncia ao poder econômico. A taxa de lucro representa a percentagem desse imposto.

* No original, comentados no cap. XIII (N. da T.).

19 Escrito em 1884. Desde então parece-me ter havido a tendência inversa. É verdade que, por uns poucos anos, a teoria do valor do trabalho, juntamente com a divulgação das idéias socialistas, ganhou terreno, mas recentemente ela o perdeu nos meios teóricos de todos os países, especialmente em favor da teoria, cada vez mais difundida, do “uso marginal”.

A Teoria Da Exploracao Do Socialismo Comunismo Capitulo Ii

Tradução: LYA LUFT | A idéia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômic

1.

Por que foram escolhidos Rodbertus e Marx Para exercer a função de crítico diante da teoria da exploração tive vários caminhos a escolher. Poderia criticar individualmente cada um dos representantes dessa teoria. Seria o caminho mais exato, mas a grande semelhança das diversas doutrinas levaria a repetições supérfluas e cansativas. Uma outra possibilidade seria a de, sem me deter em formulações individuais, criticar o esquema geral que fundamenta todas essas manifestações isoladas. Esta opção, porém, me exporia a uma dupla desgraça. De um lado, haveria o perigo de menosprezar certas nuances individuais da doutrina; de outro, mesmo que eu escapasse desse perigo, certamente não escaparia à acusação de ter escolhido o caminho mais fácil, exercendo minha crítica não à verdadeira doutrina, mas a uma imagem deformada dela, voluntariamente construída. Por isso, decidi-me por um terceiro caminho: retirar da massa de exposições isoladas algumas poucas que considero as melhores e mais perfeitas, submetendo-as a uma crítica individual.

Para esse fim escolhi as exposições de Rodbertus e de Marx. São as únicas que oferecem fundamentação razoavelmente profunda e coerente: em minha opinião, a do primeiro é a melhor delas; a do segundo, por sua vez, é a mais amplamente reconhecida, constituindo, de certa forma, a doutrina oficial do socialismo de hoje. Submetendo as duas a um exame detalhado, creio estar enfocando a teoria da exploração pelo seu lado mais forte – segundo as belas palavras de Knies: “Quem quiser ser vitorioso no reino da pesquisa cientifica tem de deixar o adversário aparecer com todo o seu armamento e força.”

* 2 . O que é e o que não é levado em conta Antes disso, um comentário para evitar mal-entendidos: o objetivo das páginas que se seguem é exclusivamente criticar a teoria da exploração enquanto teoria, ou seja, examiná-la para verificar se efetivamente o fenômeno econômico do juro de capital tem suas causas naquelas circunstâncias que a teoria da exploração dá como causas primeiras do juro. No entanto, não pretendo fazer um julgamento sobre o lado prático, político-social do problema do juro ou sobre suas implicações do ponto de vista da legislação social. Tampouco pretendo fazer qualquer julgamento sobre a sua qualidade boa ou má, nem mesmo defender a sua permanência ou revogação. Não me proponho a escrever um livro sobre o juro de capital, silenciando, ao mesmo tempo, sobre a mais importante das indagações a ele relacionadas. Eu posso, entretanto, comentar eficazmente o lado “prático” desse assunto, desde que a parte teórica esteja inteiramente clara, o que me força a deixar essa análise para o segundo volume do meu trabalho. Aqui, repito, desejo apenas examinar se o juro de capital, seja ele bom ou ruim, existe pelas razões alegadas pela teoria da exploração.

Nota * Der Kredit, Parte 2, Berlim, 1879 [p. VII]

Capítulo III Em 26 de agosto de 2002

Leituras

A Teoria Da Exploracao Do Socialismo Comunismo Capitulo Iii

Tradução: LYA LUFT | A idéia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômic

III – A teoria do juro de Rodbertus 1 A. Apresentação detalhada da teoria de Rodbertus 1. Rodbertus considera sua teoria como baseada em Smith e Ricardo O ponto de partida da teoria do juro de Rodbertus é o princípio “introduzido por Smith na ciência econômica – e mais profundamente corroborado pela escola de Ricardo”-, de que “todos os bens, economicamente considerados, são apenas o produto do trabalho, e só custam trabalho”. Rodbertus esclarece esse princípio – que costuma ser expresso sob a forma “só o trabalho é produtivo” – da maneira seguinte: em primeiro lugar, só são bens econômicos aqueles bens que custaram trabalho, enquanto todos os outros bens, por mais úteis e necessários que sejam aos homens, são bens naturais, que não interessam à economia; em segundo lugar, todos os bens econômicos são apenas produto de trabalho e, no conceito econômico, não são concebidos como produto da natureza ou de qualquer outra força, mas somente como produto do trabalho: qualquer outra concepção deles cairia no campo das ciências naturais, não no do econômico; e, em terceiro lugar, do ponto de vista econômico, todos os bens são produto só daquele trabalho que executou as operações materiais necessárias à sua produção. Mas tal trabalho inclui não apenas aquele que produz diretamente o bem, como, igualmente, aquele que produz os instrumentos necessários à produção do bem. O cereal, por exemplo, é produto não apenas do trabalho de quem maneja o arado, mas também daquele de quem o construiu.

2 2. Como Rodbertus formula suas reivindicações a favor dos trabalhadores Os trabalhadores manuais que criam todos os bens têm, ao menos “segundo o Direito em si”, um título natural e justo à posse de todo o produto.

3 Há, porém, duas importantes limitações, a saber: em primeiro lugar, o sistema de divisão de trabalho, segundo o qual muitos colaboram para a criação de um produto, torna tecnicamente impossível que cada trabalhador receba seu produto in natura . Por isso o direito ao produto todo tem de ser substituído pelo direito ao valor inteiro do produto.

4 Em segundo, devem participar do produto todos os que prestam serviços úteis à sociedade sem colaborar diretamente na criação material do produto, como o padre, o médico, o juiz, o cientista, e, na opinião de Rodbertus, também os empresários que “sabem através de seu capital ocupar produtivamente uma multidão de trabalhadores” 5 Mas esse trabalho indiretamente ligado à economia não terá direito a pagamento já na “distribuição dos originais dos bens”, da qual só devem participar os produtores, mas será remunerado numa “distribuição secundária de bens”. O que, segundo o Direito em si, podem reivindicar os que trabalham diretamente na criação de bens é receber na distribuição original o valor integral do produto de seu trabalho – sem prejuízo do direito secundário de outros membros úteis da sociedade.

Rodbertus diz que essa exigência natural não é atendida na estrutura social atual. Isto porque, na distribuição original, os trabalhadores recebem só parte do valor do seu produto em forma de salário, enquanto donos de terras e de capital recebem todo o resto em forma de renda. Para Rodbertus, renda é “todo ganho obtido sem trabalho próprio, unicamente devido a alguma propriedade.”

6 Ele cita dois tipos de renda: renda de terras e ganho de capital.

3. Afirmação de Rodbertus sobre o problema geral do juro “Que motivos – indaga Rodbertus – fazem com que, sendo todo ganho apenas um produto de trabalho, haja pessoas na sociedade que obtêm ganhos – ganhos primitivos – sem terem movido um dedo para produzirem esses ganhos?” Com essas palavras Rodbertus coloca o problema teórico geral da renda.

7 E para ele encontra a seguinte resposta:

A renda deve sua existência à ligação entre dois fatos: um, econômico; o outro, positivamente jurídico. O motivo econômico da renda reside no fato de que, desde a introdução da divisão de trabalho, este produz mais do que os trabalhadores necessitam para seu sustento e continuidade do trabalho, de modo que também outras pessoas podem viver disso. O motivo jurídico reside na existência da propriedade privada de terras e de capital. Uma vez que, em função dessa propriedade privada, os trabalhadores ficam excluídos do controle das condições indispensáveis para a produção, não podem produzir senão segundo um acordo prévio, e a serviço dos proprietários. Estes, por sua vez, tornam acessíveis aos trabalhadores as condições de produção, impondo-lhes, em troca, a obrigação de lhes entregarem parte do produto de seu trabalho como renda. Na verdade, essa entrega acontece mesmo de uma forma ainda mais onerosa para os trabalhadores, que entregam aos proprietários todo o produto de seu trabalho, recebendo de volta, como salário, apenas parte do seu valor, ou seja, o mínimo indispensável para seu sustento e para a continuidade do trabalho. O poder que força os trabalhadores a concordarem com esse contrato é a fome. Vejamos o que diz o próprio Rodbertus:

“Uma yez que não pode existir ganho que não seja criado pelo trabalho, a renda se fundamenta em dois pré-requisitos indispensáveis [p. 253], quais sejam:

1) Não pode haver renda, a menos que o trabalho produza mais do que o necessário para que os trabalhadores prossigam com o trabalho – é, pois, impossível que, sem esse superávit, alguém venha a conseguir um ganho regular sem trabalhar.

2) Não pode haver renda se não houver condições de privar os trabalhadores desse superávit, total ou parcialmente, dirigindo-o para outros que não trabalham – pois, por natureza, os trabalhadores são sempre proprietários diretos de seu produto. O fato de o trabalho criar esse superávit resulta de fatores econômicos, em particular daqueles que aumentam a produtividade do trabalho. O fato de esse superávit ser retirado aos trabalhadores, no todo ou parcialmente, decorre de fatores jurídicos.

Assim, como a lei sempre se ligou ao poder, também neste caso essa privação é imposta por uma coerção constante.

Originalmente, foi a escravidão – iniciada com a agricultura e com a propriedade de terra – que exerceu essa coerção. Os trabalhadores que criavam esse superávit com seu trabalho eram escravos. O senhor a quem pertenciam os trabalhadores e o próprio produto só concedia aos escravos o mínimo necessário para continuarem trabalhando, guardando para si o restante, ou seja, o superávit. Quando toda a terra se tornou propriedade privada, todo o capital passou, simultaneamente, aos particulares; a propriedade de terras e de capital passou, então, a exercer coerção semelhante também sobre trabalhadores libertos ou livres. Isso acarretou um duplo efeito. O primeiro é semelhante ao produzido pela escravidão: o produto não pertence aos trabalhadores, mas aos donos do solo e do capital. O segundo efeito é que os trabalhadores, que nada possuem, ficam satisfeitos por receberem dos donos do solo e do capital uma parte do produto de seu próprio trabalho para se sustentarem, isto é, para poderem continuar trabalhando. Assim, em lugar do domínio do dono de escravos, surgiu o contrato entre trabalhadores e empregadores, um contrato que é livre somente na forma, não na substância: quase sempre a fome substitui a chibata, e o que antes era chamado ração dos escravos agora se chama salário.”

8 Segundo essa idéia, toda a renda é fruto da exploração, 9 ou, como diz Rodbertus às vezes ainda mais causticamente, 10 um roubo do produto do trabalho alheio. É esse o caráter de todos os tipos de renda excedente seja sobre terras seja sobre capital, ou mesmo aquelas derivadas dessas duas: o aluguel e o juro de empréstimo. Esses últimos são justificados para os patrões que os pagam, mas são injustificados em relação aos trabalhadores, a cuja custa são em última análise obtidos.

11 4. Rodbertus e “quanto maior a produtividade, maior a exploração” O valor da renda cresce com a produtividade do trabalho. Isto porque, no sistema de livre concorrência, de modo geral, o trabalhador só recebe de forma permanente a quantia necessária para sobreviver, ou seja, uma determinada parcela concreta do produto. Quanto maior a produtividade do trabalho, tanto menor a porcentagem do valor total do produto [p. 254] representada por esta parcela concreta do produto que ele recebe, e tanto maior a porcentagem do produto e do valor que sobra para o proprietário, ou seja, seu lucro.

12 Segundo o que se afirmou até aqui, no fundo, toda renda é uma massa unificada de origem completamente homogênea; no entanto, na vida econômica prática ela se divide sabidamente em dois tipos básicos: a renda sobre terra e o ganho de capital. Rodbertus esclarece de maneira bem singular os motivos e as leis dessa divisão. Deve-se mencionar, de início, que ele parte da premissa teórica de que o valor de troca de todos os produtos é igual ao seu custo de trabalho.

13 Ele assume, em outras palavras, que todos os produtos são intercambiáveis uns pelos outros, na base de seus custos relativos em termos de trabalho. O que há de singular nessa afirmação é que Rodbertus sabe que ela não está de acordo com os fatos. Mas ele acredita que a teoria se desvia da realidade apenas no aspecto em que “o verdadeiro valor de troca ora é maior, ora é menor”; assim, haveria sempre certa tendência gravitacional para aquele ponto que seria “o valor de troca natural e, portanto, justo.”

14 Rodbertus rejeita firmemente a idéia de que haveria um rumo normal de eventos que faria com que os bens fossem trocados em outra base que não o trabalho ao qual se ligam. Ele exclui a possibilidade de que desvios dessa situação possam ser o resultado, não de oscilação passageira de mercado, e sim da aplicação de uma lei definida que leve o valor noutra direção.

15 Chamo agora a atenção para esse ponto que será muito importante mais adiante.

5. Rodbertus divide a produção em bruta e manufaturada Segundo Rodbertus, a produção total de bens se divide em dois tipos, quais sejam, a produção bruta, que, com ajuda da terra, gera produtos brutos e a manufatura, que processa os produtos brutos. Antes de se introduzir a divisão do trabalho, a obtenção e o processamento de produtos brutos se efetuavam em seqüência direta por um mesmo empresário que também auferia, indiferenciadamente, toda a renda resultante. Nesse estágio de desenvolvimento econômico ainda não se realizara a separação entre a renda sobre terras e ganho de capital. Desde a introdução da divisão do trabalho, porém, os empresários da produção bruta e os empresários da ulterior manufatura são pessoas distintas. A questão preliminar é como determinar a proporção em que se deve dividir a renda resultante do processo produtivo total.

A resposta repousa na natureza da renda. A renda é uma dedução do valor do produto, uma porcentagem dele. A massa da renda a ser obtida de um dado processo produtivo, portanto, dependerá do valor de troca [p. 255] do produto. Mas como o valor do produto depende da quantidade de trabalho empregado, produção bruta e manufatura se dividirão, na renda total, segundo o respectivo custo de trabalho gasto em cada um desses dois ramos de produção. Vejamos um exemplo concreto.* 6. Não há relação entre a quantidade de capital empregado e o juro recebido sobre o capital Se forem necessários 1.000 dias de trabalho para se conseguir um produto bruto e 2.000 dias para seu ulterior processamento; se, por outro lado, forem deduzidos 40% do valor do produto em favor do proprietário, os produtores do produto bruto receberão, então, em forma de renda, o produto de 400 dias de trabalho, enquanto os industriais da manufatura receberão o equivalente a 800 dias. O montante de capital empregado em cada ramo da produção é irrelevante, para tal divisão: a renda, embora seja calculada sobre o capital, não se determina segundo ele, e sim segundo as quantidades de trabalho aplicadas.

É exatamente o fato de o montante do capital empregado não ter influência efetiva sobre a massa da renda obtida num ramo da produção que dá origem à renda sobre terras. Isso ocorre da seguinte maneira: a renda, embora produto do trabalho, é considerada rendimento da riqueza, porque depende da posse de riquezas. Como, em relação à manufatura, só se empreguem bens de capital, e não terras, considera-se como rendimento de capital – ou ganho de capital – toda renda obtida especificamente da manufatura. Através dos cálculos costumeiros da relação entre o montante do rendimento e o montante do capital que originou esse rendimento, chega-se àquela determinada porcentagem de ganho, que pode ser obtida com o capital empregado na manufatura. Essa porcentagem de ganho, que, em função de conhecidas tendências da concorrência, será mais ou menos uniforme em todos os ramos, também servirá de base para o cálculo do ganho sobre o capital investido na produção bruta. Mesmo que não houvesse outra razão, isso já seria verdadeiro simplesmente porque na manufatura se emprega parcela bem maior do “capital nacional” do que na agricultura e porque, compreensivelmente, o rendimento da parcela de capital que é predominante vai determinar a taxa de lucro aceitável para a parcela menor. Por isso, os produtores do produto bruto calcularão seu ganho de capital sobre o montante do capital empregado e sobre o valor da porcentagem habitual de ganho de capital. O restante do ganho, ao contrário, é considerado como rendimento da terra e do solo, constituindo-se na renda.

Segundo Rodbertus, essa renda sobre a terra deve necessariamente ser deixada de lado na produção bruta, por causa da premissa de que os produtos são trocados com base no trabalho incorporado a cada um deles. Rodbertus fundamenta esse seu modo de pensar mostrando que a quantidade de renda que se pode obter na manufatura não depende [p.256] – como se disse acima – da quantidade de capital gasto, mas da quantidade de trabalho empregado no processo de manufatura. Esse trabalho apresenta duas facetas: de um lado, o trabalho direto de manufatura; de outro, o trabalho indireto, “que deve ser levado em conta em função do desgaste dos instrumentos e máquinas”. Só alguns dos vários elementos que compõem o dispêndio de capital têm influência sobre o montante da renda, a saber, os salários e os gastos com máquinas e instrumentos. O capital despendido com matéria-prima, ao contrário, não exerce tal influência porque essa despesa corresponde a um trabalho inexistente no estágio de manufatura, muito embora essa parte do gasto aumente o capital sobre o qual se calcula a renda que será obtida. A existência de uma parcela de capital que, por um lado, aumenta o capital de manufatura sobre o qual se calcula como ganho a renda deduzida, mas que, por outro lado, não aumenta propriamente esse ganho, obviamente deve reduzir a relação do ganho sobre o capital, ou seja, a porcentagem do ganho de capital na manufatura.

7. A distinção que Rodbertus faz entre renda sobre terra e ganho de capital Também o ganho de capital da produção bruta é calculado com base nessa taxa inferior. Mas, neste caso, as condições são ainda mais favoráveis. Como a agricultura inicia sua produção ab ovo – a partir do nada -, sem processar nenhum material originado de produção anterior, falta ao seu capital a parte de “valor material”. A única analogia possível seria com o solo, que, segundo todas as teorias, se pressupõe gratuito. Conseqüentemente, na divisão do ganho não participa nenhuma parcela de capital que não tenha influência sobre sua quantidade. Mais ainda: a relação entre a renda desejada e o capital empregado tem de ser mais favorável na agricultura do que na manufatura. No entanto, como o ganho de capital, também na agricultura, é calculado com base nas mesmas taxas inferiores que prevalecem na manufatura, é preciso que haja sempre um excedente em renda para o proprietário da terra, que o receberá como renda sobre a terra. Essa é, segundo Rodbertus, a origem da renda sobre a terra e de sua diferença em relação ao ganho de capital.

16 8. Surpreendentemente, Rodbertus não pede a abolição da propriedade privada nem do ganho imerecido Para completar, desejo observar, brevemente, que apesar do seu agudo julgamento teórico sobre a natureza exploradora do ganho de capital, Rodbertus não deseja abolir a propriedade de capital nem o ganho de capital. Ao contrário, atribui à propriedade de terras e de capital “um poder educativo” indispensável. “Uma espécie de poder doméstico que só poderia ser substituído por um sistema nacional de educação totalmente modificado, que ainda não temos condições de instaurar” 17 A propriedade de terras e de capital parece-lhe “uma espécie de órgão público que exerce funções na economia nacional [p. 257], funções estas que consistem no direcionamento do trabalho econômico e nos meios econômicos da nação segundo necessidades nacionais”. A renda pode ser encarada – a partir desse ponto de vista favorável – como uma forma de salário que aqueles “funcionários” recebem pelo exercício de suas funções.

18 Já comentei anteriormente o fato de que Rodbertus, ao fazer essa observação bastante casual – apenas uma nota de rodapé – , menciona pela primeira vez um pensamento que alguns dos escritores que o sucederam, especialmente Schaffle, desenvolveram numa variante singular da teoria do trabalho.

B. Deficiências do sistema de Rodbertus Tratarei agora da crítica da doutrina de Rodbertus. Direi sem rodeios que considero totalmente errônea a teoria de juro de capital nela contida. Estou convencido de que ela comete uma série de pecados teóricos graves, os quais, a seguir, tentarei apresentar da maneira mais clara e imparcial possível.

9. Böhm-Bawerk: é decididamente errado afirmar que todos os bens, do ponto de vista econômico, são apenas produto de trabalho O exame crítico esbarra logo na primeira pedra que Rodbertus coloca no edifício da sua doutrina, quando afirma que, do ponto de vista econômico, todos os bens são apenas produto do trabalho.

Primeiramente, o que significa a expressão “do ponto de vista econômico”? Rodbertus explica isso numa antítese, contrapondo o ponto de vista da economia ao das ciências naturais. Admite expressamente que, segundo as ciências naturais, os bens são produtos não apenas de trabalho mas também de forças da natureza. Assim mesmo, caso se considere que do ponto de vista econômico são produtos apenas do trabalho, isso pode significar apenas uma coisa: que a colaboração das forças : naturais na produção é totalmente irrelevante para o estudo da economia humana. Rodbertus expressa esse conceito drasticamente, dizendo: “Todos os demais bens (além dos que custaram trabalho), por mais necessários e úteis que sejam aos homens, são bens naturais, que em nada interessam a uma economia”. “O que a natureza realizou previamente em matéria de bens econômicos merece a gratidão do homem, uma vez que ela lhe poupou trabalho, mas, para a economia, estes bens têm valor apenas na medida em que o trabalho completou a obra da natureza.”

19 Isso é simplesmente falso. Também certos bens puramente naturais, conquanto muito raros em comparação com a necessidade que há deles, interessam à economia. Acaso uma pepita de ouro encontrada no solo de um proprietário de terras, ou uma mina de ouro por ele eventualmente descoberta em suas terras, não vão interessar à economia? O dono do ouro e da prata dados de presente pela natureza acaso os deixará na terra sem lhes dar importância, ou os dará de presente, ou os esbanjará, apenas porque lhe foram dados pela natureza sem qualquer esforço [p. 258] de sua parte? Ou, ao contrário, ele os vai guardar cuidadosamente contra a cobiça alheia, aplicando-os prudentemente no mercado, explorando-os e, em suma, administrando-os como se este ouro e esta prata tivessem sido obtidos com o trabalho de suas próprias mãos? E será verdade que o interesse da economia por aqueles bens que custaram trabalho só se dá na mesma medida em que o trabalho completou a obra da natureza? Se fosse assim, as pessoas atribuiriam a um barril de magnífico vinho do Reno exatamente o mesmo valor que atribuem a um barril de vinho da colônia bem tratado, mas, por natureza, inferior ao primeiro: ambos custaram mais ou menos o mesmo trabalho humano! O fato, porém, de que o vinho do Reno em geral custa dez vezes mais que o da colônia é uma prova eloqüente de que a vida refuta o teorema de Rodbertus.

Objeções desse tipo são tão evidentes que poderíamos esperar que Rodbertus protegesse contra elas, com muito cuidado, sua afirmação básica. Mas, se esperássemos isto, ficaríamos desiludidos: Rodbertus elaborou todo um aparato de persuasão em favor de sua tese; no entanto, tudo acaba num apelo não-fundamentado a certas autoridades, numa dialética pouco convincente, que apenas rodeia, sem atingir, o ponto crucial.

10. Apesar da fama, Smith e Ricardo não são as autoridades adequadas Nessa primeira categoria situo a repetida menção a Smith e Ricardo como defensores do princípio “sobre o qual não se discute mais na economia progressista”, aceito pelos economistas ingleses e defendido na França, e, “o que é mais importante, gravado para sempre na consciência do povo, defendendo-a dos sofismas de uma doutrina de segundas intenções”.

20 Nós poderemos fazer um pouco adiante a interessante constatação de que Smith e Ricardo afirmam apenas axiomaticamente a tese da qual falamos, sem a fundamentarem. Ao mesmo tempo, conforme Knies provou tão brilhantemente, 21 nenhum dos dois sequer aderiu coerentemente a essa tese. Além disso, na discussão científica, uma tese não pode ser aprovada apenas com a invocação de nomes de autoridades: provam-na os fundamentos expostos por estas autoridades. No caso em questão, no entanto, não há nem fundamentos nem afirmações coerentes que dêem respaldo a esses nomes. Assim, o apelo às autoridades não fortalece a posição de Rodbertus, a qual se apóia apenas nos alicerces que ele próprio consegue para sua tese.

11. Erros de Rodbertus quanto aos “custos” Em função disso, deve-se examinar a exposição bastante longa feita no primeiro dos cinco teoremas “Zur Erkenntnis unserer staatswirtschaftlichen Zustände” , * e o silogismo mais consistente no texto “Zur Erklarung und Abhilfe der heutigen Kreditnot des Grundbesitzes” .

** No primeiro, Rodbertus comenta acertadamente o fato de termos de administrar bens que custam trabalho e o porquê de termos de fazê-lo. Com muita justeza, coloca em primeiro plano a disparidade quantitativa entre, de um lado, a “jnfinitude e insaciabilidade de nossa ambição”[p. 259] ou de nossas necessidades, e de outro, a limitação de nosso tempo e força. Só secundariamente, e de maneira incidental, ele comenta que o trabalho é “cansativo” um “sacrifício da liberdade”, e coisas desse gênero.

22 Da mesma forma explica, com acerto, que um gasto de trabalho deve ser entendido como “custo” e explica também a causa disso. “É preciso – diz ele – 23 apenas esclarecer o conceito de “custo”. Este conceito não significa apenas que para produzir uma coisa necessitamos de outra. O essencial é que, por um lado, foi feito um dispêndio que não pode voltar a ser feito para outra coisa, e que, por outro, o dispêndio efetuado atinge a pessoa que o efetuou, com sua irrecuperabilidade. Esta última afirmação explica por que só o ser humano pode sentir o custo de alguma coisa.”

Totalmente correto! É igualmente correto que, como prossegue Rodbertus, os dois critérios de custo se aplicam ao trabalho. Isto porque o dispêndio de trabalho feito para a produção de um bem qualquer “não pode mais ser feito para nenhum outro bem” – primeiro critério. E “o dispêndio de trabalho efetuado só atinge ao homem uma vez que requer tempo e força, ambos muito limitados se se considera a lista interminável de bens que uma pessoa pode ambicionar” – segundo critério.

12. A abordagem do custo do trabalho feita por Rodbertus deve ser estendida ao custo de outros elementos de produção Rodbertus precisa, então, provar que um “custo”, portanto um motivo para administrar, se aplica só ao trabalho e não a outros elementos. Logo de início ele tem de aceitar “que para a produção de um bem é preciso algo mais (além do trabalho)”, ou seja, além das idéias que o espírito fornece, é preciso um material, fornecido pela natureza, bem como forças naturais que, “a serviço do trabalho ajudem, a transformar ou a adaptar o material”. Mas à participação da natureza faltam os dois critérios de custo. Isso porque a força natural ativa é “infinita e indestrutível: a força que nutre uma espiga de cereal das substâncias que lhe são necessárias está sempre à disposição dessas substâncias. O material que a natureza fornece para a produção de um bem não se pode aplicar ao mesmo tempo a um segundo bem. Mas se quiséssemos falar de custos, teríamos de personificar a natureza, e falar em seus custos. A matéria não é um dispêndio que o homem efetue em troca do bem; custo do bem é só aquilo que é custo para o homem.”

24 Dos dois elementos dessa conclusão, o primeiro – que pretende negar a exatidão do primeiro critério – é obviamente errôneo. É verdade que as forças naturais são eternas e indestrutíveis; mas, quando se trata do dispêndio para a produção, o que interessa não é se essas forças continuam a existir, e sim se elas subsistem e continuam a agir de modo a se tornarem adequadas para novo efeito produtivo. E nesse sentido – o único que interessa ao nosso problema – não se pode falar de permanência indestrutível [p. 260]. Quando queimamos nosso carvão, as forças químicas da substância do carvão – o qual, por mistura com o oxigênio do ar, produziu o calor desejado – subsistem. Mas a eficácia de suas propriedades não permanece, pois os átomos de carvão se misturaram aos átomos do oxigênio, e não se pode mais falar na repetição da eficácia dessas forças. O dispêndio de forças químicas que efetuamos quando queimamos carvão para produzir um bem não pode mais ser realizado em favor de outro bem.

25 Exatamente a mesma coisa vale para as matérias da produção. Rodbertus admite isso em relação a elas, embora de maneira insuficiente, ao dizer que “enquanto isso” elas não podem ser empregadas para outro bem. Na verdade, elas deixam de ser aplicáveis a uma segunda produção, não apenas “enquanto” estão sendo empregadas no primeiro produto: também depois deixam de estar regularmente disponíveis para produção de um segundo bem. A madeira que uso para fazer vigas não serve mais para a produção de outro bem. E isso é verdade não apenas para o período em que esta madeira estiver na casa servindo de viga e apodrecendo aos poucos, mas também para depois de ela ter apodrecido: o estado em que estarão os elementos químicos que hão de persistir vai torná-la inadequada para o emprego humano. Um pouco mais tarde, na discussão de uma objeção proposta por ele mesmo, Rodbertus abandona o seu primeiro critério, apoiando-se unicamente no segundo critério, qual seja, o fato de faltar a relação do custo com a pessoa.

Também nesse ponto Rodbertus está sem razão. Mesmo o dispêndio das dádivas mais raras da natureza é um dispêndio, é uma irrecuperabilidade que atinge a pessoa, daquele mesmo modo exposto por Rodbertus em sua definição de custo e por aquele mesmo motivo alegado por ele para que o trabalho tenha valor. Mas, o que significa isso se, para Rodbertus, não é o sofrimento ligado ao trabalho, mas a limitação quantitativa do trabalho em relação à infinitude de nossas necessidades, o que , na verdade, nos força a administrar o trabalho e seus produtos? Significa, na verdade, que qualquer desperdício de trabalho – trabalho este que, de qualquer modo, sempre será insuficiente para a satisfação plena de nossas necessidades – abrirá uma lacuna ainda maior em relação a essa mesma necessidade. Essa alegação vale também para o caso de o trabalho não se ligar a qualquer sensação pessoal de sofrimento, aborrecimento, compulsão ou algo semelhante, mas sim, proporcionar ao trabalhador um prazer puro e imperturbado: mesmo assim, o trabalho seria insuficiente, em termos quantitativos, para produzir todos os bens necessários. Desse modo, a pessoa é atingida ou por um gasto de trabalho em vão, ou pelo próprio gasto de trabalho, simplesmente porque desperdiça a possibilidade de ter uma outra necessidade atendida.

26 Exatamente a mesma coisa acontece quando se desperdiça – ou mesmo quando apenas se emprega – uma dádiva rara da natureza. Se desperdiço, propositalmente [p. 261) ou por mineração errônea, algum mineral valioso ou depósito de carvão, estou desperdiçando uma quantidade de satisfações de desejos que teria podido obter com um comportamento mais econômico e que estou esbanjando com meu comportamento não-econômico.

27 13. Primeiro grande erro de Rodbertus: bens são apenas produto de trabalho manual Em relação a essa objeção, que praticamente não se pode ignorar, o próprio Rodbertus se posiciona; diz que seria possível retrucar que o proprietário de uma floresta arca com os custos, entre outros, do trabalho gasto para cortar madeira, com os custos deste material, que assim foi obtido e “que, sendo empregado para um bem, não pode mais ser empregado para outro, constituindo-se, portanto, em dispêndio que afeta a ele, proprietário.”

28 Mas Rodbertus foge dessa objeção através de um sofisma. Ele diz que ela repousa numa “ficção”, porque estabelece uma relação do direito legal com uma base econômica, que só deveria servir para relações naturais “legítimas”. Só do ponto de vista do direito legal se poderia presumir que nas coisas da natureza, antes de se aplicar nelas algum trabalho, já exista um “proprietário”, e que essa situação mudaria eliminando-se a propriedade de terra.

Mas em questões decisivas nada mudaria. A madeira do tronco é uma dádiva natural relativamente rara; no entanto, a própria natureza, independente do direito legal, atesta que qualquer desperdício desse raro dom implica bem-estar ou sofrimento, envolve pessoas. Ao direito legal só concerne o tipo de pessoa que será afetada. Num sistema de propriedade privada de terras, o interessado – portanto, o afetado – será o proprietário. Num sistema de propriedade comum, toda a comunidade será afetada. E, não havendo nenhum direito estabelecido, seria afetado aquele que detém o poder: ou o que chegou primeiro ou o mais forte. Nunca se poderia evitar que o gasto ou dispêndio de dons raros da natureza afetasse uma pessoa, ou comunidade, quanto à satisfação de suas necessidades. A não ser que imaginemos uma floresta que não tenha moradores humanos, ou cujos moradores, por alguma razão não-econômica, como religião, não tocassem em madeira. Nesse caso, a madeira não seria objeto da economia. Mas não porque dons puros da natureza não possam representar sacrifício para uma pessoa, e sim porque, nesse caso, essas dádivas teriam sido excluídas, pelas circunstâncias, da vida humana, na qual poderiam muito bem estar envolvidas.

Num texto posterior Rodbertus dedica novamente à sua tese uma breve argumentação, que aparentemente segue este mesmo raciocínio, mas, na verdade, assume, em parte, outra direção. Ele diz que é produto tudo o que nos chega como bem através do trabalho e que, por isso, esse termo deve ser atribuído economicamente só ao trabalho humano, uma vez que este é a única força original e também o único dispêndio original que a economia humana administra.

29 Podemos duvidar seriamente dessa [p.262] argumentação. A premissa em que ela se fundamenta será correta? Knies questiona firmemente a validade desta premissa, valendo-se, a meu ver, de bons argumentos.

30 Além disso, ainda que a premissa fosse correta, a conclusão não o seria necessariamente: mesmo que o trabalho fosse a única força original administrada pela economia humana, não vejo por que esta economia teria que se limitar a administrar as “forças originais”. Por que não administraria, por exemplo, certos frutos daquela força original, ou mesmo o resultado de outras forças originais? Por que, por exemplo, não administraria o meteoro ou o ouro de que falamos? Ou as pedras preciosas encontradas por acaso, ou os depósitos naturais de carvão? Rodbertus tem uma concepção muito estreita da essência e dos motivos da economia humana. Diz, acertadamente, que “lidamos economicamente com a força original trabalho, já que, por ser limitado em tempo e medida, uma vez usado, o trabalho se gasta, transformando-se, por fim, em privação de nossa liberdade”. Mas estas são apenas razões intermediárias: não são a razão última de nosso comportamento econômico. No fundo, agüentamos o trabalho limitado e cansativo porque, se tivéssemos um comportamento não-econômico em relação a ele, nosso bem-estar sofreria. E é exatamente este mesmo motivo que nos leva a administrar todas as outras coisas úteis que, por existirem em quantidade limitada, não podemos perder ou dispensar sem sacrifício de nosso bem-estar, seja uma força original ou não, tenha ou não custado a força original “trabalho”.

Por fim, a posição de Rodbertus torna-se totalmente insustentável quando ele acrescenta que devemos encarar os bens apenas como produtos de trabalho manual. Essa afirmação, que exclui da atividade econômica produtiva, entre outras, até mesmo a orientação intelectual direta do trabalho de produção, leva a uma série de contradições internas e conclusões erradas, que comprovam, sem dúvida alguma, a falsidade dessa tese. Essas contradições foram atacadas por Knies de maneira tão irrefutável que seria uma repetição supérflua de minha parte voltar a esse assunto.

31 Assim, ao armar seu primeiro princípio fundamental, Rodbertus já contradiz a verdade. Para ser inteiramente justo, devo fazer aqui uma concessão, que Knies não pôde fazer do ponto de vista da teoria do uso, que estava defendendo: a objeção àquele princípio fundamental não atinge toda a teoria do juro de Rodbertus. Aquele seu princípio é falso [p. 263] não porque ele interpreta mal a contribuição do capital, mas, sim, porque interpreta mal a colaboração da natureza na criação de bens. Creio, como Rodbertus, que, considerando a seqüência das fases de produção como um todo, o capital não terá lugar independente nos custos da produção. Afinal, o capital não é exclusivamente “trabalho prévio”, como diz Rodbertus, mas é, em parte, “trabalho prévio” e, em parte, valiosa força natural armazenada. Onde esta força natural se retrai – por exemplo, numa produção que, em todas as fases, emprega apenas ou dádivas naturais e trabalhos espontâneos, ou produtos surgidos unicamente disso – então efetivamente se pode dizer, com Rodbertus, que do ponto de vista econômico tais bens são apenas produto do trabalho. Por conseguinte, uma vez que o erro fundamental de Rodbertus se relaciona não com o papel do capital e sim com o da natureza, também as conclusões que ele tira a respeito do ganho de capital têm de ser erradas. Só poderemos considerar sua doutrina falsa se, no prosseguimento de sua apresentação, aparecerem erros graves. E eles aparecerão.

Para não extrair dividendos indevidos do primeiro engano de Rodbertus, organizarei minhas pressuposições no resto da presente análise de modo a eliminar totalmente as conseqüências desse engano. Vou supor que todos os bens são criados unicamente por uma colaboração entre o trabalho e as forças livres da natureza, com a ajuda exclusiva daqueles elementos de capital que surgiram, eles próprios, apenas da colaboração entre o trabalho e as forças naturais livres, sem a intervenção de dons naturais com valor de troca. Considerando essa premissa limitadora, eu também posso aceitar aquele princípio fundamental de Rodbertus, de que os bens encarados economicamente custam somente trabalho. Vamos adiante.

14. Segundo grande erro de Rodbertus: negligenciar a influência do tempo sobre o valor A tese seguinte de Rodbertus diz que, segundo a natureza e o direito, o produto que o trabalhador produziu sozinho – ou todo o valor desse produto, sem deduções – deve pertencer unicamente a ele. Concordo plenamente com essa tese; contra ela, dentro da limitação que estipulei acima, não se pode levantar qualquer objeção em termos de correção e de justeza. Mas creio que Rodbertus, como todos os socialistas, tem uma concepção falsa de como se concretizaria esse princípio realmente justo. Enganados por essa concepção, desejam uma situação que, além de não corresponder àquele princípio, até o contraria. Como, singularmente, nas tantas tentativas de refutar a teoria da exploração, ou raramente se tem tocado nesse ponto, ou, quando ele é levado em consideração, isto é feito de maneira muito superficial, permito-me solicitar ao leitor muita atenção para a exposição que se segue, principalmente por causa de sua complexidade.

Quero, primeiramente, apontar o erro que critico para depois elucidá-lo. O princípio correto de que o trabalhador deve receber todo [p. 264] o valor de seu produto pode ser interpretado, sensatamente, da seguinte maneira: o trabalhador deve receber agora o valor atual do seu produto. Ou, ainda: o trabalhador deve receber no futuro todo o valor futuro do seu trabalho. Acontece que Rodbertus e os socialistas explicam que o trabalhador deve receber agora o valor futuro do seu produto, e agem como se isso fosse coisa evidente, como se fosse a única interpretação possível desse princípio.

Ilustremos a questão com um exemplo concreto. Imaginemos que a produção de um bem, por exemplo uma máquina a vapor, custe cinco anos de trabalho, e o valor de troca da máquina pronta seja de 5.500 dólares. Imaginemos, também – sem levar em conta, por enquanto, a divisão do trabalho entre várias pessoas – que um trabalhador sozinho tenha construído a máquina com trabalho continuado de cinco anos. Perguntaremos, então, o que lhe é devido como salário, com base no princípio de que ao trabalhador deve pertencer ou todo o seu produto, ou todo o valor do seu produto. Não pode haver, em nenhum momento, qualquer sombra de dúvida em relação à resposta: ele deve receber ou a máquina a vapor inteira ou todos os 5.500 dólares. Mas quando? Também quanto a isso não pode haver nenhuma dúvida: obviamente, depois de transcorridos os cinco anos. Isto porque, pelas leis naturais, ele não pode receber a máquina a vapor antes que ela exista, nem o valor por ele produzido de 5.500 dólares antes que esse valor tenha sido criado. Nesse caso o trabalhador receberá seu salário segundo a fórmula: todo o produto futuro, ou todo o seu valor futuro, num determinado momento futuro.

Mas acontece muitas vezes que o trabalhador não pode esperar – ou não o deseja – seu produto estar inteiramente pronto. Nosso trabalhador deseja, por exemplo, receber: logo depois de um ano, parte do pagamento. Surge, então, a pergunta: como, de acordo com o princípio acima, se fará para medir esta parte? Creio que, também aí, não cabe qualquer dúvida: será justo para com o trabalhador que ele receba o todo que trabalhou até então. Portanto, se até então ele tiver criado um monte de bronze, ferro ou aço não concluído, será justo para com ele entregar-lhe ou esse monte inteiro de bronze, ferro ou aço, ou todo o valor desse monte de matéria, naturalmente seu valor atual. Creio que nenhum socialista poderá fazer qualquer crítica a essa decisão.

Qual será, no entanto, o valor desta parte do trabalho em relação ao valor da máquina pronta? Este é um ponto em que um pensador superficial pode errar facilmente. O trabalhador executou até agora um quinto do trabalho técnico exigido para a criação da máquina inteira [p. 265]. Conseqüentemente – somos tentados a concluir num pensamento superficial – seu produto atual será um quinto do valor do produto inteiro, o que corresponde, portanto, a 1.100 dólares. Conclui-se, então, que o trabalhador deve receber um salário anual de 1.100 dólares.

Errado: a quantia de 1.100 dólares corresponde a um quinto do valor de uma máquina a vapor pronta, atualmente; mas o que o trabalhador produziu até aqui não é um quinto de uma máquina pronta, e sim um quinto de uma máquina que só estará pronta em quatro anos. E isso são duas coisas diferentes. Não se trata apenas de um jogo de palavras, de um sofisma: objetivamente, são duas coisas distintas.

O primeiro quinto tem um valor diferente do do último quinto, da mesma forma que uma máquina completa tem, hoje, um valor diferente do de uma máquina que só estará disponível dentro de mais quatro anos. Isto é tão certo quanto o fato de que todos os bens hoje existentes têm um valor diferente daquele que têm os bens futuros.

Uma das mais difundidas e importantes realidades econômicas é esta: numa avaliação presente, atribui-se aos bens presentes um valor mais elevado do que o de futuros bens da mesma espécie e qualidade. As causas desse fato, suas diversas modalidades de manifestação, as também variadas conseqüências a que ele leva na economia, serão objeto de uma análise detida que farei no segundo volume desta obra.

* Estas análises não serão tão fáceis e simples como parece prometer a simplicidade desse pensamento fundamental. Mas, mesmo antes de completada essa análise detalhada, creio poder lembrar o fato de que bens atuais têm um valor mais elevado do que bens futuros da mesma espécie. Isto porque a própria existência deste bem, em si mesma, graças à mais simples experiência da vida cotidiana, deixa de ser duvidosa. Faça-se 1.000 [p. 266] pessoas escolherem entre receber um presente de 1.000 dólares daqui a 50 anos ou recebê-lo hoje, e todas as 1.000 preferirão receber logo os 1.000 dólares. Ou, então, pergunte-se a outras 1.000 pessoas que precisem de um bom cavalo e estejam inclinadas a dar 200 dólares por um bom animal quanto dariam hoje por um cavalo que fosse também muito bom, mas que elas só receberiam dentro de 10 ou 50 anos. Todas ofereciam uma quantia infinitamente pequena. Isto mostra que quem lida com conceitos de economia sempre valoriza mais os bens presentes do que os mesmos bens futuros.

Dessa forma, a parte daquela máquina a vapor – máquina que ficará pronta em mais quatro anos – , que nosso trabalhador obteve com um ano de trabalho, não tem o valor total de um quinto da máquina acabada; seu valor é mais baixo. Em quanto? Não posso dizer ainda, sem fazer uma antecipação que poderá confundir o leitor. Basta observar que a importância representada por essa diferença se relaciona com a porcentagem de juro vigente no país, bem como com o tempo que falta para chegar ao momento em que o produto ficará pronto. Se eu presumir um juro de 5% , o produto do primeiro ano de trabalho custará, ao cabo desse ano, mais ou menos 1.000 dólares.

32 Assim, o salário que o trabalhador deve receber pelo primeiro ano de trabalho será – com base no axioma de que deve receber ou seu produto inteiro ou o valor deste – de 1.000 dólares.

33 Se, apesar das conclusões a que chegamos acima, ainda ficar a impressão de que este valor é baixo, é preciso pensar no seguinte: ninguém pode ter dúvidas de que o trabalhador não estará sendo prejudicado se, depois de cinco anos, receber a máquina a vapor inteira, ou o seu valor inteiro, de 5.500 dólares. Para efeito de comparação, vamos calcular também o valor que terá a parcela antecipada de salário no fim do quinto ano. Como os 1.000 dólares recebidos no fim do primeiro ano ainda podem ser postos a juros por mais quatro anos, eles devem ser multiplicados, numa porcentagem de 5%, perfazendo mais 200 dólares (sem juro composto). Como esta aplicação está aberta também ao trabalhador, os 1.000 dólares recebidos pelo trabalhador no fim do primeiro ano equivalem [p.267] a 1.200 dólares ao fim do quinto ano. Assim, se o trabalhador recebeu, depois de um ano, por um quinto do trabalho técnico, a quantia de 1.000 dólares, obviamente foi recompensado com base em um critério mais favorável a ele, uma vez que, se recebesse pelo todo, depois de cinco anos, só teria 5.500 dólares.

Como imaginam Rodbertus e os socialistas que se deva cumprir o princípio segundo o qual o trabalhador deve receber todo o valor do seu produto? Eles querem que o valor total que o produto pronto vá ter ao fim do trabalho seja a base dos pagamentos de salários, mas não somente quando concluída a produção: querem que o seja, parceladamente, já durante o decorrer do trabalho. Imagine-se o que representa isso. Representa, em nosso exemplo, que o trabalhador já receberia – com base na média dos pagamentos parcelados – depois de dois anos e meio, o total de 5.500 dólares, total este que a máquina a vapor só vai valer depois de cinco anos, quando pronta. Devo admitir que considero totalmente impossível basear essa exigência naquela premissa. Como se pode justificar, segundo a natureza e o direito, que alguém receba já depois de dois anos e meio um total que terá produzido ao cabo de cinco anos? Isso é tão pouco “natural” que nem ao menos é exeqüível. Não será exeqüível nem se livrarmos o trabalhador de todas as algemas do tão censurado contrato de trabalho, colocando-o na posição pretensamente privilegiada de empresário. Como trabalhador-empresário, ele realmente receberá todos os 5.500 dólares, mas não antes de os ter produzido, não antes dos cinco anos. E como se fará, por contrato de trabalho e em nome do direito, aquilo que a natureza das coisas recusa ao próprio empresário? O que os socialistas desejam é, usando das palavras certas, que os trabalhadores recebam através do contrato de trabalho mais do que trabalharam, mais do que receberiam se fossem empresários, mais do que produzem para o empresário com quem firmaram contrato de trabalho. O que eles produziram – e ao que têm direito justo – são 5,500 dólares depois de cinco anos. Mas 5.500 dólares depois de dois anos e meio, que é o que exigem, é mais que isso, chega a corresponder a cerca de 6.200 dólares depois de cinco anos, a um juro de 5% . Essa valorização relativa não resulta de instituições sociais duvidosas que criaram o juro e o fixaram em 5% , mas é resultado direto do fato de que nossa vida transcorre no tempo, de que o hoje, com suas necessidades e preocupações, vem antes do amanhã, e de que talvez nem cheguemos a ver o depois-de-amanhã. Não apenas os capitalistas ambiciosos, como também cada trabalhador, cada ser humano aliás, faz essa diferença de valor entre presente e futuro. Estaria certo o trabalhador que se queixasse de estar sendo logrado se, ao invés dos dez dólares que lhe devessem como salário semanal hoje, lhe oferecessem 10 dólares em um ano! E o que é relevante para o trabalhador, por acaso deveria ser irrelevante para o empresário? É possível querer que ele dê 5.500 depois de dois anos e meio, em troca de 5.500 que só depois de cinco anos receberá na forma do produto acabado? Isso não é justo, nem natural! Justo e natural, admito novamente com boa-vontade, é que o trabalhador ganhe todos os 5.500 dólares depois de cinco anos. Se ele não pode, ou não quer esperar cinco anos, mesmo assim deverá receber o valor total do seu produto; mas, naturalmente, o valor atual do seu produto atual. Esse valor terá de ser menor do que a cota do futuro valor do produto correspondente ao trabalho técnico, porque na economia impera a lei de que o valor atual de bens futuros é menor do que aquele de bens presentes; lei que não nasceu de nenhuma instituição pública ou social, mas diretamente da natureza dos homens e das coisas.

Se há alguma desculpa para ser prolixo, creio que ela caiba aqui, neste espaço onde se questiona uma doutrina de conseqüências tão graves como a doutrina socialista da exploração. Por isso, correndo o risco de entediar os meus leitores, desejo apresentar um segundo caso concreto, que, espero, me dará oportunidade de provar, de modo ainda mais convincente, o erro dos socialistas.

15. Böhm-Bawerk dá exemplo de cinco socialistas que construíram uma máquina a vapor e receberam pagamento desigual mas justo Em nosso primeiro exemplo abstraí o fator divisão de trabalho. Agora, farei uma mudança nas circunstâncias, aproximando-as mais da realidade da vida econômica. Vamos, pois, presumir que cinco trabalhadores participaram na feitura dessa máquina, cada um deles contribuindo com um ano de trabalho. Talvez um dos trabalhadores extraísse da mina o minério necessário, o segundo preparasse o ferro, o terceiro o transformasse em aço, o quarto fabricasse com o aço as peças necessárias, e o quinto, por fim, as organizasse devidamente e desse a última demão no trabalho. Como cada trabalhador, peIa natureza do processo, só pode começar quando o anterior tiver concluído seu trabalho, os cinco anos de trabalho de nossos homens não seriam simultâneos, mas subseqüentes. Portanto, como no primeiro exemplo, a produção da máquina demoraria cinco anos. O valor da máquina pronta continua sendo 5.500 dólares. Segundo o princípio de que o trabalhador deve receber todo o valor do produto de seu trabalho, quanto poderá exigir cada um dos cinco participantes pelo que realizou?

Solucionemos primeiro o problema considerando o caso de os salários se dividirem entre os trabalhadores, sem intervenção de um empresário: o produto obtido será simplesmente dividido entre os cinco. Nesse caso, duas coisas são certas: primeiro, que a divisão só poderá ocorrer depois de cinco anos, porque antes não existirá nada adequado para se dividir; se quiséssemos, por exemplo, usar o minério e o ferro [p. 268] obtidos nos dois primeiros anos como pagamento de cada um, faltaria matéria-prima para a continuação da obra. É claro que o produto prévio conseguido nos primeiros anos tem de ser necessariamente isento de qualquer divisão, ficando preso à produção até o fim. Segundo, é certo que um valor total de 5.500 dólares terá de ser dividido entre cinco trabalhadores.

Mas, em que proporção?

Esta divisão não deveria, certamente, ser feita em partes iguais, como se poderia pensar numa primeira visão superficial: isso favoreceria grandemente os trabalhadores que fizessem seu trabalho num estágio mais avançado da produção. A pessoa que trabalhasse no acabamento da máquina receberia pelo seu ano de trabalho os 1.100 dólares imediatamente depois de terminar seu trabalho. O que tivesse produzido as peças receberia a mesma quantia, mas teria tido de esperar um ano inteiro para receber seu salário. O que tivesse extraído o minério receberia o mesmo pagamento quatro anos depois de trabalhar. Como é impossível que tal atraso não fizesse diferença para os trabalhadores, todos iriam querer executar o trabalho final, cujo pagamento não sofreria atraso algum, e ninguém iria querer assumir os trabalhos preparatórios.

Para encontrar quem os executasse, os trabalhadores das fases finais seriam forçados a ceder aos colegas que os antecedessem uma recompensa pelo atraso, na forma de uma participação maior no valor final do produto. O montante dessa diferença dependeria em parte da demora do atraso, em parte da diferença que existe entre a valorização de bens presentes e a de bens futuros, de acordo com as condições econômicas e culturais de nossa pequena sociedade. Se essa diferença for, por exemplo, 5% , as partes dos cinco trabalhadores ficariam assim distribuídas: O primeiro trabalhador, que tem de esperar mais quatro anos depois de concluído seu trabalho, receberá ao fim do quinto ano. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.200 o segundo, que esperará três anos.. . . . . . . . . . . . . 1.150 o terceiro, que esperará dois anos. . . . . . . . . . . . .. 1.100 o quarto, que esperará um ano. . . . . . . . . .. . . . . .. 1.050 o último, que receberá o salário logo depois de concluído seu trabalho . . . . . . . . . . . . . .1.000 Total 5.500 Só se poderia imaginar todos os trabalhadores recebendo o mesmo salário de 1.100 a partir do pressuposto de que a diferença de tempo não tivesse para eles qualquer importância, de que se satisfizessem com 1.100 dólares recebidos três ou quatro anos depois, considerando-se [p. 269] tão bem pagos como se recebessem esta quantia logo depois da conclusão do trabalho. Não creio ser necessário dizer que essa pressuposição nunca é correta, nem pode ser. Por outro lado, é totalmente impossível que cada um receba 1.100 dólares imediatamente depois de executado o trabalho, a não ser com a intromissão de uma terceira parte.

Talvez valha a pena, de passagem, chamar atenção para uma circunstância especial. Não creio que alguém julgue injusto o esquema de distribuição feito acima; não é, também, o caso de se poder falar em injustiça do empresário, pois os trabalhadores dividiram seu produto unicamente entre eles. Mesmo assim, aquele trabalhador que executou o penúltimo trabalho não receberá um quinto completo do valor final do produto, mas apenas 1.050 dólares, e o último trabalhador receberá, ao cabo, apenas 1.000.

Vamos presumir, agora, o que em geral acontece na realidade: que os trabalhadores não podem ou não querem esperar o fim do trabalho todo para receberem seu salário, e que façam um acordo com o empresário, para obterem dele, no fim do seu trabalho, um salário em troca do qual ele, o empresário, será dono do produto final. Vamos fazer mais: vamos imaginar que esse empresário é um homem justo e desprendido, que jamais se aproveitaria de uma situação difícil dos trabalhadores para baixar com usura o salário deles. Indaguemos, agora: em que condições se fará tal contrato de salário, numa situação dessas?

Pergunta bastante fácil de responder. Obviamente os trabalhadores terão tratamento justo, se o empresário lhes oferecer como salário o mesmo que teriam recebido como cota no caso de uma produção independente. Esse princípio nos fornece um critério fixo para aquele trabalhador que, no nosso exemplo, teria recebido 1.000 dólares logo depois de cumprir seu trabalho. Para ser inteiramente justo, é essa a quantia que o empresário deverá oferecer-lhe. Para os outros quatro trabalhadores, no entanto, o princípio acima fixado não fornecerá nenhum critério direto. Como o momento de pagar no caso do nosso exemplo será diferente do momento de pagar se ocorresse uma distribuição de cotas, não nos podemos valer das cifras dessa distribuição como padrão. Mas temos outro critério fixo: como os cinco trabalhadores realizaram o mesmo para seu trabalho, merecem, com justiça, o mesmo salário; e este se expressará numa cifra igual, agora que cada trabalhador será pago imediatamente após seu trabalho. Portanto, de maneira justa, todos os cinco trabalhadores receberão 1.000 dólares cada um ao fim do seu ano de trabalho.

Se alguém pensar que é muito pouco, dar-lhe-ei o seguinte exemplo bastante fácil, que provará que os trabalhadores recebem exatamente o mesmo valor que receberiam numa distribuição – absolutamente justa – do produto inteiro entre eles. O trabalhador no 5 recebe, no caso [p. 270] de uma distribuição, 1.000 dólares logo no fim do seu ano de serviço e, no caso de um contrato de salário, a mesma quantia no mesmo tempo. O trabalhador no 4 recebe, no caso de distribuição, 1.050 dólares, um ano depois de concluído seu ano de trabalho; tratando-se de contrato de salário, receberia 1.000 imediatamente depois do ano de trabalho. Se durante um ano colocar essa quantia a juros, estará exatamente na mesma situação em que estaria no caso de uma distribuição de cotas: terá 1.050 dólares um ano depois de concluir seu trabalho. O trabalhador no 3 recebe, com a distribuição de cotas, 1.100 dólares dois anos depois de terminar seu trabalho; no caso de um contrato de salário, os 1.000 que receberia imediatamente, a juros, cresceriam para 1.100 dólares no mesmo período. E, assim, finalmente, os 1.000 dólares que os trabalhadores 1 e 2 recebem, com o acréscimo dos juros, completarão perfeitamente os 1.200 e 1.150 dólares que teriam recebido em caso de distribuição de cotas, quatro e três anos depois de concluído seu serviço. Mas se cada salário se equipara à cota de distribuição equivalente, naturalmente a soma dos salários deve equiparar-se à soma de todas as cotas: a soma de 5.000 dólares, que o empresário paga a seus trabalhadores diretamente depois de executarem seu trabalho, vale exatamente o mesmo que os 5.500 dólares que poderiam ser repartidos entre os trabalhadores, ao fim de cinco anos.

34 Um pagamento maior, por exemplo um salário, pelo trabalho anual, de 1.100 dólares cada um, só seria imaginável ou se o que faz diferença para os trabalhadores, ou seja, defasagem de tempo, fosse totalmente indiferente para o empresário, ou se o empresário quisesse presentear aos trabalhadores a diferença de valor entre os 1.100 dólares presentes e futuros.

Via de regra não se deve esperar nem uma coisa nem outra de empresários privados, e não os devemos, por isso, criticar, nem muito menos dizer que cometem exploração, injustiça ou roubo. Existe só uma pessoa de quem os trabalhadores podem esperar, como regra, aquele comportamento: o Estado. Este, como entidade permanente que é, não precisa ligar tanto para a diferença de tempo entre o fornecimento e o pagamento de bens quanto os indivíduos, que têm uma existência breve. O Estado – cujo objetivo mais importante é o bem-estar de todos os seus membros -, quando se trata de um bom número destes membros, pode abandonar sua postura rígida de pagar contra fornecimento e presentear em lugar de negociar. Assim, seria concebível que o Estado, e só ele, aparecendo como um gigantesco empresário da produção, oferecesse aos trabalhadores, assim que o trabalho destes terminasse, o futuro valor total do seu futuro produto, em forma de salário. Se o Estado deve fazer isso – resolvendo praticamente a questão social, em termos de socialismo -, é um problema de oportunidade, que não abordarei mais minuciosamente aqui. Repito, porém, com toda a ênfase: se o Estado socialista paga aos trabalhadores como salário, agora, todo o valor futuro do seu produto [p. 271], isso não é o cumprimento de algum acordo mas, por motivos político-sociais, um desvio do princípio básico de que o trabalhador deve receber, como salário, o valor do seu produto. Portanto, não se trata da restauração de uma condição que, por natureza ou por direito, foi violada pela ambição dos capitalistas; trata-se, sim, de um gesto artificial, a partir do qual algo que não seria exeqüível no curso natural das coisas torna-se possível. E isso acontece através de um disfarçado presente dessa generosa entidade chamada Estado aos seus membros mais pobres.

Agora, uma breve explicação prática. Reconhece-se facilmente que a situação de pagamento que descrevi por último é a que efetivamente acontece em nossa economia: esse sistema não distribui, como salário, o valor pleno do produto do trabalho, distribui uma quantia menor, porém o faz mais cedo. Na medida em que a soma total do salário, distribuída em parcelas, só é menor do que o valor final do produto final naquilo que é necessário para se manter a diferença entre bens presentes e futuros – em outras palavras, quando a cifra do salário só for menor do que o valor final do produto segundo os juros vigentes -, os trabalhadores não terão redução alguma de seus direitos ao valor total do seu produto. Receberão o produto inteiro, de acordo com sua valorização no momento em que receberem o salário. Só quando a diferença entre o salário total e o valor do produto final perfizer uma cifra superior à dos juros vigentes, é que se poderá falar, em certas circunstâncias, numa verdadeira exploração dos trabalhadores.

35 Voltemos a Rodbertus. O segundo erro decisivo de que o acusei nas últimas páginas reside justamente no fato de ele interpretar de modo injusto e ilógico o princípio de que o trabalhador deve receber agora todo o valor que seu produto acabado terá um dia.

16. Terceiro erro de Rodbertus: o valor da troca de bens é determinado pela quantidade de trabalho neles contida Se examinarmos o porquê de Rodbertus ter caído nesse segundo erro, encontraremos um outro erro, um, terceiro erro importante que vejo em sua teoria da exploração. E que ele parte da pressuposição de que o valor dos bens depende exclusivamente da quantidade de trabalho exigida para a sua produção. Se isso fosse correto, o pré-produto, ao qual se acrescentou um ano de trabalho, deveria passar a valer um quinto pleno do valor do produto acabado, para o qual foram necessários cinco anos de trabalho. E, nesse caso, a exigência de que o trabalhador [p. 272] deva receber já agora um quinto pleno daquele valor como salário seria justa.

17. Como Rodbertus, através de uma omissão, realmente deturpa os pontos de vista de Ricardo Da maneira como Rodbertus apresenta aquela pressuposição, ela é indubitavelmente falsa. Para provar isso, nem é preciso desacreditar a famosa lei de valor de Ricardo, de que o trabalho é fonte e medida de todo valor. Basta chamar atenção para a existência de uma importante exceção à essa lei, que o próprio Ricardo registra conscienciosamente e comenta amplamente em certa, passagem, e que Rodbertus, singularmente, não percebe. É fato de que, de dois bens cuja produção custou o mesmo trabalho, aquele cujo acabamento exigiu maior quantidade de trabalho preparatório, ou mais tempo, adquire maior valor de troca. Ricardo nota esse fato de maneira singular. Ele afirma (seção IV do Capítulo I de seus PrincipIes) que “o princípio de que a quantidade de trabalho aplicado à produção de bens determina o valor relativo desses bens sofre uma importante modificação através do emprego de máquinas e de outro capital fixo e durável” . Mais adiante (Seção V): “através da duração desigual do capital e da velocidade desigual com que este retoma ao seu dono”. Então, aqueles bens em cuja produção se emprega muito capital fixo, ou capital fixo de longa duração, ou aqueles para os quais o período de retomo do capital líquido ao dono for maior, terão valor de troca mais alto do que bens que custaram imediatamente muito trabalho, mas que ou não são atingidos pelas circunstâncias referidas, ou o são apenas em grau muito reduzido. Esse valor de troca mais alto dependerá do ganho de capital exigido pelo empresário.

Nem os mais ardorosos defensores da lei do valor do trabalho podem duvidar de que essa exceção existe. Nem devem duvidar de que, em certas circunstâncias, o fator distância no tempo tenha até maior influência no valor dos bens do que a quantidade de trabalho aplicada. Lembro, por exemplo, o valor de um vinho antigo armazenado por decênios, ou o de um tronco centenário na floresta.

Mas essa exceção tem ainda outro aspecto especial. Não é preciso ser muito arguto para notar que nela reside a essência do juro de capital original: o superávit do valor de troca daqueles bens cuja produção exige determinado trabalho prévio é aquilo que fica nas mãos do empresário capitalista como ganho de capital na distribuição do valor do produto. Se essa diferença de valor não existisse, também o juro de capital original não existiria. Essa diferença de valor possibilita que este juro exista e perdure, e é idêntica a ele. Nada é mais fácil de ilustrar do que isso – se é que um fato tão evidente [p. 273] precise ser comprovado. Vamos presumir três bens que, apesar de exigirem um ano de trabalho cada um para serem produzidos, implicam uma duração diferente de trabalho prévio; o primeiro necessitaria só um ano, o segundo dez anos, o terceiro vinte anos de trabalho prévio para poder realizar esse ano de trabalho. Nessas condições, o valor de troca do primeiro bem precisa cobrir o salário de um ano de trabalho, mais o juro de um ano de trabalho prévio. Mas é evidente que o mesmo valor de troca não pode cobrir o salário de um ano de trabalho, mais os juros de dez ou vinte anos de trabalho prévio. Isso só poderia acontecer se os valores de troca do segundo e do terceiro bem fossem proporcionalmente mais elevados do que o valor de troca do primeiro, embora os três tenham exigido trabalho igual. E a diferença no valor de troca é claramente a fonte de onde o juro de capital de dez e vinte anos brota – e deve brotar.

18. O que Ricardo apresenta apenas como apenas como “exceção” devia ter sido sua principal explicação para o juro. Rodbertus foi demasiadamente “pobre” e sem acuidade como leitor de Ricardo A exceção da lei de valor do trabalho apresentada por Ricardo tem a importância de ser idêntica ao principal exemplo de juro de capital original. A pessoa que quiser explicar a exceção terá, logo de início, de explicar o exemplo, e vice-versa. Sem a explicação daquela exceção, não há explicação para o problema do juro. No entanto, a exceção de que falamos é ignorada – para não dizer rejeitada – em ensaios cujo objeto é exatamente o juro de capital, o que nos coloca diante de um erro muito grave. No caso de Rodbertus, ignorar aquela exceção significou ignorar o ponto principal daquilo que lhe cabia explicar.

Não se pode desculpar esse erro dizendo que Rodbertus não pretendia levantar uma regra válida para a vida real, mas apenas uma hipótese para facilitar análises abstratas. Em algumas passagens de seus escritos, Rodbertus apresenta em forma de mera pressuposição o princípio de que todo valor dos bens é determinado pelo custo do trabalho. Mas, por um lado, há passagens em que ele demonstra estar certo de que sua regra de valor também vale para a vida econômica real. Por outro lado, mesmo em forma de mera suposição, uma pessoa não pode aceitar o que bem entender. Igualmente, mesmo numa pura hipótese, só se pode abstrair condições reais irrelevantes para o problema analisado. O que dizer, porém, quando, no ponto crucial de uma análise teórica sobre juro de capital, se abstrai o mais importante exemplo de juro de capital?! Quando a melhor parte do que deve ser explicado fica escamoteada “por pressuposição”?!

Rodbertus tem razão ao dizer que, quando se deseja verificar um princípio como o da renda de terra ou juro de capital, não se pode “fazer o valor subir e descer como numa dança”, mas que se deve supor uma regra sólida de valor. O fato de que bens com diferença temporal [p. 274] maior entre custo de trabalho e acabamento caeteris paribus * têm valor maior, não é também uma sólida regra de valor? E essa regra de valor não é também de fundamental importância para o surgimento do juro de capital? Mesmo assim deveríamos abstrair dela como se ela fosse um fenômeno casual nas condições de mercado?!

As conseqüências dessa singular abstração não se fizeram esperar. Uma primeira conseqüência já foi comentada por mim: ignorando a influência do tempo no valor do produto, Rodbertus cometeu o erro de confundir o direito do trabalhador a todo o valor presente do seu produto com o direito ao valor futuro do mesmo produto. Veremos, logo a seguir, outras conseqüências.

19. Quarto erro de Rodbertus: sua doutrina é contrária em questões importantes. Sua lei da tendência geral de equalização de todo o superávit contradiz importantes pontos de sua teoria do juro em geral, e de sua teoria do juro de terras em particular Uma quarta acusação que levanto contra Rodbertus é a de que sua doutrina contradiz a si mesma em pontos importantes.

Toda a teoria de renda de terras de Rodbertus se fundamenta no princípio – que ele, repetida e enfaticamente, afirma – de que o montante absoluto de “renda” que se pode obter num produto não depende do montante do capital empregado, mas unicamente da quantidade de trabalho aplicado. Supondo que numa determinada produção industrial – por exemplo, numa indústria de calçados – estejam ocupados dez trabalhadores e que cada trabalhador produza num ano um produto de valor equivalente a 1.000 dólares. O sustento mínimo – que ele recebe como salário – retira 500 dólares deste montante. Deste modo, seja qual for a quantidade de capital empregado, a renda anual do empresário será de 5.000 dólares. Caso o capital empregado seja de 10.000 dólares – com 5.000 em salários e 5.000 de material -, a renda constituirá 50% do capital. Imaginemos que numa outra produção, digamos, de objetos de ouro, também se ocupem dez trabalhadores. Suponhamos, também, que o valor do que esses trabalhadores produzem depende da quantidade de trabalho neles empregado: num produto anual de 1.000 dólares cada um, a metade fica para eles como salário, a outra metade fica para o empresário como renda. Mas como o material ouro representa um valor de capital muito mais alto do que o couro de sapateiro, nesse exemplo a renda total de 5.000 dólares advirá de um capital muito maior. Imaginemos que ele será de 200.000 dólares, dos quais 5.000 serão de salários e 195.000 de investimento em material. A renda de 5.000 dólares será, então, equivalente a um juro de apenas 2,5% do capital do negócio. Os dois exemplos estão inteiramente dentro do espírito da teoria de Rodbertus. Por outro lado, se em quase toda a “manufatura” existe outra relação entre o número de trabalhadores (direta ou indiretamente) ocupados e a magnitude do capital empregado, pode-se concluir, também, que, em quase todas as manufaturas, o capital deveria render juros [p. 275] em porcentagens diversas, com limites muito amplos. No entanto, nem o próprio Rodbertus se atreve a afirmar que isso realmente acontece na prática. Ao contrário, num trecho singular da sua teoria sobre a renda da terra, ele pressupõe que, devido à concorrência dos capitais, haverá em todo o campo da manufatura uma porcentagem igual de ganho. Apresentarei essa passagem textualmente. Depois de comentar que a renda advinda da manufatura é considerada inteiramente um ganho de capital, já que nela se aplicam somente bens de capital, ele prossegue:

“Há, além disso, uma porcentagem de ganho de capital que agirá como equiparadora dos ganhos de capital. Por isso, também sobre o capital necessário à agricultura se deve calcular, segundo esta porcentagem equiparadora, o ganho de capital referente àquela parte da renda que recai sobre o produto bruto. Se, como resultado do valor de troca estabelecido, agora existe um critério uniforme para expressar a relação entre rendimento e capital, esse mesmo critério serve, quando se trata da parcela da renda que recai sobre o produto da manufatura, para expressar a relação entre ganho e capital. Em outras palavras, poderemos dizer que o ganho numa indústria equivale a X por cento do capital aplicado. Então, a porcentagem de ganho de capital dará o critério para a equiparação dos ganhos de capital. Naquelas indústrias em que essa porcentagem de ganho de capital acusar ganhos maiores, a concorrência providenciará maior aplicação de capital, provocando, assim, um esforço geral no sentido da equiparação dos ganhos. Por isso, ninguém aplicará capital onde não puder esperar ganhos segundo essa porcentagem.”

Vale a pena examinar melhor essa passagem.

Rodbertus aponta a concorrência como fator que garantirá uma porcentagem uniforme de ganho no campo da manufatura. E comenta isso brevemente. Pressupõe que qualquer porcentagem de ganho acima da média baixará ao nível médio em decorrência de um aumento da aplicação de capital. Podemos deduzir, então, que qualquer porcentagem de ganho mais baixa será erguida ao nível médio pela dispersão de capitais.

Levemos adiante nosso exame dos fatos, pois Rodbertus interrompe bruscamente o seu. De que modo uma maior aplicação de capital pode nivelar uma porcentagem de ganho anormalmente alta? Obviamente isso só acontece porque, com o capital aumentado, a produção do artigo em foco cresce, e em razão do crescimento da oferta o valor de troca do produto baixa tanto que, depois de descontados os salários, sobra como renda apenas a porcentagem de ganho comum. Em nosso exemplo da indústria de calçados, teríamos de imaginar da seguinte forma o nivelamento da porcentagem anormal de ganho de 50% para a porcentagem média de 5%: atraídas pelo ganho elevado de 50% , não só inúmeras pessoas retomarão a fabricação de sapatos, como também os atuais produtores de calçados aumentarão sua produção. Com isso, a oferta de calçados cresce [p. 276], e seu preço – seu valor de troca – baixa. Esse processo terá efeito até o ponto em que o valor de troca do produto anual de dez trabalhadores da indústria de calçados baixar de 10.000 dólares para 5.500. Assim, depois de descontar os salários necessários de 5.000 dólares, o empresário ficará com apenas 500 dólares de renda, que, repartidos num capital de 10.000 dólares, lhe darão o juro comum de 5%. Assim, o valor de troca dos calçados terá de se manter no ponto atingido para que o ganho nessa indústria não volte a crescer anormalmente, o que levaria à repetição do processo.

De maneira análoga, a porcentagem de ganho abaixo do normal de 2,5%, no nosso exemplo da manufatura de objetos de ouro, subirá para 5% . Este lucro insignificante restringirá a manufatura de ouro, reduzindo a oferta em produtos de ouro e aumentando. Conseqüentemente, seu valor de troca, até o ponto em que o produto de dez trabalhadores no ramo de ourivesaria atinja um valor de troca de 15.000 dólares. Aí, então, vão restar, depois da dedução dos salários necessários de 5.000 dólares, os 10.000 dólares de renda para o empresário, que equivalem ao juro costumeiro de 5% sobre o capital empregado, que era de 200.000 dólares. Com isso, chegou-se ao ponto de estabilização, no qual o valor de troca de objetos de ourivesaria poderá firmar-se duradouramente, como acima vimos acontecer com o valor dos calçados.

É um aspecto importante este de que o nivelamento de porcentagens anormais de ganhos não possa acontecer sem uma mudança duradoura no valor de troca dos produtos envolvidos. Antes de prosseguir, desejo tocar em outra faceta desta questão para que ela fique totalmente isenta de dúvidas. Se o valor de troca dos produtos não mudasse, uma porcentagem de ganho insuficiente só poderia voltar ao nível normal caso se cobrisse a diferença com o salário indispensável ao trabalhador Se, no nosso exemplo, o produto dos dez trabalhadores na manufatura de objetos de ouro se mantivesse com o valor imutável de 10.000 dólares – correspondente à quantidade de trabalho empregado -, um nivelamento da porcentagem de ganho de 5%, ou seja, um aumento do ganho de 5.000 para 10.000 dólares não seria possível senão com retirada total do salário de 500 dólares de cada trabalhador, ficando o produto inteiro como ganho para o capitalista. Abstraí aqui totalmente o fato de que essa suposição já é, em si, uma impossibilidade. Desejo apenas lembrar que ela contraria tanto a experiência quanto a própria teoria de Rodbertus. Contraria a experiência porque esta mostra que a limitação niveladora da oferta em um ramo de produção não tem, como efeito regular, a redução do salário, mas, sim, o aumento do preço do produto regular. Além do mais, essa suposição ignora que, nessas indústrias que exigem grande investimento de capital, o salário teria de ser bem mais baixo do que em outras. Por outro lado, pela experiência [p.277], também não comprova que a exigência de ganho maior seja repassada aos salários, e não aos preços dos produtos. Essa suposição contraria, ainda, a própria teoria de Rodbertus, que pressupõe que os trabalhadores recebem permanentemente como salário o custo mínimo de sua subsistência, regra fortemente infringida pelo nivelamento acima descrito.

Seria fácil, por outro lado, provar o contrário, ou seja, que só poderia haver uma diminuição dos ganhos exagerados com valor de produto inalterado, caso na indústria o salário dos trabalhadores fosse elevado a níveis acima do normal, o que também contradiz essa teoria de Rodbertus bem como a experiência. Estou certo de que descrevi o problema do nivelamento de ganhos conforme os fatos e conforme as pressuposições de Rodbertus, ao mostrar que o nivelamento de ganhos excessivos é obtido através de alterações, reduções ou aumentos do valor de troca dos produtos em questão.

No entanto, se admitimos que o produto anual de dez trabalhadores na indústria calçadista tem valor de troca de 5.500 dólares, e que o produto anual de dez trabalhadores em ourivesaria vale 15.000 dólares, como preconiza a equiparação de ganhos imaginada por Rodbertus, como fica a idéia desse mesmo Rodbertus, de que produtos se trocam com base no custo do trabalho? A contradição em que Rodbertus se envolveu é tão evidente quanto insolúvel. Ou os produtos realmente se trocam de maneira duradoura segundo o trabalho neles despendido, dependendo o montante da renda numa produção da quantidade de trabalho neles aplicado – e, neste caso, é impossível nivelar o ganho de capital – ; ou existe esse nivelamento – e , nesse caso, é impossível que os produtos continuem a ser trocados segundo o trabalho neles despendido, e que a quantidade de trabalho despendido seja o único fator a condicionar a soma da renda a ser obtida. Rodbertus teria notado essa contradição tão óbvia se, ao invés de se ater a uma frase superficial sobre o efeito nivelador da concorrência, tivesse pensado seriamente, por pouco que fosse, no fenômeno do nivelamento de superávit.

Mas não é só isso. Toda a explicação sobre a renda de terras – que em Rodbertus se liga tão intimamente à explicação do juro de capital – se baseia numa inconseqüência de tal modo evidente que só por [p. 278] uma distração quase inacreditável pode ter passado despercebida a este autor.

Só é possível uma das duas alternativas: ou acontece um nivelamento de ganhos de capital em função da concorrência, ou este nivelamento não acontece Admitamos que ele aconteça: qual seria a justificativa para o fato de Rodbertus presumir que o nivelamento, depois de atingir todo o terreno da manufatura, há de parar como que por encanto na fronteira da produção bruta? No caso da agricultura, que não permite um ganho mais elevado e atraente por que motivo não se deveria aplicar mais capital, por que não se aumentaria o cultivo buscando outros métodos melhorando a cultura até o ponto em que o valor dos produtos brutos se harmonizasse com o capital agrícola crescente passando a lhe conceder também a porcentagem habitual de ganhos? Se a “lei” de que a quantidade de renda não depende do gasto de capital, mas sim da quantidade de trabalho despendido não impediu o nivelamento da manufatura, por que impediria o da produção bruta? Onde fica então o constante superávit sobre a porcentagem habitual de ganhos, ou da renda sobre a terra?

Vejamos a outra alternativa: o nivelamento não acontece. Neste caso, não existe porcentagem de juros vigente e geral, e falta, também à agricultura, uma certa norma para a cifra que se pode calcular em “renda” como ganho de capital. Então faltará também, por fim uma fronteira entre ganho de capital e renda de terra Por isso, haja ou não haja equiparação de ganhos, em qualquer das duas alternativas, a teoria de renda sobre a terra, de Rodbertus, fica solta no ar. Portanto, são contradições sobre contradições, que ocorrem não em aspectos de somenos importância, mas nos princípios básicos da teoria!

20. Quinto erro de Rodbertus: o erro “geral” e espantoso que o incapacita de dar qualquer explicação sobre um aspecto importante do fenômeno do juro Até aqui dirigi minha crítica contra detalhes da teoria de Rodbertus Quero concluir, analisando a teoria como um todo. Se a teoria for correta, ela deverá ser capaz de fornecer uma explicação satisfatória para o fenômeno do juro de capital, assim como ele aparece na vida econômica real, em todas as suas manifestações. Caso a teoria não dê conta disso, estará condenada: será falsa.

Posso garantir – e prová-lo, a seguir – que a teoria da exploração de Rodbertus até seria capaz, embora muito precariamente, de tomar inteligível o ganho de juros das parcelas de capital investidas nos salários de trabalho, mas, através dela, é absolutamente impossível explicar o ganho de juros daquelas parcelas de capital aplicadas em materiais de manufatura. Vejamos.

Um joalheiro que se dedica a fazer colares de pérolas manda cinco empregados enfiarem em cordões anualmente um milhão de dólares em pérolas legítimas, e vende os colares em média após um ano. Assim [p. 279], terá investido um capital de um milhão de dólares em pérolas, que, segundo a porcentagem normal de juros, lhe darão um ganho anual líquido de 50.000 dólares. Mas como se explica que o joalheiro tenha esse ganho em juros?

Rodbertus diz que o juro de capital é um ganho originado da exploração, nascido do roubo praticado contra salários justos e naturais. Salários de que trabalhadores? Dos cinco que selecionam pérolas e as enfiam em cordões? Não pode ser, pois, se alguém que roubasse parte dos salários justos de cinco trabalhadores pudesse ganhar 50.000 dólares, o salário justo deles deveria ser de mais de 50.000 dólares, ou seja, deveria ser superior a 10.000 dólares por cada homem – cifra que não se pode levar a sério, pois o trabalho de selecionar e enfiar pérolas muito pouco difere de qualquer trabalho não especializado.

Examinemos melhor a questão: talvez o joalheiro consiga esse ganho explorador a partir do produto do trabalho de trabalhadores em algum estágio anterior da produção. Mas ocorre que o joalheiro nem teve contato com esses trabalhadores; ele comprou as pérolas do empresário da pesca de pérolas, ou até de algum intermediário: portanto, ele nem teve ocasião de tirar dos pescadores de pérolas uma parte de seu produto ou do valor dele. Talvez, em lugar dele, tenha feito isso o empresário da pesca de pérolas, nascendo, assim, o ganho do joalheiro, de uma redução de salários imposta por esse empresário a seus trabalhadores. Também isto é impossível, pois obviamente o joalheiro teria seu ganho mesmo que o empresário da pesca de pérolas não deduzisse nada dos salários de seus trabalhadores. Mesmo que este dividisse entre seus trabalhadores todo o milhão que valem as pérolas pescadas e que ele recebeu como preço de compra do joalheiro, só conseguiria não ter lucro, mas de maneira alguma poderia prejudicar o lucro do joalheiro. Pois, para o joalheiro, a maneira como vai ser dividido o preço de compra que pagou – caso este não se tenha elevado – é totalmente indiferente. Portanto, por mais que forcemos nossa fantasia, será vão procurarmos os trabalhadores de cujo salário justo poderia ter sido subtraído o ganho de 50.000 dólares do joalheiro.

Talvez esse exemplo ainda deixe escrúpulos em algum leitor. Talvez alguns julguem estranho que o trabalho de cinco enfiadores de pérolas seja a fonte da qual o joalheiro consiga um ganho tão considerável, de 50.000 dólares. No entanto, mesmo parecendo estranho, o exemplo não é, em absoluto, inconcebível. Quero dar um segundo exemplo, ainda mais convincente. Trata-se, aliás, de um bom exemplo, bem antigo, a partir do qual muitas teorias de juros já foram propostas e refutadas no curso dos tempos.

O dono de uma vinha colheu um barril de bom vinho novo, vinho este que tem, logo depois da colheita, um valor de troca de 100 dólares [p. 280]. Deixou o vinho no porão, e, depois de doze anos de envelhecimento, esse vinho adquiriu um valor de troca de 200 dólares. O fato é conhecido. A diferença de 100 dólares ficou para o dono do vinho, como juro de capital aplicado no vinho. De que trabalhadores ele extorquiu esse ganho de capital?

Como, durante o armazenamento, não houve absolutamente nenhum trabalho relacionado ao vinho, só se pode concluir que os explorados foram aqueles trabalhadores que produziram o vinho novo. O vinhateiro lhes teria pago um salário insuficiente. Mas, pergunto eu, como lhes poderia ter pago um “salário justo”? Mesmo que ele lhes pagasse todos os 100 dólares que o vinho novo valia na época da colheita, ainda continuaria com o acréscimo de valor de 100 dólares, que Rodbertus rotula de ganho de exploração. Mesmo que lhes pagasse 120 ou 150 dólares, ainda seria acusado de exploração. E só se livraria dessa nódoa se pagasse todos os 200 dólares.

É possível querer, em sã consciência, que sejam pagos duzentos dólares “como justo salário de trabalho” por um produto que não vale mais de cem dólares? O proprietário poderia saber, de antemão, que o produto algum dia valerá 200 dólares? Ou, então, não poderia ser forçado a contrariar sua intenção, e gastar ou vender o vinho antes dos doze anos? E, neste caso, ele não teria pago 200 dólares por produto que nunca iria valer mais de 100, ou talvez de 120 dólares? Quanto, então, teria de pagar aos trabalhadores que produzissem o vinho que ele vende antes do envelhecimento por 100 dólares? Também a estes deveria dar 200 dólares? Se fosse assim, ele ficaria arruinado. Ou será que deve pagar-lhes só 100 dólares? Nesse caso, trabalhadores diferentes receberão por trabalho absolutamente igual salários diferentes, o que é novamente injusto. E não se levou em conta, aqui, o fato de que dificilmente se pode saber antecipadamente qual dos produtos será vendido logo, e qual deles será armazenado durante doze anos.

E ainda há mais: mesmo o salário de 200 dólares por um barril de vinho novo ainda poderia vir a ser considerado como explorador. Pois o dono pode armazenar o vinho no porão durante vinte e quatro anos em vez de doze; o vinho, então, já não valerá apenas 200, mais sim 400 dólares. Será que, por isso, os trabalhadores que produziram esse vinho 24 anos atrás seriam, por justiça, credores de quatrocentos dólares? A idéia é absurda demais! Mas se o proprietário lhes pagar só 100 dólares – ou mesmo 200 dólares – terá um ganho de capital, e Rodbertus declara que, com isso, estará reduzindo o salário justo do trabalhador, uma vez que retém parte do valor do seu produto!

21. Crítica geral à doutrina de juros de Rodbertus: a) mal fundamentada; b) conclusões falsas; c) contraditória Não creio que alguém se atreva a afirmar que os casos de obtenção de juros aqui apresentados, e inúmeros casos análogos, fiquem esclarecidos pela doutrina de Rodbertus. O fato é que uma teoria que fica devendo explicação para parte importante dos fenômenos a serem explicados não pode ser verdadeira. Sendo assim, esta sumária análise final leva aos mesmos resultados da crítica detalhada que antecedeu: a teoria da exploração de Rodbertus é falsa em sua fundamentação e em seus resultados, contradiz-se a si mesma, e contradiz os fatos reais [p.281].

A natureza de minha tarefa crítica fez com que nas folhas acima eu tivesse de apontar apenas alguns dos erros em que Rodbertus incorreu. Creio dever à memória desse grande homem o reconhecimento do mérito inegável de sua contribuição para o desenvolvimento da teoria econômica, embora não faça parte de minha tarefa atual descrever tais méritos.

Notas 1 Uma lista bastante completa dos inúmeros textos do Dr . Karl Rodbertus, Jagetzow está em Kozak: Rodbertus’ sozial-õkonomische Ansichten, Jena,1882 (p.7ss). Usei basicamente as cartas 2 e 3 enviadas a von Kirchman,na impressão (um pouco modificada) que Rodbertus publicou em 1875 sob o título Zur Beleuchtung der sozialen Frage, e também o texto Zur Erklärung und Abhilfe der heutigen Kreditnot des Grundbesitzes (2.ed. Jena,1876), assim como a obra póstuma de Rodbertus, editada por Adolf Wagner e Kozak sob o título Das Kapital que era a 4a carta social enviada a von Kirchman (berlim, 1884). A teoria de juros de Rodbertus foi a seu tempo submetida a uma crítica muito detida e conscienciosa por parte de Knies (Der Kredit, parte II, Berlim, 1879, p.47 ss), crítica esta que confirmo nos pontos mais importantes, embora não possa deixar de efetuar um novo exame crítico e independente, uma vez que meu ponto de vista teórico é muito diferente do de Knies, pois encaramos vários fatos sob luzes bastante diversas. Cf. sobre Rodbertus também A. Wagner em sua Grundlegung III, 3.ed.(parte 1 § 13 Parte II § 132), e também H. Dietzel, C. Rodbertus, Jena, 1886-1888.

2 Zur Beleuchtung der Sozialen Frage (pp.68 e 69).

3 Soziale Frage(p.56);Erklärung und Abhilfe (p.112).

4 Soziale frage (p.87 e 90); Erklä rung und Abhilfe (p.111); Kapital (p.116), 5 Soziale Frage (p.146); Erklärung und Abhilfe (II, p.109 ss.).

6 Soziale Frage (p.32).

7 Soziale Frage (p.74 ss.).

8 Soziale Frage (p.33); similarmente, de forma detalhada (pp.77 – 94).

9 Soziale Frage (p.115 e em diversas outras).

10 Op. cit. 150;Kapital (p.202).

11 Soziale Frage (p.115,148);Cf. também a crítica contra Bastiat,op.cit. (pp.115 a 119).

12 Soziale Frage (p.123 ss.).

13 Op.cit. (p. 106).

14 Soziale Frage (p.107); similarmente, pp.113, 147; também Erklärung (I,p.123).

15 Soziale Frage (p.148).

* Esse exemplo não é dado por Rodbertus: é acrescentado por mim apenas para proteger de confusões esse árduo raciocínio.

16 Soziale Frage (p.94 ss.); especialmente pp. 109-111. Erklärung (I, p. 123).

17 Erklärung (II, p. 303).

18 Erklärung (II, p. 273 ss.). No seu texto póstumo sobre o Kapital Rodbertus manifesta-se mais asperamente contra o capital privado, querendo que ele seja substituído, e não simplesmente abolido.

19 Soziale Frage (p.69).

20 Soziale Frage (p.71).

21 Kredit (Parte II p.60 ss.).

* “Para reconhecimento de nossa situação econômica” (N. da T.)

** “Para esclarecimento e correção da atual falta de crédito na propriedade de terras” (N. da T.)

22 Zur Erkenntnis unserer staatwirstschaftlichen Zustand(1842), primeiro teorema (pp.5 e 6.)

23 Op. cit. (p. 7).

24 Op. cit. (p. 8).

25 É fácil ver que Rodbertus também deveria, por coerência, ter declarado a força de trabalho algo eterno e indestrutível, uma vez que também as forças químicas e mecânicas que existem no organismo humano não desaparecem da terra!

26 Será que uma pessoa que “empreita” o trabalho dos outros, seja esta pessoa um empregador, um patriarca ou um dono de escravos, não tem por que administrar o trabalho alheio? Naturalmente aqui não se pode considerar como motivo o fato de esse trabalho de administrar custar o tempo dele, a força dele ou seu sacrifício pessoal em liberdade. O que importa é a relação, descrita no texto, dom a satisfação das necessidades dele ou de sua família.

27 Todas as legislações sobre mineração que contêm determinações contra métodos predatórios constituem uma contradição a Rodbertus, pois tornam um dever administrar economicamente dons raros da natureza.

28 Op. cit. (p. 9).

29 Erklärung und Abhilfe (II. P. 160); similarmente,Soziale frage (p. 69).

30 Der Kredit (II. P. 69) : “ Objetivamente, não é verdadeiro o único motivo apresentado por Rodbertus: o trabalho é a única força original e também o único dispêndio original com o qual se efetua a economia humana”. Seria um engano surpreendente num proprietário de terras se ele afirmasse ser impossível que as forças efetivas do solo de suas limitadas propriedades pudessem ficar “mortas” ou “desperdiçadas pelo inço” por causa de pessoas que não as sabem administrar. Um julgamento tão absurdo teria também de defender o princípio de que a perda de x acres não significa “perda econômica” para o dono de y milhas quadradas de terra.

31 Veja-se Knies, Der Kredit (II, p. 64 ss.). Por exemplo: “quem deseja ‘produzir’ carvão não deve apenas cavar, mas deve cavar em determinado local: em milhares de locais se poderá efetuar, sem resultados, a mesma operação material de cavar. Mas se o ato difícil e necessário de determinar o local é assumido por um especialista, por exemplo em geólogo; se o ato de cavar um poço depende de uma certa ́força intelectual ́, etc..., como então se pode querer que o ato de cavar, por si só, constitua `serviço econômico ́? Será que o valor econômico de remédios manufaturados estará unicamente ligado à atividade manual de que estes remédios resultam, quando, na verdade, a escolha dos materiais, a determinação das quantidades, etc...partem de outras pessoas que não aquelas que `fazem ́ as pílulas?”

* Böhm-Bawerk refere-se ao segundo volume da obra, em três volumes, Capital e juro de capital , da qual o presente livro é um excerto ( N . da T ).

32 Naturalmente não me ocorre querer apresentar a porcentagem de juros como causa da baixa valorização de bens futuros. Sei muito bem que juro e porcentagem de juro são apenas conseqüências daquele fenômeno primário. Aliás, não pretendo aqui dar explicações, mas descrever fatos.

33 Logo adiante será demonstrado o acerto dessa cifra de juros que, à primeira vista, pode parecer estranha.

34 Stolzmann, Soziale Kategorie (p. 305 ss.) fez, em relação a este exemplo, algumas objeções que me parecem bastante secundárias, além de errôneas. Partindo da opinião equivocada de que em meu grupo de trabalhadores eu quis apresentar – ou teria apresentado – uma espécie de arquétipo, um pequeno Estado com economia independente e fechada em si mesma, ele argumenta que também o último trabalhador “não poderia fazer nada com a máquina pronta, não poderia prolongar com ela um só dia de sua vida” (307). Argumenta, ainda, que o pagamento do primeiro trabalhador, de 1.200 dólares ao cabo do quinto ano, é uma recompensa insuficiente para sua espera de cinco anos. “Se nesse longo tempo ele não morresse de fome” – afirma o autor da objeção – enquanto “fosse forçado a deixar no regaço as mãos ociosas e inúteis”, deveria receber o pagamento por cinco anos inteiros, isto é, 5.000 dólares (308). Direi apenas, em relação a isso, que não tive intenção de dar como exemplo algum arquétipo isolado, mas pretendi descrever, e descrevi, uma sociedade de cinco pessoas, dentro da moderna vida econômica, ocupada num trabalho de produção: a construção de uma máquina. Remeto às claras palavras que usei para expressar as condições de meu exemplo, nestas páginas. Nesse exemplo fala-se, entre outras coisas, do “valor de troca” da máquina acabada. No exemplo em questão, fiz abstração apenas da divisão do trabalho – e assim mesmo só de passagem – relacionado à fabricação daquela máquina. Por isso não se pode dizer, também, que os participantes daquela operação produtiva fossem forçados a permanecer ociosos quando não estavam ocupados com ela. E quando na p. 313 Stolzmann me acusa de um “gravis error dupli” pelo fato de eu julgar possível que um dos trabalhadores pudesse colocar a juros até o fim do quinto ano seu salário, recebido antes dos outros, e de, com isso, ter feito o que ele chama de “rotular os trabalhadores de capitalistas junto com os empresários”, devo dizer que não há no meu exemplo, uma só palavra que exclua a possibilidade de que um ou outro dos participantes pudesse ter meios que lhe permitissem essa espera.Ao contrário, nas pp. 346 e 351 pressupus expressamente a alternativa de que os trabalhadores “não possam ou não queiram esperar”. Essa passagem foi erroneamente citada por Stolzmann nas pp. 307 e 309 como “não possam e não queiram esperar”. Por fim, já na nota 32 deste mesmo capítulo, afirmei claramente que com meu exemplo não pretendi explicar o fenômeno do juro, mas apenas ilustrar com fatos determinado raciocínio.

Objeção interessante, e bem mais profunda, foi feita pelo Dr. Robert Meyer na sua excelente obra sobre Wesen des Einkommen (Berlim, 1887, p. 270 ss.). Mas como o esclarecimento da sua objeção, igualmente fruto de interpretação errônea, exigiria inúmeros detalhes a respeito de minha teoria positiva de capital, deixo sua discussão para o volume II desta obra.

35 No segundo volume desta obra procederei a exames mais detidos. Para me proteger de mal-entendidos bem como da suspeita de considerar “ganho explorador” todo ganho empresarial acima dos juros vigentes no país, acrescentarei apenas o breve comentário a seguir. A diferença entre o valor total do produto e o montante pago em salários, diferença esta que fica para o empresário, pode ser constituída de quatro componentes diferentes entre si:

1) Um prêmio de risco pelo perigo de a produção fracassar. Corretamente medido, ele será usado no decorrer dos anos para cobrir perdas efetivas e naturalmente não implica deduções do salário dos trabalhadores.

2) Uma recompensa pelo próprio trabalho do empresário, recompensa essa que naturalmente é justa e em certas circunstâncias, p. ex., no aproveitamento de alguma nova invenção do empresário, poderá ser computada segundo uma porcentagem alta, sem haver nisso injustiça contra os trabalhadores.

3) A recompensa mencionada no texto, advinha da diferença de tempo entre pagamento de salário e concretização do produto final, e medida segundo os juros vigentes.

4) Por fim, o empresário pode conseguir ganho extra, aproveitando-se da situação de miséria dos trabalhadores para reduzir ainda mais seu salário. Só esse último aspecto fere o princípio de que o trabalhador deve receber todo o valor do seu produto.

* “Sem modificação das demais coisas” ( N . da T .)

A Teoria Da Exploracao Do Socialismo Comunismo Capitulo Iv

Tradução: LYA LUFT | A idéia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômic

IV – A teoria do juro de Marx 1 A. Apresentação detalhada da teoria de Marx O principal trabalho teórico de Marx é sua grande obra em três volumes, sobre o capital. Os fundamentos de sua teoria da exploração estão expostos no primeiro destes volumes, o único a ser publicado em vida do autor em 1867. O Segundo, editado postumamente por Engels, em 1885, está em total harmonia com o Primeiro, quanto ao conteúdo. Menos harmônico é sabidamente o terceiro volume, publicado novamente após intervalo de vários anos, em 1894. Muitas pessoas, entre elas o autor destas linhas, acreditam que o conteúdo do terceiro volume seja incompatível com o do primeiro, e vice-versa. Mas, como o próprio Marx não admitiu isso e, ao contrário, também no terceiro volume exigiu que se considerassem totalmente válidas as doutrinas do primeiro, a crítica deve considerar as teses expostas nesse primeiro livro expressão da verdadeira e permanente opinião de Marx. Mas é igualmente válido – e necessário – abordar no momento adequado as doutrinas do terceiro volume, como ilustração e crítica.

1. A teoria de Marx sobre juro é mais extremista que a de Rodbertus Marx parte do principio de que o valor de toda mercadoria depende unicamente da quantidade de trabalho empregada em sua produção. Dá muito mais ênfase a esse princípio do que Rodbertus. Enquanto este o menciona de passagem, no correr da exposição, muitas vezes apenas como hipótese, sem gastar tempo com sua comprovação, 2 Marx o coloca no ápice de sua teoria, dedicando-lhe uma explicação extensa e fundamentada.

O campo de pesquisa que Marx se propõe examinar para “entrar na pista do valor” (I, p. 23) 3 fica limitado originalmente às mercadorias, o que, para Marx, não significa todos os bens econômicos, mas apenas os produtos de trabalho criados para o mercado.

4 Ele começa com uma análise da mercadoria (I, p. 9). A mercadoria é, por um lado [p. 282], uma coisa útil cujas qualidades satisfazem algum tipo de necessidade humana, um valor de uso; por outro, constitui o suporte material do valor de troca. A análise passa agora para este último. “O valor de troca aparece de imediato como a relação quantitativa, a proporção na qual valores de uso de um tipo se trocam com valores de uso de outro tipo, relação essa que muda constantemente, conforme tempo e lugar.” Portanto, parece ser algo casual. Mas nessa troca deveria haver algo de permanente, que Marx trata de pesquisar. E faz isso na sua conhecida maneira dialética: “Tomemos duas mercadorias, por exemplo, trigo e ferro. Seja qual for a sua relação de troca, pode-se representá-la sempre numa equação segundo a qual uma quantidade dada de trigo é igualada a uma quantidade de ferro, p. ex., um moio de trigo x quintais de ferro. O que significa essa equação? Que existe algo de comum, do mesmo tamanho, em duas coisas diferentes, ou seja, em um moio de trigo e x quintais de ferro. Portanto, as duas coisas se equiparam a uma terceira, que em si não é nem uma nem outra. Cada uma das duas, portanto, na medida em que tem valor de troca, deve ser reduzível a essa terceira.”

2. Dialética do valor em Marx “Esse elemento comum – prossegue Marx – não pode ser uma característica métrica, física, química, ou outra característica natural das mercadorias. Suas características corporais, aliás, só entram em consideração na medida em que as tornam úteis, e são, portanto, valores de uso. Mas, por outro lado, a relação de troca das mercadorias aparentemente se caracteriza por se abstrair dos valores de uso dessas mercadorias. Segundo ela, o valor de uso vale tanto quanto qualquer outro, desde que apareça na proporção adequada. Ou, como diz o velho Barbon: “... Um tipo de mercadoria é tão bom quanto outro, quando seu valor de troca for igual. Não existe distinção entre coisas do mesmo valor de troca.’ Como valores de uso, as mercadorias são principalmente de qualidades diferentes, como valores de troca só podem ser de quantidades diferentes e, portanto, não contêm um átomo sequer de valor de uso.”

“Abstraindo o valor de uso das mercadorias, elas guardam ainda uma característica, a de serem produtos de trabalho. No entanto, também o produto de trabalho já se transformou em nossas mãos. Se abstrairmos o seu valor de uso, também estaremos abstraindo os elementos e formas corporais que o tornam valor de uso. Não se trata mais de mesa, ou casa, ou fio, ou outra coisa útil. Todas as suas características sensoriais estão apagadas. Ele também já não é o produto da marcenaria, ou da construção, ou da tecelagem, ou de qualquer trabalho produtivo. Com o caráter utilitário dos produtos de trabalho, desaparece o caráter utilitário dos trabalhos neles efetuados, e somem também as diversas formas concretas desses trabalhos. Eles já não se distinguem entre si [p.283]: reduziram-se todos ao mesmo trabalho humano, trabalho humano abstrato.”

“Consideremos agora o que restou dos produtos de trabalho. Nada resta deles senão aquela mesma objetualidade espectral, mera gelatina de trabalho humano indistinto, ou seja, o gasto de forças de trabalho humanas sem consideração pela forma desse dispêndio. Essas coisas apenas nos dizem que na sua produção se gastou força de trabalho humano, se acumulou trabalho humano. Como cristais dessa substancia social comum, eles são valores.”

Assim se define e se determine o conceito de valor. Segundo a teoria dialética, ele não é idêntico ao valor de troca, mas relaciona-se com ele de maneira íntima e inseparável: ele é uma espécie de destilado conceitual do valor de troca. Para usar as palavras do próprio Marx, ele é “a parte comum que aparece na relação de troca ou valor de troca das mercadorias”. O reverso é igualmente válido: “o valor de troca é a expressão necessária ou a manifestação do valor” (I, p. 13).

3. O “tempo de trabalho socialmente necessário” de Marx Marx passa da determinação do conceito de valor para a exposição de sua medida e grandeza. Como o trabalho, é a substância do valor, conseqüentemente a grandeza do valor de todos os bens se mede pela quantidade de trabalho neles contido, ou seja, pelo tempo de trabalho. Mas não aquele tempo de trabalho individual, que aquele individuo que produziu o bem casualmente precisou gastar, mas o “tempo de trabalho necessário para produzir um valor de uso, nas condições sociais normais de produção disponíveis, e com o grau de habilidade e intensidade do trabalho possíveis nessa sociedade” (I, p. 14). “Só a quantidade de trabalho socialmente necessário ou o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir um valor de uso é que determina o seu valor. A mercadoria isolada vale aqui como exemplo médio da sua espécie. Mercadorias contendo igual quantidade de trabalho, ou que podem ser produzidas no mesmo tempo de trabalho, têm por isso o mesmo valor. O valor de uma mercadoria relaciona-se com o valor de outra mercadoria, da mesma forma que o tempo de trabalho necessário para a produção de uma delas se relaciona com o tempo de trabalho necessário para a produção da outra. Como valores, todas as mercadorias são apenas medidas de tempo de trabalho cristalizado.”

4. A “lei do valor” de Marx De tudo isso deduz-se o conteúdo da grande “lei de valor”, que é “imanente à troca de mercadorias” (I, pp. 141 e 150) e que domina as condições de troca. Essa lei significa – e só pode significar – que as mercadorias se trocam entre si segundo as condições de trabalho médio, socialmente necessário, incorporado nelas (p. ex., I. p. 52). Há outras formas de expressão da mesma lei: as mercadorias “se trocam entre si conforme seus valores” (p. ex., I, pp. 142, 183; III, p. 167); ou “equivalente se troca com equivalente” (p.ex., I, p. 150, p. 183). É verdade que, em casos isolados, segundo oscilações momentâneas de oferta e procura, também aparecem preços que estão acima ou abaixo do valor. Só que essas “constantes oscilações dos preços de mercado (...) [p. 284] se compensam, se equilibram mutuamente e se reduzem ao preço médio, que é sua regra interna” (I, p. 151, nota 37). Mas a longo prazo “nas relações de troca casuais e sempre variáveis”, “o tempo de trabalho socialmente necessário acaba sempre impondo-se à força, como lei natural imperante” (I, p. 52).

Marx considera essa lei como “eterna lei de troca de mercadorias” (I, p. 82), como “racional”, como “a lei natural do equilíbrio” (III, p. 167). Os casos eventuais em que mercadorias são trocadas a preços que se desviam do seu valor são considerados “casuais” em relação à regra (I. p. 150, nota 37), e os próprios desvios devem ser vistos como “infração da lei de troca de mercadorias” (I, p. 142).

5. A “mais valia” de Marx Sobre essa base da teoria do valor, Marx ergue a segunda parte de sua doutrina, a sua famosa doutrina do mais-valia. Ele examina a origem dos ganhos extraídos pelos capitalistas dos seus capitais. Os capitalistas tomam determinada soma em dinheiro, transformam-na em mercadorias, e, através da venda, transformam as mercadorias em mais dinheiro – com ou sem um processo intermediário de produção. De onde vem esse incremento, esse excedente da soma de dinheiro obtida em relação à soma originalmente aplicada, ou, como diz Marx, essa mais-valia”?

Marx começa limitando as condições do problema, na sua peculiar maneira de exclusão dialética. Primeiro, ele explica que a mais-valia não pode vir do fato de que o capitalista, como comprador, compra as mercadorias regularmente abaixo do seu valor e, como vendedor, regularmente as vende acima do seu valor. Portanto, o problema é o seguinte: “Nosso ( ... ) dono do dinheiro tem de comprar as mercadorias pelo seu valor, e vendê-las pelo seu valor, mas, mesmo assim, no fim do processo, tem de extrair delas valor mais alto do que o que nelas aplicou... Essas são as condições do problema.

Hic Rhodus, hic salta!

“ * (I, p. 150 ss).

Marx encontra a solução dizendo que existe uma mercadoria cujo valor de uso tem a singular faculdade de ser fonte de valor de troca. Essa mercadoria é a capacidade de trabalho, ou seja, a força de trabalho. Ela é posta à venda no mercado sob dupla condição: a primeira, de que o trabalhador seja pessoalmente livre – caso contrario não seria a força de trabalho o que ele estaria vendendo, mas ele próprio, sua pessoa, como escravo; a segunda, de que o trabalhador seja destituído “de todas as coisas necessárias para a realização de sua força de trabalho”, pois, se delas dispusesse, ele preferiria produzir por conta própria, pondo à venda seus produtos, em vez de sua força de trabalho. Pela negociação com essa mercadoria, o capitalista obtém a mais-valia. O processo se dá da seguinte forma:

O valor da mercadoria “força de trabalho” depende, como o de qualquer outra mercadoria [p. 285], do tempo de trabalho necessário para sua produção, o que, nesse caso, significa que depende do tempo de trabalho necessário para produzir todos os alimentos que são indispensáveis a subsistência do trabalhador. Se, por exemplo, para os alimentos necessários para um dia for preciso um tempo de trabalho de seis horas, e se esse tempo de trabalho corporificar três moedas de ouro, a força de trabalho de um dia poderia ser comprada por três moedas de ouro. Caso o capitalista tenha efetuado essa compra, o valor de uso da força de trabalho lhe pertence, e ele a concretiza fazendo o trabalhador trabalhar para ele. Se o fizesse trabalhar apenas as horas diárias corporificadas na força de trabalho pelas quais ele teve de pagar quando comprou essa força de trabalho, não existiria a mais-valia. Ou seja, seis horas de trabalho não podem atribuir ao produto em que se corporificam mais do que três moedas, uma vez que foi isso que o capitalista pagou como salário. Contudo, os capitalistas não agem dessa maneira. Mesmo que tenham comprado a força de trabalho por um preço que corresponde só a seis horas de trabalho, fazem o trabalhador trabalhar o dia todo. Então, no produto criado durante esse dia, se corporificam mais horas de trabalho do que as que o capitalista pagou, o que faz o produto ter valor mais elevado do que o salário pago. A diferença é a “mais-valia”, que fica para o capitalista.

Tomemos um exemplo: suponhamos que um trabalhador possa tecer em seis horas cinco quilos de algodão em fio, com o valor de três dólares. Suponhamos, também, que esse algodão tenha custado vinte horas de trabalho para ser produzido e que, por isso, tem um valor de dez dólares; suponhamos, ainda, que o capitalista tenha despendido, máquina de tecer, para estas seis horas de tecelagem, o correspondente a quatro horas de trabalho, que representam um valor de dois dólares. Assim, o valor total dos meios de produção consumidos na tecelagem (algodão + máquina de tecer) equivalerá a doze dólares, correspondentes a vinte e quatro horas de trabalho. Se acrescentarmos a isso as seis horas do trabalho de tecelagem, o tecido pronto será pois, no total, produto de trinta horas de trabalho, e terá, por isso, valor de quinze dólares. Se o capitalista deixar o trabalhador alugado trabalhar apenas seis horas por dia, a produção do fio vai custar-lhe 15 dólares: 10 pelo algodão, 2 pelo gasto dos instrumentos, 3 em salário. Não existe mais-valia.

Muito diferente seriam as circunstâncias se este mesmo capitalista fizesse o trabalhador cumprir 12 horas diárias. Nestas 12 horas, o trabalhador processaria 10 quilos de algodão, nos quais já teriam sido corporificadas, anteriormente, 40 horas de trabalho, com um valor de 20 dólares. Os instrumentos teriam consumido o produto de 8 horas de trabalho, no valor de 4 dólares, mas o trabalhador acrescentaria ao material bruto um dia de 12 horas de trabalho, ou seja, faria surgir um valor adicional de 6 dólares. As despesas do capitalista – 20 dólares pelo algodão, 4 dólares pelo gasto dos instrumentos, e 3 pelo salário – somariam apenas 27 dólares. Iria, então, sobrar uma “mais-valia” de 3 dólares.

Portanto, para Marx, a mais-valia é uma conseqüência do fato [P. 286] de o capitalista fazer o trabalhador trabalhar para ele sem pagamento durante uma parte do dia. O dia de trabalho se divide, assim, em duas partes: na primeira, o “tempo de trabalho necessário”, o trabalhador produz seu próprio sustento, ou o valor deste; por essa parte do trabalho, ele recebe o equivalente em forma de salário. Durante a segunda parte, o “superávit em tempo de trabalho”, ele é “explorado”, e produz a “mais-valia”, sem receber qualquer equivalente por ela (I, P. 205 ss). “Portanto, o capital não é apenas controle sobre o trabalho, como diz A. Smith. É essencialmente controle sobre o trabalho não-pago. Toda a mais-valia, seja qual for a forma em que vá se cristalizar mais tarde – lucro, juro, renda etc. – é, substancialmente, materialização de trabalho não Pago. O segredo da autovalorização do capital reside no controle que exerce sobre determinada quantidade de trabalho alheio não pago.” (I, P. 554).

6. As inovações de Marx comparadas com as de Rodbertus Esse é o cerne da teoria da exploração de Marx, exposta no Volume I de O capital. No Volume III, essa teoria talvez tenha sido involuntariamente contraditada mas nunca foi revogada, segundo ainda veremos. O leitor atento reconhecerá nessa exposição – embora parcialmente revestidas de outra forma – todas as teorias essenciais a partir das quais Rodbertus já havia construído sua teoria do juro. Por exemplo, as teorias de que o valor dos bens se mede pela quantidade de trabalho; de que só o trabalho cria valor; de que o trabalhador recebe em seu salário menos valor do que criou, forçado por sua miséria, sendo o excesso tomado pelo capitalista; de que o ganho de capital assim conseguido tem, portanto, um caráter de saque, de lucro sobre trabalho alheio.

Devido à consonância entre as duas teorias – ou, melhor, entre as duas formulações da mesma teoria – quase tudo o que apresentei como objeção à doutrina de Rodbertus também vale, plenamente, para a de Marx. Por isso, posso agora limitar-me a algumas exposições complementares, que julgo necessárias, em parte para adequar minha crítica à singular formulação de Marx, em parte para tratar de uma verdadeira inovação introduzida por Marx.

Entre essas inovações, a mais importante é a tentativa, de afirmar e fundamentar o princípio de que todo valor se baseia em trabalho. Em relação a Rodbertus, combati esse princípio tão incidentalmente como ele o apresentou: contentei-me com a inclusão de algumas exceções indiscutíveis, sem ir ao fundo do assunto. Em relação a Marx, não posso nem quero fazer isso [p. 287]. Encontro-me num terreno que foi inúmeras vezes palmeado por excelentes intelectuais, em discussões teóricas, de modo que não posso esperar acrescentar aí muita novidade. Mas creio que não seria bom, ao escrever um livro que tem como tema a crítica das teorias de juro, fugir da crítica profunda a um princípio que consiste no próprio fundamento de uma das mais importantes teorias. Infelizmente, também, o estado atual da nossa ciência não permite que se considere como um exercício supérfluo a renovação do exame crítico: exatamente em nossos dias 5 aquele principio – que, na verdade, não passa de uma fábula contada certa vez por um grande homem, e desde então repetida por uma massa crédula – começa a ser aceito como evangelho em círculos cada vez maiores.

B. Fraqueza da prova de autoridade de Marx, baseada em Smith e Ricardo Geralmente mencionam-se, não só como origem, mas também, como autoridades testemunhais da doutrina de que todo valor repousa no trabalho, dois nomes de peso: Adam Smith e Ricardo. Isso não constitui erro, mas também não é inteiramente correto. Nos textos de ambos encontra-se essa doutrina, mas por vezes Adam Smith a contradiz.

6 Ricardo, por sua vez, limita de tal forma sua validade, e a contraria com tão importantes exceções, que não é muito justo afirmar que ele considere o trabalho como fonte geral e exclusiva do valor dos bens.

7 Ele abre seus Principles explicando claramente que o valor de troca dos bens nasce de duas fontes: da sua raridade, e da quantidade de trabalho que custaram. Certos bens, como estátuas raras e quadros, auferiram seu valor exclusivamente da primeira fonte. Assim, só o valor daqueles bens que se deixam multiplicar ilimitadamente pelo trabalho – que são, na opinião de Ricardo, a grande maioria – é determinado pela quantidade de trabalho que custaram. Mas também em relação aos últimos bens, Ricardo se vê forçado a nova limitação. Ele precisa admitir que também em relação a eles o valor de troca não se determina só pelo trabalho: o tempo decorrido entre o dispêndio de trabalho inicial e a realização final do produto tem uma influência importante.

8 Com isso, nem Smith nem Ricardo defenderam o princípio em questão sem reservas, como se acredita popularmente. Vejamos, pois, em que bases eles o aceitaram.

7. Nem Smith nem Ricardo fundamentaram sua própria obra Aqui se pode fazer uma estranha descoberta. Smith e Ricardo nem mesmo fundamentaram seu princípio: apenas afirmaram sua validade, como se esta fosse algo por si mesma evidente. As famosas palavras de Smith em relação a isso, assumidas textualmente por Ricardo em sua própria doutrina, foram: “O verdadeiro preço de cada coisa – o que cada coisa custa realmente a quem a deseja adquirir [p. 288] – equivale ao esforço e à dificuldade da aquisição. O que cada coisa vale realmente para aquele que a adquiriu e a deseja vender ou trocar é o esforço e a dificuldade que essa coisa lhe poupa, e que podem ser repassados a outrem.”

9 Aqui convém parar um pouco. Smith diz isso como se a veracidade de tais palavras fosse evidente em si. Mas serão tão óbvias assim? Valor e esforço serão realmente dois conceitos tão interligados que se tem de reconhecer, de imediato, que o esforço é razão do valor? Creio que nenhuma pessoa imparcial dirá isso. O fato de eu me ter esfalfado por uma coisa é um dado; o fato de essa coisa valer todo esse esforço é um segundo dado diferente. Por outro lado, a experiência nos mostra, de maneira indubitável, que os dois fatos nem sempre andam juntos. Cada um dos incontáveis esforços vãos, desperdiçados num resultado insignificante, seja por falta de habilidade técnica, seja por especulação errônea, ou simplesmente por infelicidade, dá testemunho disso a cada dia. Mas também o testemunha cada um dos incontáveis casos em que pouco esforço é compensado com alto valor: a ocupação de um pedaço de terra, a descoberta de uma pedra preciosa ou de uma mina de ouro. Mas, para fazer uma abstração de tais casos que se podem considerar exceções no curso regular das coisas, é um fato absolutamente normal que o mesmo esforço de pessoas diferentes terá valor bem diverso. O fruto do esforço de um mês de um artista muito bom normalmente vale cem vezes mais do que o fruto do mesmo mês de trabalho de um simples pintor de paredes. Isso não seria possível se realmente o esforço fosse o princípio do valor. Ou se, em função de uma relação psicológica, nosso julgamento de valor tivesse de se apoiar unicamente sobre critérios de esforço e dificuldade. A natureza não e tão elitista que suas leis psicológicas nos obriguem a valorizar cem vezes mais o esforço de um artista do que aquele de um modesto pintor de paredes.

10 Penso que quem se propuser a refletir um pouco sobre isso, ao invés de acreditar cegamente, se convencerá de que não é possível falar numa relação interna óbvia entre esforço e valor, como a que parece pressupor aquele trecho de Smith.

Além disso, será que aquela realmente se relaciona – como em geral aceitamos sem discussão – com o valor de troca? Creio que, lendo Smith de modo imparcial, não se poderá, tampouco, afirmar isso. Não há referência nem a valor de troca, nem a valor de uso, nem a qualquer “valor” no sentido estritamente científico. Mas aqui, como já indica o termo usado (worth, não value), Smith quis dizer que a palavra valor está sendo usada naquele sentido mais amplo e indeterminado da linguagem comum. Fato muito significativo! Sentindo que uma reflexão científica séria não aceitaria seu princípio, Smith se utiliza da linguagem corrente para entrar no terreno das impressões cotidianas, menos controladas. E, conforme nos mostra a experiência, ele teve sucesso, o que, para a ciência, é lamentável [p. 289].

Não se pode considerar que essa passagem seja séria do ponto de vista cientifico. Uma prova disso é que, em suas poucas palavras, existe uma contradição. Num mesmo fôlego, Smith admite serem princípios do “verdadeiro” valor tanto o esforço que é poupado pela posse de um bem, quanto o esforço que é repassado a outrem. Ora, essas duas medidas, todos o sabem, não são idênticas. Com a divisão de trabalho vigente, o esforço que eu pessoalmente teria de aplicar para obter a posse de certa coisa desejada é, em geral, bem maior do que o esforço com que um operário especializado a produz. Qual desses dois esforços, o “poupado” ou o “repassado”, determinará o verdadeiro valor?

Em suma, a famosa passagem em que o velho mestre Adam Smith introduz o princípio do trabalho na doutrina do valor fica bem distante do que se pretende ver nela: um grande e bem-fundamentado princípio científico básico. Essa passagem não é óbvia, não apresenta fundamento em palavra alguma. Além de ter a forma e a natureza negligentes de uma frase vulgar, encerra uma contradição em si mesma. Na minha opinião, o fato de ela geralmente merecer crédito deve-se a dois fatores: primeiro, ela foi emitida por um Adam Smith; segundo, ele a emitiu sem qualquer fundamentação. Se Adam Smith tivesse dirigido ao interlocutor uma só palavra que a fundamentasse – ao invés de falar apenas para a emoção – o interlocutor não teria desistido do seu direito de colocar a prova esse fundamento, o que certamente faria aparecer sua precariedade. Esse tipo de doutrina só vence pela surpresa.

Vejamos o que Smith e, depois dele, Ricardo têm a dizer:

“O trabalho foi o primeiro preço, o dinheiro de compra original, que se pagou por todas as coisas.” Essa frase é irrefutável, mas não prova nada para o princípio do valor.

“Naquele estado primitivo e rude da sociedade em que acontece a acumulação de capitais e a apropriação de terra, a relação entre as diversas quantidades de trabalho necessárias à aquisição de diversos objetos parece ser a única circunstância capaz de dar uma norma para a troca recíproca. Quando, por exemplo, uma tribo de caçadores gasta na caça de um castor duas vezes mais do que na caça de um cervo, naturalmente um castor comprará ou valerá dois cervos. É natural que aquilo que habitualmente é produto de trabalho de dois dias ou de duas horas de trabalho valha duas vezes o que é produto de um dia ou uma hora.”

Também nessas palavras procuraremos em vão qualquer fundamento. Smith diz simplesmente “parece”, “deve ser natural”, “é natural” [p. 290] etc., mas deixa que o leitor se convença por si da “naturalidade” dessas palavras. Aliás, tarefa que pois os primeiros, via de regra, se levam dez dias para encontrar, enquanto o cervo habitualmente se caça depois de um segundo condições de tempo de trabalho, teria de ser natural também, por exemplo, que uma borboleta rara e colorida, ou uma rã comestível, valesse dez vezes mais do que um cervo, pois os primeiros, via de regra, se levam dez dias para encontrar, enquanto o cervo habitualmente se caça depois de um dia de trabalho. É uma relação cuja “naturalidade” dificilmente parecerá óbvia a quem quer que seja.

Creio poder resumir da seguinte maneira o resultado dessas últimas considerações: Smith e Ricardo afirmaram axiomaticamente, sem nenhuma fundamentação, que o trabalho é princípio do valor dos bens. No entanto, não se trata de um axioma. Consequentemente, se quisermos manter este princípio, devemos ignorar Smith e Ricardo como autoridades, e procurar fundamentações independentes.

É muito singular que quase ninguém entre os seus sucessores tenha feito isso. Os mesmos homens que normalmente varavam as doutrinas tradicionais com sua crítica devastadora, os mesmos para quem não havia princípio antigo que parecesse suficientemente firme, a ponto de não precisar ser novamente questionado e examinado, esses mesmos homens renunciaram a qualquer crítica diante do princípio fundamental mais importante tomado da doutrina tradicional. De Ricardo a Rodbertus, de Sismondi a Lassalle, o nome Adam Smith é o único aval que se julga necessário para aquela doutrina. Como contribuição original só acrescentaram a essa doutrina repetidas afirmações de que o princípio é verdadeiro, irrefutável, indubitável. Não houve qualquer tentativa de realmente provar sua veracidade, de refutar possíveis objeções, de eliminar dúvidas. Os que desprezam provas baseadas em autoridades contentam-se, eles próprios, com a invocação de autoridades. Os que lutavam contra afirmações infundadas contentam-se, eles próprios, em afirmar, sem comprovação. Só muito poucos defensores da teoria do valor do trabalho constituem exceção a essa regra, e um desses poucos é Marx.

C. Exame e refutação da proposição básica de Marx 8. Marx escolheu um método de análise defeituoso Alguém que busque uma verdadeira fundamentação da tese em questão poderá encontrá-la através de dois caminhos naturais: o empírico e o psicológico. O primeiro caminho nos leva a simplesmente examinar as condições de troca entre mercadorias, procurando ver se nelas se espelha uma harmonia empírica entre valor de troca e gasto de trabalho. O outro – com uma mistura de indução e dedução muito usada em nossa ciência – nos leva a analisar os motivos psicológicos que norteiam as pessoas nas trocas e na determinação de preços, ou em sua participação na produção. Da natureza dessas condições de troca poderíamos tirar conclusões sobre o comportamento típico das pessoas. Assim, descobriríamos, também, uma relação entre preços regularmente pedidos e aceitos, de um lado, e a quantidade de trabalho necessária para produzir mercadorias de outro [p. 291]. Mas Marx não adotou nenhum desses dois métodos naturais de investigação. É muito interessante constatar, em seu terceiro volume, que ele próprio sabia muito bem que nem a comprovação dos fatos nem a análise dos impulsos psicológicos que agem na “concorrência” teriam bom resultado para a comprovação de sua tese.

Marx opta por um terceiro caminho de comprovação, aliás, um caminho bastante singular para esse tipo de assunto: a prova puramente lógica, uma dedução dialética tirada da essência da troca.

Marx já encontrara no velho Aristóteles que “a troca não pode existir sem igualdade, e a igualdade não pode existir sem a comensurabilidade” (I, p. 35). Marx adota esse pensamento. Imagina a troca de duas mercadorias na forma de uma equação, deduz que nas duas coisas trocadas, portanto igualadas, tem de existir “algo comum da mesma grandeza”, e conclui propondo-se a descobrir essa coisa em comum, à qual se devem poder “reduzir, como valores de troca, as coisas equiparadas.”

11 9. Fatos que antecedem uma troca devem evidenciar antes desigualdade do que igualdade Eu gostaria de intercalar aqui um comentário. Mesmo a primeira pressuposição – a de que na troca de duas coisas existe uma “igualdade” das duas, igualdade essa que se manifesta, o que, afinal, não significa grande coisa – me parece um pensamento muito pouco moderno e também muito irrealista, ou, para ser bem claro, muito precário. Onde reinam igualdade e equilíbrio perfeitos não costuma surgir qualquer mudança em relação ao estado anterior. Por isso, quando no caso da troca tudo termina com as mercadorias trocando de dono, é sinal de que esteve em jogo alguma desigualdade ou preponderância que forçou a alteração. Exatamente como as novas ligações químicas que surgem a partir da aproximação: entre elementos de corpos: muitas vezes o “parentesco” químico entre os elementos do corpo estranho aproximado não é forte, mas é mais forte do que o “parentesco” existente entre os elementos da composição anterior. De fato, a moderna Economia é unânime em dizer que a antiga visão escolástico-teológica da “equivalência” de valores que se trocam é incorreta [p. 292]. Mas não darei maior importância a esse assunto, e volto-me agora ao exame crítico daquelas operações lógicas e metódicas através das quais o trabalho termina por surgir como aquela coisa em “comum” à qual as coisas equiparadas se poderiam reduzir.

10. Método intelectual errôneo de Marx Para a sua busca desse algo em “comum” que caracteriza o valor de troca, Marx procede da seguinte maneira: coteja as várias características dos objetos equiparados na troca e, depois, pelo método de eliminação das diferenças, exclui todas as que não passam nessa prova, até restar, por fim, uma única característica, a de ser produto de trabalho. Conclui, então, que seja esta a característica comum procurada.

É um procedimento estranho, mas não condenável. É estranho que, em vez de testar a característica de modo positivo – o que teria levado a um dos dois métodos antes comentados, coisa que Marx evitava -, ele procure convencer-se, pelo processo negativo, de que a qualidade buscada é exatamente aquela, pois nenhuma outra é a que ele procura, e a que ele procura tem de existir. Esse método pode levar à meta desejada quando é empregado com a necessária cautela e integridade, ou seja, quando se tem, escrupulosamente, o cuidado necessário para que entre realmente, nessa peneira lógica, tudo o que nela deve entrar para que depois não se cometa engano em relação a qualquer elemento que porventura fique excluído da peneira.

Mas como procede Marx?

Desde o começo, ele só coloca na peneira aquelas coisas trocáveis que têm a característica que ele finalmente deseja extrair como sendo a “característica em comum”, deixando de fora todas as outras que não a têm. Faz isso como alguém que, desejando ardentemente tirar da urna uma bola branca, por precaução coloca na urna apenas bolas brancas. Ele limita o campo da sua busca da substância do valor de troca às “mercadorias”. Esse conceito, sem ser cuidadosamente definido, é tomado como mais limitado do que o de “bens” e se limita a produtos de trabalho, em oposição a bens naturais. Aí, então, fica óbvio que, se a troca realmente significa uma equiparação que pressupõe a existência de algo “comum da mesma grandeza”, esse “algo comum” deve ser procurado e encontrado em todas as espécies de bens trocáveis: não só nos produtos de trabalho, mas também nos dons da natureza, como terra, madeira no tronco, energia hidráulica, minas de carvão, pedreiras, jazidas de petróleo, águas minerais, minas de ouro etc.

12 Excluir, na busca do algo “comum” que há na base do valor de troca, aqueles bens trocáveis que não sejam bens de trabalho é, nessas circunstâncias, um pecado mortal metodológico [p. 293]. É como se um físico que quisesse pesquisar o motivo de todos os corpos terem uma característica comum, como o peso, por exemplo, selecionasse um só grupo de corpos, talvez o dos corpos transparentes, e, a seguir, cotejasse todas as características comuns aos corpos transparentes, terminando por demonstrar que nenhuma das características – a não ser a transparência – pode ser causa de peso, e proclamasse, por fim, que, portanto, a transparência tem de ser a causa do peso.

A exclusão dos dons da natureza (que certamente jamais teria ocorrido a Aristóteles, pai da idéia da equiparação na troca) não pode ser justificada, principalmente porque muitos dons naturais, como o solo, são dos mais importantes objetos de fortuna e comércio. Por outro lado, não se pode aceitar a afirmação de que, em relação aos dons naturais, os valores de troca são sempre casuais e arbitrários: não só existem preços eventuais para produtos de trabalho, como também, muitas vezes, os preços de bens naturais revelam relações nítidas com critérios ou motivos palpáveis. É conhecido que o preço de compra de terras constitui um múltiplo da sua renda segundo a porcentagem de juro vigente. É também certo que, se a madeira no tronco ou o carvão na mina obtêm um preço diferente, isso decorre da variação de localização ou de problemas de transporte e não do mero acaso.

Marx se exime de justificar expressamente o fato de haver excluído do exame anterior parte dos bens trocáveis. Como tantas vezes, também aqui sabe deslizar sobre partes espinhosas de seu raciocínio com uma escorregadia habilidade dialética: ele evita que seus leitores percebam que seu conceito de “mercadoria” é mais estreito do que o de “coisa trocável”. Para a futura limitação no exame das mercadorias, ele prepara com incrível habilidade um ponto de contato natural, através de uma frase comum, aparentemente inofensiva, posta no começo do seu livro: “A riqueza das sociedades em que reina a produção capitalista aparece como uma monstruosa coleção de mercadorias.” Essa afirmação é totalmente falsa se entendermos o termo “mercadoria” no sentido de produto de trabalho, que o próprio Marx lhe confere mais tarde. Pois os bens da natureza, incluindo a terra, são parte importante e em nada diferente da riqueza nacional. Mas o leitor desprevenido facilmente passa por essas inexatidões, porque não sabe que mais tarde Marx usará a expressão “mercadoria” num sentido muito mais restrito.

Aliás, esse sentido também não fica claro no que se segue a essa frase [p. 294]. Ao contrário, nos primeiros parágrafos do primeiro capitulo fala-se alternadamente de “coisa”, de “valor de uso”, de “bem” e de “mercadoria”, sem que seja traçada uma distinção nítida entre estes termos. “A utilidade de uma coisa”, escreve ele na p. 10, “faz dela um valor de uso”. “A mercadoria...é um valor de uso ou bem”. Na p. 11, lemos: “o valor de troca aparece... como relação quantitativa... na qual valores de uso de uma espécie se trocam por valorem de uso de outra.” Note-se que aqui se considera primordialmente no fenômeno do valor de troca também a equação valor de uso = bem. E com a frase “examinemos a coisa mais de perto”, naturalmente inadequada para anunciar o salto para outro terreno, mais estreito, de análise, Marx prossegue: “Uma só mercadoria, um ‘moio’ de trigo, troca-se nas mais diversas proporções por outros artigos.” E ainda: “tomemos mais duas mercadorias” etc. Aliás, nesse mesmo parágrafo ele volta até com a expressão “coisas”, e logo num trecho muito importante, em que diz que “algo comum da mesma grandeza existe em duas coisas diferentes” (que são equiparadas na troca).

11. A falácia de Marx consiste numa seleção tendenciosa de evidências No entanto, na p. 12, Marx prossegue na sua busca do “algo comum” já agora apenas para o “valor de troca das mercadorias”, sem chamar a atenção, com uma palavra que seja, para o fato de que isso estreitará o campo de pesquisa, direcionando-o para apenas uma parcela das coisas trocáveis.

13 Logo na página seguinte (p. 13), ele abandona de novo essa limitação, e a conclusão, a que há pouco havia chegado para o campo mais restrito das mercadorias, passa a ser aplicada ao círculo mais amplo dos valores de uso dos bens. “Um valor de uso ou bem, portanto, só tem um valor, na medida em que o trabalho humano abstrato se materializa ou se objetiva nele!”

Se, no trecho decisivo, Marx não tivesse limitado sua pesquisa aos produtos de trabalho, mas tivesse também procurado o “algo comum” entre os bens naturais trocáveis, ficaria patente que o trabalho não pode ser o elemento comum. Se Marx tivesse estabelecido essa limitação de maneira clara e expressa, tanto ele quanto seus leitores infalivelmente teriam tropeçado nesse grosseiro erro metodológico. Teriam sorrido desse ingênuo artifício, através do qual se “destila”, como característica comum, o fato de “ser produto de trabalho”, pesquisando num campo do qual antes foram indevidamente retiradas outras coisas trocáveis que, embora comuns, não são “produto do trabalho”. Só seria possível lançar mão deste artifício da maneira como o fez, ou seja, sub-repticiamente, com uma dialética ríspida, passando bem depressa pelo ponto espinhoso da questão. Expresso minha admiração sincera pela habilidade com que Marx apresentou de maneira aceitável um processo tão errado, o que, sem dúvida, não o exime de ter sido inteiramente falso [p. 295].

Continuemos. Através do artifício acima descrito, Marx conseguiu colocar o trabalho no jogo. Através da limitação artificial do campo de pesquisa, o trabalho se tomou a característica “comum”. No entanto, além dele, há outras características que deveriam ser levadas em conta, por serem comuns. Como afastar essas concorrentes?

Marx faz isso através de dois raciocínios, ambos muito breves, e ambos contendo um gravíssimo erro de lógica No primeiro, Marx exclui todas as “características geométricas, físicas, químicas ou quaisquer outras características naturais das mercadorias”. Isso porque “suas características físicas só serão levadas em conta na medida em que as tornam úteis, portanto as transformam em valores de uso. Mas por outro lado, a relação de troca das mercadorias aparentemente se caracteriza pela abstração de seus valores de uso”. Pois “dentro dela (da relação de troca) um valor de uso cabe tanto quanto outro qualquer, desde que exista aí em proporção adequada” (I, p. 12).

O que diria Marx do argumento que segue? Num palco de ópera, três cantores, todos excelentes, um tenor, um baixo e um barítono, recebem, cada um, um salário de 20.000 dólares por ano. Se alguém perguntar qual é a circunstância comum que resulta na equiparação de seus salários, respondo que, quando se trata de salário, uma boa voz vale tanto quanto outra: uma boa voz de tenor vale tanto quanto uma boa voz de baixo, ou de barítono, o que importa é que a proporção seja adequada. Assim, por poder ser, “aparentemente”, afastada da questão salarial, a boa voz não pode ser a causa comum do salário alto.

É claro que tal argumentação é falsa. É igualmente claro também que é incorreta a conclusão a que Marx chegou, e que foi por mim aqui transcrita. As duas sofrem do mesmo erro. Confundem a abstração [p. 296] de uma circunstância em geral com a abstração das modalidades específicas nas quais essa circunstância aparece. O que, em nosso exemplo, é indiferente, para a questão salarial, é apenas a modalidade especifica da boa voz, ou seja, se se trata de voz de tenor, baixo ou barítono. Mas não a boa voz em si. Da mesma forma, para a relação de troca das mercadorias, abstrai-se da modalidade específica sob a qual pode aparecer o valor de uso das mercadorias, quer sirvam para alimentação, quer sirvam para moradia ou para roupa. Mas não se pode abstrair do valor de uso em si. Marx deveria ter deduzido que não se pode fazer abstração desse último, pelo fato de que não existe valor de troca onde não há valor de uso. Fato que o próprio Marx é forçado a reconhecer repetidamente.

14 Mas coisa pior acontece com o passo seguinte dessa cadeia de argumentação. “Se abstrairmos do valor de uso das mercadorias”, diz Marx textualmente, “resta-lhes só mais uma característica, a de serem produtos de trabalho”. Será mesmo? Só mais uma característica? Acaso bens com valor de troca não têm, por exemplo, outra característica comum, qual seja, a de serem raros em relação à sua oferta? Ou de serem objetos de cobiça e de procura? Ou de serem ou propriedade privada ou produtos da natureza? E ninguém diz melhor nem mais claramente do que o próprio Marx que as mercadorias são produtos tanto da natureza quanto do trabalho: Marx afirma que “as mercadorias são combinação de dois elementos, matéria-prima e trabalho”, e cita Petty num trecho em que este diz que “o trabalho é o pai (da riqueza) e a terra é sua mãe”.

15 Por que, pergunto eu, o princípio do valor não poderia estar em qualquer uma dessas características comuns, tendo de estar só na de ser produto de trabalho? Acresce que, a favor dessa última hipótese, Marx não apresenta qualquer tipo de fundamentação positiva. A única razão que apresenta é negativa, pois diz que o valor de uso, abstraído, não é princípio de valor de troca. Mas essa argumentação negativa não se aplica, com igual força, a todas as outras características comuns, que Marx ignorou?

E há mais ainda! Na mesma p. 12, em que Marx abstraiu da influência do valor de uso no valor de troca, argumentando que um valor de uso é tão importante quanto qualquer outro, desde que exista em proporção adequada, ele nos diz o seguinte sobre o produto de trabalho: “Mas também o produto de trabalho já se transformou em nossas mãos. Se abstrairmos do seu valor de uso, abstrairemos também dos elementos materiais e das formas que o tornam valor de uso. Ele já não será mesa, casa ou fio, ou outra coisa útil. Todas as suas características sensoriais serão eliminadas. Ele não será produto de trabalho em marcenaria, construção ou tecelagem, ou outro trabalho produtivo. O caráter utilitário dos trabalhos corporificados nos produtos de trabalho desaparece se desaparecer o caráter utilitário destes produtos de trabalho, da mesma forma que desaparecem as diversas formas concretas desse trabalho: elas já não se distinguem; são reduzidas a trabalho humano igual, a trabalho humano abstrato.”

Será que se pode dizer, de modo mais claro e explícito, que, para a relação de troca, não apenas um valor de uso, mas uma espécie de trabalho, ou produto de trabalho, “vale tanto quanto qualquer outro, desde que exista na proporção adequada”? E que se pode aplicar ao trabalho exatamente o mesmo critério em relação ao qual Marx antes pronunciou seu veredito de exclusão contra o valor de uso? Trabalho e valor de uso têm, ambos, um aspecto quantitativo e outro qualitativo. Assim como o valor de uso é qualitativamente diverso em relação a mesa, casa ou fio, assim também são qualitativamente diferentes os trabalhos de marcenaria, de construção ou de tecelagem. Por outro lado, trabalhos de diferentes tipos podem ser diferenciados em função de sua quantidade, enquanto é possível comparar valores de uso de diferentes tipos segundo a magnitude do valor de uso. É absolutamente inconcebível que [p. 297] circunstâncias idênticas levem, ao mesmo tempo, à exclusão de alguns elementos e à aceitação de outros!

Se, por acaso, Marx tivesse alterado a seqüência de sua pesquisa, teria excluído o trabalho com o mesmo raciocínio com que exclui o valor de uso. Com o mesmo raciocínio com que premiou o trabalho, proclamaria, então, que o valor de uso, por ser a única característica que restou, é aquela característica comum tão procurada. A partir daí poderia explicar o valor como uma “cristalização do valor de uso”. Creio que se pode afirmar, não em tom de piada, mas a sério, que nos dois parágrafos da p. 12 onde se abstrai, no primeiro, a influência do valor de uso e se demonstra, no segundo, que o trabalho é o “algo comum” que se buscava, esses dois elementos poderiam ser trocados entre si sem alterar a correção lógica externa. E que, sem mudar a estrutura da sentença do primeiro parágrafo, se poderia substituir “valor de uso” por “trabalho e produtos de trabalho”, e na estrutura da segunda colocar, em lugar de “trabalho”, o “valor de uso”!

12. Idéia de Böhm-Bawerk de que Marx tinha “um intelecto de primeira categoria” Assim é a lógica e o método com que Marx introduz em seu sistema o princípio fundamental de que o trabalho é a única base do valor. Como já afirmei recentemente em outra parte, 16 julgo totalmente impossível que essa ginástica dialética fosse a fonte e a real justificativa da convicção de Marx. Um pensador da sua categoria – e considero-o um pensador de primeiríssima ordem – caso desejasse chegar a uma convicção própria, procurando com olhar imparcial a verdadeira relação das coisas, jamais teria partido por caminhos tão tortuosos e antinaturais. Seria impossível que ele tivesse, por mero e infeliz acaso, caído em todos os erros lógicos e metodológicos acima descritos, obtendo, como resultado não conhecido nem desejado, essa tese do trabalho como única fonte de valor.

Creio que a situação real foi outra. Não duvido de que Marx estivesse sinceramente convencido de sua tese. Mas os motivos de sua convicção não são aqueles que estão apresentados em seus sistemas. Ele acreditava na sua tese como um fanático acredita num dogma. Sem dúvida, foi dominado por ela por causa das mesmas impressões vagas, eventuais, não bem controladas pelo intelecto, que antes dele já tinham desencaminhado Adam Smith e Ricardo, e sob influência dessas mesmas autoridades. E ele, certamente, jamais alimentou a menor dúvida quanto à correção dessa tese. Seu princípio tinha, para ele próprio, a solidez de um axioma. No entanto, ele teria de prová-lo aos leitores, o que não conseguiria fazer nem empiricamente nem segundo a psicologia que embasa a vida econômica.

Voltou-se, então, para essa especulação lógico-dialética que estava de acordo com sua orientação intelectual. E trabalhou, e revolveu os pacientes concertos e premissas, com uma espécie de admirável destreza, até obter realmente o resultado que desejava e que já de antemão conhecia, na forma de uma conclusão externamente honesta.

Conforme vimos acima, Marx teve pleno sucesso nessa tentativa de fundamentar convincentemente sua tese, enveredando pelos caminhos da dialética. Mas será que teria obtido algum amparo se tivesse seguido [p. 298] aqueles caminhos específicos que evitou, ou seja, o empírico e o psicológico?

13. Outros métodos de abordagem que não os de Marx No segundo volume do presente trabalho – sua parte principal e positiva -, veremos que a análise dos motivos psicológicos que influenciam o valor de troca levaria a um resultado diferente. Isso foi admitido até por Marx no seu terceiro volume póstumo 17 . Resta, pois, a prova empírica a prova da experiência factual. O que esta nos revelaria?

14. Cinco exceções factuais negligenciadas por Marx A experiência mostra que o valor de troca está em relação com a quantidade de trabalho apenas em parte dos bens, e, mesmo nesses, isto só acontece incidentalmente. A relação factual, embora seja muito conhecida em decorrência da obviedade dos fatos em que se baseia, é raramente levada em conta. Todo mundo – inclusive os intelectuais socialistas – concorda que a experiência não confirma inteiramente o princípio do trabalho, Frequentemente encontramos a opinião de que os casos em que a realidade está de acordo com o princípio do trabalho formam a regra geral, e que os casos que contrariam esse princípio são uma exceção bastante insignificante. Essa idéia é muito errônea. Para corrigi-la de uma vez por todas, pretendo reunir as “exceções” que proliferam no início do trabalho, dentro da Economia. Verão que as “exceções” são tão numerosas, que pouco sobra para a “regra”.

1) Em primeiro lugar, todos os “bens raros” foram excluídos do princípio do trabalho. Esses são todos os bens que não podem nunca – ou só podem limitadamente – ser reproduzidos em massa, por algum impedimento objetivo ou legal. Ricardo menciona, por exemplo, estátuas e quadros, livros raros, moedas raras, vinhos excelentes, e comenta ainda que esses bens “são apenas uma parte muito pequena dos bens diariamente trocados no mercado”. Se pensarmos que nessa mesma categoria se situam, além da terra, todos os inúmeros bens cuja produção está relacionada à patente de invenção, direitos autorais ou segredo industrial, não se consideraria insignificante a extensão de tais bens.

18 2) Todos os bens que não se produzem por trabalho comum, mas qualificado, são considerados como exceção. Embora nos produtos diários de um escultor, de um marceneiro especializado, de um fabricante de violinos. [p. 299], ou de um consultor de máquina etc., não se corporifique mais trabalho do que no produto diário de um simples trabalhador manual, ou de -um operário de fábrica, os produtos dos primeiros frequentemente têm valor de troca mais elevado – às vezes muito mais elevado – que os dos segundos.

Os defensores da teoria do valor do trabalho naturalmente não puderam ignorar essa exceção. Porém, singularmente, fazem de conta que isso não é exceção, mas apenas uma pequena variante, que ainda se mantém dentro da regra. Marx, por exemplo, considera o trabalho qualificado apenas um múltiplo do trabalho comum. “O trabalho complexo”, diz ele, (p. 19), “vale só como trabalho comum potenciado, ou multiplicado. Assim, uma pequena quantidade de trabalho complexo equivale a uma quantidade maior de trabalho comum. A experiência nos mostra que essa redução acontece constantemente. Uma mercadoria pode ser produto de um trabalho complexo mas, se seu valor a iguala ao produto de trabalho comum, ela passa a representar apenas determinada quantidade de trabalho comum”.

Eis urna obra-prima de espantosa ingenuidade! Não há nenhuma dúvida de que em muitas coisas, por exemplo, no valor monetário, um dia de trabalho de um escultor pode valer cinco dias de trabalho de um cavador de valetas. Mas que 10 horas de trabalho do escultor sejam realmente 60 horas de trabalho comum, certamente ninguém pretende afirmar. Acontece que, para a teoria – assim como para se estabelecer o princípio do valor – não importa o que as pessoas pretendem, e sim o que é real. Para a teoria, o produto diário do escultor continua sendo produto de um dia de trabalho. Se, por acaso, um bem que seja produto de um dia de trabalho vale tanto quanto outro bem que seja produto de cinco dias de trabalho, não importa o que as pessoas queiram que ele valha. E ai está uma exceção à regra – que se quer impor – de que o valor de troca dos bens se mede pela quantidade de trabalho humano neles corporificado. Imaginemos uma ferrovia que determinasse suas tarifas segundo a extensão do trajeto exigido por passageiros e cargas, mas que determinasse, também, que, dentro de um trecho com operações particularmente dispendiosas, cada quilômetro fosse computado como dois quilômetros. Será possível a alguém dizer que a extensão do trajeto é o único princípio para a determinação das tarifas da ferrovia? Certamente não; finge-se que sim, mas, na verdade, o princípio é modificado levando em conta a natureza do trajeto. Assim também; apesar de todos os artifícios, não se pode salvar a unidade teórica do princípio do trabalho.

19 Essa segunda exceção abrange também significativa parcela dos bens comerciais, o que não deve ser necessário explicar mais detidamente. Se quisermos ser rigorosos, estão aí contidos praticamente todos os bens, uma vez que na produção individualizada de quase todos os bens entra em jogo ao menos um pouco de trabalho qualificado: o trabalho de um inventor, de um diretor, de um capataz etc. [p. 300]. Isso eleva o valor do produto a um nível um pouco acima daquele que corresponderia apenas a quantidade de trabalho.

3) A quantidade de exceções aumenta com o número bastante grande de bens produzidos por trabalho extraordinariamente mal pago É sabido que – por razões que aqui não se precisa mencionar – em certos ramos da produção o salário de trabalho está sempre abaixo do mínimo necessário para a sobrevivência, como, por exemplo, no caso do trabalho manual feminino, como bordados, costura, malharia etc. Os produtos dessas ocupações têm, então, um valor extraordinariamente baixo. Não é incomum que o produto de três dias de trabalho de uma simples costureira não valha nem mesmo o produto de dois dias de uma operária de fábrica.

Todas as exceções que mencionei até aqui eximem certos grupos de bens da validade da lei do valor do trabalho, reduzindo, pois, o campo de validade desta própria lei. Na verdade, deixam para a lei do valor do trabalho apenas aqueles bens para cuja reprodução não há qualquer limite, e que nada exigem para sua criação além de trabalho. Mas mesmo esse campo de aplicabilidade tão reduzido não é dominado de modo absoluto pela lei do valor do trabalho: também aí, algumas exceções afrouxam sua validade.

4) Uma quarta exceção do princípio do trabalho é formada pelo conhecido e admitido fenômeno de que também aqueles bens cujo valor de troca se harmonize com a quantidade de custos de trabalho não demonstram tal harmonia em todos os momentos. Ao contrário, pelas oscilações de oferta e procura, frequentemente o valor de troca sobe ou desce além ou aquém daquele nível que corresponderia ao trabalho corporificado naqueles bens, trabalho esse que só determinaria um ponto de gravitação, não uma fixação do valor de troca. Parece-me que os defensores socialistas do princípio do trabalho também se ajeitam depressa com essa exceção. Constatam-na, sim, mas a tratam como uma pequena irregularidade passageira, que em nada prejudica a grande “lei” do valor de troca. Mas não se pode negar que tais irregularidades não são mais que exemplos de valores de troca regulados por outros motivos que não a quantidade de trabalho. Esse fato deveria provocar pelo menos uma investigação, no sentido de examinar a possibilidade de existir um princípio mais geral do valor de troca, que explicaria não só os valores de troca “regulares”, mas também aqueles que – do ponto de vista da teoria do trabalho – são tidos como irregulares. Nenhuma investigação desse tipo será encontrada entre os teóricos dessa linha.

5) Por fim vemos que, além dessas oscilações momentâneas, o valor de troca dos bens se desvia da quantidade de trabalho que eles corporificam, de maneira considerável e constante [p. 301]. De dois bens cuja produção exige exatamente a mesma quantidade média de trabalho, aquele que exigiu maior quantidade de trabalho “prévio” vale mais. Como sabemos, Ricardo comentou extensamente essa exceção do princípio de trabalho, em duas seções do Capitulo I de suas Grundsätze . Rodbertus e Marx a ignoram na formulação de suas teorias, 20 sem a negarem expressamente, o que não poderiam fazer: É conhecido demais, para admitir dúvidas, o fato de que o valor de um tronco de carvalho centenário é mais elevado do que o correspondente ao meio-minuto que sua semeadura requer.

Vamos resumir: parcela considerável dos bens não faz parte daquela presumida “lei” segundo a qual o valor dos bens é determinado pela quantidade de trabalho neles corporificada, e o restante dos bens nem obedece sempre, nem com exatidão. Esse é o material empírico que serve de base para os cálculos do teórico do valor.

Que conclusão um investigador imparcial pode tirar? Certamente não será a de que a origem e medida de todo valor se fundamenta exclusivamente no trabalho. Uma conclusão dessas não seria em nada melhor do que aquela a que se poderia chegar, pelo método experimental – a partir da constatação de que a eletricidade vem não só do atrito mas também de outras fontes -: toda eletricidade provém de atrito.

Em contrapartida, pode-se concluir que o dispêndio de trabalho exerce ampla influência sobre o valor de troca de muitos bens. Mas não como causa definitiva, comum a todos os fenômenos de valor, e sim como causa eventual, particular. Não haverá a necessidade de procurar uma fundamentação interna para essa influência do trabalho sobre o valor, pois ela não seria encontrada. Pode também ser interessante – além de importante – observar melhor a influência do trabalho sobre o valor dos bens, e expressar esses resultados na forma de leis. Mas não se pode esquecer que estas não serão mais que leis particulares, que em nada atingem a essência do valor.

21 Para usar de uma comparação: leis que formulam a influência do trabalho no valor dos bens estão para a lei geral do valor mais ou menos como a lei “Vento oeste traz chuva” está para uma teoria geral da chuva. Vento oeste é uma causa eventual de chuva, como o emprego de trabalho é causa eventual do valor dos bens. Mas a essência da chuva se fundamenta tão pouco no vento oeste quanto o valor se fundamenta no emprego de trabalho.

15. Marx agravou o erro de Ricardo O próprio Ricardo ultrapassou pouco as fronteiras legítimas. Como demonstrei acima [p. 302], ele sabe muito bem que sua lei do valor do trabalho é somente uma lei particular de valor, e que o valor dos “bens raros”, por exemplo, tem outros fundamentos. Mas Ricardo engana-se na medida em que valoriza demais o campo de abrangência dessa lei, atribuindo-lhe uma validade praticamente universal. A este engano pode-se relacionar o fato de que, em fases posteriores, ele praticamente não dá mais atenção as exceções, pouco valorizadas, que no começo de sua obra mencionara com bastante acerto. E muitas vezes – injustamente – fala de sua lei como se ela fosse realmente uma lei universal de valor.

Foram os seus sucessores – que ampliaram o campo de abrangência dessa lei – que caíram no erro quase inconcebível de apresentar o trabalho, com pleno e consciente rigor, como princípio universal de valor. Digo “erro quase inconcebível”, pois, com efeito, é difícil acreditar que homens de formação teórica pudessem firmar, depois de reflexão madura, uma doutrina que não podiam apoiar em coisa alguma: nem na natureza da coisa, uma vez que nesta natureza não se revela absolutamente nenhuma relação necessária entre valor e trabalho; nem na experiência, pois esta, ao contrário, mostra que o valor geralmente não se coaduna com o dispêndio de trabalho; nem mesmo, por fim, nas autoridades, pois as autoridades invocadas jamais afirmaram o princípio com aquela pretendida universalidade que agora lhe era conferida.

Mas os seguidores socialistas da teoria da exploração, quando apresentam um princípio tão precário, não o colocam numa posição secundária, em algum ângulo inofensivo de sua doutrina teórica. Colocam-no no topo de suas afirmações práticas mais importantes. Sustentam que o valor de todas as mercadorias repousa no tempo de trabalho nelas corporificado. Em outro momento, atacam todos os valores que não se coadunam com essa “lei” (por exemplo, diferenças de valor que recaem como mais-valia para os capitalistas), dizendo-os “ilegais”, “antinaturais” e “injustos”, e condenando-os a anulação. Portanto, primeiro ignoram a exceção e proclamam a lei do valor como sendo universal. Em seguida, após terem obtido, sub-repticiamente, a universalidade dessa lei, voltam a prestar atenção às exceções, rotulando-as de infração dessa lei. Com efeito, tal argumentação não é muito melhor do que a de alguém que constate que existe gente louca, – ignorando que também há gente sensata – e que, a partir desta constatação, chegue a uma “lei de valor universal” segundo a qual “todas as pessoas são loucas”, exigindo que se exterminem todos os sábios, considerados “fora da lei”.

16. Dois volumes póstumos contraditórios no sistema marxista (por Engels: Vol. II, em 1885, e Vol. III, em 1894) Na primeira edição da presente obra, há muitos anos, dei meu veredito sobre a lei do valor do trabalho em si, e particularmente sobre a fundamentação, que Marx lhe deu. Depois disso apareceu o terceiro volume, póstumo, de O Capital de Marx. Sua publicação era esperada com certa tensão nos meios teóricos de todas as orientações [p. 303]. Esperava-se, com curiosidade, o modo como Marx se livraria de certa dificuldade que o confundira no primeiro volume, e que, além de continuar sem resolução, não era mais mencionada.

Já comentei, quanto a Rodbertus, que a pressuposição imanente à lei do trabalho, de que os bens se trocam segundo o trabalho a eles ligado, é absolutamente conflitante com outra pressuposição do mesmo Rodbertus, claramente apresentada como fato empírico: a de que existe um nivelamento dos ganhos de capital.

22 Naturalmente, também Marx sentiu essa dificuldade, que, para ele, se mostrava ainda mais drástica, uma vez que, na sua doutrina, a parte que contém o ponto crucial está formulada com ênfase particular, o que, por assim dizer, desafia tal dificuldade.

Marx distingue, no capital que serve aos capitalistas para obterem a mais-valia, duas partes: aquela que serve para pagar os salários do trabalho, ou seja, o “capital variável”, e aquela que é empregada em meios de produção como a matéria-prima os instrumentos e máquinas, e assim por diante, que é o “capital constante”. Como só o trabalho vivo pode produzir a nova noção de mais-valia, também só a parte de capital transformada em forma de trabalho pode modificar, aumentar seu valor no processo de produção, motivo pelo qual Marx chama esta parte de “capital variável”. Só este reproduz seu próprio valor, e, além disso, um superávit chamado de mais-valia. O valor dos meios de produção consumidos é mantido igual: reaparece no valor do produto de outra forma, mas com o mesmo tamanho; por isso, é chamado de “capital constante” e não pode “produzir mais-valia”. Como consequêcia necessária – que Marx destaca enfaticamente -, a massa de mais-valia que pode ser produzida com um capital não se liga diretamente ao montante do capital total, mas apenas à parte variável dele.

23 Disso resulta também que capitais de igual montante têm de produzir uma quantidade desigual de mais-valia, quando sua composição em parcelas constantes e variáveis – chamada por Marx de “composição orgânica” – é diferente. Designemos, como faz Marx, a relação entre a mais-valia e a parte de capital variável, que paga os salários, de “porcentagem de mais-valia”; e designemos a relação entre a mais-valia e o capital total aplicado pelo empresário – na base do qual, na prática, se costuma calcular a mais-valia – de “porcentagem de lucro”. Marx diria, então, que, se o grau de exploração é igual ou se a porcentagem de mais-valia é a mesma, nesse caso, capitais de composição orgânica diferente necessariamente vão redundar em porcentagens de lucro diferentes. Capitais em que a composição apresenta parcela variável maior levarão a uma porcentagem de lucro maior do que a resultante daqueles capitais em cuja composição a parcela constante é mais elevada. Mas a experiência revela que, por causa da lei do nivelamento de ganhos, os capitais sempre redundam logo em altas porcentagens de lucro, independentemente de sua composição. Há, portanto, um conflito evidente entre o que é e o que deveria ser segundo a doutrina marxista.

O próprio Marx não ignorava esse conflito. Já o comentara laconicamente em seu primeiro volume, como se fosse apenas “aparente”, deixando sua solução para momentos posteriores de seu sistema .

24 A longa e tensa espera para ver como Marx se esquivaria desse dilema fatal terminou, enfim, com a publicação do terceiro volume, que, apesar de conter um detalhado comentário do problema, não apresenta, para o mesmo, qualquer solução. Ao invés disso, como era de se esperar, confirma a contradição insolúvel, e glosa, de forma velada, sub-reptícia e suavizada, a doutrina do primeiro volume.

Marx desenvolve agora a seguinte doutrina: reconhece expressamente que, na realidade, por causa da concorrência, as porcentagens de lucro dos capitais – não importa qual sua composição orgânica – são igualadas numa porcentagem media de lucro, e isso tem de ser assim.

25 Ele ainda reconhece expressamente que uma porcentagem igual de lucros para capitais cujas composições orgânicas são diferentes só é possível quando mercadorias isoladas não se trocam entre si segundo o seu valor determinado por trabalho, mas a partir de uma relação que se desvia desse valor. E a troca é feita de maneira tal que as mercadorias com proporção mais elevada de capital constante (capitais de “composição mais elevada”) se trocam acima do seu valor [p. 304]. Em contrapartida, as mercadorias em cuja criação participa capital com proporção mais baixa de capital constante e mais alta de capital variável (capitais de “composição mais baixa”) se trocam abaixo do seu valor.

26 E Marx, por fim, reconhece expressamente que na vida prática o estabelecimento de preceitos realmente acontece assim. Ele denomina esse preço de uma mercadoria – preço que contém, além da recompensa pelos salários pagos e pelos meios de produção gastos (seu “preço de custo”), o lucro médio pelo capital empregado na produção – de “preço de produção” (III, p. 136). Este “corresponde, na verdade, ao mesmo que A. Smith chama de ‘natural price’, Ricardo, de ‘price of production’, e os fisiocratas, de ‘prix nécessaire’: a longo prazo ele é a condição do abastecimento, da reprodução da mercadoria em qualquer esfera especial de produção” (III, p. 178). Na vida real, pois, as mercadorias não se trocam mais segundo seus valores, mas segundo seus preços de produção, ou – como Marx prefere dizer eufemisticamente (p. ex., III, p. 176) – “os valores se transformam em preços de produção”.

É impossível, não reconhecer que essas afirmações e concessões do terceiro volume contradizem fortemente as doutrinas básicas do primeiro [p. 305]. No primeiro volume, apresentou-se aos leitores uma situação lógica e necessária, nascida da natureza da troca. Duas mercadorias igualadas entre si na troca devem conter algo em comum da mesma grandeza, e esse algo em comum de igual grandeza é o trabalho. No terceiro volume, lemos que as mercadorias igualadas na troca contém de fato, e regularmente, quantidades desiguais de trabalho, e isso tem de ser necessariamente assim. No primeiro volume (1, p.142) havia sido dito que “mercadorias podem ser vendidas à preços que se desviam dos seus valores, mas esse desvio aparece como infração da lei de troca de mercadorias”. Agora se diz que a lei de troca de mercadorias prevê que as mercadorias sejam vendidas por seus preços de produção, que se desviam fundamentalmente dos seus valores! Creio que jamais o início de um sistema tenha sido punido por sua mentira final de maneira tão severa e cabal!

Naturalmente, Marx não admite que haja nisso qualquer contradição. Também em seu terceiro volume ele proclama que a lei de valor do primeiro volume demonstra as verdadeiras condições da troca de bens, e não poupa esforços nem fugas dialéticas para demonstrar que essas condições ainda existem. Já comentei amplamente todos esses subterfúgios, demonstrando sua invalidade.

27 Vou agora levar em conta, expressamente, apenas um deles, em parte por ser, à primeira vista, extremamente sedutor, em parte por ser defendido não só por Marx, ainda antes do terceiro volume, mas também por alguns dos mais brilhantes teóricos socialistas da atual geração. Em 1889, Konrad Schmidt tentou desenvolver, de forma independente mas ainda na linha de Marx, a parte incipiente da doutrina marxista.

28 Sua teorização também desembocou no fato de que mercadorias isoladas não se trocam – como preconizava a lei de valor de Marx – segundo o trabalho nelas corporificado. Naturalmente, o autor se defrontou com a indagação: em que medida ainda se pode defender como válida a lei de valor de Marx, se é que se pode fazê-lo? Schmidt procurou, então, salvar essa validade com os mesmos argumentos dialéticos do terceiro volume de Marx.

Esses argumentos dizem que as mercadorias isoladas, de fato, são trocadas por valores abaixo ou acima do seu valor, mas que esses desvios se compensam e se anulam mutuamente. Assim, calculadas em conjunto, as mercadorias têm um preço que se iguala novamente a soma dos seus valores. Seria, pois, possível afirmar que, quando se considera o conjunto de todos os ramos de produção, a lei do valor é uma “tendência dominante”.

29 Mas é muito fácil demonstrar a trama dialética dessa pseudo-argumentação [p. 306], como já expliquei em outra oportunidade.

30 Afinal, qual é a tarefa da lei do valor? Nenhuma, senão explicar a relação de troca de bens que se observa. Queremos saber por que na troca, por exemplo, um casaco equivale a dez metros de linho, por que cinco quilos de chá equivalem a meia tonelada de ferro, e assim por diante. Foi a partir daí que o próprio Marx concebeu a lei do valor. Evidentemente, só se pode falar em relação de troca entre mercadorias diferentes entre si. No entanto, no momento em que colocamos todas as mercadorias juntas e somamos seus preços, estamos necessária e deliberadamente fazendo abstração da relação que há no interior desse conjunto. As diferenças relativas de preços existentes no interior desse conjunto compensam-se na soma total: o quanto o chá, por exemplo, vale mais que o ferro, corresponde ao quanto o ferro, por sua vez, vale menos que o chá, ou vice- versa. De qualquer modo, tal explicação não responde à nossa indagação sobre a relação da troca de bens na economia, pois só é válida para o preço total de todas as mercadorias juntas. Seria o mesmo que, a uma pergunta que fizéssemos sobre quantos segundos ou minutos o vencedor de uma prova teria levado a menos do que seus concorrentes para percorrer a pista, nos respondessem que todos os concorrentes juntos haviam levado 25 minutos e 13 segundos!

O problema é que os marxistas respondem à questão do valor com a sua lei do valor. Dizem que as mercadorias se trocam segundo o tempo de trabalho nelas corporificado. Depois, disfarçada ou abertamente, negam essa resposta quando se trata de troca de mercadorias isoladas – justamente neste terreno em que a pergunta mais caberia. Assim, sua lei do valor tem validade apenas para o produto nacional total, ou seja, num campo em que essa questão não faz sentido nem tem resposta. Assim, a “lei do valor” é desmentida pelos fatos. A única situação em que não é desmentida não traz uma boa resposta para a nossa pergunta, pois serviria de resposta a qualquer outra indagação.

Na verdade, essa resposta nem mesmo pode ser considerada como tal, uma vez que não passa de mera tautologia. Como qualquer economista sabe, mesmo nas formas mais veladas de transação monetária, mercadorias se trocam por mercadorias. Toda mercadoria que é objeto de troca, ao mesmo tempo é mercadoria, é também o preço que a ela corresponde. A soma das mercadorias é idêntica à soma dos preços obtidos por elas. Em outras palavras, o preço do produto nacional total nada mais é que o próprio produto nacional. Sob este ponto de vista é totalmente correto que a soma dos preços que se paga por todo o produto nacional combine inteiramente com o valor ou quantidade de trabalho cristalizada nele [p. 307]. Mas essa tautologia não significa progresso em direção a um verdadeiro conhecimento, nem pode servir como prova de que é correta a suposta lei de que os bens se trocam segundo o trabalho neles corporificado. Se fosse assim, essa seria uma maneira de se verificar qualquer outra “lei”, como, por exemplo, a “lei” de que os bens se trocam segundo medida do seu peso específico! Pois embora meio quilo de ouro como “mercadoria isolada” não se troque por meio quilo de ferro, mas por 20.000 quilos de ferro, a soma de preço que se paga, no total, por meio quilo de ouro e 20.000 quilos de ferro, não é nem mais nem menos do que 20.000 quilos de ferro e meio quilo de ouro. Portanto, o peso total da soma dos preços – vinte mil quilos e meio – é exatamente igual ao peso total corporificado no total das mercadorias, isto é, vinte mil quilos e meio. Conseqüentemente, seria possível considerar o peso como verdadeira medida segundo a qual se regula a relação de troca dos bens?!

NOTAS 1 Zur Kritik der politischen ökono mie. Berlim. 1859. Das Kapital. Kritik, de politischen Ökonomie, 3 vol., 1867: 1894. Cp. sobre Marx o artigo “Marx”, de Engels, no Handwarterbuch des Staatswissenschaften, (além de lista completa de escritos de Marx, na 3. edição no Handwörterbuch, completado por K. Diehl); cp. Também Knies, Das Geld, 2. ed.. 1885, (p.153 ss); A. Wagner em sua Grundlegung der politischen Ökonomie, 3. ed. passim, especialmente II (p. 285 ss); Lexis nos Jahrbiicher de Conrad, 1885, nova série, XI (p. 452 ss), Gross, K. Marx,Líipsia, 1885; Adler, Grundlagen der Marxschen Kritik der bestehenden Volkswirtschaft, Tübingen, 1887; Komorozynskil Der dritte Band von Karl Marx: Das Kapital, in Zeitschrift fair Volkswirtschaft, Sozialpolitik und Verwaltung, Vol. VI (p. 242 ss); Wenckstern, Marx, Leipzig, 1896; Sombart, “Zur Kritik des öbkonomischen Systems von Karl Marx”, Archiv für sozialistische Gesetzgebuns und Statistik (Vol. VII, Cad. 4, p. 555 ss); meu texto “Zum Abschluss des Marxschen Systems” in Festgabenfen für Karl Knies, Berlim, 1896 (publicado em livro em russo, em Petersburgo, 1897 e em inglês. em Londres, 1898); Diehl, “Über das Verhältnis von Wert und Preis im ökonomischen System vom Karl Marx”, reprodução de Festschriftzur Feier des 25 jäihringen Bestehens des staatwissenschaftlichen Seminars zu Halle a.S., Jena, 1898; Masaryk, Die Philosophischen und soziologischen Grundlagen des Marxismus, Vie- na, 1899; Tugan-Baranowski, Theoretische Grundlagen des Marxismus, Lípsia, 1905; v. Bortkiewicz, “Wertrechnung und Preisrechnung im Marxschen System” in Archiv for Sozialwissenschaft un Sozialpolitik, Vol. 23 e 25; e muitos outros textos da imensa e ainda crescents literatura sobte Marx.

2 Lifschitz, Zur Kritik der BöhmBawerkschen Werttheorie, Lípsia, 1908 (p. 16). O autor pretende ter-me apanhado numa contradição citando essa observação e a “séria defesa” de Rodbertus, num trecho anterior de meu livro (acima, p. 257 ss). Parece-me que ou leu muito superficialmente, ou pensou tão superficialmente, que troca entre si duas teses diferentes. Na verdade Rodbertus defendeu a tese de que todos os bens economicamente custam apenas trabalho, enquanto eu falo aqui de uma tese bem diferente, de que o valor dos bens se determine unicamente pela quantidade de trabalho. Lifschitz poderia ter dado alguma atenção à diferença bastante grande entre as duas teses, nem que fosse somente pela postura totalmente diversa que assumi acima na p. 262 ss, e 271 ss em relação a elas!

3 Cito o Vol. I de, O capital de Marx sempre a partir da (segunda) edção de 1872, o Vol.II segundo a ed. de 1885, o Vol. III segundo a de 1894. Salvo menção explícita, os comentários sobre o Vol. III referem-se à sua primeira parte.

4 I, p. 15, 17, 49 e 87 e outras. Cf. também Adler, Grundlagen der Karl Marxschen Kritik der bestehenden Volkswirtschaft, Tübingen, 1887 (p. 210 e 213).

* “Aqui é Rodes, então salte aqui!” ( N . da T .)

5 Escrito em 1884; veja também acima Nota 19, Cap. I.

6 Por exemplo, quando no Cap. 5 do Livro II ele se expressa da seguinte maneira: “Não só os criados e criadas do arrendador, mas também seus animais de carga são trabalhadores produtivos”, e adiante: “Na agricultura a natureza trabalha com os homens, e, embora seu trabalho nada custe, seus produtos têm tanto valor quanto o produto dos trabalhadores mais bem pagos.” Cp. Knies, Der Kredit, Parte II (p. 62).

7 Cf. sobre isso Verrijn Stuart em seu belo estudo “Ricardo e Marx”, e meu comentário sobre isso nos Jahrbüchern de Conrad, III, Vol. I, 1891, (p. 877 ss.).

8 Ver p. 48 ss e Knies, op, cit, (p. 66 ss.).

9 Inquiry Vol. 1, Cap. V (p. 13 da ed. de MacCullogh); Ricardo, Principles, Cap. 1.

10 Smith diz o seguinte sobre o fenômeno mencionado no texto: “Quando um tipo de trabalho exige um grau extraordinário de habilidade e inteligência, confere-se a suas realizações – em decorrência do respeito que tais talentos inspiram – um valor maior do que o que corresponderia ao simples cálculo do tempo neles despendido. Tais talentos raramente se conseguem senão após longo tempo de dedicação e habitualmente o valor mais alto de seus resultados é apenas um substituto barato para o tempo e esforço gastos na sua obtenção.” (Livro 1, Cap. VI). É evidente que essa explicação não satisfaz. Primeiramente, é claro que o valor mais elevado dos produtos de pessoas extraordinariamente hábeis repousa em motivo bem diverso do “respeito que tais talentos inspiram”.

Quantos escritores e intelectuais passaram fome apesar de todo o respeito público por seus talentos! E quantos vigaristas inescrupulosos foram premiados com fortunas imensas, embora seus “talentos” não fossem respeitados! Mas, caso supuséssemos que respeito fosse medida de valor, não estaríamos confirmando, e sim violando, a lei de que valor se baseia em esforço. Quando Smith, ao atribuir aquele valor mais alto ao esforço despendido para obter uma habilidade, usa a palavra’ “habitualmente”, ele próprio admite que isso não acontece em todos os casos. Portanto, continua a contradição.

11 I, p. 1 1; ver p. 69 ss.

12 Knies objeta com muito acerto contra Marx: “Na exposição de Marx não há nenhum motivo peIo qual a equação 1 “moio” de trigo = x quintais de madeira produzida na floresta não permita uma segunda equação, também válida, que diga: 1 “moio” de trigo = a quintais de madeira virgem = b acres de terra virgem = c acres de terra cultivada com prados naturais.” (Das Geld, Ia ed. p. 121;1 2a ed p. 157).

13 Numa citação de Barbon se obscurece na mesma passagem mais uma vez a diferença entre mercadorias e coisas: “Uma espécie de mercadoria é tão boa quanto outra quando seu valor de troca é igual. Não há diferença ou diferenciação entre coisas com o mesmo valor de troca!”

14 Por exemplo, na p. 15, final: “Por fim nenhuma coisa pode ter valor sem ser objeto de uso. Se for inútil, o trabalho nela contido será inútil, não valerá como trabalho (sic!), e por isso não constituirá valor.” Já Knies chamara atenção para o erro lógico do texto. Veja-se Das Geld, Berlim, 1873, p. 123 ss. (2a ed. p. 160 ss). Estranhamente, Adler (Grundlagen der Karl Marxschen Kritik, Tübingen, 1887, p. 211 ss) entendeu mal meu argumento, quando me censura dizendo que “boas vozes” não são mercadorias no sentido marxista. Para mim não se tratava de considerar “boas vozes” como bens econômicos Segundo a lei marxista de valor, mas, muito antes de dar o exemplo de um silogismo que revela o mesmo erro de Marx. Eu teria podido escolher muito bem outro exemplo, que não tivesse nenhuma relação com o terreno econômico. Por exemplo, poderia ter demonstrado que, segundo a lógica marxista, o “algo comum” está em haver colorido em sabe Deus o quê, mas não em haver uma mistura de várias cores. Pois uma mistura de cores – por exemplo, branco, azul, amarelo, preto, violeta – vale para a qualificação “colorido” o mesmo que a mistura de verde, vermelho, laranja, azul, etc., desde que as cores apareçam em proporção adequada”. Portanto, vamo-nos abstrair, no momento, das cores e das misturas de cor!

15 Das Kapital (p. 17 ss.).

16 Zum Abschluss des Marxschen Systems (p.77ss.).

17 Ver mais adiante.

18 Cp. Knies, Kredit (Parte II p. 61).

19 Fui mais minucioso ao tratar dessa questão no meu texto tão citado Zum Abschluss des Marxschen Systems (p. 80 ss.)

20 Marx só lhe dá atenção expressa no terceiro volume, póstumo, como era de se esperar, e, como resultado, entra em contradição com as leis do primeiro volume, que tinha construído sem levar em conta a exceção.

21 Parece-me que também Natoli. Principio del volore, vai longe demais. Apesar de reconhecer enfaticamente que o trabalho não exerce sobre o valor dos bens uma influência original nem universal, que o valor tem de se apoiar sempre no “qrado di utilità”, e de saber que na teoria do valor do trabalho de Ricardo se confundem causa e efeito (op. cit. 191), mesmo assim, alega que sempre é possível estabelecer a “equação de utilidade”, entre valor e trabalho, como lei fundamental do valor, e até mesmo como a “lei básica de toda a economia” (op. cit., p. 191, 244, 277 e 391).

22 Ver p. 277.

23 “Numa determinada porcentagem de mais-valia, e num determinado valor da força de trabalho, as quantidades de mais-valia produzidas são diretamente proporcionais às grandezas dos capitais variáveis adiantados.” “As quantidades de valor e mais-valia produzidas por capitais diferentes são – para -um dado valor e para graus de exploração de igual grandeza – diretamente proporcionais as grandezas dos elementos variáveis desses capitais, isto é, de seus componentes convertidos em trabalho vivo.” (Marx, 1, p. 311 ss).

24 I, p. 312 e 542.

25 “Por outro lado, não há dúvida de que, na verdade, excetuando diferenças insignificantes, casuais, que se anulam entre si, a diferença das porcentagens médias de lucro não existe para os diversos ramos da indústria, nem poderia existir, sem anular todo o sistema de produção capitalista.” (III, p. 132). “Em função da diferente composição orgânica dos capitais aplicados em diferentes ramos de produção... as porcentagens de lucro que imperam em diversos ramos de produção são originalmente muito diferentes. Essas porcentagens diferentes de lucro são compensadas pela concorrência, tomando-se uma porcentagem de lucro geral, que é a media de todas essas porcentagens de lucros diferentes.” (III, p. 136).

26 Marx desenvolve essa doutrina num exemplo esquemático que abrange cinco tipos de mercadorias e ramos de produção com capital de diversas composições orgânicas, e comenta os resultados da tabela em questão com as seguintes palavras: “As mercadorias juntas são vendidas 2+7+17=26 acima, e 8 + 18 = 26 abaixo do valor, de modo que os desvios de preço se compensam mutuamente pela distribuição igual da mais-valia, ou pela adição do lucro médio de 22% aos preços de custo das mercadorias I – V. Na mesma relação, na qual uma parte das mercadorias é vendida acima de seu valor, outra é vendida abaixo. E só sua venda a tais preços possibilita que a porcentagem de lucro para as mercadorias catalogadas de I –V seja igual – 22% -, sem consideração para com a composição orgânica diferente dos capitais de I – V.” O mesmo pensamento é manifestado nas páginas seguintes, 134- 144.

27 Zum Abschluss des Marxschen Systems (pp. 25 – 62). Hilferding, com sua crítica apologética publicada no Vol. I dos Marx-Studien (1904), não me levou a mudar de opinião.

Desejo afirmar expressamente, com relação a certas observações de Heimann (Methodologisches zu den Probiemen des Werts, Separata do Archiv für Sozialwissenschaft Vol. 37, p. 19), que minhas tabelas apresentadas em op. cit. p. 53 são totalmente corretas e objetivas, ao passo que a “Correção” que Hilferding lhes fez é tão arbitrária quanto desviada do tema.

28 Die Durschschnittsprofitrate auf Grund des Marxschen Wertgesetzes, Stuttgart, 1889.

29 (“Na mesma proporção em que parte das mercadorias se troca acima do seu valor, outra parte se troca abaixo dele”) (III, p. 135).

“No preço total das mercadorias I – V” (na tabela que Marx usa como exemplo), “estaria, pois, o seu valor total [ ... ] E desta maneira, na própria sociedade[ ... ] se considera que a totalidade de todos os ramos de produção [ ... ], que a soma dos pregos de produção das mercadorias produzidas, seja igual à soma de seus valores” (III, p. 138). As divergências nos preços de produção em relação aos valores sempre se resolvem, pois “o que recai em excesso, como mais-valia, sobre uma mercadoria, em outra, recai a menos. Por isso, também os desvios de valor que aparecem nos preços de produção das mercadorias se equilibram mutuamente” (III, p. 140). Algo semelhante afirma K. Schmidt (op. cit. p. 51): “A divergência necessária entre o preço real e o valor das mercadorias isoladas desaparece ... assim que se considera a soma de todas as mercadorias, o produto nacional anual.”

A Teoria Da Exploracao Do Socialismo Comunismo Observacoes Do Editor Sobre Esta Edicao

Tradução: LYA LUFT | A idéia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômic

Este livro é o Capítulo XII de Geschichte und Kritik der Kapitalzins- Theorien (História e crítica das teorias de juro), primeiro dos três volumes da famosa obra de Böhm-Bawerk intitulada Kapital und Kapitalzins (Capital e juro).

Sua tradução para o português se baseia no original alemão Kapital und Kapitalzins, de 1921, e na edição americana The Exploitation Theory of Socialism-Comunism, de 1975, inclusive no que diz respeito à nova divisão de capítulos e seus subtítulos.

Foram mantidas, como na edição americana, as referências às páginas originais de Böhm-Bawerk. Encontram-se entre colchetes, ao longo do texto. As notas ao texto coincidem com esta paginação original.

Indicações biobibliográficas sobre o autor Eugen Von Böhm-Bawerk nasceu na cidade de Brünn, Áustria, no dia 12 de fevereiro de 1851. Foi um dos estadistas e economistas mais destacados da Áustria. Sua prolongada fama se deve, em grande porte, à defesa das ciências econômicas e a firme resistência tanto ao crescente fluxo intervencionista quanto ao socialismo. Foi um dos primeiros estudiosos a vislumbrar a iminente destruição do nossa sociedade pela adoção de práticas marxistas e outras formas de socialismo. Estudou Direito no Universidade de Viena e Ciências Políticas em Heidelberg, Leipzig e Jena. Em 1881 foi designado professor de Economia no Universidade de Innsbruck, onde desenvolveu e defendeu os princípios econômicos delineados por Carl Menger e os economistas clássicos.

Sua reputação como estadista está associado ao melhor período da história financeira da Áustria. Em 1889 ingressou no Departamento de Finanças do governo, onde sua habilidade como economista foi extremamente valiosa para um projeto de reforma monetária que se desenvolvia no momento. Foi vice- presidente do comissão que conduziu à adoção do padrão ouro, que tinha como unidade a Krone (coroa, moeda austríaca).

Foi ministro dos Finanças em 1895, voltando a ocupar esse cargo em 1897 e, novamente, entre 1900 e 1904. Os períodos em que exerceu essa função foram caracterizados por uma administração capaz de prever conseqüências, a longo prazo, assim como de manter orçamentos balanceados, estabilidade monetária e uma bem-sucedida conversão da dívida pública. Böhm-Bawerk obteve êxito no abolição dos privilégios de longo data que os exportadores de açúcar detinham no forma de subsídios governamentais. Vale a peno ressaltar que tudo isso foi conquistado num período de crescente nacionalismo econômico, que contribuía sobremaneira porá a desintegração de união Austro-Húngara, e que Böhm-Bawerk não era afiliado a nenhum partido político. Em 1904 demite-se do cargo de ministro em protesto contra as irregularidades apresentadas nos estimativas orçamentárias do Exército. Passa a se dedicar aos seus escritos e ao ensino da Economia na Universidade de Viena.

Como economista, deve a sua notoriedade a uma rara combinação de qualidades: extraordinária capacidade de aprendizagem, independência de pensamento e julgamento, habilidade dialética, penetrante poder de crítica e mestria na exposição e ilustração de assuntos. Intelectual infatigável, ia sempre ao âmago do questão. Mostrou grande interesse pelos problemas dos democracias ocidentais, por vezes participando das controvérsias levadas a público através de jornais ingleses e americanos. Suas obras são prodigiosas. Em seu famoso tratado intitulado Kapital und Kapitalzins, Böhm-Bawerk expõe não apenas uma completa teoria de distribuição, mas uma teoria de cooperação social que exerceu profunda influência no pensamento de outros economistas, muito contribuindo para a fundação do que hoje se conhece como Escola Austríaca de Economia.

Prefácio à primeira edição Em 26 de agosto de 2002

Leituras

A Teoria Da Exploracao Do Socialismo Comunismo Prefacio A Primeira Edicao

Tradução: LYA LUFT | A idéia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômic

por Hanz Sennholz A teoria da exploração conquistou o mundo Assim como a evolução da teoria da exploração foi um dos acontecimentos mais importantes do século XIX, sua aceitação geral bem como sua triunfante divulgação constituem o fato mais sinistro do século XX. Não pode haver dúvida de que a teoria da exploração conquistou o mundo. Hoje, mais de um terço da humanidade vive sob o comunismo, cujos lideres emitem seus pronunciamentos arrogantes e militantes a partir da plataforma do dogma socialista. Outro terço da humanidade, naquilo que por vezes se chama de “mundo livre”, vive sob sistemas econômicos claramente socialistas. Praticamente todo o resto tem organizações sociais e econômicas em que a teoria da exploração é indicador de intervenção governamental.

Nos Estados Unidos a teoria da exploração influencia a opinião pública Mesmo nos Estados Unidos, baluarte do mundo livre, a teoria da exploração influencia a opinião pública. Essa influência se mostra na crença popular no fato de que uma economia capitalista livre submete os assalariados ao poder e arbítrio dos industriais ricos. Considera-se o trabalhador, como indivíduo, um ser desamparado, carente de proteção legal nas negociações que mantém com as empresas, cuja maior preocupação está no poder e no lucro. O mercado livre — que objetiva o lucro numa livre competição — prevaleceu neste país antes da Primeira Guerra e é condenado por causar sofrimento a multas gerações de trabalhadores. Essas idéias, versões populares da teoria da exploração, invadiram nossas escolas e universidades, penetraram, na verdade, por todos os canais, e mudaram radicalmente nossos partidos políticos e Igrejas. Deram origem a um gigantesco movimento de sindicatos de trabalhadores e à “nova ordem” em assuntos sociais e econômicos. É, sem dúvida, a teoria da exploração que determina nossa política econômica básica, em todos os níveis de governo.

A legislação popular trabalhista se baseia em idéias da teoria da exploração A crescente massa de legislação trabalhista é um dos frutos da teoria da exploração. Seus defensores atribuem A moderna política social o fato de se ter reduzido a semana de trabalho para 48, 44 e 40 horas semanais — ou para menos ainda. Aplaudem a legislação trabalhista por ter eliminado o trabalho de mulheres e de crianças. Atribuem, também, o presente nível dos salários ao salário mínimo imposto por intervenção das autoridades. Na verdade, praticamente todas as melhorias no trabalho são creditadas à legislação social e A intervenção dos sindicatos de trabalhadores.

O seguro social compulsório — incluindo salário-desemprego — nasce das mesmas raízes intelectuais. Diz-se que o capitalismo é incapaz de sustentar os trabalhadores desempregados, doentes ou idosos. Por isso, a política salarial tem de assegurar condições de vida decentes para essa parte, cada vez maior, da população.

A taxação moderna reflete a teoria da exploração Também a taxação moderna revela quê adotamos a teoria da exploração. A maior parte dos impostos visa não apenas a uma receita pública crescente, mas também à correção ou eliminação dos alegados males de nosso sistema econômico. Alguns impostos pretendem uma, “redistribuição” da riqueza e do ganho. Taxas de confisco são impostas aos empresários e capitalistas cujo ganho e capital são transformados em bens para consumo dos “menos privilegiados”. Outros impostos visam a mudar hábitos e comportamento nos negócios, ou a conduzir e regular a produção e o comércio.

Os sindicatos de trabalhadores justificam sua existência: pela teoria da exploração Nossos sindicatos de trabalhadores retiram dá teoria da exploração a justificativa para sua existência. Poucos americanos negam o orgulho que os lideres sindicalistas cultivam em razão de seus sindicatos terem elevado — e ainda estarem elevando — os salários de todos os trabalhadores, através de, associações e de negociações coletivas. A opinião pública americana acredita que a história recente provou a natureza beneficente do sindicalismo, sem o qual os trabalhadores estariam submetidos A ganância é arbitrariedade de seus empregadores. Por causa do medo comum da exploração do trabalho, o povo sofre greves ou ameaças de greve. coerção e violência sindical, bem como a agitação interminável de ódio. e inveja dos lideres trabalhistas contra o perverso egoísmo dos exploradores. Para muitos milhões de americanos, ser membro de um sindicato é um importante dever social, e fazer greve, uma missão essencial.

Muitos intelectuais aceitam a teoria da exploração Mas não são apenas os milhões de trabalhadores que se unem contra os pretensos males apontados pela teoria da exploração. Se não houvesse uma maioria de economistas, sociólogos e cientistas políticos e historiadores dando seu apoio entusiástico a essa teoria, dificilmente a sociedade toleraria a extorsão e a violência dos sindicatos. Nos campus de nossas escolas e universidades, nossos intelectuais trabalham laboriosamente para desmascarar as “contradições básicas” e “vícios fundamentais” do sistema empresarial privado. Segundo eles, a sociedade se compõe de classes deliberadamente unidas para proteger seus interesses de grupo. Uma “nova ordem” surge das cinzas do “velho” sistema capitalista em todo o mundo. Este grupo de intelectuais, finalmente, se completa com os artistas, que introduziram a figura do explorador capitalista na literatura e nas artes da atualidade. A combinarão de todas essas forças influenciou a opinião pública americana, levando essa nação às fronteiras do socialismo.

Böhm-Bawerk não podia ter, sobre a teoria da exploração, a perspectiva prática e crítica que temos no século XX Quando pela primeira vez o professor Böhm-Bawerk manejou sua pena contra a teoria da exploração, o sistema de livre mercado prevalecia ainda nos países modernos. É verdade que, como resultado da agitação feita por Marx e por seus seguidores acadêmicos, tinham emergido, especialmente na Europa, poderosos partidos socialistas. Mas a influência desses partidos era pequena na política econômica dos governos. Foi um período de progresso sem precedentes na economia. O livre comércio unia a humanidade numa pacifica e próspera divisão de trabalho. Homens e capital moviam-se livremente entre países, sem fronteiras políticas que nos restringissem. Acumulava-se capital rapidamente, e a produtividade no trabalho crescia ano a ano. Salários e condições de trabalho melhoravam sempre, e — auxiliada pelo progresso tecnológico — a indústria fornecia a uma população em crescimento produtos sempre novos e melhores.

A primeira análise sobre a teoria da exploração — que ainda é a mais importante — foi a de Böhm-Bawerk Não se pode explicar, através da experiência histórica, a ascensão da teoria da exploração e de outros dogmas socialistas. A luta entre os dois sistemas se decide na interpretação e explicação dos fatos por idéias e teorias. É por isso que a análise de Böhm-Bawerk está na linha de frente da batalha.

Sua “ Teoria da exploração “, que constitui um extrato de seu grande tratado Capital e juro, é um marco na critica ao pensamento socialista. Até o aparecimento do Socialismo de Ludwig von Mises, uns 38 anos depois, essa foi praticamente a única crítica sistemática à economia de Karl Marx. Com lógica devastadora e riqueza de detalhes, Böhm-Bawerk faz sua tese destruir alegações socialistas. Seu raciocínio rigoroso e seu domínio das renúncias são irrefutáveis e convincentes. As conclusões são livres de sentimentos pessoais e de preconceitos. A apresentação, de uma sóbria elegância. Em suma, há poucas análises na história do pensamento econômico que se lhe podem equiparar.

Os argumentos de Böhm-Bawerk destróem o próprio alicerce do socialismo, sobre o qual se constrói a teoria da exploração. Segundo os socialistas, todos os bens econômicos são produto unicamente do trabalho, e seu valor se determina pela quantidade de trabalho que sua produção exigiu. Böhm-Bawerk demonstra que tal afirmação, além de se contradizer a si mesma, está em desacordo com a realidade. “ Do ponto de vista da validade teórica “, conclui Böhm-Bawerk, “ essa teoria ocupa um dos lugares de menor importância entre todas as demais teorias do juro. Por mais sérios que possam ser os erros de lógica cometidos por representantes de outras teorias, acho que dificilmente existam, como nessa, com o mesmo grau de gravidade e em uma concentração tão abundante. São afirmações frívolas e prematuras, uma dialética enganadora, contradições internas e total cegueira diante dos fatos reais .”

Conseqüências econômicas e sociais desastrosas Do ponto de vista das conseqüências econômicas e sociais, a teoria marxista provoca a desgraça. A legislação trabalhista que sobrevém com a sua adoção não apenas reduz a produtividade do trabalho e o salário, mas também traz descontentamento e conflitos sociais. Tanto as legislações de salário mínimo, como outras tentativas de elevar os salários acima dos níveis determinados pelo mercado, estão criando desemprego e depressão, o que, por sua vez, fomenta um coletivismo radical. O. seguro social compulsório torna seus receptores tutelados do Estado, destruindo a sua autoconfiança, sua responsabilidade individual e sua independência. As taxas de confisco que incidem sobre o capital e o ganho de nossos empresários e capitalistas impostas em benefício dos que ganham menos prejudicam o crescimento econômico e causam estagnação. Encorajam o desperdício e a ineficiência, baixam os salários, causam rigidez econômica e criam as classes sociais. Por fim, os sindicatos de trabalhadores não apenas reduzem a eficiência do trabalho, através de uma multiplicidade de medidas, que causam desajustamentos e desemprego, mas também agem como eficientes propagadores da ideologia socialista. Todas essas políticas e medidas, juntas, estão provocando o controle econômico geral e a onipotência do governo.

Este pequeno trabalho vai muito além da mera questão acadêmica de saber qual das teorias é a decisiva e qual é a falaciosa: as teorias da exploração de Rodbertus e Marx, ou a crítica de Böhm-Bawerk. Seu ponto crucial é a defesa da empresa privada contra o ataque do socialismo, que traz o totalitarismo e o comunismo.

Hanz Sennholz Groue City College Grove City, Pa.

Janeiro, 1960.

A Teoria Da Exploracao Do Socialismo Comunismo

Tradução: LYA LUFT | A idéia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômic

Observações do editor sobre esta edição Prefácio Capítulo I — Pesquisa histórica da teoria da exploração Capítulo II — Estrutura geral desta descrição e crítica da teoria da exploração Capítulo III — A teoria do juro de Rodbertus Capítulo IV — A teoria do juro de Marx Em 26 de agosto de 2002

Leituras

A Prova Cabal Da Mentira

Sob o título “Paranóia”, encontro no site oficial | Diário do Comércio

da campanha lulista ( http://www.lulapresidente.org.br/boletim.php?codigo=21 ) uma declaração sobre o Foro de São Paulo que deve ser analisada com a maior atenção e rigor, porque fornece a prova cabal de que o PT é um partido de sociopatas cínicos, amorais, sem escrúpulos, mentirosos até à alucinação.

Publicado sem assinatura de autor, portanto endossado pelos chefes mesmos da campanha presidencial de Lula, o documento começ a anunciando que “ a lguns artigos na imprensa e muitas mensagens na internet divulgam uma ‘denúncia’ seríssima:

a de que o PT seria integrante de uma perigosa organização internacional chamada Foro de São Paulo.”

As aspas na palavra “denúncia” dão a entender que ela não é uma denúncia de maneira alguma, não é a revelação de a ções graves e malignas, mas sim apenas uma tentativa artificiosa de fazer onda em torno de fatos já amplamente conhecidos ou inócuos. Veremos adiante se esses fatos são realmente assim.

“Pois bem:

a tal organização existe, chama-se mesmo Foro de São Paulo mas só oferece perigo para os partidos neoliberais.”

Como não faz nenhum sentido reconhecer publicamente a existência de algo que já é publicamente reconhecido como existente, este parágrafo é uma confissão de que o Foro de São Paulo, a mais vasta e poderosa organização política já existente na América Latina, fundada por duas celebridades mundiais (Lula e Fidel Castro) e composta por todos os líderes da esquerda continental, continua desconhecido do público geral após dezesseis anos de atividade.

Mas será normal, inócuo e indigno de denúncia o fato de que tantos chefes de Estado, tantos líderes de partidos, tantos comandantes de guerrilhas tenham reuniões periódicas para discutir assuntos políticos durante mais de uma década e meia sem que ninguém fora do círculo dos eleitos fique sabendo de nada?

Ou, ao contrário, a denúncia não tem nada de artificioso, é a revelação jornalística obrigatória de um fato importante e colocá-la entre aspas é que é uma tentativa pueril de esconder um elefante por baixo de um pires?

Raciocinem um pouco. Mesmo que aqueles indivíduos se reunissem sem qualquer intuito político, mesmo que fossem ali apenas para beber cerveja e jogar futebol-de-botão, o número e a magnitude deles já faria do acontecimento um alvo necessário e indispensável de atenção jornalística. O silêncio total da mídia a respeito assinalaria, no mínimo, uma falha profissional imperdoável, mesmo que o encontro se realizasse uma única vez.

A persistência da omissão por dezesseis anos seguidos, mesmo se não levarmos em conta suas implicações políticas e a considerarmos apenas do ponto de vista técnico-jornalístico, já seria por si um fenômeno alarmante no mais alto grau. Ainda supondo-se que não houvesse nisso nenhum esforço de ocultação, apenas um lapso de atenção profissional, é evidente que uma gigantesca falha de cobertura, repetida uniformemente por todos os jornais, canais de TV e noticiários de rádio ao longo de tanto tempo, comprovaria uma epidemia geral de inépcia jornalística como nunca se viu na história da mídia mundial. Dizer que isso não constitui motivo de denúncia ultrapassa a margem do que se pode conceder à hipótese da estupidez. É cinismo puro e simples. É mentira consciente, produzida no intuito de ludibriar os votantes às vésperas de uma eleição.

Mas quem, em sã consciência, pode acreditar numa tão vasta, geral e duradoura conjunção de inépcias jornalísticas acumuladas em todas as redações, em todas as cabeças de jornalistas do país ao longo de dezesseis anos por mero acaso, por pura coincidência? Se essa coincidência tivesse realmente acontecido, sua improbabilidade matemática seria tão gigantesca que, por si, o fenômeno mereceria estudo científico. Querer que acreditemos nisso é esperar que abdiquemos totalmente da inteligência racional e do senso das proporções, para apostar na palavra sacrossanta de um redator de aluguel a serviço de um partido de ladrões.

Para qualquer observador com QI superior a 12, é claro que houve ocultação deliberada do Foro de São Paulo e, uma vez vazado o segredo, um esforço proposital de abafar o escândalo por meio de evasivas, desconversas e novas ocultações. Essas duas etapas da fraude se evidenciaram, respectivamente, no sumiço completo do site do Foro de São Paulo logo após eu começar a divulgar trechos das atas de suas assembléias, e na nota oficial do PT, assinada por seu assessor de imprensa Giancarlo Summa, que afirmava ser o Foro apenas um inofensivo centro de debates, sem intuito decisório, afirmativa que desmenti, com provas cabais, em artigo publicado em O Globo em 19 de outubro de 2002 (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/10192002globo.htm ).

Não sei como o acordo de sumir com a notícia veio a ser obedecido tão fielmente por todos os órgãos de mídia (se bem que no Brasil eles não sejam tantos que não se possa suborná-los, ou intimidá-los, ou simplesmente seduzi-los por atacado). Mas sei de onde partiu a ordem de sumiço: partiu do próprio Foro de São Paulo, na pessoa do seu fundador e dirigente máximo, Luís Inácio Lula da Silva. Quem me contou isso? Foi ele mesmo, ora bolas! Ele próprio, no seu discurso de 26 de setembro de 2005, comemorativo dos quinze anos de fundação do Foro, declarou que essa entidade era um sistema de relações construído entre ele e outros líderes esquerdistas “ para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política”.

Pergunto ao autor do documento: Você não sabe ler, desgraçado? Não entende o que o seu próprio chefe admite com clareza máxima? Entende sim, e porque entende, esconde. No caso, esconder se torna ainda mais fácil porque o discurso com a confissão explícita da ocultação proposital também foi ocultado por sua vez: publicado no site oficial do governo ( http://www.info.planalto.gov .br/download/discursos/pr812a .doc ) , não foi citado por nenhum jornal, revista, canal de TV ou estação de rádio deste país, mesmo depois que o denunciei nas minhas colunas, aqui, no Jornal do Brasil e no Mídia Sem Máscara . Vai me dizer, moleque idiota, que isso também foi coincidência, mera coincidência?

A segunda frase do parágrafo admite que o Foro é perigoso, “mas só para os partidos neoliberais”. Não interessa, no momento, discutir o sentido objetivo do termo “neoliberal”, que já investiguei em artigo anterior ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/050725dc.htm ). Interessa que, para os esquerdistas em geral, incluindo o autor do documento, o termo designa pessoas e entidades que eles parecem não ter a menor dificuldade de identificar, tal o sentimento de certeza com que o aplicam a esses alvos. As duas perguntas que a afirmação suscita são, portanto: ( a ) Que tipo de perigo, concretamente falando, o Foro apresenta para os partidos que tenham a infelicidade de enquadrar-se na classificação de “neoliberais”?; (b) É realmente só esse o grupo ameaçado, ou os perigos aludidos se estendem também a outros grupos não mencionados?

Com relação ao item “ a ”, o autor nada esclarece. Como o documento se constitui de palavras escritas em defesa das a ções do Foro, devemos portanto recorrer a estas para esclarecer o sentido daquelas. O que o Foro tem feito contra os neoliberais mostrará a quais novos perigos o autor do documento promete agora submetê-los. Por outro lado, o Foro não age diretamente, mas através das entidades que cumprem suas resoluções. Ora, as a ções que essas entidades têm empreendido contra os chamados “neoliberais” constituem-se, em grande parte, de guerra cultural e combate político. O objetivo com que as empreendem foi declarado explicitamente pelo próprio inventor e mentor do Foro de São Paulo, Fidel Castro: “Erradicar o neoliberalismo” ( http://www.pt.org.br/site/secretarias_def/secretarias_int.asp?cod=2255&cod_sis=9&cat=7 ). Não se trata, portanto, de concorrer com o neoliberalismo nas eleições, alternando-se com ele no poder, democraticamente: trata-se de eliminá-lo, de varrê-lo do círculo das possibilidades socialmente admissíveis. O primeiro perigo que o Foro promete para os partidos inimigos é este: torná-los inviáveis como forç a política e cultural.

A promessa é clara, e exclui in limine a possibilidade do rozídio no poder por via eleitoral, que supõe a existência política e cultural do adversário como forç a organizada. Pode-se concorrer com esse adversário, é claro, mas só como meio temporário destinado, em última instância, a “erradicá-lo”. Nenhum partido ou organização rotulada como “neoliberal” jamais ambicionou “erradicar a esquerda”. Limitam-se a tentar vencê-la nas eleições, quando podem, e em seguida aceitá-la como oposição democrática sem perspectiva de extinção.

A assimetria é evidente.

Se, porém, “ser erradicado” política e culturalmente já é temível o bastante, expondo milhões de pessoas ao perigo de ficar sem representação política ou meios de autodefesa coletiva, as entidades filiadas ao Foro não se contentam com perigo tão modesto. Entre elas constam organizações armadas como as Farc, o MIR chileno, os Tupamaros, que já enviaram para o beleléu, fisicamente, uma quantidade considerável de “neoliberais”. O número exato é de cálculo difícil, mas já passou de algumas dezenas de milhares.

O “perigo” anunciado é portanto bem claro: Neoliberais (seja isto lá o que for), nós vamos matar vocês. Os que sobrarem, nós vamos excluir da política e da vida social decente.

O autor do documento é pérfido o bastante para deixar essa ameaç a no ar com a certeza quase infalível de que fala em código, só para os do círculo interno, já que os de fora tomarão automaticamente a palavra “perigo” como mera hipérbole vazia, sem que lhes ocorra interpretar as palavras pelas a ções e descobrir a presenç a explosiva da ameaç a velada.

Quanto à pergunta “b”, isto é, se o perigo se circunscreve aos grupos neoliberais, não creio que seja possível enquadrar nessa classificação os milhares de jovens e crianças que morrem anualmente de drogas distribuídas pelas Farc no Brasil, na Colômbia, na Venezuela e nos EUA. Também não creio que haja algum neoliberalismo na mente de todas as vítimas de seqüestros realizados pelo MIR chileno, como por exemplo o publicitário Washington Olivetto, que não esconde suas simpatias esquerdistas. Mais rebuscado ainda seria chamar de neoliberais todas as vítimas assassinadas, em fuzilarias a esmo ou em disputas de quadrilhas, por bandidos que a Farc instruiu e treinou em técnicas de guerrilha urbana. Cá entre nós, que o autor do documento não nos ouç a , a afirmativa de que o Foro de São Paulo “ só oferece perigo para os partidos neoliberais ” é um eufemismo pérfido e mentiroso. O Foro de São Paulo oferece perigo para qualquer um que atravesse o seu caminho, não só no sentido de oposição política, mas até no de ficar plantado, por acaso, na direção de onde venha uma bala perdida disparada por qualquer discípulo local das Farc. O Foro de São Paulo oferece perigo para toda a população.

Prossegue o documento: “ O Foro de São Paulo, como diz o nome, é um ‘foro’ ou ‘fórum’, que faz reuniões anuais de que participam não apenas partidos latino-americanos, mas também partidos socialistas e progressistas da Europa, África e Ásia.

” Agora o fulano quer nos fazer engolir que as Farc são um partido político, não a quadrilha armada que vende cocaína no Brasil através de seu sócio Fernandinho Beira-Mar, atira nos soldados do nosso Exército e treina assassinos para que aterrorizem a população. O MIR chileno é um partido político, não uma quadrilha de seqüestradores armados? Para quem esse sujeito pensa que está escrevendo? Para crianças de sete anos? Para bobocas ludibriáveis ad infinitum ? Se essa óbvia fraude publicitária não é crime eleitoral, eu sou o Lula em pessoa.

A explicação acaciana de que o foro é um foro, “ou fórum”, é uma papagaiada incumbida de revender, abreviadamente, a mentira boba inventada pelo sr. Giancarlo Summa, de que a entidade “é um foro de debates, e não uma estrutura de coordenação política internacional” , à qual não preciso responder porque já respondi em 2002: “Porca miséria, quem já viu um mero foro de debates emitir ‘resoluções’ ao fim das assembléias? Resolução é decisão, é diretriz prática, é norma de a ção. Uma assembléia que emite resoluções, subscritas unanimemente por organizações de vários países, não pode estar fazendo outra coisa senão coordená-las politicamente. É, aliás, o que afirma a resolução final do I Foro (São Paulo, 4 de julho de 1990), ao expressar seu intuito de ‘ avanzar propuestas de unidad de acción consensuales ’. O esforço comum para formular uma ‘unidade de a ção’ não pode ser puro debate, sobretudo quando se cristaliza em ‘resoluções’: ele é, no mais pleno sentido do termo, coordenação política.”

Mas o mais bonito do documento vem no anúncio do XIII encontro do Foro (San Salvador, janeiro de 2007), quando será discutido, entre outros temas, o “ combate ao crime organizado, ao narcotráfico e à militarização ”. Chega a ser maravilhoso. Que é que os mentores do Mensalão, os maiores narcotraficantes do continente e o único governante latino-americano empenhado em militarizar seu país para a “ guerra del pueblo entero ” (nos termos dele mesmo) podem sugerir para combate aos três males que eles próprios personificam eminentemente? Não sei, mas eu sugiro aos interessados: prendam todos os participantes do XIII encontro do Foro de São Paulo, e verão o crime organizado, o narcotráfico e a militarização diminuírem consideravelmente na América Latina. Eles próprios é que não vão trancafiar-se a si mesmos, como o Dr. Simão Bacamarte. O psiquiatra de Itaguaí era louco, mas teve a honestidade científica de reconhecer que o era. Libertou a população que ele próprio internara e foi para o hospício em lugar dela.

Mutatis mutandis , os homens do Foro são bandidos, mas jamais hão de reconhecer que o são. Vão combater o crime metendo na cadeia quem não é seu cúmplice, reprimir o narcotráfico ampliando a clientela das Farc e eliminar o militarismo alistando todo mundo no exército de Hugo Chávez.

A declaração do PT foi publicada um dia depois de sair no Jornal do Brasil o artigo em que eu sugeria ao candidato Alckmin cobrar do oponente explicações sobre suas atividades no Foro de São Paulo. Ela é um arremedo grotesco de antídoto, preparado às pressas por puro temor de um vexame politicamente catastrófico, a revelação, em pleno debate eleitoral, das a ções clandestinas do sr. Luís Inácio Lula da Silva como parceiro e protetor dos maiores criminosos do continente.

Em matéria de confronto polêmico, a denúncia do Foro de São Paulo é um autêntico roto-rooter capaz de trazer à tona crimes e perfídias em comparação com os quais tudo o que se denunciou do PT até hoje é agradinho.

Obama Runs Away From A Lawsuit

September 28, 2008 | Diário do Comércio

http://laiglesforum.com/2008/09/28/322/ September 24 was the deadline for Barack Obama to file a response to the lawsuit, initiated by Democrat lawyer Philip Berg, which charges Obama with not fulfilling the constitutional requirements to be elected president, since he is not a natural born citizen of the United States. Barack Obama did not actually respond: he introduced a motion for dismissal , a typical delaying maneuver that makes the defendant look even more suspect.

A motion for dismissal consists in alleging that the plaintiff did not provide enough evidence to justify the continuation of the suit. That Obama’s lawyers should use this maneuver is a curious sample of the revolutionary inversion of judicial logic. Berg’s central argument is that Obama has not presented a printed birth certificate. It is the duty of the candidate to prove that he is a natural born American citizen, not the duty of the plaintiff to prove that he is not. The hard fact that the document has never come to light is enough for the suit to go forward, as there is not a single piece of evidence attesting that Obama has legal citizenship. But to this undeniable assertion, Berg added some strong evidence that (1) the electronic copy of the birth certificate exhibited by Obama’s campaign is false, and (2) Obama was born in Kenya. By challenging the insufficiency of these supplemental arguments, Obama’s lawyers are trying to dodge the central point: Where is the paper version of the certificate? If Obama had one, it would be enough to present it, and he would be acquitted on the spot. What his lawyers did suggests that he has no American birth certificate whatsoever.

In return, they have gained time, but at the expense of sowing the seed of a constitutional crisis that will fatally blow up sooner or later. If the suit is resolved only after the election—and if Obama is elected—the United States, instead of simply nullifying a candidacy, will find itself in the contingency of having to topple a president, automatically raising the ire of his devotees. Or else the United States will have to sacrifice its Constitution and laws on the altar of a grotesque pseudo-religion, artificial to the utmost, in which millions of idiots kneel down before an improvised arriviste without even bothering to ask where he came from. Both hypotheses are frightening, and if the motion for dismissal is accepted by the court, there will be no third one any more.

More and more I convince myself that all this, from the beginning, figured in the calculations of the creators of the Obama myth. More than just electing a president, they wished to implode a nation.

PS—All the documents of the lawsuit are on Phillip Berg’s site www.obamacrimes.com . If you have any difficulty in accessing it, do not be surprised: it has received over 15 million visitors in the last few days, and there has been a bit of a traffic jam.

Em 28 de setembro de 2008

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A Historia Oficial De 1964 (2)

Se houve na história da América Latina um episódio | O Globo,

sui generis , foi a Revolução de Março (ou, se quiserem, o golpe de abril) de 1964. Numa década em que guerrilhas e atentados espoucavam por toda parte, seqüestros e bombas eram parte do cotidiano e a ascensão do comunismo parecia irresistível, o maior esquema revolucionário já montado pela esquerda neste continente foi desmantelado da noite para o dia e sem qualquer derramamento de sangue.

O fato é tanto mais inusitado quando se considera que os comunistas estavam fortemente encravados na administração federal, que o presidente da República apoiava ostensivamente a rebelião esquerdista no Exército e que em janeiro daquele ano Luís Carlos Prestes, após relatar à alta liderança soviética o estado de coisas no Brasil, voltara de Moscou com autorização para desencadear – por fim! – a guerra civil no campo. Mais ainda, a extrema direita civil, chefiada pelos governadores Adhemar de Barros, de São Paulo, e Carlos Lacerda, da Guanabara, tinha montado um imenso esquema paramilitar mais ou menos clandestino, que totalizava não menos de 30 mil homens armados de helicópteros, bazucas e metralhadoras e dispostos a opor à ousadia comunista uma reação violenta. Tudo estava, enfim, preparado para um formidável banho de sangue.

Na noite de 31 de março para 1 o . de abril, uma mobilização militar meio improvisada bloqueou as ruas, pôs a liderança esquerdista para correr e instaurou um novo regime num país de dimensões continentais – sem que houvesse, na gigantesca operação, mais que duas vítimas: um estudante baleado na perna acidentalmente por um colega e o líder comunista Gregório Bezerra, severamente maltratado por um grupo de soldados no Recife. As lideranças esquerdistas, que até a véspera se gabavam de seu respaldo militar, fugiram em debandada para dentro das embaixadas, enquanto a extrema-direita civil, que acreditava ter chegado sua vez de mandar no país, foi cuidadosamente imobilizada pelo governo militar e acabou por desaparecer do cenário político.

Qualquer pessoa no pleno uso da razão percebe que houve aí um fenômeno estranhíssimo, que requer investigação. No entanto, a bibliografia sobre o período, sendo de natureza predominantemente revanchista e incriminatória, acaba por dissolver a originalidade do episódio numa sopa reducionista onde tudo se resume aos lugares-comuns da “violência” e da “repressão”, incumbidos de caracterizar magicamente uma etapa da história onde o sangue e a maldade apareceram bem menos do que seria normal esperar naquelas circunstâncias.

Os trezentos esquerdistas mortos após o endurecimento repressivo com que os militares responderam à reação terrorista da esquerda, em 1968, representam uma taxa de violência bem modesta para um país que ultrapassava a centena de milhões de habitantes, principalmente quando comparada aos 17 mil dissidentes assassinados pelo regime cubano numa população quinze vezes menor. Com mais nitidez ainda, na nossa escala demográfica, os dois mil prisioneiros políticos que chegaram a habitar os nossos cárceres foram rigorosamente um nada, em comparação com os cem mil que abarrotavam as cadeias daquela ilhota do Caribe. E é ridículo supor que, na época, a alternativa ao golpe militar fosse a normalidade democrática. Essa alternativa simplesmente não existia: a revolução destinada a implantar aqui um regime de tipo fidelista com o apoio do governo soviético e da Conferência Tricontinental de Havana já ia bem adiantada. Longe de se caracterizar pela crueldade repressiva, a resposta militar brasileira, seja em comparação com os demais golpes de direita na América Latina seja com a repressão cubana, se destacou pela brandura de sua conduta e por sua habilidade de contornar com o mínimo de violência uma das situações mais explosivas já verificadas na história deste continente.

No entanto, a historiografia oficial – repetida ad nauseam pelos livros didáticos, pela TV e pelos jornais – consagrou uma visão invertida e caricatural dos acontecimentos, enfatizando até à demência os feitos singulares de violência e omitindo sistematicamente os números comparativos que mostrariam – sem abrandar, é claro, a sua feiúra moral – a sua perfeita inocuidade histórica.

Por uma coincidência das mais irônicas, foi a própria brandura do governo militar que permitiu a entronização da mentira esquerdista como história oficial. Inutilizada para qualquer ação armada, a esquerda se refugiou nas universidades, nos jornais e no movimento editorial, instalando aí sua principal trincheira. O governo, influenciado pela teoria golberiniana da “panela de pressão”, que afirmava a necessidade de uma válvula de escape para o ressentimento esquerdista, jamais fez o mínimo esforço para desafiar a hegemonia da esquerda nos meios intelectuais, considerados militarmente inofensivos numa época em que o governo ainda não tomara conhecimento da estratégia gramsciana e não imaginava ações esquerdistas senão de natureza inssurrecional, leninista. Deixados à vontade no seu feudo intelectual, os derrotados de 1964 obtiveram assim uma vingança literária, monopolizando a indústria das interpretações do fato consumado. E, quando a ditadura se desfez por mero cansaço, a esquerda, intoxicada de Gramsci, já tinha tomado consciência das vantagens políticas da hegemonia cultural, e apegou-se com redobrada sanha ao seu monopólio do passado histórico. É por isso que a literatura sobre o regime militar, em vez de se tornar mais serena e objetiva com a passagem dos anos, tanto mais assume o tom de polêmica e denúncia quanto mais os fatos se tornam distantes e os personagens desaparecem nas brumas do tempo.

Mais irônico ainda é que o ódio não se atenue nem mesmo hoje em dia, quando a esquerda, levada pelas mudanças do cenário mundial, já vem se transformando rapidamente naquilo mesmo que os militares brasileiros desejavam que ela fosse: uma esquerda socialdemocrática parlamentar, à européia, desprovida de ambições revolucionárias de estilo cubano. O discurso da esquerda atual coincide, em gênero, número e grau, com o tipo de oposição que, na época, era não somente consentido como incentivado pelos militares, que viam na militância socialdemocrática uma alternativa saudável para a violência revolucionária.

Durante toda a história da esquerda mundial, os comunistas votaram a seus concorrentes, os socialdemocratas, um ódio muito mais profundo do que aos liberais e capitalistas. Mas o tempo deu ao “renegado Kautsky” a vitória sobre a truculência leninista. E, se os nossos militares tudo fizeram justamente para apressar essa vitória, por que continuar a considerá-los fantasmas de um passado tenebroso, em vez de reconhecer neles os precursores de um tempo que é melhor para todos, inclusive para as esquerdas?

Para completar, muita gente na própria esquerda já admitiu não apenas o caráter maligno e suicidário da reação guerrilheira, mas a contribuição positiva do regime militar à consolidação de uma economia voltada predominantemente para o mercado interno – uma condição básica da soberania nacional. Tendo em vista o preço modesto que esta nação pagou, em vidas humanas, para a eliminação daquele mal e a conquista deste bem, não estaria na hora de repensar a Revolução de 1964 e remover a pesada crosta de slogans pejorativos que ainda encobre a sua realidade histórica?

Em 19 de janeiro de 1999

A Historia Oficial De 1964

Se houve na história da América Latina um episódio | O Globo,

sui generis , foi a Revolução de Março (ou, se quiserem, o golpe de abril) de 1964. Numa década em que guerrilhas e atentados espoucavam por toda parte, seqüestros e bombas eram parte do cotidiano e a ascensão do comunismo parecia irresistível, o maior esquema revolucionário já montado pela esquerda neste continente foi desmantelado da noite para o dia e sem qualquer derramamento de sangue.

O fato é tanto mais inusitado quando se considera que os comunistas estavam fortemente encravados na administração federal, que o presidente da República apoiava ostensivamente a rebelião esquerdista no Exército e que em janeiro daquele ano Luís Carlos Prestes, após relatar à alta liderança soviética o estado de coisas no Brasil, voltara de Moscou com autorização para desencadear – por fim! – a guerra civil no campo. Mais ainda, a extrema direita civil, chefiada pelos governadores Adhemar de Barros, de São Paulo, e Carlos Lacerda, da Guanabara, tinha montado um imenso esquema paramilitar mais ou menos clandestino, que totalizava não menos de 30 mil homens armados de helicópteros, bazucas e metralhadoras e dispostos a opor à ousadia comunista uma reação violenta. Tudo estava, enfim, preparado para um formidável banho de sangue.

Na noite de 31 de março para 1 o . de abril, uma mobilização militar meio improvisada bloqueou as ruas, pôs a liderança esquerdista para correr e instaurou um novo regime num país de dimensões continentais – sem que houvesse, na gigantesca operação, mais que duas vítimas: um estudante baleado na perna acidentalmente por um colega e o líder comunista Gregório Bezerra, severamente maltratado por um grupo de soldados no Recife. As lideranças esquerdistas, que até a véspera se gabavam de seu respaldo militar, fugiram em debandada para dentro das embaixadas, enquanto a extrema-direita civil, que acreditava ter chegado sua vez de mandar no país, foi cuidadosamente imobilizada pelo governo militar e acabou por desaparecer do cenário político.

Qualquer pessoa no pleno uso da razão percebe que houve aí um fenômeno estranhíssimo, que requer investigação. No entanto, a bibliografia sobre o período, sendo de natureza predominantemente revanchista e incriminatória, acaba por dissolver a originalidade do episódio numa sopa reducionista onde tudo se resume aos lugares-comuns da “violência” e da “repressão”, incumbidos de caracterizar magicamente uma etapa da história onde o sangue e a maldade apareceram bem menos do que seria normal esperar naquelas circunstâncias.

Os trezentos esquerdistas mortos após o endurecimento repressivo com que os militares responderam à reação terrorista da esquerda, em 1968, representam uma taxa de violência bem modesta para um país que ultrapassava a centena de milhões de habitantes, principalmente quando comparada aos 17 mil dissidentes assassinados pelo regime cubano numa população quinze vezes menor. Com mais nitidez ainda, na nossa escala demográfica, os dois mil prisioneiros políticos que chegaram a habitar os nossos cárceres foram rigorosamente um nada, em comparação com os cem mil que abarrotavam as cadeias daquela ilhota do Caribe. E é ridículo supor que, na época, a alternativa ao golpe militar fosse a normalidade democrática. Essa alternativa simplesmente não existia: a revolução destinada a implantar aqui um regime de tipo fidelista com o apoio do governo soviético e da Conferência Tricontinental de Havana já ia bem adiantada. Longe de se caracterizar pela crueldade repressiva, a resposta militar brasileira, seja em comparação com os demais golpes de direita na América Latina seja com a repressão cubana, se destacou pela brandura de sua conduta e por sua habilidade de contornar com o mínimo de violência uma das situações mais explosivas já verificadas na história deste continente.

No entanto, a historiografia oficial – repetida ad nauseam pelos livros didáticos, pela TV e pelos jornais – consagrou uma visão invertida e caricatural dos acontecimentos, enfatizando até à demência os feitos singulares de violência e omitindo sistematicamente os números comparativos que mostrariam – sem abrandar, é claro, a sua feiúra moral – a sua perfeita inocuidade histórica.

Por uma coincidência das mais irônicas, foi a própria brandura do governo militar que permitiu a entronização da mentira esquerdista como história oficial. Inutilizada para qualquer ação armada, a esquerda se refugiou nas universidades, nos jornais e no movimento editorial, instalando aí sua principal trincheira. O governo, influenciado pela teoria golberiniana da “panela de pressão”, que afirmava a necessidade de uma válvula de escape para o ressentimento esquerdista, jamais fez o mínimo esforço para desafiar a hegemonia da esquerda nos meios intelectuais, considerados militarmente inofensivos numa época em que o governo ainda não tomara conhecimento da estratégia gramsciana e não imaginava ações esquerdistas senão de natureza inssurrecional, leninista. Deixados à vontade no seu feudo intelectual, os derrotados de 1964 obtiveram assim uma vingança literária, monopolizando a indústria das interpretações do fato consumado. E, quando a ditadura se desfez por mero cansaço, a esquerda, intoxicada de Gramsci, já tinha tomado consciência das vantagens políticas da hegemonia cultural, e apegou-se com redobrada sanha ao seu monopólio do passado histórico. É por isso que a literatura sobre o regime militar, em vez de se tornar mais serena e objetiva com a passagem dos anos, tanto mais assume o tom de polêmica e denúncia quanto mais os fatos se tornam distantes e os personagens desaparecem nas brumas do tempo.

Mais irônico ainda é que o ódio não se atenue nem mesmo hoje em dia, quando a esquerda, levada pelas mudanças do cenário mundial, já vem se transformando rapidamente naquilo mesmo que os militares brasileiros desejavam que ela fosse: uma esquerda socialdemocrática parlamentar, à européia, desprovida de ambições revolucionárias de estilo cubano. O discurso da esquerda atual coincide, em gênero, número e grau, com o tipo de oposição que, na época, era não somente consentido como incentivado pelos militares, que viam na militância socialdemocrática uma alternativa saudável para a violência revolucionária.

Durante toda a história da esquerda mundial, os comunistas votaram a seus concorrentes, os socialdemocratas, um ódio muito mais profundo do que aos liberais e capitalistas. Mas o tempo deu ao “renegado Kautsky” a vitória sobre a truculência leninista. E, se os nossos militares tudo fizeram justamente para apressar essa vitória, por que continuar a considerá-los fantasmas de um passado tenebroso, em vez de reconhecer neles os precursores de um tempo que é melhor para todos, inclusive para as esquerdas?

Para completar, muita gente na própria esquerda já admitiu não apenas o caráter maligno e suicidário da reação guerrilheira, mas a contribuição positiva do regime militar à consolidação de uma economia voltada predominantemente para o mercado interno – uma condição básica da soberania nacional. Tendo em vista o preço modesto que esta nação pagou, em vidas humanas, para a eliminação daquele mal e a conquista deste bem, não estaria na hora de repensar a Revolução de 1964 e remover a pesada crosta de slogans pejorativos que ainda encobre a sua realidade histórica?

Em 19 de janeiro de 1999

O Que Lenin Faria

Se fosse presidente do Brasil, | Época

ele acalmaria os investidores.

A julgar pelos diagnósticos alarmantes ou calmantes que saem na nossa imprensa, as únicas áreas ameaçadas em caso de ascensão da esquerda radical são o dinheiro do Exterior investido aqui e o crédito do Brasil nos bancos estrangeiros. Toda a discussão gira em torno de saber se o sr. Fulano ou Beltrano, eleito, pode ou não colocar em risco esses bens supremos. Na primeira hipótese, ele é um perigoso comunista; na segunda, um admirável democrata.

Mas, quando Lênin destruiu em três semanas a ordem constitucional russa e instaurou o reinado do terror, a bolsa de Moscou e Petrogrado não caiu um ponto sequer, e nos anos que se seguiram os investidores estrangeiros ganharam dinheiro a rodo com o novo regime. À luz do critério brasileiro, portanto, Lênin não era comunista de maneira alguma.

A prevalência desse critério imbecil demonstra apenas a completa sujeição intelectual da burguesia brasileira aos cânones do marxismo difuso que a induzem a desempenhar, no teatro da realidade, precisamente o papel estereotipado que a estratégia comunista lhe reservou: o de uma classe de interesseiros imediatistas que podem ser manipulados por meio de seus próprios interesses.

Hegemonia é isso: pautar o discurso dos adversários, induzindo-os a formular seus pensamentos e seus desejos segundo um quadro de categorias mentais pré-calculado para amarrá-los com sua própria corda.

A esquerda nacional é burra e inepta, mas, comparada ao empresariado, é uma plêiade de gênios. Para qualquer estudioso de Antonio Gramsci, ludibriar industriais e financistas brasileiros, induzindo-os a trabalhar pela sua própria perdição, é bater em crianças. Que é que pode o pragmatismo grosso de quem mede o mundo pelo saldo de caixa, comparado ao complexo maquiavelismo da “revolução cultural”? É até covardia. Não conheço um só empresário que não alardeie tranqüilidade olímpica face ao avanço do comunismo, mas, defrontado com alguma estrela do esquerdismo letrado, não se prosterne em rapapés de abjeto servilismo. Claro: não importando o quanto de dinheiro você tenha no bolso, a superioridade intelectual, mesmo pequena, tem sobre você uma força e uma autoridade intrínsecas. Na estratégia revolucionária, a hegemonia cultural equivale ao que, na guerra, é o domínio do espaço aéreo. Correndo para esconder seus tesouros, os roedores se expõem aos olhos do predador que, do alto, controla seus movimentos.

Por isso é que, em vez de perder-se em vãs conjeturas economicistas, nenhum deles pergunta aos candidatos presidenciais:

1) Qual a sua visão geopolítica do mundo? O senhor pretende usar de discursos contra o “poder unipolar” para alinhar o Brasil com o pólo oriental e comunista cuja existência e crescimento essa retórica se destina a encobrir?

2) Após anos de demolição e constrangimento das Forças Armadas, o senhor pretende completar dialeticamente a aplicação do ardil leninista, oferecendo à oficialidade humilhada algum reconforto tardio em troca do seu apoio a uma política externa anti-ocidental e pró-comunista que antes nenhum militar aceitaria?

3) Como o senhor vai combater o narcotráfico sem entrar em choque com Cuba, as Farc e a mídia esquerdista internacional? Ou, ao contrário, vai montar um simulacro de combate só para liquidar as quadrilhas adversárias — que dominam por exemplo o Espírito Santo — e entregar à narcoguerrilha comunista o controle total do mercado brasileiro?

Essas são as únicas perguntas que interessam. O próprio Lênin, se presidisse o Brasil de hoje, nem pensaria em socializar a economia. Trataria de consolidar o capitalismo e acalmar os investidores, ganhando tempo para lutar nessas três frentes, estas sim vitais para a estratégia comunista mundial. Tranqüilizados pelas garantias oferecidas ao seu rico dinheirinho, os burgueses seriam os primeiros a colaborar com ele.

Em 24 de agosto de 2002

Sorman Esta Por Fora

Roberto Fendt ( | Diário do Comércio

Samba do crioulo doido , no DC de ontem) está montado na razão quando reclama da palestra de Guy Sorman no seminário Democracia, Liberdade e o Império das Leis . Sorman, que era um sujeito lúcido até umas semanas atrás, de repente apareceu proclamando, com a cara mais bisonha do mundo, que Lula é o remédio anti-Chávez e que só não concordam com isso os “liberais de direita”. Mas os senhores não reparem: o cidadão é sociólogo e é francês. Dificilmente um cérebro humano escapa por muito tempo à debilitação resultante desse destino duplamente cruel, por mais nutrido que esteja de von Mises e Hayek.

Lula, fundador do Foro de São Paulo , só não pode ser dito o pai de Chávez porque essa honra cabe a Fidel Castro. Lula tem sua glória própria: é a mãe. E ele mesmo, no discurso com que celebrou os quinze anos de fundação dessa entidade criminosa, admitiu o desvelo maternal com que ajudou a colocar e manter o filhinho no poder por vias secretas e fraudulentas. Depois de tão longo trabalho de parto, ele não vai querer agora pôr tudo a perder mediante um aborto retroativo.

O erro de Sorman é o mesmo dos iluminados “especialistas” do Departamento de Estado: vêem Lula só pela orientação econômica do seu governo, fazendo abstração dos compromissos que ele tem com a revolução continental e com a subversão local, inclusive armada e sangrenta. Visto só pelo lado econômico, Vladimir I. Lênin pareceria um antepassado ideológico de Margaret Thatcher, porque deu chance à livre iniciativa e abriu o mercado russo aos investidores estrangeiros. Tanto ele quanto Lula, porém, guardadas as devidas diferenças e proporções, encobriram com o manto da economia bem comportada uma política voltada à centralização do poder, à internacionalização do movimento revolucionário, à eliminação das oposições e à subjugação da sociedade por meio do caos e do terror.

Por uma ironia bem significativa, a voz de Sorman ecoou no auditório do Hotel Caesar Business ao mesmo tempo que, nas ruas de São Paulo, se ouviam os tiros do PCC. Nada, absolutamente nada pode camuflar a evidência de que a rebelião dos bandidos, empreendida em associação com o MST e chefiada por um protegido do sr. Márcio Thomas Bastos, foi obra direta ou indireta do governo federal. Milhões de Sormans gritando bobagens pró-Lula não poderiam suprimir essa obviedade.

Quanto à divisão do liberalismo em esquerdista e direitista, nada preciso dizer. Fendt já a depositou na privada e puxou a descarga. Só devo fazer um pequeno reparo às classificações com que ele a substitui. Não é verdade que os conservadores se diferenciem dos liberais por preferirem a ordem à liberdade. Mil páginas da recém publicada American Conservatism: An Enclyclopedia (ISI Books, 2006) provam que não é nada disso, pelo menos no contexto anglo-saxônico. O conservatism é acima de tudo o amor às liberdades individuais, ao ponto de em suas expressões mais extremadas ter gerado a facção dos libertarians , quase anarquistas na sua recusa de toda interferência estatal na economia ou na vida moral. O amor unilateral à “ordem” caracteriza, isto sim, a direita francesa, que por sinal não se autodenominou “conservadora” quase nunca, pelo simples fato de ser tecnocrática e positivista. Tirando esse detalhe, subscrevo cada palavra do artigo de Roberto Fendt.

Em 25 de maio de 2006

A Pergunta Decisiva

Quinta-feira, no | O Globo

Jornal Nacional , William Bonner fez ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva uma pergunta sobre as Farc. Na TV tudo é muito rápido, inevitavelmente superficial, e por isso talvez o público nem tenha percebido o porquê da pergunta e da sua ligação com a pessoa do entrevistado. A resposta incumbiu-se de tornar essa ligação ainda mais obscura, levando o espectador a crer que se tratava apenas de uma comparação retórica entre dois estilos de fazer política de esquerda: violência na Colômbia, “paz e amor” no Brasil. Comparação muito lisonjeira a uma das partes, sem depreciação explícita da outra.

Mas a lógica da pergunta ia muito além da banalidade em que a resposta a transformou. Para apreender-lhe o sentido, é preciso expor com algum detalhe as premissas factuais que a fundamentam:

1. Fernandinho Beira-Mar confessou que adquiria regularmente das Farc 200 toneladas de cocaína por ano, quase um terço da produção colombiana, pagando uma parte em dinheiro, outra em armas. Além da confissão, existe a prova documental: o laptop do traficante, apreendido pelos militares colombianos, trazia uma lista das últimas transações entre ele e as Farc. Leonardo Dias Mendonça, sócio de Beira-Mar, é acusado pela Polícia Federal de ser o maior transportador de drogas das Farc para o Brasil.

2. O candidato do PT à presidência da República tem com as Farc uma relação mais que simplesmente amistosa. Ele e a guerrilha colombiana assinaram, nas reuniões do Foro de São Paulo, sucessivos pactos de solidariedade mútua, subscritos também por outras organizações comunistas e socialistas, algumas abertamente revolucionárias. O texto desses pactos está reproduzido no próprio site do Foro, http://www.forosaopaulo.org .

3. Se, em vista dessas duas séries de constatações, seria leviandade aceitar in limine as alegações dos chefes das Farc que as inocentam de qualquer envolvimento direto no narcotráfico — pois afinal uma confissão, uma prova documental e um indiciamento, somados, dão algo mais que uma mera conjetura –, igualmente leviano seria extrair desses fatos, sem mais nem menos, alguma conclusão que incriminasse o candidato petista como cúmplice consciente de atividade ilícita.

4. Não obstante, restam os pactos. A promessa contida nesses documentos não é parcial nem relativa: é total e incondicional. O candidato tem-lhe sido rigorosamente fiel, defendendo com insistência a boa imagem da guerrilha colombiana e atuando como o mais prestigioso porta-voz nacional das alegações em favor dela.

5. No entanto, como eventual presidente da República ele terá, e como candidato já tem, outro e bem diverso compromisso a cumprir: o compromisso com o Estado brasileiro, com a nação brasileira, com as leis brasileiras.

6. Essas duas lealdades são manifestamente incompatíveis, em qualquer grau e em qualquer sentido que seja: um presidente da República não pode ser o fiel guardião das leis de seu país se, de antemão, já vem comprometido com a defesa de uma entidade possivelmente criminosa, sob investigação pelas autoridades brasileiras. Mesmo um advogado, no exercício de suas tarefas profissionais, já estaria moralmente impedido de exercer a presidência da República se vinculado com empresa acusada de simples sonegação de impostos. Quanto mais não o estará então aquele que, sem nenhum dever de ofício, e tão somente por opção pessoal, sobe ao cargo trazendo o ônus insuportável de um compromisso assinado com organização ilegal, sob suspeita de crimes infinitamente mais graves que meros delitos fiscais, de crimes verdadeiramente hediondos, que importam em danos temíveis à segurança nacional e no macabro desperdício de milhares de vidas humanas no consumo de drogas e em infindáveis guerras de traficantes entre si e com a polícia?

7. Eleito, o sr. Luís Inácio Lula da Silva terá de abjurar publicamente de um desses dois pactos: de seu compromisso de correligionário para com as Farc ou de seu compromisso de presidente para com a nação brasileira. Que ele assine o termo de posse e exerça o cargo por um só dia, por um só minuto, sem tornar explícita a sua escolha, sem rasgar uma de suas assinaturas para fazer valer a outra, e este país é que terá abjurado de si mesmo, colocando uma aposta cega na boa reputação das Farc muito acima da nossa Constituição, das nossas leis e da soberania nacional.

8. Que, mesmo antes disso, ao apresentar-se como candidato e perseverar em campanha por meses, esse homem se abstenha de dizer uma só palavra clara a respeito; que em vez disso continue indefinidamente a cultivar a dupla lealdade sob um manto nebuloso de evasivas e rodeios, é, no mínimo, um sinal de consciência moral frouxa, pouco exigente, mais afeita à esperança louca das acomodações impossíveis do que à coragem viril das escolhas decisivas.

9. Que, de outra parte, muitos brasileiros, sabendo da contradição latente nessa candidatura, se esquivem de exigir do seu titular a abjuração explícita e inequívoca de compromissos incompatíveis com a dignidade presidencial, eis um fato que não pretendo explicar de maneira alguma, pois isso importaria em investigações complexas que transcendem o escopo do presente artigo, mas pelo qual, um dia, essas criaturas terão de responder, ao menos, ante o tribunal das suas consciências.

Papel Higienico

Quer provenham do próprio PT, das dissidências esquerdistas | Zero Hora

enragées , do social-democratismo tucano, das hostes liberais ou do punhado de remanescentes do regime militar que o consenso dos anteriores classifica de “extrema direita”, os críticos de Lula só condenam nele uma coisa: seu “oportunismo fisiológico”, seu “egoísmo burguês”, seu “abandono dos ideais socialistas”, sua “traição à causa do proletariado”. As fórmulas verbais são muitas, o esquema de pensamento é constante e uniforme.

O ex-ministro Jarbas Passarinho, que só tem de esquerdista o que tem de extraterrestre, chega a jogar na cara do presidente ladrão o parágrafo célebre em que Bakunin acusa os proletários de deixarem de ser proletários tão logo chegam ao poder — como se o assalto revolucionário à máquina do Estado não fosse ele próprio um roubo, como se o ladrão que rouba ladrão fosse mais condenável do que aquele que rouba homens honestos.

E não é preciso lembrar a figura patética do governador paulista, acossado pelas hostes do PCC e pelo governo federal, tentando fazer-se de bom menino por meio de um discurso contra a “elite branca egoísta”.

Do conjunto das críticas, a impressão que sobra na mente do público é que o critério supremo da honestidade é a ideologia esquerdista, a virtude máxima residindo na obediência fiel à moral do partido. Um dia, Lula passará, mas os efeitos dessa propaganda obsessivamente repetida permanecerão. Longo tempo depois de desaparecidas da memória popular as imagens do mensalão, do dinheiro na cueca, das testemunhas assassinadas no caso Celso Daniel, do pseudo-padre Medina gabando-se de trazer dinheiro das Farc para o PT, os valores em nome dos quais esses episódios foram condenados ainda estarão vivos na alma de todos. Quando ninguém mais se lembrar de Lula, todos ainda se lembrarão de que é feio não ser socialista.

Entre os que mais terão contribuído para esse resultado, contam-se os liberais, os conservadores e até os “extremistas de direita” que não ousaram falar em nome de seus próprios valores, preferindo fingir-se de esquerdistas na esperança louca de “dividir o adversário” – como se historicamente já não estivesse provado, há décadas, que a esquerda não precisa de unidade, que ela cresce e prospera por divisão e cissiparidade, como as amebas.

O mais irônico, em tudo isso, é que enquanto a direita condena o presidente por infidelidade ao esquerdismo, os líderes maiores da esquerda continental, os comandantes do processo revolucionário, Castro, Chávez, Kirchner, Morales e os chefes das Farc, sem contar a mídia esquerdista chique do mundo inteiro, continuam a tratá-lo como amigo e homem de confiança, e nenhuma denúncia contra ele se ouve nas reuniões do Foro de São Paulo. Enquanto seus adversários, achando-se muito espertos, se embriagam na ilusão de jogar a esquerda contra ele, o sujeito continua a funcionar como uma peça saudável e preciosa da máquina esquerdista. É o caso de perguntar a todos esses críticos: Vocês não percebem que estão sendo usados para limpar a sujeira petista, não percebem que a esquerda está rindo de vocês? Não sabem que depois de cumprida sua função na estratégia esquerdista vocês serão jogados na privada como um farrapo de papel higiênico? Mas, depois de tantas concessões e acovardamentos, talvez seja realmente esse o único papel que a direita ainda sonhe em desempenhar na história do Brasil.

Em 9 de julho de 2006

Puro Teatro Nada Mais

Quarta-feira, dia 15, a | Diário do Comércio

Folha de S. Paulo publicou uma entrevista minha, apresentando-me como o “decano”, entre merecidíssimas aspas, de uma nova corrente política de direita que estaria surgindo no país, e convocando, naturalmente, meia dúzia de tagarelas de esquerda para sondar as causas de tão alarmante fenômeno.

O fato mesmo de que ele tenha de ser explicado mostra o quanto parece anormal e surpreendente no Brasil de hoje.

Sou testemunha direta e pessoal da estranheza, mista de terror pânico, que a simples hipótese de alguma resistência, mesmo isolada, mínima e solitária, suscitava entre os esquerdistas uns anos atrás. Lembro-me perfeitamente bem da brutalidade mental psicótica com que reagiram ao meu ingresso em cena, reunindo-se instantaneamente em esquadrões de emergência para repelir o intruso. Os métodos usados revelavam a gravidade apocalíptica que enxergavam no episódio: xingar histericamente o recém-chegado, fingindo ao mesmo tempo superior desprezo olímpico; criminalizá-lo, atribuindo-lhe toda sorte de ligações sombrias com pessoas e entidades que ele ignorava por completo; acusá-lo alternadamente de ser um agente bem pago de potentados internacionais e um pé-rapado a quem ninguém jamais pagaria coisa alguma; suprimir toda menção aos seus livros e aulas de filosofia, para dar a impressão de que se tratava de um mero polemista de mídia; espalhar toda sorte de invencionices contra ele nas salas de aula, longe da possibilidade de uma resposta; por fim, mobilizar estudantes fanatizados para que o agredissem e matassem, e ao mesmo tempo chamá-lo de “raivoso”, como se numa competição de hidrofobia eu fosse páreo para terroristas e assassinos.

Tais foram os procedimentos de critica literária usados para o meu livro O Imbecil Coletivo .

Tudo isso revela até que ponto o esquerdismo era e é ainda o estado normal e obrigatório em toda a mídia, em todo o movimento editorial, devendo qualquer exceção ser denunciada como ameaça à ordem pública ou sintoma de desarranjo mental. À imagem e semelhança do que as placas nos botequins nos advertem quanto à condição de corintiano, o ser humano nasce, cresce, vive e morre esquerdista. Quando ele se recusa a fazer isso e já não se pode dar um sumiço no desgraçado, então é preciso chamar uma junta médica para diagnosticá-lo.

Dada a situação premente, alguns dos diagnósticos assumem a forma de uma busca de culpados pelo advento de semelhante descalabro.

Culpados não são difíceis de encontrar. O ambiente doméstico da esquerda tem hoje uma superpopulação de sacos de pancada. Se não fosse o “tombo ético” (sic) da administração petista, conjetura o jornal, parece que Olavo de Carvalho e quejandos jamais emergiriam das trevas do anonimato onde jaziam soterrados por um decreto da justiça cósmica.

Da minha parte, jamais vi “tombo ético” algum. Originado da promiscuidade entre o movimento sindical e a pseudo-intelectualidade uspiana, o PT é filho de um vigarista com uma prostituta. Nasceu ladrão e só evoluiu nos métodos. Exemplo da conduta de seu pai é a confissão da CUT, já em 1993, de que tinha oitocentos jornalistas na sua folha de pagamentos – uma compra de consciências por atacado que só encontra paralelo, talvez, no orçamento da KGB. Quanto à mamãe, tem vivido da impostura intelectual e do corporativismo mafioso da esquerda pelo menos desde os anos 50.

As denúncias de corrupção grossa no PT já datam de 1990. O único resultado que produziram foi a expulsão do denunciante. Atribuir a roubalheira atual a um “tombo” é um truque de linguagem usado pelos gerenciadores de danos para limpar o passado na imagem de um presente que já não se pode salvar. Sabem que no momento perderam toda credibilidade, mas querem guardar para o futuro os dividendos de uma lenda de santidade laboriosamente construída com a ajuda dos oitocentos empregadinhos da CUT.

O expediente serve também para cada um tirar o corpo fora da responsabilidade pela criação do monstro vexaminoso que é o PT no poder. Não havia nessa droga de partido um só militante ou simpatizante medianamente alfabetizado que, em 2002, ignorasse as denúncias de Paulo de Tarso Venceslau ou do irmão do prefeito Celso Daniel, nem os esforços da cúpula partidária para abafar ambos esses escândalos, esforços que, no segundo desses casos, vieram a ocorrer — por coincidência, por pura coincidência, é claro – junto com o assassinato de seis testemunhas do processo. Se todos se recusaram a ver aí qualquer sinal de bandidagem no partido; se não só continuaram a confiar nele mas redobraram a aposta na sua idoneidade, ao ponto de fazer da eleição de Lula um acontecimento comparável ao Segundo Advento, por que foi? Só pode ter sido por uma destas duas razões: ou apegaram-se tão fanaticamente ao mito da santidade petista que mesmo fatos visíveis com os olhos da cara não podiam abalar sua fé; ou, ao contrário, sentiam perfeitamente o mau cheiro mas preferiram tampar o nariz para não perder a oportunidade de ter amigos e correligionários no poder, por mais fedidos que fossem. Na primeira hipótese, mostraram-se obstinados na credulidade até o limite da estupidez criminosa. Na segunda, provaram ser tão maldosos e vigaristas quanto qualquer José Dirceu. Em ambos os casos, desqualificaram-se completamente para qualquer ofício intelectual que se preze.

Duvido que, no fundo, muito no fundo, cada um deles não saiba disso perfeitamente bem e, ao contemplar-se solitário no espelho, não se veja com orelhas de burro ou feições de criminoso.

Como atenuar semelhante desconforto? Apelando, é claro, ao mesmo recurso de sempre: fingimento, pose, histrionismo. O intelectual ativista do Terceiro Mundo é, por tradição, um ator, um palhaço, um tipo caricato que, no esforço de ocultar seu próprio ridículo, se torna patético. É alguém que se alimenta da mentira e do auto-engano em doses que, para o cidadão comum, seriam letais.

Para camuflar ao mesmo tempo sua própria desmoralização e, de modo geral, a debacle irreversível do pensamento de esquerda no mundo, os diagnosticadores do neodireitismo empinam o narizinho, levantam professoralmente o dedo indicador, e, ante um público que presumem ignorar tudo, imitam seus próprios trejeitos de superioridade acadêmica de outras épocas, tentando mostrar que ainda são os donos do pedaço, os juízes supremos de toda aspiração intelectual possível, imbuídos da autoridade de barrar na porta os pretendentes novatos.

É claro que essa superioridade, mesmo em tempos passados, já era pura propaganda enganosa. O boicote geral a um Gustavo Corção ou a um Gilberto Freyre, o silêncio obsceno em torno da obra de um João Camilo de Oliveira Torres, já provavam que não havia ninguém na esquerda com cacife para discutir com qualquer dos três.

Mas, não podendo arrogar-se ostensivamente uma qualidade que já sabem duvidosa, limitam-se a dá-la como pressuposto implícito, na esperança de que seja aceita por distração. E, fazendo-se de juízes justos que só medem o similar pelo similar, tratam de ostentar desprezo à “nova direita” por meio de comparação com a “velha”, proclamando que já não há na praça nenhum Mário Henrique Simonsen, nenhum Roberto Campos, nenhum José Guilherme Merquior.

O grotesco da performance não tem limites. Desde logo, se esses três são até hoje os modelos de intelectuais conservadores mais citados pela esquerda, é graças apenas à afinidade que têm com ela, os dois primeiros por serem economistas e argumentarem numa clave bastante acessível ao cérebro esquerdista médio, o terceiro por ter raízes no esquerdismo acadêmico e jamais tê-las cortado para valer, ao ponto de só ter trocado o seu marxismo cultural de juventude por um ateísmo burguês de molde iluminista bem típico, inteiramente compreensível à mentalidade de seus adversários. O esquerdismo é uma cultura tribal, um círculo etnológico fechado que, no universo em torno, só reconhece o que lhe é semelhante. Mesmo o antagonismo já tem de vir catalogado, senão é tido por inexistente. Ninguém da tribo se aventurou jamais, por exemplo, a uma discussão com Miguel Reale, espírito incalculavelmente superior aos três citados, porque isso obrigaria a leituras que escapavam, de longe, à esfera de percepções habituais da esquerda na época. Muito menos havia na taba quem pudesse entender, mesmo por alto, a obra de um Vicente Ferreira da Silva, de um Vilém Flusser, de um João Camilo, de um Paulo Mercadante. Nem menciono Mário Ferreira dos Santos, tão grande que escapa não apenas à visão, mas à imaginação esquerdista. Não que o desconhecessem. Conheciam-no perfeitamente, e passaram por tantas humilhações na presença dele que por fim o excluíram do seu horizonte de consciência, como se faz com um trauma que não se consegue superar. Amputados os andares superiores, a cultura conservadora recortada à escala do QI esquerdista compõe-se de dois economistas e um crítico literário – muito bons os três, cada um no seu domínio, mas nenhum necessário, em termos absolutos, à formação de um pensamento conservador intelectualmente relevante.

Ao escolher essa régua para medir a “nova direita”, os saberetas consultados pela Folha mediram-se tão somente a si mesmos.

No mais, o fenômeno conservador que assinalam, abstraída a minha obra pessoal da qual não se aventuram a dizer um “a”, pois não são bobos de dar a cara a tapa, se limita até agora à crítica jornalística, o que torna ainda mais extemporâneo o julgamento que fazem. Esse neoconservadorismo, ainda no berço, não tem sequer expressão política, quanto mais uma produção bibliográfica que pudesse ser confrontada com as de Merquior, Simonsen e Campos, acumuladas ao longo de décadas de trabalho. As próprias condições adversas em que surgiu, incomparáveis com o conforto e a segurança de que desfrutaram esses três, tornam o paralelo esboçado na Folha apenas um exercício de cinismo e impropriedade, bem ao feitio de quem, não tendo a menor idéia de onde está, quer dar a impressão de que está por cima.

Mas não imaginem que empreendimentos diagnósticos dessa natureza sejam exclusividade brasileira. Nos EUA pululam hoje em dia estudos sobre a “direita religiosa”, procurando caracterizá-la como um fenômeno inédito, estranhíssimo e necessitado de explicação científica, como se os primeiros Founding Fathers já não fossem conservadores religiosos, como se a América não tivesse sido sempre o país mais cristão e pró-capitalista do universo, como se tivesse sido desde a origem uma nação de socialistas ateus que, de repente, com susto enorme, vissem descer do Mayflower o primeiro pregador protestante.

Esquerdismo é teatro, nada mais.

Vocês não conseguem imaginar como, vista dos EUA, a mídia brasileira é boba em tudo o que noticia da política americana. O pessoal aí continua fazendo barulho em torno da “invasão de privacidade”, que é como chamam as gravações de telefonemas de terroristas, enquanto aqui o Partido Democrata e o Republicano já entraram num acordo de nem investigar mais o assunto.

Cabeça de político americano é absolutamente impenetrável ao olhar rombudo dos nossos jornalistas. No Brasil, quando alguém lança uma campanha de mídia contra um governante, é porque pretende criar uma CPI contra ele, meter-lhe um processo, submetê-lo a impeachment , acabar com a raça do desgraçado. Nos EUA, fazer onda na mídia significa exatamente que não se pode fazer nada disso contra o sujeito. Quando se tem alguma coisa de substantivo para fazer, faz-se logo de cara. O barulho nos jornais vem depois. Quando são estes últimos que começam a encrenca, geralmente ela pára por aí. No caso De Lay, ninguém anunciou nada contra ele. O infeliz acordou com um processo nas costas. Se não houvesse meio de dar um jeito nele, lançariam uma chuva de calúnias no Washington Post . A mídia chique americana é o instrumento por excelência do blefe político. A rigor, só serve para isso. Para obter informação, você tem de ir direto aos aos think tanks dos partidos e suas respectivas publicações impressas e eletrônicas, que são muitas.

Qualquer correspondente estrangeiro tem a obrigação de saber disso, mas, se o bicho é brasileiro, todo o trabalho dele consiste em acordar do porre às duas horas da tarde e copiar o New York Times , que, cá entre nós, só serve para embrulhar peixe (experimentem só dar uma espiada no site http://www.timeswatch.org ). Foi por esse método que toda a nossa mídia celebrou antecipadamente a vitória de John Kerry nas últimas eleições.

Se alguém ainda lê os jornalões brasileiros, é por saudosismo. Lêem como num ritual espírita, à espera de que ali baixem o dr. Júlio Mesquita ou o dr. Roberto Marinho.

O Revolucionario Aburguesado

Quando um | Diário do Comércio

topos — um argumento padronizado ou lugar-comum — é vazio e idiota o bastante para poder ser usado igualmente pelo discurso da esquerda e pelo da direita, ele tem tudo para se consagrar como dogma inabalável do credo público. Deixem-no circular um pouco, e em breve ele se tornará premissa fundante e supremo critério de prova para a aferição de milhares de opiniões em circulação.

O exemplo mais comum, na mídia brasileira, é o do revolucionário aburguesado. Pelo menos uma vez por semana aparecem opinadores iluminados proclamando que tal ou qual político, tal ou qual partido, tal ou qual grupo militante era de esquerda mas já não é mais: continua na luta só por dinheiro, por desejo de poder, por interesse egoísta.

A direita utiliza esse giro de linguagem para as seguintes finalidades: (a) queimar a reputação de algum esquerdista perante seus próprios companheiros, apelando maliciosamente aos valores que lhes são caros; (b) tentar dividir as hostes esquerdistas, semeando suspeitas quanto à lealdade mútua entre os vários grupos que a compõem: (c) minar a autoconfiança do movimento esquerdista, insinuando que é um culto esvaziado pela descrença e pela apostasia; (d) enaltecer o capitalismo por meio de uma retórica invertida e satânica, atribuindo-lhe o poder atrativo de uma tentação irresistível e, desta forma, buscando transmutar o aburguesamento dos revolucionários numa profecia auto-realizável.

Não é preciso dizer que, nas quatro hipóteses, o que se obtém é no máximo alguma vantagem tática menor em troca de uma perda estratégica irreparável: quanto mais as crenças e valores nominais de um grupo político são usados como arma de chantagem moral contra o mesmo grupo, mais esses valores saem engrandecidos e essas crenças fortalecidas. Quando a direita apela a esse truque de retórica chinfrim, acreditando ser muito esperta por isso, o que ela consegue é servir de instrumento à propaganda ideológica esquerdista.

A esquerda, não raro aproveitando-se dessa mesma circunstância, emprega a figura do revolucionário aburguesado de maneira menos variada, porém um pouco mais eficiente: serve-se dela para limpar-se de seus crimes, atribuindo-os a traidores que teriam abandonado os belos ideais da revolução e passado a delinqüir em benefício próprio. Esse topos foi fartamente usado a propósito do primeiro escalão petista quando se tornou impossível ocultar a magnitude de seus feitos ilícitos, em comparação com os quais os Anões do Orçamento se tornavam gigantes de moralidade e civismo. Não por coincidência, aqueles que bradavam contra os corruptos do Planalto nas páginas da mídia burguesa omitiam-se de fazê-lo no círculo mais íntimo do Foro de São Paulo, provando destarte que, em família, ainda tinham por aqueles alegados desertores a consideração devida a companheiros fiéis.

O mesmo artifício serviu para atenuar o vexame do seqüesto do publicitário Washington Olivetto, quando, em peso, a elite esquerdista chique de São Paulo se mobilizou para apresentar o autor principal do crime, Maurício Norambuena, como um desertor do MIR chileno ( Movimiento de la Izquierda Revolucionaria ), empenhado em enriquecer a si próprio mediante o uso indevido dos truques de guerrilha urbana aprendidos nos anos dourados da sua militância idealista. Como ao mesmo tempo aquelas pessoas maravilhosas reivindicassem a libertação do prisioneiro, a impressão que ficava na retina do público era profunda e indelével: a esquerda era uma facção política tão bondosa, tão generosa, que não hesitava em lutar até mesmo pelos direitos humanos de um traidor e apóstata. Liberto e enviado de volta ao Chile, logo depois Norambuena posava para uma fotografia com os líderes do MIR, todos abraçadinhos, ostantando disciplinadamente a bandeira do movimento.

Nos último dias, o estereótipo do revolucionário aburguesado voltou à cena, desta vez para limpar a imagem da revolução latino-americana inteira, poluída temporariamente pelas notícias a respeito de Ingrid Bettancourt e de outros reféns mantidos em cativeiro pelas Farc, sob condições inumanas. Por toda parte ecoa o mesmo refrão: aqueles desavergonhados colombianos fazem essas maldades porque se aburguesaram, só pensam em dinheiro e nem se lembram mais de seus ideais de juventude. Mas, novamente, a acusação só será alardeada na imprensa burguesa. Nem uma palavra contra os supostos traidores se ouvirá nas reuniões do Foro de São Paulo, o tribunal supremo da pureza revolucionária. Ali, num ambiente de camaradagem íntima, eles continuarão a ser tratados com deferência, respeito e tapinhas fraternais nas costas. O fingimento é tão visível como se nos tempos da Inquisição um bispo católico, acusando de heresia um sacerdote, insistisse em fazê-lo só diante de uma assembléia de ateus, sem dar ao Santo Ofício a mínima ciência do ocorrido e continuando a aceitar o dito herege como seu confessor e guia espiritual.

Mas muitos séculos, talvez, ainda hão de decorrer antes de a direita nacional perceber que o topos do revolucionário aburguesado não lhe serve para enganar a ninguém, mas só para torná-la ainda mais vulnerável ao mesmo truque quando usado pela esquerda.

Em 13 de dezembro de 2007

Censura E Desinformacao

Publicado no site | Especial para

Ternuma em 26 de novembro de 2000 Quantas reportagens o prezado leitor leu na imprensa ou viu na TV, ao longo dos últimos vinte anos, sobre esquerdistas mortos pelos governos militares? Quantas sobre os homicídios cometidos pelas organizações de esquerda? Quantas sobre a revolução comunista já em plena realização em março de 1964, que uma reação oportuna fez abortar?

Basta o leitor responder a essas perguntas com dados exatos, e terá uma idéia do que é bloqueio de informações. Sim, o controle que a esquerda exerce sobre os meios de comunicação no Brasil já não pode ser chamado de “patrulhamento”, porque patrulhar é vigiar homens livres. Os poucos liberais e conservadores que ainda restam na nossa imprensa são prisioneiros. Não estão sob a vigilância de “patrulhas”. Estão sob a guarda de carcereiros. Ainda podem se mover, mas seu espaço é controlado para não ultrapassar uma área mínima, calculada na medida justa para dar uma impressão de democracia. E devem se restringir a áreas seletas, especialmente à seção editorial e aos comentários econômicos, só lidos por uma elite. O noticiário, que atinge a massa dos leitores, é zona proibida. A seleção é extremamente inteligente: os direitistas podem ter “opiniões”; a seleção dos “fatos” fica com a esquerda.

Tão completo e inquestionado é o domínio que ela aí exerce, que, com a maior desenvoltura, pode passar da seleção à invenção sem sentir o menor escrúpulo de consciência ou o menor temor de ser desmascarada.

Outro dia, ouvi, num programa de TV que se dava ares de reconstituição histórica, a informação de que no governo militar a censura mudou para mais tarde o horário da novela “Sangue do meu Sangue” porque ela tratava da luta abolicionista.

Isso dito assim, na lata, com uma prodigiosa cara de pau.

Mas a sucessão de lendas macabras que faz as vezes de “História” daquele período é tão caudalosa, a expressão de seriedade com que renomados professores repetem essas fábulas é tão convincente, e sobretudo o silêncio daqueles que conhecem os fatos é tão geral e profundo, que é bem possível que a população, reduzida à mais inerme sonsice por esse massacre midiático, chegue mesmo a acreditar que os militares de 1964, além de assassinos, sádicos, torturadores, ladrões e vendidos ao imperialismo, eram também escravagistas.

Diariamente, dez ou vinte mensagens desse tipo são enxertadas na programação de vários canais. “Enxertadas” é a palavra. São sempre frases breves, com aparência de casuais, inseridas no curso de alguma fala sobre assunto diverso, de modo a captar não a atenção do espectador, mas, precisamente, a sua desatenção. Não visam a produzir a aquisição consciente de uma informação, mas a absorção inconsciente de um hábito. Não se incorporam ao acervo de conhecimentos do espectador, mas à programação de suas reações impensadas, que, por isto mesmo, ele acaba sentindo como as mais livres e espontâneas.

Não menos perversa do que a ocultação completa ou do que a insinuação velada é a pseudo-divulgação, que noticia um fato de modo a propositadamente evitar que chame a atenção. Esta notícia, por exemplo, que normalmente deveria suscitar debates e novas investigações, saiu num canto de página, como que para encerrar o assunto:

Cuba treinou 202 brasileiros, diz Exército Mário Magalhães Folha de S. Paulo , domingo, 11 de junho de 2000 O governo de Cuba promoveu, de 1965 a 1971, treinamento de guerrilha para no mínimo 202 militantes de esquerda brasileiros.

Eles fizeram cursos — de três meses a um ano de duração — de guerrilha rural e urbana, fotografia, imprensa, enfermagem, inteligência, instruções revolucionárias e explosivos.

Num programa padrão de seis meses, eram dadas aulas de fabricação de bombas caseiras, uso de armas, sabotagem, camuflagem e outras técnicas de ações clandestinas na cidade e no campo.

Ao voltar, os brasileiros recebiam um kit dos cubanos com US$ 1.000, roupas e orientações para contatar companheiros no Brasil. Havia dez instrutores militares principais.

As informações constam do álbum “Cursos realizados em Cuba”, documento confidencial distribuído para órgãos de repressão política em 21 de novembro de 1972 pelo Comando do 1o Exército. O álbum, com 107 páginas, foi encontrado pela Folha no Arquivo Público do Estado do Rio.

As fontes aparentes são depoimentos de guerrilheiros depois presos no Brasil — não é citada a tortura, então disseminada — e agentes infiltrados que cursaram a “escola” cubana.

De acordo com o Exército, outros 43 brasileiros podem ter recebido, no período 1965-71, formação militar do governo comunista de Fidel Castro.

O objetivo era prepará-los para a luta armada contra o regime militar brasileiro (1964-85). Não deu certo.

Da lista elaborada pelo Exército, há pelo menos três militantes que hoje são parlamentares: os deputados federais José Dirceu (PT-SP) e Fernando Gabeira (PV-RJ) e o deputado estadual do Rio Carlos Minc (PT).

Dirceu integrou o Molipo (Movimento de Libertação Popular). Gabeira, o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Minc, a Var-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária — Palmares) e a VPR.

Atualmente, os três são tidos como “moderados” pela esquerda mais radical.

Assim um jornal resguarda sua imagem de imparcialidade, ao mesmo tempo que contribui decisivamente para que só a voz de um dos lados seja ouvida. Por que a “Operação Condor”, tão logo desentranhada dos arquivos, desperta um escândalo nacional, e logo depois a notícia da interferência cubana que a provocou é publicada discretamente, sem comentários e sem o menor eco nos programas de TV, nos meios intelectuais, no próprio governo? A resposta é simples: após quarenta anos seguidos de “trabalho de base” nas redações, sem encontrar a menor resistência, os comunistas conseguiram impor seus critérios ideológicos como se fossem a única norma existente, a única norma possível do bom jornalismo. Hoje em dia, milhares de jornalistas que de comunistas não têm nada subscreveriam a seguinte declaração: “ A missão da imprensa é minar, pela crítica, as instituições vigentes ” – sem saber que a frase é de Karl Marx e que ela não é uma receita para fazer jornalismo e sim para fazer uma revolução comunista.

A característica mais notável do atual jornalismo brasileiro é a troca progressiva da informação pela desinformação sistemática.

O termo desinformação surgiu pela primeira vez em língua russa:

desinformátsia . É termo técnico concebido pelo Comintern — o comando do movimento comunista internacional — para designar o uso sistemático de informações falsas como instrumento de desestabilização de regimes políticos.

O objetivo central da desinformação é produzir o completo descrédito das instituições, induzindo a opinião pública a transferir aos agentes da desinformação a confiança que normalmente depositaria no Estado, nas leis e nos costumes tradicionais. O processo é bem conhecido e já foi descrito em muitos livros, por exemplo o clássico de Roger Mucchielli, La Subversion (Paris, Bordas, 1971) e o Tratado de Desinformação de Vladimir Volkoff (publicado originalmente em francês pelas Éditions du Rocher, mas do qual só tenho em mãos a tradução romena, Tratat de Dezinformare. De la Calul Troian la Internet , tr. Mihnea Columbeanu, Bucuresti, Antet, s/d).

O Petit Robert define desinformação como “o uso de técnicas de informação, notadamente de informação de massa, para induzir em erro, ocultar ou travestir os fatos”. Desinformar, segundo o mesmo dicionário, é “informar de maneira a ocultar determinados fatos ou a falsificá-los”. Mas a palavra não apareceu em línguas ocidentais antes de 1972, quando o Chambers Twentieth Century Dictionary, publicado em Londres, traduziu desinformátsia como “ deliberate leakage of misleading information ”.

A desinformátsia não apareceu de repente, mas teve antecedentes milenares — Sun-Tsu já dizia: “Todo esforço de guerra baseia-se no engodo”. As diferenças específicas que a tornam um fenômeno peculiar do século XX são as seguintes:

1. Ela é usada não somente como instrumento de guerra entre Estados, mas sobretudo por forças revolucionárias que agem dentro de seus próprios países, seja por iniciativa própria, seja a serviço de outros Estados.

2. Para muitos Estados modernos — bem como para os poderes internacionais que hoje nos impõem uma “Nova Ordem Mundial” — fomentar revoluções nos outros países tornou-se um modus operandi normal e predominante, mesmo em tempo de paz. A moda começa com a casa real francesa, que ajuda a Revolução Americana para prejudicar a Inglaterra, sem imaginar que com isto atraía a maldição sobre si mesma. A Inglaterra aprende a lição e ao longo do século XIX fomenta revoluções nas colônias americanas para destruir seus concorrentes ibéricos. Os EUA atiçam revoluções no México para se apropriar do Texas e da Califórnia. Até aí, porém, o uso desse instrumento era esporádico. A Revolução Russa assinala o surgimento do primeiro Estado voltado essencialmente a fomentar revoluções no resto do mundo: cada “guerra de libertação” resulta na expansão colonial da URSS. A Alemanha nazista copia esse procedimento durante algum tempo, sem muito sucesso. Com a queda da URSS, a China e Cuba tornam-se os derradeiros fomentadores de revoluções comunistas, ao mesmo tempo que a disseminação de revoluções — com o nome atenuado para “movimentos sociais” — é adotada pelos grandes organismos internacionais como um dos procedimentos básicos para expandir e consolidar seu poder sobre as nações do Terceiro Mundo.

3. De elemento auxiliar dos meios de ataque físicos, a informação tornou-se o campo e instrumento predominante da atividade guerreira.

Tudo isso veio a tornar a desinformátsia uma arma de uso generalizado e permanente, principalmente depois que, pela primeira vez na história dos imperialismos, a expansão da URSS se fez muito mais pelo artifício de fomentar revoluções do que pelo envio de tropas, de modo que praticamente cada “guerra de libertação” ocorrida no século XX terminou com a instauração de mais um satélite soviético.

Não obstante, a liberdade de imprensa assegurou que, nas democracias ocidentais, uma grande parte dos meios de comunicação conservasse sua independência, seja dos governos de seus próprios países, seja de forças internacionais interessadas em utilizá-los para seus objetivos. Assim, uma diferença radical entre o jornalismo profissional de informação e o jornalismo de desinformátsia e combate permanece ainda bem visível, em linhas gerais, na maioria dos grandes jornais dos EUA e da Europa.

O que singulariza o caso brasileiro é a total supressão dessa diferença e a adoção maciça da desinformátsia em lugar dos procedimentos válidos do jornalismo. Tão geral e avassaladora foi essa transformação, que hoje a maior parte dos jornalistas já não tem mais a menor idéia do que seja o jornalismo normal e, ao praticar descaradamente a desinformátsia , acredita estar fazendo o único e melhor jornalismo possível. Apenas uma elite dirigente tem plena consciência de que não está informando o público, mas manipulando-o para utilizá-lo numa operação de guerra. Nas redações, a maioria dos profissionais não tem sequer uma consciência teórica dessa distinção.

Tudo O Que Voce Queria Saber Sobre A Direita E Vai Continuar Nao Sabendo

Prosa & Verso | O Globo

, 22 de setembro de 2000 O leitor sabe quem são von Mises, Hayek, Rothbard, Kirk, Muggeridge, Horowitz, Sowell, Babbit, Scruton, Peyrefitte, Jouvenel, Voegelin, Guénon, Nasr, Schuon, Lindblom, Rosenstock-Huessy, Rosenzweig, Kristol? Se perguntar a um direitista culto, ele lhe dirá: São os principais pensadores de direita do século XX. Mas, se procurar os seus nomes na lista de verbetes deste “Dicionário Crítico do Pensamento de Direita”, não os encontrará. Em lugar deles, topará com uma lista de tarados, psicopatas, esquisitões, assassinos e genocidas — de Röhm a Eichmann –, muitos deles de identidade ideológica incerta, além de autores de terceira ordem e personagens de importância episódica. De escritores significativos, só os mais enfezados e atípicos, como Charles Maurras, que terminou excomungado por um papa conservador, e Ezra Pound, cujos escritos políticos ninguém leu e que o próprio autor do verbete só conhece por referência indireta. Dos direitistas normais sobraram apenas Ortega, Pareto, Schmitt, Michels, Mosca, Heidegger, Gentile e Burke, além de alguns brasileiros. Em compensação, há verbetes sobre Walt Disney, cuja única contribuição ao “pensamento de direita” foi delatar uns agentes comunistas, sobre Eleonora Duse, da qual só não se pode dizer que não deu nada porque foi amante de um direitista, e sobre Monica Lewinsky, que para a direita só deu assunto.

Se você quer saber o que é a direita, não há de ser aqui que vai obter uma resposta. Mas, se quer saber o que a esquerda deseja que você imagine que a direita é, então, amigo, este é o livro para você. Devore estas páginas em que 120 professores torraram o melhor de seus neurônios e uma substancial verba de pesquisa, e sairá ignorando tudo o que é preciso ignorar para passar de ano na escolinha de militantes em que se transformou a universidade brasileira.

É verdade que o Dicionário começa com uma introdução onde o organizador mostra não ignorar o assunto de todo. Mas, se ele sabe o que é conservadorismo, então por que permite tanto esforço, no resto do livro, para confundi-lo com fascismo e nazismo, que tiveram contra si as mais poderosas forças conservadoras da modernidade, o “establishment” norte-americano e o Império Britânico? De 282 verbetes, 67 são sobre nazismo — a quarta parte do livro, sem uma menção sequer ao fato de que eminentes conservadores julgam o nazismo um movimento de esquerda. Especialmente útil para consolidar a noção falsa é a profusão de verbetes sobre anti-semitismo, todos omitindo que esse fenômeno nada tem de essencialmente direitista, já que endossado por Karl Marx e praticado abundantemente na URSS.

Um “dicionário do pensamento de esquerda” que, omitindo a maioria dos autores essenciais, ao mesmo tempo enfatizasse os cem milhões de mortos, o Gulag, os Processos de Moscou e o trabalho escravo que construiu as economias da URSS e da China, mesmo sem faltar com a verdade nos detalhes, seria considerado pura propaganda direitista e não mereceria comentário. Mas este é propaganda enganosa, que atribui à direita pecados notórios da esquerda, como por exemplo a política racial norte-americana que fortalece as identidades dos grupos separados, incentivando o orgulho e a divisão.

As 460 páginas do livro, divididas pelo número de autores, resultam em menos de quatro para cada um, seguidas de indicações bibliográficas que raramente ultrapassam o total de cinco títulos e quase nunca se reportam a textos originais. Não obstante, o organizador proclama que redigi-las custou quatro anos de trabalho e não poderia ter sido feito sem o auxílio financeiro de três instituições patrocinadoras. Espero, pelo bem da reputação intelectual da equipe, que isso não seja verdade.

O que não se pode negar é que se trata de obra original: este é, nos anais da história editorial, o primeiro livro dedicado a um dos autores que o subscrevem.

Em 22 de setembro de 2000

Livros Neesquerdas Htm

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Pergunta E Resposta

Pergunta | Diário do Comércio

: Por que, entre os esquerdistas decepcionados com Lula, há tantos que aparecem na mídia explicando os crimes dele como efeito de uma “guinada à direita” e nenhum, nem um único sequer, para dizer a mesma coisa nas assembléias e grupos de trabalho do Foro de São Paulo? Por que tantos querem convencer o eleitorado de que Lula os abandonou, mas não se mexem para repassar tão preciosa informação aos líderes máximos da esquerda latino-americana, Hugo Chávez e Fidel Castro, que, coitadinhos, ainda continuam iludidos confiando nele? Por que todos têm tanta pressa em denunciar o traidor ante o público em geral mas nem pensam em avisar as supostas vítimas da suposta traição? Por que permitem que o renegado, o vendido, o apóstata, continue desfrutando do prestígio de militante fiel e honrado nos círculos internos da esquerda, enquanto o desmascaram perante o resto da humanidade?

Resposta : agem assim porque são todos uns farsantes, mentirosos, salafrários como o próprio Lula. Agem assim porque, vendo que o homem está sujo demais perante a opinião pública, só lhes resta tentar limpar nele o projeto criminal-revolucionário que o criou, que o colocou no poder, que montou para ele a máquina de roubar e o adestrou no uso do equipamento. Estão apenas sacrificando o produto para salvar a fábrica. Sabem perfeitamente que estão mentindo. Contam, para isso, com a cumplicidade do próprio Lula. Quando o acusam diante do consumidor, mas não na reunião de diretoria, é porque sabem que em último caso ele é capaz até de sacrificar sua carreira pessoal pela salvação geral do plano. Chamam-no de infiel porque sabem que é fiel. Fiel o bastante para aceitar humilhações em prol da causa. Fiel o bastante para acobertar seus velhos cúmplices mesmo quando o acusam. Fiel o bastante para aceitar com igualdade de ânimo o papel que lhe destinem – de santo ou de réprobo, de herói ou de traidor –, sabendo que no círculo dos iniciados ninguém dá a mínima para a diferença e todo mundo sabe que ele é apenas um “companheiro”, um militante como qualquer outro. Dentro da fábrica de onde ele veio estão estocados, ou em linha de produção, milhares de outros Lulas, e Dirceus, e Paloccis, aguardando para ser lançados no varejo. Não vale a pena jogar fora o estoque inteiro por causa de uns quantos produtos que se desmoralizaram.. Não vale a pena perder clientes por causa de umas quantas vendas mal sucedidas. Ao contrário: pode-se até ampliar o mercado, lançando as culpas do fracasso no concorrente. Aliás, direitista existe para isso. Existe para ser xingado, cuspido, acusado do que não fez – principalmente dos crimes de seus inimigos. Existe para ser removido do emprego, proibido de trabalhar, reduzido à mendicância e depois ainda xingado de explorador capitalista, como se faz com os escritores de oposição em Cuba. Existe para para ser preso, torturado, assassinado às centenas de milhões, e depois ainda acusado de genocida. Existe para dar anistia aos que tentaram matá-lo e depois passar o resto da vida sendo difamado, caluniado, chamado de homicida e torturador. Direitista não é gente. Direitista é uma forma animal com aparência humana, criada pela evolução biológica só para ser sacrificada no altar do progresso, das luzes, do socialismo ou até da justiça poética, a única justiça que interessa quando os crimes da esquerda, como aliás sempre acontece, não rimam com o dogma da impecância essencial do esquerdismo.

P. S. – Os desiludidos a que se refere este artigo são tantos, que citá-los nominalmente ultrapassaria a extensão do Diário do Comércio . Mas, para não dizerem que falei só genericamente, dou o nome de três entre os mais famosos: Luiz Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro e Luiz Eduardo Lins e Silva. Este último usou para fins de lavagem da esquerda até a resenha, no mais elogiosa, que fez do meu livro O Imbecil Coletivo na Folha de S.Paulo . Ser esquerdista, afinal, é ter todos os direitos – e não perder a mais mínima oportunidade de usá-los.

Em 29 de setembro de 2006

Estados E Estados

Paris – Num artigo recentemente publicado no | Jornal da Tarde

Monde Diplomatique (agosto/99), o professor Ricardo Petrella, ilustre acadêmico, começa por lamentar o enfraquecimento dos Estados-nações sob o assalto da nova ideologia empresarial e termina por fazer a apologia do Estado Mundial, cujo advento não poderá deixar de levar esse enfraquecimento às suas últimas conseqüências: a extinção pura e simples dos Estados nacionais e sua substituição por administrações regionais sob as ordens do Leviatã global.

Vê-se claramente que, sob a aparência de uma defesa das nações atualmente existentes contra as sucessivas desapropriações que vêm sofrendo sob o jugo dos poderes econômicos internacionais, o professor Petrella não nos oferece senão a perspectiva de submeter essas mesmas nações a uma desapropriação única, radical e definitiva, tornada boa pelo simples fato de já não ser obra de empresas privadas e sim de uma superburocracia estatal.

Não se trata portanto de proteger a vítima, mas de trocar de ladrão.

Nada é mais ingênuo (ou talvez mais esperto) do que apresentar o quadro atual do mundo como se fosse o de um combate entre as grandes empresas e o Estado, ou, o que dá na mesma, como se não fosse senão uma reedição ampliada do velho conflito do princípio capitalista com o princípio socialista. Esse giro sutil que o enfoque esquerdista impõe à visão da realidade mundial reflete uma intenção de usar a salvação das nações como pretexto para salvar, isto sim, o que ainda pos sa restar da estratégia comunista mundial.

É falso dizer que o neoliberalismo favorece as empresas em detrimento dos Estados; ele favorece abertamente certos Estados contra outros Estados, e favorece sobretudo a ascensão da burocracia mundial, a qual não é nem empresa privada nem Estado-nação, mas uma terceira coisa especificamente diferente dessas duas. Esta coisa, seja lá o que for, é o verdadeiro inimigo dos Estados nacionais – sobretudo dos pequenos e fracos – e, ao mesmo tempo, o verdadeiro inimigo das empresas privadas, ao menos daquelas que ainda confiam no princípio liberal e não sonham com um monopolismo à sombra da proteção do Estado global.

É preciso, absolutamente, distinguir aquilo que o professor Petrella confunde absolutamente: o Estado enquanto princípio abstrato e os Estados enquanto realidades históricas concretas. O globalismo neoliberal se volta contra estes últimos, ao mesmo tempo que favorece o primeiro – sobretudo quando este se apresenta sob a forma monstruosamente inflada de Estado mundial –, mostrando, com isto, que de liberal só tem o nome. A prova é que, na mesma medida em que os neoliberais condenam as legislações nacionais de controle da economia, eles louvam a adoção de idênticos controles quando ampliados à escala mundial. Isto não é combater “o” Estado: é combater “alguns” Estados, sobretudo os pequenos, e favorecer outros Estados, sobretudo os maiores, sobretudo o maior de todos.

Confundindo a defesa dos pequenos Estados nacionais com a defesa do Estado enquanto princípio, o professor Petrella se inscreve, talvez malgré lui , na lista dos apóstolos daquilo mesmo que ele professa combater.

Em 4 de setembro de 1999

O Testemunho De Hilferding

Omnipotent Government | 17 de março de 2002

e Uma Crítica ao Intervencionismo ) e Friedrich Hayek ( O Caminho da Servidão ). Esses estudiosos alegaram e provaram mais do que satisfatoriamente que tanto o comunismo quanto o nazifascismo foram movimentos socialistas revolucionários e anticapitalistas. Seu parentesco decorre do fato de que todos beberam nas mesmas fontes doutrinárias: Hegel, Blanqui, Marx, Sorel e outros.

Fuçando as bibliotecas, descobri o testemunho robusto nesse mesmo sentido de um marxista puro-sangue, Rudolf Hilferding (1877-1941), perdido entre dezenas de depoimentos de comunistas arrependidos reunidos por Julien Steinberg no livro Verdict of Three Decades: >From the Literature of Individual Revolt against Communism, 1917- 1950 . Hilferding, um eminente marxista austríaco, chegou por caminhos diferentes às mesmas conclusões de seus compatriotas liberais a respeito da identidade essencial entre comunismo e nazi- fascismo.

Não se trata de uma opinião qualquer. Hilferding foi talvez o único economista marxista dotado de originalidade e espírito independente além do próprio Marx. Ele estreou na arena das polêmicas teoréticas, ainda muito jovem, desafiando, para o debate sobre da teoria do valor- trabalho, pedra fundamental da doutrina da mais-valia, ninguém menos do que o consagrado Eugen von Böhm-Bawerk, então reconhecido mundialmente como um dos maiores economistas de seu tempo. Bohm- Bawerk publicara uma crítica demolidora à essa concepção fundamental do marxismo. Marx, asseverou o pioneiro do marginalismo, reduz erradamente o valor de uma mercadoria à quantidade de trabalho necessária à sua produção, com isso ignorando exceções óbvias como a terra, que tem valor e não é fruto do trabalho. Ademais, o valor de uso dos produtos é abstraído da análise geral do valor, abstração arbitrária e descabida que invalida irremediavelmente essa teoria como meio adequado de compreensão de seu objeto. Por outro lado, Marx admite que os preços das mercadorias raramente ou mesmo nunca coincidem com o valor de troca supostamente decorrente do trabalho nelas cristalizado, sendo que, aliás, não há como reduzir o trabalho, heterogêneo por definição, a uma unidade de conta homogênea e constante.

Hilferding retrucou ressaltando que no capitalismo o valor de uso das mercadorias é irrelevante, de vez que se trata de um modo de produção fundado apenas no valor de troca. Segundo ele, na economia capitalista as relações se dão entre coisas, não entre pessoas, posto que tudo, inclusive o trabalho, é “reificado”, reduzido à mercadorias. A conclusão é que, no contexto analítico marxista, a precisão e a quantificação não são importantes, mas sim a revelação das leis globais da troca, as quais, “em última instância”, são regidas pela lei do valor. Essa réplica não convence. Apartar da análise o valor de uso, ou seja, as valorações subjetivas, é um absurdo. É extirpar o que há de humano nos homens e, aí sim, “reificá- los”. De resto, se no exame marxista nem o valor de troca nem a quantidade de trabalho servem para determinar com precisão os preços, então não servem para nada. É mera impostura travestida de ciência. A resposta de Hilferding, entretanto, bastou para satisfazer a sectária ortodoxia marxista de seu tempo e granjeou fama para o autor.

Hilferding fez jus a essa notoriedade com sua obra-prima, o tratado sobre o capital financeiro Das Finanzkapital , de 1910. É com efeito um livro interessante, escrito com lucidez e sobriedade raras num autor dessa escola. Ele reitera o insight de Marx de que o sistema capitalista tende inexoravelmente para a superconcentração do capital, face aos vultosos recursos necessários para se fazer frente às despesas com uma produção cada vez mais dependente da alta tecnologia. As pequenas e médias empresas são varridas do mercado e absorvidas pela concorrência dos grandes conglomerados. Esse processo é acompanhado pelo crescimento do capital líquido controlado pelos bancos, o capital financeiro, que subjuga as indústrias escravas de suas necessidades insaciáveis de capital circulante. Ocorre então uma mutação na ideologia burguesa, do livre-comércio e livre-concorrência para os mercados fechados e estratificados em cartéis e oligopólios. Deflagram-se disputas entre as potências capitalistas avançadas pelos mercados globais, que resultam em guerras imperialistas. O autor não exclui a possibilidade de que toda a economia mundial termine englobada em um único e vasto supercartel.

A interpretação de Hilferding, conquanto fundada numa descrição razoavelmente acurada dos fatos, está errada mercê das categorias analíticas equivocadas que utiliza. Na verdade, o que ocorria na época era um retorno ao mercantilismo sob nova capa socialista, graças ao fortalecimento do poder político e sua ascendência sobre a indústria e a finança. O próprio Hilferding reconheceu posteriormente, como veremos, que o poder político tem uma dinâmica própria que transcende e absorve o econômico. Nada impede que uma economia de mercado avançada global opere com base nos princípios do livre-comércio e da livre-concorrência. Monopólios só são efetivos, i.e., só conseguem impor preços de monopólio, quando o governo proíbe tout court a competição, ou a inviabiliza indiretamente, como no caso do protecionismo. Cartéis e oligopólios são combinações inerentemente instáveis e tendentes à dissolução, posto que os seus membros mais competitivos logo se cansam de carregar os menos eficientes nas costas e baixam seus preços. Novamente, apenas a coerção estatal confere estabilidade e durabilidade a tais combinações de produtores. O fato de existirem grandes empresas não anula a soberania dos consumidores. Tamanho não é documento. Se fracassar em sua tarefa de satisfazer seus clientes, a empresa, seja de que tamanho for, quebra ou é suplantada por outras mais ágeis. Estamos carecas de testemunhar casos assim. Por outro lado, uma economia mundial sujeita a um único supercartel é tão inviável quanto o socialismo global puro, uma vez que, como Ludwig von Mises provou, num e noutro caso inexistiriam preços para os fatores de produ&c cedil;ão, todos de propriedade de um único dono, de modo que o cálculo econômico racional seria impossível. Por fim, o que Hilferding descreve como transformação da ideologia burguesa é na realidade a ascensão da ideologia antiburguesa, socialista, que resultaria no comunismo e no nazi-fascismo.

Com a cisão entre a social-democracia e o comunismo em 1917, Hilferding preferiu a primeira, tendo inclusive ocupado altos cargos ministeriais em governos de seu partido na Alemanha de Weimar. Jamais, porém, abjurou de sua filiação marxista, nem deixou de pensar segundo categorias estritamente marxistas. Comparado à ralé intelectual que seguiu os comunistas, Hilferding se destaca como um grande pensador. E foi como marxista que ele comparou e igualou comunismo e nazi-fascismo no citado artigo, escrito em 1940, que passamos a analisar. O austríaco ridiculariza ab initio a caracterização do comunismo soviético como “capitalismo de estado”. Se o governo é dono de todos os meios de produção, a economia capitalista está morta. A economia de mercado tem natureza mercantil, fundada no motivo do lucro e na propriedade privada, na concorrência e nos preços formados pela interação entre oferta e procura. Ora, a economia de estado “elimina a autonomia das leis econômicas”. A direção da produção deixa as mãos dos empresários, pois é uma “comissão planejadora que passa a determinar o que é produzido e como”. Os preços perdem sua função paramétrica para o processo econômico e se tornam simples decretos estatais arbitrários. Não existem mais mercadorias, porque as trocas foram suprimidas. A acumulação subsistente não é mais a mesma da lógica capitalista. Hilferding nega, ademais, que a burocracia seja uma “nova classe dirigente”, como queria Trotsky. A burocracia, na sua ótica, é um estamento rigidamente hierarquizado, um instrumento maleável nas mãos de quem realmente detém e exerce o poder: o autocrata supremo. É ele quem dá as ordens; cabe &a grave; bucracia obedecê-las e executá-las. A economia é subjugada pela política e suas leis deixam de ter validade. A oposição clássica entre burguesia e proletariado é superada e absorvida pelo Estado Totalitário, o qual opera de acordo com suas próprias leis e reduz a si toda a sociedade. “Apesar das grandes diferenças em seus pontos de partida, os sistemas econômicos dos Estados Totalitários estão se aproximando cada vez mais uns dos outros”, escreve o autor. Ele, porém, recusa-se a reconhecer o comunismo russo como materialização da doutrina marxista, visto que, segundo pensa, esta é inseparável da democracia. Para Hilferding é irrelevante a controvérsia sobre o caráter socialista ou capitalista da União Soviética. “Não é uma coisa nem outra. Ela representa uma economia de Estado Totalitário (grifo do autor), isto é, um sistema do qual os sistemas econômicos da Alemanha (nazista) e da Itália (fascista) estão se aproximando cada vez mais”.

Por mais fascinante e honesta que seja essa opinião, não podemos endossá-la integralmente. As leis e regularidades econômicas jamais são revogadas, como pensava Hilferding. O Estado Totalitário não é onipotente, nem pode violar impunemente as regras da economia. Mais cedo ou mais tarde é o Estado Totalitário quem leva a pior e acaba se auto-destruindo, como a experiência soviética ilustra. Outro ponto a ser impugnado nas alegações do austríaco é a recusa de considerar socialista o que de fato era socialista. A supressão da propriedade privada, dogma do marxismo, só pode gerar um vácuo que fatalmente será preenchido pela propriedade coletiva concentrada no Estado. O Estado só pode se estruturar burocraticamente, não há outro meio. E uma sociedade reduzida ao Estado só pode engendrar uma ordem totalitária. O socialismo é, pois, intrinsecamente totalitário e incompatível com a democracia. Deve-se discordar da distinção que Hilferding traça entre os pontos de partida do nazismo, fascismo e comunismo. Todos foram essencialmente socialistas e violentos, e recorreram à métodos similares para alcançar e manter o poder. Quanto à burocracia, ela era realmente uma nova classe dominante. Trotsky estava certo nesse particular. É verdade que se tratava de um estamento sujeito aos caprichos de um autocrata. Mas como esse autocrata prevalecia em sua luta pelo poder contra outros candidatos à autocracia? A burocracia o escolhia e acatava. O terror do ditador contra os burocratas, embora comum, não durava para sempre. Ele acabava por se abrandar e a burocracia consolidava então o seu poder em uma miríade de feudos e alianças, em meio à frouxidão crescente da hierarquia. Pelo menos foi assim na URSS.

Rudolf Hilferding foi capturado e executado pelos nazistas em 1941. Não teria tido sorte diferente nas mãos dos comunistas.

Em 17 de março de 2002

Leituras

Um Novo Brasil

O regime deste país mudou e ninguém foi avisado | Época

Pessoas que só sabem por ouvir dizer juram que o comunismo morreu. Eu e o senhor Antonio Negri, que estudamos o assunto por décadas e que decerto não seremos acusados de combinar nossas falas por trás do pano, asseguramos que ele está mais vivo que nunca. Também o senhor Fidel Castro, que está por dentro das preparações subterrâneas, anuncia para breve a rentrée espetacular da sangrenta pantomima a cujo serviço dedicou sua porca vida.

Dois fatos recentes dão razão a mim e a esses ilustres cavalheiros.

1. Um juiz do Rio Grande do Sul, solicitado a devolver aos proprietários uma fazenda invadida pelo MST, negou a reintegração de posse sob a alegação de que não havia provas da “função social” do imóvel.

2. Um notório terrorista dos anos 70, que nunca se arrependeu de seus crimes, que antes se orgulha deles e que no máximo admitiu ter algumas dúvidas quanto à conveniência de repeti-los hoje, foi nomeado ministro da Justiça.

Quanto ao primeiro fato, cinco detalhes evidenciam o espírito da coisa. (1) A falta da “função social” não precisou ser provada: a falta de provas bastou como prova da falta. (2) Essa “prova” serviu para legitimar não uma desapropriação legal, feita pelo Estado, mas sim a ocupação do imóvel por particulares. (3) O juiz reconheceu que sua decisão foi política. (4) Os novos proprietários ficaram dispensados de provar por sua vez a utilidade social de sua posse ou a de quaisquer outros imóveis tomados pelo MST, aos quais nenhuma produção é exigida e, para ser reconhecidos como propriedades legítimas, basta que sejam usados para treinamento de guerrilhas. (5) A sentença foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Estado e elogiadíssima pelo doutor Dalmo Dallari, do qual ninguém aliás esperaria outra coisa.

Quanto ao segundo fato, ele ocorreu (1) num país em que a simples acusação de haver torturado um comunista basta para expelir do cargo, no ato e sem a menor necessidade de provas, qualquer funcionário público de escalão alto, baixo ou médio; (2) num momento em que o consenso internacional proclama a necessidade de perseguir e punir todos os terroristas e seus protetores.

O sentido do primeiro acontecimento é claro: o direito à propriedade adquirida por meios legais depende da prova de sua “função social”, mas o direito à propriedade tomada pela força depende somente da coloração política dos novos proprietários. Sem desapropriação, sem indenização, qualquer imóvel pode ser imediatamente transferido para o primeiro particular que o tome para si, com a única condição de que o faça sob um pretexto politicamente agradável a Suas Excelências – Dallaris e tutti quanti.

O princípio assim firmado deve valer para toda propriedade imobiliária – rural ou urbana, residencial, comercial ou industrial –, exceto aquela que tenha utilidade estratégica ou publicitária para a causa comunista, única função social que se exige dos imóveis do MST.

O segundo acontecimento também é claro: (1) o crime de tortura, mesmo não provado, e bastando que seja imputado a anticomunistas, é impedimento ao exercício de cargo público; já o de terrorismo praticado pelos comunistas, mesmo quando confesso, não o é; (2) ao adotar essa escala de valores, o Brasil se alinha oficialmente, declaradamente, entre os países que protegem e legitimam a prática do terrorismo. Nada pode atenuar ou camuflar o sentido dessa opção.

Quem conheça a história das revoluções comunistas reconhecerá que, desde a semana passada, o Brasil já não é uma democracia capitalista. É um país em plena transição para o comunismo, onde o atestado de ideologia vale como escritura de propriedade imobiliária e crimes de terrorismo cometidos com a motivação ideológica apropriada são láureas curriculares para o exercício de função ministerial. Poucas revoluções comunistas começaram de maneira tão eficaz, tão direta e sem encontrar a mínima resistência. Mas como explicar isso a pessoas que, por nada saberem do comunismo, se crêem autorizadas a proclamar que ele não existe?

Em 27 de outubro de 2001

Refugio Dos Canalhas

O nacionalismo de esquerda é uma fraude | Época

Os apóstolos do Estado nacional, que espumam de indignação patriótica à simples idéia de privatizar alguma empresa estatal, tornam-se de repente globalistas assanhados quando um poder supranacional vem defender os interesses deles contra os interesses da pátria.

Essa conduta é tão repetida e uniforme que só um perfeito idiota não perceberia nela um padrão, e por trás do padrão uma estratégia. Desde logo, “a pátria” que eles celebram se constitui exclusivamente de estatais, onde têm sua base de operações e de onde dominam não somente uma boa fatia do Estado, mas também os sindicatos de funcionários públicos e seus monumentais fundos de pensão.

Defendendo sua toca com a ferocidade de javalis acuados, desprezam tudo o mais que compõe a noção de “pátria” e não se inibem de colocar-se a serviço de ONGs e governos estrangeiros quando atacam as instituições nacionais, desmoralizam as Forças Armadas, desmembram o território brasileiro em “nações indígenas” independentes, impõem normas à educação de nossas crianças, fomentam conflitos raciais para destruir o senso de unidade nacional e, em suma, arrebentam com tudo o que constitui e define a essência mesma da nacionalidade. Da pátria, só uma coisa lhes interessa: o dinheiro e o poder que lhes vêm das estatais.

Em segundo lugar, o nacionalismo que ostentam é de um tipo peculiar, desde o ponto de vista ideológico. É um nacionalismo seletivo e negativo, que enfatiza menos o apego aos valores nacionais do que a ojeriza ao estrangeiro – e mesmo assim não ao estrangeiro em geral, como seria próprio da xenofobia ordinária, mas a um estrangeiro em particular: o americano.

Assim, por exemplo, não sentem a menor dor na consciência quando, sob o pretexto imbecil de que toda norma gramatical é imposição ideológica das classes dominantes, demolem a língua portuguesa e acabam suprimindo do idioma duas pessoas verbais (mutilação inédita na história lingüística do Ocidente); mas, ante o simples ingresso de palavras inglesas no vocabulário – um processo normal de assimilação que jamais prejudicou idioma nenhum, e que aliás é mais intenso no inglês do que no português –, saltam ao palanque, com os olhos vidrados de cólera, para denunciar o “imperialismo cultural”.

Ser nacionalista, para essa gente, não é amar o que é brasileiro: é apenas odiar o americano um pouco mais do que se odeia o nacional. Mas, para cúmulo de hipocrisia, seu alegado antiamericanismo não os impede de celebrar o intervencionismo ianque quando lhes convém, por exemplo quando ajudam alegremente a desmoralizar a cultura miscigenada que constitui o cerne mesmo do estilo brasileiro de viver e lutam para impor entre nós a política americana das quotas raciais, em consonância com as campanhas milionárias subsidiadas pelas fundações Ford e Rockefeller.

Do mesmo modo, seu antiamericanismo fecha os olhos à entrada de novos códigos morais – feministas e abortistas, por exemplo – improvisados em laboratórios americanos de engenharia social com a finalidade precisa de destruir os obstáculos culturais ao advento da nova civilização globalista.

Redução do nacionalismo à defesa das estatais, substituição do antiamericanismo ao patriotismo positivo, adesão oportunista ao que é americano quando favorece a esquerda: desafio qualquer um a provar que a conduta constante e sistemática da chamada “esquerda nacionalista” não tem sido exatamente essa que aqui descrevo, definida por esses três pontos.

Nunca, na História, houve patriotas a quem se aplicasse tão exatamente, tão literalmente e com tanta justiça a observação de Samuel Johnson, de que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas.

Em 26 de maio de 2001

A Maioria Silenciada

O historiador americano Thomas Skidmore, na | Jornal do Brasil

Folha do dia 14, diz que só depois da chegada de Lula ao poder “surgiram os oportunistas, os responsáveis por desmoralizar o PT”. Esse sujeito não sabe ou finge que não sabe nada do que se passou no Brasil nos últimos quinze anos. Ele só é ouvido com reverência porque empresta o aval da sua reputação às mentiras convencionais da propaganda esquerdista.

Como é possível que um partido que se associou a organizações criminosas desde pelo menos 1990 tenha se conservado limpo e santo durante todo esse tempo, para só se corromper depois de 2002? E de que oportunistas recém-chegados está falando Skidmore, se os astros maiores do espetáculo delinqüencial – os Paloccis, os Dirceu, os Valdomiros – já brilhavam no elenco uma década e meia antes?

A suprema vergonha, a baixeza imensurável da sociedade brasileira não está nos crimes do PT: está nos prodígios de desconversa com que aqueles mesmos que os reconhecem se apressam a limpar a folha corrida do culpado, fazendo dele a vítima inocente de uma contaminação acidental e tardia. Na verdade, esses crimes vieram de longa data e não nasceram da desonestidade avulsa de infiéis: nasceram de um plano abrangente de conquista do poder total por todos os meios possíveis e imagináveis, legais ou ilegais, decentes ou indecentes.

O Foro de São Paulo é em si uma societas sceleris , constituída para a proteção mútua de partidos oficiais e organizações criminosas. Se alguma dúvida restasse quanto a isso, o próprio sr. Luís Inácio as dissipou ao confessar, entre amigos, que governava o Brasil em parceria secreta com seus companheiros do Foro — tiranos, narcotraficantes, seqüestradores e terroristas estrangeiros (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/050926dc.htm ).

Os planos dessa imensa máfia revolucionária continental jamais teriam prosperado se expostos à atenção pública. Mas mesmo agora, depois da revelação dos delitos petistas, a mídia nacional continua empenhada em ocultar a trama maior que os gerou, em preservar as causas intactas sob as ruínas dos efeitos. Longe de defender o povo contra as ambições dos criminosos, ela está empenhada em proteger os criminosos contra o olhar do povo.

A própria Folha de S. Paulo , numa pesquisa recente, admitiu que 47 por cento dos brasileiros são de direita, só 30 por cento de esquerda; e, dos 23 por cento restantes, nominalmente centristas, a maioria defende posições que estão muito à direita do centro. Ora, essas posições — contra o aborto, pela redução da menoridade penal, etc. — são precisamente aquelas que o jornalismo chique em geral expele do debate civilizado, colando-lhes os rótulos infamantes de “extremismo de direita” e “fundamentalismo” para criar, invertendo a realidade, uma falsa impressão de ligações terroristas, e legitimar como “normalidade democrática” um estado de apartheid ideológico no qual só a opinião da minoria pode ter canais de expressão partidária, cultural e jornalística. Se a mídia tem a autoridade de marginalizar e criminalizar a maioria, por que não terá também o direito, muito mais modesto, de ludibriá-la?

Em 17 de agosto de 2006

Os Companheiros

O Estado de S. Paulo | 9 de dezembro de 2001

. Nela estavam Fidel Castro e Lula sentados, lado a lado, barbas viradas de perfil um para outra. O motivo dos dois estarem mais uma vez juntos devia-se à reunião de partidos de esquerda da América Latina, que se realizava em Havana.

Até aí nada de mais. Todos sabem que Lula e seu PT se intitulam-se de esquerda. Além disso, é conhecido o fato de que o tetracandidato presidencial nutre um prazer peculiar em visitar a Ilha e fumar charutos cubanos, considerados os melhores do mundo. Gosto não se discute, mas a questão é que Lula continua em primeiro lugar nas pesquisas de opinião e ninguém pode ainda prever o resultado das urnas em, 2002.

Assim sendo, sua foto com o ditador Castro não é exatamente a de um inocente turista fazendo pose de álbum de retrato. E, por isso, prestei atenção na expressão do presidente de honra do PT. Ele contemplava El Comandante-Jefe que lhe sussurrava alguma coisa, e tinha no rosto aquela expressão de embevecimento do discípulo diante do mestre, quando aquele coloca no rosto um sorriso beatífico e petrificado. A imagem ilustrava de forma inequívoca, mais que mil palavras, o sublime encantamento de Lula para com o ditador que comanda há 42 anos a desventurada e miserável Cuba.

Anteriormente ao encontro dos partidos de esquerda, o eterno candidato do PT tinha estado mais uma vez na Ilha. Voltou de lá dizendo que “Cuba é um modelo de democracia”. Achei isso, para dizer o mínimo, excêntrico. Agora a foto confirma algo que vai além: o modelo de Lula é o próprio Fidel Castro. Seria, então, Cuba, um modelo para o Brasil, segundo o candidato à presidência da República? Deus nos acuda!

Para ser justa, reconheço que há outro companheiro que fascina a magna estrela do PT: Hugo Chávez. Curiosamente, o controvertido presidente da Venezuela enfrentará no próximo dia 10 uma paralisação pouco usual, pois reúne empresários e trabalhadores. Ambas as categorias se posicionarão irmanadas contra as arbitrariedades do governo de Chávez. A gota d’água foi um pacote de 49 itens, considerado estatizante, intervencionista e que “viola de forma grosseira o princípio da propriedade privada”, segundo a Federação de Câmaras da Venezuela (Fedecamaras). Mas voltando ao assunto do encontro, pode-se dizer que Lula da Silva tem algo a comemorar além do souvenir fotográfico. Ele fez um discurso. Políticos são extremamente egocêntricos e o petista não foge à regra, assim, dá para imaginar sua imensa felicidade quando discursou na sessão de abertura da reunião dos partidos de esquerda. Sentindo-se entre companheiros, foi fundo no ataque a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Do alto do seu triunfo ele soltou o verbo para gáudio de esquerdas e, para ser imparcial, direitas latino-americanas: “É um projeto de anexação que os Estados Unidos querem impor. Será o fim da integração latino-americana”. Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (URSAL)?

Curiosamente, enquanto Lula discursava demonstrando todo seu horror contra a Alca, um grupo de empresários norte-americanos lhe fazia coro, pois, segundo estes, não se deve permitir “que as leis americanas de comércio justo (fair trade) venham a ser parte de negociações globais da Organização Mundial do Comércio”. Portanto, de novo, o cândido e empolgado Lula defendeu interesses alheios, como quando esteve na França. Naquela encantadora viagem onde se avistou com o primeiro-ministro Leonel Jospin, ele defendeu a política agrícola européia que impede o acesso de produtos agroindustriais brasileiros àquele mercado por meio de barreiras alfandegárias e, ao mesmo tempo, cria condições desfavoráveis nos mercados internacionais à agricultura brasileira ao subsidiar o setor rural francês. Alguém mais ajuizado do PT deveria tentar moderar os arroubos retóricos de Lula, sobretudo os cometidos em suas numerosas viagens ao exterior. Não pegam bem nem para o partido nem para o Brasil. Maria Lucia Victor Barbosa é professora universitária.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga e professora universitária.

E-mail:

mlucia@sercomtel.com.br Em 9 de dezembro de 2001

Leituras

Feliz Ano Novo Que Cinismo

O Brasil entra em 2006 nas seguintes condições: | Diário do Comércio

(1) O governo federal está nas mãos de um partido que, subindo ao poder sobre os cadáveres das reputações de seus adversários, usou de sua fama de restaurador da moralidade como camuflagem para poder criar o mais vasto e eficaz sistema de corrupção política já observado neste país.

(2) Ao longo de sua ascensão, apoiada na hegemonia previamente conquistada pela “revolução cultural” gramsciana, esse partido desarmou completamente seus possíveis adversários ideológicos, ao ponto de nas eleições presidenciais de 2002 seu candidato não ter de concorrer senão com imitadores do seu discurso, cada um tentando provar que era o mais esquerdista dos quatro. E tão completo era o domínio exercido pela esquerda sobre a mentalidade pública, que essa disputa em família, com total exclusão de discordância ideológica por mais mínima que fosse, foi celebrada por toda a mídia cúmplice como “a mais democrática de toda a nossa História”. Neurose, dizia um grande psicólogo que conheci, é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita. O Brasil continuará doente enquanto não recordar e desmascarar a farsa com que aceitou alegremente colaborar em 2002.

(3) O deslocamento do fiel da balança para a esquerda falseou todo o quadro das opções políticas, ao ponto de que hoje a hipótese mesma de um discurso de direita, na linha do Partido Republicano americano ou do Partido Conservador inglês, se tornou inviável e inconcebível no Brasil. O máximo de direitismo admitido é o do PSDB, partido pertencente à Internacional Socialista e comprometido a implantar no Brasil todas as mutações sociais e culturais defendidas pela esquerda mundial, como o abortismo, o casamento gay, o “direito alternativo” etc. Eliminada a possibilidade de divergências de fundo, sobraram apenas a disputa de cargos e o bombardeio mútuo de acusações de corrupção: a política reduziu-se a um bate-boca entre quadrilhas de ladrões. O PFL, que poderia ter representado a alternativa ideológica ao consenso socialista, abdicou de seu dever e acomodou-se à função de tropa auxiliar de uma das quadrilhas.

(4) Como nem a esquerda petista nem seus adversários tucanos conseguiram conceber nenhuma alternativa viável à política econômica “ortodoxa” do FMI, esta se mantém como orientação dominante desde o governo FHC, sem perspectiva de ser abandonada por qualquer das facções que suba ao poder. À sombra da estabilidade econômica, erigida em único bem digno de ser preservado, a máquina de subversão instalada no governo está livre para transformar o sistema judiciário em instrumento da luta de classes, o ensino público em pregação do ódio anticapitalista, as instituições de cultura em megafones do discurso comunista mais estúpido e grosseiro que o mundo já ouviu. Ninguém liga. A lepra socialista pode se alastrar por todo o corpo da sociedade, dominar as consciências, perverter todas as relações humanas. Enquanto não mexer diretamente nas contas bancárias dos senhores barões, estes continuarão achando tudo lindo. A classe chamada dominante já não domina nada há muito tempo, está cercada e acuada, reduzida a viver de favores mendigados à elite comunista, mas como ainda tem dinheiro para gastar em Londres e Nova York, mantém a pose. E se tentamos lhe explicar o perigo que corre, responde com a clássica reação do covarde orgulhoso: estrangula o mensageiro das más notícias.

(5) A criminalidade triunfante já ultrapassou de há muito os limites dentro dos quais podia ainda se considerar um problema corrigível. Tornou-se um fato consumado, uma constante da natureza, um modo de ser, uma instituição. Segundo dados oficiais da ONU, são 50 mil homicídios por ano. Segundo pesquisas locais do jornalista espanhol Luís Mir, 150 mil. A polícia, intimidada pela superioridade bélica dos narcotraficantes e sobretudo pelo temor que lhe inspira o olhar malicioso da classe jornalística, se ocupa apenas de sobreviver e mostrar-se o mais inofensiva possível. Enquanto isso, o governo continua de namoro com as FARC e a intelectualidade esquerdista clama pela libertação de qualquer agente da narcoguerrilha colombiana que por acaso vá parar na cadeia, onde aliás é poupado de qualquer pergunta comprometedora.

(6) As Forças Armadas, enfraquecidas por sucessivos cortes de verbas, humilhadas e aviltadas por mentiras escabrosas alardeadas na mídia, começam a reagir como vítimas da síndrome de Estocolmo: distribuem condecorações a seus acusadores e buscam lisonjeá-los mediante efusões de anti-americanismo pseudopatriótico (o brigadeiro Ferola e a ESG em geral são ótimos nisso), na esperança de desviar contra um inimigo comum a hostilidade do establishment esquerdista ante o qual generais de inumeráveis estrelas tremem como dozelas assustadas.

(7) Os tribunais são dominados por juízes semi-analfabetos que abertamente desprezam a lei em nome de suas convicções políticas improvisadas, achando que a mais alta missão da Justiça é punir os capitalistas como exploradores do proletariado e libertar os assassinos e narcotraficantes como vítimas da sociedade malvada.

(8) Curiosamente, a maioria da população permanece apegada aos ideais proibidos: moral judaico-cristã, propriedade privada, direito de portar armas etc. Mas já não há ninguém que fale em nome dessa maioria. Mesmo os que compartilham das crenças populares não ousam defendê-las abertamente. O imenso espaço que a decadência de tudo o mais abre para o ingresso de um autêntico partido conservador no cenário nacional não tem quem o preencha. Conservadorismo significa fidelidade, constância, firmeza. Não é coisa para homens de geléia.

(9) Culturalmente, o Brasil está morto e enterrado. Já não tem nada em comum com aquele país dos anos 30-60, que se espelhava numa geração de escritores, pensadores e artistas capazes de ombrear-se aos de qualquer nação do mundo. Na época, “cultura” significava Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Annibal M. Machado, José Guilherme Merquior, Nelson Rodrigues, Heitor Villa-Lobos, Herberto Sales, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Miguel Reale, Vicente Ferreira da Silva, Mário Ferreira dos Santos, Otto Maria Carpeaux, Gustavo Corção. Álvaro Lins, Augusto Meyer. Hoje cultura é o sr. Gilberto Gil, um pseudo-intelectual de miolo mole segundo ele próprio admite, não sem certo orgulho. Os discípulos da grande geração – Carlos Heitor Cony, João Ubaldo Ribeiro – esgotam-se na indecisão entre a fidelidade à consciência literária, que requer a sinceridade das “impressões autênticas”, como as chamava Saul Bellow, e o desejo de agradar os amigos bem situados na vida. Escritores e poetas autênticos – Alberto da Cunha Melo, César Leal, Ângelo Monteiro — vegetam na província, mais ignorados nos grandes centros do que o seriam nos tempos da Colônia. E o gênio fulgurante de Bruno Tolentino, sumido dos debates públicos, desprezado por suplementeiros literários que não seriam dignos de lhe amarrar os sapatos, vai se conformando com um papel obscuro, esquecido da missão de educador literário do Brasil, que um dia lhe coube por natureza e direito.

(10) Espiritualmente, a alma nacional oscila entre o oportunismo sociopático transformado em Ersatz do senso prático e o ódio político transfigurado em sucedâneo da moralidade. Ensinado nas escolas a papaguear slogans politicamente corretos, obrigado por lei a considerar que o canibalismo, os sacrifícios humanos ou rituais para tornar os inimigos sexualmente impotentes são expressões religiosas tão respeitáveis quanto a fidelidade judaica e a piedade cristã, o povo ainda não abdicou de seus velhos sentimentos morais, mas só os vive na esfera dos sonhos, incapaz de lhes dar a menor expressão concreta na vida real. O Papa João Paulo II acertou na mosca quando disse que “os brasileiros são cristãos na emoção, mas não na fé”. Quando querem expressar sua emoção religiosa em atos e palavras, a única linguagem que lhes resta é a da teologia da libertação ou a daquela velha mistura, tipicamente brasileira, de mística positivista-evolucionista, ocultismo vulgar e pseudomessianismo nacionalisteiro.

O mais impressionante de tudo é que a chamada elite, diante dessa destruição completa das bases civilizacionais do país, se recusa a tomar consciência da gravidade da situação e se apega desesperadamente à ilusão de que tudo se resolverá por si, sem nenhuma ação da parte dela.

O cinismo brutal de um lado, a irresponsabilidade covarde de outro – eis os dois pilares da sociedade brasileira do futuro, na qual só mesmo os cínicos e os irresponsáveis podem esperar sentir-se bem.

Votos de Ano Novo? Ora, façam-me um favor! Quem pode fazer votos de que tudo o que está acontecendo pare de acontecer, de que tudo o que não acontece, mas deveria, comece a acontecer? O Brasil não precisa de um milagre. Precisa da mais extraordinária conjunção de milagres que se poderia imaginar. E milagres, mesmo individualmente, jamais acontecem quando os possíveis interessados estão pedindo exatamente o contrário.

Tarados Um sintoma miúdo, mas revelador, pode ilustrar o estado presente da alma nacional, tal como descrito acima.

Há um grupo de tarados na comunidade Orkut, da internet , que já escreveram mais de trinta mil páginas contra mim e, para cúmulo, esperam que eu leia tudo — como se eu me achasse tão interessante quanto eles me imaginam. Não criticam propriamente minhas opiniões, pois não chegam a apreendê-las com clareza bastante para isso. Fixam-se em detalhes que, por motivos ignorados, os irritam e desconcertam, entre os quais o meu penteado, não sei se demasiado provocante ou inócuo, a minha idade, que consideram um vício moral revoltante, e o fato insólito de eu ter filhas bonitas sem preencher as condições ideológicas requeridas para isso. Descritos com abundância de minúcias, meus defeitos ali apontados abrangem aparentemente toda a gama das possibilidades humanas, pois apareço ao mesmo tempo como gay e homofóbico, anti-semita e fanático sionista, moralista auto-reprimido e putanheiro assanhado etc. etc. Tendo-me colocado assim no centro da coincidentia oppositorum , os redatores do site chegaram a um ponto em que já nada podiam dizer contra mim que não fosse desmentido por alguma acusação anterior. A solução encontrada para essa dificuldade foi inventar-me de novo, moldando a minha figura segundo os requisitos apropriados para uma esculhambação em regra, sem contradições ou ambigüidades. Criaram então uma página especial do Orkut, usando o meu nome e fotografia e fazendo-se passar por mim. Preencheram a página com uma confissão de nazismo e espalharam convites para que os trouxas a freqüentassem, constatando com seus próprios olhos e até cérebros, caso os tivessem, a minha militância nazista em ação. Ficou assim provado ser eu um completo F. D. P., quod erat demonstrandum . Com base em evidências tão sólidas, tornou-se mesmo imperativo reeditar ali uns velhos e já quases esquecidos apelos à supressão física da minha execrável pessoa, acompanhados de indicações, infelizmente um tanto desatualizadas, dos lugares onde os interessados na minha execução sumária podem mais facilmente me encontrar e me pegar de jeito.

Há mais de mil pessoas envolvidas nesse empreendimento, a maioria delas portadora de diplomas universitários e pertencente, destarte, à parcela mais esclarecida da população, pela qual não se chega sequer a formar uma vaga idéia do que poderiam ser as menos esclarecidas.

Nenhuma dá sinal de perceber algo de criminoso nas ações do grupo, e suspeito que muitas, ou quase todas, se informadas de que estão sujeitas às leis brasileiras como quaisquer outras criaturas residentes no país, se mostrariam sinceramente indignadas ante essa pretensão intolerável.

Bem ao contrário, todas se acreditam movidas pelos mais altos sentimentos humanos, pairando angelicamente acima de mesquinharias penais que só um grosseirão inconveniente como eu seria capaz de querer introduzir numa conversação tão sublime.

Somente umas duas ou três vezes examinei o material ali publicado, comentando-o da maneira que me pareceu esteticamente mais adequada ao ambiente, isto é, mediante qualquer gozação sarcástica e cabeluda que me ocorresse no momento.

Eu queria só que vocês vissem a expressão de susto e revolta com que aquelas almas delicadas reagiram às minhas vulgaridades! Nunca vi tanta dignidade ofendida, tanta santidade aviltada, tantas lágrimas de autopiedade coletiva, tantas efusões de consolação mútua, carinho reparador e juras de vingança acompanhadas de menções pejorativas aos membros da minha família. Uma coisa comovente mesmo.

Mentiras Concisas

Num ensaio recém-publicado na | O Globo

New York Review of Books , o historiador Kenneth Maxwell, citado pela mídia brasileira como autoridade confiável, dá um exemplo da capacidade que só um intelectual de esquerda pode ter para comprimir mentiras no espaço exíguo de um parágrafo, quase que à base de uma por sentença. Comentando as advertências de Constantine C. Menges quanto aos riscos que o governo Lula pode trazer para a segurança continental, diz ele:

“Quanto à acusação sobre armas nucleares, é claramente absurda. Tanto a Argentina como o Brasil, ao retornar à democracia, fecharam os seus programas nucleares e assinaram um tratado internacional fazendo da América Latina uma zona desnuclearizada. Quanto ao Foro São Paulo, que seria uma coordenação de terroristas, guerrilheiros e partidos comunistas, nem os mais bem informados especialistas com quem conversei no Brasil jamais ouviram falar dele. Lula participou da última reunião do Foro, em Havana, provável razão de ter entrado na lista de inimigos dos cubano-americanos no Congresso... Verificando a origem da campanha anti-Lula, descobri que começa com Lyndon LaRouche (...) que, em 1995, escreveu...”

Examinemos ponto por ponto.

1. É verdade que o Brasil desistiu do seu programa atômico e assinou um tratado contra armas nucleares na América Latina. Mas, ao usar esse fato como argumento tranqüilizante, Maxwell omite a informação complementar de que foi justamente esse o programa que Lula ameaçou retomar e esse o tratado que ele publicamente disse repelir. Como essa informação constituía o núcleo mesmo da denúncia a que o historiador professava responder, a omissão não pode ter sido um lapso inocente. Foi ocultação proposital.

2. Após esse começo brilhante, Maxwell, no esforço de abafar a repercussão das denúncias sobre o Foro de São Paulo, insinua que até a existência da entidade é duvidosa, porque dela “nem os mais bem informados especialistas jamais ouviram falar”. Ora, em qualquer curso de História a primeira coisa que um estudante aprende é jamais depender de fontes secundárias — a palavra dos “especialistas” — quando tem à disposição fontes primárias, isto é, documentos originais e testemunhos. Maxwell decerto cabulou essa aula, porque foi dar ouvidos a sabichões em vez de examinar o site do próprio Foro na internet , as atas dos dez congressos da organização ou a extensa cobertura dada aos eventos pelo jornal oficial cubano Granma , que ninguém acusará de caluniador imperialista.

3. Mas, tendo assim deixado no ar a sugestão da irrealidade fantasmal do Foro de São Paulo, o historiador, com a maior cara de inocência, admite logo em seguida que Lula, em carne e osso, participou do último congresso da imaterial instituição, em dezembro de 2001. Daí devemos concluir, ou que Lula teve o privilégio de cruzar por instantes o umbral da supra-realidade, ou que os especialistas informadíssimos consultados por Maxwell são ignorantes confessos, ou que eles mentiram para ele, ou que ele mentiu para a New York Review of Books . Deixo a primeira hipótese aos devotos dos dons sobrenaturais do presidente eleito e confesso que não sei escolher entre as três restantes, todas igualmente lindas.

4. Dizer que Lula participou “da última” reunião é, obviamente, dar a impressão, tão falsa como a anterior, de que esse foi o único e evanescente contato dele com a entidade. Aqui, novamente, as fontes primárias encarregam-se de desfazer o embuste: o próprio Foro, no site mencionado acima, confessa que Lula foi seu idealizador e fundador, junto com Fidel Castro, tendo presidido várias de suas reuniões. A informação é confirmada pelo Granma de 2 de julho de 1994.

5. Seria “provável”, então, ou ao menos possível, que a simples participação de Lula na reunião de dezembro de 2001 tivesse desencadeado contra ele a revolta dos exilados cubanos de Miami? Estes, no caso, apareceriam como uns sujeitos levianos que se irritam por pouca coisa. Mas em 24 setembro de 1997 o Latin America News Syndicate já distribuía aos jornais de Miami a história completa das origens do Foro, também já publicada no Granma : quando aconteceu o encontro citado, quatro anos depois, todos os cubanos de fora e de dentro de Cuba já sabiam que Lula não era o participante ocasional de uma reunião tardia, e sim um pioneiro e veterano de muitos encontros. Maxwell apenas torce a cronologia das notícias para lançar uma suspeita difamatória contra toda uma comunidade.

6. Por fim, tentando desmoralizar as denúncias quanto à participação de Lula no Foro, Maxwell as atribui a um tipo tão pouco confiável quanto ele próprio, o líder de extrema-direita Lyndon La Rouche. Ele diz que “verificou e descobriu” essa origem comprometedora. Mas ele não verificou nada, não descobriu nada. Ele chuta, ele blefa. Em agosto de 1994, muito antes do artigo de La Rouche, o jornal Letras em Marcha , de ampla circulação entre oficiais militares brasileiros, já dava todo um panorama do Foro de São Paulo, com fotos e documentos, denunciando com veemência o papel do sr. Luís Inácio da Silva no “programa de luta” que associava partidos legais e organizações criminosas. La Rouche, que é um embrulhão da estirpe de Maxwell, apenas com signo ideológico inverso, limitou-se a tomar carona na denúncia, amoldando-a à sua fantasiosa “filosofia da história”.

Metade da performance de Kenneth Maxwell nesse parágrafo já bastaria para arruinar a reputação de um historiador, se fosse conservador ou apolítico. Mas a intelectualidade de esquerda goza do especial privilégio de adquirir tanto mais autoridade moral e científica quanto mais diligentemente trapaceia em favor da “causa”.

Em 23 de novembro de 2002

Por Tras Da Subversao

No começo de 2001, o | Diário do Comércio

Council on Foreign Relations (CFR), bilionário think tank de onde já emergiram tantos presidentes e secretários de Estado que há quem o considere uma espécie de metagoverno dos EUA, criou uma “força-tarefa”, transbordante de Ph.-Ds, presidida pelo historiador Kenneth Maxwell e encarregada de sugerir modificações na política de Washington para com o Brasil. A primeira lista de sábios conselhos, publicada logo em 12 de fevereiro, enfatizava “a urgência de trabalhar com o Brasil no combate à praga das drogas e à sua influência corruptora sobre os governos”.

Naquele momento, destruídos os antigos cartéis, emergiam como dominadoras do mercado de drogas na América Latina as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, deliberadamente poupadas pelo Plano Colômbia do governo Clinton sob o pretexto de que o combate ao narcotráfico deveria ser apolítico. As Farc, uma organização comunista, haviam entrado no mercado das drogas para financiar suas operações terroristas e a tomada do poder. Desde 1990 faziam parte do Foro de São Paulo, onde articulavam suas ações com a estratégia geral da esquerda latino-americana, garantindo apoios políticos que a tornavam virtualmente imunes a perseguições em vários países onde operavam. No Brasil, por exemplo, a despeito das centenas de toneladas de cocaína que por meio do seu sócio Fernandinho Beira-Mar elas despejavam anualmente no mercado, e apesar dos tiros que de vez em quando trocavam com o Exército na floresta amazônica, as Farc eram bem tratadas: seus líderes circulavam livremente pelas ruas sob a proteção das autoridades federais e eram recebidos como hóspedes oficiais pelo governo petista do Estado do Rio Grande. Nunca, portanto, as relações entre narcotráfico e política tinham sido mais íntimas. Arriscavam tornar-se ainda mais intensas porque Luís Inácio Lula da Silva, fundador do Foro e portanto orquestrador maior da estratégia comum entre partidos legais de esquerda e organizações criminosas, parecia destinado a ser o próximo presidente do Brasil.

A integração crescente de narcotráfico e política tornava portanto urgente combater “a praga das drogas e sua influência sobre os governos”. E a única maneira de fazer isso era, evidentemente, desmantelar o Foro de São Paulo. Vista nessa perspectiva, a sugestão da “força-tarefa” parecia mesmo oportuna. Mas só a interpreta assim quem não entende as sutilezas do metagoverno. O sentido literal da frase expressava, de fato, o oposto simétrico do que o CFR pretendia.

Desde logo, o Foro de São Paulo, para continuar se imiscuindo impunemente na política interna de várias nações latino-americanas, necessitava manter sua condição de entidade discreta ou semi-secreta, e o próprio chefe da força-tarefa o ajudava nisso. Em artigo publicado na New York Review of Books – e, é claro, reproduzido na Folha –, Maxwell declarava que o Foro simplesmente não existia, porque “nem os mais bem informados especialistas com quem conversei no Brasil jamais ouviram falar dele”.

Para um historiador profissional, confiar-se à opinião de terceiros em vez de averiguar as fontes primárias, então fartamente disponíveis no próprio site do Foro, era uma escandalosa prova de inépcia. Na época, o sr. Maxwell pertencia (pertence ainda) ao círculo de iluminados que costumava (costuma ainda) ser ouvido com o máximo respeito pela mídia brasileira, especialmente pela Folha de S. Paulo . Isso parecia dar uma prova incontestável de que ele era de fato um jumento, tendo agido de maneira tão extravagante em pura obediência à sua natureza animal. Mas agora noto que isso não explicava tudo. Logo depois, outro intelectual de grande reputação nos círculos asininos, Luiz Felipe de Alencastro, professor de História do Brasil na Sorbonne e colunista da Veja , brilhava num debate do CFR emprestando à tese da inexistência do Foro de São Paulo o aval da sua formidável autoridade e ainda acrescentava ter sido eu o criador da lendária organização... Dar sumiço na coordenação continental do movimento comunista latino-americano parecia ter-se tornado um hábito consagrado no CFR.

Isso poderia ser apenas um inocente acúmulo de erros de interpretação se a entidade não tivesse cultivado simultaneamente um outro hábito: o das boas relações com as Farc. Em 1999, o presidente da Bolsa de Valores de Nova York, Richard Grasso, membro do CFR, fez uma visita de cortesia ao comandante das Farc, Raul Reyes, e saiu dali festejando a comunidade de interesses entre a quadrilha colombiana e a elite financeira “progressista” dos EUA. Logo em seguida, outros dois membros do CFR, James Kimsey, presidente emérito da America Online, e Joseph Robert, chefe do conglomerado imobiliário J. E. Robert, tinham um animado encontro com o próprio fundador das Farc, o velho Manuel Marulanda, e em seguida iam ao presidente colombiano Pastrana para tentar convencê-lo, com sucesso, a ficar de bem com a narcoguerrilha.

A divisão de trabalho era nítida: os potentados do CFR negociavam com a pricipal força de sustentação militar e financeira do Foro de São Paulo, enquanto seus office-boys intelectuais cuidavam de despistar a operação proclamando que o Foro nem sequer existia. O CFR alardeava a intenção de eliminar a influência do narcotráfico nos governos ao mesmo tempo que contribuía ativamente para que essa influência se tornasse mais vasta e fecunda do que nunca.

Ao CFR pertencia também o presidente Clinton, cujo famigerado Plano Colômbia tinha tido por principal resultado eliminar os concorrentes e entregar às Farc o quase monopólio do mercado de drogas na América Latina. Em 2002, a política latino-americana dos grão-senhores globalistas sofria um upgrade : ao esforço de embelezar as Farc somava-se agora o empenho de fazer do presidente do Foro de São Paulo o presidente do Brasil. Poucos dias antes da eleição de 2002, a embaixadora americana Donna Hrinak, que não sei se pertence pessoalmente ao CFR mas está entre os fundadores de uma entidade estreitamente associada a ele, o Diálogo Interamericano, fazia propaganda descarada do candidato petista, proclamando-o “uma encarnação do sonho americano”. Embora fosse uma interferência ilegal e indecente de autoridade estrangeira numa eleição nacional — só não causando escândalo porque até a prepotência imperialista se torna amável quando trabalha para o lado politicamente correto –, e embora a fórmula verbal escolhida para realizá-la fosse uma absurdidade sem par (pois não consta que muitos americanos tivessem como suprema ambição parar de trabalhar aos 24 anos para fazer carreira num partido comunista), a expressão fez tanto sucesso que, logo em seguida, foi repetida ipsis litteris , sem citação de fonte, num artigo da New York Review of Books que celebrava entusiasticamente a vitória de Lula. Adivinhem quem assinava o artigo? O indefectível Kenneth Maxwell.

Diante desses fatos, alguém ainda hesitará em perceber que as ligações entre o esquerdismo pó-de-arroz do CFR e o esquerdismo sangue-e-fezes dos Marulandas e Reyes são mais íntimas do que caberia na imagem estereotipada de uma hostilidade essencial e irredutível entre capitalistas reacionários e comunistas revolucionários? O sentido dos acontecimentos é transparente demais, mas o cérebro das nossas elites ainda é capaz de projetar sobre eles a sua própria obscuridade para esquivar-se de tirar as conclusões que eles impõem.

É claro que não endosso a idéia de que o CFR, como instituição, seja uma central conspiratória pró-comunista. Muitos de seus membros são patriotas americanos que jamais endossariam conscientemente uma política prejudicial ao seu país. Mas não dá para esconder que, ali dentro, um grupo de bilionários reformadores do mundo, incalculavelmente poderosos, tem induzido a entidade a influenciar o governo de Washington, quase sempre com sucesso, no sentido mais esquerdista e anti-americano que se pode imaginar. Nos EUA isso é um fato de conhecimento geral. Ninguém o coloca em dúvida. Só o que se discute é a “teoria da conspiração” usada para explicá-lo. Essa teoria tem entre seus defensores alguns intelectuais de primeira ordem como Carroll Quigley, professor de História em Harvard e mentor de Bill Clinton, ou o economista Anthony Sutton, autor do clássico Western Technology and Soviet Economic Development (4 vols.). Contribui ainda mais para a credibilidade da tese o fato de que o primeiro é um adepto entusiasta e o segundo um crítico devastador da elite globalista. E o que a torna ainda mais atraente é o fato de que o CFR, reconhecendo a sua existência ao ponto de lhe oferecer um desmentido explícito no seu site oficial, se esquive de debater com esses dois pesos-pesados e com dezenas de outros estudiosos sérios que escreveram a respeito, e prefira em vez disso ostentar uma vitória fácil e postiça num confronto com as versões popularescas e caricaturais da tese conspirativa, inventadas por tipos como Lyndon LaRouche e o pastor Pat Robertson. Este é um bom sujeito que jamais mentiria de caso pensado, mas é um boquirroto, campeão continental de gafes eclesiásticas. Discutir com ele é a coisa mais fácil, porque ele sempre vai acabar dizendo alguma inconveniência e pondo sua opinião a perder, mesmo quando está com a razão. LaRouche, que chegou a ser pré-candidato presidencial pelo Partido Democrata, é ele próprio um conspirador que só enxerga as conspirações dos outros pelo prisma deformante dos seus objetivos e interesses próprios. Tomar esses dois como porta-vozes representativos das acusações de conspiração contra o CFR é o mesmo que derrubar o dr. Emir Sader e sair cantando vitória sobre Karl Marx. Que o CFR use desse expediente esquivo para se safar das denúncias é um sério indício de que elas têm pelo menos algum fundo de verdade.

Para vocês avaliarem o quanto a nossa elite econômica, política e militar está alienada e por fora do mundo, basta notar que sua principal fonte de informação sobre o CFR, o Diálogo Interamericano e outros organismos globalistas tem sido justamente o sr. Lyndon LaRouche, cuja Executive Intelligence Review é lida pelos luminares da Escola Superior de Guerra como se fosse o exemplar mais puro de inside information (ele está tão bem informado que chegou a me classificar – logo a mim, porca miséria – como apóstolo do globalismo, pelo fato de eu escrever então num jornal chamado O Globo ). As outras fontes conhecidas no país são todas de esquerda, e o que elas têm em comum com o boletim do sr. LaRouche é que distorcem monstruosamente os fatos ao apresentar os círculos globalistas como representantes do bom e velho “imperialismo americano” em luta desigual contra as soberanias nacionais dos países pobrezinhos. Não sei se rio ou se choro ao ver quantos brasileiros, que de esquerdistas não têm nada, levam essa versão a sério e baseiam nela suas análises estratégicas e propostas de governo. É ridículo e trágico ao mesmo tempo. Com tantas fontes primárias e diagnósticos de alto nível à disposição, por que comer lixo e arrotar o cardápio do Tour d’Argent ? Do lamaçal cultural subdesenvolvido só brotam flores de ignorância e auto-engano.

O site www.vermelho.org , por exemplo, apresenta o Diálogo Interamericano como repleto de “personalidades da direita mais conservadora”, e estas como “representantes do Establishment americano”. Nos EUA, até crianças de escola sabem que Establishment quer dizer “esquerda chique”, que não há nem pode haver ali dentro “personalidades da direita mais conservadora”, e que, se alguma soberania nacional é posta em risco pelo Establishment , é a dos EUA em primeiríssimo lugar. A longa e feroz polêmica movida pelos conservadores e nacionalistas contra o CFR, o Diálogo Interamericano e os círculos globalistas em geral é completamente desconhecida pelos tagarelas da ESG e pelo “bando de generais” que acredita nas fontes esquerdistas e no sr. LaRouche. Nessa multidão de caipiras crédulos há inúmeros patriotas sinceros. Mas a destruição de um país começa quando seus patriotas se idiotizam, deixando aos traidores, conspiradores e revolucionários o monopólio da esperteza.

A história da manipulação dos patriotas brasileiros por espertalhões de esquerda é em si mesma uma tragicomédia. Desde há décadas, a liderança esquerdista vem submetendo essa gente a um tratamento pavloviano, na base de um-choque-um-queijo, que se demonstrou eficaz ao ponto de muitos oficiais de alta patente, ideologicamente anticomunistas, acharem hoje que é uma lindeza sumamente honrosa transformar os nossos soldados em cavouqueiros e tratoristas a serviço do MST. Como é que se leva um cérebro humano a mergulhar nesse abismo de estupidez? É simples: basta criar uma equipe selecionada entre esquerdistas bem falantes e dividi-la em duas alas, encarregadas de tarefas opostas — uma infiltrada na mídia, incumbida de espalhar mentiras escabrosas, fomentando o ódio anti-militar; outra, bem colocada nos próprios círculos militares e na ESG, encarregada de afagar o ego das Forças Armadas e induzi-las à conciliação e à colaboração com a estratégia comunista continental por força do seu próprio patriotismo, facilmente convertido em anti-americanismo por meio de um fluxo habilmente planejado de informações falsas (entre as quais é claro, as fornecidas pelo sr. LaRouche). Na primeira equipe, destacam-se Caco Barcelos, Cecília Coimbra e Luiz Eduardo Greenhalgh. Na segunda, Márcio Moreira Alves, Mário Augusto Jacobskind e Cesar Benjamin. A duplicidade de tratamento deixa a vítima desnorteada e acaba por subjugá-la. Entre tapas e beijos, boa parte da nossa oficialidade se deixou facilmente cair no engodo, mostrando ter mesmo QI de ratinho de laboratório. A recente palestra do comandante do Exército em Porto Alegre mostra até que ponto uma instituição caluniada, marginalizada e espezinhada sente alívio e reconforto ante a oferta humilhante de um lugarzinho no banquete de seus tradicionais detratores.

Ardis semelhantes foram aplicados entre empresários e políticos, com igual eficácia.

É por isso que se tornou tão difícil explicar aos brasileiros aquilo que, entre os conservadores americanos, até os mais lerdos de inteligência como Pat Robertson entendem perfeitamente bem: que a elite globalista é o inimigo número um da soberania nacional americana e, por tabela, mas somente por tabela, de todas as demais soberanias.

P. S. – Um amigo envia-me o seguinte lembrete: “No dia 30 passado a polícia de São Paulo prendeu a peruana Juliana Custódio, envolvida na morte de um bombeiro durante aqueles dias. A TV Bandeirantes deu destaque para o caso. A Globo deu uma nota e esqueceu o assunto. Acontece que ontem um juiz entrevistado pela Band disse o seguinte: em dez anos estará formada no Brasil a maior rede terrorista jamais vista nas Américas. Eu, particularmente, acho que a ‘Coisa’ estará formada antes mas ela é inevitável. A peruana é apontada como elo de ligação entre as FARC e o PCC.”

Sepultando Um Cadaver Intelectual

Monumenta vitae Saderis | 6 de março de 2003

(extraídos de O Imbecil Coletivo ) I – Por uma esquerda melhorzinha II – Resposta a Emir Sader, Prêmio Imbecil Coletivo 1996 III – Resposta aos fanfarrões amedrontados IV – Opera Omnia Emiris Saderis Singela homenagem deste site ao natimorto Dr. Emir Sader — Sua polêmica com Olavo de Carvalho está encerrada?

— Eu nunca polemizei com ele, ele fez uma resposta a um artigo meu, eu nem me dei ao trabalho de responder. Ele é um tipo que merece a chacota nos meios intelectuais. Trabalha numa universidade privada, de propriedade do Levinson, um tipo do escândalo Delfim, da época da ditadura, uma arapuca, cheia de grana, que compra espaços para esse cara escrever nos jornais. Nunca, nenhuma universidade pública ou privada de nível o contratou.

Só agora vi no site www.terra.com.br esse interessante diálogo entre o entrevistador local e um nosso já velho conhecido.

Emir Sader tenta aí fingir superioridade por uns segundos, mas não se contém e logo cai de volta nas intrigas de galinheiro que são o seu elemento natural. É a nostalgie de la boue , que em alguns seres se manifesta após dias ou semanas de afastamento de sua pocilga originária, mas em outros é de eclosão quase imediata, de tal modo lhes dói a saudade de si mesmos quando forçados a comportar-se como gente.

Imagino-o treinando pose de dignidade diante do espelho, meses a fio, para no fim só conseguir aquela inconfundível cara de ostra com que todos o conhecemos, aquela casca de impessoalidade postiça laboriosamente construída em torno de um pouco de meleca que desejaria fazer-se passar por pérola.

A indescritível miséria humana dessa criatura é um espetáculo patético, que quase me arranca lágrimas, não sei se de comiseração por ele ou de dó de um país onde um vigarista de bosta é aceito como professor universitário.

Ele diz, desde logo, que nunca polemizou comigo. É mentira, obviamente. Polemizou sim. Polemizou várias vezes, perdeu feio em todas elas e saiu desfeito em cacos, só lhe restando agora varrer-se a si próprio para baixo do tapete para que ninguém veja o estado deplorável em que ficou.

Defrontamo-nos, por exemplo, no Jornal do Brasil de 25 de outubro de 1997, num debate sobre as conclusões de oitenta anos de experiência comunista. Ele aí tentou provar que cem milhões de mortos eram um miúdo acidente de percurso que em nada comprometia a santidade dos ideais socialistas (um argumento que se poderia aplicar quase ipsis litteris ao nazismo ou à Inquisição Espanhola). Eu, da minha parte, limitei-me a fazer as contas e verificar que o comunismo, tendo matado mais gente que duas guerras mundiais somadas a todos os terremotos e epidemias do século (e mais às vítimas de todas as ditaduras direitistas), tinha constituído, nada mais, nada menos, o acontecimento mais mortífero da história universal, estando abaixo da racionalidade dos símios superiores a sugestão de que valesse a pena tentar a experiência de novo, e sendo menos insensato propor uma reprise da Peste Negra ou das invasões mongóis. Meu argumento, que eu julgava tão engenhoso, fracassou por completo ante a obstinada recusa do dr. Sader de arcar com as responsabilidades intelectuais de um símio superior ou mesmo inferior. Passados cinco anos, ele ainda acha que seria bom começar novamente a Revolução Russa, noutro lugar e com outro nome. Persuadiu-se apenas de que não devia tentar discutir o assunto comigo, chegando mesmo a acreditar que jamais o fizera. Só assim se explica sua estranha declaração ao chat de terra.com.br .

Defrontamo-nos, ainda, em O Globo de 23 de setembro de 2000, num debate a propósito do então recém-publicado Dicionário Crítico do Pensamento da Direita (Mauad Editora) — ele babando-se de admiração devota ante aquele pedaço de cocô editorial, eu demonstrando em poucas linhas que se tratava de uma fraude publicitária ridícula, capaz de enganar somente a seus próprios autores.

O confronto foi tão desigual, intelectualmente, que chegaram a me acusar de agredir um menor de idade.

Antes disso já havíamos trocado umas palavras impressas a propósito do meu livro O Imbecil Coletivo , ele preenchendo servilmente o “Formulário Padrão Para a Redação de Críticas a Este Livro” anteposto à primeira edição, eu apenas anotando que ele fizera exatamente isso, como era de se esperar da sua inteligência formidavelmente criativa.

Como o jornal que o publicara me negasse o direito de resposta, pedi à Academia Brasileira de Filosofia e à Faculdade da Cidade, co-editoras do livro e portanto diretamente interessadas na sua defesa, que me abrissem espaço em matéria paga para uma réplica a meus detratores (v., adiante, “Por uma esquerda melhorzinha”). Sader aproveita-se desse episódio para lançar no ar uma fofoca bem ao estilo da sua moralidade suína, dando a entender que os artigos que anos depois disso passei a publicar semanalmente em O Globo são espaços comprados pelo diretor da Faculdade e não trabalhos profissionais remunerados pelo próprio jornal...

Se isso já não bastasse para demonstrar com que tipo de intrujão estamos lidando, resta o fato de que, num escrito seu que anda circulando pela internet sob o título “Olavo de Carvalho não existe”, o merdinha, com o maior ar de inocência, se refere a essa fofoca como se viesse de fontes impessoais e anônimas e não dele próprio: “Disseram até...” etc. e tal. Não chega a ser maravilhoso que, para dar maior credibilidade ao que diz, ele tenha de atribui-lo a outrem, confessando que o que sai de sua boca não merece confiança? Ele sabe que não presta.

Quanto às considerações pejorativas que ele tece em torno da moralidade do Dr. Levinsohn, imaginando poder-me atingir por tabela, temo que sejam bastante injustas, mas rigorosamente não são da minha conta, já que ignoro tudo das finanças do referido e não me beneficio delas no mais mínimo que seja, para grande decepção de quem julgasse dever-me invejar nesse ponto, como parece ser o caso do dr. Sader. Apenas me pergunto se este se entrega a semelhantes vituperações conjeturais por inveja autêntica ou para esconder de si mesmo os favores — estes sim, reais e comprovados — que recebe da corporação Ford, cuja história, manchada de anti-semitismo e de colaboração com os nazistas, é decerto bem mais rica de episódios torpes do que mil escândalos financeiros de Terceiro Mundo.

Mas depois desse dia ainda tive a ocasião de comentar um artigo dele, no qual, bem ao seu estilo de intrigante poltrão, ele aludia ao meu livro sem citar nominalmente o autor. É esse comentário que ele se gaba de não ter respondido, como se o silêncio que então opôs a meus argumentos não fosse uma admissão de sua completa impotência e sim prova de superioridade olímpica. Leiam o artigo (“Resposta a Emir Sader”, logo adiante) e verão se, à cabal demostração de sua inépcia e incultura, o coitado podia mesmo responder alguma coisa.

Falando em incultura, no rodapé desta página vocês encontrarão a bibliografia completa de Emir Sader. Verão que não contém trabalhos científicos de espécie alguma e se compõe exclusivamente de livros de propaganda esquerdista (a maior parte deles simples coletâneas de textos alheios), que num país normal habilitariam talvez o autor a um cargo de repórter num jornalzinho de partido, mas que no Brasil bastam para fazer dele um professor e até coordenador de departamento.

Não é de espantar que, com obra tão majestosamente insubstancial, ele jamais ostente como prova de sua alegada superioridade os livros que escreveu, mas sim os cargos que ocupou, com os quais, de fato, não posso competir, visto nunca ter-me interessado viver, como ele, do milagre de produzir tamanho efeito empregatício com tão nula bagagem de realizações intelectuais.

É nesse sentido que ele enfatiza que “nenhuma universidade de nível” jamais me contratou. Devo nisso concordar com ele: nenhuma jamais o fez e jamais eu permitiria que o fizesse, porque, a julgar pela amostragem dos 104 autores do supramencionado Dicionário , todos eles professores dessas instituições, aí eu teria de conviver com gente da mais baixa espécie, prostituindo e sufocando minha inteligência em troca de favores vis e remuneração humilhante. Também não fui contratado pela universidade privada da qual Sader fala tão mal. Não sou seu funcionário, nem membro do seu corpo docente, nem recebo dela remuneração alguma. Apenas pertenço ali a um Instituto de Estudos Interdisciplinares que congrega trinta intelectuais do porte de um Bruno Tolentino, de um Jacob Gorender e de um Oliveiros da Silva Ferreira (todos eles igualmente não remunerados), e em cujas instalações me foi permitido dar um curso livre em troca de serviços editoriais prestados esporadicamente à instituição (como por exemplo a edição dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux). Isso é toda a minha relação com a entidade e, de modo geral, com a classe acadêmica brasileira, à qual não pertenço nem penso em pertencer jamais, ao menos enquanto o destino me preservar de semelhante flagelo. Que aí eu seja objeto de chacota, é coisa que admito sem hesitação, dada a total impossibilidade de qualquer coisa mais inteligente que chacotas pueris brotar jamais desse ambiente. O próprio Dicionário Crítico é uma chacota — e chacotas, no estrito sentido da palavra — são a vida e a obra inteiras de Emir Sader.

Mal acabo de escrever essas palavras, porém, e já sinto um certo arrependimento pela leviandade de ter ocupado o meu tempo e o dos visitantes deste site com um personagem miúdo e desprezível como o dr. Sader, que desde nosso último entrevero público no ano de 2000 vinha ininterruptamente espalhando as coisas mais escabrosas a meu respeito sem que eu caísse na tentação de reparar no que ele dizia. Agora ele passou dos limites e, confesso, não resisti. Cedi vergonhosamente ao impulso de fazer de conta que o dr. Sader existe, como ele fez de conta que não existo eu.

Sei que não me justifico, mas ao menos me explico, ao admitir que no fundo encontro um certo prazer nesses exercícios de entomologia intelectual, em que, desventrando cadáveres literários de piolhos e expondo a anatomia mental das moscas, descanso de afazeres incomparavelmente mais extenuantes. Pode haver nisso um quanto de sadismo, mas o sadismo jamais chegará a ser tão perverso quanto o saderismo.

Olavo de Carvalho 6 de março de 2003 Monumenta vitae Saderis Extraídos de O Imbecil Coletivo I – Por uma esquerda melhorzinha (1) O Jornal do Brasil do dia 4 concedeu uma página inteira para que os incomodados pelo livro O Imbecil Coletivo tentassem remeter seu autor à lata de lixo do irrelevante por meio de frases do seguinte teor:

“ Seu discurso é de direita ” ( Leandro Konder ).

“ É de direita ” ( Emir Sader ).

“ É filósofo auto-intitulado ” ( André Luiz Barros ).

“ Não é nem homem ” ( Muniz Sodré ).

Nos anos cinqüenta, ou sessenta, o sujeito que acreditasse poder fulminar um livro mediante a mera catalogação ideológica de seu autor 3⁄4mesmo não acompanhada de juízos divinatórios sobre sua sexualidade ou de sentenças pejorativas quanto à sua condição profissional, coisas que na época eram inconcebíveis 3⁄4 seria imediatamente rebaixado do estatuto de intelectual para o de demagogo barato. E a própria esquerda faria isso, como se vê por esta advertência contida num editorial do jornal do Partido Comunista, Novos Rumos , de abril de 1962, que cito logo no início do meu livro:

“Cabe-nos rever uma outra atitude comple­tamente enraizada entre nós, e que evidencia uma ver­dadeira letargia mental. Trata-se do hábito de raciocinar den­tro de esquemas fixos. Este ‘mé­todo’ de raciocínio se limita a apanhar os fatos e a en­quadrá-los dentro do esquema pré-de­terminado. Exemplo é o esquema ‘revolucio­nário x reacioná­rio’. Segundo este esquema, tudo o que temos de fazer é classificar as pes­soas, os atos e os fatos em ‘revolucionários’ ou ‘reacionários’. Feito isto, está concluída a ‘tare­fa’. Como poderemos compreen­der a reali­dade, mantendo esta atitude?”

Hoje em dia, professores universitários, jornalistas e escritores praticam descaradamente esse gênero de rotulações sumárias, acrescentando-lhes ainda insultos espumantes de ódio, de inveja, de ressentimento, e, feito isto, julgam que está, como diz o editorial, “concluída a tarefa”. Tarefa que supõem dar-lhes o direito de posar como “intelectuais de esquerda”.

Ao permitir que esses insensatos falem em seu nome, sem exigir deles o mínimo de compostura intelectual que se requer do ofício letrado, os movimentos de esquerda só afundam mais e mais no lamaçal da desmoralização.

Quando os pseudo-intelectuais cujos erros primários denuncio em meu livro tentam desviar a discussão para o terreno do maniqueísmo ideológico, o que eles fazem é usar os partidos de esquerda para esconder por trás deles suas fulgurantes inépcias pessoais. Com isto, mostram não ter o mínimo respeito pela dignidade de milhares de militantes que, ao lhes confiar uma tarefa intelectual, esperavam vê-la cumprida, no mínimo, no nível exigido por Novos Rumos .

É muito confortável para esses intrujões fingirem, ante o público, que os critiquei desde o ponto de vista ideológico, como inimigo direitista. Mas jamais critiquei ninguém por ser de esquerda, e sim por não saber sê-lo com alguma dignidade. Falo contra a impostura daqueles que, no fundo, só estão na esquerda porque aí podem proteger-se de toda crítica sob o manto da solidariedade ideológica. Discutir ideologia com essa gente seria conceder-lhes uma honra que não merecem. Não discuti com eles em meu livro nem vou fazê-lo agora, porque vigarice ( intelectual ou qualquer outra ) é coisa que não se discute: vigarice se denuncia, e pronto.

Vejam só, leitores, se é possível discutir ideologia no nível desses sujeitos: Emir Sader acha que a melhor maneira de defender a sua é alegar em favor dela mentirinhas tolas, que o mais breve exame desmente. Leandro Konder crê ser fiel ao espírito esquerdista ao proclamar que a veracidade de uma idéia vale menos que seu número de adeptos, quando isto não é marxismo nem esquerdismo, é Goebbels puro e simples. Muniz Sodré acha que piadinhas insultuosas sobre a sexualidade de alguém que ele nunca viu são crítica literária marxista, quando são apenas a manifestação da vaidade insana e preconceituosa de um machista papudo e simiesco. André Luiz Barros acha que é jornalismo cultural de esquerda declarar “auto-atribuída” a denominação de filósofo que o próprio jornal onde escreve me atribui há três anos. Já o editor do Caderno B entende que é jornalismo tout court gastar uma página inteira a cores, com chamada na capa, para dizer que o objeto da reportagem é um sujeito sem importância nenhuma...

É este tipo de intrujice que tenho combatido, e não a opção ideológica de quem quer que seja, que é um direito constitucional dos mais óbvios, se bem que escandalize a certos indivíduos quando o vêem exercido pelos outros. Ao fingirem que os combato por serem intelectuais de esquerda, Muniz, Sader e tutti quanti não apenas massageiam com uma falsa lisonja seus respectivos egos, mas prostituem sua opção ideológica, colocando-a a serviço de um interesse pessoal de natureza vil, que é o de poderem continuar a desfrutar de um prestígio intelectual para o qual estão absolutamente desqualificados.

Sou do tempo em que existiam intelectuais de esquerda, sei reconhecer um quando o vejo e por isto mesmo sei que é coisa que hoje em dia não existe mais. Intelectual de esquerda era José Honório Rodrigues, era Ênio Silveira, era Caio Prado Jr., era Otto Maria Carpeaux. Remanescentes vivos dessa raça em extinção, só Alfredo Bosi e Franklin de Oliveira. Não têm similares. Pretender nos impingir Emir Sader e Muniz Sodré como intelectuais de esquerda é simplesmente um caso para a Delegacia do Consumidor. Imagino se Ênio ou José Honório, criticados justa ou injustamente, iriam se fazer de donzelas ofendidas e responder com chavões idiotas, em vez de analisar com meticulosa honestidade as afirmações do crítico, para impugná-las no campo da lógica e da argumentação culturalmente relevante, exatamente como fiz com as opiniões de Paulo Roberto Pires e de Sader. Imagino se Caio, ou Otto, em vez de se defender sozinhos como os bravos homens que eram, iriam correr como pintainhos assustados para se abrigar sob as asas da solidariedade corporativa, como hoje o fazem esses pobres coitados. Não, não censuro um Sader, um Muniz Sodré, por serem intelectuais de esquerda, mas por serem apenas as tristes caricaturas de uma família cultural que já teve entre seus membros algumas das mais altas expressões da inteligência pátria. Para cúmulo de ironia, alguém me diz que o editorial acima citado, assinado pelo pseudônimo J. Miglioli, foi escrito pelo próprio Leandro Konder. Não sei se isto é verdade, mas, se é, o que se conclui é que Konder, como tudo na esquerda, decaiu muito desde 1962.

Em tudo o que essas criaturas falaram não se viu enfim a menor referência a um só de meus argumentos, muito menos qualquer tentativa de refutá-los, empreendimento que estaria realmente acima da capacidade dos entrevistados. Só rotulação grosseira adornada de insultos em linguagem de leão-de-chácara. Só urros de gorilas que batem no peito se fazendo de heróis quando, reunidos em bando armado de paus e pedras, cercam o inimigo solitário e ainda o chamam de covarde. Mas, se imaginam que essas coisas podem me intimidar no mais mínimo que seja, é porque me medem pela sua própria estatura. Se imaginam que, rebaixando meu livro ao nível de suas cabeças, podem dissuadir o leitor de tentar averiguar por si mesmo o teor de meus argumentos, é porque olham o povo brasileiro no espelho de seu próprio auto-engano. E se crêem poder sepultar a reputação alheia sob toneladas de lama, é porque sob a mesma lama enterram suas cabeças de avestruzes, para não tomar consciência de que sua hora chegou. Mas todo esse subterfúgio é inútil: desde a publicação de O Imbecil Coletivo , essa gente já está em julgamento 3⁄4 e o julgamento prosseguirá implacavelmente, ante os olhos do povo, até a condenação final dos usurpadores e corporativistas que, em benefício próprio, bloqueiam o progresso cultural deste país.

II – Resposta a Emir Sader, Prêmio Imbecil Coletivo 1996 (2) Estimulado talvez pela onda de fanfarronice revolucionária que vem crescendo desde o encontro de Chiapas, o prof. Emir Sader decidiu partir para a propaganda esquerdista mais direta e rasteira, usando para este fim as páginas de uma imprensa que ele mesmo, surpreendentemente, afirma estar a serviço da direita. A massa compacta de mentiras, tolices e grosserias que ele fez publicar na edição de ontem do JB não pode ficar sem resposta, se é que o leitor brasileiro ainda tem direito à informação correta.

Sader acusa de hipócritas todos os que fazem críticas à esquerda sem assumir um compromisso político com a direita. O pressuposto implícito é que só se pode criticar um bloco ideológico em nome de outro bloco ideológico, nunca em nome da moral, da lógica, da ciência ou do puro e simples bom senso. Todas as categorias do conhecimento humano estão submetidas aos critérios absolutos da guerra ideológica. Antes de decidir se dois mais dois são quatro ou cinco, o prof. Sader tem de perguntar se quem o disse foi o mocinho esquerdista ou o bandido direitista. Não existe realidade fora do palquinho maniqueu que constitui o máximo horizonte mental de um perfeito idiota latino-americano.

Ele assegura, com a cara mais bisonha do mundo, que “a esquerda abrigou ao longo do século o que de melhor a inteligência humana produziu”, e que por esta razão “a direita tem complexo de inferioridade no plano da inteligência”. Isto bem mostra o nível das leituras desse pretensioso semiletrado. A intelectualidade de esquerda é vasta, mas nunca é highbrow . Ela não tem um Eliot, não tem um Yeats, um Claudel, um Valéry, um Pound, um Rilke, um Husserl, um Scheler, um Hartmann, um Jaspers, um Heidegger, um Popper, um Whitehead, um Lavelle, um Berdiaeff, um Bergson, um Cassirer, um Croce, um Mircea Eliade, um Jung, um Thomas Mann, um Weber, um Toynbee, um Jaeger, um Spengler, um Guénon, um Schuon, um Voegelin, um Weil, mas tem uma multidão de pequenos jean-paul-sartres que falam pelos cotovelos tentando fazer a quantidade passar por qualidade. Essa arraia-miúda embevecida pela própria retórica domina as universidades, a imprensa e o movimento editorial, onde penetrou desde a década de 30 ajudada pelas verbas culturais da KGB ( uma história que Sader provavelmente ignora ) e onde reina até hoje pelo boicote sistemático aos adversários superiores em inteligência, cultura e honestidade. A esquerda não tem nada, intelectualmente, exceto dois ou três pensadores medianos como Lukács e Horkheimer ( sempre patrulhados pela própria esquerda ), e exceto, naturalmente, aquilo que rouba: nosso descarado professor contabiliza no patrimônio esquerdista até mesmo Freud, um moralista conservador ( v. Philip Rieff, Freud: The Mind of a Moralist ) e Bertrand Russell, que só aderiu à esquerda em plena senilidade e que na época do seu maior esplendor intelectual propunha nada menos que uma guerra atômica preventiva contra a URSS. Se há um motivo sério para alguém sem preconceitos políticos perder toda a confiança na esquerda é justamente a constatação da manifesta inferioridade intelectual da horda esquerdista, que monopoliza as instituições culturais e aí estabelece o socialismo do QI, nivelando tudo por baixo e declarando inexistente o que quer que esteja para além de seu horizonte de sapo no fundo do poço. Ela tem o monopólio da patifaria cultural, com que ilude a massa dos desprivilegiados da inteligência. Ao acreditar no mito de sua superioridade, ela mostra que é apenas vítima de sua própria intrujice.

Sader afirma que “quase ninguém se assume como neoliberal” – mentirinha boba que não resiste sequer a um confronto com a lista de membros do Instituto Liberal, que o prof. Sader cuidadosamente se esquivou de consultar para poder preservar intacta sua crença de que os homens inteligentes são de esquerda.

Ele diz que a direita arca com o ônus de ter possuído Mussolini, Hitler, Franco, Salazar, Pinochet, Videla e Médici, mas prudentemente se omite de acrescentar que as vítimas desses todos, somadas ( e incluindo mortos, presos, torturados e simplesmente incomodados ), não chegam à metade da cifra de pessoas assassinadas por ordem de um só governante esquerdista na URSS em apenas duas décadas. O número total de vítimas da tirania esquerdista, entre China, Rússia, Polônia, Cuba, etc., sobe aliás a 150 milhões de pessoas – quase quatro vezes o total dos mortos da II Guerra Mundial. É preciso ser realmente um perfeito idiota para supor que todo esse morticínio foi apenas um amontoado de desvios acidentais sem qualquer conexão com a ideologia socialista, e que esta se conservou pura e imaculada no céu das essências platônicas, a salvo de toda contaminação da História, tendo agora cacife bastante para se apresentar ao mundo como expressão do mais elevado humanitarismo combatido pelos malvados direitistas.

Sader mente ao dizer que a direita monopoliza os espaços nos meios de comunicação. A verdade é precisamente o contrário: é muito difícil hoje em dia varar a barreira com que o esquerdismo dominante nas redações protege os seus ídolos contra qualquer crítica mais séria que alguém pretenda lhes fazer. Mesmo homens de grande prestígio, na direita, encontram enorme dificuldade para fazer publicar suas palavras. E na TV, quando se organiza um debate, ou simulacro de debate, a esquerda tem sempre direito a pelo menos dois terços das vozes, exceto no canal dos evangélicos. Na imprensa cultural, então, está ainda em pé o Muro de Berlim. Será que Sader já viu, em algum suplemento, resenha de algum livro publicado pela Biblioteca do Exército, pelo Instituto Liberal ou por editora evangélica? E como explicar o silêncio total de que a imprensa cerca os notáveis congressos de filosofia dirigidos em São Paulo por Miguel Reale, no Rio por Tarcísio Padilha, comparado à ruidosa festividade com que celebra os happenings pseudoculturais em que os srs. Adauto Novaes, Marilena Chauí e tutti quanti gastam com futilidades o dinheiro público? Todo esse policiamento da opinião será obra da direita?

Mais falso ainda é dizer que a direita possui editoras milionárias para divulgar o pensamento neoliberal. É só ler os catálogos das principais editoras – e sobretudo das mais ricas – para ver que o esquerdismo é senhor quase absoluto do mercado editorial, onde defende seu monopólio a dentadas. Obras neoliberais, em geral, só são aceitas para edição quando financiadas pelos autores. E obras propriamente conservadoras – na acepção correta da palavra – simplesmente não existem no mercado editorial brasileiro, o que permite que a esquerda, desinformando o público, explore à vontade a confusão entre neoliberalismo e conservadorismo. O Sr. Sader já viu alguma tradução de Roger Scruton, de Rama K. Coomaraswamy ou de Martin Lings, se é que já ouviu falar deles? Quanto ao aparato editorial do Estado, a única voz divergente no coro unanimitário do esquerdismo que o domina foi a Editora da Universidade de Brasília no tempo do reitor José Carlos de Azevedo. E malgrado o fato de que a série de livros ali publicada fosse celebrada por um Karl Deutsch como uma das melhores coleções de obras políticas já produzidas neste mundo, a coleção foi extinta logo após a saída de Azevedo, o qual até hoje sofre os efeitos do rancor esquerdista nem um pouquinho disfarçado.

O prof. Sader, em suma, junta à completa falta de informação a total carência do desejo de adquiri-la. Ele imagina que com suas leiturinhas vulgares pode julgar a cultura de todo um século, mas é muita areia para o seu caminhãozinho. Ele é como a “España miserable” de Antonio Machado, que “envuelta en sus andrajos desprecia cuanto ignora”. Pretensioso, arrogante, semiculto como em geral o são os membros da intelligentzia esquerdista brasileira, ele só engana a quem deseja ser enganado. Decididamente, ele não veio para explicar, mas para confundir. E, pretendendo contestar o Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano , só o que ele consegue é mostrar aos aspirantes o caminho da perfeição.

6 de agosto de 1996 III – Resposta aos fanfarrões amedrontados (3) Ante a coragem e o heroísmo daqueles que convocam um exército inteiro para atacar um “franco-atirador” e ainda o chamam de covarde, devo observar que os gorilas também batem no peito quando, armados de paus e pedras, reúnem a tribo para cercar um leopardo solitário.

Eu já contava com esse tipo de reação simiesca, por saber perfeitamente com quem estou falando. No prólogo de O Imbecil Coletivo já lhes respondi antecipadamente: “Não tenho a menor dúvida de que este livro terá, numa boa fatia dos ambientes letrados, a recepção-padrão dada a outros tantos livros brasileiros: o completo silêncio quanto ao conteúdo, uma floração majestosa de fofocas e calúnias quanto à pessoa do autor.”

A fúria irracional e o terror pânico mal disfarçados com que essa gente, incapaz de qualquer argumentação séria, busca socorro no velho arsenal dos chavões e frases feitas, é um show de baixeza que não mereceria resposta, se não fosse pelo respeito que é devido ao leitores do JB. É a eles exclusivamente que me dirijo nas linhas seguintes, e não a meus antagonistas. A estes, o tempo responderá: um dia, desejarão antes esconder-se debaixo da terra do que reconhecer a autoria das palavras levianas e insensatas que, sob a inspiração repentina do medo e do ódio, fizeram publicar. Mas será tarde: elas ficarão coladas indelevelmente às suas reputações, como provas daquilo que foi talvez o momento mais infame e obscuro de toda a história da intelligentzia brasileira. Suas declarações, com efeito, constituem um striptease moral: elas revelam ante os olhos escandalizados dos leitores o baixo nível, o fanatismo grosseiro, a completa inépcia e a desonestidade maciça daqueles que são pagos pelo Estado para supostamente desempenhar tarefas de ensino, e que procuram ludibriar o público vendendo como altas obras de inteligência as expressões mal disfarçadas de seus baixos instintos.

Como essa gente pode sempre contar com espaços ilimitados na imprensa, que mal deixa ao direito de resposta cinco linhas de defesa para cada centena concedida ao ataque, quem quer que seja objeto de sua ira coletiva tem de comprar o espaço para defender-se; e quando não tem recursos próprios para fazê-lo e recorre à ajuda de amigos generosos, ainda é acusado perfidamente de “apoiar-se no poder econômico” 3⁄4 para usar a expressão do mais cínico dentre meus detratores 3⁄4, como se o poder de comprar um anúncio pudesse comparar-se ao de desfrutar de jornais inteiros.

Para tentar remediar com algum esclarecimento o esforço conjugado de obscurantismo com que esses militantes do nada emporcalharam a edição de ontem do JB, passo a analisar, com a brevidade requerida pela natureza do caso, as palavras de cada um.

O primeiro que deve ser desmascarado é o editor da página, que, permanecendo confortavelmente anônimo, é no entanto o principal responsável pelo enfoque geral da matéria. É dele, e não de algum dos entrevistados, que provém a rotulação “filósofo auto-intitulado”. Rotulação triplamente mentirosa. Primeiro, porque até 1994 eu me apresentava apenas como “escritor e jornalista”, por força do mero hábito profissional, e a primeira instituição a me atribuir publicamente a condição de filósofo foi o próprio Jornal do Brasil , nos créditos de um artigo meu publicado no dia 20 de dezembro desse ano. Mais tarde, em artigo assinado por Antônio Fernando Borges no caderno Idéias em 6 de janeiro de 1996, a propósito de meu livro O Jardim das Aflições , o JB voltou a me apresentar como filósofo, ressaltando aliás minha superioridade em relação àqueles que denominava “ philosophes de plantão” ( referência óbvia e pejorativa àquela mesma classe de pessoas que agora o jornal trata como divindades intangíveis ) e destacando minhas qualidades de “erudição generosa e busca permanente de clareza e honestidade intelectual”. Deste modo, se agora o JB pretende fingir que são auto-atribuídos o estatuto profissional e os méritos que ele mesmo me atribuiu, isto só demonstra a sua falta de memória e a volubilidade de suas opiniões, apressando a queda vertiginosa de seu crédito ante os leitores.

Em segundo lugar, a rotulação é falsa, porque nas páginas do mesmo Jornal do Brasil de anteontem, respondendo ao jornalista Paulo Roberto Pires, que atribuía a meu livro frases que nele não constavam, eu já havia explicado: “Não me autodenomino coisa nenhuma, nem poderá o Pires assinalar uma única página d’ O Imbecil Coletivo onde eu o tenha feito. Sou assim denominado pela Academia Brasileira de Filosofia 3⁄4 onde acabo de ser publicamente homenageado nessa condição 3⁄4, pelo Instituto Brasileiro de Filosofia, pela Faculdade da Cidade, pela Universidade Católica do Salvador.” O JB tinha evidentemente o direito de averiguar, em consulta a essas instituições, a procedência de minha afirmativa, mas não o direito de dá-la arbitrariamente como falsa e repetir a rotulação caluniosa como se jamais tivesse sido desmentida.

Em terceiro lugar, a rotulação é falsa porque a condição de filósofo não se adquire nem por auto-atribuição nem por nomeação de terceiros, muito menos por decreto do Estado, mas pela natureza mesma da atividade que se desempenha, a qual, no meu caso, pode ser comprovada mediante simples consulta a meus livros publicados, principalmente Uma Filosofia Aristotélica da Cultura ( a ser brevemente reeditado pela Topbooks ) e O Jardim das Aflições ( Rio, Diadorim, 1996 ). Sendo assim, minha condição de filósofo é simplesmente um fato , não um valor a ser afirmado ou negado com nuanças emocionais de um patetismo ridículo. Se sou mau ou bom filósofo, grande ou pequeno, o tempo dirá. Mas não é preciso esperar pela passagem do tempo para perceber que a denominação de filósofo é injusta e absurda quando aplicada a autores de meros livros de divulgação, como Leandro Konder. Pois filósofo, por definição, é quem filosofa, é quem elabora, bem ou mal, uma resposta pessoal a questões filosóficas, ou pelo menos uma interpretação original de filosofias antigas ( como fiz no meu livro sobre Aristóteles ), e não quem simplesmente escreve sobre esta ou aquela filosofia, repetindo ou trocando em miúdos o que seus filósofos prediletos disseram, coisa que no máximo daria direito à condição de historiador, de ensaísta, de professor ou de jornalista cultural. Só para estabelecer uma comparação didática, o estatuto de um Konder ou o de um Adauto Novaes não é o mesmo, nesse sentido, que o de um José Arthur Gianotti, que pode não ser um bom filósofo mas é inegavelmente um filósofo, pois desde seu primeiro livro mostra um esforço de elaboração pessoal, original, que caracteriza de maneira inequívoca a atividade filosófica. Esta distinção é elementar, é óbvia e é universalmente reconhecida, e por isto dá uma mistura de pena e vergonha ter de repeti-la, com paciência de professor primário, a pessoas que são pagas pelo Estado justamente para ensinar esse gênero de coisas, bem como a um jornalista que, no cargo de editor, teria a obrigação de saber escrever e de usar as palavras no seu justo sentido.

A rotulação infamante, reproduzida na primeira página, revela um intuito bastante desonesto da parte dos responsáveis pela matéria. E tão perverso foi o espírito que a produziu, que até mesmo minha condição de jornalista autônomo, que é a simples definição legal do meu estatuto profissional ante o INPS e ante o trono do Altíssimo, teve de vir relativizada e posta em dúvida por irônicas aspas. Nada, mas absolutamente nada na ética jornalística justifica esse tipo de abuso, que menos ofende a mim do que desrespeita o leitor.

Para completar, o jornal mente da maneira mais escandalosa ao dizer que publiquei um anúncio pago com minha resposta a Paulo Roberto Pires. Sou um homem pobre, não teria dinheiro para um anúncio de carro usado, quanto mais para um tijolaço em seis colunas. Quem publicou o anúncio foi a Academia Brasileira de Filosofia, renovando seu reconhecimento público de minha condição de filósofo e acrescentando-lhe a homenagem de tomar a iniciativa de minha defesa, coisa que muito me honra e que torna ainda mais despropositado o uso que o jornal fez da expressão “auto-intitulado”. O JB, novamente, poderia ter verificado a procedência do anúncio mediante simples consulta aos arquivos de sua própria contabilidade. Mas, diante de certos jornalistas que da profissão não conhecem nem o bê-a-bá, seria pedir demasiado esperar que tivessem essa elementar precaução de honestidade. E a um editor que tem preguiça até mesmo de consultar o arquivo da redação para ver as matérias de 1994 seria demasiado esforço descer mais um andar para ir até a contabilidade, não é mesmo?

Mas o editor não é o único responsável pela porcaria. Os repórteres também entram nisso. Nada tenho a reclamar de Polyanna Torres, que me entrevistou por telefone e reproduziu oralmente minhas declarações de maneira fidedigna, só para vê-las depois brutalmente cortadas por um editor e reduzidas a frases soltas e sem qualquer encadeamento. É o destino de todos os repórteres. Dou só um exemplo de frase perversamente editada. Tendo Polyanna me perguntado, segundo a pauta que recebera, com base em que direito eu criticava os figurões do establishment intelectual local, respondi: “Com base num direito constitucional elementar. Não cabe a mim explicar com que direito os critico, mas eles é que têm de explicar de onde tiraram a idéia de que têm o direito de não ser criticados nunca.” Polyanna releu esta frase em voz alta e eu a confirmei. Nas mãos do editor, ela se tornou: “ Eu não tenho que explicar por que critico tanta gente , eles é que têm de explicar por que não podem ser criticados.” É coisa substancialmente diferente: procura dar a impressão de que me dispenso de justificar minhas críticas, quando eu disse apenas que o direito de criticar é óbvio e que pô-lo em dúvida é arrogar-se um estatuto divino ( coisa aliás bem ao feitio dos manipanços intelectuais que já Lima Barreto, em seu tempo, satirizava ). Isso não é editar: é, manifestamente, distorcer.

Quanto a Cristiane Costa, não digo nada, pois não sei o que fez ou o que não fez no presente caso.

Mas o Sr. André Luiz Barros, que também assina a matéria, foi extremamente desonesto ao posar de mero relator da contenda, sem informar ao público que era também personagem e parte interessada na disputa, tendo aproveitado a ocasião para dar-me um tapa com mão alheia, escondendo-se covardemente atrás dos nomes dos entrevistados. Pois ele é objeto de uma grave denúncia feita em O Imbecil Coletivo : relatando uma conferência que diz ter ouvido do prof. Gerd Bornheim, ele escreveu, na edição do JB de 28 de setembro de 1995, que Michel de Montaigne influenciou grandemente o pensamento do século 15 ( Montaigne nasceu no século seguinte ) e que as viagens de exploração colonialista terminaram ( em vez de começar ) no século 16. Em artigo publicado em O Globo , depois reproduzido no livro, exigi de Bornheim e do repórter que explicassem ao público qual dos dois era responsável por tamanhos disparates, inaceitáveis num aluno de ginásio, quanto mais num catedrático e num ( direi auto-intitulado? creio que nem isso ) jornalista cultural. Barros, escondido no seu canto, não deu um pio, e Bornheim fingiu indignação para não ter de descer do pedestal aonde supunha ter-se elevado por não sei quais glórias, e prestar satisfações ao público que o sustenta. Mas vejo que Barros guardou seu rancor, aguardando a oportunidade, que agora lhe sorriu, de usar novamente o nome de Bornheim, acompanhado de alguns outros, para através deles obter uma vingancinha tardia que só revela a mesquinhez do seu espírito. Não sei se Bornheim, tendo preferido uma vez acusar o cobrador para não ter de pagar uma dívida ou de desmascarar o intrujão que a contraíra em seu nome, vai permitir que a farsa se repita.

Como se não bastasse a malevolência do editor, o time dos entrevistados, todo ele constituído, com uma única exceção, de pessoas criticadas no meu livro, entrou em campo em ordem unida, para repetir em coro fielmente, letra por letra, aquelas rotulações de praxe que, na primeira página do meu livro, são satirizadas no “Formulário-padrão para a redação de críticas a O Imbecil Coletivo ”. Nem seria de esperar que cérebros tão mecanizados produzissem respostas mais inventivas. O livro foi escrito justamente para mostrar que essas pessoas pensam assim, se é que isso é pensar, e elas se apressaram a dar à tese de O Imbecil Coletivo uma prova mais patente do que ela poderia desejar. Os tópicos mais votados, nos quadradinhos da múltipla escolha, foram que sou um reacionário, que desejo aparecer e que estou a serviço de interesses empresariais.

Mas vamos por partes. Na matéria consta que ataquei o prof. Emir Sader, na edição de anteontem, “por suas posições de esquerda”. É falso: não ataco ninguém pela sua adesão a esta ou àquela ideologia, mas por sua maneira desonesta de defendê-la. Emir Sader tinha dito que a esquerda era autora do que de melhor produziu a inteligência humana no século XX, e uma simples relação dos nomes célebres das artes, da ciência e da filosofia nesse período basta para demonstrar a absurdidade completa dessa pretensão.

É uma maneira torta e doente de ver as coisas afirmar que critico as pessoas por serem intelectuais de esquerda. Sou do tempo em que existiam intelectuais de esquerda, sei reconhecer um quando o vejo e por isto mesmo sei que é coisa que hoje em dia não existe mais. Intelectual de esquerda era José Honório Rodrigues, era Ênio Silveira, era Caio Prado Jr., era Otto Maria Carpeaux. Hoje o único sobrevivente dessa espécie em extinção é Alfredo Bosi ( Antônio Cândido está desativado, parece ). Pretender nos impingir Emir Sader e Muniz Sodré como intelectuais de esquerda é simplesmente um caso para a Delegacia do Consumidor. Imagino se Ênio, ou José Honório, criticados justa ou injustamente, iriam se fazer de donzelas ofendidas e responder com chavões idiotas, em vez de analisar com meticulosa honestidade as afirmações do crítico, para impugná-las, se cabível, no campo da lógica e da argumentação culturalmente relevante, exatamente como fiz com as opiniões de Pires e de Sader. Imagino se Caio, ou Otto, em vez de se defender sozinhos como os bravos homens que eram, iriam correr como pintainhos assustados para se abrigar sob as asas da solidariedade corporativa, como hoje o fazem esses pobres coitados. Não, não censuro um Sader, um Muniz Sodré, por serem intelectuais de esquerda, mas justamente por não o serem; por serem apenas as tristes caricaturas de uma família cultural que já teve entre seus membros algumas das mais altas expressões da inteligência pátria.

Mas o prof. Sader, apelando ao direito de não responder, responde. É mais uma expressão da lógica singular que o caracteriza. “A direita usa o discurso da ordem, da nova ordem mundial”, diz ele. Bem, pergunto: E eu com isso? Puxando a discussão para esse campo e dando por pressuposto, com o automatismo intelectual de um mongolóide, que quem quer que o critique deve ser um apologista da nova ordem mundial ( como se ele mesmo fosse a máxima encarnação viva da tendência contrária ), Sader vai parar muitos metros longe do alvo que visava. O que eu tinha a dizer contra a nova ordem mundial, e que é bem mais interessante do que tudo que uma esquerda de miolo mole vem repetindo, está dito nos capítulos finais de O Jardim das Aflições , que uma esquerda sensata leria com atenção, porque lhe fariam bem. Mas o prof. Sader ignora isso, como ignora quase tudo o mais sobre o que fala. Quem quer que lhe pareça antipático ele manda imediatamente para a direita, e estamos conversados. “É de direita” é o argumento terminal em qualquer debate, e na verdade é o único que o prof. Sader conhece para resolver todas as questões, seja de ordem sociológica, aritmética ou sentimental.

Leandro Konder, que retransmite fielmente a mesma estação, só precisou apertar o botão do gravador para ficar repetindo: É de direita, é de direita, é de direita. Isto parece, de fato, responder a tudo.

Mas Leandro, também, não foi criticado no meu livro por ser de esquerda, e sim por ter escrito, com todas as letras, que a veracidade de uma idéia vale menos do que o número de seus adeptos, opinião que não é em si essencialmente de esquerda ( já que é tradução de Goebbels ), mas é de uma estupidez de rachar. Falar contra a direita, genericamente, para não ter de responder a críticas rigorosamente exatas sobre pontos determinados, é pura manobra diversionista. Mas também de Leandro nunca esperei outra coisa.

Sabonete por sabonete, no entanto, ninguém foi mais escorregadio do que o prof. Muniz Sodré, que, após terem seus colegas puxado a discussão do campo da ética intelectual para o das generalidades ideológicas, deu um giro ainda mais espetacular e desviou o debate do terreno da ideologia para o da sexologia, questionando a masculinidade de seu crítico, com a frase memorável: “Ele não deve ser nem homem”. Confesso não ter entendido bem o vínculo de implicação recíproca que esse machista enragé enxerga entre a virilidade papuda e as opiniões corretas, ficando os pobres gays e lésbicas ( entre os quais até eu, porca miséria ) com o monopólio do erro. Mas, em todo caso, a prova de masculinidade que sua sentença me exige é coisa que não posso lhe fornecer em público, porque não ficaria bem nem para mim nem para ele, por mais que ele a deseje. Em conclusão, mudemos de assunto, a bem da moralidade, enquanto fica no ar a dúvida sobre o que terá querido dizer esse sujeito quando, após ter em público essa reação patentemente hidrófoba, declara, com a maior inocência fingida, que o raivoso sou eu.

Mas se a questão da masculinidade relativa dos contendores é de interesse antes da Justiça Penal do que do jornalismo, o que o prof. Sodré diz de José Guilherme Merquior deve, sim, ser desmascarado aqui mesmo: é uma pouca vergonha que a classe unida dos pretensos intelectuais de esquerda, que em vida de Merquior fez o diabo para enlamear a reputação do grande ensaísta, procure usá-la como arma retórica contra mim, agora que ele está morto e já não pode denunciar, como certamente haveria de fazê-lo, essa descarada apropriação indébita do seu prestígio.

Foi ainda uma safadeza do jornal publicar que ataquei Muniz num capítulo “sobre uma tal ciência das galinhas pretas”, dando a entender que sou o inventor dessa ciência, quando é público e notório que, de nós dois, é Muniz e não eu o pai-de-santo e, logo, o especialista em galinhas pretas, embora possa recorrer também às brancas ou carijós, conforme o exu de que se trate no caso, segundo suponho na minha ignorância desses assuntos. Que fique portanto por conta do Muniz o trato ritual com os galináceos, enquanto eu me limito ao método, muito mais econômico, de solicitar apenas a proteção da graça de N. S. Jesus Cristo.

Também devo fazer uma nota de rodapé à afirmativa de Muniz de que sou um covarde porque me apoio no poder econômico. Sou um covarde que enfrenta sozinho uma classe unida, disciplinada e fortemente escorada na mídia, como se vê pelo próprio teor da reportagem aqui discutida. E enxergar por trás de mim um poder econômico é paranóia de adolescente esquerdista hipnotizado por histórias de investigações espetaculares tipo O Caso Mattei . Se a prova do misterioso poder econômico a que se refere Muniz consiste no anúncio acima referido, já disse que eu não teria jamais dinheiro para pagá-lo e estou muito grato à Academia, que tornou menos desigual a luta entre um “franco atirador” e o exército inteiro de uma classe solidamente amparada no apoio da imprensa inteira. Se Muniz se refere aos anúncios de meus cursos, publicados pela Faculdade da Cidade, ele teria o dever de saber, e talvez saiba mesmo embora finja que ignora, que a Faculdade anuncia todos os cursos que lá se realizam e faria o mesmo se o curso fosse de Muniz Sodré ou de qualquer outro. Movido pela inveja e pelo rancor, Muniz supõe que a galinha do vizinho é sempre mais gorda ( as galinhas, sempre as galinhas! ), e sua imaginação infla a pobre ave até transformá-la numa conspiração do capitalismo internacional. Se fica feio fazer em público uma demonstração de masculinidade, posso no entanto fazer uma de pobreza, mediante simples exibição de minhas declarações de rendimentos, onde, garanto, Muniz não terá nada a invejar.

Quanto ao prof. Dória, confessou não ter lido O Imbecil Coletivo , e quem o entrevistou se omitiu de lhe informar que o livro trazia, em doses proporcionais, tanto críticas quanto elogios ao seu trabalho. Enganado por um truque sujo, supôs-se atacado e defendeu-se de maneira até mesmo elegante, pela qual o parabenizo, como já o parabenizei pelo seu estudo sobre as famílias poderosas. Não, prof. Dória, o senhor não é um “ninguém”, como diz. Ao contrário de tantos de seus colegas de academia, o senhor é alguém e se tornará maior ainda se prosseguir naquela linha de humildade do homem que se supera pelo esforço científico, como já afirmei no meu livro. Quanto ao destino que o senhor daria ao dinheiro do anúncio, isto fica entre o senhor e a Academia Brasileira de Filosofia, pois, repito, não paguei o anúncio. Mas que tal comprar um pacote de exemplares d’ O Imbecil Coletivo e distribuí-lo às pessoas que já opinaram a respeito?

Bruno Tolentino, por fim, tentou falar algo em meu favor, sem prever, naturalmente, que o jornal poderia dar a suas palavras um sentido muito diverso do que ele pretendia. O que Bruno diz, o que ele tem repetido a quantas orelhas o escutem, é que até 1994 prossegui meu trabalho de maneira discreta, retirado da agitação da mídia e sem procurar obter o menor reconhecimento público, por ser um homem indiferente a essas coisas e totalmente envolvido nas minhas ocupações de escritor, professor e ( com o perdão da palavra ) filósofo; ele diz, ademais, que foi ele quem me convenceu a sair da toca e publicar O Jardim das Aflições , que até então circulava só internamente em meus cursos como apostila, e sobretudo as notas que vieram a formar O Imbecil Coletivo . Ele diz essas coisas há tempos e elas são a pura verdade. Reconheci isso explicitamente no prólogo de O Jardim das Aflições . Mas as afirmativas de Tolentino mostram o óbvio: que sou tão indiferente à publicidade do meu nome que permaneci escrevendo somente para meus alunos por duas décadas e só saí da toca por instigação de um amigo. Ora, o JB conseguiu torcer suas palavras ao ponto de lhes dar um sentido perverso como denunciadoras de minha suposta “estratégia” de criar barulho em torno do meu nome, quando o que Tolentino está dizendo, com razão, é que quem começou o barulho foi ele. Eis como, na mão de certos profissionais da imprensa, cada fato se transforma no seu contrário.

Não vejo por que corrigir outras inexatidões e perversidades menores, de que a matéria do JB está cheia. Examiná-las todas seria longo, fastidioso e desnecessário, pois uma reportagem que tem tão pouca credibilidade no conjunto não há de tê-la maior nos detalhes.

Fica apenas a pergunta, para mim profundamente enigmática: por que se concede uma capa inteira de segundo caderno, com chamada na primeira página do jornal, só para dizer que um sujeito é um bobalhão sem importância nenhuma?

IV – Opera Omnia Emiris Saderis Nelson Mandela (organization) – Ed. Revan 2.

A opção brasileira – (colaborador) – Ed. Contraponto – Rio de Janeiro 3.

Vozes do Século (organization) – Ed. Paz e Terra – São Paulo 4.

Poder, cadê o poder?

– Ed. Boitempo – São Paulo 5.

Cartas a Che Guevara – O mundo trinta anos depois – Ed. Paz e Terra, São Paulo 6.

Anjo torto – Esquerda (e direita) no Brasil – Ed. Brasiliense – São Paulo 7.

Pós-neoliberalismo – As políticas sociais no Brasil – (organization) – Ed. Paz e Terra – São Paulo 8.

O mundo depois da queda (organization) – Ed. Paz e Terra – São Paulo 9.

Karl Marx – Bibliografia (organization) – Programa de Pös-graduação do Departamento de Sociologia – FFLCH – USP – São Paulo 10.

Estado e política em Marx – Cortez Editora – São Paulo 11.

Idéias para uma alternativa de esquerda à crise brasileira (organization) – Ed. Relume-Dumará – Rio de Janeiro 12.

Cuba, Chile, Nicarágua – O socialismo na América Latina – Ed. Atual, São Paulo 13.

Governar para todos – Ed. Brasil Urgente – São Paulo 14.

Por que Cuba?

(organization) – Ed. Revan – Rio de Janeiro 15.

A transição no Brasil: da ditadura à democracia – Ed. Atual – São Paulo 16.

Without Fear of Being Happy – Ed Verso – Londres 17.

Chile (1818-1990) – Da independência à redemocratização – Ed. Brasiliense – São Paulo 18.

Socialismo humanista do Che (organization et introduction) – Ed. Vozes – Petrópolis 19.

Gramsci: poder, política e partido – (organization et introduction) – Ed. Brasiliense – São Paulo 20.

Fogo no Pavilhão – Ed. Brasiliense – São Paulo 21.

Movimentos sociais na transição democrática (organization) – Cortez Editora – São Paulo 22.

E agora, PT?

(organization) – Ed. Brasiliense – São Paulo 23.

Fidel Castro (selection et introduction) – Ed. Atica – São Paulo 24.

A revolução cubana – Ed. Moderna – São Paulo 25.

Constituinte e democracia no Brasil hoje (organization) – Ed. Brasiliense – São Paulo 26.

Democracia e ditadura no Chile – Ed. Brasiliense – São Paulo Notas (1) Publicado como matéria paga pela Academia Brasileira de Filosofia no Jornal do Brasil de 7 de setembro de 1996.

(2) Publicado no Jornal do Brasil de 2 de setembro de 1996.

Em Luta Desigual

Mencionei semanas atrás o bombardeio de insultos, | O Globo

hate-mails e ameaças de morte que recebo regularmente. São os meios consagrados do “debate de idéias” no Brasil de Lula. Mas constituem só uma parte do preço que pago pelo que escrevo. Descrever o conjunto seria coisa de masoquista, mas aí vai um detalhe que me pareceu importante como sintoma da atual insanidade brasileira: o artigo “Olavo de Carvalho” na Wikipedia sofreu tantas mutilações e enxertos ofensivos que entrou no rol das sessenta páginas mais vandalizadas do site ( http://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Most_vandalized_pages ), ao lado de “George W. Bush”, “Tony Blair” e “Israel”, com o detalhe de que somente o meu verbete vem com a advertência “Vandalismos repetidos”, faltante até mesmo nos dois itens de máximo interesse universal presentes na lista: “Vagina” e “Pênis”.

Para que o texto não sofra novas adulterações, a Wikipedia teve de colocá-lo na categoria dos “verbetes protegidos”, de modo que ninguém possa mexer nele sem permissão dos administradores.

As interferências nada tinham de brincadeiras inócuas. Atribuiam-me, em tom de seriedade, toda sorte de crimes, condutas viciosas e conexões macabras, de modo a incutir no leitor desavisado aversão e ódio à minha pessoa.

Explicar isso pela ação espontânea e coincidente de milhares de desocupados é abusar da credulidade da vítima. Esses fenômenos só acontecem graças à organização em “redes”, que permite a mobilização instantânea de militantes, atraindo por automatismo a colaboração de idiotas avulsos que imaginam ser tudo iniciativa de outros idiotas avulsos, e cuja presença no empreendimento serve ainda de camuflagem.

O procedimento é bem mais eficaz do que as antigas campanhas de difamação midiática, pois vem com a proteção da invisibilidade. É poderoso o bastante para paralisar a ação de governos e exércitos, como fez em Chiapas. Voltado contra um cidadão privado, deixa-o sem quaisquer meios de defesa ou garantias legais.

Tal é em germe o novo Brasil: um país onde todo sujeito com idéias indesejáveis estará exposto a um massacre difamatório do qual mesmo empresas de grande porte só poderiam se defender com muita dificuldade.

Desde a década de 80 o movimento revolucionário mundial veio se equipando para a utilização abrangente dos novos meios de comunicação como instrumentos para calar seus antagonistas sem necessidade de recorrer a meios de repressão ostensivos e sem envolver diretamente o governo, o partido ou os ídolos intelectuais da esquerda num combate sujo para o qual contam com os serviços da militância rasteira e anônima.

A única proteção possível seria criar uma rede igual e contrária como se fez nos EUA, mas isso, além de forçar a transformação de um escritor e cidadão comum em organizador político que ele não quer ser de maneira alguma, requer muito dinheiro, que nosso solícito empresariado já pôs todo à disposição da esquerda. Cada descontente, pois, que se prepare para viver com o rabo entre as pernas ou aceite o risco de uma luta monstruosamente desigual, com o agravante kafkiano de que, sozinho e sem recursos, será chamado de dominador capitalista enquanto as organizações bilionárias que o atacam farão o papel dos pobres e oprimidos.

O colunista de Veja , Luiz Felipe de Alencastro, foi mentir a meu respeito bem longe de mim: no CFR ( Council on Foreign Relations ), o think tank da elite política americana. Coloquei uma resposta a ele no meu site www.olavodecarvalho.org .

Em Guantánamo há várias prisões cubanas, superlotadas de prisioneiros de consciência que clamam pelo fim de horríveis sofrimentos físicos, e há uma americana com alguns terroristas que exigem privilégios legais jamais concedidos a detentos de guerra. A mídia chique faz eco aos segundos e sufoca a voz dos primeiros. Meça a diferença em http://www.payolibre.com/publicaciones.htm#Comunicado_desde .

Diante da supressão da língua inglesa nos exames para o Itamaraty, o poeta Bruno Tolentino resumiu o presente descalabro cultural brasileiro com uma paráfrase de Ruy Barbosa: “De tanto ver triunfar as lulidades...”

Em 5 de fevereiro de 2005

Engineered Confusion

March 18th, 2008 | Laigle’s Forum

The Russian psychologist Ivan Pavlov (1849-1936) demonstrated that contradictory stimulation is the quickest and most efficient way to break down the psychological defenses of an individual (or handful of individuals), reducing him to a state of devoted credulity in which he will accept as natural and true the most absurd commands and the most incongruous opinions.

This works almost infallibly even when the stimuli are of a purely cognitive order and without a great deal of emotional involvement (contradictory sentences uttered in a camouflaged sequence so as to create subconscious confusion). But it clearly works much better if the subject is subjected to the impact of sufficiently strong contradictory emotions to quickly create a state of intolerable psychological discomfort. This discomfort itself serves as camouflage because the victim does not have time to determine that the contradiction comes from the source and not from within himself, so that guilt and shame are added to the state of distress. The automatic reaction that follows is the desperate search for a new equilibrium pattern, that is, a broader feeling that seems to include, in a dialectic synthesis, the two emotions initially experienced as contradictory and which simultaneously alleviates the feeling of shame that the individual experiences toward the source of stimulus, which at this point he accepts as his critical observer or judge.

If the reader examines the leftist discourse with some attention, he will see that it manages to inspire in the public both fear and compassion at the same time. This duality of feelings is not contradictory in itself when each of the feelings is situated on a different plane, as in the case of a Greek tragedy, where the spectators feel compassion for the hero and fear of the cosmic machinery that oppresses him. However, if the object of fear and compassion is the same, you simply don’t know how to react and enter a state of “cognitive dissonance” (term of the psychologist Leon Festinger), a state of mental atonia that predisposes to passive subservience.

I say fear and compassion, although these are never simple and unequivocal emotions but rather complex emotional webs that trap the victim at the same time, making him incapable of verbally expressing the situation and suffocating him in a murky atmosphere of confusion and impotence.

In revolutionary politics, contradictory stimulation assumes the form of terrorist attacks intended to intimidate a population, accompanied simultaneously by intense sensitization campaigns showing the sufferings of the revolutionaries and the poor population that they nominally represent. The destruction of farms by the Landless Movement is an apt example. The assaulted class is paralyzed between two sets of contradictory feelings – on the one hand, fear and rage, or the impulse to react, to flee or seek protection; on the other hand, extorted compassion, guilt and the impulse to ask forgiveness of the aggressor.

It is no coincidence that the first scientific description of this mechanism was the work of an eminent Russian psychologist. The use of contradictory stimulation was already a tradition in the revolutionary movement when Ivan Pavlov started to investigate the subject precisely during the years in which the Russian Revolution was under preparation. His studies were immediately absorbed by the Communist leadership, which began using them to elevate revolutionary manipulation of the mind to the level of a highly precise, efficient social engineering technique capable of extensive operations with impressive control of the results.

Over the last four decades, with the transition of the revolutionary movement from the old hierarchic structure to the flexible organization in informal “networks” with immense financial support, the use of contradictory stimulation ceased to be the exclusive domain of the Communist Party and spread throughout all sorts of auxiliary organizations – NGOs, media enterprises, international organisms and cultural entities – the revolutionary nature of which was not declared ex-professo , making the tracing of the unified strategy throughout the whole a very complex problem, transcending the horizon of consciousness of the usual entrepreneurial and political leaderships and requiring the intervention of specialized studies. In general, social libertarians and conservatives are formidably under-equipped to cope with the situation. They endeavor to win over the public by logical arguments in favor of democracy and market economy, when the actual battlefield is situated far below this, in an obscure area of irrational emotions controlled by the adversary with all the latest refinements of rationality and science.

In future articles I will illustrate the use of contradictory stimulation by various “social movements”: feminist, gay agenda, abortion, atheist, environmentalist, etc.

Translated by Donald Hank ( zoilandon@msn.com ) Em 18 de março de 2008

English

A Arte De Escrever Licao 1 Esqueca O Manual De Redacao

Ler e Escrever | 22 de novembro de 1998

, e às quais nada tenho a acrescentar:

I.

A circular da redação de Veja , reproduzida no número de julho de 1992 do Unidade , jornal do Sindicato do jornalistas de São Paulo, constitui uma amostra do estado de inconsciência quase hipnótica em que vão mergulhando a cada dia, impelidos pela mecânica do ofício, os nossos melhores profissionais de imprensa.

O documento, uma lista de 27 regrinhas baixadas pela chefia com o propósito de “combater vícios de linguagem”, é apresentado pelo jornal do Sindicato como um sinal de saúde: uma prova de que Veja , no auge da fama, não perdeu a cabeça e ainda é capaz de autocrítica.

Encarado no seu contexto mais próximo, como sinal de recuo sensato ante a tentação da embriaguez, ele pode ser de fato coisa boa. Mas, no contexto maior da evolução do jornalismo brasileiro ao longo das últimas décadas, as 27 regrinhas mudam de figura: tornam-se o sintoma alarmante da consolidação de um conjunto de cacoetes mentais como Lex maxima do bom jornalismo. Cacoetes, porque não chegam sequer a ser preconceitos. Preconceitos são crenças que, furtando-se ao exame consciente, dirigem a conduta, modelam a prática. Já estas regrinhas não se destinam seriamente a entrar em prática por serem de aplicação impossível, como demostrarei adiante, e sim apenas a ser alardeadas, oralmente e por escrito, como emblemas convencionais de boa conduta jornalística.

Não somente jornalística, na verdade. Consagradas pela repetição, máximas desse tipo acabam servir de critério para o julgamento de qualquer escrito, mesmo fora do jornalismo. Já vi muito guru de redação torcer o nariz ante Eça, Camilo, Euclides ou o Padre Vieira, porque usavam palavras vetadas no Manual interno: é como desprezar a Catedral de Chartres porque não cabe nas especificações do BNH.

Que baixem regras, vá lá. Mas deveriam ter ao menos o bom senso de admitir que especificações ditadas pela mera conveniência tecno-industrial não têm nenhum valor de critério estético, não constituem, em nenhum sentido, as regras de estilo , a não ser que se entenda por estilo a uniformidade coletiva, isto é, a falta de estilo. Servem para medir a adequação de um texto ao perfil mercadológico de um determinado produto editorial, e não para julgar sua qualidade literária, sua expressividade, sua exatidão, sua coerência, elegância e veracidade. Não servem nem mesmo para aquilatar do seu valor jornalístico, se tomado em sentido geral e fora dos cânones daquela publicação em particular. Como julgar por elas, digamos, o jornalismo de um Mauriac, de um Ortega y Gasset, de um Alain, ou, mais próximo de nós, de um Monteiro Lobato? Estilo é a adequação da linguagem de um sujeito às suas próprias necessidades expressivas, ou às exigências do assunto, e não a qualquer molde externo prévio, seja ele folgado ou estreito. É só metaforicamente, e forçando a barra, que a palavra “estilo” pode designar o sistema uniforme de trejeitos verbais imitado por todo um corpo de redatores; mais propriamente, esse sistema seria dito uma padronização da falta de estilo.

A padronização pode ser um mal inevitável. Mas para que exagerar, vendo nela um bem absoluto, o modelo mesmo de boa escrita? Que um chefete, cioso da carreira, chegue a introjetar tão profundamente o perfil do produto que lhe encomendam, ao ponto de mesmo nas horas de folga não ser capaz de formar frases fora das especificações dele sem sentir culpa e remorso, é coisa que compreendo; que ele deseje em seguida moldar a cabeça de seus subordinados segundo essas mesmas especificações, em prol da disciplina e da eficiência, é coisa que não só compreendo como também admito e até louvo. Mas que ele, enfim, num acesso de autoglorificação, se imagine transfigurado num mestre de português, literatura ou “estilo”, é demais. Nenhum tecelão da R. José Paulino, ao ajustar suas máquinas para que as blusas saiam na medida, imagina estar fixando os padrões para o julgamento da elegância mundial.

Executivos de carreira metidos a teóricos de literatura são o flagelo das redações. Em nome de um perfil de produto, contingência comercial elevada a regra áurea do juízo estético, eles impõem padrões de gosto, lascam a caneta à vontade, divertem-se sadicamente brincando de Graciliano Ramos ante uma platéia de foquinhas assustados, os quais, nunca tendo lido o Graciliano de verdade, acreditam mesmo que ele seria capaz de escrever uma coisa mimosa como esta do manual de Veja : “Frase curta é bom e eu gosto. Com uma palavra só. Assim. Tente”. Sim, tente: faça uma frescura diferente. Graciliano tinha o senso da continuidade melódica, jamais confundiria frases curtas com solavanquinhos histéricos. Nem proferiria máximas desta profundidade abissal: “Ninguém escreve direito se não ler”, sentença que seria digna do Conselheiro Acácio, se não fosse, aliás, da autoria dele mesmo. Tomando normas de produção como critérios de gosto literário, essa gente está transformando o jornalismo naquilo que seus detratores desejariam que fosse: a espécie mais típica de subliteratura.

Normas de redação, se estatuídas, devem ser apresentadas, com toda a modéstia, como convenções práticas, neutras, nem melhores nem piores que quaisquer outras, e nunca como padrões de “bom gosto”, “elegância”, etc., que são valores de estética literária muito mais sutis do que aquilo que esse gênero de manuais está em condições de delimitar. Os manuais deveriam ater-se, o quanto possível, a aspectos exteriores e “materiais” da escrita, como ortografia, abreviaturas, padronização de nomes, evitando pontificar sobre estilo ou, pelo menos, opinando nisto com extremo cuidado e tão somente em nome da conveniência utilitária, não da estética. Nos casos em que fosse absolutamente indispensável opinar sobre estilo, o melhor seria permanecer num nível genérico e abstrato, sem descer a particularidades duvidosas, como a de vetar, individualizadamente, tais ou quais palavras ou expressões. Mesmo porque o mais elementar conhecimento da estilística mostra que não há palavras ou expressões que, em si e por si, sejam inelegantes; tudo depende do contexto, do tom, da engenhosidade maior ou menor com que sejam utilizadas. No devido lugar, até o execrando “outrossim” pode cair bem, apesar da famosa tirada de Graciliano Ramos, ao revisar um artigo da revista Cultura Política : “Outrossim é a p. q. p.”.

A amoldagem da cabeça humana a um conjunto de normas práticas, não contrabalançada pela consciência do caráter meramente convencional dessas normas, pode produzir nela uma verdadeira mutilação intelectual, tornando-a, a longo prazo, incapaz de compreender e apreciar o que quer que esteja fora do padrão costumeiro. A quase absoluta incapacidade para a leitura de textos mais abstratos, de filosofia e ciência, por exemplo, que observo em tantos de meus colegas, não resulta de nenhuma deficiência congênita, mas do costume adquirido de lidar com uma só das dimensões da linguagem, deixando atrofiar a sensibilidade para todas as demais: o hábito da escrita plana e rasa produz a leitura plana e rasa.

Um dos sinais mais patentes de uma inteligência alerta é a percepção de contradições. Aristóteles já observava que o senso lógico e o senso do ilógico são uma só e mesma coisa. Quando leio alguma coisa repleta de contradições ostensivas e sei que o autor não é imbecil nem está sofismando de propósito, só posso concluir que ao escrevê-la estava distraído, sonso ou bêbado. O documento de Veja certamente foi produzido num desses estados. Prometi e vou mostrar que é um amontoado de exigências impossíveis, mutuamente contraditórias. Antes, porém, desejo fazer a seguinte constatação psicológica: Como não é plausível que um chefe de redação caia em sono letárgico justamente na hora de emitir ordens importantes, o autor do documento (que aliás ignoro quem seja) mais provavelmente vive nesse estado em caráter permanente. Como, de outro lado, também não é verossímil que Veja tenha escolhido para chefe de redação um sujeito anormalmente mais distraído que os outros, suponho que seus colegas também não repararam nas contradições que vou assinalar (como não atinou nelas o redator de Unidade que transcreveu e elogiou o documento). Se é assim, então a circular de Veja é sinal de algum entorpecimento epidêmico da inteligência, que acomete a nossa categoria profissional.

Os exemplos que dou a seguir mostram o quanto o apego à norma rotineira, sedimentado por uma prática intensa e contínua, pode tornar um bom jornalista insensível às piores contradições e transformá-lo num confiante proclamador de incongruências.

II.

A circular de Veja é um conjunto de regras, mas é também ela mesma um texto.

Essas regras, aplicadas à redação do mesmo texto, resultariam em suprimir pelo menos um terço dele . Vejam o primeiro parágrafo (regra 1):

Cortar todas as palavras supérfluas. Encher lingüiça é a pior praga de uma revista semanal de notícias.

Aplicada a mesma regra à redação da mesma frase, esta ficaria assim:

Cortar as palavras supérfluas. Encher lingüiça é a praga de uma revista de notícias.

Em obediência à regra, cortei as seguintes palavras supérfluas:

1 o “todas”: a expressão “as palavras supérfluas” é genérica; e como um gênero abrange necessariamente a totalidade das suas espécies, o pronome é redundante;

2 o “a pior”: porque praga é necessariamente coisa ruim.

3 o “semanal”: porque não se entende que a proibição de encher lingüiça deva ser revogada nas revistas mensais ou nos jornais diários.

Três palavras em duas linhas já não são lingüiça que basta? No entanto a frase não está mal escrita. A regra é que é excessiva. Já estava, aliás, infringida antes mesmo de ser escrita; porque na introdução do documento se diz:

Por mais que fotógrafos, ilustradores, paginadores e artistas gráficos reclamem...

Pois então: ilustrador não é artista gráfico? Corremos o risco de logo ver o nosso adversário de lingüiças distribuindo avisos “a todos os endocrinologistas, pediatras, geriatras e médicos”, “a todos os homens, mulheres e seres humanos”, etc.

Na mesma introdução, o indigitado elemento verbera os vícios de linguagem que ...estão conspurcando as nossas páginas com a mesma voracidade das heresias medievais...

Ô xente! Já se viu alguém “conspurcar com voracidade”? Com voracidade come-se, devora-se, engole-se, ingere-se, agarra-se. Conspurcar é fazer mancha, é deixar cair sujeira em cima, indica ou subentende um movimento para fora, do sujeito para um objeto, exatamente o inverso do movimento para dentro designado pela ingestão voraz.

A imagem torna-se ainda mais chocante quando vemos que, na regra 14, seu autor, com ar de primeiro-da-classe, emite (deveria eu dizer “expele vorazmente”?) um preceito para a redação de imagens: “Ao optar por uma linha de imagens, mantenha-se nela”. Sim, por exemplo: comece com uma imagem gastronômica e complete-a com alguma coisa bem proctológica.

O mais extraordinário é que o supradito ainda menciona, como exemplos de imagens bem feitas, aquelas que ele mesmo usa na introdução. Poderia citar-se a si mesmo, aliás, como exemplo de modéstia, caso já não o tivesse feito ao admitir que não é Moisés e que suas regras não são as Tábuas da Lei, advertência que, se não lhe parecesse muito necessária, seria suprimida (de acordo com a regra 1).

Mas a infidelidade do autor a suas próprias regras não as invalida por completo, logicamente falando; só o desmoraliza. Para invalidá-las de vez, seria preciso uma contradição interna: entre regra e regra.

Eis um exemplo. A regra 5 adverte: “Cuidado com os advérbios”, e recomenda suprimi-los, concluindo: “Por si só, o adjetivo qualifica”. Lá adiante, porém, na regra 26, são recomendados como gurus, para o aprendizado da boa escrita, Machado de Assis e... Euclides da Cunha! Será que o chefe nunca leu Euclides? Pois este era pródigo em advérbios; a profusão deles foi um dos defeitos que os críticos de Os Sertões assinalaram com mais freqüência, obrigando os admiradores do autor a mobilizar-se em sua defesa (cf., por exemplo, Modesto de Abreu, Estilo e Personalidade de Euclides da Cunha , Rio Civilização Brasileira, 1963, esp. Pp. 148-152). Como farão os pobres aprendizes para mirar-se, ao mesmo tempo, no exemplo de Euclides e nas palavras do chefe? E o exemplo fornecido em testemunho da unanimidade dos advérbios é, no mínimo, perjuro:

Cuidado com os advérbios. “Fulano é um animal ferrado nas quatro patas”, diz irritadamente Sicrano de Tal. A citação já mostra que Sicrano estava uma arara. Se não mostrasse, não seria um advérbio que melhoraria a situação.

Parece que o elemento não enxerga a menor diferença entre dizer uma coisa irritadamente, galhofeiramente, ironicamente, desdenhosamente , etc.

Uma das diferenças principais entre o oral e o escrito é que, neste último, as citações geralmente não dizem por si sós o tom, a ênfase, o gesto, a expressão facial com que as frases foram proferidas; e os advérbios existem justamente para, nesses casos, “melhorar a situação”, evitando descrições fastidiosas (a não ser que Veja tenha se tornado multimídia, cada declaração vindo acompanhada do vídeo respectivo).

Além das contradições, há também informações erradas. A regra 6 estabelece:

Salvo engano, o português é uma das poucas línguas que não desdobra o tempo futuro. Aproveitem. “Collor mudará o ministério” é muito mais preciso e elegante do que “Collor vai mudar o ministério”.

Aqui o chefe foi salvo pela ressalva. Pois trata-se, precisamente, de um engano. Celso Cunha, à p. 268 da sua Gramática do Português Contemporâneo (Belo Horizonte, Bernardo Álvares Editor, 1970), explica que o verbo auxiliar ir se emprega “com o infinitivo do verbo principal, para exprimir o firme propósito de executar a ação, ou a certeza de que ela será realizada num futuro próximo”; ao passo que o futuro simples admite, numa de suas acepções, a expressão da mera probabilidade. Caso, portanto, a mudança de ministério seja uma certeza firme, “Collor vai mudar o ministério” será muito mais preciso do que “Collor mudará o ministério”. É um matiz lógico e temporal da maior importância. Também em matéria de palavras, a economia pode ser, às vezes, a base da porcaria.

O exemplo dado, aliás, entra também em contradição com a regra 5, que manda não abusar do “muito”. Chamar de “muito mais preciso” algo que não é nem um pouco mais preciso, é ou não é abusar do “muito”? Mas a regra mesma de preferir o futuro simples contradiz a regra 20, que manda preferir, onde possível, a linguagem coloquial. Quem é que, no coloquial, diz “farei” em vez de “vou fazer”?

Quando à expressão “salvo engano”, o autor a emprega ironicamente, pois crê não estar enganado e aliás veta, na regra 7, o uso dessa mesma expressão. Só que, como de fato ele estava enganado, a ironia se voltou contra o ironista. O humor involuntário é o resultado quase inevitável de escrever sem pensar.

Se estas regras tivessem sido calculadas maquiavelicamente com o propósito de desnortear foquinhas, para humilhá-los e torná-los dóceis, nada poderia detê-las. Vejam a regra 13:

Quanto mais concreta a imagem, melhor. Não misture coisas reais com abstrações. “Os tucanos alçaram vôo rumo à modernidade” mistura uma ave com um conceito .

A regra é clara. Mas como aplicá-la? Escrevendo, por exemplo, como o chefe em sua introdução, que “algumas fogueiras se fazem necessárias para manter a pureza estilística da revista”? Pureza estilística não é conceito abstrato? Fogo não arde materialmente? Se tucanos não podem alçar vôo senão rumo a concretíssimos poleiros, as chamas também não podem consumir solecismos, apenas o papel que os exibe. Se, queimando esta malfadada circular de Veja , eu pudesse suprimir o ilogismo de seu conteúdo, sem dúvida teria feito isso; mas, cioso de não misturar o abstrato e o concreto, abstive-me de recorrer ao ígneo expediente, e pus-me a redigir estas longas e tediosas observações.

Se elas parecem hostis, insolentes ou malévolas, digo que desconheço quem seja o redator-chefe de Veja e que nothing personal, just business . Que a bordoada atinja o erro, não a pessoa de seu autor. Este deve ser um profissional excelente, pelo menos tão bom quanto seus colegas, e por isto mesmo o erro é significativo e merecedor de correção pública, o que não se daria no caso de mera inépcia pessoal.

Dois Brasileiros Falando

Leiam e comparem, por favor, estes dois parágrafos: | Jornal da Tarde

1) “O adolescente A. D., 14, que fugiu de casa para se juntar às Farc, ficou decepcionado ao conhecer as ações do grupo: “Mãe, que decepção. Pensei que fossem revolucionários, mas são de direita.’” ( Folha de S. Paulo , 26 de agosto de 2003.)

2) “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem: ‘Todo mundo sabe que nunca aceitei o rótulo de esquerda.’” ( O Estado de S. Paulo , 27 de agosto de 2003.)

O que esses dois brasileiros verbalizam não são idiossincrasias pessoais, não é aberração psicopática, não é desvio de linguagem. É, isto sim, cultura. Cultura, ao menos, no sentido em que a define a Constituição federal: “Expressão do modo de ser do nosso povo.” Nenhum ser humano, por natureza ou inclinação pessoal, sem a ajuda de todo um ambiente cultural, de todo um sistema de educação, de toda uma mutação geral da linguagem pública, pode chegar a confundir-se tão profundamente quanto ao sentido do que ele próprio diz, quanto o chegaram esse menino fujão e esse presidente evasivo.

O mais lindo, no caso, é que ambas as falas se tornaram alvo de profusos comentários, subscritos pelos mais abalizados formadores de opinião, sem que nenhum deles se desse conta da anomalia semântica envolvida, aliás idêntica nos dois casos.

Toda palavra tem denotação e conotação, ou sentido direto e sentido translato. Ela indica ou sinaliza alguma coisa, e ao mesmo tempo pode associar a essa coisa uma reação do falante, um valor, uma nuance subjetiva qualquer. “Cachorro”, por exemplo, denota um certo bicho, mas, conotativamente, pode designar o carinho que se tem por um animal de estimação ou o desprezo a um ser humano que age caninamente. As conotações mudam, a denotação permanece.

A palavra “esquerda” significa um conjunto de movimentos e partidos políticos, cujo conteúdo ideológico pode ser um tanto difícil de definir, mas que permanecem, materialmente, distintos de seus contrários. Ao mesmo tempo, significa as reações de agrado ou desagrado que o falante expressa ante essas entidades. Se gosta delas, “esquerda” é uma virtude. Caso contrário, um vício.

Os valores associados à palavra “esquerda”, porém, adquiriram, em relação a suas encarnações materiais, uma espécie de autonomia metafísica. Ela pode significar o bem, a virtude, a paz e a justiça, ou inversamente o crime, a anarquia, a revolução, de maneira totalmente independente de sua personificação histórico-política. A. D. vê nessa palavra o símbolo de tudo o que é bom e generoso. Logo, suprime de seu significado a mais típica — e a mais tipicamente criminosa — organização esquerdista da América Latina. Lula quer cair fora da imagem de revolucionário e anarquista. Logo, recusa-se a ver algum esquerdismo na sua carreira de presidente de um partido esquerdista e dirigente máximo do órgão coordenador da esquerda latino-americana. As conotações suprimiram as denotações. A expressão dos sentimentos subjetivos prescinde de qualquer alusão aos objetos correspondentes.

Se, discutindo seu conteúdo, ninguém percebeu nada de estranho nas frases mesmas, é que falar assim já se tornou normal e quase obrigatório no Brasil. Pouco importa o “de quê” você está falando. O que importa é o que você “sente”. Não existem mais coisas, fatos, situações. Existe somente o amar ou odiar, o desejar ou repelir, o agradável ou o desagradável. Ao ouvir o que dizem A. D. e o presidente, a galera reage exatamente como eles, gostando ou desgostando, sem nem de longe perguntar “de que”. Porque falar “de” alguma coisa já se tornou dispensável: tudo o que importa é expressar sentimentos, ainda que seja por alguma entidade etérea, indefinível, autocontraditória e perfeitamente inexistente.

A língua portuguesa do Brasil, primeiro, suprimiu duas pessoas verbais, a segunda do singular e a do plural, obrigando-se a rodeios incrivelmente postiços para separar interlocutor e assunto. Depois, aboliu a distinção entre termo próprio e impróprio, tornando-se incapaz de distinguir entre conceitos e figuras de linguagem. Por fim, eliminou as denotações, fazendo com que a expressão dos sentimentos valha por si, sem precisar de objeto.

Houve tempo em que a queda dos brasileiros na inconsciência era motivo de riso. Depois, tornou-se alarmante. Hoje é uma tragédia irreversível, consolidada na regra lingüística.

Em 4 de setembro de 2003

A Origem Dos Atentados

Leia aqui alguns dos fatos que a desinformação esconde | Época,

Enquanto na parte mais iluminada do palco brasileiro uma procissão de desinformantes profissionais e idiotas amadores continua a alertar contra a “paranóia” de George W. Bush, como se as explosões do dia 11 fossem imagens de delírio sonhadas pela direita para inventar um pretexto de maltratar indefesos esquerdistas, as análises feitas por pessoas que estudaram o assunto são mantidas rigorosamente fora do alcance de nosso povo, convidado assim a não entender nada dos acontecimentos que vão moldar sua vida, talvez de maneira trágica, ao longo dos próximos anos.

Uma dessas pessoas é o coronel Stanislav Lunev, um nome completamente desconhecido nesta parte do mundo. Membro do Estado-Maior do Exército russo, ele foi, ao longo da História, o mais graduado desertor da espionagem militar soviética, o GRU. Hoje é consultor de segurança do governo americano.

No início dos anos 90 ele alertou a CIA que a Rússia, em plena desmontagem do sistema econômico socialista, conservava intactos os chamados “órgãos especiais” – especialmente o GRU – e que ali se desenvolviam planos meticulosos para uma guerra contra os Estados Unidos. Ele informava que “essa guerra pode começar com uma operação diversionista algum tipo de ataque terrorista”.

Hoje, diante dos atentados, ele afirma: “Não tenho dúvidas de que a Rússia esteja por trás desses grupos terroristas, financiando-os e equipando-os”. É verdade que o governo de Moscou declarou sua solidariedade aos EUA, mas ele também fez isso na Guerra do Golfo, ao mesmo tempo que enviava técnicos e equipamentos para ajudar Saddam Hussein. Sem uma aliança secreta russa com os afegãos, como explicar que esse povo, após ter 1 milhão de seus filhos mortos por tropas soviéticas, só sobrevivendo como nação livre graças à ajuda americana, de repente apagasse todas as mágoas contra seus agressores e se voltasse, com ódio insano, contra seu benfeitor?

É igualmente verdade que a Rússia, de maneira aparentemente despropositada e contrariando o consenso internacional, adotou em julho o padrão-ouro. Por que faria isso, se não soubesse que o dólar ia cair junto com as torres do World Trade Center?

Mais ainda, o comandante militar afegão Gulbaddin Hekmatiyar sempre esteve metido até a goela no esquema soviético de incentivo e aproveitamento do tráfico internacional de drogas, revelado às autoridades americanas, já em 1968, pelo general Jan Sejna, desertor do Ministério da Defesa tcheco onde era o porta-voz do Comitê Central do partido. Sejna foi testemunha direta dos acordos entre soviéticos e chineses, desde os anos 50, para inundar de cocaína os EUA e fazer do tráfico de drogas o suporte econômico da revolução comunista na América Latina, hoje em franca ascensão na Colômbia.

Por tudo isso é que o coronel Stanislav Lunev adverte, agora, que a escalada da violência antiamericana mal começou e que só uma resposta enérgica e decidida pode abortar os planos de uma guerra destinada, segundo declaração da Ulema-i-Afghanistan, a assembléia dos líderes religiosos afegãos, a promover nada menos que “a total eliminação da América pela força”. Essa assembléia não tem nenhuma autoridade para convocar ao jihad todos os islamitas, como vem fazendo, pois essa convocação, segundo a lei corânica, só vale quando aprovada por toda a umma , a comunidade internacional dos letrados muçulmanos, e a maioria destes está decididamente contra a idéia monstruosa de uma guerra de extermínio. Mas, como explicarei num dos próximos artigos, os chamados “fundamentalistas islâmicos” estão pouco se lixando para os fundamentos do Islã: sua ideologia não é islâmica, é uma espécie de “teologia da libertação”, uma politização abusiva e macabra da mensagem do Corão. Por isso eles não têm escrúpulos de aliar-se aos assassinos de seus correligionários contra o país que, no momento da agonia, estendeu a mão salvadora aos combatentes muçulmanos.

Em 22 de setembro de 2001

Evaluating George W Bush

June 18, 2008 | Diário do Comércio

Whatever one thinks about George W. Bush, there are six points about him no one has the right to deny:

1. He kept his country completely safe from terrorists atacks for eight years.

2. He put down a genocidal regime, guilty of the murder of 300 thousand Iraqis.

3. Contrary to what the big media spreads with hysterical mendacity, he did it through a war that caused the smallest number of civil victims in all History.

4. He practically dismantled terrorist resistance in Iraq, killing 20 thousand Al-Qaeda militants and forcing most of the remaining ones to seek refuge in Iran.

5. He promoted in Iraq the fastest and most spectactular post-belic reconstruction ever seen, making Iraqi economy more prosperous than it was before the war.

6. He implemented democracy in Iraq – and it works.

From these six facts, I take two conclusions:

a) He was the best chief of security the USA has ever had.

b) He was the best president Iraq has ever had.

It is an entirely different thing to judge him as president of the US. When he was elected in 2000, Republicans had all the conditions to win presidential elections for the next four decades, dismantle the conspiracy of the Democrats with the radical left, and heal the country according to the formulas consacrated by Ronald Reagan. After two presidential terms, not only he failed to do this, but has allowed his country to loose breath to the point of the permanence of Republicans in power being almost unfeasible .

To blame this shame on the failure of the war in Iraq does not explain anything, it is pure deceitful leftist propaganda.

George W. Bush has never failed in Iraq. His real failure was in the internal front. It started right after September, 11th. Taking the opportunity to denounce the Democrat collaboration with the left would make all trust in the left vanish and would have hygienized the American political atmosphere. Instead, he preferred to pretend his enemies were his friends, creating a fictional national unity against foreign attackers. The Democrats, bearing the patriot label Bush himself sticked on their foreheads, and armed with the prestige thus acquired, could stab in the back their own country, Army and president while people would not question for one second their deep-hearted good intentions.

Running away from the confrontation his enemies – who were the enemies of the US – sought so much, Bush gave them strength. All the bravery he showed in leading the war, turned into cowardice in the internal fight. The result: his success is condemned as failure and his real failure cannot be confessed in public without triggering a thousandfold worse internal division. And although Bush wants to avoid this division, his adversaries assume it more and more, taking from it, against the US, the same advantages Bush should have taken for the US.

George W. Bush took the wrong job. He is a great military commander, but he is not at all a politician.

A Satanic Joke

June 12, 2008 | Jornal do Brasil

The other day a friend asked me if I had noticed that, within a single generation, forms of conduct described by psychiatry as neurotic or even psychotic have become accepted as normal. Not just normal – I responded – but normative, laudable, and obligatory. The next steps are: (a) marginalize and criminalize every reaction of revulsion, (b) make revulsion psychologically impossible, expelling it from the repertoire of conduct admitted by society.

Only unconcealed paranoia could allow, for example, a country where there are 50,000 homicides every year, spread over the whole territory of eight and a half million square kilometers, to describe the murder of 120 homosexuals as a wave of homophobic genocide. However, it is only necessary for someone to appeal to such a statistical comparison and instantly, among cries of revulsion and tears of indignation from the crowd, he is accused of homophobia and of being an apostle of genocide. The idea of comparing the number of gays who are murdered with those who are murderers, scientifically indispensable for distinguishing between a threatened group, a threatening group, and a group that is neither one or the other, ends up being so offensive that the mere temptation to suggest it is sufficient for one to be prosecuted for homophobia, without the law even having to prove it.

Likewise, Mr. Luiz Mott alleges as proof of generalized anti-homosexual hatred, some ninety cases of aggressions against homosexuals that have occurred in the space of four months in São Paulo, but who dares to compare that number with the number of aggressions committed by the very gay militants themselves in only one day of the Gay Parade in the same city? Applying the statistical criteria of Mr. Mott, we would say that gays are a danger to the public. The conclusion is absurd, but no more absurd than claiming that they themselves are in danger.

A sense of proportion being prohibited, and the hysterical posturing and hyperbolic paranoia in favor of interest groups become absolute civic obligations. Insanity becomes obligatory, and whoever refuses to be contaminated by it is a criminal, a reprobate, a lunatic who is unable to live in society.

The President of the Republic recently participated in emergency forums regarding this psychotic stupidity, declaring that any and all opposition to homosexualism is “the most perverse illness that ever entered the human mind”.

He reinforces his words, insisting in appearing in official ceremonies with Mr. Luiz Mott at his side, the same individual who talks about pornographic art while embracing the statue of a naked baby of the male sex, transmitting in a not at all subtle manner the idea that babies are, or should be made into, objects of sexual desire like anyone else (if you don’t believe it, verify it at http://www.youtube.com/watch?v=FlmfZdyk2YA ).

The propaganda of pedophilia is more than evident here, but, upon decorating Mr. Mott for “cultural merit” (as if he himself had merit or culture), Mr. Lula throws all of the weight of his presidential authority in a cynical bluff that forces us to deny what we see, and to believe instead the official pretense of elevated humanitarian and cultural intentions. There is no greater arrogance than demanding that a human being sacrifice his conscience, his intelligence, and even his capacity of sense perception on the altar of the absurd. “In the end, who are you going to believe, me or your own eyes,” Groucho Marx used to ask. When the joke is transformed into reality, humor becomes a satanic farce.

Totally oblivious to the grotesque nature of his performance, the lunatic ascends the chair and gives lessons in psychiatry, categorizing as “sick” those who think there is something wrong about eroticizing an image of a baby, and even proposing, as therapy, to imprison all of them.

And there are those who think that it is possible to have a rational, polite discussion with people like Messrs. Lula and Mott...

Translated from the Portuguese by Matthew Cullinan Hoffman http://www.lifesitenews.com/ldn/2008/jun/08062509.html (see Matthew Cullinan Hoffman’s comments at http://www.lifesitenews.com/ldn/2008/jun/08062510.html ).

Em 12 de junho de 2008

English

Perilous Crossing

June 1, 2008 | Laigle’s Forum

In his book America and the World Revolution (Oxford University Press 1962), a transcript of conferences given at the University of Pennsylvania in the spring of 1961, Arnold Toynbee wrote:

“ If we wish to avoid massive suicide, we have to have our world State as quickly as possible, and this probably means we will need to install it in a non-democratic form to begin with .”

This was not a prophecy, it was a proposal. Or rather, it was a reaffirmation of a proposal that had already been under development in the upper echelons of the Anglo-American establishment at least since 1928, when Herbert George Wells published the first popular version of the plan, under the highly suggestive title The Open Conspiracy . Some historians trace the project back to the end of the 19 th century and list its presence as one of the causes of World War I, but we need not go back that far. The best studies on the life and work of Wells (W. Warren Wagar, H. G. Wells and the World State , Yale University press, 1961; Michael Foot, H. G.: The History of Mr. Wells , Washington, DC, Counterpoint, 1995) leave no doubts as to the role played by the author of The War of the Worlds in the transformation of a general idea into a viable political project. Like Wells, Toynbee was not only an intellectual but also an activist, an intimate collaborator of the British government and globalist circles. His monumental work, A Study of History (1939-1961), provides a unified vision of world historical development indispensable for preparing the ground for the advent of world government.

The most recent state of implementation of the plan drawn up by these visionaries can be appreciated from the following paragraphs published in the Taipei Times of February 2006, to which no Brazilian political commentator paid much attention, even though their author was no less than Richard Haass, president of the CFR (Council on Foreign Relations), the most powerful think tank in the United States and practically an antechamber of the US presidency:

“In the age of globalization, states should give up some sovereignty to world bodies in order to protect their own interests.

Some governments are prepared to give up elements of sovereignty to address the threat of global climate change. Under one such arrangement, the Kyoto Protocol, which runs through 2012, signatories agree to cap specific emissions. What is needed now is a successor arrangement in which a larger number of governments, including the US, China, and India, accept emissions limits or adopt common standards because they recognize that they would be worse off if no country did.

Globalization thus implies that sovereignty is not only becoming weaker in reality, but that it needs to become weaker.... Sovereignty is no longer a sanctuary.”

Observations:

1. The success of appealing to examples of commerce and “global climate change” shows that the world State plan can, on the one hand, be legitimized as a unified response to problems of an international scale and, on the other hand, in itself supports an alarmist trend regarding nonexistent problems in order to legitimize itself by false and fraudulent means. In 2006 the slogan “global warming” still might have looked like a friendly warning. Two years later, not only do thousands of scientists openly contest this dogma, but even school children are capable of debunking the legend foisted on the world by the billionaire campaign in which ex-vice President Al Gore serves as the poster boy (see Al Gore’s global warming debunked – by kids!

).

2. The procedures used to impose global list reforms bypass normal democratic channels via decisions made in secret sci-tech and administrative commissions whose activity can hardly be understood by the public (see Golpe de estado no mundo ). The speed of the changes makes it impossible for the ordinary citizen to make sense of the events. “Public opinion,” which, generally speaking, is now little more than a set of vague impressions with little connection to reality, then becomes a mere tool for instituting changes that it will never be able to understand or influence. Toynbee’s program emerges, quite plainly implemented: the world State does not suppress democracy, it engulfs it. Democracy continues to exist, but as an organ in a larger body that embraces and controls it without its being in the least aware of this.

3. If other facts that I have cited in my articles have not abundantly proven it, the case of the Kyoto accord will suffice to show an obvious fact that many Brazilian nationalists refuse to understand, namely, that the control centers of globalist power are not found in the American government, nor do the interests of the global State identify in the least with those of good old “Yankee imperialism.” From California to New England, from Florida to Oregon, no one is unaware that submitting to the extension of the Kyoto accord implies destruction of the American economic base, reducing the United States to the status of a second-class power. Nor is it lost on the general public that other globalist projects proposed by the CFR, such as the Treaty of the Law of the Sea, or the dissolution of the borders with Mexico or Canada, would complete this destruction and close the chapter of the American nation in history. Curiously, the most lucid left-wing intellectual in the world, Antonio Negri, has explained and repeated a thousand times that the “Empire” and “United States” are not one and the same thing, that the global empire that is taking shape is supranational not only in its objectives but also in its only internal constitution (not that Negri was the first to discover anything. With minor differences, the essence of his concept of the Empire, published in 2000 by the Harvard University Press under the title Empire, was already all in my book O Jardim das Aflições [The Garden of Afflictions], of 1996). But the fact that not even the word of a renowned leftist suffices to unravel the confusion of globalism and Americanism shows in itself that much of Brazilian nationalism is only a form of morbid atavism rather than intelligent patriotism. The everyday discourse of politics reflects this. Indeed, while the only empire that exists in the world is the one referred to by Negri, in Brazil, the term “empire” is used as a synonym with “United States,” taking its cue from Fidel Castro’s communist rhetoric (see “ Nuestro espiritu de sarificio y el chantaje del Imperio ,” of April 25). Thus, the great true Empire, with the Latin American left as one of its chief instruments, is spared public hostility, which is turned specifically against the one nation that, ironically – but not coincidentally – is precisely the one offering the greatest obstacles to Imperial designs.

4. The globalist scheme fostered by the CFR is not the only one out there. There is a Sino-Russian globalism consolidated under the Shanghai Pact , which operates essentially by two routes: the financing of terrorism and the control of entire nations by means of the most formidable corruption machine that has ever existed in the world. And then there is an Islamic globalism, which expands by immigration, which is used as a weapon of cultural warfare, in a highly efficient strategy of occupation from within. The relationships between these three schemes of control are extremely intricate and subtle. The Shanghai Pact, for example, is ostensibly a reaction of the left to “imperialist globalism,” but in reality, does not oppose it in any way, opposing only the United States, and thereby helping globalism undermine American resistance (the faulty Brazilian language pattern mentioned above is a local example of this phenomenon). The Islamic and Sino-Russian schemes can be seen, to some extent, as competing with each other, but here as well, a web of caveats and ambiguities renders any schematic simplification prohibitive.

5. No country can “confront” oppressive globalism, but each one has the obligation to integrate itself into it as beneficially as possible for its own people, without in any way compromising its vital interests. However, this calls for a highly trained intellectual elite capable of navigating the twists and turns of the most advanced and complex historic change of all time. In Brazil, this elite does not exist at all, and the assumption that our institutions of “higher” learning can provide it is so ridiculous it does not merit discussion. The courses that have not been reduced to the level of training centers for militants are dominated by the most rudimentary of economic pragmatism, or by academic formalism that can only reason in terms of institutions and doctrines without ever getting down to basic issues. As far as I know, the only Brazilian concerned about training this elite is yours truly, but as you know, I can only work on a very small scale in proportion to my resources, or rather, to the lack thereof. Brazil seems doomed to go through this perilous time without understanding where it is headed or who is leading it.

The American Lula

July 24, 2008 | Jornal do Brasil

Besides listening to the national anthem with his hands over his genitals instead of over his heart, Barack Hussein Obama has adulterated the presidential seal so as to make it into one of his campaign logos, declared that the American flag is “a symbol of oppression,” and, as a finishing stroke, removed the stars and stripes from the tail of his campaign jet, replacing them with the “O” that stands for . . . himself.

More than plain and simple contempt, this attitude denotes a conscious effort at destroying the national symbols. This effort, in its turn, does not require symbolic interpretation: its meaning is self-evident. It gives electoral expression to the cultural war that has been waged against the United States, from within and from abroad, ever since the sixties: the point is to erect, upon the rubble of patriotism and sovereignty, a new system of loyalties, based on the alliance between every anti-American, anti-Western, and anti-Christian hatred and the billionaire interests engrossed in the implementation of the world government. The clearest token of this alliance are the candidate’s sources of funding: radical and pro-terrorist groups, on the one side, and the globalist megafortunes plus the mainstream media in full, on the other. Hence the vigor of his campaign, which has four times as much money as his opponent’s and—without any exaggeration—gets twenty or thirty times as much media coverage.

With this backup, he presumes not only to defy every convention but also to trample on the most elementary legal requirements: after withholding for months his birth certificate, he at last produced a manifestly spurious one (see http://web.israelinsider.com/Articles/Politics/12993.htm ). The original document, which is still missing, is necessary to clear up an essential question: Is Obama an American citizen, or is he an alien and therefore ineligible? The concealment and the subsequent fraud speak in favor of the latter hypothesis, but the steadfast enthusiasm of Obamaniacs, contrasting with their absolute lack of interest in clarifying this question, shows that they would rather demolish the American electoral system at one blow than allow Republicans to stay in power: the new system of loyalties is already in force, placing over national integrity the partisan ambitions of the Left.

With the same self-confident insolence, Obama’s government plans run flagrantly counter to the will of the majority, without the candidate having to fear the loss of even a single vote. The nation wants gas prices down; Obama promises to send them up, by maintaining the ban on new oil drilling. America wants to see illegal immigrants depart; Obama promises not only to grant them amnesty but also to give them taxpayer-funded health care. The nation wants fewer taxes; Obama promises to create a few more. If millions of American citizens who think and want the opposite of what Obama does have sworn to vote for Obama for president, it is not on account of what he promises, but in spite of his promising them even hell itself. The attraction of the hypnotic image is stronger than the cost-benefit analysis.

Obama’s campaign is a work of precision psychological engineering, planned not to win over voters through rational persuasion, but to weaken, shock, and stupefy them to the point of making them accept every loss, every humiliation, every defeat, just in order not to contradict the assumed moral obligation to elect him, it being of little importance whether he actually is an enemy in disguise. Here is what Obama is demanding—and obtaining—from voters: that they sacrifice everything to a fetish, that they do so to some extent consciously, sharing therefore the blame for the operation and becoming in advance unable to fight against it once it has been accomplished.

We have already seen this operation be carried out in Brazil, on the basis of the stereotypical image of the “worker president,” against whose crimes and perfidies no one can raise an audible voice anymore, for everyone, dragged by the psychological blackmail, became an accomplice somehow in the rite of sacrifice before the altar of the idol.

Translated by Alessandro Cota and Bruno Mori Em 24 de julho de 2008

English

Comunismo Versus Nazismo O Charlatanismo De Esquerda

José Maria e Silva | Opção, Goiânia, 2 dez. 2001

Opção, Goiânia, 2 dez. 2001 Ao traduzir e apresentar a obra do anticomunista francês Alain Besançon, o sociólogo Emir Sader, um dos mais destacados intelectuais da esquerda brasileira, prova que Olavo de Carvalho tem razão: o pensamento único brasileiro não é neoliberal é marxista.

José Maria e Silva Muito utilizada nos círculos intelectuais de esquerda, a expressão pensamento único é, ao mesmo tempo, uma meia-verdade e uma mentira e meia. Existe, de fato, um pensamento único no Brasil, mas não se trata do neoliberalismo como afirma a esquerda e, sim, do próprio discurso marxista que há muito substituiu as religiões e tornou-se, ele próprio, a principal ideologia do capitalismo. Portanto, quando a esquerda diz que há um pensamento único e que esse pensamento único não é outro senão o neoliberalismo, ela não se contenta em dizer uma meia-verdade conta uma mentira e meia. A meia-verdade ainda é uma fraqueza e limita-se a negar a realidade que se esfrega em seu nariz. Já a mentira e meia distorce a realidade de um modo tão completo que já não precisa esconder-se da verdade pode mesmo empinar o nariz ante os fatos que gritam. É, aí, que a mentira deixa de ser fraqueza para ser perversidade.

O materialismo científico de Karl Marx esse, sim, o verdadeiro pensamento único a imperar no Brasil foi edificado, em grande parte, sobre uma falsificação mesquinha do mundo. Todo o marxismo verdadeira profecia capitalista da era moderna funda-se numa distorção da realidade; bem-intencionada por parte de muitos, mas profundamente maléfica para todos. É o que vem mostrando muitas vezes, irrefutavelmente o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, uma das raras dissonâncias no desconserto desse pensamento único, que não só desconcerta desmantela o mundo. Em troca desse serviço que presta ao país, Olavo de Carvalho tem sido tratado pela esquerda como um cão hidrófobo da direita, que não pensa, baba, e, quando escreve, morde. Obnubilados pela fé inquebrantável no Capital , os marxistas se recusam até mesmo a ler Olavo de Carvalho, apesar de se arvorarem a criticá-lo. Com isso, privam-se de uma das penas mais elegantes do país, que, mesmo se não fosse o filósofo que é, já seria um grande escritor o que, em qualquer país, mesmo na França visceralmente marxista, já seria motivo de apreço.

Todavia, como a mentira não é eterna (mesmo quando tem as pernas longas do marxismo), coube a um empedernido marxista provar que Olavo de Carvalho tem razão. O sociólogo Emir Sader, doutor em ciência política pela USP e professor de sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, acaba de demonstrar em teoria e prática que o comunismo é mesmo uma chaga moral. A prova está na orelha do livro A Infelicidade do Século , do francês Alain Besançon, que trata do comunismo e do nazismo. Publicada no ano passado pela Editora Bertrand Brasil, a obra foi traduzida por Emir Sader, que também é o autor da apresentação publicada na orelha do livro. Esse fato, por si, gera um primeiro espanto Alain Besançon, antigo discípulo de Raymond Aron, é, hoje, um dos principais críticos do comunismo na Europa, enquanto Emir Sader é talvez o mais eminente gramsciano do cenário intelectual brasileiro. Mas, quando se lê atentamente a orelha, esse espanto inicial se desfaz. Fica evidente que o comunista brasileiro só se interessou pelo livro do anticomunista francês chegando a traduzi-lo e apresentá-lo porque o livro é quase um mea culpa de Besançon em relação ao comunismo.

Segundo Emir Sader afirma na orelha do livro, A Infelicidade do Século nasceu da preocupação de Besançon com uma grave injustiça que a história perpetra contra o comunismo enquanto surgiram muitas obras imputando [ao comunismo] uma série de crimes , afirma Sader, os crimes do nazismo, de alguma forma, foram exorcizados ou ficaram relativamente neutralizados na memória histórica . Pelo que se vê da leitura do texto de Sader, foi essa nefasta distorção da história a minimizar a crueldade comprovada do nazismo contra a suposta crueldade do comunismo que fez Alain Besançon esquecer suas divergências com a esquerda e escrever A Infelicidade do Século . Até porque, continua interpretando Sader, Besançon se viu diante de uma diferença crucial entre o comunismo e o nazismo, que os torna incomparáveis contra o comunismo, há livros de seus adversários; contra o nazismo, há os cadáveres de suas vítimas. Emir Sader reforça essa diferença moral que Besançon vê entre ambos lembrando que o comunismo foi protagonista dos enfrentamentos centrais da segunda metade do século e que o nazismo teve seus efeitos reduzidos pelo sofrimento do povo palestino .

Todavia, qualquer estudante secundarista que ler A Infelicidade do Século vai-se sentir tentado a rasgar as orelhas do livro perpetradas pelo sociólogo Emir Sader a apresentação que o comunista brasileiro faz da obra é uma deslavada mentira. E quem o desmente já na primeira página da obra é o próprio autor dela. Depois de afirmar que a consciência histórica parece, hoje, sofrer gravemente de falta de unidade e que o comunismo e o nazismo são gêmeos heterozigotos (expressão que busca em Pierre Chaunu), Alain Besançon resolve voltar a esse tema que ele confessa doloroso a capacidade de matar, com frieza e razão, entre o método e o sadismo, ainda por cima em nome de um ideal, que o comunismo e o nazismo inauguram na história humana. Besançon enfatiza que o comunismo e nazismo se dão o direito e mesmo o dever de matar, e o fazem com métodos que se assemelham, numa escala desconhecida na história .

E foi sobretudo por sabê-los iguais na crueldade praticada mas diferentes na memória estabelecida que Alain Besançon escreveu A Infelicidade do Século . É o que ele próprio afirma, também no início da obra, desmentindo cabalmente Emir Sader: A memória histórica, no entanto, nos os trata [ao comunismo e ao nazismo] de forma igual. O nazismo, apesar de completamente desaparecido há mais de meio século, é, com razão, objeto de uma execração que não diminui com o tempo. A reflexão horrorizada sobre ele parece até aumentar a cada ano em profundidade e extensão. O comunismo, em compensação, apesar de mais recente, e apesar, inclusive de sua queda, se beneficia de uma amnésia e de uma anistia que colhem o consentimento quase unânime, não apenas de seus partidários, pois eles ainda existem, como também de seus inimigos mais determinados e até mesmo de suas vítimas. Nem uns nem outros se acham com direito de tirá-lo do esquecimento . Besançon lembra, inclusive, que, às vezes, o caixão de Drácula se abre , mas o escândalo dura pouco e o caixão se fecha novamente. Foi o que ocorreu, segundo ele, quando da publicação do Livro Negro do Comunismo o escândalo dos 85 milhões de vítimas do comunismo durou pouco, mesmo a cifra permanecendo sem ser seriamente contestada.

Com a orelha que escreveu para A Infelicidade do Século , o sociólogo Emir Sader o Emir dos Crentes , na expressão do ensaísta Meira Penna passa a constituir-se na prova irrefutável de que Olavo de Carvalho está coberto de razão existe mesmo o império absolutista de esquerda no cenário intelectual brasileiro. Em que outro lugar do universo, um intelectual respeitado teria a coragem de mentir deslavadamente sobre um determinado livro na orelha deste mesmo livro? Só se fosse um completo alienado, disposto a não se importar com o juízo que o leitor faria dele ao cabo da leitura da obra. Mas como o sociólogo Emir Sader deve estar em seu juízo perfeito (já que se trata de um dos mais respeitados intelectuais da esquerda brasileira, com artigos publicados no exterior), a distorção que ele faz da obra só pode ser consciente. E, sendo consciente, revela uma inacreditável autoconfiança ele estava certo de que não seria pego em flagrante delito intelectual. Como membro da cúria intelectual de esquerda, Emir Sader confia na credulidade dos sacristãos de Marx pelo país afora e sabe que, mesmo se for denunciado por um Olavo de Carvalho ou por um Meira Penna, não lhe será difícil exorcizá-los como serpentes capitalistas a imiscuírem-se na fé do comunismo edênico. Só isso pode explicar tamanho desrespeito à inteligência alheia.

É impossível que a interpretação feita por Emir Sader na orelha do livro seja um equivoco ela só pode ser um embuste. Ao contrário do pensamento de esquerda que se esconde num estilo abstruso para melhor embair o leitor o pensamento de Alain Besançon é límpido. Ele sustenta que o comunismo e o nazismo buscavam mudar, agindo sobre os costumes, a regra moral, a consciência do bem e do mal . Mesmo se recusando a comparar, sob uma perspectiva quantitativa, o grau de desumanidade do nazismo e do comunismo, Alain Besançon, num dado momento de sua argumentação, chega a afirmar sem rebuços: Apesar de a intensidade no crime ser levada pelo nazismo a um grau que o comunismo jamais se igualou, deve-se, no entanto, afirmar que este último a levou a uma destruição mais extensa e mais profunda . E mostra que essa destruição moral não se limitou aos campos de concentração de Stalin, persistindo ainda hoje, mesmo depois da queda do Muro de Berlim. Besançon oferece como exemplo a declaração de um editorialista do L Humanité , que, diante das dezenas de milhões de vitimas do comunismo, sustentou, na televisão, que, depois de Auschwitz, não se pode ser mais nazista, mas se pode continuar sendo comunista mesmo depois dos campos soviéticos.

Esse homem que falava com consciência não se dava conta de forma alguma de que ele acabava de formular sua fatal condenação , indigna-se Alain Besançon, acentuando que a idéia comunista perverteu o o princípio de realidade e o princípio moral , ao se julgar capaz de sobreviver a 80 milhões de cadáveres. Daí a permanência do Mal comunista, que, ao se disfarçar de Bem, consegue ser mais duradouro do que o nazismo, estendendo suas vítimas para além do extermínio físico perpetrado em seus tempos de poder máximo. É o que afirma Besançon: O comunismo é mais perverso que o nazismo porque ele não pede ao homem que atue conscientemente como um criminoso, mas, ao contrário, se serve do espírito de justiça e de bondade que se estendeu por toda a terra para difundir em toda a terra o mal. Cada experiência comunista é recomeçada na inocência . Por isso, Besançon se recusa a tratar apenas sociologicamente os fenômenos nazista e comunista. Ele considera que isso seria um desrespeito às vítimas de ambos, já que o Mal que tanto comunismo e nazismo representaram para elas é algo que escapa ao humano para instaurar-se no demoníaco. Alain Besançon, ao contrário de Marx, respeita os limites da vida humana que fatalmente esbarra no mistério.

É por não respeitar esse mistério e dessacralizar completamente o homem, procurando racionalizar o mundo numa espécie de reengenharia social, que o comunismo (até mais do que o nazismo) arvora-se a demiurgo de uma humanidade ideal ainda que ao preço de erradicar a que existe da face da terra. Para Besançon, portanto, o comunismo não é só a destruição física representada pelo nazismo, ele é também uma destruição moral. Por duas razões: primeiro, porque o comunismo se vale de uma pedagogia mutilante , que se estende à população inteira e se torna louca porque contradiz as evidências dos sentidos e do entendimento ; segundo porque a confusão permanece insuperável entre a moral comum e a moral comunista, uma vez que é falso dizer que a moral comunista baseia-se na natureza e na história ela baseia-se numa supernatureza que não existe e numa História sem verdade .

O que diz Alain Besançon é praticamente a mesma coisa que diz Olavo de Carvalho. Por que, então, a esquerda brasileira, que exorciza Olavo de Carvalho como se ele fora um demônio, agora resolveu traduzir do francês aquilo que o filósofo brasileiro já lhe atira ao rosto em bom português? Confesso que custei a atinar com o motivo pelo qual o comunista Emir Sader se dispôs a traduzir a obra de um papa do anticomunismo (caso se entenda por anticomunismo toda defesa da moral comum, da humanidade inteira e da vida como ela é). Só depois é que me dei conta de que a tradução do livro A Infelicidade do Século bem pode ser mais uma estratégia gramsciana Alain Besançon, além de membro do Institut de France, é destacado professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales da Universidade de Paris. E seu prestígio pode ser medido pelo fato de ter-se tornado, atualmente, o diretor dessa escola, arrancando das mãos da esquerda o seu mais importante Komitern intelectual no mundo, que já foi dirigido até mesmo pelo sociólogo Pierre Bourdieu, um terrorista social de esquerda no dizer de Jeaninne Verdes-Leroux.

Logo, se a esquerda brasileira não pode ignorar Alain Besançon, como faz com Olavo de Carvalho, por que não se antecipar à direita brasileira antes que ela o descubra e faça dele um arauto de suas idéias, reforçando a voz quase isolada do filósofo do Imbecil Coletivo ? Armando-se, então, de uma pedagogia mutilante , Emir Sader não se limitou a provar que Olavo de Carvalho tem razão: ao traduzir o livro de Alain Besançon e maquiá-lo numa apresentação espúria, ele se oferece como exemplo vivo do que Besançon mais condena a capacidade do comunismo de contradizer as evidências dos sentidos e do entendimento , escondendo-se por trás da moral comum, tornando-se parasita dela, gangrenando-a, fazendo dela o instrumento de seu contágio Não foi isto o que fez Emir Sader com o livro de Alain Besançon, escondendo-se por trás de sua moral comum, gangrenando-a, tornando-se parasita dela, para melhor instilar a sua moral comunista? A moral de Besançon iguala nazismo e comunismo para melhor exaltar o ser humano. Fingindo fazer-lhe eco, a moral de Sader quer apenas salvar o comunismo ainda que a custa de perder a humanidade.

Ao dizer que a humanidade nunca mais seria a mesma depois de Auschwitz, o filósofo alemão Theodor Adorno se referia a algo similar ao que afirma Alain Besançon neste livro a respeito da Shoah: um acontecimento único neste século e tem todos os tempos . Mesmo num século marcado por uma prolongada guerra de 1914 a 1945, dividida em dois tempos, no maior massacre localizado nos países que se consideravam o centro da civilização mundial , o projeto de extermínio cientificamente planejado de eliminação de um povo, com a montagem de campos de concentração que chegaram a ser autogeridos pelas próprias vítimas e aproveitamento industrial de todos os resíduos dos cadáveres de milhões de pessoas, tornou-se o símbolo mesmo do que a busca do poder imperial de mais poder pode fazer com os mais avançados progressos da humanidade.

Confira, na íntegra, o que diz o sociólogo de esquerda Emir Sader sobre o livro do anticomunista francês Alain Besancon Assim, chegamos ao final do século XX com todos os balanços conservadores ou progressistas, capitalistas ou anticapitalistas , assumindo um ar melancólico.

A Infelicidade do Século não é uma exceção. Sua preocupação original é a de que o comunismo, protagonizando os enfrentamentos centrais da segunda metade do século, teve muitas obras imputando-lhe uma série de crimes da mesma forma que o próprio capitalismo, poderíamos acrescentar , enquanto que os crimes do nazismo, de alguma forma, foram exorcizados ou ficaram relativamente neutralizados na memória histórica, até mesmo porque o sofrimento do povo palestino vítima de Israel diminui os seus efeitos.

Depoimentos

Francisco Barbosa Junior | 15 de fevereiro de 2022

Olavo de Carvalho, além de levar milhares de almas para a igreja e tirar outras dezenas de milhares da indigência intelectual, salvou nosso país do comunismo.

Francisco Barbosa Junior 16 de fevereiro de 2022 Olavo de Carvalho, além de levar milhares de almas para a igreja e tirar outras dezenas de milhares da indigência intelectual, salvou nosso país do comunismo.

Maurício Marques Canto Jr.

19 de dezembro de 2021 Um professor exemplar; uma máquina que, testemunhei pessoalmente, diariamente rezava o terço e estava permanentemente estudando.

Perfeito e intocável? Que bobagem. Nem ele concorda com tudo o que já disse, imagine se os outros devem seguir bovinamente qualquer argumento.

É ridículo e fonte de maledicências ficarem nessa frescura de “idolatria”.

Mas é um ser humano com coragem ímpar, bom humor contagiante (sempre rindo e vendo o melhor de cada situação), sempre esmiuçando fatos e questões. Abominava falar mal dos outros (quando o fazia, era sempre se defendendo e já chutava o balde em público) esquecendo segundos depois, mostrando um invejável amor pela vida e pela verdade.

Conviver com ele foi uma experiência marcante, com lições (muito acima de filosofias ou teorias) que guardarei para sempre.

Hoje não é nenhum dia especial, mas acho importante, eventualmente, lembrar de pessoas que marcaram a minha vida e que, neste caso, marcou também a história do Brasil.

Que Deus lhe dê muita saúde e muitos anos de vida. Eu, e vários outros alunos, sabemos (bem pouquinho, é verdade) quem o Olavo realmente é.

Leonardo Flávio 11 de dezembro de 2017 Espetacular, certa vez conversando com um professor de filosofia, cujo já havia me dado aula no ensino médio. Ele dizia que faculdade de filosofia das universidades são muito fracas e existem muitas objeções. Enfim, concluímos a conversa convictos de que o COF é o melhor, inalterável e efetivo. Prof. Olavo de Carvalho, o Brasil agradece. E como de praxe, Olavo tem razão!

Silvio Grimaldo (Administrador do Seminário de Filosofia e editor do BSM ) 21 de setembro de 2017 Em 2006, fui visitar o professor Olavo de Carvalho e sua família em sua casa na Virgínia. Eu já era seu aluno desde 2002, mas nunca tivemos qualquer contato fora do auditório da É Realizações, em São Paulo. Eu era apenas mais um das centenas de alunos desconhecidos do Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades. A visita deveria durar dois dias, mas acabei morando com eles por 8 meses. Desde então, minha vida é um vai e vem aos EUA, e a casa do Olavo, da Roxane , da Leilah , do Pedro , da Dona Olga, da Tiffany e dos bêbes tornou-se também a casa do Silvio Grimaldo. É minha segunda casa. Ou melhor, meu segundo lar. Não só porque sou um folgado que não tomou a dose diária de Semancol, mas porque desde o dia em que coloquei os pés ali, fui recebido e tratado como um membro da família.

Se alguém me pedisse para resumir o que presenciei e vivi no seio dessa família, eu diria o seguinte: ali encontramos o amor e a generosidade. Olavo de Carvalho é certamente a pessoa mais generosa que já conheci, e sua família lhe segue o exemplo de perto. É um homem extremamente afetuoso com a esposa, com os filhos e com os amigos. E também com os desconhecidos. Nunca vi ali uma briga, uma palavra ríspida, um comentário amargo. Não estou dizendo que não existam dificuldades, problemas, crises, tretas. Estou dizendo que o amor e a generosidade superam tudo, inclusive esse episódio grotesco em que uma trupe de bandidos exploram uma incapaz para tentar destruir um terceiro.

É justamente por isso, por conta do coração sem igual do nosso professor, que para cada dois Velascos que surgem de uma nuvem de enxofre com historinhas fantasiosas, levantam-se dois mil desconhecidos, anônimos, com uma história real de como o Olavo mudou suas vidas, de como os salvou da degradação em que estavam e lhes ajudou a encontrar um caminho para Deus e para a verdade. Todos nós que recebemos a vida de volta graças ao Olavo somos também seus filhos. E estamos muito agradecidos por isso tudo.

Um amor dessa magnitude, que construiu uma família de milhares de irmãos espalhados pelos quatro cantos do mundo, que procuram viver de acordo com o bem e com a verdade, certamente atormenta o Diabo e o deixa 227% putaço. Mas ele que fique lá xingando muito no twitter e se lamentando dessa puta falta de sacanagem. Nós seguimos em frente, admirando cada vez mais o cada vez mais foda Olavo de Carvalho.

Italo Marsili 18 de setembro de 2017 Morei com Olavo de Carvalho entre 2007 e 2008, na Virginia. em 2005 conheci seus escritos jornalísticos, os quais consumi em apenas uma tragada. Logo progredi para suas apostilas e transcrições, livros e DVDs. Não havia mais nada disponível, tudo havia sido estudado, resumido, meditado, confrontado — desde os escritos de astrocaracterologia e alquimia até às análises de conjuntura política, passando por psicologia, gnoseologia e religião. Foi então que resolvi tomar coragem; escrevi-lhe um e-mail pedindo “asilo intelectual”. Sinceramente não esperava resposta. Em menos de 24h recebi um e-mail bem humorado revelando a mim a personalidade do homem mais generoso com quem convivi. Entre acertos práticos e teóricos, a querida Roxane Carvalho entrou no circuito. Ambos me trataram com o maior carinho e benevolência que se possa imaginar. NUNCA haviam me visto. NUNCA haviam convivido comigo; ainda assim me acolheram como quem acolhe a um filho. Cheguei em Richmond pela primeira vez em 28 de dezembro de 2007. Cometi uma incrível gafe: comuniquei o horário de chegada do voo errado. Olavo e família foram ao aeroporto com 7 horas de antecedência. Comecei mal; eles não. Assim que fui recebido pela Leilah Carvalho e pelo Pedro (Olavo e Roxane já haviam voltado para casa), pude perceber que eu estava em família. Nenhuma crítica, nenhum sinal de contrariedade; pelo contrário, sorrisos abertos e semblantes leves. A conversa fluiu naturalmente. Chegando até a casa do professor, fui rapidamente introduzido ao escritório onde pude vê-lo pela primeira vez. Estava assistindo a um videoclipe dos Mamonas Assassinas; ria divertidamente, muito. Aquela cena confirmou minhas expectativas. Estava diante de um homem de verdade, sem empáfias, sem falsidade, sem pose. Que coração. Que generosidade. Deu-me um abraço, perguntou sobre a viagem e começou a me mostrar sua biblioteca: “aqui a literatura universal, ali os de teologia e religião, desse lado muita coisa sobre comunismo... e esses aqui, sobre Descartes, etc.”. Passamos uns 10 minutos esperando o jantar. Entramos. Sentamos à mesa. Olavo começou a prece do Pai-Nosso em inglês. Sem afetações, começamos a nos servir. Era uma torta de camarão, item de luxo — naquela altura eu não sabia dos apertos financeiros pelos quais a família passava (JB e Diário do Comércio não pareciam bons pagadores). Muitas anedotas e algum filme de ação do Van Dame, creio, nos acompanharam naquele primeiro jantar com a família. A mim, apenas uma advertência: “você só não me verá cagar, todo o resto esteja à vontade”. Já nos primeiros dias perceberam que eu não possuía um computador, deram-me um bom Laptop que não estava sendo usado. Jamais deixaram que eu pagasse nenhuma conta (nem mercado, nem abastecimento do carro, nem nada).

Passaram-se os dias e a rotina confirmava minhas primeiras impressões: benevolência, doação, generosidade e outras virtudes inimagináveis para o brasileiro médio eram a tônica das condutas em família. Vi o Olavo atender, solicito e paciente, ao telefonema de algumas figuravas que viriam a traí-lo.

Rezávamos o terço juntos quase que diariamente. Testemunhei ainda uma cena memorável: assistíamos, apenas ele e eu, ao filme do Padre Pio. Após aquela poderosa cena na qual o Padre Pio repreende a um de seus fiéis com um murro no rosto, Olavo pausa o filme, levanta-se em silêncio, confronta o horizonte com seus olhos – talvez com todo seu espírito – e pergunta, não a mim, evidentemente, mas talvez ao próprio Deus: “o que será que o Padre Pio diria de mim?”. A partir dessa data, passou a pedir a interceção deste mesmo santo e da virgem maria antes do início de seus programas de rádio semanais.

Testemunhei centenas de histórias que não caberiam nesse post. Imaginem a seguinte rotina: eu chegava na biblioteca por volta das 23h, frequentemente munido de uma pergunta — muitas idiotas —, às quais eram respondidas com toda a deferência, como se eu fosse um rei. Essa era precisamente a impressão que ia se confirmando em mim através daquele convívio: o Olavo era capaz de ver a realeza do ser-humano, a personalidade atual e a possível. Suas ações encaminhavam-se no sentido de promover em mim, no aluno em geral, creio, a descoberta, a assunção da própria personalidade humana, da vocação mesma. Fui testemunha de inúmeros atos que ficaram gravados na minha memória e no meio peito. Vi uma família de verdade. Espero que os novos, bem como os antigos, detratores do Olavo encontrem juízo mental e paz em seus espíritos.

Paulo Antônio Briguet 7 de junho de 2017 ELE TEM RAZÃO “O Jardim das Aflições”, que estreia hoje em Londrina, é o filme mais perseguido da história do cinema brasileiro. E quem o persegue? Basicamente dois grupos: aqueles que desejam vê-lo de qualquer maneira e aqueles que desejam ocultá-lo de qualquer maneira. Entre os primeiros, estão as pessoas que lotam salas de cinema em várias cidades do Brasil (este colunista, por exemplo); entre os últimos, estão os militantes esquerdistas que simplesmente não suportam a ideia de existir um filme dedicado ao maior filósofo brasileiro vivo, Olavo de Carvalho .

Leia mais na # AvenidaParaná :

O filme que não deveria existir

Pedro Agudo Ferraz 10 de maio de 2017 O meu velho professor escreveu dezenas de bons livros, centenas de excelentes artigos e milhares de páginas do melhor curso de filosofia que já existiu no Brasil.

Ele levou uma multidão a conhecer e amar a Fé Católica e ensinou o Brasil inteiro que vivemos sob uma hegemonia cultural socialista.

Olavo de Carvalho fez tudo isso SOZINHO. Fez com seu próprio sacrifício e paciência, sem o investimento de nenhum movimento ou grupo. Teve a ajuda somente de Nossa Senhora.

Eu, que ten ho consciência da minha bostísse, que não fiz ainda nem 2% do bem que o professor já fez, imagino como seria ridículo e soberbo caso saísse atacando publicamente o cara que mais ajuda o Brasil sem dar ao menos o benefício da dúvida.

Isto aqui não é uma indireta para ninguém do meu perfil, mas uma direta caridosa tentando lembrar todos os bons católicos que devemos julgar uma árvore pelos frutos.

Marlon Belotti 10 de maio de 2017 Diálogo:

— O que seria da gente sem a influência do mestre Olavo?

— Uns perdidos.

Bruna Luiza “Após fazer uma postagem falando sobre como o professor Olavo de Carvalho ajudou a renovar minha fé cristã, tive a grata surpresa de começar a receber dezenas de comentários com depoimentos sobre a influência do Olavo na conversão de várias pessoas – gente de todos os lugares, de diferentes denominações. Reuni aqui vários depoimentos para que todos vejam a lindíssima forma como Deus age através do professor Olavo. Como está escrito em Matheus, capítulo 7, devemos ter cautela com falsos profetas, que aparecem “vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis.” Esses são os frutos do professor Olavo.”

Wladimir Caetano de Sousa “Fui convertido graças a Deus por intermédio do Olavo.”

Samuel Coelho “O Olavo insiste que não, mas, tratando-se de ensino religioso, ele, sendo “apenas um filósofo”, é ainda o mais capaz do Brasil. Minha conversão, só devo a ele.”

Paulo Eduardo Martins “O Olavo de Carvalho me fez voltar pra Igreja Católica. Alguns padres fizeram com que me afastasse. Grato ao Olavo.”

Felipe Moura Brasil 29 de abril de 2017 “No momento em que o Brasil vive todas as consequências da subida do poder cultural e depois político dos grupos ideológicos e partidários contra os quais Olavo alertou em artigos, livros e aulas nas décadas de 1980 e 1990, os jornais deveriam estar diversos de textos de reconhecimento de seus acertos. Não estão por um motivo simples: o PT perdeu o poder político no governo federal, mas a esquerda ainda o detém nos meios culturais. Em 1996, Olavo explicou na TV Globo ao então cético Pedro Bial que os esquerdistas já haviam estabelecido esse domínio, quase sete anos antes de Lula chegar ao poder em 2003. Eu, colunista, Felipe Moura Brasil, idealizador e organizador do livro best-seller de Olavo de Carvalho, O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota , que teve mais de 230 mil exemplares vendidos, preparei uma edição especial de dois áudios de 2011 que também merecem ser ouvidos agora à luz das recentes delações da Odebrecht. Parabéns, Olavo, pelos seus 70 anos e muito obrigado por ter aberto o espaço ainda pequeno que temos hoje no debate público brasileiro para o contraditório.”

Alexandre Borges 29 de abril de 2017 Hoje o mestre Olavo de Carvalho faz 70 anos. Faça sua homenagem, sem gratidão não há salvação. Descobri o True Outspeak há 10 anos quando buscava podcasts para ouvir na Dutra. Morava em São Paulo e vinha regularmente ao Rio de carro, uma viagem de seis a oito horas dependendo do trânsito. Já no primeiro programa baixado, Olavo falava de política, filosofia, cultura e religião em termos totalmente desconhecidos por mim. Ele citava autores que nunca havia ouvido sequer o nome. Resolvi investir e ouvir programas anteriores, ler os livros mencionados no programa, e o resto é história. Sem o True Outspeak, eu não estaria aqui, não seria analista político e não teria o privilégio de uma comunidade com mais de 120 mil seguidores que cresce a cada dia. Obrigado, mestre Olavo! Vida longa e feliz aniversário!

Bene Barbosa 29 de abril de 2017 Feliz aniversário, mestre Olavo! ‘Se os meios de produção constituem o critério econômico da divisão de classes, o fator que assegura a uma classe o seu papel dominante na sociedade não é a posse deles, e sim a dos meios de destruição. Eis por que, as revoluções que têm por meta nominal a mudança da estrutura econômica não tomam nunca por alvo prioritário a conquista das fábricas e dos bancos, mas sim a das instalações militares. Não a da riqueza, mas a das armas que a garantem. Nenhum materialista histórico esteve jamais embriagado de economicismo a ponto de negar essa obviedade’. Assim começava o primeiro texto que li de Olavo de Carvalho intitulado Armas e Revolução Passiva publicado na Folha de São Paulo, 17 de Junho de 1999. Eu, já labutando contra essa desgraça chamada desarmamento desde o inicio da década de 90, despertei para as reais intenções do mesmo: controle social! É importante lembrar que naquela época os artigos pró-armas eram raríssimos,ainda mais na grande mídia e cada um que aparecia, quando aparecia, era motivo não só de comemoração, mas também de alento, afinal, eu não estava louco ou pelo menos não estava louco sozinho. Em 2000 tive o prazer de conhecer Olavo de Carvalho e Ubiratan Jorge Iorio pessoalmente em uma palestra numa universidade de Campinas, interior de São Paulo. Vi Olavo destruir o coordenador do curso de uma forma que eu jamais tinha visto acontecer. Naquele dia eu pensei: quero ser assim quando crescer! Já em 2005, durante o referendo, mais precisamente em 16 de outubro, fui convidado para participar do programa Mídia Sem Máscara na TV apresentado por ele, pelo saudoso José Monir Nasser e pela Kathren Silveira . Cheguei em Curitiba e fui recebido, para meu espanto!, na casa dele onde conheci a queridíssima Roxane Carvalho. Exatamente uma semana depois vencemos o referendo. Bom, tudo isso para parabenizar o aniversariante e dizer muito obrigado por ser responsável pelo que me tornei e para onde seguiu nossa luta. Muito obrigado, mestre de todos nós, Olavo de Carvalho!

Flavio Morgenstern 29 de abril de 2017 O maior pensador brasileiro faz 70 anos – mas ainda há quem tenha nojinho de Olavo sem ler seus livros por boatinho de internet. Só há um jeito de não gostar de Olavo de Carvalho: nunca o ler – ou, ainda melhor, só ler seus comentários de internet retirados de contexto e raramente ultrapassando as 3 linhas. O maior filósofo do Brasil completa hoje 70 anos de profunda atividade intelectual, sem encontrar quem o ombreie em profundidade e altitude intelectual – muito menos entre seus adversários. [...] Olavo de Carvalho formou sozinho a maior geração de intelectuais do país desde a morte de Mário Ferreira dos Santos, Vicente Ferreira da Silva e Bruno Tolentino, os maiores filósofos e pensadores do país antes de sua estréia intelectual. [...] Olavo de Carvalho completa 70 anos com uma coragem rara no mundo: ser o que é, sem aderir a modismos e sem o aplauso fácil de agradar às multidões. Curiosamente, mesmo em nosso país, sua “minoria silenciosa” é que faz a real diferença: basta lembrar de quantos cartazes onde se lia “Olavo tem razão” foram vistos nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff no país.

Flavio Bolsonaro 29 de abril de 2017 Parabéns ao líder, professor e filósofo Olavo de Carvalho pelo seu aniversário! Que Deus continue abençoando muito você e toda sua maravilhosa família!

Rodrigo Gurgel 29 de junho de 2017 [...] Olavo nos entusiasma a seguir o caminho do que é essencial, do que é realmente importante para nossas vidas e para o país.

Ângelo Monteiro 13 de setembro de 2012 Artigo opinião JC Jornal do Commercio (PE) OLAVO E A TEMPESTADE A maioria dos mestres que conheço se caracteriza mais por sua pose que por seu conhecimento ou, quando muito, o seu conhecimento é a extensão dessa pose que, com frequência, se constitui no único indicativo de sua presença entre os homens. Os nossos mestres se ligam antes às instituições que representam que ao valor daquilo que dizem defender. Por tudo isso Olavo de Carvalho se torna uma completa exceção, quer como filósofo e autor de obras realmente definitivas, – a exemplo de O imbecil coletivo, O jardim das aflições e Aristóteles em nova perspectiva – quer como professor de filosofia: e uma tal exceção nenhuma universidade, por melhor que fosse, poderia produzir.

Principalmente ao se tratar de alguém que, em suas aulas-conferências, costuma dispensar o uso de quaisquer anotações durante uma exposição oral. E assim aconteceu numa de suas mais recentes aulas, sob a forma de vídeo-conferência, diretamente do endereço onde vive na Virginia, USA, quando ele procurava alinhar, com uma inesgotável paciência, temperada de uma fina argúcia, uma série de argumentos em relação a cada passo das Meditações, de Descartes, demonstrando, ponto por ponto, que as questões levantadas pelo filósofo não poderiam ser respondidas, de modo definitivo, segundo a ótica de seu tempo. Ou esclarecendo melhor: jamais, por extraordinário que tenha sido Descartes, ele poderia visualizar, em todas as consequências, o rumo que elas tomariam no futuro, de acordo com a visão que hoje delas possuímos.

Enquanto ele assim dissertava sobre o pensamento de Descartes para seus milhares de ouvintes e admiradores, uma tempestade acaba de desabar sobre o seu próprio teto no estado da Virginia, de onde essa aula estava justamente sendo transmitida... Como se tentasse, inconscientemente, seguir o exemplo de Jesus ao aplacar uma tempestade, no mar da Galiléia, para espanto dos seus discípulos, Olavo de Carvalho – que parecia até então alheado de tão colossal fenômeno meteorológico – começa em dado momento a informar, com a máxima segurança, para sua seleta assistência, com a imperturbabilidade de um estoico ou de um touro indomável a encarar o furor dos elementos, que as transmissões seriam interrompidas apenas por meia hora, mas que, dentro em pouco, tudo voltaria ao normal...

Dessa forma Olavo consegue enfrentar as tempestades do mundo, com o ar mais impávido que o próprio Cogito cartesiano em face das reviravoltas, quase sempre inesperadas, do tempo e da história...

Eric Ken Doniak “E eu que saí do ateísmo para o cristianismo com a ajuda dele.”

Carlos Eduardo Saliba Filho “De fato, o professor Olavo firmou demais minha fé, principalmente quando argumentava com a ateuzada militante.”

Rodolfo Cattaneo “Até eu que sou protestante voltei para a Igreja muito por causa do Prof. Olavo de Carvalho.”

Leonardo Alves Vieira “O professor Olavo me fez ter experiências com Deus que nunca imaginaria alcançar...”

Rafael Vicari “O livro com os textos do prof. Olavo “Minimo”, juntamente com as aulas do Pe Paulo Ricardo no youtube, me fizeram respeitar o cristianismo, mais especificamente o catolicismo, profundamente, o que foi justamente o primeiro passo para eu me tornar um ex ateu e voltar pra Santa Igreja. Viva!”

Andre Chilano “Ele como alguns outros grandes filósofos cristãos, nos ensinam a filosofia ao mesmo tempo que nos encaminham à Deus.”

Leandro Luiz Lara Rodrigues “O Prof. Olavo de Carvalho, o Padre Paulo Ricardo e o grande Mário Ferreira dos Santos já têm um lugar cativo no céu, pois trouxeram um filho pródigo de volta ao lar!”

Leuça Run Antis Run “E como foi bom voltar ao lar do senhor, Obrigadíssimo Prof. Olavo.”

Ageu Marinho “Olavo me ensinou muito sobre a Fé Cristã. Devo muito da minha conversão a ele. Agradeço a Deus por tê-lo conhecido!”

Matheus De Oliveira Leite “O Olavo foi instrumento de Deus que trouxe de volta para os templos pessoas das mais variadas denominações. Essa variedade já é uma prova da importância dele. Que Deus abençoe este homem.”

Genesio Da Silva Pereira “Se não fosse pelo prof. Olavo de Carvalho eu estaria ainda hoje chafurdado nas trevas da teologia da libertação (como nos anos 80/90). E, certamente, usando-a para debochar da verdadeira fé cristã e da Igreja Católica.”

Mauro Ventura Alves “Mesma coisa aqui. Estava envolvido com ordens ocultistas e, em 2008, por causa do Olavo, retomei o contato com a Igreja.”

Thalles Augusto “Eu abandonei a igreja católica e virei agnóstico. Depois de alguns anos conheci o Olavo ( jamais esquecerei aquela tarde quando li o prefácio De Brave New World) e Padre Paulo Ricardo e minha fé em Cristo e na virgem aumenta a cada dia.”

Leonardo Celestino “Serei batizado agora em 2014. Olavo foi o instrumento de Deus para me levar à fé. ‘A fé vem pelo ouvir.'”

Paulo Henrique Pinheiro “Sou cristão-primitivo, não sou católico, no entanto o professor Olavo me abriu a visão sobre muitas coisas, comecei a ver muitos ângulos sobre tudo que antes eu não enxergava.De coração, muito obrigado.”

Melissa Madhu 2 de agosto de 2012 Quantas bibliotecas cabem em Olavo de Carvalho? Como alguém pode ter tanto conhecimento e usá-lo com tanta naturalidade e intimidade?

Marcelo Daniel Rodrigues 12 de junho de 2012 Prof. Olavo de Carvalho, Quero agradecer a oportunidade que me foi dada ao conhecer o seu trabalho. Nunca soube, em lugar algum, sobre a Educação Clássica, principalmente o pensamento de Mortimer J. Adler e, também, de Ivan Illich. A Universidade nunca abordou sobre eles. Foi por meio de alguns textos seus, vídeos etc, que tomei conhecimento da importância dos estudos pessoais, da importância da leitura dos clássicos, a Filosofia vista de uma maneira genuína, entre outras coisas mais. Sou prof., e isso contribuiu muito com a minha vida. De um lado, trouxe uma angústia, pois trabalho justamente no ensino formal, burocrático que está voltado aos interesses do Estado, e não ao conhecimento como um fim em si mesmo. Por outro lado, tento na medida do possível, praticar aquilo que me é passado por meio do seu trabalho. Desde o ano passado, tudo o que aprendi mudou muito a minha vida, principalmente a minha vida interior e de estudos. Posso dizer que sou outra pessoa.

Sou seu aluno no Seminário de Filosofia (COF), e achei mais do que necessário vir até aqui e agradecer por tudo.

Desejo saúde, felicidade, coragem e que seus sonhos mais sinceros sejam realizados.

Passaria a noite aqui mostrando tudo o que foi mudado em minha vida e a importância que seus conhecimentos me ajudaram. Coisas que ninguém fala no Brasil, principalmente nomes como Otto Maria Carpeaux, Mário Ferreira dos Santos, etc me ajudaram muito.

Um forte abraço.

Felipe Ferreira 30 de março de 2012 Professor, Não consigo nomear a mudança que proporcionou em mim a leitura de dois textos seus: Pobreza e grossura (2000) e Aprendendo com o Dr. Johnson (2007). Sinto, vendo agora, como se eu antes fosse pior que um animal; agora, algo que pode ser chamado de ser humano.

Muito obrigado e parabéns por todo o seu trabalho.

Levi Marcos Pereira 24 de dezembro de 2011 A trave dos meus olhos caiu a partir do conhecimento da existência do seu pensamento, materializado nos numerosos textos de sua lavra.

Ainda bem que vivi o suficiente para me sentir menos idiota por acreditar nos construtores do novo mundo e novo homem(!!!).

Feliz natal e que o Sr. possa continuar a sua jornada terrena por muitos anos. O mundo é um lugar melhor com o Sr. nele.

Levi Marcos Pereira.

Petrópolis-RJ

Marcela Andrade 20 de dezembro de 2011 Querido professor Olavo, Encerramos mais um ano juntos – mais um ano em que o curso de filosofia deu o ritmo da minha vida. Não há modo de lhe agradecer, professor, senão continuando a trabalhar na quietude, tudo meditando com a paciência de quem sabe que o cultivo do interior é bem mais lento que o da terra, e de outra natureza, pois não é ainda possível – ao menos para mim – ter dos frutos uma idéia clara do que serão e de quando serão.

Nada obstante, os efeitos de seus ensinamentos evidenciam-se na seriedade com que tenho levado a minha vida, no amor que aos poucos vai se espraiando pelos campos do conhecimento a que me dedico, no alívio do desespero diante do desconhecido e na maior sensação de estar viva.

Por tudo isso, professor, eu lhe agradeço, e rogo a proteção Nossa Senhora sobre você e sua família.

Um feliz Natal!

Abraços, Marcela Andrade Goiânia-GO

Phelipe Del Mestre 26 de junho de 2011 Se um dia eu tiver orgulho de ser brasileiro, será pelo motivo de o Sr. Olavo existir!

https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/120248618062798

Lucas Mendes 15 de abril de 2011 Depois do Olavo, não houve mais ninguém com o mesmo brilhantismo nos subsequentes FLs. Ele simplesmente arrasava e era aplaudido entusiasticamente de pé por grande parte da platéia. Não se viu mais isso nos FLs.

Pablo Lee 12 de abril de 2011 “Olá, grande Olavo. Você não me conhece mas eu tenho conhecido você cada vez melhor. ....as razões desta situação são obvias. ...Pessoas como você estão, dia após dia, mais raras neste nosso pais. Será que acabarão junto com o Brasil?!?! ....Obrigado por tanta informação, sabedoria e bom humor. É um gigantesco prazer ouvi-lo! Muitas e muitas felicidades, e mais muitos anos de vida oxigenando nossa percepção do mundo. Grande abraço.”

Ricardo Almeida 7 de dezembro de 2010 Na verdade, toda esta celeuma entorno da influência de Olavo de Carvalho poderia ser resolvida de um modo bem simples. Bastaria que cada um dos leitores e articulistas sondasse a sua memória para descobrir quando e em que circunstância precisa conheceram certos autores; quando e em que circunstância tiveram certos insights; e quando e em que circunstância souberam de determinados fatos que moldaram a sua formação.

Se a estas circunstâncias sempre estiver associada a figura de Olavo então é porque ela constitui influência constante, talvez mesmo onipresente. Se foi somente através dele que estas pessoas travaram contato com os autores citados por Roxane então o débito é óbvio e impõe-se em razão dele a obrigação de dar a César o que é de César, prestar o tributo a quem lhe é dono de direito. Não se confunda este reconhecimento com elogio.

Naturalmente, se estas pessoas conheceram estes autores mediante outras fontes e não por intermédio do homem, então fica desfeito o equívoco. Mas, não creio que esta geração de jovens intelectuais tenha tido contato direto com estes autores. Foram, afinal, procurar Voegelin nos recessos da bibliografia inglesa e america antes do Olavo ou independente dele? Conheceram Lonergan através de quem? Conheceram Mário Ferreira através de quem? Lendo, solitários, na biblioteca do mosteiro de São Bento suas obras completas e, desta leitura, atinando com a grandeza do seu pensamento, novamente de forma independente do trabalho de interpretação e divulgação do Olavo?

De minha parte, eu conheci estes autores através do Olavo e, na minha formação, entre outras fontes “associadas” digamos assim influíram os artigos de O Indivíduo, alguns dos quais assinados por ex alunos de Olavo, cujo impacto na formação foi bem grande e está documentado nestes artigos antigos.

Quem eu não conheci através do Olavo foi René Guénon. Conheci casualmente em um trabalho escolar e de sua leitura extensa devo pouco ou quase nada às indicações de Olavo pois a fiz numa época em que não o conhecia. Neste caso específico, aí sim, há um exemplo de alguém que chegou a um autor muito freqüentado nos meios “conservadores”, mas não o fez através do Olavo de Carvalho (não seria demérito se o fizesse, aliás, mas fatos são fatos).

O mesmo, não creio, se pode dizer de inúmeros que vivem a papagaiar as idéias de René Guénon e se confrontando com Olavo inclusive na defesa algo quixotesca destas idéias, mas chegaram a elas através dele e nunca tiveram a sinceridade de admitir.

Mas, para não terminar a mensagem neste tom genérico só uma última observação, esta dirigida a Marcelo (Zé Colmeia) Quando você fala que não há uma ocultação do nome de Olavo e dá como indício o número dos seus alunos e a extensão da sua influência parece nao lhe ocorrer a hipótese de que estas duas coisas acontecem a despeito da tentativa de minorar a sua influência por parte de alguns, e por dois fatores óbvios – a qualidade intrinseca do seu trabalho e a falta de congêneres no cenário nacional.

É impressionante que uma hipótese tão ululantemente óbvia, como diria o Nelson Rodrigues, escape a um argumentador cioso em tecer críticas a irracionalidade alheia. É, Marcelo, parece que o desejo de acusar lhe suprimiu, momentaneamente, espero, a racionalidade.

http://www.dicta.com.br/sera-que-e-isso-mesmo/#comments

Mila 20 de setembro de 2010 Como sempre, Olavo de Carvalho lança um raio de luz na escuridão tupiniquim e tenta esclarecer a burrice nacional. Brilhante, informadíssimo e que tremendo escritor!

Giselle 28 de setembro de 2010 Olavo de Carvalho, o que dizer desse homem? Tudo o que disser será pouco. Sempre teve a lucidez que falta para a maioria dos jornalistas da Terra da Banânia. Nunca se deixou contaminar por esse lixo Petista, nunca caiu nesse conto do “operário que não pode estudar”, e sempre nos alertou contra os perigos do populismo lulista.

Ana Paula Fialho 28 de setembro de 2010 Parabéns, caro Sr. Olavo. É um grande prazer tê-lo entre meus amigos do Facebook. Muito me honra poder ter sido aceita nos seus amigos, pois, como uma idealista que sou, nunca me calei e me deixei subjugar por esta enxurrada de lama que assola nosso país. Obrigada por existir. Suas palavras são claras, objetivas e reais. Nada mais humano que ser realmente humano. Um grande abraço, e, como o sr. é um grande filósofo, modesto como todos que conheci, sei que não faz nenhuma questão de ter esta matéria compartilhada no Facebook, mas permita-me compartilhá-la com estas pessoas que necessitam de palavras, frases de impacto, emoção e determinação para vencer, para que tenhamos um Brasil digno, e partindo do princípio Constitucional da “dignidade da pessoa humana”, nada mais justo que suas esclarecedoras ideias cheguem aos mais necessitados, e infelizmente alienados do que se passa em seu próprio país. Obrigada pela oportunidade de lhe parabenizar... sem nenhuma rasgação de seda, sou “guapa” dos pampas gaúchos, e quando escrevo ou falo ao público, falo de coração aberto. Cordial abraço Sr. Olavo de Carvalho

José Carlos Zamboni 2 de maio de 2010 O Brasil sempre se beneficiou com dois tipos de intelectuais: os estrangeiros que vinham para cá, ou os brasileiros que saíam do país, para de lá mandar ou trazer informações preciosas. Atualmente, esse último papel está bem representado por Olavo de Carvalho. Procuro-o de caderninho em punho, nos artigos ou no programa de rádio, para anotar as recomendações bibliográficas que, de outra maneira, não chegariam até nossas taperinhas.

http://www.jczamboni.com.br/

Antonio Emilio Angueth de Araujo 25 de março de 2010 Olavo de Carvalho e eu Respondo, com este post, a um leitor que me faz alguns questionamentos sobre minha opinião a respeito de Olavo de Carvalho. É uma cobrança não rara que me fazem. Aproveito então a oportunidade para esclarecer aos interessados. Quem se interessar acesse os todos os comentários ao post O Estado Servil.

_______ Caro Pedro, Você diz que confiro um valor salvacionista à obra do Olavo de Carvalho. Se faço isso, faço-o apenas sob o ponto de vista de que quem não se desfizer da carga esquerdista que pesa sobre todos nós, não poderá ser salvo; e isto é doutrina católica clara. A obra do Olavo é, para a solução deste problema, um recurso único no Brasil atual.

Algumas observações sobre a expressão “obra do Olavo”:

1. Sou incompetente para julgar toda a obra dele. Ela é muito vasta para meus conhecimentos atuais: ela cobre muitos campos e é muita areia para meu caminhãozinho.

2. Como ele ainda está vivo (e espero que continue por muito tempo) sua obra é uma obra em evolução, uma obra inacabada. A evolução é claramente notável para mim que o acompanho há quase 15 anos.

3. Algumas coisas já dão para afirmar sobre ele, sob meu ponto de vista: é o maior pensador brasileiro vivo, pela amplitude de seus interesses, pela fundamentação de sua análise e pelo vácuo acadêmico que se criou em torno dele (tomo isso como admissão acadêmica de sua importância); é o maior polemista (no bom sentido) que conheci nestas paragens; é um grande professor de filosofia; é o melhor colunista e o melhor correspondente internacional de todos os jornais brasileiros (parabéns ao Diário do Comércio de SP por mantê-lo dentre seus colunistas); ninguém entende mais, no Brasil, da dominação islâmica do que ele; ninguém entende mais, no Brasil, de governo global e tendências globalizantes, do que ele; ninguém tem uma crítica tão procedente sobre a falsa autoridade da ciência e nem sobre a instrumentalização da ciência pela burocracia estatal.

Disso tudo, dá para notar que eu não considero Olavo só inteligente e erudito; ele é muito mais que isso.

Você afirma que ele conduz seus alunos de filosofia a erros gnósticos. Bem, eu sou aluno dele em seu curso de filosofia, ministrado pela Internet. Não identifiquei, até agora, nada disso. Seu curso é simplesmente EXCEPCIONAL. Não nego que ele admire Leibniz e Schelling, como você diz. Ele admira muitos outros filósofos e despreza outros tantos. Não nego que algumas de suas afirmações, se tomadas em separado, podem levar alguns a considerá-lo gnóstico, genoniano, schuoniano, etc.

Sobre Olavo conduzir alguém à boa doutrina ou não, digo que não conheço autoridade eclesial no Brasil que entenda mais de doutrina católica que Olavo. Tome aí todos os cardeais, bispos, padres, etc.; mais que ele ninguém entende. Ademais, em suas aulas de filosofia, ele comenta, interpreta e ensina aspectos e características da doutrina católica. Você poderia me perguntar se o considero um católico modelo. Eu diria que NÃO! Acho que nem ele se considera assim.

Tampouco considero Olavo um ativista político, como você o faz. Você diz que ele não propõe o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Disso eu não sei, mas me cite um cardeal, um bispo, um padre, em qualquer lugar do mundo, que o proponha (fora, claro, da ala tradicionalista da Igreja). Cite-me um papa pós-conciliar que propôs tal coisa.

Sobre a auto-declaração de catolicismo do Olavo ela é claríssima em muitas ocasiões: ele inicia seu programa semanal de rádio fazendo uma oração à Virgem Santíssima e a São Padre Pio. No curso de filosofia, ele declara permanentemente ser católico apostólico romano. Ele declara sua obediência ao Papa, apesar de não perder oportunidade de enfatizar a crise da Igreja e de criticar algumas declarações papais. Além disso, a base de todo o seu ensinamento filosófico é a CONFISSÃO. Seu modelo de confissão é Santo Agostinho. Segundo ele, quem não for capaz de fazer uma confissão perfeita, não só não obterá o perdão de Deus, mas não será capaz de nenhum conhecimento filosófico.

Você comenta sobre anúncios da maçonaria no site do Olavo. Bem eu já vi anúncios semelhantes em muitos sites catolicíssimos. Esses anúncios são incontroláveis. Não creio que o Olavo transija com a maçonaria.

Antes de finalizar, devo dizer que discordo do Olavo em muitas coisas. O problema é que para verbalizar uma discordância com um intelectual da estirpe do Olavo, a pessoa tem de pensar muito, tem de estudar muito, tem de afinar seu arsenal intelectual como alguém afinaria um Stradivarius. Tomar uma ou outra afirmação, um ou outro artigo, um ou outro trecho de livro de sua autoria e discordar ou desgostar é fácil. Colocar no papel a crítica, os pontos falhos, as deficiências do pensamento dele, enfim debater com ele no nível em que ele se encontra, isto é outra história.

Para finalizar, não sou olaviano, no sentido pejorativo que tem hoje esta palavra. Não tomo suas palavras como a última expressão do oráculo, nem como ordem que deve ser colocada em prática. Não participo de discussões vãs pelo Orkut sobre as virtudes e defeitos do Olavo. Mas quando Olavo emite uma opinião, expressa o resultado de uma análise, conclui sobre algo, eu o ouço com muitíssima atenção. Ele não é qualquer um. Ele é um pensador, da mais alta casta. Se você disser que olaviano é quem o admira e lhe é grato, bem aí eu sou olaviano, sem nenhuma restrição. Quem toma o Olavo como guru, como a última palavra sobre tudo – ou seja, um olaviano, segundo o sentido pejorativo do termo – peca contra o primeiro Mandamento da Lei de Deus, peca por idolatria. Neste caso, concordo com você, este olaviano não pode ser católico, não por causa do Olavo, mas por causa de Deus.

Agradeço a oportunidade que você me deu de falar sobre este assunto, pois muita gente andava me cobrando uma opinião.

Rodrigo Petronio 8 de março de 2010 Caro Olavo Tudo bem? Acompanho seu trabalho há tempos. Primeiro, algumas aulas na antiga sede da França Pinto. Depois mudei de cidade. Nos últimos tempos, na medida do possível, com as aulas na É. Pelo site, sempre e sempre, visitado e revisitado, pelos seus livros e artigos de imprensa.

Mandei uns dois e-mails tempos atrás pro e-mail do site, mas ali devem chegar dezenas por dia.

Na verdade, este e-mail é para agradecer pelo que tenho aprendido com você há tempos. Para agradecer também por esse último ensaio brilhante sobre MFS, que saiu na Dicta. Pela coragem intelectual, pelo seu trabalho filosófico e pelo que você é.

Estou muito feliz de trabalhar nas obras do Vicente. Sei que você deve estar muito ocupado, mas na medida do posssível, se pudermos, vamos nos falar.

Um forte abraço Rodrigo

Pedro Barbosa Araujo 14 de dezembro de 2009 Tenho 20 anos, estudo filosofia por conta própria e faço faculdade de direito em uma universidade particular em Belém, o prof.° Olavo de Carvalho admito entrou em minha vida já com o pé esquerdo fruto dos constantes avisos de que ele era isso ou aquilo por meus conhecidos que julgavam ser profundamente conhecedores da obra de Olavo. Me lembro que quando peguei para ler “o Jardim das aflições” já tinha pego todos os marcadores de páginas, marcadores de textos que eu uso para as dúvidas, crente que iriam ser amiúde utilizados, tinha de fato um receio de que raios poderiam vir desse “pedante”, “que tem medo da escola”, e outras variantes depreciativas comumente utilizadas para definir esse insígne pensador e professor brasileiro. Mas, não! Os textos foram esclarecendo-se por conta própria e comecei a entender o porquê dessa tão abrupta divisão entre os que gostam-no e os que o odeiam: o professor fala verdades que tocam profundamente na vaidade dos que se julgam serem os melhores seres-humanos possíveis, fala de uma maneira tão simples quanto entender que 2+2=4, a diferença é que por conta dessa tão vívida vaidade o resultado da conta pode parecer tudo menos esse simplório 4. Obrigado professor pelas possibilidades concretas de vida as quais me ofereceste, fostes, como Leopoldo Serran definiu “um clarão nas trevas”. Tenho certeza de que sua obra jamais será esquecida pela intelectualidade brasileira de fato insatisfeita com as respostas aos fatos cotidianos. Um grande abraço!

Laurindo Cavalcanti 18 de dezembro de 2009 Parabéns Olavo. Sou pernambucano, natural de Recife e me orgulho de ainda termos brasileiros como você. Uma análise que vai ao fundo da questão e desmascara os métodos para se impor um governo mundial alienante. Que Deus lhe bendiga.

César Gianni 21 de dezembro de 2009 Olavo, Comecei a ler seus artigos em 2008 e desde então passou a ser imprescindível para mim buscar novos artigos ou livros de sua autoria ou aqueles indicados no seu site. Me surpreendo sempre com o que você escreve. Ao ler seus dois últimos artigos A Demolição das Consciências e Armas da Liberdade, excelentes, não pude deixar de ficar um tempo aéreo para em seguida voltar a lê-los e constatar a análise perfeita da nossa realidade. Gostaria, nessa mensagem de poucas linhas, de lhe agradecer sinceramente pelo seu trabalho que tem chegado até nós, que sei, demanda tempo, dedicação e não poucos dissabores.

Obrigado por tudo e um grande abraço.

César Gianni

João Guilherme Silva Marcondes de Oliveira Assisti a um debate do Professor Olavo quando estava no segundo ano da faculdade (Direito – USP), em 2003. O evento foi organizado por um amigo meu, Thiago Magalhães. Depois de um ano aproximadamente, encontrei o site na internet e daí para cá, li tudo que escreveu no site e quatro de seus livros. Considero o Professor Olavo o maior pensador brasileiro de hoje, um verdadeiro modelo intelectual, talvez o único filósofo que já vi. Por meio dele, conheci outros grandes homens, como Bruno Tolentino, com quem tive aulas. De certo modo, Olavo também me ajudou a voltar para Cristo, pois me auxiliou na compreensão de questões religiosas que facilitaram meu retorno à Igreja.

Enfim, como disse ao Professor Olavo quando o conheci pessoalmente, é uma das pessoas que mudaram minha vida. Ser seu aluno, portanto, é uma honra e um dever.

Fernando José da Silva Meu nome é Fernando José da Silva, tenho 41 anos e sou jornalista de TV em São Paulo. Conheci o professor Olavo por meio do blog do Reinaldo Azevedo. Como praticamente 99% da classe jornalística brasileira, eu era esquerdista e via com simpatia os ideais comunistas, coletivistas ou socialistas. No meu caso, especificamente, era por ingenuidade e ignorância mesmo, não por má intenção ou má consciência, como acontece hoje com a categoria. Com a chegada de Lula à presidência e a consequente revelação dos planos de poder da esquerda (até aquele época eu era totalmente ignorante) , procurei nomes na grande imprensa que realmente fossem críticos ao PT e ao esquerdismo em geral e obviamente só encontrei o Diogo Mainardi, o Reinaldo Azevedo e o mestre Olavo. No começo, lia somente os comentários políticos do professor, mas logo descobri que esse era apenas um aspecto superficial da gigantesca obra filosófica de Olavo de Carvalho. Passados sete anos, venho tentando reaprender tudo o que eu sabia ou imaginava saber até então. Não é preciso dizer: todos nós, alunos do Seminário de Filosofia, sabemos o grande salto de consciência intelectual que advém do estudo sistemático da obra do Olavo. Embora ele seja renegado pela classe jornalística brasileira – não existe categoria profissional mais invejosa do que essa – o trabalho dele está formando uma nova geração de intelectuais, que será a salvadora da alta cultura desse país. Agradeço a Deus diariamente por tê-lo encontrado. Meus amigos jornalistas são quase todos alienados e incapazes de entender a realidade, quanto mais retratá-la. É claro que, trabalhando como jornalista, sinto-me como o Winston Smith do livro “1984”, de George Orwell. Minha preocupação agora é encontrar um meio de sobreviver e sustentar minha família sem precisar apelar para o dinheiro porco da – abre aspas – grande mídia brasilleira.

Márcio de Paula Andrade 24 de novembro de 2009 Olavo, Aqui vai o meu depoimento.

Tenho 36 anos, sou formado em Turismo e pós-graduado em história.

O primeiro contato que tomei com Olavo de Carvalho foi através de um ensaio escrito para a revista Bravo. No ensaio, ele refletia que a educação superior dependia de uma aptidão que, embora nem todos a possuíssem, era democrática e não estava atrelada à classe social, à raça nem a qualquer outra diferenciação, mas sim à capacidade de apreender as coisas belas, verdadeiras e boas. Esse excelente texto, com apoio de Aristóteles, foi determinante para que eu chegasse a outras leituras. Nunca tinha lido nada tão bem elaborado e esclarecedor no meio intelectual brasileiro. A partir de então, adquiri informações importantes que influenciaram minha visão de mundo. Autores pouco citados com Eric Voegelin, Rene Girard ou Vicktor Frankl vieram como uma cadeia em rede através de seu pensamento. Agradeço-o por tudo aquilo que nem uma faculdade foi capaz de fazer. Um texto de Olavo vale mais que um curso universitário de Ciência política, sociologia, letras, psicologia, filosofia ou história, pois ele discorre facilmente sobre estas áreas de conhecimento, e nos dá opções de leituras que são “proibitivas” no meio acadêmico, sob o “risco” de apreensão da verdade, beleza e bondade.

Obrigado Márcio de Paula Andrade

Fabio Blanco (Assinante do Seminário de Filosofia ) 24 de novembro de 2009 Professor Olavo:

Sou seu aluno do Curso On Line de Filosofia e acompanho seus escritos desde 1998. Aponto este fato apenas para ressaltar o quanto os seus ensinamentos têm sido importantes para a minha vida.

Diante do que o senhor escreveu em relação a alguns católicos, e para mostrar que, por outro lado, as coisas podem ser bem diferentes, desejo expor o meu depoimento em relação a este tempo durante o qual eu acompanho suas idéias.

Sou protestante, de berço, e o senhor sabe como a antiga moral protestante é rígida. O senhor também sabe que a cultura protestante é bem mais hermética que a cultura católica no que tange ao câmbio com a cultura dita secular. Diante disso, o senhor pode imaginar quais seriam as dificuldades encontradas por um evangélico para tornar-se um aluno seu. No meio em que me criei, toda manifestação diversa, um pouco que seja, da doutrina protestante é tida não apenas como herege, mas infernal. Ser aluno de filosofia, por si só, já é suspeito. Ser aluno de um católico é praticamente uma apostasia. Se esse professor ainda critica o protestantismo (como o senhor fez algumas vezes, e com razão), então ser aluno deste curso é dar um passo para direto para o inferno.

No entanto, graças a Jesus Cristo, estou tentando ser forjado na verdade e quando a buscamos sinceramente, creio que o próprio Deus clareia nossas vistas.

Meu testemunho como cristão protestante que sou é: o que eu tenho aprendido com o senhor tem sido muitíssimo mais edificante do que 1.000 pregações que talvez eu tenha ouvido em toda a minha vida. A dívida que eu tenho com o senhor é perpétua, porque mesmo quando o senhor não estiver mais aqui, ou ainda que eu não pudesse mais ouvir seus ensinamentos, o que eles já causaram em mim vão estar em minha alma até o fim dos meus dias.

E que não se enganem aqueles que vêem nestas palavras apenas uma tietagem juvenil, exagerada pela escassez de referências e experiência. Tenho 34 anos de idade, portanto, não sou mais criança. Meu depoimento é apenas o reconhecimento das benfeitorias que suas reflexões e idéias têm feito em minha alma.

Em um país que periodicamente confunde-se elogio com bajulação, e onde a gratidão é vista com desconfiança (sendo a verdadeira gratidão mais rara que o ouro), talvez muitas pessoas enxergassem neste depoimento algum objetivo implícito. Porém, minha consciência é minha testemunha e Deus o meu julgador.

A prova que faço de tudo isso é: se pelos frutos conhecemos as árvores e os frutos que seus ensinamentos têm feito nascer em mim são minha aproximação ainda maior em relação a Deus e uma sensibilidade maior em relação a espiritualidade, não há como negar que a obra que o senhor conduz é boa e aprovada por Cristo. Se alguns católicos vêem no senhor um gnóstico herege é porque não lhe conhecem e estão dando opiniões baseadas em suposições apenas.

Este que lhe escreve é um protestante tradicional, e por sua cultura recebida, tinha todas as possibilidades de sequer querer conhecer a sua obra. Porém, quero ressaltar que mesmo um cristão protestante pode admirar seus escritos e embebedar-se na fonte de seus ensinamentos.. Mais do que aprender com o senhor, o que suas lições têm me proporcionado é uma abertura à percepção da realidade que, acredito, que sem sua orientação, jamais alcançaria. A cultura moderna, em especial a brasileira, é paralisante, hermética e alienante. Não vejo como eu escaparia de suas garras sem a ajuda de alguém. No entanto, como eu disse, se buscamos a verdade, Deus dá seus jeitos, e o jeito que Ele encontrou para mim foi ter colocado o bendito Imbecil Coletivo na minha frente. Saiba, que, depois disso, aprendi a orar sempre pedindo orientação divina antes de escolher um livro para ler; e Ele sempre me orienta.

O senhor é um presente de Deus para católicos, protestantes, judeus e todos aqueles que realmente buscam a verdade. Para mim, tem sido a esperança de ver o cristianismo redimido dos erros cometidos em suas próprias fileiras.

Bom, acho que já escrevi demais. Pelo menos, minha consciência fica mais leve sabendo que pude, ainda que singelamente, demonstrar minha gratidão por sua vida.

Deus amado, abençoe o professor Olavo em sua caminhada, dando a ele paz e alegria, além do derramar ainda maior de Sua sabedoria. Proteja-o contra os inimigos e fortaleça-o sempre. Amém ” Fique com Deus.

Fabio Blanco

Bruno Bolson Lauda 22 de novembro de 2009 Caro Olavo, acerca do seu último comunicado, “A doutrina católica sobre a maledicência e a calúnia, segundo Adolphe Tanquerey”. Deve ser realmente duro para você ser atacado por todos os lados, inclusive por aqueles que, à primeira vista, deveriam ser seus aliados, amigos ou seguidores.

Não tenho nada a dizer para confortá-lo e também não faço idéia de como deve se sentir. Em todo caso, se for de algum interesse (e isto é um pedido de desculpas, aliás), já fui como um desses sujeitos cuja classe você descreve. Não cheguei a acusá-lo de algum crime (calúnia) ou a difamá-lo, mas que dei maus conselhos e péssimas opiniões, ah, isso dei. Felizmente, não para muitos.

Foi conversando com pessoas que o conheceram, e com pessoas que conhecem pessoas que o conheceram, que percebi que estava errado.

Aquele caso do OIndividuo em particular foi bastante significativo. Uma pessoa que resolve se levantar, sozinha, para defender de agressão injusta um grupo de rapazes acossados por quase toda a sociedade e pela mídia não pode ser ruim.

Enfim, eis aí meu testemunho.

Cordialmente, Bruno B. Lauda

Marcela Andrade (Assinante do Seminário de Filosofia ) 23 de novembro de 2009 Professor, Meus dias, das sete da noite às onze e pouco, são dedicados ao curso de filosofia (revisões, aulas atrasadas, anotações etc.) e a leituras de artigos e apostilas publicados no seu site. Em uma das suas últimas aulas, o senhor criticou a atitude de ler alguma coisa para tornar-se “um seguidor”, e confesso que essas palavras me pegaram de surpresa, porque, desde que o conheci (e após superar a minha fase “não pode ser, ele tem de estar errado!”), sou uma sua seguidora, a ponto de jamais discordar, por saber-me totalmente desprovida dos meios e do conteúdo para discordar do senhor. Tenho de admitir que é do meu temperamento adorar prontamente aquilo que me parece verdadeiro – e nisso eu já adorei coisa bem idiota. Mas faltava-me a persistência no adorar, e logo eu estava adorando outra coisa. Porém, para meu espanto, de repente percebi que havia desenvolvido o hábito de visitar seus artigos e realmente querer saber alguma coisa – embora não soubesse bem o quê. Tentei ler alguns dos seus livros, mas desisti logo no começo, por não conseguir compreender. Isso acontecia também com seus escritos menores, os quais eu conseguia chegar ao fim, mas já me perdendo lá pela metade. No entanto, sabia que havia algo ali, e frustrava-me por não ser capaz de captar tudo – eu, que era a melhor aluna de texto da escola!

Quando o curso online de filosofia foi anunciado pelo senhor, fiquei sabendo por um amigo (Thiago Marcellus, do Rio de Janeiro, que aliás me apresentou o True Outspeak, que desencadeou tudo). Tive imediatamente um sentimento estranhíssimo: apesar de saber que o senhor era a pessoa mais qualificada para ensinar filosofia, pensei que aquilo não iria funcionar e até cogitei não entrar no curso. Percebo freqüentemente – e hoje, mais amadurecida pelo curso, com mais clareza – um sentimento destrutivo que me faz desdenhar o que quero e negligenciar o que amo. O senhor mencionou isso em uma aula – se não me engano, falando desse sentimento como o reflexo de um ódio a si mesmo. Acho que isso está absolutamente exato. Diariamente, tenho de vencer a mim mesma nessa busca por um conhecimento verdadeiro de mim e das coisas, mas percebo que até isso tem ficado mais fácil.

Ainda há muito o que superar: deficiências pessoais, falta de maturidade, falta de vivência... Mas acontece algumas vezes de “o universo iluminar-se” e eu “querer o destino mesmo que me coube”, e nessas horas sou tomada por um impulso infantil de fazer o senhor inteirar-se dessas coisas. Mas, para além da minha superficial desconfiança de que esses e-mails lhe sejam nada mais do que uma ocasião de bocejo, acredito que o senhor goste de ter alguma notícia dos seus alunos, especialmente os alunos deste curso, que – percebo pela leitura de alguns artigos da década de noventa –, já era um sonho antigo do senhor.

Tem sido a minha missão maior tornar-me digna de tudo isso, ser uma aluna de valor, e dar frutos – que, acredito sinceramente, virão.

Um abraço carinhoso, Marcela Andrade Goiânia-GO

Max Singer , senior fellow and former president, Hudson Institute , Washington D.C.

I think your discussion of revolution is right and important.

Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior 14 de novembro de 2009 (...) E como é que eu poderia definir “movimento revolucionário”? Bom, a definição não é minha. A definição é de um filósofo chamado Olavo de Carvalho. Aliás, um filósofo muito odiado – é um filósofo brasileiro que é muito odiado pelo pessoal revolucionário exatamente porque ele foi comunista, ele foi revolucionário, estudou o comunismo e a revolução, viu que estava servindo à uma causa iníqua, uma causa que era maligna, que ele estava seguindo uma doutrina perversa e então ele parou, rompeu o laço com os comunistas e ficou vinte anos estudando, para, finalmente, começar a abrir a boca, tomar posição e começar a dizer para as pessoas porque é que ele tinha errado e porque é que toda essa loucura dos revolucionários era errada.

Então, ele é visto (pelos revolucionários) como um traidor; mas é, para nós, uma grande benção porque é alguém que esteve do lado de lá e veio para o lado de cá, explicar para a gente porque que a gente apanha (risos)... Essas coisas que se a gente não ouvisse os estudos do Olavo de Carvalho a respeito do marxismo etc., seria um pouco difícil a gente saber por que é que a gente apanha. Até mesmo movimentos mais “conservadores” dentro da Igreja, que sempre lutaram contra a revolução, contra o marxismo, contra o comunismo, não têm o mesmo aparato que o Olavo de Carvalho tem, porque o professor Olavo (ele) conhece o jeito dos revolucionários raciocinarem.

Aliás, ele está escrevendo um livro – que tem tudo para ser um livro extraordinário – onde ele vai descrever a mente revolucionária: como é que funciona a cabeça do revolucionário.

Bom, isso aí é um fecha parêntese só para dizer que essa coisa que eu vou dizer aqui a respeito de revolução não é uma invenção minha, mas eu devo isso ao professor Olavo de Carvalho.

E eu devo a ele uma gratidão muito grande. Muita gente diz – “ah, mas o senhor é maluco, o senhor fica ‘seguindo’ as idéias do Olavo de Carvalho etc.”, “Olha o que o Olavo diz a respeito da Igreja etc.”

Vejam, vamos entender o seguinte: eu não precisei do Olavo de Carvalho para me dizer o que era a Igreja Católica. Portanto, não são as idéias de Olavo de Carvalho a respeito da Igreja Católica que eu aprendi com ele. Eu já sabia o que era a Igreja. Então, eu não preciso que o Olavo de Carvalho me explique o que é a Igreja Católica.

Mas, a gratidão imensa que eu tenho para com o Olavo de Carvalho, desde o ano de 2002, é pelo fato de que lendo os escritos dele e os estudos dele eu descobri como é que funciona realmente a mente revolucionária. E isso aqui eu devo a ele uma gratidão imensa.

Muita gente diz: “O senhor tem que se afastar do Olavo de Carvalho”... Eu não vou me afastar de uma pessoa a quem eu tenho um vínculo e uma dívida de gratidão imensa. Entendem? “Ah, mas quer dizer que o senhor concorda com TUDO que ele diz?” Gente, mas vamos deixar de ser infantis! Vamos deixar de ser infantis – nem mulher concorda com tudo aquilo que o marido diz. Agora você acha que eu vou ter que concordar com tudo que o Olavo diz? Não. Não é isso.

Nós temos posições – principalmente com relação a certas coisas “de Igreja” – temos posições bastante diferentes, não radicalmente diferentes – não! Mas que tem ênfases diferentes (ele põe ênfase em certas coisas que eu já discordo – acho que é exagero – eu ponho ênfase já em certas coisas – que ele já discorda e acha que não é bem assim...) Mas isso é normal entre as pessoas. E nem por isso as pessoas deixam de ter relacionamentos, de se querer bem.

Então vejam só: eu não tenho por que cuspir no prato que eu comi. Muito pelo contrário: continuo lendo, continuo aprendendo muito com o filósofo Olavo de Carvalho, por quê? Porque ele é um grande filósofo. É um grande homem.

Agora, enquanto “grande filósofo” não quer dizer que ele deva dar aula de catecismo, porque não é essa a especialização dele. A especialização dele não é teologia, ele não vai vir dar aula de catecismo pra mim.

Mas, gente: se Santo Tomás de Aquino foi capaz de aprender com o pagão Aristóteles, por que é que eu – que era filósofo e ele era teólogo – por que eu (que evidentemente não estou dizendo que eu tenha a mesma estatura de Tomás de Aquino, pelo amor de Deus...), (...) por que eu não posso aprender com esse grande filósofo que é Olavo de Carvalho? Posso aprender sim. E vou continuar aprendendo. O que não quer dizer que ele vai me dar aula de catecismo e ensinar para mim o que é Igreja Católica. Está entendendo? Por quê? Porque nesse campo, eu acho que eu tenho um pouco mais de vivência eclesial e de conhecimento interno da teologia da Igreja, coisa que o Olavo, ele, não teve essa oportunidade. Porque quando ele quis voltar para a Igreja Católica, a situação na qual ele se encontrava era a de uma igreja “traidora”. E eu compreendo muito a revolta dele com relação a certas traições dentro da Igreja porque a gente compreende que a situação realmente dentro da Igreja Católica está muito complicada.

Então, para quem quiser conhecer e estudar eu aconselho muito os dois sites dele: um é http://www.olavodecarvalho.org , onde vocês colhem ali notícias (...), artigos que ele escreve no dia-a-dia como jornalista; e um outro site chamado http://www.seminariodefilosofia.org/ (...), onde ele dá um curso de filosofia online, que é muito interessante, muito bom, que eu aconselho. Eu mesmo sou inscrito nesse curso de filosofia, faço o curso de filosofia dele.

Então, isso aqui é só para deixar uma nota de rodapé bem clara, qual é o meu relacionamento com Olavo de Carvalho: eu tenho muito a aprender com ele, aprendi muito com ele, o que não quer dizer que eu esteja de acordo com os posicionamentos dele a respeito da Igreja Católica. Não com todos. Com algumas coisas. A maior parte das coisas – digamos que 70% daquilo que ele diz sobre a Igreja Católica eu estou de acordo, não é? Tem lá uns 30% que são situações práticas que nós, um pouco, discordamos. Mas isso não faz de nós nem inimigos, nem partidos contrários. Muito pelo contrário, não é? Nós somos amicíssimos um do outro, nos queremos bem de montão e para com ele eu tenho um vínculo de gratidão porque aprendi muito.

Ithamar Paraguassu Ramos 17 de novembro de 2009 A única coisa que posso dizer é que eu amo as materias do Olavo. Já faz um bom tempo que tenho reclamado do que eu chamo de “esquizofrenia” dos formadores de opinião brasileiros. Na mesma sentença eles dizem uma coisa e se contradizem completamente. Em uma mesma matéria reclamam que a polícia não faz nada contra o crime e que estão errados de tomar uma atitude preventiva mais energética. Reclamam que a polícia não revista os bandidos, mas que revistam pessoas inocentes como se criminosos usasse um crachá dizendo que é bandido. Mas o ponto é que infelizmente Olavo não esta atingindo uma parcela muito importante da nossa população, isso por causa do declínio da educação. Um primo meu que está na Faculdade (Mackenzie) levou algumas matérias do Olavo pra concientizar os jovens que sofreram lavagem cerebral. Para o meu horror, os jovens universitários de hoje não sabem o sgnificado de palavras como: sofisma, erítistica, ardil, arrazoado, verossimilhança e por aí vai... Claro que qualquer um de nós diria – Procure em um dicionário, é pra isso que eles servem. Mas para as novas gerações (que me aterroiza pensar que em breve posso depender de um profissional com essa formação) tanto quanto procurar no dicionário, quanto fazer perguntas é motivo de embaraço e humilhação. Claro que já não é tão surpreendente depois do recente caso da garota sendo perseguida por estudantes de psicologia na Uniban. (já imagino esses profissionais apontando para os pacientes e rindo: – “Ha! Ha! Que chorão!”) È um problema terrível, mas acho muito importante que essas informações sejam repassadas para camadas mais ignorantes da nossa população, principalmente porque eles são as maiores vítimas e que mais precisam ouvir (ou ler) essas informações. Que como essa propria matéria denuncia, não está sendo passada pelos veículos de informação.

Erick Luiz Wutke Ribeiro (Leitor) Professor, a cada dia que passo tomo mais contato com sua obra, seu pensamento e a bibliografia que indica. Serei eternamente grato por isso.

Soraia Malafaia 30 de outubro de 2009 Querido Olavo, Já faz algum tempo que constatei com profundo desgosto, de que no Brasil, toda a bondade, gentileza, gestos nobres, ou mesmo atitudes corretas, produz nas pessoas um efeito contrário. Se um sujeito é dito como bom, lá vem logo uma insinuação maliciosa, aquele olhar malévolo apregoado por Nietzsche. Denegrir pessoas, distorcer atitudes e destruir valores, é uma ocupação do cotidiano brasileiro. Quem age corretamente, ou é bondoso, generoso, gentil etc... É sempre visto como alguém que quer ganhar algo, obter vantagens pessoais... Nunca o beneficiário, se dá conta, que é ele quem recebe algo. Há quase 20 anos sou testemunha de todo o seu esforço, de sua bondade, generosidade e tolerãncia. Também fui testemunha de várias vezes que tentaram, em vão, denegrir sua imagem e distorcer suas ações. O tempo provou que uma a uma destas calúnias, provaram ser mesmo calúnias, nunca tendo encontrado, uma prova se quer, que as comprovasse. Fico deveras triste, porém sei que Deus há de sempre recompensá-lo, aumentando dia-a-dia, motivos para que continues o teu digno esforço.

Antônio Dias (Leitor) Caro Olavo, Preciso te dizer algo que você já sabe: Deus lhe deu uma missão bem clara e ela é lutar e humilhar as mentiras que fluem nesse mundo decaído. Assim fazendo você ajuda a cuidar do campo, de modo que um pouco mais de trigo passa a nascer por entre o joio. Eu te agradeço por isso e gostaria que soubesse dessa gratidão. Hoje, não consegui fazer metade das minhas atividades de rotina, simplesmente tinha que escrever o que segue abaixo, texto este que pela Misericórdia de Deus que se derramou sobre mim, em parte através da sua interseção, mostra para mim mesmo que sou mais apto a lutar contra os engodos de Satanás.

Segue o meu testemunho e MUITO OBRIGADO.

Dartagnan da Silva Zanela (Assinante do Seminário de Filosofia ) Pax et bonum e feliz dia do professor mestre Olavo de Carvalho.

A muito que desejava lhe dizer isso, mas faltava-me um momento apropriado e, creio eu, que esse dia especial, o dia do professor e de Santa Tereza d’Avila, seja o mais conveniente.

O senhor provavelmente não sabe o quanto lhe sou devedor, mas eu o sei. Sei o quão grande é minha divida para com a sua pessoa. Devido ao seu trabalho e ao seu exemplo, retomei a minha Fé e isso, não tem preço.

Se isso já não bastasse, seus escritos e suas aulas reorientaram os meus estudos e continuam a orientar-me e a me inspirar no correr dos últimos 10 anos.

E mais! Confesso que em meu esforço como professor, tomo como modelo de inspiração no exercício diuturno de meu ofício o seu exemplo de coragem moral e intelectual, a sua perspicácia, desprendimento e a sua dedicação.

(...)

Sem mais delongas, parabéns professor Olavo. Parabéns por quem você é...um grande professor.

Muito Obrigado.

Que Deus o abençoe hoje e sempre...

Umberto Geneolle 19 de outubro de 2009 Tenho acompanhado há pouco tempo os editoriais do jornalista Olavo de Carvalho, mercê o fato de ter acesso ao DC por força de uma assinatura de outrém. Foi uma grande descoberta, tanto de transparente clareza e impressionante coragem, saber que ainda há inteligência neste país. Os ensaios do autor deveriam ser lidos diuturnamente por todas as pessoas com a minima capacidade de compreensão, de sorte que, mais algum tempo, e muita coisa mudaria nesta terra ignorada por Cabral, Caminha e Bom-Senso. Os dois primeiros porque são parte da História, e nada poderão fazer para mudar o que aí se vê. O último, aliás, é virtude que vive o reinado dos textos magistrais, das realidades ficcionais perfeitas, mas carece de presença nas mentes de nossos homens públicos. Agradeço ao Olavo de Carvalho a coragem, a lucidez e a perseverança. Pode ser – e aí vai uma provável e insuspeita dúvida de “talvez” – aqueles que ele cita nominalmente caiam em si, ganhem capacidade e humildade suficientes para se regenerarem, ou, muito pelo contrário, tanta lucidez fá-los-á cairem duros e fulminados pelos raios inexoráveis da justiça humana (ainda persistente).

Cosme Coelho (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Fontes não confiáveis acusavam tanto o Olavo de nazista que eu resolvi ler as coisas dele. E não parei mais. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente no GNT quando o convidei para participar do Manhattan Connection. [...]

Aníbal Rozendo (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Sou estudante de Direito, tenho 22 anos e moro em Pesqueira/PE. Eu conheci o trabalho do professor Olavo em 2006, através de um colega que também está participando do curso [ Curso Online de Filosofia ] [...]. Durante a viagem para a faculdade (que ironia!) ele me mostrou o texto: “Se você ainda quer ser um estudante sério...”, a partir daí eu passei a acessar quase diariamente o site do professor. No começo, eu que era um esquerdista idiota, lia os textos do site, mas não concordava com a postura política do Olavo. Com o tempo o poder da verdade foi maior e eu percebi que o Professor estava com a razão. Eu sempre agradeço a Deus pela oportunidade de ter conhecido o professor, caso contrário, eu provavelmente iria permanecer preso à idiotice pelo resto dos meus dias.

Vinícius de Faria Corrêa (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 24 anos, sou estudante de Direito e estagiário, moro em Santo Ângelo, RS. Conheci o trabalho do professor em 2003, após deixar a cidade de Cuiabá e voltar aqui pro meu rincão no interior do Rio Grande. Ele então escrevia para o “Zero Hora”, jornal de maior circulação do Estado. Lembro-me que eu, no começo, o abominava, pois era comunista filiado ao PDT e um dos líderes da juventude socialista. Intentava conseguir a sua presidência e me lançar vereador, como conseguiu um meu adversário de partido após eu abandonar a juventude devido ao Olavo. Como eu tivesse a infeliz idéia de ouvir todos os lados da questão, o professor me fez o desfavor de me convencer que eu estava errado, e que era um idiota [...]. Não fosse isso, certamente estaria hoje bebendo nas inesgotáveis e abundantes fontes das verbas municipais, como sub-secretário de alguma bela porcaria [...].

Nícolas Augusto (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...]. Gosto muito de tudo o que o Olavo escreve, acho de extrema importância suas indicações de livros, e o considero um sujeito totalmente diferenciado – um gênio, prestativo, bondoso, honesto, etc., do tipo que eu nunca imaginei que poderia existir no Brasil. [...]

Hélio Pereira (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tomei contato com as idéias de O.C. a partir do artigo “Zenão e o Paralítico”, que me impressionou por dizer coisas óbvias que ninguém admite. Então conheci o “Fórum Sapientia” e o site. A “Introdução da Essencial da História da Filosofia” é a melhor introdução de história da filosofia que já vi. Tenho o interesse em fazer o Curso Online de Filosofia , com o propósito de cumprir os objetivos declarados pelo O.C., em sua missão em formar uma classe de educadores. [...]

Franklin (Assinante do Seminário de Filosofia ) Sou Franklin, 35 anos, solteiro, nasci em Santos e moro em São Paulo. Sou graduado em Administração de Empresas pela USP e trabalho como servidor público federal.

Conheci o trabalho do Professor casualmente pela internet em 2002, quando buscava entender um pouco sobre a questão do desarmamento civil e me deparei em um site com seu artigo “Armas e Revolução Passiva”. O texto para mim foi muito esclarecedor, entrando em pontos de discussão muito além dos abordados pelos “especialistas” na imprensa, e desde então passei a acompanhar seus artigos e, mais tarde, seu programa no “Blog Talk Radio”.

Creio que como muitos aqui eu também me considerava uma “pessoa esclarecida”, cheia de certezas absolutas, mas hoje estou aqui neste curso [ Curso Online de Filosofia ] apenas buscando aprender algo sobre mim e a realidade. Também por influência do Professor, fui batizado na Igreja Católica faz duas semanas. [...]

Guilherme Nobre (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Sou de Bragança Paulista, interior paulista, tenho 37 anos, solteiro, sou proprietário e administrador de uma pousada. Conheci Olavo de Carvalho casualmente pela internet, e reparei na forma elegante e profundidade dos textos do seu Seminário . Desde então comecei a lê-lo compulsivamente bem como a assistir suas vídeo aulas. Confesso o grande prazer, e ao mesmo tempo assombro, ao acompanhar certos assuntos por ele abordados. Não me considero um intelectual, mas gosto muito de acompanhar seu Curso Online de Filosofia , ler os seus textos e ouvi-lo no “True Outspeak”. [...]

Alexandre Costa (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Vivo em São Paulo, sou coordenador editorial, responsável por 8 revistas médicas. Conheci o trabalho do Olavo antes de 2000 e desde então acompanho seu trabalho. Acho que todos nós estamos diante de uma oportunidade intelectual inédita no Brasil e raríssima nesta época de burrice epidêmica global. [...]

Danilo Tamura (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 24 anos, sou administrador pela FGV-SP e sou sócio-administrador de uma empresa do setor de incorporação imobiliária em Cuiabá-MT, o que ainda me dá o privilégio de assistir às missas dominicais ministradas pelo Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior.

Conheci o trabalho do Prof. Olavo quando ainda morava em São Paulo por intermédio de um amigo [...] que também está inscrito no Seminário e no Curso Online de Filosofia . Desde então, tornei-me um grande admirador e fã do Prof. Olavo.

Decidi inscrever-me no “Seminário” e no “Curso de Filosofia” na esperança de aproveitar a oportunidade dada pelo Prof. Olavo de receber uma formação decente para verdadeiramente entender o que se passa. E, para mim, trata-se de uma oportunidade única, pois tenho a impressão que o Prof. Olavo é a nossa (Brasil) melhor, e talvez última, esperança neste sentido. [...]

Fabio Damasceno (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Morando em Campinas/SP, médico psiquiatra. Conheci [a obra do Prof. Olavo] logo após [ele] ter lançado “O Imbecil Coletivo”, depois passei a acompanhar os artigos publicados na revista “Bravo!” e nos outros periódicos. Não frequentei o Seminário na Faculdade da Cidade e achei que tinha perdido a chance. [...] Bem, estou aqui [no Seminário de Filosofia ] buscando conhecimento, simplesmente. [...].

Carlos Campos (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 39 anos, casado, 2 filhos. Moro em São Paulo, capital. Sou graduado e mestre em Administração de Empresas. Trabalho com Consultoria de Canais de Vendas. [...] Conheci o professor Olavo através de um amigo que me indicou o Imbecil Coletivo há uns 5 ou 6 anos atrás. Depois disso foram os outros livros, o “True Outspeak” e agora este maravilhoso curso [ Curso Online de Filosofia ]. Pela estrutura do curso (online, quinzenal, etc.) este contato entre nós, aprendizes de filósofo, será fundamental para sedimentar as lições do Professor. [...]

Sérgio Peixoto (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Sou promotor de justiça há 24 anos. Meu primeiro contato com o Prof. Olavo de Carvalho foi casual, por meio da internet. Após ouvir um de seus programas fiquei surpreso com tamanha virulência. [...] Aos poucos fui me acostumando com a retórica cáustica do Prof. Olavo e ao ler os seus livros: “O Jardim das Aflições”, “Aristóteles em nova perspectivas”, “O Imbecil Coletivo I” e “A Dialética Simbólica”, passei a melhor compreender as razões de tanta ira, muito bem expressadas e resumidas em sua introdução ao livro “Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão”. Passei a ouvir o “True Outspeak” e com prazer constatei que a iracúndia do Professor é superada, e em dobro, por seu bom humor. Assisti aos vídeos e aos áudios, e ora estou embarcado no “Boeing” do Curso de Online Filosofia . Chamou-me a atenção o elevado nível cultural e lhaneza de meus companheiros de viagem, o que me dá a certeza de estar em boa e agradável companhia. Espero desfrutar ao máximo das lições do Professor Olavo e, quiçá, adquirir o instrumental “cognitivo-comportamental” necessário para o exercício da filosofia. Mais do que aprender filosofia, espero aprender a filosofar. É esta a minha expectativa.

Rafael Teixeira (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Moro em Campinas, SP. Conheci o Olavo em meados da primeira eleição do G. Bush. Na época eu já havia perdido o interesse nos movimentos revolucionários com os quais me envolvi quando adolescente. Fiquei muito impressionado com seus artigos e sua sabedoria. Ajudam-me muito nos estudos. Agora adorei a notícia do Curso Online de Filosofia . É o único curso com o qual realmente espero aprender mesmo.

Henrique (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o Prof. Olavo em 2007, através das pregações do Pe. Paulo Ricardo. Desde então tenho crescido cada vez no conhecimento da realidade graças ao professor, ouvindo o “True Outspeak” sempre que posso, lendo seus artigos e, agora, participando do Curso Online de Filosofia .

Sou um apaixonado pela liturgia e desejo ser um santo sacerdote, doando a minha vida para que Cristo seja conhecido e amado pelas pessoas. É por isso que desejo estudar muita filosofia, porque creio firmemente que o caminho que ela propõe é capaz de nos aproximar mais da Verdade, que não é uma coisa, mas uma Pessoa, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Que o Senhor nos abençoe a todos nessa santa busca pelo conhecimento, e forma especial o professor Olavo, que ele possa viver muitos anos mais, guiando a nossa inteligência para a verdade e receba, na vida futura, o prêmio destinado aos que combatem o bom combate.

H.

“Vivo autem iam non ego...”

Yuri (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 41 anos, sou professor, há mais de 10 anos, em uma faculdade de Direito, fui advogado por 15 anos e fiz mestrado em Direito na UFRGS, Conheci o trabalho do Professor Olavo quando ele escrevia uma coluna para o jornal “Zero Hora”. Isso faz 11 anos. A leitura de seus textos foi fundamental para minha formação política e cultural. Busco como meta o fortalecimento de minha personalidade pelo desenvolvimento da consciência e pela aquisição de um método filosófico voltado à compreensão do real. Nisso, o contato duradouro, que este curso on-line [ Curso Online de Filosofia ] permite, com um filósofo, como Olavo de Carvalho, que encarna os valores humanos e intelectuais que busco alcançar, é fundamental.

Juliana (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Fiquei muito contente e entusiasmada com a possibilidade de realizar Curso Online de Filosofia , ter um norteador em meus estudos (já que estudo sozinha), e poder acompanhar o trabalho do Professor Olavo. [...]

Alexandre Souto (Assinante do Seminário de Filosofia ) Sou formado em marketing, natural de Fortaleza e morando em Manaus – no coração da floresta –, onde trabalho como servidor público. Conheci as vídeo-aulas e depois os artigos do professor Olavo através de um aluno seu que mora em Recife, irmão de uma amiga. Espero compreender melhor a realidade com o Curso Online de Filosofia e conhecer pessoas com os mesmos objetivos. [...]

Juliana Rodrigues (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Li trechos do Imbecil Coletivo no site, comprei o livro, xeretei mais o site, achei o Seminário , e, através dele, o Curso Online de Filosofia . Tudo neste ano de 2009. Mas apesar do recente contato com as idéias do Olavo, a proposta do curso, em essência, está relacionada com peças de um quebra-cabeças que eu ando montando para poder analisar criticamente a realidade. [...]

Eduardo Gaio (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Meu nome é Eduardo Gaio, 37 anos, de Brasília. Sou casado e tenho dois filhos. Sou médico e professor da Universidade de Brasília.

Conheci o Prof. Olavo de Carvalho através de um amigo que me apresentou o “Imbecil I”. Depois disso li o “Imbecil II”, “O Jardim das Aflições” e “Aristóteles em Nova Perspectiva”. O Prof. Olavo é, sem sombra de dúvida, o mais lúcido pensador deste país (Nesse país tem pensador?). [...] Eduardo Gaio

Gabriel Melati (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Para preservar a sanidade nesse mundo que enlouqueceu recorro constantemente aos três autores mais sãos que conheço: G.K. Chesterton, C.S. Lewis e Olavo de Carvalho. Quanto à filosofia, tem tanta coisa que eu quero saber e já estava desistindo... O Curso do Professor Olavo [ Curso Online de Filosofia ] é algo que reacendeu minhas esperanças já claudicantes, para não dizer moribundas, de entender alguma coisa nesse mundo.

Thiago Albuquerque (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o trabalho do professor Olavo por “acaso”, há menos de três meses. Após ter lido o texto “O Que é Isto – A Filosofia?”, decidi dar uma vasculhada neste mundo virtual em busca de informações sobre Martin Heidegger e eis que topei com a citação do próprio na obra do professor Carvalho, “Aristóteles Em Nova Perspectiva...” A curiosidade que me levou a passar da citação ao conteúdo desta magnífica obra é a mesma que me faz, hoje, escrever estas palavras e participar das aulas do Curso Online de Filosofia . [...] O acaso (ou sincronia junguiana, sei lá!, diria o professor) colocou-me em diálogo com este ilustre pensador de nossa terra.

João Rodrigues de Souza (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] “Achei” Olavo de Carvalho por acaso, em 2005, na internet quando pesquisava o assunto Governo Global. Desde então o foco da minha percepção da realidade mudou muito. Nunca fui esquerdista mas também não sabia ao certo o que era ser direitista. Hoje sei o papel que representa a esquerda na preparação de um governo global. Posso dizer que os escritos de Olavo me deram a bússola que eu buscava na mixórdia de opiniões concordantes e contraditórias sobre esse assunto. Atualmente estou digerindo lentamente o livro “Jardim das Aflições”.

Espero com este curso [ Curso Online de Filosofia ] poder trabalhar mais sistematicamente minha formação filosófica. Desejo que esse caminho, para todos nós, mesmo não sendo fácil, seja iluminado por quem já o trilhou. [...]

Leandro Cesar Lobato (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o Professor Olavo através de um amigo, Francisco, que me enviou o artigo “O Imbecil Juvenil”, para que eu trabalhasse com os jovens do grupo de igreja da qual eu fazia parte. Fiquei tão fascinado e assombrado com o texto, que iniciei a busca de compreender o que o Olavo dizia em seus artigos. Passaram-se alguns anos até eu modificar o meu pensamento, até então esquerdista e imbecil. Desde 98 acompanho tudo que o Olavo escreve e fala. [...] Espero que este curso [ Curso Online de Filosofia ] possa sistematizar e organizar tudo que tenho aprendido durante estes anos com o Prof. Olavo. [...]

Tiago Aurich (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Meu interesse no Curso Online de Filosofia é aproveitar a oportunidade de ter como professor o Filósofo Olavo de Carvalho e aprender com ele o quanto puder.

O conheci numa lista de discussões, da qual ele próprio participou muito brevemente: “Tradição católica e contra-revolução”, fundada pelo professor Carlos Ramalhete.

Até agora apenas pude acompanhar seus artigos e programas de “rádio” pela Web. Para mim, em termos de conteúdo, já era muito, porém, sem uma orientação pessoal direta não consegui traçar uma linha contínua de aprendizado, o que espero conseguir agora com o curso.

Tiago Lombello (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci a obra do professor através de pesquisa pela internet. Tudo me diz que agora estou no caminho certo na busca do conhecimento da realidade, através da sincera verdade, do amor ao estudo ou a filosofia, que são, segundo nosso professor, a mesma coisa. Espero deste Curso Online de Filosofia o aprendizado deste caminho. [...]

Allen Porto (Assinante do Seminário de Filosofia ) Sou Allen, 23 anos, de São Luís – Maranhão.

Conheci o Olavo através de um amigo, exatamente quando me senti impressionado com o “documentário” Farenheit 9/11 do Michael Moore.

Os escritos do Professor foram o antídoto necessário, abriram minha mente para a realidade. [...]

Alberto Filho (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tive o meu primeiro contato com o professor Olavo de Carvalho através da indicação do programa “True Outspeak” por um grande amigo que também já está inscrito no curso [...]. Tenho consciência das minhas limitações, mas desejo profundamente crescer no conhecimento da realidade.

Marco Borgerth (Assinante do Seminário de Filosofia ) Conheci o Prof. Olavo através de seus artigos no Jornal “O Globo”, do Rio de Janeiro, e desde lá acompanho sua obra na medida de minhas possibilidades.

Através do website do Olavo e de seu livro “O Jardim das Aflições”, conheci autores espetaculares, normalmente não mencionados na “Academia” no Brasil [...] Estou muito animado e com alta expectativa para este curso online [ Curso Online de Filosofia ], que é a realização de um sonho já antigo!

Rafael Heinle (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Um professor da minha cidade apresentou-me o vol. 1 da “Coleção História Essencial” [ História Essencial da Filosofia ], e, a partir daí, não parei mais de ler. Vejo na oportunidade em participar do Curso Online [ Curso Online de Filosofia ] um grande diferencial que poderá por ser adquirido no intuito de fortalecer a minha pessoa em todos os sentidos. [...]

João de Valeria (Assinante do Seminário de Filosofia ) Olá, sou João Batista, estudo teologia, sou pastor presbiteriano. Conheci o professor Olavo através do programa “True Outspeak”. Sempre quis estudar filosofia sob a orientação de um bom mestre. Minha expectativa é que as leituras, as aulas do professor [ Curso Online de Filosofia ] e o convívio com os colegas me ajudem a contribuir de modo cada vez mais significativo para o bem da minha geração e, quem sabe, das próximas.

Diego da Silva (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] O primeiro contacto que tive com o trabalho do Olavo foi no Fórum da Liberdade em Porto Alegre, e, agora, com as gravações do Yuri Vieira tomei conhecimento do Seminário de Filosofia .

Gostaria no Curso Online de Filosofia continuar o trabalho de organização pessoal começado a partir do material disponível nos sites do Olavo. [...]

Ismael Citt (Assinante do Seminário de Filosofia ) Conheci o professor Olavo em 2005 através do MSM e desde então venho me aprofundando em sua obra na medida do possível [...]. Das suas obras já li “A Nova Era e a Revolução Cultural”, “Como vencer um debate sem precisar ter razão” e “O Jardim das Aflições”, além de centenas de artigos de jornal e textos disponíveis no site e no Seminário de Filosofia . [...]

Carlos Rabello (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] O contato com as obras do Professor Olavo aconteceu quase que por acaso, podia dizer que foi uma daquelas ocasiões inesperadas que seriam decisivas na minha vida.

Meu pai, que gosta muito de santo Agostinho, comprou um DVD sobre o assunto, e este era justamente o DVD 14 da coleção História Essencial da Filosofia : “Idéia vs. Realidade”.

Lembro de que fiquei um tanto quanto chocado com as coisas ditas pelo Professor. Surpreendeu-me a maneira como ele conduzia a aula, pois que me tornava o assunto muito compreensível, e também o fato de ele demonstrar claramente a inconsistência de Descartes na contraposição com Agostinho.

Era uma inteligência, clareza e rigor que não havia visto até então; lembro-me de pensar assim: “Meu Deus, mas ele está atacando Descartes! – Nossa, mas ele tem razão!”

No entanto foi só mais tarde, e após ter lido o Livro “Como vencer um debate sem precisar ter razão” comentado pelo Professor, que procurei conhecer mais sobre sua pessoa e a me aprofundar em seus escritos. Foi só aí que descobri que havia toda uma polêmica em torno do professor e de suas opiniões.

Quando mais tarde me chegou aos ouvidos um discurso difamatório a respeito do Olavo de Carvalho, ele não me surtiu o menor efeito, pois foi justamente ele quem me mostrou efetivamente o que era uma vida intelectual, qual é o seu propósito, e o que significa vivê-la plena e responsavelmente.

Fico até temeroso de pensar como estaria se não tivesse conhecido as obras e a figura do Olavo de Carvalho, talvez estivesse até hoje meio desnorteado intelectualmente e acreditando em certas coisas que nunca havia investigado a fundo e desacreditando em outras sem jamais tê-las examinado.

Como é grande minha dívida a ele! E no entanto ele nem me conhece. Nem imagina o quanto minha vida mudou por influência dele.

Ao Olavo de Carvalho, minha mais cara admiração e gratidão.

Edgar Wiese Zacchi (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o trabalho do professor Olavo em janeiro de 2007, antes de começarem as aulas no mestrado, ao ouvir os áudios dele com o Yuri Vieira no youtube. O conteúdo daqueles áudios mexeu comigo verbalizando muitas das coisas que eu intuía de algum modo, só que ainda de forma superficial, confusa e nebulosa. Logo passei ao site do professor e a leitura sistemática dos seus artigos de jornal desde 1998 e também de boa parte dos seus textos de filosofia no site, dos seus livros publicados, a audição semanal do “True Outspeak” e os DVDs da “História Essencial da Filosofia”. De modo que agora, em março de 2009, na véspera de começar o Curso Online de Filosofia , eu já me considero um discípulo e aprendiz do filósofo Olavo. E isto já é muito mais importante pra mim do qualquer mestrado ou doutorado em filosofia que eu pudesse fazer no Brasil ou mesmo no exterior.

Paulo Ricardo Costa (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Minha história não é muito diferente da de muitos [...]. Talvez meu único diferencial seja ter sido de direita, virado comunista e depois enxergado novamente a luz. [...] Fui um moleque tido como reacionário, influência de meus grandes heróis: Orwell, Nelson Rodrigues, Aldous Huxley e acima de todos Paulo Francis. Como este último andei muito tempo brigado com Deus que em sua infinita bondade hoje me deu seu perdão. Em que momento fiquei burro e deixei-me seduzir por Darcy Ribeiro não me lembro. Agradeço ao Professor Olavo por me trazer de volta a razão. E espero que ele perdoe um jovem, ex-filiado do PSTU, por escrever e-mails malcriados.

O entender as coisas parece muitas vezes assustador. Por natureza comunista é covarde, fui covarde por algum tempo, mas é uma linha tênue que separa a covardia e o mal-caratismo, para continuar comunista realmente só sendo mal-caráter.

Mauro Ventura (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Meu nome é Mauro Ventura. Tenho 36 anos, sou ator e diretor teatral e moro no Rio de Janeiro.

Ainda estou tentando assimilar as mudanças que estão acontecendo na minha forma de pensar. Sempre fui um entusiasta da filosofia, mas nunca a estudei de forma metódica. No final do ano passado, por completa insatisfação com meus conhecimentos fragmentados decidi entrar para a faculdade de filosofia. Algum tempo depois tive contato com o material do professor Olavo e ainda estou sob o efeito atordoante de algumas questões que pensei já estarem resolvidas em meu pensamento.

Enfim, estou tomado por idéias e entusiasmo, coisa que há muitos anos só conseguia extrair dos processos de produção dos espetáculos em que trabalho. [...]

Conrado (Assinante do Seminário de Filosofia ) Chamo-me Conrado, tenho 22 anos e sou estudante de direito da UFSC, em Florianópolis.

Tomei conhecimento do trabalho do professor Olavo em 1999 por indicação do meu avô, que muito o admira. Contudo, só quando entrei na faculdade, em 2004, a leitura dos seus artigos no site tornou-se uma necessidade vital para mim. Enquanto o contato com as obras de Gustavo Corção havia me dado um novo vigor na busca por Deus, os textos do professor Olavo me ajudavam (e ainda o fazem) a compreender a confusa realidade na qual estava imerso (e ainda estou...). Contudo, depois de um tempo, dei-me conta de que há uma profundidade muito maior na obra desse filósofo, [...] além da sagacidade argumentativa que salta aos olhos numa primeira leitura. Entre os seus livros, li “O Jardim das Aflições”, “Aristóteles em Nova Perspectiva”, “O Imbecil Coletivo I e II” e trechos de “A Dialética Simbólica”.

A expectativa com o curso [ Curso Online de Filosofia ] é grande e espero poder, a partir da formação aqui obtida, além de me tornar uma pessoa melhor (tarefa sempre difícil...), estar melhor preparado para enfrentar os desafios que nos propõem os dias de hoje. [...]

Fausto (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o trabalho do professor através da internet, há uns dez anos, e desde então sou frequentador assíduo da sua homepage. Sempre quis assistir às conferências do Professor, mas diversas circunstâncias me impediram, e agora estou contente pelo surgimento do Seminário de Filosofia e principalmente pelo Curso Online de Filosofia .

Os artigos de jornal, as apostilas e os programas de rádio me mostraram muitas coisas importantes sobre a realidade política sobre a minha própria vida, coisas que eu jamais imaginara. Espero, seguindo o curso, conseguir um pouco de clareza para pensar e, principalmente, fortaleza para enfrentar as responsabilidades que exige a filosofia.

Jefferson Bitte (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 32 anos, sou de Florianópolis – SC. Diferentemente da maioria aqui, meu trabalho está relacionado com o que é mais sofrível neste país: sou diretor teatral e músico. Considero a classe dos artistas, neste país, a mais incompetente, perdendo talvez para os jornalistas.... Conheci o Olavo através de um grande amigo e artista, o diretor teatral, ator e professor Roberto Mallet. Desde então os escritos e os programas do True Outspeak passaram a ser obrigatórios para mim. Espero conseguir acompanhar o curso [ Curso Online de Filosofia ]. [...]

Vlado Braga (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 37 anos, sou jornalista, estudante de Direito, casado, um filho. Eu leio os textos e ouço o “True Outspeak” há não muito tempo. Talvez pouco mais de um ano. Cheguei ao nome de Olavo de Carvalho por meio daqueles que o criticam.

Eu fui um daqueles esquerdistas que acreditavam na panacéia comunista. Não sei quando exatamente comecei a indagar as “verdades” comunistas.

Sei que quando ouvi o professor Olavo falando de como ele viveu sua fase comunista e o tempo que levou para livrar-se de tantas sandices a que foi submetido, identifiquei-me e comecei a perceber que tudo aquilo de que fiz parte era perda de tempo, nada me daria. É difícil perceber porque você é inoculado ainda jovem – no meu caso foi assim. [...]

Gabriel Vinícios (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 20 anos e conheço o Olavo desde 2003, quando me deparei com o “Mídia Sem Máscara” no Google. Li um ou outro artigo e o site foi parar direto nos Favoritos.

Rômulo (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Residente em Aracaju-SE, sou policial rodoviário federal. Cheguei a cursar alguns períodos de física na UFPE e outros de letras na UnB, mas não cheguei a me formar em nenhum curso – a propósito, ainda tenho dúvida quanto a cursar uma graduação ou deixar meu tempo livre para o estudo pessoal. Bem, quanto ao Prof. Olavo, conheci-o através do material “História Essencial da Filosofia” da É-Realizações, e depois disso fui atrás de mais e mais material desse grande filósofo. [...]

Diego (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o prof. Olavo de Carvalho quando ainda me sentia com um pezinho no pensamento esquerdista. Um amigo meu participava da comunidade “Olavo de Carvalho nos odeia” no Orkut. Perguntei a ele quem seria tal figura. Não me lembro exatamente a resposta, mas certamente ele disse algo como “neoliberal” e “reaça” (para os esquerdistas, vocês sabem, xingamentos capazes de traumatizar). Na época ainda dei uma vasculhada cínica no “Mídia Sem Máscara”, mas nem me dei ao trabalho de ler a apresentação do site, ou me aprofundar em algum artigo. Quanto tempo seria ganho para minha informação intelectual se o tivesse feito!

Digo isso porque creio que, na verdade, nunca fui um esquerdista convicto. Servi como mais um idiota útil, que pensa estar ao lado da justiça e dos oprimidos.

Sempre fui católico [...]. A influência do esquerdismo me fez ver a fé, por algum tempo, como algo relativo, totalmente restrito à minha subjetividade.

Felizmente, fui salvo assim que senti a necessidade de me aproximar com maior honestidade e dedicação a Deus. A sede por conhecimento, que sempre me moveu, fez-me então enxergar o óbvio: aqueles princípios de relativismo moral e luta de classes, que por algum tempo me pareceram simpáticos, não só eram desprovidos de sentido, como feriam minhas convicções mais profundas. Ah, a doce e sensata descoberta do conservadorismo (uma obrigação e não uma virtude, como diria o Prof. OdC).

Foi então que descobri de verdade o Professor Olavo de Carvalho, através de referências feitas pelo Padre Paulo Ricardo e pelo Prof. Felipe Aquino. Desde então, a leitura do “Mídia Sem Máscara” tem sido um antídoto e um alerta para muitos absurdos que vejo no jornalismo. Acompanho com frequência os artigos do prof. OdC no seu site e também o “TrueOutspeak”. Agora é com alegria que ingresso no Seminário de Filosofia para uma formação intelectual honesta e integral. [...]

Fabrício Andrade (Assinante do Seminário de Filosofia ) Meu nome é Fabrício Andrade, sou estudante de Jornalismo na Cásper Líbero e descobri o Olavo de Carvalho por acaso. Eu procurava por “Tocqueville” no Google e parei numa página em que o Olavo responde a um aluno uma dúvida que também era minha. Isso foi em 2000, quando eu ainda não havia abandonado Ciências Sociais. Pelo contrário: “A Democracia na América” havia me fascinado tanto que eu fui buscar na Internet as repostas que não tinha na UFSCar. Levei alguns meses até descobrir que os bárbaros há muito tinham tomado de assalto não só a “Ágora”, que era o nome do jornal do Centro Acadêmico, como a universidade e tudo o que nela havia. Cansei das pessoas, culpei o Sistema e fui passear.

Continuei lendo o Olavo, principalmente os artigos para a imprensa, torcendo pra que um dia ele organizasse um curso de filosofia como esse [ Curso Online de Filosofia ]. Fiquei sinceramente emocionado quando deparei com o vídeo de apresentação. [...]

Luiz Felipe Adurens (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Sou sociólogo, especialista em comunicação e professor. Conheci a obra de Olavo de Carvalho pela internet e desde então tenho pautado minha formação (e informação) por suas teorias, por suas análises, e pela teorias e análises de autores por ele indicados: Ortega y Gasset e Eric Voegelin (bases da minha monografia), Mário Ferreira dos Santos... [...]

Rodrigo Strini (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Ler e ouvir Olavo de Carvalho tem propiciado a visão de um caminho que estou tentando seguir a duras penas no dia a dia, que é tentar manter a coerência entre os meus pensamentos e os meus atos. Ainda estou engatinhando nas questões ligadas à filosofia, de modo que seguirei o conselho do Olavo quando diz que devemos nos abster do ato de dar opiniões sobre assuntos que não temos o domínio. Espero ao longo do Seminário e do Curso Online de Filosofia [...] conseguir obter algum domínio teórico e prático sobre filosofia.

Antonio Vargas (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tomei contato com textos do professor Olavo pela primeira vez em alguns artigos soltos em jornais, mas só fui me interessar mesmo depois da leitura do “Jardim das Aflições”, em maio de 2007. Desde então li quase todos dos livros dele disponíveis pela É-Realizações e acompanho seus artigos publicados no site com grande interesse. [...] O Curso de Filosofia Online [...] parece-me uma oportunidade imperdível para aprender com o professor.

Moysés Maltta (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o trabalho de OdC pelo site e venho tentando estudar sua obra, o que é trabalho para uma vida inteira. [...]

Moreno Garcia (Assinante do Seminário de Filosofia ) Conheci o Olavo através de artigos que me foram apresentados pelo meu primo [...]. Em 1995 entre café, chá e abstrações, o abandono dos ideais e mensagens de natal o mestre se tornou a bússola de meus estudos, de minha espiritualidade e, de certa forma, de toda a minha vida. Dentro dessa analogia ultimamente as duas direções que olho para não me perder são a bússola e o firmamento. [...]

Thiago Linguanoto (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Fui apresentado à obra de Olavo de Carvalho por meio de um amigo que o destino me presenteou. O nome dele é Marcos Lúcio Gonçalves e, infelizmente, acabei perdendo o contato com ele.

Marcos me apresentou a obra de Olavo num momento em que se declarar católico era confessar um crime, em que discordar de Marx era cometer heresia, em que não ter o Manifesto na cabeceira era ser um subversivo. Não, não conheci Marcos em Cuba. Éramos colegas de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. [...]

Rogério Perego (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o Prof. Olavo por meio de um professor amigo meu. [...] Facilmente tornei-me admirador das idéias do Prof. Olavo. Digo facilmente porque tenho percebido que a maioria das pessoas que conheço, deixam-se levar facilmente por idéias absurdas sem fundamento em si [...]. Fiquei muito feliz ao me deixar levar por idéias que têm substância, que são essencialmente consistentes e verdadeiras [...]. Faço um agradecimento ao Professor por libertar nossas mentes dessa sujeira que teima instalar-se em nossa pátria. [...]

Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior AD MULTOS ANNOS!

padrepauloricardo.org , 29 de abril de 2013 Caríssimo Olavo, Hoje é dia de seu aniversário e sinto-me no dever de louvar a Deus por sua vida e de reconhecer: SOU-LHE MUITÍSSIMO OBRIGADO!

Nós de língua portuguesa usamos, para manifestar nossa gratidão, esta estranha palavra: “obrigado”. A maior parte das pessoas usa a expressão de forma irrefletida e os poucos que refletem não deixam de se indagar. O que há de obrigatório na gratidão, já que, como recorda Sêneca, a gratidão é muito menos grata quando é forçada?

Santo Tomás de Aquino, com a simplicidade dos sábios, resolve o problema:

“a gratidão é uma dívida de honra, ou seja, uma obrigação que se cumpre espontaneamente” . Mas disto decorre, então, que a ingratidão seria uma espécie de “roubo”, e desta verdade o Doutor Angélico tira a consequência irrefragável: “a ingratidão é sempre um pecado”.

Tudo isto para dizer que este meu preito de gratidão nasce de uma liberdade que se reconhece devedora. Em meu apostolado, tenho frequentemente encontrado leigos e sacerdotes que poderiam, como eu, dividir suas vidas em dois períodos: antes e depois do Olavo.

Meu contato com o seu pensamento foi há exatos 11 anos, quando li seu artigo “Cem anos de pedofilia”, publicado em O Globo a 27 de abril de 2002. Conheci seu site www.olavodecarvalho.org e dali para frente tornei-me um ávido leitor de tudo o que caísse em minhas mãos e que fosse de sua autoria. A cada página lida, escamas caíam-me dos olhos. De vítima ignorante e atordoada de um processo revolucionário e anticristão, fui me tornando um pastor mais consciente e ativo na defesa do rebanho de Cristo.

O Catecismo Maior de São Pio X (n. 941) ensina que as obras de misericórdia espiritual são sete.1a Dar bom conselho; 2a Ensinar os ignorantes; 3a Corrigir os que erram; 4a Consolar os aflitos; 5a Perdoar as injúrias; 6a Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; 7a Rogar a Deus por vivos e defuntos.

Esta lista bem poderia fazer parte de seu Curriculum vitæ .

Neste dia de Santa Catarina de Sena, peço a Deus que lhe conceda ainda muitos anos de generoso magistério e que, na sua bondade, o Nosso Senhor lhe conceda colher alegremente o que foi semeando entre lágrimas.

Faço questão de postar em meu site esta pequena carta para, com isto, poder ser em público a voz de muitos de seus alunos e amigos ao lhe dizer um sincero e cordial: Muito obrigado!

Deus lhe pague e recompense!

Elias Galante (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Estou realmente muito feliz com o material que tenho encontrado no site do Seminário de Filosofia . Aos poucos vou “degustando” tudo que encontro aqui. Sem dúvida tenho aprendido muito já no primeiro contato com os vídeos, áudios e apostilas e com certeza hei de aprender mais, conforme fizer releituras deste material todo – como penso ser necessário fazer.

Mas devo confessar que meu maior interesse e expectativa estão no já anunciado Curso Online de Filosofia do Prof. Olavo de Carvalho. [...] Sinto que aprenderei muito neste curso, que ele terá importância fundamental em minha vida intelectual, tanto no nível profissional como em aspectos puramente pessoais.

Minha opinião corrente é de que ao tomarmos contato com o trabalho do professor Olavo de Carvalho estamos diante de um verdadeiro filósofo e professor, um tipo que tem se tornado cada vez mais raro no Brasil. Sou muito grato por esta oportunidade e estou procurando aproveitá-la ao máximo.

Juliano Muller (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Minha expectativa neste curso [ Curso Online de Filosofia ] é imensa [...]. Irei até o fim, do curso e de minhas forças, para apreender tudo aquilo que jamais apreendi em escola alguma. [...]

Henrique Santos (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tomei contato com a obra do professor através de artigos que eram mencionados no finado “Newsgroup” do UOL (no grupo de política Brasil), há uns 7 anos atrás. Eu me lembro que de início eu não levava o Professor a sério e chegava a achar que era “teoria da conspiração” o que ele falava. Mas continuei acompanhando o MSM e os artigos do professor, pois seus artigos eram muito claros e muito bem escritos. Na época eu dava por verdade inquestionável o que a grande mídia falava (Jornal Nacional, Folha, Estado de São Paulo, Veja) e duvidava das poucas vozes discordantes. [...] Vejo como as pessoas defendem posições que não entendem totalmente, pessoas que falam sobre o que não sabem como se fossem estudiosos [...]. Pretendo, aqui [no Seminário de Filosofia ], com o Professor e vocês, aprender e praticar (usar na vida cotidiana, como o professor diz) a filosofia, para me afastar do que é mau e me aproximar do que é o bom, a verdade.

Mariana (Assinante do Seminário de Filosofia ) Conheci OdC através do meu irmão que também participa deste Seminário . [...] A orientação dele foi: leitura em doses não homeopáticas dos textos do filósofo. A partir daí percebi claramente que o Sentido de minha vida se iluminava e a partir deste Sentido muitas coisas foram se reorganizando: relações pessoais, prioridades de estudo, mudança de foco e postura nas profissões escolhidas. Houve também um retorno à formação católica que meus pais cuidadosamente ofereceram para seus filhos, e este retorno ao cristianismo aumentou em mil por cento minha responsabilidade com a vida, a minha e a dos outros. [...]

Nilton Ribeiro (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Entrei em contato com o pensamento do professor Olavo, primeiramente pelo seu site na Internet, e posteriormente por suas obras publicadas. Este contato fez brotar em mim a semente, que já se fazia presente, do interesse intelectual. Hoje estou perseguindo ardentemente o conhecimento filosófico. Infelizmente só assisti duas aulas do Olavo pessoalmente, mas estou aproveitando a oportunidade de ser aluno do Luiz Gonzaga [de Carvalho Neto] em Curitiba. [...] Estou aproveitando o tempo que tenho livre para estudar, e espero futuramente trabalhar em algo que tenha proximidade com a vida intelectual, por isso, estou muito interessado em fazer o curso do Olavo [ Curso Online de Filosofia ].

Victor Madera (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Moro em Sorocaba/SP, casado, dois filhos, um com 20 outro com 16, sou advogado e tenho 49 anos. Como a maior parte dos integrantes do Fórum [do Seminário de Filosofia ], graças às leituras das obras de Olavo de Carvalho eu consegui entender o que já não tinha significado algum. Quando jovem fui esotérico, espírita e comunista. Depois que desisti dessas porcarias, casei, tive filhos e passei a cultivar a adoração pela gastronomia. Empanturrado, um belo dia dos meus 46 anos, naqueles churrascos de família em minha casa, um dos presentes, chamado Beto, sujeito antipático, cheio de argumentos firmes e inquietantes, que, esclareça-se, é hoje meu melhor amigo, começou a falar de ordem mundial, detonar meus antigos heróis da esquerda, etc. Percebi que minha reação, embora indiferente, foi mais emocional que racional. Um par de emails depois, já estava eu instruindo-me com o curso “História Essencial da Filosofia” e, em síntese, o resto é consequência: por um lado, foi retirado o véu e demonstrada, nua e crua, toda a minha ignorância; por outro, aquela ânsia do sagrado que sempre cutucou minhas indagações encontrou abrigo e orientação. Na bibliografia indicada por nosso mestre fui aproximando-me de Cristo e hoje posso te garantir que sou outro homem. Não só mudei minhas posições políticas, etc., como refiz meus valores. Quem me conheceu não me reconhece. Como dizem os sorocabanos “mudei pra mais de metro” Isso não tem preço! E antes tarde do que nunca. [...]

Humberto Campolina (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Sou médico e resido em Belo Horizonte. Leitor de Olavo de Carvalho desde que o descobri indicado pelo saudoso Paulo Francis, em meados de 1996 (?). Li todos seus livros publicados desde então. Minha identificação com a filosofia do Olavo foi imediata, como podem ver. Atualmente estou fazendo um curso de filosofia e este Seminário .

Eduardo Levy (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o Olavo em 2004, e foi por influência dele e dos autores que ele indica, sobretudo Viktor Frankl, que deixei de me matricular no curso de direito, para o qual tinha passado, no ano passado, mudando totalmente de planos e projeto de vida. Espero que o Curso Online de Filosofia aqui do Seminário me dê forças para sobreviver à faculdade.

Abraços, Eduardo Levy

Aldoir Picua (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] O objetivo da minha participação [no Seminário de Filosofia ] é poder estar mais de perto acompanhando o pensamento e as orientações do professor Olavo, do qual sou assíduo leitor no seu site há mais ou menos seis anos. Através dele pude me convencer das ideologias tolas que eu cultivava, como a “escatologia da libertação”, (pois fui contaminado desde cedo com essa corrente estudando em seminário católico,onde fiz filosofia e teologia), e poder ler a realidade brasileira(político, cultural) como ela é realmente. É claro que esta mudança custou-me sentir-me cada vez mais ilhado, incompreendido, taxado até de fundamentalista, etc., exatamente como o professor descreve na gravação “Considerações sobre o Seminário”. Mas cá estou eu disposto a seguir as orientações deste gigante que é o Professor Olavo, e poder com a graça de Deus crescer um pouco mais como ser humano. [...]

Felipe Ortiz (Assinante do Seminário de Filosofia ) Atualmente moro em Brasília – DF, mas nasci e fui criado em São Caetano do Sul – SP, onde morei até 2005. [...] Meu primeiro contato com o Prof. Olavo de Carvalho foi por meio de sua coluna na revista “Bravo!”, há aproximadamente dez anos; um amigo meu, leitor daquela revista, chamou-me a atenção para os artigos do professor. Desde então, tenho procurado acompanhar seus artigos na imprensa, sobretudo através do seu website, e li uma parte dos livros que ele publicou. Também tive a oportunidade de estudar com o Prof. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, filho do Prof. Olavo, em São Paulo, durante os anos de 2002-2003. Essa experiência foi muito importante para mim. Minha principal expectativa ao assinar este website [ Seminário de Filosofia ] é poder me familiarizar melhor com os estudos propriamente filosóficos desenvolvidos pelo professor ao longo de sua carreira, através do acesso a apostilas de seus cursos e outros materiais valiosos e, infelizmente, difíceis de encontrar. [...] A obra do Prof. Olavo tem exercido um profundo impacto sobre a minha educação [...].

Clifford (Assinante do Seminário de Filosofia ) Meu nome é Clifford, tenho 36 anos e me formei em filosofia na UFMG em 1997. Moro atualmente em Teresópolis, estou cursando Direito e trabalho como funcionário público do judiciário. Há uns dez anos atrás li no Jornal do Brasil que havia um filósofo criticando o pragmatismo, o relativismo e outras coisas esquisitas que estavam ensinando na faculdade. Comprei o “Jardim das Aflições” e tomei conhecimento, progressivamente, de um “outro mundo” que eu jamais pensara existir. Li ainda o “Imbecil Coletivo 2” e “Aristóteles em Nova Perspectiva” além dos dois primeiros volumes da “História Essencial da Filosofia”. [...]

Joel Tang Jr.

(Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 47 anos. Sou formado em medicina e direito, mas trabalho atualmente no Banco Central. [...] Conheci a obra do Prof. Olavo em 96, quando, passando por uma livraria, encontrei O Imbecil Coletivo. Fique encantado ao descobrir que ainda havia vida inteligente no Brasil. Comecei a procurar outros livros seus e achei um último exemplar de “O Jardim das Aflições” escondido em outra livraria. Foi um verdadeiro choque: a leitura me levou de um agnóstico bobinho, daqueles com um risinho superior para qualquer coisa que dissesse respeito ao espírito, para, por fim, a conversão à Igreja Católica.

Sempre fui um leitor voraz, mas sem método e o devido discernimento, e nunca tive oportunidade de ser seu aluno, mas sua página foi para mim uma verdadeira benção. Agora, com o Curso Online de Filosofia, pretendo segui-lo, independentemente da falta de tempo [...]

Mario Chainho (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 33 anos. Vou destoar dos restantes porque não sou brasileiro, mas português, nascido em Setúbal, que fica 40 km a sul de Lisboa. Tenho uma licenciatura em engenharia electrotécnica e trabalho em telecomunicações. Sempre me consideraram uma pessoa estranha porque o meu leque de interesses não tinha fronteiras, ou seja, sempre me interessei por tudo: artes, filosofia, filosofia oriental, economia, história, ciência, psicologia, antropologia, literatura, política e, mais recentemente, religião.

Conheci o professor Olavo de Carvalho há alguns anos atrás através de blogs liberais [...]. Por essa altura eu estava descobrindo o pensamento liberal de autores como Hayek e Mises, e vivia a perturbante experiência de perceber que, afinal, não era de esquerda. Ainda assim, foi com estranheza que li os primeiros artigos do professor Olavo de Carvalho, como se estivesse a cometer algum tipo de traição, mesmo nunca tendo feito militância por causa alguma e ter uma repugnância visceral por todo o tipo de colectivismo. Mas dando essa oportunidade inicial de avaliar imparcialmente o que dizia o professor Olavo de Carvalho, rapidamente me tornei seu leitor assíduo e ouvinte dos seus programas de rádio. O seu mérito principal é simples, o que ali era dito era confirmado pela realidade enquanto quase tudo o resto aí são fantasias que se justificam apenas pela repetição continuada. Antes de conhecer o professor Olavo de Carvalho considerava-me um ateu moderado, que via na religião apenas uma forma de aliviar algumas almas simples, além de ter toda uma série de malefícios. Até chegar ao estado actual, em que considero a religião a coisa mais importante numa sociedade, tive que engolir um sapo bem grande.

Do trabalho filosófico do professor Olavo de Carvalho li até agora as apostilas (termo muito estranho para um português) que constam no seu site, o livro “Aristóteles em Nova Perspectiva” e “A Nova Era e a Revolução Cultural (...)”. Dou uma extrema importância ao seu trabalho sobre a mentalidade revolucionária, que me parece, de longe, a melhor explicação para como se chegou ao actual estado de coisas. Em Portugal também se vive uma intensa guerra cultural. Não temos o Foro de São Paulo, mas temos a União Europeia. Tal como no Brasil, a esquerda tem a hegemonia da discussão política, dominando os meios de comunicação e as universidades. Mesmo quem se classifica de direita fala com a linguagem da esquerda. Tudo o que é projecto “globalista” não sofre oposição e todas as causas progressistas, feminismo, abortismo, gayzismo, ambientalismo radical, vão avançando por cá a grande ritmo. Portugal era um dos países mais seguros do mundo onde as crianças brincavam sozinhas na rua, hoje a criminalidade violenta é rotineira. As escolas portuguesas deixaram de ensinar e são cada vez mais um local de doutrinação ideológica. As pessoas deixaram-se iludir por uma idéia de liberdade que é apenas ausência de responsabilidade. Todas as liberdades vão diminuindo a olhos vistos, mas ninguém se importa porque só querem saber de dinheiro.

As minhas expectativas em relação a este seminário [ Seminário de Filosofia ] não diferem muito daquilo que já li por aqui. Obter uma melhor compreensão da realidade. Ter alguma orientação para obter uma educação liberal. O curso sistemático, de longa duração, [ Curso Online de Filosofia ] que já foi anunciado pelo professor Olavo de Carvalho parece-me que será interessantíssimo [...].

Hugo Siqueira (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Sou de Recife, tenho 18 anos. Prestigio a obra do professor há pouco tempo (acho que um ano), e posso dizer que devo muito a ele.

Aliás, o Brasil inteiro deve. Muito.

Fabrício (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 33 anos, sou professor de filosofia numa faculdade privada em BH e moro na cidade.

[...] Li todos os livros e artigos publicados do professor OLAVO e assisti quase todas suas aulas do curso “História Essencial da Filosofia” em DVD. Procuro ler todas suas indicações bibliográficas (VOEGELIN, FRANKL, DIEL, MISES, ZUBIRI, BENDA, GIRARD e tantos outros) e tenho aprendido o que é cultura de verdade. OLAVO DE CARVALHO é um civilizador. [...]

Guilherme Prezia (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 30 anos, sou jornalista e moro no Canadá. Conheci o trabalho do Olavo de Carvalho em 1998 por intermédio de Martim Vasques, um ex-aluno do professor. Li o “Jardim das Aflições” no final da década de 90, mas confesso que naquela época eu ainda não tinha um status quaestionis mínimo para captar o básico da mensagem. Foi graças ao “Blog Talk Radio” – ou melhor, após ouvir o professor dando aula – que eu então comecei a pegar o espírito da coisa. Gostaria de aqui agradecer muito ao professor Olavo por me tirar das trevas do pensamento “muderno”.

Rômulo (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 23 anos. Sou de Natal-RN, porém moro em São Paulo Capital. Sou funcionário público e estou cursando o primeiro ano de direito na USP, porém já estudei engenharia no ITA e matemática na USP, não me formando em nenhum dos dois cursos.

Lembro de ter lido alguns artigos do Prof Olavo há alguns anos em Época, e lembro que eles me causaram estranhamento, pois suas idéias destoavam completamente das outras a que eu tinha acesso e do restante da revista em que estavam. Tal primeiro contato não me despertou, entretanto, a curiosidade de pesquisar sobre sua obra.

No início desse ano, estava em uma livraria e me deparei com “O Imbecil Coletivo”, no qual dei uma folheada. Achei o livro muito interessante, porém não o comprei logo de cara, preferi pesquisar sobre o autor antes. Encontrei, então, o site do Prof. e, desde então, “devoro” diariamente o seu conteúdo, inclusive o do “TrueOutspeak”, e, finalmente, li “O Imbecil Coletivo”. [...] Mesmo tendo lido pouco de sua obra em livros, acho difícil descrever o bem que o Olavo já me fez. O meu horizonte intelectual se expandiu de forma indescritível e, com ele, a consciência de minha imensa ignorância e a vontade de estudar cada vez mais.

Acho que o trabalho feito pelo Olavo pode salvar o nosso país se nós, seus alunos, nos empenharmos em aprender, formando uma elite intelectual capaz de se contrapor ao “establishment” comunista que hoje controla o Brasil e faz com ele o que quer. O Prof vem fazendo sua parte há anos. Cabe, então, a nós fazermos a nossa. [...]

Edu Leon (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Conheci o Olavo em fevereiro deste ano, através de um amigo – ao qual sou eternamente grato -, e venho acompanhando suas publicações até então.

Baixei todos os programas do TrueOutspeak, e comecei ouvindo desde o primeiro, seguindo a ordem cronológica. Ainda não ouvi todos os programas, mas devagarinho (e sempre) eu chego lá.

Sempre gostei muito de leitura, até que percebi que nunca soube filtrar. Lia tudo que aparecesse pela frente, até que me deparei com a obra A Arte de Ler (M. J. Adler), indicada pelo Olavo, em áudio (TrueOutspeak) e artigos. Foi uma das melhores obras que já li, e tenho uma nova concepção do que é o ato de ler/estudar.

Minha expectativa é que eu possa aprender o máximo, enriquecer meu espírito, me tornar mais sábio. Que amanhã eu possa ser um ser humano melhor do que fui hoje, sob todos os aspectos.

E pra finalizar, faço das palavras do Xavier Peixoto (também assinante do Seminário de Filosofia ) as minhas:

“Gostaria de um dia estar cara a cara com o Olavo e dizer uma verdade curta e certa: Obrigado.”

Antonio Carlos Rodrigues (Assinante do Seminário de Filosofia ) Sou engenheiro, 55 anos, casado, consegui viver em São Paulo/Capital por 45 anos quando decidi mudar para os EUA. Moro na Flórida desde 1998. [...] Acho que li os primeiros artigos do Olavo de Carvalho ainda na revista “Planeta” na década de 70. Reencontrei o Olavo depois de muitos anos escrevendo para o “Jornal da Tarde” e já com sua página na internet. Passei então a seguir muitas das suas sugestões: retomar o catolicismo que eu havia abandonado, conhecer pensadores católicos que eu nunca soube que existiam, ler os conservadores brasileiros e americanos e principalmente, perceber a quantidade de besteiras que eu havia lido e que tinham feito a minha cabeça. Espero através deste Seminário continuar recebendo a clareza das idéias do Olavo, ter um grupo de estudos, trocar experiências e dúvidas com os outros participantes e aprender a selecionar ainda melhor minhas leituras. [...]

Bruno Silva (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 30 anos, sou médico especialista em doenças infecciosas, professor da faculdade de medicina de Itajubá, onde resido.

Conheci o Prof. Olavo por um artigo publicado na “Época”, provavelmente em 2000. Confesso que o li, inicialmente, com um misto de espanto e admiração, como alguém que se reconhecesse em uma foto que preferia ter esquecido. Já nesse momento deixou-me profunda impressão, em primeiro lugar, o horizonte intelectual quase inabarcável no qual situava acontecimentos culturais e políticos da vida brasileira, revelando sob o manto de aparente banalidade de efemérides de província o verdadeiro sentido dos fatos, que claramente para mim se tornavam a partir de então, e antes de tudo, o sentido que tinham para salvação das almas (principalmente para aquela que notava pela primeira vez: a minha própria). Em segundo lugar, marcou-me sua dicção inconfundível de grande mestre da língua – aspecto pouco comentado da sua obra e, a meu ver, inseparável de seu valor.

Desde então, tenho tentado acompanhar tudo o que ele escreve e profere. Tento seguir também seus conselhos sobre a formação intelectual. [...]

Bruno Nunes (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 27 anos, sou carioca, casado e moro atualmente na Alemanha.

Gastei 5 anos de minha “formação acadêmica” numa graduação de universidade federal chamada “produção cultural”, cujo principal objetivo é formar especialistas em mendigar recurso público via lei Rouanet para projetos de “alta relevância para identidade cultural brasileira”, ou o que o Ministério da Cultura entenda por isso. Pois no dia em que li a “Entrevista de Olavo de Carvalho ao Embaixador Caius Traian Dragomir” percebi que os meus 5 anos de “estudo” e todo meu esforço para entender o que é cultura não valiam um milésimo das primeiras linhas da entrevista. Hoje tento seguir as recomendações de estudo e bibliografias sugeridas pelo Olavo, tentando ainda absorver um milésimo que seja daquelas primeiras linhas. Assim, tive não apenas a sorte de começar a me educar de verdade, mas de achar mesmo um sentido para minha existência [...] Nesse sentido fico especialmente entusiasmado com este Seminário de Filosofia e tenho certeza que encontrarei aqui o apoio e a orientação tão valiosos para quem se inicia nesta caminhada.

Rodma Jewski (Assinante do Seminário de Filosofia ) Moro em Porto Alegre/RS e sou formado em Direito pela UFRGS. Ingressei no serviço público em 2004, como Procurador Federal, cargo no qual permaneço até hoje. [...] Conheci a obra do Olavo quando estudante de direito, em 1999, a partir de artigos publicados no jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, e desde então tenho acompanhado todas as obras e a maioria dos artigos publicados no site, bem como o programa “True Outspeak”. Eventualmente assisto as aulas do Seminário de Filosofia oferecido pela É Realizações via internet.

Xavier Peixoto (Assinante do Seminário de Filosofia ) Moro em Brasília e sou funcionário público aposentado. Como a mãe do Lula, nasci analfabeto e assim permaneci mesmo tendo passado por uma faculdade de direito e recebido um diploma.

O primeiro livro que me chamou atenção foi um catálogo da Sears, Roebuck com anúncios desde alfinete a aviões monomotores (acho que foi lá por 1949). [...] Imagino que tenha sido o único jovem (naquela época) que comemorou e se entusiasmou com o movimento militar que derrubou o Jango.

Já ouvi 84 programas de rádio do Olavo, via internet. Tenho todos gravados e os ouço no meu Ipod. Portando, estou começando a aprender a ler... ouvindo.

Gostaria de um dia estar cara a cara com o Olavo e dizer uma verdade curta e certa: Obrigado.

Sandro Ferreira (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Moro em Juiz de Fora, mestre em economia, prof subst UFJF, 36 anos. Conheço o trabalho intelectual, e o esforço de ensino, do prof OC, desde 1997 a partir do livro “O Imbecil Coletivo”. De lá para cá, nunca mais deixei de lê-lo (e, agora, de ouvi-lo no Outspeak semanal). A dimensão do conhecimento q acumulei, de seus artigos e livros, ao longo desses anos, foi-me (é e será) fundamental. Fundamental mesmo. Ele renovou meus conhecimentos. Não sei como expressar meus agradecimentos. [...] Minhas expectativas em relação ao Seminário de Filosofia são positivas. Tenho muito a aprender e confio no que ele tem a nos transmitir.

Fábio Blanco (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 33 anos e conheci o trabalho do professor em, aproximadamente, 1997/98, quando comprei “O Imbecil Coletivo”. No início, aquelas idéias me pareciam estranhas; porém, sedutoras pela clareza e objetividade. A partir dali, passei a acompanhar o trabalho do professor mais de perto e hoje me considero seu aluno. Comecei a freqüentar seu Seminário na É Realizações, em São Paulo e estou muito feliz por poder ingressar neste site [ www.seminariodefilosofia.org ].

Benito (Assinante do Seminário de Filosofia ) Sou de São Paulo, Engenheiro Mecânico e empresário do ramo de ferragens.

Conheci o trabalho do professor Olavo por um artigo na “Revista Primeira Leitura”[...]. Desde então, atraído pela clareza de suas idéias, acompanho seu trabalho pelo seu site.

Junior (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 37 anos, formado em informática e sou do interior de São Paulo. Conheci o Prof. Olavo por acidente quando fazia uma pesquisa na internet para um trabalho do meu mestrado. Eu senti-me atraído pela clareza das suas idéias e pela capacidade que ele tem em passar muita informação com poucas palavras. Graças a ele retomei o gosto pelos estudos. Gostei muito das primeiras aulas que ouvi neste Seminário . Eu desejo ao final do curso ter melhorada minha capacidade de pensar, argumentar e enxergar os acontecimentos ao meu redor. Considero também as aulas do Prof. Olavo como uma forma de manter-se mentalmente são e adquirir autoconfiança num mundo excessivamente poluído por idéias, inúteis e sem sentido, que aos poucos arruínam você.

Rodrigo Dubal (Assinante do Seminário de Filosofia ) Sou professor de português e tradutor. Leio os artigos do Olavo há muitos anos. O aprendizado que tive ao longo desse tempo foi fundamental para minha formação universitária – possibilitou, entre outras coisas, que me mantivesse afastado, teórica e pessoalmente, da concepção de “ensino superior” da academia. [...]

Claide Pacheco (Assinante do Seminário de Filosofia ) Sou carioca, bancária, bióloga, e conheci o professor Olavo por intermédio de um amigo. Leio constantemente seus artigos no MSM. Há tempos gostaria de participar de cursos/seminários, que vejo em propagandas, mas impossibilidades geográficas/econômicas me impediam.

Com certeza agora, esta oportunidade [ Seminário de Filosofia ] me trás a ponta do fio de um imenso novelo. [...]

Bernardo (Assinante do Seminário de Filosofia ) Tenho 32 anos, sou economista e atualmente gerencio as fazendas de minha família em vários estados do Brasil (brigando com MST, índios, IBAMA etc..). Conheci o Olavo através de um amigo, o Marco Borgerth, do Rio, que acompanhava sua coluna no Globo. O Olavo me reaproximou do catolicismo, e graças a Deus, hoje vejo o mundo de uma maneira completamente diferente do que via antes de conhecê-lo. [...]

Augusto Righi (Assinante do Seminário de Filosofia ) Moro em Três Rios/RJ. Sou formado em Economia e trabalho como gestor financeiro, área na qual estou me especializando, numa empresa que atua no ramo de reciclagem.

Conheci o trabalho do professor Olavo há 8 anos, o primeiro texto dele que li foi “O imbecil Juvenil”. De lá para cá posso dizer que o contato com a obra do professor foi constante. No começo foi difícil aceitar as idéias do professor, já que eu estava anestesiado pelas teorias comunistas, mas nunca deixei de acompanhá-lo. Felizmente, o meu esforço em conhecer a verdade fez com que o Olavo continuasse no meu caminho, livrando-me do resto que não prestava.

Kleber Dias (Assinante do Seminário de Filosofia ) Sou de Londrina-PR, tenho 29 anos. Sou formado em Direito e atualmente trabalho como advogado e, também, sou professor de Filosofia do Direito e Ética Jurídica no curso de Graduação em Direito e professor de Antropologia Cultural no curso de Teologia. Sou cristão da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.

Basicamente, estudo filosofia por conta há mais de 10 anos, antes mesmo de ingressar no curso de Direito. Tenho admiração pela filosofia em geral, mas principalmente pela filosofia clássica. Conheci o professor Olavo através de um amigo que me falou sobre o talkblog e o site do professor. Este amigo comentou algumas idéias e análises que o professor faz sobre a filosofia em geral e sobre a realidade política brasileira. No primeiros contatos com os áudios e textos do professor Olavo, há mais de 01 (um) ano, fiquei fascinado com a lucidez com que ele desenvolve as idéias e as contudentes críticas ao movimento da esquerda. Assim, vejo este site [ www.seminariodefilosofia.org ] como uma oportunidade para aprimorar-me intelectual.

Diogo Vidal (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 24 anos, moro em Volta Redonda – RJ, a cidade do aço.

Faço História, estou no último período (imaginem vocês o que é falar do Olavo de Carvalho em um curso de História no Brasil). Sou católico, sedevacantista, e conheci o Olavo há um ano exatamente. Desde então tenho tido uma visão diferente de minha formação. [...]

Jota Fagner (Assinante do Seminário de Filosofia ) Olá, caros colegas. Meu nome é Fagner, sou baiano, tenho 29 anos, moro em Santos há um pouco mais de um ano, Estudo Publicidade e propaganda na Universidade católica de Santos. Trabalhava como porteiro até o mês passado, quando pedi demissão.

Conheço o trabalho do Olavo desde o período em que ele escrevia na “Revista Época”.

Vera Lucia Kirdeiko (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 54 anos, nasci em São Paulo e moro no Rio de Janeiro, desde 1987, quando assumi o cargo de Procuradora do Estado, o qual exerço até a presente data. [...] Conheço o trabalho do Professor Olavo de Carvalho, desde os anos 80 e sempre admirei sua coragem, clareza na exposição das idéias e, principalmente coerência, ainda que, não raras vezes, não comungue integralmente com seus pensamentos acerca de alguns temas. [...] É um verdadeiro desafio expor idéias num debate moderado pelo Professor, haja vista sua argúcia e vasto conhecimento, mas para isso é que estudamos, não é?

[...] Espero, com vocês [colegas do Seminário ], me aprofundar nos estudos propostos pelo Prof. e aprofundar e sistematizar meus conhecimentos. [...]

Thiago Crivellari (Assinante do Seminário de Filosofia ) [...] Tenho 24 anos, moro em Belo Horizonte – MG. Faço Direito noturno na UFMG (7° período) e curso Filosofia na FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, segundo ano). Conheci o mestre Olavo de Carvalho pela internet em 2006 em uma de suas entrevistas a Yuri [...] Imprimi e ainda leio todos seus artigos desde 98 (separando em um caderno todos os livros indicados, autores que recomendou, citações, expressões estrangeiras que utiliza, por isso ainda estou na metade do trabalho), li e assisti a “Coleção História Essencial da Filosofia”, leio todas suas apostilas de filosofia, acompanho o “True Outspeak “ e agora comprarei seus livros. [...]

Lídio Carlos Rodrigues de Lima Jr.

Prof. Olavo de Carvalho, O motivo de lhe enviar essa correspondência é lhe pedir perdão. É claro que tenho noção de que o pedido de desculpas de um jovem de 25 anos, do interior do Rio Grande do Sul, não deve ter valor algum para um homem com o Sr., porém para mim tem muito. Para mim és um dos grandes e poucos brasileiros que nos fazem ter orgulho de ter nascido aqui, como Rui Barbosa por exemplo. Meu pedido de perdão é por ter, por diversas vezes, acreditado que o Sr. estava exagerando ou era alarmista quanto ao domínio, hegemonia e métodos da esquerda no Brasil.

Descobri que as coisas eram bem piores do que eu pensava [...] Acompanho seu trabalho há 3 anos, ele foi fundamental para solidificar minhas opiniões políticas e filosóficas. Acompanho seu site, seu programa pela radio da internet, li seu livro “Imbecil Coletivo”, leio seus artigos e só não faço o seu “Seminário de Filosofia” por não ter dinheiro para isso, mas quando puder entrarei nele com certeza. [...] [...] não havendo ninguém na família ligado a filosofia, literatura, teologia ou política. No entanto [Deus] também me deu uma mente interessada nesses assuntos com capacidade para entendê-los e seus livros e lições para seguir como um guia.

[...] Por fim, lhe agradeço por ter aberto meus olhos para tantas coisas, para como eu era manipulado feito uma marionete sem ter a mínima noção disso. E lhe peço perdão mais uma vez. Espero que esteja bem, que Deus esteja com o Sr. e que viva ainda muitos anos. Precisamos do Sr. No mínimo mais uns 30 anos.

Abraços sinceros.

Sávio Laet 9 de junho de 2007 Caríssimo Prof. Olavo, saudações!

O seu artigo, “Ódio à Realidade”, foi lido em sala de aula, pelo Sr. Prof. Pe. Paulo Ricardo (Tenho a honra de ser aluno deste senhor, em Direito Canônico). Fiquei impressionadíssimo com o seu artigo. Eu não o conhecia. Não poderia deixar de dar-lhe meus parabéns! E o mais impressionante é que o senhor consegue usar aqueles termos, de “baixo calão”, sem ser vulgar. O que prova que a vulgaridade não está nos vocábulos, mas em quem os usa. Artigo finíssimo, oportuníssimo, para os nossos tempos. Mais uma vez, parabéns! Tenho algumas divergências, teóricas, no plano das idéias, com o senhor. No entanto, o meu sentimento, por grande parte da sua obra, e da sua pessoa, é da mais profunda reverência. Daqui uns trinta anos, quem sabe, eu consiga escrever um parágrafo com a mesma presteza com que o senhor articula os seus.

Com o máximo respeito.

Imenso abraço, Sávio Laet

Marta Gandra Eu era uma otária e o Olavo me curou. A primeira vez que tive contato com a obra do Olavo, foi em 1997, quando o li “O Imbecil Coletivo”. Foi paixão à primeira leitura. A partir daí, eu comecei a acompanhar sua coluna na Bravo e também a frequentar diariamente a sua página. Imaginem, eu, aluna da UnB, de repente fui resgatada das trevas daquele antro esquerdista para a luz da honestidade intelectual. Minha vida mudou. Mas ainda faltava um bocado para completar o meu processo de desintoxicação. Em 1999, li uma palestra que o Olavo fizera no Clube Militar e eu fiquei cheia de pruridos. Resolvi escrever-lhe para tirar essa história à limpo. Minha carta era magoada e eu não fui educada. Não esperava que ele me respondesse. Para minha surpresa, ele não só respondeu como me explicou em detalhes todos os pontos que eu levantei. Eu fiquei muito emocionada com essa deferência. Eu não era (e continuo não sendo) ninguém. O Olavo era o grande filósofo. Nem conseguia acreditar. Ele não passou a mão na minha cabeça. Pelo contrário, ele me deu uma boa espinafrada. Mas de um jeito muito didático. Por isso que eu digo que não há criatura mais humilde e gentil. Hoje eu reli essa correspondência. Senti uma imensa gratidão a Deus de ter me dado a oportunidade de conhecer o Olavo. Senti uma imensa gratidão ao Olavo por ter dado atenção a uma menina boba, ignorante e metida, mas que sempre gostou muito dele.

Aqui para vocês verem o meu mico e a bondade do Olavo:

Carta de um cego acordado a uma vidente adormecida

Adriano Iatskiv 18 de dezembro de 2007 Caro professor Olavo, Agradeço efusivamente ao emérito escritor em razão dos lúcidos comentários expendidos no artigo “Página Negra”, do Diário do Comércio, de 17 de dezembro de 2007. Nessa coluna, o professor descreve com lucidez alguns sinais da patologia sofrida pelas ditas “elites intelectuais” emergentes da esquerda brasileira. Ao menos uma voz ecoa na mídia mundial a fim de denunciar as barbaridades encetadas por tais pseudo-pensadores. Vamos entoar um vigoroso “sim” para a criatividade da linguagem e à racionalidade; gritemos um “não” à imbecilidade dos medíocres. Parabéns!

Saudações, Adriano Iatskiv Guarapuava/PR

Márcio Duarte 6 de dezembro de 2007 Olá, Olavo, Meu nome é Márcio. Moro em Detroit e sempre estou te ouvindo. Não compartilho da sua fé cristã, mas tenho o mais profundo respeito pelo seu trabalho e por sua coragem de abordar temas tão importantes. Muito obrigado pelo enorme serviço que está prestando ao Brasil. Não pare, por favor! [...] Abração, de verdade!

João Cláudio 27 de novembro de 2007 Olavo, Parabéns pelo seu artigo “Como não enxergar a realidade”! Você disse, em poucas palavras, uma porção de coisas importantíssimas que uma porção de pessoas precisa ouvir! Parabéns, mesmo!

Um abraço, João

Luís Felipe Aguiar 30 de julho de 2007 Prezado Sr. Olavo de Carvalho, Parabéns pelo texto “Absoluta falta de escrúpulos”, contido no artigo “Karl Marx na fonte da juventude”. Há muito que eu não lia algo tão bem escrito, coerente e pertinente. Peço que o Sr. não esmoreça e continue a nos ensinar e enriquecer com sua ampla cultura, notável inteligência e incansável coragem.

Um grande abraço.

Luís Felipe, Promotor de Justiça Porto Alegre – RS

Paul Medeiros Krause 29 de junho de 2007 Prezado Olavo de Carvalho, [...] Parabéns pelo seu trabalho de higiene mental no povo brasileiro. [...] Minhas cordiais saudações, Paul Medeiros Krause

Glauco Batalha 24 de maio de 2007 Prezado Sr. Olavo de Carvalho, Saudações! Sou, há tempos, leitor de sua coluna no “Mídia Sem Máscara”. Admiro muito sua postura, assim como o teor de seus artigos. A lição que o senhor nos passa através do artigo “Vocês querem bacalhau?” é digna de registro histórico.

Parabéns!

Seu admirador, Glauco Batalha

Alberto Paz 19 de maio de 2007 Prof. Olavo, Parabéns pelo artigo “Ódio à Realidade”. Cheguei a ficar de boca aberta ao lê-lo. Sua coragem em escrever tais palavras impressiona. Continue o bom trabalho!

Abraços, Alberto Cirilo Paz de Lima

Roberto Miscow Filho 30 de abril de 2007 Professor, Seu artigo “Casta de malditos” é mais uma oportuníssima aula, dada de graça a quem tiver interesse em entender o porquê de muitas coisas que estão acontecendo em nosso mundo ocidental (e não apenas no Brasil). Pretendo divulgar esse texto ainda hoje, se Deus quiser. O senhor foi extremamente feliz quando se referiu às infelizes confusões que marcam o final da Idade Média. Faz uns três dias que, enviando um e-mail a um de meus netos, eu lhe dizia que o Iluminismo é o ponto alto de um longo processo de dupla decadência, religiosa e filosófica.

Parabéns, Professor, e que Deus continue inspirando o senhor nessa dramática cruzada em favor da verdade.

2 de abril de 2007 [...] Há pessoas teimosas que custam a admitir o papel que as idéias desempenham na vida das sociedades humanas. Esses teimosos não prestam atenção no fato de que mesmo os mais ativos dos ativistas políticos têm sempre a sua particular “filosofia de vida”. Dou-lhe parabéns por mais essa importante exposição de esclarecedoras verdades!

21 de junho de 2007 Seus dois mais recentes artigos (“Como debater com esquerdistas” – Diário do Comércio,20/jun, e “A farsa radical” -JB,21/jun) estão primorosos. Um colega e velho amigo meu comentou sobre o segundo deles (o do JB) que seria talvez o melhor artigo já publicado por Olavo de Carvalho.Na minha opinião, nos dois textos o senhor acertou no centro do alvo, ao dissecar justamente o núcleo psicológico de um esquerdista. Vou divulgar já os dois textos!

15 de agosto de 2007 Professor Olavo, Ao escrever isto: “A mente revolucionária é um fenômeno histórico perfeitamente identificável e contínuo, cujos desenvolvimentos ao longo de cinco séculos podem ser rastreados numa infinidade de documentos”, o senhor foi de uma felicidade total. É uma pena que grande parte de nossos profissionais ditos de nível Superior, embora intuitivamente se posicionem – felizmente – contra certas correntes políticas, não tenham o habitus da leitura de livros, salvo eventuais romances policiais ou, quando muito, as tais “obras mais vendidas” nas livrarias populares dos “shoppings”. [...] Um abraço, Roberto Miscow Filho

Túlio Valente 6 de março de 2007 Professor, Esse artigo é simplesmente “de babar”. Eu o li para minha mulher e, ao final da leitura, comentamos quase simultaneamente: “Esse texto é pesado. É muito sério”.

Minha mulher chegou também a comentar que no seu tempo de estudante na PUC-MG simplesmente não entendia porque seus professores e professoras (e isso vale prá mim também) exigiam de alunos de 3o ou 4o período que lessem Lacan, Foucault e Derrida, e outros mais, sem a devida contrapartida: ninguém, nem mesmo os padres professores, nos estimulavam a ler um Santo Anselmo ou um Santo Agostinho que fosse. O aluno que os estudasse por conta. Numa escola católica, isso é inconcebível e inacreditável.

Túlio A. Valente e Tânia Elisa de Carvalho

Pedro Albuquerque Caro professor Olavo, Ainda mais interessantes e estimulantes do que o habitual são os seus recentes artigos “Adeus mundo ateu” e “Ocidente islamizado”. Estou, há dois dias, refletindo sobre eles e dividindo esta reflexão com amigos. [...] Agradeço sua atenção, Pedro Albuquerque

Frederico Bonaldo 8 de março de 2007 Caro Olavo, Parabéns pelo artigo “O Ocidente islamizado”. Muitíssimo bom! Tenho procurado divulgá-lo. [...] Um abraço, Frederico

Alfredo Anjos 8 de março de 2007 Caro Professor, Parabéns pelo blog, que está abrindo os olhos de muita gente aqui no Brasil. [...] Saudações, Alfredo Anjos

Cibeli Colombelli [...] Nos últimos meses leio tudo o que vc escreve. Li o “A Nova Era”, comprei o “Jardim da aflições”, “O imbecil coletivo” e o sobre o Schopenhouer, que não li ainda. Leio sua página diariamente e tenho uma vontade imensa de entender mais. Não entendo um moooooooooooonte de coisas, mas posso sentir uma linha de pensamento constante no seu raciocínio que casa bem com minha fé cristã [...] Um grande abraço.

Força sempre e obrigada por tudo, Cibeli

Rafael Silva 11 de dezembro de 2006 [...] Conheci seus textos há pouco tempo, e estou trabalhando para ter acesso ao Seminário e outras obras. Parabéns pelo trabalho.

Rafael Silva Vitória-ES

Thiago César 31 de janeiro de 2007 Prezado Sr. Olavo, Este é o primeiro e-mail que escrevo ao senhor. Eu gostaria de agradecer pelo artigo “A autoridade religiosa do mal”, há alguns anos eu tenho a curiosidade de saber como algumas pessoas conseguem matar tantas e serem respeitadas por isso. Seu artigo foi bastante esclarecedor.

Aproveito este e-mail para agradecer pelo artigo “A tragédia do estudante sério no Brasil”. Foi graças a ele que eu soube que eu não sofria sozinho. Eu me formei em Psicologia na UERJ em 2004. A graduação foi um processo doloroso, repleto de professores comunistas e de total falta de compromisso com a Verdade.

Para encerrar gostaria de agradecer também pela sua mensagem de Natal de 2006 e pelo “O Natal não é para covardes”, pois me ajudaram a renovar a minha fé e a entender o que é o Natal, embora eu ainda não seja um bom cristão.

Desculpe incomodá-lo, mas sinceramente eu não poderia passar mais tempo sem agradecê-lo.

Atenciosamente, Thiago

Ailton Oliveira Prezado Olavo de Carvalho, Gostei muito do artigo ”O Ocidente islamizado” e concordo plenamente. Sou apenas um cristão esforçado, de meia-idade, retornado à fé após ter passado por marxismo, ateísmo e esquerdismo, sem saber muito sobre nenhum deles. Há alguns anos comecei a ler os seus textos (de início fiquei chocado) e algumas obras neles indicadas, que me ajudaram a ver em que lugar estava metido. [...] Saudações, Ailton Oliveira

Sílvio Ricardo Caríssimo Professor Olavo de Carvalho, Meus cumprimentos!

Antes de tudo, foi um prazer “conhecê-lo”. Encontrei, quase que por acaso, um artigo seu publicado pela Época , intitulado “Um livro que ninguém verá”, de 18 de agosto de 2001, e o li com muito interesse. Deste, parti para a leitura de tantos outros em sua própria home-page. Interessei-me imediatamente por sua maneira de pensar e escrever. [...] No mais, que Deus o abençoe hoje e sempre.

Fraternalmente, Sílvio Ricardo

Cassiano 7 de novembro de 2006 Caro Olavo, [...] No texto “Se você ainda quer ser um estudante sério...”, o senhor disse que recebeu vários conselhos pessoais de vários mestres e em seguida disse que falaria sobre isso outro dia. Mas não consigo esperar esse outro dia! Que conselhos foram estes? [...] Tenho 24 anos e o senhor é a única pessoa que conheço que poderia me dar algum tipo de orientação.

Um grande abraço!

Cassiano

Alexandre dos Santos da Silva 2 de outubro de 2006 Caro Olavo de Carvalho, [...] Tenho 39 anos, servidor público e estudante de Direito na UFMG, embora minha “paixão” seja mesmo a Filosofia (que eu não abandonei, inclusive tenho comprado e assistido aos seus DVDs).

Estava pesquisando, por conta própria, as causas da criminalidade no país e qual a contribuição da Justiça para o aumento da bandidagem. Acabei esbarrando em um de seus textos (“Experimento sociológico”) e o achei fabuloso. [...] Professor, muito obrigado.

Alexandre

Bruno Carvalho 4 de abril de 2007 Caro Olavo de Carvalho, Acabo de ler, on-line, o seu magnífico artigo “A liberdade como parteira da tirania”. De certa forma, estou ainda sob o efeito duma certa fascinação, confesso; daí dever desculpar-me, desde já, pela eventual vacuidade destas palavras. Como jovem interessado nas temáticas da política (mais concretamente, da filosofia política), tê-lo “descoberto”, e à sua deliciosa capacidade de textualizar, com clareza e desassombro, temas e controvérsias tão na (des)ordem do dia, foi um belo exercício de higiene intelectual. Os meus mais sinceros cumprimentos.

12 de maio de 2007 [...] Aproveito para agradecer-lhe por suas denúncias apresentadas nos artigos, tão omitidas em nossa grande mídia.

Bruno Carvalho

David Pinheiro Benevides 24 de abril de 2007 Oi Olavo, tudo bem?!

Meu nome é David Pinheiro Benevides e desde logo queria lhe parabenizar pelo artigo “A Direita a serviço da Esquerda” e também pelos programas realizados via internet [...].

Nelson 7 de maio de 2007 Prezado Professor Olavo!

Muito bom este seu artigo, “Casta de Malditos”! Denso e com muitas informações! São sempre bem vindas as sugestões de leitura em seus artigos!

Nelson – Ribeirão Preto/SP

Jeferson Milani 2 de maio de 2007 Caro Olavo, Meus mais sinceros parabéns pelo seu artigo “Casta de Malditos”.

Cordialmente, Jeferson

Elias G. Zica (Assinante do Seminário de Filosofia ) 30 de abril de 2007 Prezado professor Olavo de Carvalho, Meu nome é Elias, moro em Belo Horizonte/MG. Acompanho seu trabalho já alguns anos.

Tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente na única aula do curso de filosofia que pude participar, na cidade de São Paulo em Janeiro/2005. Atualmente leio seus artigos publicados no site e também sou ouvinte do programa “True Outspeak” . [...] [...] Foi através de uma pesquisa na internet que cheguei ao site do professor Olavo e desde então tento acompanhar o seu trabalho, que considero importantíssimo e de efeito medicinal em minha formação – estava muito intoxicado com os fragmentos de conhecimento e ideologia que havia absorvido até então.

Daniel Henriques Lourenço 7 de maio de 2007 Olavo, Queria parabenizá-lo pelo artigo “Precaução elementar”. Poucas vezes vi um colunista fazer uma confissão sincera de um defeito seu: “Não conheço um só brasileiro que, em maior ou menor medida, não padeça desse mal. Digo isso porque há quarenta anos o combato em mim mesmo, e de vez em quando ainda me pego raciocinando no vazio. É uma doença terrível.” Vindo de você, que é uma das pessoas mais inteligentes do país, sinto algo triste, mas, sobretudo, feliz e esperançoso por saber que é possível vencer a barreira da burrice opressiva com honestidade e humildade. Obrigado.

Fique com Deus.

Daniel Lourenço

Silvio Grimaldo (Administrador do Seminário de Filosofia ) 30 de junho de 2014 Das coisas divertidas que eu faço na minha vida, uma delas é trabalhar com o Olavo de Carvalho . Uma parte importante do trabalho é ler as centenas de emails que nos chegam todos os dias. Infelizmente, a gente não consegue ler tudo, mas posso dizer que em 8 anos já me passaram pelas mãos milhares de depoimentos de alunos e leitores que ou se converteram ou voltaram à Igreja Católica por influência direta do Olavo. E os que não se converteram à Igreja de Roma, voltaram à suas religiões familiares com mais seriedade e devoção do que jamais tiveram (e aqui estou pensando sobretudo nos ortodoxos). E não me lembro de nenhum depoimento de conversão a alguma religião não-cristã que seja atribuída à influência dele. Os ex-alunos do Olavo que às vezes aparecem como convertidos ao islam ou a alguma seita guenoniana (elas existem dentro da Igreja Católica, da Ortodoxa, do islam, e até no fascismo neo-pagão europeu de Pindamonhangaba), normalmente se converteram DEPOIS de deixarem seu curso, e não é incomum que hoje eles o detestem. E o mais curioso disso tudo é que os cursos do Olavo não são apologéticos, não são pregações cristãs, não são elaborados pensando em conversões. O que o Olavo ensina aos seus alunos é amar a verdade, fazer o bem e apreciar o belo. E isso faz com que caminhemos em direção aos braços de Cristo, ainda que muitos nem saibam para onde estão indo, nem ao certo o que estão procurando. Eu sou um desses convertidos e posso dizer com muita segurança que Olavo de Carvalho, como agente islâmico, é um fracasso.

Maria Isabel Cunha T. Gonçalves 1 de junho de 2007 Prezado Olavo, Não me contive, e vim por meio deste e-mail manifestar a minha satisfação ao ler o seu texto “Debatendo com o crime”, a respeito do aborto.

Concordo com tudo o que disse e me alegraria muito ver outros sites, artigos, reportagens e estudos a respeito, porque acredito que pessoas como nós estão em desvantagem [...] [midiática] em relação aos “Pró escolha”. Se eu não me engano, o próprio Bernard Nathanson foi quem disse que umas das “táticas” de manipulação da opinião pública é apresentar os defensores do aborto como pessoas racionais que estão se baseando em estudos científicos, enquanto todos aqueles que são contra o aborto, são simplesmente reduzidos a categoria de “religiosos”, e todos os ateus contrários à campanha abortista, cientistas pertencentes ou não à comunidade médica, são simplesmente excluídos do debate.

Por isso fiquei muito satisfeita ao ler o seu texto, pois pode ser só impressão minha, mas sinto que todos os que são contra o aborto, estão muito mal representados na mídia (só aparece padre, mostrando o lado religioso da coisa. Mas só religião não basta, afinal, cada um tem a sua fé, ou até nenhuma.). Até o dia em que encontrei o seu texto, eu não havia lido em nenhum jornal, ou revista, e nem mesmo assistido na televisão, uma boa argumentação Pró Vida. [...] Bem, termino por aqui. Só tenho a agradecer, pois eu ganhei o meu dia ao encontrar o seu site. Gostaria de achar outros parecidos.

Um grande abraço, Isabel

Paul Dohr 16 de maio de 2007 Prezado Dr. De Carvalho, Gostaria de parabenizá-lo pelo brilhante artigo publicado no site “Mídia sem Máscara” sob o título “Para compreender a revolução mundial”, no dia 15.05.07. Sou freqüentador do website do Partido Nacional Britânico (British National Party – www.bnp.org.uk ) e me deparo com cartas freqüentes de leitores que questionam a posição aparentemente complacente de membros da Família Real Britânica frente a temas polêmicos, tais como a imigração em massa e a islamização oculta do Reino Unido. Tomei a liberdade de traduzir para o Inglês os trechos relevantes do seu artigo e solicito a sua autorização para enviar o seguinte texto para publicação (à titulo de carta de leitor) no site da BNP (British National Party).

Marcos Sath 6 de junho de 2007 Olavo, Acompanhava seu trabalho sem muita fidelidade até que fui totalmente envolvido pela densidade dos seus textos. Achava-me até este momento um sujeito com uma “certa cultura”, apesar do pouco tempo que sobra para um trabalhador. Fato é que você, e te agradeço muito profundamente por isso, me revelou a fragilidade de um cidadão comum que busca escapar dos tentáculos das mal intencionadas introjeções de valor, cultura e informação. As sucessivas revisões que suas informações inspiraram, fortaleceram-me e, ao mesmo tempo, me trouxeram grande insegurança em relação a qualquer cultura adquirida. [...] Estou passando os seus textos, seus livros, pra minha mulher, para os meus filhos, enfim, é uma responsabilidade imensa, a sua. Você sabe disso.

Acabei de ler seu artigo “Ciência ou palhaçada”. Mais uma mobilização de proporções planetárias em favor de interesses nada coletivos, o que mais dizer? [...] Li seu apelo a nós, seus leitores brasileiros. Não sei traduzir o que senti realmente. Talvez inconformidade. Inadmissível lhe faltar, seja lá o que for. [...] Abraço!

Marcos Sath

Rodrigo Tassara 23 de maio de 2007 Olavo, Excelente seu artigo “Ciência ou palhaçada”! [...] Abraços, Rodrigo

Hermann Tomas Mateo Mathow Junior 12 de junho de 2007 Prezado Olavo, Acabei de ler seu artigo “A Fórmula para Enlouquecer o Mundo” no site Mídia sem Máscara. Não há nada que possa classificá-lo além da palavra brilhante, no sentido estritamente literal! Tomei a liberdade de enviar para inúmeros señoritos satisfechos que conheço.

Sinto como se estivesse acordado de 27 anos de sono!

Obrigado e continue com seus artigos.

Hermann Mathow Jr.

Jaguariúna – SP

Adelice Godoy 13 de junho de 2007 Só para dizer que seu artigo “A Fórmula Para Enlouquecer O Mundo” está fantástico.

Eu costumo dizer para meu marido que eu estou cansada de ver um bando de adolescentes de 40 anos, que ao invés de portarem-se como adultos, como eram nossos pais quando tinham esta idade, comportam-se eternamente como filhos.

A resposta para isso vem justamente no seu texto. As pessoas foram bombardiadas com direitos e nenhum dever, desde a infância. E diante de qualquer situação desconfortável, são incapazes de agirem como seres humanos e não mais aceitam os imponderáveis da vida. Diante de uma dificuldade, esperam que qualquer um os socorra e querem culpar alguém pelas suas mazelas.

Excelente o texto.

12 de junho de 2008 Obrigada, Professor, Obrigada. Muito obrigada mesmo, pelas suas aulas.

Você pode estranhar este email, mas é só agradecimento mesmo. Ontem fui tomar um café numa destas cafeterias cheias de revistas. Peguei uma delas e tinha uma matéria que me chamou a atenção: “o que estamos fazendo com nossas crianças”, ou algo assim. Sou ruim de memória.

Bom, a matéria era de uma filósofa da USP (Pronto!). Olha, tinha tanta bobagem naquelas páginas que dá até vergonha.

Então eu lembrei de você e agradeci em silêncio o dia em que o conheci e passei a frequentar as suas aulas, e pensei em mandar este email.

Embora eu não seja da área de humanas, não tenha muito tempo para me dedicar e tudo mais, suas aulas me muniram de um ferramental lógico para a identificação de bobagens que, sem elas, eu não teria.

Então, obrigada. Quem sabe ano que vem tenho mais tempo para voltar a frequentar suas aulas e talvez até frequentar alguns destes cursos que você tem promovido por aí. [...] Beijos a você e à família.

(como assinante do Seminário de Filosofia ) Conheci o Olavo em 2000 através de um artigo que meu cunhado me mandou. Adorei o artigo, passei semanas lendo um monte. Cursei aulas dele em São Paulo. Estou muito animada para o curso [ Curso Online de Filosofia ] e espero que consiga me dedicar mais que antes.

Ten. Plínio 15 de junho de 2007 Caro Olavo, Como todos os outros, seu artigo “A fórmula para enlouquecer o mundo” é genial. [...]

Carlos Arnaldo Dal Pai Bohne 22 de junho de 2007 Caro Olavo, Brilhante o seu artigo “Como debater com esquerdistas” (Diário do Comércio, 20 de junho de 2007). Tenho dificuldade em debater com os esquerdistas porque eles não se limitam na dimensão do assunto em debate, em vez disso eles inoculam jargões marxistas e tentam nos posicionar em contra ou a favor numa posição sectária. Este seu artigo vou levar junto com os meus livros de referência e usá-lo quando necessário. [...] Um abraço e tenha certeza não está sozinho [...] “A verdade nos libertará.”

Carlos Arnaldo Dal Pai Bohne

João Paulo de S. Carneiro 25 de junho de 2007 Professor Olavo, Fui convidado a dar uma palestra numa faculdade daqui de Joinville, e o tema é livre. Estou pensando nos seguintes assuntos: 1) Inconstitucionalidade do reconhecimento de uniões homossexuais como entidades familiares; 2) Plena constitucionalidade do uso de crucifixos em repartições públicas; 3) Paternalismo judicial e o reforço do Leviatã. Acho que o assunto de número 2 pode englobar todos os demais, por via reflexa.

Desnecessário dizer que me basearei quase que inteiramente em seus textos e ensinamentos e citarei o seu nome repetidas vezes. [...] Cordial abraço, João Paulo

Virgílio Braga 25 de junho de 2007 Olavo, [Seu] artigo é interessante e preocupante. Belo, em alguns momentos, e entristecedor.

Foca o Brasil sem desconsiderar que a história é a mesma (ou muito semelhante) em todo o lugar...

[...] Parabéns, mais uma vez.

Virgílio Braga

Caio Haim 26 de junho de 2007 Olá Olavo, Nunca vi um texto tão bom na minha vida! [“Conspiração de Iniqüidades”] Parabéns! Como Cristão ciente da bobagem que faço, pois tenho uma relação com outro homem há mais de 16 anos, [digo que] nunca neste país alguém falou tão bem sobre o que realmente importa! E acho que por entender bem que o que faço não é o padrão e sim um desvio, e, portanto, com conseqüências por tal, não fico maluco como a maioria de caras que são homossexuais. É impossível a convivência e a conversa com esses ativistas gays. Seria muito bom que seu artigo atingisse mais pessoas.

Parabéns.

Cláudio Soares 2 de julho de 2007 Caro Prof. Olavo, Meu nome é Cláudio e tenho 32 anos. Moro no Distrito Federal. Sou Servidor Público, Professor Universitário, Especialista em políticas Públicas e... EX-GAY! Isso não é nenhuma piada (embora seja cômico, claro!).

Quero parabenizá-lo pela resposta simplesmente brilhante que foi dada ao Dr. Luiz Mott. A coragem, o equilíbrio e o conhecimento demonstrados na sua resposta merecem um prêmio: o prêmio da coerência Como não posso premiá-lo, conforto-lhe com a lembrança de que no Senhor, nossa obra não é vã! Eu vivi no engodo da homossexualidade e do discurso de seus defensores (Mott é o “arauto mor” desse caos completo). Durante a adolescência, bebi das águas imundas das idéias do Dr. Mott, pois era a única voz que se levantava nesse país para falar do tema... os outros se calaram e deixaram que anomalias se propagassem como lixo radioativo pelo nosso país. Minha vida foi uma sequência de imundícies, incertezas, frustrações, humilhações e desespero enquanto estive vivendo o comportamento homossexual.

Felizmente, em 30 de março de 1997, numa noite de verão, entendi que tudo não passava de um engodo no qual em me envolvi por razões psico-sociais (pobreza extrema, abuso sexual, família disfuncional, educação precária e total ausência de valores morais e humanos). Eu divulgo na internet minha experiência e estudos nessa área, já que tenho pesquisado exaustivamente esse tema desde 2005. Estou prestes a publicar meu próprio livro no qual demonstrarei com sólidos fundamentos científicos as falácias do Movimento Gay e a maravilhosa esperança para aqueles que desejam se livrar da atração pelo mesmo sexo. Aguardem-no!

Pode divulgar a totalidade dessa mensagem ou parte dela conforme o seu interesse e conveniência desse jornal. Sinto-me como seu devedor pelo incentivo que recebi a partir da demonstração de coragem que vi em sua argumentação frente ao Dr. Mott.

Mais uma vez: PARABÉNS!

Um forte e fraterno abraço, Claudio Soares

Helder Melo 15 de agosto de 2007 Caro professor, Deus lhe abençoe pelo trabalho que o senhor promove, sobretudo a divulgação cultural dos produtos do espírito humano preocupado com o que está acima dele. [...] Um cordial abraço e que Deus abençoe a sua família e ao senhor.

Helder de Medeiros Melo – Fortaleza, CE, Brasil

Raimundo Bernardes 6 de agosto de 2007 Olá professor Olavo de Carvalho, Sou o Raimundo Bernardes, um jovem estudante aqui da Bahia que te admira enormemente e que se sente privilegiado por ter a oportunidade de ser contemporâneo de um intelectual dotado não somente de tão vasta cultura e inteligência, mas, sobretudo, de muito talento, honestidade, coragem, honradez, força e lirismo (lirismo sim, pois não podemos esquecer a beleza com que expões tua teoria a respeito da fundamentação metafísica dos gêneros literários e tantos outros textos que não vêm ao caso citar aqui). [...] Raimundo Bernardes

Rodrigo Almeida 16 de julho de 2007 Caro Olavo, Acabo de ler o seu generoso artigo “Quando a alma é pequena” e foi, mais uma vez, uma leitura muito proveitosa para mim. Na verdade, eu nunca pude achar melhores análises daquilo que eu sempre senti em relação ao Brasil do que aquelas que eu encontrei nos excelentes “Quem come quem” e “A origem da burrice nacional”, entre outros. Querendo ou não, você se tornou O especialista da grande “malaise” nacional (e portanto da inanição intelectual e da profunda doença espiritual de cada um de nós). A cada um desses pequenos ensaios é como se você nos desse (a nós, os moribundos) novas e melhores pistas sobre os “porquês”, os “quandos” e os “comos” da nossa morte anunciada.

Obrigado e um grande abraço, Rodrigo Almeida

Sidney Vida 30 de julho de 2007 Prezado Professor Olavo, Li o editorial do Jornal do Comércio, Perdedores , mas antes já tinha escutado o seu último programa no Blog Talk Radio, do dia 23 de julho.

Deve ter repercutido muito, pois o Sr. escreveu até um editorial com o trecho do programa que nos interessa. Pois bem: sou presidente da Juventude Democrata aqui de Santos, SP. Também faço parte da executiva do partido (secretário-geral). Acompanho o Sr. já faz um tempão e acredito tanto nas suas palavras (do programa), como na sua escrita (do editorial); até porque ambas tratam do mesmo assunto. Montei um grupo de jovens esclarecidos, que acreditam no ideal liberal (no sentido econômico e clássico, não na forma empregada pelos esquerdistas) e no conservadorismo político e moral (Cristianismo). Em pouco tempo, ficamos espantados com a quantidade de pessoas que nos procuraram porque partilham do mesmo pensamento. [...] Receba as minhas cordiais saudações, Sidney Vida

Lívio Luiz Soares de Oliveira 6 de agosto de 2007 Prof Olavo de Carvalho, [...] Continue firme em sua denúncia contra os nefastos esquemas esquerdistas revolucionários Meu respeito e admiração.

Cordialmente, Lívio Luiz

Jaime Kopstein Primo 6 de agosto de 2007 Mestre Olavo, Não perdes a forma! Que baita artigo! Indubitavelmente és o único possível guia para uma (um dia, quem sabe) hipotética direita brasileira. Que solidão a tua!

Jaime Kopstein Primo

Flávio de Oliveira Santos 9 de agosto de 2007 Prezado Senhor Olavo de Carvalho:

“A lógica da destruição” constitui, sem dúvida, em leitura obrigatória para o entendimento da mentalidade revolucionária. Em língua portuguesa – não conheço outras línguas – não existe igual. A partir desse texto, é possível criar uma estratégia de resistência e de combate. É espantoso o alcance do seu artigo. Cordialmente, Flávio de Oliveira Santos

André Luís 13 de agosto de 2007 Caro Olavo, Tenho formação e trabalho no ramo tecnológico (engenharia eletrônica), mas além das exatas, gosto e leio também sobre outras ciências, especialmente filosofia. Sinto-me algo incomum no mundo massificante no qual vivemos por querer pensar livremente (por natureza não me filio a praticamente nada – nem para time de futebol eu torço), mas me afino bem com idéias como as suas – leio regularmente seus artigos e os tenho indicado aos amigos. Bom, desculpe a chatice; em resumo, considere-me um anti-esquerdista por tudo o que sabemos. E parabéns pelo “A Lógica da Destruição”, para mim suas explicações fecharam um importantíssimo círculo na compreensão dos métodos esquerdóides. [...] Abraços, André Luís

Lilão Pipa 18 de junho de 2007 Caro Olavo, repasso-te mensagem de consolo por mim dirigida hoje ao Sr. Armindo Abreu, vulgo, Bosta, num irrefreável rompante de misericórdia para com o coitado. Parabéns, Olavo! São admiráveis tuas réplicas para esses sujeitos, que, a rigor, não mereceriam sequer um segundo da tua sagrada inteligência. Mas, como sei que o senhor é um intrépido cristão, sei que não lhe pouparia a profunda virtude da caridade.

Ulisses Papa ____ Obumbroso Sr. Armindo Bosta Abreu, É com supina satisfação que vos venho felicitar pela egrégia cagada do teu artigo no Diário do Comércio, datado de 18 de junho. Bem feito! Se tivesses um pouquinho de vergonha na cara ou senso de honra, suicidar-te-ias, após a réplica do Olavo, e assim nos pouparia da tua mal-cheirosa existência. Como sei que não tens, afinal és um pretensioso douto tropical, que adora arrotar erudição sem a possuir verdadeiramente, irás ficar inconformado, estupidificado ante tamanho rebate, mas jamais o demonstrarás. Ao invés, aparentarás desdém, como se não fosses tu o alvo de tão ácidas palavras plenas de razão. És um anão intelectual, e se teus pares te reconhecem como gigante, será apenas porque o entourage todo é estulto como o senhor, e sequer enxergam a idiotice imperante que os cerca. Sabe-se de antemão como os vermes tal qual o Sr. se comportam quando retirados do âmbito fecal e colocados ao sol. Contorça-te! Gema de vexame!

Aliás, se ignorância, má fé e estultícia, numa mistura satânica, fossem uma bênção, o senhor viveria em estado de graça.

Lilão

André Franzin 3 de agosto de 2007 Sou ouvinte do seu True Outspeak e leitor dos seus artigos no Diário do Comércio. Quero lhe agradecer pelo grande trabalho que você desempenha, certamente muito valioso para todos aqueles que estão mais interessados em aprender alguma coisa, do que em ter um diploma da USP para pendurar na parede. [...] André Franzin Americana, São Paulo

Francisco Pompeu 12 de julho de 2007 Caro Olavo, Acompanho seus artigos há muito tempo. Nestes tempos de escuridão, de dominação da cultura coletivista, de predomínio do mal, suas idéias são um conforto e um incentivo à resistência. Fiquei preocupado com a não-publicação do seu artigo semanal no DC, na segunda-feira última, e hoje, no JB. Aconteceu alguma coisa? Espero que não.

Chico

Leonardo Corrêa 14 de junho de 2007 Caro Olavo, O seu diagnóstico no artigo do Diário do Comércio, 11 de junho de 2007, no tópico “Figuras de linguagem”, é perfeito. [...] Um abraço, Leonardo Corrêa

Luiz Carlos Bragança de Pina 3 de abril de 2007 Olavo de Carvalho, Fiquei muito satisfeito e feliz com o lançamento da revista “Mundo Real”, reunião dos seus artigos publicados no Diário do Comércio. Deus o abençoe por esta iniciativa, que há de inspirar novos valores intelectuais. Eu mesmo passei a valorizar a vida intelectual através da leitura dos seus textos, quando publicados no jornal O Globo. Bem, esta é uma outra história da minha vida. Continue firme no caminho. O meu apoio não é muito, mas é honesto e humilde. Aqui fico e, pode crer, rezo para que o senhor sempre possa sentir a força da luz de Nosso Senhor Jesus Cristo iluminando os seus dias, e que Nossa Senhora o embale.

Com respeito e admiração, L. C. Bragança de Pina 27 de fevereiro de 2007 Nobre Olavo de Carvalho, [...] Sim, o senhor é odiado por muitos, mas a maioria desses muitos quando questionados o porquê, simplesmente respondem da seguinte forma: Direitão, conservador, reacionário etc. Eu acredito, Olavo (permita-me tratá-lo assim), que uma outra maioria, afastada dos veículos de informação, academias, louvam e lutam, com dignidade e honra, na defesa das suas idéias e, quando surgem divergências, elas são claras e diretas. Conte com o meu apoio. Não sou como os que combatem as suas idéias, através da inveja, como o fazem os divulgadores servis do esquerdismo internacional. Não, pelo contrário, regozijo-me por ter a oportunidade de ler textos de um brasileiro de elevada inteligência. Sei reconhecer os meus limites intelectuais, mas também não sou trouxa. Por isso o valorizo como grande pensador, assim como valorizo Machado, Conrad, Meira Penna, Santo Agostinho, São Tomás, dentre outros escritores.

Rezo para que o senhor tenha vida longa e saúde. Que Deus o abençoe. Que Nossa Senhora o ampare e Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os seus caminhos.

Com respeito e admiração, L. C. Bragança de Pina

Leandro Freitas 10 de maio de 2007 Caro Prof. Olavo Em primeiro lugar, gostaria de cumprimentá-lo e dizer-me seu leitor assíduo. Acesso seu site semanalmente sempre em busca de seus textos bem elaborados, nos quais encontro fonte de boa informação, boa cultura, boa formação intelectual, aprimoramento de minha redação e até mesmo de algumas boas risadas com seu humor, por vezes ácido. Tamanha é minha admiração, que chego às vezes a ler alguns artigos mais de uma vez, em busca de algum detalhe interessante que tenha passado despercebido na primeira leitura. [...] Um forte abraço, Leandro Freitas

Marcelo Cerilo Alves 26 de março de 2007 Parabéns pelo artigo publicado neste 26 de março, e por todos os artigos publicados nesta página “MUNDO REAL” do Diário do Comércio.

Muito obrigado mesmo!

Cordialmente, Marcelo Cerilo Alves São Paulo-SP

Leonardo 21 de março de 2007 Prezado amigo, Foi com comoção que li seu artigo do dia 21 de março de 2007 pelo Diário do Comércio. Nunca acreditei nestas campanhas que falam que dar esmola aos mendigos é um ato de conivência com sua comodidade (como se um ser humano desejasse viver nesta situação). [...] Leonardo

Marcelo Pinho dos Santos 09 de março, 2007 Prezado Sr. Olavo de Carvalho, Tenho lido com muita atenção seus artigos publicados no jornal Diário do Comércio, diga-se de passagem, muito mais profundos que os das revistas acadêmicas especializadas que me indicam no curso de pós-graduação em Direito do Estado. [...] Marcelo Pinho dos Santos

Edilberto Lucas 17 de março de 2007 Sr. Olavo, Estou através deste, transmitindo meus parabéns ao senhor, pelos excelentes textos apresentados em seu site.

Como leitor assíduo do seu espaço, quero destacar dois de seus escritos mais recentes, os quais achei ótimos: “Brasil Macunaímico” (o absurdo daqueles gestos e postura do ministro) e o elucidativo “Ateus e ateus”.

Parabéns Sr. Olavo e aos seus leitores pelo privilégio e a oportunidade de lerem seus escritos.

Edilberto Lucas

Célia Kitsuta 30 de abril de 2007 Prezado Olavo de Carvalho, Acho que estou entre aqueles que possuem menos de três neurônios: estou com 58 anos e até que começasse a ler seus artigos no Globo, em 2001, permaneci completamente imbecil em termos de compreensão política. A vida toda fui apenas uma ‘inocente útil’ demente confiando cegamente na essência justa do socialismo, tendo participado até então de todas as campanhas do PT. Deus tenha misericórdia de mim! Num curto período, durante o regime militar, cheguei a ceder temerariamente a minha própria casa para reuniões de uma célula clandestina do MR8, onde éramos doutrinados nas cartilhas da Martha Harnecker, no Manual do Guerrilheiro, nos ensinos de Che Guevara, no materialismo de Marx/Engels, Oparin, Darwin, etc. Mais tarde, me associei ao núcleo do PT em São João de Meriti, onde morava. Em 83 fui delegada sindical ao Congresso de fundação da CUT. Em 92, finalmente li a Bíblia e me rendi ao Senhor Jesus. Mas, o choque cultural não foi imediatamente sentido, pois logo fui apresentada ao pastor Mozart Noronha, da Luterana em Ipanema, ativista do PT, que complementava as mensagens do evangelho com citações de Rosa Luxemburgo e cia., e assim segui crendo que socialismo e cristianismo tinham tudo a ver um com o outro. Eu estava completamente cega!

Devido à libertação da minha mente pela leitura atenta dos seus artigos e pelas pesquisas a que eles me conduziram, em 2002 não votei no PT, pela primeira vez.

Sou grata a Deus por sua vida, por sua coragem e habilidade em revelar com clareza a natureza essencialmente maligna do ideal socialista, em todas as suas correntes e expressões, e das práticas necessariamente homicidas decorrentes.

Gostaria de contribuir financeiramente para a manutenção do seu trabalho, que tem abençoado muito a minha vida, mas no momento poderia dispor de apenas 50 reais por mês, que é tão pouquinho, eu sei. Mas, se te interessar informe os procedimentos.

Com relação ao seu artigo “Brasil Macunaímico”, os links indicados foram retirados do site do governo. Queria saber, há algum recurso técnico que possibilite a recuperação daqueles dados, como parece que foi feito em relação ao “Fórum de São Paulo”?

Quero dizer que seu trabalho é absolutamente necessário e foi um instrumento de libertação para a minha vida!

Por sua atenção, muito obrigada! Que Deus continue a te abençoar e a te guardar sempre de todo mal! Célia Kitsuta

Rafael Oliveira 2 de fevereiro de 2007 Olavo, Há dois anos que ouvi seu nome numa conversa com um conhecido, e desde então tenho acompanhado seus textos, artigos, livros, podcasts e agora o “sinceridade de fato” semanal. Esse email é para lhe agradecer e dizer que você é realmente uma pessoa abençoada, que Deus continue lhe dando forças e a coragem costumeira para falar o que sabe e nos trazer notícias. O que atrai sobretudo no seu discurso é a capacidade que você tem de sintetizar assuntos que parecem não ter a menor relação, de forma a conferir uma coesão e unidade aos temas, políticos, históricos, sociais, religiosos e cotidianos. Depois de ler o artigo: “A autoridade religiosa do mal” (muito bom!), e tendo acompanhado sua trajetória nesses dois anos, eu senti que precisava lhe mandar esse email para agradecer. Muito Obrigado.

Rafael Oliveira Salvador Bahia

Daniel Bastos 15 de novembro de 2008 Caro professor, A anos venho lendo seus escritos, que mudaram minha forma de entender o mundo, e guiam meu saber. [...] Tenho medo de em alguns anos seu site ser mesmo censurado, mas, a menos que censurem o meu cérebro, jamais esquecerei esses ensinamentos.

Caso Deus permita, talvez eu um dia ainda ouça mais dos ensinamentos ao vivo.

Atenciosamente, Daniel Bastos Recife, PE

Felipe Corazza 17 de novembro de 2008 Se tiver tempo de ler esta mensagem, receba meu abraço e agradecimento pelo texto “Uma lição de Hegel”. Estou passando por um período extremamente difícil e estou certo de que as principais causas do meu “quase desespero” atual foram as seguidas desilusões que tive em relação a diversas idéias e pessoas. Seu texto me ajudou a colocar a cabeça no lugar e a questionar e tentar corrigir a minha tendência atual a um “niilismo comodista” (não tenho muita bagagem de conceitos filosóficos, mas acho que essa é a melhor maneira de expressar essa tendência de dizer que, já que está tudo errado, o negócio é não fazer nada).

Grande abraço Felipe

Marcelo Alonso 16 de novembro de 2008 Sr Olavo, Agradeço a sua coragem.

[...] Vi seus vídeos. Que homem corajoso! Eu já enfrentei um homem armado, mas falar de Niemayer e Chico Buarque... puta que pariu! Isso é coisa pra macho. Estava na garganta. Continue dando porrada neles. Chega a ser engraçado falar a verdade.

Ps: Seus palavrões estão muito bem empregados.

Cordialmente, Marcelo

Ana Regina Bouças 30 de novembro de 2008 Prezado Prof .Olavo [...] Seus ensinamentos foram como uma benção na minha vida. O mesmo posso dizer com relação à vida de minha filha, professora de sociologia e “também” de filosofia, ela tem lido suas apostilhas que sutilmente deixo ao largo pela casa. Mas o importante é que vejo as anotações dela nas apostilhas, e seu interesse sublinhando conteúdo e frases boas.

Sinceramente, Ana Regina

Juliano Müller 18 de outubro de 2008 Caro Olavo, Durante muitos anos da minha vida fui um idiota, um “imbecil coletivo” em radical ascensão. As poucas verdades, que aprendi com meus pais e avós (principalmente meus avós) aos poucos fui perdendo, fui esquecendo e me tornado um “jovem” que vivia na “moda”, um jovem que havia se “libertado” para a vida... (como 99,99% dos jovens brasileiros).

Hoje, graças a você Olavo, recuperei muito mais do pouco que havia perdido. Estou finalmente compreendendo o que é um Ser Humano de verdade, o que é viver de verdade. Graças a você estou mudando meu comportamento, meu modo de vida, minhas atitudes perante aos outros, enfim, estou aprendendo a viver uma vida de FILÓSOFO.

Talvez eu nunca venha a ser um Filósofo, mas com certeza serei um Ser Humano capaz de ter uma consciência, um Ser Humano consciente de que não sou necessário para Deus, mas se eu existo, devo minha vida à Ele. Vou buscar “a verdade somente a verdade nada mais que a verdade”, seja ela qual for. E se eu conseguir viver, um mínimo que seja, uma vida como a de Olavo de Carvalho e Platão, talvez eu alcance o Reino dos Céus.

Só queria, com esse pequeno “texto” te agradecer e pedir a Deus que abençoe você e sua família. Obrigado Olavo por tudo que tens me ensinado e que ainda vais me ensinar, pois pretendo participar de seu Seminário de Filosofia On-Line .

Juliano Regis Müller Novo Cabrais – RS

Wenceslau Neto 5 de outubro de 2008 Prezado Sr, Não tenho palavras para comentar todos os seus artigos, por mim lidos no dia de hoje. Excelentes é a minha humilde qualificação. [...] De qualquer forma fica o meu agradecimento pelo seu trabalho que me esclarece e ainda mais fortifica as minhas idéias.

Atenciosamente.

Wenceslau Neto

Ilza Costa 29 de agosto de 2008 Sou viciada em seus artigos. São perfeitos, mas este foi a coisa mais espetacular que li. Deveria ser leitura obrigatória em todas as escolas do país e para todos os brasileiros. Farei minha parte. Vou divulgá-lo o máximo que puder.

Meus cumprimentos.

Ilza Costa Professora aposentada, temporariamente, na função de advogada.

Pouso Alegre (MG)

João Cláudio 21 de agosto de 2008 Bom dia, Olavo, Ouvi recentemente seu programa do dia 04/08 e ouvi que você respondeu minha pergunta. Muito obrigado! Sou bastante grato!

Agradeço também a ajuda que tem me dado através de seus textos, livros e programas, pois depois que descobri você, através do Girard, minha vida intelectual mudou bastante e continua mudando para melhor. Por conta de sua influência, deixei completamente a esquerda e hoje sou de direita. Isso começou a acontecer há aproximadamente um ano e meio. [...] Muito obrigado pela atenção.

Abraços.

Leonel Silva 18 de agosto de 2008 Professor Olavo, Este é um presente de agradecimento pela quantidade de informação e conhecimento que o senhor está me ajudando a adquirir. Já fazem dois anos que acompanho o seu trabalho e tenho tentado seguir suas sugestões de leitura [...].

Obrigado por tudo e espero continuar tendo o senhor como Modelo [...].

Abraços, Leonel

Alberto Sollero 12 de agosto de 2008 Mestre Olavo, Que bom poder contar com tão sábias e bem escritas palavras. Meus sinceros agradecimentos por me ajudar a conhecer a verdade, já há alguns anos.

Rezemos para que a mão de Deus nos reconduza ao bem.

Abraços, Alberto Sollero

Rodrigo Nestor Etges 19 de julho de 2008 Caro Olavo, Gostaria de te agradecer por ter mudado meu modo de ver o mundo. Já fui um petista convicto. Na verdade, me declarava um comunista. Acreditava realmente em toda baboseira esquerdista. Lia seus artigos na Zero Hora e ficava realmente revoltado. Cheguei a escrever uma resposta a uma das colunas, alertando-o que a guerra fria acabara, a união soviética sucumbira, que não havia chance de ocorrer uma revolução socialista e que não havia intenção do PT de que algo semelhante ocorresse aqui. Ficava irritado, mas aos poucos comecei a perceber que tinhas razão. As coisas que escrevias sobre táticas esquerdistas, mentiras repetidas, o anti-americanismo, a pedagogia socialista, o posicionamento omisso dos jornalistas sobre a realidade dos movimentos sociais, etc. O que me ajudou também a me livrar de ser “de esquerda” foi que, não sei por que, desde a infância tinha muito interesse sobre a URSS. E quando comecei a “ficar politizado, com pensamento socialista” comecei a perceber algumas coincidências entre os bolcheviques e os petistas. Semelhanças alertadas pelos seus artigos. Depois lembro do senhor falar em simulação, que a esquerda mundial faz questão de que os todos pensem que o comunismo não existe. Podemos perceber isso muito nitidamente. Também a simulação dos esquerdistas sobre aceitar o capitalismo, a democracia, as liberdades para depois suprimi-las. [...].

Muito obrigado por ter ajudado a me libertar.

Abraço Rodrigo Nestor Etges

Eduardo Jorge Sousa Santos 6 de junho de 2008 Chamo me Eduardo Santos, do Porto, Portugal. Um grande agradecimento por tanta informação disponibilizada. Gosto muito dos textos.

Um abraço.

João Filho 6 de junho de 2008 Caro, Olavo, Esta mensagem é de agradecimento. Conheci seus textos através de um amigo em 2003 e não pude mais deixar de lê-los. Através deles revi minha vida moral, espiritual, intelectual. O senhor foi um clarão na minha vida. Contigo aprendi o verdadeiro caminho intelectual. Faço minhas suas palavras sobre a poesia de Antonio Machado: “Jamais serei grato o bastante ao poeta que inundou de luz tantos momentos sombrios da minha vida.” O mesmo acontece comigo em relação ao senhor. [...] Com afeto sincero, um grande abraço, João Filho.

Luiz Frota 16 de outubro de 2008 Estimado Olavo de Carvalho Li, com grande satisfação, o seu artigo intitulado “Incomparáveis”, no Diário do Comércio, de São Paulo. Considerei-o excelente, não só pela apresentação correta das razões da demissão do meu pai [Sylvio Frota], há trinta anos atrás, bem como pelo desnudamento do perverso pensamento dos marxistas sobre aqueles que os combatem. Agradeço-lhe, sobretudo, por haver proporcionado esta significativa oportunidade de disseminação, ao grande público, da verdade sobre a participação do meu pai naqueles eventos históricos citados.

Um cordial abraço do Luiz Frota

Roger Prado 6 de março de 2008 Prezado Olavo, [...] Conheci o seu posicionamento através de um vídeo do youtube, a partir daí passei a me interessar, momento em que acessei o seu site olavodecarvalho.org. Após alguns vídeos me senti como o “Nel” do filme “Matrix”, logo após tomar a pílula vermelha. Sinceramente, foi como se eu acordasse de uma realidade paralela, tudo começou a fazer sentido. Eu era um destes imbecis que adorava posar de intelectual com um livrinho do Karl Marx debaixo do braço.

Esta sensação é, ao mesmo tempo, libertadora e apavorante, libertadora porque parece que me livrei de 100 quilos de correntes, apavorante porque me deparei com a realidade atual e vejo como o nosso inimigo está avançado na sua intenção de construir uma nova ordem mundial.

Por isso, peço a nosso senhor Jesus Cristo que continue abençoando sua vida e que prolongue seus dias na terra para que você continue “trazendo” para a realidade algumas pessoas como eu.

Quero dizer que mesmo tendo limitações culturais, uma vez que, como a maioria dos jovens, não era dado a leitura ou ao estudo, estou transmitindo suas avaliações para minha igreja, já que está funciona na forma de células. [...] Abraços, Roger Passos – MG

Leonardo Barudi 19 de novembro de 2007 Caro Olavo Esse pequeno email é só pra demonstrar minha gratidão pela existência de sites como o seu, que mais de uma contribuíram vez para que eu não me tornasse uma completa besta esquerdóide.

Sou um estudante de jornalismo, pretendo me formar em julho do ano que vem. [...] Até não muito tempo atrás eu era um esquerdista fervoroso. Com o socialismo nunca tive nada além de um flerte, o desconsiderei antes mesmo da faculdade – antes mesmo da maioridade – mas sempre achei que ser ‘esquerda moderada’, era algo bacana da minha parte. O ponto de vista me foi reforçado ainda mais quando entrei na faculdade. Passei longos 4 anos ouvindo exatamente isso, achando que Kotscho e Chauí eram belos exemplos de jornalista e pensadora; que tentar ser o mais imparcial possível é uma bela ingenuidade; que tudo, se possível, deve ser relativizado; que Che matava, mas era por um bom motivo; que Cuba não é tão ruim assim, são os EUA que a pintam tão feia; enfim, quase meia década achando que a doutrinação com a qual me alimentavam era pura e simples educação.

Felizmente, de um ano e meio pra cá, uma série de acontecimentos fortuitos foram clareando meus pontos de vista – entre eles o fato de que sempre desconfiei do amor da esquerda por Cuba (nunca engoli Fidel) e de seu apoio ao movimento GLBT (primeiro por ser cristão, e, portanto, ter a obrigação de ser contra, e também por achar que opção sexual nada tem a ver com política). Comecei a buscar argumentos contra os aspectos que não concordava, especialmente quando ouvi falar do infame Projeto de Lei 122, que me revoltou bastante. Já conhecia seu site, Olavo, mas, por culpa da doutrina que me enevoava as vistas, achava ‘direita demais’. Foi na época que o projeto maldito começou a ser discutido que fui obrigado a fundamentar minha opinião em bases sólidas. E assim, através dos textos de um amigo, o “Profeta Urbano” Edinho Camargo, que entendi que seu trabalho (e o de autores semelhantes) não só é inteligente e sério, mas sim VITAL para as pessoas que ainda pensam nesse país.

No momento, ainda estou procurando me desintoxicar da lavagem cerebral que recebi na faculdade, mas cada vez que leio um texto seu, ou de autores como os dos Blogs Coligados, consigo enxergar mais longe os grandes esquemas e as grandes forças que vão movendo o cenário político mundial, e vou reconstruindo minha consciência política pra que ela funcione de acordo com a realidade, e não com o que eu julgava ser correto até não muitos meses atrás.

Enfim, muito obrigado, meu caro Olavo. Muito obrigado mesmo.

Um abraço, Leonardo Barudi

Weslley L. Lüdtke 22 de novembro de 2007 Bom dia Prof. Olavo, Venho por meio deste manifestar meu agradecimento pelo imenso bem que o Sr. tem feito a tantas pessoas que buscam fugir do lugar-comum, sobretudo a jovens como eu.

Terminei a leitura da entrevista à “Poesia e Afins”, e suas palavras são a pura expressão da honestidade, da verdade, algo incomparável.

Muitos dos meus conceitos foram mudados com a leitura de seus textos, e percebo que tudo que foi mudado realmente devia ser mudado.

Embora seu trabalho alcance um número pequeno de pessoas, comparando com toda a alienação reinante, como o Sr. disse, se tiver um só aluno, pode ser que ele repasse o que aprendeu a outras pessoas, e daí valeu a pena.

Ontem à noite, senti o dever de orar para que Deus continue abençoando o seu trabalho.

Um forte abraço, Weslley L. Lüdtke

Victor Dernis Madera Garcia 8 de setembro de 2007 Caro Olavo, Após assistir sua mensagem sobre a finalidade de sua missão cultural, senti uma necessidade imensa em agradecer-lhe. Tenho 47 anos. Desde os 15 até os 40 me entupi de lixo comunista sem aprofundar-me em questão nenhuma, repetindo simplesmente a cantilena esquerdista. Aos 40 percebi que nada do que eu havia “aprendido” se encaixava na realidade da vida. Sentia-me um condenado e não entendia a contradição que em mim se dava entre o anseio pelo Sagrado e a contaminação do que eu chamava de materialismo. Graças a Deus, e antes tarde do que nunca, em 2005 soube de sua existência quando de uma troca de “opiniões” com um aluno seu. Através de seus textos, de sua palavra e do seu exemplo, que removeram aquela cortina de ferro instalada em minha mente, minha ignorância foi totalmente desmascarada, provocando um renascimento em minha alma, ajudando-me a captar minha própria verdade. Operou-se em mim profunda transformação: abrindo coração e mente, a espiritualidade, antes reprimida, encontrou ressonância e abrigo junto à sabedoria contida nos caminhos que você sabe indicar como ninguém. Foi através de você que seres maravilhosos passaram a ampliar meu mundo tão ridículo e limitado. Agradeço com toda minha alma por isso. Embora viva o resto dos meus anos com esse gosto de revelação tardia, tenho hoje clara a diretriz que possa nortear os passos de meus filhos e sinto-me seguro no caminho de volta, com a certeza de que cheguei às portas do inferno, mas delas me distancio dia a dia. Que Deus continue lhe abençoando.

Com eterna gratidão, Victor Dernis Madera Garcia

Fredy Rodovalho 29 de julho de 2007 Prezado Professor, Descobri seu site visitando o blog de Julio Severo, e desde então, me tornei profundo admirador dos seus escritos. Moro no interior de Pernambuco, mais exatamente no sertão do São Francisco, Ipubi. Por aí dá pra se ver a total falta de informação necessária pra que se possa desenvolver o senso crítico sadio diante de um Estado entregue às mãos de esquerdistas comprometidos com o total desmantelamento dos princípios éticos e morais necessários a uma Sociedade justa, democrática e livre. Fiz questão de enviar email ao Jornal do Brasil, protestando contra a atitude do Movimento Homossexual de tentar, através de enxurradas de denúncias ao JB, calar-lhe.

Obrigado, Prof. Olavo de Carvalho, sem dúvida alguma, o maior filósofo nacional da atualidade.

Abraços, Fredy Rodovalho.

Lucas 29 de julho de 2007 Caro prof. Olavo de Carvalho, Estou lhe escrevendo para agradecer pelo comentário que você deixou em meu site (em relação ao meu artigo sobre o “Jardim das Aflições”) e por suas palavras no último True Outspeak .

Eu já havia ficado extremamente feliz com seu comentário no meu blog, mas eu realmente não esperava receber palavras tão encorajadoras como as do True Outspeak . Valorizo muito sua opinião, pois o seu trabalho exerceu uma grande influência em minha formação.

Embora eu não tenha sido seu aluno, a leitura dos seus textos me marcou decisivamente.

Acredito que a principal questão foi ter entendido o verdadeiro significado da vocação intelectual. Este entendimento reforçou a minha convicção de que este era exatamente o meu caminho, assim como também me mostrou quais deveriam ser os meus próximos passos.

Deste então, tenho sempre seguido suas indicações de estudo e me esforçado em entender cada assunto da melhor maneira possível e de explicá-los com o máximo de clareza. Comecei a escrever estes textos e publicá-los na internet justamente como parte deste esforço de auto-educação.

Portanto, receber o seu reconhecimento enquanto estou dando estes primeiros passos é, para mim, extremamente encorajador, pois me faz acreditar que realmente conseguirei me tornar o estudioso sério que almejo ser. Por isso, suas palavras me soaram como um sinal de que estou no caminho certo e me deixaram motivado para continuar me esforçando cada vez mais.

Mais que lhe agradecer pelos elogios, portanto, lhe agradeço pelo que aprendi com o senhor, pelas orientações de estudo e, principalmente, pelo estimulo para me dedicar à vida intelectual.

Muito obrigado e um grande abraço

Dilnei Alfredo Broering 20 de julho de 2007 Sr Olavo de Carvalho Entrei em contato com sua obra através do YouTube. Li seu blog e comecei a ler seus artigos a partir de 1998.

É surpreendente como seus artigos me ajudaram a compreender o grau de alienação em que eu estou.

[...] Estou lendo “O Jardim das Aflições” e já encomendei “O Imbecil Coletivo” e “Aristóteles em nova perspectiva”. Pretendo comprar, na medida do meu alcance financeiro, todas as aulas em livros e DVDs da “História Essencial da Filosofia”. Acompanho o TalkRadio e, enfim, resumindo, sinto um profundo pesar por não dispor do dinheiro necessário para adquirir toda sua obra publicada, imprimir e encadernar todos os seus artigos e ir às teleconferências no Brasil e até os USA para o curso sobre paralaxe que a meu ver seria de inestimável valor para minha sanidade. Mas hoje o peso do meu passado, aliado à falta de dinheiro, exige que eu modere minha gula.

Escrevo estas palavras como um sinal do meu maior apreço e reconhecimento pelo seu trabalho extraordinariamente valioso.

Que Deus abençoe e continue iluminando ainda mais a sua pessoa, a sua família e todos os que têm o privilégio de nutrir-se de tão admirável esforço para compreender e explicar o mundo.

Sinceramente Dilnei Alfredo Broering Blumenau – Santa Catarina

Clóvis Benedito Costa Lino 2 de julho de 2007 Caro Sr. Olavo Quero exteriorizar meu profundo contentamento ao descobrir seus textos, considero agora não ter sido em vão todos aqueles momentos que passei vasculhando na internet em busca da explicação e compreensão para a conturbada e angustiante realidade da existência nestes dias atuais [...] Tenho observado que embora distante geograficamente, sua pessoa dedica bastante energia para a questão da libertação e salvação dos corações e mentes dos brasileiros.

Generalizo dizendo que o esforço para botar apenas o pescoço para fora deste atoleiro, existente aqui, já é demasiadamente grande, mas, especialmente para mim, após encontrar seu trabalho, acredito haver uma saída honrosa para aquele que tiver bom ânimo. Tenho pensado seriamente em ser um de seus discípulos.

Que haja vida longa ao Sr. Olavo e ao fruto do seu trabalho com as bênçãos do Sr. Deus.

Obrigado.

Adilson Koslowski 17 de abril de 2007 Prezado Filósofo Olavo:

Gostaria de agradecer os artigos, livros, bem como o talk show que o senhor tornou disponível na internet. Li com satisfação suas duas obras acadêmicas: “O jardim das aflições” e “Aristóteles e os quatro discursos”.

Obrigado!

Afetuosamente, Adilson Koslowski

Cícero de Melo Lucas 24 de outubro de 2006 Caro Sr. Olavo de Carvalho, Sou um engenheiro de 36 anos. Trabalhei por 10 anos em duas empresas de abrangência mundial. Percebi no ano passado uma oportunidade de iniciar um negócio próprio como consultor na área de otimização e qualidade de processos para empresas de médio porte. Saí do último emprego e ingressei num mestrado acadêmico em Engenharia de Produção numa universidade federal, isso como parte da formação necessária para a consecução responsável do meu intento empresarial. Uma atitude realmente arriscada, mas no meu íntimo, impossível de não ser sequer tentada uma vez na vida.

Neste período no qual posso dispor de meu tempo mais livremente, em parte devido à dedicação exclusiva ao mestrado, tive a grande dádiva de encontrá-lo inicialmente nas páginas da Zero Hora, e desde os últimos oito meses, diariamente no MSM e em seu site pessoal. Li seu último texto, “Sociopatia e Revolução”, com uma atenção especial, tomando notas e estruturando meu pensamento rigorosamente como preconiza Mortimer Adler em seu excelente “Como Ler um Livro” (tenho a tradução da UniverCidade). Confesso duas coisas a partir desta leitura: uma nova compreensão das forças sociais se abriram para mim, desta vez fundamentada e abrangente; e ainda, fiquei intrigado em entender de onde vem tanta generosidade da sua alma em dispor do tesouro do seu conhecimento a quem quer que visite sua página. Minha intriga não durou muito, pois logo me lembrei de um outro artigo seu escrito no crepúsculo do ano de 1999, titulado “Espírito e Cultura: o Brasil ante o sentido da vida”. Entendi que trata-se do seu compromisso e responsabilidade com o segundo maior mandamento divino, dito pelo próprio Jesus no Evangelho (Mt 22, 37-40).

Atualmente leio “The Intellectual Life” (Sertillanges), recomendado por você em outro artigo e longas reflexões o livro exige de mim, mas nunca me sinto consumido, antes o contrário, percebo-me cada vez mais pleno da responsabilidade da qual não posso fugir, sob pena de ver toda minha consciência esfarelar-se pelo caminho, sem volta.

[...] Mantenho a alegria da humildade cristã e me esforço para governar-me, mas não nego meu papel no contexto da sociedade, e também não me furtei desde o primeiro mês a atender seu ‘Apelo aos leitores brasileiros’ ainda que praticamente de forma simbólica, porém regular ‘como um cuco’. Rogo ao Pai sua permanência no espírito de imensa liberalidade em dispor da sua sabedoria, especialmente no que se refere a indicar as leituras e estudos para a formação do homem de bem.

Um grande abraço e, mais uma vez, meu mais sincero e profundo muito obrigado.

16 de março de 2007 Caro Sr. Olavo, Eu tenho um agradecimento ao Rodrigo Constantino. No debate recente que houve entre vocês dois, me parece que surgiu em ti uma inspiração adicional para escrever sobre conservadorismo, tradição e fé. Já li muitos textos e livros teus verdadeiramente reveladores, mas estes últimos artigos escritos desde a tal polêmica são formidavelmente lúcidos, uma série para se guardar para a vida. Como sou grato ao Rodrigo Constantino por ter lido um livro ruim de Voltaire! Aí está um belo exemplo do popular efeito borboleta. [...] Um abraço e que Deus te torne cada dia mais sábio, Cícero de Melo Lucas.

Porto Alegre

Ivan Brizida 7 de março de 2007 Prezado professor, Procuro, mas não tenho como expressar sem cair em pieguices, minha profunda gratidão pelo bem que sua obra fez por minha pessoa.

Obrigado, que Deus continue abençoando-o.

Ivan Brizida

Mauro Meneguelli 06 de março, 2007 Além dos seus textos, aulas, rádio e conferências, sua contribuição é enorme quando indica livros. Assim, podemos, aos poucos, formar uma biblioteca de confiança. Não deixe de indicar livros importantes; [...] Forte abraço.

Mauro Meneguelli

Rogério Paysano Marrocos 22 de fevereiro de 2007 Caro Prof Olavo de Carvalho Desculpe o puxa-saquismo, mas o Sr. é a única referência intelectual ligada ao mundo real, histórico e civilizado que nos orienta o caminho. O Brasil evoluiu célere atrás de sua crítica. Parece a piada do português da casca da banana e a queda. Estou preparando meus filhos para sair deste naufrágio e agradeço a sua ajuda.

Obrigado Rogério Paysano Marrocos e família Londrina – PR

Leandro Mello Ferreira 18 de novembro de 2006 Prof. Olavo, Embora jamais tenha tido a honra de conhecê-lo pessoalmente, considero-o como meu professor desde meu primeiro contato com sua obra – ano passado, através do “Como Vencer Um Debate sem Precisar Ter Razão”. A partir daí procurei saber quem era o senhor, até então total desconhecido. Descobri seu site, ao qual dedico religiosa atenção diária. Por influência dos seus textos, foi despertada em mim uma ânsia por entender por conta própria o que se passa no mundo, ao invés de esperar que um “especialista” de um pedacinho da realidade me conte. Por tudo isso, sou-lhe eternamente grato.

[...] Tenho me inspirado em suas lições para começar a estudar tudo aquilo que achava inútil, pois ao menos boa vontade em aprender já estou desenvolvendo agora, com meus 25 anos.

Mais uma vez muito obrigado!

Leandro Mello Ferreira

Marcelo Souza 3 de outubro de 2006 Caro Olavo, Quero deixar registrado aqui o meu agradecimento pelo trabalho de esclarecimento sobre a vida política recente do Brasil e América Latina e seus protagonistas, e estender esses agradecimentos aos seus colegas jornalistas do portal www.midiasemmascara.com.br .

Considero-me uma pessoa bem informada. Tenho acesso a vários canais de informação como internet banda larga, jornais e revistas semanais (Veja), bem como canais fechados de televisão, contudo os artigos do portal apresentaram-me a fatos e informações estarrecedoras. Pergunto como apenas 20% ou 30% [do conteúdo] desses artigos fossem de meu conhecimento, imagine para o grande público? A quem interessa este estado de coisas?

Creio no poder da informação avalizada e precisa, vinda de fonte responsável e ética [...].

Quero dizer que serei um grande divulgador do trabalho de vocês, e mais uma vez parabenizar o excelente trabalho.

Grande abraço, Marcelo Souza

Laerte 22 de setembro de 2006 Olavo de Carvalho, Venho aqui, novamente, expressar meu agradecimento por tudo o que seu site tem alertado aos leitores em geral a respeito do indizível e triste espetáculo da política nacional. Se pudesse agradecer mais, o faria. [...] Isso não me impede de agradecê-lo, novamente, e o farei sempre que possível.

Laerte

Marcus Boeira 2 de julho de 2004 O professor Olavo é o filosofo brasileiro mais genial da atualidade. Sua contribuição para a busca da verdade é importantíssima, sobretudo pelo tom aristotélico que marca sua maneira de filosofar. No campo político, exerce um serviço absolutamente necessário ao Brasil: desmascarar a esquerda totalitária que avança nas sombras de um país que ainda está dormindo. Por isso, não há como agradecer ao professor por suas contribuições. Se é que minhas palavras podem se aproximar de uma gratidão completa, aí vão elas: muito obrigado professor por abrir os olhos de milhões de brasileiros e lutar contra um monstro que aparece cada dia mais em nossa realidade: este monstro é o totalitarismo marxista leninista que caracteriza o PT e toda esta corja de bandidos mau caracteres. Um grande abraço professor e fique com Deus.

Ass. Marcus Boeira (seu leitor gaúcho morando em SP).

Luís Guilherme Pereira 7 de julho de 2004 Este é o homem que me abriu os olhos de que o comunismo não é a solução para os males do mundo. Muito pelo contrário, muitas vezes ele é a causa. Não fosse pela leitura de Olavo de Carvalho, talvez hoje fosse mais um cegado pela ideologia (e cultura) marxista.

A partir da leitura de Olavo, fui buscar mais informações, conheci fóruns sobre capitalismo na Internet, li mais a mídia americana (tanto republicana quanto democrata).

Só posso recomendar a qualquer um a leitura desse brilhantíssimo brasileiro. [...]

Alexander Gieg 10 de julho de 2007 Na segunda metade de 2000, quando cursava o 2o semestre da Faculdade de Filosofia da USP, praticamente um cooptado pelo pensamento hegemônico, recém-associado ao Greenpeace e a uma semana de me filiar ao PT, que eu considerava o único partido coerente e “ético”, descobri o site do Prof. Olavo.

Minha primeira reação foi de horror: “COMO alguém pode escrever essas coisas?!?” Mas fiquei curioso. Que outros “absurdos” esse “tal” de Olavo teria escrito? Prossegui na leitura. Dez ou vinte textos depois o horror havia cedido lugar a um interesse genuíno. Pensei: “Tem algo de sério por trás disso! Mas, o quê?”

Três dias depois, com literalmente o site todo lido, eu sabia. E desde então minha admiração só fez crescer. Hoje, além de freqüentar seus cursos sempre que posso, também busco auxiliar seu trabalho de todas as maneiras que estiverem ao meu alcance. Se não digo que o Prof. Olavo é “o” mestre, o que seria blasfêmia, posso porém dizer que mesmo sendo “um” mestre, é dos maiores. Muito obrigado, professor!

Lucas Mendes 24 de julho de 2004 Olá Professor Olavo!!

Foi o Olavo que me salvou do falso brilho das idéias socialistas/comunistas.

Na faculdade eu estava praticamente doutrinado a la Antonio Gramsci, quando por eventualidade lendo a revista Época na casa de uma amigo, antes de ir para uma festa, me deparei com um artigo do Olavo. Foi como um murro no estômago, ou melhor, aquela estória de parecer que os punhos do Olavo saíram do artigo e me pegaram pelo pescoço dizendo: isso é contigo cara!

A partir daí comecei a pesquisar mais sobre os escritos dele, artigos, livros, trocas de e-mail, etc., etc., e aos poucos fui refazendo minhas idéias e me desintoxicando das falsas teorias.

Sou eternamente agradecido pela libertação intelectual que você me proporcionou!

Um grande abraço!

Lucas Mendes

Diogo Chiuso 11 de agosto de 2004 Não sei o porquê de tantas pessoas odiarem o Olavão. Ele é apenas um sujeito baixinho que fala a verdade e fuma pra cacete. Totalmente diferente daquele monstro mitológico que tanto dizem por aí. À parte disso, na minha modestíssima opinião, ele marcou o início de uma reviravolta intelectual, onde as pessoas começaram novamente a pensar por si mesmas. Veremos se fora – ou não – iniciado o fim do ciclo ideológico da esquerda. Olavão, te aguardo para mais um Café Filosófico em Santos.

Um abraço!

Carlos Eduardo Vargas 12 de agosto de 2004 Professor Olavo, “Vi o prazer no sorriso do Mestre meu, porquanto o privilégio iria me conceder da acolhida na sua comunidade” (Dante).

Quando eu ainda tinha um pezinho na zona filosófica de Epicuro e andava nos rumos da desesperança infernal dos imbecis coletivos, tive um grande choque cultural: as suas aulas em Curitiba. Desde então mudei a direção da minha contemplação filosófica e tenho me inteirado da grande conversação dos intelectuais no decorrer da história.

Somente posso agradecer por você ter me ensinado o valor do indivíduo, com sua consciência e sua inteligência, em oposição a grandes estruturas que passam por cima disso.

Acredito que você receberá a recompensa anunciada por São Tiago: “se alguém dentre vós se desviar da verdade e outro o reconduzir, saiba que aquele que reconduz um pecador desencaminhado salvará sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados” (Tg 5, 19-20).

Muito obrigado por tudo isso, Carlos Eduardo Vargas

Rodrigo Rocha 12 de setembro de 2004 [...] Baluarte da intelectualidade independente, verdadeiramente crítica, isenta de dogmas e de imposições externas. Olavo de Carvalho é para quem consegue analisar as coisas por si mesmo, e concluir que a VERDADE não é um conceito tão subjetivo quanto parece. Mais do que tudo isso, Olavo é um PROFESSOR, um ARGUMENTADOR, um GÊNIO. Olavo é o novo Sócrates.

Obrigado por tudo, mestre!

Gabriel Torres 28 de outubro de 2004 Conheci o Olavo há pouco tempo, quando fui ao Fórum da Liberdade em Porto Alegre de 2004. Porém, posso dizer que desde o primeiro momento me dei conta de estar deparado com alguém de sóbrio posicionamento político, bem como de uma intelectualidade impressionante. Com colunas e artigos de conteúdo tão rico e verídico, só tenho a dizer que o Olavo é um dos poucos que usam do seu espaço para falar do que verdadeiramente ocorre no cenário político do país.

Continue Assim, Olavo.

Grande Abraço!

Bianca Bermúdez 29 de outubro de 2004 Em um trecho de “A Nova Era e a Revolução Cultural”, Olavo comenta sobre as aptidões humanas necessárias ao discernimento entre verdade e mentira: a autonomia da inteligência individual e a fé na busca da verdade. E é exatamente isso o que ele, com extrema dedicação, erudição, honestidade intelectual, sem falsos rebuscamentos, enfim, com um singular brilhantismo, propicia a todos que tem o privilégio de desfrutar de sua companhia.

Gentil, alegre, sincero, generoso... O que eu teria a acrescentar sobre o Olavo que já não tenha sido dito? Quem sabe, tornando minhas algumas palavras de Robert Bresson: “é o encarregado de fazer aparecer o que não seria talvez jamais visto”.

Resta agradecê-lo por compartilhar seus conhecimentos e desejar-lhe toda a Luz e Força Divina em sua jornada.

Olavo, obrigada pela amizade, mas, principalmente, por existir!

Gustavo Henrique Ferreira 1 de novembro de 2004 O Professor Olavo de Carvalho representa hoje, sem dúvida alguma, o principal expoente do pensamento crítico no Brasil. Responsável por uma reviravolta nas idéias, até então aparentemente onipresentes no meio intelectual tupiniquim, e pelo surgimento de uma geração que se aglutina ao redor de sua obra. Uma lacuna em seu currículo é a ausência quase completa de suas palestras em BH...

Fábio Barreto 23 de dezembro de 2004 Conheci Olavo de Carvalho em 1999, num artigo escrito para a comemoração dos 35 anos do 1o de março de 1964. Nele ele elogiava a atitude dos militares e atacava a esquerda. Gostei do que li mas não dei tanta atenção. Depois, li um artigo, quase que por acaso, sobre o lugar do Brasil na Nova Ordem Mundial, na revista ÉPOCA. Interessei-me bem mais e passei a ler seus artigos com freqüência. Mas, foi depois do artigo “A Velha Alucinação”, publicado na ÉPOCA, que me tornei seu grande fã.

Devo a Olavo de Carvalho enorme parte de minha formação intelectual, a ampliação de horizontes, conhecimento de novos autores e vertentes do pensamento, e o desmascaramento de uma série de mentiras que eu acreditava. Enfim, é muito e não tenho espaço suficiente para descrever a imensidão da importância dele na minha visão de mundo. No entanto, quero dizer: Prof. Olavo, o senhor é sem dúvida, o melhor intelectual nesse país e maior do que de muitos outros. Não desista, não esmoreça!

Luís Afonso Assumpção 7 de janeiro de 2005 Poder estar próximo de alguém que escreveu um dos dez livros mais importantes que já li é algo extraordinário. Mais extraordinário ainda é conhecer a simplicidade, a sinceridade e a capacidade infindável de assumir riscos que Olavo possui. Não sei muito bem escrever o que seja um testimonial, mas devo esclarecer que, além de professor, considero Olavo um grande amigo. Minhas convicções liberais-conservadoras pré-existentes se solidificaram (embasaram seria o termo correto) profundamente após conhecer a obra do Olavo. Tanto quanto minha confiança na raça humana depois que conheci o indivíduo Olavo de Carvalho.

Professor, continue sendo o que és!

Carlos Eduardo Amaral 20 de janeiro de 2005 Professor Olavo, Sem saber o que dizer diante de tantos testemunhos, apenas reforço que você (se me permite a aproximação), com seus artigos e apostilas que imprimi da internet, também foi importante pra minha formação pessoal e me ajudou a voltar a pensar de frente sobre as coisas, contribuindo para me reorientar no caminho das boas leituras da vida e a me reencontrar como cristão.

Esperamos uma nova vinda sua ao Recife. Abraços.

Bruno Hoepers 4 de agosto de 2005 Gostaria de parabenizar o senhor pela inteligência, sagacidade e coragem com que expõe para nós seus pensamentos e idéias, sempre muito fecundas e de extrema importância, principalmente nos dias atuais. E parabéns pelo texto “Obviedades temíveis”. Nele o senhor conseguiu realizar uma síntese de muitas idéias já externadas antes, só que sendo mais enfático, de modo a não deixar dúvidas mesmo para um leitor bastante leigo. O conselho que o senhor nos dá no artigo, creio eu, é mais do que útil: é imperioso até. Eu, que estudo em univ. Federal (curso Ciência Política) sei da dura realidade que é ter que criticar a esquerda e ser visto de modo “estranho” pelos outros. Com uma mudança individual de atitude e uma ação pessoal direta (com os amigos, vizinhos, etc) podemos mudar um pouco da realidade intelectual reinante. Obrigado por nos fazer enxergar isso. Sucesso ao senhor, e O Globo que se dane!

O Sr. tem planos de vir a Brasília para ministrar o seu curso de filosofia? Tenho interesse.

Abraço, Bruno

Daniela Gouveia 26 de agosto de 2005 Entender Olavo é entender que o mundo é muito além de qualquer sistema político, econômico, religioso, ou seja lá o que for. Porque o que ele nos “pede” é uma proposta de desmascaramento de nós mesmos... por trás de qualquer “proposta” está implícita a necessidade de uma atitude corajosa diante de si mesmo... Não precisa ser demasiadamente inteligente para entender Olavo, mas sim, suficientemente “louco” para desconfiar de si mesmo e através desta desconfiança perceber AQUILO que realmente nos sustenta.

Saudades!

Marcos Boldrini 18 de setembro de 2005 É difícil falar de uma pessoa que se conhece muito pouco pessoalmente, mas é sempre agradável falar de suas palavras, especialmente quando essas palavras lhe são a tradução de algo superior.

Quando comecei a ler os pensamentos desse mestre, demorei alguns anos para perceber seu verdadeiro significado. Por detrás da críticas política, social e cultural, havia uma humilde tentativa de libertar a Humanidade da escravidão espiritual em que vivemos atualmente.

Sempre fui uma pessoa muito introspectiva, e certos sentimentos perante a vida e a Existência pareciam-me intraduzíveis! Olavo tem o mérito (que parecia quase impossível) de esclarecer com extrema lucidez e cruel sinceridade os dilemas do espírito humano. Foi através de seu pensamento que pude compreender o verdadeiro sentido daquilo que parecia incompreensível: a angústia perante a vida, o sentimento da fé perante Deus, e a eterna luta pela liberdade do espírito.

Um abraço de um de seus admiradores, e a certeza de que suas palavras jamais serão esquecidas.

Luís Afonso Assumpção 12 de setembro de 2005 Olavo, Desde que o conheci, primeiro pelas mensagens telegráficas que lia na “Zero Hora” – até então incompreensíveis para mim – , depois pelo contato direto nas aulas que ajudei a organizar em Porto Alegre e fora delas, algo foi desenvolvendo-se na minha vida interior. Àquela altura, havia deixado minha vida “intelectual” de lado, achando que tudo que era importante aprender eu já havia, senão aprendido, pelo menos conhecido as suas regras gerais de funcionamento. Enganei-me quadradamente.

O que eu achava que sabia não era mais do que um copo de água. Era o meu “oceano”: ralo e com fundo pintado à mão. Obrigado por me apresentar à imensidão do oceano verdadeiro. E obrigado por ter me ajudado a não naufragar.

Não, ainda não “navego” nestas águas, mas aprendi um bocado sobre mim.

Minha auto-consciência verdadeira não teria despertado se não fosse com seu precioso empurrãozinho.

Obrigado finalmente, não pelo “alimento”, mas pelo apetite insaciável pela Verdade.

Fábio Barreto 20 de dezembro de 2007 É difícil para mim mesmo medir o impacto de Olavo de Carvalho em minha formação. Posso dizer, para tais efeitos, que boa parte do que sei e estudo há 7 anos tem algum grau de influência dele, seja como indicação direta, seja como tema, seja até mesmo como contraponto. Isso sem falar na leitura direta do que ele escreve em artigos, ensaios e livros, que normalmente leio todos os dias. Sim, tudo isso é verdade. Por sua cultura, sua erudição, seu amor enorme pelo Conhecimento e pela Verdade, Olavo de Carvalho conquistou-me enorme admiração e respeito. E não só a mim: centenas de pessoas, cansadas da mediocridade cultural reinante no Brasil encontraram nele um guia intelectual, digno daqueles que nutrem os mais nobres propósitos quanto ao conhecimento.

Obrigado, Professor Olavo, por tudo o que fizestes por mim [...].

Christina 16 de dezembro de 2008 Se admirar o trabalho e o esforço de uma pessoa do naipe de Olavo Carvalho é ser olavete, então sou olavete.

Admiro seu trabalho porque ele não está preocupado em catequizar ninguém nem impor sua verdade. Nas várias oportunidades em que ouvi seus discursos ou debates, que tive o privilégio de ler seus artigos/estudos do Seminário e outros mais, vi que ele está apenas preocupado em nos chamar a atenção de que temos de pensar, questionar, pesquisar e raciocinar, e não acreditar em qualquer coisa que se vê ou ouve. E ele ensina como fazer isso.

No entanto, percebo que algumas pessoas que pensam dominar a dialética, fazendo uso excessivo de ‘retóricas’, mal sabem interpretar um texto (mal de todo o brasileiro). E ainda querem posar de sabidinhos ofendendo o Olavo.

Sr. Olavo, sei (pouco, mas sei) pelo que você passou! Sei do amor do senhor pela nossa pátria! Siga firme no seu propósito tão digno! Jamais desista!

Cordial abraço

Roberta Marcatti 18 de dezembro de 2008 Esta mensagem é só pra vc saber o quanto a fortaleza do seu saber sustenta e impulsiona uma grande parte da “minha outra metade”, fico muitíssimo feliz toda vez que vejo nos olhos dele (depois de ouvir o seu programa) uma esperança, a luta pela verdade acima de tudo. [...] Continue lutando, torço por você e saiba que Deus caminha com você.

Um grande abraço.

Paulo Antonio Nascimento 22 de dezembro de 2008 Olavo de Carvalho representa um momento decisivo na minha vida. Primeiro, a constatação de uma realidade complexa e problemática, na qual muitas pessoas se perdem para sempre. Segundo, uma tomada de posição diante desse conflito universal, onde cada criatura inteligente terá que se posicionar, coisa que a grande maioria faz sem ter as informações necessárias, com grande prejuízo para si mesmas.

Maria Paula Rocha 23 de maio, 2009 É incrível como as palavras de Olavo gravam na alma da gente e como satisfaz as pessoas que estão tão sedentas da verdade e não a encontram por ai. Vivemos como numa desolação diante de tanta mentira e caos. Você, Olavo, existe para nos esclarecer.

Obrigada por essa ajuda que você nos dá. Deus te ilumine e toda sua família.

Carlos Gadêlha Júnior 3 de setembro de 2009 Resolvi quebrar o meu silêncio! Sempre gostei dos seus artigos, desde da época em que a revista Época era boa, mas nunca tive coragem de escrever nada para o sr. Meu Deus, acho que estou doido! Até parece que o Dr. Olavo vai perder tempo lendo isso! Escrevo apenas para agradecer, pois o sr. mudou a minha formação intelectual, me fez enxergar novos horizontes! Todos os seus pensamentos sobre as universidades brasileiras estão certos! Não consigo discordar do sr. Quando li os seus textos começei a entender o que significa da palavra erudição! Já li Imbecil Coletivo I e II, A nova era e a revolução cultural, Aristóteles em nova perspectiva, Como vencer um debate (sua tradução), o livro sobre a intelectualidade brasileira. Só está faltando eu ler o Jardim das Aflições, vou juntar um dinheirinho para comprar! A situação financeira está meio apertada!!! Continuo lendo os seus textos e forças para continuar nessa trincheira intelectual! Abraço, Carlos Gadelha Jr, advogado, recém-formado pela UNICAP.

Gustavo Ribeiro 16 de outubro de 2008 Mestre, quero deixar aqui registrados mais uma vez a admiração, o carinho e a devoção que tenho pelo senhor. Muito obrigado por existir e ser essa busca séria e rigorosa. O senhor foi fundamental para botar a minha existência nos seus devidos eixos, coisa a que lhe sou infinitamente grato. Me deu bases sólidas para o conhecimento de mim mesmo, do mundo e de minha função nele. Te amo muito, professor, e que ninguém interprete isso como boiolagem. hehe... Espero que o senhor viva ainda muitos e muitos anos, e que a sua luta perdure e frutifique cada vez mais, e encontre sucessores para continuá-la. Não tenho dúvidas de que o senhor figura entre os grandes nomes da História: daqui a 200 anos ainda se lembrarão do senhor. Mas ainda bem que é grande o suficiente para não contentar-se com esse tipo de coisa, mantendo a mesma busca até o fim de seus dias. Grande abraço do seu aluno Gustavo Ribeiro.

Antunes ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Reinaldo, Gostaria que você divulgasse mais os textos e opiniões de Olavo de Carvalho. Sou grato por inúmeras referências recebidas em seus textos. Através da opinião mordaz de Olavo de Carvalho e também da sua, Reinaldo, conheci Marx Weber, Eric Voegelin, Thomas Mann, entre outros autores e personalidades... E também conheci o argumento aristotélico (vejam só...) que fundamenta a crítica mais irrefutável ao marxismo! Conheci os fundamentos de nossa cultura “ocidental-cristã” e as fontes da nossa ignorância, como um povo ainda sem identidade, sem lideranças verdadeiras, e terreno fértil para doutrinas e políticas oportunistas!

Dante ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Que maravilha, grande Rei!...e postado no dia certo. O grande Olavão, com a sua bateria anti-aéria, detonando a súcia ignorante deste pais. O SIND/PETISMO é como whisky paraguaio: rótulos e garrafas de scotchs nobres embalando destilados ordinários, da pior qualidade. E a grande imprensa e os grandes jornalistas têm grande culpa nessa prezepada toda: são omissos, deixam “que os nós se teçam e depois só a espada...”

Parabéns pela sua coragem. Tenha força. Estamos contigo.

Dero ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Olavão não erra uma. Foi bom você colocar o nome dele no blog para muitas pessoas que ainda não o conheciam. Quando ele escreveu que o cigarro seria proibido e a maconha liberada muita gente falou que o cara estava louco. Mais uma, ele diz que no máximo em dez anos a pedofilia será liberada. Quem viver verá.

Sérgio Oliveira ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 [...] Ler este trecho de Olavo foi o contraponto que minha alma precisava. Obrigado, Rei. [...]

Nininha ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Um gol de placa do tio Rei ao transcrever esse artigo do prof. Olavo de Carvalho. Profecia? Algum tipo de Nostradamus? Fui aluna do curso de filosofia do Olavo no Rio de Janeiro durante dois anos. O segredo de suas acertadas ‘profecias’ se chama inteligência, estudo sistemático dos assuntos que analisa, uma imensa cultura, tudo isso a serviço do esclarecimento das consciências em relação ao perigo da ideologia esquerdopata. Quem o lê, só tem a ganhar, não deixem de fazê-lo. Parabéns a você, Reinaldo, ao Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Heitor de Paula, o Coronel do coturnonoturno, e mais meia dúzia de abnegados que estão nessa duríssima batalha tentando evitar a catástrofe.

João Nemo ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Reinaldo, A análise citada do Olavo de Carvalho é absolutamente perfeita. Poucos foram capazes de enxergar tão claramente essas coisas, que se dirá expressa-las com tanta precisão. O que me chateia mais é que muita gente “importante”, mesmo vendo tudo isso mais ou menos, prefira fingir que não vê. Vivemos de um falso otimismo baseado na negação dos problemas e distorções e não do verdadeiro otimismo inspirado em confiança e determinação para resolvê-los.

Luíz Antônio ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Todo homem direito (honesto, íntegro e etc.) deveria não somente ler Olavo de Carvalho, mas também repensar o país que queremos deixar para nossos sucessores quando passar o tempo da PaTifaria.

Apolo ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Reinaldão, Falar bem do Olavo é realmente desnecessário. Sua obra já fala por si. Mas se alguém ainda não conhece o Olavão, não perca mais um minuto. Corra. Corra mesmo e leia tudo o que ele escreveu e ouça tudo o que ele diz e salvará sua existência.

http://www.seminariodefilosofia.org http://www.olavodecarvalho.org

Alexandre ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 É por isso que a ala xiita da esquerda odeia tanto Olavão! Olavo de Carvalho diz a verdade, e, verdade, para os petralhas, é aquilo que eles – em sua (deles) obsessão totalitária – desejam, não importa se é bom ou ruim já que não compartilham dos nossos valores morais que consideram “burgueses” (seja lá o que isso signifique). Estão de parabéns: Olavão, por mais um texto brilhante; e você, por associar esse mesmo texto de oito anos atrás a um discurso de ontem. É mais uma prova de que a canalha age dentro de uma metodologia que pode ser identificada.

João Magano ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Olavo de Carvalho é a ira do Cristo sobre os atuais vendilhões do Brasil e a comunização do seu povo. Morte ao Foro de São Paulo! Viva a liberdade do indivíduo!

Paulo Henrique ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 O Olavo é um grande estudioso de vários assuntos importantes. Sempre acompanho a publicação de seus textos em sua página na internet. Ele foi o jornalista que tentou alertar o país sobre a criação do Foro de São Paulo, ainda nos anos 90, e suas possíveis consequências para o Brasil e a América Latina. Ninguém lhe deu importância. Ele era apenas um estudioso do assunto!

Leonardo Barbosa ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 O Olavo de Carvalho é muito bom, esse sim tem o direito de ser chamado de filosófo e intelectual, não esses ratos que se encontram nas universidades. E o impressionante é que tudo o que ele diz acontece, ele não erra uma! E não se trata de nenhuma espécie de profeta, não. Se trata de um homem muito inteligente que passou grande parte da vida estudando sobre o assunto e por isso conhece como todos os mecanismos. Algumas pessoas implicam com sua linguagem um tanto agressiva, mas não é vulgaridade, ele explica o porque faz uso de tais palavras e o porque as julga necessárias, e realmente, elas se encaixam no contexto. Para quem não o conhece visitem o portal Midia Sem Mascara.

Alan Brizola ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Subscrevo inteiramente as palavras do filósofo Olavo. Não conheço análise mais brilhante que essa a respeito de nossa esquerda e sobre o nacionalismo fajuto à maneira de uma carne de gato vendida como picanha na esquina.

José Pereira ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Eu, também, há muito tempo, leio, respeito e admiro Olavo de Carvalho. Como disse um leitor que me antecedeu, ele não é infalível nem tem essa pretensão, porém, é inquestionável o seu elevado índice de acertos, tendo em vista o que ele diz e toda a realidade política vivida nas três Américas. Olavo, quem o lê só tem a somar, ainda que a verdade por ele difundida, nua e crua, possa machucar e fazer doer muitas sensibilidades desacostumadas de ambientes reais, que exigem responsabilidade e coragem de quem deles participam. [...]

Fernando Correia ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Parabéns, Reinaldo, por trazer ao debate este texto. A clareza de visão do Olavo de Carvalho só é superada pela cegueira do povo. Ele é a nossa Cassandra.

Régis ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Só quem ostenta independência moral e intelectual, como Reinaldo Azevedo, se reporta ao insigne Olavo de Carvalho. Isto é comemorar dignamente o real significado do 7 de setembro.

Rodrigo ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-na-tv/ ) 7 de setembro de 2009 Olavo, Reinaldo e Diogo são profetas? Não! Apenas estudam, galera. O Olavo tem livros que traçam muito bem o perfil cultural atual do Brasil. Pessoal, O Jardim de Aflições e O Imbecil Coletivo são leituras obrigatórias para quem quer entender um pouco de cultura e política. Quando eu crescer quero ser que nem vocês.... hehehehe

Cabo Anselmo 4 de setembro de 2009 Donana, Solicito-lhe a gentileza de informar ao dr. Olavo a gratidão deste velho. O artigo referente ao programa Canal Livre lavou minh’alma. Para alguém nesta condição única, sem lenço e sem documento funciona como sacramento. É a primeira vez que uma pessoa da estatura intelectual do dr. Olavo entende e resume de modo translúcido o drama existencial dos eventos mitificados. Que Deus o abençôe, à família e a todos que alimentam a mente guiados pelo saber que ele distribui tão generosamente.

Mírian Macedo 17 de dezembro de 2009 Foi para pessoas como o senhor, professor Olavo, que Santo Tomás de Aquino escreveu: “Certos homens recebem de Deus uma missão especial: dão testemunho de Deus não apenas de um ponto de vista natural, pelo facto de existirem, mas antes de maneira espiritual, pelas suas boas obras. [...] No entanto, aqueles que, não satisfeitos por receberem os dons divinos e por bem fazerem pela graça de Deus, comunicam os seus dons a outros através da palavra, de encorajamentos e de exortações, esses são ainda mais especialmente testemunhas de Deus.”

Carlos Alberto dos Reis Velasco 26 de fevereiro de 2010 Saudações a todos. Meu nome é Carlos Alberto dos Reis Velasco. Nasci em Santos há 33 anos e vivo em Portugal desde os 17. Diria que me sinto como um português das Américas. Sou formado em História por Coimbra, mas me sustento com trabalhos em outras áreas. Conheci o professor Olavo há uns 5 anos e isso foi um ponto fundamental na minha vida, tal e qual a descoberta de Gilberto Freyre.

O meu estudo de filosofia é motivado por uma série de factores. Posso enumerar entre eles o interesse pela técnica filósofica e pela história da filosofia. Não pretendo ser um filósofo, algo que está acima das minhas capacidades e ambições, mas desejo compreender a filosofia para poder um dia ser um historiador.

Ainda que tal desejo fuja àquilo que o futuro me reserva, encaro estes estudos como uma bússola neste mundo completamente desgovernado. O presente do mundo ocidental me faz crer que fazemos parte de uma geração que conhecerá desafios para os quais não foi preparada e por isso é preciso que nos armemos com todos os instrumentos necessários à sobrevivência do que nos é caro.

Espero que o professor Olavo seja bem sucedido no seu projecto e consiga formar uma geração que possa restaurar não somente o Brasil, mas também todo o espaço onde a língua portuguesa sobrevive.

War Of Religion

For Bin Laden, the Koran was always a pretext | Época

On September 24, Osama Bin Laden said that American forces were entering Afghanistan under the “flag of the Cross.” Two days later, he called George W. Bush the “leader of the unfaithful.” This should be enough to show that his allegation of “holy war” was never more than a smokescreen, an ideological disguise.

According to the Koran, no one can be Christian and unfaithful at the same time. Christians and Jews are clearly included in the Koranic category of “people of the Book” (ahl al-kitab), recognized as a type of Muslim avant la lettre.

Their salvation is assured, in unequivocal terms in Sura V:69: “Those who believe [in the Koran], those who follow Jewish scripture, and the Christians – and those who believe in God and on Judgment Day – should fear nothing, for they will not be harmed.”

A conscious Muslim can say that the message received from God by the “people of the Book” is incomplete, that they don’t follow it correctly, but not that they’re “unfaithful” or “idolaters.”

In truth, Islam is accused of strict sectarianism but is the most ecumenical of religions: the succession of prophets, from Adam to Mohammed, includes and legitimizes all monotheistic religions conceived as historical peaks of a single revelation culminating in “Laylat-al-Qadr,” the “Night of Power,” when the archangel Gabriel began to dictate the verses of the Koran to Mohammed. “Unfaithful,” strictly speaking, applies only to atheists, polytheists, and monotheists who in bad faith extort the differences between their respective doctrines and the Koranic message to denigrate the Koran instead of cherishing the mystery of unity in diversity.

In calling Bush one time a Christian and the other unfaithful, Bin Laden showed himself incapable of speaking as a serious religious person, instead as someone trying to speak against his adversary and who, enraged, chooses, any old thing, which shows a clear contradiction.

Is anything else necessary to show that this man’s opposition to the West was never based on valid Koranic justification, rather something else, which employed Koranic propaganda to ornament his rhetoric and cover up an evil political ambition in religious semblance?

At the same time, these considerations discredit historian Paul Johnson’s anti-Muslim tirade which gave involuntary support both to enemies of Islam as those of Israel and the West. In trying to show the radical hostility of Islam against other religions, especially Christianity, Johnson cited Sura IX:5: “Kill the idolaters wherever they are found, and capture them, and surround them, and use traps against them.” Even in the most general sense, the term “idolaters” does not apply to monotheistic cultures. This passage especially refers to the polytheists of Mecca mentioned in the earlier verse who “signed a pact with you [Mohammed] and later failed to respect it.” These are the ones Mohammed should pursue, capture, and kill, as he did according to historical record. But, even the use of force was not unlimited in this case, because Mohammed immediately halted any persecution of his enemies when he entered Mecca, condemning to death only the five key figures and forgiving all others – certainly the lightest war reparation of all time. So, one of them has misinterpreted the verse: Mohammed or Paul Johnson. It’s true that a reading similar to Johnson’s was used by Muslim chiefs to incite violence against Christians, but obviously they were far from the Prophet’s interpretation and, since the acts and words of the Prophet are the highest source of authority in Koranic code, clearly these men, like Bin Laden, were not very orthodox Muslims.

Em 20 de outubro de 2001

English

Perguntas Pertinentes

Folha de São Paulo | 8 de dezembro de 2001

de hoje faz algumas perguntas pertinentes, que precisam ser respondidas:

1- “Por que Luiz Inácio Lula da Silva contrai comunismo, aos olhos de certos setores da mídia e da opinião pública, sempre que aparece em alguma foto ao lado de Fidel Castro, mas não é contaminado pelas virtudes de, por exemplo, Alejandro Toledo, o presidente peruano, quando posa com este, como aconteceu quinta-feira?

Ora, Lula da Silva não precisa aparecer em foto com Fidel para ser associado ao comunismo. Nem precisaria ir mais a Cuba, tantas vezes já foi lá. O caráter comunista (socialista, para alguns) está no programa oficial de seu partido, no programa econômico recentemente divulgado, e que tive oportunidade de comentar exaustivamente nesse espaço, e nos demais escritos publicados de todas as lideranças do partido e dos seus principais intelectuais engajados. Ser do PT é uma profissão de fé no socialismo. Os fatos do dia só confirmam e reiteram o passado, conhecido por todos e que apontam para o futuro nada seguro se Lula da Silva efetivamente obtiver o poder. Quanto a Alejandro Toledo, não sabemos ainda a que veio, mas sabemos que em de três meses no poder a sua popularidade é idêntica a de Fujimori em fuga.

2- “Por que Lula é acusado, por exemplo, de omitir o passado golpista do coronel Hugo Chávez, hoje presidente da Venezuela, mas Fernando Henrique Cardoso não é acusado de ter respaldado o golpismo de Alberto Fujimori na re-reeleição para a Presidência do Peru”?

Aqui há um típico argumento sofista. Lula é importante porque postula a Presidência da República, com chances de ganhar. Fernando Henrique está passando à História e deixou de ser ator nesse processo. Não é o caso de fazer tribunal de julgamento. O eleitorado não está interessado nisso, mas sim, no porvir, do que se anuncia para o horizonte. O que FHC fez com Fujimori não tem a menor relevância para avaliar a capacidade e a coerência política de Lula da Silva. Em outras palavras, os pecados de FHC não perdoam os pecados do candidato do PT. E, diga-se de passagem, a posição de FHC (e, de resto, do Estado brasileiro com relação à re-reeleição), foi a mais correta do ponto de vistas dos interesses nacionais.

3- “Por que há um escândalo (aliás, justo) cada vez que Lula elogia Fidel, mas ninguém parece escandalizar-se com o fato de FHC, confessadamente, ter oferecido asilo para o argentino Carlos Saúl Menem quando este estava preso sob acusação de formação de quadrilha para a venda irregular de armamento”?

De novo, a erística em ação. Uma situação nada tem a ver com a outra. Menem tem lá os seus pecados, mas nada comparado a Fidel, que transformou sua Ilha em uma acampamento de prisioneiros miseráveis, praticou (há quem diga que ainda pratica) genocídio, exportou, e ainda tenta exportar, a revolução para outros países, inclusive o nosso, treinando guerrilheiros, dando recursos financeiros e materiais para a instauração de guerrilhas, e muito mais. Fidel é um perigo para a Humanidade. Menem não tem esse status. E, diga-se, a Suprema Corte daquele país já o soltou. Quando FHC fez a oferta estava alinhado com os interesses do Brasil, pois Menem e seu grupo político são relevantes na estrutura de poder da Argentina. Não houve nada de errado nisso, apenas mantivemos a tradição de dar auxílio a políticos momentaneamente em desgraça, que mais das vezes voltam a seus países na condição de primeiros mandatários. Realpolitik. E aprender com genocidas e elogiá-los mostra um a tendência não muito saudável para um aspirante a governante.

4- “Será hipocrisia ou é também má-fé”?

Nem uma coisa e nem outra. É fidelidade aos fé. Se há má-fé, esta está contida em escritos como esses, que claramente objetivam confundir o leitor e levá-lo a decisões políticas que não tomaria, se bem informado fosse.

Em 8 de dezembro de 2001

Leituras

Um Jornal Engajado

Folha de São Paulo | 8 de dezembro de 2001

de hoje se superou. Se já estava engajada na campanha de Lula da Silva para a Presidência, hoje ela deu uma amostra do que vai ser até as eleições. Seu primeiro caderno, e mais importante do ponto de vista do leitor qualificado e formador de opinião, é digno de um balanço. A manchete principal é uma propaganda ao revés, falando mal do governo federal e divulgando implicitamente a excelência petista no tema (“Ação antifome exclui 960 família). Todos sabem que nessa tecla Betinho e sua turma são imbatíveis na propaganda, não contra a fome em si, claro.

Na página 2, Clóvis Rossi (“Má-fé) faz um artigo que pretendo comentar em outro espaço, exaltando a candidatura de Lula da Silva. Eliane Cantanhêde, logo abaixo, não fica atrás (Chávez e o PT), sugerindo que Lula poderá fazer um bom governo como o caudilho venezuelano está a fazer (?).

Na página 4 é uma apoteose petista. A seção Painel tem quatorze notinhas, das quais cinco delas cita o PT e/ou Lula da Silva. E a seção Contaponto é dedicada ao senador Suplicy, do PT. Na mesma página tem uma entrevista com ninguém menos do que Duda Mendonça, o marqueteiro contratado para fazer a campanha de Lula da Silva. É claro que só fala dela, lembrando até os tempos de jovem engajado nas causas “progressistas”.

Na página 5 tem uma matéria assinada por Fábio Zanini (“Lula apresenta ao PT condições para concorrrer”). Não conseguiria ser mais explícita.

A única matéria da página 6, ao lado da do Ombusdman, tem o seguinte título: “Crítica aos EUA une Hugo Chávez e Lula”. Com direito à seguinte declaração de Lula: “Ele (Chávez) pensa o que eu penso”. Para usar uma expressão antiga de esconjuro e de espanto: Ave Maria cheia de graça!

A coluna de Elio Gáspari na página 11 (as páginas 7 a 10 são só propaganda) não falha. No seu principal comentário, embora o título se refira ao PFL (“A baixa marquetagem do PFL), fala mesmo é do PT de Lula da Silva, tomando a sua defesa e fazendo a sua pregação.

A página 12 traz uma matéria sobre a sucessão presidencial e, claro, das fotos inseridas a de Lula da Silva é a de maior tamanho e a de mais destaque.

Ou Folha de São Paulo tornou-se a porta-voz oficial do petismo e de Lula da Silva ou está mesmo em campanha para elegê-lo. Ou as duas coisas. Entre as três hipótese, fico com a última. Não analiso os demais cadernos do jornal porque mantém a média, de cabo a rabo. Só dá PT e Lula lá. Antonio Gramsci, se vivo e trabalhando na redação da Folha , não faria melhor.

Que os leitores tirem as suas conclusões.

Em 8 de dezembro de 2001

Leituras

Antipsiquiatria

Ex-psiquiatra do Quadro de Saúde da Aeronáutica | VICTOR LEONARDO DA SILVA CHAVES

Título de psiquiatra conferido pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Médica Brasileira em 1970; pelo Conselho Federal de Medicina e Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro em 1986 Ex-membro da Associação Brasileira de Psiquiatria [1970/1994] e Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro [1968/1994] Licenciado em Filosofia pela UERJ 1.

Introdução .

Em princípio do outono de 2001, a imprensa anarco-comunista anunciou que o Congresso aprovara em 27 de março o projeto de lei do Deputado Paulo Delgado [PT de MG], que propunha a extinção de manicômios , tendo sido sancionado pelo executivo em 6 de abril. Há indícios de má-fé, pois tal projeto fora aprovado em 1989, somente na Câmara Federal por voto de lideranças e derrotado no Senado Federal, seguido pelos substitutivos dos Senadores Lucídio Portela e Sebastião Rocha. Ambos modificaram substancialmente o projeto original. Esse último substitutivo é o que foi aprovado nas datas acima, tornando-se a Lei 10 216 de 06/04/01[D.O.U. 09/04/01]. Essa mistificação foi feita pela esquerda que domina os meios de comunicação, pois esse projeto é uma expressão política de uma doutrina de inspiração anarco-comunista, denominada de antipsiquiatria.

2.

Definição .

O termo antipsiquiatria passou a ser usado na década de sessenta para designar uma corrente doutrinária na área de saúde mental que tinha por característica principal contestar a validade da Ciência Médica para resolver os problemas de psiquiatria. Seus conceitos propagaram-se para áreas afins, no bojo dos movimentos de protesto das conturbadas décadas de 60 e 70, que julgam não existir doenças mentais e que a nosologia médica psiquiátrica não passa de um conjunto de rótulos, apregoando o fechamento dos estabelecimentos médicos psiquiátricos. Roudinesco [1], em seu Dicionário de Psicanálise, fornece a seguinte definição:

Embora o termo antipsiquiatria tenha sido inventado por David Cooper num contexto muito preciso, ele serviu para designar um movimento político radical de contestação do saber psiquiátrico [grifo nosso], desenvolvido entre 1955 e 1975 na maioria dos grandes países em que se haviam implantado a psiquiatria e a psicanálise [grifo nosso] : na Grã-Bretanha, com Ronald Laing e David Cooper; na Itália, com Franco Basaglia; e no Estados Unidos, com com as comunidades terapêuticas, os trabalhos de Thomas Szasz e a Escola de Palo alto de Gregory Bateson. (...) Como utopia, a explosão da antipsiquiatria foi radical, e Cooper sublinhou isso ao discursar em Londres, na tribuna do congresso mundial de 1967, o qual almejava inscrever a antipsiquiatria no quadro de um movimento geral de libertação dos povos oprimidos [grifo nosso] (...) Cooper prestou uma vibrante homenagem aos participantes da comuna de 1871, que haviam atirado nos relógios para acabar com “o tempo dos outros, o dos opressores, e assim reinventar seu próprio tempo” [observe a orientação política anarquista]. Antipsiquiatria é uma ideologia perniciosa, de inspiração anarquista. É formada pela confluência de várias correntes de pensamento que dominaram a sociedade ocidental a partir do final do Século XIX e parece que se adentrará, infelizmente, pelo XXI.

3.

Antecedentes históricos .

3.1. A passagem do Século XIX para o XX foi marcada por duas correntes filosóficas: o niilismo de Nietzsche e a fenomenologia de Husserl. O niilismo é uma doutrina iconoclasta que faz apologia do nada. A fenomenologia, inspirada em Kant, afirma a primazia do fenômeno em relação ao númeno . Esse último seria inacessível ao sujeito, portanto, só sendo perceptível o primeiro. Com isso, Husserl quis mostrar a identificação entre sujeito e objeto em vez da interação entre os dois. Querendo ou não, sua doutrina acaba por privilegiar o sujeito em detrimento do objeto, dando margem ao excesso de subjetivismo que caracterizou o Século XX. Essas duas correntes vieram a inspirar o existencialismo fenomenológico de Heidegger, o existencialismo materialista de Sarte, a “filosofia da ambigüidade” de Merlau-Ponty, que sustenta que a experiência humana possui um sentido eminentemente enigmático [2], todas as manifestações estruturalistas, inclusive o descontrutivismo de Derridá, a Escola de Frankfurt e o Círculo de Viena.

3.2. Esse período caracterizou-se também pelo aparecimento das correntes chamadas de psicologia profunda [Freud, Adler, Jung e outros] que afirmam que a conduta humana é dirigida por uma instância mental irracional, que chamam de inconsciente dinâmico . Esse menoscabo da razão induziu a uma identificação de liberdade com irresponsabilidade. Muitas delas aceitam como parte da mente normal a bissexualidade, a homossexualidade [a criança seria um polimorfo perverso , pois encerraria em latência todas as perversões sexuais dos adultos] e o uso de doença mental ( neuropsicoses de defesa ) como um meio que a mente tem para se defender dos conflitos. Isso eliminou os limites entre sadio e patológico, e influenciou o Manisfeste du Surréalisme , de 1924, quando André Breton propõe o não-conformismo e a tese do automatismo mental . No primeiro princípio, faz apologia da iconoclastia e, no segundo, defende o aetismo extremo, em que o autor deveria escrever tudo que lhe viesse à mente [ patológica , evidentemente], sem a menor censura, mesmo que o conteúdo viesse a escandalizar os bons costumes, tal como incesto, bestialidade ou qualquer outra perversão.

3.3. Na década de trinta [1933], alguns sociólogos americanos cunharam a expressão “psiquiatria social” [3] com a pretensão de transformar a Medicina em sociologia. A revista ‘MÉDICOS’, editada pela USP, apresentou em seu número de dezembro de 1998 [ANO 1, No 5, pg. 100] a opinião da socióloga Maria Helena Machado que atribui à Medicina ( saber científico com a finalidade de aliviar a dor e salvar vidas) uma “aliança com o Estado (...) e com a elite dominante”. Esse despautério demonstra o descalabro que a “sociologização” da Medicina atingiu.

3.4. Foi na década de sessenta do Século XX, que explodiu o laxismo [ laissez-faire extremo na esfera moral] fomentado por essas doutrinas de pensamento. Começou com o movimento hippie, tendo por fundamento estético o extravagante, o aberrante, tudo que causasse escândalo; criatividade passou a ser sinônimo de extravagância, aberração, escândalo. Na esfera moral o mote foi “ paz e amor ”: com paz eles queriam dizer ociosidade ; com amor , luxúria, devassidão dos costumes. Foi a era da liberação do sexo e tóxico, quando tudo deveria ser permitido, a hierarquia passou a ser risível, a ordem, opressão e a obediência, submissão. A palavra de ordem foi contestar , contestar por contestar, sem o menor fundamento.

A única coisa a proibir foi proibir . Esse foi o lema das badernas das ruas de Paris em maio de 1968, lideradas pelo filósofo Herbert Marcuse e apoiadas por vários intelectuais como Sartre, Simone de Beauvoir e outros anárquico-socialistas [4]. Em agosto de 1969, ocorreu o festival em Woodstock, quando imperou a promiscuidade sexual, o abuso de tóxico, a falta de higiene, a extravagância.

4.

Formação da ideologia antipsiquiátrica .

4.1. François Dosse [5] afirma que em 1952 a UNESCO encomendou a Levy-Strauss [antropólogo de orientação estruturalista] um estudo sobre “a questão racial perante a ciência moderna”. O autor publica o livro “ Race e Histoire ” que, querendo derrubar os preconceitos raciais, então ainda tão presentes suas conseqüências funestas [sete anos após a Segunda Guerra Mundial], extrapolou para o extremo oposto, sustentando a ausência de hierarquia entre as civilizações. Uma cultura que ainda exigia sacrifícios humanos estaria no mesmo grau de igualdade como a cultura cristã. Essa ideologia concorreu para incentivar a iconoclastia em curso e resultar na Nova Era [New Age] da década de sessenta.

4.2. O filósofo francês Michel Foucault [1926/1984] deu uma grande contribuição para a formação da ideologia antipsiquiátrica com seus livros iconoclastas:

História da Loucura na Idade Clássica [1961], As Palavras e As Coisas [1966], Arqueologia do Saber [1969]. Esse indivíduo é suspeito, pois em 1948, tentou suicídio e foi internado em hospital psiquiátrico. Outro fato de conhecimento público e notório era o de que ele era pederasta e morreu de SIDA [AIDS] em 1984. Os apologistas da antipsiquiatria classificam esses argumentos de mesquinhez e alegam que seu passado psiquiátrico e sua “opção” [SIC] sexual não têm relação com o que escreveu. Pensamos que sim, pois ele denegriu vários saberes e institutos que salvaguardam os valores morais da sociedade.

4.3. Roger Bastide, sociólogo francês de orientação estruturalista, em 1967 afirmou: “não se é enfermo mental, senão em relação a uma determinada sociedade” [6]. É o relativismo que caracteriza o pensamento estruturalista: não existe certo ou errado, verdade ou erro, tudo depende, tudo é relativo. Eles confundem a percepção do fenômeno, que é relativa por ter forte componente subjetivo, com a “coisa em si” ou “númeno”.

4.4. Médicos contaminados por essas tendências “psicologizante”, “sociologizante” e “antropologizante” denigrem a própria Medicina: Thomas Szasz, médico psicanalista norte americano, recusa o modelo médico para as doenças mentais [ Ideologia e Doença Mental – Ensaios Sobre a Desumanização Psiquiátrica do Homem e El Mito de Lãs Enfermidades Mentales ]; Ronald Laing e Esterton:

Loucura, Gordura e Família , 1965; Ronald Laing:

La política de la Experiencia , 1967; todos citados por Moreira [7].

4.5. Em 1965, o médico inglês David Cooper, nascido na África do Sul e pertecente ao partido comunista clandestino, juntamente com Ronald Laing, defensor do uso de mescalina e LSD, e Aaron Esterson formaram o movimento antipsiquiátrico internacional. Em 1967, Cooper lança o livro contestador e iconoclasta Psychiatry and Anti-Psychiatry, editado pela Tavistock Publication. Esse dados foram colhidos de Roudinesco [8]. A partir desse período fatídico, a antipsiquiatria passou a ser tema preferido da juventude desajustada, dos portadores de conflitos sociais, mentais, sexuais, dos contestadores contumazes e foi usada como instrumento político de contestação e de desorganização social. Em maio de 1978, o médico italiano, Franco Basaglia, membro do Parido Comunista Italiano [anarquista e gramsciista], conseguiu que o Parlamento de seu país aprovasse a Lei de no 180 que acabava com os hospitais psiquiátricos. Em 1987, Roy Porter lançou o livro Uma História social da Loucura, repetindo a mesma cantilena antipsiquiátrica.

4.6. Podemos asseverar com segurança que foi na década de sessenta que se forjou a contra-cultura que caracterizou esse final se século.

5.

Conseqüência da ideologia antipsiquiátrica .

5.1. Após os desvarios das décadas de sessenta e de setenta do Século XX, a humanidade chegou à de oitenta com uma baixa geral na escala de seus valores morais. A Organização Mundial de Saúde retirou o diagnóstico de homossexualidade da categoria de perversão sexual da Classificação Internacional de Doenças [CID 9 a revisão, 1975] e a colocou na classificação de desajustes sociais. A 10 a . Revisão de 1995 retirou por completo esse diagnóstico admitindo várias “opções” [SIC] sexuais. No meio de saúde mental, já apareceram pervertidos que vêem com certa naturalidade a prática sexual entre seres humanos e animais. Políticos demagógicos ou degenerados defendem a legalização de casamento entre pervertidos sexuais e, o que é pior, isso já não choca mais as pessoas comuns. Apresentadora solteira de programas infantis pela televisão anunciou que se submeteria a inseminação artificial. Aparecem criminosos compulsivos, assassinos desvairados que metralham inocentes nas escolas, nos cinemas. Suicídios coletivos, liderados por um maníaco, tornam-se rotina. A legalização de drogas já está sendo defendida até por pessoas aparentemente equilibradas, mas sem intelectualidade, que se deixam influenciar por essa contra-cultura. Os meios de comunicação só abordam temas sobre violência e erotismo. As religiões perderam o senso de sacralidade: em vez de levar o povo a Deus, querem levar o Sagrado ao profano com apresentações religiosas que se assemelham mais a espetáculo circense do que um ato sagrado.

5.2. Em 13/SET/86, o jornal “O Globo” [Rio-RJ], publicou uma sentença proferida pelo Juiz Titular da 37 a Vara Criminal do Rio de Janeiro, Dr. Sérgio Verani, em que afirma a falibilidade do diagnóstico psiquiátrico, baseado no livro “Psiquiatria e Antipsiquiatria” de David Cooper, contrariando o diagnóstico e parecer de dois eminentes psiquiatras, Dr. Talvane Marins maia e Dra. Alva Coeli. Quando o saber jurídico contesta o saber psiquiátrico em obra de duvidosa seriedade científica, envolvida com o anarco-comunismo e os movimentos contestadores da contra-cultura é porque tudo já está perdido. Só resta a fé em um Deus misericordioso que não permitirá que o mal dure sempre. AMEM!

6.

A lei Paulo Delgado .

A apresentação do projeto já encerrava malícia, pois usava para os estabelecimentos psiquiátricos a palavra pejorativa “manicômio”. Há muito tempo, já é usado o termo “hospital psiquiátrico” e já havia uma tendência a extinguir não só esse, como os outros estabelecimentos de saúde que tratassem apenas um quadro clínico, como os sanatórios de tuberculosos, de hanseníacos, etc.. A orientação era construir hospitais gerais a fim de que o doente pudesse ser atendido nas intercorrências de outras áreas. Além disso, o avanço da bioquímica veio curar muitas doenças mentais ou torná-las suscetíveis a controle. Foi a química e não a psicologia, a sociologia, a psicanálise ou a política, responsável pela humanização do tratamento psiquiátrico e a redução da necessidade de internação. A aprovação dessa lei mostraria uma postura no mínimo demagógica, se não fosse deliberadamente subversiva, anarquista, corrosiva. A sociedade brasileira enfrentaria os mesmos problemas ocorridos na Itália a partir de 1979: os ricos iam para Suíça ou França internar seus doentes, os pobres tinham que sobreviver à ameaça de seus parentes insanos.

7.

Conclusão .

Se esse projeto original tivesse sido aprovado, a sociedade brasileira enfrentaria os mesmos problemas ocorridos na Itália a partir de 1979: os ricos iam para Suíça ou França internar seus doentes, os pobres tinham que sobreviver à ameaça de seus parentes insanos. Esse é o caos almejado pela esquerda anarquista, seguindo seu lema – QUANTO PIOR, MELHOR. Pessoas assustadas falam em fim de mundo. Achamos que já estamos vivenciando os tempos apocalípticos. Não somos místico e não professamos ocultismo, mas a crise moral causa tamanho desespero que nos força a pensar de modo mágico. A famosa besta apocalíptica , tão enigmática, nada mais é do que o aniquilamento moral que a contra-cultura dos anos sessenta nos deixou como herança. Talvez haja até uma relação cabalística entre o número 666 e a década de 60. Seu número, 666 [Apocalipse 13:18], é uma série constituída pela repetição, três vezes, do algarismo “6”. A década de 60 [1961/1970] tem nove vezes o algarismo “6” repetido. Nove é o triplo de três. A década de 60 é o triplo da besta apocalíptica. Que os místicos da Nova Era [ New Age ] reflitam sobre isso.

Referências Bibliográficas 1] Dicionário de Psicanálise ; Roudinesco, E. e Plon, M.; Rio de Janeiro; Jorge Zahar Editor; 1998.

2] Dicionário Básico de Filosofia ; Japiassu, H e Souza Filho, D. M.; 1 A . Ed.; Rio de Janeiro; Jorge Zahar Editor; 1990.

3] Moreira, M.S.;

Notícias Psiquiátricas [Set/90, No 198]; Rio de Janeiro; Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro. p. 4.

4] Chaves, V.L.S.;

Falando de Psiquiatria [OMBRO A OMBRO ANO XII, Março de 2000]; Rio de Janeiro; Estandarte Editora e Empreendimentos CulturaisLtda;; .pg. 10.

5] Dosse, F.;

História do Estruturalismo , v.1. o campo do signo,1945-1966; São Paulo; Ensaio;Campinas, SP; Editora da Universidade Estadual de Campinas; 1993.

6] Moreira, M.S.; idem, p 4.

7] Moreira, M.S.; ibidem, p. 2.

Moral Leninista

Enviado à redação de | que vai dominando este país

Época em 29 out 2001, para a edição de 3 nov. – Não publicado.

“Devemos recorrer a todo tipo de estratagemas, manobras, métodos ilegais, disfarces e subterfúgios”, escreveu Lênin em “O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”. É uma fórmula geral da conduta esquerdista. Mas o contexto imediato esclarece ainda mais seu sentido e sua atualidade: Lênin disse essas palavras quando se preparava para lançar a NEP, a política de abertura de mercado, que, levando o mundo a crer que o socialismo havia perdido sua vocação revolucionária e truculenta, desarmou as prevenções ocidentais e atraiu para a URSS vultosos investimentos estrangeiros depois, naturalmente, encampados à força.

Foi a primeira de uma interminável série de camuflagens “light” que o socialismo veio adotando até hoje.

E Lênin concluía: “Quando tivermos conquistado as massas mediante uma abordagem razoável, então aplicaremos táticas ofensivas.”

Desde então tornou-se praxe nos partidos comunistas manter ao mesmo tempo duas linhas de ação, uma violenta, outra pacífica, uma radical, outra moderada, alternando sua exibição no palco segundo as conveniências do momento e alternando também a modalidade de relação entre as duas alas, que ora pode se mostrar como parceria, ora como concorrência ou antagonismo, de modo que o movimento como um todo pareça fraco e dividido ou unido e forte. Anatoliy Golitsyn, em “New Lies for Old”, mostrou que, na política soviética, essa última alternância refletia o ritmo de consecução da estratégia revolucionária, segundo o conselho de Sun-Tzu: “Mostrar-se fraco quando está forte, forte quando está fraco”.

Essa ambigüidade premeditada pode se personificar em distintas figuras que representem simultaneamente as duas faces do partido como, no Rio Grande do Sul, Tarso Genro e Miguel Rosetto, correspondentes, mutatis mutandis, a Arlequim e Pierrot ou o Gordo e o Magro. Pode aparecer também como adaptação oportunista às mudanças do ritmo histórico, de modo que as táticas agressivas e desagradáveis sejam postas de lado como inadequadas aos novos tempos, sem ser por isto condenadas moralmente. Mas pode também manifestar-se como ambigüidade no sentido estrito, isto é, como discurso de duplo sentido. Quando o dr. Aloysio Nunes Ferreira Filho declara que “não sabe” se hoje em dia voltaria a recorrer às ações violentas em que se envolveu na década de 70, ao mesmo tempo que enaltece como heróis os que participaram delas, o que ele está dizendo é precisamente que voltará a elas tão logo saiba que é o momento apropriado. Não de trata de uma questão de moralidade, mas de oportunidade.Tal é pois o desempenho que se pode esperar dele no Ministério da Justiça: “Quando tivermos conquistado as massas mediante uma abordagem razoável, então aplicaremos táticas ofensivas.” A única esperança de que a violência comunista não volte a reinar para depois acusar de violência a reação das vítimas é que a “abordagem razoável” não alcance os resultados esperados. E isto depende de que cada palavra ambígua do dr. Nunes Ferreira seja decodificada em tempo como ameaça latente. Resta também a hipótese remotíssima de que ele tome consciência da malícia leninista da sua conduta e, sem meias palavras, condene o seu próprio passado, não apenas como passado, mas como foco infeccioso que deve ser ser cauterizado para não supurar nunca mais, no mesmo e exato sentido em que examino minha própria militância comunista não com a nostalgia de de quem afaga paternalmente sua juventude extinta, mas com o realismo de quem confessa um erro moral grave.

Benedetto Croce distinguia entre o arrependimento moral, que condena o próprio ato como intrinsecamente mau, e o “arrependimento econômico”, que não abjura do ato mas apenas de suas conseqüências indesejadas: um ladrão se envergonha de ter roubado, outro de não ter conseguido escapar da polícia. Mesmo o puro arrependimento moral não garante que o criminoso não voltará a reincidir. Mas o arrependimento econômico é quase uma garantia de reincidência.

Em 29 de outubro de 2001

O Direito De Investigar

Enfraquecer a Abin é dar ao PT o monopólio da espionagem | Época

Já que tanto se fala de “arapongas”, vale a pena lembrar que o termo, extraído de uma novela cômica da Globo, entrou em circulação na política, uns anos atrás, para designar não os agentes secretos do governo, mas os de um serviço de espionagem privado, ilegal, mantido pelo PT sob a direção de um técnico treinado em Cuba, o deputado José Dirceu.

Naquele tempo, as denúncias do governador Esperidião Amin contra a pequena KGB foram rapidamente abafadas, e os arapongas petistas puderam continuar até hoje seu trabalho, tranqüilamente surrupiando documentos e bisbilhotando a vida de meio mundo sem ser jamais incomodados ou investigados. Os agentes da Abin não desfrutam igual privilégio. Ao menor abuso, são submetidos àquele “controle externo” do qual a espionagem petista, by special appointment, está completamente isenta.

No entanto, se a Abin cometeu algum abuso, a existência mesma de seu rival petista é mais que abuso: é crime. A gritaria geral contra o abuso, já que acompanhada de não menos geral silêncio no que diz respeito ao crime, tem por óbvia finalidade amarrar as mãos da autoridade constituída e conferir ao serviço secreto ilegal o monopólio dos meios de investigar. Se o governo aceitar esse jogo, acabará transformando a Agência Brasileira de Inteligência em Agência Brasileira de Burrice. Não é nada impossível que as informações reservadíssimas veiculadas pela imprensa na semana passada tenham sido, elas próprias, obtidas por agentes petistas, numa operação montada para consolidar a superioridade da espionagem ilegal sobre o serviço secreto oficial – um avanço formidável na montagem do poder paralelo preconizado por Lênin, que, segundo demonstrou José Giusti Tavares no estudo Totalitarismo Tardio: o Caso do PT (Porto Alegre, Mercado Aberto, 2000), é a quintessência da estratégia petista.

Mas, além disso, é simplesmente obsceno aceitar como pressuposto indiscutível a afirmação de que houve abuso por parte da Abin. Qualquer brasileiro que seja persona grata aos altos escalões do governo cubano é suspeito de envolvimento numa estratégia revolucionária continental associada aos narcotraficantes colombianos e deve, no mínimo, ser observado.

Um governo que, sabendo da existência de uma revolução em marcha nas fronteiras, se abstivesse de investigar os possíveis colaboradores internos da operação estaria simplesmente entregando o país aos revolucionários. E o que muita gente está exigindo do governo é que ele não apenas abdique de investigar os agressores, mas consinta docilmente em ser investigado por eles.

No entanto, se nosso presidente, depois de tantas concessões degradantes, fizer mais essa, não haverá nisso nada de estranho. Há sérios indícios de que, seguindo estritamente a sugestão que recebeu do cientista político Alain Touraine, ele prepara para o ano que vem uma guinada à esquerda, de modo a tornar-se o virtual chefe da transição brasileira para o socialismo. Que mais poderia ele querer dizer com “a grande virada” que anuncia para 2001? Eleito com o apoio suicida de liberais iludidos com a cantilena do “fim do comunismo”, ele parece não ter mesmo outro sonho na vida senão o de se tornar o Kerenski que deu certo.

PS.: Um leitor acusa-me de ser avesso ao debate e para prová-lo alega que respondi aos argumentos do doutor Borroni-Biancastelli. Mudou o conceito de debate ou mudei eu?

Em 25 de novembro de 2000

Agitao Obscena

Em artigo recém-publicado no | O Globo

Wall Street Journal , Mary Anastasia O’Grady alerta que a China está preenchendo o vazio deixado na América Latina pela política do Departamento de Estado. Herança mórbida de Bill Clinton que George W. Bush largou inalterada para concentrar-se nos problemas do Oriente Médio, essa política consiste de: (1) apoio às intromissões do FMI na política econômica local, as quais colocam os americanos numa posição antipática sem lhes trazer benefício nenhum; (2) “combate às drogas” por meio de uma estratégia suicida que só beneficia as Farc e os cocaleros ; (3) ajuda maciça a ONGs esquerdistas empenhadas em fazer a caveira dos militares; (4) ingênua complacência ante valentões tipo Hugo Chávez.

Desde o início esse cardápio parecia mesmo planejado para favorecer a ascensão do esquerdismo e abrir as portas da AL às ambições chinesas. Nada mais natural, já que a esquerda aí ama Bill Clinton de paixão e o governo da China o ajudou com dinheiro em campanhas eleitorais. Mas, se a arraigada boa-fé dos eleitores americanos os impediu de atinar com a lógica perversa por trás do esquema, hoje as conseqüências da aplicação dele são tão vistosas quanto a onda continental de anti-americanismo que as manifesta e as dissimula. (Sobretudo dissimula: pois quem poderia suspeitar que a esquerda triunfante deve seus louros ao governo americano, justamente no momento em que mais esbraveja contra ele da boca para fora?)

A sra. O’Grady observa que aqueles quatro pontos não são correspondem em nada às convicções do atual presidente — o qual, com certeza, há de suprimi-los tão logo um segundo mandato lhe dê forças para isso.

A ascensão das esquerdas na América Latina é um epifenômeno: uma aparência superficial gerada por um fato mais discreto e mais profundo, originado nos EUA. Suprimido o fato, a aparência se desfará por si própria, como uma bolha de sabão. E os que apostaram nela ficarão, uma vez mais, com cara de tacho.

Daí o sentimento de urgência apocalíptica, a agitação obscena da torcida latino-americana pró-Kerry. Agitação inútil: o candidato democrata enrola-se cada vez mais em tentativas de manchar a reputação de Bush, que retornam sobre a sua pessoa com força multiplicada. Foi ele quem, ao fazer-se de herói de guerra e depreciar o adversário como soldado relapso, chamou para fora do armário o esquadrão de esqueletos que agora, com uniformes da Marinha, vêm assombrá-lo em pesadelos. Foi ele quem, apelando ao expediente sujo das imputações criminais, se expôs ao risco de investigações que ameaçam trazer à luz a sua participação num complô de homicídio. Resultado: segundo a Gallup e a Zogby, que sabem mais do que a mídia brasileira, ele tem 42 por cento das intenções de voto, contra os 55 por cento de Bush. O problema da candidatura Kerry é John Kerry.

É preciso alguém estar mesmo muito desesperado, para chegar a apostar tudo num clone geneticamente defeituoso de Bill Clinton.

Com Das Casernas à Redação. A Era de Turbulências , publicado esta semana pela Editora UniverCidade, Paulo Mercadante nos dá mais uma prova de seu talento para apreender a unidade de sentido por trás de acontecimentos heterogêneos. É, antes de tudo, a história de um grande jornal — este mesmo jornal em que tenho a honra de escrever –, contada com foco nos três personagens que lhe deram vida: Irineu, Roberto e Rogério Marinho. Mas O Globo não aparece aí apenas como empresa jornalística, e sim como expressão de um movimento político decisivo, o tenentismo, desde suas origens no começo do século XX até seu declínio na era Geisel. Não creio que algum dia a trajetória de uma publicação brasileira tenha sido delineada sobre um fundo histórico tão vasto, nem com uma visão tão aguda das ligações entre jornalismo, política e cultura.

Sempre fico sem jeito para elogiar Paulo Mercadante, porque temo que a minha admiração ilimitada pareça devoção boboca. Mas como poderia a amizade que lhe tenho amortecer minha inteligência crítica, se tudo o que leio dele revigora essa inteligência mais do que qualquer outro produto da farmacopéia cultural brasileira?

Em 18 de setembro de 2004

Em Nome Do Crime

Em 31 de julho de 2000 escrevi na revista | Diário do Comércio

Época :

“ A Constituição da União Soviética punia o homicídio com dez anos de cadeia, e com pena de morte os crimes contra o patrimônio do Estado... Sob a inspiração de intelectuais alucinados, a escala de valores da Constituição soviética tornou-se o modelo da atitude brasileira perante a criminalidade: ódio e perseguição implacável aos que desviam dinheiro público, passividade atônita e paternal complacência ante os assassinos e quadrilheiros armados.”

Que é que mudou desde então? Muita coisa. Na época, a elite política esquerdista era a personificação mais vistosa e barulhenta do moralismo acusatório. Era ela que ligava os megafones da mídia, era ela que manipulava os repórteres, transformando suspeitas em notícias e depois usando as notícias como pretextos para abrir CPIs. Era ela que trazia as massas para a rua, exigindo cabeças. Foi ela que criou a maior farsa cívica da história nacional, induzindo o eleitorado a expulsar da presidência, entre lágrimas de comoção patriótica e explosões de grandiloqüência parlamentar, um homem que depois, tarde demais, a Justiça provou ser totalmente inocente.

Hoje em dia, é ela própria o alvo das denúncias – bem mais graves e incomparavelmente mais sólidas do que aquelas que ela inventou contra Collor de Melo.

É uma mudança radical, um giro de cento e oitenta graus na rota da massa fecal voadora.

Mas, em primeiro lugar, é uma mudança tardia. No começo dos anos 90, quando o PT vociferava nas CPIs contra a sociedade imoral, ele já ia construindo, discretamente, sua própria máquina de corrupção, incomparavelmente maior do que aquelas que os Anões do Orçamento teriam podido sequer imaginar. Não faltou quem o denunciasse por isso, mas não obteve a audiência que merecia. A crença geral na santidade petista estava em plena ascensão, os fatos nada podiam contra ela. Não por coincidência, o personagem que então brilhava no papel de tribuno máximo da dignidade, e que o fazia com tanto mais eficiência por ser o coordenador da rede de espiões petistas infiltrados por toda parte, tornou-se depois ainda mais famoso como mentor e chefe do Mensalão. As duas operações foram obviamente simultâneas e interligadas: enaltecer a moralidade e destruí-la. Enaltecê-la para melhor destruí-la. Tudo isso podia ter sido evitado se a mídia e os políticos ditos “de direita” não tivessem feito ouvidos de mercador a Paulo de Tarso Venceslau e redobrado a aposta louca na idoneidade dos bem-falantes.

Em segundo lugar, a mudança é só na direção do ataque, não nos seus fundamentos. Os que denunciam o PT continuam a fazê-lo segundo o mesmo critério de falsa moralidade que aprenderam com ele: berram contra o desvio de dinheiro, calam-se ante os rios de sangue que a aliança macabra da esquerda com o banditismo continental faz rolar nas ruas de São Paulo e do Rio. Afetando rebeldia e inconformidade ante o partido governante, são ainda seus escravos ideológicos, incapazes de raciocinar fora do esquema mental soviético que, sem esse nome, se impregnou na cultura e se tornou senso comum. Ora, esse esquema é ainda mais criminoso do que todos os crimes, pois é ele que os gera e dissemina.

Toda a tagarelice antipetista do mundo nada poderá contra o PT enquanto não se libertar desse vício ideológico hediondo que, ao denunciar os criminosos, não sabe fazê-lo senão em nome do Império do Crime.

Em 19 de setembro de 2007

Destino Selado

Em 22 de dezembro do ano passado, | Zero Hora

O Globo já informava que, segundo os dirigentes do Fórum Social Mundial, ali só não seriam aceitos na mesa de debates “os partidos políticos de centro e de direita”.

Maria Luíza Mendonça, da “Rede Social de Justiça”, uma das organizações que promovem o encontro, foi bastante explícita nas declarações que fez ao jornal. O Fórum, disse ela, não teria por finalidade o confronto de idéias. Consolidada a unanimidade antiliberal de seus participantes, “nosso momento já é de discutir estratégias de ação”. Ação contra quem? Contra o “neoliberalismo”, portanto contra aqueles mesmos partidos de centro e de direita excluídos do debate.

O Fórum, em suma, deixou de ser apenas um dispendioso circo publicitário para tentar ser uma coordenação estratégica da esquerda internacional, o equivalente global daquilo que o Foro de São Paulo representa na escala da América Latina.

Ora, que significa tudo isso senão que se trata de um empreendimento unilateralmente, sectariamente partidário? E desde quando um governo instituído pode subsidiar empreendimentos dessa ordem sem cometer crime eleitoral?

Que as verbas do governo gaúcho ajudassem a financiar uma coisa dessas, no tempo de Olívio Dutra, já era imoral e ilegal, mas politicamente compreensível. Que o Banco do Brasil e a Petrobrás ponham nisso 800 mil dólares no instante mesmo em que o governo federal alega apertar os cintos para dar tudo aos pobres, é de uma indecência magnífica, mas estrategicamente faz sentido. Que, porém, o governo do sr. Germano Rigotto coloque as propriedades do Estado à disposição de um conluio concebido para marginalizar o próprio partido que o elegeu, eis a prova de que o centro-direita perdeu os últimos escrúpulos e até o restinho de instinto de sobrevivência que o inibia de colaborar descaradamente com aqueles que juraram destruí-lo. Quando se chega a esse ponto, já não é possível nenhuma resistência organizada à ascensão do comunismo.

O destino do Brasil está selado. Nada, exceto um milagre, pode reverter a transformação deste país na nova Meca do comunismo internacional, a terra de promissão onde se consumará, segundo a profecia de Fidel Castro, o resgate de tudo o que o movimento político mais destrutivo e mais criminoso de todos os tempos perdeu no Leste Europeu.

Mas esse milagre não acontecerá. Nunca, nos anais do maravilhoso e do divino, se registrou um milagre salvador operado em benefício daqueles que rezavam para que não acontecesse.

Aqueles mesmos que, em palavras, impugnam esse diagnóstico como exagerado se incumbem de confirmar-lhe a exatidão por meio de sua conduta. Pois, se estivessem tão tranqüilos quanto fingem estar, se não vissem dia a dia a esquerda totalitária ocupar todos os espaços e marginalizar todos os concorrentes, por que haveriam de apressar-se tanto em lhe mostrar serviço, abdicando voluntariamente do direito de lhe fazer oposição a sério e retribuindo cada nova agressão com novos afagos, cada nova expressão de desprezo com redobradas ostentações de servilismo?

Muitos contam com a esperança de que o governo petista, por inépcia, se destrua a si mesmo. Isso provavelmente vai acontecer. Mas, desmantelados o centro e a direita, quem, senão a esquerda mais radical e intolerante pode lucrar com o descrédito do presidente? Quem, senão os revolucionários explícitos e descarados, ocupará o vazio deixado pelos implícitos e camuflados?

Aqueles que apostam na autodesmoralização do petismo federal esquecem que, na estratégia clássica das revoluções comunistas, a única utilidade de um governo de transição é precisamente desmoralizar-se, ser passado para trás, abrir caminho, por meio do auto-sacrifício voluntário, aos “autênticos revolucionários”. Que, na complexidade das circunstâncias, haja necessidade de sucessivos governos de transição, cada qual desviando o fiel da balança um pouquinho mais para a esquerda, passo a passo, até o desenlace fatal, também não é novidade nenhuma. A estratégia gramsciana exige explicitamente isso, com a lentidão proposital que a caracteriza. Todos os governos desde o fim do regime militar foram, nesse sentido, regimes de transição, cada um adotando medidas pró-capitalistas que passavam como o vento, ao mesmo tempo que consolidavam mudanças duradouras cada vez mais favoráveis à esquerda na esfera política, cultural, moral, educacional etc. A política econômica de Fernando Collor de Mello passou. Mas a extinção do SNI foi definitiva. O pretenso “neoliberalismo” de FHC passou. Mas a educação marxista nas escolas continua, as indenizações para terroristas continuam, o desmantelamento das Forças Armadas continua, a tolerância para com o crime continua. E os partidos de centro e direita jamais se levantarão da sua condição de escravos da hegemonia esquerdista, a que foram reduzidos pela hábil manipulação gramsciana de um presidente que, de caso pensado, mais fiel às suas origens que às alianças de ocasião, trabalhou para a vitória do seu adversário nominal. Se Lula puxar a situação mais um pouquinho para a esquerda, pouco importa que saia desmoralizado pelo fracasso na política econômica, no combate à pobreza etc. Sua missão estará cumprida e ele terá uma consciência tão tranqüila quanto a do próprio FHC. A lógica dos governos de transição é essa mesma: quem perde ganha.

A esta altura, não sei se o físico cubano Juan José Lopez Linares terá encontrado o êxito ou o fracasso na sua tentativa quixotesca de fazer-se ouvir no Fórum Social Mundial quanto ao caso de seu filho menor de idade, retido em Cuba pelo piedoso governo de Fidel Castro.

O que sei é que, quando as coisas chegam a esse ponto, quando o pai da vítima tem de ir diretamente ao entourage do algoz para pedir clemência, como Rigoletto entre os raptores de Gilda, é porque todos em volta que deveriam ajudá-lo o abandonaram.

Nem todos, é verdade. O Instituto Liberal do Rio Grande, que patrocina essa peregrinação de um desesperado, é seu último e único verdadeiro amigo.

O Mundo De Gorbachov

Em 15 de dezembro de 1987, em plena | O Globo

Perestroika , Mikhail Gorbachov anunciou um dos pontos fundamentais do seu plano para um novo mundo de paz e liberdade: “Não pode haver trégua na luta contra a religião. Enquanto existir religião, o comunismo não prevalecerá. Devemos intensificar a destruição de todas as religiões onde quer que elas sejam praticadas ou ensinadas.”

Gorbachov era e é um marxista puro-sangue, mas, àquela altura, já não pensava em implantar em escala planetária o comunismo ortodoxo, cuja inviabilidade saltava aos olhos. O que ele tinha em mente era a “convergência” dos regimes, um socialismo meia-bomba no qual, preservada alguma liberdade econômica indispensável à sobrevivência do sistema, todas as demais liberdades fossem esmagadas sob uma portentosa engenharia de dispositivos jurídicos, sociais e culturais, já não sob a direção ostensiva do partido único, mas de um pool de organizações esquerdistas concordes no essencial. O livre mercado seria mantido, mas como instrumento para subsidiar a destruição da “democracia burguesa”. O empresariado sonso cederia de bom grado em tudo para preservar o seu querido direito de enriquecer, sem se dar conta de que na nova regra do jogo a riqueza seria cada vez menos uma fonte de poder e sim um handicap , calculado para subjugar seu detentor às exigências do Estado. Encapsulada na vitória temporária do capitalismo, a ascensão do socialismo já não se faria por meio da revolução e sim do acúmulo progressivo e indolor de controles burocráticos, exigidos por “movimentos populares” artificiamente criados para esse fim e subdidiados, a seu turno, por uma horda de novos e antigos ricos, movidos pela esperança insensata de aplacar com generosidades obscenas de donzela oferecida a voracidade do Estado-papão. Inspirada em Gramsci e no socialismo fabiano cujo gradualismo anestésico tinha por símbolo uma tartaruga, a estratégia permanecia fiel à máxima leninista de usar o imediatismo da burguesia como instrumento para desprovê-la de seus meios de defesa.

Esse sistema já está em avançado estado de implantação em todo o mundo. A administração central do planeta, sediada em organismos internacionais como a ONU e a União Européia, que o próprio Gorbachov qualificou de “novo Comintern”, já não controla somente a atividade econômica e trabalhista das nações, nem somente a estratégia militar e geopolítica — fazendo da “soberania” uma curiosidade museológica –, mas cada detalhe da educação, da prática médica, da vida cultural e até das condutas pessoais, submetidas cada vez mais a regulamentações sufocantes que a sociedade civil, estupidificada pela tagarelice de ONGs histéricas, celebra como conquistas da liberdade e dos direitos humanos.

Nesse quadro, a luta contra a religião só se empreende pelo antigo método da repressão direta nas regiões mais distantes da atenção da mídia: Sudão, Vietnã, Coréia do Norte, boa parte da China. No mundo Ocidental, são usadas para isso a militância “politicamente correta” e a própria mídia, que, com notável sucesso, vêm expelindo a religião da vida pública, do sistema educacional e da cultura superior, sob o pretexto risível dos “direitos das minorias”, como se, eliminada com a fé predominante a idéia mesma de religião, fosse sobrar para os cultos minoritários um espaço maior na sociedade e não um lugarzinho apertado no sepulcro geral das devoções extintas.

Resistência séria ao neo-socialismo mundial só há em dois países: EUA e Israel. Daí que uma campanha mundial de desinformação busque apresentá-los com imagem invertida, como se fossem os centros de comando e não os principais alvos do ataque global às soberanias. A quantidade de recursos mobilizada para esse fim é tão gigantesca, tão vasta e complexa a constelação de artifícios usada para ludibriar a opinião pública, que atinar com o curso efetivo dos acontecimentos está acima da capacidade do cidadão médio e mesmo do “intelectual” médio. Dificilmente a presente geração chegará a perceber a realidade da situação histórica que viveu. O mundo de Gorbachov é o mundo da inconsciência planificada.

Em 19 de junho de 2004

La Pregunta Decisiva

El jueves, en el | O Globo

Jornal Nacional , William Bonner hizo al candidato Luiz Inácio Lula da Silva una pregunta sobre las Farc. En la TV todo es muy rápido, inevitablemente superficial, y por eso tal vez el público ni siquiera se dio cuenta del porqué de la pregunta ni de su conexión con la persona del entrevistado. La respuesta se encargó de hacer más obscura aún esa conexión, llevando al espectador a creer que se trataba meramente de una comparación retórica entre dos estilos de hacer política de izquierda: violencia en Colombia, “paz y amor” en Brasil. Comparación muy lisonjera para una de las partes, sin depreciación explícita de la otra.

Pero la lógica de la pregunta iba mucho más allá de la banalidad en que la transformó la respuesta. Para captar su sentido, es necesario exponer con cierto detalle las premisas factuales que la fundamentan:

1. Fernandinho Beira-Mar confesó que adquiría regularmente de las Farc 200 toneladas de cocaína por año, casi un tercio de la producción colombiana, pagando una parte en dinero, otra en armas. A parte de la confesión, existe la prueba documental: el laptop del traficante, aprehendido por los militares colombianos, contenía una lista de las últimas transacciones entre él y las Farc. Leonardo Dias Mendonça, socio de Beira-Mar, está acusado por la Policía Federal de ser el mayor transportador a Brasil de drogas de las Farc.

2. El candidato del PT a la presidencia de la República tiene con las Farc una relación más que meramente amistosa. Él y la guerrilla colombiana han firmado, en las reuniones del Foro de São Paulo, sucesivos pactos de solidaridad mutua, subscritos también por otras organizaciones comunistas y socialistas, algunas abiertamente revolucionarias. El texto de esos pactos está reproducido en el propio site del Foro, http://www.forosaopaulo.org/ .

3. Si, vistas esas dos series de constataciones, sería ligereza aceptar in limine las alegaciones de los jefes de las Farc que declaran inocentes a éstas de cualquier implicación directa en el narcotráfico – pues, en definitiva, una confesión, una prueba documental y una sospecha por indicios, sumadas, dan algo más que una mera conjetura –, idéntica ligereza sería extraer de esos hechos, sin más ni más, alguna conclusión que incrimine al candidato petista como cómplice consciente de actividad ilícita.

4. No obstante, quedan los pactos. La promesa contenida en esos documentos no es parcial ni relativa: es total e incondicional. El candidato ha sido rigurosamente fiel a la misma, defendiendo con insistencia la buena imagen de la guerrilla colombiana y actuando como el más prestigioso portavoz nacional de las alegaciones en favor de ésta.

5. Sin embargo, como eventual presidente de la República tendrá, y como candidato ya tiene, otro y muy distinto compromiso que cumplir: el compromiso con el Estado brasileño, con la nación brasileña, con las leyes brasileñas.

6. Esas dos lealtades son manifiestamente incompatibles, en cualquier grado y en cualquier sentido que sea: un presidente de la República no puede ser el fiel guardián de las leyes de su país si, de antemano, está ya comprometido con la defensa de una entidad posiblemente criminosa, sometida a investigación por parte de las autoridades brasileñas. Incluso un abogado, en el ejercicio de sus tareas profesionales, estaría ya moralmente impedido de ejercer la presidencia de la República en el caso de estar vinculado a alguna empresa acusada de simple evasión de impuestos. ¿Cuánto más no lo estará entonces aquél que, sin ningún deber de oficio, y tan sólo por opción personal, sube al cargo trayendo consigo el gravamen insoportable de un compromiso firmado con organización ilegal, bajo sospecha de crímenes infinitamente más graves que meros delitos fiscales, de crímenes verdaderamente hediondos, que conllevan daños temibles para la seguridad nacional y el macabro desperdicio de millares de vidas humanas en el consumo de drogas y en inacabables guerras de traficantes entre sí y con la policía?

7. Una vez elegido, el Sr. Luís Inácio Lula da Silva tendrá que abjurar públicamente de uno de esos dos pactos: de su compromiso de correligionario con las Farc o de su compromiso de presidente con la nación brasileña. Si firma el acta de toma de posesión y ejerce el cargo aunque sólo sea un día, un minuto, sin hacer explícita su elección, sin tachar una de sus firmas para hacer valer la otra, este país habrá abjurado de sí mismo, haciendo una apuesta ciega en la buena reputación de las Farc muy por encima de nuestra Constitución, de nuestras leyes y de la soberanía nacional.

8. Que, incluso antes de eso, al presentarse como candidato y mantenerse en campaña durante meses, ese hombre se abstenga de decir al menos una palabra al respecto; que en vez de eso continúe cultivando indefinidamente la doble lealtad bajo un manto nebuloso de evasivas y rodeos, es, cuanto menos, un signo de conciencia moral laxa, poco exigente, dada más a la esperanza loca de los avenimientos imposibles que al valor viril de las elecciones decisivas.

9. Que, por otra parte, muchos brasileños, sabiendo de la contradicción latente en esa candidatura, esquiven exigir a su titular la abjuración explícita e inequívoca de compromisos incompatibles con la dignidad presidencial, constituye un hecho que no pretendo explicar de manera alguna, pues eso conllevaría investigaciones complejas que transcienden el objeto del presente artículo, pero del que, un día, esas criaturas tendrán que responder, al menos, ante el tribunal de sus conciencias.

Apelo Urgente Congresso Prepara Legalizacao Do Aborto E Da Eutanasia

Durante as eleições de 2010 o PT acusou ostensivamente a | A TODOS OS QUE COMPREENDEM O VALOR DA

Igreja Católica de calúnia por ter denunciado publicamente o envolvimento do Partido com a promoção do aborto no Brasil.

Cidadãos de respeito chegaram a ser presos por distribuir panfletos assinados por bispos católicos em que afirmava-se que em setembro de 2007, no seu III Congresso, o PT havia assumido a descriminalização do aborto como programa de governo. O Partido não modificou até hoje esta diretiva. Baixe neste endereço uma cópia dos panfletos:

http://www.votopelavida.com/apelo-aos-brasileiros.pdf No dia seguinte ao encerramento das eleições presidenciais de novembro de 2010, no entanto, a senadora Marta Suplicy, recém eleita pelo PT e hoje vice-presidente do Senado brasileiro, foi entrevistada pela imprensa sobre a questão do aborto. Uma cópia do vídeo contendo a entrevista encontra-se neste endereço:

http://www.votopelavida.com/suplicy.wmv A entrevistadora perguntou à senadora Marta Suplicy:

– SENADORA, NESTAS ELEIÇÕES A FRONTEIRA ENTRE ESTADO E RELIGIÃO FOI MISTURADA. QUAIS SÃO AS CHANCES DO PT RETOMAR BANDEIRAS HISTÓRICAS DO PARTIDO, COMO O DIREITO AO ABORTO E AO CASAMENTO GAY?

O leitor poderá conferir como, já encerradas as eleições, no vídeo mencionado a Senadora Suplicy em nenhum momento negou, ao contrário do que o PT havia feito ostensivamente até dois dias antes, que o direito ao aborto e ao casamento gay fossem bandeiras históricas do partido. Em vez disso deu o suposto por evidente, e em seguida praticamente prometeu de que o aborto seria legalizado pelo Congresso brasileiro ANTES DAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES. Estas foram as suas palavras:

– DURANTE AS ELEIÇÕES NÓS PERDEMOS DEZ DIAS INDO ÀS IGREJAS EM UMA DEMONSTRAÇÃO FARISAICA QUE NÃO ACRESCENTOU NADA ÀS MULHERES QUE RECORREM AO ABORTO. O ABORTO DEVE SER DESCRIMINALIZADO PARA QUE AS MULHERES NÃO TENHAM QUE IR PARA A CADEIA.

CERTAMENTE A PRIORIDADE DO GOVERNO AGORA PASSA LONGE DO ABORTO, E A DILMA SE COMPROMETEU QUE NÃO FARÁ NENHUM GESTO NESTE SENTIDO.

MAS O CONGRESSO É OUTRA COISA, NÃO É MESMO? ESTE É UM ASSUNTO QUE DEVERÁ SER RECUPERADO PELO CONGRESSO, PORQUE NÃO PODEMOS MAIS, DAQUI A QUATRO ANOS, TER NOVAMENTE UMA PAUTA ELEITORAL DESTE TIPO.

http://www.votopelavida.com/suplicy.wmv Como mostro abaixo, a promessa está sendo cumprida agora.

O Senado brasileiro instituiu em outubro de 2011 uma Comissão para Revisar o Código Penal brasileiro. Na comissão foram colocados juristas não apenas a favor da descriminalização do aborto, como também da eutanásia. E o que deveria ser uma reforma do Código Penal para solucionar os problemas de segurança do povo brasileiro, está se tornando o mais puro ativismo em favor da legalização do aborto.

O NOVO ANTE-PROJETO PROPÕE A LEGALIZAÇÃO DO ABORTO PRATICAMENTE LIVRE E A INTRODUÇÃO DA EUTANÁSIA NO BRASIL.

A primeira audiência pública sobre o ante-projeto, promovida em São Paulo pela Comissão de Revisão do Código transformou-se, com o apoio de centenas de ONGs que trabalham pela promoção do aborto no país, em puro ativismo em favor da Cultura da Morte. No evento foram propostos até mesmo a legalização do infanticídio e a penalização dos que se manifestam contrários ao aborto.

Dia 8 de março, uma data em que, provavelmente não por coincidência, também se comemora o Dia Internacional da Mulher, a Comissão de Revisão do Código Penal apresentará, em audiência pública no Congresso Nacional em Brasília, o estado dos trabalhos do ante-projeto diante da Comissão de Constitucionalidade do Senado Federal.

PRECISAMOS QUE OS QUE RECEBEREM ESTA MENSAGEM A LEIAM NA SUA INTEGRIDADE PARA ENTENDEREM O QUE ESTÁ ACONTECENDO E EM SEGUIDA SE COMUNIQUEM COM OS SENADORES QUE INTEGRAM A COMISSÃO DE CONSTITUCIONALIDADE, PARA QUE OS PARLAMENTARES POSSAM SE MANIFESTAR EM SENTIDO CONTRÁRIO AOS RUMOS QUE ESTÁ TOMANDO A REVISÃO DO CÓDIGO PENAL.

OS MAILS, FAXES E TELEFONES DOS SENADORES, ASSIM COMO OS DETALHES DO QUE É NECESSÁRIO FAZER ESTÃO CONTIDOS NA ÚLTIMA SEÇÃO DESTA MENSAGEM.

A SITUAÇÃO É GRAVÍSSIMA: ESTAMOS NA IMINÊNCIA DA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO NÃO APENAS NO BRASIL, MAS EM TODA A AMÉRICA LATINA. A Cultura da Morte que pretende instalar-se em nosso continente, como base de UMA NOVA FORMA DE DITADURA, NÃO USA A FORÇA PARA IMPOR-SE, MAS A IDEOLOGIA E O CONTROLE DA INFORMAÇÃO.

Para vencer esta batalha contra a vida precisamos apenas de seu conhecimento e de sua iniciativa para entrar em contato com outras pessoas, amigos e autoridades. Não há outra maneira de defender a democracia moderna.

Esta mensagem é grande, mas é necessário lê-la em sua integridade para poder posicionar-se diante dos senadores.

POR FAVOR, NÃO SE IMPORTE COM O TAMANHO. ESTE É O PREÇO QUE TODOS DEVEMOS PAGAR PARA DEFENDER A DEMOCRACIA.

Estude com paciência a mensagem, comente-a e divulgue-a para toda a sua lista de contatos. Insista para que seus amigos façam também o mesmo. É ASSIM QUE SE CONSTRÓI UMA DEMOCRACIA.

Estou dizendo que no Brasil a democracia precisa ser construída porque, embora todos saibam que sejamos um país de regime democrático, na prática nos comportamos como se estivéssemos em uma Monarquia e que coubesse apenas ao Rei preocupar-se com tudo e tomar, em nome de seus súditos, todas as decisões sobre o destino da nação. MAS A VERDADE É QUE NÃO ESTAMOS EM UMA MONARQUIA. Se insistirmos em continuar a nos comportarmos como se estivéssemos em uma monarquia, o que acabaremos por construir será uma nova forma de ditadura, e não uma democracia nem uma monarquia.

Agradeço a todos pelo imenso bem e pelo que estão ajudando a promover. O problema transcende as fronteiras de qualquer país, já que faz parte de um plano conjunto pesadamente financiado por organizações internacionais que investem na promoção do aborto em todo o mundo. Tenham a certeza de que a participação de cada um é insubstituível e, juntos, iremos fazer a diferença.

ALBERTO R. S. MONTEIRO ============================================ Leia a seguir:

—————————————————— 1. O QUE ACONTECEU: O SENADO PEDE A REVISÃO DE TODO O CÓDIGO PENAL BRASILEIRO.

—————————————————— 2. O ANTE-PROJETO PROMOVE O ABORTO E A EUTANÁSIA.

—————————————————— A. O ANTE-PROJETO PRETENDE LEGALIZAR O ABORTO.

B. O ANTE-PROJETO PRETENDE LEGALIZAR A EUTANÁSIA.

C. CONFIRA AS ALTERAÇÕES PROPOSTAS PARA O NOVO CÓDIGO PENAL.

D. O QUE É A EUTANÁSIA.

E. A SUBCOMISSÃO DE REVISÃO DA PARTE ESPECIAL DO CÓDIGO PENAL —————————————————— 3. A AUDIÊNCIA PÚBLICA REALIZADA EM SÃO PAULO SEXTA FEIRA 24 DE FEVEREIRO —————————————————— A. A APROVAÇÃO E A PRÁTICA DO ABORTO NO BRASIL B. A AUDIÊNCIA PÚBLICA, DESCRITA POR LORENA LEANDRO.

C. A AUDIÊNCIA PÚBLICA, DESCRITA PELO VEREADOR HERMES NERY D. A AUDIÊNCIA PÚBLICA, DESCRITA POR UMA REPRESENTANTE DE UMA ONG PROMOTORA DO ABORTO —————————————————— 4. O TRATADO INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS —————————————————— 5. O QUE FAZER —————————————————— 6. MAILS, TELEFONES E FAXES DOS SENADORES DA COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO, JUSTIÇA E CIDADANIA ============================================ 1. O QUE ACONTECEU: O SENADO PEDE A REVISÃO DE TODO O CÓDIGO PENAL BRASILEIRO.

============================================ No dia 18 de outubro de 2011 foi instalada pelo presidente do Senado, José Sarney, a Comissão de Reforma do Código Penal para “AJUSTAR O CÓDIGO PENAL BRASILEIRO AOS PRINCÍPIOS DA CONSTITUIÇÃO DE 1988 E ÀS NOVAS EXIGÊNCIAS DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA”.

A proposta de criação do colegiado foi apresentada pelo senador Pedro Taques (PDT-MT), que ressaltou o “atraso” do código, instituído em 1940, durante o governo do presidente Getúlio Vargas.

Segundo as palavras do Senador Pedro Taques, a preocupação era a de atualizar todo o texto do Código:

“É PRECISO QUE SEJA REVISTA A TOTALIDADE DE NOSSO CÓDIGO PENAL.

NOSSO CÓDIGO É DE 1940. ELE JÁ ESTÁ QUASE SE APOSENTANDO COMPULSORIAMENTE. ELE FOI CRIADO EM UM MOMENTO HISTÓRICO EM QUE VIVÍAMOS UMA DITADURA. HOJE NÓS VIVEMOS EM UMA DEMOCRACIA E ESSE CÓDIGO PRECISA ESPELHAR O MOMENTO EM QUE VIVEMOS. O CÓDIGO É DE 1940. NÓS ESTÁVAMOS EM 1940 PENSANDO PARA UMA SOCIEDADE RURAL”.

http://aquiacontece.com.br/noticia/2011/10/18/comissao-tera-180-dias-para-ajustar-o-codigo-penal A Comissão, cujos nomes não foram indicados pelo Senador José Sarney nem pelo Senador Pedro Taques, mas pelas lideranças partidárias do Senado, é formada por 17 juristas, que estão trabalhando desde outubro no ante-projeto de novo Código Penal, que será apresentado em maio ao presidente do Senado, José Sarney. A partir daí, o texto tramitará no Congresso como projeto de lei, sendo primeiro analisado pelo Senado e depois pela Câmara dos Deputados.

A Comissão está dividida em três subcomissões, a primeira encarregada da revisão da parte geral e introdutória do Código Penal, a segunda encarregada da parte especial, aquela que define os vários crimes e penas previstos pelo Código, e a terceira encarregada da legislação extravagante, isto é, todas as leis penais promulgadas no Brasil depois de 1940 que ainda não estão incorporadas ao texto do próprio Código.

Um primeiro problema ocorreu na subcomissão especial, aquela a quem cabe definir quais são os crimes e as penas previstas pelo código, para a qual foram designados juristas que haviam manifestado repetidas vezes, de modo público e ostensivo, a sua posição a favor não apenas a favor do aborto, como também da eutanásia, e não apenas da eutanásia passiva, como também da eutanásia ativa, e da assistência médica ao suicídio.

Juntando-se a presença destes juristas na Subcomissão Especial com as promessas da Senadora Suplicy, o resultado já deveria ser esperado. O que deveria ser uma simples revisão do Código Penal para atualizar suas normas e favorecer a segurança pública no Brasil, a partir de fevereiro de 2012 transformou-se em ativismo explícito em favor do aborto e da eutanásia.

Por iniciativa própria a Comissão de Juristas convocou, para o dia 24 de fevereiro de 2012, uma audiência pública no Salão dos Passos Perdidos do Tribunal de Justiça de São Paulo. A idéia anunciada era que a Comissão pudesse ouvir o que pensa a população sobre a reforma do Código Penal. Mas, em vez de ser debatido todo o novo ante-projeto do Código, tivemos uma primeira surpresa quando soubemos que a Comissão restringiu o tema e decidiu que ouviria a população APENAS EM RELAÇÃO AOS CRIMES CONTRA A VIDA. A segunda surpresa foi que inscreveram-se para a audiência, com direito a três minutos de exposição oral, cerca de uma centena de pessoas, A MAIORIA DELAS REPRESENTANTES DE ONGS QUE PROMOVEM O ABORTO NO BRASIL.

A esmagadora maioria destas organizações, se não a totalidade, é financiada por grandes fundações internacionais como a Fundação Ford e muitas outras, que são as verdadeiras patrocinadoras do movimento mundial pelos direitos sexuais e reprodutivos, um eufemismo criado pela própria Fundação Ford em 1990 no famoso relatório “SAÚDE REPRODUTIVA: UMA ESTRATÉGIA PARA OS ANOS 90” em que se propunha promover o controle do crescimento populacional não mais através da simples oferta de serviços de planejamento familiar, mas através de alterações das estruturas sociais que pudessem modificar a motivação dos casais para que estes quisessem ter menos filhos, mediante a emancipação da mulher para o mercado de trabalho, a quebra dos padrões tradicionais de conduta sexual e da promoção do aborto como um direito. A prova está aqui:

[“REPRODUCTIVE HEALTH, A STRATEGY FOR THE 1990S”, o relatório original da Fundação Ford em inglês:

http://www.votopelavida.com/fordfoundation1990.pdf] [“SAÚDE REPRODUTIVA: UMA ESTRATÉGIA PARA OS ANOS 90”, um resumo em português do relatório original: http://www.votopelavida.com/fundacaoford1990.pdf] Neste relatório pode ser lido como este programa foi estendido ao Brasil nos últimos 20 anos:

[“COMO FOI PLANEJADA A ONTRODUÇÃO DA CULTURA DA MORTE NO BRASIL”:

http://www.votopelavida.com/defesavidabrasil.pdf] Assim, na primeira audiência pública sobre a Reforma do Código Penal, ocorrida em São Paulo, no dia 24 de fevereiro de 2012, em vez de se debater o novo Código Penal, praticamente não se falou de mais nada que não fosse o aborto. Pelo menos 90% dos inscritos para falar eram representantes de ONGs que promovem o aborto no Brasil. O que inicialmente parecia que seria simplesmente um debate sobre o Novo Código Penal tornou-se um espetáculo de puro ativismo pela legalização do aborto, visivelmente favorecido pelos membros da Comissão, que posicionaram-se claramente a favor da legalização do aborto no Brasil e das posições defendidas pelos representantes das ONGs que promovem o aborto no país.

============================================ 2. O ANTE-PROJETO PROMOVE O ABORTO E A EUTANÁSIA.

============================================ __________________________________________________ A. O ANTE-PROJETO PRETENDE LEGALIZAR O ABORTO.

__________________________________________________ O ante-projeto do novo código propõe a legalização do aborto utilizando-se do seguinte dispositivo:

“NÃO SERÁ CRIMINALIZADO O ABORTO DURANTE OS TRÊS PRIMEIROS MESES DE GESTAÇÃO SEMPRE QUE UM MÉDICO CONSTATAR QUE A MULHER NÃO APRESENTA CONDIÇÕES PSICOLÓGICAS DE ARCAR COM A MATERNIDADE”.

É evidente que, sob a aparência de expressões propositalmente pensadas para enganar os menos atentos, o que os juristas estão propondo não é a legalização do aborto em certas condições, mas a completa legalização da prática, pois o simples fato da mulher querer abortar já será motivo suficiente para constatar que ela não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade. Ou seja, será possível abortar sempre que a mulher quiser praticar o aborto.

Por que os juristas não propõem, então, diretamente a total legalização do aborto? Justamente para poder aparentar que são pessoas moderadas. De fato, segundo o discurso pronunciado no dia 24 de fevereiro pelo Relator do Ante-projeto, o procurador regional da República em São Paulo, Luiz Carlos dos Santos Gonçalves, o texto do ante-projeto “NÃO É UMA VERDADEIRA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO”, mas apenas uma “POSIÇÃO INTERMEDIÁRIA” em relação à descriminalização do aborto. Segundo suas palavras:

“É PRECISO ENFATIZAR QUE A PROPOSTA NÃO ACABA COM O CRIME DE ABORTO, ELE APENAS AMPLIA AS SITUAÇÕES EM QUE NÃO HAVERÁ PENA”, o que evidentemente não é verdade. Não é necessário ser jurista para entender isto. Mas o relator foi ainda mais longe, afirmando em seguida que a previsão de atestado médico sobre as condições psicológicas da mulher foi incluída apenas “PARA PROTEGER MULHERES EM SITUAÇÃO DE MUITA FRAGILIDADE”.

Mas neste exato momento o relator acrescentou um comentário que é o revelador de suas verdadeiras intenções:

“O ABORTO É O PIOR MÉTODO CONTRACEPTIVO QUE EXISTE, MAS CRIMINALIZÁ-LO PODE SER SIMPLESMENTE UMA GRANDE INJUSTIÇA PARA COM A MULHER”, disse ele, conforme pode ser lido na Folha de São Paulo de 25 de fevereiro de 2012.

Segundo comentário preciso do jornalista Reinaldo de Azevedo da revista VEJA, “ESTA FALA DEIXA CLARO QUE A AUDIÊNCIA PARA DEBATER ALGUMAS PROPOSTAS SE TRANSFORMOU NUM ATO PRÓ-LEGALIZAÇÃO DO ABORTO. O RELATOR NÃO PARECE ESTAR SE REFERINDO APENAS ÀS MULHERES SEM CONDIÇÕES PSICOLÓGICAS DE ARCAR COM A MATERNIDADE, TRATA-SE DE UMA DEFESA DA DESCRIMINAÇÃO DO ABORTO E PONTO. SEM RESSALVAS”.

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/ainda-o-aborto-tambem-em-materia-de-contracepcao-o-brasil-e-um-estado-baba/ __________________________________________________ B. O ANTE-PROJETO PRETENDE LEGALIZAR A EUTANÁSIA.

__________________________________________________ Em relação à eutanásia, o ante-projeto é muito mais ardiloso.

Ele cria, pela primeira vez, para o artigo 122 do novo código, o crime do eutanásia, que não existe no código atualmente vigente, apenas para mostrar, em seguida, o caminho para obter o seu reconhecimento como direito.

O novo artigo 122 do ante-projeto afirma que passa a ser definido como crime de eutanásia “MATAR, POR PIEDADE OU COMPAIXÃO, PACIENTE EM ESTADO TERMINAL, IMPUTÁVEL E MAIOR, A SEU PEDIDO, PARA ABREVIAR-LHE SOFRIMENTO FÍSICO INSUPORTÁVEL EM RAZÃO DE DOENÇA GRAVE”.

Mas logo o ante-projeto afirma, no parágrafo primeiro, que “O JUIZ DEIXARÁ DE APLICAR A PENA AVALIANDO AS CIRCUNSTÂNCIAS DO CASO, BEM COMO A RELAÇÃO DE PARENTESCO OU ESTREITOS LAÇOS DE AFEIÇÃO DO AGENTE COM A VÍTIMA”.

Ou seja, com esta disposição estará aberto o caminho para autorizações judiciais que venham a permitir, caso a caso, práticas de eutanásia, assim como se faz hoje, com o patrocínio financeiro das fundações internacionais, para obter a legalização do aborto em casos de anencefalia. Nos anos 90 a Fundação MacArthur concedeu um auxílio financeiro para alguns médicos de São Paulo para que iniciassem um movimento para convencer os médicos a orientar as pacientes com gestações de bebês anencefálicos a buscarem uma autorização judicial para praticarem o aborto, apesar de que estas autorizações, mesmo que concedidas por um juiz, sejam ilegais. Em seguida, quando o número destas autorizações já havia se tornado considerável, a Fundação MacArthur incluiu no programa do seu Fund for Leadership Development (Fundo para o Desenvolvimento de Lideranças) a professora Débora Dinis, atualmente da Universidade de Brasília, que se veio a se tornar a arquiteta da ADPF 54, a ação impetrada no STF que pretende legalizar o aborto no Brasil em casos de anencefalia, um dos muitos passos, dentro do projeto maior da Fundação MacArthur, para obter a completa legalização do aborto no país.

Segundo o relatório da Fundação MacArthur, “A PROFESSORA DÉBORA DINIZ RODRIGUES AJUDOU A LIDERAR O DEBATE NACIONAL NA ÉTICA DA TECNOLOGIA REPRODUTIVA E ABORTO, COM UM CUSTO PESSOAL CONSIDERÁVEL. AMPARADA PELO PROGRAMA DO FUNDO PARA O DESENVOLVIMENTO DE LIDERANÇAS DA FUNDAÇÃO MACARTHUR ENTRE O ANO 2000 E O ANO 2002, ELA INICIOU UM CERTO NÚMERO DE PROJETOS DE PESQUISA E DE DEBATES MEDIÁTICOS, [ENTRE OS QUAIS O QUE LEVOU À APRESENTAÇÃO DA ADPF 54, QUE AINDA TRAMITA NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL DE BRASÍLIA]”.

Esta citação está na página 39 do seguinte relatório que descreve todo o projeto de 36 milhões de dólares investidos no Brasil pela Fundação MacArthur para obter a legalização do aborto no país:

[1990-2002 – LESSONS LEARNED – THE POPULATION AND REPRODUCTIVEHEALTH PROGRAM IN BRAZIL:

http://www.votopelavida.com/macarthurlessonslearned.pdf] A idéia dos autores do ante-projeto do Código Penal é que, a cada autorização judicial, seja de aborto por anencefalia ou de eutanásia, quer ela seja noticiada ou não pela imprensa, venha a abrir e acirrar o debate junto à população, além de criar uma jurisprudência progressivamente crescente, até que, multiplicados os casos aos milhares, com o apoio financeiro e logístico das grandes fundações, a sociedade seja pressionada a reconhecer a eutanásia, ou o pseudo-direito à morte com dignidade. O anteprojeto do Código Penal criou e puniu o crime da eutanásia, que não existia no Brasil, apenas para que pudesse ser autorizado caso por caso e ser finalmente legalizado. O ante-projeto do código penal, aparentando proibir a eutanásia, está na verdade introduzindo as condições jurídicas no Brasil para criar o ativismo e a polêmica que irá legalizar a eutanásia no Brasil.

__________________________________________________ C. CONFIRA AS ALTERAÇÕES PROPOSTAS PARA O NOVO CÓDIGO PENAL.

__________________________________________________ O leitor poderá conferir neste link as novas propostas para o aborto e a eutanásia do ante-projeto do Código Penal que está sendo elaborado:

http://www.documentosepesquisas.com/propostas-de-alteracao.pdf __________________________________________________ D. O QUE É A EUTANÁSIA.

__________________________________________________ Os jornais no Brasil não noticiam que na Europa, onde o aborto já está legalizado, a grande polêmica do momento é a legalização da eutanásia. Assim como a verdadeira finalidade da legalização do aborto é o controle do crescimento populacional, e não o bem estar das mulheres, a verdadeira finalidade da legalização da eutanásia é a diminuição da população senil nos países em que o crescimento populacional negativo aumenta a proporção da população idosa em relação à população jovem. A LEGALIZAÇÃO DA EUTANÁSIA NÃO CONDUZ A MORTE DIGNA, MAS CRIA UM PROGRESSIVO DEVER SOCIAL DE MORRER PARA AS PESSOAS VULNERÁVEIS.

Veja alguns exemplos do que está acontecendo na Europa.

A Holanda deixou de considerar crime, em 1984, que os médicos matassem por compaixão doentes terminais. Não se tratava apenas de suspender o funcionamento de aparelhos que conservavam a vida, mas do ato positivo de matar um paciente por compaixão.

Em 1993 a Suprema Corte da Holanda aprovou o suicídio assistido para pacientes que sofressem de depressão. Neste caso o médico não matava ele próprio o paciente, mas o auxiliava para que ele próprio se suicidasse.

Em 1997 a Holanda approvou a eutanásia para crianças portadoras de defeitos. Hoje as autoridades da saúde estimam que 8% das mortes infantis na Holanda são por eutanásia.

Em 2006 a Holanda legalizou a eutanásia para crianças até 12 anos.

A prática da eutanásia cresce de ano para ano na Holanda e atualmente há um registro de 550 mortes anuais por eutanásia sem pedido ou consentimento do paciente no país. O número de 550 são apenas as mortes por eutanásia em que o paciente não pediu ou autorizou a prática, mas o médico interpretou que assim o paciente teria decidido, caso ele pudesse.

Confira estes dados neste vídeo:

[STOP ASSISTED SUICIDE &

EUTHANASIA:

Mas há mais. Confira nos endereços abaixo: este ano as estatísticas mostram que o número de casos de eutanásia na Holanda aumentou 13%:

[EUTHANASIA CASES IN HOLLAND RISE BY 13 PER CENT IN A YEAR:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/netherlands/7841696/Euthanasia-cases-in-Holland-rise-by-13-per-cent-in-a-year.html] Apesar de ter aumentado em 13% o número de casos de eutanásia durante o último ano, a Holanda ainda assim acaba de lançar, neste princípio de 2012, um novo serviço de eutanásia, com sede na cidade de Haia, que traz tudo o que é necessário a domicílio. Os furgões chegam, mediante solicitação, à própria casa do paciente para realizarem os procedimentos. Veja abaixo:

[BBC: HOLANDA OFERECE EUTANÁSIA SOBRE RODAS:

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-17230102] [O PLANO INCLINADO DA EUTANÁSIA NA HOLANDA:

http://www.edmontonjournal.com/news/Euthanasia+slippery+slope/6220018/story.html] Na Suíça situação é tão grave ou pior do que na Holanda. O país havia, em 1942, ao promulgar o seu Código Penal, despenalizado o suicídio assistido por razões de compaixão. Segundo a lei, não seria punido prestar assistência a um suicida, com o intuito de ajudá-lo a matar-se, desde que a pessoa que o fizesse não tivesse motivos egoístas para querer a morte do suicida. Os códigos de ética médica, entretanto, continuava a exigir que os profissionais da saúde não prescrevessem, aproveitando-se da lei, drogas letais a seus pacientes.

Em 1980, entretanto, a lei, que apenas limitava-se a não punir a assistência ao suicídio, passou a ser interpretada como se tivesse sido redigida para reconhecer o direito ao estabelecimento de organizações que ajudassem os suicidas a morrerem. Várias entidades foram fundadas que passaram a oferecer serviços de assistência ao suicídio, tanto para cidadãos suíços como para cidadãos estrangeiros. Em 2007 a lei so suicídio assistido foi estendida para incluir explicitamente as doenças mentais, incluindo a depressão, como razões de compaixão para a inimputabilidade da assistência ao suicídio.

Atualmente a Suíça tornou-se a sede de diversas organizações de suicídio assistido que atraem estrangeiros de toda a Europa para morrerem no país. Alemães, ingleses e franceses, principalmente, pagam a taxa de cinco mil euros para dirigirem-se a um apartamento na Suíça onde lhes será prestado o auxílio para morrer, ou sete mil se o serviço incluir também os procedimentos funerários. Quando algum dos pecientes é pessoa de projeção na sociedade, a notícia repercute nos jornais e serve de matéria para promover o ativismo pela legalização da eutanásia. Entre as pessoas que usufruíram destes serviços estão não apenas doentes terminais, mas estrangeiros saudáveis que tinham perdido a motivação para viver e muitas pessoas que, levadas pela propaganda da eutanásia, cada vez mais ativa na Europa, ao manifestarem os primeiros sintomas de alguma doença mais grave, sentem-se constrangidos diante da perspectiva de vir a causar problemas emocionais para suas famílias e da possibilidade de dilapidarem o patrimônio que deveria passar por herança aos próprios filhos.

Confira nos links abaixo, todas matérias recentes:

[NÚMERO DE MORTES POR SUICÍDIO ASSISTIDO NA SUÍÇA CONTINUAM A CRESCER:

http://alexschadenberg.blogspot.com/2012/02/swiss-assisted-suicide-deaths-continue.html] [BOOM DE SUICÍDIOS ASSISTIDOS NA SUÍÇA:

http://www.mercatornet.com/careful/view/10349] [NÚMERO DE SUICÍDIOS ASSISTIDOS CRESCE DE 35% EM 2011 NA SUÍÇA:

http://www.swissinfo.ch/eng/swiss_news/Assisted_suicide_numbers_up_in_2011.html?cid=32154940] __________________________________________________ E. A SUBCOMISSÃO DE REVISÃO DA PARTE ESPECIAL DO CÓDIGO PENAL __________________________________________________ Segundo informado pelos próprios membros da Comissão de Revisão do Código Penal, a Subcomissão da Parte Especial do código, aquela que deve definir os crimes e as penas que poderão ser incluídos no novo Código, é composta dos seguintes 5 juristas: Luiza Nagib Eluf, Técio Lins e Silva, Juliana Garcia Belloque, Luiz Flávio Gomes e Antônio Nabor Areias Bulhões.

http://www.odocumento.com.br/artigo.php?id=2629 Destes nomes, a promotora Luiza Nagib Eluf e o professor Luiz Flávio Gomes já haviam manifestado publicamente serem a favor da despenalização do aborto. Além do aborto, o professor Luiz Flávio Gomes já havia escrito vários artigos em que defende abertamente e eutanásia, não apenas a passiva, mas também a ativa e inclusive o suicídio assistido.

A promotora Luiza Nagib Eluf não esconde de ninguém que seja a favor da total descriminalização do aborto. Em entrevista dada à revista VEJA, a promotora declara:

“SOU FAVORÁVEL À DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO. É UMA QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA, DE SAÚDE DA MULHER. É UM CRIME QUE NÃO PRECISARIA ESTAR NO CÓDIGO PENAL”.

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/videos-veja-entrevista/luiza-nagib-eluf-procuradora-de-justica-sou-favoravel-a-descriminalizacao-do-aborto/ Em outra entrevista concedida ao jornal O Estado de São Paulo, Luiza Eluf declara o mesmo:

“ONTEM NÓS FIZEMOS EM BRASÍLIA A PRIMEIRA REUNIÃO DA COMISSÃO ENCARREGADA DA REFORMA. FIZEMOS UMA DIVISÃO EM TRÊS SUBCOMISSÕES, COM CINCO MEMBROS CADA. A PRIMEIRA VAI ANALISAR A PARTE GERAL DO CÓDIGO PENAL,QUE SE REFERE A NORMAS APLICADAS A TODOS OS CRIMES; A SEGUNDA DELAS VAI FICAR COM A PARTE ESPECIAL DO CÓDIGO, QUE SE REFERE AOS TIPOS PENAIS, OU SEJA, AS CONDUTAS QUE CONFIGURAM CRIME COMO ROUBO, FURTO, HOMICÍDIO, ESTELIONATO. A TERCEIRA, QUE VAI CUIDAR DAS LEIS EXTRAVAGANTES, AQUELAS QUE ESTÃO FORA DO CÓDIGO, MAS QUE TÊM NATUREZA CRIMINAL.

EU FIQUEI COM A DA PARTE ESPECIAL.

AQUELA QUE ESPECIFICA QUAIS CONDUTAS SÃO CRIMINOSAS. FIQUEI COM UMA PARTE DO TRABALHO QUE, REALMENTE, PODE GERAR POLÊMICA. E O ABORTO ESTÁ ENTRE ESSES TEMAS QUE VAMOS ANALISAR.

A QUESTÃO DA LIBERDADE DE DECISÃO SOBRE O PRÓPRIO CORPO É IMPORTANTE PARA AS MULHERES. É UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL. ACREDITO QUE SERIA RECOMENDÁVEL QUE NÓS TIRÁSSEMOS O ABORTO DO CÓDIGO PENAL.

EU ACREDITO QUE ESSE TEMA VEM SENDO TRATADO NO BRASIL COM UM CERTO IRRACIONALISMO. AS PESSOAS ESTÃO IDEOLOGIZANDO A PRÁTICA DO ABORTO. NÃO DEVE SER ASSIM. NA VERDADE, TEMOS QUE PENSAR NO QUE É MELHOR PARA A POPULAÇÃO CARENTE. MINHA AVALIAÇÃO INICIAL É DE QUE O MOMENTO AINDA NÃO É PROPÍCIO À DISCUSSÃO DA DESCRIMINAÇÃO DO ABORTO.

EU VEJO MUITAS PAIXÕES. A POPULAÇÃO AINDA NÃO ESTÁ SUFICIENTEMENTE ESCLARECIDA SOBRE O QUE SE PRETENDE COM UMA MEDIDA DESSAS. O QUE QUEREMOS É TRATAR COM MAIS ATENÇÃO A POPULAÇÃO FEMININA”.

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,crimes-na-internet-devem-ser-regulados-pelo-codigo-penal-defende-jurista,788637,0.htm As opiniões do professor Luiz Flávio Gomes são mais desconcertantes. Ele também é totalmente a favor do aborto, mas quer passar uma imagem de é a favor da vida e que sua verdadeira posição é a da prudência e do equilíbrio. Mas examinando suas várias publicações, ele desmente em outras o que ele diz nas primeiras e acaba mostrando claramente que o que ele pretende na verdade é buscar o modo de obter, gradualmente, o aborto totalmente livre.

Encontra-se amplamente difundido e citado por diversos juristas um artigo do professor Luiz Flávio Gomes que já se inicia desconcertante pelo próprio título: “EM DEFESA DA VIDA, O ABORTO”. Neste artigo, o autor inicia defendendo a posição segundo a qual, pelos Tratados Internacionais que estão incorporados nas declarações de direitos humanos da Constituição Brasileira, seria evidente que, segundo nossa constituição, “A VIDA DO NASCITURO TEM QUE SER RESPEITADA E, EM REGRA, É A QUE DEVE PREPONDERAR. MAS EXCEPCIONALMENTE A EQUAÇÃO SE INVERTE, PORQUE O DIREITO É RAZOABILIDADE, PRUDÊNCIA E EQUILÍBRIO”.

Deste modo, segundo o professor Luiz Flávio Gomes no artigo “EM DEFESA DA VIDA, O ABORTO”, será lícito, em virtude do direito internacional, provocar o aborto sempre que a morte do concepto não for arbitrária. Tal seria o caso que ocorre quando se dá o risco de vida da mãe e quando se dá um caso de gravidez resultante de estupro. O professor parece dar aqui a impressão de que ele não é a favor do aborto totalmente livre:

“O DRAMÁTICO TEMA DO ABORTO ESTÁ AGORA NA PAUTA POLÍTICA. A POBREZA DO DEBATE POLÍTICO SÓ PERDE PARA A INDIGÊNCIA GENERALIZADA DO SEU POVO. A VIDA É UMA PREMISSA INDISCUTÍVEL.

A CHAVE JURÍDICA DA QUESTÃO É A SEGUINTE: “NINGUÉM PODE DELA SER PRIVADO ARBITRARIAMENTE”, CONFORME O ARTIGO 4 DA CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS.

ISSO SIGNIFICA QUE, NO BRASIL, COMO REGRA O ABORTO É PROIBIDO, MAS EM HIPÓTESES EXCEPCIONAIS PODE E DEVE SER PERMITIDO.

O NASCITURO (O FETO) TEM QUE SER RESPEITADO. MAS A VIDA (OU VIDA DIGNA) DA MULHER GRÁVIDA TAMBÉM.

COMO SE VÊ, PARA RESPEITAR A VIDA (OU A VIDA DIGNA) É QUE NOSSO CÓDIGO PERMITE O ABORTO.

NÃO EXISTE CRIME QUANDO O RESULTADO, A MORTE, NÃO É DESARRAZOADO, OU ARBITRÁRIO OU INJUSTO. NÃO SE TRATA DE TIRAR A VIDA DE PESSOAS INOCENTES E INDEFESAS, MAS SIM, DE RESPEITAR A VIDA DIGNA DE TODAS AS PESSOAS, INCLUINDO-SE A DA MULHER GRÁVIDA.

POR FORÇA DA TEORIA CONSTITUCIONALISTA DO DELITO QUE ADOTAMOS NÃO EXISTE CRIME QUANDO A MORTE NÃO FOI ARBITRÁRIA.

O NASCITURO TEM SEUS DIREITOS, QUE DEVEM SER RESPEITADOS. A MULHER GRÁVIDA TAMBÉM TEM SEUS DIREITOS.

HAVENDO CONFRONTO, CABE À JUSTIÇA DECIDIR QUAL PREPONDERA. ENQUANTO NÃO REVELADOR DE UMA ARBITRARIEDADE, O ABORTO ESTÁ EM CONSONÂNCIA COM OS OBJETIVOS DO DIREITO JUSTO E SENSATO. É DENTRO DESSA MARGEM QUE DEVEMOS ESTENDER A DISCUSSÃO PARA ADMITIR O ABORTO EM SITUAÇÕES DE GRAVE AFETAÇÃO DA SAÚDE FÍSICA OU MENTAL DA MULHER”.

[EM DEFESA DA VIDA, O ABORTO:

http://www.lfg.com.br/public_html/article.php?story=20101011163659316] Mas em uma aula gravada no vídeo intitulado “ABORTO LIVRE E SOCIAL”, o autor nos surpreende dizendo esperar que um dia os legisladores brasileiros possam superar a barreira que a exigência da não arbitrariedade impõe sobre o aborto e assim possamos conquistar o aborto verdadeiramente livre:

“ABORTO LIVRE SIGNIFICA A POSSIBILIDADE DA MULHER ABORTAR POR UMA DECISÃO ABSOLUTAMENTE UNILATERAL.

ELA DELIBERA, VAI E FAZ O ABORTO.

OS PAÍSES MAIS CIVILIZADOS DO MUNDO ESTÃO PERMITINDO O ABORTO LIVRE:

ESTADOS UNIDOS, CANADÁ, FRANÇA, ALEMANHA, BÉLGICA, ESPANHA, CIDADE DO MÉXICO, ETC. NO ABORTO LIVRE NÃO HÁ [necessidade de invocar] NENHUM RISCO PARA A SAÚDE DA MULHER, NEM PARA A SUA VIDA, NEM PARA A SAÚDE DO FETO, [para justificar o aborto]. É A MULHER QUEM DECIDE SE VAI OU NÃO ABORTAR.

A PERGUNTA NESTE CASO É, EXISTE AQUI UMA MORTE ARBITRÁRIA?

NO CASO DO ABORTO LIVRE NÃO EXISTE NENHUMA JUSTIFICATIVA DE QUE O JUIZ POSSA SE VALER PARA AUTORIZAR O ABORTO.

NÃO ACREDITO QUE O LEGISLADOR BRASILEIRO VÁ DISCIPLINAR TÃO CEDO ESTA MATÉRIA.

NA LEI BRASILEIRA COMPETE SEMPRE AOS JUÍZES AMPLIAR ESTAS SITUAÇÕES, MAS CONVENHAMOS QUE NO ABORTO LIVRE SERÁ DIFÍCIL PARA O JUIZ ENCONTRAR UMA FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA QUE JUSTIFIQUE O ABORTO. O TEMA FICA EM ABERTO.

NÓS SABEMOS O QUANTO VÁRIAS ORGANIZAÇÕES DE MULHERES ESTÃO LUTANDO PELO ABORTO LIVRE NO BRASIL. TALVEZ UM DIA NÓS IREMOS CHEGAR LÁ.

PORÉM, POR ENQUANTO, A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA PERMITE ALGUNS PASSOS QUE PODEM SER DADOS EM NOSSO PAIS. É POSSÍVEL DAR O PASSO DO ABORTO POR ANENCEFALIA, É POSSÍVEL DAR O PASSO DO ABORTO EM RAZÃO DA SAÚDE DA MÃE. PENSO QUE ESTES PASSOS SÃO POSSÍVEIS”.

[LUIZ FLÁVIO GOMES: ABORTO LIVRE E SOCIAL:

Em relação à eutanásia, o professor nos apresenta a Holanda como modelo de democracia. Ele expressa a sua admiração pelo sistema democrático com que se realiza a eutanásia na Holanda e, ao afirmar que no Brasil não existam nenhuma das disposições hoje vigentes na Holanda, ele parece lamentar que assim tenha que ser assim. Luiz Flávio Gomes sustenta claramente que no Brasil deveria existir não apenas a EUTANÁSIA PASSIVA, MAS TAMBÉM A ATIVA E O SUICÍDIO ASSISTIDO. São os pacientes terminais, afirma o professor, “OS QUE DEVEM DECIDIR SOBRE A HORA E LOCAL DA SUA MORTE”.

Em uma linguagem que se muito se aproxima do modo como hoje se defende o direito ao aborto, o professor afirma ainda que os pobres, que “HOJE MUITAS VEZES SÃO VÍTIMAS DE MORTES ARBITRÁRIAS”, devem passar a gozar dos “MESMOS DIREITO DOS RICOS, QUE JÁ DESFRUTAM, AINDA QUE NA CLANDESTINIDADE, DA CHAMADA MORTE DIGNA”.

O ante-projeto de Código Penal brasileiro, de que o professor está ajudando a elaborar a parte especial, ao propor a criação as condições para que através da própria justiça possa iniciar-se em nosso país o ativismo a favor da eutanásia, nada mais é do que a expressão do pensamento do professor Luiz Flávio Gomes, quando ele afirma, no texto acima mencionado sobre o aborto livre, que o autor “NÃO ACREDITA QUE OS LEGISLADORES BRASILEIROS IRÃO DISCIPLINAR TÃO CEDO ESTAS MATÉRIAS. NO BRASIL, AO CONTRÁRIO, COMPETE SEMPRE AOS JUÍZES AMPLIAR ESTAS SITUAÇÕES, APESAR DE QUE EM ALGUNS CASOS SEJA DIFÍCIL PARA OS JUIZES ENCONTRAREM AS FUNDAMENTAÇÕES CONCRETAS” .

Vejamos o que o professor nos ensina sobre a eutanásia no artigo “EUTANÁSIA: O DONO DA SUA VIDA É TAMBÉM O DONO DA SUA MORTE?”:

“A HOLANDA FOI O PRIMEIRO PAÍS A ADOTAR A PRÁTICA DA EUTANÁSIA, ISTO É, DA EUTANÁSIA ATIVA, QUE CONSISTE EM PRATICAR ATOS QUE CONDUZEM À MORTE DO PACIENTE TERMINAL. MAS TUDO É FEITO PARA QUE NÃO ACONTEÇA A MORTE ARBITRÁRIA. AO CONTRÁRIO, A MORTE TEM QUE SER JUSTIFICADA.

A BÉLGICA, DEPOIS DA HOLANDA, TAMBÉM JÁ PERMITE A EUTANÁSIA ATIVA. O ESTADO DE OREGON, NOS ESTADOS UNIDOS, AUTORIZA A MORTE ASSISTIDA. O SUICÍDIO ASSISTIDO É A AJUDA PARA QUE O PACIENTE TERMINAL REALIZE SUA PRÓPRIA MORTE. A ORTOTANÁSIA, QUE CONSISTE NO DESLIGAMENTO DE APARELHOS OU RETIRADA DE MEDICAMENTOS, CESSAÇÃO DE AUXÍLIO PARA A DISTANÁSIA, PROLONGAMENTO DA VIDA, ETC., JÁ É AUTORIZADA NA ALEMANHA E NA FRANÇA.

NO BRASIL NADA DISSO EXISTE. QUALQUER TIPO DE EUTANÁSIA QUE SE PRATIQUE, TANTO A ATIVA QUANTO A PASSIVA, LEGALMENTE, É CONSIDERADA HOMICÍDIO.

A HOLANDA FOI O PRIMEIRO PAÍS DEMOCRÁTICO QUE APROVOU A PRÁTICA DA ‘MORTE BOA’. APESAR DO NOSSO HORROR À MORTE, QUE SE DEVE, À DIFUSÃO NA CULTURA OCIDENTAL DA IDÉIA CRISTÃ DA TRANSCENDÊNCIA E DO CASTIGO ETERNO QUE AMEAÇA O PECADOR, O CERTO É QUE EXISTE A ‘BOA MORTE’, QUANDO O SOFRIMENTO AFETA PROFUNDAMENTE A PRÓPRIA DIGNIDADE HUMANA.

PARA QUE EUTANÁSIA, ISTO É, A MORTE, NÃO SEJA ARBITRÁRIA, DEVE SER CERCADA DE ALGUMAS CAUTELAS, DE RÍGIDAS EXIGÊNCIAS QUE REVELAM BOM SENSO E RAZOABILIDADE E AFASTAM, DEFINITIVAMENTE, O ARGUMENTO DE QUE A PERMISSÃO DA EUTANÁSIA PODERIA TER COMO CONSEQÜÊNCIA VERDADEIROS ‘HOMICÍDIOS’, PARTICULARMENTE CONTRA POBRES.

TODO O CONTRÁRIO. O POBRE, QUE HOJE MUITAS VEZES É VÍTIMA DE MORTES ARBITRÁRIAS, PASSARIA A TER O MESMO DIREITO DOS RICOS, QUE JÁ DESFRUTAM, AINDA QUE NA CLANDESTINIDADE, DA CHAMADA ‘MORTE DIGNA’.

NA NOSSA OPINIÃO, A EUTANÁSIA, QUALQUER QUE SEJA A MODALIDADE, INCLUINDO-SE AÍ A MORTE ASSISTIDA, DESDE QUE ESGOTADOS TODOS OS RECURSOS TERAPÊUTICOS E CERCADA DE REGRAMENTOS DETALHADOS E RAZOÁVEIS, NÃO PODE SER CONCEBIDA COMO UM FATO PUNÍVEL, PORQUE NÃO É UM ATO CONTRA A DIGNIDADE HUMANA SENÃO, TODO O CONTRÁRIO, EM FAVOR DELA.

JÁ É HORA DE PASSAR A LIMPO O EMARANHADO DE HIPOCRISIAS, PARADOXOS, OBSCURIDADES E PRECONCEITOS QUE ESTÃO EM TORNO DA QUESTÃO DA EUTANÁSIA QUE, EM ÚLTIMA ANÁLISE, ENVOLVE A PRÓPRIA LIBERDADE HUMANA, TÃO RESTRINGIDA PELAS BARBÁRIES HISTÓRICAS QUE NADA MAIS EXPRIMEM QUE A VOLÚPIA DE DOMINAR O HOMEM PARA SUJEITÁ-LO ESCRAVOCRATAMENTE A CRENÇAS ILÓGICAS E, MUITAS VEZES, IRRACIONAIS.

COM URGÊNCIA NOSSO CONGRESSO NACIONAL DEVE SE DEBRUÇAR SOBRE O ASSUNTO. OS PACIENTES TERMINAIS DEVEM DECIDIR SOBRE A HORA E LOCAL DA SUA MORTE.

TANTO A EUTANÁSIA ATIVA QUANTO A ORTOTANÁSIA DEVERIAM SER RIGOROSAMENTE DISCIPLINADAS E ADMITIDAS NO NOSSO PAÍS, CERCANDO-AS DE TODAS AS EXIGÊNCIAS NECESSÁRIAS PARA QUE NÃO SE PRODUZA UMA MORTE ARBITRÁRIA.

NÃO É DIFERENTE A QUESTÃO DO AUXÍLIO AO SUICÍDIO A PEDIDO DA VÍTIMA”.

[Luiz Flávio Gomes: EUTANÁSIA – O DONO DA SUA VIDA É TAMBÉM O DONO DA SUA MORTE?:

http://www.lfg.com.br/public_html/article.php?story=2005030714252575 http://www.lfg.com.br/public_html/article.php?story=2005031418093057 http://www.lfg.com.br/public_html/article.php?story=20050404174417216] ============================================ 3. A AUDIÊNCIA PÚBLICA REALIZADA EM SÃO PAULO SEXTA FEIRA 24 DE FEVEREIRO ============================================ __________________________________________________ A. A APROVAÇÃO E A PRÁTICA DO ABORTO NO BRASIL __________________________________________________ Pesquisas realizadas pelo Data Folha mostram que, em 2010, 71% da população brasileira não queriam qualquer mudança na lei do aborto e que somente 7% eram a favor da descriminalização do aborto, um número que hoje, em 2012, certamente é bastante menor.

As pesquisas do Data Folha mostram um crescente aumento da rejeição ao aborto no Brasil. Desde 1993 até 2010 foram realizadas seis pesquisas de opinião pública no Brasil sobre este tema. Entre 1993 e 2010 a rejeição ao aborto cresceu progressivamente 17% em todo o Brasil e, nas grandes cidades, onde há maiores facilidades de informação, aprendizado e um maior acesso aos novos progressos científicos, bem mais do que isso. Segundo o Data Folha, entre 1993 e 2004, somente em São Paulo, uma das principais cidades do Brasil, a rejeição ao aborto cresceu 34%.

No que diz respeito não ao tema da legalização, mas à apreciação moral sobre o aborto, os dados do Data Folha mostram que a queda é ainda mais violenta. Segundo o Data Folha, em 2007, em todo o Brasil, somente 3% da população considerava moralmente aceitável fazer um aborto, e tudo indica que tais números continuam em franca diminuição até hoje.

Ademais, é importante mostrar também que não há incoerência entre o número dos que rejeitam a legalização do aborto e o número dos que praticam o aborto.

Segundo os últimos dados do Sistema Único de Saúde, o número de curetagens pós aborto, que supõe-se dever ser proporcional ao número de abortos provocados no país, tem diminuído 12% ao ano, todos os anos, nos últimos quatro anos. Isto significa que a cada ano, um número 12% menor de mulheres abortam no Brasil.

Os últimos dados do Data Sus indicam que há, no Brasil, 200 mil curetagens pós-aborto por ano no Brasil. Segundo dezenas de médicos experientes consultados por uma organização em favor da vida, todos eles profissionais trabalhando no sistema público de saúde em departamentos de emergências ginecológicas e obstétricas em vários estados do Brasil, 25% destas curetagens, no máximo, podem ser atribuídas a abortos provocados. Os demais 75% referem-se, portanto, a abortos espontâneos ou a outras ocorrências. Conclui-se, por conseguinte, que há, por ano, um total de 50.000 internações no sistema de saúde devido a abortos provocados no Brasil.

A pesquisa pioneira realizada em 2010 no Brasil pela Universidade de Brasília (UnB), em parceria com o Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero em 2010, que produziu o primeiro levantamento direto sobre o aborto no país, encontrou que de cada duas mulheres que praticam aborto no país, uma acaba passando pelos cuidados do sistema de saúde. Portanto, se são 50.000 as mulheres que passam todos os anos por uma curetagem pós aborto provocado, isto significa que SÃO REALIZADOS, NO BRASIL, A CADA ANO, UM TOTAL DE 100 MIL ABORTOS, E NÃO UM MILHÃO E MEIO, a não ser que o sistema de saúde tenha se esquecido de registrar em seu banco de dados o número impressionante de três milhões de curetagens por ano.

Um milhão e meio de abortos por ano no Brasil é o número propositalmente divulgado pelas grandes organizações promotoras do aborto, como o IPAS e a IPPF, à qual pertence o famoso Instituto Alan Guttmacher, para enganar o povo e que é aceito pela imprensa, sem nenhuma discussão, como argumento de autoridade.

Estas entidades costumam atribuir, desonestamente, aos países onde o aborto não é legalizado, um número de abortos pelo menos dez vezes maior do que o que na realidade seria verossímil esperar, para com isto poder pressionar melhor a população para que aprove a legalização do aborto em seus países. Qualquer exame sério, mesmo elementar, dos relatórios apresentados por estas organizações quando exibir estes números é suficiente para mostrar a sua total ausência de fundamentação e perceber imediatamente os fortíssimos interesses que se escondem por detrás da fachada destas entidades. Entre as entidades que divulgam mundialmente estes números estão o IPAS, que é atualmente um dos maiores promotores internacionais da prática do aborto, tanto do legal como do clandestino, e a filial americana IPPF, à qual pertence o Instituo Alan Guttmacher, que é proprietária da maior rede de clínicas de abortos do mundo. Não é preciso ser um médico perito em epidemiologia para examinar e questionar estes números. Qualquer jornalista sério e experiente possui conhecimento e competência muito maior do que a necessária para poder faze-lo.

Somente quando se aceita ilusoriamente que há um milhão e meio de abortos por ano praticados no Brasil é que pode surgir a seguinte dúvida: ‘COMO É POSSÍVEL EXPLICAR QUE HAJA TANTA REJEIÇÃO AO ABORTO NO BRASIL E AO MESMO TEMPO SE PRATICAM TANTOS ABORTOS NO BRASIL?’ A resposta é que não se praticam tantos abortos no Brasil. Não há um milhão e meio de abortos por ano. SÃO APENAS CEM MIL, E MESMO ESTE NÚMERO ESTÁ DIMINUINDO 12% A CADA ANO, TODOS OS ANOS.

É este número de abortos provocados, número que tem diminuído a 12% ao ano, todos os anos, que faz com que, em um futuro não muito distante, se perseverarem estas taxas, o aborto se torne uma prática residual no Brasil, além de que será muito, muitíssimo difícil, encontrar alguém que seja favorável ao aborto como um direito. Em vez disto o aborto se tornará uma prática universalmente vista, no dizer do Data Folha, como ‘MORALMENTE INACEITÁVEL’. Ou, dito em palavras mais claras e diretas, será visto como ele realmente é, um ASSASSINATO, um ATENTADO CONTRA UMA VIDA INOCENTE, uma VIOLAÇÃO DO MAIS FUNDAMENTAL DOS DIREITOS HUMANOS.

Não é o que se observou, entretanto, na audiência pública do dia 24 de fevereiro de 2012 no Tribunal de Justiça de São Paulo.

A Comissão de Revisão do Código Penal quis ouvir a população sobre o que os brasileiros pensam sobre os crimes contra a vida.

Quinhentos representantes de quase todas as organizações que trabalham pela promoção do aborto no Brasil se deslocaram de todos os pontos do país para ali se fazerem presentes. Duas ou três pessoas que falaram a favor da vida, somente quase no final de uma audiência que durou das 14:00 até às 18:00, foram vaiadas e quase linchadas. Durante a audiência foram apresentadas propostas não apenas a favor do aborto, como também a favor da criminalização das pessoas que se mostrassem contrárias ao aborto e até mesmo a favor da despenalização do infanticídio. As representantes das ONGs chegaram a perguntar à Comissão se seus membros ainda tinham qualquer dúvida de que a legalização do aborto era de fato o grande anseio do povo brasileiro.

Dois relatos sobre a audiência, tal como foi vista pelos que nela se pronunciaram a favor da vida, foram publicados na imprensa. O primeiro relato deve-se a Lorena Leandro, que enviou o texto ao jornalista Reinaldo de Azevedo, o qual o publicou em seu blog da revista VEJA. O segundo relato deve-se ao vereador Hermes Nery, que acabou publicado no blog do Wagner Moura. Transcrevo abaixo um resumo de ambos os relatos.

__________________________________________________ B. A AUDIÊNCIA PÚBLICA, DESCRITA POR LORENA LEANDRO.

__________________________________________________ “Em 24 de fevereiro realizou-se em São Paulo, na sede do Tribunal de Justiça, uma audiência pública para debater o capítulo sobre a vida do anteprojeto de Código Penal que está sendo elaborado por uma Comissão, presidida pelo Ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Dr. Gilson Dipp.

O auditório foi praticamente tomado de assalto por feministas pró-descriminalização do aborto, que inclusive cantavam ali uma modinha previamente ensaiada defendendo o aborto, e vaiavam os oradores que não concordavam com elas. Ninguém soube explicar como elas ali se reuniram em grande número para exercer sua costumeira pressão, pouco condizente com o sentir da maioria dos brasileiros. Não só falaram acaloradamente em prol da descriminalização do aborto, como algumas chegaram a defender a não-penalização do infanticídio pós-parto e aplaudiram com força os pronunciamentos de ativistas do lobby pró-homossexualismo. Não deixa de ser sintomática essa ligação aborto-infanticídio-homossexualismo.

Vi desprezo pela verdadeira democracia, em uma evidente manipulação para que os movimentos pró-aborto dominassem a sessão. Afinal, quais seriam as chances estatísticas de todos, eu disse TODOS, os grupos feministas e abortistas terem se inscrito primeiro do que os outros grupos, como me foi alegado? Chances maiores são de que, ou foram avisados antes de todos sobre a audiência, ou eles mesmos se mexeram para que tal audiência acontecesse.

Vi, portanto, o triste espetáculo da velha ladainha sobre liberdade feminina. Houve indignação porque a mulher grávida é chamada de gestante. Houve proposta de criminalizar o preconceito contra as mulheres que abortam. Trocando em miúdos: coloquem quem for contra o aborto na prisão. Teve até defesa do infanticídio.

Foram horas de insanidade até que a primeira voz se pronunciasse contra o aborto, já com o plenário completamente esvaziado. O primeiro a falar foi o historiador e jornalista Hermes Rodrigues Nery que presenteou o ministro Dipp, moderador da mesa, com um modelo em tamanho real de um feto de 12 semanas. A indignação abortista foi geral: chegaram a dizer, com o ódio típico de quem despreza a vida, que se era para sair por aí distribuindo ‘fetinhos’, elas teriam levado fotos de mulheres ensagüentadas por decorrência do aborto.

O deputado Paes de Lira foi apresentado por Dipp simplesmente como ex-coronel.

Somente no fim da tarde tive minha chance de falar, ou de, pelo menos, tentar. Fui a PRIMEIRA mulher, em horas de falatório, a defender a vida. Isso despertou a ira do grupo, que se levantou e, como uma torcida organizada de futebol, vociferou em minha direção. O moderador foi obrigado a intervir para que eu pudesse continuar. Apresentei dados de estudos sérios sobre a relação do aborto e do câncer de mama, dos nascimentos prematuros e do aumento de doenças psicológicas e de suicídio entre mulheres que abortam.

Aliás, os defensores da vida foram os únicos a citarem as fontes de todos os dados que apresentaram, diferentemente das feministas, que jogaram números fictícios a tarde inteira.

Incomoda-me parecer que as mulheres brasileiras são representadas por aquela falsa maioria que certamente será noticiada na imprensa como sendo a grande defensora dos direitos da mulher”.

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/leitora-conta-a-sua-experiencia-na-audiencia-publica-que-debateu-o-aborto/ __________________________________________________ C. A AUDIÊNCIA PÚBLICA, DESCRITA PELO VEREADOR HERMES NERY ________________________________________________ “De 100 inscritos, apenas 5 se posicionaram em defesa da vida.

Todos os que se pronunciaram – a esmagadora maioria dos presentes – estavam afinados com o discurso abortista. Foi um massacre, uma avalanche implacável. Todos os argumentos abortistas foram discorridos. Cada inscrito tinha teoricamente 3 minutos para expor seu pensamento. Como a imensa maioria era de representantes de ONGs abortistas, cada uma delas (porque eram sempre as feministas que faziam uso da palavra) falavam três, quatro, cinco, e até dez minutos cada, beneficiadas pela generosidade da mesa condutora da audiência pública. Uma a uma foram avançando, cada vez mais com ousadia. E o tema do aborto prevaleceu. Mais do que uma impressão, foi uma constatação: a audiência não foi para debater os tantos tópicos da reforma do Código Penal, mas para reunir todas as ONGs abortistas do País, todas juntas num único momento, para em voz uníssona, dizer ao relator do anteprojeto, que elas representavam a sociedade brasileira e queriam a legalização do aborto já.

Depois de 2 horas e meia de eufóricos e inflamados discursos pró-aborto, alguns deles em tom bem agressivo: ‘Ninguém vai nos impor a maternidade, somos donas do nosso próprio corpo!’ E os magistrados presentes corroboravam: ‘O nosso Código Penal tem que acompanhar os avanços da sociedade!’ Em seus impecáveis ternos e cabeleiras brancas, se sentiam gratificados com os aplausos efusivos das feministas. Eram homens bem-sucedidos, bem alinhados com a ideologia dos atuais donos do poder, muitos deles prestadores de serviços e até comissionados na administração pública. E não foram poucos a lembrar que estamos no século 21, e a lei deve acompanhar a modernização dos tempos. A audiência pública foi uma overdose de apologia ao aborto como direito da mulher. A cada fala de uma delas, ouvia-se ressoar por todo o salão: ‘Bravo! Bravo!

Viva!’, como num espetáculo de ópera. Uma após outra foi discorrendo: ‘Queremos que substituam o termo ‘gestante’ por ‘mulher’, pois a hora e a vez agora é da mulher, da sua total emancipação’. E mais vivas ecoavam pelo plenário: ‘A libertação da mulher é o núcleo de toda atividade de libertação’. Aqui se ultrapassou, por assim dizer, a teologia da libertação política com uma antropológica. Não se pensa apenas na libertação dos vínculos próprios ao papel da mulher, mas na libertação da condição biológica do ser humano.

A cada instante, ficava cada vez mais evidente a exigüidade de espaço para a afirmação da cultura da vida. Foi quando então, depois de muitas intervenções, o relator proferiu o meu nome, dando-me o uso da palavra. Afinal, eu estava inscrito e ele mesmo dissera no começo da audiência pública, que todos os que se inscreveram teria o direito de se pronunciar, no tempo de 3 minutos.

Assim que peguei o microfone, disse aos presentes de que depois de tantas exposições, enfim, teria de apresentar um posicionamento divergente. Ao que veio a primeira vaia. ‘Mas, graças a Deus, estamos numa democracia! Não é assim Sr. ministro?’, pois ouvimos todos eles, fiz o apelo para que respeitassem a nossa posição, em nome daquilo que eles tanto dizem apreciar: a liberdade de expressão. Feito o pequeno preâmbulo e novamente em silêncio o plenário, tirei do meu paletó um bebê de 10 semanas, de gesso, e o ergui para a visão de todos ali presentes, indagando: ‘Quem defenderá o indefeso?’ Emergiu então por todo o salão uma imensa vaia, algumas feministas, em estado de histeria, pediam: ‘Abaixo o feto!’, e houve um início de tumulto porque elas queriam nos impedir de entregar o bebê de 10 semanas ao relator do anteprojeto do Código Penal. Quando entreguei o feto nas mãos dele, prossegui:

‘Gostaria que Vossa Excelência visse o rosto dele, como já com 10 semanas o bebê já tem um rosto, uma identidade. Já é um ser humano’. E reforcei dizendo: ‘A vida deve ser protegida, amada e valorizada desde o seu início, na concepção, para que a proteção da vida seja de modo integral, para o bem de toda pessoa humana!’ E destaquei com ênfase: ‘O direito a vida é o primeiro e o principal de todos os direitos humanos’, pois ‘colocar o direito ao aborto no catálogo dos direitos humanos seria contradizer o direito natural à vida, que ocupa um dos postos mais importantes em tal catálogo e é um dos direitos fundamentais’.

Não foi possível então continuar a minha fala, porque esgotaram-se os três minutos exatos concedidos, enquanto que outras feministas tiveram tempo muito maior para repetir à exaustão de que é preciso descriminalizar o aborto. ‘Chega de Deus!’, vociferou uma delas, com os punhos erguidos e olhos esbugalhantes.

Por mais de uma hora após a minha fala, outras líderes feministas vieram como rolo compressor para defender o direito ao aborto, o direito da mulher assassinar as crianças em seu ventre, no afã desmesurado pela nova matança dos inocentes.

O ambiente ficou cada vez mais carregado de olhares raivosos e sentimentos hostis à defesa da vida, quando finalmente uma mulher pró-vida pode se manifestar. De modo sereno e seguro, Lorena Leandro expôs as conseqüências danosas do aborto para a mulher, enquanto iradas, as feministas vaiavam com mais força. Também foram nos poucos três minutos”.

http://diasimdiatambem.com/2012/02/27/quem-defendera-o-indefeso/ __________________________________________________ D. A AUDIÊNCIA PÚBLICA, DESCRITA POR UMA REPRESENTANTE DE UMA ONG PROMOTORA DO ABORTO ________________________________________________ “Foi a primeira vez, em minha já longa militância feminista, que vi um debate sério acerca da legalização do aborto em espaço institucional.

Teve gente que se despencou de outros estados para esta audiência, que tinha o salão lotado por mais de 500 pessoas, comprovando o quanto faz falta uma democracia mais participativa em nossa República.

Sonia Coelho, ao falar pela Frente Nacional pelo direito ao aborto, comoveu a plenária ao contar a história de mulher que morreu em decorrência de aborto inseguro, e a filha mais velha resumiu os motivos dela: tinha medo de perder o emprego, que era de carteira assinada. O infanticídio, a mãe matar o filho sob influência do parto, foi também levantado pela líder feminista, demandando que também saia do Código Penal”.

Novo Código Penal brasileiro em debate ============================================ 4. O TRATADO INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS ============================================ O que a Comissão de Revisão do Código Penal está fazendo não somente vai contra o pensamento de todo o povo brasileiro, como é inconstitucional e sequer poderia ser proposto sem que houvesse antes uma alteração na Carta Magna brasileira.

Nenhuma nação da América Latina poderia legalizar o aborto, uma vez que, em virtude do Tratado Interamericano de Direitos Humanos promulgado em São José da Costa Rica e ratificado por todos os países da América Latina, estes países passaram a RECONHECER O DIREITO À VIDA E A PERSONALIDADE JURÍDICA DO SER HUMANO DESDE O MOMENTO DA CONCEPÇÃO.

É IRRELEVANTE, PORTANTO, DO PONTO DE VISTA JURÍDICO, DISCUTIR QUANDO A CIÊNCIA OU A FILOSOFIA AFIRMAM QUE SE INICIA A VIDA HUMANA SEGUNDO, UMA VEZ QUE TODOS OS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA CONCORDARAM, NA ORDEM JURÍDICA E NO DIREITO INTERNACIONAL, em virtude deste tratado reconhecido por todas as nossas constituições, QUE A PERSONALIDADE JURÍDICA SE INICIA NO MOMENTO DA FECUNDAÇÃO.

Os países latino americanos estão, portanto, juridicamente comprometidos pelo direito internacional, a reconhecerem a personalidade jurídica do ser humano a partir do momento da concepção e a defender a vida como um direito humano a partir deste momento.

Não é, por conseguinte, sem razão que os únicos países de maior importância do continente que até o momento não quiseram ratificar o tratado foram justamente também os únicos onde o aborto é legalizado, isto é, a Guiana, o Canadá e os Estados Unidos.

Consulte a este respeito:

http://www.cidh.oas.org/Basicos/Portugues/d.Convencao_Americana_Ratif..htm O Tratado Interamericano de Direitos Humanos foi assinado em novembro de 1969, na Conferencia Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. DESDE 1970, COMEÇANDO POR COSTA RICA, ATÉ 1993, TERMINANDO COM A ILHA DE DOMINICA, FOI PROGRESSIVAMENTE RATIFICADO POR PRATICAMENTE TODAS AS NAÇÕES LATIONO AMERICANAS, tornando nosso continente O PRIMEIRO DO MUNDO A RECONHECER A PERSONALIDADE JURÍDICA E O DIREITO À VIDA DESDE A CONCEPÇÃO.

Costa Rica, Colômbia, Haiti, Honduras, Equador, Venezuela, Grenada, Guatemala, Jamaica, Peru, Republica Dominicana, Panamá, Nicarágua, Bolívia, México, Barbados, Argentina, Uruguai, Suriname, Paraguai, Chile, Trinidad e Tobago, Brasil e Dominica, nesta ordem, entre os anos de 1970 e 1993, ratificaram formalmente que a personalidade jurídica do ser humano se inicia desde a concepção e que o direito à vida deve ser defendido também desde a concepção, deixando aberta apenas a possibilidade para algumas poucas exceções, como quando a vida da mãe está em perigo.

Eis o que diz o Tratado Interamericano de Direitos Humanos:

“ARTIGO 1 – PARA EFEITOS DESTA CONVENÇÃO, PESSOA É TODO SER HUMANO.

ARTIGO 3 – TODA PESSOA TEM DIREITO AO RECONHECIMENTO DE SUA PERSONALIDADE JURÍDICA.

ARTIGO 4 – TODA PESSOA TEM O DIREITO DE QUE SE RESPEITE SUA VIDA. ESSE DIREITO DEVE SER PROTEGIDO PELA LEI E, EM GERAL, DO MOMENTO DA CONCEPÇÃO.

NINGUÉM PODE SER PRIVADO DA VIDA ARBITRARIAMENTE”.

http://www.cidh.oas.org/Basicos/Portugues/c.Convencao_Americana.htm O Tratado Interamericano de Direitos Humanos está inserido na Constituição Brasileira, através do seu artigo 5, parágrafo 2, onde se estabelece que “OS DIREITOS EXPRESSOS NA CONSTITUIÇÃO NÃO EXCLUEM OS DECORRENTES DOS TRATADOS INTERNACIONAIS EM QUE O BRASIL SEJA PARTE”.

Não é verdade, portanto, o que afirmou o Ministro Carlos Ayres de Brito do Supremo Tribunal Federal, quando escreveu, em seu voto de relatoria, durante o julgamento sobre a constitucionalidade da experimentação com embriões humanos ocorrido em 2008, que “A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA NÃO DIZ QUANDO COMEÇA A VIDA HUMANA. NÃO DISPÕE SOBRE NENHUMA DAS FORMAS DE VIDA HUMANA PRÉ-NATAL. QUANDO FALA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA É SEMPRE DE UM SER HUMANO JÁ NASCIDO. TRATA-SE DE UMA CONSTITUIÇÃO QUE, SOBRE O INÍCIO DA VIDA HUMANA, É DE UM SILÊNCIO DE MORTE”.

http://www.stf.gov.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/adi3510relator.pdf Não é verdade o que afirma o Ministro Carlos Ayres de Brito, e fica-se a imaginar como um ministro do STF possa ignorar o que a Constituição estabelece de modo tão claro.

A Constituição brasileira, incorporando o Tratado Interamericano de Direitos Humanos através de seu artigo 5 parágrafo 2, estabelece claramente, assim como todos as constituições dos demais países da América Latina, QUE A PERSONALIDADE HUMANA SE INICIA NO MOMENTO DA CONCEPÇÃO, QUE O DIREITO À VIDA TAMBÉM SE INICIA NO MOMENTO DA CONCEPÇÃO, e que o aborto somente poderá ser admitido em casos raros e excepcionais, nunca como a regra geral. O DIREITO À VIDA É CONSTITUCIONALMENTE PROTEGIDO, EM GERAL, DESDE O MOMENTO DA CONCEPÇÃO. Se o Brasil, ou qualquer outro país da América Latina, quiser legalizar o aborto de modo amplo, ele deverá primeiro revogar sua ratificação ao Tratado Interamericano de Direitos Humanos.

O ex-presidente Tabaré Vasquez, quando vetou em 2008 a sexta tentativa de despenalizar o aborto promovida naquele país pelos partidos de esquerda, citou principalmente o Tratado Interamericano de Direitos Humanos para fundamentar o seu veto, e afirmou que, para que o Uruguai pensasse em legalizar o aborto, precisaria primeiro desvincular-se do Tratado Interamericano de Direitos Humanos. Eis o texto oficial do veto:

“A LEGISLAÇÃO URUGUAIA NÃO PODE DESCONHECER A REALIDADE DA EXISTÊNCIA DA VIDA HUMANA EM SUA ETAPA DE GESTAÇÃO, COMO DE MANEIRA EVIDENTE O REVELA A CIÊNCIA.

ADEMAIS, A DESPENALIZAÇÃO DO ABORTO AFETA A ORDEM CONSTITUCIONAL E OS COMPROMISSOS ASSUMIDOS POR NOSSO PAÍS EM TRATADOS INTERNACIONAIS, ENTRE OUTROS O PACTO DE SÃO JOSÉ DA COSTA RICA APROVADO PELA LEI 15.735 DE 8 DE MARÇO DE 1985 E A CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA APROVADA PELA LEI 16.137 DE 28 DE SETEMBRO DE 1990.

O PACTO DE SÃO JOSÉ DA COSTA RICA, CONVERTIDO ADEMAIS EM LEI INTERNA COMO MANEIRA DE AFIRMAR SUA ADESÃO À PROTEÇÃO E À VIGÊNCIA DOS DIREITOS HUMANOS, CONTÉM DISPOSIÇÕES EXPRESSAS, COMO O SEU ARTIGO 2 E SEU ARTIGO 4, QUE OBRIGAM A NOSSO PAÍS A PROTEGER A VIDA DO SER HUMANO DESDE A SUA CONCEPÇÃO.

ADEMAIS, OUTORGAM-LHE O STATUS DE PESSOA.

SE BEM QUE UMA LEI PODE SER DERROGADA POR OUTRA LEI, NÃO ACONTECE O MESMO COM OS TRATADOS INTERNACIONAIS, QUE NÃO PODEM SER DERROGADOS POR UMA LEI INTERNA POSTERIOR.

SE O URUGUAY QUISER SEGUIR UMA LINHA POLÍTICA DIFERENTE À QUE ESTABELECE A CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, DEVERÁ PRIMEIRAMENTE DENUNCIAR A CONVENÇÃO MENCIONADA, CONFORME O ARTIGO 78 DA MESMA CONVENÇÃO.

http://archivo.presidencia.gub.uy/_Web/proyectos/2008/11/s511__00001.PDF A validade do Tratado Interamericano de Direitos Humanos para julgar os temas relacionados ao momento do início da vida foi recentemente reconhecida pela Suprema Corte de Justiça do México.

Veja a este respeito:

[SUPREMA CORTE DE JUSTIÇA DO MÉXICO RECONHECE O DIREITO À VIDA:

http://www.votopelavida.com/scjm.pdf] Já o professor Luis Flávio Gomes cita o mesmo Tratado Interamericano para afirmar que é possível legalizar o aborto, sempre que o motivo para praticar este aborto não seja arbitrário.

Examinando o conjunto dos textos do professor Luis Flávio Gomes, percebe-se que o que ele quer dizer com isto é que o aborto poderá ser legalizado sempre que haja algum motivo para isso. Decorre do pensamento do professor que, se alguma mulher puder alegar algum motivo verdadeiro para provocar um aborto, o aborto neste caso já não seria arbitrário. Para caso do aborto inteiramente livre, em que a mulher não pudesse ou não quiisesse invocar nenhum motivo para praticar o aborto, exceto a sua própria vontade, o professor alimenta a esperança de que algum dia os juízes consiguiriam encontrar uma solução jurídica para que tais abortos não fossem considerados arbitrários. Mas agora parece que foi o professor Luiz Flávio quem encontrou a solução há tanto desejada, justamente durante os trabalhos de revisão do Código Penal. A solução consiste em permitir o aborto sempre que a mulher não tiver condições psicológicas para levar adiante a gravidez. O simples desejo da mulher de não levar avante a gravidez já seria o sinal de que ela não possuiria condições psicológicas de levar avante a gravidez. Neste caso, qualquer aborto já não seria arbitrário, desde que fosse voluntário, e que fosse a própria mulher que não quisesse levar avante a gravidez. E, com isso, estaríamos também desconstruindo o próprio sentido do Tratado Interamericano de Direitos Humanos.

É evidente o absurdo da interpretação do professor Luiz Flávio Gomes. Ele esqueceu-se de mencionar que o Tratado não apenas estabelece que “NINGUÉM SERÁ PRIVADO DE SUA VIDA ARBITRARIAMENTE”, mas também que “A PERSONALIDADE JURÍDICA COMEÇA DESDE O MOMENTO DA CONCEPÇÃO”, e que o conceito da personalidade jurídica neste tratado é unitário.

Isto é, o tratado não menciona em nenhum lugar que existe uma personalidade jurídica para os já nascidos e outra personalidade jurídica diversa para os não nascidos.

“TODO SER HUMANO É PESSOA”, afirma o tratado, e “TODA PESSOA DEVE TER O DIREITO À VIDA PROTEGIDO, EM GERAL, DESDE O MOMENTO DA CONCEPÇÃO”.

A expressão “EM GERAL”, que não existia na versão original do tratado, foi acrescentada pelos legisladores para permitir verdadeiras exceções ao aborto em casos extremos, tal como o aborto em caso de risco de vida da gestante. A própria expressão “EM GERAL” significa, na intenção dos legisladores, que se tratariam de exceções e que não poderiam, por este mesmo motivo, abarcar todos os casos, nem a maioria dos casos, nem mesmo um grande número de casos. Se assim não fosse, as disposições do Tratado seriam totalmente inúteis e vazias de significado. As exceções para o aborto, segundo o Tratado Interamericano, devem ser exceções igualmente válidas e razoáveis para o caso de qualquer outra pessoa, nascida, recém-nascida ou não nascida, caso contrário estaríamos falando de conceitos distintos de personalidade.

============================================ 5. O QUE FAZER ============================================ Está agendada a primeira audiência pública dos juristas que compõem a Comissão de Revisão do Código Penal com os senadores da Comissão de Constitucionalidade, Justiça e Cidadania do Senado brasileiro para a quinta feira, dia 8 de março, às 08:30 no Anexo II do Senado brasileiro, na Ala Senador Alexandre Costa – Sala 3.

Neste dia a Comissão de Revisão do Código Penal deverá prestar contas de seu trabalho aos senadores e poderão ser questionados pelos parlamentares.

Uma segunda audiência pública está agendada também, desta vez da Comissão de Revisão do Código Penal com o público em geral, para a sexta feira dia 09 de março de 2012, às 10:00, na sala 2 do Anexo II do Senado, na Ala Senador Nilo Coelho.

http://www.senado.gov.br/noticias/juristas-debatem-em-sao-paulo-reforma-do-codigo-penal.aspx?parametros=reforma+do+código+penal É necessário agora que se escreva aos senadores brasileiros que integram a Comissão de Constitucionalidade do Senado, enviando mails e principalmente faxes, e que também se lhes telefone, de viva voz, para expor-lhes a verdadeira dimensão do que está se acontecendo no Brasil e fazê-los tomar conhecimento de quanto todos estão acompanhando em todos os detalhes o desenrolar dos fatos.

É necessário, de modo especial, expor-lhes o seguinte:

1. QUE O POVO BRASILEIRO É ESMAGADORAMENTE A FAVOR DA VIDA E NÃO ACEITA A IMPOSIÇÃO DE FUNDAÇÕES ESTRANGEIRAS PARA A LEGALIZAÇÃO DO ABORTO E DA EUTANÁSIA, NEM DO SUICÍDIO ASSISTIDO;

2. QUE OS SENADORES DEVEM EXIGIR DA COMISSÃO PARA A REVISÃO DO CÓDIGO PENAL QUE DEIXEM OS ARTIGOS DO CÓDIGO QUE TRATAM DO ABORTO EXATAMENTE COMO ESTÃO E NÃO INTRODUZAM NENHUM DISPOSITIVO PARA REGULAMENTAR A PRÁTICA DA EUTANÁSIA;

3. QUE OS SENADORES DEVEM PEDIR O AFASTAMENTO DA COMISSÃO PARA A REVISÃO DO CÓDIGO PENAL DA PROMOTORA LUIZA NAGIB ELUF E DO PROFESSOR LUÍZ FLÁVIO GOMES.

É necessário aqui uma palavra a respeito do pedido de afastamento da promotora Luíza Nagib Eluf e do professor Luiz Flávio Gomes.

Deve ficar claro a todos que tanto a promotora Luiza como o professor Luiz devem ser respeitados do modo mais amplo que seja possível. Em nenhum momento devemos usar palavras ofensivas ao mencioná-los. Faz parte das regras da democracia que todos tenham o direito de externar e defender seus próprios pontos de vista, até mesmo se, do ponto de vista de outros, estes mesmos pontos de vista fossem moralmente objetáveis. Não é no foro político que estas controvérsias serão resolvidas. O pedido de afastamento destes juristas, portanto, não pode ser visto de nenhum modo como uma punição pelo seu modo de pensar. Isto não seria a democracia que se pretende-se construir no Brasil e que possa servir de modelo para outras nações. O pedido de afastamento destes dois juristas não significa, portanto, nenhuma perseguição às suas pessoas, nem nenhuma forma de patrulhamento ideológico.

Estamos pedindo o afastamento destes dois juristas, ao contrário, por um motivo que está no próprio centro do regime democrático. Em uma democracia o povo partilha do poder e o poder é exercido em nome do povo. Os senadores e os redatores do Código Penal devem, portanto, representar o povo que os elegeu. Se isto não ocorre, não se trata mais de uma democracia, mas sim de uma ditadura. Se o senador foi eleito, é porque ele representa o pensamento de seus eleitores. Se, depois de eleito, o senador não mais representa seus eleitores, eles tem o direito de dirigir-lhes a palavra e pedir-lhes que legislem segundo o pensamento do povo. Caso não o queiram fazer, teremos o direito de dizer-lhes que eles nunca mais serão eleitos.

Portanto, se os senadores indicaram para integrar a Comissão de Revisão do Código Penal juristas que absolutamente não representam a posição dos eleitores, faz parte das regras da democracia pedir o seu afastamento. O que não seria democrático é mantê-los na Comissão e coagi-los a pensar diversamente enquanto integram a Comissão. No sistema democrático todos tem direito à livre expressão de seus pensamentos.

Não estamos, portanto, pedindo o afastamento destes juristas para puni-los, nem por seu comportamento, nem pelos seus pensamentos. E quando saírem da Comissão, tampouco serão perseguidos por isto.

O que ocorre é que estes juristas estão redigindo um código em nome dos eleitores brasileiros, e se eles absolutamente não representam o pensamento de você, eleitor, você tem a obrigação de pedir, em nome da normalidade democrática, que estes juristas sejam afastados da Comissão. A verdade é que você, eleitor, está fazendo parte desta Comissão e também está fazendo parte do Senado, através de seus representantes. Seria diferente se o Brasil fosse uma Monarquia, mas em uma democracia o povo é responsável pelo que fazem seus governantes. Se o eleitor não concorda com o que a Comissão está fazendo, NÃO DEVE PERMITIR QUE O FAÇA EM SEU NOME. ISTO É DEMOCRACIA, e não patrulhamento ideológico. ENQUANTO ESTES VALORES FOREM CULTIVADOS A DEMOCRACIA FLORESCERÁ NO BRASIL.

Mas se, ao contrário, nós nos omitirmos, SEREMOS, APENAS POR ESTE FATO, CONIVENTES COM A INSTALAÇÃO DA DITADURA NO BRASIL, porque isto já seria o começo de uma ditadura, que é o que as grandes fundações internacionais desejam fazer, impondo sua agenda a qualquer custo sobre nosso povo, em nada se importando com os valores democráticos.

É importante entender que, apesar de estarmos em uma democracia, os gabinetes dos senadores talvez tenham dificuldade em entender que isto realmente seja a democracia. Alguns deles poderão julgar que tal exigência será uma radicalidade do eleitor e perguntarão como, em uma democracia, seria possível afastar alguém de algum cargo apenas com base em suas convicções. Esteja pronto para explicar-lhes, com polidez e educação que, ao contrário, isto sim é a verdadeira democracia. Não estamos pedindo o afastamento dos juristas por causa de suas convicções, mas porque eles estão escrevendo, em nosso nome e para nosso povo, um Código que não representa nem o eleitor que está se manifestando, nem a quase a totalidade dos demais eleitores brasileiros pelos quais nós também podemos falar. Em uma democracia os legisladores devem representar os eleitores, e é em nome desta democracia que temos o direito de pedir o afastamento destes juristas.

Não estamos pedindo que se sejam proibidos de pensar diversamente, nem estamos pedindo que sejam punidos por pensarem diversamente. Esta Comissão simplesmente não representa o povo brasileiro, e temos o direito de pedir uma Comissão que escreva um Código que represente a nós e ao povo. Isto é democracia, e o contrário é ditadura.

Vamos, portanto, construir a democracia brasileira. Tome o telefone, fale com os seus representantes, impeça que nossa nação, em nome de uma falsa democracia, siga os caminhos da Cultura da Morte. Vamos fazer desta nação uma referência para todo o mundo.

Mas acima de tudo, não deixe de estudar e de informar-se.

Informar-se é uma obrigação para os governantes, e na democracia o povo participa do processo governamental. Podemos começar lendo com atenção estas mensagens. Não se queixe do tamanho. Baixe os arquivos listados, estude-os e compartilhe seu conteúdo com os amigos mais próximos. É nossa obrigação, pela participação que temos no governo desta nação.

Em seguida encontra-se a lista de mails, faxes e telefones dos senadores da Comissão de Constitucionalidade. Não mande apenas um mail, que pode ser facilmente apagado. Envie um fax e, melhor ainda, ligue para os gabinetes dos senadores e explique-lhes o que pensa a respeito.

Continuaremos informando a todos sobre o desenrolar dos acontecimentos e o resultado das próximas audiências.

Alberto R. S. Monteiro ============================================ 6. MAILS DOS SENADORES DA COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO, JUSTIÇA E CIDADANIA ============================================ eunicio.oliveira@senador.gov.br;

gab.josepimentel@senado.gov.br; martasuplicy@senadora.gov.br;

pedrotaques@senador.gov.br; jorgeviana.acre@senador.gov.br;

antoniocarlosvaladares@senador.gov.br;

inacioarruda@senador.gov.br; simon@senador.gov.br;

romero.juca@senador.gov.br; vital.rego@senador.gov.br;

renan.calheiros@senador.gov.br; luizhenrique@senador.gov.br;

francisco.dornelles@senador.gov.br;

sergiopetecao@senador.gov.br; aecio.neves@senador.gov.br;

aloysionunes.ferreira@senador.gov.br;

alvarodias@senador.gov.br; demostenes.torres@senador.gov.br;

armando.monteiro@senador.gov.br; gim.argello@senador.gov.br;

magnomalta@senador.gov.br; randolfe.rodrigues@senador.gov.br;

Olavo Denisovich Carvalho

Dize-me o que pensas de Ivan Denisovich | 17 de março de 2002

e eu te direi quem és.”

Essa frase se tornou corriqueira na antiga União Soviética, depois que “Um Dia na Vida de Ivan Denisovich”, primeiro romance de Alexandr Solzhenitsyn, ganhou a simpatia do grande público. Nesse livro, Solzhenitsyn retratou o Estado soviético como um Estado policial, a União Soviética como uma prisão ou campo de concentração. Realidade essa exposta com conhecimento de causa, pois Solzhenitsyn sofrera na própria pele as torturas de um campo de trabalhos forçados na Sibéria, de onde fora libertado após a morte de Stalin e a anistia geral subseqüente. “Ivan”, na verdade, se tornaria apenas um preâmbulo das atrocidades soviéticas que seriam denunciadas, mais tarde, no portentoso livro “Arquipélago Gulag”, que lhe rendeu um Nobel de Literatura em 1970 – prêmio impedido pela cúpula soviética de receber em Estocolmo, como já ocorrera com Boris Pasternak e seu premiado “Doutor Jivago”, em 1958.

Se “Ivan” agradava às massas, o mesmo não se podia dizer das autoridades soviéticas, que viam no livro um ato de traição à Pátria, por entregar de mão beijada as armas ao inimigo. Daí o mote “dize-me o que pensas de Ivan Denisovich e eu te direi quem és”. Se falas mal de “Ivan”, és um patriota digno de viver na União Soviética. Se falas bem de “Ivan”, mereces toda a reprovação do Partido e teu destino será os campos gelados da Sibéria.

Como um Nagib Mahfouz é a consciência do povo árabe, Solzhenitsyn aceitou ser a consciência de seu país, seja durante os anos de terror stalinista, de onde escapou com vida sabe Deus como, seja durante o curto “degelo” (desestalinização) promovido por Kruschev e a posterior reestalinização, que voltou a caçar os dissidentes soviéticos.

No Brasil, na última década, temos um homem da estatura de um Solzhenitsyn, que aceitou o papel duro e solitário de ser a consciência (ou seria a inconsciência?) de seu país: Olavo de Carvalho.

Mas, quem é Olavo “Denisovich” Carvalho, esse ser ao mesmo tempo tão odiado e tão amado por tantos brasileiros?

Passei a admirar o jornalista, escritor e filósofo Olavo de Carvalho depois de ler uma reportagem de capa da revista “República”, de julho de 1997 (Ano 1, no 9). O tema central da exposição era o recente e polêmico livro de Olavo, “O Imbecil Coletivo – Atualidades Inculturais Brasileiras”, em que o autor desmascarava a farsa promovida pela fauna intelecto-narcisista nacional. E me espantei do que havia lido. Não que lá estivessem tratados filosóficos difíceis de digerir, ou argumentações e refutações que tivessem ocasionado um curto-circuito em meus miolos moles. O espanto era que eu começava a perceber como as coisas simples e as verdades cristalinas aos poucos foram se tornando um anátema para a “coletividade imbecil”, representada por boa parte de nossos intelectuais, para os quais a mentira havia se transformado em dogma. E nós, todos os brasileiros, aceitando passivamente essa aberração.

Desde então, tenho acompanhado de perto a obra de Olavo, especialmente na Internet ( www.olavodecarvalho.org/ ). Pude testemunhar intermináveis embates que Olavo teve que enfrentar, sempre se saindo bem das pelejas contra a coletiva imbecilidade reinante, demonstrando o brilhantismo inato, temperado sempre com uma boa dose de humor. Como se sabe, a filosofia reinante no Brasil de o “imbecil coletivo” não aceita a tese da sabedoria do “indivíduo” – daí os adversários de Olavo ladrar e urrar em coro, sempre em comum acordo, muitas vezes num sistema de revezamento, para não dar muito na pinta. Afinal, “coletivo” – aprendemos no grupo escolar – refere-se a formigueiro, alcatéia, manada, cáfila e outras faunas. Para Olavo, o que importa é o “indivíduo”, o ser humano em carne e osso, senhor de seu destino e único responsável por seus próprios atos. Uma alcatéia de lobos nunca será responsável por nada, por mais estragos que faça no galinheiro. Segundo Olavo, o mundo verdadeiro para o “idiota coletivo” é apenas o que é percebido coletivamente. “Assim, se um dos membros da coletividade é mordido por um cachorro”, escreve Olavo, “deve imediatamente telefonar para os demais e perguntar-lhes se de fato foi mordido por um cachorro”. Uma coisa Olavo nunca me explicou direito: será que os “idiotas coletivos”, que só andam e se expressam como uma manada, também fazem sexo grupal?

Depois de atacar em bandos, de proferir desaforos e mentiras, a alcatéia imbecil passou a ameaçar fisicamente Olavo, a enviar recados de que cuidasse bem de sua vida, que ela poderia correr riscos. Olavo, que na juventude pertencera à manada esquerdista, só para parecer “enturmado”, mas que conhecia bem com que tipo de gente estava tratando, se assustou de tal forma que abandonou o Brasil por uns meses, refugiando-se em um país da Europa.

De volta ao Brasil, Olavo continuou a lecionar seus cursos de Filosofia na Universidade da Cidade e a escrever seus artigos, agora para vários jornais, como Jornal da Tarde, O Globo, Zero Hora, e revistas, como República e Época, além de promover palestras em todos os cantos de nosso País. O embate com a alcatéia “imbecil coletiva” não diminuiu, pelo contrário, aumentou – a exemplo das réplicas, tréplicas e kíloplas de Olavo com “Fedelli e seus fedelhos”. Se fosse responder a todas as provocações, o dia para Olavo teria que ter 72 horas, o ano 1000 dias.

Uma coisa chama a atenção nos artigos de Olavo: à primeira vista, parecem ser o samba do filósofo zonzo de uma nota só. O tema, invariavelmente, é sobre o “imbecil coletivo” que hoje ocupa todos os espaços da cultura, da imprensa, do rádio, da TV. Ou seja, sobre a cínica esquerda brasileira, que se locupleta com a corrupção, com a distribuição de cargos públicos entre si. Essa mesma esquerda, stalinista ou apenas demagógica, essa esquerda esclerosada, que tenta levantar a múmia de Lenin do mausoléu em Moscou para fazer passear nos acampamentos do MST, com o empenho de lúgubres Partidos radicais e as bênçãos da CNB do B.

Pobre Olavo! Como nosso brilhante filósofo poderá concluir suas obras mais importantes, de Filosofia, Metafísica e Lógica, se perde seu preciosíssimo tempo com coisas menores, com a alcatéia de chacais que nunca se sacia, que cada vez mais pede outro naco de carne sangrenta?

A mais conhecida “libélula” da USP, Emir Sader – que no passado pertencera aos quadros do MIR chileno, grupo que em 1989 seqüestrou Abílio Diniz –, também deu o ar de sua graça “coletiva”, bailando no ar com suas asas transparentes. Escreveu “Olavo de Carvalho não existe”, no dia 28 de setembro de 2001, acusando-o de ser empregado de Ronald Levinson, o qual esteve metido num escândalo financeiro dos tempos dos Governos militares – o “Caso Delfim”. Sader faz afirmações estapafúrdias, dizendo que Olavo fisicamente não existe, é apenas uma cria da direita, um Quixote que ainda vê comunistas por todos os lados, apesar de o Muro de Berlim ter caído e a URSS não existir mais. Finalizando MIR Sader diz que os espaços de Olavo na imprensa são comprados por publicidades que a UniverCidade faz nos meios de comunicação...

Nesses tempos de “imbecil coletivo”, é de admirar que Olavo ainda tenha espaço na imprensa para expressar sua opinião. Entretanto, a alcatéia esquerdista o vigia bem de perto. Não tem erro, ao primeiro descuido, o ataque é certeiro. Em 2001, um lobo-editor recém-chegado à revista “Época”, podou três artigos mensais de Olavo, agora ele escreve apenas um. Motivo? Olavo demonstrou, de forma cristalina, como é a “moralidade leninista” que rege a vida de muitos homens públicos, acomodados no ninho do Governo dos tucanos, a exemplo de Aloysio Nunes Ferreira Filho, outrora integrante de um grupo terrorista, hoje Ministro da Justiça. E olha que Olavo nem disse que Aloysio é nosso Ronald Biggs, por ter assaltado o trem-pagador Santos-Jundiaí, em 1968. No lugar de Olavo, outros escritores se revezam agora em “Época”, com destaque para a mais nova “libélula” da USP, a professora de anti-História Maria Aparecida de Aquino. A alcatéia “coletiva”, enfim, ganhou mais espaço, descontente ainda por não ocupar todo o espaço jornalístico brasileiro.

Além da censura em “Época”, Olavo teve dois artigos rejeitados pela imprensa. Um se refere ao Governo Clinton, que liberou pesquisas secretas americanas para a China. Outro se refere à “tiazinha” Marilena Chauí, libélula-mor da USP. Os artigos estão disponíveis no site de Olavo.

E assim segue Olavo em sua trajetória nacional, lecionando em seminários de Filosofia, escrevendo seus veementes artigos nos jornais, participando de fóruns e palestras Brasil afora, assumindo encargos dantescos como um dever cívico, para abrir as mentes embotadas de todos nós. Esse sacerdócio que Olavo abraçou, pelo qual será capaz de doar a última gota de sangue, não conta com o apoio de órgãos públicos, como ocorre com as “libélulas” da USP, em que MIR Sader e Marilena Chauí utilizam verbas oficiais para publicar suas esvoaçantes e vaporosas idéias “coletivas”.

Vá em frente, Olavo, escreva seus artigos aos jornais e revistas. Porém, não perca tempo com os ganidos da alcatéia de chacais que rondam seu importante trabalho. Dê um tempo para si mesmo, para que na solidão do “indivíduo” possa terminar os vários trabalhos de Filosofia ainda em andamento. Ansiosos, Olavo, aguardamos essas obras.

Inteligencia E Verdade

Definição | Duas aulas do Seminário de Filosofia, Curitiba, agosto de 1994

Inteligência, no sentido em que aqui emprego a palavra, no sentido que tem etimologicamente e no sentido em que se usava no tempo em que as palavras tinham sentido, não quer dizer a habilidade de resolver problemas, a habilidade matemática, a imaginação visual, a aptidão musical ou qualquer outro tipo de habilidade em especial. Quer dizer, da maneira mais geral e abrangente, a capacidade de apreender a verdade. A inteligência não consiste nem mesmo em pensar. Quando pensamos, mas o nosso pensamento não capta propriamente o que é verdade naquilo que pensa, então o que está em ação nesse pensar não é propriamente a inteligência, no rigor do termo, mas apenas o desejo frustrado de inteligir ou mesmo o puro automatismo de um pensar ininteligente. O pensar e o inteligir são atividades completamente distintas. A prova disto é que muitas vezes você pensa, pensa, e não intelige nada, e outras vezes intelige sem ter pensado, numa súbita fulguração intuitiva.

A inteligência é um órgão — digamos assim: um órgão — que só serve para isto: captar a verdade. Às vezes ela entra em operação através do pensamento, às vezes através da imaginação ou do sentimento, e às vezes entra diretamente, num ato intelectivo — ou intuitivo — instantâneo, no qual você capta alguma coisa sem uma preparação e sem uma forma representativa em especial que sirva de canal à intelecção. Outras vezes há uma longa preparação através do pensamento, da imaginação e da memória, e no fim você não capta coisíssima nenhuma: cumpridos os atos representativos, a intelecção a que se dirigiam falha por completo; dados os meios, a finalidade não se realiza. A inteligência está na realização da finalidade, e não na natureza dos meios empregados. E se a finalidade dos meios de conhecimento é conhecer, e se o conhecimento só é conhecimento em sentido pleno se conhece a verdade, então a definição de inteligência é: a potência de conhecer a verdade por qualquer meio que seja.

O conceito da verdade, e as discussões todas que suscita, podem ficar para outra ocasião. Por enquanto, e tomando provisoriamente a palavra “verdade” em seu sentido vulgar de coincidência entre fato e idéia, bastam estas distinções elementares para nos levarem a perceber o quanto é errônea a direção tomada pela atual teoria das “inteligências múltiplas”, que dissolve a noção mesma de inteligência numa coleção de habilidades — que vão desde o raciocínio matemático até a destreza física e o traquejo social —, sem notar que todas estas capacidades e outras quantas similares são meios e que a inteligência não é um meio, mas o ato mesmo, o resultado a que tendem esses meios e para o qual nenhum deles é por si — nem a soma deles todos é por si — condição suficiente. A teoria das inteligências múltiplas surgiu como uma reação contra a teoria do QI, que por sua vez identificava a inteligência, exclusivamente, com a habilidade verbal, matemática e imaginativo-espacial. Mas é um caso típico de substituição de uma falsidade por outra. Sejam poucas ou muitas as habilidades com que se identifica a inteligência, o erro é o mesmo: confundir a inteligência com os instrumentos de que se serve.

Essa confusão acontece porque a maior parte das pessoas se conhece muito mal, mesmo nas coisas práticas e nos aspectos mais óbvios da vida. Quanto maior não seria sua dificuldade de captar a diferença sutil entre os atos representativos e a inteligência! Vendo sempre a inteligência atuar através do pensamento, da memória, da imaginação, do sentimento, confundem portanto o canal com aquilo que por ele passa, o veículo com o passageiro, e tomam por “inteligência” os meros atos mentais.

Esse equívoco acabou por ser oficializado e legitimado pela educação. De modo geral, todas as formas de ensino visam a incrementar as habilidades em que a inteligência se apóia, como a memória, a imaginação, o raciocínio etc., e não dão a menor importância a inteligência enquanto tal. O fato é que a entrada em cena dessas outras faculdades não acarreta necessariamente a da inteligência. Podemos desenvolver bastante o raciocínio verbal, ou a imaginação visual, ou a memória, ou a aptidão artística, sem que haja efetivamente uma inteligência dirigindo os seus passos — a prova é que várias dessas aptidões são mais desenvolvidas em certos retardados mentais do que no comum das pessoas. Aliás, se é através do raciocínio que às vezes inteligimos, também é através dele que nos enganamos. Do mesmo modo, às vezes a imaginação nos leva à compreensão real de alguma coisa, mas às vezes nos leva para longe da verdade. O desenvolvimento destas faculdades, imaginação, memória, raciocínio etc., não implica portanto necessariamente o da inteligência; também é verdade o vice-versa: que a inteligência é independente desses outros processos, que lhe servem de canais, instrumentos e ocasiões e nada mais. Mas o vice-versa não deve ser tomado em sentido rigoroso, pois uma inteligência resolutamente decidida a descobrir a verdade sobre alguma coisa acaba em geral encontrando os canais mentais pelos quais chegar ao seu objetivo, ou seja, ela desenvolve as “faculdades” de que necessita. Sem excluir portanto que haja casos de inteligências mesmo superiores mas carentes de meios ou canais específicos de atuação, digo que são exceções e raridades que antes confirmam a regra: o desenvolvimento dos meios não implica o da inteligência, o da inteligência leva quase que necessariamente à conquista dos meios.

Se definimos a inteligência como a capacidade humana de captar o que é verdade, também entendemos que o essencial do ser humano, aquilo que o diferencia dos animais, não é o pensamento, não é a razão, nem uma imaginação ou memória excepcionalmente desenvolvidas, embora tudo isto haja efetivamente no ser humano. Pois pensar, um macaco também pensa: ele completa um silogismo e até encadeia silogismos num raciocínio relativamente perfeito. Imaginação, até um gato possui: os gatos sonham. Por este caminho não encontraremos a diferença específica humana, aquilo que nos torna homens em vez de bichos. E, se é importante arraigar o homem no reino animal, para não fazer dele um ser angélico sem pés no solo, também é importante saber distingui-lo de uma tartaruga ou de um molusco por alguma diferença que não seja meramente quantitativa e acidental.

O que nos torna humanos é o fato de que tudo aquilo que imaginamos, raciocinamos, recordamos, somos capazes de vêlo como um conjunto e, com relação a este conjunto, podemos dizer um sim ou um não, podemos dizer: “É verdadeiro”, ou: “É falso”. Somos capazes de julgar a veracidade ou falsidade de tudo aquilo que a nossa própria mente vai conhecendo ou produzindo, e isto não há animal que possa fazer.

Mas, dirá o velho Pilatos em nós, quid est Veritas? Cada um de nós é um juiz romano, corrompido até a medula, a fazer de conta que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem. A verdade da qual alegas nada saber, infausto Pôncio, a verdade é o quid — esse mesmo quid que, se desconhecesses, não poderias usar como medida de aferição para o termo “verdade”. Se pergunto quê é alguma coisa, se ignoro mesmo o que é alguma coisa, é porque a coisa que se me oferece nesse instante não cumpre, não atende perfeitamente a condição exigida na palavra quê — aquela consistência, aquela coesão do estar, do agir e do padecer, aquela patência e sobretudo aquela fatalidade, aquele não-ser-de-outro-modo, aquela impositiva ausência de perguntas — e da capacidade de fazer perguntas — que me sobrevém quando sei o quê. Ecce veritas. É o que basta por enquanto, sem prejuízo de posteriores discussões e aprofundamentos.

Não existe inteligência artificial Hoje em dia, quando se fala de “inteligência artificial”, mais certo seria dizer pensamento artificial, ou talvez imaginação artificial, porque uma determinada sequência de pensamentos, um conjunto de operações da mente, pode ser imitado de várias maneiras. Um conjunto é imitado, por exemplo, na escrita. A escrita é uma imitação gráfica de sons, que por sua vez imitam idéias, que por sua vez imitam formas, funções e relações de coisas. A escrita foi a primeira forma de pensamento artificial. Toda e qualquer forma de registro que o homem use já é um tipo de pensamento artificial, uma vez que implica um código de conversões e permutações, e neste sentido um programa de computador não é muito diferente, por exemplo, de uma regra de jogo: como no jogo de xadrez, onde se concebe uma sequência de operações com muitas alternativas, cristalizadas num determinado esquema que pode ser imitado, repetido ou variado segundo um algoritmo básico. Existem muitas formas de pensamento artificial, ou de imaginação artificial. Porém a inteligência, propriamente dita, não tem como ser artificial. O pensamento artificial é essencialmente uma imitação de atos de pensamento segundo a fórmula das suas sequências e combinações. Do mesmo modo podemos imitar a imaginação e a memória, se em vez de utilizar uma correspondência biunívoca entre signo e significado recorrermos a uma rede de correspondências analógicas. Dá na mesma: em ambos os casos, trata-se de imitar um algoritmo, a fórmula de uma sequência ou rede de combinações, que por sua vez imitam as operações reais da mente. Acontece que a inteligência não é uma “operação da mente”; ela é o nome que damos a uma determinada qualidade do resultado dessas operações, pouco importando qual a faculdade que as realizou ou qual o código empregado. É legítimo dizer que um indivíduo inteligiu alguma coisa somente quando ele captou a verdade dessa coisa, seja pelo raciocínio, seja pela imaginação ou seja lá pelo caminho que for. Até mesmo o sentimento intelige, quando ama o que é verdadeiramente amável e odeia o que é verdadeiramente odioso: há uma inteligência do sentimento, como há uma burrice do sentimento. A inteligência não reside na mente, mas num certo tipo de relação entre o ato mental e o seu objeto, relação que denominamos “veracidade” do conteúdo desse ato mental ( notem bem: veracidade do conteúdo, e não do ato mesmo ).

Aqui alguém poderia objetar que, quando um ato de pensamento artificial chega a um resultado verdadeiro, por exemplo quando um computador nos assegura que 2 + 2 = 4, este é um ato de inteligência, uma vez que nos dá uma verdade. A diferença, aqui, é a seguinte: o computador não intelige que 2 + 2 = 4, mas apenas realiza as operações que dão por resultado 4, segundo um programa ou algoritmo pré-estabelecido. Se ele for programado segundo a regra de que 2 + 2 = 5, ele não somente dará sempre este resultado, mas ainda o generalizará para todos os casos similares, segundo a regra 2a + 2a = 5a. A inteligência não consiste somente em atinar com um resultado verdadeiro, mas em admitir esse resultado como verdadeiro. Que significa “admitir”? Significa, primeiro, estar livre para preferir um resultado falso ( um computador pode ser programado para preferir os resultados falsos num certo número de ocasiões, mas sempre segundo um padrão préestabelecido ). Significa, em segundo lugar, crer nesse resultado, isto é, assumir uma responsabilidade pessoal pela afirmação dele e pelas consequências que dele derivem. A inteligência, neste sentido, só é admissível em seres livres e responsáveis, e o primeiro ser livre e responsável que conhecemos na escala dos viventes é o homem: nenhum ser abaixo dele possui inteligência, e se há seres superiores ao homem é um problema que não nos interessa no momento e cuja solução não interferiria no que estamos examinando aqui. A inteligência é a relação que se estabelece entre o homem e a verdade, uma relação que só o homem tem com a verdade, e que só tem no momento em que intelige e admite a verdade, já que ele pode tornar-se ininteligente no instante seguinte, quando a esquece ou renega.

Neste sentido, o resultado da conta de 2 + 2 que aparece na tela do computador é uma verdade, mas uma verdade que está no objeto e não ainda na inteligência; essa verdade está na tela como a verdadeira estrutura mineralógica de uma pedra está na pedra ou como a verdadeira fisiologia do animal está no animal: são verdades latentes, que jazem na obscuridade do mundo objetivo aguardando o instante em que se atualizarão na inteligência humana. Do mesmo modo, podemos pensar uma idéia verdadeira sem nos darmos conta de que é verdadeira; neste caso, a verdade está no pensamento como a verdade da pedra está na pedra: o ato de inteligência só se cumpre no instante em que percebemos e admitimos essa verdade como verdade. A inteligência é, neste sentido, mais “interior” a nós do que o pensamento. O pensamento, para nós, pode ser objeto. A inteligência, não. O ato de reflexão pelo qual retornamos a um pensamento para examiná-lo ou julgá-lo é um outro pensamento, de conteúdo diferente do primeiro. Mas a recordação de um ato de inteligência é o mesmíssimo ato de inteligência, reforçado e revivificado, numa nova afirmação de si mesmo. Não posso recordar o conteúdo de um ato de intelecção sem inteligir novamente os mesmos conteúdos, quase sempre com redobrada força de evidência.

Se definirmos o pensamento artificial como a imitação, por sinais eletrônicos, de certos atos de pensamento, entenderemos que o pensamento artificial é pensamento, que a imitação de pensamento é pensamento, pois pensar, afinal, é apenas usar sinais ou signos para representar certos dados internos ou externos. Mas a imitação de inteligência não é inteligência, de vez que só há inteligência no ato real pelo qual um ente humano real apreende realmente uma verdade no instante em que a apreende; na imitação teríamos somente um sujeito hipotético apreendendo hipoteticamente uma hipotética verdade, cuja veracidade ele não pode afirmar senão hipoteticamente. Tudo isto seria apenas pensamento, não inteligência.

A inteligência somente se exerce perante uma situação real, concreta: o inteligir é concentrar o foco da atenção numa evidência presente. Não se confunde com o meramente pensar uma verdade, pois consiste em captar a verdade desse pensamento; nem se confunde com o perceber uma cor, uma forma, pois consiste em apreender a veracidade dessa cor ou dessa forma; nem com o recordar ou imaginar uma figura, pois consiste em assumir a veracidade dessa recordação ou imaginação. Por isto não é possível imitar um ato de inteligência, pois sua imitação não poderia ser outra coisa senão a cópia do pensamento, ou da recordação, ou da imagem que lhe serviu de canal; mas, se esta cópia fosse acompanhada da captação de sua veracidade, não seria uma cópia, e sim o ato mesmo, revivido em modo pleno; e, se desacompanhado dessa captação, seria cópia do pensamento ou da imaginação apenas, e não do ato de inteligência. E esse pensamento ou essa imaginação, se verdadeiros em seu conteúdo, teriam apenas a verdade de um objeto, a verdade latente de uma pedra ou de um cálculo exibido na tela do computador, aguardando ser iluminada pelo ato de inteligência que a transformaria em verdade atual, efetiva, conhecida.

Um computador só pode julgar veracidade ou falsidade dentro de certos parâmetros que já estejam no programa dele, ou seja, falsidade ou veracidade relativas a um código dado de antemão, código esse que pode ser inteiramente convencional. Isto é, ele não julga a veracidade, mas apenas a logicidade das conclusões, sem poder por si mesmo estabelecer premissas ou princípios. Ora, a logicidade, a rigor, nada tem a ver com a veracidade, pois é apenas uma relação entre proposições, e não a relação entre uma proposição e a experiência real. Quando digo experiência real, não me refiro apenas à experiência cotidiana dos cinco sentidos, mas ao campo total da experiência humana, onde a experiência científica feita através de aparelhos e submetida a medições rigorosas se encaixa apenas como uma modalidade entre uma infinidade de outras. A inteligência, quando julga veracidade ou falsidade, pode fazê-lo em termos absolutos e incondicionais, independentemente dos parâmetros usados e da referência a um ou outro campo determinado da experiência; e é justamente este conhecimento incondicional da verdade incondicional que pode fundar em seguida os parâmetros da condicionalidade ou relatividade, assim como legitimar filosoficamente as divisões de campos de experiência, como por exemplo na delimitação das esferas das várias ciências.

Evidência e certeza O termo “intuição” designa em filosofia um conhecimento direto, uma intelecção maximamente evidente ( o que não significa que deva ser confundida com o sentimento subjetivo de certeza ). Exemplo de um ato de inteligência intuitiva: o fato de você estar aqui neste momento é uma certeza absoluta e incondicional, o que não quer dizer que você não possa duvidar dela, que você não possa até mesmo, por um jogo engenhoso de imaginação, ter o sentimento da certeza de estar em outro lugar; significa apenas que você só duvidará dela e só acreditará estar em outro lugar se você sentir o seu campo de experiência como dividido em blocos estanques, se você perder o senso da unidade do campo da experiência, o que só acontece na fantasia, no estado hipnótico ou na esquizofrenia. Quando sua inteligência admite que você está aqui, você está admitindo como verdadeira uma determinada interpretação que você faz do conjunto das informações que você tem neste momento, mas não só a respeito deste momento e sim a respeito do encaixe entre ele e os momentos que o antecederam e os que se seguirão. Você sabe que está aqui não só por causa das informações sensíveis que recebe a respeito do ambiente, informações auditivas, tácteis, etc., mas também porque você sabe que estas informações são coerentes com um passado ( você se lembra de ter vindo até aqui ), são coerentes com um projeto de futuro, ou seja, com uma idéia que você tem a respeito do propósito com que veio aqui; e tudo isto forma um sistema tão coeso, tão inseparável, que a respeito deste conjunto você pronuncia o julgamento de que isto é verdade: Você sabe que você está aqui. No entanto, não seria impensável que, estando aqui, você imaginasse estar em outro lugar, e que até mesmo se persuadisse e, um tanto auto-hipnoticamente, “sentisse” que está num outro lugar. Tudo isto pode ser produzido; porém, se o senso da unidade do campo da sua experiência ainda funciona, algo lhe dirá: isto é falso. Por que? Porque as informações que dizem que você está aqui vêm todas juntas; ao passo que as que você está produzindo para dizer que está em outro lugar vêm por partes. Examine. O quê imaginou você a respeito do outro lugar onde supõe estar? o som? o visual? Um ou outro? Certamente não foram os dois exatamente no mesmo tempo e em proporção coerente. O motivo, o antecedente temporal da sua presença ali, eram-lhe tão claros quanto as sensações visuais ou auditivas? Não: mas as informações que você recebe aqui sobre sua presença vêm todas coladas umas às outras. Você não pega primeiro o visual, depois o auditivo, depois o táctil, ou seja, você não compõe este ambiente, ele lhe vem todo junto; e, embora você, por abstração, possa momentaneamente prestar atenção mais a um aspecto que a outro, você sabe e se recorda de que os aspectos preteridos estão aí presentes e podem ser atualizados na percepção a qualquer momento, sem um trabalho interior de construção voluntária ( que você lhe seria obrigatório de modo a completar a imagem do outro lugar suposto, onde supostamente estaria ou se sentisse estar enquanto está de fato aqui ).

Esta certeza que você tem de estar aqui é o que se chama evidência. Uma evidência é um conhecimento inegável, e até de certo modo indestrutível, porque, se você dissesse que não está aqui, a quem você o diria? A quem está lá, ou a quem está aqui? O ato mesmo de você dizer que não está aqui subentende que está.

Existe, em certos pensamentos que temos, esse caráter de veracidade, mas não sabemos definir bem em quê ele consiste; sabemos apenas que conferimos esta veracidade a alguns pensamentos e que a negamos a outros. Por exemplo, aqui negamos veracidade ao pensamento de que não estamos aqui. É a esta faculdade — a que diz “sim” ou “não” aos pensamentos, imaginações e sentimentos, que os julga como totalidade e diz “é verdadeiro” ou é “é falso” — que chamamos de inteligência.

Inteligência e vontade A inteligência, em suma, é o senso da verdade, e uma inteligência apta, hábil ou forte é uma inteligência que está acostumada a discernir a verdade e a falsidade em todas as circunstâncias da vida, a aceitar a verdade e permanecer nela.

Com isto quero dizer que a inteligência não se esgota no mero aspecto cognitivo: se a potência de conhecer a verdade constitui a semente da inteligência, esta semente só floresce por iniciativa da vontade, e também pela vontade ela enfraquece e morre. Vontade significa o exercício da liberdade. Quando você capta que algo é verdadeiro, significa que você aceitou que aquilo é verdadeiro, e quando você capta que é falso, significa que você o rejeitou. Ora, quem aceita ou rejeita não é uma faculdade em particular, mas é você inteiro, num ato de vontade livre. Isto significa que a inteligência é indissoluvelmente a síntese de uma aptidão cognitiva e de uma vontade de conhecer. Se houvesse um ensinamento voltado ao desenvolvimento da inteligência, ele teria de, antes de mais nada, acostumar o aluno a desejar a verdade em todas as circunstâncias e não fugir dela. Portanto o exercício da inteligência possui necessariamente um lado ético, moral. Platão dizia: “Verdade conhecida é verdade obedecida.”

Se a inteligência fosse uma faculdade puramente cognitiva, nada impediria que ela fosse exercida igualmente bem pelos bons e pelos maus, pelos sinceros e pelos fingidos, pelos honestos e pelos safados. Na realidade as coisas não se passam assim, e a desonestidade interior produz necessariamente o enfraquecimento da inteligência, que acaba sendo substituída por uma espécie de astúcia, de maldade engenhosa. A astúcia não consiste em captar a verdade, mas em captar — sem dúvida com veracidade — qual a mentira mais eficiente em cada ocasião. O astucioso é eficaz, mas está condenado a falhar ante situações das quais não possa se safar mediante algum subterfúgio, que exijam um confronto com a verdade. A conexão entre a inteligência e a bondade é reconhecida por todos os grandes filósofos do passado, do mesmo modo que a correspondente ligação, do lado do objeto, entre a verdade e o bem. Um mundo que nega essa conexão, que faz da inteligência uma faculdade “neutra”, capaz de funcionar tão bem nos bons quanto nos maus como a respiração ou a digestão, é um mundo francamente mau, que se orgulha da sua maldade como de uma conquista da ciência, pela qual ele se eleva acima das civilizações do passado. Mauriac notava, “nos seres decaídos, essa destreza para embelezar sua decadência. É a derradeira enfermidade a que o homem pode chegar: quando sua sujeira o deslumbra como um diamante”.

A conexão a que me refiro surge com peculiar clareza quando examinamos os seguintes fatos. Com frequência nossas ações não são acompanhadas de palavras que as expliquem, nem mesmo interiormente; ou seja, somos capazes de agir de determinadas maneiras, explicando esses atos de maneiras exatamente inversas, precisamente porque as motivações verdadeiras, permanecendo inexpressas e mudas, se furtam ao julgamento consciente. Isso faz com que, pelo menos subconscientemente, alimentemos um discurso duplo. A partir do momento em que você admite que uma coisa é verdadeira, mas procede, mesmo em segredo, mesmo interiormente, como se ela não o fosse, está mantendo um discurso duplo: num plano afirma uma coisa, e noutro afirma outra coisa. A verdade tem poucas oportunidades de surgir para nós com toda a clareza, e a mente humana funciona de uma forma que, quando você nega uma determinada informação, o subconsciente suprime todas as informações análogas, de modo que, quando você diz para si mesmo uma determinada mentira que lhe é conveniente, por motivos práticos ou psicológicos, ou para se preservar de sentimentos desagradáveis, no mesmo instante em que você suprime esta informação você suprime uma série de outras que lhe seriam úteis e que você não tencionava suprimir. Por isto a mentira interior é sempre danosa à inteligência: é um escotoma que se alastra até escurecer todo o campo da visão e substituí-lo por um sistema completo de erros e mentiras.Quando nos habituamos a suprimir a verdade com relação às nossas memórias, à nossa imaginação, aos nossos sentimentos e atos, esta supressão nunca fica só naquele setor onde mexemos, mas se alastra para outros territórios em volta e, tornando-nos incapazes de inteligir uma determinada coisa, nos tornamos incapazes para inteligir muitas outras também. A defesa contra verdades incômodas se transforma também numa defesa contra a verdade em geral, contra todas as verdades. Mais tarde, quando desejarmos estudar um determinado assunto que nos interessa, ou entender o que está se passando na nossa vida, e não conseguirmos, dificilmente perceberemos que fomos nós mesmos que causamos esta lesão da inteligência. Noto em muitos intelectuais de hoje uma repugnância, uma defesa instintiva contra a verdade, a tal ponto que, mesmo quando desejam aceitá-la, tem de metê-la num invólucro de mentiras. O pior, nisso, é que com frequência essa lesão é compensada por um desenvolvimento hipertrófico das faculdades auxiliares, numa inútil excrescência ornamental, tal como os seios que crescem em algumas mulheres após a menopausa. Muitas dessas inteligências lesadas alcançam sucesso nas profissões intelectuais.

Pequenas e grandes verdades Quando se fala em público a palavra “verdade”, no ambiente cínico de hoje em dia, logo aparece algum espertinho repetindo a pergunta de Pôncio Pilatos e desfiando ante nós, como se fossem a maior novidade, os velhos argumentos céticos, cuja refutação é classicamente o primeiro grau do aprendizado filosófico. Muitas dessas pessoas têm da palavra “verdade” uma noção um tanto posada, teatral, empostada e romantizada. Só estão dispostas a admitir que o homem pode conhecer a verdade caso alguém lhes mostre a verdade total, universal e completa a respeito das questões mais difíceis, e, como ninguém satisfaz a esta exigência, elas concluem, com o ceticismo clássico, que toda verdade é incognoscível. Mas esse tipo de exigência não expressa uma busca sincera da verdade. A busca sincera vai das verdades humildes e corriqueiras às verdades supremas, aceitando aquelas como caminho para estas, sem exigir desde logo, despoticamente, as respostas finais a todas as perguntas.

Um exemplo de verdade humilde, porém segura, firme, da qual você pode partir como um modelo para avaliar outras possíveis verdades, é dado por aquilo que você sabe — e que somente você sabe — a respeito da sua própria história, sobretudo da história interior de seus sentimentos, motivações, desejos, etc.

Se houvesse um ensinamento voltado ao desenvolvimento da inteligência, ele teria de começar por propor ao aluno, ao estudante, principiante ou postulante, uma espécie de revisão das suas memórias, ou seja, contar sua história direito (analogamente ao que se faz em psicanálise). Tudo o que é verdadeiro tem um caráter de coesão, pois uma informação verdadeira não pode ser artificialmente isolada de uma outra informação que também seja verdadeira e que tenha com ela uma relação de causa e efeito, de contiguidade, de semelhança e diferença, de complementaridade, etc.; então isto quer dizer que se você admite um A e um B, você vai ter de admitir um C, D, E, F, etc. A verdade tem sempre um caráter sistêmico, orgânico, razão pela qual sua captação pela inteligência pessoal requer uma abertura da personalidade, uma predisposição a aceitar todas as verdades que como tal se revelem, sem nenhuma seleção prévia de verdades convenientes.

Demissão dos intelectuais O que aconteceria se, numa determinada sociedade, existisse um grande número de pessoas capazes de julgar por si mesmas e de perceber a verdade, não sobre todos os pontos, mas sobre os pontos de maior interesse para a sociedade, ou sobre os que são mais urgentes? Haveria mais sensatez, os debates levariam a conclusões mais justas, as decisões teriam um sentido mais realista. Agora, numa sociedade onde todos estão se persuadindo uns aos outros de coisas de que eles mesmos não estão persuadidos, onde todos estão procurando se enganar, ou onde todos estão procurando ajuda dos outros para se enganar mais facilmente a si mesmos, todas as discussões versam sobre fantasmas, as decisões se esvanecem em meros sonhos, as frustrações levam o povo a um estado de exasperação do qual ele procura fugir mediante novas fantasias, e assim por diante. Isto acontece no campo religioso, político, moral, econômico e até no campo científico. Podemos partir para uma outra definicão, e dizer que um país tem uma cultura própria quando ele tem um número suficiente de pessoas capazes de perceber a verdade por si mesmas, e que não precisam ser persuadidas por ninguém. Estas pessoas funcionam como uma espécie de fiscais da inteligência coletiva. Em nosso país o número de pessoas assim é escandalosamente reduzido. As pessoas encarregadas de perceber a verdade por si mesmas devem ter uma inteligência treinada para isto, devem ter uma inteligência dócil à verdade e ser as primeiras a perceber e compreender o que se passa. Isto é que constitui uma inteligência nacional, uma intelectualidade nacional. A intelectualidade autêntica não é constituída necessariamente pelas pessoas que exercem profissões ligadas à cultura ou à inteligência, mas sim pelas pessoas que, exercendo ou não essas profissões, realizam as ações correspondentes a elas. Não é preciso ir muito longe para dizer que a sorte global de um país depende de que haja uma camada de pessoas assim, para poder, nos momentos de dificuldade, dar esta contribuição modesta que é simplesmente dizer a verdade. No Brasil temos um número assombroso de pessoas que trabalham em atividades culturais, escritores, professores, artistas, em geral subvencionados pelo governo, mas que nem de longe pensam em cumprir as obrigações elementares da vida intelectual; tudo o que fazem é apoiar-se uns aos outros num discurso coletivo, reafirmar as mesmas crenças de origem puramente egoista e subjetivista, expressar desejos e preconceitos coletivos e pessoais, promover a moda. Essas pessoas vivem reclamando de que neste país há poucas verbas para a cultura. Mas, para fazer isso que elas chamam de cultura, já recebem muito mais dinheiro do que merecem. Os cineastas, diretores de teatro, etc., constituem uma casta privilegiada, que é estipendiada pelo governo para exibir em público emoções baratas, afetar indignação e posar como “pessoas maravilhosas” em apartamentos da av. Vieira Souto.

É claro que os povos sempre têm a liberdade de escolher entre a verdade e a mentira, e mesmo sabendo da verdade eles podem novamente se enganar a si mesmos; porém a possibilidade de que se enganem é muito maior quando ninguém lhes diz a verdade jamais. O que acontece quando pessoas que exercem profissões intelectuais ou culturais somente as exercem no sentido de fazer delas um instrumento de apoio para sua própria mentira interior, ou seja, exercem esses trabalhos no sentido puramente oratório ou retórico de induzir o povo a erros e ilusões? Afirmo, peremptoriamente, que este é o caso da intelectualidade brasileira, que na sua quase totalidade se utiliza de profissões culturais para fazer com que povo e a opinião brasileira a sirvam, confirmando suas crenças, das quais ela não tem certeza pessoal alguma, e para as quais justamente por isso procura angariar um apoio coletivo. Existem setores onde é possível uma insegurança muito vasta e a livre troca de opiniões de valor simliar, mas em outros setores não. Porém o fato é que quando a intelectualidade como um todo se coloca perante o público numa atitude de persuasão lisonjeira, então a vida intelectual está sendo prostituída, e quando ela é prostituída, pergunto: como podemos desejar mais ética, mais honestidade, na política ou nos negócios, se amplas faixas de população atuante não têm a menor noção do que é verdadeiro ou falso? Como é que a intelectualidade pode ao mesmo tempo pregar um relativismo dissolvente, onde os critérios do verdadeiro e do falso se diluem a ponto de se tornarem indistinguíveis, e ao mesmo tempo exigir que os políticos sejam honestos e digam a verdade ao povo? As pessoas, nessa situação, não poderiam ser honestas nem mesmo que quisessem, porque não sabem o que é certo, não têm consciência moral, são grosseiras e insensíveis do ponto de vista moral. Então não resta dúvida de que a corrupção da sociedade começa com a corrupção da camada intelectual, não com a corrupção dos negócios ou da política: ao contrário, existem países onde os homens ricos e poderosos são muito corruptos e ainda assim o país funciona direito; existem países onde os políticos são corruptos e no entanto o país não se engana grosseiramente na solução de seus próprios problemas. Mas num país onde a camada intelectual, que é a camada encarregada profissionalmente de examinar a verdade e de dizê-la, começa a se enganar a si mesma, então não vai adiantar absolutamente nada que todos os políticos sejam honestos.

Se do ponto de vista de utilidade para o indivíduo o objetivo deste curso é o desenvolvimento da sua inteligência, do ponto de vista social, cultural, o objetivo do curso é fornecer gente para uma futura elite intelectual verdadeira.O que é uma elite intelectual? É gente tão treinada para perceber a verdade quanto um boxeador está treinado para lutar e um soldado para fazer a guerra. Neste sentido, todas as nações que obtiveram um lugar de grandeza na história tiveram uma elite assim, formada muito antes de que o país alcançasse qualquer projeção econômica, política, militar, etc. Pois não é possível resolver os problemas primeiro e se tornar inteligente depois.Em todo debate sobre problemas nacionais que atualmente está em curso só há uma coisa que todos estão esquecendo: Quem vai resolver estes problemas? Quem vai examiná-los? Quem tem a capacidade de examiná-los com efetiva inteligência?Se estas pessoas não existem, então o problema inicial é formá-las. O objetivo prioritário deste curso é exatamente isto, se não formar, pelo menos contribuir para formar, amanhã ou depois, ao longo de talvez vinte ou trinta anos, uma verdadeira elite intelectual.

“Opinião própria” e “julgamento autônomo” Vistos os objetivos do curso, é preciso, com relação ao indivíduo, não somente desenvolver a inteligência, mas fazer com que ela se torne a espinha dorsal do comportamento desse indivíduo, ou seja, que ele leve uma vida dirigida pela inteligência. Com isto ele se tornará finalmente autônomo e confiável em seus julgamentos, dentro da medida possível ao ser humano.Uma distinção importante é a que existe entre julgamento próprio, ou seja, você ser capaz de pensar por si mesmo, e o que é apenas uma opinião própria. Hoje em dia todo mundo faz questão de ter uma opinião própria, mas isso não é o mesmo que pensar por si mesmo. Pensar por si mesmo não é apenas você ter uma expressão, uma opinião que expresse a sua preferência, o seu gosto ( aliás geralmente muito menos pessoal do que se proclama ) ou a sua individualidade, mas é você ser capaz de, sozinho e sem ajuda, examinar uma questão e chegar a uma conclusão verdadeira ou suficiente sobre ela, e que, longe de buscar ser diferente da opinião alheia, coincida mais ou menos com as opiniões de outras pessoas que por si mesmas examinaram o assunto, de modo que cada um, examinando por si e sem nenhuma coerção externa, chegue mais ou menos às mesmas conclusões. Pensar por si mesmo é ser capaz de alcançar a verdade sozinho, e não de inventar apenas uma mentira personalizada. Aliás uma das condições para o desenvolvimento da inteligência é você não fazer questão de ter uma opinião própria, ou seja, você não fazer questão de que sua opinião seja diferente da das outras pessoas, ao contrário, apenas fazer questão de examinar as coisas por si mesmo, sem precisar de muletas, sem precisar da aprovação da maioria ou de quem quer que seja, para no final chegar a uma conclusão, de maneira que você expresse menos uma concordância ou discordância natural, mas que a concordância ou discordância seja produzida por um exame refletido do assunto. Ser capaz de examinar por si próprio é mais importante do que ter uma opinião diferente da dos outros.

O estado de dúvida O desenvolvimento da inteligência exige ainda uma outra coisa, que é a tolerância para com o estado de dúvida, que é um estado psicológico que se define por duas afirmações contraditórias e simultâneas de credibilidade aparentemente igual. Ou seja, ao examinar uma questão, dizer um sim e um não com igual convicção, isto é, acreditar tanto numa hipótese como na hipótese contrária, ter iguais razões a favor e contra. Na quase totalidade dos assuntos com os quais lidamos, não há tempo e não há condição prática de sair do estado de dúvida. O indivíduo que ou não tem vocação para a vida da inteligência ou se desviou dela por um motivo qualquer, sente como muito urgente sair do estado de dúvida; ele precisa ter uma opinião de qualquer jeito, precisa se pronunciar, precisa chegar a um sim ou um não, e esta necessidade é vivida como mais urgente do que a de conhecer a verdade. Neste caso a inteligência não se desenvolve, pois ela é substituída pela simples busca de segurança, já que a dúvida é um estado de insegurança. Se queremos desenvolver a inteligência, temos de fazer uma escolha: a de preferir antes permanecer em dúvida do que ter uma pseudocerteza. É óbvio que a certeza é preferível à dúvida, mas ela só é preferível realmente quando é uma certeza autêntica, e não uma simples preferência individual. Então uma outra exigência para o desenvolvimento da vida intelectual é uma espécie de voto de pobreza em matéria de opiniões, um voto de ter opinião sobre muito pouca coisa e se reservar para opinar sobre coisas em que você teve efetivamente tempo de pensar, e no resto você consentir em permanecer em dúvida, até mesmo, se for preciso pelo resto de sua vida. Uma certeza firme é preferível a um milhão de dúvidas mas, lamentavelmente, se quisermos desenvolver a inteligência teremos de tolerar o estado de dúvida, o estado de incerteza, por mais tempo do que as pessoas geralmente toleram. Além de fazer este voto de pobreza em matéria de opinião, é necessário ainda um outro tipo de voto de pobreza que é a renúncia à busca de apoio, ou seja, você não acreditar que o número das pessoas que o apoiam representa um argumento efetivo em favor da veracidade do que você está dizendo. Em todas as questões mais difíceis a maioria geralmente está errada, ou seja, em geral o consenso mais imediato é feito em torno de algum erro. Por que? Já dizia Sto. Tomás de Aquino: A verdade é filha do tempo. A verdade geralmente demora para aparecer. Se for preciso, se for absolutamente preciso buscar apoio numa opinião majoritária, então é preferível escorar-se nas opiniões que a humanidade conservou intactas ao longo dos tempos, que resistiram incólumes às mudanças e aos desgastes do tempo, do que naquelas que simplesmente formam a voz majoritária do nosso tempo, e que correm o grave risco de tornar-se minoritárias amanhã ou depois. Dito de outro modo: se algum valor tem a opinião da maioria, não é a da maioria momentânea, da maioria mercadológica, fugaz e inconstante, mas sim a da maioria humana, da maioria da espécie humana em todas as épocas e lugares: quod semper, quod ubique, quod ab omnibus credita est, “aquilo em que todos, em toda parte, sempre acreditaram”.

Ainda com relação à formação de uma elite intelectual, não é preciso dizer que não é absolutamente necessário que os membros de uma elite deste tipo tenham opinões concordantes, aliás se tiverem opiniões discordantes talvez até seja melhor em determinadas circunstâncias. Mas existem alguns pontos com os quais é preciso estar de acordo, no que se refere, em primeiro lugar, ao valor da inteligência, ao valor da verdade, e à possibilidade do ser humano descobrir a verdade. A fé no poder de alcançar a verdade é a condição inicial de qualquer investigação filosófica, dizia Hegel. Se não acreditarmos na possibilidade de alcançar a verdade não faremos esforços para buscá-la. É preciso se persuadir de que é possível descobrir a verdade, mas nem sempre a verdade final, nem sempre a verdade absoluta, e sobretudo nem sempre a verdade sobre todas as coisas. Em muitas coisas é possível alcançar uma verdade final absoluta, em muito mais coisas do que se costuma imaginar, porém em muito menos do que nós desejaríamos. Na maior parte dos casos teremos de nos contentar com uma certeza probabilística, e às vezes apenas com uma verossimilhança, e às vezes com muito menos do que isto, e talvez nos contentarmos com uma dúvida que nos acompanhará ao túmulo.Porém, na mesma medida em que o indivíduo confia na inteligência humana em geral, ele deve desconfiar da sua própria opinião, o que é um pouco o contrário da atitude que se dissemina hoje em dia, onde as pessoas dizem não acreditar em verdades absolutas mas acreditam com fé absoluta naquelas verdades relativas que lhes agradam: há aí uma mistura repugnante de relativismo intelectual com um dogmatismo emocional fanático. Ainda que reconheçamos a dificuldade de alcançar a verdade com relação à quase totalidade dos assuntos, temos de admitir que, pelo menos com relação a algumas coisas modestas, podemos verificar a possibilidade humana de alcançar a verdade, desde o momento em que cultivamos a noção da evidência e, sobretudo, cultivamos a norma de jamais negar que sabemos aquilo que efetivamente sabemos.

A autoconsciência, terra natal da verdade É importante aprender a admitir aquilo que você sabe que é verdadeiro. Ainda que sejam verdades insignificantes, você meditar sobre o óbvio é talvez a melhor maneira de se habituar à verdade e perder o medo dela e a desconfiança injusta quanto ao poder da inteligência. Por exemplo, ainda que quase todos os conhecimentos que existam sejam relativos ou duvidosos, você sabe que não pode duvidar seriamente de que está aqui neste momento; você pode fazer de conta que não está, mas não pode duvidar efetivamente. Se existem tantos conhecimentos óbvios sobre coisas insignificantes, imaginem aonde poderíamos chegar se alcançássemos evidências deste tipo com relação a coisas verdadeiramente importantes! O senso da verdade se desenvolve a partir do próprio senso da evidência, e o senso da evidência tem a sua raiz naquilo que você já sabe e sabe que sabe. Quando você sabe realmente uma coisa, automaticamente sabe que sabe, e se você sabe que sabe, você sabe que sabe que sabe. Isto quer dizer que qualquer conhecimento efetivo implica também a consciência deste conhecimento e a plena admissão da sua veracidade.A inteligência tem, portanto, também um aspecto volitivo, inseparavemente ligado ao aspecto cognitivo.

Por onde começa o treinamento da consciência para admitir a verdade? O primeiro grau no aprendizado da verdade consiste em você aprender a reconhecer aquelas verdades que só você sabe e que ninguém, fora você, pode confirmar ou negar. Por exemplo, só você conhece suas intenções, só você conhece os atos que praticou em segredo, só você conhece os sentimentos que não confessou. Você, nesses casos, é a única testemunha, e é aí que você vai conhecer a diferença radical e intransponível entre verdade e falsidade. As pessoas que vivem negando a existência de verdades não conhecem essa experiência, nunca deram senão falso testemunho de si mesmas ante o tribunal da consciência, mentem para si mesmas e por isto sentem que tudo no mundo é mentira. Hegel dizia: a autoconsciência é a terra natal da verdade. E Giambattista Vico observava que só conhecemos perfeitamente bem aquilo que nós mesmos fizemos: conhecer perfeitamente bem a natureza só Deus conhece, pois Ele a fez. Porém nossos próprios atos somente nós mesmos podemos conhecer, assim como nossos pensamentos e nossos estados interiores. Não há ali ninguém que possa nos fiscalizar, não há ninguém que possa nos defender de nós mesmos.

Os graus de certeza Se quisermos desenvolver o senso da certeza temos portanto de nos perguntar exatamente sobre aquelas coisas que só nós sabemos e que ninguém pode saber melhor do que nós mesmos. Estas vão dar o modelo para todas as outras certezas. O aprendizado de qualquer saber é perfeitamente inútil se não houver a consciência reflexiva, que consiste na frase: Eu sei que sei, ou então na sua oposta complementar, que é Eu sei que não sei.

Mesmo em assuntos duvidosos, com um pouquinho de reflexão você pode demarcar o limite entre o conhecimento possível e o impossível. Bastaria que conseguíssemos captar o grau de certeza ou de dúvida que existe em cada conhecimento já possuído.Existem quatro graus de certeza possíveis:

certeza;

probabilidade;

3 verossimilhança;

conjeturação do possível.

Certeza é por exemplo esta que diz “Eu estou aqui agora” ou “Eu sou eu mesmo e não outro”.

Que é uma opinião provável? É uma opinião onde você pode só ter uma certeza evidente ( apodítica ) com relação a um grau de probabilidade determinado ou determinável.

Em outros casos você não pode nem ter isso, você só pode ter uma probabilidade indeterminada, isto é, verossímil, não uma probabilidade rigorosa.

E, finalmente, em alguns casos só podemos ter conjeturas, como por exemplo perguntar se há vida inteligente em outros planetas. Alguns dirão que sim, outros que não, e aqueles que dizem sim têm tanta razão quanto aqueles que dizem não. Aí conhecemos somente uma possibilidade genérica, impossível de graduar probabilisticamente.

Eis aqui uma boa maneira de você fazer uma faxina no seu universo intelectual, para recomeçar em boa ordem. Trata-se de fazer a si mesmo as seguintes perguntas: Do conjunto de coisas que você já estudou, quais são aquelas que você conhece com certeza absoluta? Quais as que conhece como probabilidade razoável? Quais as que conhece como conjetura verossímil? Quais as que conhece como mera possibilidade? Em suma: quanto vale cada um dos conhecimentos que você tem?

Eis uma verdade amarga: se, a respeito de um assunto, você crê possuir certo conhecimento mas não sabe se esse conhecimento é certo, verossímil, provável ou conjectural, você não sabe absolutamente nada sobre o assunto. A avaliação dos conhecimentos faz parte do próprio conhecimento. Se não existe uma avaliação clara dos conhecimentos já adquiridos, você não sabe a distinção entre o que sabe e o que não sabe, e isto é o mesmo que não saber nada. Seria o caso de perguntar: O que adianta uma educação que lhe ensina um monte de coisas, mas que não o ensina a avaliar e julgar o que aprende? Não existe nenhuma diferença entre você saber alguma coisa e você conseguir separar nela o verdadeiro do falso, pois saber é saber distinguir o verdadeiro do falso, é isto e nada mais além disto. Se você aplicasse esta grade de distinções a tudo o que já leu ou estudou, se classificasse por ela todas as suas opiniões, imagine a montanha de conhecimentos verídicos que você teria no fim.

Formar convicção é formar graus de convicção. Exemplo: Você sabe que Deus existe com a mesma certeza com que você sabe que você existe?Se Deus existe, Ele é bom: isto é óbvio. Seria bom que Deus existisse: isto também é óbvio. Agora, entre pensar seria bom que Deus existisse e pensar que Deus existe efetivamente há uma distância muito grande. Então, por exemplo, se tenho uma discussão com uma pessoa e penso que eu estou certo e ela errada, o que estou querendo dizer? Estou querendo dizer: Seria bom que eu estivesse certo e ela estivesse errada, ou melhor, seria bom para mim. Agora, entre pensar que seria bom que eu estivesse certo e estar absolutamente certo de fato, a distância também é enorme. Então, lamentavelmente, não podemos estar tão certos em tantas coisas como geralmente fingimos que estamos. Só que se você extirpar de seu universo de crenças um monte de falsas certezas, vai ver que no fim sobram algumas certezas inabaláveis, e estas valem muito. Mas se você desejar preservar todas as suas convicções igualmente, no mesmo plano, sem escalaridade crítica, no fim vão estar todas misturadas, você não vai ter certeza legítima de nenhuma, e vai acabar duvidando até de que dois mais dois são quatro, de que você está aqui neste momento e até de que você existe. A falsa certeza é a mãe da dúvida patológica.

Muitas vezes o que acontece é que o indivíduo acaba tendo certeza absoluta de coisas inteiramente conjeturais, e tendo dúvidas sobre coisa óbvias e inegáveis, porque não sabe equacionar as suas certezas e suas dúvidas conforme a segurança maior ou menor do conhecimento em si. É claro que existem coisas sobre as quais gostaríamos de ter certeza. Você não gostaria de ter certeza, por exemplo, da imortalidade da alma? Muitas vezes precisamos de um conhecimento, e este conhecimento se furta, se nega. Mas outras vezes há conhecimentos de que você crê não precisar e eles vêm acompanhados de certeza absoluta: então por que você não os aceita? Um conhecimento aparentemente inútil, mas certo, é menos prejudicial do que um conhecimento aparentemente útil, mas falso. Se aprendermos a avaliar os graus de certeza não conforme simplesmente o nosso desejo, mas conforme à coisa mesma, conforme o assunto mesmo admita maior ou menor certeza, teremos feito da nossa mente um instrumento dócil aos graus de certeza oferecidos pela própria realidade. Isso inclusive pouparia um trabalho enorme. Pouparia o trabalho de você ter de argumentar em favor de coisas que são óbvias e que não precisam de argumento nenhum para sustentá-las, bem como pouparia o trabalho de argumentar em favor do indefensável, do arbitrário, do nonsense.

Este senso de docilidade à verdade apreendida pela própria consciência é transmitido aos alunos deste curso como uma prática, não apenas como uma lição de casa para se fazer de hoje para amanhã, mas como uma prática para o resto da vida. Dado qualquer conhecimento, o aluno é convidado incessantemente a fazer as quatro perguntas decisivas: Isto é verídico? É provável? É verossímil? É possível?O critério dos graus de certeza é usado o tempo todo neste curso; é a primeira lição e também a última. E a primeira coisa que deve ser revista com este critério é qualquer assunto que você já tenha estudado formalmente. Somente com esta revisão você já vai ver que a massa de conhecimentos, de informações adquiridas, começa a adquirir forma orgânica, inteligível, e você pela primeira vez tem uma idéia clara da cultura que possui e da que lhe falta: quando o universo dos seus conhecimentos adquire uma forma, você adquire consciência reflexiva do que sabe e do que não sabe.

A topografia da ignorância O desenvolvimento da consciência reflexiva pode ser exemplificado na seguinte prática que dou aos alunos deste curso:

O tempo todo estamos adquirindo informações que nos vêm através dos cinco sentidos, da leitura, do ouvir-dizer, etc., porém a algumas delas prestamos atenção e damos um valor, e a outras não. Então pergunto eu: para onde você olha sempre, para onde olha com frequência, para onde olha de vez em quando e para onde não olha jamais? É justamente a consciência desta seleção que lhe dará a topografia do mundo, do seu mundo. Nenhum mundo pessoal coincide extensivamente, quantitativamente, com o mundo objetivo. Mas um mundo pessoal íntegro, dotado de unidade como um organismo vivente, já se parece com o mundo objetivo precisamente por essa unidade orgânica e, essencialmente ao menos, é um adequado mapa do mundo, ao passo que o mundo interior quebradiço, fragmentário e mecânico não se parece com nada senão com ele mesmo, com as fantasias de criação humana. A diferença não está na quantidade de informações, mas justamente em sua topografia.

A topografia autoconsciente produz um sentido de perfil, de clareza das coisas. É exatamente isto que a consciência reflexiva fará com seus conhecimentos. A partir da hora em que você sabe que sabe, você efetivamente sabe. E saber que sabe é também saber quando não sabe.A proclamação genérica e vaga de ignorância é apenas uma vaidade intertida, mas o repertório organizado e crítico da nossa ignorância é um conhecimento, um conhecimento efetivo e importantíssimo. O desenho da ignorância, o perfil da ignorância, é um primeiro saber. E este perfil da ignorância se faz exatamente aplicando a grade dos graus de certeza. Se você consegue mapear, de um lado, a sua ignorância, e de outro, o valor possível de seus conhecimentos adquiridos, você terá inaugurado as bases de uma vida intelectual brilhante. Percebe agora qual a diferença entre um ensino voltado às faculdades cognitivas ( memória, imaginação, raciocínio etc. ) e um ensino voltado à inteligência? O que interessa aqui não é tanto o conhecimento, mas a consciência do conhecimento. Consciência, cum + scientia, é isto: saber que sabe o que sabe.

Uma consciência desperta não torna somente mais claros os conhecimentos que você já tem, mas o deixa preparado e como que potencializado para a aquisição de novos conhecimentos com muito mais aproveitamento do que antes; e então, para você poder dominar todo um novo setor da ciência, da história, da arte, às vezes não precisará nada mais do que ter ajuda para chegar aos primeiros princípios daquela área, o resto você descobrirá sozinho, porque terá conquistado o senso, o “faro” da unidade do conhecimento, e aprenderá muitas coisas de uma maneira mais ou menos sintética e simultânea, onde antes precisava de explicações detalhadas, repetições, exercícios, etc. É claro que essa maior integração da consciência, com o consequente aumento da capacidade de aprendizado, não se dá só na área dos estudos formais, mas em todas as áreas da vida, que aos poucos irão revelando suas interconexões. O benefício que isto traz não é só de ordem intelectual, mas se estende a toda a psique, a toda a personalidade.

Partindo do princípio de que todo mundo já sabe alguma coisa — sabe por viver, sabe porque tem memória, porque assistiu a acontecimentos, porque leu algum livro, porque ouviu falar, porque viu televisão, porque leu jornal, e enfim alguma coisa sempre se sabe —, então resta transformar esse saber em autoconsciência. Se o saber efetivo, se a inteligência se identifica fundamentalmente com a autoconsciência, o saber que você possui só se tornará um saber inteligente se for um saber autoconsciente, ou seja, se você passar todo este saber na peneira das seguintes perguntas:

Até que ponto sei isto realmente?

Quanto vale este conhecimento?

O que faltaria para que ele fosse completo?

Weapons Of Freedom

December 17, 2009 | Diário do Comércio

The most obvious thing about the analysis of history and society is that when a situation changes considerably, you can no longer describe it with the same concepts as before: in order to account for unheard-of facts, not classifiable under known categories, you have to create new concepts or perfect the old ones through criticism.

With the stage of world government implementation already in full swing, it is pathetic to notice that political analysts, whether in academia or in the media, continue to offer the public analyses based on the old concepts of “national state,” “national power,” “international relations,” “free trade,” “democracy,” “imperialism,” “class struggle,” “ethnic conflicts,” etc., when it is clear that none of those bear much relation to the facts of today’s world.

The most basic events of the last fifty years are: first, the rise of the globalist élites, detached from any identifiable national interest and engrossed in the building not only of a world state, but a unified and entirely artificial planetary pseudo-civilization, conceived not as an expression of society, but as an instrument for the control of society by the state; second, the fabulous advancements of the human sciences, which have placed in the hands of those élites means of social domination never dreamed of by tyrants of other times.

As early as several decades ago, Ludwig Von Bertalanffy (1901-1972), the creator of general systems theory, aware that his contribution to science was being used for undue purposes, warned, “It is perhaps the greatest danger of the systems of modern totalitarianism that they are so alarmingly up-to-date not only in physical and biological, but also in psychological technology. The methods of mass suggestion, of the release of the instincts of the human beast, of conditioning and thought control are developed to highest efficacy; just because modern totalitarianism is so terrifically scientific, it makes the absolutism of former periods appear a dilettantish and comparatively harmless makeshift.”

In his 1998 book, L’Empire Écologique: La Subversion de l’Écologie par le Mondialisme (The ecological empire: the subversion of ecology by globalism), Pascal Bernardin explained in detail how the general systems theory has been used as a basis for the construction of a world totalitarian system, which in the last ten years has definitively gone from blueprint to patent reality—a reality which is clear to all but those who do not want to see. Von Bertalanffy, however, was not referring only to his own theory. He speaks of “methods” in the plural, and ordinary citizens of democracies cannot have any idea of the plethora of scientific resources now at the disposal of the new lords of the world. If von Bertalanffy had to mention names, he would not have omitted Kurt Levin, perhaps the greatest social psychologist of all times, whose Tavistock Institute, in London, was founded by the global élite itself in 1947 for the sole purpose of creating means of social control capable of reconciling the permanence of formal legal democracy with the total domination of the state over society.

Just to give you an idea of how far all this goes, the educational programs of almost all nations of the world—which have been in force for at least twenty years now—are determined by homogeneous rules directly imposed by the United Nations, and calculated not to develop children’s intelligence or conscience, but to make them docile, malleable, morally characterless creatures, ready to adhere enthusiastically and without discussion to any word of command which the global élite may deem useful for its objectives. The means used to achieve this are “non-aversive” control techniques conceived to make their victim not only feel as if he is acting of his own free will when he yields to impositions from authority, but also to develop an immediate reaction of irrational defense to the mere suggestion that he should critically examine the subject in question.

It would be a euphemism to say that mass application of such techniques “bears influence on” public education programs: these techniques are the whole content of current schooling. All disciplines, mathematics and science included, have been reshaped to serve psychological manipulation purposes. Pascal Bernardin himself meticulously described this phenomenon in his 1995 book Machiavel Pédagogue (Machiavelli the Educator). Read it and you will find out why your child cannot solve a quadratic equation or finish a sentence without lapsing into at least three solecisms, even though he comes back from school bossing you around like a people’s commissar, demanding “politically correct” behavior of his parents.

The quickness with which sudden mutations of mentality—many of which are arbitrary, grotesque, and even absurd—are universally imposed without meeting the least resistance (as though they had emanated from an irrefutable logic and not from despicable Machiavellianism) could be explained by the simple school brainwashing that prepares children to accept new fashions as divine commands.

But obviously, school is not the only agency engrossed in producing such results. Big media, now massively concentrated in the hands of globalist mega-corporations, play a fundamental role in dumbing down the masses. In order to achieve this, one of the most widely employed techniques nowadays is cognitive dissonance , a discovery made by psychologist Leon Festinger (1919-1989). This is how it works. If you read today’s newspapers, you will see that Tiger Woods, the golf champion, one of our most beloved citizens of late, is now under heavy attack by newspapers and TV news shows because the poor man has been found to have mistresses. Scandal! Horror! General indignation threatens to drop half of the adulterer’s sponsorship deals and strike him off of the list of the “beautiful people” who appear on advertisements for sneakers, bubble gums, and miracle diets. But there is a telltale detail: beside the protests against the sportsman’s immorality, there are fierce attacks on “right-wing extremists” who do not accept abortion, gay marriage, or the inducing of children to premature sexual delight. The two moral codes, mutually contradictory, are simultaneously offered as equally obliging and sacrosanct. Excited and impelled to all kinds of sexual debaucheries, while at the same time threatened with character assassination in case he may practice them even to a modest degree, the anguished citizen reacts through a kind of intellectual breakdown, becoming a servile fool who no longer knows how to orient himself and who begs for a voice of command. The command can be empty and meaningless, as for example “Change!,” but when it is uttered, it always sounds like a relief.

Blaming scientists for this state of affairs is as idiotic as pinning the blame for murders on weapons. Men like von Bertalanffy, Levin, and Festinger created instruments that can serve both the building up of tyranny and the reconquest of freedom. It is we who have the obligation of taking those weapons out of the hands of their monopolistic owners and learning to use them for the opposite purpose, freeing our spirit instead of allowing it to be enslaved.

Translated by Alessandro Cota Revised by Donald Hank Em 17 de dezembro de 2009

English

A Fala De Fhc

Data N/A | O discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso na Assembléia Nacional francesa – muito aplaudido

Em resumo, a equivocada posição diplomática nos colocou na habitual situação de irrelevância no cenário internacional.

E nada há a justificar isso. O Brasil teria realmente que aprofundar e extrair da relação com os Estados Unidos os frutos de uma parceria estratégica, que não seria difícil construir se, do lado de cá, houvesse uma predisposição ideológica e inteligência conduzindo as negociações. Em substituição a uma diplomacia mais eficaz, ficamos nós perdendo tempo com países quebrados como a Argentina, que nada nos podem dar e que freqüentemente querem nos levar alguma coisa. Perdemos tempo com aplausos fácil de países como a França, que têm um recalque histórico contra a América, que não temos. Perdemos tempo com todas as causas perdidas da comunidade internacional.

É admirável a posição da Inglaterra, do Canadá e da Austrália, além do Japão e da Alemanha, que não hesitaram diante dos perigos do terrorismo, ficando do lado de quem estava a força moral. Ganharam em virtudes e também no fortalecimento dos seus interesses. Como é que o Brasil entrará na agenda relevante se sempre busca a companhia dos irrelevantes e dos fracos?

Aqui é preciso frisar a coerência ideológica do governante brasileiro. Fazendo coro com a esquerda internacional, começa a ver nos gestos de defesa militar uma ameaça agressora, começa a desqualificar uma ação que defende não apenas países individualmente, mas o conjunto do mundo ocidental. O recente assassinato infame dos cristãos católicos em plena Missa no Paquistão é emblemático do que estamos a viver. Está em curso um choque de civilizações. Não há lugar para inocentes úteis, não há meios termos. Ou se está do lado de quem tem razão e vai vencer a parada, ou se está contra. A posição morna não é duradoura nem recomendável. Infelizmente o Brasil, pela fala do seu presidente, parece que está escolhendo ficar do lado perdedor e mesmo daqueles que são objetivamente os inimigos dos brasileiros, enquanto nação integrante do Hemisfério Ocidental.

FHC poderia ter saído do governo sem esse opróbrio de acovardado, que não representa minimamente os interesses e mesmo o sentimento da maioria dos brasileiros. Fico a me perguntar com que cara ficará o Brasil se um outro atentado de grande envergadura vier a ser executado. Voltará atrás sobre os próprios passos? Deixará o dito pelo não dito?

Alguém duvida que um segundo movimento será executado?

Em 18 de outubro de 2001

Leituras

A Nova Era E A Revolucao Cultural Capitulo Ii (2)

Data N/A | STO. ANTONIO GRAMSCI

Refiro-me ao ideólogo italiano Antonio Gramsci. Tendo-se tornado praxe entre as esquerdas jamais pronunciar o nome de Gramsci sem acrescentar-lhe a menção de que se trata de um mártir, apresso-me a declarar que o referido passou onze anos numa prisão fascista, de onde remeteu ao mundo, mediante não sei que artifício, os trinta e três cadernos de notas que hoje constituem, para os fiéis remanescentes do comunismo brasileiro, a bíblia da estratégia revolucionária. Mas não está só nisso a razão da aura beatífica que envolve o personagem. Da estratégia, tal como vista por ele, constituía um capítulo importante a criação de um novo calendário dos santos, que pudesse desbancar, na imaginação popular, o prestígio do hagiológio católico ( uma vez que a Igreja, na visão dele, era o maior obstáculo ao avanço do comunismo ). O novo panteão seria inteiramente constituído de líderes comunistas célebres, e baseado no critério segundo o qual “Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht são maiores do que os maiores santos de Cristo” — palavras textuais de Gramsci. Os seguidores do novo culto, com inteira lógica, puseram ainda mais alto na escala celeste o instituidor do calendário, motivo pelo qual não se pode falar dele sem a correspondente unção. E eu, temeroso como o sou de todas as coisas do além, não poderia iniciar esta breve exposição do gramscismo brasileiro sem a preliminar invocação ao seu patrono, em quem se depositam, neste momento, muitas esperanças de salvação do Brasil. Digo, pois:

Sancte Antonie Gramsci, ora pro nobis.

Atendida esta devota formalidade, retorno aos fatos. Gramsci ficou, dizia eu, meditando na cadeia. Mussolini, que o mandara prender, acreditava estar prestando um serviço ao mundo com o silêncio que impunha àquele cérebro que ele julgava temível. Aconteceu que no silêncio do cárcere o referido cérebro não parou de funcionar; apenas começou a germinar idéias que dificilmente lhe teriam ocorrido na agitação das ruas. Homens solitários voltam-se para dentro, tornam-se subjetivistas e profundos. Gramsci transformou a estratégia comunista, de um grosso amálgama de retórica e força bruta, numa delicada orquestração de influências sutis, penetrante como a Programação Neurolinguística e mais perigosa, a longo prazo, do que toda a artilharia do Exército Vermelho. Se Lênin foi o teórico do golpe de Estado, ele foi o estrategista da revolução psicológica que deve preceder e aplainar o caminho para o golpe de Estado.

Gramsci estava particularmente impressionado com a violência das guerras que o governo revolucionário da Rússia tivera de empreender para submeter ao comunismo as massas recalcitrantes, apegadas aos valores e praxes de uma velha cultura. A resistência de um povo arraigadamente religioso e conservador a um regime que se afirmava destinado a beneficiá-lo colocou em risco a estabilidade do governo soviético durante quase uma década, fazendo com que, em reação, a ditadura do proletariado — na intenção de Marx uma breve transição para o paraíso da democracia comunista — ameaçasse eternizar-se, barrando o caminho a toda evolução futura do comunismo, como de fato veio a acontecer.

Para contornar a dificuldade, Gramsci concebeu uma dessas idéias engenhosas, que só ocorrem aos homens de ação quando a impossibilidade de agir os compele a meditações profundas: amestrar o povo para o socialismo antes de fazer a revolução. Fazer com que todos pensassem, sentissem e agissem como membros de um Estado comunista enquanto ainda vivendo num quadro externo capitalista. Assim, quando viesse o comunismo, as resistências possíveis já estariam neutralizadas de antemão e todo mundo aceitaria o novo regime com a maior naturalidade.

A estratégia de Gramsci virava de cabeça para baixo a fórmula leninista, na qual uma vanguarda organizadíssima e armada tomava o poder pela força, autonomeando-se representante do proletariado e somente depois tratando de persuadir os apatetados proletários de que eles, sem ter disto a menor suspeita, haviam sido os autores da revolução. A revolução gramsciana está para a revolução leninista assim como a sedução está para o estupro.

Para operar essa virada, Gramsci estabeleceu uma distinção, das mais importantes, entre “poder” ( ou, como ele prefere chamá-lo, “controle” ) e “hegemonia”. O poder é o domínio sobre o aparelho de Estado, sobre a administração, o exército e a polícia. A hegemonia é o domínio psicológico sobre a multidão. A revolução leninista tomava o poder para estabelecer a hegemonia. O gramscismo conquista a hegemonia para ser levado ao poder suavemente, imperceptivelmente. Não é preciso dizer que o poder, fundado numa hegemonia prévia, é poder absoluto e incontestável: domina ao mesmo tempo pela força bruta e pelo consentimento popular — aquela forma profunda e irrevogável de consentimento que se assenta na força do hábito, principalmente dos automatismos mentais adquiridos que uma longa repetição torna inconscientes e coloca fora do alcance da discussão e da crítica. O governo revolucionário leninista reprime pela violência as idéias adversas. O gramscismo espera chegar ao poder quando já não houver mais idéias adversas no repertório mental do povo.

Que esse negócio é tremendamente maquiavélico, o próprio Gramsci o reconhecia, mas fazendo disto um título de glória, já que Maquiavel era um dos seus gurus. Apenas, ele adaptou Maquiavel às demandas da ideologia socialista, coletivizando o “Príncipe”. Em lugar do condottiere individual que para chegar ao poder utiliza os expedientes mais repugnantes com a consciência tranquila de quem está salvando a pátria, Gramsci coloca uma entidade coletiva: a vanguarda revolucionária. O Partido, em suma, é o novo Príncipe. Como o sangue-frio dos homens fica mais frio na medida em que eles se sentem apoiados por uma coletividade, o Novo Príncipe tem uma consciência ainda mais tranquila que a do antigo. O condottiere da Renascença não tinha apoio senão de si mesmo, e nas noites frias do palácio tinha de suportar sozinho os conflitos entre consciência moral e ambição política, encontrando no patriotismo uma solução de compromisso. No Novo Príncipe, a produção de analgésicos da consciência é trabalho de equipe, e nas fileiras de militantes há sempre uma imensa reserva de talentos teóricos que podem ser convocados para produzir justificações do que quer que seja.

Os intelectuais desempenham por isso, na estratégia gramsciana, um papel de relevo. Mas isto não quer dizer que suas idéias sejam importantes em si mesmas, pois, para Gramsci, a única importância de uma idéia reside no reforço que ela dá, ou tira, à marcha da revolução. Gramsci divide os intelectuais em dois tipos: “orgânicos” e “inorgânicos” ( ou, como ele prefere chamá-los, “tradicionais” ). Estes últimos são uns esquisitões que, baseados em critérios e valores oriundos de outras épocas, e sem uma definida ideologia de classe, emitem idéias que, ignoradas pelas massas, não exercem qualquer influência no processo histórico: acabam indo parar na lata de lixo do esquecimento, a não ser que tenham a esperteza de aderir logo a uma das correntes “orgânicas”. Intelectuais orgânicos são aqueles que, com ou sem vinculação formal a movimentos políticos, estão conscientes de sua posição de classe e não gastam uma palavra sequer que não seja para elaborar, esclarecer e defender sua ideologia de classe. Naturalmente, há intelectuais orgânicos “burgueses” e “proletários”. Estes são a nata e o cérebro do Novo Príncipe, mas aqueles também têm alguma utilidade para a revolução, pois é através deles que os revolucionários vêm a conhecer a ideologia do inimigo. Gramsci mencionava como protótipos de intelectuais orgânicos burgueses Benedetto Croce e Giovanni Gentile: o liberal antifascista e o ministro de Mussolini.

O conceito gramsciano de intelectual funda-se exclusivamente na sociologia das profissões e, por isto, é bem elástico: há lugar nele para os contadores, os meirinhos, os funcionários dos Correios, os locutores esportivos e o pessoal do show business . Toda essa gente ajuda a elaborar e difundir a ideologia de classe, e, como elaborar e difundir a ideologia de classe é a única tarefa intelectual que existe, uma vedette que sacuda as banhas num espetáculo de protesto pode ser bem mais intelectual do que um filósofo, caso se trate de um “inorgânico” como por exemplo o autor destas linhas.

Os intelectuais no sentido elástico são o verdadeiro exército da revolução gramsciana, incumbido de realizar a primeira e mais decisiva etapa da estratégia, que é a conquista da hegemonia, um processo longo, complexo e sutil de mutações psicológicas graduais e crescentes, que a tomada do poder apenas coroa como uma espécie de orgasmo político.

A luta pela hegemonia não se resume apenas ao confronto formal das ideologias, mas penetra num terreno mais profundo, que é o daquilo que Gramsci denomina — dando ao termo uma acepção peculiar — “senso comum”. O senso comum é um aglomerado de hábitos e expectativas, inconscientes ou semiconscientes na maior parte, que governam o dia-a-dia das pessoas. Ele se expressa, por exemplo, em frases feitas, em giros verbais típicos, em gestos automáticos, em modos mais ou menos padronizados de reagir às situações. O conjunto dos conteúdos do senso comum identifica-se, para o seu portador humano, com a realidade mesma, embora não constitua de fato senão um recorte bastante parcial e frequentemente imaginoso. O senso comum não “apreende” a realidade, mas opera nela ao mesmo tempo uma filtragem e uma montagem, segundo padrões que, herdados de culturas ancestrais, permanecem ocultos e inconscientes.

Como o que interessa não é tanto a convicção política expressa, mas o fundo inconsciente do “senso comum”, Gramsci está menos interessado em persuasão racional do que em influência psicológica, em agir sobre a imaginação e o sentimento. Daí sua ênfase na educação primária. Seja para formar os futuros “intelectuais orgânicos”, seja simplesmente para predispor o povo aos sentimentos desejados, é muito importante que a influência comunista atinja sua clientela quando seus cérebros ainda estão tenros e incapazes de resistência crítica.

O senso comum não coincide com a ideologia de classe, e é precisamente aí que está o problema. Na maior parte das pessoas, o senso comum se compõe de uma sopa de elementos heteróclitos colhidos nas ideologias de várias classes. É por isto que, movido pelo senso comum, um homem pode agir de maneiras que, objetivamente, contrariam o seu interesse de classe, como por exemplo quando um proletário vai à missa. Nesta simples rotina dominical oculta-se uma mistura das mais surpreendentes, onde um valor típico da cultura feudal-aristocrática, reelaborado e posto a serviço da ideologia burguesa, aparece transfundido em hábito proletário, graças ao qual um pobre coitado, acreditando salvar a alma, comete, na realidade, apenas uma grossa sacanagem contra seus companheiros de classe e contra si mesmo.

Aí é que entra a missão providencial dos intelectuais. Sua função é precisamente por um fim a essa suruba ideológica, reformando o senso comum, organizando-o para que se torne coerente com o interesse de classe respectivo, esclarecendo-o e difundindo-o para que fique cada vez mais consciente, para que, cada vez mais, o proletário viva, sinta e pense de acordo com os interesses objetivos da classe proletária e o burguês com os da classe burguesa. A este estado de perfeita coincidência entre idéias e interesses de classe, quando realizado numa dada sociedade e cristalizado em leis que distribuem a cada classe seus direitos e deveres segundo uma clara delimitação dos respectivos campos ideológicos, Gramsci denomina Estado Ético.

É a escalação final dos dois times, antes de começar o prélio decisivo que levará o Partido ao poder. O público brasileiro tem ouvido este termo, proferido num contexto de combate à corrupção e de restauração da moralidade. Mas ele é um termo técnico da estratégia gramsciana, que designa apenas uma determinada etapa na luta revolucionária — uma etapa, aliás, bastante avançada, na qual a radicalização do conflito de interesses de classe prepara o início da etapa orgástica: a conquista do poder. Que, no caótico senso comum brasileiro, o termo Estado Ético tenha ressonâncias moralizadoras inteiramente alheias ao seu verdadeiro intuito, mostra apenas que o público nacional ignora a inspiração diretamente gramsciana do Movimento pela Ética na Política e nem de longe suspeita que seu único objetivo é politizar a ética, canalizando as aspirações morais mais ou menos confusas da população de modo a que sirvam a objetivos que nada têm a ver com o que um cidadão comum entende por moral. O Estado Ético , na verdade, não apenas é compatível com a total imoralidade, como na verdade a requer, pois consolida e legitima duas morais antagônicas e inconciliáveis, onde a luta de classes é colocada acima do bem e do mal e se torna ela mesma o critério moral supremo. Daí por diante, a mentira, a fraude ou mesmo o homicídio podem se tornar louváveis, quando cometidos em defesa da “nossa” classe, ao passo que a decência, a honestidade, a compaixão podem ter algo de criminoso, caso favoreçam a classe adversária 10 . Que o tradicional discurso moralista da burguesia brasileira tenha podido ser assim usado como arma para desferir um golpe mortal na hegemonia burguesa, mostra menos a esperteza da esquerda gramsciana do que a estupidez paquidérmica da nossa classe dominante. Que, por outro lado, os próprios agentes do gramscismo finjam acreditar no caráter apolítico e puramente higiênico da campanha moralizante — apaziguando assim os temores daqueles que serão suas primeiras vítimas — é nada mais que uma expressão da linguagem dupla, inerente a uma estratégia na qual a camuflagem é tudo. São lições de Antonio Só-a-Cabecinha Gramsci.

É quase impossível que, a esta altura, a expressão “inversão de valores” não ocorra ao leitor. Essa inversão é, de fato, um dos objetivos prioritários da revolução gramsciana, na fase da luta pela hegemonia. Mas Gramsci é, neste ponto, bastante exigente: não basta derrotar a ideologia expressa da burguesia; é preciso extirpar, junto com ela, todos os valores e princípios herdados de civilizações anteriores, que ela de algum modo incorporou e que se encontram hoje no fundo do senso comum. Trata-se enfim de uma gigantesca operação de lavagem cerebral, que deve apagar da mentalidade popular, e sobretudo do fundo inconsciente do senso comum, toda a herança moral e cultural da humanidade, para substituí-la por princípios radicalmente novos, fundados no primado da revolução e no que Gramsci denomina “historicismo absoluto” ( mais adiante explico ).

Uma operação dessa envergadura transcende infinitamente o plano da mera pregação revolucionária, e abrange mutações psicológicas de imensa profundidade, que não poderiam ser realizadas de improviso nem à plena luz do dia. O combate pela hegemonia requer uma pluralidade de canais de atuação informais e aparentemente desligados de toda política, através dos quais se possa ir injetando imperceptivelmente na mentalidade popular toda uma gama de novos sentimentos, de novas reações, de novas palavras, de novos hábitos, que aos poucos vá mudando de direção o eixo da conduta.

Daí que Gramsci dê relativamente pouca importância à pregação revolucionária aberta, mas enfatize muito o valor da penetração camuflada e sutil. Para a revolução gramsciana vale menos um orador, um agitador notório, do que um jornalista discreto que, sem tomar posição explícita, vá delicadamente mudando o teor do noticiário, ou do que um cineasta cujos filmes, sem qualquer mensagem política ostensiva, afeiçoem o público a um novo imaginário, gerador de um novo senso comum. Jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos infantis e conselheiros familiares representam uma tropa de elite do exército gramsciano. Sua atuação informal penetra fundo nas consciências, sem nenhum intuito político declarado, e deixa nelas as marcas de novos sentimentos, de novas reações, de novas atitudes morais que, no momento propício, se integrarão harmoniosamente na hegemonia comunista 11 .

Milhões de pequenas alterações vão assim sendo introduzidas no senso comum, até que o efeito cumulativo se condense numa repentina mutação global ( uma aplicação da teoria marxista do “salto qualitativo” que sobrevem ao fim de uma acumulação de mudanças quantitativas ). Ao esforço sistemático de produzir esse efeito cumulativo Gramsci denomina, significativamente, “agressão molecular”: a ideologia burguesa não deve ser combatida no campo aberto dos confrontos ideológicos, mas no terreno discreto do senso comum; não pelo avanço maciço, mas pela penetração sutil, milímetro a milímetro, cérebro por cérebro, idéia por idéia, hábito por hábito, reflexo por reflexo.

É claro que a mutação almejada não abrange somente o terreno das convicções políticas, mas visa principalmente às reações espontâneas, aos sentimentos de base, às cadeias de reflexos que determinam inconscientemente a conduta. Condutas sedimentadas no inconsciente humano há séculos ou milênios devem ser desarraigadas, para ceder lugar a uma nova constelação de reações. É importante, por exemplo, varrer do imaginário popular figuras tradicionais de heróis e de santos que expressem determinados ideais, pois essas figuras estão imantadas de uma força motivadora que dirige a conduta dos homens num sentido hostil à proposta gramsciana. Elas devem ser substituídas por um novo panteão de ídolos, no qual, como se viu acima, Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo, Lênin, Stálin e obviamente o próprio Gramsci ocupam os lugares de S. Francisco de Assis, Santa Terezinha do Menino Jesus e tutti quanti.

Gramsci copiou nisto uma idéia de Augusto Comte, de trocar o calendário dos santos da Igreja por um panteão de heróis revolucionários. Apenas, os ídolos de Comte eram os da Revolução Francesa: Gramsci atualizou a folhinha.

Uma lavagem cerebral de tão vasta escala não poderia, certamente, limitar-se a extirpar da cabeça humana crenças religiosas, imagens, mitos e sentimentos tradicionais: ela deveria também estender-se às grandes concepções filosóficas e científicas. A estas, Gramsci queria destruir pela base, todas de uma vez, para substituí-las por uma nova cosmovisão inspirada no marxismo, ou antes, numa caricatura hipertrófica de marxismo que o próprio Marx rejeitaria com desprezo. Pois Marx considerava-se, sobretudo, o herdeiro de grandes tradições filosóficas como o aristotelismo, e construiu sua filosofia no intuito de torná-la uma ciência, uma descrição objetivamente válida das bases do processo histórico. Para Gramsci, as tradições filosóficas devem ser todas varridas de uma vez, e junto com elas a distinção entre “verdade” e “falsidade”. Pois Gramsci não é um marxista puro-sangue. Através de seu mestre Antonio Labriola, ele recebeu uma poderosa influência do pragmatismo, escola para a qual o conceito tradicional da verdade como uma correspondência entre o conteúdo do pensamento e um estado de coisas deve ser abandonado em proveito de uma noção utilitária e meramente operacional. Nesta, “verdade” não é o que corresponde a um estado objetivo, mas o que pode ter aplicação útil e eficaz numa situação dada. Enxertando o pragmatismo no marxismo, Labriola e Gramsci propunham que se jogasse no lixo o conceito de verdade: na nova cosmovisão, toda atividade intelectual não deveria buscar mais o conhecimento objetivo, mas sim a mera “adequação” das idéias a um determinado estado da luta social. A isto Gramsci denominava “historicismo absoluto”. Nesta nova cosmovisão, não haveria lugar para a distinção — burguesa, segundo Gramsci — entre verdade e mentira. Uma teoria, por exemplo, não se aceitaria por ser verdadeira, nem se rejeitaria por falsa, mas dela só se exigiria uma única e decisiva coisa: que fosse “expressiva” do seu momento histórico, e principalmente das aspirações da massa revolucionária. Dito de modo mais claro: Gramsci exige que toda atividade cultural e científica se reduza à mera propaganda política, mais ou menos disfarçada.

A “filosofia” de Gramsci resolve-se assim num ceticismo teorético que completa a negação da inteligência pela sua submissão integral a um apelo de ação prática; ação que, realizada, resultará em varrer a inteligência da face da Terra, por supressão das condições que possibilitam o seu exercício: a autonomia da inteligência individual e a fé na busca da verdade. Substituída a primeira pela arregimentação de “intelectuais orgânicos” de carteirinha, e a segunda pela concentração de todas as energias intelectuais no nobre mister da propaganda revolucionária, quê sobrará da aptidão humana para discernir entre verdade e mentira?

Gramsci é, em suma, o profeta da imbecilidade, o guia de hordas de imbecis para quem a verdade é a mentira e a mentira a verdade. Somente um outro imbecil como Mussolini podia considerá-lo “uma inteligência perigosa”. O perigo que há nela é o da malícia que obscurece, não o da inteligência que clareia; e a malícia é a contrafação simiesca da inteligência. Mas a reação de Mussolini é significativa. Há nela a típica inveja mórbida do brutamontes de direita pelo intelectual esquerdista, sua sombra junguiana que ele não compreende e que por isto mesmo lhe parece, por suas habilidades vistosas, o protótipo mesmo da inteligência. A atração é mútua, como se vê pelo culto de Nelson Rodrigues entre os esquerdistas que ele achincalhou como ninguém. Entre a grossura direitista e a pseudo-intelectualidade esquerdista, a relação é o amor-ódio de um casamento sadomasoquista. Casamento entre le genti dolorose / C’hanno perduto il ben dello intelletto... Non ragioniam di lor, ma guarda e passa.

Para quem quer que pense com a própria cabeça, as teorias de Gramsci não apresentam o menor interesse, tanto quanto não o apresentam as velhas escolas céticas gregas, das quais o gramscismo é uma reedição mal atualizada. A refutação do ceticismo é, como se sabe, o primeiro teste do aprendiz de filósofo. Tal como se refuta o ceticismo — a negação de toda certeza — pela simples afirmação de que a negação também é incerta, o gramscismo igualmente não resiste a um confronto consigo mesmo: tendo negado a veracidade objetiva, ele se reduz a uma “expressão de aspirações”. Tendo reduzido toda a cultura à propaganda, ele próprio se desmascara como mera propaganda. Não tem sequer a pretensão de ser verdadeiro: nada pretende provar nem demonstrar; quer apenas seduzir, induzir, conduzir. O tipo de mentalidade que se interessa por pensamentos desse gênero é certamente imune a qualquer preocupação de veracidade, mas é movido por uma ambição insaciável que o faz revolver sem descanso as trevas, numa “ação” estéril, nervosa, destrutiva, da qual promete em vão fazer nascer um mundo. Por uma inevitável e trágica compensação, quanto menos um homem é apto a enxergar o mundo, mais assanhado fica de transformá-lo — de transformá-lo à imagem e semelhança da sua própria escuridão interior 12 .

Se nos perguntamos, agora, como foi possível que uma filosofia assim grosseira alcançasse no Brasil tão vasta audiência a ponto de inspirar o programa de um partido político, a resposta deve levar em consideração três aspectos: primeiro, a predisposição da intelectualidade brasileira; segundo, as condições do momento; terceiro, a natureza mesma dessa filosofia.

Ao longo da nossa história intelectual, somente três correntes de pensamento lograram exercer uma influência duradoura e profunda sobre as camadas intelectuais brasileiras: o positivismo de Augusto Comte, o neotomismo de Leão XIII, o marxismo. O que há de comum entre elas é que não são propriamente filosofias, mas programas de ação coletiva, destinados a moldar ou remoldar o mundo segundo as aspirações de suas épocas e de seus mentores. O positivismo parte da constatação de que a Revolução Francesa, derrubando as concepções cristãs, deixou sua obra pela metade, na medida em que não pôs no lugar delas uma nova religião; o positivismo constitui esta nova religião, com templo, calendário dos santos, ritual e tudo o mais; e as teorias filosóficas não são senão a sustentação do novo Estado teocrático que Comte pretende fundar. O neotomismo é a reação que, ao novo Estado teocrático, opõe um apelo ao retorno do antigo, devidamente revisto e atualizado. Finalmente, o marxismo é o programa de ação do movimento socialista. Nos três, as idéias, as teorias, não têm um valor intrínseco mas servem apenas como retaguardas psicológicas da ação prática. Os três não querem interpretar o mundo, mas transformá-lo. ( Cabe uma ressalva com relação ao neotomismo: não confundi-lo com o tomismo, se por esta palavra se entende a filosofia de Sto. Tomás de Aquino. O tomismo é filosofia no sentido pleno; o neotomismo é, ao contrário, um movimento cultural e político — ideológico, em suma — votado à difusão dessa filosofia, tomada como solução pronta de todos os problemas e, portanto, esvaziada de boa parte de sua substância filosófica. Afinal, tudo o que é neo-alguma-coisa é, por definição, apenas uma nova casca da qual essa coisa é o miolo. Observações semelhantes poderiam fazer-se, com reservas, também do positivismo e do marxismo: em ambos há na raiz algo de filosofia autêntica, sufocada pelo desenvolvimento hipertrófico de um programa de ação prática, dela deduzido aos trambolhões. ) Filosofias que recuam da especulação teorética para a proposição de ações práticas são filosofias da decadência; marcam as épocas em que os homens já não conseguem compreender o mundo e passam a agitar-se para escapar de um mundo incompreensível. A sofística nasce, na Grécia, do fracasso das primeiras especulações cosmológicas de Tales, Anaximandro, Anaximenes, Parmênides e Heráclito; incapaz de resolver as contradições entre as teorias, ela transfere o eixo das preocupações humanas para a vida prática imediata: para a política do dia. Os sofistas são professores de retórica, que ensinam aos jovens políticos os meios de agir sobre as consciências. À sofística opõe Sócrates a dialética e o ideal da demonstração apodíctica que orientará os esforços gregos em direção ao saber científico. Cinco séculos mais tarde, após o esquecimento das grandes sínteses teoréticas de Platão e Aristóteles, tornam-se novamente dominantes as escolas praticistas: os cínicos, os cirenaicos, os megáricos e, em parte, os estóicos. E assim prossegue a história do pensamento Ocidental, numa pulsação entre o empenho da compreensão teorética e a queda no ceticismo praticista. O fundo comum de onde emergem o positivismo, o marxismo e o neotomismo é a dissolução do racionalismo clássico, levado a um beco sem saída pela crítica kantiana e que tem no idealismo alemão o seu canto de cisne. Positivismo, marxismo e neotomismo são as filosofias de uma época que não tem filosofia nenhuma; de uma época que anseia por transformar o mundo na medida mesma em que é incapaz de desempenhar o esforço teorético necessário para compreendê-lo.

Num texto clássico — Crise da Filosofia Ocidental ( l874 ) —, o filósofo russo Vladimir Soloviev previu que a filosofia, como atividade intelectual essencialmente individual, oposta ao pensamento coletivo da religião e da ciência, estava em vias de acabar, para ceder lugar a algo de totalmente diferente. Ele esperava o advento de uma grande síntese, mas o que se viu foi o advento do “século das ideologias”. Ora, o Brasil entra no curso espiritual do mundo justamente no momento em que Soloviev faz esse diagnóstico: recebemos maciçamente o impacto das novas ideologias, antes de termos podido vivenciar a tradição filosófica que as antecedeu. Nosso contato com as fontes filosóficas da civilização do Ocidente continuou superficial, ao passo que nos entregávamos de corpo e alma às retóricas coletivistas. Passado mais de um século, ainda não temos uma boa tradução de Aristóteles, mas publicamos, já na década de 60, as obras completas de Antonio Gramsci.

De outro lado, toda tentativa nossa de penetrar mais fundamente no campo da filosofia mesma ficou limitada pela timidez, pela insegurança, que nos fazia apegar-nos como crianças à proteção de algum superego estrangeiro da moda. Cinco décadas de atividade filosofante na USP foram resumidas no título acachapante do livro recém-publicado de Paulo Arantes:

Um Departamento Francês de Ultramar . Escritórios de importação, representantes autorizados, imitação, pedantismo, oscilação entre a falsa consciência e a consciência de culpa marcam todos os nossos esforços filosóficos universitários no sentido de um pensamento independente. No fim, o intelectual com pretensões filosóficas só encontra alívio quando desiste delas e recai no pensamento coletivo; quando, abdicando de interpretar o mundo, se alinha, contrito e obediente, numa das correntes que professam transformá-lo: as conversões ao catolicismo, ao comunismo e às ideologias cientificistas originadas do positivismo constituem — independentemente dos motivos pessoais em cada caso — um melancólico ritornello na história dos fracassos das nossas ambições filosóficas. A queda no pensamento coletivo é vivenciada como um retorno da ovelha desgarrada, como uma libertação das culpas, como um reencontro com a infância perdida. Ao reintegrar-se numa comunidade ideológica o ex-filósofo arrependido encontra ainda um alívio para o isolamento que cerca o intelectual no meio subdesenvolvido, e o ingresso no grupo solidário arremeda a descoberta de um “sentido da vida”.

A intelectualidade brasileira estava, por todos esses fatores, fundamente predisposta ao apelo gramsciano, onde a vida intelectual deixa de ser o esforço solitário de quem cherche en gémissant , para tornar-se a participação num “sentido da vida” amparado pela solidariedade coletiva. O Partido é às vezes chamado por Gramsci “intelectual coletivo”. É o abrigo dos fracos. Aí a ascensão ao estatuto de intelectual é barateada: já não custa a penosa aquisição de conhecimentos, a investigação pessoal, a luta direta com as incertezas. Obtém-se pelo contágio passivo de crenças, de um vocabulário comum, de cacoetes distintivos 13 . A sociedade em torno legitima a paródia: diante dessas marcas exteriores, o brutamontes de direita acredita piamente estar na presença de um intelectual. A mídia faz o resto.

O segundo fator, a situação do momento, pode-se descrever mais ou menos assim: desde a derrota da luta armada, a esquerda andava em busca de uma estratégia pela qual se orientar. Não sendo capaz de criar uma nova e não encontrando no repertório mundial uma outra à sua disposição, ela aderiu a Gramsci quase por automatismo, sonambulicamente, levada pela carência de opções.

De fato, o comunismo internacional só teve, ao longo de sua história, um número pequeno de propostas estratégicas. Marx não apresentou nenhuma. A primeira que fez sucesso foi a de Lênin. Consistia na formação de uma elite autonomeada, na tomada do poder por um golpe súbito, na posterior conversão forçada do proletariado a uma causa vencedora que se apresentava como sua. A proposta de Lênin veio a predominar sobre o socialismo evolucionário de Edward Bernstein, o que provocou o racha entre os partidos comunistas e a social-democracia, que pregava a tomada do poder por via pacífica, eleitoral e gradualista. Hoje em dia a social-democracia é a grande vencedora, dominando toda a Europa; mas, no tempo de Lênin, sua rejeição pelos comunistas parecia prenunciar o seu fracasso, o que a queda de governos social-democratas ante o avanço do nazismo aparentemente confirmou. A terceira grande estratégia foi a de Mao Tsé-tung. Nas condições da China, não havia um proletariado urbano suficiente sequer para dar apoio moral à guerra revolucionária, e como, por outro lado, o exército revolucionário, banido dos grandes centros, acabasse iniciando uma “grande marcha” pelos campos, o apoio das populações camponesas tornou-se fundamental, e Mao teorizou a coisa a posteriori , transformando a revolução proletária em “guerra revolucionária operário-camponesa” — o que teria provocado engulhos em Karl Marx, que via nos camponeses uma horda de reacionários incuráveis. Paralelamente, a submissão do movimento comunista internacional aos interesses da política exterior soviética deu nascimento a uma quarta estratégia, que encontrou sua mais clara expressão no Front Popular , e que consistia fundamentalmente numa aliança dos comunistas com os “elementos progressistas” de todas as outras correntes, direitistas inclusive. Aí, a pretexto de antifascismo, até Benedetto Croce ficou simpático. Finalmente, a quinta estratégia do movimento comunista surgiu da revolução cubana e da guerra do Vietnã. Sem um autor definido, resultando de enxertos e mixagens de várias proveniências, ela fundia, num vasto plano de guerrilhas, o combate rural e o urbano. Uma de suas versões foi a “teoria foquista” difundida por um doidão de nome Régis Débray, que obteve ampla audiência na América Latina e propunha, para fazer face ao poder maciço do imperialismo norte-americano, a formação de variados e simultâneos “focos” de guerrilhas. A teoria resumia-se no slogan então pixado nos muros de todas as universidades: “Um, dois, três, muitos Vietnãs”. Deu no que deu. Dentre as muitas mixagens, uma particularmente interessante foi a que fundiu a estratégia comunista — até aí fundamentalmente proletária e camponesa, ao menos no nome — com as heresias de Herbert Marcuse, segundo o qual proletários e camponeses tinham-se integrado ao “sistema” e a revolução não tinha outros representantes autorizados senão os estudantes e intelectuais, de um lado, e, de outro, a massa dos miseráveis e marginalizados, o vasto Lumpenproletariat , do qual o velho Karl Marx aconselhava que os militantes comunistas fugissem como se foge de um assaltante à mão armada. Um dos resultados locais deste enxerto foi que, após a derrota da luta armada, os militantes brasileiros presos passaram a alimentar uma vaga esperança no potencial revolucionário do Lumpen , e, para adiantar o expediente, trataram de ir ensinando táticas de guerrilha aos bandidos com quem conviviam no presídio da Ilha Grande. ( Mais tarde ainda, a fusão do gramscismo com resíduos do marcusismo transformaria num dos pratos de resistência do cardápio esquerdista a defesa da legitimidade do banditismo como “protesto social”, que, formando polaridade com a onda de combate moralista aos “colarinhos brancos”, estabeleceria uma dupla moral para o julgamento dos crimes: brando para com o Lumpen , mesmo quando este mata ou estupra, rigoroso para com os ricos e a classe-média, quando cometem delitos contra o patrimônio — a mais curiosa inversão já observada na história da moralidade. ) Nessa resenha das estratégias comunistas, onde entra o gramscismo? Não entra. Ele ficou de fora, restrito a círculos locais italianos, e só alcançou maior difusão, mesmo na Itália, após a década de 50, com a edição das obras completas de Gramsci por Einaudi. A partir de l964, a facção comunista brasileira ainda fiel à orientação moscovita de aliança com a burguesia acreditou ver em Gramsci um potencial renovador desta estratégia, com a qual ele coincide ao menos no que diz respeito ao caráter eminentemente não-sangrento da luta revolucionária e na cuidadosa exclusão de quaisquer radicalismos que pudessem estreitar a base das colaborações possíveis. Porta-voz dessa corrente, o editor Ênio Silveira empreendeu então a publicação ao menos das principais obras de Gramsci:

A Concepção Dialética da História ;

Maquiavel, a Política e o Estado Moderno ;

Os Intelectuais e a Organização da Cultura ;

Literatura e Vida Nacional e Cartas do Cárcere .

Estas obras foram muito lidas, mas, numa atmosfera dominada pela obsessão da luta armada, não exerceram influência prática imediata. Seu potencial ficou retido até a derrota da luta armada, que provocou, como não poderia deixar de ser, um retorno generalizado às teses do combate pacífico e aliancista defendidas pelo PC pró-Moscou. O reatamento do romance entre a esquerda armada e a desarmada deu-se, naturalmente, sobre um fundo musical orquestrado pelo maestro Antonio Gramsci. Simplesmente não havia outro capaz de musicar esta cena. A esquerda tornou-se gramsciana meio às tontas, jogada pelo entrechoque dos acontecimentos, como bolas de bilhar que, impelindo umas às outras, vão dar todas enfim na caçapa.

Agora, a imprensa brasileira acaba de descobrir, com um atraso de dez anos, que o programa do PT é gramsciano. Mas, além de tardia, esta descoberta é inexata: não é só o PT que segue Gramsci: todos os homens de esquerda neste país o fazem há uma década, sem se dar conta. O gramscismo domina a atmosfera por simples ausência de outras propostas e também por uma razão especial: atuando menos no campo do combate ideológico expresso do que no da conquista do subconsciente, ele se propaga por mero contágio de modas e cacoetes mentais, de maneira que põe a seu serviço informal uma legião de pessoas que nunca ouviram falar em Antonio Gramsci. O gramscismo conta menos com a adesão formal de militantes do que com a propagação epidêmica de um novo “senso comum”. Sua facilidade de arregimentar colaboradores mais ou menos inconscientes é, por isto, simplesmente prodigiosa.

Eis ai o terceiro fator a que me referi. O gramscismo é menos uma filosofia do que uma estratégia de ação psicológica, destinada a predispor o fundo do “senso comum” a aceitar a nova tábua de critérios proposta pelos comunistas, abandonando, como “burgueses”, valores e princípios milenares.

Que essa “filosofia”, para se propagar, não conte tanto com a persuasão racional como com a eficácia da penetração sutil no inconsciente das massas, é o que se vê claramente pela sua ênfase na conquista das mentes infantis — um terreno onde o avanço da esquerda vem causando um dano incalculável a milhões de crianças brasileiras, usadas como cobaias de uma desastrosa experiência gramsciana. Que, enfim, essa corrente haja alcançado sucesso no Brasil, é algo que testemunha a miséria intelectual de um meio onde os letrados, incapazes de suportar o isolamento, buscam menos a verdade e o conhecimento do que uma carteirinha de intelectual orgânico, que lhes garanta o apoio psicológico de um vasto grupo solidário e os aureole de um ambíguo prestígio aos olhos dos brutamontes de direita, sua mal disfarçada paixão.

Isso não poderia acontecer senão aqui.

Adendos 1 O número dos adeptos conscientes e declarados do gramscismo é pequeno, mas isto não impede que ele seja dominante. O gramscismo não é um partido político, que necessite de militantes inscritos e eleitores fiéis. É um conjunto de atitudes mentais, que pode estar presente em quem jamais ouviu falar de Antonio Gramsci, e que coloca o indivíduo numa posição tal perante o mundo que ele passa a colaborar com a estratégia gramsciana mesmo sem ter disto a menor consciência. Ninguém entenderá o gramscismo se não perceber que o seu nível de atuação é muito mais profundo que o de qualquer estratégia esquerdista concorrente. Nas demais estratégias, há objetivos políticos determinados, a serviço dos quais se colocam vários instrumentos, entre eles a propaganda. A propaganda permanece, em todas elas, um meio perfeitamente distinto dos fins . Por isto mesmo a atuação do leninismo, ou do maoismo, é sempre delineada e visível, mesmo quando na clandestinidade. No gramscismo, ao contrário, a propaganda não é um meio de realizar uma política: ela é a política mesma, a essência da política, e, mais ainda, a essência de toda atividade mental humana. O gramscismo transforma em propaganda tudo o que toca, contamina de objetivos propagandísticos todas as atividades culturais, inclusive as mais inócuas em aparência. Nele, até simples giros de frase, estilos de vestir ou de gesticular podem ter valor propagandístico. É esta onipresença da propaganda que o singulariza e lhe dá uma força que seus adversários, acostumados a medir a envergadura dos movimentos políticos pelo número de adeptos formalmente comprometidos, nem de longe podem avaliar.

Um detalhe que assinala bem as diferenças é a atitude do gramscismo perante a arte engajada. Outras estratégias exigem do artista que ele imprima às suas obras um sentido político determinado, ou que, pelo menos, sua visão do mundo, expressa em cada obra, seja coerente com a interpretação marxista. A literatura engajada do leninismo, do stalinismo ou do maoismo, é portanto uma coleção de obras das quais cada uma, por si, é uma peça de propaganda, com valor autônomo. Já no gramscismo o que interessa é apenas o efeito de conjunto da massa de obras literárias em circulação. Esse efeito de conjunto deve tender à mudança do senso comum desejada pelo Partido, pouco importando que cada obra, tomada isoladamente, nada tenha de marxista ou seja mesmo destituída de qualquer valor propagandístico.

Graças a isto, o julgamento gramsciano de cada obra é muito menos rígido e dogmático que o de outras correntes marxistas — o que muito contribuiu para elevar o seu prestígio entre intelectuais ansiosos por conciliar seus ideais marxistas com seu desejo pessoal de liberdade.

No gramscismo, qualquer obra literária pode contribuir para a propaganda marxista, dependendo apenas do contexto em que é divulgada — tal como num jornal o teor das notícias tomadas individualmente interessa menos do que sua localização na página, ao lado de outras notícias cujo efeito de conjunto imprime um novo sentido a cada uma delas.

O objetivo primeiro do gramscismo é muito amplo e geral em seu escopo: nada de política, nada de pregação revolucionária, apenas operar um giro de cento e oitenta graus na cosmovisão do senso comum, mudar os sentimentos morais, as reações de base e o senso das proporções, sem o confronto ideológico direto que só faria excitar prematuramente antagonismos indesejáveis.

As mudanças aí operadas podem ser, no entanto, muito mais profundas e decisivas do que a mera adesão consciente de um eleitorado às teses comunistas. Mudanças de critério moral, por exemplo, têm efeitos explosivos. Essas mudanças podem ser induzidas através da imprensa, sem qualquer ataque frontal e explícito aos critérios admitidos. Um caso que ilustra isto perfeitamente bem, e que demonstra o alcance da estratégia gramsciana no Brasil, é o do noticiário sobre corrupção. A campanha pela Ética na Política não surgiu com um intuito moralizador, mas como uma proposta política antiliberal. Numa entrevista ao Jornal do Brasil , um dos fundadores da campanha, Herbert de Souza, o Betinho, deixou isso perfeitamente claro. A campanha surgiu numa reunião de intelectuais de esquerda em busca de uma fórmula contra Collor, muito antes de que houvesse qualquer denúncia de corrupção no governo. Mais tarde, estas denúncias vieram a dar à campanha uma força inesperada, trazendo para ela a adesão de massas de classe-média moralista que, politicamente, teriam tudo para se opor a qualquer proposta explicitamente esquerdista. Ora, a campanha exerceu uma influência decisiva na direção do noticiário nos jornais e na TV. Essa influência foi tal que introduziu nos julgamentos morais uma mudança profunda. Impressionado pelo conteúdo escandaloso das notícias, o público nem de longe reparou que a edição delas subentendia essa mudança, que, conscientemente, ele não aprovaria. Ela consistiu em fazer com que os crimes contra o patrimônio público parecessem infinitamente mais graves e revoltantes do que os crimes contra a pessoa humana. P. C. Farias, um trêmulo estelionatário incapaz de dar um pontapé num cachorro, era apresentado como um Al Capone, ao mesmo tempo que se minimizava a gravidade do banditismo armado. Se de um lado jornalistas de esquerda promovem um ataque maciço aos criminosos de colarinho branco e de outro lado intelectuais de esquerda lutam para que os chefes de bandos de assassinos armados sejam reconhecidos como “lideranças populares” legítimas, o efeito conjugado dessas duas operações é bem nítido: atenuar a gravidade dos crimes contra a pessoa, quando cometidos pela classe baixa e aproveitáveis politicamente pelas esquerdas, e enfatizar a dos crimes contra o patrimônio, quando cometidos por membros da classe dominante. Eis aí a luta de classes transformada em supremo critério da moral, desbancando o preceito milenar, arraigado no senso comum, de que a vida é um bem mais sagrado do que o patrimônio.

Para que essas duas operações ocorram simultaneamente, produzindo um resultado unificado, não é preciso que emanem de um comando central organizado. Basta que os intelectuais envolvidos numa e noutra comunguem ainda que vagamente de um espírito revolucionário gramsciano, para que, numa espécie de cumplicidade implícita, cada qual realize sua tarefa e todos os resultados venham a convergir na direção dos fins gramscianos. Isto não exclui, é claro, a hipótese de um comando unificado, mas, para o sucesso da estratégia gramsciana, a unidade de comando, ao menos ostensiva, é bastante dispensável na fase da luta pela hegemonia.

É interessante saber que, na Constituição do Estado soviético, o homicídio doloso era punido com apenas dez anos de cadeia e os crimes contra a administração pública sujeitavam o culpado à pena de morte. Nem poderia ser de outro modo, dado o pouco valor que, na perspectiva marxista, tem a vida individual quando não posta a serviço da revolução. Ora, o noticiário sobre corrupção conseguiu introduzir na mente brasileira o hábito de julgar as coisas segundo uma escala moral soviética; e o fez com muito mais eficiência do que lograria em anos e anos de debates explícitos. Uma vez explicitada, essa mudança seria rejeitada com horror por um povo em que ainda são vivos, no fundo, os sentimentos cristãos. Introduzida por baixo, como critério subjacente, ela penetra às ocultas no senso comum e o perverte até a raiz, preparando-o para aceitar passivamente, no futuro, aberrações maiores ainda, que venham a ser impostas por um Estado socialista 14 .

A atuação espontânea, aparentemente inconexa, de milhares de intelectuais — no sentido gramsciano — em setores distintos da vida pública, pode ser facilmente dirigida para onde o deseja a revolução gramsciana, não sendo necessário para isto nem mesmo um oculto Comitê Central de super-cérebros a comandar o conjunto da operação. Basta que uma cumplicidade inicial se estabeleça entre certos grupos, para que, sobretudo na ausência de qualquer confronto crítico com outras correntes, o gramscismo avance como sobre trilhos azeitados, na estrada que leva à conquista da hegemonia. Ele já penetrou fundo, por esse caminho, na mentalidade brasileira. Quando um partido político assume publicamente sua identidade gramsciana, é que a fase do combate informal — a decisiva — já está para terminar, pois seus resultados foram atingidos. Vai começar a luta pelo poder. O que marca esta nova fase é que todos os adversários ideológicos já foram vencidos ou estão moribundos; nenhum outro discurso ideológico se opõe ao gramscismo, e os adversários políticos que restam lhe dão ainda maior reforço, na medida em que, não possuindo alternativa mental, pensam dentro dos quadros conceituais e valorativos demarcados por ele e só podem combatê-lo em nome dele mesmo. Isto é hegemonia.

2 Gramsci jura que é leninista, mas como ele atribui a Lênin algumas idéias de sua própria invenção das quais Lênin nunca ouviu falar, as relações entre gramscismo e leninismo são um abacaxi que os estudiosos buscam descascar revirando os textos com uma paciência de exegetas católicos. Uma dessas idéias é a de “hegemonia”, central no gramscismo. Gramsci diz que ela foi a “maior contribuição de Lênin” à estratégia marxista, mas o conceito de hegemonia não aparece em parte alguma dos escritos de Lênin. Alguns exegetas procuraram resolver o enigma identificando a hegemonia com a ditadura do proletariado, mas isto não dá muito certo porque Gramsci diz que uma classe só implanta uma ditadura quando não tem a hegemonia. As relações entre Gramsci e Marx também são embrulhadas, como se vê no uso do termo “sociedade civil”: para Marx, sociedade civil é o termo oposto e complementar do “Estado”, e, logo, se identifica com o reino das relações econômicas, ou infra-estrutura. Em Gramsci, a sociedade civil, somada à sociedade política ou Estado, compõe a superestrutura que se assenta sobre a base econômica.

Essas e outras dificuldades de interpretação do pensamento de Gramsci decorrem, em parte, do caráter fragmentário e disperso dos seus escritos. Talvez elas possam ser resolvidas, mas o que é realmente espantoso é que, alguns anos após revelada ao mundo a maçaroca dos textos gramscianos, e antes mesmo que algum sério exame produzisse uma interpretação aceitável do seu sentido, ela já fosse adotada como norma diretiva por várias organizações, começando a produzir efeitos práticos sobre os quais ninguém, nessas condições, poderia ter o mínimo controle. Essa adesão apressada a uma idéia que mal se compreendeu assinala uma tremenda irresponsabilidade política, um desejo ávido de atuar sobre a sociedade humana sem medir as consequências. É claro que ninguém adere a Gramsci com outro propósito que não o de implantar o comunismo em alguma parte do mundo. Mas, sendo o gramscismo um pensamento obscuro e às vezes incompreensível, não há nenhum motivo para crer que sua aplicação deva produzir nem mesmo esse resultado, lamentável o quanto seja. Pode acontecer, por exemplo, que a estratégia gramsciana não gere outro efeito além de tornar os burgueses ateus, retirando os freios que a religião impunha à sua cobiça e ao seu maquiavelismo. Algo muito parecido aconteceu na própria terra de Gramsci: é impossível não haver conexão entre a decadência da fé católica e a transformação da Itália numa Sodoma capitalista. A nova cultura materialista e gramsciana que dominou a atmosfera intelectual italiana desde a década de 60 muito contribuiu para esse resultado; apenas, não se vê que vantagem os comunistas puderam tirar disso. Os esquerdistas brasileiros deveriam pensar na experiência italiana antes de atirar-se a aventuras gramscianas que, na educação como na política, podem levar a resultados tão confusos quanto as idéias que as inspiram.

3 O termo “Estado ético” é ele mesmo um dos primores de ambiguidade que se encontram na mixórdia gramsciana. Ora ele designa o Estado comunista, ora o Estado capitalista avançado, ora qualquer Estado. De modo mais geral, Gramsci denomina “ético” todo Estado que procure elevar a psique e a moral de seus cidadãos ao nível atingido pelo “desenvolvimento das forças produtivas”, subentendendo-se que o Estado comunista faz isto melhor do que ninguém. A idéia é intrinsecamente imoral: consiste em submeter a moral às exigências da economia. Se, por exemplo, um determinado estágio do “desenvolvimento das forças produtivas” requer que todos os habitantes de uma região sejam removidos para o outro extremo do país, como aconteceu muitas vezes na União Soviética, torna-se “ética” a conduta de um garoto que denuncie o pai às autoridades por tentar fugir para uma cidade próxima. A asquerosa admiração que os brasileiros vêm demonstrando nos últimos tempos pelos irmãos que delatam irmãos, pelas esposas que delatam maridos, é índice de uma nova moralidade, inspirada em valores gramscianos. Não há dúvida de que o novo critério é “ético” no sentido gramsciano, isto é, economicamente útil, já que a delação generalizada de pais, irmãos, maridos e amantes pode ressarcir alguns prejuízos sofridos pelo Estado. Mas isto não atenua sua imoralidade intrínseca.

4 15 Em cursos e conferências, venho falando do gramscismo petista desde 1987 pelo menos, para platéias em que não faltaram jornalistas. Mas a imprensa brasileira, refratária a tudo quanto seja novo, só em 1994 informou ao público a inspiração gramsciana do petismo, quando ela não era mais uma tendência latente e já se havia externalizado no programa oficial do partido. O primeiro a dar o alarma foi Gilberto Dimenstein, na Folha de S. Paulo , logo após a publicação deste livro que aliás nem sei se ele leu; mas limitava-se a mencionar o nome do ideólogo italiano, sem nada dizer do conteúdo de suas idéias. Não teve a menor repercussão. Mais tarde li duas ou três frases alusivas a Gramsci, em outros jornais e em Veja . Tudo muito sumário, num tom de quem contasse com a compreensão de uma platéia versadíssima em gramscismo. É o velho jogo-de-cena do histrionismo brasileiro: dar por pressuposto que o ouvinte sabe do que estamos falando é um modo de induzi-lo a crer que sabemos do que falamos. Na verdade, fora dos círculos do petismo letrado, só sabem de Gramsci uns quantos acadêmicos, entre os quais Oliveiros da Silva Ferreira, que defendeu uma tese sobre o assunto numa USP carregada de odores gramscianos, na década de 60. Gramsci continua esotérico, lido só em família, a salvo de qualquer crítica exceto amigável — uma crítica dos meios, conivente com os fins, numa atmosfera de culto e devoção que raia a pura e simples babaquice. Mas pelo mundo civilizado circulam críticas devastadoras, que provavelmente jamais chegarão ao conhecimento do público brasileiro. Assinalo as de Roger Scruton 16 e Alfredo Sáenz 17 , que tomam o assunto por lados bem diferentes daquele que abordo neste livro, mas chegam a conclusões não menos reprobatórias.

Devo apontar como exceção notável, ainda que tardia, um artigo de Márcio Moreira Alves 18 . Ele resgata parcialmente a honra da imprensa brasileira, mostrando que há nela pelo menos um cérebro capaz de saber de Gramsci algo mais do que o nome e pelo menos um repórter que não foge da notícia. Ele explica em linhas gerais a estratégia gramsciana e o estado presente de sua aplicação pela liderança petista, levando à conclusão de que, em vez de criar uma democracia como o partido promete, ela vai produzir aqui a ditadura de uma capelinha de intelectuais. É lamentável, apenas, que no reduzido espaço de sua coluna o sempre surpreendente Moreira Alves não pudesse abranger assunto tão vasto senão em abreviatura pesadamente técnica, de difícil assimilação pelo público.

O Globo deveria dar-lhe duas páginas inteiras para trocar em miúdos os ensinamentos ali contidos, talvez os mais importantes e urgentes que a imprensa brasileira transmitiu ao público nos últimos anos.

Particularmente oportuna é ali a observação de que o programa mesmo do PT reconhece — oficialmente, por assim dizer — a hegemonia da esquerda, principalmente no campo cultural mas também na política, na medida em que proclama o ingresso atual do Brasil num novo “bloco histórico” ( sistema cerrado de relações entre a economia e a superestrutura cultural, moral e jurídica ). É digna da maior atenção, no programa do PT, a parte referente à “revolução passiva”. A passagem ao novo “bloco histórico” será feita pela elite ativista com base no “consenso passivo” da população. Isto quer dizer, sumariamente, que o povo não precisará manifestar seu apoio ao programa do PT para que este se sinta autorizado a promover a transformação revolucionária da sociedade. A simples ausência de reação hostil, para não dizer de rebelião, será interpretada como aprovação popular: quem cala consente, em suma. A proposta é de um cinismo descarado. Ela investe o PT do direito divino de agir em nome do povo sem precisar ouvi-lo, já que o silêncio se tornará aplauso. Durante sete décadas o silêncio de um povo oprimido foi interpretado como “aprovação passiva” pelo governo da URSS. Em linguagem técnica mas incisiva, Márcio Moreira Alves mostra que por esse caminho não se pode chegar a uma democracia. Discordo dele só num ponto: ele acha que a estratégia petista é uma traição aos ideais de Gramsci, e eu estou seguro de que ela é a mais pura encarnação do gramscismo universal 19 .

O mais lamentável em toda essa história é que a massa dos militantes do PT não tem a menor condição intelectual de compreender as sutilezas da estratégia gramsciana, e vai se deixando conduzir sonambulicamente pelos guias iluminados, sem fazer perguntas quanto à verdadeira meta da jornada.

NOTAS Para Karl Marx, aqueles que captam o sentido do movimento da História e representam as “forças progressistas” ficam ipso facto liberados de qualquer dever com a “moral abstrata” da burguesia; seu único dever é acelerar o devir histórico em direção ao socialismo, pouco importando os meios. Baseado nesse princípio, Lênin codificou a moral partidária, onde o único dever é servir ao partido. Esta moral, por sua vez, deu origem ao Direito soviético, que colocava acima dos direitos humanos elementares os deveres para com o Estado revolucionário. A delação de corruptos ou traidores, por exemplo, era na União Soviética uma obrigação básica do cidadão. Mas não é só na teoria que o comunismo é imoral. No Estado socialista, todos são funcionários públicos, e basta isto para que a corrupção se torne institucional. Na União Soviética ninguém conseguia tirar um documento ou consertar uma linha telefônica sem soltar propinas: ao socializar a economia, socializa-se a corrupção. A desonestidade desce das camadas dominantes para corromper todo o povo. O mesmo aconteceu na China, país que ademais se notabilizou por ser o maior distribuidor de tóxicos deste planeta. A justificativa, na época, era que os tóxicos enfraqueceriam a “juventude burguesa” e facilitariam o avanço do socialismo, sendo, portanto, benéficos ao progresso humano. As drogas só se tornaram um problema de escala mundial graças ao comunismo chinês, que, com isto, se tornou culpado de um crime de genocídio pelo qual, até hoje, ninguém teve coragem de acusá-lo.Ainda segundo a moral comunista, as pessoas profundamente apegadas aos ideais burgueses são doentes incorrigíveis, devendo por isto ser isoladas ou exterminadas. Sessenta milhões de pessoas foram mortas, na União Soviética, em nome da reedificação da cultura e da personalidade. No Camboja, o genocídio foi adotado como procedimento normal e legítimo.Foram os comunistas que, com base nas descobertas de Pavlov, desenvolveram o sistema de lavagem cerebral , para despersonalizar os prisioneiros e levá-los a confessar crimes que não haviam cometido.

Foi também o comunismo que instituiu o sistema de romper sem aviso prévio acordos internacionais, tratados de paz e compromissos comerciais, institucionalizando no mundo o do gangsterismo como norma de conduta diplomática, depois copiado por Hitler. Campos de concentração e de extermínio são também uma invenção comunista imitada pelo nazismo.

O governo comunista da URSS criou o maior sistema de espionagem interna de que se teve notícia na história humana, a KGB, e por meio dela tornou-se o primeiro governo essencialmente policial do mundo.

O comunismo foi ainda o primeiro regime a instituir em escala continental a mentira sistemática como padrão de ensino público, e a falsificação da ciência como meio de controle da opinião.

Que tudo isso possa ser um enorme tecido de coincidências, que não haja nenhuma conexão intrínseca entre todos esses horrores e a ideologia socialista, é somente mais uma mentira propagada por intelectuais ativistas cuja formação marxista os tornou para sempre cínicos, hipócritas e incapazes de qualquer sentimento moral.

A participação intensa de intelectuais marxistas na campanha pela “Ética na Política” é um sinal seguro de que essa campanha não moralizará a política, mas apenas politizará a ética, tornando-a uma serva de objetivos intrinsecamente imorais. Quem viver, verá. [ N. da 2a ed.. ] Exemplo característico da mutação da escala moral é a campanha contra a Aids. É mais do que evidente que a liberação sexual favorece a disseminação dessa doença. No entanto, jornalistas e agitadores culturais do mundo todo estão levando as pessoas a crer que o conservadorismo moral, particularmente católico, é o culpado pela difusão da Aids, na medida em que se opõe à distribuição de camisinhas. Fazer de um efeito desastroso da liberação sexual um argumento contra a moral conservadora é um truque sofístico que só ocorreria a mentalidades inteiramente perversas. Os liberacionistas dão com isso um exemplo horrendo de insensibilidade moral, de hipocrisia cínica. Ocultar suas próprias culpas por trás da acusação lançada a um inocente é um dos comportamentos mais baixos que se podem conceber. Por outro lado, do ponto de vista meramente prático, a esperança no poder das camisinhas é uma insensatez, para dizer o mínimo. Junto com ela vem a recusa de enxergar a parcela de razão que têm os religiosos nessa questão. Qual a taxa de Aids entre católicos praticantes, evangélicos, monges budistas, judeus ortodoxos, mussulmanos devotos? É praticamente nula. Uma bela campanha moralista, por desagradável que fosse ( e para mim também o seria, pois pessoalmente sou mais pela liberação ), faria mais para conter o avanço da Aids do que a distribuição de trilhões de camisinhas. Neste momento da história, qualquer campanha moralista, por boboca que nos pareça, é um empreendimento digno de louvor, uma contribuição à salvação da espécie humana. Se amanhã ou depois a população do Brasil aderir em peso aos Pentecostais, ao Bispo Macedo ou à Renovação Carismática, a Aids estará vencida entre nós. Isto é uma obviedade que só os intelectuais não enxergam. [ N. da 2a ed. ] Querem um retrato moral de Antonio Gramsci? Podem encontrá-lo numa das fábulas que, da prisão, ele remetia para que fossem lidas à sua filha:”Enquanto um menino dormia, um rato bebeu o leite que a mãe lhe havia preparado. Quando o menino acordou, pôs-se a chorar porque não encontrou o leite; a mãe, por seu lado, também chora. O rato tem remorsos, bate a cabeça contra a parede, mas finalmente percebe que aquilo de nada serve. Então, corre à cabra para conseguir mais leite. Mas a cabra diz ao rato que só lhe dará leite se tiver capim para comer. Então, o rato vai até o campo, mas o campo é árido e não pode dar capim se não for molhado antes. O rato vai à fonte, mas esta foi destruída pela guerra e a água se perde; é preciso que o pedreiro conserte a fonte. O pedreiro precisa das pedras, que o rato vai buscar numa montanha, mas a montanha está toda desmatada pelos especuladores. O rato conta toda a história e promete que o menino, quando crescer, plantará novas árvores na montanha. E assim a montanha dará as pedras, o pedreiro refará a fonte, a fonte dará a água, o campo dará o capim, a cabra fornecerá o leite e, finalmente, o menino poderá comer e não chorará mais.” ( Laurana Lajolo, Antonio Gramsci. Uma Vida , trad. Carlos Nelson Coutinho, São Paulo, Brasiliense, 1982. )As fábulas sempre foram, ao longo dos tempos, um depósito de símbolos portadores de um ensinamento espiritual. Por meio delas, a criança tinha o acesso ao conhecimento das possibilidades humanas mais elevadas, e este conhecimento, tanto mais potente porque cristalizado numa linguagem mágica e alusiva, bastava para defender sua alma da total imersão na banalidade esterilizante do meio adulto. Elas representavam, assim, o fio de continuidade do núcleo mais puro da alma humana no meio da agitação alienante da “História”.

Gramsci consegue aqui inverter a função da fábula, transformando-a num meio de ensinar à criança, com realismo literal, o processo de produção capitalista – da matéria-prima à comercialização – e para lhe inocular, de um só golpe, o ódio aos malditos especuladores e a esperança na futura utopia socialista, onde “tudo será mais belo”.

O que Gramsci fez com sua própria filha, por que não o faria com os filhos dos outros? É preciso que a pregação comunista atinja os cérebros enquanto ainda estão tenros e indefesos, e, fechando-lhes o acesso a toda concepção de ordem espiritual, os encerre para sempre no círculo de ferro da mundanidade “histórica” ( v. adiante, Cap. III ).

Gramsci revela aqui toda a mesquinhez da sua concepção do mundo, onde a economia é não só o motor da História, mas o limite final do horizonte humano.

Que um tipo desses possa ser objeto de culto sentimentalista entre os militantes, isto mostra que a ideologia comunista traz em seu bojo uma perversão dos sentimentos, uma mutilação da alma humana. É preciso muito agitprop para fazer de Gramsci um personagem digno de admiração. Mas entre militantes esquerdistas já vi sujeitos capazes de proferir toda sorte de blasfêmias contra a religião alheia terem tremeliques de emoção religiosa ante o santo nome de Antônio Gramsci. Essa sentimentalidade pseudo-religiosa não é um excesso de zelo: é a essência mesma do gramscismo, que beatifica o mundano para abafar e perverter o impulso religioso e transformá-lo em devoção partidária. Querem ver no que dá? Narrando a morte de Gramsci, a hagiógrafa Laurana Lajolo ( op. cit., p. 148 ) termina falando dos cadernos “nos quais Antônio Gramsci havia depositado, em sentido laico e historicista, a imortalidade da sua alma, a possibilidade de sobrevivência intelectual na história”. Só um gramsciano roxo é incapaz de enxergar o ridículo que há em teologizar a esse ponto a fama literária. Se a idéia valesse, os imortais da Academia já não seriam imortais figuradamente, mas literalmente – e nossas preces pela vida eterna não deveriam dirigir-se a Jesus Cristo, e sim à pessoa do sr. Josué Montello. [ N. da 2a ed. ] O fenômeno da pseudo-intelectualidade é um dos traços mais marcantes do chamado Terceiro Mundo, e é ela, não o proletariado ou as massas famintas, a base social dos movimentos revolucionários. Eric Hoffer, que examinou o assunto com mais seriedade do que ninguém, explica esse fenômeno pelas condições peculiares em que, nessa parte do globo, se deu, com a reforma modernizadora empreendida pelas potências Ocidentais, a quebra do modo de vida comunitário-patriarcal. Escrevendo no começo da década de 50, e mencionando nomeadamente a Ásia, ele fala em termos que se aplicam com precisão ao Brasil de hoje: “Em toda a Ásia, antes do advento da influência Ocidental, o indivíduo estava integrado num grupo mais ou menos compacto – a família patriarcal, o clã ou a tribo. Do nascimento à morte, sentia-se parte de um todo eterno e contínuo. Jamais se sentia sozinho, jamais se sentia perdido, jamais se via como um pedaço de vida flutuando numa eternidade de nada. A influência Ocidental [...] destruiu e corroeu a maneira tradicional de vida. O resultado não foi a emancipação, e sim o isolamento e o desamparo. Um indivíduo imaturo foi arrancado do calor e segurança de uma existência coletiva e deixado órfão num mundo frio.”O indivíduo recém-surgido pode atingir algum grau de estabilidade [...] somente quanto lhe oferecem abundantes oportunidades de auto-afirmação ou auto-realização. Somente assim ele poderá adquirir a autoconfiança e auto-estima [...]. Quando a autoconfiança e a auto-estima parecem inatingíveis, o indivíduo em formação torna-se uma entidade altamente explosiva. Tenta obter uma impressão de confiança e de valor abraçando alguma verdade absoluta e identificando-se com os atos espetaculares de um líder ou de algum corpo coletivo – seja uma nação, uma congregação, um partido ou um movimento de massa.”É necessário uma rara constelação de circunstâncias para que a transição de uma existência comunitária para a individual siga o seu curso sem ser desviada ou invertida por complicações catastróficas. [...] O indivíduo em surgimento na Europa, no fim da Idade Média, enxergou panoramas deslumbrantes de novos continentes, de novas rotas de comércio, de novos conhecimentos. O ar estava carregado de novas expectativas e havia a sensação de que o indivíduo por si só era capaz de qualquer empreendimento. A mudança [...] produziu uma explosão de vitalidade [...].

“Essa excepcional combinação de circunstâncias não estava presente na Ásia. Ali, ao invés de ser estimulado por perspectivas deslumbrantes e oportunidades jamais sonhadas, [ o indivíduo ] se viu enfrentando uma vida estagnada, debilitada, e extraordinariamente pobre. É um mundo onde a vida humana é a coisa mais abundante e barata. É, além disso, um mundo analfabeto. [...] “A minoria letrada é, assim, impedida de adquirir um senso de utilidade e de valor tomando parte no mundo do trabalho, e é condenada a uma vida de pseudo-intelectuais tagarelas e cheios de pose.

“O extremista da Ásia é hoje geralmente um homem de certa instrução que tem horror ao trabalho manual e um ódio mortal pela ordem social que lhe nega uma posição de comando. Todo estudante, todo escriturário e funcionário menos graduado se sente como um escolhido. É essa gente palavrosa e fútil que dá o tom na Ásia. Vivendo vidas estéreis e inúteis, não possuem autoconfiança e auto-respeito, e anseiam pela ilusão de peso e importância.

“É principalmente a esses pseudo-intelectuais que a Rússia comunista dirige seu apelo. Traz-lhes a promessa de tornarem-se membros de uma elite governante, a perspectiva de terem ação no processo histórico e, com seu falatório doutrinário, proporciona-lhes uma sensação de peso e profundidade.” ( Eric Hoffer, The Ordeal of Change , London, Sidgwick & Jackson, 1952; trad. brasileira de Sylvia Jatobá, O Intelectual e as Massas, Rio, Lidador, 1969, pp. 16 ss..) É a descrição exata da liderança petista. [ N. da 2a. ed.. ] A proposta do PT, de dar prêmios aos cidadãos que delatem casos de corrupção, seria repelida com horror se apresentada uns anos atrás, quando a corrupção não era menor mas os sentimentos morais da população brasileira conservavam uns vestígios de normalidade porque ainda não tinham sido corrompidos pela “campanha da Ética”. Hoje, é aceita com aplausos dos que não percebem nela aquilo que ela verdadeiramente é: a instauração do Estado policial em nome da moralidade, a corrupção de todas as relações humanas pela universalização da suspeita, o incentivo à espionagem de todos contra todos. Para que o Estado não perca dinheiro, será preciso que todos os brasileiros percam a dignidade e o respeito próprio, transformando-se em alcagüetes premiados. [ N. da 2a ed. ] Escrito para a 2a. edição.

Roger Scruton, Thinkers of the New Left , Harlow ( Essex ), Longman, 1985. [ N. da 2a. ed. ] Alfredo Sáenz, s. J., “La estratégia ateísta de Antonio Gramsci”, em Ateísmo y Vigencia del Pensamiento Católico. Actas del Cuarto Congreso Catolico Argentino de Filosofía , Córdoba, Asociación Católica Interamericana de Filosofía, 1988, pp. 355-366. [ N. da 2a. ed.. ] “A revolução passiva”, O Globo, 28 de junho de 1994.

A Nova Era E A Revolucao Cultural Capitulo Ii

Data N/A | STO. ANTONIO GRAMSCI

Refiro-me ao ideólogo italiano Antonio Gramsci. Tendo-se tornado praxe entre as esquerdas jamais pronunciar o nome de Gramsci sem acrescentar-lhe a menção de que se trata de um mártir, apresso-me a declarar que o referido passou onze anos numa prisão fascista, de onde remeteu ao mundo, mediante não sei que artifício, os trinta e três cadernos de notas que hoje constituem, para os fiéis remanescentes do comunismo brasileiro, a bíblia da estratégia revolucionária. Mas não está só nisso a razão da aura beatífica que envolve o personagem. Da estratégia, tal como vista por ele, constituía um capítulo importante a criação de um novo calendário dos santos, que pudesse desbancar, na imaginação popular, o prestígio do hagiológio católico ( uma vez que a Igreja, na visão dele, era o maior obstáculo ao avanço do comunismo ). O novo panteão seria inteiramente constituído de líderes comunistas célebres, e baseado no critério segundo o qual “Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht são maiores do que os maiores santos de Cristo” — palavras textuais de Gramsci. Os seguidores do novo culto, com inteira lógica, puseram ainda mais alto na escala celeste o instituidor do calendário, motivo pelo qual não se pode falar dele sem a correspondente unção. E eu, temeroso como o sou de todas as coisas do além, não poderia iniciar esta breve exposição do gramscismo brasileiro sem a preliminar invocação ao seu patrono, em quem se depositam, neste momento, muitas esperanças de salvação do Brasil. Digo, pois:

Sancte Antonie Gramsci, ora pro nobis.

Atendida esta devota formalidade, retorno aos fatos. Gramsci ficou, dizia eu, meditando na cadeia. Mussolini, que o mandara prender, acreditava estar prestando um serviço ao mundo com o silêncio que impunha àquele cérebro que ele julgava temível. Aconteceu que no silêncio do cárcere o referido cérebro não parou de funcionar; apenas começou a germinar idéias que dificilmente lhe teriam ocorrido na agitação das ruas. Homens solitários voltam-se para dentro, tornam-se subjetivistas e profundos. Gramsci transformou a estratégia comunista, de um grosso amálgama de retórica e força bruta, numa delicada orquestração de influências sutis, penetrante como a Programação Neurolinguística e mais perigosa, a longo prazo, do que toda a artilharia do Exército Vermelho. Se Lênin foi o teórico do golpe de Estado, ele foi o estrategista da revolução psicológica que deve preceder e aplainar o caminho para o golpe de Estado.

Gramsci estava particularmente impressionado com a violência das guerras que o governo revolucionário da Rússia tivera de empreender para submeter ao comunismo as massas recalcitrantes, apegadas aos valores e praxes de uma velha cultura. A resistência de um povo arraigadamente religioso e conservador a um regime que se afirmava destinado a beneficiá-lo colocou em risco a estabilidade do governo soviético durante quase uma década, fazendo com que, em reação, a ditadura do proletariado — na intenção de Marx uma breve transição para o paraíso da democracia comunista — ameaçasse eternizar-se, barrando o caminho a toda evolução futura do comunismo, como de fato veio a acontecer.

Para contornar a dificuldade, Gramsci concebeu uma dessas idéias engenhosas, que só ocorrem aos homens de ação quando a impossibilidade de agir os compele a meditações profundas: amestrar o povo para o socialismo antes de fazer a revolução. Fazer com que todos pensassem, sentissem e agissem como membros de um Estado comunista enquanto ainda vivendo num quadro externo capitalista. Assim, quando viesse o comunismo, as resistências possíveis já estariam neutralizadas de antemão e todo mundo aceitaria o novo regime com a maior naturalidade.

A estratégia de Gramsci virava de cabeça para baixo a fórmula leninista, na qual uma vanguarda organizadíssima e armada tomava o poder pela força, autonomeando-se representante do proletariado e somente depois tratando de persuadir os apatetados proletários de que eles, sem ter disto a menor suspeita, haviam sido os autores da revolução. A revolução gramsciana está para a revolução leninista assim como a sedução está para o estupro.

Para operar essa virada, Gramsci estabeleceu uma distinção, das mais importantes, entre “poder” ( ou, como ele prefere chamá-lo, “controle” ) e “hegemonia”. O poder é o domínio sobre o aparelho de Estado, sobre a administração, o exército e a polícia. A hegemonia é o domínio psicológico sobre a multidão. A revolução leninista tomava o poder para estabelecer a hegemonia. O gramscismo conquista a hegemonia para ser levado ao poder suavemente, imperceptivelmente. Não é preciso dizer que o poder, fundado numa hegemonia prévia, é poder absoluto e incontestável: domina ao mesmo tempo pela força bruta e pelo consentimento popular — aquela forma profunda e irrevogável de consentimento que se assenta na força do hábito, principalmente dos automatismos mentais adquiridos que uma longa repetição torna inconscientes e coloca fora do alcance da discussão e da crítica. O governo revolucionário leninista reprime pela violência as idéias adversas. O gramscismo espera chegar ao poder quando já não houver mais idéias adversas no repertório mental do povo.

Que esse negócio é tremendamente maquiavélico, o próprio Gramsci o reconhecia, mas fazendo disto um título de glória, já que Maquiavel era um dos seus gurus. Apenas, ele adaptou Maquiavel às demandas da ideologia socialista, coletivizando o “Príncipe”. Em lugar do condottiere individual que para chegar ao poder utiliza os expedientes mais repugnantes com a consciência tranquila de quem está salvando a pátria, Gramsci coloca uma entidade coletiva: a vanguarda revolucionária. O Partido, em suma, é o novo Príncipe. Como o sangue-frio dos homens fica mais frio na medida em que eles se sentem apoiados por uma coletividade, o Novo Príncipe tem uma consciência ainda mais tranquila que a do antigo. O condottiere da Renascença não tinha apoio senão de si mesmo, e nas noites frias do palácio tinha de suportar sozinho os conflitos entre consciência moral e ambição política, encontrando no patriotismo uma solução de compromisso. No Novo Príncipe, a produção de analgésicos da consciência é trabalho de equipe, e nas fileiras de militantes há sempre uma imensa reserva de talentos teóricos que podem ser convocados para produzir justificações do que quer que seja.

Os intelectuais desempenham por isso, na estratégia gramsciana, um papel de relevo. Mas isto não quer dizer que suas idéias sejam importantes em si mesmas, pois, para Gramsci, a única importância de uma idéia reside no reforço que ela dá, ou tira, à marcha da revolução. Gramsci divide os intelectuais em dois tipos: “orgânicos” e “inorgânicos” ( ou, como ele prefere chamá-los, “tradicionais” ). Estes últimos são uns esquisitões que, baseados em critérios e valores oriundos de outras épocas, e sem uma definida ideologia de classe, emitem idéias que, ignoradas pelas massas, não exercem qualquer influência no processo histórico: acabam indo parar na lata de lixo do esquecimento, a não ser que tenham a esperteza de aderir logo a uma das correntes “orgânicas”. Intelectuais orgânicos são aqueles que, com ou sem vinculação formal a movimentos políticos, estão conscientes de sua posição de classe e não gastam uma palavra sequer que não seja para elaborar, esclarecer e defender sua ideologia de classe. Naturalmente, há intelectuais orgânicos “burgueses” e “proletários”. Estes são a nata e o cérebro do Novo Príncipe, mas aqueles também têm alguma utilidade para a revolução, pois é através deles que os revolucionários vêm a conhecer a ideologia do inimigo. Gramsci mencionava como protótipos de intelectuais orgânicos burgueses Benedetto Croce e Giovanni Gentile: o liberal antifascista e o ministro de Mussolini.

O conceito gramsciano de intelectual funda-se exclusivamente na sociologia das profissões e, por isto, é bem elástico: há lugar nele para os contadores, os meirinhos, os funcionários dos Correios, os locutores esportivos e o pessoal do show business . Toda essa gente ajuda a elaborar e difundir a ideologia de classe, e, como elaborar e difundir a ideologia de classe é a única tarefa intelectual que existe, uma vedette que sacuda as banhas num espetáculo de protesto pode ser bem mais intelectual do que um filósofo, caso se trate de um “inorgânico” como por exemplo o autor destas linhas.

Os intelectuais no sentido elástico são o verdadeiro exército da revolução gramsciana, incumbido de realizar a primeira e mais decisiva etapa da estratégia, que é a conquista da hegemonia, um processo longo, complexo e sutil de mutações psicológicas graduais e crescentes, que a tomada do poder apenas coroa como uma espécie de orgasmo político.

A luta pela hegemonia não se resume apenas ao confronto formal das ideologias, mas penetra num terreno mais profundo, que é o daquilo que Gramsci denomina — dando ao termo uma acepção peculiar — “senso comum”. O senso comum é um aglomerado de hábitos e expectativas, inconscientes ou semiconscientes na maior parte, que governam o dia-a-dia das pessoas. Ele se expressa, por exemplo, em frases feitas, em giros verbais típicos, em gestos automáticos, em modos mais ou menos padronizados de reagir às situações. O conjunto dos conteúdos do senso comum identifica-se, para o seu portador humano, com a realidade mesma, embora não constitua de fato senão um recorte bastante parcial e frequentemente imaginoso. O senso comum não “apreende” a realidade, mas opera nela ao mesmo tempo uma filtragem e uma montagem, segundo padrões que, herdados de culturas ancestrais, permanecem ocultos e inconscientes.

Como o que interessa não é tanto a convicção política expressa, mas o fundo inconsciente do “senso comum”, Gramsci está menos interessado em persuasão racional do que em influência psicológica, em agir sobre a imaginação e o sentimento. Daí sua ênfase na educação primária. Seja para formar os futuros “intelectuais orgânicos”, seja simplesmente para predispor o povo aos sentimentos desejados, é muito importante que a influência comunista atinja sua clientela quando seus cérebros ainda estão tenros e incapazes de resistência crítica.

O senso comum não coincide com a ideologia de classe, e é precisamente aí que está o problema. Na maior parte das pessoas, o senso comum se compõe de uma sopa de elementos heteróclitos colhidos nas ideologias de várias classes. É por isto que, movido pelo senso comum, um homem pode agir de maneiras que, objetivamente, contrariam o seu interesse de classe, como por exemplo quando um proletário vai à missa. Nesta simples rotina dominical oculta-se uma mistura das mais surpreendentes, onde um valor típico da cultura feudal-aristocrática, reelaborado e posto a serviço da ideologia burguesa, aparece transfundido em hábito proletário, graças ao qual um pobre coitado, acreditando salvar a alma, comete, na realidade, apenas uma grossa sacanagem contra seus companheiros de classe e contra si mesmo.

Aí é que entra a missão providencial dos intelectuais. Sua função é precisamente por um fim a essa suruba ideológica, reformando o senso comum, organizando-o para que se torne coerente com o interesse de classe respectivo, esclarecendo-o e difundindo-o para que fique cada vez mais consciente, para que, cada vez mais, o proletário viva, sinta e pense de acordo com os interesses objetivos da classe proletária e o burguês com os da classe burguesa. A este estado de perfeita coincidência entre idéias e interesses de classe, quando realizado numa dada sociedade e cristalizado em leis que distribuem a cada classe seus direitos e deveres segundo uma clara delimitação dos respectivos campos ideológicos, Gramsci denomina Estado Ético.

É a escalação final dos dois times, antes de começar o prélio decisivo que levará o Partido ao poder. O público brasileiro tem ouvido este termo, proferido num contexto de combate à corrupção e de restauração da moralidade. Mas ele é um termo técnico da estratégia gramsciana, que designa apenas uma determinada etapa na luta revolucionária — uma etapa, aliás, bastante avançada, na qual a radicalização do conflito de interesses de classe prepara o início da etapa orgástica: a conquista do poder. Que, no caótico senso comum brasileiro, o termo Estado Ético tenha ressonâncias moralizadoras inteiramente alheias ao seu verdadeiro intuito, mostra apenas que o público nacional ignora a inspiração diretamente gramsciana do Movimento pela Ética na Política e nem de longe suspeita que seu único objetivo é politizar a ética, canalizando as aspirações morais mais ou menos confusas da população de modo a que sirvam a objetivos que nada têm a ver com o que um cidadão comum entende por moral. O Estado Ético , na verdade, não apenas é compatível com a total imoralidade, como na verdade a requer, pois consolida e legitima duas morais antagônicas e inconciliáveis, onde a luta de classes é colocada acima do bem e do mal e se torna ela mesma o critério moral supremo. Daí por diante, a mentira, a fraude ou mesmo o homicídio podem se tornar louváveis, quando cometidos em defesa da “nossa” classe, ao passo que a decência, a honestidade, a compaixão podem ter algo de criminoso, caso favoreçam a classe adversária 10 . Que o tradicional discurso moralista da burguesia brasileira tenha podido ser assim usado como arma para desferir um golpe mortal na hegemonia burguesa, mostra menos a esperteza da esquerda gramsciana do que a estupidez paquidérmica da nossa classe dominante. Que, por outro lado, os próprios agentes do gramscismo finjam acreditar no caráter apolítico e puramente higiênico da campanha moralizante — apaziguando assim os temores daqueles que serão suas primeiras vítimas — é nada mais que uma expressão da linguagem dupla, inerente a uma estratégia na qual a camuflagem é tudo. São lições de Antonio Só-a-Cabecinha Gramsci.

É quase impossível que, a esta altura, a expressão “inversão de valores” não ocorra ao leitor. Essa inversão é, de fato, um dos objetivos prioritários da revolução gramsciana, na fase da luta pela hegemonia. Mas Gramsci é, neste ponto, bastante exigente: não basta derrotar a ideologia expressa da burguesia; é preciso extirpar, junto com ela, todos os valores e princípios herdados de civilizações anteriores, que ela de algum modo incorporou e que se encontram hoje no fundo do senso comum. Trata-se enfim de uma gigantesca operação de lavagem cerebral, que deve apagar da mentalidade popular, e sobretudo do fundo inconsciente do senso comum, toda a herança moral e cultural da humanidade, para substituí-la por princípios radicalmente novos, fundados no primado da revolução e no que Gramsci denomina “historicismo absoluto” ( mais adiante explico ).

Uma operação dessa envergadura transcende infinitamente o plano da mera pregação revolucionária, e abrange mutações psicológicas de imensa profundidade, que não poderiam ser realizadas de improviso nem à plena luz do dia. O combate pela hegemonia requer uma pluralidade de canais de atuação informais e aparentemente desligados de toda política, através dos quais se possa ir injetando imperceptivelmente na mentalidade popular toda uma gama de novos sentimentos, de novas reações, de novas palavras, de novos hábitos, que aos poucos vá mudando de direção o eixo da conduta.

Daí que Gramsci dê relativamente pouca importância à pregação revolucionária aberta, mas enfatize muito o valor da penetração camuflada e sutil. Para a revolução gramsciana vale menos um orador, um agitador notório, do que um jornalista discreto que, sem tomar posição explícita, vá delicadamente mudando o teor do noticiário, ou do que um cineasta cujos filmes, sem qualquer mensagem política ostensiva, afeiçoem o público a um novo imaginário, gerador de um novo senso comum. Jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos infantis e conselheiros familiares representam uma tropa de elite do exército gramsciano. Sua atuação informal penetra fundo nas consciências, sem nenhum intuito político declarado, e deixa nelas as marcas de novos sentimentos, de novas reações, de novas atitudes morais que, no momento propício, se integrarão harmoniosamente na hegemonia comunista 11 .

Milhões de pequenas alterações vão assim sendo introduzidas no senso comum, até que o efeito cumulativo se condense numa repentina mutação global ( uma aplicação da teoria marxista do “salto qualitativo” que sobrevem ao fim de uma acumulação de mudanças quantitativas ). Ao esforço sistemático de produzir esse efeito cumulativo Gramsci denomina, significativamente, “agressão molecular”: a ideologia burguesa não deve ser combatida no campo aberto dos confrontos ideológicos, mas no terreno discreto do senso comum; não pelo avanço maciço, mas pela penetração sutil, milímetro a milímetro, cérebro por cérebro, idéia por idéia, hábito por hábito, reflexo por reflexo.

É claro que a mutação almejada não abrange somente o terreno das convicções políticas, mas visa principalmente às reações espontâneas, aos sentimentos de base, às cadeias de reflexos que determinam inconscientemente a conduta. Condutas sedimentadas no inconsciente humano há séculos ou milênios devem ser desarraigadas, para ceder lugar a uma nova constelação de reações. É importante, por exemplo, varrer do imaginário popular figuras tradicionais de heróis e de santos que expressem determinados ideais, pois essas figuras estão imantadas de uma força motivadora que dirige a conduta dos homens num sentido hostil à proposta gramsciana. Elas devem ser substituídas por um novo panteão de ídolos, no qual, como se viu acima, Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo, Lênin, Stálin e obviamente o próprio Gramsci ocupam os lugares de S. Francisco de Assis, Santa Terezinha do Menino Jesus e tutti quanti.

Gramsci copiou nisto uma idéia de Augusto Comte, de trocar o calendário dos santos da Igreja por um panteão de heróis revolucionários. Apenas, os ídolos de Comte eram os da Revolução Francesa: Gramsci atualizou a folhinha.

Uma lavagem cerebral de tão vasta escala não poderia, certamente, limitar-se a extirpar da cabeça humana crenças religiosas, imagens, mitos e sentimentos tradicionais: ela deveria também estender-se às grandes concepções filosóficas e científicas. A estas, Gramsci queria destruir pela base, todas de uma vez, para substituí-las por uma nova cosmovisão inspirada no marxismo, ou antes, numa caricatura hipertrófica de marxismo que o próprio Marx rejeitaria com desprezo. Pois Marx considerava-se, sobretudo, o herdeiro de grandes tradições filosóficas como o aristotelismo, e construiu sua filosofia no intuito de torná-la uma ciência, uma descrição objetivamente válida das bases do processo histórico. Para Gramsci, as tradições filosóficas devem ser todas varridas de uma vez, e junto com elas a distinção entre “verdade” e “falsidade”. Pois Gramsci não é um marxista puro-sangue. Através de seu mestre Antonio Labriola, ele recebeu uma poderosa influência do pragmatismo, escola para a qual o conceito tradicional da verdade como uma correspondência entre o conteúdo do pensamento e um estado de coisas deve ser abandonado em proveito de uma noção utilitária e meramente operacional. Nesta, “verdade” não é o que corresponde a um estado objetivo, mas o que pode ter aplicação útil e eficaz numa situação dada. Enxertando o pragmatismo no marxismo, Labriola e Gramsci propunham que se jogasse no lixo o conceito de verdade: na nova cosmovisão, toda atividade intelectual não deveria buscar mais o conhecimento objetivo, mas sim a mera “adequação” das idéias a um determinado estado da luta social. A isto Gramsci denominava “historicismo absoluto”. Nesta nova cosmovisão, não haveria lugar para a distinção — burguesa, segundo Gramsci — entre verdade e mentira. Uma teoria, por exemplo, não se aceitaria por ser verdadeira, nem se rejeitaria por falsa, mas dela só se exigiria uma única e decisiva coisa: que fosse “expressiva” do seu momento histórico, e principalmente das aspirações da massa revolucionária. Dito de modo mais claro: Gramsci exige que toda atividade cultural e científica se reduza à mera propaganda política, mais ou menos disfarçada.

A “filosofia” de Gramsci resolve-se assim num ceticismo teorético que completa a negação da inteligência pela sua submissão integral a um apelo de ação prática; ação que, realizada, resultará em varrer a inteligência da face da Terra, por supressão das condições que possibilitam o seu exercício: a autonomia da inteligência individual e a fé na busca da verdade. Substituída a primeira pela arregimentação de “intelectuais orgânicos” de carteirinha, e a segunda pela concentração de todas as energias intelectuais no nobre mister da propaganda revolucionária, quê sobrará da aptidão humana para discernir entre verdade e mentira?

Gramsci é, em suma, o profeta da imbecilidade, o guia de hordas de imbecis para quem a verdade é a mentira e a mentira a verdade. Somente um outro imbecil como Mussolini podia considerá-lo “uma inteligência perigosa”. O perigo que há nela é o da malícia que obscurece, não o da inteligência que clareia; e a malícia é a contrafação simiesca da inteligência. Mas a reação de Mussolini é significativa. Há nela a típica inveja mórbida do brutamontes de direita pelo intelectual esquerdista, sua sombra junguiana que ele não compreende e que por isto mesmo lhe parece, por suas habilidades vistosas, o protótipo mesmo da inteligência. A atração é mútua, como se vê pelo culto de Nelson Rodrigues entre os esquerdistas que ele achincalhou como ninguém. Entre a grossura direitista e a pseudo-intelectualidade esquerdista, a relação é o amor-ódio de um casamento sadomasoquista. Casamento entre le genti dolorose / C’hanno perduto il ben dello intelletto... Non ragioniam di lor, ma guarda e passa.

Para quem quer que pense com a própria cabeça, as teorias de Gramsci não apresentam o menor interesse, tanto quanto não o apresentam as velhas escolas céticas gregas, das quais o gramscismo é uma reedição mal atualizada. A refutação do ceticismo é, como se sabe, o primeiro teste do aprendiz de filósofo. Tal como se refuta o ceticismo — a negação de toda certeza — pela simples afirmação de que a negação também é incerta, o gramscismo igualmente não resiste a um confronto consigo mesmo: tendo negado a veracidade objetiva, ele se reduz a uma “expressão de aspirações”. Tendo reduzido toda a cultura à propaganda, ele próprio se desmascara como mera propaganda. Não tem sequer a pretensão de ser verdadeiro: nada pretende provar nem demonstrar; quer apenas seduzir, induzir, conduzir. O tipo de mentalidade que se interessa por pensamentos desse gênero é certamente imune a qualquer preocupação de veracidade, mas é movido por uma ambição insaciável que o faz revolver sem descanso as trevas, numa “ação” estéril, nervosa, destrutiva, da qual promete em vão fazer nascer um mundo. Por uma inevitável e trágica compensação, quanto menos um homem é apto a enxergar o mundo, mais assanhado fica de transformá-lo — de transformá-lo à imagem e semelhança da sua própria escuridão interior 12 .

Se nos perguntamos, agora, como foi possível que uma filosofia assim grosseira alcançasse no Brasil tão vasta audiência a ponto de inspirar o programa de um partido político, a resposta deve levar em consideração três aspectos: primeiro, a predisposição da intelectualidade brasileira; segundo, as condições do momento; terceiro, a natureza mesma dessa filosofia.

Ao longo da nossa história intelectual, somente três correntes de pensamento lograram exercer uma influência duradoura e profunda sobre as camadas intelectuais brasileiras: o positivismo de Augusto Comte, o neotomismo de Leão XIII, o marxismo. O que há de comum entre elas é que não são propriamente filosofias, mas programas de ação coletiva, destinados a moldar ou remoldar o mundo segundo as aspirações de suas épocas e de seus mentores. O positivismo parte da constatação de que a Revolução Francesa, derrubando as concepções cristãs, deixou sua obra pela metade, na medida em que não pôs no lugar delas uma nova religião; o positivismo constitui esta nova religião, com templo, calendário dos santos, ritual e tudo o mais; e as teorias filosóficas não são senão a sustentação do novo Estado teocrático que Comte pretende fundar. O neotomismo é a reação que, ao novo Estado teocrático, opõe um apelo ao retorno do antigo, devidamente revisto e atualizado. Finalmente, o marxismo é o programa de ação do movimento socialista. Nos três, as idéias, as teorias, não têm um valor intrínseco mas servem apenas como retaguardas psicológicas da ação prática. Os três não querem interpretar o mundo, mas transformá-lo. ( Cabe uma ressalva com relação ao neotomismo: não confundi-lo com o tomismo, se por esta palavra se entende a filosofia de Sto. Tomás de Aquino. O tomismo é filosofia no sentido pleno; o neotomismo é, ao contrário, um movimento cultural e político — ideológico, em suma — votado à difusão dessa filosofia, tomada como solução pronta de todos os problemas e, portanto, esvaziada de boa parte de sua substância filosófica. Afinal, tudo o que é neo-alguma-coisa é, por definição, apenas uma nova casca da qual essa coisa é o miolo. Observações semelhantes poderiam fazer-se, com reservas, também do positivismo e do marxismo: em ambos há na raiz algo de filosofia autêntica, sufocada pelo desenvolvimento hipertrófico de um programa de ação prática, dela deduzido aos trambolhões. ) Filosofias que recuam da especulação teorética para a proposição de ações práticas são filosofias da decadência; marcam as épocas em que os homens já não conseguem compreender o mundo e passam a agitar-se para escapar de um mundo incompreensível. A sofística nasce, na Grécia, do fracasso das primeiras especulações cosmológicas de Tales, Anaximandro, Anaximenes, Parmênides e Heráclito; incapaz de resolver as contradições entre as teorias, ela transfere o eixo das preocupações humanas para a vida prática imediata: para a política do dia. Os sofistas são professores de retórica, que ensinam aos jovens políticos os meios de agir sobre as consciências. À sofística opõe Sócrates a dialética e o ideal da demonstração apodíctica que orientará os esforços gregos em direção ao saber científico. Cinco séculos mais tarde, após o esquecimento das grandes sínteses teoréticas de Platão e Aristóteles, tornam-se novamente dominantes as escolas praticistas: os cínicos, os cirenaicos, os megáricos e, em parte, os estóicos. E assim prossegue a história do pensamento Ocidental, numa pulsação entre o empenho da compreensão teorética e a queda no ceticismo praticista. O fundo comum de onde emergem o positivismo, o marxismo e o neotomismo é a dissolução do racionalismo clássico, levado a um beco sem saída pela crítica kantiana e que tem no idealismo alemão o seu canto de cisne. Positivismo, marxismo e neotomismo são as filosofias de uma época que não tem filosofia nenhuma; de uma época que anseia por transformar o mundo na medida mesma em que é incapaz de desempenhar o esforço teorético necessário para compreendê-lo.

Num texto clássico — Crise da Filosofia Ocidental ( l874 ) —, o filósofo russo Vladimir Soloviev previu que a filosofia, como atividade intelectual essencialmente individual, oposta ao pensamento coletivo da religião e da ciência, estava em vias de acabar, para ceder lugar a algo de totalmente diferente. Ele esperava o advento de uma grande síntese, mas o que se viu foi o advento do “século das ideologias”. Ora, o Brasil entra no curso espiritual do mundo justamente no momento em que Soloviev faz esse diagnóstico: recebemos maciçamente o impacto das novas ideologias, antes de termos podido vivenciar a tradição filosófica que as antecedeu. Nosso contato com as fontes filosóficas da civilização do Ocidente continuou superficial, ao passo que nos entregávamos de corpo e alma às retóricas coletivistas. Passado mais de um século, ainda não temos uma boa tradução de Aristóteles, mas publicamos, já na década de 60, as obras completas de Antonio Gramsci.

De outro lado, toda tentativa nossa de penetrar mais fundamente no campo da filosofia mesma ficou limitada pela timidez, pela insegurança, que nos fazia apegar-nos como crianças à proteção de algum superego estrangeiro da moda. Cinco décadas de atividade filosofante na USP foram resumidas no título acachapante do livro recém-publicado de Paulo Arantes:

Um Departamento Francês de Ultramar . Escritórios de importação, representantes autorizados, imitação, pedantismo, oscilação entre a falsa consciência e a consciência de culpa marcam todos os nossos esforços filosóficos universitários no sentido de um pensamento independente. No fim, o intelectual com pretensões filosóficas só encontra alívio quando desiste delas e recai no pensamento coletivo; quando, abdicando de interpretar o mundo, se alinha, contrito e obediente, numa das correntes que professam transformá-lo: as conversões ao catolicismo, ao comunismo e às ideologias cientificistas originadas do positivismo constituem — independentemente dos motivos pessoais em cada caso — um melancólico ritornello na história dos fracassos das nossas ambições filosóficas. A queda no pensamento coletivo é vivenciada como um retorno da ovelha desgarrada, como uma libertação das culpas, como um reencontro com a infância perdida. Ao reintegrar-se numa comunidade ideológica o ex-filósofo arrependido encontra ainda um alívio para o isolamento que cerca o intelectual no meio subdesenvolvido, e o ingresso no grupo solidário arremeda a descoberta de um “sentido da vida”.

A intelectualidade brasileira estava, por todos esses fatores, fundamente predisposta ao apelo gramsciano, onde a vida intelectual deixa de ser o esforço solitário de quem cherche en gémissant , para tornar-se a participação num “sentido da vida” amparado pela solidariedade coletiva. O Partido é às vezes chamado por Gramsci “intelectual coletivo”. É o abrigo dos fracos. Aí a ascensão ao estatuto de intelectual é barateada: já não custa a penosa aquisição de conhecimentos, a investigação pessoal, a luta direta com as incertezas. Obtém-se pelo contágio passivo de crenças, de um vocabulário comum, de cacoetes distintivos 13 . A sociedade em torno legitima a paródia: diante dessas marcas exteriores, o brutamontes de direita acredita piamente estar na presença de um intelectual. A mídia faz o resto.

O segundo fator, a situação do momento, pode-se descrever mais ou menos assim: desde a derrota da luta armada, a esquerda andava em busca de uma estratégia pela qual se orientar. Não sendo capaz de criar uma nova e não encontrando no repertório mundial uma outra à sua disposição, ela aderiu a Gramsci quase por automatismo, sonambulicamente, levada pela carência de opções.

De fato, o comunismo internacional só teve, ao longo de sua história, um número pequeno de propostas estratégicas. Marx não apresentou nenhuma. A primeira que fez sucesso foi a de Lênin. Consistia na formação de uma elite autonomeada, na tomada do poder por um golpe súbito, na posterior conversão forçada do proletariado a uma causa vencedora que se apresentava como sua. A proposta de Lênin veio a predominar sobre o socialismo evolucionário de Edward Bernstein, o que provocou o racha entre os partidos comunistas e a social-democracia, que pregava a tomada do poder por via pacífica, eleitoral e gradualista. Hoje em dia a social-democracia é a grande vencedora, dominando toda a Europa; mas, no tempo de Lênin, sua rejeição pelos comunistas parecia prenunciar o seu fracasso, o que a queda de governos social-democratas ante o avanço do nazismo aparentemente confirmou. A terceira grande estratégia foi a de Mao Tsé-tung. Nas condições da China, não havia um proletariado urbano suficiente sequer para dar apoio moral à guerra revolucionária, e como, por outro lado, o exército revolucionário, banido dos grandes centros, acabasse iniciando uma “grande marcha” pelos campos, o apoio das populações camponesas tornou-se fundamental, e Mao teorizou a coisa a posteriori , transformando a revolução proletária em “guerra revolucionária operário-camponesa” — o que teria provocado engulhos em Karl Marx, que via nos camponeses uma horda de reacionários incuráveis. Paralelamente, a submissão do movimento comunista internacional aos interesses da política exterior soviética deu nascimento a uma quarta estratégia, que encontrou sua mais clara expressão no Front Popular , e que consistia fundamentalmente numa aliança dos comunistas com os “elementos progressistas” de todas as outras correntes, direitistas inclusive. Aí, a pretexto de antifascismo, até Benedetto Croce ficou simpático. Finalmente, a quinta estratégia do movimento comunista surgiu da revolução cubana e da guerra do Vietnã. Sem um autor definido, resultando de enxertos e mixagens de várias proveniências, ela fundia, num vasto plano de guerrilhas, o combate rural e o urbano. Uma de suas versões foi a “teoria foquista” difundida por um doidão de nome Régis Débray, que obteve ampla audiência na América Latina e propunha, para fazer face ao poder maciço do imperialismo norte-americano, a formação de variados e simultâneos “focos” de guerrilhas. A teoria resumia-se no slogan então pixado nos muros de todas as universidades: “Um, dois, três, muitos Vietnãs”. Deu no que deu. Dentre as muitas mixagens, uma particularmente interessante foi a que fundiu a estratégia comunista — até aí fundamentalmente proletária e camponesa, ao menos no nome — com as heresias de Herbert Marcuse, segundo o qual proletários e camponeses tinham-se integrado ao “sistema” e a revolução não tinha outros representantes autorizados senão os estudantes e intelectuais, de um lado, e, de outro, a massa dos miseráveis e marginalizados, o vasto Lumpenproletariat , do qual o velho Karl Marx aconselhava que os militantes comunistas fugissem como se foge de um assaltante à mão armada. Um dos resultados locais deste enxerto foi que, após a derrota da luta armada, os militantes brasileiros presos passaram a alimentar uma vaga esperança no potencial revolucionário do Lumpen , e, para adiantar o expediente, trataram de ir ensinando táticas de guerrilha aos bandidos com quem conviviam no presídio da Ilha Grande. ( Mais tarde ainda, a fusão do gramscismo com resíduos do marcusismo transformaria num dos pratos de resistência do cardápio esquerdista a defesa da legitimidade do banditismo como “protesto social”, que, formando polaridade com a onda de combate moralista aos “colarinhos brancos”, estabeleceria uma dupla moral para o julgamento dos crimes: brando para com o Lumpen , mesmo quando este mata ou estupra, rigoroso para com os ricos e a classe-média, quando cometem delitos contra o patrimônio — a mais curiosa inversão já observada na história da moralidade. ) Nessa resenha das estratégias comunistas, onde entra o gramscismo? Não entra. Ele ficou de fora, restrito a círculos locais italianos, e só alcançou maior difusão, mesmo na Itália, após a década de 50, com a edição das obras completas de Gramsci por Einaudi. A partir de l964, a facção comunista brasileira ainda fiel à orientação moscovita de aliança com a burguesia acreditou ver em Gramsci um potencial renovador desta estratégia, com a qual ele coincide ao menos no que diz respeito ao caráter eminentemente não-sangrento da luta revolucionária e na cuidadosa exclusão de quaisquer radicalismos que pudessem estreitar a base das colaborações possíveis. Porta-voz dessa corrente, o editor Ênio Silveira empreendeu então a publicação ao menos das principais obras de Gramsci:

A Concepção Dialética da História ;

Maquiavel, a Política e o Estado Moderno ;

Os Intelectuais e a Organização da Cultura ;

Literatura e Vida Nacional e Cartas do Cárcere .

Estas obras foram muito lidas, mas, numa atmosfera dominada pela obsessão da luta armada, não exerceram influência prática imediata. Seu potencial ficou retido até a derrota da luta armada, que provocou, como não poderia deixar de ser, um retorno generalizado às teses do combate pacífico e aliancista defendidas pelo PC pró-Moscou. O reatamento do romance entre a esquerda armada e a desarmada deu-se, naturalmente, sobre um fundo musical orquestrado pelo maestro Antonio Gramsci. Simplesmente não havia outro capaz de musicar esta cena. A esquerda tornou-se gramsciana meio às tontas, jogada pelo entrechoque dos acontecimentos, como bolas de bilhar que, impelindo umas às outras, vão dar todas enfim na caçapa.

Agora, a imprensa brasileira acaba de descobrir, com um atraso de dez anos, que o programa do PT é gramsciano. Mas, além de tardia, esta descoberta é inexata: não é só o PT que segue Gramsci: todos os homens de esquerda neste país o fazem há uma década, sem se dar conta. O gramscismo domina a atmosfera por simples ausência de outras propostas e também por uma razão especial: atuando menos no campo do combate ideológico expresso do que no da conquista do subconsciente, ele se propaga por mero contágio de modas e cacoetes mentais, de maneira que põe a seu serviço informal uma legião de pessoas que nunca ouviram falar em Antonio Gramsci. O gramscismo conta menos com a adesão formal de militantes do que com a propagação epidêmica de um novo “senso comum”. Sua facilidade de arregimentar colaboradores mais ou menos inconscientes é, por isto, simplesmente prodigiosa.

Eis ai o terceiro fator a que me referi. O gramscismo é menos uma filosofia do que uma estratégia de ação psicológica, destinada a predispor o fundo do “senso comum” a aceitar a nova tábua de critérios proposta pelos comunistas, abandonando, como “burgueses”, valores e princípios milenares.

Que essa “filosofia”, para se propagar, não conte tanto com a persuasão racional como com a eficácia da penetração sutil no inconsciente das massas, é o que se vê claramente pela sua ênfase na conquista das mentes infantis — um terreno onde o avanço da esquerda vem causando um dano incalculável a milhões de crianças brasileiras, usadas como cobaias de uma desastrosa experiência gramsciana. Que, enfim, essa corrente haja alcançado sucesso no Brasil, é algo que testemunha a miséria intelectual de um meio onde os letrados, incapazes de suportar o isolamento, buscam menos a verdade e o conhecimento do que uma carteirinha de intelectual orgânico, que lhes garanta o apoio psicológico de um vasto grupo solidário e os aureole de um ambíguo prestígio aos olhos dos brutamontes de direita, sua mal disfarçada paixão.

Isso não poderia acontecer senão aqui.

Adendos 1 O número dos adeptos conscientes e declarados do gramscismo é pequeno, mas isto não impede que ele seja dominante. O gramscismo não é um partido político, que necessite de militantes inscritos e eleitores fiéis. É um conjunto de atitudes mentais, que pode estar presente em quem jamais ouviu falar de Antonio Gramsci, e que coloca o indivíduo numa posição tal perante o mundo que ele passa a colaborar com a estratégia gramsciana mesmo sem ter disto a menor consciência. Ninguém entenderá o gramscismo se não perceber que o seu nível de atuação é muito mais profundo que o de qualquer estratégia esquerdista concorrente. Nas demais estratégias, há objetivos políticos determinados, a serviço dos quais se colocam vários instrumentos, entre eles a propaganda. A propaganda permanece, em todas elas, um meio perfeitamente distinto dos fins . Por isto mesmo a atuação do leninismo, ou do maoismo, é sempre delineada e visível, mesmo quando na clandestinidade. No gramscismo, ao contrário, a propaganda não é um meio de realizar uma política: ela é a política mesma, a essência da política, e, mais ainda, a essência de toda atividade mental humana. O gramscismo transforma em propaganda tudo o que toca, contamina de objetivos propagandísticos todas as atividades culturais, inclusive as mais inócuas em aparência. Nele, até simples giros de frase, estilos de vestir ou de gesticular podem ter valor propagandístico. É esta onipresença da propaganda que o singulariza e lhe dá uma força que seus adversários, acostumados a medir a envergadura dos movimentos políticos pelo número de adeptos formalmente comprometidos, nem de longe podem avaliar.

Um detalhe que assinala bem as diferenças é a atitude do gramscismo perante a arte engajada. Outras estratégias exigem do artista que ele imprima às suas obras um sentido político determinado, ou que, pelo menos, sua visão do mundo, expressa em cada obra, seja coerente com a interpretação marxista. A literatura engajada do leninismo, do stalinismo ou do maoismo, é portanto uma coleção de obras das quais cada uma, por si, é uma peça de propaganda, com valor autônomo. Já no gramscismo o que interessa é apenas o efeito de conjunto da massa de obras literárias em circulação. Esse efeito de conjunto deve tender à mudança do senso comum desejada pelo Partido, pouco importando que cada obra, tomada isoladamente, nada tenha de marxista ou seja mesmo destituída de qualquer valor propagandístico.

Graças a isto, o julgamento gramsciano de cada obra é muito menos rígido e dogmático que o de outras correntes marxistas — o que muito contribuiu para elevar o seu prestígio entre intelectuais ansiosos por conciliar seus ideais marxistas com seu desejo pessoal de liberdade.

No gramscismo, qualquer obra literária pode contribuir para a propaganda marxista, dependendo apenas do contexto em que é divulgada — tal como num jornal o teor das notícias tomadas individualmente interessa menos do que sua localização na página, ao lado de outras notícias cujo efeito de conjunto imprime um novo sentido a cada uma delas.

O objetivo primeiro do gramscismo é muito amplo e geral em seu escopo: nada de política, nada de pregação revolucionária, apenas operar um giro de cento e oitenta graus na cosmovisão do senso comum, mudar os sentimentos morais, as reações de base e o senso das proporções, sem o confronto ideológico direto que só faria excitar prematuramente antagonismos indesejáveis.

As mudanças aí operadas podem ser, no entanto, muito mais profundas e decisivas do que a mera adesão consciente de um eleitorado às teses comunistas. Mudanças de critério moral, por exemplo, têm efeitos explosivos. Essas mudanças podem ser induzidas através da imprensa, sem qualquer ataque frontal e explícito aos critérios admitidos. Um caso que ilustra isto perfeitamente bem, e que demonstra o alcance da estratégia gramsciana no Brasil, é o do noticiário sobre corrupção. A campanha pela Ética na Política não surgiu com um intuito moralizador, mas como uma proposta política antiliberal. Numa entrevista ao Jornal do Brasil , um dos fundadores da campanha, Herbert de Souza, o Betinho, deixou isso perfeitamente claro. A campanha surgiu numa reunião de intelectuais de esquerda em busca de uma fórmula contra Collor, muito antes de que houvesse qualquer denúncia de corrupção no governo. Mais tarde, estas denúncias vieram a dar à campanha uma força inesperada, trazendo para ela a adesão de massas de classe-média moralista que, politicamente, teriam tudo para se opor a qualquer proposta explicitamente esquerdista. Ora, a campanha exerceu uma influência decisiva na direção do noticiário nos jornais e na TV. Essa influência foi tal que introduziu nos julgamentos morais uma mudança profunda. Impressionado pelo conteúdo escandaloso das notícias, o público nem de longe reparou que a edição delas subentendia essa mudança, que, conscientemente, ele não aprovaria. Ela consistiu em fazer com que os crimes contra o patrimônio público parecessem infinitamente mais graves e revoltantes do que os crimes contra a pessoa humana. P. C. Farias, um trêmulo estelionatário incapaz de dar um pontapé num cachorro, era apresentado como um Al Capone, ao mesmo tempo que se minimizava a gravidade do banditismo armado. Se de um lado jornalistas de esquerda promovem um ataque maciço aos criminosos de colarinho branco e de outro lado intelectuais de esquerda lutam para que os chefes de bandos de assassinos armados sejam reconhecidos como “lideranças populares” legítimas, o efeito conjugado dessas duas operações é bem nítido: atenuar a gravidade dos crimes contra a pessoa, quando cometidos pela classe baixa e aproveitáveis politicamente pelas esquerdas, e enfatizar a dos crimes contra o patrimônio, quando cometidos por membros da classe dominante. Eis aí a luta de classes transformada em supremo critério da moral, desbancando o preceito milenar, arraigado no senso comum, de que a vida é um bem mais sagrado do que o patrimônio.

Para que essas duas operações ocorram simultaneamente, produzindo um resultado unificado, não é preciso que emanem de um comando central organizado. Basta que os intelectuais envolvidos numa e noutra comunguem ainda que vagamente de um espírito revolucionário gramsciano, para que, numa espécie de cumplicidade implícita, cada qual realize sua tarefa e todos os resultados venham a convergir na direção dos fins gramscianos. Isto não exclui, é claro, a hipótese de um comando unificado, mas, para o sucesso da estratégia gramsciana, a unidade de comando, ao menos ostensiva, é bastante dispensável na fase da luta pela hegemonia.

É interessante saber que, na Constituição do Estado soviético, o homicídio doloso era punido com apenas dez anos de cadeia e os crimes contra a administração pública sujeitavam o culpado à pena de morte. Nem poderia ser de outro modo, dado o pouco valor que, na perspectiva marxista, tem a vida individual quando não posta a serviço da revolução. Ora, o noticiário sobre corrupção conseguiu introduzir na mente brasileira o hábito de julgar as coisas segundo uma escala moral soviética; e o fez com muito mais eficiência do que lograria em anos e anos de debates explícitos. Uma vez explicitada, essa mudança seria rejeitada com horror por um povo em que ainda são vivos, no fundo, os sentimentos cristãos. Introduzida por baixo, como critério subjacente, ela penetra às ocultas no senso comum e o perverte até a raiz, preparando-o para aceitar passivamente, no futuro, aberrações maiores ainda, que venham a ser impostas por um Estado socialista 14 .

A atuação espontânea, aparentemente inconexa, de milhares de intelectuais — no sentido gramsciano — em setores distintos da vida pública, pode ser facilmente dirigida para onde o deseja a revolução gramsciana, não sendo necessário para isto nem mesmo um oculto Comitê Central de super-cérebros a comandar o conjunto da operação. Basta que uma cumplicidade inicial se estabeleça entre certos grupos, para que, sobretudo na ausência de qualquer confronto crítico com outras correntes, o gramscismo avance como sobre trilhos azeitados, na estrada que leva à conquista da hegemonia. Ele já penetrou fundo, por esse caminho, na mentalidade brasileira. Quando um partido político assume publicamente sua identidade gramsciana, é que a fase do combate informal — a decisiva — já está para terminar, pois seus resultados foram atingidos. Vai começar a luta pelo poder. O que marca esta nova fase é que todos os adversários ideológicos já foram vencidos ou estão moribundos; nenhum outro discurso ideológico se opõe ao gramscismo, e os adversários políticos que restam lhe dão ainda maior reforço, na medida em que, não possuindo alternativa mental, pensam dentro dos quadros conceituais e valorativos demarcados por ele e só podem combatê-lo em nome dele mesmo. Isto é hegemonia.

2 Gramsci jura que é leninista, mas como ele atribui a Lênin algumas idéias de sua própria invenção das quais Lênin nunca ouviu falar, as relações entre gramscismo e leninismo são um abacaxi que os estudiosos buscam descascar revirando os textos com uma paciência de exegetas católicos. Uma dessas idéias é a de “hegemonia”, central no gramscismo. Gramsci diz que ela foi a “maior contribuição de Lênin” à estratégia marxista, mas o conceito de hegemonia não aparece em parte alguma dos escritos de Lênin. Alguns exegetas procuraram resolver o enigma identificando a hegemonia com a ditadura do proletariado, mas isto não dá muito certo porque Gramsci diz que uma classe só implanta uma ditadura quando não tem a hegemonia. As relações entre Gramsci e Marx também são embrulhadas, como se vê no uso do termo “sociedade civil”: para Marx, sociedade civil é o termo oposto e complementar do “Estado”, e, logo, se identifica com o reino das relações econômicas, ou infra-estrutura. Em Gramsci, a sociedade civil, somada à sociedade política ou Estado, compõe a superestrutura que se assenta sobre a base econômica.

Essas e outras dificuldades de interpretação do pensamento de Gramsci decorrem, em parte, do caráter fragmentário e disperso dos seus escritos. Talvez elas possam ser resolvidas, mas o que é realmente espantoso é que, alguns anos após revelada ao mundo a maçaroca dos textos gramscianos, e antes mesmo que algum sério exame produzisse uma interpretação aceitável do seu sentido, ela já fosse adotada como norma diretiva por várias organizações, começando a produzir efeitos práticos sobre os quais ninguém, nessas condições, poderia ter o mínimo controle. Essa adesão apressada a uma idéia que mal se compreendeu assinala uma tremenda irresponsabilidade política, um desejo ávido de atuar sobre a sociedade humana sem medir as consequências. É claro que ninguém adere a Gramsci com outro propósito que não o de implantar o comunismo em alguma parte do mundo. Mas, sendo o gramscismo um pensamento obscuro e às vezes incompreensível, não há nenhum motivo para crer que sua aplicação deva produzir nem mesmo esse resultado, lamentável o quanto seja. Pode acontecer, por exemplo, que a estratégia gramsciana não gere outro efeito além de tornar os burgueses ateus, retirando os freios que a religião impunha à sua cobiça e ao seu maquiavelismo. Algo muito parecido aconteceu na própria terra de Gramsci: é impossível não haver conexão entre a decadência da fé católica e a transformação da Itália numa Sodoma capitalista. A nova cultura materialista e gramsciana que dominou a atmosfera intelectual italiana desde a década de 60 muito contribuiu para esse resultado; apenas, não se vê que vantagem os comunistas puderam tirar disso. Os esquerdistas brasileiros deveriam pensar na experiência italiana antes de atirar-se a aventuras gramscianas que, na educação como na política, podem levar a resultados tão confusos quanto as idéias que as inspiram.

3 O termo “Estado ético” é ele mesmo um dos primores de ambiguidade que se encontram na mixórdia gramsciana. Ora ele designa o Estado comunista, ora o Estado capitalista avançado, ora qualquer Estado. De modo mais geral, Gramsci denomina “ético” todo Estado que procure elevar a psique e a moral de seus cidadãos ao nível atingido pelo “desenvolvimento das forças produtivas”, subentendendo-se que o Estado comunista faz isto melhor do que ninguém. A idéia é intrinsecamente imoral: consiste em submeter a moral às exigências da economia. Se, por exemplo, um determinado estágio do “desenvolvimento das forças produtivas” requer que todos os habitantes de uma região sejam removidos para o outro extremo do país, como aconteceu muitas vezes na União Soviética, torna-se “ética” a conduta de um garoto que denuncie o pai às autoridades por tentar fugir para uma cidade próxima. A asquerosa admiração que os brasileiros vêm demonstrando nos últimos tempos pelos irmãos que delatam irmãos, pelas esposas que delatam maridos, é índice de uma nova moralidade, inspirada em valores gramscianos. Não há dúvida de que o novo critério é “ético” no sentido gramsciano, isto é, economicamente útil, já que a delação generalizada de pais, irmãos, maridos e amantes pode ressarcir alguns prejuízos sofridos pelo Estado. Mas isto não atenua sua imoralidade intrínseca.

4 15 Em cursos e conferências, venho falando do gramscismo petista desde 1987 pelo menos, para platéias em que não faltaram jornalistas. Mas a imprensa brasileira, refratária a tudo quanto seja novo, só em 1994 informou ao público a inspiração gramsciana do petismo, quando ela não era mais uma tendência latente e já se havia externalizado no programa oficial do partido. O primeiro a dar o alarma foi Gilberto Dimenstein, na Folha de S. Paulo , logo após a publicação deste livro que aliás nem sei se ele leu; mas limitava-se a mencionar o nome do ideólogo italiano, sem nada dizer do conteúdo de suas idéias. Não teve a menor repercussão. Mais tarde li duas ou três frases alusivas a Gramsci, em outros jornais e em Veja . Tudo muito sumário, num tom de quem contasse com a compreensão de uma platéia versadíssima em gramscismo. É o velho jogo-de-cena do histrionismo brasileiro: dar por pressuposto que o ouvinte sabe do que estamos falando é um modo de induzi-lo a crer que sabemos do que falamos. Na verdade, fora dos círculos do petismo letrado, só sabem de Gramsci uns quantos acadêmicos, entre os quais Oliveiros da Silva Ferreira, que defendeu uma tese sobre o assunto numa USP carregada de odores gramscianos, na década de 60. Gramsci continua esotérico, lido só em família, a salvo de qualquer crítica exceto amigável — uma crítica dos meios, conivente com os fins, numa atmosfera de culto e devoção que raia a pura e simples babaquice. Mas pelo mundo civilizado circulam críticas devastadoras, que provavelmente jamais chegarão ao conhecimento do público brasileiro. Assinalo as de Roger Scruton 16 e Alfredo Sáenz 17 , que tomam o assunto por lados bem diferentes daquele que abordo neste livro, mas chegam a conclusões não menos reprobatórias.

Devo apontar como exceção notável, ainda que tardia, um artigo de Márcio Moreira Alves 18 . Ele resgata parcialmente a honra da imprensa brasileira, mostrando que há nela pelo menos um cérebro capaz de saber de Gramsci algo mais do que o nome e pelo menos um repórter que não foge da notícia. Ele explica em linhas gerais a estratégia gramsciana e o estado presente de sua aplicação pela liderança petista, levando à conclusão de que, em vez de criar uma democracia como o partido promete, ela vai produzir aqui a ditadura de uma capelinha de intelectuais. É lamentável, apenas, que no reduzido espaço de sua coluna o sempre surpreendente Moreira Alves não pudesse abranger assunto tão vasto senão em abreviatura pesadamente técnica, de difícil assimilação pelo público.

O Globo deveria dar-lhe duas páginas inteiras para trocar em miúdos os ensinamentos ali contidos, talvez os mais importantes e urgentes que a imprensa brasileira transmitiu ao público nos últimos anos.

Particularmente oportuna é ali a observação de que o programa mesmo do PT reconhece — oficialmente, por assim dizer — a hegemonia da esquerda, principalmente no campo cultural mas também na política, na medida em que proclama o ingresso atual do Brasil num novo “bloco histórico” ( sistema cerrado de relações entre a economia e a superestrutura cultural, moral e jurídica ). É digna da maior atenção, no programa do PT, a parte referente à “revolução passiva”. A passagem ao novo “bloco histórico” será feita pela elite ativista com base no “consenso passivo” da população. Isto quer dizer, sumariamente, que o povo não precisará manifestar seu apoio ao programa do PT para que este se sinta autorizado a promover a transformação revolucionária da sociedade. A simples ausência de reação hostil, para não dizer de rebelião, será interpretada como aprovação popular: quem cala consente, em suma. A proposta é de um cinismo descarado. Ela investe o PT do direito divino de agir em nome do povo sem precisar ouvi-lo, já que o silêncio se tornará aplauso. Durante sete décadas o silêncio de um povo oprimido foi interpretado como “aprovação passiva” pelo governo da URSS. Em linguagem técnica mas incisiva, Márcio Moreira Alves mostra que por esse caminho não se pode chegar a uma democracia. Discordo dele só num ponto: ele acha que a estratégia petista é uma traição aos ideais de Gramsci, e eu estou seguro de que ela é a mais pura encarnação do gramscismo universal 19 .

O mais lamentável em toda essa história é que a massa dos militantes do PT não tem a menor condição intelectual de compreender as sutilezas da estratégia gramsciana, e vai se deixando conduzir sonambulicamente pelos guias iluminados, sem fazer perguntas quanto à verdadeira meta da jornada.

NOTAS Para Karl Marx, aqueles que captam o sentido do movimento da História e representam as “forças progressistas” ficam ipso facto liberados de qualquer dever com a “moral abstrata” da burguesia; seu único dever é acelerar o devir histórico em direção ao socialismo, pouco importando os meios. Baseado nesse princípio, Lênin codificou a moral partidária, onde o único dever é servir ao partido. Esta moral, por sua vez, deu origem ao Direito soviético, que colocava acima dos direitos humanos elementares os deveres para com o Estado revolucionário. A delação de corruptos ou traidores, por exemplo, era na União Soviética uma obrigação básica do cidadão. Mas não é só na teoria que o comunismo é imoral. No Estado socialista, todos são funcionários públicos, e basta isto para que a corrupção se torne institucional. Na União Soviética ninguém conseguia tirar um documento ou consertar uma linha telefônica sem soltar propinas: ao socializar a economia, socializa-se a corrupção. A desonestidade desce das camadas dominantes para corromper todo o povo. O mesmo aconteceu na China, país que ademais se notabilizou por ser o maior distribuidor de tóxicos deste planeta. A justificativa, na época, era que os tóxicos enfraqueceriam a “juventude burguesa” e facilitariam o avanço do socialismo, sendo, portanto, benéficos ao progresso humano. As drogas só se tornaram um problema de escala mundial graças ao comunismo chinês, que, com isto, se tornou culpado de um crime de genocídio pelo qual, até hoje, ninguém teve coragem de acusá-lo.Ainda segundo a moral comunista, as pessoas profundamente apegadas aos ideais burgueses são doentes incorrigíveis, devendo por isto ser isoladas ou exterminadas. Sessenta milhões de pessoas foram mortas, na União Soviética, em nome da reedificação da cultura e da personalidade. No Camboja, o genocídio foi adotado como procedimento normal e legítimo.Foram os comunistas que, com base nas descobertas de Pavlov, desenvolveram o sistema de lavagem cerebral , para despersonalizar os prisioneiros e levá-los a confessar crimes que não haviam cometido.

Foi também o comunismo que instituiu o sistema de romper sem aviso prévio acordos internacionais, tratados de paz e compromissos comerciais, institucionalizando no mundo o do gangsterismo como norma de conduta diplomática, depois copiado por Hitler. Campos de concentração e de extermínio são também uma invenção comunista imitada pelo nazismo.

O governo comunista da URSS criou o maior sistema de espionagem interna de que se teve notícia na história humana, a KGB, e por meio dela tornou-se o primeiro governo essencialmente policial do mundo.

O comunismo foi ainda o primeiro regime a instituir em escala continental a mentira sistemática como padrão de ensino público, e a falsificação da ciência como meio de controle da opinião.

Que tudo isso possa ser um enorme tecido de coincidências, que não haja nenhuma conexão intrínseca entre todos esses horrores e a ideologia socialista, é somente mais uma mentira propagada por intelectuais ativistas cuja formação marxista os tornou para sempre cínicos, hipócritas e incapazes de qualquer sentimento moral.

A participação intensa de intelectuais marxistas na campanha pela “Ética na Política” é um sinal seguro de que essa campanha não moralizará a política, mas apenas politizará a ética, tornando-a uma serva de objetivos intrinsecamente imorais. Quem viver, verá. [ N. da 2a ed.. ] Exemplo característico da mutação da escala moral é a campanha contra a Aids. É mais do que evidente que a liberação sexual favorece a disseminação dessa doença. No entanto, jornalistas e agitadores culturais do mundo todo estão levando as pessoas a crer que o conservadorismo moral, particularmente católico, é o culpado pela difusão da Aids, na medida em que se opõe à distribuição de camisinhas. Fazer de um efeito desastroso da liberação sexual um argumento contra a moral conservadora é um truque sofístico que só ocorreria a mentalidades inteiramente perversas. Os liberacionistas dão com isso um exemplo horrendo de insensibilidade moral, de hipocrisia cínica. Ocultar suas próprias culpas por trás da acusação lançada a um inocente é um dos comportamentos mais baixos que se podem conceber. Por outro lado, do ponto de vista meramente prático, a esperança no poder das camisinhas é uma insensatez, para dizer o mínimo. Junto com ela vem a recusa de enxergar a parcela de razão que têm os religiosos nessa questão. Qual a taxa de Aids entre católicos praticantes, evangélicos, monges budistas, judeus ortodoxos, mussulmanos devotos? É praticamente nula. Uma bela campanha moralista, por desagradável que fosse ( e para mim também o seria, pois pessoalmente sou mais pela liberação ), faria mais para conter o avanço da Aids do que a distribuição de trilhões de camisinhas. Neste momento da história, qualquer campanha moralista, por boboca que nos pareça, é um empreendimento digno de louvor, uma contribuição à salvação da espécie humana. Se amanhã ou depois a população do Brasil aderir em peso aos Pentecostais, ao Bispo Macedo ou à Renovação Carismática, a Aids estará vencida entre nós. Isto é uma obviedade que só os intelectuais não enxergam. [ N. da 2a ed. ] Querem um retrato moral de Antonio Gramsci? Podem encontrá-lo numa das fábulas que, da prisão, ele remetia para que fossem lidas à sua filha:”Enquanto um menino dormia, um rato bebeu o leite que a mãe lhe havia preparado. Quando o menino acordou, pôs-se a chorar porque não encontrou o leite; a mãe, por seu lado, também chora. O rato tem remorsos, bate a cabeça contra a parede, mas finalmente percebe que aquilo de nada serve. Então, corre à cabra para conseguir mais leite. Mas a cabra diz ao rato que só lhe dará leite se tiver capim para comer. Então, o rato vai até o campo, mas o campo é árido e não pode dar capim se não for molhado antes. O rato vai à fonte, mas esta foi destruída pela guerra e a água se perde; é preciso que o pedreiro conserte a fonte. O pedreiro precisa das pedras, que o rato vai buscar numa montanha, mas a montanha está toda desmatada pelos especuladores. O rato conta toda a história e promete que o menino, quando crescer, plantará novas árvores na montanha. E assim a montanha dará as pedras, o pedreiro refará a fonte, a fonte dará a água, o campo dará o capim, a cabra fornecerá o leite e, finalmente, o menino poderá comer e não chorará mais.” ( Laurana Lajolo, Antonio Gramsci. Uma Vida , trad. Carlos Nelson Coutinho, São Paulo, Brasiliense, 1982. )As fábulas sempre foram, ao longo dos tempos, um depósito de símbolos portadores de um ensinamento espiritual. Por meio delas, a criança tinha o acesso ao conhecimento das possibilidades humanas mais elevadas, e este conhecimento, tanto mais potente porque cristalizado numa linguagem mágica e alusiva, bastava para defender sua alma da total imersão na banalidade esterilizante do meio adulto. Elas representavam, assim, o fio de continuidade do núcleo mais puro da alma humana no meio da agitação alienante da “História”.

Gramsci consegue aqui inverter a função da fábula, transformando-a num meio de ensinar à criança, com realismo literal, o processo de produção capitalista – da matéria-prima à comercialização – e para lhe inocular, de um só golpe, o ódio aos malditos especuladores e a esperança na futura utopia socialista, onde “tudo será mais belo”.

O que Gramsci fez com sua própria filha, por que não o faria com os filhos dos outros? É preciso que a pregação comunista atinja os cérebros enquanto ainda estão tenros e indefesos, e, fechando-lhes o acesso a toda concepção de ordem espiritual, os encerre para sempre no círculo de ferro da mundanidade “histórica” ( v. adiante, Cap. III ).

Gramsci revela aqui toda a mesquinhez da sua concepção do mundo, onde a economia é não só o motor da História, mas o limite final do horizonte humano.

Que um tipo desses possa ser objeto de culto sentimentalista entre os militantes, isto mostra que a ideologia comunista traz em seu bojo uma perversão dos sentimentos, uma mutilação da alma humana. É preciso muito agitprop para fazer de Gramsci um personagem digno de admiração. Mas entre militantes esquerdistas já vi sujeitos capazes de proferir toda sorte de blasfêmias contra a religião alheia terem tremeliques de emoção religiosa ante o santo nome de Antônio Gramsci. Essa sentimentalidade pseudo-religiosa não é um excesso de zelo: é a essência mesma do gramscismo, que beatifica o mundano para abafar e perverter o impulso religioso e transformá-lo em devoção partidária. Querem ver no que dá? Narrando a morte de Gramsci, a hagiógrafa Laurana Lajolo ( op. cit., p. 148 ) termina falando dos cadernos “nos quais Antônio Gramsci havia depositado, em sentido laico e historicista, a imortalidade da sua alma, a possibilidade de sobrevivência intelectual na história”. Só um gramsciano roxo é incapaz de enxergar o ridículo que há em teologizar a esse ponto a fama literária. Se a idéia valesse, os imortais da Academia já não seriam imortais figuradamente, mas literalmente – e nossas preces pela vida eterna não deveriam dirigir-se a Jesus Cristo, e sim à pessoa do sr. Josué Montello. [ N. da 2a ed. ] O fenômeno da pseudo-intelectualidade é um dos traços mais marcantes do chamado Terceiro Mundo, e é ela, não o proletariado ou as massas famintas, a base social dos movimentos revolucionários. Eric Hoffer, que examinou o assunto com mais seriedade do que ninguém, explica esse fenômeno pelas condições peculiares em que, nessa parte do globo, se deu, com a reforma modernizadora empreendida pelas potências Ocidentais, a quebra do modo de vida comunitário-patriarcal. Escrevendo no começo da década de 50, e mencionando nomeadamente a Ásia, ele fala em termos que se aplicam com precisão ao Brasil de hoje: “Em toda a Ásia, antes do advento da influência Ocidental, o indivíduo estava integrado num grupo mais ou menos compacto – a família patriarcal, o clã ou a tribo. Do nascimento à morte, sentia-se parte de um todo eterno e contínuo. Jamais se sentia sozinho, jamais se sentia perdido, jamais se via como um pedaço de vida flutuando numa eternidade de nada. A influência Ocidental [...] destruiu e corroeu a maneira tradicional de vida. O resultado não foi a emancipação, e sim o isolamento e o desamparo. Um indivíduo imaturo foi arrancado do calor e segurança de uma existência coletiva e deixado órfão num mundo frio.”O indivíduo recém-surgido pode atingir algum grau de estabilidade [...] somente quanto lhe oferecem abundantes oportunidades de auto-afirmação ou auto-realização. Somente assim ele poderá adquirir a autoconfiança e auto-estima [...]. Quando a autoconfiança e a auto-estima parecem inatingíveis, o indivíduo em formação torna-se uma entidade altamente explosiva. Tenta obter uma impressão de confiança e de valor abraçando alguma verdade absoluta e identificando-se com os atos espetaculares de um líder ou de algum corpo coletivo – seja uma nação, uma congregação, um partido ou um movimento de massa.”É necessário uma rara constelação de circunstâncias para que a transição de uma existência comunitária para a individual siga o seu curso sem ser desviada ou invertida por complicações catastróficas. [...] O indivíduo em surgimento na Europa, no fim da Idade Média, enxergou panoramas deslumbrantes de novos continentes, de novas rotas de comércio, de novos conhecimentos. O ar estava carregado de novas expectativas e havia a sensação de que o indivíduo por si só era capaz de qualquer empreendimento. A mudança [...] produziu uma explosão de vitalidade [...].

“Essa excepcional combinação de circunstâncias não estava presente na Ásia. Ali, ao invés de ser estimulado por perspectivas deslumbrantes e oportunidades jamais sonhadas, [ o indivíduo ] se viu enfrentando uma vida estagnada, debilitada, e extraordinariamente pobre. É um mundo onde a vida humana é a coisa mais abundante e barata. É, além disso, um mundo analfabeto. [...] “A minoria letrada é, assim, impedida de adquirir um senso de utilidade e de valor tomando parte no mundo do trabalho, e é condenada a uma vida de pseudo-intelectuais tagarelas e cheios de pose.

“O extremista da Ásia é hoje geralmente um homem de certa instrução que tem horror ao trabalho manual e um ódio mortal pela ordem social que lhe nega uma posição de comando. Todo estudante, todo escriturário e funcionário menos graduado se sente como um escolhido. É essa gente palavrosa e fútil que dá o tom na Ásia. Vivendo vidas estéreis e inúteis, não possuem autoconfiança e auto-respeito, e anseiam pela ilusão de peso e importância.

“É principalmente a esses pseudo-intelectuais que a Rússia comunista dirige seu apelo. Traz-lhes a promessa de tornarem-se membros de uma elite governante, a perspectiva de terem ação no processo histórico e, com seu falatório doutrinário, proporciona-lhes uma sensação de peso e profundidade.” ( Eric Hoffer, The Ordeal of Change , London, Sidgwick & Jackson, 1952; trad. brasileira de Sylvia Jatobá, O Intelectual e as Massas, Rio, Lidador, 1969, pp. 16 ss..) É a descrição exata da liderança petista. [ N. da 2a. ed.. ] A proposta do PT, de dar prêmios aos cidadãos que delatem casos de corrupção, seria repelida com horror se apresentada uns anos atrás, quando a corrupção não era menor mas os sentimentos morais da população brasileira conservavam uns vestígios de normalidade porque ainda não tinham sido corrompidos pela “campanha da Ética”. Hoje, é aceita com aplausos dos que não percebem nela aquilo que ela verdadeiramente é: a instauração do Estado policial em nome da moralidade, a corrupção de todas as relações humanas pela universalização da suspeita, o incentivo à espionagem de todos contra todos. Para que o Estado não perca dinheiro, será preciso que todos os brasileiros percam a dignidade e o respeito próprio, transformando-se em alcagüetes premiados. [ N. da 2a ed. ] Escrito para a 2a. edição.

Roger Scruton, Thinkers of the New Left , Harlow ( Essex ), Longman, 1985. [ N. da 2a. ed. ] Alfredo Sáenz, s. J., “La estratégia ateísta de Antonio Gramsci”, em Ateísmo y Vigencia del Pensamiento Católico. Actas del Cuarto Congreso Catolico Argentino de Filosofía , Córdoba, Asociación Católica Interamericana de Filosofía, 1988, pp. 355-366. [ N. da 2a. ed.. ] “A revolução passiva”, O Globo, 28 de junho de 1994.

A Nova Era E A Revolucao Cultural Prefacio A Segunda Edicao (2)

Data N/A | DECORRIDOS alguns meses da primeira edição, rapidamente esgotada, os acontecimentos não fizeram senã

.

Esse fenômeno é, em parte, efeito passivo da crise da inteligência norte-americana, como explico num outro livro que deverá sair logo após esta segunda edição 2 .

Mas, de outro lado, ele é também o resultado de uma política deliberadamente conduzida pelos movimentos de esquerda, interessados em reduzir toda a vida intelectual brasileira a um coro unanimista de reclamações. O rebaixamento das artes, da filosofia e até de algumas ciências à condição de megafones da propaganda revolucionária, que os melhores pensadores marxistas sempre rejeitaram como uma tentação aviltante, tornou-se a praxe estabe lecida, que ninguém ousa contestar, menos pelo temor de um revide explícito do que pela certeza absoluta de que seus ouvintes já não poderão compreendê-lo, tão longe estão de imaginar que a cultura possa ter outros e mais elevados fins. Pois o dogma da cultura militante não se adotou como opção consciente, vencedora no confronto com outras concepções possíveis, mas se infiltrou sorrateiramente, como um pressuposto implícito, aproveitando-se da ignorância das novas gerações, que ao despertarem para o mundo da “cultura” já a encontram identificada à propaganda ideológica como se este fosse o seu estado natural e seu destino eterno. O pior é que essa propaganda já não transmite sequer idéias ou símbolos de uma doutrina revolucionária, mas limita-se a repetir, de maneira rasa, literal e direta, as reivindicações do dia: fora Collor, morte aos corruptos, viva o Betinho, queremos sexo. Todos os anões do Congresso, reunidos e somados, não fizeram tanto mal a este país quanto essa prostituição completa da inteligência às ambições políticas imediatas e às paixões mais corriqueiras. O dinheiro perdido pode-se ganhar novamente; o espírito, quando se vai, não volta mais. Os templos abandonados — é a experiência universal — tornam-se para sempre covis de feiticeiros e bandidos.

Pelo efeito conjugado da decadência norte-americana e da ação local tendente a amassar e fundir todos os cérebros deste país na fôrma sem rosto do “intelectual coletivo” gramsciano, o fato é que a inteligência nacional está indo ladeira abaixo, ao mesmo tempo que sobe, das ruas e dos campos, o rumor sombrio de uma revolução em marcha.

Sim, o Brasil está inequivocamente entrando numa atmosfera de revolução comunista. A imbecilização não é senão um sintoma: o temporário obscurecimento da luz, mencionado pelo I Ching , no qual se geram, entre as dobras da noite, os monstros que irão povoar as visões de um despertar temível.

Esses monstros já não são tão pequenos para que um olhar atento não consiga enxergá-los e espantar-se com a velocidade com que vão crescendo no ventre da inconsciência nacional.

O próprio unanimismo da intelectualidade é um dos sinais. Mas outro, aparentemente contraditório, é a proliferação das reivindicações gremiais, do espírito de divisão, na hora em que o país mais necessita do sacrifício das partes pelo bem do todo. Em cada classe, em cada região, em cada sindicato, em cada empresa, em cada família, em cada alma, o que se nota é um sentimento agudo e exasperado dos próprios direitos e o completo amortecimento do senso do dever. É o predomínio desastroso do reivindicar e protestar sobre o criar e oferecer. Quanto menos cumpre sua obrigação, mais cada um se crê no direito de acusar o próximo. O governo reprime os aumentos abusivos de preços enquanto protege as elevadas taxas de juros e alimenta a gigantesca tênia petrolífera que pela majoração periódica dos combustíveis vai marcando o compasso para a subida generalizada do custo de vida. O pai de família vocifera contra a corrupção dos políticos enquanto solicita a um contador que “dê uns retoques” na sua declaração de rendimentos para tornar mais verossímil a mentira que o isentará do imposto. As empresas censuram o governo no instante mesmo em que elevam os preços de seus produtos e serviços acima de tudo quanto permite a lei e recomenda a decência. A esquerda clama contra as oligarquias enquanto promove greves de funcionários públicos voltadas diretamente contra os direitos da população. Os intelectuais e artistas clamam contra as injustiças enquanto levam vida de príncipes às expensas do erário público. A imprensa acusa, delata, aponta homens e instituições ao opróbrio, enquanto discretamente, em congressos de profissionais longe dos olhos da multidão, confessa sua própria falta de decoro, ética e dignidade. Os sem-terra exibem diante das câmeras sua pobreza comovente enquanto gastam fortunas em operações paramilitares que o próprio exército não teria verba para sustentar. O discurso do unanimismo , como o coro entusiástico das torcidas durante a Copa, não é senão um Ersatz , a ostentação de uma unidade postiça que encobre a luta covarde e sem regras de todos contra todos. O egoísmo, a inconsciência, a maldade ganham terreno a cada nova investida da “campanha pela Ética”.

Quia bono?

A quem aproveita o crime? Quem lucra com a dilaceração da alma nacional num confronto vil de todos os egoismos e de todas as inconsciências? As pesquisas de opinião respondem que, de todos os brasileiros, o único que não tem medo de ser feliz já ganhou quarenta por cento das intenções de voto para a Presidência.

Poderia ser uma coincidência, o efeito acidental de uma conjuntura. Mas, recuando em busca das suas raízes, vemos que esse efeito foi longamente desejado e meticulosamente preparado pela mais hábil e talentosa geração de intelectuais ativistas já nascida neste país. A geração que, derrotada pela ditadura militar, abandonou os sonhos de chegar ao poder pela luta armada e se dedicou, em silêncio, a uma revisão de sua estratégia, à luz dos ensinamentos de Antonio Gramsci. O que Gramsci lhe ensinou foi abdicar do radicalismo ostensivo para ampliar a margem de alianças; foi renunciar à pureza dos esquemas ideológicos aparentes para ganhar eficiência na arte de aliciar e comprometer; foi recuar do combate político direto para a zona mais profunda da sabotagem psicológica. Com Gramsci ela aprendeu que uma revolução da mente deve preceder a revolução política; que é mais importante solapar as bases morais e culturais do adversário do que ganhar votos; que um colaborador inconsciente e sem compromisso, de cujas ações o partido jamais possa ser responsabilizado, vale mais que mil militantes inscritos. Com Gramsci ela aprendeu uma estratégia tão vasta em sua abrangência, tão sutil em seus meios, tão complexa e quase contraditória em sua pluralidade simultânea de canais de ação, que é praticamente impossível o adversário mesmo não acabar colaborando com ela de algum modo, tecendo, como profetizou Lênin, a corda com que será enforcado.

A conversão formal ou informal, consciente ou inconsciente da intelectualidade de esquerda à estratégia de Antonio Gramsci é o fato mais relevante da História nacional dos últimos trinta anos. É nela, bem como em outros fatores concordantes e convergentes, que se deve buscar a origem das mutações psicológicas de alcance incalculável que lançam o Brasil numa situação claramente pré-revolucionária, que até o momento só dois observadores, além do autor deste livro, souberam assinalar, e aliás mui discretamente 3 .

A expectativa, a esperança, o anseio da revolução são tão velhos, tão arraigados na alma da intelligentzia nacional 4 que, mesmo diante do fracasso mundial do socialismo, ela não terá forças para resistir à tentação de fazê-la, agora que a conjuntura local, pela primeira vez na nossa História, lhe oferece os meios de chegar ao poder. O Brasil, de fato, tem um descompasso crônico em relação ao tempo da História universal. O reconhecimento mundial da debacle do comunismo ecoou neste país — paradoxalmente, segundo a lógica humana, mas coerentemente, segundo a linha constante da História nacional — como um toque de esperança: chegou a nossa vez de conquistar aquilo que já ninguém mais quer.

Durante algum tempo, nutri a insensata esperança de que o PT expeliria de si o veneno gramsciano e se transformaria no grande partido socialista, ou trabalhista, de que o Brasil precisa para compensar, na defesa do interesse dos pequenos, o avanço neoliberal aparentemente irreversível no mundo, e propiciar, pelo sadio jogo de forças, o movimento regular e harmônico da rotatividade do poder que é a pulsação normal do organismo democrático. Movido por essa ilusão, votei em Lula para presidente. Hoje não votaria nele nem para vereador em São Bernardo. É que, pela sucessão de acontecimentos desde a campanha do impeachment , o PT mostrou sua vocação, para mim surpreendente, de partido manipulador e golpista, capaz de conduzir o país às vias fraudulentas da “revolução passiva” gramsciana, usando para isso dos meios mais covardes e ilícitos — a espionagem política, a chantagem psicológica, a prostituição da cultura, o boicote a medidas saneadoras, a agitação histérica que apela aos sentimentos mais baixos da população —, e de adornar esse pacote de sujidades com um discurso moralista que recende a sacristia. O partido que, para sabotar um candidato, promove no lançamento da nova moeda algo como uma “greve preventiva” sob a espantosa alegação de uma possibilidade teórica de danos salariais futuros, sabendo que essa greve resultará em aumento do preço dos combustíveis e em retomada do ciclo inflacionário, dando facticiamente confirmação retroativa aos danos anunciados, é que, francamente, decidiu imitar o capeta: produz o mal para no ventre dele gerar o ódio, e no ventre do ódio o discurso de acusação. A greve dos petroleiros não deu certo, mas ela é o mais puro exemplo do que o povo denomina “apelação”: o recurso extremo usado para fins levianos.

Se o PT faz isso, é porque perdeu sua confiança no futuro majestoso a que o destinava a nossa democracia em formação, e, excitado por indícios de um sucesso momentâneo que teme não repetir-se nunca mais, resolveu apostar tudo no jogo voraz e suicida do it’s now or never . Não quer mais apenas eleger o presidente, governar bem, submeter seu desempenho ao julgamento popular daqui a cinco anos, fazer História no ritmo lento e natural dos moinhos dos deuses: quer tomar o poder, fazer a Revolução, desmantelar os adversários, expelir da política para sempre os que poderiam derrotá-lo em eleições futuras. Nos termos da poesia de Murillo Mendes, preferiu, às “lentas sandálias do bem, as velozes hélices do mal”. A mitologia gramsciana, diagnosticando pomposamente a “transição para um novo bloco histórico”, deu uma legitimação verbal a essas pretensões, e eis que o Brasil, mal tendo ingressado no caminho da democracia, já se apressa a abandoná-lo pelo atalho da Revolução. Aonde ele leva, é algo que o mundo sabe, mas que importa o conhecimento do mundo às hordas de menores-de-idade que a lisonja esquerdista consagrada em norma constitucional transformou na parcela decisiva do eleitorado, dando-lhes poder antes de lhes dar educação? O que importa é aproveitar o momento, levar a todo preço o Lulalá, carregado nos ombros de garotos raivosos, insolentes e analfabetos, e, antes que o “consenso passivo” da população tenha tempo de avaliar o que se passa, atrelar irreversivelmente o país ao carro-bomba que se precipita, morro abaixo, no rumo da Revolução.

A geração que atingiu a idade adulta no momento em que a ditadura fechava as portas de acesso à vida política está agora com cinqüenta anos. Ao longo dos últimos trinta ela esperou, sonhou, planejou, desejou, cobiçou entre lágrimas de rancor impotente, e, sobretudo, leu muito Antonio Gramsci. Que a Revolução socialista já tenha mostrado ao mundo sua verdadeira face, que ela já tenha provado cabalmente que não vale a pena , isto pouco interessa. A geração dos guerrilheiros fará o que longamente se preparou para fazer. Pouco importa que, pelo relógio do mundo, tenha passado a hora. O fim da festa é, para o catador de lixo, o sinal de que a sua festa está para começar.

Por essas razões é que este livro, aparentemente constituído de pedaços inconexos, começa a mostrar, pela força dos acontecimentos externos, a unidade que, no plano literário, o autor não teve o tempo ou o engenho de lhe dar. Sob a aparência comprometedora de uma salada histórica que mistura Lênin, o I Ching , Max Weber, Freud e o Comando Vermelho, ele aponta, pela ordem e, segundo creio, com lógica, o sintoma e a causa da doença da intelectualidade brasileira: a origem ao menos parcial da nossa vulnerabilidade à falsa mensagem do sr. Capra está nas idéias de Antonio Gramsci, transformadas em prática pela geração de intelectuais esquerdistas que, na Ilha Grande, fez ofício de parteira do Comando Vermelho, e que agora dá o tom da vida mental neste país. Se, na primeira edição, não consegui dar desse fenômeno uma exposição seguida e coesa, tendo de adotar, em vez disso, um enfoque prismático e desnivelado, antes sugerindo em fragmentos do que declarando por extenso o sentido do conjunto, não foi por nenhuma intenção profunda: foi por autêntica incapacidade de fazer de outro modo. Mas não creio, por isto, merecer censura: afinal, aqui foi dito aos trancos e pedaços o que ninguém mais disse de maneira alguma. Do primeiro a esboçar a unidade de um quadro confuso, não se exige que seja completo; e do primeiro a anunciar um perigo terrível, não se exige que fale claro e ordenado segundo o bom estilo. Esbaforido e gaguejante, semilouco e abstruso, ele afinal presta um serviço de emergência. Como diz um provérbio árabe: “Não repares em quem sou, mas recebe o que te dou.”

5 Rio de Janeiro, junho de 1994.

NOTA PRÉVIA [ DA 1 A EDIÇÃO ] A “NOVA ERA” da qual Fritjof Capra se tornou festejado porta-voz e a “Revolução Cultural” de Antonio Gramsci têm algo em comum: ambas pretendem introduzir no espírito humano modificações vastas, profundas e irreversíveis. Ambas convocam à ruptura com o passado, e propõem à humanidade um novo céu e uma nova terra.

A primeira vem alcançando imensa repercussão nos círculos científicos e empresariais brasileiros. A segunda, sem fazer tanto barulho, exerce há três décadas uma influência marcante no curso da vida política e cultural neste país.

Nenhuma das duas foi jamais submetida ao mais breve exame crítico. Aceitas por mera simpatia à primeira vista, penetram, propagam-se, ganham poder sobre as consciências, tornam-se forças decisivas na condução da vida de milhões de pessoas que jamais ouviram falar delas, mas que padecem os efeitos do seu impacto cultural.

Para os adeptos e propagadores conscientes das duas novas propostas, nada mais reconfortante do que a passividade atônita com que o público letrado brasileiro tudo recebe, tudo admite, tudo absorve e copia, com aquele talento para a imitação maquinal que compensa a falta de verdadeira inteligência.

Mas a Revolução Cultural de Gramsci e o movimento da “Nova Era” não são simples modas, que se possam adotar e abandonar à vontade, com a despreocupação de quem troca de cuecas. São propostas de imensa envergadura, que, uma vez aceitas, mesmo implicitamente, mesmo informalmente, mesmo hipoteticamente, levam a conseqüências de alcance incalculável. Essas conseqüências não pouparão, decerto, aqueles que tiverem aderido às suas causas por mero passatempo, sem uma clara consciência das responsabilidades em jogo. Não pouparão ninguém que esteja dentro do seu raio de ação. E todos estamos.

É, portanto, uma leviandade suicida absorver idéias como essas sem um exame crítico preliminar. É este exame que inauguro no presente livreto, ciente de que, ao fazê-lo, me adianto a uma lerda opinião pública que nem de longe levantou ainda as questões aqui discutidas, mas nem por isto o faço com menor atraso em relação às exigências de minha própria consciência, que me cobra este trabalho desde que pela primeira vez falei em público sobre estes assuntos, em l987. Falador prolífico, sou tardo em escrever, motivo pelo qual meu sentimento de urgência se transforma, às vezes, em sentimento de culpa. A urgência, no caso, era a de esclarecer a ligação entre aquelas duas correntes de pensamento; ligação que, uma vez percebida, revela a inconsistência de ambas, e de ambas nos liberta. Por não percebê-la, a mente brasileira gira hoje em falso em torno do eixo balizado por esses dois pólos. Pelo número de adeptos e pelos postos estratégicos que alguns destes ocupam na sociedade, Capra e Gramsci dominam as duas correntes mentais mais atuantes deste país. O fato de que jamais tenham sido confrontados e de que a idéia mesma de confrontá-los soe estranha mostra apenas que o país não tem clara consciência das alternativas em que se debate, e que a vida mental nele tende a cindir-se em devoções estanques a deuses que se desconhecem mutuamente e que mutuamente se hostilizam nas trevas, como espadachins vendados. Trata-se portanto, aqui, de esclarecer um conflito subconsciente, em que o destino de um país se decide entre as sombras de um sonho. Brasil sonâmbulo: para que sustentas com dinheiro e lisonjas os teus intelectuais, se não é para te revelarem a ti mesmo, para te dizerem o que se passa contigo para além da superfície do noticiário?

Os três capítulos que compõem este livro reproduzem, tanto quanto possível, o conteúdo de aulas e conferências que dei sobre os respectivos temas, seja no Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades , que dirijo no Instituto de Artes Liberais, seja fora dele. O capítulo sobre Fritjof Capra foi redigido e distribuído aos meus alunos em setembro de l993, quando se anunciava a próxima vinda ao Brasil do guru da Nova Era, promovida pela Universidade Holística de Brasília. Os outros, seus naturais complementos como se verá, foram escritos agora em fevereiro de l994, especialmente para este livro. Os apêndices ilustram detalhes que importam à compreensão do Cap. II.

Reconheço que, ao menos quanto a Gramsci, o exame que apresento é superficial, que haveria ainda milhares de coisas a dizer que aqui não foram ditas.

6 Mas alguém tem de começar, e, na falta de melhores cérebros que se dispusessem a digerir o assunto, a coisa sobrou para mim. Quanto a Capra, ele está longe de representar a “Nova Era” na sua totalidade; embora alguns vejam nele uma síntese desse movimento, ele constitui apenas um seu sintoma, ainda que agudo e sonante. Que ninguém me censure, portanto, a incompletude destas análises: minhas amostras levam o rótulo de amostras, com altiva modéstia. Também não tem, este trabalho, a menor pretensão de interferir no curso das coisas. Seu único anseio é fornecer, aos que tenham um sincero desejo de compreender os acontecimentos, alguns meios de fazê-lo. Ora, os que têm esse desejo são sempre poucos, no meio do vozerio, entusiástico ou ameaçador, dos que crêem já saber tudo e que não aguardam senão com impaciência que o mundo se curve às suas propostas. Àqueles poucos e silenciosos, portanto, é dedicado este trabalho. Dentre eles, destaco o romancista Herberto Sales, que leu em versão datilográfica o primeiro capítulo e lhe fez referências generosas, que agradeço comovido. Tanto mais comovido porque, se eu tivesse de escolher um guru estilístico, ele não seria outro, na presente fase da nossa literatura, senão Herberto Sales. Destaco ainda o valente grupo de alunos e ouvintes que há anos acompanha meu trabalho com um interesse que me reconforta.

Rio, fevereiro de 1994 Olavo de Carvalho NOTAS José Arthur Gianotti, “Conversa com Richard Rorty”, Jornal do Brasil , 26 de maio de 1994. É no mínimo estranho que um homem como Gianotti, tão valente ao expor idéias políticas mesmo quando lhe atraiam a ira dos sumos-sacerdotes da esquerda nacional, se cubra de cautelas ao criticar um pensamento tão vulnerável como o de Rorty. Explica-se, talvez, pela crônica timidez uspiana, inibição intelectual que se tornou, em versão fetichizada, a caricatura tupiniquim do “rigor” ensinado pelos primeiros mestres — franceses — fundadores da USP. O “rigor” uspiano é na verdade moleza, tremor da geléia terceiromundana ante a autoridade dos ídolos da moda — compensação junguiana pela petulância ante o legado espiritual do passado. Mesmo em sua versão original européia, herdeira de nobres tradições filosóficas, um rigorismo acadêmico inibitório torna-se muitas vezes o refúgio comunitário onde o intelecto mal dotado vai abrigar-se contra os perigos da investigação solitária — vale dizer, contra o exercício mesmo da filosofia. O verdadeiro rigor filosófico, ao contrário, é pura coragem interior, não se curva senão ante a evidência e não tem nada de temor reverencial adolescente ( ou colonial ) ante os prestígios acadêmicos do dia. Com a ascensão da intelectualidade paulista ao primeiro plano da vida nacional, a inversão uspiana do rigor, que devota ao prestígio o culto que nega à verdade, ameaça contaminar o pensamento brasileiro como um todo, selando a morte da inteligência nesta parte do mundo. Nada vai aqui contra Gianotti, homem capaz e correto, que só peca por admirar quem não merece — ou por fingir admirar, talvez, já que o floreio bajulatório involuntariamente irônico é outra marca registrada do estilo uspiano, onde faz as vezes de polidez acadêmica.

O Imbecil Coletivo. Atualidades Inculturais Brasileiras , Rio, IAL & Stella Caymmi Editora, 1994, que forma, com o presente volume e com O Jardim das Ilusões. Epicuro e a Revolução Gnóstica , que também virá a público em breve, uma trilogia dedicada ao estudo da patologia cultural brasileira na presente fase da nossa História.

Um deles foi Fernando Henrique Cardoso ( Jornal do Brasil , 11 nov. 93 ), um homem que conhece as esquerdas muito bem e que, por isto mesmo, sentiu o dever de se opor a elas no momento em que mais poderia ajudá-las. O outro foi Oliveiros da Silva Ferreira, que vem explorando o assunto em vários artigos publicados em O Estado de S. Paulo .

O mito da Revolução Brasileira é um componente ativo do pathos esquerdista desde a década de 30. “Fadado a um grande destino, o Brasil seria a terceira grande revolução neste século. A primeira, a União Soviética, segunda a República Popular da China, e a terceira, a República Democrática Popular do Brasil” ( Luís Mir, A Revolução Impossível , São Paulo, Best Seller, 1994, p. 10 ).

Nada retirei nem alterei do original nesta Segunda Edição, apenas corrigi erros de grafia, acrescentei este Prefácio, uns quantos adendos, e adendos de adendos, e muitas notas de rodapé. O leitor austero achará que são excrescências complicatórias, mas gosto delas justamente por isso, porque eliminam do texto a enganosa linearidade e lhe dão aquele aspecto vivente de rede nervosa, de trama vegetal, que faz com que, precisamente, um texto seja um texto.

A Nova Era E A Revolucao Cultural Prefacio A Segunda Edicao

Data N/A | DECORRIDOS alguns meses da primeira edição, rapidamente esgotada, os acontecimentos não fizeram senã

.

Esse fenômeno é, em parte, efeito passivo da crise da inteligência norte-americana, como explico num outro livro que deverá sair logo após esta segunda edição 2 .

Mas, de outro lado, ele é também o resultado de uma política deliberadamente conduzida pelos movimentos de esquerda, interessados em reduzir toda a vida intelectual brasileira a um coro unanimista de reclamações. O rebaixamento das artes, da filosofia e até de algumas ciências à condição de megafones da propaganda revolucionária, que os melhores pensadores marxistas sempre rejeitaram como uma tentação aviltante, tornou-se a praxe estabe lecida, que ninguém ousa contestar, menos pelo temor de um revide explícito do que pela certeza absoluta de que seus ouvintes já não poderão compreendê-lo, tão longe estão de imaginar que a cultura possa ter outros e mais elevados fins. Pois o dogma da cultura militante não se adotou como opção consciente, vencedora no confronto com outras concepções possíveis, mas se infiltrou sorrateiramente, como um pressuposto implícito, aproveitando-se da ignorância das novas gerações, que ao despertarem para o mundo da “cultura” já a encontram identificada à propaganda ideológica como se este fosse o seu estado natural e seu destino eterno. O pior é que essa propaganda já não transmite sequer idéias ou símbolos de uma doutrina revolucionária, mas limita-se a repetir, de maneira rasa, literal e direta, as reivindicações do dia: fora Collor, morte aos corruptos, viva o Betinho, queremos sexo. Todos os anões do Congresso, reunidos e somados, não fizeram tanto mal a este país quanto essa prostituição completa da inteligência às ambições políticas imediatas e às paixões mais corriqueiras. O dinheiro perdido pode-se ganhar novamente; o espírito, quando se vai, não volta mais. Os templos abandonados — é a experiência universal — tornam-se para sempre covis de feiticeiros e bandidos.

Pelo efeito conjugado da decadência norte-americana e da ação local tendente a amassar e fundir todos os cérebros deste país na fôrma sem rosto do “intelectual coletivo” gramsciano, o fato é que a inteligência nacional está indo ladeira abaixo, ao mesmo tempo que sobe, das ruas e dos campos, o rumor sombrio de uma revolução em marcha.

Sim, o Brasil está inequivocamente entrando numa atmosfera de revolução comunista. A imbecilização não é senão um sintoma: o temporário obscurecimento da luz, mencionado pelo I Ching , no qual se geram, entre as dobras da noite, os monstros que irão povoar as visões de um despertar temível.

Esses monstros já não são tão pequenos para que um olhar atento não consiga enxergá-los e espantar-se com a velocidade com que vão crescendo no ventre da inconsciência nacional.

O próprio unanimismo da intelectualidade é um dos sinais. Mas outro, aparentemente contraditório, é a proliferação das reivindicações gremiais, do espírito de divisão, na hora em que o país mais necessita do sacrifício das partes pelo bem do todo. Em cada classe, em cada região, em cada sindicato, em cada empresa, em cada família, em cada alma, o que se nota é um sentimento agudo e exasperado dos próprios direitos e o completo amortecimento do senso do dever. É o predomínio desastroso do reivindicar e protestar sobre o criar e oferecer. Quanto menos cumpre sua obrigação, mais cada um se crê no direito de acusar o próximo. O governo reprime os aumentos abusivos de preços enquanto protege as elevadas taxas de juros e alimenta a gigantesca tênia petrolífera que pela majoração periódica dos combustíveis vai marcando o compasso para a subida generalizada do custo de vida. O pai de família vocifera contra a corrupção dos políticos enquanto solicita a um contador que “dê uns retoques” na sua declaração de rendimentos para tornar mais verossímil a mentira que o isentará do imposto. As empresas censuram o governo no instante mesmo em que elevam os preços de seus produtos e serviços acima de tudo quanto permite a lei e recomenda a decência. A esquerda clama contra as oligarquias enquanto promove greves de funcionários públicos voltadas diretamente contra os direitos da população. Os intelectuais e artistas clamam contra as injustiças enquanto levam vida de príncipes às expensas do erário público. A imprensa acusa, delata, aponta homens e instituições ao opróbrio, enquanto discretamente, em congressos de profissionais longe dos olhos da multidão, confessa sua própria falta de decoro, ética e dignidade. Os sem-terra exibem diante das câmeras sua pobreza comovente enquanto gastam fortunas em operações paramilitares que o próprio exército não teria verba para sustentar. O discurso do unanimismo , como o coro entusiástico das torcidas durante a Copa, não é senão um Ersatz , a ostentação de uma unidade postiça que encobre a luta covarde e sem regras de todos contra todos. O egoísmo, a inconsciência, a maldade ganham terreno a cada nova investida da “campanha pela Ética”.

Quia bono?

A quem aproveita o crime? Quem lucra com a dilaceração da alma nacional num confronto vil de todos os egoismos e de todas as inconsciências? As pesquisas de opinião respondem que, de todos os brasileiros, o único que não tem medo de ser feliz já ganhou quarenta por cento das intenções de voto para a Presidência.

Poderia ser uma coincidência, o efeito acidental de uma conjuntura. Mas, recuando em busca das suas raízes, vemos que esse efeito foi longamente desejado e meticulosamente preparado pela mais hábil e talentosa geração de intelectuais ativistas já nascida neste país. A geração que, derrotada pela ditadura militar, abandonou os sonhos de chegar ao poder pela luta armada e se dedicou, em silêncio, a uma revisão de sua estratégia, à luz dos ensinamentos de Antonio Gramsci. O que Gramsci lhe ensinou foi abdicar do radicalismo ostensivo para ampliar a margem de alianças; foi renunciar à pureza dos esquemas ideológicos aparentes para ganhar eficiência na arte de aliciar e comprometer; foi recuar do combate político direto para a zona mais profunda da sabotagem psicológica. Com Gramsci ela aprendeu que uma revolução da mente deve preceder a revolução política; que é mais importante solapar as bases morais e culturais do adversário do que ganhar votos; que um colaborador inconsciente e sem compromisso, de cujas ações o partido jamais possa ser responsabilizado, vale mais que mil militantes inscritos. Com Gramsci ela aprendeu uma estratégia tão vasta em sua abrangência, tão sutil em seus meios, tão complexa e quase contraditória em sua pluralidade simultânea de canais de ação, que é praticamente impossível o adversário mesmo não acabar colaborando com ela de algum modo, tecendo, como profetizou Lênin, a corda com que será enforcado.

A conversão formal ou informal, consciente ou inconsciente da intelectualidade de esquerda à estratégia de Antonio Gramsci é o fato mais relevante da História nacional dos últimos trinta anos. É nela, bem como em outros fatores concordantes e convergentes, que se deve buscar a origem das mutações psicológicas de alcance incalculável que lançam o Brasil numa situação claramente pré-revolucionária, que até o momento só dois observadores, além do autor deste livro, souberam assinalar, e aliás mui discretamente 3 .

A expectativa, a esperança, o anseio da revolução são tão velhos, tão arraigados na alma da intelligentzia nacional 4 que, mesmo diante do fracasso mundial do socialismo, ela não terá forças para resistir à tentação de fazê-la, agora que a conjuntura local, pela primeira vez na nossa História, lhe oferece os meios de chegar ao poder. O Brasil, de fato, tem um descompasso crônico em relação ao tempo da História universal. O reconhecimento mundial da debacle do comunismo ecoou neste país — paradoxalmente, segundo a lógica humana, mas coerentemente, segundo a linha constante da História nacional — como um toque de esperança: chegou a nossa vez de conquistar aquilo que já ninguém mais quer.

Durante algum tempo, nutri a insensata esperança de que o PT expeliria de si o veneno gramsciano e se transformaria no grande partido socialista, ou trabalhista, de que o Brasil precisa para compensar, na defesa do interesse dos pequenos, o avanço neoliberal aparentemente irreversível no mundo, e propiciar, pelo sadio jogo de forças, o movimento regular e harmônico da rotatividade do poder que é a pulsação normal do organismo democrático. Movido por essa ilusão, votei em Lula para presidente. Hoje não votaria nele nem para vereador em São Bernardo. É que, pela sucessão de acontecimentos desde a campanha do impeachment , o PT mostrou sua vocação, para mim surpreendente, de partido manipulador e golpista, capaz de conduzir o país às vias fraudulentas da “revolução passiva” gramsciana, usando para isso dos meios mais covardes e ilícitos — a espionagem política, a chantagem psicológica, a prostituição da cultura, o boicote a medidas saneadoras, a agitação histérica que apela aos sentimentos mais baixos da população —, e de adornar esse pacote de sujidades com um discurso moralista que recende a sacristia. O partido que, para sabotar um candidato, promove no lançamento da nova moeda algo como uma “greve preventiva” sob a espantosa alegação de uma possibilidade teórica de danos salariais futuros, sabendo que essa greve resultará em aumento do preço dos combustíveis e em retomada do ciclo inflacionário, dando facticiamente confirmação retroativa aos danos anunciados, é que, francamente, decidiu imitar o capeta: produz o mal para no ventre dele gerar o ódio, e no ventre do ódio o discurso de acusação. A greve dos petroleiros não deu certo, mas ela é o mais puro exemplo do que o povo denomina “apelação”: o recurso extremo usado para fins levianos.

Se o PT faz isso, é porque perdeu sua confiança no futuro majestoso a que o destinava a nossa democracia em formação, e, excitado por indícios de um sucesso momentâneo que teme não repetir-se nunca mais, resolveu apostar tudo no jogo voraz e suicida do it’s now or never . Não quer mais apenas eleger o presidente, governar bem, submeter seu desempenho ao julgamento popular daqui a cinco anos, fazer História no ritmo lento e natural dos moinhos dos deuses: quer tomar o poder, fazer a Revolução, desmantelar os adversários, expelir da política para sempre os que poderiam derrotá-lo em eleições futuras. Nos termos da poesia de Murillo Mendes, preferiu, às “lentas sandálias do bem, as velozes hélices do mal”. A mitologia gramsciana, diagnosticando pomposamente a “transição para um novo bloco histórico”, deu uma legitimação verbal a essas pretensões, e eis que o Brasil, mal tendo ingressado no caminho da democracia, já se apressa a abandoná-lo pelo atalho da Revolução. Aonde ele leva, é algo que o mundo sabe, mas que importa o conhecimento do mundo às hordas de menores-de-idade que a lisonja esquerdista consagrada em norma constitucional transformou na parcela decisiva do eleitorado, dando-lhes poder antes de lhes dar educação? O que importa é aproveitar o momento, levar a todo preço o Lulalá, carregado nos ombros de garotos raivosos, insolentes e analfabetos, e, antes que o “consenso passivo” da população tenha tempo de avaliar o que se passa, atrelar irreversivelmente o país ao carro-bomba que se precipita, morro abaixo, no rumo da Revolução.

A geração que atingiu a idade adulta no momento em que a ditadura fechava as portas de acesso à vida política está agora com cinqüenta anos. Ao longo dos últimos trinta ela esperou, sonhou, planejou, desejou, cobiçou entre lágrimas de rancor impotente, e, sobretudo, leu muito Antonio Gramsci. Que a Revolução socialista já tenha mostrado ao mundo sua verdadeira face, que ela já tenha provado cabalmente que não vale a pena , isto pouco interessa. A geração dos guerrilheiros fará o que longamente se preparou para fazer. Pouco importa que, pelo relógio do mundo, tenha passado a hora. O fim da festa é, para o catador de lixo, o sinal de que a sua festa está para começar.

Por essas razões é que este livro, aparentemente constituído de pedaços inconexos, começa a mostrar, pela força dos acontecimentos externos, a unidade que, no plano literário, o autor não teve o tempo ou o engenho de lhe dar. Sob a aparência comprometedora de uma salada histórica que mistura Lênin, o I Ching , Max Weber, Freud e o Comando Vermelho, ele aponta, pela ordem e, segundo creio, com lógica, o sintoma e a causa da doença da intelectualidade brasileira: a origem ao menos parcial da nossa vulnerabilidade à falsa mensagem do sr. Capra está nas idéias de Antonio Gramsci, transformadas em prática pela geração de intelectuais esquerdistas que, na Ilha Grande, fez ofício de parteira do Comando Vermelho, e que agora dá o tom da vida mental neste país. Se, na primeira edição, não consegui dar desse fenômeno uma exposição seguida e coesa, tendo de adotar, em vez disso, um enfoque prismático e desnivelado, antes sugerindo em fragmentos do que declarando por extenso o sentido do conjunto, não foi por nenhuma intenção profunda: foi por autêntica incapacidade de fazer de outro modo. Mas não creio, por isto, merecer censura: afinal, aqui foi dito aos trancos e pedaços o que ninguém mais disse de maneira alguma. Do primeiro a esboçar a unidade de um quadro confuso, não se exige que seja completo; e do primeiro a anunciar um perigo terrível, não se exige que fale claro e ordenado segundo o bom estilo. Esbaforido e gaguejante, semilouco e abstruso, ele afinal presta um serviço de emergência. Como diz um provérbio árabe: “Não repares em quem sou, mas recebe o que te dou.”

5 Rio de Janeiro, junho de 1994.

NOTA PRÉVIA [ DA 1 A EDIÇÃO ] A “NOVA ERA” da qual Fritjof Capra se tornou festejado porta-voz e a “Revolução Cultural” de Antonio Gramsci têm algo em comum: ambas pretendem introduzir no espírito humano modificações vastas, profundas e irreversíveis. Ambas convocam à ruptura com o passado, e propõem à humanidade um novo céu e uma nova terra.

A primeira vem alcançando imensa repercussão nos círculos científicos e empresariais brasileiros. A segunda, sem fazer tanto barulho, exerce há três décadas uma influência marcante no curso da vida política e cultural neste país.

Nenhuma das duas foi jamais submetida ao mais breve exame crítico. Aceitas por mera simpatia à primeira vista, penetram, propagam-se, ganham poder sobre as consciências, tornam-se forças decisivas na condução da vida de milhões de pessoas que jamais ouviram falar delas, mas que padecem os efeitos do seu impacto cultural.

Para os adeptos e propagadores conscientes das duas novas propostas, nada mais reconfortante do que a passividade atônita com que o público letrado brasileiro tudo recebe, tudo admite, tudo absorve e copia, com aquele talento para a imitação maquinal que compensa a falta de verdadeira inteligência.

Mas a Revolução Cultural de Gramsci e o movimento da “Nova Era” não são simples modas, que se possam adotar e abandonar à vontade, com a despreocupação de quem troca de cuecas. São propostas de imensa envergadura, que, uma vez aceitas, mesmo implicitamente, mesmo informalmente, mesmo hipoteticamente, levam a conseqüências de alcance incalculável. Essas conseqüências não pouparão, decerto, aqueles que tiverem aderido às suas causas por mero passatempo, sem uma clara consciência das responsabilidades em jogo. Não pouparão ninguém que esteja dentro do seu raio de ação. E todos estamos.

É, portanto, uma leviandade suicida absorver idéias como essas sem um exame crítico preliminar. É este exame que inauguro no presente livreto, ciente de que, ao fazê-lo, me adianto a uma lerda opinião pública que nem de longe levantou ainda as questões aqui discutidas, mas nem por isto o faço com menor atraso em relação às exigências de minha própria consciência, que me cobra este trabalho desde que pela primeira vez falei em público sobre estes assuntos, em l987. Falador prolífico, sou tardo em escrever, motivo pelo qual meu sentimento de urgência se transforma, às vezes, em sentimento de culpa. A urgência, no caso, era a de esclarecer a ligação entre aquelas duas correntes de pensamento; ligação que, uma vez percebida, revela a inconsistência de ambas, e de ambas nos liberta. Por não percebê-la, a mente brasileira gira hoje em falso em torno do eixo balizado por esses dois pólos. Pelo número de adeptos e pelos postos estratégicos que alguns destes ocupam na sociedade, Capra e Gramsci dominam as duas correntes mentais mais atuantes deste país. O fato de que jamais tenham sido confrontados e de que a idéia mesma de confrontá-los soe estranha mostra apenas que o país não tem clara consciência das alternativas em que se debate, e que a vida mental nele tende a cindir-se em devoções estanques a deuses que se desconhecem mutuamente e que mutuamente se hostilizam nas trevas, como espadachins vendados. Trata-se portanto, aqui, de esclarecer um conflito subconsciente, em que o destino de um país se decide entre as sombras de um sonho. Brasil sonâmbulo: para que sustentas com dinheiro e lisonjas os teus intelectuais, se não é para te revelarem a ti mesmo, para te dizerem o que se passa contigo para além da superfície do noticiário?

Os três capítulos que compõem este livro reproduzem, tanto quanto possível, o conteúdo de aulas e conferências que dei sobre os respectivos temas, seja no Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades , que dirijo no Instituto de Artes Liberais, seja fora dele. O capítulo sobre Fritjof Capra foi redigido e distribuído aos meus alunos em setembro de l993, quando se anunciava a próxima vinda ao Brasil do guru da Nova Era, promovida pela Universidade Holística de Brasília. Os outros, seus naturais complementos como se verá, foram escritos agora em fevereiro de l994, especialmente para este livro. Os apêndices ilustram detalhes que importam à compreensão do Cap. II.

Reconheço que, ao menos quanto a Gramsci, o exame que apresento é superficial, que haveria ainda milhares de coisas a dizer que aqui não foram ditas.

6 Mas alguém tem de começar, e, na falta de melhores cérebros que se dispusessem a digerir o assunto, a coisa sobrou para mim. Quanto a Capra, ele está longe de representar a “Nova Era” na sua totalidade; embora alguns vejam nele uma síntese desse movimento, ele constitui apenas um seu sintoma, ainda que agudo e sonante. Que ninguém me censure, portanto, a incompletude destas análises: minhas amostras levam o rótulo de amostras, com altiva modéstia. Também não tem, este trabalho, a menor pretensão de interferir no curso das coisas. Seu único anseio é fornecer, aos que tenham um sincero desejo de compreender os acontecimentos, alguns meios de fazê-lo. Ora, os que têm esse desejo são sempre poucos, no meio do vozerio, entusiástico ou ameaçador, dos que crêem já saber tudo e que não aguardam senão com impaciência que o mundo se curve às suas propostas. Àqueles poucos e silenciosos, portanto, é dedicado este trabalho. Dentre eles, destaco o romancista Herberto Sales, que leu em versão datilográfica o primeiro capítulo e lhe fez referências generosas, que agradeço comovido. Tanto mais comovido porque, se eu tivesse de escolher um guru estilístico, ele não seria outro, na presente fase da nossa literatura, senão Herberto Sales. Destaco ainda o valente grupo de alunos e ouvintes que há anos acompanha meu trabalho com um interesse que me reconforta.

Rio, fevereiro de 1994 Olavo de Carvalho NOTAS José Arthur Gianotti, “Conversa com Richard Rorty”, Jornal do Brasil , 26 de maio de 1994. É no mínimo estranho que um homem como Gianotti, tão valente ao expor idéias políticas mesmo quando lhe atraiam a ira dos sumos-sacerdotes da esquerda nacional, se cubra de cautelas ao criticar um pensamento tão vulnerável como o de Rorty. Explica-se, talvez, pela crônica timidez uspiana, inibição intelectual que se tornou, em versão fetichizada, a caricatura tupiniquim do “rigor” ensinado pelos primeiros mestres — franceses — fundadores da USP. O “rigor” uspiano é na verdade moleza, tremor da geléia terceiromundana ante a autoridade dos ídolos da moda — compensação junguiana pela petulância ante o legado espiritual do passado. Mesmo em sua versão original européia, herdeira de nobres tradições filosóficas, um rigorismo acadêmico inibitório torna-se muitas vezes o refúgio comunitário onde o intelecto mal dotado vai abrigar-se contra os perigos da investigação solitária — vale dizer, contra o exercício mesmo da filosofia. O verdadeiro rigor filosófico, ao contrário, é pura coragem interior, não se curva senão ante a evidência e não tem nada de temor reverencial adolescente ( ou colonial ) ante os prestígios acadêmicos do dia. Com a ascensão da intelectualidade paulista ao primeiro plano da vida nacional, a inversão uspiana do rigor, que devota ao prestígio o culto que nega à verdade, ameaça contaminar o pensamento brasileiro como um todo, selando a morte da inteligência nesta parte do mundo. Nada vai aqui contra Gianotti, homem capaz e correto, que só peca por admirar quem não merece — ou por fingir admirar, talvez, já que o floreio bajulatório involuntariamente irônico é outra marca registrada do estilo uspiano, onde faz as vezes de polidez acadêmica.

O Imbecil Coletivo. Atualidades Inculturais Brasileiras , Rio, IAL & Stella Caymmi Editora, 1994, que forma, com o presente volume e com O Jardim das Ilusões. Epicuro e a Revolução Gnóstica , que também virá a público em breve, uma trilogia dedicada ao estudo da patologia cultural brasileira na presente fase da nossa História.

Um deles foi Fernando Henrique Cardoso ( Jornal do Brasil , 11 nov. 93 ), um homem que conhece as esquerdas muito bem e que, por isto mesmo, sentiu o dever de se opor a elas no momento em que mais poderia ajudá-las. O outro foi Oliveiros da Silva Ferreira, que vem explorando o assunto em vários artigos publicados em O Estado de S. Paulo .

O mito da Revolução Brasileira é um componente ativo do pathos esquerdista desde a década de 30. “Fadado a um grande destino, o Brasil seria a terceira grande revolução neste século. A primeira, a União Soviética, segunda a República Popular da China, e a terceira, a República Democrática Popular do Brasil” ( Luís Mir, A Revolução Impossível , São Paulo, Best Seller, 1994, p. 10 ).

Nada retirei nem alterei do original nesta Segunda Edição, apenas corrigi erros de grafia, acrescentei este Prefácio, uns quantos adendos, e adendos de adendos, e muitas notas de rodapé. O leitor austero achará que são excrescências complicatórias, mas gosto delas justamente por isso, porque eliminam do texto a enganosa linearidade e lhe dão aquele aspecto vivente de rede nervosa, de trama vegetal, que faz com que, precisamente, um texto seja um texto.

A Vitoria Ambigua Dos Democratas

Data N/A | Diário do Comércio

Outro belo momento, que poderá levar o marquês ao êxtase, anuncia-se para breve no Iraque, caso os radicais de esquerda do Partido Democrata americano, embriagados pela vitória fácil na Câmara e no Senado, se deixem levar pelo entusiasmo pacifista de John Murtha, Nanci Pelosi e outros que tais.

É difícil que isso chegue a acontecer, pois, quando tiveram a chance de levar à prática a proposta de retirada imediata que advogavam da boca para fora, os democratas recuaram mais que depressa. Eles sabem perfeitamente que o Irã, atualmente já o maior fornecedor de recrutas para o terrorismo iraquiano, está pronto para ocupar o território do país vizinho ou pelo menos para realizar ali uma matança sem precedentes tão logo veja os soldados americanos pelas costas. E uma coisa é falar mal do governo, outra é compartilhar das responsabilidades de governo. Uma dessas responsabilidades, que George W. Bush agora se sente aliviado de poder dividir com seus críticos mais ferozes, é a de decidir o que fazer com Kim Il-Jung. Mais provável e mais iminente do que uma retirada do Iraque é um ataque à Coréia do Norte. Neste momento, os EUA estão reforçando suas tropas na Ásia e dando os retoques finais ao plano de bombardear com mísseis Tomahawk as instalações coreanas de processamento de plutônio em Yongbyon. Há outras opções militares menos devastadoras, mas alguma delas terá de ser levada à prática em breve, a não ser na hipótese de que Kim volte atrás nos seus planos já anunciados de atacar os EUA. Entre os democratas, alguns esperam ou dizem esperar que ele seja induzido a isso pelas pressões da Coréia do Sul e sobretudo da China. Mas aí a coisa se complica espetacularmente, porque, segundo o relatório em preparo pela U.S.-China Economic Security Review Commission (Comissão de Revisão da Segurança EUA-China), cuja versão oficial deverá ser divulgada ainda este mês, a China, ao mesmo tempo que fingia apoio aos EUA, ajudava secretamente o programa norte-coreano de armas nucleares. O relatório baseia-se em informações de testemunhas diretas. Partes do documento foram passadas ao jornalista Bill Gertz por assessores parlamentares, de modo que ninguém no Congresso pode verossimilmente alegar completa ignorância a respeito. No tempo em que os democratas eram apenas oposição, informações como essa os ajudavam a espremer o pobre George W. Bush na parede, obrigando-o a escolher entre o risco de ignorar a ameaça e o de tomar sozinho uma decisão impopular. Agora, quem está na parede são eles.

Esse é só um dos motivos por que, nos círculos conservadores, ninguém está lamentando muito a derrota republicana. É verdade que os jornalistas brasileiros nem falam disso. Apanhar de petistas enragés não há de tê-los tornado mais inteligentes, nem extinguido em seus corações as afeições esquerdistas que já se tornaram a sua segunda natureza. A esta altura, eles estão comemorando a dupla vitória democrata nos EUA como se fosse o começo do fim da “direita religiosa”, se não do abominável Império americano inteiro.

Mas, se é verdade que o povo americano está mesmo cansado da guerra no Iraque, nunca a política internacional, sozinha, decidiu uma eleição nos EUA. Ninguém duvida de que o Partido Republicano pagou pelos pecados de George W. Bush, mas a rejeição nacional ao presidente tem muito menos a ver com a guerra do que com as atitudes dele com relação a gastos públicos, imigração e legislação eleitoral – e, nessas três áreas, ele não errou contra os democratas, e sim com o apoio entusiástico deles. Deles e dos chamados Rinos ( republicans in name only , “republicanos só no nome”), como John McCain e Lincoln Chafee.

O exemplo mais notório foi a lei de imigração. Enquanto o país inteiro clamava por medidas drásticas contra a imigração ilegal, o presidente tramava com os rinos e os democratas um plano ridículo que não só anistiava os invasores mas lhes dava mais direitos do que os imigrantes legais jamais tiveram. A proposta despertou tanta revolta que os republicanos conservadores na Câmara dos Deputados frustraram o esquema, trabalhando contra seu próprio presidente e suprimindo da lei contra a imigração ilegal o dispositivo de anistia. Isso foi em dezembro. Então já havia conservadores chamando Bush abertamente de “traidor”.

Bush complicou muito sua própria situação quando deu apoio a uma nova legislação eleitoral que limitava severamente a ação das ONGs não partidárias. Ora, essas ONGs como por exemplo a National Rifle Association, a American Family Foundation e sobretudo os think tanks como a Heritage Foundation ou a Claremont Foundation, são a principal força do movimento conservador americano. É claro que os democratas, que nunca conseguiram montar um think tank que funcionasse, adoraram a nova regra e os conservadores viram nela uma traição explícita de Bush à causa que professou defender.

Mais motivo ainda para revolta o presidente deu quando violou ao mesmo tempo duas leis sagradas do conservadorismo, gastando um dinheirão do governo para aumentar a interferência estatal na educação infantil, com a ajuda, é claro, dos democratas. A repugnância dos conservadores ao excesso nos gastos públicos é tradicional, mas sua resistência à educação estatal, que era apenas moderada, se transformou em ódio ostensivo quando ficou claro que as escolas americanas estavam se tornando centros de doutrinação politicamente correta orientados... pela ONU.

O pior de tudo foi a súbita revelação dos planos secretos do Council on Foreign Relations para dissolver as fronteiras entre os EUA, o Canadá e o México, praticamente eliminando a nação americana como unidade política independente. A idéia já era antiga, mas quando alguém levantou a lebre e um cidadão apelou ao FOIA (Freedom of Information Act), obrigando o governo a divulgar os documentos sobre o assunto, o que se descobriu foi que Bush já estava formalmente comprometido com os governos do Canadá e do México a realizar o plano. O Partido Republicano, onde há tantos membros do CFR quando no Democrata, não podia nem aprovar uma coisa dessas nem romper abertamente com o presidente. Confuso e indeciso, optou por fazer-se de morto, o que era o mesmo que pedir aos eleitores que o sepultassem.

Mas é claro que nem toda a justa irritação dos conservadores contra Bush poderia transformá-los em esquerdistas. O que eles fizeram foi o que havia de mais inteligente a fazer: escolheram os mais conservadores entre os candidatos democratas, e votaram neles. Deste modo, o sucesso do Partido Democrata não foi nem uma vitória da esquerda nem uma derrota do conservadorismo. Foi uma derrota de um presidente ambiguamente “tucano” e de seus aliados rinos .

Entre os republicanos, o comentário geral é que o partido tem de abandonar o bushismo e voltar à boa e velha linha conservadora de Goldwater e Reagan, que Bush, por momentos, fingiu representar.

Jorge Gerdau Meus efusivos cumprimentos ao dr. Jorge Gerdau por haver recusado um ministério no governo Lula. Como empresário, como líder e sobretudo como pai espiritual do Fórum da Liberdade, ele já fez mais pelo bem do Brasil do que todos os ministros deste e de vários outros governos. Fez e continuará fazendo. Um ministério, para ele, não seria promoção, seria rebaixamento. “Ministro”, afinal, vem do latim minus , como complemento oposto de magis . Um homem como Jorge Gerdau não pode ter chefe, muito menos ser o minus do magister Lula. No governo, ele daria o melhor de si pelo progresso nacional, mas teria de acomodar-se à simbiose monstruosa de economia capitalista e centralização política socialista, que é a fórmula da administração luliana. Um empresariado forte e independente é a base da democracia capitalista. Quando vinte de nossos grandes empresários compreenderem isso como Jorge Gerdau compreende, o Brasil entrará no bom caminho.

Vida dura Se vocês querem me deixar contente, vão ao blog do Reinaldo Azevedo ( http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/ ) e leiam a nota “Nos Emirados Sáderes: Lula se solidariza com Sader, que agora quer título em clube da burguesia carioca”. É imperdível.

O advogado do marquês Sob o título “Emir Sader e o terror judicial”, em documento distribuído através da internet por uma tal “Rede de Cristãos” (não sei que raio de coisa é isso), um professor de nome Bajonas Teixeira de Brito Júnior empreende a apologia do marquês de Sader, mas, em contraste com o ambíguo e recalcitrante manifesto que aqui comentei na semana passada, não tenta escapar das implicações do que diz. Bem ao contrário, busca levá-las às últimas conseqüências, solidarizando-se não somente com o criminoso mas com o crime, ao ponto de cometê-lo de novo por sua própria conta e risco. Repetindo e assumindo como sua a imputação criminal indevida que o marquês dirigiu ao senador Bornhausen, o prof. Teixeira transcende portanto os limites da mera solidariedade, entrando com fé e orgulho no terreno da cumplicidade ativa.

Se o marquês, diante de tão fraterna atitude, não der pelo menos um beijo na testa do sujeito, direi que não tem coração. Muitos falaram em defesa do réu condenado — mas só o prof. Teixeira se dispôs a ir para a cadeia com ele. Não é todo dia que se encontra um amigo assim.

Tamanha afeição, em verdade, não é gratuita. Nasce da profunda afinidade entre a forma mentis do acusado e a do seu defensor, se é que esta se pode medir por uma amostra tão breve quanto a que ele nos oferece nesta peça magistral de saderismo aplicado que é a circular da “Rede de Cristãos” (não adianta perguntar: eu já disse que não sei o que é isso). Sou também induzido a crer nessa hipótese mediante a ponderação de que ambos, réu e advogado, têm em comum o fato de serem professores de filosofia formados por universidades brasileiras, o que já bastaria para torná-los metafisicamente indiscerníveis entre si.

Se o leitor permanece incrédulo, sugiro-lhe que leia o seguinte parágrafo do prof. Teixeira e verifique por si mesmo se o modus argüendi aí empregado não é exatamente o mesmo de “O Mundo às Avessas”:

“ A expressão usada por Jorge Bornhausen é racista e extremamente ofensiva, visto o contexto negativo em que a palavra ‘raça’ aparece aplicada ao PT, ao que se deve somar o histórico sombrio e mesmo tenebroso que o termo ostenta. Em primeiro lugar, a função da palavra não é classificatória, não sendo empregada como um mero substantivo, antes servindo a uma substantivação que busca inferiorizar e humilhar aquele a quem se refere. Ora, em um país que inicia sua luta contra a discriminação racial, o emprego de forma vexatória da palavra ‘raça’ não pode ser admitida sob nenhuma condição. Condenar quem percebe e repudia esse emprego é ofender a capacidade de julgamento e discernimento de milhões de brasileiros. E punir a inteligência de muita gente .”

Desde logo, designar como “raça” um grupo humano unido por laços não raciais é de fato pejorativo. É pejorativo justamente porque degrada esses laços, desprezando sua natureza específica de nexos políticos, religiosos, espirituais ou éticos e reduzindo-os a uma mera afinidade corporal, biológica, genética, como a que existe entre os vários membros de uma raça de porcos, de patos ou de galinhas. Dizer que os petistas são uma raça é dizer que eles não se reúnem movidos por ideais éticos ou políticos, bons ou maus, mas sim pela simples força da programação genética hereditária, como os gansos se reúnem com gansos e os macacos com macacos. E é claro que quem diz isso não o enuncia literalmente como verdade objetiva cientificamente comprovável, mas como exagero deformante e caricatura verbal, como figura de linguagem usada com propósito insultuoso, como bem viu o prof. Teixeira, para “inferiorizar e humilhar aquele a quem se refere”, isto é, no caso, o grupo petista. Mas a força do insulto reside precisamente na depreciação da natureza dos laços que unem esse grupo. Está patentemente implicada nessa depreciação a crença de que, entre seres humanos, a pura ligação racial é inferior a outros tipos de afinidades, sociais, culturais e suprabiológicas, pelas quais eles possam estar unidos. Ora, acontece que essa crença, em vez de ser racista, é manifestamente o oposto do racismo. Para o racista, os nexos raciais, em si, não são inferiores nem desprezíveis: são o elo essencial que une os seres humanos e determina a sua conduta social e histórica. Hitler e Goering não poderiam jamais se sentir ofendidos se ouvissem dizer que sua colaboração política nascia diretamente da sua afinidade racial de arianos. Ao contrário, proclamavam-no abertamente e com orgulho. A palavra “raça”, para o racista, nada tem de pejorativo: é um conceito filosófico e científico respeitabilíssimo, na verdade o conceito fundamental da sua visão do mundo e o ponto mais alto que, no seu entender, a capacidade explicativa humana pode alcançar. Desprezível, sim, é não ter raça, é ser mestiço, estar portanto desprovido de afinidades genéticas com o grupo e reduzido portanto a só poder travar com os demais membros da sociedade relações espirituais, ideológicas, etc., isto é, relações sem fundamento racial. Desprezíveis são também, nessa perspectiva, as raças ditas inferiores, mas é claro que aí a inferioridade delas não consiste em serem raças, pois a superior também o é, mas sim em não terem tais ou quais virtudes que a raça superior, com modéstia exemplar, atribui a si mesma. Dada a simples relação lógica imediata entre os conceitos, não é possível depreciar ao mesmo tempo uma raça como geneticamente inferior e os nexos raciais como forma de afinidade inferior entre os seres humanos. Exaltar uma raça e depreciar outra é, na mesma medida, exaltar as relações raciais como importantes, valiosas e significativas. Pela mesmíssima razão, depreciar um grupo não racial chamando-o de raça é, obviamente, usar contra ele o mais anti-racista dos insultos.

Tais considerações nascem da pura compreensão do sentido textual, contextual e dicionarizado das palavras, compreensão que deveria ser imediata e instintiva para qualquer pessoa alfabetizada, mas que, a julgar pelo documento citado, está incalculavelmente acima da capacidade do prof. Teixeira. O que ele faz não é um deslize de interpretação, é uma inversão tão drástica e radical do sentido das palavras interpretadas, que lhe bastaria um pouquinho de capacidade de leitura, um pouquinho só, para preservá-lo de erro tão medonho e imperdoável.

O prof. Teixeira, tal como seu amado marquês de Sader, é um analfabeto funcional sem as qualificações lingüísticas mínimas para lecionar em escola primária, embora suficientes talvez para freqüentá-la. Na verdade, chamá-lo de analfabeto funcional é bondade minha. Ele é semi-analfabeto no sentido literal e estrito do termo. Se não o fosse, não poderia escrever que, na declaração do senador Bornhausen, a palavra “raça” “ não é empregada como um mero substantivo, antes servindo a uma substantivação”.

É simplesmente impossível substantivar o que quer que seja sem empregar o termo respectivo como substantivo ou, se quiserem, “mero substantivo”. Ademais, a conotação semântica de um substantivo não muda a categoria morfológica a que ele pertence. O termo “raça” é substantivo e só pode ser usado como tal, seja em sentido racista ou anti-racista, insultuoso ou laudatório. O homenzinho, evidentemente, não tem a menor idéia do que seja um substantivo, muito menos uma substantivação. Também não conhece sequer a concordância de gênero, já que diz que o “ o emprego ... não pode ser admitida ”. Nem discuto a ignorância histórica um tanto proposital do referido, que suprime um século e meio de lutas em prol dos negros e atribui ao PT a inauguração triunfal do anti-racismo brasileiro. Também não discuto os precedentes a que ele apela, “xingamentos que mereceriam punição imediata”, entre os quais falta, é claro, toda menção ao célebre rap de Gabriel o Pensador, “polícia, raça do caralho”, que, malgrado o insulto duplo e o apelo explícito à matança de policiais, foi defendido na ocasião por toda a esquerda falante, embora o povão fosse de opinião diversa, apedrejando o cantor. Não não discuto isso. Aliás nem discuto nada. Discutir com ignorante é lavar cabeça de jumento. Eles que discutam entre si, já que para isso receberam a habilitação oficial que lhes dá acesso aos ócios acadêmicos e a proventos extraídos da bolsa do povo.

A Voz Do Trovao

Data N/A | A revista

É preciso que se diga que Olavo de Carvalho tem sido uma das poucas vozes dissonantes em nosso meio intelectual, dos poucos que não apenas se recusa a fazer coro com a ação gramsciana, mas a denuncia firme e claramente, sem medo de peitar os áulicos da academia, do governo, da política. Tem sido um analista ferino das coisas nacionais e dá o devido nome aos bois: o destemido filósofo é hoje a referência nacional contra a maré vermelha e tem aberto os olhos de muita gente para as mentiras e falsificações que o meio letrado – da academia aos órgãos de imprensa – têm militantemente realizado em nosso país.

Calar Olavo é impedir que uma multidão de homens e mulheres ouça o murmúrio da fonte mais cristalina do saber.

Mas não é possível calá-lo. A revista Época não é o único canal a fazer chegar seus dardos flamejantes sobre a cabeça dos filisteus. Ele tem acesso a outros meios de expressão para seus escritos, mas não resta dúvida que retirá-lo da revista, ainda que parcialmente – de uma tribuna tão notável! – não deixa de ser um ato de censura e uma tomada de posição política contra os leitores que o têm em mais alta conta.

Na verdade, todo o público leitor de tendência liberal e conservadora, que enxergava na revista Época a sua publicação preferida, ficou órfão, em prejuízo da própria revista, que perderá leitores, a começar por mim. Só comprarei os exemplares que contiverem os seus artigos, o que estou recomendando a todos os amigos e conhecidos, admiradores de Olavo de Carvalho, que não são poucos.

6 de Novembro de 2001 Em 6 de novembro de 2001

Leituras

Abolindo A Inquisicao

Data N/A | Jornal do Brasil

de junho de 2006 Leio no site do PT um protesto furibundo contra a colunista Mônica Bérgamo, pelo pecado abominável de ter divulgado o livro do coronel Brilhante Ustra, A Verdade Sufocada. A História que a Esquerda não Quer que o Brasil Conheça (Brasília, Editora Ser, 2006).

O oficial, afirma o partido, é um torturador, um malvado. A um tipo como esse não se deve conceder atenção, muito menos a honra — suponhamos que o seja — de um comentário na Folha .

A acusação é velha como o próprio PT. Já foi alardeada em jornais, revistas, livros, filmes, programas de TV, congressos, cursos universitários. O custo da sua difusão é incalculável. Jamais poderia ser coberto sem a ajuda de múltiplos patrocínios, incluindo verbas de fundações estrangeiras e impostos arrancados ao contribuinte brasileiro.

Quanto à defesa, foi publicada primeiro numa edição doméstica paga pelo autor com o leite das crianças. O título era Rompendo o Silêncio mas não rompeu silêncio nenhum, porque nem chegou às livrarias. Circulou de mão em mão, às escondidas, como um panfleto subversivo. Sai agora em versão mais completa, com tratamento editorial decente, o que não contrabalança a desproporção de forças mas dá ao acusado, pela primeira vez, alguma chance de ser ouvido fora do círculo de seus familiares e amigos. É contra esse perigo horripilante que o PT adverte. Já é um abuso intolerável, na sua opinião, o suspeito de tortura ousar se defender. Divulgar a defesa, expondo o público à tentação de lê-la, é crime hediondo. Confirmando o subtítulo do livro, o PT não quer mesmo que ninguém ouça a versão do acusado.

Os leitores talvez não percebam à primeira vista o profundo significado histórico do protesto petista. Para apreendê-lo é preciso recuar muitos séculos na perspectiva dos tempos. A Santa Inquisição, que a cultura pop do esquerdismo consagrou como o símbolo máximo da prepotência repressora, chamava-se “inquisição” precisamente porque inquiria, isto é, fazia perguntas e deixava o acusado responder. O termo “inquisitório” opunha-se a “acusatório”. No costume processual dos séculos bárbaros, a acusação reforçada por um juramento e, se preciso, sustentada em duelo, bastava como garantia legal para enviar o réu para o outro mundo. A Inquisição proibiu o método acusatório, fazendo do direito de defesa uma conditio sine qua non para a racionalidade da prova. Muito aperfeiçoado, esse princípio acabou por ultrapassar as fronteiras do domínio jurídico estrito, impondo-se como regra básica em todas as discussões de culpa e inocência. De um só golpe, o veredito do PT abole séculos de evolução jurídica, moral e cultural, proclamando a necessidade imperiosa de calar a boca do réu. Cancelada a Inquisição, fica instaurada a supremacia absoluta da acusação, cuja veracidade se torna indiscutível mediante a proibição de discuti-la. Mas não se trata de um retorno à lei feudal. O princípio petista é novo, é original, é inédito, porque dispensa o juramento solene e o ordálio de sangue. Nenhuma suposta vítima do coronel Ustra precisará oferecer a própria vida como garantia de que foi torturada pelo acusado. A validade do seu depoimento será atestada pelo contracheque da indenização federal, recebida também sem necessidade de outra prova além da declaração do interessado. Entre a justiça petista e a dos cavaleiros medievais a diferença não poderia ser maior: estes avalizavam seu discurso de acusação com a própria honra e o próprio sangue; aquela, com o dinheiro dos outros e a desonra geral.

Mark Steyn, no Jerusalem Post de 28 de maio, recorda: “Quatro anos atrás, The Economist publicou uma reportagem de capa sobre o vencedor das eleições presidenciais brasileiras, o líder socialista Luiz Inácio Lula da Silva. Era um acontecimento de grande importância hemisférica. Daí a manchete: ‘ O significado de Lula ’. Na semana seguinte, um leitor, Asif Niazi, escreveu ao editor da revista: ‘Caro senhor, o significado de Lula, em língua urdu, é pênis.”

Nomen est omen , “o nome é um presságio”, diziam os romanos.

Em 1 de junho de 2006

Act Of War

Data N/A | Época

“We will no longer distinguish between the terrorists and those who harbor them,” said President George W. Bush following the September attacks.

There are four ways to harbor a terrorist group. There are the states that arm or shelter them, the false organisms that disguise them, the legal or illegal fortunes that subsidize them, and last but not least the “opinion makers” who support their armed aggression through acts of misinformation and psychological warfare.

The first three forms of collaboration require direct contact with the criminals, but the fourth by definition has a expansive and evanescent nature. A small team may conceive the verbal commands and phony information, but there is no other way the messages can be dispersed but through a network of informal helpers, wherein the most outlying contributors, seemingly unsuspecting individuals, with no knowledge of the decision makers, merely echo the orders without question what their sources are. From directors to militants, and from militants to “travelling companions,” and on to mere simpletons, the formulas handed down from the commander spread in concentric circles in a controlled, almost quantifiable progression. Organizing and activating this type of operation is a well-developed technique. All totalitarian regimes and parties strive to install training centers for these kind of professionals, especially since the 1930s when Soviet networks of misinformation were established by Karl Radek and grew strongly among Western intellectuals, thanks to the evil genius of Willi Munzenberg.

Those most directly involved in providing protection for the criminals behind the September attacks are surely far from Brazil, in Asia, Europe, and even the U.S. But the network of misinformation and psychological warfare would not possibly go on without reaching here.

Before the last brick of the World Trade Center touched the ground, “specialists” and “international analysts,” all notoriously sympathetic or tied to leftist movements, rushed to the television cameras or to the newspapers to:

1) Soften the horrible impression of a monstrous crime, and legitimize it as the “natural consequence” of the militarism and willfulness of the Bush administration.

2) Highlight the vulnerability of the U.S., above all, and contrast that with the image of the mighty U.S. economy.

The first is misinformation, and the second is psychological warfare.

On one hand, the U.S. has done nothing in the past decade but withdraw its military presence and disarm its forces, reducing stocks of atomic weapons to a fifth of the Russian and Chinese reserves and ceding increasingly larger shares of its sovereignty to the UN. It’s true that George W. Bush is reacting against that. But a complex operation like the September attacks could not have been improvised in the months following his arrival to office. The attack was not a response to Bush’s fervent attitudes, rather it was planned to take advantage of the suicidal complacency of the Clinton administration. And it worked.

On the other hand, there is no defense system that could possibly prevent the type of terrorist attack that shook New York and Washington. If they happened in the U.S. and not in China, in Cuba or in Iraq, that’s simply because only dictatorial regimes train fanatics for this type of kamikaze operation. Therefore this case does not expose any special vulnerability. Any praise to this vulnerability is a lie designed to discredit the U.S., painting it as a rich and weak country, in order to transform, in the soul of the peoples, admiration into envy and rancor and fear into aggressive anger.

These two opinions, broadcast in the Brazilian media with exemplary uniformity, are not interpretations or explanations of an act of war: they are part of it. The individuals behind them do not distinguish, morally or maybe even politically, from the planners and agents of this murderous operation.

Em 15 de setembro de 2001

English

Alcantara E Anti Americanismo

Data N/A | abril de 2002

Eu não sou expert no assunto mas, de imediato, um fato de impressionou: o exacerbado ANTI-AMERICANISMO subjacente a estas críticas. A começar pelo fato de que os políticos que mais atacaram este acordo são todos do PT, partido que sabidamente tem vinculações inequívocas com o marxismo. O que aliás foi confessado explicitamente pelo Sr Olívio Dutra, em recente entrevista.

E uma coisa que acompanho desde a minha infância: o anti-americanismo é uma caracteristica simbólica de todo comunista. E isto entendo que seja decorrente de uma razão óbvia: os EUA são uma ilustração do sucesso de tudo aquilo que eles condenam, com suas visões acanhadas e obcessivas. Um dos mais exaltados críticos do acordo é um cidadão que se apresentou como empresário e que, aparentemente, tem ligações estreitas com o grupo Guararapes.

Ele não só descarregou uma série de críticas contundentes ao acordo, em email dirigido a mim e a uma série de militares, como ontem me enviou um anexo em Power Point, que se inicia indagando o “que acho do terrorismo?”. Logo a seguir exibe uma imagem de um avião se chocando contra uma das torres do WTC. A seguir observa que terrorismo não é só isto. E passa a exibir dezenas de cenas chocantes, que atribui aos americanos, tanto no Vietnã quanto no lançamento da “bomba” contra o Japão.

Desta forma este cidadão explicitou seu ódio aos EUA.

Pensei em refazer o programa, colocando imagens das torturas a que os “hereges” foram submetidos pelos cristãos, durante a idade média, pela Santa Inquisição, que levou às fogueiras e a crueis e horripilants torturas mais de cem mil inocentes. Ou, para não ir mais longe, mostrar o que os nossos bravos bandeirantes fizeram com os nossos índios. Há uma imagem da cena descrita por um deles, que mostra o valente Anhanguera arrancando um indiozinho dos braços de sua mãe e o jogando aos seus mastins, para alimentá-los. Poderia indicar mesmo a cena dos rapazes que queimaram, com requintes de crueldade, um pobre índio, recentemente, em Brasília. Ou citar a chacina de que foram vítimas tribos inteiras, assassinadas com açucar envenenado ou dizimadas pela distribuição de roupas infectadas com doenças contagiosas. Isto para que pudessem explorar suas terras. Mas me contive, pois isto me rebaixaria ao nível dele.

A perversidade é uma característica do ser humano, único animal que tortura seu semelhante e sente prazer nisto.

Os interesses também são uma constante nas relações, não só entre pessoas, como entre nações. Países que ontem era inimigos mortais, hoje se declaram amigos incondicionais.

Mas isto jamais deveria perturbar nosso raciocínio ao ponto de nos levar a julgamentos injustos e conclusões errôneas, eivadas de radicalismo irracional e obtuso.

As pessoas que tanto criticam o acordo deveriam ter comparecido aos debates que os responsáveis pelo projeto promoveram no INCAer e no Congresso. E se tivessem, realmente, um espírito construtivo de crítica, que não se fixassem em determinadas cláusulas, com alegações estúpidas, como a de que “não deve ser por tempo indeterminado” (o que nos permite rescindir o contrato, sem ficarmos amarrados a prazos) de que a verba da locação “não pode ser aplicada no desenvolvimento do CLA” (quem é que poderia o impedir, uma vez incorporados ao nosso orçamento – portanto uma cláusula INÓCUA, para os olhos de quem não é burro), de que não poderíamos ingressar nas áreas alocadas (mas é lógico – como imaginar o acesso de extranhos aos segredos tecnológicos que eles desenvolveram), que o nosso foguete foi derrubado pelos americanos para propiciar o acordo (santa burrice – não temos verba nem para o rancho dos quartéis), que o local é fabuloso e que uma vez lá o americano não mais sairia (se sairam do Panamá, onde haviam gasto bilhões de dólares na construção do canal – muito mais estratégico! ou será que sairam com medo do terrível exército do Panamá?), que deveríamos poder alugar para outros interessados (quem mais iria querer?), que a cláusula impeditiva de usar o CLA para atos de terrorismo e uso de países inimigos era um cerceamento a nossa Soberania (meu Deus! não dá nem para comentar), que os americanos querem impedir o nosso desenvolvimento tecnológico (se o quisessem, bastava impedirem o nosso acesso às suas escolas e os nossos políticos petistas poderiam alocar verbas para as pesquisas, que inexistem, razão pela qual fomos obrigados a recorrer à exploração comercial da Base), etc., etc.

Enfim, as razões eram tão medíocres, que mais pareciam nascer de cérebros acanhados. Com a agravante de que tais indivíduos não se rendiam às evidências e à lógica.

Pareciam-me um grupo de pessoas de inteligência normal e instrução superior, que se reúne, movida pelo objetivo comum de se imbecilizarem mutuamente, pela repetição uníssona e obsessiva de lugares comuns. É todo um bloco monolítico, impermeável a qualquer idéia divergente, prisioneiro de uma retórica, com um mesmo discurso demagógico, repisando monotonamente velhos chavões. Qualquer discordância é violentamente rechaçada. E acima de tudo a minha constatação é que esta discussão estéril nos desvia de problemas realmente cruciais, como a persistente doutrinação das nossas crianças – principalmente nos colégios do RS, onde até a FARC compareceu para participar de palestras – e a invasão de propriedades, a título de que é premordial o interesse social. Ou seja, o avanço sutil do marxismo deixa de ser observado e comentado e vocês, que entram neste jogo, ou querem a implantação do marxismo – que nunca funcionou em parte nenhuma do mundo – ou são meramente inocentes úteis.

Apeirokalia 2

Data N/A | Bravo!,

1, novembro de 1997 e A Longa Marcha da Vaca para o Brejo: O Imbecil Coletivo II.

Rio, Topbooks, 1998.

Como geralmente se entende por educação superior o simples adestramento para as profissões melhores, conclui-se, com acerto, que toda pessoa normal é apta a recebê-la e que, na seleção dos candidatos, qualquer elitismo é injusto, mesmo quando não resulte de uma discriminação intencional e sim apenas de uma desigual distribuição da sorte. Mas se por essa expressão se designa a superação dos limites intelectuais do meio, o acesso a uma visão universal das coisas, a realização das mais altas qualidades espirituais humanas, então existe dentro de muitos postulantes um impedimento pessoal que, mais dia menos dia, terminará por excluí-los e por fazer com que a educação superior, no sentido forte e não administrativo do termo, continue a ser de fato e de direito um privilégio de poucos.

Esse impedimento, graças a Deus, não é de ordem econômica, social, étnica ou biológica. É um daqueles males humanos que, como o câncer e as brigas conjugais, se distribuem de maneira mais ou menos justa e eqüitativa entre classes, raças e sexos. É o único tipo de imperfeição que poderia, com justiça, ser invocado como fundamento de uma seleção elitista, mas que de fato não precisa sê-lo, pois opera essa seleção por si, de maneira tão natural e espontânea que os excluídos não dão pela falta do que perderam e chegam mesmo a sentir-se bastante satisfeitos com o seu estado, reinando assim entre os poucos felizes e os muitos infelizes uma perfeita harmonia, salvaguardada pela distância intransponível que os separa.

O impedimento a que me refiro não é material ou quantificável. O IBGE não o inclui em seus cálculos e o Ministério da Educação o ignora por completo. No entanto ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois milênios. A mente treinada reconhece sua presença de imediato, numa percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia e a noite.

Os gregos chamavam-no apeirokalia.

Quer dizer simplesmente “falta de experiência das coisas mais belas”. Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o prisioneiro da caverna. Aristóteles, em linguagem mais técnica, dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão.

Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem captar neles o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios, expressões pedantes da impotência de conhecer.

Mas é claro que as experiências interiores a que Aristóteles se refere não são fornecidas apenas pelos “ritos”, no sentido técnico e estrito do termo. O teatro e a poesia também podem abrir as almas a um influxo do alto. À música — a certas músicas — não se pode negar o poder de gerar efeito semelhante. A simples contemplação da natureza, um acaso providencial, ou mesmo, nas almas sensíveis, certos estados de arrebatamento amoroso, quando associados a um forte apelo moral (lembrem-se de Raskolnikov diante de Sônia, em Crime e Castigo ), podem colocar a alma numa espécie de êxtase que a liberte da caverna e da apeirokalia.

Porém, com mais probabilidade, as experiências mais intensas que um homem tenha tido ao longo de sua vida serão de índole a desviá-lo do tipo de coisa que Aristóteles tem em vista. Pois o que caracteriza a impressão vivificante que o filósofo menciona é justamente a impossibilidade de separar, no seu conteúdo, a verdade, o bem e a beleza. De Platão a Leibniz, não houve um só filósofo digno do nome que não proclamasse da maneira mais enfática a unidade desses três aspectos do Ser. E aí começa o problema: muitos homens não tiveram jamais alguma experiência na qual o belo, o bem e o verdadeiro não aparecessem separados por abismos intransponíveis. Esses homens são vítimas da apeirokalia — e entre eles contam-se alguns dos mais notórios intelectuais que hoje fazem a cabeça do mundo.

Infelizmente, o número dessas vítimas parece destinado a crescer. Já em 1918, Max Weber assinalava, como um dos traços proeminentes da época que nascia, a perda de unidade dos valores ético-religiosos, estéticos e cognitivos. O bem, o belo e a verdade afastavam-se velozmente, num movimento centrífugo, e em decorrência “os valores mais sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino transcendental da vida mística, seja para a fraternidade das relações humanas diretas e pessoais... Não é por acaso que hoje somente nos círculos menores e mais íntimos, em situações humanas pessoais, é que pulsa alguma coisa que corresponda ao pneuma profético, que nos tempos antigos varria as grandes comunidades como um incêndio”.

1 As duas fortalezas do sublime, que Weber menciona, não demoraram a ceder: a vida mística, assediada pela maré de pseudo-esoterismo que se apropriou de sua linguagem e de seu prestígio, acabou por se recolher à marginalidade e ao silêncio para não se contaminar da tagarelice profana. A intimidade, vasculhada pela mídia, violada pela intromissão do Estado, tornada objeto de exibicionismo histérico e de bisbilhotices sádicas, desapropriada de sua linguagem pela exploração comercial e ideológica de seus símbolos, simplesmente não existe mais.

Toda a literatura do século XX reflete esse estado de coisas: primeiro a “incomunicabilidade” dos egos, depois a supressão do próprio ego: a “dissolução do personagem”. Mas, desde Weber, muita água rolou. Nas proximidades do fim do milênio, o que se entende por mística é um cerebralismo de filólogos; por intimidade, o contato carnal entre desconhecidos, através de uma película de borracha. Os três valores supremos já não são apenas autônomos, mas antagônicos. O belo já não é apenas alheio ao bem: é decididamente mau; o bem é hipócrita, pseudo-sentimental e tolo; a verdade, feia, estúpida e deprimente. A estética celebra os vampiros, a morte da alma, a crueldade, o macho que mete o braço até o cotovelo no ânus de outro macho. A ética reduz-se a um discurso acusatório de cada um contra seus desafetos, aliado à mais cínica auto-indulgência. A verdade nada mais é o consenso estatístico de uma comunidade acadêmica corrompida até à medula.

Nessas condições, é um verdadeiro milagre que um indivíduo possa escapar por instantes da redoma de chumbo da apeirokalia, e outro milagre que, ao retornar ao pesadelo que ele denomina “vida real”, esses instantes não lhe pareçam apenas um sonho, que não se deve mencionar em público.

Mas nada proíbe um escritor de dirigir-se, em suas obras, aos sobreviventes do naufrágio espiritual do século XX, na esperança de que existam e não sejam demasiado poucos. Acossados pelo assédio conjunto da banalidade e da brutalidade, esses podem conservar ainda uma vaga suspeita de que em seus sonhos e esperanças ocultos há uma verdade mais certa do que em tudo quanto o mundo de hoje nos impõe com o rótulo de “realidade”, garantido pelo aval da comunidade acadêmica e da Food and Drug Administration.

É a tais pessoas que me dirijo exclusivamente, ciente de que não se encontram com mais freqüência entre as classes letradas do que entre os pobres e os desvalidos.

Apelo Urgente De Olavo De Carvalho A Seus Leitores Brasileiros

Data N/A | Prezados amigos,

O objetivo imediato é conscientizar a elite americana da loucura que faz ao dar suporte político, jornalístico e financeiro a organizações latino-americanas de esquerda que, por baixo de uma persuasiva máscara democrática e legalista, conspiram com o Foro de São Paulo para a disseminação do caos revolucionário no continente.

A intenção última, talvez irrealizável mas nem por isto menos obrigatória moralmente e digna do esforço, é atenuar ao máximo o fluxo de uma ajuda bilionária sem a qual a revolução comunista na América Latina morreria de inanição.

Bem sei que, entre os componentes da referida elite, muitos ajudam o comunismo latino-americano de maneira consciente e deliberada, movidos pela convicção pessoal, pela vaidade, pela estupidez pura e simples ou, o pior de tudo, pelas vantagens que assim pretendem obter para a consecução de seus próprios planos estratégicos, de envergadura incomparavelmente mais vasta que os do Foro de São Paulo.

Com essa parcela da elite não adianta nem conversar, é claro. Mas há centenas de organizações conservadoras, leigas, cristãs e judaicas, que ludibriadas por falsa informação acabam permitindo que o potencial da sua boa-fé e os dons da sua generosidade sejam desviados para finalidades que atentam contra seus próprios valores e princípios. Há também órgãos do próprio governo americano, que, induzidos a trabalhar nesse sentido por administrações federais anteriores pró-esquerdistas, continuam, pela força da rotina burocrática, a apoiar aquilo que deveriam combater.

Essa situação anormal e doentia resulta de um trabalho de muitas décadas feito aqui pelo lobby esquerdista internacional, cujos agentes lograram se infiltrar por toda parte, dominando ostensivamente os órgãos culturais do governo e a grande mídia das capitais, e camufladamente atuando até mesmo dentro de organizações conservadoras.

A política oficial do governo de Washington, de dar apoio à “esquerda moderada” na esperança de que sirva de barreira às ambições da “esquerda radical”, é fundada inteiramente em desinformação proposital espalhada há décadas por entidades poderosas como o CFR e as fundações Rockefeller, Ford e Soros. Nos últimos anos, uma crescente onda de revolta contra essas entidades espalhou-se entre a maioria conservadora. Informações longamente ocultadas sobre seus planos e atividades começam a jorrar na mídia conservadora e a ser discutidas abertamente nos think tanks. O momento é propício para mostrar que, entre as inumeráveis mentiras com que essas macro-organizações manipularam a opinião pública americana, havia algumas sobre o nosso país e os nossos políticos. Só para vocês fazerem uma idéia de até onde vai o cinismo dessa gente, o CFR nomeou, para chefe da sua Força-Tarefa encarregada de influenciar a política de Washington para com o Brasil, nada menos do que o sr. Kenneth Maxwell, aquele mesmo que, usando da sua suposta autoridade de “especialista”, tentou persuadir o Brasil de que o Foro de São Paulo nem sequer existe.

Há no Brasil pessoas ambiciosas e iludidas que acreditam poder influenciar o governo americano por meio de contatos diretos com o Departamento de Estado e a presidência da República. Tolice. Primeiro: os EUA não são o Brasil, onde o Executivo pode mudar o curso das coisas a seu belprazer. Aqui, tudo depende de longas discussões, da conquista dos corações e mentes da elite formadora da opinião pública, do exercício, em suma, da democracia. No Brasil, já nem sabem o que é isso. Imaginam que Bush é um Lula de direita. Segundo: tanto Bush quanto Condoleezza Rice podem ser conservadores o quanto queiram na intimidade das suas almas, e não tenho motivo para duvidar da sinceridade de um nem da outra; mas o fato é que são ambos membros do CFR e têm suficiente amor às suas carreiras para não cuspir muito ostensivamente no prato em que comeram. Eles só mudarão a orientação da política de Washington para com a América Latina se sentirem que têm respaldo para isso nos órgãos formadores da opinião republicana. Convencê-los pessoalmente é desnecessário e inútil. Provavelmente já estão até convencidos. O importante é convencer suas fontes de apoio. Ninguém vai conseguir nada com cochichos de gabinete. Isto aqui não é uma republiqueta, onde tudo se obtém pela amizade do chefão. Democracias simplesmente não funcionam assim. O que tem de ser feito é público e aberto.

Contra o trabalho consolidado de centenas de ONGs esquerdistas que aqui operaram durante décadas até obter o controle quase total do fluxo de informações sobre o Brasil na grande mídia, vejo que estou praticamente sozinho. Sozinho e sem recursos. Minha sorte é que (1) nos think tanks conservadores existe agora uma fome de informações autênticas sobre a revolução latino-americana; (2) a grande mídia não é tão grande assim: os conservadores dominam os talk-shows de rádio, que alcançam uma faixa de público bem maior que a dos jornais da esquerda chique; (3) como não estou ligado a interesse partidário nenhum, represento somente a mim mesmo e digo apenas aquilo em que pessoalmente acredito, há nesses meios um número enorme de pessoas que acreditam em mim. Nada tem mais autoridade ante uma platéia americana do que a independência individual (justamente aquilo que no Brasil torna o cidadão um virtual suspeito). Desde que cheguei, fiz várias conferências em think tanks, escolas e congressos, despertando o interesse e a franca aprovação de platéias altamente preparadas, nas quais se incluiam pop stars da mídia conservadora, cientistas políticos de excelente prestígio acadêmico e até subsecretários de Estado.

O momento, repito, é propício. O véu da mentira latino-americana está para ser rasgado, e CFR nenhum poderá impedir que isso aconteça.

Aqui aprendi o que é democracia. A democracia não dá liberdade a ninguém. Apenas dá a cada um a chance de lutar pela liberdade. A gente percebe isso, materialmente, na coragem e disposição de combate com que tantos americanos, hoje, se erguem contra o establishment esquerdista chique e não raro conseguem vencê-lo usando os meios postos à sua disposição pelo Estado de direito. Esses meios estão também ao alcance de quem deseje restabelecer a verdade sobre o Brasil.

Não quero me gabar dos resultados obtidos, mas sei que, na mídia conservadora e nos think tanks republicanos, já quase ninguém mais acredita na mentira idiota de que Lula é um antídoto à subversão chavista. Estou consciente de ter contribuído ativamente para sepultá-la. Mais dia, menos dia, notícias do falecimento chegarão ao governo americano, se é que já não chegaram.

Para isso, usei de todos os recursos com que contava: conferências, artigos, cartas, telefonemas, distribuição de provas e documentos, inumeráveis conversações pessoais. De vez em quando coloco no meu site algumas amostras do que tenho feito.

O problema é que tudo isso custa trabalho, tempo e dinheiro. Normalmente, um esforço dessa envergadura deveria ser obra de equipe. Seria preciso ter aqui uma ONG independente, sem ligação com partidos ou “redes”, com um time de conferencistas, redatores, tradutores, relações públicas e fund-raisers, habilitada a fazer o que todas as ONGs fazem: conferências de imprensa, debates, newsletters, mala-direta, um website atualizado diariamente e publicação de livros.

Não dispondo de nada disso, faço tudo eu mesmo. Não tenho nenhuma ONG pelas costas, nenhum patrocinador, nenhum suporte político ou empresarial. Meu visto de jornalista também não permite que eu trabalhe em empresas locais. Tudo o que escrevo e leciono por aqui, é de graça. A totalidade dos meus meios de sustento consiste no salário que me vem do Brasil e na ajuda de dois ou três amigos, sempre os mesmos.

Não estou me queixando. Estou felicíssimo de poder fazer o que faço. Mas faria muito mais, e com resultados incomparavelmente mais velozes, se tivesse algum respaldo financeiro para isso.

O salário que recebo pelo meu trabalho jornalístico é suficiente para dar à minha família uma vida modestamente confortável no interior da Virgínia, onde tudo custa três vezes mais barato (e é dez vezes mais bonito, confesso) do que em Washington ou Nova York. Mas a tarefa de que me incumbi exige muito mais do que posso gastar. Só para vocês fazerem uma idéia, a primeira coisa que fiz em vista dos meus planos foi dar a mim mesmo um curso abreviado de política americana: história, leis, instituições, grupos, pessoas, correntes de idéias. Logo em seguida, formei um cadastro das entidades que podiam ser úteis para o meu objetivo e tratei de me inscrever em várias delas, para poder freqüentar seus encontros, receber suas publicações, etc. Por fim, iniciei um programa de viagens a Washington para contatos pessoais e conferências. Quanto custou isso tudo? Quanto custa formar, em menos de um ano, um especialista em política americana? Quanto custam centenas de livros, dezenas de assinaturas de revistas e subcrições em think tanks, não sei quantas diárias de hotel e alguns milhares de galões de gasolina? Mensalmente, gastei nisso metade ou mais do meu salário, enchendo-me de dívidas, submetendo minha família a sacrifícios humilhantes e incomodando amigos brasileiros com obsessivos pedidos de socorro.

Cheguei a um ponto em que já não posso continuar trabalhando assim. Ou monto uma estrutura de trabalho capaz de concorrer com adversários poderosos, ou trato de buscar um consolo impossível naquela história do passarinho que tentava apagar o incêndio na floresta levando gotinhas de água no bico. Não quero ficar me vangloriando de gotinhas inúteis. Quero fazer alguma coisa que dê resultado. Quero fazer e sei como fazer. E nada melhor para me ajudar nisso do que as contribuições individuais de pessoas que confiam em mim. Incomparavelmente melhor do que apoios institucionais, empresariais e partidários. Elas são um reforço generoso e livre que em nada afeta a minha independência.

Nos EUA, depender apenas das contribuições espontâneas do público aumenta muito a credibilidade de uma campanha, de um jornal eletrônico ou de uma ONG.

A constituição de uma ONG nos EUA é coisa complexa e dispendiosa. Antes mesmo de chegar a isso, preciso de meios para viajar com mais freqüência a Washington, para publicar uma newsletter, para atualizar diariamente o meu site em inglês, para me inscrever em mais instituições, estender meus contatos para outros Estados, freqüentar mais congressos, etc. etc.

Preciso de ajuda já. Não quis pedi-la antes de chegar ao meu limite. Já cheguei. Por favor, me ajudem a salvar a honra do Brasil. Não quero chegar à velhice extrema pensando que vim de um país que se deixou estrangular sem exercer nem mesmo o direito de espernear. Quero exercer esse direito até o fim, com esperneadas vigorosas que pelo menos deixem o assassino da pátria com uma inesquecível dor na bunda.

Adiei o pedido levando em consideração que a tarefa a que me entreguei foi idéia minha, pessoal, germinada em segredo no meu cérebro maligno, sem pedido ou sugestão de quem quer que fosse. Ninguém, fora eu mesmo, tem a mínima quota de responsabilidade nela. Muito menos, é claro, os jornais que me empregam. Cumpro meus deveres profissionais, vou escrevendo o meu livro e me entrego à devoção patriótica nas horas vagas. Todas as horas vagas.

Bem sei o que essa iniciativa privadíssima pode me custar, se eu voltar ao Brasil. Também sei que, por aqui, meu visto de jornalista me dá direito à permanência indefinida, mas não garantida. Posso ser, de um momento para outro, retirado deste adorável refúgio virginiano, entre esquilos, sapinhos, flores e caipiras, e devolvido direto à toca do lobo, bicho tinhoso que já várias vezes ameaçou acabar com a minha raça. Os riscos da empreitada são portanto consideráveis e, se me sinto autorizado a pedir aos amigos e leitores que a reforcem com seu dinheiro, é porque apostei nela o meu pescoço e a segurança da minha família. Não estou pedindo a ninguém que ofereça mais do que ofereci.

Também não prometo nada, exceto multiplicar o meu esforço na proporção dos recursos que me cheguem. Nunca tive paciência com pessoas que choramingam pedindo que eu lhes dê uma esperança. Minha única esperança é a justiça divina, quando este mundo for desfeito em farrapos. Na existência terrena, a esperança é menos importante do que a fé — e a fé não significa crer numa doutrina, significa ser fiel a um compromisso. Significa ter senso do dever. Com esperança, se possível; sem ela, se necessário.

Com 59 anos de existência no planeta, cheguei à conclusão de que sou o bicho mais teimoso, paciente e obstinado que já conheci. Deve haver um cromossomo de jumento, de elefante ou de camelo na minha constituição genética. Mas até um desses amáveis animais precisa de alimento e estímulo para cumprir sua tarefa – puxar um tronco, atravessar o deserto, carregar tijolos e gente em terreno íngreme.

Estou pedindo a todos os meus leitores e amigos que me ajudem a fazer o que tenho de fazer. Doações pessoais ainda são permitidas e livres de impostos. Quem tiver sensibilidade e condições para isso, que faça uma contribuição por qualquer destes três meios, à sua escolha:

1) Para contribuições em dólares, por cartão de crédito, simplesmente clique o botão abaixo e siga as instruções (no formulário, em resposta ao item “payment for”, escreva simplesmente “donation”):

2) Para depósito bancário em reais – dez, vinte, cem, mil reais ou o que quer que seja –, use a minha conta pessoal do Banco Itaú, agência 4080, c/c 02968-1.

3) Para transferência bancária (DOC), use a mesma conta do Itaú e o meu CPF, 043.909.388-00.

Quem quiser um recibo, que envie um e-mail a olavo@olavodecarvalho.org com uma cópia do comprovante de depósito ou transferência.

Como ainda não tenho uma ONG constituída, isso não dará a ninguém o direito a desconto no imposto de renda nem a qualquer outra vantagem apreciável. Dará direito apenas à minha gratidão e talvez à gratidão da pátria, se esta ainda existir no futuro.

Estou pedindo agora e vou voltar a pedir. Tantas vezes quantas me pareça necessário, pois as despesas não vão parar tão cedo. Agora já me acostumei à mentalidade de um povo que põe seu dinheiro onde põe suas palavras. Aqui, todo mundo contribui para aquilo em que acredita. Eu mesmo, que sou um duro, não escapo. Associações de veteranos, campanhas de evangelização, protestos cívicos, policiais baleados e até uma menininha da Guatemala que não podia comprar seus livros de escola já descobriram que eu existo e aparecem mensalmente na minha caixa postal. Dou um pouquinho, mas dou sempre: toda essa gente trabalha para o bem, e aprendi com os americanos que o dinheiro jamais é neutro – se não serve ao bem, serve ao mal.

Apendice De A Nova Era E A Revolucao Cultural

Data N/A | Fritjoj Capra & Antonio Gramsci

edição, revista e aumentada.

Apêndice I.

As esquerdas e o crime organizado Comando Vermelho. A História Secreta do Crime Organizado , de Carlos Amorim, é um trabalho de valor excepcional, cuja leitura se recomenda a todos os brasileiros que se preocupem com o futuro deste país. Futuro do qual se pode ter um vislumbre pelas palavras de William Lima da Silva, o “Professor”, fundador e guru do Comando Vermelho, citadas à p. 255:

“Conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu: o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas serão três milhões de adolescentes, que matarão vocês [ a polícia ] nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas?”

A quem entenda isso como mera expressão de um delírio megalômano, o livro de Carlos Amorim mostra que a sinistra profecia já está em curso de realização: o Comando Vermelho não apenas domina dois quintos do território do Grande Rio, desfrutando aí o monopólio dos sequestros, do comércio de carros roubados, do tráfico de drogas, mas exerce também nessa área funções de governo, por meio do terror alternado com lisonjas paternalistas, e tem ainda a liderança no contrabando de armas pesadas, sendo hoje uma organização mais equipada do que a polícia ou mesmo do que as guarnições locais do Exército. As autoridades reconhecem que o poder da máfia dos morros é absolutamente incontrolável, e ela prossegue, de vitória em vitória, atordoando a polícia, humilhando os governantes, e atribuindo às suas operações criminosas, para cúmulo de descaramento, o sentido épico de uma luta pela libertação dos oprimidos.

Não vou aqui resumir o livro, pois pretendo que o leiam. Nas páginas que se seguem, concentrarei minhas observações antes no que me parece o seu único ponto fraco. Não farei isto para depreciar os méritos da obra, que são elevados, mas justamente para os realçar; pois essa lacuna, que está no diagnóstico das causas e origens profundas do crime organizado, só poderia ser preenchida por uma investigação que iria muito além do seu escopo. O autor, de fato, alude a algumas causas prováveis, mas centraliza sua atenção no fenômeno do Comando Vermelho como tal, sem estender seu exame ao conjunto dos fatores históricos que cercaram, propiciaram e finalmente determinaram o seu surgimento. Não se trata portanto de assinalar aqui algum defeito do livro, mas de sugerir investigações suplementares que dariam matéria para outro livro, ou vários.

Uma certeza o livro de Amorim parece deixar definitivamente assentada: o Comando Vermelho nasceu da convivência entre criminosos comuns e ativistas políticos dentro do presídio da Ilha Grande, entre os anos de 1969 a 1978. Ali os militantes esquerdistas ensinaram aos bandidos as técnicas de guerrilha que eles viriam a usar em suas operações criminosas e os princípios de organização político-militar sobre os quais viria a estruturar-se o Comando Vermelho, bem como a fraseologia revolucionária com que o bando hoje glamuriza suas façanhas.

O que não fica claro de maneira alguma é o grau e a natureza da participação das organizações de esquerda na criação do Comando Vermelho, a sua responsabilidade histórica pela eclosão do fenômeno que hoje aterroriza a população carioca e põe em risco a sobrevivência da jovem e frágil democracia brasileira.

Quanto a esse ponto, o autor se contradiz: sua narrativa dos fatos aponta num sentido, suas opiniões no sentido contrário. Eis uma dessas opiniões:

“Os revolucionários nunca pretenderam ensinar criminosos a fazer guerrilhas. Em mais de uma década de pesquisas, nunca encontrei o menor indício de que houvesse uma intenção — menos ainda uma estratégia — para envolver o crime na luta de classes.”

Logo, na interpretação do autor, os ensinamentos de guerrilha teriam sido passados aos bandidos de uma maneira natural, espontânea, impremeditada, ao sabor de contatos fortuitos entre indivíduos, e sem qualquer responsabilidade das organizações esquerdistas.

Mas os fatos narrados pelo próprio Amorim desmentem frontalmente essa interpretação. Sem chegarem a dar respaldo à tese policial que vê no Comando Vermelho uma extensão ou um recrudescimento da velha guerrilha revolucionária, eles indicam, no entanto, que o que se passou na Ilha Grande foi algo de bem mais comprometedor do que simples conversas casuais. Poderosos interesses vetam, hoje, uma investigação mais profunda desses episódios. Os prisioneiros políticos de então tornaram-se gente importante, deputados, ministros, procuradores, com poderes suficientes para dissuadir qualquer olhar curioso que se lance sobre um passado que eles preferem manter protegido entre névoas. Não duvido que a ambiguidade do próprio Amorim tenha brotado do prudente desejo de evitar um confronto com essa gente, cujos partidários e simpatizantes exercem uma completa hegemonia sobre o seu ambiente de trabalho: as redações de jornais. Da minha parte, porém, nada espero deles. No tempo em que eram perseguidos políticos, ajudei-os o quanto pude, escondendo foragidos e armas, redigindo e distribuindo propaganda contra a ditadura, porque via em seus rostos o emblema da verdade, hostilizada pela mentira oficial. Hoje, que estão a um passo do poder, já enxergo em seu semblante a máscara da hipocrisia, que anuncia para breve, neste país, um novo império da falsidade. Todo sacerdócio converte-se, mais cedo ou mais tarde, num culto de si mesmo: tendo outrora servido à verdade, eles hoje tomam o lugar dela no altar de um culto degenerado Investigar o sentido dos episódios da Ilha Grande é romper um tabu, é violar o preceito consagrado segundo o qual a maldade, a baixeza, a hipocrisia são monopólio da direita.

A convivência entre presos políticos e bandidos comuns é antiga no Brasil, reconhece Amorim. Vem desde 1917, com as primeiras prisões de agitadores sindicalistas e anarquistas. Intensificou-se durante e após a rebelião comunista de 1935. Desde então foi constante e sistemático o esforço dos comunistas para doutrinar criminosos e enquadrá-los na luta política. Um dos líderes de 35, Gregório Bezerra, conta em suas memórias como “transformou guardas penitenciários e bandidos em militantes comunistas”. Durante os anos do Estado Novo, conta Amorim, “o contato com intelectuais, militares radicais, políticos e sindicalistas fez a cabeça de punguistas e escroques. A partir dessa convivência, muitos homens deixaram para trás as carreiras no crime e optaram pela militância revolucionária”.

Nada disso no entanto provocou a menor alteração de conjunto no mundo do crime: “Nas ruas, o crime continuava o mesmo: avulso, violento, desorganizado. O fenômeno da conscientização e o surgimento do chamado crime organizado só vão aparecer na década de 70.”

Houve portanto aí a introdução de um fator novo, de uma diferença específica no tipo de influência exercido pelos militantes sobre os bandidos. Essa diferença residiu essencialmente no conteúdo das informações transmitidas: em vez de simples doutrinação ideológica, os bandidos receberam ensinamentos práticos, que puderam por em ação tão logo saíram da cadeia. Que ensinamentos foram esses?

Primeiro, princípios de organização, que incluíam desde a estrutura hierárquica e disciplinar do grupo armado até sistemas de comunicação em código.

Em seguida, técnicas de propaganda ou agitprop , que lhes permitiram transformar assaltos e sequestros em espetáculos de protesto — “propaganda armada”, no jargão esquerdista —, que ganham a simpatia ao menos parcial da população e da intelligentzia .

Terceiro, táticas de ação armada. Aqui a lista é grande. Dentre os procedimentos usados pela guerrilha e copiados pelo Comando Vermelho, pode-se destacar os seguintes:

1 – Realização de assaltos simultâneos em vários bancos, para desorientar a polícia.

2 – Com o mesmo objetivo, bombardear os postos policiais com dezenas de alarmes falsos, no dia dos assaltos planejados.

3 – Não sair para uma operação armada sem deixar montado um “posto médico” para atender os feridos ( que antes os bandidos deixavam à sua própria sorte, expondo-se à delação por vingança ).

4 – Em caso de emergência, invadir pequenas clínicas particulares selecionadas de antemão, obrigando os médicos a dar atendimento aos feridos.

5 – Planejamento e organização de sequestros.

6 – Designar para cada operação um “crítico”, que não participa da ação mas apenas observa e assinala os erros para aperfeiçoar a ação seguinte.

7 – Planejar as ações armadas com exatidão, de modo a obter no mínimo de tempo o máximo de rendimento com o mínimo derramamento de sangue. ( Hoje o Comando Vermelho consuma em quatro ou cinco minutos um assalto a banco. ) 8 – Técnicas para o bando retirar-se do local da ação em tempo record , aproveitando-se da conformação das ruas, do congestionamento, etc., ou provocando deliberadamente acidentes de trânsito.

9 – Planejamento cuidadoso de todas as ações, segundo o princípio de Carlos Marighela: “Somos fortes onde o inimigo é fraco. Ou seja: onde não somos esperados.”

10 – Informação e contra-informação como base do planejamento.

11 – Sistema de “aparelhos” — casas compradas em pontos estratégicos da cidade, para ocultar fugitivos após as operações, guardar material bélico etc.

O quarto e último grupo de ensinamentos dizia respeito à seleção das melhores armas para cada tipo de operação, e ainda à fabricação de explosivos apropriados para o uso na guerrilha urbana, como coquetéis-molotov com uma fórmula especial preparada por estudantes de Química e “bombas de fragmentação com pregos acondicionados junto à pólvora e enxofre num tubo de PVC ou numa lata do tamanho de uma cerveja”.

O conjunto forma um curso completo de guerrilha urbana, apoiado ainda numa bibliografia especializada, que incluía O Pequeno Manual do Guerrilheiro Urbano , de Carlos Marighela, Guerra de Guerrilhas , de Ché Guevara, e A Revolução na Revolução , de Régis Débray, além de A Guerrilha Vista por Dentro , de Wilfred Burchett. Este último é apenas uma reportagem feita no Vietnã por um correspondente de guerra inglês; mas entre os militantes era tão prezado quanto as obras de guerrilheiros profissionais, e sua circulação chegou a ser proibida no Brasil durante os governos militares, porque “mostra como o vietcongue fabricava munição, inclusive com uma fórmula para se produzir pólvora caseira. Explica também como funcionava o sistema de túneis para a fuga dos comandos guerrilheiros, com iluminação a partir de geradores movidos a roda de bicicleta. O livro fala ainda dos códigos, do correio baseado em bilhetes entregues de mão em mão, de aldeia em aldeia. Um manual de guerra revolucionária que contém longas explanações de tática e estratégia. Enfim, dinamite pura”. Rematavam a bibliografia clássicos da literatura marxista — Marx, Lênin — e obras menores de doutrinação.

Todos esses ensinamentos foram depois levados à prática pelo Comando Vermelho, que demonstrou possuir até mesmo um domínio mais extenso deles do que as próprias organizações guerrilheiras: “O crime organizado foi muito além do que a luta armada tinha conseguido nos anos 70, tanto em matéria de infra-estrutura quanto na disciplina e organização internas”. Como bem resumiu o assaltante de bancos Vadinho ( Oswaldo da Silva Calil ), que viu tudo de perto na Ilha Grande, “os alunos passaram a professores”.

Amorim opina enfaticamente que “não houve intenção” de ensinar guerrilha aos bandidos, que a transmissão desses ensinamentos se deu de maneira “involuntária”, em resultado espontâneo do “convívio eventual nas cadeias”. Diante dos fatos narrados, é difícil acreditar nessa opinião, é difícil mesmo admitir que o próprio Amorim acredite nela. Mais sensato é vê-la como uma concessão verbal: tendo ousado divulgar fatos que são profundamente comprometedores para as esquerdas, Amorim preferiu deixar que a narrativa falasse por si, sem endossar pessoalmente a conclusão que ela impõe. Manha de repórter, que com muita prudência teme mais as línguas de seus colegas de ofício do que as balas do Comando Vermelho.

O que me faz interpretar as coisas desse modo é a desproporção entre a força da narrativa e a timidez dos argumentos em que Amorim sustenta sua opinião. Qualquer principiante do jornalismo sabe que a exposição dos fatos exerce sobre o leitor uma influência mais profunda do que a opinião expressa. A verdadeira intenção de um jornal está na sua maneira de selecionar e ordenar as notícias, e não no que ele afirma nos editoriais. As cabeças dos repórteres funcionam de modo análogo: inteligências antes narrativas do que analíticas, expressam-se mais plenamente contando os fatos do que alinhando argumentos.

O principal argumento que Amorim apresenta em defesa de sua tese é que, ao longo de doze anos, não encontrou indícios ou provas “de uma intenção, menos ainda de uma estratégia” no sentido de os militantes ensinarem guerrilha aos bandidos.

O argumento destrói-se a si mesmo. Em primeiro lugar, não existe prova de intenção, a não ser a lógica mesma do ato, pela qual das consequências podemos remontar às causas. Todo ato humano que não possa ser explicado pela mera acidentalidade pressupõe uma intenção, e todo acidente é, por definição, momentâneo: não existem acidentes contin u ados ; a mera casualidade não se prolonga, inalterada e uniforme, ao longo dos anos, como um par de dados não prossegue dando seis e seis incansavelmente ao longo das rodadas.

Qualquer ato reiterado é, por si mesmo, prova da sua intenção.

Se um homem fica bêbado uma vez, duas vezes, pode ser sem intenção e por mero efeito acumulado dos tragos mal medidos; mas se quatro ou cinco vezes por semana o encontramos virando novamente o copo até trocar as pernas, será preciso alguma outra “prova” para certificar que ele teve intenção de se embriagar? Ora, a transmissão de ensinamentos de guerrilha prosseguiu, na Ilha Grande, por nada menos que nove anos .

Que mais será necessário para comprovar uma intenção?

Pode-se ver a coisa por um segundo ângulo. Uma intenção nada mais é do que a previsão de uma consequência, somada ao desejo de provocar essa consequência. Só podemos, portanto, supor ausência de intenção quando um homem não está em condições de prever as consequências de seu ato. Se um marido furioso desfere um tabefe na esposa e a manda para o hospital, podemos admitir que o brutamontes não mediu sua força; mas depois de uma longa série de internações da infeliz, devemos supor que ele ainda não avaliou corretamente a proporção entre o empuxe da porrada e suas consequências hospitalares, ou que ele teve a intenção de desencadear precisamente essas consequências? Quanto aos nossos guerrilheiros, a hipótese da ausência de intenção pressupõe que fossem incapazes de atinar com o uso que os discípulos fariam de seus ensinamentos. Se um deles, uma vez ou outra, desse com a língua nos dentes, poderia ser coincidência. Mas vários deles transmitindo informações seguidamente ao longo dos anos, sem jamais atinar com as consequências do que faziam, é mais do que a credulidade humana pode admitir.

Provas externas só são necessárias quando a lógica dos fatos não fala por si, quando nos fatos há algo de ambíguo que admite interpretações variantes, o que não é o caso. Mas Amorim absolve os guerrilheiros justamente com base na ausência desse tipo de provas. E acontece que mesmo estas não estão realmente ausentes. Querem ver?

Só existem no mundo três tipos de provas: materiais, documentais e testemunhais.

A prova material está lá: a presença dos livros, dos manuais de guerrilha nas mãos dos bandidos é prova de que alguém os entregou a eles. Entregar um livro comprova, manifestamente, o intuito de transmitir informações, e de fazê-lo de maneira mais completa do que se poderia em meras conversas de ocasião.

Os livros citados por Amorim eram obras raras, de tiragem limitada e circulação proibida, que só se encontravam, quando se encontravam, nas mãos de militantes diretamente envolvidos nas organizações da esquerda armada. O de Régis Débray circulou num volume impresso clandestinamente pela ala marighelista do PC, e o de Guevara era uma apostila mimeografada, de pouquíssimos exemplares. Mesmo o de Burchett ( Amorim escreve “Bulcher”, mas a grafia certa é Burchett ), que saiu por uma editora comercial ( Civilização Brasileira ), teve tiragem reduzida e logo foi apreendido, sobrando em circulação uns poucos exemplares que os militantes de esquerda disputavam a tapa. Não eram, enfim, livros de interesse geral, que se dessem a alguém para ler por mero passatempo, mas manuais de ensino técnico, dirigidos a um público especializado. Transmitir esses livros aos bandidos é algo mais do que manifestar uma intenção de ensinar guerrilha: é realizar essa intenção.

Quanto a provas documentais que atestassem uma decisão das organizações de esquerda de promover o ensino de guerrilhas, só poderiam consistir em atas de reuniões dos comitês de presos políticos, que declarassem formalmente essa intenção. Mas os prisioneiros políticos teriam de ser doidos ou suicidas para registrar uma decisão desse teor em atas que certamente iriam parar nas mãos da direção do presídio mais dia menos dia. Aliás eles nunca fizeram ata de decisão nenhuma, pela mesmíssima razão. Se o historiador fosse hoje depender de atas para estudar esse período, não teria sequer uma prova de que os comitês de presos políticos chegaram a existir. Uma prova documental, no caso, não é exigível. Presos políticos não fazem atas, tal como não se fazem atas de uma reunião de meliantes para planejar um assalto a banco. O argumento da falta de provas não vale, portanto, para provas documentais.

Restam, ainda, as provas testemunhais. Estas são ambíguas. Amorim aliás só cita duas. Vadinho afirma que houve ensinamento. O então prisioneiro político e depois ( no governo Brizola ) diretor do mesmo presídio da Ilha Grande, José Carlos Tórtima ( hoje procurador do Estado ), proclama que não:

“— É uma mentira essa história de que os presos comuns aprenderam como se organizar e noções de guerrilha urbana com os presos políticos.

O conteúdo ideológico deles é de tal forma individualista que de maneira nenhuma poderiam absorver a proposta de apoio coletivo...

Repudio claramente qualquer insinuação de que os presos comuns foram formados pelos políticos.

Isso é um mito veiculado pela direita.

” O dr. Tórtima é, pelo visto, um desses devotos esquerdistas, para quem a sentença “É de direita!” constitui, em si e por si, uma prova fulminante contra qualquer argumento. Algo assim como o Roma locuta, causa finita , um rótulo fatal que, colado a uma idéia, basta para invalidá-la para todo o sempre.

Se ele não pensasse assim, teria procurado calçar melhor seu testemunho, citando fatos em vez de dispensar-se de fazê-lo, confiado na força exorcizante da frase mágica.

Pois, na verdade, o seu não é um testemunho; é um parecer, uma opinião, que opõe à abominável tese direitista um argumento de probabilidade lógica: individualistas ferrenhos não podem, em princípio, absorver uma proposta de ação coletiva, ou pelo menos é muito pouco provável que o façam.

De um ponto de vista hipotético e abstrato, devemos dar razão ao dr. Tórtima: a lei das probabilidades está com ele. Mas, em primeiro lugar, é estranho que uma testemunha, chamada a mostrar a falsidade de uma alegação, se limite a demonstrar sua improbabilidade.

Raciocinamos por probabilidades quando não temos acesso aos fatos, quando, não sabendo o certo, só nos resta conjeturar sensatamente. Testemunhas não conjeturam: testemunhas narram.

Se passamos da conjetura para os fatos, a conversa muda. Hipoteticamente, a absorção da proposta de apoio coletivo pelos individualistas era de fato improvável; mas o próprio livro de Amorim mostra bem claro que o improvável se realizou: que não somente os marginais absorveram a proposta, como também a puseram em prática com mais rigor, eficiência e amplitude do que os próprios militantes políticos; e, organizando-se melhor do que eles, chegaram ainda a coordenar o “apoio coletivo” da população pobre dos morros cariocas, superando tudo o que em matéria de arregimentação popular os guerrilheiros haviam sequer sonhado: “Os alunos tornaram-se professores.”

De que vale o argumento de improbabilidade, diante da prova do fato consumado? Diante desse fato, o que vemos é o argumento do dr. Tórtima voltar-se a favor da tese que ele enfaticamente repudia, contra a que defende. Se era pouco provável que os individualistas anárquicos absorvessem a proposta de apoio coletivo mesmo quando esta lhes fosse transmitida por hábeis e solícitos professores de guerrilha, muito menor, para não dizer nula , seria a probabilidade de que o fizessem tão-somente pelo esforço próprio e sem nenhuma ajuda pedagógica. O esforço necessário para aprender sozinho é significativamente maior do que o requerido para seguir as lições de um bom professor. Se, portanto, os individualistas desorganizados se tornaram eficientes organizadores coletivos, o mérito muito provavelmente não é só deles, nem só deles a culpa pelo tipo de coisa que vieram a organizar.

De passagem, a desastrada argumentação do dr. Tórtima derruba também as opiniões do próprio Amorim em favor do caráter fortuito e impremeditado dos ensinamentos de guerrilha. Se os bandidos comuns eram uns individualistas anárquicos, como poderiam colocar em boa ordem fragmentos de informação colhidos aqui e ali em conversações casuais, a ponto de compor com eles uma técnica racional apta a desenvolver-se em amplas e notáveis aplicações práticas? Seria preciso um QI fora do comum, mas mesmo gênios teriam alguma dificuldade em aprender organização tão desorganizadamente. Com toda a franqueza: pedir que acreditemos que homens primitivos, bárbaros, indisciplinados e volúveis conseguiram apreender os complexos princípios de organização político-militar da guerrilha urbana tão-somente ciscando aqui e ali uns pedaços de conversas e depois transformar essa maçaroca informe numa técnica de grande eficácia, é realmente fazer pouco da nossa inteligência.

Contar com a credulidade alheia é aliás um vício da esquerda brasileira, adquirido nos anos que se seguiram à queda da ditadura. A revelação das torturas, dos cadáveres escondidos, confirmando denúncias que antes a opinião oficial desqualificava como invencionices de agitadores, desmoralizou a direita e elevou às alturas a credibilidade da esquerda. Desde então esta vem abusando do crédito para nos fazer engolir patranhas e calúnias de toda sorte, sem outra garantia senão a de terem sido proferidas por quem nos disse a verdade uma vez. Até quando as atrocidades da direita serão fiadoras das mentiras da esquerda?

O que o dr. Tórtima nos impinge como testemunho não poderia mesmo valer nada, pois a “testemunha” saiu da cadeia em 1971, antes, portanto, da fase decisiva de formação do Comando Vermelho, sobre a qual ele sabe só o que leu nos jornais, se é que os leu. Isto aliás confirma o caráter muito provavelmente calunioso de insinuações que o acusem de envolvimento pessoal no ensino de guerrilha aos bandidos. Mas o fato de ele estar inocente não o qualifica para inocentar outros, dos quais nada sabe. Qual, no entanto, o esquerdista brasileiro que recusará falar em público sobre um assunto do qual ignora tudo, se o convite lhe servir de ocasião para dar umas alfinetadas na “direita”?

Acreditar que o “testemunho” do dr. Tórtima baste para absolver alguém além dele mesmo exigiria que a nossa fé removesse montanhas. Destituídos da fé, façamos algo que, no Brasil de hoje, se tornou sinal de impiedade: raciocinemos.

Raciocínio I – O livro de Carlos Amorim informa que os militantes esquerdistas, uma vez encarcerados, procuraram fortalecer a unidade disciplinar de suas organizações, para poderem resistir ao ambiente hostil. De outro lado, o mesmo livro deseja que acreditemos que homens assim afeitos a uma disciplina espartana deixaram escapar, em amenas conversas informais com os detentos comuns, todos os segredos de técnica militar e de organização política que constituíam o sangue e os nervos da revolução. Quer que acreditemos que esses homens de ferro, capazes de resistir à tortura física e psicológica para não entregar nenhum segredo aos policiais, deram tudo aos bandidos, de mão-beijada, por mera desatenção; que de conversa em conversa foram deixando vazar teoria marxista, princípios de agitprop , técnicas militares, métodos de organização, enfim todo o conhecimento de guerrilha urbana então disponível, sem jamais se dar conta de que estavam ensinando guerrilha nem ter a mais mínima intenção de fazê-lo. Nunca ouvi uma coisa mais doida na minha vida.

Raciocínio II — Se, ao contrário dos presos comuns, individualistas anárquicos, os militantes eram socializados, politizados e disciplinados, então certamente nada faziam de importante sem prévia consulta ao “coletivo”. Logo, das duas uma: ou a transmissão de ensinamentos de guerrilha aos bandidos foi autorizada pelo coletivo, ou foi feita em flagrante desobediência à sua proibição. Nesta última hipótese, devemos entender que, malgrado o alto grau de politização ali reinante, reinava também a mais completa anarquia, de modo que o coletivo não conseguia controlar as veleidades individuais de seus membros e os deixava à solta para que, como verdadeiros individualistas anárquicos, fizesse cada qual o que bem lhe desse na telha. É claro que, neste último caso, os presos políticos não teriam podido resistir às pressões do ambiente nem muito menos fazer, como disse o dr. Tórtima, “que os bandidos se acomodassem às nossas regras”. Então não há dúvida: transmitir aos bandidos ensinamentos de guerrilha não pode ter sido uma decisão deixada ao arbítrio individual. Amorim diz muito claro que, pelo menos a partir de 1975, etapa decisiva na formação do Comando Vermelho, as relações entre presos comuns e presos políticos não se davam de indivíduo a indivíduo, mas de comitê a comitê.

Raciocínio III — Se os livros, os manuais de guerrilha, estavam proibidos de circular em todo o território nacional, muito mais o estavam entre os muros da prisão. Introduzi-los ali e fazê-los circular, mesmo exclusivamente entre militantes, era grande temeridade. Transferi-los a bandidos comuns, gente isenta de qualquer compromisso ideológico e de toda confiabilidade moral, era certamente expor-se a risco de delação, a não ser que houvesse um acordo prévio entre o comitê dos políticos e o dos presos comuns, com previsão de graves sanções contra os faltosos.

Hipóteses contrárias, só há duas: ou os presos políticos entregavam aos bandidos obras de Ché Guevara e Carlos Marighela por mero descuido, folgadamente como quem distribui a crianças exemplares de Luluzinha e Tio Patinhas ; ou então os presos comuns é que tinham um organizadíssimo serviço de espionagem capaz de burlar a vigilância dos políticos e surrupiar uns quantos exemplares das obras explosivas ciosamente guardadas. Mas, se era improvável que militantes tão descuidados sobrevivessem na Ilha Grande, muito mais o seria que os “individualistas” anárquicos lograssem montar um serviço de espionagem tão eficiente.

O testemunho de Tórtima e as opiniões de Amorim, portanto, caem por terra. O que fica de pé é a narrativa de Amorim, a sustentar, com eloquência terrível, a conclusão que o autor não quis endossar pessoalmente: ou os militantes de esquerda ensinaram guerrilha aos bandidos com um propósito deliberado, ou então a aquisição desse conhecimento pelos líderes do Comando Vermelho é o mais prodigioso milagre de absorção espontânea já registrado nos anais da pedagogia universal. Deixo esta hipótese para os adeptos da tese segundo a qual Deus é brasileiro. Quanto à outra, resta discutir se o propósito dos esquerdistas foi cooptar os bandidos para a luta armada sob seu comando ou simplesmente o de vingar-se pela derrota da guerrilha deixando para o governo militar a semente do futuro tormento do banditismo organizado. Pode ter sido uma mistura das duas coisas. Alguns policiais apostam na primeira, jurando que o Comando Vermelho é uma extensão e recrudescimento da guerrilha urbana, um novo braço armado das esquerdas. Esta certeza tem o mesmo fundamento daquela do dr. Tórtima: uma opção ideológica prévia que faz ver tudo torto, ou tórtimo. Deixarei esta questão para outra oportunidade, advertindo apenas que ela não pode ser resolvida pelo método das apostas sentimentais. Mas, qualquer que tenha sido o caso, uma coisa é certa: se os militantes da esquerda armada treinaram bandidos-guerrilheiros dentro da prisão, os da esquerda desarmada, fora dela, estão dando seguimento coerente à sua iniciativa, na medida em que ajudam o Comando Vermelho a conquistar uma posição de força como “liderança popular” legitimada artificialmente, e o integram assim na estratégia global da esquerda, já não como força militar, e sim política. Se os jovens guerrilheiros de l968 não tinham uma estratégia definida para aproveitar-se politicamente do banditismo, os velhos políticos esquerdistas de 1994 estão lhes dando uma, retroativamente. Não se trata de uma ponte entre gerações: é que estes velhos, simplesmente, são aqueles jovens, adestrados pelo tempo. Os jovens matavam e roubavam pela revolução; os velhos tiram dividendos políticos de assaltos e homicídios praticados por outros. Servem-se do banditismo duplamente: ao protegê-lo e ao denunciá-lo. No primeiro caso, ganham — ou pelo menos tencionam ganhar — os votos da população pobre, que supõem obediente ao Comando Vermelho; no segundo, servem-se dele como pretexto para denunciar a corrupção da sociedade capitalista. Alimentam o mal para poder acusá-lo, o que é, sem exagero, o tipo da malícia propriamente diabólica, imitando o tinhoso no seu duplo e inseparável papel de tentador e acusador. Se a idéia de cooptar os bandidos para a luta armada era uma fantasia insensata, se o desejo de vingar-se da ditadura era uma pirraça juvenil, uma esquerda mais madura e experiente está sabendo reaproveitar e tirar vantagem política daquilo que, entre névoas, foi gerado na Ilha Grande. A quem poderia ser doce esse fruto senão a quem, de olho no futuro, plantou a sua semente?

Apendice Ii A Nova Era E A Revolucao Cultural

Data N/A | Fritjoj Capra & Antonio Gramsci

edição, revista e aumentada.

Apêndice II.

O Brasil do PT A entrevista do teórico do PT, Marco Aurélio Garcia, no Jornal da Tarde de 12 de janeiro, mostra que, por trás de uma tranquilizante fachada moderninha, esse partido não tem nada a propor senão o bom e velho comunismo.

Segundo o entrevistado, o governo do PT não será socialista. Os ingênuos tomam esta promessa como uma garantia. Mas, prossegue Marco Aurélio, esse governo será uma “democracia popular” e constituirá “um aperfeiçoamento do capitalismo” com vistas a “um horizonte socialista” — um horizonte vago e indistinto o bastante para não alarmar o eleitorado. O que o eleitorado, novo e inculto, ignora por completo é que aperfeiçoar o capitalismo para chegar ao socialismo não é nenhuma proposta nova, mas sim a única estratégia de governo comunista que já existiu e a única que poderia existir, já que, segundo Marx, o socialismo não pode ser implantado antes que o capitalismo desenvolva suas potencialidades até o esgotamento. A função do governo de transição, “democrático-popular”, é acelerar esse esgotamento. Na Rússia, essa fase intermediária chamou-se NEP, Nova Política Econômica, implantada por Lênin logo após a tomada do poder pelos comunistas. Se o próprio Lênin, subindo ao poder no bojo de uma revolução armada, não implantou logo o comunismo, e sim apenas um “capitalismo aperfeiçoado”, por que o PT haveria de fazer mais, levado ao poder pela via gradual e pacífica do gramscismo?

Marco Aurélio Garcia, prosseguindo na linha tranquilizante, assegura que os empresários nada perderão e terão tudo a ganhar no Brasil petista: “Se queremos desenvolver um grande mercado de massas, é claro que grande parte da burguesia vai tirar proveito disso.” Mas é exatamente o que dizia Lênin: não se pode fazer a transição para o socialismo sem que, na passagem, a burguesia ganhe um bocado de dinheiro com o incremento dos negócios. Nisto consistiu precisamente a NEP. Mas não se pense que os comunistas fiquem tristes com a súbita prosperidade dos seus desafetos. Ao contrário: acenando com a promessa de ganhos rápidos, o governo comunista faz trabalhar em favor da revolução a cobiça imediatista dos burgueses, cumprindo a profecia de Lênin: “A burguesia tece a corda com que será enforcada.” O truque é simples: com o progresso rápido do capitalismo, cresce também rapidamente o proletariado, base de apoio do governo comunista. Tão logo esta base esteja firme para sustentar o governo sem a ajuda dos burgueses, o governo puxa o laço. Em seguida os burgueses mortos ou banidos são substituídos em suas funções dirigentes por uma nova classe de burocratas de origem proletária ao menos nominal.

Garcia diz que o PT quer um “Estado forte”, dotado de “mecanismos de controle do Parlamento, da Justiça, do Tribunal de Contas e das estatais”. Mas que diabo é isto senão o totalitarismo mais descarado? Nas democracias, a autonomia dos três poderes tem sido um mecanismo confiável e suficiente para o controle do poder. O que o PT advoga é que dois desses poderes sejam controlados por um terceiro, o Executivo, desde o momento em que este caia nas mãos do sr. Luís Inácio Lula da Silva. Nesta hipótese, dará na mesma que o Executivo policie os outros dois poderes diretamente, numa ditadura ostensiva, ou que o faça por intermédio de organizações autonomeadas representantes da sociedade civil — sindicatos, ONGs, grupos de intelectuais, grêmios estudantis — e controladas, por sua vez, pela facção política dominante, isto é, pelo PT: em ambos os casos, o que teremos será o crescimento hipertrófico do poder e seu absoluto descontrole.

Interrogado sobre o destino que o governo petista dará às Forças Armadas, Garcia responde, com toda a clareza de quem diz exatamente o que pensa: mudar a Constituição, para que as Forças Armadas deixem de ter, entre suas atribuições, a de combater inimigos internos, e passem a se incumbir exclusivamente da defesa das fronteiras nacionais. Ora, mandadas para a fronteira, desligadas do combate a inimigos internos, as Forças Armadas estarão duplamente impedidas — pela obrigação constitucional e pela distância — de mover um só dedo contra o crime organizado, que, sob aplausos de uma certa intelectualidade esquerdista, já domina um Estado da Federação. Se, ampliando o que hoje acontece no Rio, uma aliança entre políticos e delinquentes atear fogo ao país inteiro, as Forças Armadas nada poderão fazer contra isso, porque estarão, fiéis ao dever constitucional, aquarteladas num cafundó amazônico, velando contra a iminente invasão boliviana ou talvez dando nos marines uma surra de fazer inveja ao vietcongue.

Mas será estranho que um dirigente petista alimente esse projeto insano, quando seu partido também tem, entre seus principais quadros teóricos, um tal sr. César Benjamin, biógrafo-apologista do fundador do Comando Vermelho? Recordemos: escrito com a ajuda deste teórico petista, o livro em que o quadrilheiro William Lima da Silva faz a apologia do crime foi publicado pela Editora Vozes, da esquerda católica, e lançado, com noite de autógrafos e muita badalação, em cerimônia realizada na sede da ABI em 199l. Apesar do que dispõe o Art. 287 do Código Penal, ninguém foi processado. Alguns vêem em fatos como esse perigosos sinais de ligações entre as esquerdas e o crime organizado. Se há ou não aí uma aliança política subterrânea, é algo que só o tempo dirá. Mas que as esquerdas estão ligadas ao Comando Vermelho pelo passado comum e por uma profunda afinidade “espiritual” baseada no culto dos mesmos mitos e dos mesmos rancores, é coisa que está fora de dúvida. E como os senhores do crime não haveriam de sentir essa afinidade como um verdadeiro reconforto, diante da promessa petista de tirar do seu caminho o único obstáculo que ainda pode inibir suas ambições?

A proposta petista de aumentar a dotação orçamentaria das Forças Armadas em troca de retirar delas a responsabilidade pelo combate ao inimigo interno é puro suborno, em que o PT veste implicitamente a carapuça de inimigo interno. Se ainda existe consciência estratégica entre os militares, a proposta indecente será repelida.

Enfim, se Marco Aurélio Garcia procura aplacar o temor ante o espectro comunista dizendo que o regime petista não será socialismo e sim “democracia popular”, também nisto não há novidade alguma:

todos os regimes comunistas se intitulavam “democracias populares”.

O PT, seguindo a lição de Hitler, não se dá sequer o trabalho de ocultar o que pretende fazer: anuncia seus planos abertamente, contando com a certeza de que o wishfulthinking popular dará às suas palavras um sentido atenuado e inocente, sem enxergar qualquer periculosidade mesmo nas ameaças mais explícitas. Afinal, quanto mais assoberbado de males se encontra um povo, mais ansioso fica de crer em alguma coisa e menos disposto a encarar com realismo a iminência de males ainda maiores. Nessas horas, a maneira mais segura de ocultar uma intenção maligna é proclamá-la cinicamente, para que, tomada como inverossímil em seu sentido literal, seja interpretada metaforicamente e aceita por todos com aquela benevolência compulsiva que nasce do medo de ter medo. Quando Hitler prometeu dar um fim aos judeus, também foi interpretado em sentido metafórico.

A predisposição da opinião pública para não enxergar o risco evidente nasce, por um lado, da própria hegemonia que as ideologias de esquerda exercem sobre o nosso panorama cultural, impondo viseiras psicológicas mesmo a pessoas que, politicamente, divergem da esquerda. A política é apenas uma superfície da vida social, e de nada adianta divergir na superfície se, no fundo — nas convicções morais, nos sentimentos básicos, nas atitudes vitais elementares — copiamos servilmente o figurino mental do adversário.

Nasce, por outro lado, da ilusão de que o comunismo está morto. É um excesso de ingenuidade — ou, talvez, medo de ter medo — supor que o fracasso do comunismo no Leste europeu liquidou de vez as ambições dos comunistas em toda parte. O ressentimento move montanhas, dizia Nietzsche. Particularmente no Brasil, é muito profunda nas esquerdas a aspiração mítica de alcançar uma vitória local que, pelo seu próprio caráter inesperado e tardio, possa resgatar a honra do movimento comunista humilhado em todo o mundo. Permitir que o PT realize seus planos de “democracia popular”, sob o pretexto de que o comunismo é um cavalo morto, é arriscar-se a um coice que provará a vitalidade do defunto.

Ademais, o movimento das idéias no Brasil não acompanha pari passu a evolução do mundo, mas fica sempre atrás. Em 1930, quando o positivismo de Augusto Comte já era peça de museu no seu país de origem, uma revolução tomou o poder no Brasil inspirada no modelo positivista do Estado. O espiritismo, moda européia que morreu por volta da Primeira Guerra sem nunca mais reencarnar, ainda é no Brasil quase uma religião oficial. Nossos intelectuais ainda estão empenhados no combate ao lusitanismo em literatura, quase um século depois de rompido o intercâmbio literário entre Brasil e Portugal. As velhas religiões africanas, que os negros de todo o mundo vão abandonando para aderir ao islamismo, aqui vão conquistando novas massas de crentes entre os brancos. Enfim, o tempo nesta parte do mundo corre ao contrário. Por que o comunismo, morto ou moribundo em toda parte, não poderá ressurgir neste país, fiel ao atraso crônico do nosso calendário mental? Pelo menos é o que nos promete a entrevista de Marco Aurélio Garcia: se depender dele, não falharemos em nossa missão cósmica de coletores do lixo refugado pela História.

Homens de formação arraigadamente marxista, insensíveis durante toda uma vida a quaisquer outras correntes de idéias, simplesmente não podem , no breve prazo decorrido desde a queda do Muro de Berlim, ter feito uma revisão profunda e séria de suas convicções. Mudanças, se houve, foram epidérmicas, para não dizer simuladas. A força atrativa do messianismo comunista não acabou: refluiu para a obscuridade, de onde, vitalizada pelo apelo nostálgico e pela ânsia de um renouveau transfigurador, está pronta a ressurgir ao menor sinal de uma oportunidade. Declarações improvisadas de arrependimento nada significam, sobretudo em homens que, habituados por uma praxe do cerimonial comunista a utilizar-se de rituais de “autocrítica” como instrumentos de sobrevivência política, acabaram por assimilar profundamente o vício da linguagem dúplice, a ponto de torná-la uma segunda natureza. Um século de história do comunismo prova que nada iguala a capacidade da esquerda de tapar os próprios ouvidos à verdade, senão a sua habilidade de desviar dela os olhos alheios. A pressa mesma com que alguns próceres comunistas compareceram ante as câmeras de TV para declarar a falência do comunismo é suspeita, uma vez que em nenhum deles a desilusão foi profunda a ponto de fazê-lo desejar abandonar a política. Do dia para a noite, desvestiram a camisa soviética, vestiram um modelito novo, e sem mais delonga reapareceram, prontos para outra, com o maior vigor e animação, discursando com aquela certeza, com aquela segurança de quem jamais tivesse sido desmentido pelos fatos. Acredite nessa gente quem quiser.

Da minha parte, não duvido de todos os comunistas. Acredito em Antonio Gramsci, quando diz que o Partido é o novo “Príncipe” de Maquiavel, e acredito em Bertolt Brecht, quando diz que para um comunista a verdade e a mentira são apenas instrumentos, ambos igualmente úteis à prática da única virtude que conta, que é a de lutar pelo comunismo.

Nota Aos que, lido este apêndice, enxergarem no autor um hidrófobo antipetista, advirto que votei em Lula para presidente e o faria de novo, com prazer, se ele tomasse as seguintes providências:

Banir do seu partido o elenco de vedettes intelectuais que, formadas numa atmosfera marxista, e apegadas a ela como um bebê à saia da mãe, insistem em manter aprisionado nela o movimento socialista que anseia por novas idéias. Exorcizar de vez os fantasmas de Marx, Lênin, Débray, Althusser, Gramsci e tutti quanti , e permitir que a idéia socialista cresça livre de gurus e totens. Quando Lula diz que nossas elites viveram “com os olhos voltados para a França e a bunda voltada para o Brasil”, não percebe ele que isso é uma descrição exata da elite intelectual petista, e esquerdista em geral?

Reprimir o uso de táticas de movimento clandestino e revolucionário, que são indecentes num partido que professa conviver democraticamente com outros partidos num Estado de direito. Infiltração, espionagem, delação, boicote moral podem ser necessários e inevitáveis a um movimento de oposição que queira sobreviver numa ditadura. Em regime de liberdade, são práticas intoleráveis, principalmente em políticos que posam de professores de ética. Quando os apóstolos da ética citam como um exemplo para o Brasil o que os americanos fizeram com Nixon após o caso Watergate , esquecem de dizer que Nixon não caiu por causa de um desvio de verbas, mas por causa da prática de espionagem. Se a corrupção é um crime, a espionagem é um ato de guerra , que destrói, pela base, o edifício democrático.

Lula é um homem decente e, como disse Francisco Weffort, é alguém maior do que o seu partido. Se ele se utilizar da tremenda força do seu prestígio para exterminar esses dois vícios, o marxismo e o clandestinismo, o Partido dos Trabalhadores se transformará naquilo que seu nome promete, deixando de ser apenas o partido da nostalgia comunista.

Baita Democracia

Data N/A | Zero Hora

de outubro de 2006 Pelos frutos os conhecereis, mas não adianta ver os frutos sem saber de qual planta e raiz brotaram. Com exceções minguadíssimas e irrelevantes, a classe política atual é constituída de três grupos sociais bem nítidos:

1.

Os componentes da oposição de esquerda ao regime militar, todos ligados a organizações comunistas como o PCB, o PC do B, a AP, a Pol-Op etc. São a casta superior da política nacional. Têm o prestígio da antigüidade, da luta contra a ditadura e dos sofrimentos inenarráveis que, embora não incluam uma só ferida sangrenta ou um só membro quebrado, lhes rendem indenizações rechonchudas às quais os milhares de aleijados e mutilados das prisões cubanas, que eles ajudaram a prender e torturar, não ousariam aspirar nem em sonhos.

2.

A segunda geração de militantes comunistas e pró-comunistas, que não participou diretamente da luta contra a ditadura mas se formou sob a influência direta e abrangente do grupo 1.

3.

Arrivistas variados, sem cor ideológica definida, provenientes de organizações religiosas ou de interesses regionais, que, gostando ou não gostando dos grupos 1 e 2, acabam se adaptando à sua linguagem e aos seus valores, seja por oportunismo, seja por absoluto desconhecimento de outras alternativas mentais possíveis.

Se você sabe o que é conservadorismo – aquela política que se constitui da síntese inseparável de economia de livre mercado, democracia parlamentar, lei e ordem, moral judaico-cristã e predomínio da cultura clássica na educação -, sabe também que não há um só conservador nos grupos 1, 2 ou 3. O leque das opções disponíveis resume-se ao esquerdismo e à inocuidade acomodada. Escolha e vote. É a democracia brasileira em ação. Segundo o senhor Geraldo Alckmin, cuja fidelidade admirável à segunda opção lhe valeu o apelido de Chuchu, isso sim é que é democracia. Baita democracia. Não aquela farsa americana, onde os eleitores têm de escolher entre radical right, paleoconservatives, neoconservatives, libertarians, left-liberals (esquerda moderada) e radical left – um tédio.

Para piorar – o senhor Alckmin não disse, mas digo-o eu -, os políticos americanos têm a mania de registrar suas propostas em livros antes de apregoá-las de cima dos palanques eleitorais. Seus adeptos seguem o exemplo, e seus adversários lhes respondem com outros livros. E os livros, droga!, têm de ser muito bem escritos, senão a mídia ranheta não lhes presta a mínima atenção. A cada novo pleito, é uma biblioteca inteira de opiniões, de críticas, de análises, de depoimentos, de projetos que aparece na praça. A produção intelectual de uma só eleição americana supera de longe, em volume e qualidade, tudo o que se escreveu sobre política no Brasil ao longo de aproximadamente meio século. Assim não dá, gente. O senhor Alckmin precisa ir lá dar um jeito nisso.

Aqui, os únicos três livros interessantes para a orientação do eleitor neste pleito não foram escritos por candidatos. Já celebrei, de passagem, as memórias do senhor Ricardo Kotscho, onde ele explica como é possível estar sempre por dentro de tudo sem nunca ficar sabendo de nada. Assinalo também Nervos de Aço , o depoimento do herói-bufão Roberto Jefferson, em caprichada edição da Topbooks, narrativa animada de como ele foi parar no melhor lugar da política brasileira, que é fora dela. E, é claro, O Chefe , de Ivo Patarra, meticulosa reconstituição de 403 dias de roubalheira petista, que editora nenhuma quis publicar mas pode ser descarregado do site http://www.escandalodomensalao.com.br/ . O problema é que nenhum dos três ajuda a escolher candidato. Ajuda é a desistir de votar.

Em 1 de outubro de 2006

Dialetica Da Covardia

Data N/A | Diário do Comércio, 28

Toda decisão covarde, quer se expresse por ação ou omissão, deixa no fundo da alma uma vergonha que, quanto menos reconhecida e confessada, mais exige rituais histéricos de compensação. Posta vergonhosamente em fuga por um golpe militar que não disparou um só tiro, a esquerda brasileira exibe até hoje os sintomas residuais do vexame enterrado, mas jamais completamente esquecido: daí sua compulsão incurável de exagerar hiperbolicamente os sofrimentos padecidos e a força ameaçadora do adversário, pintado sempre como um dragão voraz mesmo quando obviamente não passa de um cãozinho doméstico.

Exemplo típico é o historiador comunista Nelson Werneck Sodré, do qual escrevi em 2008 (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/080414dc.html ) :

“Descrevendo no seu livro A Fúria de Calibã os horrores apocalípticos da perseguição a intelectuais logo após o golpe de 1964, que ele não hesita em nivelar ao que sucedeu na Alemanha de Hitler, acaba se traindo ao relatar que, naquele mesmo período, publicou não sei quantos livros, teve não sei quantas críticas favoráveis, algumas entusiásticas, foi brindado com alguns prêmios literários e no fim ainda recebeu uma homenagem no Instituto Brasileiro de História Militar, em cerimônia realizada na presença... do presidente da República, marechal Castelo Branco. Jamais um historiador consentiu em personificar tão escandalosamente um exemplum in contrarium da sua descrição geral dos fatos.”

Mas, evidentemente, Werneck não foi o único. A repressão foi tão violenta, tão avassaladora, que o período do governo militar (1964-1985) acabou sendo, segundo registros da Câmara Brasileira do Livro, o de maior prosperidade da indústria editorial esquerdista no país.

Paralelamente, jornalistas de esquerda dominavam as redações dos maiores jornais e eles próprios publicavam semanários “nanicos” nos quais falavam o diabo da “grande mídia burguesa”.

Intelectuais e artistas de esquerda imperavam também sobre as universidades e a indústria de espetáculos – tudo isso porque, coitadinhos, tinham sido banidos de toda atividade pública, como os dissidentes soviéticos ou cubanos. Nunca no mundo os perseguidos se refugiaram em catacumbas tão altas e vistosas.

Erik von Kuenhelt-Leddihn já ensinava que ninguém jamais entenderá a mentalidade esquerdista se não estudar muito bem o mecanismo do fingimento histérico.

Mas ninguém cairia vítima de uma neurose se dela não extraísse alguma vantagem secundária, algum lucro que pode ir muito além do mero reconforto psicológico postiço.

Exagerar o tamanho e a periculosidade do adversário dissemina entre os militantes um estado de alerta, instila neles um reflexo de autodefesa grupal que os predispõe a odiar o adversário mesmo e sobretudo quando nada sabem dele. Que partido revolucionário não precisa disso?

Quando uma compulsão neurótica se soma a um proveito objetivo, ficar cada vez mais neurótico se torna um modo de vida, uma “forma mentis” integral que acaba por absorver a personalidade inteira. Que mais pode desejar um revolucionário do que um uma engenharia cênica na qual fugir da realidade se transmuta num meio de agir sobre ela com alguma eficácia?

Dessa incongruência nasce uma segunda, também característica da mente revolucionária, que é o hábito de cantar vitória ao mesmo tempo que se imagina o adversário cada vez mais forte e indestrutível, principalmente quando este agoniza e esperneia no ar entre gemidos de impotência.

É assim que, no seu blog da “Carta Maior”, o indefectível dr. Emir Sader, mais conhecido nos círculos reacionários como Marquês de Sader, explica a adesão dos liberais Eduardo Gianetti da Fonseca e André Lara Rezende à candidatura Marina Silva como um truque maquiavélico da direita, prenúncio da restauração conservadora, quando ela é obviamente o oposto: a autodissolução de um corpo debilitado num corpo mais forte que, ao absorvê-lo, o extingue.

Duas ou três concessõezinhas oferecidas pela candidata à economia liberal, que no fundo em nada diferem daquelas feitas pelo primeiro mandato do sr. Lula, pouco significam em comparação com o fato de que o partido de Marina pertence ao Foro de São Paulo e, como tal, tem compromissos estratégicos internacionais que, no presente momento, seus aliados liberais não compreendem e nem sequer vislumbram, e que com toda a certeza prevalecerão, a longo prazo, sobre qualquer arranjo oportunista de campanha eleitoral.

Nada mais característico da debilidade direitista no Brasil, aliás, do que a pseudo-esperteza de aderir ao que não se pode vencer, receita de Maquiavel que, praticada pelo próprio inventor, só o levou de derrota em derrota até a completa humilhação final de ter de viver, na velhice, de um empreguinho chinfrim arrumado, num gesto de caridade, por um de seus velhos inimigos.

Maquiavel é o guru dos derrotados, sempre um derrotado ele próprio. Talvez por isso exerça tanta atração sobre quem não tem a mínima vocação para a vitória nem, por isso mesmo, como diria o sr. Lula, “nenhuma perspectiva de poder”.

Interpretando a debilidade como sinal de força, o Marquês de Sader, por seu lado, foge da realidade ao mesmo tempo que age sobre a mente da sua platéia com realismo exemplar: instigando nos fortes o medo do fraco para impeli-los a torná-lo mais fraco ainda.

Direita E Esquerda Origem E Fim

Data N/A | Diário do Comércio

de novembro de 2005 Proponho ao leitor, hoje, uma breve investigação de história das idéias. Ela pode ser um tanto trabalhosa no começo, mas renderá bons frutos para a compreensão de muitos fatos da vida presente.

A inconstância e a variedade dos discursos ideológicos da esquerda e da direita, para não mencionar suas freqüentes inversões e enxertos mútuos, tornam tão difícil apreender conceptualmente a diferença entre essas duas correntes políticas, que muitos estudiosos desistiram de fazê-lo e optaram por tomá-las como meros rótulos convencionais ou publicitários, sem qualquer conteúdo preciso.

Outros, vendo que a zona de indistinção entre elas se amplia com o tempo, concluíram que elas faziam sentido na origem, mas se tornaram progressivamente inutilizáveis como conceitos descritivos.

Apesar dessas objeções razoáveis, as denominações de esquerda e direita ainda servem a grupos políticos atuantes, que, não raro imantando-as com uma carga emocional poderosa, as utilizam não só como símbolos de auto-identificação mas, inversamente, como indicadores esquemáticos pelos quais desenham em imaginação a figura do seu adversário ideal e a projetam, historicamente, sobre este ou aquele grupo social.

Quando surge uma situação paradoxal desse tipo, isto é, quando conceitos demasiado fluidos ou mesmo vazios de conteúdo têm não obstante uma presença real como forças historicamente atuantes, é porque suas várias e conflitantes definições verbais são apenas tentativas parciais e falhadas de expressar um dado de realidade, uma verdade de experiência, cuja unidade de significado, obscuramente pressentida, permanece abaixo do limiar de consciência dos personagens envolvidos e só pode ser desencavada mediante a análise direta da experiência enquanto tal, isto é, tomada independentemente de suas formulações verbais historicamente registradas.

Dito de outro modo: a distinção de direita e esquerda existe objetivamente e é estável o bastante para ser objeto de um conceito científico, mas ela não consiste em nada do que a direita ou a esquerda dizem de si mesmas ou uma da outra. Consiste numa diferença entre duas percepções da realidade, diferença que permanece constante ao longo de todas as variações de significado dos termos respectivos e que, uma vez apreendida, permite elucidar a unidade por baixo dessas variações e explicar como elas se tornaram historicamente possíveis.

Anos atrás comecei a trabalhar numa solução para esse problema e de vez em quando volto a ela desde ângulos diversos, sempre notando que permanece válida.

A solução, em versão dramaticamente resumida, é a seguinte: direita e esquerda, muito antes de serem diferenças “ideológicas” ou de programa político, são duas maneiras diferentes de vivenciar o tempo histórico. Essas duas maneiras estão ambas arraigadas no mito fundador da nossa civilização, a narrativa bíblica, que vai de uma “origem” a um “fim”, do Gênesis ao Apocalipse. Note o leitor que a origem se localiza num passado tão remoto, anterior mesmo à contagem do tempo humano, que nem pode ser concebida historicamente. Começa num “pré-tempo”, ou “não-tempo”. Começa na eternidade. O final, por sua vez, também não pode ser contado como capítulo da seqüência temporal, pois é a cessação e a superação do transcurso histórico, o “fim dos tempos”, quando a sucessão dos momentos vividos se reabsorve na simultaneidade do eterno. A totalidade dos tempos, pois, transcorre “dentro” da eternidade, exatamente como qualquer quantidade, por imensa que seja, é um subconjunto do infinito. O Apóstolo Paulo expressa isso de maneira exemplar, dizendo: “ N’Ele [em Deus, no infinito, no eterno] vivemos, nos movemos e somos [agimos e existimos historicamente, isto é, no tempo].” Estar emoldurado pela eternidade é um elemento essencial da própria estrutura do tempo. Sem estar balizada pela simultaneidade, a sucessão seria impossível: a própria idéia de tempo se esfarelaria numa poeira de instantes inconexos. Não é, pois, de espantar que a consciência histórica se forme desde dentro do legado judaico-cristão como um de seus frutos mais típicos. Mas, quando entre os séculos XVIII e XIX essa consciência se consolida como domínio independente e floresce numa variedade de manifestações, entre as quais a “ciência histórica”, a “filosofia da história” e a voga das idéias de “progresso” e “evolução”, nesse mesmo instante a moldura eterna desaparece e a dimensão temporal passa a ocupar todo o campo de visão socialmente dominante.

Uma das primeiras conseqüências dessa restrição do horizonte é que as idéias de “origem” e “fim”, já não remetendo a uma dimensão supratemporal, passam a ser concebidas como meros capítulos “dentro” do tempo – uma incongruência quase cômica que infectará com o germe da irracionalidade muitas conquistas de uma ciência que se anunciava promissora. Entre as inúmeras manifestações da teratologia intelectual que desde então sugam as atenções de pessoas bem intencionadas destacam-se, por exemplo, as tentativas de datar o começo dos tempos a partir de uma suposta origem da matéria, como se as leis que determinam a formação da matéria não tivessem de preexistir-lhe eternamente; ou os esforços patéticos para abranger o conjunto do transcurso histórico num sistema de “leis” que presumidamente o levam a um determinado estágio final, como se o estágio final não fosse apenas mais um acontecimento de uma seqüência destinada a prosseguir sem término previsível.

Se nas esferas superiores do pensamento florescem então por toda parte concepções pueris que empolgam as atenções por umas décadas para depois ser atiradas à lata de lixo do esquecimento, o distúrbio geral da percepção do tempo não poderia deixar de se manifestar também, até com nitidez aumentada, em domínios mais grosseiros da atividade mental humana, como a política. E é aí que as balizas eternas do tempo, reduzidas a capítulos especiais da seqüência temporal, passam a ser vivenciadas como dois símbolos legitimadores da autoridade política.

De um lado, a mera antigüidade temporal do poder existente (que na realidade podia nem ser tão antigo assim, apenas mais velho que seus inimigos) parecia investi-lo de uma aura celeste. O famoso “direito divino dos reis”, que de fato não era uma instituição muito antiga, mas o resultado mais ou menos recente do corte do cordão umbilical que atava o poder real à autoridade da Igreja, não é senão a tradução em linguagem jurídico-teológica de uma vivência de tempo que identificava a antigüidade relativa com a origem absoluta.

De outro lado, a perspectiva do Juízo Final, com o prêmio dos justos e o castigo dos maus quando da reabsorção do tempo na eternidade, era espremida para dentro da imagem futura de um reino terrestre de justiça e paz, de um regime político perfeito, que, paradoxalmente, seria ao mesmo tempo o fim da história e a continuação da história.

Tal é a origem respectiva dos “reacionários” ou “conservadores” e dos “revolucionários” ou “progressistas”. A direita e a esquerda modernas surgem de adaptações degradantes de símbolos mitológicos, roubados à eternidade, comprimidos na dimensão temporal e transfigurados em deuses de ocasião.

É evidente que, na estrutura do tempo real, não existe nem antigüidade sacra nem apocalipse terrestre – nem direito divino dos reis nem carisma do profeta revolucionário. São, um e outro, menos que mitos (pois uso o termo “mito” no sentido nobre de narrativa arquetípica, e não como oposto de “verdade”). O rei não é o poder de Deus e o revolucionário não é um profeta. São apenas dois sujeitos que se imaginam importantes, o primeiro porque toma a antiguidade da sua família como se fosse a origem dos tempos, o segundo porque atribui a seus projetos de governo a grandeza mítica do Juízo Final.

Direita e esquerda passaram por inúmeras variações e combinações ao longo dos últimos séculos. Mas, onde quer que se perfilem com força suficiente para hostilizar-se mutuamente no palco da política, essa distinção permanece no fundo dos seus discursos: direita é o que se legitima em nome da antigüidade, da experiência consolidada, do conhecimento adquirido, da segurança e da prudência, ainda quando, na prática, esqueça a experiência, despreze o conhecimento e, cometendo toda sorte de imprudências, ponha em risco a segurança geral; esquerda é o que se arroga no presente a autoridade e o prestígio de um belo mundo futuro de justiça, paz e liberdade, mesmo quando, na prática, espalhe a maldade e a injustiça em doses maiores do que tudo o que se acumulou no passado.

O fato de que tantas vezes os conteúdos dos discursos de direita e esquerda se mesclem e se confundam explica-se facilmente pela precariedade mesma de seus símbolos iniciais de referência – a antigüidade e o futuro –, os quais, não podendo dar conta da realidade concreta, exigem dialeticamente ser complementados pelos seus respectivos contrários, fazendo brotar, dentro de cada uma das duas regiões mentais em luta para distinguir-se e sobrepujar-se mutuamente, uma área que já não é antagônica à sua adversária, mas é a sua imitação. É assim que, por exemplo, a permanência conservadora pode ser projetada no futuro, numa espécie de utopia do existente, como as aventuras coloniais com que os reis prometiam a expansão da fé. E é assim que o hipotético mundo futuro do revolucionário busca revestir-se do prestígio das origens, apresentando-se como restauração de uma perdida idade de ouro, como na doutrina do “bom selvagem” de Rousseau ou no “comunismo primitivo” de Karl Marx. É inevitável, pois, que os conteúdos dos discursos respectivos por vezes se confundam, mas só retoricamente, pois, na esfera da ação prática, tanto o reacionário quanto o revolucionário se apegam firmemente às suas respectivas orientações no tempo.

Por meio dessa distinção é possível captar a unidade entre diferentes tipos históricos de direitismo e esquerdismo cuja variedade, de outra maneira, nos desorientaria. Um adepto do capitalismo liberal clássico, portanto, podia ser um esquerdista no século XVIII, porque apostava numa utopia de liberdade econômica da qual não tinha experiência concreta num universo de mercantilismo e estatismo monárquico. Mas é um conservador no século XXI porque fala em nome da experiência adquirida de dois séculos de capitalismo moderno e já não pretende chegar a um paraíso libertário e sim apenas conservar, prudentemente intactos, os meios de ação comprovadamente capazes de fomentar a prosperidade geral. Pode, no entanto, tornar-se um revolucionário no instante seguinte, quando aposta que a expansão geral da economia de mercado produzirá a utopia global de um mundo sem violência. Em cada etapa dessas transformações, o coeficiente de esquerdismo e direitismo de sua posição pode ser medido com precisão razoável.

É inevitável, também, que, pelo menos em certos momentos do processo, esquerdistas e direitistas se equivoquem profundamente no julgamento de si próprios ou de seus adversários. Da parte dos direitistas, tanto hoje como ao longo de todo o século XX, a grande ilusão é a da equivalência. Como estão acostumados à idéia de que direita e esquerda existem como dados mais ou menos estáveis da ordem democrática, acreditam que essa ordem pode ser preservada intacta e que para isso é possível “educar” os esquerdistas para que se afeiçoem às regras do jogo e não tentem mais destruir a ordem vigente. Pelo lado esquerdista, porém, essa acomodação é impossível. No mundo dos direitistas pode haver direitistas e esquerdistas, mas, no mundo dos esquerdistas, só esquerdistas têm o direito de existir: o advento do reino esquerdista consiste, essencialmente, na eliminação de todos os direitistas, na erradicação completa da autoridade do antigo. Foi por essas razões que os EUA retiraram pacificamente suas tropas dos países europeus ocupados depois da II Guerra Mundial, acreditando que os russos iam fazer o mesmo, quando os russos, ao contrário, tinham de ficar lá de qualquer modo, porque, na perspectiva da revolução, o fim de uma guerra era apenas o começo de outra e de outra e de outra, até à extinção final do capitalismo. A sucessão quase inacreditável de fracassos estratégicos da direita no mundo deve-se, no fundo, a uma limitação estrutural do direitismo: eliminar a esquerda completamente seria uma utopia, mas a direita não pode tornar-se utópica sem deixar de ser o que é e transformar-se ela própria em revolucionária, absorvendo valores e símbolos da esquerda ao ponto de destruir a própria ordem estabelecida que desejava preservar. O fascismo, como demonstrou Erik von Kuenhelt-Leddin no clássico “Leftism: From De Sade and Marx to Hitler and Marcuse” (1974), nasce da esquerda e arrebata a direita na ilusão suicida da revolução contra-revolucionária. Ser direitista é oscilar perpetuamente entre uma tolerância debilitante e acessos periódicos de ódio vingativo descontrolado e quase sempre vão. Mas a direita no Brasil está em decomposição há décadas e não tem graça nenhuma falar dela.

A esquerda, por sua vez, como se apóia integralmente na imagem móvel de um futuro hipotético, não pode julgar-se a si própria pelos padrões atualmente existentes, condenados “a priori” como resíduos de um passado abominável. Seu único compromisso é com o futuro, mas quem inventa esse futuro e o modifica conforme as necessidades estratégicas e táticas do presente é ela própria. Por fatalidade constitutiva do seu símbolo fundador, ela é sempre o legislador que, não tendo autoridade acima de si, legisla em causa própria, faz o que bem entende e, a seus olhos, tem razão em todas as circunstâncias, embriagando-se na contemplação vaidosa de uma imagem de pureza e santidade infinitas, mesmo quando chafurda num lamaçal de crimes e iniqüidades incomparavelmente superiores a todos os males passados que prometia eliminar. Ser esquerdista é viver num estado de desorientação moral profunda, estrutural e incurável. É mergulhar as mãos em sangue e fezes jurando que as banha nas águas lustrais de uma redenção divina.

Por isso não se deve estranhar que o partido mais ladrão, mais criminoso, mais perverso de toda a nossa História, o partido amigo de narcoguerrilheiros e ditadores genocidas, o partido que aplaudia a liquidação de dezenas de milhares de cubanos desarmados enquanto condenava com paroxismos de indignação a de trezentos terroristas brasileiros, o partido que condena os atentados a bomba quando acontecem na Espanha e aplaude os realizados no Brasil, o partido que instituiu o suborno e a propina como sistema de governo, seja também o partido que mais bate no peito alegando méritos e glórias excelsos.

Ser esquerdista é ser precisamente isso.

Droga E Cultura

Data N/A | O Globo

de janeiro de 2005 Como explicar que ministros aceitem pedir licença a narcotraficantes para entrar no seu território? O acontecimento indica, desde logo, que o Estado brasileiro reconhece os limites impostos à sua jurisdição pela “diversidade cultural”. Há tempos vigora entre esquerdistas a convicção de que droga é cultura e de que não se pode impor à população criada sob essa cultura os padrões do restante da sociedade. Os srs. ministros parecem ter sido profundamente afetados por essa crença. Os reis da droga, nessa perspectiva, tornam-se líderes tribais e gozam de prerrogativas similares às dos caciques indígenas, entre as quais a soberania territorial. Os representantes do Estado, ao entrar na taba, já não são autoridades: são meros visitantes estrangeiros que devem curvar-se às normas locais.

Em segundo lugar, os narcotraficantes brasileiros estão, direta ou indiretamente, sob a orientação das FARC – e as FARC, a mais rica e poderosa entidade participante do Foro de São Paulo, ocupam na hierarquia da esquerda continental uma posição mais alta que a do nosso partido governante. Este não só se recusa a reconhecê-las como entidade criminosa, mas, em resolução do Foro assinada pelo sr. Luís Inácio Lula da Silva poucos meses antes de eleger-se presidente, comprometeu-se a defendê-la contra o verdadeiro criminoso, o governo da Colômbia, que o documento acusa de praticar “terrorismo de Estado” contra os parceiros comerciais do sr. Fernandinho Beira-Mar.

Legitimada por um arremedo de antropologia cultural, alicerçada num pacto político macabro, sancionada pela deferência servil de dois ministros, a soberania dos narcotraficantes, no Complexo da Maré ou onde mais lhes ocorra instalar-se neste vasto Brasil, pode portanto considerar-se definitivamente integrada no quadro das instituições nacionais, ao lado do Parlamento, das Forças Armadas e da Presidência da República.

Digo isso sem a mínima intenção de sátira. Certas situações, dizia Karl Kraus, transcendem a possibilidade de satirizá-las.

Do ponto de vista do direito à vida, a diferença entre o tempo dos militares e os dias de hoje é simples e auto-evidente: naquela época havia tranqüilidade para a maioria dos brasileiros, mas não para a pequena elite esquerdista que tinha boas razões para sentir-se ameaçada. Hoje, essa elite – dez mil pessoas no máximo – desfruta de todas as garantias de paz e segurança que a prosperidade à sombra do governo pode oferecer, enquanto os demais brasileiros vivem expostos ao terror cotidiano nas mãos dos narcotraficantes, assaltantes, homicidas e seqüestradores.

Passamos de uma relativa igualdade capitalista à cruel e cínica desigualdade socialista. Em cima, a nomenklatura, arrogante, prepotente, onissapiente, segura de si, vivendo às custas do Estado, sob a proteção de guardas armados. Em baixo, o povo, sem meios de defesa, entregue aos caprichos de delinqüentes sanguinários.

Tão egoísta e desavergonhada é essa elite, que chora mais – e dispende mais dinheiro público – pelos seus trezentos velhos companheiros, terroristas mortos pela repressão militar, do que pelos cinqüenta mil civis desarmados que são anualmente assassinados por bandidos neste país.

Não podendo gastar o espaço desta coluna em discussões com ignorantes, nem apelar semanalmente ao direito de resposta, coloquei na minha homepage, www.olavodecarvalho.org, as respostas aos drs. Hélio Saboya Filho e Ari Roithman. O que esses senhores dizem a meu respeito são apenas mais dois modestos cocozinhos que vêm acrescentar-se, sem modificá-la substancialmente, à monumental estrumeira de hate-mails, insultos bocós, insinuações caluniosas, gracejos torpes, ameaças de morte e outras produções da sordidez humana que todo dia se espalham pelo país desde vários condutos entérico-cerebrais, com intensidade crescente, incluindo intrigas contra minha família e mensagens com conteúdo racista falsamente atribuídas à minha autoria. Nunca um esforço coletivo de character assassination foi mais evidente, mais brutal e mais mesquinho. Não obstante, Feliz Ano Novo para todos.

Em 1 de janeiro de 2005

Entrevista De Olavo De Carvalho A Revista Do Clube Militar

Data N/A | (Rio de Janeiro), Ano LXXIV, No. 386, agosto-setembro de 2001

O que mantém Fidel Castro no poder?

— Não posso dizer isso com certeza, mas dois fatores não devem ser esquecidos. Primeiro, na avaliação da KGB, Cuba é o mais perfeito Estado policial do mundo, com um polícia secreta para cada 28 habitantes. Derrubar isso não é fácil. Em segundo lugar, um amigo meu, importante dignitário da Maçonaria européia, me contou que Fidel Castro teve a prudência de não perseguir os maçons, ao contrário do que o regime comunista fez no Leste europeu. Tendo em vista a força que a Maçonaria tem nos EUA, é normal que isso tenha desestimulado consideravelmente qualquer iniciativa anticastrista das elites norte-americanas.

O que acha da indicação do irmão do Fidel, como seu sucessor ?

— Fidel Castro criou um Estado policial capaz de sobreviver à morte de seu criador. É evidente que a figura carismática deixará um vazio, mas quem disse que Fidel, morto, não será mais poderoso do que vivo? Afinal, Che Guevara vivo foi um fracasso como líder guerrilheiro, tornando-se um sucesso como símbolo após a morte. Nenhum regime comunista jamais dependeu de um líder em particular para sobreviver. Pode ser que os exilados aproveitem a morte de Fidel para lançar campanhas democratizantes, mas a possibilidade de sucesso é remota. A política norte-americana de “amaciar” o comunismo cubano também não me parece promissora. O governo de Cuba tem um plano de revolução continental, está comprometido com Chavez, com as FARC e com a esquerda brasileira — não poderá romper com todos esses compromissos só porque Fidel morreu. Fidel não é mais indispensável ao comunismo do que foi Stálin. Raul Castro foi uma peça essencial do mecanismo do Estado policial. Não creio que tenha a mínima intenção de liberalizar o regime.

Por que o regime comunista é perigoso para as nações?

— O comunismo, como o nazismo, é um movimento de massas investido de espírito messiânico. Ele aposta na ruptura do ordem real das causas históricas e na instauração de uma sociedade inventada. Basta isso para torná-lo perigoso. Mais perigoso ainda ele se torna porque, alegando realizar uma mudança historicamente “inevitável”, portanto natural, ele se propõe chegar a ela pelo mais artificial dos meios, que é a revolução. Uma revolução é sempre a precipitação doentia de mudanças que, em circunstâncias normais, tomariam um rumo totalmente diverso. Revolução não quer dizer necessariamente violência física: pode ser a simples imposição, por meios “legais”, de mudanças estruturais cujo alcance o povo não compreende nem pode acompanhar. Foi assim que Hitler fez uma revolução na Alemanha. Hannah Arendt acertou na mosca quando disse que os movimentos totalitários visavam menos a criar uma ordem social determinada do que a mudar a natureza humana. O totalitarismo é uma revolta contra a natureza humana, portanto contra a ordem cósmica e divina.

O regime democrático é uma espécie de panacéia, que serve para todos os povos, ou cada povo tem de ser prerarado para adotá-la, por meio da educação?

— A democracia em sentido estrito só deu certo na Inglaterra e nos EUA, porque os povos anglo-saxônicos foram preparados para ela, primeiro, pelo cristianismo (os ingleses cristianizaram-se bem antes do resto da Europa); segundo, pela economia de mercado, que na Inglaterra já era muito ativa desde a Idade Média; terceiro, por uma longa tradição de respeito aos direitos e privilégios formados pelo tempo e pelo hábito – uma condição que, na Inglaterra, faz a ponte entre a sociedade feudal e o mundo moderno por meio da continuidade da monarquia. A democracia é inconcebível sem a noção da inviolabilidade sagrada da consciência individual, portanto sem a herança grega, romana e judaico-cristã, e sem a tradição de iniciativa pessoal. Essas condições existem em poucos lugares do mundo, portanto a idéia democrática, quando transplantada para fora do mundo anglo-saxônico e enxertada em condições locais diferentes, resulta em formações sociais bem diferentes do modelo original. No Brasil, por exemplo, ela encontra três condições adversas: a tradição de governo central forte, a cristianização insuficiente das massas, a desorientação e fragilidade dos indivíduos num território enorme e numa sociedade complexa onde vieram parar (muitos à força, como os escravos) sem ter um projeto de vida claro. Ademais, o Brasil é essencialmente uma criação do Exército, e por isto volta e meia as Forças Armadas, que são o único elemento de continuidade e coerência no meio do caos, voltam a exercer o papel de “poder moderador”, que no Império transferiram ao Imperador. O regime militar de 1964 foi uma grande oportunidade perdida. Os militares poderiam ter educado a nação, mas ocuparam-se somente da economia e do combate às guerrilhas, deixando a educação nas mãos de intelectuais esquerdistas insanos.

O ex-metalúrgico Lula, apontado nas últimas pesquisas com 35 por cento de preferência entre os sleitores, tem condições para ser presidente da República?

— Certamente não, mas isto não se deve à sua origem operária, nem mesmo à sua falta de cultura, mas sim ao fato de que, no seu partido, ele não é um verdadeiro líder e sim apenas um símbolo, um emblema publicitário populista. Eleger Lula não é eleger um candidato, mas um partido. Com Lula na presidência, o Brasil terá alguns milhares de presidentes da República, agindo nos bastidores, totalmente desconhecidos da população. Alguns deles são funcionários ou ex-funcionários do Serviço Secreto cubano e trabalham para finalidades que a população nem imagina. O PT é um partido de duas camadas: há o programa ostensivo, para fins publicitários, e há a estratégia de longo prazo, só discutida nos congressos internos e nas reuniões da elite. Essa estratégia é documentada nas atas de congressos, mas quem lê isso fora do partido? O velho Partido Comunista usava sempre outros partidos como fachada, continuando sua ação revolucionária no fundo. O PT é um tipo novo de organização dupla – ao mesmo tempo fachada e força revolucionária ativa, mudando de aparência e de orientação quando bem lhe convenha.

Qual a melhor maneira de esclarecer o povo contra os demagogos?

— Desde logo, é preciso quebrar a hegemonia esquerdista na mídia, na educação e no mercado editorial. Tudo o que o povo brasileiro precisaria saber para se orientar na situação atual lhe é sonegado. O discurso esquerdista ocupa o espaço todo e, nas escolas, já é imposto de maneira ostensiva e ditatorial, reprimindo severamente os discordes e recalcitrantes. Recebo semanalmente dezenas de e-mails de estudantes que sofrem constrangimento e ameaças pelo simples fato de emitirem idéias contrárias ao consenso esquerdista dominante. Para quebrar essa hegemonia, é preciso começar pelo mais fácil: o mercado editorial. É preciso inundar as livrarias com as obras publicadas na última década que desmascaram o comunismo e sua atual estratégia, obras que estão totalmente fora do alcance do leitor brasileiro. Em seguida é preciso dissolver o monopólio esquerdista da mídia, denunciando as manipulações e falsificações e levando as denúncias ao conhecimento não só do povo, mas dos donos de jornais e revistas, para que percebam o quanto já estão próximos do dia em que as “comissões de redação” comunistas assumirão ostensivamente a direção das publicações, repetindo aqui o que fizeram no Chile e em Portugal. Aberta a brecha no mercado editorial e na mídia, pode-se pensar numa ação de maior envergadura na esfera da educação. As condições para isso são três: coragem, tenacidade e dinheiro.

O que determinou o seu afastamento do Partido Comunista?

Escalada Neofascista

Data N/A | Jornal da Tarde

de outubro de 1998 Desde a extinção da URSS, o programa da esquerda mundial resume-se nas reivindicações de homossexuais, abortistas, feministas, pedófilos e racistas do anti-racismo. Tais reivindicações podem parecer modestas em comparação com os objetivos revolucionários francamente prometéicos do velho movimento comunista, mas, quanto mais concessões essa gente obtém de uma sociedade infinitamente complacente, mais irados se tornam os seus gritos, mais vastas as suas ambições, mais profundas e temerárias suas exigências.

Os homossexuais, por exemplo, que começaram choramingando pelo direito de não ser presos pela prática da sodomia entre adultos em recinto privado, agora falam grosso em defesa da pedofilia, exigindo que não apenas seja tolerada pelo Estado, mas ensinada nas escolas. Já existe, nos Estados Unidos, uma “Associação dos Homens que Amam Meninos”, e ninguém ousa acusar os seus membros de apologia do crime, pois todo mundo sabe que, se o fizer, correrá o risco de ser espancado, preso, ou no mínimo esmagado sob as patas do lobby midiático homossexual.

Os ativistas negros, que começaram reivindicando a oportunidade de desfrutar em paridade com os brancos dos direitos e benefícios criados pela civilização ocidental, agora que os obtiveram exigem que, nas escolas, essa civilização seja abertamente condenada, e exaltadas aquelas culturas africanas que desprezavam a vida humana e lutaram de armas em punho para preservar o sistema escravista quando a Inglaterra começou a reprimir o tráfico negreiro.

Os ecologistas, que começaram bradando alertas em favor das espécies animais em vias de extinção, hoje cobram do governo a proibição de matar mesmo espécies em irrefreável crescimento quantitativo, como os coiotes, cuja proliferação apocalíptica ameaça de extinção os rebanhos de ovelhas do Estado norte-americano de Utah. Os filmes de ideologia ecológica, que começaram com idílios arcadianos entre vacas e leões para o deleite de velhinhas e criancinhas, hoje apresentam como supremo ideal moral a destruição sangrenta da humanidade por lobos e leopardos, elevados à condição de anjos vingadores a serviço de não sei qual divindade justiceira das trevas, contrafação technopop do Jeová bíblico.

Quanto às feministas, que começaram reivindicando simplesmente o direito de votar, nada revela melhor o fundo de suas ambições atuais do que esta declaração de uma amiga de Lorena Bobbit: “Cortando o pênis do marido e depois chamando uma ambulância para socorrê-lo, Lorena tornou-se um símbolo da mulher ideal do nosso tempo.”

Non raggionam di lor, ma guarda e passa.

Qualquer pessoa adulta que, consciente da absurdidade grotesca desses discursos, se limite a ridicularizá-los como a meras extravagâncias inofensivas, ri apenas da desgraça de seus próprios filhos, condenados a viver num mundo onde tais caprichos delirantes serão lei e terão a maciça força policial do Estado para garanti-los. Uma amostra dos critérios morais que determinarão a vida no Estado futuro já foi dada pelo presidente Clinton, que, concedendo direito de asilo a todos os homossexuais que se sintam incomodados nas suas pátrias de origem, negou idêntico direito às mães chinesas que se neguem a abortar seus filhos, bem como aos médicos ameaçados de fuzilamento por se recusarem a praticar as cirurgias de aborto impostas pelo governo chinês: nossos filhos viverão sob a guarda de um Estado onde as fantasias do erotismo mais frívolo terão proteção oficial e a consciência moral será, no mínimo, reprimida como um desvio de comportamento.

Todo riso, aí, é no fundo apenas o risinho histérico de uma convulsão de pavor. Por toda parte, escorados numa retórica de ódio cada vez mais feroz e insano, no apoio cada vez mais global e avassalador do grande capital e da mídia milionária, bem como na cumplicidade cada vez mais cínica de autoridades oportunistas, esses movimentos espalham uma atmosfera de medo e auto-repressão obsessiva, onde o mero pensamento de desagradá-los infunde na alma do cidadão os mais sinistros presságios.

Essa atmosfera é inconfundivelmente fascista, e sua disseminação se torna tanto mais fácil quanto mais se apóia num discurso fingidamente alarmista voltado contra a ameaça de ressurgimento dos regimes nacionalistas de direita extintos 50 anos atrás – ressurgimento que tanto mais se denuncia como iminente quanto mais se tem a certeza de que as atuais condições de economia globalizada o tornam completamente impossível: açoita-se o cavalo morto para que o coice do cavalo vivo seja aceito como uma carícia.

Em 1 de outubro de 1998

Estado Poupanca E Miseria

Data N/A | Rio de Janeiro, Abril de 2002

Uma análise objetiva, porém, revela o grosseiro equívoco dessas prescrições. Poucos se preocupam com o papel da poupança, e consequentemente da acumulação de capital, na eliminação da miséria e ninguém percebe que o Estado, o Deus ex-machina antipobreza, não poupa nem acumula capital; ele apenas desperdiça recursos escassos. A dilapidação de poupança formada pelo Estado, assim como o embaraço à formação de poupança nova, são as verdadeiras causas de tanta injustiça.

Formação e Função da Poupança A pobreza é o estado natural da humanidade. Para sobreviver o homem precisa satisfazer suas necessidades e desejos, i.e., precisa consumir. Para consumir é necessário antes produzir, e a produção pressupõe meios de produção. Originariamente a natureza põe à nossa disposição apenas dois meios, ou fatores, de produção: o trabalho e a terra. O esforço humano combina e desloca os recursos naturais de modo a torná-los aptos para o consumo. Para aumentar a produtividade do trabalho, e ipso facto o consumo, contudo, um terceiro fator de produção é fundamental: o capital. A condição sine qua non para a existência de capital é a poupança, ou seja, a restrição do consumo corrente, e investimento, isto é, o posterior emprego do trabalho e terra (e tempo) economizados na fabricação de ferramentas que por sua vez se traduzirão em maior consumo futuro.

O exemplo clássico de um náufrago solitário numa ilha deserta ilustra bem esse processo. Suponhamos que ele esteja privado de ferramentas de qualquer tipo. Para subsistir gasta 10 horas por dia para obter 10 cocos tendo que subir nos coqueiros, e descansa pelo resto do tempo. Insatisfeito, o homem decide fabricar uma vara bem longa para derrubar mais cocos com menos trabalho e em menos tempo. Para tanto, ele se contenta com oito cocos obtidos em oito horas e reduz seu descanso e lazer em duas horas cada por dia. Essa restrição do consumo atual é poupança. Nas quatro horas diárias agora disponíveis ele se dedica por alguns dias a confeccionar a vara. Esse emprego do tempo e trabalho poupados é o investimento, e a vara é o bem de capital. Agora o náufrago consegue, digamos, 20 cocos em apenas 5 horas de trabalho por dia. Graças ao capital, que é fruto da poupança e investimento, seu padrão de vida melhorou. Para melhorar mais, ou mesmo para manter o mesmo padrão (susbstituindo periodicamente a vara desgastada por outra), ele terá que recorrer novamente à poupança e ao investimento Em uma sociedade complexa esse processo torna-se bem mais complicado, sem porém invalidar os princípios delineados no exemplo acima. A elevação do padrão de vida geral depende do aumento do estoque de capital, o qual depende de poupança e investimento prévios. Na economia de troca indireta os poupadores nem sempre são os investidores. A renda dos agentes econômicos é em dinheiro, sendo que a parte não consumida é em geral entregue a instituições financeiras em troca de juros, as quais por sua vez emprestam aos empresários de vários modos (linhas de crédito bancárias, aquisição de ações etc). Estes investem em bens de capital visando auferir com os bens de consumo futuros um retorno superior ao dispêndio com o pagamento do principal e dos juros, ou seja, visando o lucro. O sucesso nessa empreitada significa que os consumidores aprovam o modo como os recursos estão sendo empregados e que, portanto, mais fatores de produção devem ser alocados para essa ou aquela linha de produção. O insucesso, ou seja, o prejuízo, indica a insatisfação dos consumidores com a utilização corrente dos recursos, de modo que aos empresários só resta organizar a produção com mais eficiência, reduzindo custos e preços, ou abandonar de vez dado ramo produtivo. Como os consumidores são também produtores, quanto mais capital disponível per capita, mais produtivo se torna o trabalho. Produzindo mais, demanda-se mais. Não se deve esquecer que, abstraindo-se o dinheiro, em última análise as pessoas trocam produção por produção. Toda a sofística keynesiana e marxista não conseguiu refutar esse princípio conhecido como Lei de Say.

Sem poupança, pois, não há acumulação de capital nem tampouco progresso material. Quanto mais abundante for o capital em relação ao trabalho, maior será o poder de compra dos salários, e menor será a pobreza. Os americanos são mais ricos do que os brasileiros porque dispõem de muito mais capital investido per capita do que nós. Do mesmo modo, os brasileiros são mais ricos do que os nigerianos porque há mais capital per capita no Brasil do que na Nigéria.

Digressão sobre Ética A propriedade privada da terra e dos bens de capital tem sido criticada como injusta e imoral por socialistas e moralistas de todos os coturnos. Diz-se que só o trabalho cria valor e que a acumulação de capital depende da exploração dos trabalhadores, via apropriação injusta de trabalho não pago. Já vimos em outro trabalho que essa teoria não tem o menor fundamento e que a “mais-valia” não existe. Os bens de capital não são somente trabalho incorporado, como objurgava Marx. São trabalho, terra, tempo, risco e idéias incorporados, e os fatores despendidos em sua produção tendem a ser remunerados integralmente. A remuneração do trabalho gravita em torno de sua contribuição ao produto final (o valor do produto marginal), descontado o fator tempo (juro), podendo ser mais ou menos conforme as circunstâncias particulares de cada caso. Na economia de mercado os proprietários de terra e bens de capital são inexoravelmente forçados a empregar esses meios de produção da maneira mais útil segundo o ponto de vista dos consumidores, o que equivale a dizer da forma socialmente mais justa e eficiente. Os proprietários (e os empresários a quem os proprietários delegam essa tarefa) mais competentes na arte de antever e atender a demanda enriquecem, é claro. Mas não há nada de errado nisso, vez que se trata de riqueza obtida graças a transações livres e voluntárias nas quais todas as partes ganham. São os consumidores que decidem enriquecer aqueles que os servem bem.

Mesmo que se admitisse para argumentar a validade da tese da exploração, ainda assim teria-se que provar que a “exploração” (o juro e o lucro) desapareceria em uma comunidade socialista e que, instaurada a propriedade coletiva (isto é, estatal) dos fatores de produção, estes seriam alocados da maneira mais eficaz para os consumidores do que no capitalismo. Jamais o conseguiram, sequer em teoria e muito menos na prática; o juro é uma categoria da ação humana (preferência de bens presentes aos mesmos bens no futuro) e não pode ser abolido, nem mesmo em uma sociedade socialista pura (vide Bohm-Bawerk, Teoria Positiva do Capital). Toda ação humana visa atingir um objetivo qualquer estipulado pelo agente, isto é, visa o lucro. A supressão do critério do lucro e perdas monetárias como meio de avaliação da eficácia da produção é catastrófica, deslocando a busca pelo lucro para o “mercado” político, sem qualquer benefício para a coletividade. Pelo contrário, já que os indivíduos bem-sucedidos no “mercado” político são invariavelmente os mais inescrupulosos e truculentos, tais como Stalin, Hitler, Mussolini, Lenin, Fidel Castro e demais déspotas genocidas do tipo. Ademais, a propriedade “coletiva” inevitavelmente traduz-se em propriedade estatal em benefício do grupo que controla os cargos-chave do aparato burocrático. Para culminar, a impossibilidade do cálculo econômico inviabiliza completamente o projeto de uma economia socialista.

Vale observar ainda que todo sistema ético e religioso que se preze não pode dispensar a propriedade privada. Se devemos ser solidários como nossos semelhantes, para ajudar materialmente o próximo é preciso ter o que dar. Depois, é preciso que a ajuda seja voluntária ou não passa de coação. Sob qualquer ângulo que se aborde a questão, seja ético, religioso ou econômico, baseando-se em critérios de direito natural ou utilitários, a propriedade privada dos meios de produção (inclusive e sobretudo da própria capacidade de trabalho!) é sempre superior à propriedade pública.

Muito se fala na desigualdade como causa da miséria e a necessidade de igualdade econômica para se eliminá-la. Trata-se uma confusão totalmente falaciosa. Acabar com a desigualdade e acabar com a miséria são coisas muito diferentes e incompatíveis entre si. A ordem de mercado gera uma desigualdade de fortunas construída por decisões voluntárias. O Romário ganha muito mais do que a maioria dos jogadores por que os apreciadores do bom futebol pagam livremente mais para vê-lo jogar e menos (ou nada) para ver os outros jogarem. Não há nada de injusto nisso. A economia de mercado é incompatível com a igualdade mas é compatível com a abolição da miséria, pois a progressiva acumulação de capital resultante é tal que os trabalhos mais mal remunerados geram renda mais do que suficientes para a subsistência. Já a igualdade não só é incompatível com a abolição da miséria, pela impossibilidade mesma de uma ordem econômica puramente igualitária, como a própria igualdade é inatingível. Os indivíduos são desiguais, não há como mudar esse fato, e isso se reflete em sua capacidade de trabalho e potencial de obtenção de rendimentos maiores ou menores. A implantação da igualdade exige, pois, uma classe de “equalizadores” que por sua própria natureza está acima dos “equalizados”. E não há exemplo histórico algum em que os “equalizadores” não tenham reservado para si a melhor parte do que repartem. Em suma, o igualitarismo gera desigualdade e não elimina a miséria.

Estado e Poupança Os pressupostos para uma rápida formação de poupança e sua eficiente corporificação em uma estrutura de capital extensa são poucos e simples: propensão individual para poupar, garantia do direito de propriedade, estabilidade jurídica e livre mercado. Se todas as pessoas consumirem toda a sua renda nem mesmo a manutenção da estrutura de capital existente é possível. O resultado é o consumo de capital e a progressiva redução do padrão de vida geral. Fica evidente o absurdo de doutrinas como a de Keynes que exaltam a gastança desenfreada e condenam a poupança por reduzir a “demanda efetiva”, incumbindo ao estado “investir” com “poupança” criada via impressoras da casa da moeda e lançamentos contábeis do banco central. O direito de propriedade é fundamental uma vez que ninguém terá incentivo para poupar e investir se seu dinheiro for frequentemente surrupiado no todo ou em parte por bandidos, por invasores estrangeiros ou pelo próprio Estado. A estabilidade das normas jurídicas e o respeito ao direito de propriedade criam um clima favorável sobretudo para investimentos pesados e de retorno a longo prazo, minimizando-se os riscos políticos e jurídicos, pois para os empresários os riscos de mercado já são uma preocupação suficiente. A cooperação voluntária e mutuamente benéfica vigente no livre mercado assegura a soberania dos consumidores, fazendo com que a poupança formada seja investida em linhas de produção que resultem em bens de consumo desejados pelos “soberanos”, segundo suas escalas de valores e a utilidade que atribuem aos bens e serviços. Os empresários, por não terem meios de forçar os consumidores a adquirirem seus produtos, não têm outra alternativa senão combinarem os fatores de produção de maneira a satisfazer a demanda futura estimada a um dado preço, correndo os riscos de falhas de previsão.

A formação de poupança e a acumulação de capital em bases de mercado são o único caminho para a rápida eliminação da pobreza. O papel do Estado na consecução desse objetivo é, pois, o de proteger os direitos de propriedade de todos os indivíduos e o bom funcionamento dos mecanismos de mercado. A tributação deve ser baixa (não mais de 10% do PIB) e as finanças públicas equilibradas. O aparelho burocrático deve ser limitado ao mínimo necessário. A legislação deve ser clara e simples e o judiciário não pode ser moroso e corrupto. Se o objetivo é acabar rapidamente com a miséria, não há outra solução. Tudo o mais é mistificação. No Brasil, todavia, como é fácil perceber, essa é a única solução condenada por todos os partidos políticos e correntes intelectuais influentes. Em maior ou menor grau, todos proclamam desde priscas eras que ao governo incumbe “promover o desenvolvimento”, “redistribuir renda”, “reduzir as desigualdades sociais” etc. O resultado é este que aí está. Vejamos alguns exemplos de como a ação estatal dilapida a poupança, ou inibe sua formação, perpetuando a pobreza.

Tributação Excessiva e o Peso da Burocracia O Estado é um grupo de indivíduos dotado de um privilégio especialíssimo: o poder de obter coativamente receitas para financiar seus gastos. O imposto, como o termo sugere, é uma imposição mesmo. As demais pessoas auferem renda pela via contratual, i.e., estipulando voluntariamente trocas específicas. Quid pro quo. Essa é a diferença essencial entre administração burocrática e administração empresarial. Muitos políticos afirmam de tempos e tempos serem capazes de imprimir à administração pública a agilidade e eficiência do setor privado (o atual presidente mexicano é um deles). Isso seria um milagre similar à transmutação de chumbo em ouro. São formas organizacionais radicalmente diferentes e irredutíveis a uma forma única (vide a respeito o clássico ensaio de Ludwig von Mises, Bureaucracy). A ausência de um critério infalível de aferição de sucesso ou insucesso – lucros e perdas em dinheiro -, bem como a prerrogativa de confiscar o dinheiro dos administrados para custear seus gastos, por mais altos que sejam, faz da burocracia estatal um organismo pesado, lento, caro, corrupto e ineficiente. Como não há outra maneira de o Estado se estruturar, é preciso que ele seja cuidadosamente limitado, sob pena de sufocar e arruinar a sociedade.

Imaginemos um país em que o governo financia suas despesas integralmente com uma receita tributária da ordem de 40% da renda nacional, sem recorrer à inflação e endividamento, empregada no pagamento de salários aos servidores públicos, os quais totalizam, com dependentes, 30% da população. Nesse caso, os contribuintes dispõem de 40% a menos de sua renda para consumo e poupança. Alguém poderia afirmar que não há um grande mal nisso, uma vez que os funcionários públicos também consomem e poupam. Se abstrairmos o dinheiro desse processo, porém, é fácil verificar a falácia desse argumento. No mercado trocam-se bens e serviços por bens e serviços, produção por produção, segundo o grau de utilidade (valor) que cada participante atribui a esses bens e serviços. Ocorre que o governo não troca, impõe. Os bens e serviços oferecidos pelo Estado são compulsórios e seus agentes são remunerados mesmo que esses bens e serviços sejam considerados inúteis pelos consumidores, que não estariam dispostos a dar nada em troca por eles, se pudessem escolher. Desse modo, os funcionários públicos estão sendo pagos por um trabalho inútil e são um estorvo para a sociedade. Com seus rendimentos eles também consomem bens e serviços disputados pelos outros cidadãos, sem porém retribuir com bens e serviços úteis segundo os demais. Os funcionários públicos estão consumindo com produção alheia, estão substituindo o consumo dos contribuintes, sem porém dar nada em retribuição. É verdade, por outro lado, que a poupança dos funcionários gera acumulação de capital. Mas o mesmo se pode dizer da poupança de ladrões e fraudadores. É uma poupança subtraída coercitivamente de seus legítimos donos.

O Estado Empresário Até algum tempo atrás a presença do governo nos setores “estratégicos” da economia era um dogma. O estrondoso fracasso das empresas estatais, entretanto, acabou por se tornar tão clamoroso que esse dogma foi abrandado, pelo menos até agora, e muitos elefantes brancos públicos foram privatizados. No Brasil, porém, muitas estatais sobreviveram, e o sistema de “agências reguladoras” públicas criado para supervisionar os setores em que houve privatização não mudou em essência o caráter dirigista da economia. Continuamos muito, muito longe de uma verdadeira economia de mercado. Mas qual a causa do descalabro das estatais? É simples: mesmo sob a forma de empresa privada (sociedade anônima), as estatais conservam um cordão umbilical indestrutível com o sistema político, sobretudo com o erário. Desfrutam geralmente de monopólios, posto que a concorrência é proibida. Seus cargos de direção, regiamente pagos, são loteados entre os apadrinhados dos políticos de todos os partidos, por mais incompetentes que sejam. Seus sindicatos e fundos de pensão são feudos da esquerda mais retrógrada. Os salários e vantagens nababescos de um número de empregados muito superior ao necessário sobrecarregam as folhas de pagamento. Essas pseudo-empresas, por serem do “povo”, não são de ninguém, ou melhor, são de quem meter a mão primeiro, e quem faz isso são seus empregados, os políticos e certos grupos de fornecedores beneficiados por licitações viciadas e superfaturadas. Essas pseudo-empresas não têm compromisso com o lucro, o que significa dizer que não estão sujeitas à supremacia dos consumidores e não precisam aproveitar economicamente recursos escassos reduzindo incessantemente custos e preços. O privilégio permite que acobertem sua ineficiência e esbanjamento cobrando preços de monopólio e recorrendo ao tesouro, direta ou indiretamente, para cobrir rombos financeiros. Essas estatais são um sorvedouro de poupança, que de outro modo estaria sendo empregada eficientemente em finalidades desejadas pelos consumidores.

O Estado Banqueiro Os bancos públicos e instituições de fomento tipo Sudene, Sudam e Bndes estão entre os campeões de dilapidação de poupança do Brasil. Só nos últimos anos, o erário (quer dizer, nós, os contribuintes) transferiu duzentos bilhões de reais para “sanear” bancos estaduais (Banerj, Banespa etc) e federais (Banco do Brasil, CEF). A politização do crédito é perversa porque anula a soberania do consumidor e desvia poupança (que é sempre escassa, é bom lembrar) para fins benéficos apenas para os políticos e seus clientes. Os desvios, os calotes, as “empresas” de fachada são o resultado infalível.

A Previdência Pública O desejo de assegurar uma velhice confortável é um poderoso incentivo para a formação de poupança. Administrados por instituições previdenciárias privadas, os fundos assim constituídos seriam naturalmente investidos em empresas promissoras via mercado de ações ou outros mecanismos. Essas instituições, é claro, visariam o lucro, e adotariam inexoravelmente uma política prudente de avaliação de risco de seus investimentos, a fim de preservar sua solvência. A formação de poupança, a acumulação de capital em grande escala e a consequente elevação do padrão de vida geral se seguiriam inevitavelmente. É exatamente isso que está acontecendo no Chile, o país mais estável e próspero da America Latina. Infelizmente vige no Brasil um sistema de previdência estatal compulsória que, sujeito à predação de castas privilegiadas de servidores públicos e alvo de toda sorte de fraudes e trambiques, sem falar na demagogia dos políticos, que concedem mil benefícios sem se preocupar com o custeio, sequer consegue preservar o equilíbrio atuarial. Os recursos geridos pelo INSS e congêneres não só não são investidos produtivamente como os crônicos déficits previdenciários acabam tendo de ser cobertos por receitas tributárias regulares. É difícil imaginar um sistema mais apropriado para esterilizar poupança do que o existente. É trágico.

O Ensino Público Existem respeitáveis correntes de pensamento (Ex: o economista americano Gary Becker) que defendem a tese de que a elevação da renda é uma função da escolaridade dos indivíduos. Com base nesse diagnóstico, propugna-se que o governo deve investir maciçamente em educação. Com a devida vênia, ouso discordar. Aumento de renda depende do aumento da produtividade do trabalho, que depende de formação de poupança, que depende de investimento crescente em bens de capital. Em países comunistas como Cuba o alto grau de escolaridade da população (ao menos nas estatísticas oficiais) não levou a um aumento do padrão de vida geral. Sem poupança, a escolaridade é inútil.

Outra objeção pertinente levantada por muitos ( Ex: Murray Rothbard) é sobre a própria legitimidade do conceito de “investimento” estatal. Poupança e investimento são fenômenos indissoluvelmente vinculados a uma ordem de mercado sob o primado da cooperação voluntária. Como o governo é um monopólio coercitivo, não há que falar em “investimento”, que pressupõe dispêndio em bens de capital que produzirão bens de consumo sujeitos futuramente à aprovação ou reprovação dos consumidores. Não há essa avaliação decisiva para o “investimento” do governo. Assim, tudo o que o Estado faz é gastar segundo os caprichos dos ocupantes do poder e do estamento burocrático (vide o “piscinão” de Ramos), nunca investir.

O estudo é um aprimoramento individual, um investimento em si mesmo, que não pode estar desligado do interesse e responsabilidade diretos do próprio interessado e de seus pais. De resto, o ensino público padece dos males burocráticos do esbanjamento, da ausência de incentivos, da uniformidade sufocante, da ineficiência etc, comuns ao setor público. Para piorar, o aparato de educação estatal facilmente cai nas mãos de intelectuais socialistas, garantindo-lhes sinecuras inexpugnáveis, e permitindo-lhes moldar a consciência dos alunos segundo os mais reacionários cânones anti-mercado. Mas não é justo que o governo forneça educação gratuita aos pobres? Não, pois evidentemente a educação estatal nada tem de gratuita, é custeada pelos impostos pagos por todos os brasileiros. E não é justo que os ricos paguem pela educação dos pobres? Não é justo, não é conveniente e nem mesmo é o que acontece na prática. Mais de 40% das verbas do ensino público é empregada nas universidades públicas, beneficiando menos de 3% do universo de estudantes, quase todos ricos e remediados. Em suma, os pobres é que pagam a educação dos ricos.

Protecionismo, Subsídios e Outros Privilégios Diz-se que Adam Smith foi um apologista da hegemonia burguesa. Quem se der ao trabalho de ler A Riqueza das Nações, entretanto, lerá no livro do grande escocês amargas recriminações contra os empresários. Isso porque o liberalismo não foi uma doutrina favorável aos empresários, e sim aos consumidores. Os empresários dos tempos do mercantilismo estavam muito bem de vida, mimados com todo tipo de privilégios outorgados pelos governos. Por eles, nada teria mudado. Adam Smith pregava o fim desses privilégios e a liberdade de entrada no mercado, de modo a que a competição entre os produtores beneficiasse sobretudo os consumidores. No Brasil essa cultura mercantilista do privilégio é uma praga desde que Cabral aportou na Bahia. A sujeição dos consumidores aos desígnios de produtores (grupos de empresários e sindicatos de empregados) ineficientes é um excelente método de se travar a formação de poupança e investimento. Os compradores gastam demais em produtos que poderiam ser mais baratos, quando poderiam empregar parte de sua renda no consumo de outras coisas ou em poupança. Quando se ouve os costumeiros eufemismos para privilégios como “política industrial” podemos ter certeza de que vem roubo por aí.

Dívida Pública Quando o estado toma dinheiro emprestado, em geral para cobrir a diferença entre o que arrecada e o que gasta,, o patrimônio e a renda presentes e futuros de todos os brasileiros estão sendo penhorados para toda a eternidade, pois é do seu confisco que virá o pagamento do principal e juros. O dinheiro que, na posse de seus legítimos donos, seria empregado para o consumo e para poupança, é assim sugado para o buraco negro das despesas públicas improdutivas. Para atrair gente disposta a correr o risco de emprestar a um devedor célebre como caloteiro e mentiroso como é o governo brasileiro, este oferece juros altíssimos para quem adquirir seus títulos. Parece que os juros reais brasileiros são os mais altos do mundo. O efeito disso é o desvio de poupança interna e externa, que poderia estar fluindo para empresas privadas, para sustentar a insaciável e voraz máquina burocrática estatal e sua clientela. A dívida pública brasileira no governo “neoliberal” de FHC passou de 50% do PIB. Fica difícil até imaginar o que isso significa em termos de desperdício de recursos escassos. Nossos trinetos ainda estarão pagando os papagaios estatais de hoje.

Inflação A inflação é um imposto lançado pelo estado sobre os possuidores de moeda nacional em benefício daqueles a quem o mesmo estado distribui o dinheiro novo que cria do nada. Diz-se que os grupos favorecidos pelo governo obtém assim uma poupança a ser empregada em fins socialmente benéficos em prol do desenvolvimento nacional. Essa é a tese de “economistas” como Celso Furtado, eternamente sabujado pela mídia como magnânimo defensor dos pobres! Na medida em que se pode chamar esse roubo de “poupança”, no mesmo caso está a ‘poupança” de sequestradores e extorsionários. De resto, a inflação distorce os preços relativos, falsifica o cálculo econômico, desencoraja investimentos de longo prazo, gera uma péssima alocação de fatores de produção e no fim das contas cria um clima de desrespeito à propriedade privada extremamente desfavorável à formação de poupança e acumulação de capital. Tivemos nas últimas décadas um aumento do “nível de preços” da ordem de 1.000.000.000.000.000 %. O que isso significou em termos de expropriação, sobretudo de espoliação dos mais pobres, que não tinham como defender seu dinheiro em aplicações financeiras, é inconcebível. E vale ressaltar que, a despeito do “sucesso” do plano real, a inflação de preços continua corroendo o poder de compra da unidade monetária ao ritmo de 7% ao ano.

FGTS Ao contrário do que as pessoas são induzidas a pensar, o fundo de garantia e outros “direitos sociais” previstos na legislação trabalhista e previdenciária não são dádivas da benevolência estatal acrescidas ao salário de cada um, e que de outro modo não seriam pagas. Os salários são dependentes da produtividade do trabalho, em nada influenciando os caprichos da legislação. As vantagens mencionadas são deduzidas do valor de mercado dos salários, e seriam pagas mesmo que inexistissem as leis trabalhistas. O FGTS é uma parcela da remuneração dos empregados da qual o governo se apropria à força, no pressuposto de que as pessoas são estúpidas demais para administrar sabiamente seu próprio dinheiro. Os recursos assim acumulados, é claro, são desbaratados com os gastos correntes estatais. Se permenecessem no domínio de seus proprietários, seriam alocados parte para o consumo, parte para poupança produtiva. Quando são exonerados, os trabalhadores recuperam a posse do seu dinheiro e aí ele pode vir a formar poupança útil. Mas enquanto esteve sob o poder do governo não serviu para nada de socialmente interessante. Ademais, esse sistema cria incentivos perversos na medida em que os empregados ficam tentados a deixar o trabalho para terem acesso ao dinheiro preso pelo governo, o que desencoraja a contratação e o investimento das empresas em capital humano.

Reforma Agrária A idéia de que a divisão igualitária da terra é moralmente imperativa e socialmente útil é uma falácia. O que ocorre na realidade é que o governo compra terras com o dinheiro de todos e as distribui para alguns. Ganham esses “alguns”, os proprietários desapropriados e indenizados e a casta burocrática que ganha a vida nesse processo. Perdem todos os demais. A terra como fator de produção numa economia de mercado fatalmente será alocada pelos empresários para os fins desejados pelos consumidores, seja a agricultura, pecuária etc. Não é preciso reforma agrária para isso; os próprios mecanismos de mercado se encarregam de maximizar o uso da terra em proveito dos consumidores, pouco importando a composição originária da propriedade fundiária. A finalidade da atividade agrária é produzir o máximo de alimentos possível de modo a que a abundância gere preços baixos. Só o mercado pode fazer isso. Hoje quanto mais intensiva de capital for a produção de alimentos, mas produtiva ela será. Cada vez menos mão-de-obra produz cada vez mais, liberando trabalho para outros fins necessários. Cabe notar, ainda, que no Brasil existe grande abundância de terra submarginal, ou seja, de rendimento zero. Atar milhões de lavradores de subsistência nessas terras seria inútil e uma estrutura assim só poderia sobreviver artificialmente graças à subsídios estatais, isto é, mediante o desvio de recursos de outras linhas de produção socialmente mais urgentes. Ao fim e ao cabo, o emprego de bilhões de reais na reforma agrária, além de semear incerteza e confusão no setor agropecuário via permanentes ameaças de invasões e expropriações, se reduz a mais um triste esbanjamento de poupança, agravado pelo fato de ser dominada pelos padres e intelectuais maoístas do MST. O dinheiro do povo termina financiando os inúteis kholkozes comunistas e sendo desviado para a “revolução”. Um desastre.

Golpe De Estado

Data N/A | Zero Hora

O sucesso ou fracasso dessa tentativa depende do que acontecerá nos próximos dias.

Se, convocado a prestar esclarecimentos ao Congresso, o comandante do Exército adotar uma atitude tímida, sacrificando ante o altar da fúria midiática oficiais que não têm outra culpa senão a de alguns excessos verbais cometidos na redação de um relatório, estará repentinamente instaurada neste país uma nova ordem legal, na qual a propaganda e a preparação de guerrilhas estarão sob a proteção do Estado e o que quer que se faça ou se diga contra elas será crime.

Marginalizado o Exército das investigações antiguerrilha, toda a autoridade sobre elas será transferida para a Polícia Federal, que o próprio jornal envolvido na denúncia contra o Exército informava, já em 1993, estar repleta de agentes das entidades agora investigadas.

Em suma, só o MST, a CUT, as ONGs esquerdistas e seus militantes e “companheiros de viagem” na imprensa terão o poder de investigar-se a si próprios, livres de qualquer interferência alheia. O encargo das investigações ficará, oficialmente, entregue à responsabilidade dos suspeitos.

Para impedir que isso aconteça, o comandante do Exército só tem uma atitude a tomar: recusar peremptoriamente qualquer explicação a esses indivíduos, e em vez disso acusá-los de conspiração para bloquear qualquer ação possível do Estado contra os que pretendam derrubá-lo à força.

Afinal, quem são esses procuradores que, no dia 25 de julho, se apropriaram de documentos sigilosos do Exército e, num inquérito conduzido “sob segredo de justiça”, tomaram a iniciativa de convidar um grupo de jornalistas de esquerda para que violassem o segredo mediante escandalosas denúncias estampadas na primeira página de um grande diário paulista?

São pessoas isentas ou são, eles próprios, militantes, simpatizantes ou colaboradores das entidades investigadas pelo Exército? E quem são esses jornalistas? São meros profissionais interessados em informar a opinião pública ou estão entre os 800 que, já em 1993, a CUT reconhecia ter em sua folha de pagamento?

Curiosamente, o próprio jornal, ao fazer-se de escandalizado ante o fato de que o Exército investigasse o que sua missão constitucional lhe ordena investigar, noticiava sem o mínimo espanto, e como se fosse a coisa mais normal e lícita do mundo, que o próprio MST tem seu serviço de espionagem, com “colaboradores informais” infiltrados nas Forças Armadas.

Sem a colaboração desses espiões, como poderia alguma informação sobre o inquérito do Exército ter vazado, seja para os procuradores, seja para os jornalistas?

Uma vez aceitas pelo seu valor nominal as denúncias do diário paulista, estará legalmente consolidado um estado de coisas que legaliza a espionagem esquerdista e criminaliza os serviços de inteligência das Forças Armadas.

Se isso é apenas um escândalo jornalístico e não um golpe de Estado, então as acepções desses termos devem ter mudado profundamente sem que eu me desse conta disso.

De todas as crises políticas já vividas por este país desde 1988, esta é seguramente a mais grave. E o que a torna especialmente mais alarmante é justamente que transcorra sem nenhum sinal de alarma em torno, que toda a população assista aos acontecimentos com a total indiferença de quem não percebe nem de longe o sentido do que se passa.

Loucos E Tontos

Data N/A | Época

de setembro de 2001 Glauber disse a verdade, mas ainda não querem escutá-lo “Todos os intelectuais brasileiros, inclusive comunistas, são comprometidos com os americanos... Neste país não há esquerda, nem direita, nem nada. Aqui só há uma coisa séria em matéria de política, que é o Exército. Ele é o verdadeiro partido político, que merece respeito, é organizado, defende os interesses nacionais. O resto é conversa fiada.”

Glauber Rocha disse isso duas décadas atrás. A primeira reação do mandarinato esquerdista foi espalhar, até na imprensa européia, que ele tinha se vendido à ditadura. Embora tenha magoado profundamente o cineasta, apressando de algum modo sua morte, a mentira não colou. Foi então substituída por outra, mais branda: Glauber estava mal da cabeça. Mas esta também não pegou: mesmo no auge da fúria polêmica, o homem era de uma lucidez irritante. Por fim, como não foi possível desmoralizá-lo, tratou-se de absolvê-lo post mortem , atribuindo a suas palavras um sentido retroativamente aceitável à ortodoxia esquerdista: sua apologia do Exército teria sido apenas uma esperteza tática, destinada a neutralizar o mal com o mal.

Há algo de espantoso na facilidade com que a esquerda cria essas ficções e na presteza com que elas circulam de boca em boca. Como observou J.O. de Meira Penna em seu tratado sobre a psicologia da burrice nacional ( Em Berço Esplêndido , Rio de Janeiro, 2a edição, 1999), chega a ser comovente a candura com que uma facção tão inclinada a viver de invencionices autolisonjeiras usa a expressão “falsa consciência” para qualificar a ideologia dos outros.

Glauber, com efeito, nem se vendeu, nem enlouqueceu, nem fingiu. Apenas percebeu duas verdades óbvias. Primeira: as Forças Armadas são a espinha dorsal da nacionalidade e a única instituição que nunca se aliou, nem mesmo taticamente, a qualquer interesse antinacional. Segunda: a esquerda brasileira, por trás de sua pose nacionalista, é financiada e manipulada por fundações americanas.

Essas duas afirmativas eram verdadeiras 20 anos atrás. Continuam verdadeiras hoje. Naquele tempo, podiam soar paradoxais. A primeira, porque a própria esquerda ignorava que a alardeada participação americana no golpe de 1964 fora uma fraude inventada por agentes da KGB (leia meu artigo em ÉPOCA de 19 de fevereiro de 2001, edição 144). A segunda, porque nada se sabia do controle que grandes corporações (já então planejando os “negócios da China” que se consumaram no governo Clinton) exerciam sobre a esquerda dentro e fora dos Estados Unidos.

Ninguém, então, tinha ouvido o depoimento do ex-líder estudantil Jerry Kirk sobre seus colegas do front interno pró-Vietcongue: “Eles não têm idéia de que são joguetes nas mãos do establishment que afirmam odiar. Os radicais pensam que estão combatendo as forças dos super-ricos, como Rockefeller e Ford, e não percebem que são precisamente essas forças que estão por trás de sua revolução, financiando-a e usando-a para seus próprios objetivos”. Hoje ninguém ignora que a esquerda nacional, fantasiada de verde-amarelo, se apinha na fila do caixa das ONGs milionárias, oferecendo-se para repetir servilmente os slogans da Nova Ordem Mundial e colaborar com a destruição da identidade cultural brasileira.

E ninguém ignora que, entre esses slogans, o mais importante é talvez aquele que ordena a desmoralização e a destruição das Forças Armadas do Terceiro Mundo, como prelúdio à dissolução das soberanias nacionais.

Sabendo disso, muitos no entanto preferem mentir para si mesmos para não ver a quem servem. Ao atacar as Forças Armadas, apegam-se ao pretexto psicótico de que estão combatendo uma ditadura extinta 15 anos atrás – como dom Quixote, que, investindo contra as ovelhas no pasto, acreditava enxergar nelas as tropas de cavaleiros que tinham passado por ali alguns séculos antes...

Mas dom Quixote, ao menos, tinha consciência de sua loucura. “ Loco sí, pero no tonto ”, proclamava. Mas os que ainda se obstinam em não compreender a lição de Glauber, negando que são loucos, provam que são tontos.

Em 1 de setembro de 2001

Lula Esta Excomulgado Los Demas Candidatos Tambien

Data N/A | , año 1, número 3, 18 de septiembre dee 2002

http://www.forosaopaulo.org .

Pero no piensen que contando esas cosas pretendo favorecer a los adversarios de dicho candidato en las próximas elecciones presidenciales. Cada cual a su modo, todos ellos han apoyado a movimientos y regímenes comunistas — especialmente el Sr. José Serra, que fue muy allegado al gobierno Allende en Chile. El actual presidente de la República, que acaba de sacar 25 millones de dólares de nuestras arcas públicos para regalarlos a la dictadura cubana, tampoco está nada bien espiritualmente — y no creo que enseñar las fotos que se sacó al lado del Papa pueda mejorar mucho su imagen en el Juicio Final, pues hasta Fidel Castro, en sus primeras apariciones en público, llevaba imágenes de santos colgadas al cuello 1 .

Tampoco piensen que con eso yo esté “predicando” o “defendiendo”, ni siquiera indirectamente, la excomunión de esos señores. No tengo para eso la autoridad cardenalicia — o tal vez divina – del dúo Betto & Boff. Sólo informo al lector de que ya están excomulgados, puesto que la aplicación de ese castigo espiritual es automática, resultante del acto mismo (“ ipso facto incurrant in excommunicationem ”), y no depende de sentencia especial para cada caso determinado.

Tampoco es necesario decir que, a pesar de ser inapelable en el ámbito espiritual, esa excomunión será ignorada por completo en la esfera de la acción práctica, por absoluta imposibilidad política de que, en este país, nominalmente la mayor nación católica del mundo, algún prelado tome en serio un decreto papal tan incómodo, cuya aplicación rigurosa acarrearía necesariamente la excomunión de innumerables obispos, tal vez de la CNBB entera.

Así, quedará el dicho papal como no dicho, y, entre un baño de palomitas y otro, los cuatro candidatos podrán seguir comulgando sin que eso cause ningún escándalo y ni tan siquiera alguna leve incomodidad a las bellas conciencias cristianas de nuestros prelados. Es cierto que, en esos casos, el sacrílego comulga “para su propia condenación”, pero, no nos hagamos ilusiones, ¿a quién le interesa eso? ¿Qué significa el castigo eterno, comparado con la derrota electoral o con el riesgo de caer en desgracia ante tantas personas maravillosas?

1 El ministro Celso Lafer, portador del regalo a La Habana, queda fuera de la jurisdicción del decreto, porque es judío. Pero, como diría Groucho Marx, “eso no mejora en nada su situación”, porque, tras ofrecer tan delicado mimo a un socio de Yasser Arafat, le va a resultar bastante difícil encontrar una buena disculpa que ofrecer a los rabinos.

Em 18 de setembro de 2002

Español

Metaphysics And The Fundamentals Of Objectuality

Data N/A | OLAVO DE CARVALHO

That very instantaneousness, inherent in the nature of the intuitive act, makes the kant-ian distinction between what is data coming from the object and what is (according to Kant) projected either by a priori structures of our own way of perception or by the catego-ries of our reason onto it, impossible for the matter. These structures, being general and ubiquitous, identical in all men, could not magically adapt themselves to an object’s given forms, one by one, if the object in turn did not mold them to itself by force of its intrinsical constitution. To suppose the contrary would be to admit the object is just pure matter without its own formal limits, being its sole limits those projected by the observer onto it. For that reason, there would not be another way to distinguish among the various objects but for the projections made by the subject of understanding, being this subject free to randomly cast onto this or that object any form he so desired. In principle, nothing could prevent a subject from projecting at a cat the form of a triangle or at a triangle the form of a hen. That would make perception simply impossible, as well as any practical adaptation of the observer to the material surroundings circumstances. It is thus mandatory to admit that the limits of the object — its form, indeed — are manifested in an evident manner by its mere and simple presence. Well, as we have seen, those limits are an organized system of possibilities and impossi-bilities. Thus, possibility and impossibility – as well as the articulation between both of them – are not forms a priori projected onto an object. They are, in fact, constitutive ele-ments of its very presence. To intuit an object is to instantaneously apprehend in its form a defined articulation of possibilities and impossibilities.

But at the same time, neither possibility nor impossibility, and not even their articula-tion, are in themselves objects of sense perception. If they are not pure projected forms, neither are they given to us as objects. They are given “in” an object, but not as objects. The solution to this apparent enigma is that they are indeed the very form of objec-tuality. To be an object – real or imaginary – is to have the power of presenting itself as an articulated system of possibilities and impossibilities, a system condensed in such a way it is instantaneously apprehensible by means of intuition.

In that sense, Kant was right by saying that metaphysics’ “traditional” objects – considering what he regarded as metaphysics, learned from Descartes, Spinoza, Leibniz and Wolff –, i.e., God, liberty, immortality and so on, are not objects of experience.

However, metaphysics, instead of being the study of any of those particular objects, is the study of possibility and of impossibility as understood from their most comprehensive and universal meaning. The very terms used to describe and write about conventional meta-physical issues -omnipotence, infinitude, absoluteness and so on — have no meaning at all, except when defined in terms of possibility and impossibility.

Therefore, possibility and impossibility, not being themselves data coming from experi-ence, are in turn given during experience itself, and no experience happens without them. At the ontological level, by not being objects, they are essential constituents of objectual-ity, as well as of objectivity at the knowledge level. Although they are not themselves ob-jects of intuition, they cannot be disembodied from intuition, because intuition is nothing more than the instantaneous understanding of a given articulation between possibility and impossibility as a definite objective presence.

Accordingly, there is no obstacle whatsoever to prevent possibility and impossibility from becoming objects of scientific knowledge through the very same methods by which other kinds of constituents become objects of any science, i.e., by the abstractive separation of data taken from an experience. Metaphysics is the science of objectuality as such, that is to say: it is the fundamental of the very possibility of constituting any objective knowledge. There is obviously a spontaneous metaphysical understanding embodied in the act of delimitating an object of any science, and without this understanding, no science would be possible. It would not be possible to delimit objects – either those of science or those of any practical or cognitive activity – without the aptitude of perceiving the forms-limits from the data of an experience. That aptitude is precisely the metaphysical talent inherent in human intelligence as a whole. Man is the only animal that produces science because he is the only metaphysical animal: the only animal capable of objectivity, that is, of understanding objectuality in objects.

The conceivable argument against those acknowledgments, such as “possibility and im-possibility are mere generic logical frameworks, without any concrete substantiality”, is worthless. Indeed, it is only in concrete substantiality that they appear and their very ap-pearance, as we have seen, is itself concrete substantiality. Or else, it is the only concrete substantiality of objects of experience. Without this concrete substantiality, those objects could not be intuited, i.e., they could not be understood as substantive presences, but solely as empty forms. The very notion of possibility and impossibility, fathomed as pure logical form, external to the reality of an experience, is simply one of the possibilities we instantaneously apprehend during the concrete articulation between possibility and im-possibility, as presented in an experience. From this articulation, we abstractly separate data that makes it real, and keeping in mind the abstract concept of possibility and impos-sibility, we then proceed by separately considering it as a pure being of reason. Such an abstract separation would be obviously impossible if lacking a previous apprehension of any concrete articulation between possibility and impossibility in a given case, thus, relying on it not only logically as well as ontologically, being worthless any artifice such as throw-ing at an experience something that can only be obtained – by means of abstraction – from the very same experience.

Kant himself, when intending to reduce possibility and impossibility to mere logical cate-gories, independent of experience, has not been able to conceive an experience that were independent of them, which emphasizes the huge difference between a mental distinction and a real-real distinction, as understood by Scholastic philosophers. Possibility and im-possibility can be “independently” conceived, with regards to an experience, precisely be-cause they are the founding conditions of objectuality and transcend any particular experi-ence as well as any particular object. For this same reason, an object -when considered “out” and “independently” of them- is not even pure, amorphous and generic matter. It is just a chimerical conjecture: an object without objectuality.

Hence, there is no way out. Metaphysics is not only possible but also absolutely neces-sary, at least as a fundamental – implicit and explicit – of the possibility of sciences.

Em 14 de julho de 2002

English

Miseria Humana

Data N/A | Jornal do Brasil

Observatório da Imprensa desta semana, um sr. Jorge M. L. Lima nega a existência do Foro de São Paulo, chamando-o de “entidade mítica”. Publicada no momento em que o próprio site oficial do PT anuncia a 13a. assembléia geral do Foro e em que o presidente de San Salvador confirma pessoalmente a vinda de Raúl Castro para o encontro (v.

http://www.pt.org.br/site/noticias/noticias_int.asp?cod=46918 e http://www.diariocolatino.com/nacionales/detalles.asp?NewsID=14928 ), a nota é um exemplo vivo do estelionato cultural que hoje em dia se pratica impunemente no Brasil com o rótulo de “jornalismo”. Mais edificante ainda é que esse lixo seja publicado num site que se arroga as funções de fiscal da idoneidade jornalística alheia.

De passagem, o sr. Lima reclama contra a presença de um artigo meu na Playboy – sem nem de longe mencionar o assunto ali abordado – e, após assegurar que compra a revista por causa dos artigos e não das mulheres, resmunga que nenhuma destas jamais lhe deu nem dará. Tem certeza, sr. Lima? Nem em pensamento? Nem na solidão do banheiro onde o senhor deposita o melhor da sua produção intelectual?

Como todo bobão tem outro mais bobão que o admira, nos comentários a essa matéria fecal um cidadão de nome Geraldo Galvão Ferraz protesta, indignado, que a publicação daquele meu artigo vai contra a liberdade de expressão anteriormente cultivada pela revista. Já nem digo que isso é cinismo. Acredito na sinceridade do panaca, na sua candura tocante. Ele acha mesmo que a liberdade de expressão consiste em negar voz e voto aos discordantes. Eu seria o último a tentar fazê-lo compreender que há algo de errado nessa idéia. Minhas ambições pedagógicas não voam tão alto.

É digno de nota que, da grande mídia, meus detratores já desapareceram por completo. Os que ainda cochicham estão espalhados em sites da internet e sobretudo em listas de discussões, que só por alguma ocasional inconfidência chegam ao meu conhecimento. É todo um zunzum subterrâneo, quase inaudível, mas persistente e obstinado, todo ele composto de incongruências bárbaras, invencionices assombrosas, tolices grotescas ditas com infinita presunção e uma pose de dignidade verdadeiramente patética.

O que mais admiro nessas mensagens é, de fato, a pose. Seus autores sabem que não suportariam cinco minutos de discussão comigo sem ser reduzidos a um mutismo humilhante, exatamente como aconteceu com seus gurus e mentores, mil vezes mais inteligentes e preparados. Que é que fazem então? Escondem-se. Protegidos pela distância, empinam seus narizinhos e, ante alguma platéia adolescente que ignore tudo de mim e deles, falam da minha pessoa afetando desprezo olímpico, às vezes num tom de familiaridade insolente para dar a impressão de que são meus íntimos, e assim auferem os lucros fáceis de uma vitória simulada, isenta de riscos, com a vantagem extra de parasitar um pouco da minha reputação já que não podem destruí-la de todo.

O fato de que tantos sujeitos biologicamente adultos busquem reconforto psicológico nesse tipo de fingimento pueril dá uma medida do abismo de miséria humana em que o país mergulhou.

Em 28 de dezembro de 2006

Monstrous Sham

Data N/A | Jornal da Tarde, May 09, 2002

To those whose thinking is based upon stereotypes and clichés, the news are truly astonishing, and the image it conveys is surprisingly convincing.

Let us admit: those who are apt to reason with facts and numbers constitute a trifling minority. But for such minority it is crystal clear that the accusations say the exact opposite of what they will; for what they really show it that pedophilia is less frequent among catholic fathers than among members of any social group we may choose by way of comparison.

As a sample, let me pick two of the major beneficiaries with the church demoralization: on the one hand, gays; on the other hand, the international bureaucracy that today substitutes the clergy in the mission of watching over the childhood welfare.

A recent study by Judith Reisman, the celebrated author of Kinsey, Crimes & Consequences, shows that the chances of child harassment by male homosexuals are five times greater than those of male heteros commiting such crimes. In short, homosexual pedophiles are much more relapsing.

Furthermore, among the victims of male pedophiles, there are 20 boys for each girl.

If even such a significant statistic constant doesn’t justify a worldwide stream of anti-gay alarmism, then why would a laughable set of ten cases, carefully clipped by the media, justify the worldwide anti-Catholic prevention?

But even further, when it comes to gays, there’s not a mere statistic constant: there’s the brute fact of induction to pedophilia by representative gay magazines.

In his work “Child Molestation and the Homosexual Movement”, soon to be published by Regent University Law Review – though the reviews circulate on the web already -, jurist Steve Baldwin reveals some discoveries he made in the gay bibliography available in the market. Observe these three, randomly gathered from the showcase:

1. Journal of Homosexuality, a prestigious pro-gay publication, published a whole special issue under the grotesquely euphemistical title of “Inter-generational Male Intimacy”, whereon several articles presented pedophilia as a “love relationship” 2. Larry Elder, founder and head of an activist gay group, wrote in his book Report from the Holocaust: “In that cases of childs having sex with older homosexuals, I affirm that frequently, very frequently, the child desires the act and maybe even claims for it” (non-literal translation) 3. The Advocate, one of the most influential gay magazines, regularly advertises a rubber doll, model “Penetrable Boy... available in three teasing positions”!

But saying that the gay community is the pedophiles per capita record-holder would be unfair. For such cup, meanwhile at least, seems to pertain to those ‘saviours’ who took upon the duty of watching over the protection and moral education of the children of the world: the United Nation social workers.

Data of the entity’s general secretary herself give us notice of the fact that, solely in the year of 2001, the number of complaints presented by eastern Africa refugees against those multinational child teasers reached 400. And four hundred episodes in a single year, in a single community, shape – unequivocably I guess – a case of mass pedophilia. And with the repugnant detail that the victims haven’t been gathered in the streets or schools, but among starving and ailing people, the miserable masses, who, in extreme despair, have surrendered in the hands of these monsters, relying innocently on their help promise.

This is a real scandal of worldwide proportions, a crime against Humanity in the most strict sense Nuremberg has defined the expression.

But UN social workers are untouchable. They’re the new clergy, encharged of spreading the “politically correct” gospel of tomorrow’s Humanity throughout the world. To denounce them would be to promote the immediate miscarriage of that so-called “humanist” ideology that inspires all international media assaults on Catholic priesthood.

That is why the world press keeps silent, dissuading the public’s attention to selectively chosen instances where the word “priest” figures as a crime emblem.

Notas Da Quinzena

Data N/A | Jornal da Tarde

de abril de 1999 Adepto da filosofia realista, segundo a qual os cinco sentidos nos mostram a realidade objetiva, há fatos, no entanto, que me fazem duvidar da existência do mundo exterior e me põem em angustiantes dúvidas metafísicas. Um deles é ouvir os governantes do Estado do Rio anunciarem que vão reprimir os assaltantes pelo método de desarmar suas vítimas.

Inútil exclamar, de mãos para o céu: “Será a Benedita?” Inútil, porque é mesmo da Benedita que se trata. E não só dela: também do sr. Garotinho – mais que um nome, um modo de ser. Juntaram-se os dois na varanda, como o General Craveiro e o Oliveira Salazaire da cantiga, a fazeire prupaganda pra guerra se acabaire . Valha-me Deus, que o que se acaba é o mundo se ninguém lhes mete umas camisas-de-força e outra no sr. Carlos Minc, que não é doido, mas finge com perfeição, já que ouve os dois falando e faz que sim com a cabeça – embora este gesto possa também ser interpretado como sinal de resignação filosófica ante o fim dos tempos.

Algum dia, Benê e Nenê anunciarão a solução definitiva para o tráfico de heroína: serão proibidas todas as injeções e fechadas todas as farmácias.

* * * A revista Época traz uma reportagem de Percival de Souza sobre o cabo Anselmo, o agitador esquerdista que, delatando meio mundo, possibilitou o fim da guerrilha urbana. Os editores, não podendo meter o lápis num texto do decano dos repórteres policiais, vingaram-se da sua neutralidade despejando na manchete de capa todo aquele rancor esquerdista que o tempo, em vez de atenuar, só torna mais insano. A reportagem, em si neutra e imparcial, adquiriu assim um sentido involuntariamente faccioso. Deixa a impressão de que o cabo não traiu um dos lados em disputa, mas o País inteiro. Mais um sinal de que o lobby comunista, firmemente instalado nos altos postos da imprensa nacional, já aboliu todos os escrúpulos de objetividade, mesmo fingida, e partiu para a doutrinação aberta, descarada, sem-vergonha.

* * * O poder mundial ascendente subjuga os Estados mediante uma política econômica global, enquanto de outro lado os debilita estimulando reivindicações divisionistas entre os cidadãos. Essas duas tarefas cabem respectivamente à “direita” e à “esquerda”, cujas rusguinhas de madames servem para jogar areia nos olhos do público.

Políticas raciais que incentivam ódios a pretexto de proteger minorias são talvez o componente mais maquiavélico dessa estratégia. O Programa de Educação Profissional patrocinado pelo BankBoston para crianças pobres, por exemplo, exclui a priori, em flagrante violação da Lei Afonso Arinos, toda criança que não seja de raça negra. Uma nação tem de ter perdido todo respeito por si mesma para permitir que emissários de um dos países mais racistas do mundo venham achincalhar uma cultura tradicionalmente inter-racial e mestiça, oferecendo-se para proteger brasileiros contra brasileiros por meios ilegais.

Só resta perguntar quanto de ancestralidade negra será preciso para ser admitido no programa. Meu neto André, que é loiro, tem uma gota de sangue negro por parte do bisavô materno. Será isso capital suficiente para abrir uma conta na carteira de crédito racial do BankBoston? Ou haverá testes genéticos para os casos de pureza incerta?

* * * O Conselho Federal de Psicologia, do alto da sua psicótica onipotência, acaba de editar sua resolução no. 1/99, que, em substância, afirma: (1) não havendo provas de que o homossexualismo é doença, fica provado que não é; (2) para o psicólogo de ofício, é conduta altamente meritória incentivar a homossexualidade entre os heterossexuais e abominável delito, punível com a cassação do registro profissional, incentivar a heterossexualidade entre os homossexuais. O psicólogo curitibano Carlos Grzybowski já está ameaçado de cassação por violar essa norma bárbara, anticientífica, irracional. Os juristas que possam ajudá-lo a salvar-se da inquisição gay instalada no CFP por favor avisem-no pelo e-mail:

catito@avalon.sul.com.br . O que torna o caso de Grzybowski ainda mais apalermante é que a “infração” de que o acusam foi cometida antes de emitida a resolução. Mas, como poderia o CFP respeitar os princípios do Direito, se desconhece os da lógica elementar?

Em 1 de abril de 1999

O Anti Horizonte

Data N/A | Jornal da Tarde

de março de 2001 A geração que hoje domina o cenário mental brasileiro não recebeu, na juventude, senão uma única influência formadora: a das ideologias de esquerda. Digo “ideologias”, no plural, porque nela confluíam o marxismo-leninismo tradicional, o social-nacionalismo e a New Left (mitologia cubana inclusa). Mas no fundo diferiam muito pouco: cada uma oferecia pretextos diferentes para convalidar a busca obsessiva da mesma finalidade, elevada ao estatuto de sentido último da existência: a destruição do capitalismo.

Duas subcorrentes que poderiam ter aberto vias alternativas – o pensamento católico e a New Age – foram facilmente neutralizadas, castradas, absorvidas na corrente geral, perdendo toda substância própria e reduzindo-se a excipientes da fórmula socialista: o catolicismo forneceu o arremedo de Evangelho que inspira as comunidades de base, a New Age perverteu-se em protesto cocainófilo, pansexual, gay e feminista contra a “moral burguesa” (entre nós identificada, por um prodigioso rodopio semântico, com o pensamento católico conservador). Documentos históricos dessas absorções redutivas são, respectivamente, os escritos da dupla Betto & Boff e os do hoje quase esquecido Luís Carlos Maciel.

A cabeça da minha geração foi moldada na supressão e na mutilação. Autores, livros, idéias, fatos eram selecionados segundo um recorte prévio destinado a confirmar o discurso pronto. Isso não quer dizer que fosse proibido ler livros “de direita”. Podíamos lê-los, sim – mas só aqueles que confirmassem a imagem estereotipada que fazíamos da direita e contra os quais a esquerda tivesse um contraveneno retórico na ponta da língua. Os autores para os quais não se tinha resposta dividiam-se em duas classes: aqueles cujo nome, jamais mencionado, ia sendo esquecido até desaparecer por completo, e aqueles que eram guardados fora do alcance dos nossos olhos pela precaução asséptica de um rótulo infamante, quase sempre o inverso simétrico do que eram na verdade.

Não era só pregação ideológica. Era todo um sistema de reações e percepções que se automatizavam como reflexos e acabavam por engolir totalmente a nossa personalidade. E a ênfase do sistema estava menos em nos passar determinadas crenças do que em infundir-nos a repulsa prévia e temerosa a idéias, coisas e pessoas que desconhecíamos por completo e que assim perdíamos todo desejo de conhecer.

Dos 25 anos de idade até hoje, não fiz senão abrir minha alma a todas as influências, a todos os interesses, a todas as riquezas culturais e espirituais que a coerção mental esquerdista, até então, me havia tornado inacessíveis. Quanto mais vivo e aprendo, mais me espanto de como era acanhado, mesquinho, somítico, regressivo o anti-horizonte no qual os mestres da minha geração quiseram me prender. Anti-horizonte no qual estão presos, ainda, quase todos os meus coetâneos, mesmo aqueles que imaginam ter “passado para o outro lado”, como se uma tão profunda mutilação espiritual pudesse ser curada por uma simples troca de carteirinha e como se aliás a própria definição estereotípica dos dois lados não fosse ainda a mesma de sempre, apenas com os valores nominalmente invertidos (digo nominalmente porque a efetiva renúncia ao socialismo é tão dolorosa quanto a recuperação de um drogado, e a pressa indecente com que uns quantos anunciam sua mutação prova que ela não ocorreu senão in verbis ).

Mas, quanto mais me espanto com isso, mais me horrorizo com a mutilação ainda mais funda, com o estreitamento duplamente compressivo que, num repasse infernal, essa geração está impondo aos jovens de hoje. Os cinqüentões criados num quarto escuro não se contentam com transmitir a seus filhos sua ojeriza à luz, ao sol, ao espaço aberto. Não. Furam-lhes os olhos e os tapam no fundo de uma caverna, para privá-los da possibilidade mesma de conceber que exista luz, sol, espaço aberto no mundo real.

Em 1 de março de 2001

O Kerensky Brasileiro E A Revolucao De Outubro Tupiniquim

Data N/A | Nos conturbados meses que seguiram-se a deposição do Czar, um governo liderado pelo socialista Alexa

Com suas políticas esquerdistas e estatizantes, FHC está pavimentando cada vez mais o caminho do poder para Lula e seu grupo de socialistas e comunistas. Aliás, parece que Fernando Henrique Cardoso está mesmo é trabalhando para que o PT vença as próximas eleições, e não o pífio candidato do governo, o Sr. José Serra.

Para muitos, a política do presidente é inatacável, em virtude de suas “preocupações com o social”. De forma arrogante, os representantes do governo federal apresentam as estatísticas do que consideram “sucesso” do governo FHC. Assim, a criação de inúmeras políticas assistencialistas demagógicas é transformada em “preocupação com o social”; a destruição da educação pública, como aconteceu em São Paulo, transformando as escolas em creches, com a total quebra de autoridade dos professores (que são agredidos diariamente), impedindo a punição de alunos indisciplinados, com promoção automática dos mesmos, é “preocupação com o social”. Tolher as atividades da polícia, durante sete anos, de todas as formas possíveis também é uma “preocupação com o social”. Também deve ser uma “preocupação com o social” pagar indenizações milionárias para ex-terroristas, ampliar de forma imensa a carga tributária, e conceder financiamento estatal para emissoras de TV em ano de eleições. Gradualmente, os socialistas do Sr. FHC impuseram leis e comportamentos que “amaciaram” os brasileiros, tornando-os conformados com essa situação, onde o cidadão, sem que muitas vezes sequer perceba isso, só serve para pagar impostos e ser alvo da criminalidade, delegando poderes cada vez maiores ao “Pai de todos”, o Estado, para que este crie leis para interferir na vida das pessoas de forma danosa.

O próprio presidente já declarou que governo é isso mesmo: o Estado deve tomar impostos e redistribuir renda. O que o nosso “Kerensky” “esqueceu” de dizer é o que isso realmente significa: o Estado toma recursos dos poucos que ainda podem produzir, e dá algumas migalhas aos miseráveis, através das políticas assistencialistas, ficando com a maior parte para sustentar suas próprias estruturas, falidas e incompetentes.

Que tal se a diminuição de impostos para incentivar a produção, redução dos gastos do governo, e a proteção para a livre iniciativa, estivessem entre as propostas de algum dos presidenciáveis?

Ou então, menos presença do Estado na vida das pessoas, de todas as formas possíveis, exceto onde ele, Estado, tem obrigação de participar? Desnecessário dizer que, pelo retrospecto do PSDB, tal situação só por milagre. Se o governo for do PT, então, isso é impossível.A solução, para variar, deve mesmo ser AUMENTAR, ainda mais, os impostos, como, aliás, já insinuou o candidato do PT. Só resta saber o que acontecerá quando a “galinha dos ovos de ouro” (o contribuinte brasileiro) tiver sido “morta”. De onde o governo vai tirar a “derrama” que tem sustentado a periclitante estabilidade econômica brasileira?

Entretanto, para muito esquerdistas, inclusive dentro do governo, isso não é o bastante; ao contrário: é necessário socializar mais e mais. A partir dessa perspectiva, tornou-se muito difícil, senão impossível, qualquer candidato não-esquerdista pensar em vencer uma eleição presidencial. Aliás, pelo que ocorreu com a governadora do Maranhão, vai ser difícil para um candidato que não seja de esquerda até mesmo disputar eleições.

E é com esse pano de fundo que o candidato do PT avança rapidamente. Mais uma vez Lula volta ao cenário político nacional como alternativa da extrema-esquerda ao poder (sim, extrema-esquerda, pois a esquerda já está no governo).

Após três investidas anteriores Lula, ao que tudo indica, vai conseguir atingir o sucesso e vencer a disputa para a presidência da República, quem sabe ainda no primeiro turno, apoiado em uma bem orquestrada campanha de publicidade, onde é “vendido” como um “moderado” aberto ao diálogo com todas as forças políticas.

Dessa vez, ao contrário das ocasiões anteriores, o candidato do PT está sabendo esconder muito bem sua total falta de preparo para ocupar o maior cargo da nação, bem como o extremismo de inúmeras correntes que formam o Partido dos Trabalhadores.

Descontado esse aspecto, meramente cosmético, teriam ocorrido mudanças, por exemplo, entre as forças que tradicionalmente apóiam o candidato Lula? Creio que a resposta é um sonoro NÃO.

Alguns exemplos disso são palpáveis, como o fato dos petistas prosseguirem dando todo apoio ao movimento radical MST, que é apresentado como legítimo representante dos trabalhadores rurais, mas na verdade, é uma milícia que recebe terroristas internacionais, como os narco-traficantes das FARC e utiliza a violência, como demonstram as suas ações. Aliás, as atividades do MST contam com o apoio velado do “Kerensky” de Brasília, notório por financiar o movimento com dinheiro do contribuinte, e nunca pedir um prestação de contas do que é feito com ele.

O PT também continua defendendo a submissão da sociedade ao crime, como atestam as investidas insistentes de comissões dos direitos humanos contra a polícia, sempre que essa reprime a criminalidade com um pouco mais de energia (o que está ficando raro hoje em dia). Exemplo recente disso foi dado pelo Sr. Hélio Bicudo, que ao invés de cuidar dos negócios do município de São Paulo, do qual, para quem não sabe, é vice-prefeito, preferiu criticar de forma totalmente irresponsável uma operação policial contra criminosos num pedágio em uma rodovia paulista. Como aqui no Brasil essas entidades estão totalmente desmoralizadas, porque, via de regra, defendem SOMENTE MARGINAIS, elas apóiam-se cada vez mais em organismos internacionais, sobretudo da ONU, com suas propostas de submissão nacional aos interesses de grupos políticos e econômicos internacionais.

Também é necessário descobrir, exatamente, o que pretende o PT no governo, ou melhor, como tenciona implantar o seu plano de governo (ou seria carta de intenções?). Mas a julgar pela equipe econômica de Lula, é bem possível que a idéia de imposto de renda com alíquota de 50% se torne realidade.

Mas o “fôlego de gato” do candidato petista também se deve ao incansável trabalho de inúmeros esquerdistas que militam na mídia e no ministério público, que escondem de todas as formas possíveis o ranço totalitarista e os desmandos do partido, e tratam de lançar lama nos adversários reais ou prováveis do PT.

Por exemplo: qual emissora de televisão está dando cobertura aos rumos que o governo neo-estalinista do Rio Grande do Sul está tomando, ou do desgoverno da prefeita de São Paulo? Para se ter uma idéia de como anda o governo da capital paulista, existe um projeto na câmara dos vereadores, de autoria da prefeita, prevendo a contratação de estrangeiros para trabalhar na prefeitura. Quem sabe, os petistas pretendam contratar algumas centenas de “assessores” cubanos, colombianos (das FARC, obviamente), ou alguns dos inúmeros militantes esquerdistas europeus e norte-americanos desocupados, para ajudarem no “governo popular” de São Paulo?

E nas relações internacionais, o que será que o PT propõe? Aproximação com países “democráticos” e “modernos” como a China e Índia, com aqueles “pilares econômicos e democráticos” da América Latina, Cuba e Venezuela?

Infelizmente, caso o PT chegue ao governo, salvo um grande engano, o Brasil pode se preparar para perder pelo menos uma década economicamente. Isso se o país não se tornar uma Colômbia ou Angola em grande escala. E o pior, como lembrou de forma apropriada o advogado Alceu Garcia em um artigo recente, é que não teremos nem a opção de fugirmos de bote para Miami, como fazem os cubanos.

O Mal E O Que Sai Da Boca Do Intelectual De Esquerda

Data N/A | Maio de 2002

Se o “social” nada significa de relevante, porque é tão usado? Porque o sentido oculto dessa palavra é “socialismo”, ou seja, a intervenção coletiva, política, estatal, na esfera de autonomia individual, mesmo e sobretudo aquela em que as pessoas não estão tomando dos outros o que não lhes pertence. Em outras palavras, “social”, nesse contexto, consiste em ações coercitivas por meios das quais aqueles que detém o Poder Político ordenam os comportamentos e dispõem do patrimônio dos indivíduos da forma que bem entendem, dando a cada um o que, segundo critérios inteiramente arbitrários, entendem que cada um merece. Vê-se que o “social” é mais do que tautológico em relação à justiça. É incompatível com ela. “Justiça social” é pura e simplesmente injustiça. E quem aceita esse conceito distorcido e contraditório como premissa para o debate, mesmo que não seja socialista, já admitiu a viabilidade prática e conferiu validade moral ao socialismo.

“POLÍTICA PÚBLICA” – Política origina-se do grego polis, cidade-estado, daí politiké, ciência dos negócios de Estado, ou seja dos negócios públicos, sendo que público tem raiz no latim publicu, relativo à coletividade, oficial, estatal. Ou seja, “política pública” é mais uma expressão vazia, pois se é política já é pública. Seu uso tem se disseminado a partir das principais estações difusoras do gramscismo – as universidades – sobretudo por soar bonito, vestindo um modelito novo e sedutor às velhas e já algo desgastadas “políticas sociais”, intervenções estatais indevidas no domínio particular para “resolver” problemas que desastradas “políticas sociais” anteriores causaram. “Política pública” é, assim, mais um eufemismo para – adivinhem? – socialismo.

“NEOLIBERALISMO” – Liberalismo é o nome de um conjunto de idéias e doutrinas que basicamente defendem a liberdade individual contra o Poder Político, formuladas por filósofos e economistas como John Locke, David Hume, Adam Smith, Herbert Spencer, Frédéric Bastiat e John Stuart Mill. A partir da segunda metade do século 19 o prestígio do liberalismo decaiu tão rapidamente quanto ascendeu a aceitação geral do socialismo entre os intelectuais e políticos, com sua ênfase na ação coletiva e estatal como meio de se alcançar a plena liberdade e dignidade do Homem. O liberalismo então extinguiu-se como doutrina politicamente eficaz, subsistindo apenas na obra de um punhado de estudiosos e publicistas isolados e espalhados pelo mundo, como Walter Lippmann, Wilhelm Ropke, Ludwig von Mises e Frank Knight.

Após a Segunda Guerra, contudo, diante do óbvio fracasso do socialismo, no atacado e no varejo, em cumprir suas mirabolantes promessas de abundância material e excelência moral, o pensamento liberal recuperou paulatinamente uma pequena parte de sua antiga influência graças aos esforços de Friedrich Hayek, Milton Friedman, Karl Popper, Peter Bauer, James Buchanan, Raymond Aron e outros pensadores eminentes. É isso o famoso neoliberalismo, que se traduz em continuação e aperfeiçoamento do antigo liberalismo. Na esfera política, o neoliberalismo só alcançou alguma expressão nos anos 80 do século passado, inspirando certas medidas, bastante limitadas, de alívio para a iniciativa individual na economia, tomadas pelos governos Thatcher e Reagan, tão claramente bem-sucedidas que logo foram imitadas por todo o mundo, inclusive em países comunistas como a China e o Vietnã. Vale frisar que o neoliberalismo ganhou força nos meios intelectuais combatendo os socialismos comunista e fabiano (ou social-democrata) com argumentos irrefutáveis, reforçados pela prova empírica inegável do fiasco universal do coletivismo, totalitário ou limitado, e só teve aplicação restrita no cenário político quando todas as formas de socialismo possíveis e imagináveis (comunismo, fascismo, nazismo, social-democracia etc) já tinham sido tentadas e rejeitadas.

Essa tímida ressurreição do liberalismo como doutrina intelectualmente respeitável e como alternativa política e econômica válida enfrentou uma formidável barragem de propaganda caluniosa movida pela esquerda culturalmente hegemônica. O neoliberalismo passou a ser inculpado por tudo de mau que acontecia pelo mundo, sobretudo em regiões em que absolutamente jamais houvera liberalismo ou neoliberalismo, como a África, continente dominado por regimes socialistas em variados graus. Após décadas de vulgarização e abuso, o termo “neoliberal” adquiriu uma conotação extremamente negativa -malgrado ninguém saiba ao certo o porquê -, comparável ao sentido odioso de palavras como “nazista” e fascista”. Acontece que nazista é a abreviação de nacional-socialista, assim como virulentamente nacionalista e socialista foi o fascismo. Dito de outro modo, o nazi-fascismo é irmão xifópago do socialismo dito de “esquerda”. O resultado dessa monumental campanha ideológica pode ser aferido pela simples análise do sentido comum dos termos “comunista” e “socialista”, usualmente significando uma doutrina política intrinsecamente benevolente e humanista, cujos efeitos bárbaros são debitados exclusivamente à perversões acidentais identificadas com o termo “stalinismo”. Muita gente ainda se diz comunista, e quase todo mundo se considera socialista (ou de “esquerda”, que é a mesma coisa), com a maior naturalidade, embora regimes comunistas e socialistas tenham perpetrado as piores barbaridades da História em toda parte. Por outro lado, ninguém – ninguém mesmo! – ousa assumir-se publicamente como neoliberal. Ora, pode-se concordar ou discordar das idéias liberais (ou neoliberais), desde que se procure tomar conhecimento do que efetivamente são essas idéias, submetendo-as então à uma crítica racional. É absurdo tomar como reais idéias pela imagem caricatural dela que seus inimigos forjaram. Mas é exatamente isso que ocorre.

O economista Eugen von Bohm-Bawerk certa vez foi censurado por não intervir quando alguns alunos de seu seminário expunham teorias obviamente erradas e absurdas. Ele disse em resposta que nada era mais eficaz para se revelar o erro de um raciocínio do que permitir que fosse desenvolvido até suas últimas consequências lógicas. A humanidade parece ter seguido procedimento similar em relação ao socialismo, o qual contou com meios e tempo mais do que suficientes para provar suas proposições e falhou lamentavelmente, precisamente onde e como seus críticos previram que falharia. Será que já não sofremos o bastante para admitir que o socialismo é um erro trágico?

“DIREITOS HUMANOS” – O Direito, do latim directu, aquilo que deve ser reto e justo, é uma criação humana, e somente o Homem é sujeito de direito. Mesmo as pessoas jurídicas e patrimônios personalizados (fundações) são ficções jurídicas cuja criação e atuação no mundo concreto se materializam através da vontade e da ação humana. O risível “direito dos animais”, que aliás acaba de ganhar foro constitucional na Alemanha, não é gerado pelos marinbondos e papagaios, é claro, mas pelos homens. Sendo assim, é evidente que o Direito é sempre humano, constituindo esse adjetivo mera tautologia. O que esse conceito espúrio pretende de fato, enrolado em um falso manto humanitário, é conferir às pessoas – sobretudo pessoas enquadradas em certas classificações capciosas – “direitos” a coisas imateriais, como felicidade e amor, ou coisas materiais, como emprego, renda, habitação etc, que o Estado não pode dar, porque não possui, ou só pode dar a um quando tira de outro, fazendo uma caridade farsesca com o chapéu alheio, mediada por uma casta burocrática que reserva para si a parte do leão dos recursos “pilantrópicos” que amealha. “Direitos Humanos”, em síntese, é mais um exemplo de socialismo disfarçado com belas palavras, um pretexto polivalente para a múltipla intromissão estatal injusta na esfera de autonomia individual..

Muito mais clara e adequada é a denominação Direitos Inalienáveis inscrita pelos fundadores dos Estados Unidos no preâmbulo de sua Constituição, derivados da filosofia lockeana dos Direitos Naturais. Esses direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade (aos quais deve ser acrescentado o direito à propriedade legitimamente adquirida) são inalienáveis porque não se pode dispor deles sem deixar de ser Homem, bem como se caracterizam pela reciprocidade, isto é, ao direito de cada pessoa corresponde direito igual de todas as outras, e o dever geral de respeitá-los. Esses atributos de reciprocidade e universalidade são violados pelos chamados “direitos humanos”, vez que, por exemplo, ao “direito” de fulano a uma renda de mil reais mensais inevitavelmente corresponde o “dever” de sicrano, que ganha mais do que isso, de prover recursos para fulano, muito embora este não seja culpado pela pobreza daquele. Os “direitos humanos” são a cristalização da injustiça sistematizada, ou seja, dos “direitos desumanos”.

“DESIGUALDADE SOCIAL” – Novamente o adjetivo “social” é objetivamente inútil, porém politicamente malicioso. Para haver desiguais há naturalmente que haver mais de um ser humano, de maneira que “social” já está implícito no substantivo “desigualdade”. Nada é mais lacrimosamente denunciado pelo intelectual, com tom de ira santa, do que a desigualdade. Que esta existe é um fato incontestável, um dado da natureza.. As pessoas são mesmo desiguais, e o seriam mesmo que toda a humanidade fosse constituída de clones. Não há outra igualdade possível senão aquela diante da lei, fundada nos direitos inalienáveis, recíprocos e universais estudados acima. A intelligentsia, entretanto, discorda categoricamente. Há que haver igualdade material, dizem de modo bastante vago, e cabe ao Estado instaurá-la, comandado por eles mesmos ou por quem acate suas idéias. Como Thomas Solwell observou com sagacidade, os intelectuais de “esquerda” dividem a humanidade em três grupos: os desvalidos, os desalmados e os iluminados. Os primeiros, os pobres, são maltratados pelos segundos, os ricos, cabendo aos terceiros – os próprios intelectuais de “esquerda” – intervir munidos dos poderes coativos estatais para defender os bons dos maus e implantar a “justiça social” na Terra. A contradição insolúvel nesse discurso igualitário é que sua execução exige que um determinado grupo seja incumbido da tarefa de igualar os outros grupos, detendo para tanto poderes exclusivos, o que por si só inviabiliza a priori a igualdade. De resto, se os indivíduos são naturalmente desiguais e a igualdade material é impossível – até porque se fosse viável igualar a renda monetária de todos (e não é), seria impossível igualar a renda real, vez que, v.g., para quem vive no litoral é muito mais barato o lazer na praia do que para quem vive no interior – a doutrina igualitária é absolutamente inexequível, portanto absurda e, logo, intrinsecamente nefasta.

A eficácia desse discurso absurdo depende da associação implícita e falaciosa da desigualdade com a miséria, e também da estimulação sub-reptícia do sentimento da inveja. A falsidade do sofisma da miséria pode ser facilmente exposta em termos econômicos. A miséria é causada basicamente pela baixa produtividade do trabalho, que deriva de reduzidos padrões de capital investido per capita em determinada comunidade. A solução, assim, passa necessariamente pela acumulação de capital de modo a que o trabalho se torne mais produtivo, elevando ipso facto o nível de consumo das profissões marginais (aquelas cuja remuneração é mais baixa) para um patamar acima da mera subsistência. A teoria e a experiência provam que somente a economia de mercado, ou seja o capitalismo, é capaz de gerar os requisitos necessários e suficientes para se extinguir rapidamente a miséria. Como, porém, o capitalismo é rejeitado veementemente pelos intelectuais de esquerda, conclui-se que Joaozinho Trinta estava certíssimo quando afirmou que esses sujeitos adoram a miséria. Miséria para os outros, bem entendido. A invocação da inveja, além de imoral, é contraproducente, posto que a ênfase na expropriação dos que têm mais em prol dos que têm menos desencoraja o trabalho e incentiva o parasitismo. No final do processo, a inveja resulta na miséria geral, pois quem vai querer produzir para ser roubado? E se ninguém produz, o que o parasita vai parasitar?

“GLOBALIZAÇÃO” – Quando o homo sapiens emigrou há milênios de sua África natal para todos os recantos do planeta estava terminada a única “globalização” de fato relevante. Tratando-se de uma única espécie, gregária e sociável, nada mais natural do que a progressiva intensificação dos intercâmbios de todos os tipos entre seus componentes. A língua, o fogo, a roda, a escrita, a matemática, as religiões e muito mais coisas se “globalizaram” no curso do tempo. Então o que há de diferente e novo no que hoje se chama vulgarmente de “globalização”? Nada. Em boa parte o termo tem conotação negativa, identificado com capitalismo, imperialismo e bobagens do gênero. Para identificar a má-fé nessa campanha de desinformação propagandística basta constatar que seus autores são os mesmos que ainda ontem pregavam (e ainda pregam, embora em outros termos) o “internacionalismo proletário”, isto é, a globalização do comunismo.

“EXCLUSÃO SOCIAL” – Olhem o infame “social” aí de novo! O termo “excluído” foi concebido pela intelectuária para substituir aos desgastados “proletário”, “trabalhadore” e “camponês”, malgrado corresponda, mais tecnicamente, ao que os marxistas clássicos rotulavam de “lumpenproletariado”. Como a retórica da “esquerda” é cada vez mais vaporosa, contraditória e mutante, “excluído” pode identificar as mais diversas categorias. Hoje são os índios, para os quais se exigem terras equivalentes ao território de vários países, amanhã são os “sem-terra”, que demandam o fim do “latifúndio” e a divisão de todas as terras em pequenas propriedades, e assim por diante.

“A LÓGICA DO CAPITALISMO” – A lógica é a disciplina filosófica que estuda a forma do raciocínio, pelo qual de premissas admitidas como certas se inferem conclusões necessárias, pois já implícitas nas premissas. Assim, quando um intelectual de “esquerda” fala em “lógica do capitalismo”, essa expressão só é válida se o interlocutor aceita as premissas sugeridas. Quando, ao contrário, o interlocutor pretende justamente problematizar essas premissas, não há lógica nenhuma, e sim dialética. Infelizmente é quase impossível um intelectual de esquerda aceitar esse debate franco e aberto – dialético – acerca da real natureza do que se conhece como capitalismo. Para ele, premissas como “exploração”, “egoísmo”, “exclusão”, “imperialismo” são artigos de fé (rectius: de má-fé) em toda e qualquer peroração sobre o assunto. E se o oponente prova cabalmente os múltiplos erros nos seus teoremas, o intelectual de esquerda recorre ao argumento ad hominem, também denominado por Ludwig von Mises de polilogismo, que se resume a colar no interlocutor impertinente a etiqueta odienta de “capitalista”, que o torna inerentemente incapaz de sequer compreender a “lógica proletária”, quanto mais refutá-la.

“AS FORÇAS CEGAS DO MERCADO” – O mercado é essencialmente um processo através do qual os fatores de produção (terra, trabalho e capital) são alocados segundo as demandas mais urgentes dos consumidores, processo esse não controlado e dirigido por nenhum órgão central. A maior e mais antiga controvérsia da economia, desde Adam Smith e até mesmo antes dele, tem por objeto a capacidade auto-reguladora do mercado. Para Smith e Bastiat, von Mises e M. Rothbard, o mercado é auto-regulável; para Malthus e Sismondi, Marx e Keynes, a economia de mercado sofre de contradições internas que acarretam sua destruição, exigindo, pois, a intervenção estatal para corrigir (ou abolir, no caso de Marx) as suas “falhas”. Quem assevera que as forças de mercado são “cegas” está afirmando que o planejamento estatal é onisciente, ou menos falível do que o mercado. Nesse ponto temos que aplaudir a coerência dos socialistas totalitários (comunistas e nazistas), posto que, se o Estado é capaz de corrigir as falhas do mercado, deve logicamente suprimi-lo por completo. A posição dos socialistas fabianos (terceira via, keynesianos, sociais-democratas) nessa questão é frágil, vez que, se o Estado é intrinsecamente superior ao mercado na organização da economia, porque então não substituí-lo integralmente?

Por outro lado, se a intervenção do Estado no domínio econômico também é “cega”, a economia será sempre um processo pelo qual cegos são guiados por cegos. E se algo pôde ser inferido de certo e conclusivo da calamitosa experiência econômica do século 20 é que a intervenção estatal é sempre “cega”, muito embora conduzida por políticos, intelectuais e burocratas dotados de enorme “olho grande”. Proponho ao leitor o seguinte teste empírico: a oferta de pão está em nosso país à cargo do mercado, enquanto que a provisão de serviços de segurança incumbe ao estado. Quem o atende com mais eficiência? Quanto a mim, não há dúvida. Eu viajei por todo o Brasil e não encontrei lugar em que não houvesse uma padaria disponível para se adquirir o tradicional pãozinho para o café da manhã. Por outro lado, sempre que necessitei de auxílio policial nas diversas ooprtunidades em que fui roubado ou furtado, fiquei frustrado. Imaginem só se a oferta de pães fosse monopólio estatal afetado a uma “Pãobrás” qualquer. Provavelmente não haveria pão em lugar nenhum, como não há em Cuba nem havia nos países comunistas.

“DIREITOS DAS MINORIAS” – Todo sujeito de direito é uma minoria de um, uma vez que ao seu direito corresponde o dever geral de não infringi-lo, conforme estabelecido na breve investigação acima sobre a natureza do Direito. De maneira que a expressão “direitos das minorias” é vazia. O direito do homossexual é precisamente o mesmo do heterossexual, como o direito do branco é o mesmo que o do negro, e assim por diante. A campanha dos “direitos das minorias” não passa de uma ofensiva da intelligentsia esquerdista contra o Estado de Direito com o fito de fomentar conflitos artificiais para depois “resolvê-los” via coerção policial. Não é outra coisa a recente importação da “affirmative action” (outra expressão melíflua e contraditória em seus termos) dos Estados Unidos pelo hediondo governo FHC, com sua infame política de quotas raciais. Isso equivale a institucionalizar o racismo num dos poucos países do mundo isentos desse problema. Até mesmo as mulheres, maioria da população, são qualificadas como “minoria”, o que é ridículo.

“CONSCIÊNCIA CRÍTICA” – O intelectual de “esquerda” ama de paixão a palavra “crítica”, desde que não seja jamais criticado. Para ele, somente aqueles que foram devidamente doutrinados nas idéias esquerdistas são indivíduos “conscientes” e “críticos”. Ocorre que a peculiaridade de pessoas que pensam assim é exatamente a completa incapacidade de raciocinar criticamente, isto é, de pensar por si mesmas, articular argumentos e formar juízos objetivos e imparciais sobre a realidade. Na melhor tradição orwelliana, para o intelectual de “esquerda”, “consciente” é o que para gente normal é “lobotomizado”, e “crítico” traduz-se por “acrítico”.

“SETORES CONSCIENTES E ORGANIZADOS” – Essa é clássica. Os intelectuais de “esquerda” denominam assim os grupos que estão inteiramente doutrinados e arregimentados por eles. Quem está fora é “alienado” ou “inimigo de classe”.

“ELITES PERVERSAS” – Para os intelectuais de esquerda as “elites perversas” são sempre os outros, nunca eles mesmos, não obstante eles constituam evidentemente um grupo de elite. Reparem no Luis Fernando Veríssimo, por exemplo. Nascido em berço de ouro, educado nos Estados Unidos, escritor de um best-seller atrás do outro, prestigioso e regiamente pago colunista de grandes jornais, bajulado servilmente pela mídia, amigo e guru de políticos influentes e poderosos, ele costuma passar as férias em Paris. Se Veríssimo não integra a elite brasileira, a que classe ele pertence então? Mas o insensado escritor de “esquerda” e seus pares jamais se incluem na fina-flor da sociedade brasileira, a despeito de contribuirem mais do que ninguém para a formação da cultura do país, e daí naturalmente para a organização política nacional.

Fala-se muito no “poder econômico” das “elites”, que seriam responsáveis pelo atraso e pela miséria no Brasil. Ora, e quem tem mais poder econômico nesse país do que o Estado, que inclusive detém o poder de criar dinheiro? Que indivíduo, que empresa, que elite se reveste do poder de tributar, de se apropriar de 34% do que se produz nacionalmente? Quem tem privilégios como estabilidade no emprego, vencimentos desvinculados da produtividade do trabalho, aposentadoria especial, remuneração muito acima da média nacional etc. etc. etc.? Ora, que eu saiba são os funcionários públicos a elite mais rica e poderosa do Brasil. O rendimento médio mensal de um servidor federal está por volta de R$ 3.355,09; já o assalariado do setor privado recebe em média R$ 751,60 por mês. Os funcionários federais aposentados e pensionistas ganharam em média R$ 2.474,37 ao mês; os aposentados do regime comum do INSS tiveram que se contentar com R$ 324,00 mensais em média. Acontece que a incessante ladainha dos intelectuais de “esquerda” é justamente atribuir ainda mais poder e mais dinheiro a essa elite insaciável, da qual a maioria deles faz parte. Isso é que é “utopia” em causa própria!

O Manifesto Comunista Do Pt

Data N/A | Extinguir o capitalismo, instaurar em lugar dele uma “democracia popular” socialista – eis o program

A campanha é lançada simultaneamente com uma onda de esforços gerais para assegurar ao atual presidente da República um terceiro mandato – provavelmente também um quarto, um quinto e um enésimo.

Um detalhe interessante do vídeo é que nele, pela primeira vez, o PT assume diante do público maior as glórias de fundador do “espaço de articulação estratégica continental” ( sic ), o Foro de São Paulo, aquela entidade que, segundo os eruditíssimos senhores Luiz Felipe de Alencastro e Kenneth Maxwell, jamais existiu. Ao fazê-lo, o partido não só admite oficialmente a parceria política com gangues de narcotraficantes e seqüestradores que atuam no território brasileiro (as Farc e o Mir, por exemplo), mas torna visível o seu papel de criador – junto com Fidel Castro — dos fenômenos Chávez, Morales etc., aos quais, por isso mesmo, jamais poderia servir de “alternativa democrática”.

É natural que tão formidável upgrade das ambições partidárias venha acompanhado de um equivalente decréscimo da tolerância petista para com qualquer forma de oposição externa (a interna faz parte do “centralismo democrático” leninista, e não há indícios de que venha a ser extinta antes do Quarto Congresso; talvez dure mesmo até o Quinto).

As empresas de mídia que ajudaram a camuflar as atividades do Foro de São Paulo e a embelezar a imagem eleitoral do PT como um partido curado de ilusões marxistas já são, hoje em dia, abertamente condenadas como “de extrema direita”, anunciando para mais breve do que imaginam o prêmio da sua subserviência, o assalto chavista aos seus meios de expressão.

Na maré montante de furor revolucionário, a intelligentzia esquerdista, antes ciosa da sua aparência de bem educadinha e moderadíssima, já não hesita em mostrar seus dentes de ogro. Tenho um caso pessoal a relatar sobre isso. Os senhores já ouviram decerto falar de João Quartim de Moraes, um dos mandantes do assassinato do capitão do Exército americano, Charles Chandler (acusado na época de pertencer à CIA, coisa que qualquer garoto de escola americano sabe ser uma impossibilidade administrativa absoluta). Quartim foi condenado por homicídio em 1977. A sentença já transitou em julgado. Muito bem: ao chamar esse assassino de assassino, coisa banal que todos os dias se faz no jornalismo, devo ter acidentalmente tocado em algum ponto secreto e dolorido do esquema revolucionário brasileiro, pois suscitei uma reação estranha, desproporcionalmente histérica: um manifesto furibundo apoiado oficialmente pelo PT, assinado por Marco Aurélio Garcia, Ricardo Berzoini e mais de seiscentos professores universitários que me rotulam de “názio-fascista”, “irracível” “entiético” e termos similares, não só exemplificando a crescente impaciência comunista ante qualquer contrariedade, mas provando a coexistência pacífica entre o analfabetismo e a condição de intelectual de esquerda.

Em 24 de agosto de 2007

O Que Vem Por Ai

Data N/A | Digesto Econômico

O primeiro é o dilema geral do esquerdismo hoje em dia. Esvaziada de suas antigas propostas socio-econômicas, que nem seus líderes mais inflamados ousam ainda defender na versão originária, a esquerda mundial sobreviveu à queda da URSS e até se fortaleceu na base do puro ódio cultural (anti-ocidental, antijudaico, anticristão) e do anti-americanismo nu e cru. Esses dois item mesclam-se confusamente no slogan da “guerra contra o Império”. Mas, como reconheceu o próprio teórico esquerdista maior, Antonio Negri, o Império já não é americano. É supranacional. Os pilares em que se assenta são as megacorporações e os organismos internacionais de controle (ONU, OMC, Unesco, OMS etc.) com sua rede de ONGs espalhadas pelo mundo, subsidiadas por aquelas mesmas corporações. Esse macro-sistema de poder não somente não se identifica com a soberania nacional americana mas luta abertamente para dissolvê-la e absorvê-la numa espécie de governo mundial. É a teoria Garrison-Gorbachev do “império transitório” a ser imolado no altar do “império definitivo”. Na medida em que, por tradição ou automatismo, o movimento esquerdista nacional se volta contra os EUA, ele serve ao governo mundial em formação: a luta contra o “império transitório” se torna serviço prestado à construção do “império definitivo”. O fato aparentemente paradoxal de que praticamente toda a esquerda mundial seja subsidiada pelas grandes fundações bilionárias integradas no projeto do governo mundial encontra aí sua explicação. Os obstáculos mais sérios à consecução desse projeto são as soberanias nacionais dos EUA e de Israel. Um “anti-imperialismo” voltado contra esses dois pólos é tudo o que o Império precisa para consolidar-se às custas de milhões de idiotas úteis que imaginam combatê-lo.

De outro lado, a luta cultural anti-ocidental, incentivada e subsidiada pelos próprios condutores do processo de globalização imperial, não tem resultado em fortalecer o Estado leigo (supostamente destinado a constituir o modelo do Estado mundial), mas em debilitá-lo em proveito da invasão islâmica. Quanto mais as sociedades ocidentais se afastam dos princípios da civilização judaico-cristã, mais se tornam incapazes de defender sua identidade contra o assédio da “alteridade” islâmica. Não só as nações se enfraquecem, mas o próprio Estado mundial, erguendo-se sobre os escombros das identidades nacionais e tradições religiosas, já nasce desprovido de princípios e valores capazes de resistir à maré montante do Islam globalizado.

O dilema da esquerda mundial, que nem seus próceres mais destacados parecem ter enxergado claramente até o dia de hoje, consiste em que todos os seus esforços anti-americanos e anti-ocidentais refluem em benefício do projeto imperial global e, a mais longo prazo, da ascensão islâmica, que traz em seu bojo valores simetricamente opostos àqueles representados pela rebelião cultural esquerdista.

Nosso governo, sendo nada mais que um pseudópodo do movimento esquerdista internacional, vivencia esse dilema, aparentemente sem ter dele a menor consciência. Isto significa que, faça ele o que fizer, sua única função histórica terá sido a de servir a forças cujo alcance lhe escapa por completo. Um papel especialmente cômico, nessa farsa inconsciente, parece estar reservada aos “nacionalistas” das Forças Armadas, que, ansiosos para integrar-se na “guerra do povo inteiro” contra o fantasma do imperialismo americano, se tornarão cada vez mais idiotas úteis a serviço do “império definitivo”, a não ser na hipótese quase impensável de que parem de se auto-hipnotizar com slogans patrióticos deslocados da situação real, comecem a prestar atenção nas minhas análises e adquiram ao menos um vislumbre de qual é a guerra e qual é o inimigo.

O segundo dilema insolúvel que define a posição do nosso governo na ordem da realidade é o drama da violência nacional crescente que não pode de maneira alguma ser reprimida sem trazer danos a um dos mais queridos parceiros ideológicos do governo, a narcoguerrilha colombiana. Mas, se conseguimos sobreviver enquanto a taxa de homicídios no território nacional crescia para cinqüenta mil por ano, por que não poderemos, intoxicados de desconversas e evasivas, suportar mais cem mil ou duzentos mil? O brasileiro, afinal, parece ser mesmo o povo mais facilmente governável do universo.

O terceiro dilema é o das relações com os EUA. Esticando ao máximo a relativa independência de política econômica e poder político, o governo tem conseguido, até agora, conciliar as exigências do capitalismo internacional com as do comunismo continental. O primeiro sinal de que essa coincidentia oppositorum começa a fazer água veio na recusa oficial, polida mas firme, de realizar a mais linda esperança da diplomacia Bush, a de que o Brasil consentisse em servir de freio às ambições continentais de Hugo Chávez. Da minha parte, sempre disse e escrevi que isso era esperança utópica, que os compromissos de Lula com o Foro de São Paulo (e portanto com Hugo Chávez) eram mais profundos e sólidos do que a CIA podia ter soprado aos ouvidos do presidente Bush. O fracasso da missão Gonzales no Brasil, por mais disfarçada que esteja por trás de sorrisos e desconversas, foi um teste de realidade das idéias de George W. Bush sobre a América Latina, e elas não passaram no teste. Mas, se isso cria um problema para os EUA, cria outro maior para o governo brasileiro, cuja carapaça de hipocrisia acaba de ser furada a olhos vistos, embora os assessores de Bush façam de conta que não perceberam nada. Nossa melhor esperança de manter boas relações com os EUA reside em fazer alguma macumba para que o presidente Bush consinta em ingerir novas doses de anestésico diplomático e, redobrando sua imunidade aos fatos, continue sonhando que o Brasil é seu grande aliado contra Chávez. A sorte do Brasil, nesse ponto, depende de saber até onde Lula poderá continuar realizando prodígios de elasticidade entre o compromisso socialista e o compromisso capitalista.

Dilemas insolúveis são horríveis para quem os padece, mas, para o observador que deseja compreender a situação, são preciosos. Num jogo de xadrez, como é que você faz para saber qual o próximo lance de um jogador? Você começa por analisar onde é que as peças dele estão travadas pela posição das peças do adversário, isto é, você exclui as jogadas impossíveis. Em política é a mesma coisa. Exclua as jogadas impossíveis e saberá quais as possibilidades que restam. Mas há uma diferença: o enxadrista nunca estraga de propósito o próprio jogo. Os políticos, quando se vêem travados por todos os lados, às vezes não hesitam em arriscar as jogadas impossíveis, ou porque não sabem que são impossíveis, ou porque o suicídio nacional lhes parece o caminho da salvação. Se o presidente Lula ainda for sensato o bastante para evitar essa hipótese, tudo o que lhe restará serão quatro anos de desconversa, recheados de “programas sociais”, leis inócuas e muita propaganda. Ele terá falhado àquilo que considera sua “missão histórica”, mas, afinal, ele já não parece ligar muito para isso. A outra hipótese, a de uma iluminação súbita que lhe inspire soluções geniais e imprevistas para os quatro dilemas apontados, me parece bastante remota.

Se os liberais e conservadores não tivessem cuidado apenas de emascular-se ideologicamente e de reduzir-se ao estatuto de auxiliares da esquerda light , este seria o seu grande momento. Na luta contra um adversário preso numa rede de impossibilidades, eles teriam todas as chances. Mas para aproveitá-las precisariam antes tratar de existir como força ideológica definida, e isto eles parecem não querer de maneira alguma.

Quando olho para trás e vejo que desde 1993 tenho acertado em todas as minhas previsões políticas, quando nenhum outro analista nacional pode se gabar de feito idêntico, e por outro lado observo a relutância suspeitosa que tantos líderes da nossa “direita” opõem em seguir os meus conselhos, a única conclusão que posso tirar disso é que o seu futuro, como coletividade, não me parece muito brilhante. Resta apostar nas exceções individuais.

Em 2 de janeiro de 2007

Obviedades Temiveis

Data N/A | Diário do Comércio

de agosto de 2005 A esta altura já se tornou óbvio que mesmo alguns dos mais ferrenhos acusadores da corrupção governamental estão antes interessados em salvar a imagem do PT do que em descobrir a verdade. Já disse dezenas de vezes e repito: a esquerda organizada – não o PT sozinho, mas a articulação dos partidos pertencentes ao Foro de São Paulo — é mais poderosa que o Parlamento, mais poderosa que o empresariado, mais poderosa que a Justiça, mais poderosa que a Igreja, mais poderosa que a mídia, mais poderosa que as Forças Armadas. Ninguém tem meios de puni-la, faça ela o que fizer. O Estado brasileiro, para ela, é apenas matéria dúctil da qual ela se servirá a seu belprazer, moldando-a e remoldando-a à sua imagem e semelhança, no instante em que quiser, no estilo em que quiser, sem suscitar senão reclamações isoladas, débeis e impotentes. O simples fato de que seus opositores se limitem a imputações de detalhe, sem coragem ou capacidade para denunciar o esquema ideológico e estratégico por trás de tudo, já é a prova mais contundente de que eles estão derrotados, submissos, agarrando-se a subterfúgios fúteis para não ter de enxergar a extensão da tragédia em que uma persistente covardia os mergulhou. Disputam no varejo porque sabem que, no atacado, já perderam. E não falo só do Brasil: o continente latino-americano, com exceção da Colômbia, do Chile e dos pequenos países da América Central, já está sob o domínio comunista e não sairá ileso dessa brincadeira, como nenhum povo aubmetido a experiência similar jamais saiu. Desde que os setores mais vitalmente interessados na sobrevivência da democracia capitalista caíram no engodo do “fim do comunismo” e reprimiram em si próprios toda veleidade de anticomunismo, estavam virtualmente mortos e enterrados. A começar pelos grão-senhores da mídia, coelhinhos assustados, trêmulos ante os chefetes comunistas que eles próprios nomearam e ante os bancos oficiais que prestam socorro a suas empresas periclitantes. A sorte do continente latino-americano está decidida: o futuro chama-se União das Repúblicas Socialistas da América Latina. A profecia de Fidel Castro, lançada na IV Assembléia do Foro de São Paulo, está em vias de se realizar plenamente: o movimento comunista internacional já está reconquistando na América Latina tudo o que perdeu no Leste Europeu. Com uma diferença: no Leste Europeu ele avançou sobre cadáveres de heróis e mártires, na América Latina vai deslizar suavemente sobre a pasta amorfa da pusilanimidade, da omissão e do colaboracionismo.

E não se iludam com uma intervenção salvadora dos EUA. A ascensão do comunismo na América Latina é do mais alto interesse da esquerda chique americana que aqui representa a nata do poder econômico e, na escala mundial, a vanguarda intelectual e financeira do globalismo. É verdade que aqui essa gente enfrenta uma resistência feroz dos conservadores e nacionalistas, mas estes começaram a lutar muito tarde, só na década de 80, ao passo que a esquerda já dominava os círculos de elite, as universidades, as diversões públicas e a grande mídia desde os anos 30. Hoje os esquerdistas são os donos das verbas oficiais de ajuda ao Terceiro Mundo, que, junto com o dinheiro das fundações multibilionárias, fluem para os movimentos revolucionários e são negados a tudo o que seja ou pareça “de direita”. Experimentem. Tirem a prova. Façam um projeto inspirado em valores judaico-cristãos, na defesa dos direitos individuais e da economia de mercado, e tentem obter ajuda de alguma instituição governamental ou megafundação americana. Na melhor das hipóteses, receberão evasivas educadas. Depois inventem alguma tolice alegando “combate às desigualdades”, abortismo, feminismo, direitos gays, etc.: os cofres se abrirão generosamente. É claro que aqui existe muita gente contra isso, é claro que os conservadores têm hoje o apoio da maioria da população, é claro que uma redescoberta dos valores americanos tradicionais tem criado dificuldades excepcionais para a elite esquerdista, mas ainda há pela frente uma luta de muitas décadas antes que isso possa se refletir numa mudança efetiva da política internacional americana. Mesmo no Oriente Médio, onde o plano Bush de espalhar a democracia entre os povos islâmicos vem alcançando sucessos espetaculares – reconhecidos até no Brasil por um esquerdista doente como Caio Blinder –, o apoio interno ao presidente é continuamente boicotado por meio de campanhas de propaganda, mentirosas até à alucinação, que arriscam abortar a ação americana e devolver o Iraque à quadrilha de Saddam Hussein. Como, nessas condições, poderiam os EUA intervir na América Latina? Se a própria esquerda alardeia como realidade iminente o que é de fato uma impossibilidade flagrante, é porque sabe utilizar o duplo efeito, estimulante e tranqüilizante, da propaganda enganosa: inocular medo e ódio nos corações de nacionalistas sonsos (militares especialmente), anestesiar empresários idiotas infundindo-lhes uma esperança insensata.

Mas talvez a insensatez maior dos antipetistas seja a confiança que têm no PSDB. Esse partido pertence à Internacional Socialista, foi responsável durante o governo Fernando Henrique pela transformação do MST no mais poderoso movimento de massas do continente e pela introdução maciça da propaganda comunista nas escolas. Aceitá-lo como encarnação da “direita” é cair na armadinha verbal do petismo, que demarcou a esquerda moderada como forma extrema de direitismo permitido, criminalizando tudo o mais para assegurar a si próprio o domínio do espectro político inteiro, bloqueando o surgimento de uma autêntica oposição capitalista-democrática.

O próprio Fernando Henrique, sob as palmas entusiásticas do petista Chtristovam Buarque, já declarou que seu partido não tem divergências ideológicas ou estratégicas com o PT, que entre eles não há senão miúdas disputas de poder (inevitáveis mesmo dentro de um regime soviético) e que os objetivos finais de um e de outro são exatamente os mesmos. A malícia pueril brasileira pode enxergar nessa declaração nada mais que uma concessão da boca para fora, um golpe de astúcia caipira. Mas Fernando Henrique não é estúpido o bastante para querer enganar um adversário tarimbado por meio da lisonja barata. Estúpido é o ouvinte que não percebe que o ex-presidente disse apenas uma verdade factual, material, auto-evidente para todos os petistas e tucanos informados.

Petismo e tucanismo correspondem, no microcosmo nacional, ao comunismo e ao socialismo fabiano na escala internacional. O socialismo fabiano é a ideologia orientadora da Comunidade Européia e, em larga medida, da ONU (leiam The European Union Collective, de Christopher Story, Londres, Edward Harle, 2002). Sua idéia básica é instaurar a ditadura socialista – o pleno domínio do Estado sobre todas as iniciativas humanas – não através da revolução, mas de mudanças progressivas na legislação. O símbolo do socialismo fabiano é a tartaruga, designando a lentidão persistente em contraste com a precipitação comunista (durante todas as reuniões de fundação da Comunidade Européia, a mesa diretora ostentou uma tartaruga de louça, trazida pelo ex-presidente francês Valéry Giscard d’Estaing). Hoje sabe-se que os criadores do socialismo fabiano – Sidney e Beatrice Webb – agiam sob orientação direta do governo soviético, apresentando como alternativa ao comunismo aquilo que era apenas o comunismo agindo por meios mais anestésicos. Passados oito décadas, a divisão de trabalho não mudou. Também não mudaram em nada as briguinhas internas que jogam areia nos olhos da platéia. Quando Fernando Henrique declara que, nas investigações sobre o escândalo do Mensalão, é importante “não destruir o PT”, ele sabe o que está dizendo. Trata-se de garantir para o PSDB um lugar melhorzinho no esquema de poder socialista, não de eliminar o esquema enquanto tal.

O tremendo respaldo internacional que esse esquema tem nos círculos globalistas da Europa e dos EUA pode ser medido pela paparicação de Lula por parte da grande mídia americana (arraigadamente anti-Bush), de vários governos europeus e do próprio Fundo Monetário Internacional, que aí ninguém parece saber que é um órgão da burocracia globalista, não um baluarte da liberdade econômica como o apresentam os esquerdistas para camuflar a ajuda que recebem dele.

Se há algo que me desgosta e me irrita é ter de abandonar o plano das análises e diagnósticos, onde me movo à vontade, pelo das sugestões práticas que não cabem ao estudioso e sim aos políticos. Odeio dar conselhos. Mas há um que não posso reprimir. É de uma burrice insana tentar combater com acusações pontuais um esquema estratégico abrangente, que inclui desde o envenenamento ideológico das crianças pequenas até vastas redes internacionais de apoio econômico, político, publicitário e militar. Se vocês querem fazer algo de efetivo contra a hegemonia esquerdista, parem de se iludir com a eficácia utópica das meias-medidas, parem de confiar em comissões de inquérito presididas pelos próprios investigados, parem de querer furar com alfinetes uma couraça de elefante. Admitam que, contra uma estratégia comunista de envergadura continental, só uma estratégia anticomunista de idênticas proporções pode alguma coisa. Admitam que só o que os pode salvar é aquilo que vocês mais temem: o enfrentamento ideológico sistemático, abrangente, completo. Assumam a defesa dos valores judaico-cristãos, do modelo ocidental de democracia, das liberdades individuais e declarem em voz alta o nome do inimigo: comunismo. Se vocês têm medo até mesmo de nomear o bicho, como poderão vencê-lo?

Sei que é tarde, é demasiado tarde, para começar uma briga dessas proporções. Mas há algumas coisas que podem ser feitas com meios modestos e de grande eficácia. Uma delas é, admitindo francamente que já não existe no Brasil autoridade superior à esquerda organizada, reconhecer que está na hora de apelar ao julgamento internacional, usando as armas do próprio globalismo contra os seus protegidos locais. Não custa nada algum grupo interessado encaminhar à Organização dos Estados Americanos uma petição requerendo uma comissão investigativa internacional, independente, para averiguar os crimes do PT. Duvido que alguém aí tenha coragem para isso, mas, quando todas as portas se fecham, é preciso lembrar que ainda existem janelas. Direi mais sobre isso nos próximos artigos.

Para vocês fazerem uma idéia de quanto as notícias internacionais chegam ao Brasil invertidas, todo mundo aí está anunciando a saída de Roger Noriega em termos que apresentam o ex-subsecretário como o suprassumo do conservadorismo anticastrista. A verdade é precisamente o contrário. Noriega era um molenga, um “extremista de centro”, e desagradava precisamente por isso. Seu sucessor será muito provavelmente Tom Shannon, homem mais decidido. Isso ainda não trará uma mudança total da política latino-americana do Departamento de Estado do passivo para o ativo, mas certamente representará uma vitória do conservadorismo sobre a inércia burocrática, pró-esquerdista, herdada do governo Clinton. A limpeza que George W. Bush iniciou na CIA parece que está chegando ao Departamento de Estado.

Terça-feira, no Hudson Institute em Washington, estive na conferência do subsecretário assistente da Defesa para assuntos interamericanos, Roger Pardo-Maurer, sobre “O retorno de uma política exterior agressiva por parte de Cuba”. O conferencista disse coisas que todo mundo já sabia: que há uma crescente ingerência cubana nos países vizinhos, que há um eixo Castro-Chávez em ação no continente, que Fidel Castro dirige e Hugo Chávez financia a agitação na Bolívia para levar o cocalero Evo Morales ao poder.

Poucas horas depois, o jornal venezuelano El Universal publicava em sua edição eletrônica a reação do embaixador da Venezuela, Bernardo Alvarez, segundo o qual as palavras de Pardo-Maurer eram apenas uma tática para espalhar medo e conseguir votos em favor do tratado de livre comércio com a América Central.

A resposta é de uma tolice exemplar. A palestra de Pardo-Maurer foi ouvida por uns trinta indivíduos, no máximo, em geral estudiosos de assuntos latino-americanos, pouco inclinados a assustar-se com notícias velhas. E não havia ali nenhum representante do governo, exceto o próprio conferencista, que por isso não podia razoavelmente esperar alguma atitude prática por parte da platéia.

Olavo De Carvalho Explains Lula And The Sao Paulo Forum

Data N/A | (Alek Boyd) interviews Olavo de Carvalho

There is nothing there to be properly reconciled. The image and the reality, in that case, are in complete contradiction to each other. The legend of Lula, as a democrat and a moderate, only holds up thanks to the suppression of the most important fact of his political biography, the foundation of the São Paulo Forum. This suppression, in some cases, is fruit of genuine ignorance; but in others, it is a premeditated cover-up. Council of Foreign Relations’ expert on Brazilian issues, Kenneth Maxwell, even got to the point of openly denying the mere existence of the Forum, being confirmed in this by another expert on the subject, Luiz Felipe de Alencastro, also at a conference at the CFR. I do not need to emphasize the weight that CFR’s authority carries with opinion-makers in the United States. When such an institution denies the most proven and documented facts of the Latin American history of the last decades, few journalists will have the courage of taking the side of facts against the argument of authority. Thus, the São Paulo Forum, which is the vastest and most powerful political body that has ever existed in Latin America, goes on unknown to the American and, by the way, also worldwide public opinion. This fact being suppressed, the image of Lula as a democrat and a moderate does indeed acquire some verisimilitude. Note that it was not only in the United States that the media has covered up the existence and the activities of the Forum. In Brazil, even though I published the complete minutes of the assemblies of that entity, and frequently quoted them in my column in the prestigious newspaper O Globo , from Rio de Janeiro, the rest of the national media en masse either kept silent, or ostensibly contradicted me, accusing me of being a radical and a paranoid. When at last President Lula himself let the cat out of the bag and confessed to everything, his speech, published on the president’s official website, was not even mentioned in any newspaper or TV news show. Shortly afterwards, however, the name “São Paulo Forum” was incorporated into video advertisements of the ruling party, becoming thus impossible to go on denying the obvious. Then, they moved on to the tactic of harm management, proclaiming, against all evidence, that the São Paulo Forum was only a debate club, with no decisional power at all. The minutes of the assemblies denied it in the most vehement manner, showing that discussions ended up becoming resolutions, unanimously signed by the members present. Debate clubs do not pass resolutions. What’s more, the same presidential speech I have just mentioned also disclosed the decisive role that the Forum played in the sense of putting and keeping Mr. Hugo Chávez in power in Venezuela. Nowadays, in Brazil, nobody ignores that I told the truth about the São Paulo Forum and the rest of the media lied.

On the other hand, it is clear that Lula and his party, being the founders and the strategic centre of the Forum, had to keep a low profile, leaving to more peripheral members, like Hugo Chávez and Evo Morales, the flashiest or most scandalous part of the job. Hence, the false impression that there are “two lefts” in Latin America, one democratic and moderate, and the other radical and authoritarian. There are two lefts, indeed, but they are rather the one that commands, and the other that follows the first’s orders and thereby risks its own reputation. All that the Latin American left has done in the last nineteen years was previously discussed and decided in the Forum’s assemblies, which Lula presided over, either directly until 2002, or through his deputy, Marco Aurélio Garcia, afterwards. The strategic command of the Communist revolution in Latin America is neither in Venezuela, nor in Bolivia, nor even in Cuba. It is in Brazil.

Once the fact of the existence of the São Paulo Forum was suppressed, what has given even more artificial credibility to the legend of the “two lefts” was that the Lula administration, very cunningly, concentrated its subversive efforts upon the field of education, culture, and custom, which only affect the local population, prudently keeping, at the same time, an “orthodox” economic policy that calmed down foreign investors and projected a good image of the country to international banks (a double-faced strategy inspired, by the way, in Lenin himself). Thus, both the subversion of the Brazilian society and the revolutionary undertakings of the São Paulo Forum managed, under a thick layer of praise for President Lula, to pass unnoticed by the international public opinion. Nothing can illustrate better the duplicity of conduct to which I refer than the fact that, in the same week, Lula was celebrated both at the World Economic Forum in Davos, for his conversion to Capitalism, and at the São Paulo Forum, for his faithfulness to Communism. It is quite evident, then, that there is one Lula in the local reality and another Lula for international consumption.

Alek Boyd: Could you expand a bit on the sort of organization the FSP is, and the democratic credentials of some of its members?

The São Paulo Forum was created by Lula and discussed with Fidel Castro by the end of 1989, being founded in the following year under the presidency of Lula, who remained in the leadership of that institution for twelve years, nominally relinquishing it in order to take office as president of Brazil in 2003. The organization’s goal was to rebuild the Communist movement, shaken by the fall of the USSR. “To reconquer in Latin America all that we lost in East Europe” was the goal proclaimed at the institution’s fourth annual assembly. The means to achieve it consisted in promoting the union and integration of all Communist and pro-Communist parties and movements of Latin America, and in developing new strategies, more flexible and better camouflaged, for the conquest of power. Practically, since the middle of the 1990’s, there has been no left-wing party or entity that has not been affiliated with the São Paulo Forum, signing and following its resolutions and participating in the intense activity of the “work groups” that hold meetings almost every month in many capital cities of Latin America. The Forum has its own review, America Libre (Free America), a publishing house, as well as an extensive network of websites prudently coordinated from Spain. It also exercises unofficial control over an infinity of printed and electronic publications. The speed and efficacy with which its decisions are transmitted to the whole continent can be measured by its ongoing success in covering up its own existence, over at least sixteen years. Brazil’s journalistic class is massively leftist, and even the professionals who are not involved in any form of militancy would feel reluctant to oppose the instructions that the majority receives.

The Forum’s body of members is composed of both lawful parties, as the Brazilian Workers’ Party itself, and criminal organizations of kidnappers and drug traffickers, as the Chilean MIR ( Movimiento de la Izquierda Revolucionaria ) and the FARC ( Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia ). The first is responsible for an infinity of kidnappings, including those of two famous Brazilian businessmen; the latter is practically the exclusive controller of the cocaine market in Latin America nowadays. All of these organizations take part in the Forum on equal conditions, which makes it possible that, when agents of a criminal organization are arrested in a country, lawful entities can immediately mobilize themselves to succour them, promoting demonstrations and launching petition campaigns calling for their liberation. Sometimes the protection that lawful organizations give to their criminal partners goes even further, as it happened, for example, when the governor of the state of Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, an important member of the Workers’ Party, hosted a FARC commander as a guest of state; or when the Lula administration granted political asylum to the agent of connection between the FARC and the Workers’ Party, Olivério Medina, and a public office to his wife. Sometime before, Medina had confessed to having brought an illegal contribution of $5 million for Lula’s presidential campaign.

The rosy picture of Brazil that has been painted abroad is in stark contrast with the fact that from 40,000 to 50,000 Brazilians are murdered each year, according to the UN’s own findings. Most of those crimes are connected with drug trafficking. Federal Court Judge Odilon de Oliveira has found out conclusive proofs that the FARC provides weaponry, technical support, and money for the biggest local criminal organizations, as, for instance, the PCC ( Primeiro Comando da Capital ), which rules over entire cities and keeps their population subjected to a terror regime. Just as I foretold after the first election of Lula to the presidency in 2002, the federal administration, since then, has done nothing to stop this murderous violence, for any initiative on the government’s part in that sense would go against the FARC’s interest and would turn, in a split second, the whole São Paulo Forum against the Brazilian government. In face of the slaughter of Brazilians, which is more or less equivalent to the death toll of one Iraq war per year, Lula has kept strictly faithful to the commitment of support and solidarity he made to the FARC as president of the São Paulo Forum in 2001.

Alek Boyd: Why do you think worldwide media didn’t pick up on the fact that Lula’s presidential campaign was illegally funded, to the tune of $3 million, by Fidel Castro, as exposed by Veja?

In face of facts like these, it is always recommendable to take into account the concentration of the ownership of the means of world communication, which has happened over the last decades, as it has been described by reporter Daniel Estulin in his book about the Bilderberg group. Even the more distracted readers have not failed to notice how the opinion of the dominant world media has become uniform in the last decades, being nowadays difficult to perceive any difference between, say, Le Figaro and L’Humanité concerning essential issues, as, for example, “global warming,” or the advancement of new leaderships aligned with the project for a world government, as, for example, Lula or Obama. Never as today has it been so easy and so fast to create an impression of spontaneous unanimity. And since the CFR proclaims that the São Paulo Forum does not exist, nothing could be more logical than to expect that the São Paulo Forum disappears from the news.

Alek Boyd: Other analysts have made the preposterous argument that foreign intervention, imperialism by any other word, has never characterized Itamaraty’s policy. In light of “union leader” Lula’s direct intervention in helping Chavez overcome the strike in 2002-03 by Venezuelan oil workers, by sending tankers with gasoline, how would you explain such blatant ignorance?

Itamaraty’s traditions, however praised they were in the past, no longer mean anything at all. Today, the Brazilian diplomatic body is nothing but the tuxedoed militancy of the Workers’ Party. At the same time, the intellectual level of our diplomats, which had been a reason of pride since the times of the great baron of Rio Branco, has formidably declined, to the point that nowadays the intellectual leadership of the class is held by geniuses of ineptitude, such as Samuel Pinheiro Guimarães. No wonder then that everywhere now our ambassadors are simple agents of the São Paulo Forum. It cannot be said that this properly expresses Brazilian imperialism, for our Ministry of Foreign Relations does not hesitate to sacrifice the most obvious national interests before the altar of a more sublime value, which is the solidary union of the Latin American left. There is no Brazilian imperialism, but rather São Paulo Forum’s imperialism.

Alek Boyd: Do you think Marco Aurelio Garcia is behind Zelaya’s return to Honduras, as has been alleged? If yes, it is evident that is a matter of a FSP member coming to the rescue of a fallen comrade, but what’s in it for Brazil?

The Brazilian government denies having something to do with that, but Zelaya himself confessed that his return to Honduras had been previously arranged with Lula and his right-hand man, Marco Aurélio Garcia. The most evident thing in the world is that this grotesque installation of Zelaya in the Brazilian embassy is an operation of the São Paulo Forum.

Alek Boyd: Given that Tom Shannon is now US Ambassador to Brazil, would you reiterate what you told him about Lula, and his partners in crime, in November 2005, or would you advise differently?

Tom Shannon did not pay due attention to us in 2005 and this was, no doubt, one of the causes of the aggravation of the Latin American situation since then. It is likely that he read Maxwell’s and Alencastro’s speeches at the CFR, and thought that such a prestigious institution deserved more credibility than a handful of obscure Latin American scholars with no public office or political party. Unfortunately, we, not the CFR, were the ones who were right.

Alek Boyd: Finally, as in the case of Chavez, has Lula done enough institutional damage to remain in power, or will he hand over power democratically?

Os Inventores Do Mundo Futuro

Data N/A | Diário do Comércio

de maio de 2006 Para aqueles que estão acostumados a desprezar como “teoria da conspiração” a hipótese de que o Council of Foreign Relations trama com o Grupo Bilderberg e outros círculos de milionários a implantação progressiva mas rápida de um governo mundial, o próprio CFR acaba de dar uma resposta definitiva, num documento oficial em que assume de vez o projeto e a parceria tão longamente descartados pelos onissapientes comentaristas da mídia. No relatório “Building a North American Community”, recentemente divulgado, o mais poderoso think tank globalista dos EUA propõe nada menos que a abolição das fronteiras entre Canadá, México e EUA e a transformação do continente numa “área onde o comércio, o capital e as pessoas circulem livremente”, a base para “o ingresso mais fácil no território americano”.

Num momento em que a população americana em peso clama por um controle mais rigoroso das fronteiras e os especialistas militares alertam para os perigos incalculáveis do fluxo contínuo de terroristas e narcotraficantes camuflados de imigrantes ilegais chicanos, a declaração mostra o total desprezo da elite globalista bilionária pela segurança nacional. Não resta a menor dúvida de que o CFR planeja sacrificar friamente a nação americana no altar da unificação administrativa do mundo, a ser atingida, segundo a idéia do velho Morgenthau, por meio de progressivas integrações regionais.

Porém o mais surpreendente no relatório é a admissão de que a fusão dos três países deve ser feita “segundo as linhas propostas pelas conferências de Bilderberg e Wehrkunde, organizadas para fomentar as relações transatlânticas”.

Até agora, esses nomes jamais tinham aparecido num documento oficial do CFR. Bilderberg e Wehrkunde são grupos altamente secretos de potentados da política e da economia que se reúnem periodicamente, sob precauções de segurança maiores que as de qualquer encontro de chefes de Estado, para planejar a implantação de um governo mundial e inaugurar uma nova civilização planetária, incluindo, segundo seus críticos, a fusão de todas as religiões num novo culto biônico inspirado no lixo teosófico de Madame Blavatsky e Alice Bailey. Na última reunião dos Bildergergers, em Sintra, Portugal, a cidade inteira foi bloqueada à entrada de repórteres, enquanto, fechados a sete chaves, longe de toda fiscalização crítica, tipos como os Rockefellers, Gorbachov, George Soros e, modéstia à parte, o nosso Fernando Henrique Cardoso, inventavam o mundo em que vão viver nossos netos.

Ao proclamar sua adesão aos objetivos das conferências Bilderberg e Wehrkunde, o CFR confirma ao menos uma parte do que foi denunciado em alguns clássicos da “teoria da conspiração”, como None Dare Call It Conspiracy , de Gary Allen e Larry Abraham (Sealbeach, California, Concord Press, 1972), e sobretudo o mais recente e informado The Brotherhood of Darkness , de Stanley Montieth (Oklahoma City, Hearthstone Publishing, 2000).

Essa confissão basta para explicar por que, arriscando atrair o ódio da base conservadora que o elegeu, o presidente George W. Bush, pertencente a uma família tradicionalmente ligada ao CFR, insiste em dar seu apoio ao projeto de anistia para doze milhões de imigrantes ilegais, elevando ao nível de uma ameaça apocalíptica os riscos de segurança que, por outro lado, ele anuncia querer controlar com mão de ferro. O projeto não só conta com a rejeição maciça do eleitorado americano, mas foi apresentado por dois políticos que Bush teria razões de sobra para considerar seus inimigos: Ted Kennedy, o mais devotado patrono de todas as causas esquerdistas, e John McCain, um republicano que mesmo examinado em microscópio não se distingue facilmente de um democrata.

Os interesses maiores do globalismo, evidentemente, transcendem as considerações eleitorais, o respeito pela vontade popular e a profunda inimizade política. Segundo o documento do CFR, George W. Bush, o presidente mexicano Vicente Fox e o primeiro-ministro canadense Paul Martin já se declararam “comprometidos” com a causa ali anunciada, quando do seu encontro no Texas em 23 de março de 2005.

No entanto, seria ingenuidade imaginar que o apoio da elite globalista ao estupro das fronteiras se limita a declarações de intenções. Ele inclui o planejamento e a sustentação financeira de ações políticas decisivas.

O relatório “Building a North American Community” foi publicado sob o patrocínio de um grupo de grandes empresas, entre as quais a Archer Daniels Midland Corp., ADM, o maior suporte financeiro do senador Sam Brownback. Logo após receber uma bolada de dinheiro da ADM, esse republicano do Kansas saiu alardeando apoio ao programa de anistia para os ilegais, anunciando que o fazia por piedade cristã.

A luta dos globalistas pela causa mais impopular que já se apresentou na arena política dos EUA também não se contenta com subsidiar manobras parlamentares. Inclui a arregimentação das massas e a ajuda a protestos violentamente antiamericanos. O Boletim G-2, publicado pelo assombroso repórter Joseph Farah como apêndice de seu jornal eletrônico WorldNetDaily , revela na sua última edição os principais suportes financeiros por trás dos movimentos que, para muito além da anistia aos ilegais, visam a entregar ao México os territórios do Texas e da Califórnia. Os mais poderosos entre esses movimentos são “La Raza”, “Lulac” (League of United Latin American Citizens) “Maldef” (Mexican American Legal Defense and Educational Fund) e “Mecha” (Movimiento Estudiantil Chicano de Aztlan). Os quatro são financiados por fundações e corporações milionárias associadas ao CFR, como Rockefeller e Ford, Bristol-Meyers Squibb, Chemical Bank, Chevron, Chrysler, General Motors, General Electric, Lockheed, Rockwell, Southwestern Bell, Quaker Oats, Verizon Foundation, AT&T Foundation e o Open Society Institute de George Soros. “ La Raza” foi praticamente criada pela Fundação Ford.

Esses quatro movimentos organizaram os recentes protestos que hastearam bandeiras mexicanas pelas ruas dos EUA e anunciaram, nas palavras de Mario Obeldo, líder histórico da Mecha, condecorado em 1998 por Bill Clinton, que “a Califórnia vai ser um Estado hispânico: quem não gostar vai ter de sair”.

A alta elite financeira e a militância vociferante, que os iluminados comentaristas da nossa mídia apresentam como os dois pólos de um conflito de vida e morte causado pela “desigualdade” e pela “injustiça social”, são exatamente uma só e mesma força. E o que move o conjunto não é nenhuma das “causas sociais” impessoais e anônimas que a pseudociência ensina serem os motores da história humana: é o planejamento vindo de cima, acompanhado dos meios financeiros, publicitários e políticos de realizá-lo.

Espero que o leitor mais desperto compreenda, à primeira vista, o quanto esses fatos tornam inviável e suicida o empenho de continuar pensando o mundo segundo as linhas usuais propostas pela tagarelice intelectual dominante. A identificação de globalismo e americanismo, por exemplo, que a totalidade das nossas classes falantes dá por pressuposta como elemento básico para a compreensão da política internacional, é uma besteira sem mais tamanho, e quem quer que insista nela depois do documento do CFR deve ser considerado um desinformante profissional ou um idiota incurável.

O aspecto mais deplorável em tudo isso não é somente que a humanidade seja arrastada por elites ferozmente ambiciosas em direção a objetivos que não lhe são sequer informados. É que as próprias ciências sociais, intoxicadas de conceitos explicativos que não explicam nada, estejam tão desarmadas para dar conta dos fatos de magnitude incomparável que estão, neste momento, determinando os destinos do mundo. Quando os agentes maiores do processo histórico têm planos que vão além da compreensão da intelectualidade média – para não falar da opinião pública em geral –, é inevitável que esses planos sejam postos em prática sem qualquer possibilidade de discussão crítica. Da noite para o dia, a humanidade atônita despertará num mundo novo, sem saber como foi parar ali nem quais são precisamente as regras do jogo. A ignorância geral terá se tornado um dos pilares do poder constituído. E o grupo dominante estará separado do povo por uma distância similar à que existe entre os deuses do Olimpo e uma multidão de cupins no subsolo.

Meus alunos são testemunhas do esforço que tenho feito para substituir noções pré-históricas de sociologia e ciência política por ferramentas descritivas mais adequadas à presente situação do mundo. Esforços similares vêm-se desenvolvendo em vários centros, mas sempre à margem da corrente acadêmica principal, congelada num verbalismo obsoleto e presunçoso que, se serve de alguma coisa, é de instrumento publicitário para a implantação de políticas que os próprios porta-vozes desse discurso não enxergam nem compreendem.

Não é preciso dizer que, baixando do plano internacional ao nacional, nada dos acontecimentos políticos locais pode ser explicado sem referência ao novo esquema de poder que está se formando no planeta. O apoio descarado das fundações globais bilionárias a movimentos revolucionários como o MST é o fato fundamental que vai determinar o destino nacional nos próximos anos, e os poucos que costumam mencioná-lo, como o sr. Lyndon LaRouche, só o fazem pelo viés de seus próprios planos, que não têm nada a ver com um desejo sincero de compreensão do processo.

Se a esquerda continua obscurecendo suas próprias ações com o discurso padronizado que camufla as verdadeiras relações de poder, nos círculos liberais e conservadores a discussão atém-se obsessivamente a proclamações doutrinais gerais que não ajudam em nada a esclarecer o que está se passando.

Para mim já se tornou evidente, por exemplo, que o sucesso no plano do Foro de São Paulo, a implantação da URSAL, União das Repúblicas Socialistas da América Latina, não somente não se opõe em nada aos objetivos do globalismo, mas contribui decisivamente para eles, fomentando uma integração regional que provocaria orgasmos em Hans Morgenthau e que, a longo prazo, só tornaria a América Latina ainda mais dependente dos bancos internacionais.

E não me venham com a ilusão risível de que o petróleo venezuelano é uma temível arma antiimperialista. Ninguém no CFR ou nos círculos governamentais americanos ignora que o Estado do Colorado tem reservas de petróleo jamais exploradas, equivalentes a vinte vezes o total das reservas da Arábia Saudita. No Brasil ninguém sabe disso, porque não saiu naquela porcaria do New York Times . Mas o pessoal que em Washington lê revistas especializadas sabe que, se existe um país imune a chantagens petrolíficas (e, de quebra totalmente desnecessitado do petróleo do Iraque, para não falar da Venezuela), são os EUA.

Isso não quer dizer, é claro, que os planejadores globalistas sejam mentes geniais capazes de acertar em tudo. O Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (North American Free Trade Agreement, Nafta), concebido pelo próprio CFR como um prefácio à integração total de EUA, Canadá e México, foi um fracasso sublime, e nem por isso os planejadores globalistas se deram por achados. Desde o Nafta, segundo dados da ONU, o número de lares mexicanos abaixo da linha de pobreza (menos de 60 dólares por mês) subiu de 60 para 76 por cento, enquanto o preço das tortillas , alimento básico da população, aumentou em 40 por cento. Os contribuintes americanos também não ganharam nada com isso, tendo hoje em dia de arcar com subsídios de 40 por cento para sua produção nacional de milho. E daí? Quando um sujeito acredita que tem na cabeça a solução para os males do mundo, nada detém sua volúpia de remexer os pilares do cosmos em nome de sua esplêndida utopia. Miséria e prejuízo são detalhes desprezíveis ante a grandiosidade épica dos planos globalistas.

Um artigo do sr. Arnaldo Jabor publicado no Caderno 2 do Estadão do dia 25 está, segundo me informam, obtendo grande repercussão em São Paulo. Nele o comentarista do Jornal Nacional queixa-se de que a superabundância de provas e documentos da criminalidade petista não é suficiente para tirar o judiciário da sua renitente indiferença. Todos “riem da verdade, viram-lhe as costas, passam-lhe a mão na bunda”. Tão profundo é o contraste entre os fatos conhecidos e o cinismo da sua negação oficial, que isso, diz o cronista, está resultando até numa “desmoralização do pensamento”: “A existência desses tipos de mentirosos está dissolvendo a nossa mídia. Esse neo-cinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica ridículo diante da ditadura do lulo-petismo ... as palavras estão sendo esvaziadas de sentido ... o Lula reeleito será a prova de que os delitos compensaram. A mentira será verdade e a novilíngua estará consagrada.”

Lembro-me claramente de ter escrito tudo isso, quase nos mesmos termos, numa época em que o sr. Jabor estava ocupadíssimo embelezando a imagem de São Lulinha e ajudando a preparar o advento do estado de coisas que agora ele mesmo deplora.

A dissolução do idioma, por exemplo, não é um efeito da ditadura petista, mas uma condição prévia, criada propositadamente por uma vasta ação cultural sem a qual ela jamais teria vindo poder a implantar-se. Uma coisa é diagnosticar o processo desde os indícios sociais que denotam o seu curso em formação, outra completamente diferente é constatar o fato consumado que, se discutido abertamente em tempo, teria podido ser evitado. Na época em que escrevi textos como “ Língua petista ” ( Zero Hora , 20 de outubro de 2002), “ Língua dupla e estratégia ”, O Globo , 2 fev. 2002), “ Reclamação inútil ” ( Zero Hora , 14 de dezembro de 2003) ou “ A clareza do processo ” (Zero Hora, 15 de junho de 2003), para não falar do meu livro de 1993 (sim, 1993), “ A Nova Era e a Revolução Cultural” , a irresponsabilidade geral das classes falantes, incluindo o sr. Jabor, me respondeu com a mesma indiferença cínica que agora elas se queixam de encontrar no judiciário.

Se o sr. Jabor quisesse mesmo saber como chegamos ao descalabro que hoje o escandaliza, bastaria que prestasse atenção aos programas da mesma TV onde trabalha, que ao longo dos anos prepararam a Nação para cair na fraude da superioridade moral da esquerda e para embriagar-se no mito da pureza lulista. A Rede Globo de Televisão foi a grande responsável pela implantação da novilíngua no país. E, se hoje o sr. João Roberto Marinho dá um discreto apoio a organizações conservadoras, seu jornal e sua TV continuam a serviço do mais descarado esquerdismo. Compreendo que o sr. Jabor não possa denunciar seus próprios patrões. Eu mesmo não podia fazê-lo quando escrevia para O Globo , limitando-me então a diagnósticos gerais na esperança de que o leitor, com base nas descrições suficientemente claras que eu lhe fornecia, desse nome aos bois. Mas o sr. Jabor, ao denunciar com atraso aquilo que um seu colega sacrificou o emprego (aliás dois) para denunciar em tempo, poderia, sem citar o antecessor, o que seria mesmo demasiado doloroso para sua vaidade, ao menos reconhecer genericamente que está chegando tarde, que está falando na condição de cúmplice moral arrependido e não na de vítima inocente escandalizada. Lembro-me de que tanto falei das coisas que agora ele proclama, que, na época (quer dizer, no tempo e na revista “Época”), cheguei a ser acusado de obsessivo e redundante.

A capacidade do sr. Jabor como diagnosticador de males nacionais consiste apenas no seu timing oportunista de só dizer as coisas quando todo mundo já sabe delas e posar, então, de profeta do acontecido. O sr. Jabor não é solução: é parte do problema. A frouxidão cômoda da sua consciência moral, no entanto, não é característica individual dele (se fosse, eu nem tocaria no assunto nesta coluna, que não tem nada a ver com a vida pessoal de quem quer que seja): é um vício geral da classe jornalística, empenhada em exigir dos políticos uma correção ética superior à que ela própria é capaz de manter.

Detalhe esclarecedor Eu mal tinha enviado este artigo ao Diário do Comércio , quando chegou um despacho da Associated Press com a informação de que o parlamento mexicano acabava de aprovar a liberação do porte e uso de cocaína, maconha, heroína, LSD, anfetaminas, ecstasy e até 2,2 libras (sim, quase um quilo!) de peiote, o cacto alucinógeno que a empulhação literária de Carlos Castañeda celebrizou nos anos 70 como uma fonte de conhecimentos espirituais, porca miséria. A lei precisa ainda do aval do presidente Fox, mas, acrescenta a agência, “isso não parece ser um obstáculo”. Um porta-voz de Fox já demonstrou a satisfação do presidente com a medida, anunciando, com cinismo exemplar, que ela facilitará o combate ao narcotráfico.

Palhacada

Data N/A | Jornal do Brasil

de outubro O caso de dona Jandira Feghalli, que dedica sua vida política à promoção do abortismo mas na hora da propaganda eleitoral não quer que ninguém fale disso, é o resumo simbólico da presente eleição, cuja regra numero um é não deixar o eleitor saber em quem está votando. Para todos os efeitos eleitorais, o candidato presidencial Luís Inácio Lula da Silva nunca foi o fundador e mentor da maior organização subversiva da América Latina, dona Heloísa Helena e Christovam Buarque nunca foram colaboradores dele nesse empreendimento criminoso, e Geraldo Alckmin nunca foi o opositor omisso e frouxo de cuja boca não sai nem uma palavrinha, mesmo delicada, contra o Foro de São Paulo.

O eleitor vai para as urnas pensando que Lula é o grande reformador ético acidentalmente corrompido pelas más companhias direitistas, que Heloísa e Christovam são puros idealistas infelizmente sem chances neste baixo mundo e que Alckmin é o anjo vingador do conservadorismo, pronto a soar a trombeta do juízo final para os pecadores petistas. As escolhas serão feitas dentro desse leque de opções ficcionais. Em suma, esta eleição é uma palhaçada .

Não que isso constitua inovação fulgurante. Em 2002, quando a parceria oficial do PT com os narcotraficantes das Farc e os seqüestradores do MIR completava doze anos, já reinava o mais completo silêncio a respeito, enquanto, nos debates de TV, quatro filhotes de Fidel Castro se esmeravam num torneio de pureza esquerdista, cada qual exibindo, para fazer inveja aos demais, uma folha maior de serviços prestados à revolução continental.

As eleições no tempo da ditadura eram infinitamente mais honestas e democráticas. Havia direita e esquerda, opostas e distintas. Havia diferença, confronto, debate. Havia, para dizer o mínimo, algo mais do que a disputa de cargos entre companheiros de ideologia.

Alckmin, que ostenta a suprema e única virtude do mal menor, não é propriamente esquerdista como o era José Serra. É um chuchu ideológico que aposta tudo na fama de bom administrador, sem questionar a moralidade da coisa administrada. Na KGB ou na Santa Sé, seria um burocrata exemplar. Inofensivo para os inimigos, pode tornar-se um perigo para os amigos: católico professo, baixou um decreto punindo com multa o padre, pastor ou rabino que proíba o ingresso de homens vestidos de mulheres nos cultos religiosos, nivelados assim a bailes do Scala Gay. Eleito, fará tudo para ser bom menino, politicamente corretíssimo, imune a tentações direitistas. Já começou até a falar mal dos EUA. É o adversário que o PT pediu ao demônio.

Em 1 de outubro de 2006

Por Que O Brasileiro Vota Na Esquerda

Data N/A | Zero Hora

de setembro de 2006 Se no Brasil ocorre esse fenômeno aberrante de um eleitorado conservador votar maciçamente em candidatos de esquerda, o motivo da contradição aparente é claríssimo e se compõe da confluência de três fatores.

Desde logo, o conservadorismo não tem canais partidários ou culturais de expressão e se tornou politicamente nulo. Não há políticos conservadores: ninguém pode votar em candidatos inexistentes.

De outro lado, o esquerdismo usa uma linguagem nas suas discussões internas, outra para falar com o povo, e só na primeira delas assume sua verdadeira identidade ideológica. Na outra ele dilui sua imagem em generalidades moralistas, nacionalistas e populistas. É um discurso maliciosamente escorregadio, que evita o jargão marxista e impede o povo de identificar a esquerda brasileira com a revolução neocomunista continental. Até observadores estrangeiros qualificados, mas que desconhecem os documentos internos do PT e do Foro de São Paulo, como por exemplo Álvaro Vargas Llosa, Otto Reich e o próprio subsecretário Tom Shannon, se deixaram enganar por essa falsa aparência, imaginando o esquerdismo brasileiro como populista em vez de comunista. A população local, é claro, cai no engodo ainda mais facilmente. Mesmo entre pessoas letradas é comum a reação: “Lula, comunista? Você está doido.” O próprio Lula pôde dizer, sem que ninguém o contestasse, que não apenas nunca foi comunista como não é nem mesmo esquerdista. Essa declaração seria considerada cínica, inaceitável e até criminosa se a platéia não ignorasse que o declarante foi fundador e presidente da maior organização pró-comunista do continente.

Em terceiro lugar, o sucesso de quarenta anos de “revolução cultural” gramsciana foi tão avassalador — dada a completa falta de resistência –, que os valores, critérios e até cacoetes mentais do movimento comunista internacional se incorporaram no “senso comum” brasileiro e já não são reconhecidos como tais: são aceitos passivamente pela sociedade, sem consciência de suas implicações ideológicas.

Somem esses três fatores e compreenderão por que um povo conservador vota em candidatos comunistas: ele não sabe que são comunistas, não sabe o que há um movimento comunista ativíssimo no continente não tem a menor idéia das conseqüências do seu voto. As eleições brasileiras são uma farsa no sentido mais exato e integral do termo.

Não havendo partidos ou políticos de direita no Brasil, toda a confrontação direita-esquerda que se vê atualmente é uma obra de engenharia social criada pela própria esquerda com três objetivos: (1) ocultar sua hegemonia e seu poder monopolístico sob uma aparência de disputa democrática normal; (2) neutralizar quaisquer tendências direitistas, canalizando-as para uma direita pré-fabricada, a “direita da esquerda”, o que se observou muito claramente nas duas campanhas eleitorais de Fernando Henrique Cardoso, um marxista gramsciano que foi alegremente aceito como depositário (infiel, é óbvio) da confiança do eleitorado direitista; (3) dominar todo o espaço político por meio do jogo de duas correntes partidárias fiéis ao mesmo esquema ideológico, só separadas pela disputa de cargos, como aliás o reconheram explicitamente o próprio Fernando Henrique e o prof. Christovam Buarque, então um dos mentores do PT. Essas três linhas de ação definem exatamente o que Lênin chamava “estratégia das tesouras”, termo inspirado na idéia de cortar com duas lâminas.

O PFL poderia ser um partido de direita, mas, como só quer cargos e não tem nenhuma perspectiva de poder, consentiu em tornar-se uma filial do PSDB. O PMDB é esquerdista desde a origem e está repleto de comunistas. O PSDB, a “direita da esquerda”, é a boca de funil para onde converge o que possa restar de direitismo hipotético nesses outros partidos. Tal como o PT, esse partido nasceu na USP, e sua única função no conjunto da estratégia comunista uspiana é impedir que os descontentes com o PT acabem se aglutinando numa direita genuína.

Em 1 de setembro de 2006

Pt Colhe Plantio

Data N/A | Janer Cristaldo

Membro do Partido Comunista Brasileiro, optou pela luta armada ingressando na Aliança Libertadora Nacional (ALN), o grupo terrorista de Carlos Marighella, de quem era motorista. Marighella, se alguém não mais lembra, é o autor do Manual do Guerrilheiro Urbano, traduzido em várias línguas na Europa e livro de cabeceira das Brigadas Vermelhas italianas e do Baader-Meinhoff alemão. (Em Estocolmo, em plena social-democracia nórdica, encontrei uma tradução do manual em sueco). Foi morto em 1969, em uma emboscada pela polícia e hoje é cultuado como santo pelas esquerdas.

Em agosto de 1968, Aloysio Nunes – de codinome Mateus – participou do assalto ao trem pagador da Santos-Jundiaí. Em outubro, ao carro pagador da Massey-Ferguson. Ainda no mesmo ano, viajou com passaporte falso para Paris, onde passou a coordenar as ligações de Cuba com os comunistas brasileiros. Lá, filiou-se ao Partido Comunista Francês e negociou com o presidente Boumedienne, da Argélia, para que comunistas brasileiros recebessem treinamento militar naquele país. Com a Lei da Anistia, de 1979, regressou ao Brasil, onde foi eleito pelas esquerdas deputado estadual, vice-governador e deputado federal. Amigo dileto de Fidel Castro, após uma visita a Cuba no ano passado, o ditador foi ao seu embarque e o acompanhou até o avião para as despedidas, em homenagem a seu passado revolucionário.

O agitprop internacional, assaltante e guerrilheiro, assecla de Marighella e íntimo de ditadores, com o cinismo peculiar das esquerdas quando chegam ao poder, declarou recentemente à jornalista Ana Paula Padrão:

“Em outros momentos – eu me lembro – no tempo do regime militar, os serviços de repressão puderam desmantelar o PCB, o PC do B, a ALN, a VPR, o MR-8. Será que não podem dar conta desses criminosos que hoje fazem seqüestros relâmpagos e esse tipo de ação?”

Poder, podem, Mateus. O problema é que quando estes grupos são desbaratos, os criminosos viram ministros.

Não menos interessante é ouvir Fernando Henrique condenar seqüestros. Logo Fernando Henrique, que humilhou a nação ante uma sórdida campanha na imprensa internacional financiada por uma rica família do Canadá e avalizou a libertação de seus filhinhos seqüestradores, condenados pela Justiça a quase três décadas de prisão.

Lula, o tetracandidato, foi correndo solidarizar-se com o entourage da vítima e participou de uma marcha pela paz. José Genoíno fala em Rota nas ruas e prisão perpétua. A multidão de petistas que acompanhou o enterro do prefeito pede pena de morte. Um programa de segurança do PT assume um projeto novayorquino e neoliberal, a tolerância zero. Quem empunhava estas bandeiras há questão de dois anos? Paulo Maluf, qualificado como fascista por empunhá-las. Acontece que as eleições estão aí e é preciso entrar em sintonia com o que eleitor pede.

Por ocasião do seqüestro de Abilio Diniz, outro era o discurso do tetracandidato. Apressou-se em intermediar as negociações entre seqüestradores e polícia, de modo a garantir a integridade física, não do empresário, mas ... dos seqüestradores. Fernando Henrique Cardoso, mais seu ministro da Justiça na época, José Gregori, mais a Igreja, o PT e entidades ligadas aos famigerados Direitos Humanos empenharam-se com afinco na libertação dos canadenses. Quando o governo de um país, o líder da oposição e mais a Igreja lutam pela libertação de seqüestradores, qual mensagem recebe o grande público? Só uma: seqüestro pode render lucros e permanecer impune.

Talvez o leitor contemporâneo já nem lembre, mas foram as esquerdas que introduziram no Brasil esta modalidade. Em nome de utopias assassinas, começaram a seqüestrar aviões e diplomatas. Dialogavam não com pessoas, mas com Estados. Curvem-se as nações ante o Brasil: seqüestro de aviões tem patente tupiniquim, é achado genuinamente nosso. No curto período em que estiveram na prisão, os seqüestradores exerceram uma função didática, ensinando suas técnicas aos presidiários de direito comum. E agora se queixam do progresso dos alunos.

A tolerância das esquerdas com o seqüestro sempre foi óbvia, pelo menos até a semana passada. Alguém ouviu algum dia o PT condenar as FARC colombianas, que fazem do seqüestro sua estratégia privilegiada de obtenção de fundos? Eu nunca ouvi. O que vi, isto sim, foi o governo petista gaúcho receber com tapete vermelho um bandoleiro das FARC. Que, não contente em ser recebido quase com dignidade de chefe de Estado, andou fazendo palestras em escolas Brasil afora, em comunidades administradas pelas esquerdas.

Os seqüestros do passado não constituem crimes para estes senhores. Neste insólito país, onde os derrotados escrevem a história presente, são tidos como atos heróicos e patrióticos. Até mesmo crimes horrendos tinham nobres conotações. As vestais que hoje se chocam com a execução brutal de Celso Daniel, não manifestaram horror algum ante outra execução também brutal, a daquele infeliz soldado que Lamarca executou, prisioneiro e indefeso. Ninguém, nas esquerdas, pediria prisão perpétua ou pena de morte para o assassino de um companheiro de armas. Pelo contrário, Lamarca hoje está instalado na galeria dos Vultos da Pátria, gozando do mesmo status de um Tiradentes. Ninguém, nas esquerdas, foi prestar solidariedade à família do soldado morto. Mas há projetos de impor aos currículos escolares a vida e obra deste santo homem, capitão Carlos Lamarca.

O pensamento de esquerda criou um caldo cultural onde criminoso não é mais criminoso, mas vítima. Onde invasor de terras é herói e o proprietário que as defende é bandoleiro. Onde Luis Carlos Prestes é beato e Che Guevara vira santo.

São chegados os dias de colheita.

Que Cazzo E O Fascismo Ou O Homem De Bundas Perante A Historia

Data N/A | Capítulo II

Moacir Werneck de Castro, descoberto em estado semifóssil na redação de Bundas, é pois sem dúvida o Homem de Bundas, independentemente da hipótese, aventada por alguns paleontologistas, de que ele seja os restos mortais do macaco Tião.

Assim, no confronto com a História, onde uns entram de pé, outros de quatro, outros rastejando, ele entra de ré, mostrando aquela parte do seu ser onde se realiza a síntese kantiana dos dados sensíveis com as formas a priori, saindo o produto inteligível, em seguida, pelo mesmo canal.

Inteligível, em termos. Há quem recue diante dessa massa obscura e densa, composto hilético-eidético de não se sabe quê com sabe-se lá o quê. Eu, porém, que sou um sujeito frio e insensível, e tendo ademais recebido em meu próprio ser alguns respingos da dita substância, não hesitarei em examiná-la.

§ 2. Supositório Não vou, desde logo, demonstrar as alterações que o velhinho, no exercício de suas altas funções desinformáticas, introduz no significado do meu texto para fazê-lo dizer o que não disse. É verdade que nisso ele dá o melhor de si, num esforço notável para me fazer parecer muito malvado e para despertar contra mim o ódio e a revolta dos leitores que, não me conhecendo, venham a me julgar só pelo que ele diz. Mas, justamente por ser essa parte a mais significativa da forma mentis do Homem de Bundas, sua análise pode ficar para o fim.

Por enquanto, vou fazer de conta que estou discutindo com um sujeito honesto, com o qual eu não tivesse outras divergências senão de ordem intelectual e científica.

Nesse terreno, diz ele que é absolutamente falsa minha asserção de que a noção corrente do fascismo como ideologia capitalista foi um truque de propaganda inventado por Stálin para apagar a má impressão do pacto germano-soviético.

Transcrevo (grifos meus) “Na verdade, a fórmula atribuída a Stalin foi fruto de uma análise elaborada pelo movimento comunista internacional no início (e não no fim) da década de 30 . É ridículo dizer que ela nasceu para dissipar a má impressão causada pelo pacto de não-agressão germano-soviético, que data de agosto de 1939. Já em 1933, perante o tribunal nazista de Leipzig, onde era acusado do incêndio do Reichstag, Dimitrov enfrentou corajosamente Goering e Goebbels, definindo a ditadura fascista como ‘a ditadura do capital de Thyssen e Krupp’ (os magnatas da indústria do aço alemã.”

Segundo ele, portanto, errei duplamente, na autoria e na data: a teoria nem foi inventada por Stalin, porque na verdade foi descoberta coletiva do Partido, nem se disseminou no mundo a partir de 1939, porque em 1933 George Dimitrov já sabia dela.

Mas a verdade é precisamente o contrário do que ele diz. Em vez de ser invenção coletiva atribuída retroativamente a Stalin, a teoria aí mencionada foi invenção pessoal de Stalin, assumida retroativamente pelo universal cordão de puxa-sacos que atende pelo nome de Partidão. Ela foi apresentada pela primeira vez pelo próprio Josef Stalin em 1924, pelo menos seis anos antes de que começasse a tal “análise demorada pelo movimento comunista internacional”. A informação está na página 366 do vol. II da biografia de Stalin por Isaac Deutscher (trad. José Laurênio de Melo, Rio, Civilização Brasileira, 1970), que por sua vez a encontrou no vol. VI das Obras Completas do grande guru dos povos, edição russa de 1947-8. O “coletivo” apenas disse amém, como sempre fazia, à palavra do guia, pai e mestre. Em 1933, a coisa já era doutrina oficial do Partido e Dimitrov não fez senão repeti-la.

Acontece que, até a guerra, a visão soviética do fascismo não exerceu influência considerável fora do movimento comunista e do círculo de seus “companheiros de viagem”. Desde a Revolução, a Rússia se fechara tanto ao mundo exterior que, ao planejar-se a invasão do território russo, o próprio serviço secreto do Reich – o mais interessado no assunto, decerto — não tinha a mais vaga idéia do potencial bélico soviético. Foi a guerra que abriu definitivamente a Stalin as páginas da imprensa ocidental e permitiu que sua velha teoria, que de nada lhe servira para sua orientação na prática (veremos adiante), fosse usada, agora, como arma de propaganda.

Mesmo no que diz respeito à origem da teoria como tal, Moacir erra fragorosamente nas datas e na autoria, atribuindo ao “coletivo” do Partidão em 1931 uma idéia pessoal que Stalin já lhe impusera desde 1924. Pretender usar como prova de que ela já estivesse disseminada no mundo ocidental a partir de 1933 o fato de que Dimitrov então a recitasse de cor e salteado é, para dizer o mínimo, viajar na maionese. Pois não consta que Dimitrov àquela altura fosse nenhuma autoridade intelectual para o mundo não-comunista, ao ponto de sua palavra expressar o consenso universal. Ele era um membro do Comitê Central do PCUS, um membro da corriola interna que repetia servilmente o que o mestre mandasse. Depois de sua declaração no Reichstag, muito tempo ainda se passaria antes que a doutrina soviética do fascismo, alardeada aos quatro ventos, se tornasse voz corrente nos países ociden tais – e isto só pôde acontecer, precisamente, quando essa doutrina, já não servindo para mais nada (de vez que a própria guerra já era seu desmentido formal), se rebaixou de diagnóstico estratégico a mera fórmula de propaganda.

Não deixa de ser curioso que Moacir, endossando em substância a teoria stalinista do fascismo, atribua a Stalin, linhas adiante no mesmo artigo, “uma estratégia errada” na luta antifascista. Uai, essa estratégia, que Trotski denunciara de antemão como mãe dos desastres que se seguiriam, baseava-se precisamente no diagnóstico do fascismo como “organização de combate da burguesia” e como “ditadura dos Krupps e dos Thyessen”. Pois Stalin, já em 1924, levado pela lógica implacável dessa premissa, concluiu que a grande burguesia, sendo a mãe do fascismo e do nazismo (que para ele era tudo a mesma coisa), tinha o comando do processo e, usando de Hitlers e Mussolinis a seu bel-prazer, não teria e menor dificuldade para se livrar deles quando se tornassem incômodos, bastando, para isso, recorrer ao outro braço da sua máquina política, então muito mais vigor oso: a socialdemocracia. Logo, concluía Stalin, deduzindo do diagnóstico a estratégia, tudo o que havia a fazer era combater a socialdemocracia. Ora, o que veio a acontecer foi precisamente o contrário: o nazismo passou como um trator por cima da socialdemocracia e da grande burguesia, mostrando que tinha gasolina própria.

Que é que Stalin fez então? Com a maior sem-cerimônia inverteu sua estratégia: aliou-se à grande burguesia do Ocidente para esmagar o nazismo. Era, embora tardia, a coisa certa. Mas, se na constituição do fascismo predominasse realmente o fator “classe” em vez do fator “nação”, essa aliança seria inconcebível: por que a grande burguesia que dominava a Inglaterra, a França e os EUA iria se aliar a seus inimigos proletários para combater os nazistas, em teoria seus amigos e servidores? Resposta: a teoria estava simplesmente errada. O próprio Stalin reconheceu isso implicitamente ao mudar de estratégia. A ruína da estratégia era a ruína da teoria que a embasava. Se justamente a partir daí essa teoria se impregnou na mente dos intelectuais de esquerda ocidentais a ponto de eles a repetirem como verdade de evangelho e de até hoje um bocó de mola como o Homem de Bundas acreditar nela, que outra explicação isso pode ter senão que o líder soviético achou que, imprestável como guiamento prático das ações, ela ainda podia render alguns dividendos na área da publicidade? Lembro-me de ter lido, anos atrás, uma tese universitária, de ilustre autor comunista brasileiro, que diagnosticava até o nosso fascismo doméstico, o integralismo, como fenômeno do “capitalismo hipertardio” – o que bem mostra a que tipo de contorcionismo mental a intelectualidade esquerdista pode se submeter só para ser fiel à tradição: o único meio de explicar o integralismo pela teoria de Stalin era tornar “hipertardio” o nosso capitalismo que, na época considerada, mal acabara de nascer...

Trotski opôs veemente resistência, desde o começo, à teoria de Stalin, mas quem iria dar ouvidos a Trotski? Ele bem percebeu o potencial totalitário do nazismo, advertindo que burgueses e socialdemocratas não conseguiriam detê-lo. Mas é evidente que não há nenhuma conexão lógica entre essa acertadíssima observação e a teoria marxista da luta de classes. Um nazismo com força própria, incapaz de ser controlado pela grande burguesia, não podia ser explicado a partir do esquema marxista clássico, do qual, ao contrário, a teoria de Stalin é que constituía a aplicação lógica mais ortodoxa. Para explicar a força do nazismo, teria sido preciso ver nele um movimento da classe média, de intelectuais frustrados e de funcionários públicos, isto é, um movimento composto substancialmente das mesmas classes que fizeram todas as revoluções neste mundo, inclusive a própria revolução russa. Mas a tanto não chegava a lucidez de Trotski. Do ponto de vista estritamente marxista, a teoria de Stalin parecia a mais correta. Entre uma observação verdadeira sem base marxista suficiente e uma teoria falsa com ampla base marxista, todo mundo escolheu a segunda.

Desmoralizada pela ascensão avassaladora do nazismo, desmoralizada pela mudança estratégica de Stalin à entrada da guerra, desmoralizada pela aliança dos comunistas com a grande burguesia ocidental, a teoria stalinista do fascismo ainda tem adeptos fiéis neste mundo. As universidades brasileiras estão repletas deles. Mas nenhum deu a ela o destino que merecia. Só o Moacir teve a coragem para tanto: pois o melhor a fazer com essa teoria era mesmo metê-la na Bundas .

3. Pós-supositório Moacir diz também que os comunistas “sempre estiveram na linha de frente da luta contra o fascismo”. Mais conversa mole. A famosa campanha antifascista lançada no início da década de 30 sob a direção de Karl Radek foi apenas um truque para jogar areia nos olhos dos antifascistas ocidentais, para que não percebessem a colaboração secreta, então cada vez mais intensa, entre a URSS e a Alemanha nazista, colaboração da qual o próprio Radek, em carta confidencial a um amigo, confessava: “O que escrevo (contra o fascismo) é uma coisa. As realidades são coisa completamente diferente. Ninguém pode nos dar o que a Alemanha tem dado... Só idiotas podem imaginar que vamos romper com a Alemanha” (1) .

Além desse objetivo diversionista, a campanha ainda teve duas outras finalidades: cooptar “companheiros de viagem” para o Partido entre os intelectuais ocidentais e infiltrar espiões nos governos dos países aliados. Os dois objetivos foram alcançados com grande sucesso. No campo da espionagem, lançaram-se então as sementes que explodiriam décadas depois nos escândalos Philby e Alger Hiss. Quanto ao recrutamento, não se deve confundir “companheiros de viagem” com meros simpatizantes. Estes são amigos ocasionais, aqueles são colaboradores recrutados, que não se inscrevem no Partido, conservam sua identidade pública de intelectuais independentes, para dar autoridade moral a seus pronunciamentos em favor do comunismo, e ao mesmo tempo, em segredo, são controlados e vigiados pelo serviço secreto comunista. Os mais conhecidos “intelectuais progressistas” das décadas de 30 e 40, como Ernest Hemingway, John dos Passos, Sinclair Lewis, Romain Rolland, serviram ao comunismo nessas condições. O esquema montado para conservá-los sob o controle do Partido incluía desde subvenções em dinheiro, com a permanente ameaça de divulgação, até arranjos para envolvê-los em casos amorosos com espiãs soviéticas. O articulador de todas essas operações era Willi Münzenberg. Um de seus auxiliares imediatos foi Arthur Koestler, que depois se rebelou contra o comunismo, tornando-se alvo de violentas campanhas de publicidade pelo resto de sua vida. André Gide, um dos “companheiros” cooptados, deu para trás e escreveu uim livro contra a URSS. John dos Passos fez a mesma coisa. Mas ninguém teve a coragem de contar toda a história, até que a viúva de Münzenberg, Babette Gross, já velhinha, decidiu botar a boca no mundo.

Tanto os espiões quanto os “companheiros” agiram exclusivamente no terreno das democracias ocidentais, trabalhando contra os governos de seus próprios países e não contra a Alemanha. Quando, acidentalmente, faziam algo contra o nazismo, era sempre de forma a beneficiar a União Soviética e não os Aliados ocidentais, como por exemplo quando Ludwig Wittgenstein, tendo decifrado uns códigos navais alemães, os passou ao governo da URSS e não ao da Ingleterra que lhe dera abrigo, proteção e honrarias. (2) Enquanto isso, os soviéticos faziam grandes negócios com a Alemanha e continuavam iludindo o público com seu verbalismo antifascista, do mesmo modo que Hitler, ao passo que perseguia os comunistas alemães (que Stálin lhe entregara de mão-beijada), tomava o máximo cuidado para não desagradar a URSS em nada. O cúmulo da duplicidade ocorreu na guerra da Espanha, quando a URSS, posando de antifascista em todo o mundo e recrutando voluntários para as Brigadas Internacionais, ao mesmo tempo boicotava as tropas republicanas no front e facilitava, por todos os meios, a vitória franquista. (3) O julgamento de Dimitrov em Leipzig pelo incêndio do Reichstag foi outra farsa, bem encaixada no objetivo maior da “campanha antifascista”. Em pleno dia, Dimitrov, um agitador procurado em toda a Europa, entrou com seus dois assessores Popov e Tanev num restaurante que era um dos mais famosos pontos de encontro de militantes nazistas e simplesmente ficou sentado, à espera de que o prendessem. No julgamento, deu seu showzinho verbal, ecoado até às nuvens pela campanha no resto da Europa, e em seguida ele e seus ajudantes voltaram à URSS sem maiores problemas. Dimitrov continuou seu trabalho normal no movimento comunista, enquanto Popov e Tanev, que sabiam demais sobre o julgamento de Leipzig, foram mandados para o Gulag e desapareceram.

Notas Cit. em Stephen Koch, Double Lives. Spies and Writers iin the Secret Soviet War of Ideas Against the West , New Yorkm The Free Press, 1994, p. 54.

V. Richard Kimberly, Wittgenstein e Hitler .

V. George Orwell, Hommage to Catalonia .

Não perca:

Capítulo 1:

Resurgent Communism In Latin America

Data N/A | The New American

So when the Berlin Wall came down and the Iron Curtain was raised, people around the world breathed a sigh of relief. It was generally accepted that it would only be a matter of time before communism fell everywhere, including Latin America. But instead, something else happened south of the border — it morphed and continued its march through the region with unprecedented ease.

Now, there is a new wave of people fleeing Latin American tyranny and arriving in Miami. Jorge Bastidas, 57, was a successful small business owner on the touristy Venezuelan island of Margarita when avowed socialist Hugo Chavez seized the reins of power in 1998. A lot of Venezuelans liked Chavez in the beginning, Bastidas said, “but once in power, he took off the mask and revealed a monster.” The effects of his policies soon hit home.

“When he took over, the economy of our island was devastated,” Bastidas told The New American . “It went down and down and down until whole shopping malls, hotels, restaurants — all kinds of businesses really — were forced to shut down. And we got caught up in this too — it was horrible.”

In addition to the economy crumbling, crime and insecurity exploded, as persecution of the political opposition began. “I was a member of an organization that was opposed to Chavez,” explained Bastidas, also a father of two children. “And so, it happened: Any person who did not support him became his enemy. We were persecuted to the point where it became intolerable, and so when the opportunity arose, we had to leave.”

Bastidas has not returned home since that fateful day, but if Chavez is ever ousted, he would like to. Unfortunately, though, he isn’t hopeful. “That man will never — never — leave power through votes, of this I’m certain. He cheats!”

Not everybody was as lucky. Many middle-class business owners have had their businesses and property seized and have nowhere to run. And as Chavez grows increasingly authoritarian — backed up by friendly neighboring regimes, a seemingly endless supply of “petrodollars,” and shiploads of sophisticated Russian weaponry — Venezuela has unquestionably descended into full-blown totalitarianism.

The socialist leader routinely threatens to jail political opponents, even arresting a sitting Governor for allegedly conspiring against him. The former Defense Minister was also imprisoned after publicly opposing Chavez’ unconstitutional power grab to remain in office indefinitely.

The regime shut down six television stations just this year for failing to broadcast all of Chavez’ speeches. It has closed dozens of radio stations that were not sufficiently supportive. Now, Chavez wants to jail broadcasters who don’t abide by his “regulations.”

Leftists Advance: Nation by Nation The Venezuelan people are not the only ones suffering under this resurgence of fanatical left-wing leaders.

The BBC reported in 2005 that 75 percent of South Americans were governed by leftist rulers, all of whom had risen to power in the preceding six years. And the trend has only accelerated since then, with some analysts using the term “Pink Tide” to describe the phenomenon that has enveloped Latin America.

Bolivia : With strong backing from Chavez, former coca farmer Evo Morales of the Movement for Socialism assumed power in 2006. His party now controls about two-thirds of both Parliamentary houses and has already “redistributed” over 60,000 acres of land. Foreign capital has nearly vanished. But incredibly, the government promises to intensify its efforts.

Ecuador : Radical leftist Rafael Correa, another proponent of Chavez’ “21st Century Socialism,” became President in 2007. “Socialism will continue,” he boldly announced after being elected, ending his victory speech with communist mass-murderer Ernesto Che Guevara’s famous words “Hasta la victoria siempre” (until victory always/forever).

Brazil : Latin America’s largest nation has been under the thumb of a charismatic radical left-wing President since 2003 — though he does a better job of concealing his true intentions than other rulers in the region. A former labor leader who helped found the Workers’ Party, Luiz Inacio Lula da Silva has poured vast sums into wealth redistribution and various “anti-poverty” schemes. Though widely seen and presented as a “moderate,” he is far from it. In conjunction with communist despot Fidel Castro, “Lula,” as he is affectionately known, spawned a powerful socialist cabal that united leftist terrorists, social movements, and political parties in an astoundingly successful effort to conquer Latin America for the Left.

Nicaragua : Revolutionary Marxist and Sandinista Daniel Ortega re-assumed leadership in 2007, despite a long record of violent rule and accusations by his stepdaughter of systematic sexual abuse (he was never prosecuted owing to governmental immunity and the statute of limitations). In a bid to extend his power, Ortega’s first act in 2010 unconstitutionally extended the terms of corrupt but supportive judicial officials under the guise of “stability.”

Other nations that have come under control of leftist leaders in the last dec-ade include Uruguay, Chile, Argentina, Paraguay, El Salvador, the Dominican Republic and other Caribbean nations, and more. Many of the rulers came to power in questionable elections, with accusations of fraud running rampant. And in the few nations that have not already fallen to extremist left-wing governments, leftist forces often represent the main opposition parties. Examples of this include Peru, Colombia, and Costa Rica.

Supranational Integration In addition to the proliferation of left-wing regimes, a variety of new supranational governments are emerging that threaten to centralize the left-wing totalitarianism and impose it on the few remaining holdouts.

One of the most dangerous transnational leftist integration schemes is the Bolivarian Alliance for the Peoples of Our Americas (ALBA), which includes Venezuela, Cuba, Bolivia, Ecuador, Nicaragua, Honduras, Antigua and Barbuda, Dominica, and Saint Vincent. The regional union is held together by disdain for the United States, capitalism, and liberty in general. It has already begun using a new transnational currency known as the SUCRE in commercial exchanges through the ALBA bank, and further “integration” is planned.

A broader regional government known as the Union of South American Nations includes every nation on the continent (except French Guiana, which is part of France). The “Bank of the South,” or BancoSur, is headquartered in Caracas, Venezuela, while the “South American Parliament” will likely be located in Bolivia. Currently led by socialist Ecuadorian President Correa, the scheme includes a military alliance called the South American Defense Council, a developing “common market,” and even plans to introduce a common currency. The integration process, modeled on the European Union, is expected to be completed in less than a decade.

Driving Force Socialism’s present stature in the southern latitudes shouldn’t have been altogether unexpected, as the poor and middle classes in those countries revolted against false promises made by power-hungry “rightist” politicians and governments that sold the people on a type of corrupt capitalism peddled as free-market capitalism. While purporting to support freedom and free markets, these leaders often engage in a type of crony capitalism instead of true liberalization-oriented reforms.

In nation after nation that was supposedly turning toward capitalism, the state provided absurd benefits to politically connected businesses or elites at the expense of the people (like selling state-owned enterprises or assets at fire-sale prices to the ruling elite, who then improperly reap massive profits and continue to run inefficient monopolies).

With promises of prosperity, leftist regimes have been able to dupe the peoples into voluntarily surrendering their freedom, property, and any legitimate chance at future prosperity.

But this phenomenon alone could not possibly account for the firm grip that statists now hold over the reins of power in Latin America. Other factors figure in.

According to acclaimed Brazilian writer and philosopher Professor Olavo de Carvalho, over a dozen current governments in Latin America are connected through a shadowy, powerful, and little-known organization called the Foro de São Paulo (São Paulo Forum — FSP). The name refers to the Brazilian city where it was founded in 1990 by Castro, the Sandinistas, and Lula (the supposedly “moderate” president of Brazil). It is essentially a network comprised of over 100 leftist political parties, various social movements, and several guerrilla terrorist organizations such as the Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC) and the Chilean Movimiento de la Izquierda Revolucionaria (MIR), among others. In recent years, bad publicity has forced the FSP to discourage leftist terrorist groups from sending official representatives to meetings. But according to experts and various reports obtained by The New American , this is merely a public-relations gimmick.

President Lula, who led the FSP for many years, defended the group and its collaboration with the FARC and other terrorist groups, saying that “18 years ago, in almost every South American country, there were political currents which argued that the only possible way to achieve power was violent struggle,” the AFP reported in a 2008 article. “In 1990, we created the São Paulo Forum, where we invited the entire Latin American Left to participate.”

Carvalho told The New American that the FSP “is the strategic command of the communist and pro-communist movement in the continent.” According to the group’s founding declaration, the mission is to, among other objectives, “renew leftist and socialist thought” and “to reaffirm its emancipating character.” Eventually its aims grew to include Latin American “integration” as well. And this is exactly the trend that has taken hold in the region.

Attempts to contact a spokesman for the FSP were unsuccessful. But despite the claims of its defenders, critics argue that the FSP is much more sinister than simply a “democratic” leftist vehicle.

But how did this secretive group become so powerful? “The Forum would never have accumulated so much power if its activities had been denounced from the outset, but during 16 years, big media and the establishment, in Latin America and in the U.S., refused to touch upon the subject, handing to the strategists of the communist revolution the protection of silence,” said Carvalho, possibly the most important individual involved in exposing the FSP.

Another factor is the support of powerful converging interests that include everything from governments and monopolistic businesses to drug traffickers and criminal organizations. “Legal parties cover up the activities of criminal groups, and these provide undercover financial resources to legal parties,” explained Carvalho.

Another crucial factor in the Latin American leftist resurgence is the assistance of former Soviet officials and other international connections, according to Toby Westerman, editor of International News Analysis and author of Lies, Terror and the Rise of the Neo-Communist Empire — Origins and Direction.

Westerman told The New American that a worldwide alliance including Communist China, Islamic fundamentalism, Iran, leftist Latin American rulers and guerrillas, and other forces were all collaborating in a war against the United States, united by their “anti-human, anti-God” ideology. “[The Russians] are running the same game, just slightly different — it’s more of a franchise operation than a central corporate operation, if you will. But if you take Russia out of it, the whole thing collapses.”

Indeed, the Russians have been supplying advanced weaponry to regimes like Chavez’. Russian National Security Council Chief Nikolai Patrushev actually attended the most recent ALBA summit last year. And China and Iran have both jumped on the bandwagon as well, cooperating with a variety of unsavory Latin American governments in myriad sectors and projects.

“We are creating a new world, a balanced world. A new world order, a multipolar world,” Chavez told reporters during a visit to Communist China, one of many. His “new world order” includes China, Iran, Japan, and a significantly weakened United States, he explained.

The Latin American leftists and the FSP have also received support from more “mainstream” Western European groups as well. The “European Left” (EL), a group that describes itself as an alliance of “left socialist, communist, and red-green parties in the European Union,” met in 2009 with representatives of the FSP and entered into a number of agreements for mutual assistance. To that end, the groups also developed “a linking mechanism, efficient and stable, between the [FSP] Secretariat, its regional secretaries, and the Executive Board of the EL,” according to a joint statement released by the EL.

So aside from any genuine discontent with false leaders on the so-called Right and the false image they have attached to free markets, there is a complex, interlocking network working in unison to advance what is essentially a new socialist revolution in Latin America. Hiding in the shadows, this network has had remarkable success in achieving its goals. And though the role of the U.S. government is hotly debated, U.S. policies are certainly not helping matters.

U.S. Involvement Nearly every expert interviewed by The New American for this story had a different take on how the United States factors into the leftist resurgence. One view is that the U.S. government is secretly waging war against the leftist advances — at least the “21st Century Socialism” faction. “Bolivia and Ecuador, and more generally the region’s burgeoning social movements and Left political forces, are as much targets of this counteroffensive as Venezuela,” said William Robinson of the Latin American and Iberian Studies Program at the University of California. He claims the U.S. government is using a sophisticated combination of “military threats and hostilities with psychological operations, disinformation campaigns, black propaganda, economic sabotage, diplomatic pressures and the mobilization of political opposition forces inside the country” with the aim of provoking Chavez and other regimes into a “crackdown that transforms the democratic socialist process into an authoritarian one.”

But is the “Yankee empire” really waging a covert battle against the forces of communism and socialism in Latin America? Probably not, according to most analysts. One expert dismissed the notion as “nonsense.” If anything, the U.S. government has remained largely indifferent, he said. Others argue that the United States has, in fact, aided the revolution.

While the U.S. government has traditionally been perceived as opposed to leftist regimes in Latin America, the Obama administration took a different stance in Honduras, openly siding with Chavez, Castro, and the FARC in demanding the return to power of Honduras’ criminal leftist President Manuel Zelaya after he was ousted for flagrant constitutional violations.

There has also been indirect U.S. involvement in the region, and this may prove more important than overt actions such as intervening on Zelaya’s behalf. The United States is likely one of the largest financiers of the leftist movements in Latin America, whether intentionally or not. Half of Venezuela’s oil is sold to the United States, for example, while Chavez uses his petrodollars to help finance the socialist revolution throughout the region.

And while the U.S. government stifles and blocks domestic oil exploration (forcing consumers to purchase it from leftist Latin American regimes or anti-American Middle Eastern governments), it is simultaneously helping finance Brazil’s government-owned oil firm Petrobras’ offshore exploration to the tune of billions of U.S. dollars. In addition, $1.8 billion in U.S. foreign aid flowed to regimes in Latin America and the Carribean just in 2005, including more than $50 million to Brazil.

Of course, no discussion of U.S. involvement in the region would be complete without mentioning the role of Plan Colombia and the Merida Initiative. Essentially, the United States unconstitutionally provides billions of dollars, weapons, training, and intelligence to partner nations in Latin America — Mexico and Colombia in particular — in a supposed effort to combat the drug trade. But the effect of this “war” has turned out to be a boon for certain well-connected, leftist narco-terrorist groups, especially the FARC, which had many of its competitors eliminated courtesy of the U.S. taxpayers.

Analysts interviewed by The New American for this story had varying opinions about the anti-drug “aid,” with some arguing that it is indispensable and others claiming it is counterproductive. But as the War on Drugs intensifies, supply inevitably diminishes and risk increases, thereby raising prices and making the trade more lucrative and by extension providing more funding for leftist Latin American guerrillas and terrorists to purchase weapons and spread their ideology. It also gives leftist leaders a rallying cry to unite their populations against foreign intervention and a scapegoat on which to pin the results of their disastrous policies.

Consequences The statist swing in Latin American governments has not delivered on promises of decreasing poverty or improving life for the common people. In fact, it has done the opposite.

Venezuela, despite its oil revenues, has been forced to start rationing water and electricity, even though the country has bountiful fresh water supplies and some of the largest known oil reserves in the world. And despite government efforts to boost domestic food production, the nation has been forced to import ever increasing amounts just to sustain itself. Chavez was also forced to devalue the Venezuelan currency in January. And if the nation continues on its current path, the devastation will only intensify.

Ecuador, Bolivia, and other leftist regimes find themselves in a similar situation. And Cuba, which has suffered under decades of communist authoritarianism, is the most extreme testament of the horrors wrought by central planning: It is one of the poorest nations on Earth (along with other communist states like North Korea).

“All of these countries, especially Venezuela and Ecuador, are running their economies into the ground,” University of Miami’s Department of International Studies Chair Bruce Bagley told The New American, referring primarily to ALBA members. “The state-run economies of Latin America in the past have proven disastrous and they’re going to prove disastrous now.... So, I do see that socialism of the 21st century is on its last legs.” But the expansive role of the state in Latin American economies, according to Bagley, will continue for a long time to come.

Outlook But there may still be hope. After electing hard-core socialist president Michelle Bachelet in 2006, Chilean voters in January rejected the radical Left and instead opted for the more moderate Sebastián Piñera, who represents what is considered a “center-right” party. In Panama, voters last year threw out committed leftist Martín Torrijos and replaced him with the supposedly more freedom-friendly Ricardo Martinelli.

A top Latin American executive with a Fortune 50 multinational firm spoke with The New American on condition of anonymity and explained that he remained optimistic about the future business climate in Latin America, citing Colombia as one example of a nation that has made progress and continues to move in a positive direction. “Obviously, businesses are looking to invest in places with stable and reliable economies,” he said, adding that this could potentially improve the political environment of the region.

There is also a large coalition of groups opposed to the FSP and the leftward march of the region’s governments. The Union de Organizaciones Democraticas de America (UNOAmerica) is a Latin American umbrella group with around 200 member organizations. It exists to promote freedom and counter the FSP and its authoritarian allies in the region. And its president, Alejandro Peña Esclusa, remains optimistic about the future of freedom as well.

“[The FSP] has built within it the seeds of its own destruction,” Esclusa told The New American from the jungles of Colombia. “Once they are in power, they are not able to create wealth, so eventually, the movement will be defeated.... But even though it is destined to fail, in the meantime, it can destroy a lot.”

But while some analysts think the resurgent Left will inevitably fail, others are not so optimistic. Brazilian Professor Carvalho thinks more drastic measures are required. “The Forum can only be stopped if the legal political parties in its membership are taken to court for the criminal activities covered up and protected by the organization,” he explained.

Rorty And The Animals

Data N/A | The Collective Imbecile

“Philosophy originated in the attempt to escape to a world where nothing would ever change. Plato, founder of this area of culture that today we call ‘philosophy’, supposed that the difference between past and future would be minimal.”

That is the beginning of a whole-page article published by Mr. Richard Rorty in the Brazilian newspaper Folha de São Paulo on March 3 rd , 1996. When I started working in journalism thirty years ago, a paragraph like that would be unmercifully deleted by the copy desk, who might even leave a brief and not very polite note to its author, more or less in the following terms:

“But how, wise guy, how would Plato wish so anxiously to run away to a world of stability without change, if in this very world he already didn’t see great difference between the past and the future?”

Nowadays blatant rubbish is published as a high manifestation of philosophic thought, and nobody from the copy desk comes forward to say that it is not acceptable, not even as an attempt at journalism.

Besides opening his article with evident nonsense, Mr. Rorty still intends to use such nonsense as the basis for conclusions which violate the most elementary historical truth. For he proceeds: “It was only when they started taking history and time seriously that philosophers replaced their former desire to know another world with hopes for the future of this world. The attempt to take time seriously started with Hegel.”

To begin with, it is well known that Plato, as all Greeks, did see much difference between past and future. If the fact of change itself did not seem to be worth of attention to him, he would not have strived to find an unchangeable pattern behind the transitoriness of things. Second, the concern with “the future of this world” was one of the main concerns of the Platonic endeavor, which was rahter the work of a social and political reformer than that of a pure theoretical contemplator.

Third, to date from Hegel the beginning of the concern with History and time is to skip over two millenia of Christianity, a religion which differentiated itself from the Greek world view exactly for its emphasis on the temporal and historic character of human life, what is already very clear in St. Augustine.

Fourth. Why assume there is a contradiction between the concern with History and the will for eternity, when it is exactly the indissoluble union of these two issues that constitutes the basic inspiration for Hegel himself?

Fifth. When Mr. Rorty interprets the will for eternity as an “evasion” or a “flight”, he is just playing upon words and his pun can easily be undone. The impulse to revolutionize the world, to accelerate historical change, with the same verisimilitude, can also be interpreted as a hubris, an alienating agitation, an escape valve in the presence of permanent and inevitable realities, such as death, frailness, ignorance of our ultimate fate, etc. These pejorative interpretations have only a rethorical value, if that much. Taking them for granted and presenting them as unquestionable is not honest at all.

Based on all these premises, Mr. Rorty finishes the overture of his article with the assertion that the joint influence of Hegel and Darwin distanced philosophy from the question `What are we` and turned it into `What can we become ́ . This rather pompous historical generalization omits from the reader the information that for Hegel both questions were exactly the same ( Wesen ist was gewesen ist ). Thereby, far from distancing himself from Greek thought, the philosopher from Jena was just providing a logical development to the Aristotelian doctrine of entelechy, according to which essence is not the static form of a being in a given moment in time, but the goal implicit in its development. Furthermore, it omitts the information that Darwin, on his turn, never said a word about ‘What are we’ nor about ‘What can we become’, but was only interested in ‘What we were’. Rorty therefore mistakes the theory of evolution for the evolutionist ideology, which is Spencer’s work and not Darwin’s.

There are so many implied absurdities in a single paragraph that perhaps it is the compressive strength of falsity being rapidly injected in his brains what makes the reader dizzy, incapable of realizing that he is in front of a cheap fraud, disguised as philosophy as a result of pure marketing.

But I do not believe that Mr. Rorty writes this way for mere incompetence. He knows that he lies – and the secret of the awe he arises in hordes of pedantic youngsters consists precisely in the fact that they envy the power of lying well, for they disbelieve in all truth. There are many who dream about being Richard Rorty when they grow up.

But do you really want to know who this fellow is? Do you wish to get an idea of how ridiculous it is to honor him as a great philosopher? Going a bit further than what he said in Folha de São Paulo , let us then follow this brief examination of his more general conceptions.

“Language is not an image of what is real”, assures us Mr. Rorty, pragmatistic and anti-Platonic philosopher. Should we interpret this sentence in the sense that Mr. Rorty calls “Platonic”, that is, as a denial of an attribute to a substance? It would be contradictory: a language that is not an image of what is real cannot give us a real image of its relations with what is real. So the sentence must be interpreted in the pragmatistic sense: it says nothing about what language is, but only highlights the intention of using it in a certain way. The main thesis of Mr. Rorty’s thought is a statement of intention. “Language is not an image of what is real” means exactly this and nothing else: “I, Richard Rorty, am firmly decided not to use language as an image of what is real”. It is an “irrefutable” thesis, as it is not possible to invalidate logically an expression of will. Therefore, there is nothing open for debate: within the limits of decency and of the Penal Code, Mr. Rorty has the right to use language as he wishes.

The problem comes up when he begins to try to induce us to use language exactly as he does. He says that language is not a representation of reality, but rather a set of tools invented by man to fulfill his wishes. But it is a false alternative. A man may well wish to use this tool to represent reality. It seems that this was exactly what Plato wished. But Mr. Rorty denies that men may have any other wishes rather than seeking pleasure and fleeing pain. That some men do say that they wish something else must be very painful to him. If it were not, there would be no valid pragmatistic explanation for the effort he makes to switch the tone of the conversation. Facing the impossibility of denying that those people do exist, the pragmatist may perhaps say that those who seek to represent reality are moved by the wish to flee pain as much as those who prefer to make up fantasies. But this objection will only come to prove, precisely, that we are not dealing with things that exclude each other. The Rortyan alternative is false in its own terms.

Confronting this painful realization, Mr. Rorty alleges his philosophy consists in introducing a new vocabulary, one in which all distinctions between absolute and relative, appearance and reality, natural and artificial, true and false will be abolished. He recognizes he does not have a single argument to offer as a defense of such proposal. As it “cannot be expressed in Platonic terminology”, it is above, or below, the possibility of being proved or refuted. And he concludes on behalf of all pragmatists: – “That is why our efforts at persuading assume the form of a gradual inculcation of new ways of speaking” . Mr. Rorty, therefore, does not intend to convince us of the truthfulness of his thesis: he only intends to “gradually inculcate us” with his way of speaking. Once it is adopted, we will gradually forget to ask if what we speak is true or false. But gradually inculcating others with a linguistic habit, while also placing it beyond the reach of all rational mediation, is sheer psychological manipulation. We leave therefore the ground of philosophical discussion – that rortyism refuses as “Platonic” – to enter the subtle ground of the imposition of a will by the repetition of slogans and by change in vocabulary. That is what George Orwell called Newspeak in his 1984.

This is perhaps the deep and secret reason why – after having declared that men are but pleasure-seeking beasts and after having reduced language to an instrument that stronger beasts use to dominate weaker beasts – Mr. Rorty can still proclaim that “we, the pragmatists, do not behave as animals”, when his discourse seemed to indicate precisely the opposite. Actually, they are really animal trainers . A horse-trainer does not argue with horses, he just uses psychological influence to “gradually inculcate” them with the desired habits.

Like all animal trainers, pragmatists are moved by pious intentions: “What matters to us is inventing means to diminish human suffering”. It is for that noble purpose that Mr. Rorty proposes to abolish the oppositions between true and false, real and apparent, absolute and relative, etc., which make the philosophy students suffer so much, and suggests the universal adoption of the Newspeak . Once adopted this proposal, philosophical debates will not anymore be an uncomfortable clash of arguments and proofs like they used to be, but rather an effort to make the gradual inculcation of new habits in the mind of the audience ever more painless and pleasurable. The new theories will not look for help in the heavy weaponry of logic, but in the delicate tools of marketing, with free samples being given away to newcomers and smiley Playboy bunnies adorning the covers of academic dissertations.

But the decisive contribution of Mr. Rorty to the relief of human suffering is the combat he wages against the idea that life may have a meaning. It is understandable that Mr. Rorty must feel pretty bad in a universe that makes sense – the odd man out, exactly the way a non-pragmatist would feel in a world devoid of any meaning. Yet, Mr. Rorty does not see the least advantage in arguing with those who do not feel as he does. The controversy between the existence and inexistence of an immanent meaning in the cosmos, he says, “is too radical to be able to be judged from a neutral viewpoint.” There is no way to argue: all a man can do is express his will. So again Mr. Rorty’s thesis is a declaration of intention: he, Richard Rorty, will do everything he can so that life will not have any meaning whatsoever. And he does that with extreme competence and dedication. There are those who think that the lack of meaning in life is what makes human beings unhappy 1 , But Mr. Rorty does not care at all. He supports democratic pluralism, the free expression of all points of view. But the confrontation of points of view, as it cannot be settled by any intellectually valid means, becomes just a competition between wills, one whose outcome will be determined by the pure manipulating ability of the winning party Those who know Mr. Rorty personally assure us that he is a very nice guy. I believe them. But I doubt he wags his tail. After all, he is not the animal in the story 2 .

Footnotes Viktor Frankl, for example, the not sufficiently praised Jewish psychiatrist who, in the hell of concentration camps, discovered that a meaning for life is more necessary to man than freedom itself. Frankl told an American audience: “It was not only a handful of ministries in Berlin that invented the gas chambers of Maidanek, Auschwitz, Treblinka, they were prepared in the offices and classrooms of nihilistic scientists and philosophers, among which there were and there are some Nobel-laureate Anglo-Saxon thinkers. If human life is nothing more than an insignificant accidental product of some protein molecules, it does not matter that a psychopath be eliminated as useless and that many other inferior people share his fate: all this is but logic and consequent reasoning” (Viktor Frankl, Man’s Search for Meaning ).

Back While reviewing the proofs of this chapter, it occurs to me to remind the reader that a proposal such as Mr. Rorty’s contains in itself, along with the refusal of rational proof, a whole army of antibodies against any attempt to refute it in the serenity of an academic discussion. A “gradual inculcation” never clashes directly with arguments, but takes advantage of the moments when its interlocutor is distracted to surreptitiously induce him to change his state of mind. Its modus argumentandi is not the philosopher’s, nor even the rhetorician’s, but that of the neuro-linguistic programmer. It works beneath the threshold of conscience, after having induced its victim to relax its defenses through mild conversation. Against this kind of actuation the only possible defense is to confront the seducer in the ground he has chosen, i.e., that of psychological action. Therefore, it is not a question of arguing, but of unmasking, just like in psychoanalysis. During Mr. Rorty’s visit to Brazil, I was dumbfounded by the incapacity of his audience to notice the difference between argumentation and seduction. If Mr. Rorty himself admits that there is no use in arguing, what could his apparent arguments be if not a diversion, a trompe l’oeil to keep the conscious attention busy while –away from all critical surveillance – the gradual-inculcator discreetly manipulates the bottom of the soul of the distracted interlocutor? But what silly girl would be foolish enough to try to get rid of a seducer by using polite requests that would only prolong the conversation? In order to expel the seducer it is necessary to deny him any hint of nicety right away and for good. Nowadays there are many currents of opinion that prefer psychological influence to logic reasoning. They do not try to win our agreement, but rather to monopolize our attention. By prolonging a conversation that they themselves recognize is not able to reach any intellectually valid results, they gradually surround us with their atmosphere. They do in such a way that, even if we never explicitly agreed with them, suddenly we are speaking their language, thinking according to their categories, judging according to their values, acting according to their rules. That is how they win our most complete obedience in spite of our superficial disagreement. There is no way to confront them except for open manifestations of antipathy in order to make them understand that what separates us from them is not mere intellectual disagreement, but also a categorical moral rejection. In short:

we don’t like their conversation . The tone of this book has therefore a prophylactic sense.

The Collective Imbecile

Data N/A | The Collective Imbecile

The sudden interest shown by progressive intellectuals in philosophies that deny the meaning of History clearly stems from the depressive feeling that followed the failure of international communism. Not capable of restraining themselves to the optimistic vision of communism, they sought refuge in an ideology close at hand, one capable of explaining the apparently absurd course of History without forcing them to a rupture with the atheistic and materialistic basis of Marxism. With this aim, some strove to ransack and recover old materialistic theories that Marxism itself believed to have absorbed and overcome. Others sought to reconcile themselves with “bourgeois” materialistic currents, like the analytical philosophy of Russel and Wittgenstein (who were widely read in Brazil during the 1980’s), and, naturally, with pragmatism. First there was the fashion of Charles Sanders Peirce, a fifth-class philosopher, who was venerated as an icon in some Brazilian university circles. But the best actually came with Rorty, whose similarities with Gramsci make him irresistible to the eyes of local intellectuals.

The most significant of these similarities is the denial of objective knowledge and the consequent reduction of intellectual activity to propaganda and conscience manipulation. Both Gramsci and Rorty deny that human knowledge may describe the real, and both declare that the only objective of our cultural and scientific efforts is to express collective desires. Also, for both of them, there are no universal concepts, nor universally valid judgements. But we can “create” universals through propaganda, making all people share in the same beliefs or, better said, in the same illusions. The function of intellectuality is therefore to create those illusions and, as Rorty says, “gradually inculcate them” in the mind of the people. They disagree only on the identity of the intellectual: for Rorty, he is the academic community, while for Gramsci it is the Party or the “collective intellectual”.

These two ghostly entities, whose task is to direct the consciences of beings without a conscience, are formed by individuals who, by themselves, do not have any conscience at all. They also share the utmost disregard for arguments and proofs and display an exaggerated taste for the psychological action that shapes the feelings of the mass without allowing for any discussion and without being accountable to the requirements of “truth”. In both of them, the shrewdness in manipulating the real substitutes the intelligence of knowing it.

Manipulating the real?

No. Manipulating its image in the mind of the public.

As much as the academic community of Peirce and Rorty, the “collective intellectual” of Gramsci lacks the real unity of an organism, possessing only the functional and more or less conventional unity of a club or an army. For this very reason, it cannot be intelligent, nor can it have intuitive perceptions. What it is to understand? It is to capture, in an instant, the objective unity of a set of data, arranging them in a framework that is immediately made available to all psychic faculties: to will, to feeling, to imagination, etc. It is this simultaneous availability of information that enables the individual to react as a whole to distinct situations, without the mediation of a long and complex decisional process. It is the “presence of mind”, the alert conscience that enables a full and efficient adaptation to changes, without the loss of biographic continuity or of the meaning of life. How could a collective entity rise to this level of conscience? In order to understand and to decide at the speed that an individual does, the collective entity must place an individual above all others and follow his decisions without discussion. But in order to preserve internal democracy, it must submit the decisions to the approval of all members and wait for the outcome of the discussions, during which time thousands of deviating factors will interfere, such as the mingling of other issues, the competition among vanities in the assemblies, etc. Ultimately, the final decision will be a mechanic arrangement of pressures and concessions and not the immediate answer of a conscience to a perception of reality. The “collective intellectual” must choose between the unity of a tyranny and the multiplication of languages; between explicit or implicit submission to any individual conscience and the dissolution in a collective unconsciousness that, at last, will end up being discretely manipulated by some smart individual. In short, it must choose between declared and dissimulated tyranny.

During the time when the principle of the “collective intellectual” was in force only within the Communist Party, its cult of unconsciousness affected only those directly engaged in leftist movements, preventing them from seeing the most obvious and blatant facts, like the Trials of Moscow, the economic failure of the USSR, the Gulag, etc.

But with the fall of communist hierarchy, the spirit of the “collective intellectual” leaked from the moribund body of communism to intellectuals in general. Nowadays, particularly in Brazil, intellectual life as a whole imitates, by the uniformity of its issues and values, the internal discussions of the old Communist Party, the collective processing of ideas by a mass of militants to obtain, through the sum of votes, the infallible definition of the “Party line”. This way, individual intelligence loses all capacity to operate alone, not being able, by itself, to understand anything anymore. Thus confirming what the widespread buzzing boasts about the inanity of autonomous conscience, individual intelligence only shows itself capable of acting in an atmosphere of unanimous agreement, of “participation” in the collective feeling. As everyone is immersed in this collective feeling, nobody can look at it from the outside, as fish do not see water. Intellectual life is thereby reduced to the mutual inter-confirmation of beliefs, prejudices, feelings and habits of the members of the literate group. It becomes a tribalism.

One would err by excessive optimism to perceive this involution as a passing phenomenon that only scratches the surface of History. It has an anthropological dimension, it affects the fate of the human species in the cosmos. It only takes a generation of “collective intellectuals” dominating the world for us to lose the individualization of conscience, the prize of a millenarian evolutionary effort.

The idea of the “collective intellectual” has one of the most compromising origins. It was born in the clubs, assemblies and literary salons where the French Revolution was generated, in the “Republic of Letters”. It was there that for the first time modern intellectuality felt the strength of its union and was sacred queen under the title of “public opinion”. As a matter of fact, this term did not designate the opinion of the masses, but the common feeling of the literate elite . What was characteristic of those clubs and differentiated them from scientific societies as we know them today, and also from the centers of debate in Medieval university, was the total absence of rational criteria for the validation of arguments. It was the empire of “opinion”, in the sense of the Greek doxa , or mere belief. In those clubs, the theoretical questions of Gnoseology, Metaphysics, Economics, or even those of the natural sciences were decided by force, according to the preferences of the majority group. The true doctrine was not one which coincided with reality, but rather one which better expressed the collective aspirations in a language flattering to the passions of the moment. Once the winds of Revolution abated, the scientific and academic institutions of the winning bourgeoisie endeavored to organize themselves obviously not according to the example of revolutionary societies, but according to the consecrated canons of Medieval university and of the scientific circles of Renaissance. The “Republic of Letters”, as everybody knew, served only to agitate the masses, but could not generate knowledge. It does not seem strange, therefore, that the model of society of the revolutionary debates would next be seized by those excluded by the new order: the socialist intellectuals.

But it would not remain confined to them for ever. If during the XX century an atmosphere of Jacobinic club slowly and surreptitiously takes over the totality of cultural life, this is due, to a great extent, to the proletarianization of universities which – once centers for the generation of a scientific and governing elite – converted themselves in centers for the professional education of the masses (while transferring the task of forming the elite to more discreet, if not secret institutions).

The democratization of education opened to millions of people the access to intellectual and scientific professions. What was an elite, a bunch of geniuses who exchanged ideas through private mail and through half a dozen academic publications, became an innumerable multitude. This quantitative expansion, accompanied by a lowering of requirements, resulted in a formidable downgrading. The intellectual proletariat, scattered in thousands of institutions and busy with its daily professional tasks, does not even strive to keep up with the march of ideas in the world. Each professional has resigned himself to not being able to follow the succession of discoveries in his own area of expertise. Each one follows his own tunnel, without knowing where the others lead. To make up for the unbalance caused by specialization, a prosthesis called “general culture” is then applied to the expert, and soon universities have to flood the market with a regiment of “experts in general culture”. Mainly comprised of those who were not able to specialize in anything else, this new profession endeavors alternately to trim the cake of professional knowledge with a cherry of culture, leisurely disconnected from all reference to practical life, and to sketch a synthesis between culture and praxis through ideological indoctrination.

Thereby, the very nature of university professions came to be perverted: the university professional does not have to be able to form a personal reasonable opinion anymore. He is a worker, an employee who follows the collective fashion, as formerly did middle class employees and manual workers. Thus, as the amount of scientific information increases, the capacity, the necessity, and the simple willingness to absorb it diminishes.

Then, with the advent of the services economy, whose dominant industry is that of “cultural goods”, the intellectual proletariat expanded to encompass the majority of the population of rich countries and almost the whole middle class of poor countries. As a result, superior cultural production had to meet a massive demand for cheap thrills, now honored by “intellectual” prestige. The gossip of old show-business magazines, for example, invaded historical research, acquiring the status of a respectable academic activity. Moved by the necessity of flattering the most vulgar passions, superior culture ends up modeling itself by sheer marketing criteria, with which the collective imbecile confirms, circularly, that there is no truth above the taste of the majority.

In this atmosphere, rational discussion becomes impossible. Consensus is formed by waves of feelings that confusedly agitate themselves in the air, producing brief epidermic shivers. Beliefs are molded and dissolved in an impressionistic atmosphere, as moving ink-spots in a wet paper. It is the time of Rhetoric, of psychological persuasion, of a vague and disguised blackmailing which replaces argumentation. And finally, the actual state of things claims to be elevated to the status of rule and law: the Böhms, Feyerabends, Kuhns, Rortys, come to the scene, advocating the legitimacy of the rhetorical argument, of the emotive appeal, and even of the subliminal influence as a means of scientific proof. The notion of “truthfulness” – which the first generation of proletarian intellectuals had already reduced to a conventional formalism, voiding it of its ontological substance – goes up in smoke and is at last ostensibly denied. Ideas win followers by affective contagion, and once they become dominant they do not even need to display a pretension for truthfulness. They possess a better argument: the force of numbers that spreads the fear of isolation (vaguely identified with misery and madness) in the souls of the recalcitrant ones. Underneath the festive adherence to the new intellectual fashions, the persuasive machinery of psychological terror gloomily creaks on.

These are, in summary, the dominant tendencies in the scientific and philosophical debate of today’s world. In older countries, which preserve the values inherited from the Middle Ages and the Renaissance, these tendencies may at times be compensated by some critical and organizing reaction. But the new countries, which entered into History after the French Revolution and absorbed little from the legacy of the preceding centuries, do not have the least defense against the spirit of the “collective intellectual”, which in these countries tends to be identified, by an unconscious dogmatism, with the only possible incarnation of the idea of superior culture. There, to become an “intellectual” is not to acquire a certain knowledge and to demonstrate capacity in a certain class of investigation or creation. It is rather to be accepted in some circles, to speak in a specific tone, to adopt some ways of behavior in which the identity of the caste may be recognized. For this reason, a great philosopher who lives a secluded life ends up being excluded from the cultural history of the country, as occurred with Mário Ferreira dos Santos, while the worldly man, popular in certain groups, will become a renowned intellectual even if he doesn’t leave a work worth reading and even if he discovers nothing worth knowing.

The Disadvantage Of Sight

Data N/A | Época

In Brazil, these walls are maybe the best case of durability seen since the Iron Curtain.

The September attacks could have, in one act, changed the vision that Brazilians have of the world, as it changed visions in the U.S. After the events, there are not much people in the U.S. who still believe everything they heard against their country since the 1960s. After the World Trade Center attack, very few American adults would not question if their childhood idols, Jane Fonda, Susan Sontag, or Noam Chomsky, were simply traitors who helped condemn Vietnam to tyranny and misery, while the countries losing to the U.S. built wealth and liberty.

But the impact of this discovery has not reached our shores. It was softened in the distance. In this country, anti-American mythology from the 1960s resists bravely, rejuvenated not only by the repeated mention of buzz words of the time, sold as definitive explanations of today’s events, but by the complete exclusion of information that could change the backdrop, the basic board of reference from which today’s events are interpreted.

Never did a newspaper or magazine in this country publish a story, no matter how small, about the fierce opposition that American conservatives raise against the IMF, the UN, and global politics. Our society has been fooled each day for the past decade by journalists who lead us to believe that globalism, Americanism, and conservatism are working hand-in-hand to oppress the poor Third World.

Half of voters in the U.S. see the New World Order as a socialist, anti-Christian, and anti-American project. These people, for better or worse, chose George W. Bush. The globalism team, the team supporting international organisms, the NGOs which are fed by sovereign land and powers of national states, voted strongly in favor of Al Gore, whose family’s wealth is thanks to Armand Hammer, a business magnate who was revealed as a financial agent of Comintern by the Moscow Files.

Similarly, thousands of other simple pieces of information freely dispersed in the U.S. and Europe have not reached our ears. But maybe these are enough to change the entire perspective of Brazilians toward the world. These should be enough to burst the bubble of cliches that keep us far from reality.

That’s why these new items don’t make it here. That’s why the people who know them have great difficulty in trying to explain the reality of the latest events. To convince the public, one must remove the entire body of premises and suppositions that have developed over decades through the press, in churches, and at intellectual roundtables. One would have to overcome the set of collective habits and reflexes, an entire culture of deceit built up over two generations of energetic liars and lazy imitators. There is no single argument, not even the most powerful, that could accomplish this magic trick.

There is a saying that, in the land of blind people, a man with one eye is crowned king. Perhaps. But one thing is certain: a man with two would be considered crazy.

Em 13 de outubro de 2001

English

The Origin Of The Attacks

Data N/A | Época

While center-stage in Brazil features a procession of professional liars and amateur idiots alerting against George W. Bush’s “paranoia,” as if the September attacks were delirious images dreamed up by the right to justify the mistreatment of defenseless leftists, the analyses of people studying the affairs are kept far from society, in turn unable to understand the events that will shape their lives, in possibly tragic ways, in the coming years.

One of specialists is Colonel Stanislav Lunev, a name completely unknown in this part of the world. A former member of Russia’s Army administration, he is the highest ranking spy to desert the Soviet military, the GRU, in history. Today he is a security consultant for the U.S. government.

At the beginning of the 1990s, he alerted the CIA that Russia, while dismantling the socialist economic system, still maintained its so-called “special organs” intact – especially the GRU – and that these would continue to develop meticulous plans to wage war against the U.S. He noted that “this war could begin with a diversionary operation, some type of terrorist attack.”

Today, following the attacks, he says: “I have no doubt that Russia is behind these terrorist groups, financing them and supplying them.” It’s true that Moscow has declared its solidarity with the U.S., but it also did so during the Gulf War, even while sending technicians and equipment to aid Saddam Hussein. If not for a secret Russian alliance with the Afghanis, how could one explain that this nation, after losing 1 million of its people in combat with Soviet troops and surviving only thanks to American support, could forget its animosity against the aggressor and turn blind rage against the benefactor?

More importantly, Afghani military commander Gulbaddin Hekmatiyar has always been involved in the Soviet incentive scheme and taken advantage of international drug trafficking, as told to American authorities in 1968 by General Jan Sejna, who abandoned his post as spokesman for the party’s Central Committee in the Czech Ministry of Defense. Sejna provided direct testimony to the deals between Soviets and Chinese, since the 1950s, for flooding the U.S. with cocaine and using drugs to finance the Communist revolution in Latin America, which is today in control of Colombia.

In light of this, Colonel Lunev warns that now the escalation of anti-American violence has barely begun and only an energetic and determined response can stop the plans for full-blown war, as stated Ulema-i-Afghanistan, the assembly of Afghani religious leaders, who urge nothing less than the “total elimination of American through force.” This assembly has no authority to declare a jihad for all Muslims, as it is doing, because that declaration can only be approved by an umma , an international community of educated Muslims, according to Koranic law, and the majority of these leaders are staunchly against a war of extermination. But, as I describe below, so-called “Islamic fundamentalists” are stomping on the fundamentals of Islam: their ideology is not that of Islam, it’s rather a type of “theology of liberation,” an abusive and macabre politicization of the Koran’s message. For this reason, they have no scruples in allying with the assassins of their fellow followers against the one country that, in a moment of agony, extended a saving hand to Muslim fighters.

Em 22 de setembro de 2001

English

The Truth Behind The Fantasy

Data N/A | O Globo

The clearest example is the New World Order. From Brazil’s perspective, a periphery nation, this concept is merely a new name for U.S. capitalism. From the U.S. perspective, at the center of the debate, it is a socialist project and essentially anti-American.

Obviously the Americans are seeing what is really there, and we, in turn, are delirious as always. Some scandalous facts, mostly hidden from Brazilian public opinion, can reveal this clearly:

1) In the past decade, the U.S. dismantled its nuclear defense system, reducing its stock of atomic weapons to a fifth of the size of the Russian and Chinese reserves, while ceding control of strategic areas like the Panama Canal to Beijin and allowing Chinese spies free reign on American soil.

2) At the same time, the U.S. openly violated its own Constitution by ceding increasingly larger shares of its national sovereignty to the UN, and admitting the interference of international organs into domestic affairs, such as education. As a result, text books adopted in public schools today are infused with anti-American propaganda and rigorously purged of all signs of patriotism and Christianity.

3) U.S. territory has been invaded and taken over by European NGOs backing Indians and ecologist causes. As early as the first half of the 1980s, 10% of the country’s total land area was out of control of citizens’ and the government’s hands, summing up to what was already at that time the largest transfer of real estate in human history.

4) The concessions that the ruling class has made to the New Left since the 1960s have transformed the academic, journalistic, and film establishment into a totally out-of-control anti-American propaganda machine. U.S. universities have become the largest source of Marxist indoctrination on the planet, surpassing the former Soviet university system.

5) The violent repression of any anti-Communism protest disabled the government from preventing Soviet spies and later Chinese spies from infiltrating the FBI, CIA, the National Security Agency, and military intelligence services. Ironically, while the opening of the Moscow Files has retroactively lent credence to Joe McCarthy and proved that the Communist presence in the federal government during the 1950s was even larger than he suspected, and while Soviet and Chinese operatives have admitted that Communist powers spent much more money on psychological warfare in the U.S. during the Vietnam War than on battlefield equipment, the much bigger penetration of the 1970s-90s took place under the auspices of “political correctness” which used the term “fascism” to label those who dared discuss it in the press.

Pretending a nation that disarms and weakens itself to such a point would at the same time be behind the height of global imperialism is absurd to the point of lunacy. The U.S. is not the owner of globalism. It is the first and largest victim of it. It’s true that some large U.S. fortunes influence the forces determining the new state of things. But to confuse the plans of a half dozen monopolistic dynasties with the national interest of the U.S. or with the spirit of liberal capitalism is more than dumb: it’s crazy. Monopolies and liberalism are opposing terms, and many of these monopolistic organizations have already proven their congenital anti-Americanism by financing the two totalitarian regimes that have worked hardest to destroy the U.S.: the Communist Soviet Union, and the Nazis.

Still, this foolishness is not born of nothing. These organizations are the same ones that, alongside the anxiously willing European Economic Community, have subsidized the majority of leftist movements on the globe and now awaken a global wave of anti-American sentiment, clearly present at the Durban Conference. They were the ones also who, under the pretext of anti-racism, installed pro-Communist governments in South Africa and Zimbabwe, which today are guilty of ethnic cleansing that the conference, in its ominous silence, has transformed from hideous crime into a right and merit.

A simple study of the sources of financing for Brazilian scholarships, fellowships, publications and research programs show that, without the help of these helpful monopolistic organizations, all leftist thought would practically disappear from the public eye.

The foolish fantasy, therefore, reveals its entire reason for being: if global monopolies strive in the U.S. to dilute national sovereignty in subservience to the “international community,” then logically they subsidize radical rhetoric in foreign countries that blame the U.S. for the evils of the oppressive New World Order. The oldest trick in the book of the criminal is to demonize the victims.

Leftist intellectuals, after all, always need some money and are drawn to the first carrot dangled in front of their noses. Nobody serves better for manipulations of this type of uneducated, verbose, vain, and foolish intellectual activist which Third World universities annually launch on the market in stunning numbers.

It’s no surprise that, without a clear intellectual vision of what occurs in the world, these persons are equally devoid of moral conscience and, in fighting for good, take the defense of any hideous crime that seems to aim the “bête noire” of their delirium: the Yankee imperialism.

There has been no shortage on this country’s television and in newspapers of those trying to diminish the horror of the September attacks, justifying them as “inevitable consequences” of George W. Bush’s foreign policy, as if complex terrorist operations could be improvised in the few months after the new president took office.

Truth And Pretext

Data N/A | O Globo

. 2000 Translated by Daniel Brilhante de Brito ( http://www.dbb.com.br ) Sceptics, relativists and pragmatists, who champion the idea that knowledge is something merely functional, operational have the grandest of pretences, namely that in a democracy rigorous, proven truth will undermine the health of the body politic. They suggest that if you claim to know the truth it is because you are utterly intolerant of adverse opinion. Such is their point. They then set out to argue that you can prove nothing whatever; and will go on to claim that the world will not be happy until all the theories have cancelled out one another, and mankind has finally acknowledged that there is no such thing as truth; that whatever goes under this name are just figments. These, again, are only provisional, if useful in nature. Once you have abolished the test of truth, all ideas have just about the same value. At this stage, you will have perfect democracy.

People used to judging ideas by their face value, and this means nearly the whole of the human race, will not think twice before jumping to this conclusion, if only because from their standpoint they are flattered to find out that their opinions being as useful and as provisional as any other these can justifiably be ranked beside those of Aristotle and Leibnitz.

But this persuasive set of appearances leaves out the plain, brutal fact that neither of this century’s major brands of totalitarianism – Communism or Nazism – accepted the existence of an objective truth; much to the contrary their tenet was that ideas, rather than instrumental to the knowledge of the real world were just tools that could be used to change it. Karl Marx was explicit on his head in his ‘Theses on Feuerbach”. One odd peculiarity of the Marxist view is the notion that History cannot be approached ‘from the outside’; nor for that matter can its unfathomable depths be explored theoretically other than by a subject who as a preliminary step has himself joined the cause of the proletariat; for not until the subject is personally engaged in the working class struggle is he expected to grasp the revolutionary process from within, in other words, the dialectic process itself through which this process evolves. When he claimed that class war was inextricably both a scientific theory and the rule of thumb for the revolutionary praxis, Marx distorted the very idea of ‘scientific theory’. Stripped of its role as an intellectual synthesis of objective findings, scientific theory was no more than a means of producing or modifying these findings in retrospect to fit the theory.

Nobody grasped this notion so thoroughly as did Lenin when he found that a proletarian revolution was conceivable in a nation where no proletariat existed; all that was needed was for a self-appointed élite of future proletarians to take over, and once in power to set about creating a proletariat.

Even more blatantly instrumental and pragmatic was Adolf Hitler’s idea of truth. As reported by Hermann Rauschning in his “Conversations with Hitler”(1940), he said, “I am quite aware that in a scientific sense there is no such thing as ‘races’. But as a politician I must have a concept to justify the destruction of the existing order to give place to a new one.” This is as though the ghost of Karl Marx were haunting his surroundings – the world, after all, is not meant to be described, but changed.

He who would believe an objective truth will look for one and put it to the test of proof. Conversely, he who will reduce the truth to a tool of change for the world cannot abide the onus of proof, all he has to do is to eliminate whoever stands in the way as an obstacle to change.

Em 27 de maio de 2000

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Notinhas Perfidas

Circula em | Zero Hora

sites da internet a notícia de que parte do dinheiro para a compra do dossiê antitucano veio da conta da Lurian, a filha de Lula. Bem que o candidato petista, desafiado no debate de domingo passado a explicar como podia ignorar tantos crimes praticados por cinco de seus ministros, respondeu que nem todo pai de família sabe o que os filhos andam aprontando. Vocês podem explicar isso pela escassez presidencial de metáforas ou como ato falho freudiano. A mim pouco importa. Depois que o sujeito conseguiu que ninguém ligasse a mínima para seus doze anos de conspiração com os narcotraficantes das Farc e os seqüestradores do MIR chileno, ele já nem precisa inventar desculpas para mais nada. Abençoado com indulgência plenária pela Santa Madre Mídia, da qual ainda se dá o luxo de reclamar, ele é mesmo o homem sem pecado que não precisa pedir humildemente a absolvição antes de receber a ceia do Senhor. Vai logo entrando, mete os pés em cima da mesa e berra: “Como é, Marisa? Essa hóstia vem ou não vem?”

Confesso que, se o personagem não existisse, eu não conseguiria inventá-lo. Meu consolo é que Molière e Shakespeare também não. Comparados a ele, Tartufo e Iago são doentes de sincerismo compulsivo.

Também pela internet alguém me envia a pergunta fatídica: “Como é possível Lula saber tanto do governo FHC e tão pouco do seu próprio?”

Frei Betto, articulista da Carta Capetal – ou CaPTal –, insiste em ser o bilinguis maledictus de que fala a Bíblia: o homem de duas línguas. Podia ganhar um dinheirão exibindo-as naqueles circos rolantes do interior, ao lado da mulher-vampiro, do carneiro de seis patas e do anãozinho traveco. Talvez por indiferença ascética à cobiça material, insiste em desperdiçá-las em propaganda lulista. Agora mesmo ele publicou uma “Carta Aberta aos Eleitores Cristãos” no Brasil e uma entrevista no site comunista Rebelión , da Venezuela, elogiando dois Lulas tão diferentes entre si que ninguém diria serem a mesma pessoa. Descrito em português, para o público votante, o candidato petista é um administrador sensato, cristão e patriota. Em espanhol, diante de seus companheiros do Foro de São Paulo, é um comunista fiel a serviço da subversão continental, que, se eleito, “ facilitará las cosas para la Cuba de Fidel, la Bolivia de Evo y la Venezuela de Hugo ”. Quem disse que o ex-assessor presidencial para assuntos metafísicos é mentiroso em tudo? Uma de suas duas línguas existe justamente para dizer a verdade. Lá longe, onde nenhum brasileiro possa ouvi-la. Confiram em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=38909 .

No Bush country , os índios informaram a Hugo Chávez que pode enfiar naquele lugar o petróleo a baixo preço que ele demagogicamente lhes oferecia. Índio aqui tem a bandeira americana na porta de casa.

Enquanto isso, nos postos do país inteiro, a gasolina baixou de três para dois dólares o galão. Estão vendo só o temível poder do petróleo venezuelano? Os americanos perdem noites de sono, discutindo se darão cabo de Hugo Chávez com uma cuspida ou um pum.

A recepção espetacular dada pelos venezuelanos ao ídolo antichavista Manuel Rosales – uma das maiores passeatas que Caracas já viu – foi solenemente ignorada pela mídia nacional, aquela que o Lula chama de burguesa e direitista. Vejam as fotos em http://www.gentiuno.com/articulo.asp?articulo=4837 e http://vcrisis.com/index.php?content=letters/200610081356 . Também não foi noticiada no Brasil a manifestação anticomunista realizada na porta da OEA, em Washington, quinta-feira passada.

Em 15 de outubro de 2006

Eleicao No Galinheiro

Candidato preferencial a chefe de segurança: | Época

a raposa “Primeiro o meu estômago, depois a vossa moral.”

(Bertolt Brecht) Outro dia, meu colega Zuenir Ventura lembrava, com razão, que até a década de 90 a esquerda desprezava o combate à corrupção como “frescura pequeno-burguesa”. Sim, a moral nunca interessou muito a uma corrente política afeita a nivelar pragmaticamente a santidade e o crime, avaliando-os pelo critério exclusivo de sua utilidade maior ou menor para a causa da revolução. Esse critério, aliás, está resumido num poema de Brecht, repassado de geração em geração a deslumbrados militantes, segundo o qual a verdade e a mentira, o bem e o mal, o direito e o torto, Deus e o diabo – tudo para o esquerdista dá na mesma, só importando que possa ser usado para apressar a marcha em direção ao socialismo.

Por isso, só há duas explicações possíveis para a súbita epidemia de sensibilismo moral que então se apossou da esquerda: ou é um caso de milagre santificante, ou é apenas mais um engodo brechtiano. Só há um meio de saber: é o velho e infalível “Pelos frutos os conhecereis”. Os frutos, até o momento, são: o crescimento assustador da corrupção, o fortalecimento do banditismo armado agora erigido em força política revolucionária e, last but not least, a ruptura da aliança governamental. Tudo isso acompanhado, como se por mera coincidência, da ascensão política da esquerda. O próprio Brecht, a essa altura, admitiria que a moral às vezes enche barriga.

Quando começou a campanha pela “Ética na Política”, adverti que a coisa não tinha por objetivo moralizar o país, mas dar à esquerda o meio de jogar seus adversários uns contra os outros, neutralizá-los e tomar o poder no meio da confusão geral. Passados 11 anos, a corrupção só aumentou, obviamente, mas a operação desmanche da direita política alcança resultados cada vez mais promissores, dos quais a briga entre Antonio Carlos Magalhães e FHC é a mais linda amostra. Bem, quem mandou esses dois patetas embarcarem, por oportunismo e desejo de brilho fácil, na onda suicida do denuncismo, em vez de desmascararem o próprio neomoralismo como o truque imoral e perverso que era no início e é até agora?

O que me levava àquela conclusão, já em 1990, era a patente insinceridade de uma campanha moralizante que fomentava a criminalidade violenta ao mesmo tempo que concentrava no ódio à “classe dominante” o sentimento de indignação popular, pervertendo assim toda a escala de valores e transformando o aparato investigativo do Estado numa máquina de destruir lideranças e fazer revolução. Na hora em que aliados do narcotráfico colombiano – a mais vasta e cruel organização criminal já registrada na história do continente – são publicamente aceitos como guardiões da moral, enquanto suspeitos de delitos incruentos são expostos à execração como monstros e centenas de reputações vão caindo umas após as outras como pinos de boliche, está claro que se trata de uma aplicação clássica e até banal do velho preceito leninista: “Fomentar a corrupção e denunciá-la”. Como neste país ninguém mais conhece a estratégia leninista, exceto os que a praticam, a operação é executada com a facilidade com que vigaristas tarimbados fariam de trouxa um bando de caipiras, com a solícita colaboração de vítimas incapazes de captar a ligação de causas e efeitos.

Mesmo a recente comprovação de que a guerrilha colombiana comanda o tráfico de drogas no próprio território brasileiro não mudará isso em nada. Os amigos da guerrilha, os padrinhos de seqüestradores, os ideólogos que ensinaram a teoria e a prática da revolução aos detentos dos 29 presídios amotinados continuarão envoltos da auréola de pureza que compete a seu estatuto de gurus da moralização nacional, enquanto o país, de olhos grudados em denuncinhas de Luizes Franciscos, oferece as costas, sonso e inerme, ao estuprador internacional que se aproxima para agarrá-lo. Parece impossível despertar o Brasil do torpor hipnótico que o imbeciliza. Com a aprovação unânime e entusiástica das galinhas, a raposa é reeleita diariamente chefe de segurança do galinheiro.

Em 17 de março de 2001

Olavo De Carvalhos Lecture The Structure Of The Revolutionary Mind

By Donald Hank | ,

Even the best of observers have trouble figuring out what the Left is, or what the difference between left and right is, or what these concepts even mean any more.

Great strides have been made recently, however, with the recognition, among the most astute observers, that Hitler’s Third Reich is by no means an example of rightwing ideology and policies in action, contrary to current political doctrine.

Many conservative writers have already concluded that Hitler was not a rightwinger, based mostly on his National Socialism .

Indeed Mr. de Carvalho’s (as yet unpublished) lecture “The structure of the revolutionary mind,” cites the recent book “The Dictators: Hitler’s Germany and Stalin’s Russia” by Richard Overy, which demonstrates the parallels between Hitler and Stalin.

I had noticed that the compatibility of Hitler’s ideology with today’s European relativism was brilliantly highlighted in Ben Stein’s movie Expelled , and most poignantly in the scene in a former Third Reich mental “hospital” where patients deemed to be of no value to society were gassed (I couldn’t help but think of Terri Schiavo). When Stein asked the tour guide at the museum what she would say if she could talk to the perpetrators of that horror, she simply said that was another era and they had their reasons for doing what they did. Thus she clearly would not feel justified in judging these criminals by her standards (assuming she had any). Here was a woman who had certainly been educated in Germany, either the communist East Germany or the socialistic West Germany. Neither system prepared her to condemn Hitler’s actions because these actions were based on the same world view that Germany embraces today, atheistic humanism based on a tenacious belief in Darwinist principles of natural selection, and the correlative notion that man has a moral right and even obligation to support natural selection with his laws under which a race can be culled of inferior elements. Neither socialism nor “national” socialism reject this out of hand. Only Christianity does, and that religion is fading fast in Europe (while here Christianity is being absorbed by the Left. See here , here and here ).

All this helps clarify the compatibility between two world views that our education system and mainstream press insist are opposites.

But surprisingly, despite a lot of keen observation, before Olavo de Carvalho’s lecture, no one had yet managed to credibly characterize the Left in all of its main facets.

I have personally grappled with this for many years and had all but despaired of finding an adequate definition. And yet, how can a good American be a good American if he can’t identify the enemy of his way of life? How can he stand athwart history and shout stop if he doesn’t know what it is he must stop?

At the top of the first page of each issue of Izvestia was the slogan “Workers of the world unite!” Thus to people of my era, the Left portrayed itself as a system of social justice that aimed at creating a level playing field between workers and their bosses and attempted to share the wealth equally with a view to building a world free of poverty.

Yet today, we see the Left working hard to make fuel more expensive for the poor, not in any attempt at social justice but rather to “save the planet.” The main area where social “justice” is sought is between heterosexuals and homosexuals, and the current thrust is toward legalizing same-sex “marriage” which, if it triumphs, will trivialize traditional marriage, ultimately prompting fewer to marry and bear children, since part of the attractiveness of marriage has been a sacred religious ceremony affirming one’s faith, encouraging people to wait until marriage to enjoy sex, and therefore fostering heterosexual purity based on a biblical world view. None of this is apparent in the “gay” community with its emphasis on promiscuity (broad daylight naked orgies ) and its rejection of the biblical view of homosexuality. This focus on discouraging child birth is mightily supported by Planned Parenthood. Thus, ultimately, the leftist vision seems to be a world with more poverty and fewer children born to shoulder the burden of caring for the elderly, for example, by paying into the social services system. The once-proud vision of a world of strong healthy workers receiving equal pay for a better, more prosperous life, is quickly giving way to a vision of a world impoverished for the sake of an impersonal planet to whose riches mankind must increasingly forfeit its claims. We are taught that to consider humanity’s needs is to be selfish, that we must sacrifice our children’s future for the sake of a planet. And yet we are being asked to sever ties to that planet as if our destiny were separate from its.

Thus, obviously, the old left and the new left are different ideologically and many ordinary people are confused (particularly since an astounding percentage of Republican politicians embrace the Left’s policies). Some are confused into thinking that the new Left is more benign. These are the ones who believe the myth that communism is dead.

In fact, communism never died, it merely metamorphosed.

How to explain that the Left can completely substitute its original ideology and still be the Left?

Olavo de Carvalho had wondered the same thing. But he was born into a South American environment where leftism was the air they breathed. It was the worldview in academe and on the street and there was no other box to think outside of. Therefore, as a philosophy student, he was steeped in the literature of the Left, not just Marx and Hegel but the entire pantheon of leftist gods writing the blueprints for society. Thus he had read an enormous amount of this literature and is today one of the few living conservatives-having had his epiphany-who now truly understands the Left, something like David Horowitz, except that de Carvalho had the additional benefit of seeing a much more virulent leftism in action and up close.

Even so, Mr. Carvalho had to read and reread the old (and new) revolutionary literature to find a common thread, and what he found is surprising:

The Left (which he calls the “revolution”) is not a unified ideology or agenda at all, but rather a way of seeing the world, and specifically it is an inversion of what normal people call common sense. And this inversion is the sole unifying factor, the one common thread running through the revolution since the 13th and 14th centuries According to de Carvalho, revolutionary thought as we know it did not exist before about the 13th century; nor is it a function of chronological age. The myth that the young tend to be revolutionaries arises from the Left itself and serves the purpose of making the Revolution appear to be a natural phenomenon.

Instead, this revolutionary inversion has its origins in an early Christian heresy (arrogating to itself the role of Christ the avenger) and has at least three aspects:

1- Inversion of the perception of time Normal individuals, based on common sense, see the past as something immutable and the future as something that can be changed (it is contingent , as de Carvalho puts it).

Not so the leftist revolutionary, who sees the utopian future as a goal that eventually will be reached no matter what and the past as something that can be changed, through reinterpretation (what we call “rewriting history”), to accommodate it.

One example the author gives of this is how Soviet propagandists reinterpreted Dostoevsky, an anti-revolutionary of the first order. In his novel “Crime and Punishment,” young revolutionary Raskolnikov kills his wealthy elderly landlady as an act of solidarity with the poor class, in keeping with his world view that ownership of private property is immoral and that the revolutionary is entitled to take possession of it by any means at his disposal. But Raskolnikov is caught and goes to jail where the only book available to the prisoners is a Bible, which he reads, and is converted to Christianity, abandoning his revolutionary ideology, which he now understands as immoral.

While fully aware of Dostoevsky’s anti-revolutionary mindset, the early communists liked his novels and considered them too thoroughly Russian to ban, so they simply reinterpreted him posthumously and declared that his novels were written to highlight the need for more social justice. Thus the Left reached back into time and manipulated the thoughts of a man who would have been their adversary, making him posthumously a fellow communist.

2- The inversion of morality De Carvalho points out that because the revolutionary (leftist) believes implicitly in a future utopia where there will be no evil, this same revolutionary believes that no holds should be barred in achieving that utopia. Thus, his own criminal activities in achieving that goal are above reproach.

The author cites Che Guevara, who said that the revolutionary is the “highest rank of mankind.” Thus, armed with such moral superiority, Che was able to cold-bloodedly murder his political enemies wholesale.

Another example cited in the lecture is Karl Marx, who had an illicit liaison with his maid and then, to keep bourgeois appearances, made his son, the offspring of that liaison, live in the basement of his home, never even introducing the boy to his brothers in wedlock. The boy was never mentioned in the family and went into historical oblivion.

De Carvalho compares this despicable behavior with the more noble conduct of Brazilian landowners who had illegitimate children but made them heirs, yet made no claims of moral superiority!

To the revolutionary mind, it is normal that the revolutionary should pay no mind to the bourgeois morality, because after all, nothing he does can be construed as immoral, since the sum total of his actions hasten the revolution when justice will prevail. This is why conservatives frequently refer to the Left’s hypocrisy (for example, environmental champion Al Gore’s 20-fold electricity consumption compared to yours and mine).

By contrast, the author shows that by the Left’s own definition of “revolution,” the American revolution is not a revolution at all because our founders were men who held themselves (not just others) to high moral standards, and in no way tried to usher in a novel experimental utopian system, basing their actions and policies on older English traditions and common law, and modeling our Republic on these tried and true common-sense precepts.

3- Inversion of subject and object When revolutionaries like Che, and Hitler’s operatives, for example, killed innocent people, they would blame the people they killed for “making” them do it by refusing to go along with their revolutionary notions. This is one example the author gives of the inversion of subject and object.

De Carvalho also points out a number of other inversions and makes many fascinating points, but my purpose here is simply to clarify what the Left really is, to stimulate thought and to predispose the reader to buy his book when it comes out.

You will be a better American for having read the writings of – a great American.

Rejeitando Um Convite Inaceitavel I

Boa tarde, | 25 de dezembro de 2004

Sou anestesista e estudioso de minha profissão com mais de 150 trabalhos publicados, dois livros e inúmeros capítulos de livros nacionais. Sou um estudioso da filosofia contemporânea e tenho como base os estudos de André Compte-Sponville e Luc Ferry, além de ter lido desde os gregos até nossos dias, sem nenhum estudo filosófico, apenas leitura para melhorar minha vida e minha profissão.

Trabalho no Rio de Janeiro e fundei em São José do Rio Preto um Instituto de Anestesia Regional para ensino, pesquisa e trabalho. Como completei 30 anos de formado em dezembro deste ano e por trabalhar com Testemunhas de Jeová por mais de 25 anos, estamos em fase final de conclusão para implantar um Serviço de Cirurgia e Anestesia voltado para os Testemunhas de Jeová. Depois de mais de 3 anos de discussão o Hospital de Base de S.J. Rio Preto resolveu acampar meu sonho de criar um serviço onde possamos oferecer tudo de moderno para os TJ e até deixa-los morrer se for o caso. Convivo bem com a vida e a morte.

Diante do exposto, estou organizando para o próximo anos (março, abril ou maio) a inauguração deste Centro de Referência com um Sábado voltado para o estudo da cirurgia e anestesia nos Testemunhas de Jeová com um “Simpósio: Da Filosofia à Cirurgia”. Preciso de um filósofo para abrir o evento que fale do “Direito à vida e o direito à morte”, abordando filosoficamente a morte e o deixar morrer. Não sei se o Sr. é um estudioso deste assunto, caso seja gostaria que entrasse em contato comigo para delinearmos o programa e o projeto. Caso não te interesse, poderia indicar alguém que filosoficamente comungue com a idéia de morte. A medicina está avançando e em breve teremos o direito à Eutanásia, como já acontece em países como Holanda e agora França.

Um bom final de Natal e um abraço.

Luiz Eduardo Imbelloni dr.imbelloni@terra.com.br * * * 2) Resposta de Olavo de Carvalho Prezado doutor, Agradeço o convite, mas sou radicalmente contrário à eutanásia, prática que os nazistas foram os primeiros a adotar. “Direito à morte” é uma expressão autocontraditória, porque a vida é um pressuposto dos direitos: todo direito se extingüe ao extingüir-se a vida, e nenhum cidadão tem o direito de privar-se a si próprio — muito menos a outrem – de todos os direitos. Assistir o moribundo nos seus últimos instantes é uma coisa; empurrá-lo sutilmente para dentro do poço da morte é outra. Perder essa distinção é um dano irreparável à inteligência humana, já praticamente incapaz, hoje em dia, de distinguir entre um homem e um molusco. Idéias como a eutanásia, o aborto ou o casamento gay foram propositadamente concebidas, não para atingir seus fins nominais (meros instrumentos de propaganda), mas para corroer a racionalidade do edifício jurídico e todo o suporte cognitivo da civilização, inaugurando uma era de voluntarismo reivindicativo ferozmente pueril que só pode ser boa para candidatos a guias das multidões, especialmente os autodesignados futuros governantes mundiais (ONU, Comunidade Européia etc.). Nenhuma dessas bandeiras é separável, elas formam um sistema, e apoiar uma isoladamente é dar reforço a todas elas. Há muito mais implicações políticas e civilizacionais nessa questão do que se pode imaginar à primeira vista ou do que, provavelmente, o senhor desejaria conhecer. É uma ironia deplorável, mas biblicamente compreensível, que uma comunidade soi-disant cristã se preste tão servilmente, por falta de discernimento, a colaborar com a causa do Anticristo. Sem acrescentar a essa ironia o sarcasmo de desejar-lhe Feliz Natal em tais circunstâncias, subscrevo-me, Atenciosamente, Olavo de Carvalho * * * Veja também:

Rejeitando um convite inaceitável – II Em 25 de dezembro de 2004

Leituras

Censura Ontem E Hoje

Agora ela é científica e meticulosa | Época

Comparar a censura dos tempos do governo militar com o sistema gramsciano de controle das informações que a esquerda instalou no Brasil é comparar a gerência de um armazém de bairro com a administração científica de uma multinacional.

A censura militar, desde logo, se apresentava ostensivamente como tal e não fazia o mínimo esforço para ocultar sua presença. Todo mundo sabia que estrofes de Os Lusíadas e receitas de bolos assinalavam fatos suprimidos. Se um jornal, para não se prejudicar comercialmente, maquiava as lacunas com notícias inócuas, fazia-o porque queria. Ninguém o obrigava a isso. A censura reconhecia-se como fenômeno anormal e provisório, sem a menor ambição de manipular as consciências a longo prazo.

Em segundo lugar, seu alcance, ao menos de início, era antes policial-militar do que político. Havia a guerrilha urbana, com seqüestros e atentados por toda parte, e a ordem era impedir que a mídia se tornasse instrumento de propaganda dos guerrilheiros. Hoje sabemos que eles eram poucos e mal armados, mas na época não era essa a impressão que eles próprios disseminavam: se procuravam aterrorizar o governo para induzi-lo a sentir-se acuado por uma guerra civil, era sabendo que a reação de qualquer governo nessas circunstâncias seria implantar um estado de exceção, incluindo o controle das informações. Seu cálculo, como de praxe na estratégia comunista, foi duplo: se o governo não reagisse, arriscava-se a ser derrotado militarmente; se reagisse, poderia depois ser desmoralizado por décadas de gritaria contra a censura. A imensa produção historiográfico-lacrimal de acadêmicos esquerdistas que até hoje impõe à consciência nacional uma visão falseada daquele período já estava nos planos desde então: ela é o aproveitamento político da derrota militar, a continuação da guerrilha por outros meios.

É verdade que mais tarde os cortes se ampliaram, suprimindo notícias políticas sem ligação com a guerrilha. Mas, pelo seu próprio caráter aleatório e despropositado, muitos desses cortes eram o contrário de uma operação planejada: era a loucura geral disseminada entre funcionários ineptos e apavorados que, sem instruções precisas, buscavam desesperadamente mostrar serviço. Em terceiro lugar, a censura agiu exclusivamente sobre a mídia popular, sem interferir na circulação de livros (só uns poucos foram proibidos, porque ensinavam a técnica da guerrilha urbana) e de publicações acadêmicas. Por isso, a época hoje apresentada como a de mais rígido controle estatal do pensamento foi a de maior florescimento editorial esquerdista em toda a nossa História – muitas vezes com ajuda financeira do próprio governo – e a da consolidação da hegemonia esquerdista nos meios culturais e acadêmicos.

Objetivo limitado, renúncia à influência de longo prazo, execução canhestra por meio de funcionários incultos, abstenção quase completa de interferências profundas na esfera superior das idéias e da cultura. Tais as marcas que caracterizaram a censura militar, à qual seria um exagero demagógico dar as dimensões de uma verdadeira manipulação das consciências.

Em contraste, o controle esquerdista das informações, hoje, visa essencialmente ao longo prazo, tem a seu serviço os mais adestrados profissionais acadêmicos, age principalmente por cima, pelo controle das idéias e da visão histórica suscetíveis de moldar o futuro, e, sobretudo, é meticuloso no empenho de apagar suas pistas. O espectro de fatos e idéias cuja circulação ele bloqueia é imensamente maior que o abrangido pela censura militar, chegando a ocultar da população estudantil brasileira praticamente toda a produção dos pensadores liberais e conservadores das últimas décadas e capítulos inteiros da História nacional, como por exemplo a participação de Cuba na direção das nossas guerrilhas, durante 20 anos negada como pérfida mentira direitista e agora comprovada, sob protestos gerais, pelo corajoso estudo de Denise Rollemberg, Apoio de Cuba À Luta Armada no Brasil (Rio, Mauad, 2001).

Em 14 de abril de 2001

Estoy Fuera De Epoca

Adiós, Paulo Mollera | , año 1, número 3, 18 de septiembre de 2002

Fuera de época, en sentido cronológico, siempre lo he estado, pues no hay orgullo más cerril que el de “ser un hombre de su tiempo”. He explicado eso en El futuro del pensamiento brasileño y no pretendo repetirme.

Pero no estoy hablando de eso. Me refiero a Época, la revista, de la que he ido siendo retirado poco a poco, a lonchas, en una verdadera operación-salchichón, habiendo salido ahora, finalmente, la última loncha. El responsable por la decisión, Paulo Moreira Leite, no ha tenido siquiera el valor de transmitírmela personalmente, y ha preferido servirse de la intermediación de un director de O Globo , hombre educado que siempre ha tenido conmigo las mejores relaciones de cortesía y que, en rigor, no tenía nada que ver con el asunto.

Mi carrera en esa revista ha sido corta y previsible. Apenas dejó la dirección Augusto Nunes y entró en su lugar el conocido militante o ex-militante trotskista, mi suerte estaba echada. Primero, vino la reducción de mi columna (una de las más leídas de la publicación) de semanal a mensual, con el pretexto de dejar sitio libre para un tal “pluralismo”, entidad enigmática que después descubrí ser la persona de la Sra. Maria da Conceição Aquino.

A continuación, centenares de cartas de protesta dirigidas al Sr. Moreira – que a esa altura pasé a llamar Moleira [mollera] – fueron ocultadas no sólo a los lectores, sino al propio articulista en ellas mencionado. ¿Cuántas fueron, exactamente? Sólo sé de las trescientas y tantas cuyos remitentes tomaron la precaución de enviarme copia por e-mail. Ésas están reproducidas en mi site, http://www.olavodecarvalho.org /. Las otras desaparecieron para siempre en el abismo de tinieblas de la inteligencia del Sr. Mollera. Por una coincidencia irónica, o cínica, éste último, nada menos que en la edición siguiente, ufanándose del gran número de cartas de felicitación que había recibido por un escandaloso reportaje sobre drogas, escribió en editorial: “Las cartas no mienten jamás.” Escribió eso en el preciso momento que escondía, por tanto, trescientas y tantas verdades, quizá más.

Inmediatamente después, empezaron las provocaciones censorias. Primero, el Sr. Mollera podó en uno de mis artículos una frase entera, que seguía a la afirmación de que los lectores no eran idiotas: “ Los que son idiotas son ciertos jefes de redacción que se imaginan que, controlando un periódico o revista, controlan la conciencia del público “. Era, por cierto, sólo una sentencia genérica, suelta, sin pruebas ni ejemplos. Fue el Sr. Paulo Mollera quien, al suprimirla, la ejemplificó con una elocuencia superior a mis pobres recursos inventivos.

Después, como me había referido a gays y lesbianas con el apelativo de “rarotes” — un adjetivo inocente que incluso me he aplicado a mí mismo –, el Sr. Mollera dio prueba de rareza aún mayor, al considerar que la palabra era intolerable y hacer valer sobre ella su poder de censura.

Como nada de eso me irritase lo suficiente, la revista empezó a atrasar mi paga. El primer atraso vino con la excusa de que determinado artículo mío había llegado tarde. Excusa inconsistente, claro está. Lo que había pasado es que el Sr. Mollera, que había recibido el texto tres días antes del plazo, había resuelto retardar su publicación. Poco tiempo después, nuevo atraso, de dos meses, esta vez alegando que la reserva de recibos firmados por mí se había terminado – como si fuese algo enormemente difícil avisarme de ello unas semanas antes.

Después de esa larga serie de incomodidades de poca monta, que indican bien la medida de la envergadura del alma que las había producido, llegó la conclusión lógica, justificada como medida de economía, una alegación que, por cierto, no pongo en duda en modo alguno, pues es comprensible que una editora necesite de verdad apretar el cinto cuando entrega una de sus publicaciones a la dirección de un gran espíritu como el Sr. Paulo Mollera.

No estoy, evidentemente, enfadado con él ni con nadie. Sólo dejo constancia de esos hechos para la eventual curiosidad de los postreros y la posible enseñanza de los hodiernos.

Em 18 de setembro de 2002

Español

Brazils Sham Revolution

ARVALHO | LAVO DE

Translated by Marcelo De Polli There are Colombian guerrilla fighters roaming freely inside national borders and the government’s effort to disarm them is but a tiny bit of the effort governor Garotinho makes to disarm the pacific citizens of Rio de Janeiro. The MST ( Movimento dos Sem-Terra ), Brazil’s famous landless movement, tears off its mask, declaring they want not land but power, while members of the intelligentsia make an open invitation for the military to join the Left in a violent action against the government. The government of Rio de Janeiro teaches the Military Police soldiers how to disobey their officers, while in the press the growing level of verbal violence against the President has become an outspoken plea for his destitution no matter how. Mysteriously originated organizations spread e-mails claiming for a brutal purge in the political class — again, no matter how —, while on the streets a well-organized Leftist mob beatifies Fidel Castro on account of crimes four times as big as those that exposed Pinochet to universal scorn.

Does anyone doubt that there is a revolution brewing in this country? I won’ t waste my time trying to prove what is obvious. I will go straight to the next item: revolution of who against who?

Carl Schmitt defined politics as the direct confrontation that aims at solving, by means of force — whether psychic or physical — a conflict that can no longer be judged by the rational examination of the contending theses. Politics is, in short, of the same nature as war. Human relationships become politicized when the mediating role of moral, religion, superior culture, customs and traditions, etc. are abolished. And the more they do, the more everything gradually assumes the features of a fight for life or death between irreconcilable factions. In the eve of a war or revolution, politics invades hearths, brings apart parents and children, breaks up friendships, vanquishes respect, sympathy, tolerance. All things become as clear-cut and linear as a sword’s edge. Only one question becomes at all relevant: on which side you are. It’s “us” against “them”, friends against foes. The world has been split in two and you must decide, because your indecision is taken as a proof of your hostility. In this way you are put, under protest as it may be, in the party opposite to that of the person who posed the question in the first place.

Being things as they are, it is no surprise that, in order to win over the meek and the weak, the apostles of the revolution should present quite a simple picture of themselves and their adversaries: black on white, where everything is darkness on one side, and all the light is on the other side. The revolutionary discourse defines both itself and its adversary at the same time. Once the field has been divided, there’s nothing left but to choose. It is therefore highly appropriate to examine the revolutionary discourse in order to make a conscious decision.

The two factions of the Brazilian conflict are already perfectly defined, according to the revolutionaries of the moment. On one side is the Right: the government, with the globalist powers as their allies, bent on imposing on the country a neoliberal capitalist model based upon giving away our assets to international birds of prey. On the other is the Left, nationalistic and progressive, intent on defending what’s ours, willing to face the world, if needs be, to invert the terms of an unjust bargain that oppresses the people so that bankers may benefit.

That said, any citizen whose moral sense isn’t clouded by selfish interests will undoubtedly choose the latter. If we judge the matter on the terms presented by the Left, there is no possible doubt. Even myself, who hate globalism as much as I love Brazil, will join the vanguard of the revolution to fire, if I can, the first shot on the damned foreign agents.

But then a problem comes up. What if the revolutionary equation, so sharp and clear in its verbal formula, does not actually correspond to the division of forces in dispute? What if, underneath the apparent factions, yet more powerful agents, whose many colors do not fit into the two-color spectrum of revolutionary discourse, are taking steps in the backstage to deviate both sides’ actions from their overly plain and schematic course? What if, as so often is the case with human action, the confrontation of discourses does not reflect the confrontation of real forces? Then no one can be sure that the winning discourse will lead to power the faction it nominally represents, rather than, by the hand of the devil, the opposite faction or any other, of which nobody has ever heard. This is almost invariably the fate of revolutions. In the French revolution, the people were opposed to royalty. It was a military neo-aristocracy who eventually rose to power, and at the end of its reign returned to power the old aristocracy, which had only left it in order to make way for a bourgeois oligarchy that had already become noble by buying titles. In the Russian revolution, workers and peasants were nominally opposed to the feudal royalty and the army. It was the revolutionary middle-class intelligentsia who rose to power.

The slightest misplacement between discourse and reality, in these times, turns revolution into a bloody waste that produces no more than an even worse and more oppressive situation than the former.

Having chosen simply to listen to the discourse, let us take a step back and behold the gaping abyss between words and facts.

On one side is the government. It is true that, in the economic sphere, it favors international capitalism. But does it mean we have a Right-wing government? How can it be Right-wing if, more than any of its forerunners, it is earnestly dedicated to make the national education system into an official system of Marxist indoctrination? How can be Right-wing a government that sponsors and encourages all the boldest demands of international neo-Leftism, like abortion, feminism, and affirmative action? How can a President be Right-wing, who not only openly declares himself a follower of Antonio Gramsci, but also puts his teachings into practice more tenaciously and efficiently than the Left itself, handing over the government’s psychological action machine to the “cultural revolution” destined to sweep away from people’s soul all traditional values which oppose the revolutionary uprising?

On the other side is the Left. It is true that it is valiantly opposed to the selling of some State companies; remarkably, those that are now under control of its party members. But how can be nationalistic the organizations sponsored by Mr. David Rockefeller, one of the masterminds of capitalist globalism? How can the left-wing men who govern Rio de Janeiro be nationalists, whose first concern was to follow to the letter the firearm control program conceived directly by the New World Order headquarters? How can a young governor — Garotinho — be a nationalist, who having hardly begun his political career, has already been promoted by Time magazine to “great leader of the third millennium”? How can the men of the MST be nationalists, who are sponsored and spoiled by the British Royal House? How can the Brazilian movement of affirmative action be nationalistic, that not only directly imports a North-American legal model, but is also sponsored by Ford Foundation, by the European Economic Community and by BankBoston, and that denies national unity to affirm racial unity beyond it, in a policy of outspoken divisionism from which only international ambitions can benefit? How can the ecological and pro-Indian Left be nationalistic, that favors the occupation of our territory by international NGOs?

I regret to inform that this whole revolution business is not at all clear. There is no nationalistic Left struggling against an internationalist Right. There are internationalists everywhere — some trying, on the Right, to stifle Brazilian nationalism under liberal pretexts, and some, on the Left, trying to corrupt it, recycle it and induce it to serve, in full unconsciousness, the New World Order. The former call themselves conservatives, but do all within their means to stifle all popular economic initiative under a leaden bureaucracy. The latter call themselves nationalists, but their programs and pretexts are issued straight from the same headquarters that dictate the speeches of the former. Brazil is an island of naiveté surrounded by scoundrels in all directions.

Our so-called revolution will have only one winner, and it won’t be us, Brazilians. Worse still, this winner will get the upper hand, no matter which one of the clashing armies wins the apparent battle. If the revolution is stifled or emptied, the present establishment will go on retailing the State. If it is victorious, it will receive the bill referent to all international help that made it possible, and there will be no compromise, no groveling, no submission enough to quench the thirst for recognition of the Left’s globalist patrons, from Rockefeller to Prince Charles.

To those who, after all that, still use the nominal definitions of capitalism and socialism as a basis for their reasoning, objecting that the latter is essentially opposed to the interests of multinational capital, I ask that they step down for a while from their terminological pedestal, that they leave for a while the glass dome of their abstractionism, and agree to observe what is going on in China. For two decades the soi disant conservative academics, who are in fact as conservative as I am an Eskimo, have been promising us that the inflow of foreign capital would dissolve by itself the hard shell of Chinese bureaucracy. This would bring about, along with an increase on business, the end of communism and the dawn of Chinese freedom. With this pretext they have made a lot of money in dealings with China — and the old regime is still there, strong and steady, getting rich on account of its partnership with the international monopolist capital, which in turn is getting rich over the cheap workforce of a people disciplined by the most effective human being taming machine ever seen in this world, the communist dictatorship. China was the big political-economical laboratory of the 20th century. It was there that the formula of the “double regime” was successfully tested — which at the bottom line is not double at all; it is only the repetition of the classical alliance between the State and the monopolist capital. A regime we have been acquainted with for a long time, the good old fascist economy. That China needs to keep a façade of nationalism, as harmless as a transsexual just gone out of surgery, is something that should not surprise us: the nationalistic discourse is still the easiest pretext of all forms of fascism. But how are we to believe in this nationalism if the President of the United States of America himself is suspect of participation in the transmission of nuclear secrets to China? No, nobody will mess with China nor will China mess with anybody. China is what it has always been and, now that it has found a new way to extend the life of its regime at the expense of other people’s money, it will never come out from where it now stands. China will never oppose the New World Order, for the simple reason that it has been great for China, and that there is no incompatibility between global capitalism and a local socialism that is well integrated in the New Order.

If that kind of socialism can exist in China, why couldn’t it exist here in Brazil? And by the way, what is actually easier for the globalist powers — to take risks on a Brazilian market economy tending to conquer new markets and therefore likely to become protectionist tomorrow or later, or a socialist economy where everything is foreseen and delimited beforehand, including the place of honor reserved to foreign capital? It is with these things in sight that the masterminds of globalism invest, fearless, on the future of our Left, advising Garotinhos, financing affirmative action activists, awarding land invaders.

Our revolution, alas, is a sham. By joining it, we risk wasting on a fraud the scarce reserves of our nationalism. And our nationalism will take on the responsibility of a violent transition only to find out, once it is done with, that there is no longer a place for it in the resulting new order. Brazil will have become socialist, yes, but this socialism will be very well integrated in the globalist scheme of those who have planned it, stimulated it and financed it from New York and London.

Disgracefully, the antagonist hypothesis to the revolution, the President’s fake normality, is also a fraud. It is a fraud because, pretending to oppose the revolution, it rather fosters it by all cultural and educational means available. This is a proof that, under the disguise of conservative discourse, what it upholds is not classical capitalist liberalism, the true liberalism of free market and of incentive to the economic creativity of the people, but globalist monopolism. Which, as we have seen, far from having something to object to socialism, makes use of it right in front of our noses as a means to swerve, spend and wear down the small amount of nationalism we have left.

If they have got something above their shoulders, if they want to get to the 21st century politically alive, our nationalists will resign from any complicity with the Left, preserving their identity even at the cost of losing some misleading alliances. And the conservatives, if they do not want to serve as an instrument to the most violently commanding monopolism the world has ever known, they’d better stay away from all ersatz capitalism and get some dialogue done, as fast as they still can, with the sincere nationalists.

It is true that authentic liberals are as few and far between as authentic nationalists, and both of these factions together are the minority within the minority next to the two giant social-globalists: the government and the Left.

Honra Temivel

A entrevista do comandante das Farc à | O Globo

Folha de S. Paulo do dia 27 comprova: cabe a mim a temível honra de ter sido, por ocasião das eleições de 2002, o único jornalista brasileiro que disse a verdade sobre as relações íntimas entre o PT e a guerrilha colombiana. Todo o restante da mídia preferiu ocultá-las para não trazer dano à candidatura de seu querido Lula, o qual decerto não teria a votação que teve se esses fatos chegassem maciçamente ao conhecimento do eleitorado.

Reyes admitiu que foi sucessor de Lula na presidência do Foro de São Paulo — coordenação do movimento comunista no continente — e que no Brasil as Farc têm contatos regulares “com distintas forças políticas e governos, partidos e movimentos sociais”, destacando os nomes de — adivinhem quem? — Emir Sader e Frei Betto. Mas nada do que ele disse é propriamente novidade. Em novembro de 2002, tudo isso, e mais a assinatura de Lula num manifesto que em defesa das Farc acusava o governo colombiano de “terrorismo de Estado”, já constava de documentos publicados no site do próprio Foro, os quais, não podendo ser negados, foram cobertos de silêncio. Sua divulgação teria, com efeito, pegado muito mal, sobretudo porque ainda estava viva na memória do eleitorado a confissão do traficante Fernandinho Beira-Mar ao exército colombiano, de que havia trocado armamentos trazidos do Oriente Médio por 200 toneladas de cocaína das Farc para revenda no mercado nacional.

Mais tarde, a recusa geral de dar divulgação às denúncias do deputado Alberto Fraga, sobre possíveis contribuições em dinheiro das Farc para a campanha de Lula, não foi senão a extensão lógica da omissão consensual que já durava meses.

A simples existência do Foro de São Paulo continua, até hoje, praticamente desconhecida do público, malgrado o reconhecimento explícito, da parte de Lula, de que deveu sua eleição aos esforços “não somente de brasileiros mas de outros latino-americanos”, como ele disse logo no seu discurso de posse. Que país é este, que, informado oficialmente de que estrangeiros influenciaram o curso de uma eleição no seu território, não tem nem a curiosidade de perguntar quem são eles? Nem no tempo da censura militar foi possível ocultar por tanto tempo informações tão relevantes. Por ter furado esse bloqueio, tornei-me objeto de ódio de muitos colegas de profissão, recebi uma enxurrada de insultos e ameaças de morte, e ainda houve quem achasse muito antidemocrático que eu protestasse contra essas efusões de gentileza. Mais ainda: pelo meu esforço quixotesco de contrabalançar neste modesto espaço a omissão da mídia inteira, fui até acusado de ser “repetitivo” em vez de variar digestivamente os assuntos da coluna...

Tudo isso é extravagante, é louco, é assustador, mas no fundo não me espanta, pois está tudo coerente com o espírito insano da época e do lugar, tal como retratado, com realismo implacável, no livro recém-publicado do comentarista econômico Luís Nassif, “O Jornalismo dos Anos 90” (São Paulo, Editor Futura, 2003). O autor atém-se mais aos fatos da sua área especializada, com uma ou outra excursão a outros domínios, mas os episódios que ele coleta e expõe com grande coragem e honestidade são suficientes para justificar uma conclusão geral: a mídia brasileira é, com assombrosa freqüência, menos voltada para a informação correta do que para a destruição, a todo preço, das pessoas e instituições que caiam no desagrado da classe jornalística. Sua ânsia de revirar esgotos para sujar por igual as reputações de culpados e inocentes contrasta brutalmente com sua olímpica falta de curiosidade no caso Farc-PT.

Com poucas horas de intervalo, nosso governo condenou os terroristas de Bagdá e premiou com sólida indenização mais um terrorista nacional dos anos 70, depois de tantos já beneficiados pela generosidade estatal. Deve-se concluir dessa atitude que, segundo nossas autoridades, o terrorismo só é mau quando praticado longe do nosso país? Para os que jogam bombas no Iraque, vergonha e ignomínia. Para os que as jogam no Aeroporto de Guararapes ou no QG do II Exército, honra e glória. Melhor: honra, glória e dinheiro.

Mas, se o tratamento dado aos criminosos é tão paradoxal, ainda mais surpreendente é aquele reservado às vítimas. Se você ficou trinta dias em cana por incitar greve ilegal, sem que na cadeia nenhum sargento, praça ou oficial tocasse num único fio de seu cabelo ou de sua barba, você tem direito a indenização substantiva e a uma bela aposentadoria como a do sr. presidente da República. Mas, se você teve seu corpo dilacerado em tantos pedaços pela explosão de uma bomba que nunca mais você foi visto inteiro ou mesmo em partes no mundo dos vivos, como aconteceu com o sargento Mário Kozel Filho, você tem o direito de ser desprezado pela mídia como inexistente, enquanto seus familiares esperam, envelhecem e sofrem em humilhante silêncio durante três décadas e meia, vendo seus assassinos serem homenageados e premiados, e obtendo no fim uma pensão mensal de R$ 300,00, o equivalente, pelos meus cálculos, a outras tantas cuspidas mensais na cara.

Sei que, graças a essa simples e irrecusável comparação, serei chamado de fanático, de nazista, de genocida, de assassino de índios, negros, mulheres, gays e inumeráveis criancinhas daquelas que aparecem nas fotos do Sebastião Salgado.

Mas — querem saber? — pouco me importa. Se pararem de me xingar é que vou começar a me perguntar onde foi que errei.

A Unicamp vai realizar, em novembro, mais um “Colóquio Marx-Engels” do seu “Centro de Estudos Marxistas”, o qual, como se vê pelo nome e pela lista de membros, não é uma instituição acadêmica supra-ideológica mas um think tank revolucionário (mais um!). Caberia a Unicamp inteira nessa classificação? Não sei. Só há um meio de testar. Vou encaminhar oficialmente à sua reitoria a proposta de um “Colóquio Antimarxista”, com a participação dos mais eminentes intelectuais anticomunistas do mundo (David Horowitz, Ronald Radosh, Harvey Klehr e tutti quanti ), e veremos como a entidade reage. Pode examinar o caso com isenção e seriedade ou pode tomá-lo, a priori , como insulto e provocação intolerável. Que é que vocês acham? Juro que vou fazer o teste.

Em 30 de agosto de 2003

1968 Reencarnado

9 de outubro de 2008 | Diário do Comércio

Escreve na edição do dia 8 do Washington Post o colunista E. J. Dionne, importante formador de opinião com muita influência nos meios católicos de esquerda: “O debate de ontem tornou claro que o esforço de John McCain no sentido de mudar o foco da campanha para as guerras culturais dos anos 60 não vai funcionar. Os eleitores querem candidatos que falem sobre problemas e como resolvê-los, especialmente os enormes problemas com que nos confrontamos agora.”

Bem, se E. J. Dionne quer problemas enormes, é fácil indicar-lhe um que é talvez o maior de todos os que a sua nação já enfrentou: a onda mundial de ódio aos EUA, que boicota por toda parte as iniciativas diplomáticas, militares e comerciais do governo americano, favorece a ação dos terroristas no plano internacional e a de seus aliados e protetores dentro do território americano e fomenta toda sorte de sabotagens, confusões, erros desastrosos e políticas suicidas que desembocam na presente crise econômica do país.

Esse movimento é exatamente o contrário do que o otimismo vão dos “neoliberais” anunciava que aconteceria em seguida à queda do regime comunista na URSS. Ele substitui com vantagem tudo o que a velha encarnação soviética do movimento revolucionário tentou fazer para destruir os EUA. No seu conteúdo e na sua retórica, ele não difere substantivamente das “guerras culturais dos anos 60”, que permanecem em última análise a sua fonte básica de inspiração. A diferença está no tamanho: na comparação, elas se reduzem às dimensões de uma farra de estudantes. Naquela época, suas únicas armas, materialmente falando, eram pedras e coquetéis Molotov. Geograficamente, seu alcance não ia além de Paris, de Nova York e da California. Sua força vinha principalmente do apoio midiático e do paternalismo cúmplice que amolecia o coração de seus inimigos. Decorridas quatro décadas, a gritaria estudantil transformou-se num movimento mundial magistralmente organizado, apto a acionar campanhas anti-americanas com um discurso uniforme em escala planetária, da noite para o dia, em articulação estreita com organizações terroristas na Europa, na Ásia e na América Latina, prontas para ações muito mais vastas e destrutivas do que tudo o que se viu na década de 60. Na época, quem pensasse em estourar algo do tamanho das Torres Gêmeas seria enviado ao hospício. Hoje não há mais hospícios (foram fechados por influência da antipsiquiatria, uma das armas ideológicas da guerra cultural) e as idéias dos loucos adquiriram uma tremenda viabilidade prática.

O anti-americanismo global é a continuação das “guerras culturais dos anos 60” por outros meios — que não excluem, mas absorvem e transcendem infinitamente os anterioriores. Ele não surgiu espontaneamente: foi criado e fomentado desde dentro e desde fora dos EUA por um conjunto de poderes formidáveis, entre os quais se destacam algumas das fortunas bilionárias que subsidiam a candidatura Obama — como por exemplo a de George Soros, a do príncipe saudita Alwaleed bin Talal (cujo emissário Khalid Al-Mansour financiou os estudos de Obama em Harvard), e a da própria Penny Pritzker, coordenadora financeira da campanha do candidato democrata e dona do Hotel Hyatt de Nova York, onde a elite esquerdista, sob protestos de centenas de judeus do lado de fora, prestou rica homenagem ao mais explícito inimigo dos EUA e de Israel, o presidente iraniano Ahmadinejad. Não existe, nem no planeta Terra nem em Hollywood, uma só celebridade anti-americana que não apóie de todo o coração o candidato democrata. Estariam loucas, drogadas, apostando tudo contra si mesmas, ou têm objetivamente algo a ganhar com a vitória dele? A acreditarmos no discurso eleitoral de Obama, ele tem hoje intenções exatamente opostas às de seus fãs mais ardentes, a quem no entanto representou com tanta fidelidade ao longo de toda a sua carreira política. Como observou Thomas Sowell, “Obama está se candidatando com uma imagem que é diretamente oposta a tudo o que ele andou fazendo durante duas décadas. Sua habilidade em fugir do seu passado é tão notável quanto as grandes escapadas de Houdini.”

Um político não se conhece pelo que ele promete hoje, mas pelo que ele fez ontem. Segundo Dionne, quem quer que obedeça a esse princípio do senso comum está “desviando o debate para as guerras culturais dos anos 60”. Mas não são os próprios adeptos do culto obâmico universal que chamam o 1968 de “o ano que não terminou”? Não são eles que dão à mitologia esquerdista dos anos 60 uma atualidade temível no Fórum Social Mundial, na onda terrorista e na virulência centuplicada do anti-americanismo global? Na verdade, concentrar o fogo dos argumentos no discurso de Obama, evitando tocar no seu passado, é fugir dos “enormes problemas com que nos confrontamos agora”, nos quais esse passado se perpetua e se amplia poderosamente, e aceitar como genuína a imagem de um Obama ideal, inventada para fins de pura propaganda. Se Dionne exige que os candidatos republicanos façam precisamente isso, é porque ele próprio personifica na atualidade um resíduo vivo e atuante daquelas “guerras culturais”: a teologia da libertação, que ele absorveu de Harvey Cox e que faz dele a contrafação simiesca de um pensador católico, empenhada em persuadir os fiéis a que não olhem o Messias democrata com os olhos da cara, e sim com os olhos da fé.

Em 9 de outubro de 2008

Nos A Direita

9 de março de 2006 | Jornal do Brasil

É verdade que existe no Brasil uma “nova direita”. Seus meios de expressão são o semanário eletrônico Mídia Sem Máscara , umas conferências do Fórum da Liberdade que se realiza anualmente em Porto Alegre e jamais é noticiado fora do Rio Grande, uns quantos blogs espalhados pela internet e cinco colunas de imprensa, incluindo esta. Somem o custo de tudo e verão que não paga uma campanha eleitoral de vereador. Por isso ou por absoluta falta de vocação, o referido movimento — se é que chega a ser um — não tem entre seus adeptos e simpatizantes um só político, mesmo chinfrim. Compõe-se inteiramente de intelectuais, estudantes, empresários, advogados, militares da reserva e outros cidadãos sem mandato, nem partido, nem cargo oficial de espécie alguma. Não tem um jornal impresso, mesmo aperiódico e deficitário. Não tem um programa de rádio ou TV. Não tem meios de publicar livros: de vez em quando consegue, por muito favor, meter um ou dois no catálogo de alguma editora, escondido sob milhares de títulos esquerdistas. Não tem uma entidade que o represente, nem assembléias ou reuniões. Não tem um programa de ação nem um ideário comum, exceto a convergência espontânea e precária de opiniões pessoais. Sua atuação consiste exclusivamente em proclamar que tudo está muito mal e que não há nada que se possa fazer contra isso.

Não obstante, desperta ódio, temor e suspeitas como se fosse uma força política organizada, poderosa, disciplinada, repleta de verbas, militantes e meios de difusão, pronta a tomar o poder e meter na cadeia todos os esquerdistas que não consiga eliminar fisicamente.

Ao vê-lo, senadores, deputados, ministros, chefes de redação, presidentes de ONGs milionárias e apadrinhados do Mensalão já começam a tremer e choramingar, sentindo-se vítimas de perseguição macartista e agarrando-se uns aos outros em busca de proteção. Creio mesmo que alguns deles, prevendo o pior, já tratam de reforçar suas contas na Suíça para garantir um exílio confortável nos dias negros em que o país será governado com mão de ferro pelo Reinaldo Azevedo, pelo Diogo Mainardi ou, sem falsa modéstia, por este colunista.

Igual sentimento de alarma observa-se na extrema direita. Integralistas, discípulos do sr. Lyndon La Rouche e meia dúzia de milicos xenófobos proclamam, com a desenvoltura de insiders informadíssimos, que estamos a serviço dos bancos americanos. Devem ter razão, pois não é possível que pessoas tão imunes a contaminações marxistas se enganem junto com a esquerda inteira. Apenas lamento que os banqueiros da Virginia não tenham sido notificados disso, pois teimam em me recusar um crédito de três mil dólares para a compra de um carro usado.

Há também os intelectuais, que discutem entre si na busca de uma explicação para a nossa existência, não porque desejem realmente encontrá-la, mas porque sabem que assim fazendo dão a impressão de que somos um fenômeno esquisito, uma “aberração” no sentido gramsciano do termo, uma coisa gratuita, desprezível e sem função na ordem social presente. Como, porém, ao mesmo tempo dizem que somos a burguesia endinheirada, isto é, o topo e comando supremo dessa mesma ordem social, ficamos sem saber o que, afinal, querem de nós. Esse pessoal é incontentável.

Por fim, há na esquerda quem diga sermos, em substância, a velha “direita” ricaça e fisiológica que, no seu entender, governou o país desde Pedro Álvares Cabral. A força emporcalhante dessa associação é considerável. Felizmente os respingos fecais que vêm dela só nos atingiriam se não soubéssemos que essa direita é tão genuinamente direitista que deu a maior força para o PT nas eleições, participou de toda a festança obscena do partido governante e, no fim das contas, se tornou petista ao ponto de hoje em dia sua personificação máxima, na opinião de alguns esquerdistas mais assanhados, ser o próprio Lula. Se, em desespero de causa, algum íntimo dessa promiscuidade latrinária tenta nos usar como papel higiênico, é porque contempla horrorizado o estado da sua própria cueca.

Em 9 de março de 2006

A Morte Do Pato

9 de março de 2002 | O Globo

A operação policial que — por coincidência, segundo o sr. ministro da Justiça, por mera coincidência — levantou suspeitas quanto à idoneidade do casal Sarney no preciso momento em que a ascensão de Roseana começava a ameaçar tanto Serra quanto Lula serviu no mínimo para mostrar que as facções aparentemente inimigas que sustentam esses dois candidatos estão firmemente unidas no propósito de não permitir que nunca, nunca mais, um concorrente estranho à comum origem ideológica de tucanos e petistas venha a pôr em risco a hegemonia esquerdista sobre a vida pública nacional.

Separados por diferenças menores, o esquerdismo “modernizado” de FH-Serra e o esquerdismo mais tradicional da oposição petista estão juntos na luta pela sua meta prioritária comum, acalentada desde as primeiras leituras de Antonio Gramsci nos círculos esquerdistas dos anos 60, que é a de fazer com que todo o espaço dos debates nacionais venha a ser monopolizado pelo debate interno da esquerda, sem lugar nem chance para mais ninguém, usando o próprio arcabouço formal do pluralismo democrático como meio de impor a toda a nação o mais imbecilizante unanimismo ideológico.

Seguindo estritamente a lição de Gramsci, essa estratégia foi aplicada primeiro nas áreas circundantes — cultura, educação, mídia, sindicalismo — sem afetar diretamente a política partidária e o Congresso. Enquanto em toda parte a liberdade de expor idéias antiesquerdistas diminuía semana após semana, o lado “oficial” da política conservava a aparência de diversidade pluralista necessária a desencorajar toda crítica mais aprofundada do estado de coisas.

Porém era fatal que, mais cedo ou mais tarde, implantada a hegemonia em todos os setores circunvizinhos, chegasse a hora de impô-la também na esfera política stricto sensu. A remoção da candidatura Roseana fará do próximo pleito uma cópia exata das eleições estudantis dos anos 60, moldadas segundo a definição marxista da democracia como “centralismo democrático”, isto é, como livre enfrentamento entre facções unidas por princípios ideológicos imunes a qualquer disputa.

Certos acontecimentos significativos, como a fácil destruição política do governador Antonio Carlos Magalhães ou a subida ao Ministério da Justiça de um terrorista impenitente como o sr. Nunes Ferreira, já deveriam ter bastado para mostrar que a presença de uns quantos liberais e conservadores no governo foi apenas uma concessão provisória, destinada a ganhar tempo para a consolidação de laços estratégicos fundados em lealdades históricas bem mais profundas, de acordo com a fórmula da “virada à esquerda” oferecida ao presidente da República, uns anos atrás, pelo seu mestre Alain Touraine.

Mas ganhar tempo não era tudo. O PFL também foi mantido na aliança governista para ser usado como bode expiatório dos erros de um governo que, permanecendo socialista em essência, se deixava identificar como “neoliberal” precisamente para esse fim.

Sob a fachada neoliberal, o governo pôde sustentar com verbas públicas o crescimento da maior organização revolucionária de massas que já existiu neste país, o MST — organização ostensivamente dedicada a treinamento de guerrilhas — sem que ninguém se lembrasse de acusá-lo de esquerdismo por isso, precisamente porque a participação do PFL no Ministério inibia toda crítica “de direita”. Enquanto isso, os ataques vindos da esquerda tinham por alvo justamente o pretenso “neoliberalismo”, acertando não o governo como um todo, mas sobretudo sua ala pefelista. Para tornar as coisas ainda mais cínicas, esses ataques visavam principalmente as privatizações, mas, como estas personificavam estereotipicamente a identidade “neoliberal” do governo, ninguém prestava atenção ao detalhe de que serviam para favorecer, junto com os tão odiados compradores estrangeiros, o próprio MST. Este, de fato, foi recebendo terras e mais terras que, em vez de serem desapropriadas mediante prévia e justa indenização, como exige o texto constitucional, eram pagas com Títulos da Dívida Agrária, papéis de valor duvidoso postos em seguida no mercado e aceitos pelo governo para o pagamento da compra de estatais. À esquerda foi concedido, assim, o invejável e duplo privilégio de poder, ao mesmo tempo, beneficiar-se do desmanche do Estado e condená-lo na mídia com aquela retórica da indignação canina que se tornou, na comédia do auto-engano nacional, o emblema convencional da honestidade e da pureza.

Durante todo esse tempo, a direita liberal deixou-se usar como instrumento da sua própria destruição. Não apenas ofereceu-se gentilmente para o papel do saco de pancadas, mas deixou-se hipnotizar, enfeitiçar e dominar pelo discurso ideológico esquerdista ao ponto de o próprio pai da candidata pefelista, o ex-presidente José Sarney, tornar-se autor de um projeto de quotas raciais que estatui como lei alguns dos mais insanos preconceitos “politicamente corretos” já desmoralizados pela experiência da affirmative action em vários estados americanos. Com essa longa carreira de subserviência oportunista e suicida, não era de espantar que mais dia menos dia o partido mais representativo da crença liberal fosse submetido a algo como a suprema humilhação que acaba de cair sobre sua candidata presidencial.

Só não direi que a curta e feliz existência da esperança chamada Roseana foi o canto de cisne da direita liberal para não ser acusado de elevar, na escala estética das espécies animais, uma facção política que se deixou assar como um pato. Parafraseando Tennyson, direi apenas que, após muitos verões, também os patos morrem.

Talvez o assalto oficial à reputação de Roseana, com todo o cinismo das coincidências inverossimilmente oportunas, sirva também para alertar os liberais para o fato de que há doze anos as iniciativas policiais da inquisição “ética” se voltam sempre contra eles e jamais contra socialistas, comunistas e afins, mesmo quando suspeitíssimos de cumplicidade com a narcoguerrilha das Farc. Diria o ministro da Justiça que é tudo coincidência, pura coincidência, e pode até ser que, por coincidência, haja alguém que acredite no ministro. Afinal, quem acredite na existência de neoliberalismo tucano pode acreditar em qualquer coisa.

Subir ao governo com FH pareceu à direita liberal, na época, um grande feito de esperteza pragmática. Mas que é a esperteza pragmática senão ingenuidade de caipiras, quando comparada a essa jóia de sutileza, de hipocrisia e de fingimento que é a estratégia gramsciana de transição gradual e indolor para o socialismo, estratégia da qual se confessam seguidores e adeptos tanto o presidente da República quanto seus aparentes adversários da esquerda tradicional?

A Mao Direita Da Esquerda

9 de junho de 2001 | O Globo

Desde o fim da URSS, a esquerda nacional tem-se empenhado dia e noite em advertir os nossos nacionalistas — especialmente os das Forças Armadas — contra o perigo do mundo unipolar e em persuadi-los a tornar-se esquerdistas por patriotismo. Há pessoas que vivem disso, e há pessoas — até nas Forças Armadas — que acreditam nelas. Mas só um perfeito idiota não percebe que a potência dominante que nos impõe as políticas econômicas contra as quais a esquerda se bate é a mesma que nos impõe o politicamente correto, o abortismo, o feminismo, o ecologismo e, enfim, todos os modelos culturais que constituem o restante do programa da própria esquerda.

Muito menos é possível a um cérebro medianamente são deixar de notar que as fundações e empresas multimilionárias que subsidiam a difusão desses novos modelos de conduta são as mesmas que, por outro lado, sustentam a implantação da Nova Ordem Mundial e das tais políticas econômicas que os apóstolos desses modelos alardeiam execrar.

E quem quer que perceba essas duas coisas não tem como evitar a conclusão de que o mundo unipolar é ainda mais unipolar do que os porta-vozes da esquerda desejariam dar a entender. Tão unipolar, que dele provêm não somente as propostas que a esquerda odeia, mas também as que ela ama e personifica. E dele, igualmente, vem o dinheiro para subsidiar a implantação de uma coisa e da outra.

A esquerda, em suma, utiliza-se de um vocabulário estereotipado da época da bipolaridade para iludir os nacionalistas, desorientá-los e subjugá-los à estratégia mundialista, atraindo seus ataques numa direção falsa para que não atinem com a verdadeira. O componente essencial desse vocabulário é a velha identificação do “norte-americano” com o “liberal-capitalista”, da qual decorre, automaticamente, a confusão do nacionalismo com o estatismo, o Estado previdenciário e, “last not least”, o socialismo.

É com a finalidade de legitimar esse brutal engano que o discurso corrente dos homens de esquerda contra o FMI e a Nova Ordem Mundial apresenta estes dois fenômenos como se fossem a quintessência do liberal-capitalismo e não, precisamente ao contrário — como o demonstra a história — invenções puramente socialistas destinadas a estrangular, junto com a liberdade econômica, a liberdade política no mundo. FMI e Nova Ordem Mundial são capítulos da história do centralismo avassalador que tudo sacrifica no altar do controle burocrático e da economia planificada, os ídolos já mil vezes desmascarados, de cujos poderes místicos a propaganda socialista promete, no entanto, obter a cura de todos os males. Do primeiro, disse seu próprio inventor, Lord Keynes, que era “essencialmente uma concepção socialista”. Quanto à segunda, foi de ponta a ponta uma criação do famoso “think tank” londrino do socialismo gradualista que, após passar por várias denominações, acabou se notabilizando como Fabian Society. Foi um de seus membros mais ilustres o escritor H. G. Wells, que delineou já em 1928 o programa inteiro da Nova Ordem Mundial e o publicou no seu livro “Conspiração Aberta”.

“Aberta” é força de expressão. “Conspiração” também. O socialismo fabiano jamais se envolveu em atentados, comícios, passeatas, muito menos em conspirações de porão. Tudo o que ele faz é preparar intelectuais para colocá-los em altos postos de assessoria desde os quais possam, discretamente, mas sem nenhum segredo, incutir idéias socialistas nas cabeças dos governantes. O esquema foi inventado pelo teórico Graham Wallas, que com cinco décadas de antecedência formulou a estratégia gramsciana da “ocupação de espaços” e da “revolução passiva” (e dizer que Gramsci ainda passa por gênio!). A magnitude dos efeitos da coisa contrasta singularmente com a circunspecção dos meios. Praticamente todos os grandes giros da economia moderna no sentido centralizador e socializante do Estado previdenciário foram planejados por socialistas fabianos. Só para dar uma idéia do alcance da sua influência, os planos de governo de três dos mais poderosos — e dos mais estatizantes — dentre os presidentes dos EUA, Roosevelt, Kennedy e Johnson, foram diretamente copiados de obras de autores fabianos e adotaram até seus títulos: o “New Deal” de Roosevelt é um livro de Stuart Chase, a “New Frontier” de Kennedy um livro de Henry Wallace, e a “Great Society” de Johnson um livro do próprio Graham Wallas.

Malgrado seu estilo soft , antes social-democrático que comunista, os fabianos sempre consideraram a URSS uma valiosa aliada na sua luta contra o liberal-capitalismo. No fundo, ela foi bem mais que isso: desertores da KGB informaram que pelo menos um dos livros de Sidney Webb, o mais célebre presidente da Fabian Society, não foi escrito por ele, mas veio pronto do Ministério das Relações Exteriores soviético. É compreensível. Muito antes de Gramsci, a URSS também já havia descoberto as virtudes do gradualismo reformista que, pelo alto e no macio, socializa o mundo mais depressa do que poderiam fazê-lo alguns milhares de Ches Guevaras — os autênticos bois de piranha do único socialismo que sai sempre vencedor.

A suprema vantagem do método discreto é que, quando os engenhosos planos estatizantes de intelectuais socialistas desconhecidos do povão fazem por fim pesar sobre o bolso das massas o custo imensurável da sua tolice, nunca faltam na praça intelectuais de esquerda radical, que, ignorando ou fingindo ignorar tudo do trabalho de seus parceiros fabianos, lançam a culpa do desastre... no capitalismo liberal!

Não veja a tua mão esquerda o que faz a tua direita, ensina a Bíblia. O socialismo tem a sua própria versão demoníaca desse ensinamento: não vejam as tuas massas barulhentas o que fazem os teus aliados silenciosos — e assim, não sabendo quem as oprime, elas descarregarão sua fúria no bode expiatório que melhor convenha à tua estratégia.

Resta saber apenas se os nossos nacionalistas — sobretudo os das Forças Armadas — consentirão em reduzir-se ao papel de massas manipuladas.

Em 9 de junho de 2001

Noticias Eleitorais

9 de julho de 2002 | 9 de julho de 2002

Os resultados das pesquisas de opinião para os principais cargos majoritários divulgados no fim de semana que passou trazem uma grande notícia, no sentido de sua importância política e estratégia: José Serra não decolou. Com isso, todo o esquema de poder que controla o Palácio do Planalto pode ser varrido, subindo em seu lugar outra estrutura de forças políticas.As manchetes dos jornais trazem meu conterrâneo Ciro Gomes e sua ascensão. Deveriam ter trazido Serra e a sua estagnação, notícia de muito maior importância. Se a situação se mantiver, veremos o rebanho dos fisiológicos que a sua candidatura conseguiu reunir se bandear para outros nomes. Será impiedosamente cristianizado. Ninguém pode ser candidato de si mesmo. Serra bateu demais em fortes lideranças políticas tradicionais e afastou de si grandes puxadores de votos, esquecendo-se que não se ganha eleição de véspera e muito menos se constrói a condição de governabilidade ignorando os chefes políticos tradicionais. Errou duas vezes. Deveria ter copiado o método de FHC, porém a sua personalidade é muito diferente: ele prefere sempre o confronto ao entendimento, prefere a decisão solitária à colegiada, prefere o artificialismo a seguir o caminho natural. Precisaria agora voar alto nas pesquisas, mas seu corpo e suas asas são de um nutrido avestruz, que jamais deixa o nível rasteiro. Está impossibilitado de voar.

É cada vez maior a chance de Lula ganhar ainda no primeiro turno. Penso que o candidato só perde para si mesmo, para seus próprios erros e os de sua base política. A estupidez política que se vê em Alagoas (base eleitoral bem pequena) e que se vê também em Minas Gerais (segundo maior colégio eleitoral) pode comprometer a sua eleição. O escrutínio do segundo turno é uma outra eleição e aí alguém com o perfil de Ciro Gomes pode atropelar por fora, inclusive porque ele pode catalisar os apoios políticos desprezados pela coalizão governista e receber de braços abertos os fisiológicos, tão cortejados pelo candidato oficial, que ficariam agora órfãos.

Outra notável notícia é a vigorosa candidatura de Paulo Maluf em São Paulo, mostrando que o maior Estado da Federação está dentro das tendências internacionais de consagrar nas urnas os candidatos mais conservadores. É provável que Maluf sozinho seja o maior responsável pelo fracasso eleitoral da candidatura Serra, na medida em que enfraquece o esquema da social-democracia no maior colégio eleitoral do País. E não é só. Tuma e Quércia, o primeiro notavelmente conservador e o segundo com um passado de derrotas retumbantes, poderão, junto com Maluf, varrer os chamados “progressistas” do PSDB do poder em São Paulo. É uma reviravolta sensacional.

Enfim, serão muitas as variantes até outubro; muitas serão as emoções. Nada como uma eleição atrás da outra.

Em 9 de julho de 2002

Leituras

Construindo A Ditadura Americana

9 de janeiro de 2009 | Diário do Comércio

Não há “crise de crédito” nem recessão nenhuma, mas os gastos do governo americano para remediar problemas inexistentes podem criar um problema real: a hiperinflação. Os EUA ameaçam menos repetir a sua crise de 1929 do que o destino da República de Weimar em 1922, quando era preciso uma cesta de dinheiro para comprar um pãozinho.

Estas são as conclusões de um relatório publicado pela firma de consultoria Celent. O autor do estudo, Octavio Marenzi, é freqüentemente citado como fonte pelo Economist , pelo Financial Times e pelo Wall Street Journal . Antes de fundar a Celent, ele foi chefe do departamento de Tecnologia da Informação do Union Bank de Zurique e consultor do Booz, Allen & Hamilton’s Financial Services Group na Europa e nos EUA.

Ele afirma que os diagnósticos apresentados ao público pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, e pelo presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, são integralmente desmentidos pelas estatísticas oficiais dos órgãos que eles mesmos dirigem.

Em setembro, quando persuadiu o presidente Bush a liberar 700 bilhões de dólares em verbas de emergência, Paulson disse que o sistema financeiro estava “paralisado”, que os mercados de crédito haviam “congelado” e que os empréstimos entre bancos tinham se “reduzido substancialmente”. Bernanke afirmou que os negócios estavam enfrentando “reduzido acesso ao crédito”.

Tudo isso é cem por cento falso. As tabelas da Secretaria do Tesouro e do Federal Reserve mostram que, em vez de diminuir, a oferta de dinheiro aumentou – e aumentou numa velocidade jamais vista antes na história americana: 74 por cento em apenas 84 dias (15 por cento só no auge da “crise”). “Antes, observa Marenzi, esse salto aconteceria no curso de uma década ou mais.”

“Sem dúvida – prossegue –, um certo número de importantes instituições financeiras e de firmas industriais está em sérias dificuldades. No entanto, dificuldades de crédito que afetem um conjunto específico de firmas não é a mesma coisa que um problema no mercado de crédito como conjunto.” No geral, afirma Marenzi, este último estava funcionando muito bem. Se algum risco havia era o da hiperinflação – e a maciça injeção de dinheiro do governo só pode transformar esse risco numa realidade iminente.

O relatório está em http://www.celent.com/PressReleases/20081210/WhatCreditCrisis.asp . A conclusão de Marenzi é que Paulson e Bernanke deformaram os fatos “para justificar um acréscimo sem precedentes da intervenção governamental nos mercados”. Mas os dois não fizeram isso sozinhos: a grande mídia inteira os ajudou, endossando suas palavras e abstendo-se meticulosamente de conferi-los com os dados publicados pelas instituições que eles chefiam. Foi justamente por ver que os jornalistas não cumpriam sua função que a Celent decidiu cumpri-la em lugar deles.

No entanto, é claro que os riscos não se limitam à hiperinflação. O anúncio espalhafatoso de uma crise inexistente deslancha, por si mesmo, uma crise real. O gráfico mostra claramente que a oferta de crédito caiu significativamente depois da Lei de Estabilização Econômica assinada em 3 de outubro ( Emergency Economic Stabilization Act ). Mas, se o remédio foi tão manifestamente culpado por reduzir ao estado de coma um paciente que estava são, não se pode dizer que esse fenômeno não teve precedentes na história da economia americana. Num discurso pronunciado em 8 de novembro de 2002 na Universidade de Chicago, o próprio Bernanke confessou que a Grande Depressão de 1929-1933 não foi causada pela ação espontânea dos fatores econômicos, mas pelo intervencionismo nefasto do Federal Reserve. O discurso foi feito na cerimônia de homenagem ao nonagésimo aniversário de Milton Friedmann – o economista que ao longo de décadas, contra tudo e contra todos, vinha responsabilizando o Federal Reserve pela crise de 1929. Agora era um dos diretores do próprio Federal Reserve que confessava publicamente as culpas da instituição. Mas nem sempre a confissão é um ato sincero de repúdio ao crime. Pode haver nela uma ponta de orgulho secreto, que prenuncia a reincidência. Decorridos seis anos, com Bernanke na presidência, o Federal Reserve está de novo criando uma crise do nada, e, como diz Marenzi, novamente “para justificar um acréscimo de intervenção governamental nos mercados”.

Mas, se é assim – e, depois de olhar a tabela anexa, não imagino como possa ter sido outra coisa –, então resta a pergunta: foi George W. Bush quem mandou Paulson e Bernanke fazerem isso? Por que um presidente que está nos últimos dias do mandato buscaria aumentar dessa maneira o poder do Executivo, se ele mesmo não poderá desfrutar dos novos instrumentos de comando? Obviamente, Bernanke e Paulson não estão entregando esses instrumentos nas mãos de George W. Bush, mas de Barack Hussein Obama. Trata-se de fazer com que o próximo presidente já assuma o cargo na condição de ditador financeiro.

Se a operação foi realizada na base do engodo e da ocultação premeditada de informações, não há nisso nada de estranho, de vez que a própria vitória eleitoral de Obama foi alcançada pelos mesmos meios: não há a menor dúvida de que, se a mídia armasse em torno do sumiço dos documentos de Obama um centésimo do escarcéu que fez quanto à gravidez da filha de Sarah Palin ou das multas de trânsito de Joe the Plumber, o candidato democrata não teria tantos votos. O eleitorado foi totalmente ludibriado quanto à identidade do homem em quem votava, substituída pelo símbolo “candidato negro”, como se tudo quanto os votantes precisavam saber do futuro presidente fosse a cor da sua pele – e qualquer curiosidade quanto aos capítulos incertos da sua biografia fosse crime de racismo: duas premissas que a mídia inteira adotou como cláusulas pétreas do seu manual de redação durante as eleições.

Se duas gigantescas operações de desinformação são empreendidas simultaneamente, uma para forçar o povo a escolher um candidato sem fazer perguntas, outra para ajudar esse candidato a subir ao cargo já com poderes incalculavelmente aumentados, só um idiota completo poderia supor que essas duas operações foram totalmente independentes, só unidas pela mera coincidência de um sincronismo junguiano ou de uma imponderável decisão divina.

Em compensação, é verdadeira a articulação das duas manobras com uma terceira, uma quarta e uma quinta, todas convergentemente destinadas a munir de poderes especiais o próximo presidente.

1) A mais óbvia de todas é invenção pessoal de Barack Hussein Obama: a menina-dos-olhos do presidente-eleito é o seu projeto de uma “força civil de segurança nacional”, militância estudantil armada, paga com o dinheiro dos contribuintes para atemorizá-los e persegui-los ao menor chamado do profeta ungido (v.

http://www.ibdeditorials.com/IBDArticles.aspx?id=305420655186700 ).

2) Enquanto o diretor do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, advertia que as restrições de crédito para pessoas de baixa renda podem provocar distúrbios sociais, o próprio Paulson informava que o governo está preparado para enfrentar com a lei marcial as eventuais agitações e protestos que a “crise” venha a suscitar. Lei marcial significa suspensão dos direitos e garantias individuais.

3) Discretamente, alguns expoentes do pensamento militar americano preparam-se para jogar no lixo a lei Posse Comitatus , que desde 1878 proíbe o uso das Forças Armadas como instrumento de repressão interna. Um relatório do Instituto de Estudos Estratégicos do U.S. Army War College afirma explicitamente: “O Departamento de Defesa pode ser forçado a conter e reverter ameaças violentas à tranqüilidade interna. Sob as mais extremas circunstâncias, isso pode incluir o uso da força militar contra grupos hostis dentro dos EUA.” (V.

http://www.newsmax.com/headlines/military_domestic_use/2008/12/23/164765.html?s=al&promo_code=763E-1 ). Alguns conservadores, num lance de humor negro, chamam isso de Posse Obamitatus .

O Circulo Da Mentira

9 de janeiro de 2005 | Zero Hora

Vocês já compararam os feitos truculentos de Fidel Castro com os de Pinochet, os de Pinochet com os da turminha do Doi-Codi? A diferença de cem mil para três mil e de três mil para trezentos mortos fala por si, ao menos para quem não fugiu da escola primária — mesmo sem levar em conta que a população de Cuba é quase um terço menor que a do Chile e a do Chile onze vezes menor que a do Brasil.

Não discuto as motivações ideológicas. São desculpas que não vêm ao caso. Não aceitei as da direita, quando ela imperava; não aceito as de seus inimigos agora que eles mandam. Atenho-me às dimensões dos fatos, e constato sem dificuldade a inversão simétrica das proporções na distribuição do espaço noticioso concedido aos crimes de uns e outros na mídia: eis a prova cabal de que a classe jornalística brasileira, com as honrosas exceções que não me canso de mencionar, é mentirosa, manipuladora, indigna de confiança.

Nada pode ocultar a realidade desse estado de coisas, que só não vê quem é covarde, burro ou parte interessada.

Imaginem um cúmplice de Pinochet ser entrevistado na televisão como herói dos direitos humanos, só porque fala contra Fidel Castro. Pois não é fato que comunistas notórios são assim apresentados, só porque fazem a caveira de Pinochet?

Imaginem um sedutor de rua apontado à execração pública porque passou a mão no traseiro de uma senhorita, enquanto um estuprador assassino é tratado com discrição no intuito de proteger seus direitos. Pois foi isso o que a nossa mídia fez ao armar um escarcéu em torno das humilhações incruentas impostas aos esbirros de Saddam Hussein em Abu-Ghraib, ao mesmo tempo que concedia um espacinho de nada aos cadáveres que, às centenas de milhares, emergiam dos cemitérios clandestinos do ditador iraquiano.

Imagine um cidadão ser exibido como vítima de discriminação porque fizeram uma piadinha a seu respeito, enquanto a outro que é achincalhado, perseguido e agredido por toda parte não se concede sequer o direito de se queixar. Pois é assim que os nossos jornalistas tratam respectivamente os gays e os cristãos.

Imagine um rotweiler ser exibido como monstro porque mordeu uma velhinha na praia, enquanto um tigre comedor de gente é amavelmente desculpado porque contribui para o equilíbrio populacional. Pois é assim que a mídia trata comparativamente as tropas americanas no Iraque e as chinesas no Tibete, que já fizeram um milhão de vítimas civis sem que um único protesto se ouvisse no Brasil.

Imagine um político ter sua vida devassada porque é ligado a um batedor de carteiras, enquanto outro janta e troca afagos com narcotraficantes e assassinos sem jamais ser incomodado pelos repórteres. Pois foi essa a cobertura que a nossa mídia deu respectivamente às relações do sr. Fernando Collor com P. C. Farias e à intimidade do nosso partido governante com a narcoguerrilha colombiana.

Desafio todos os meus colegas, individualmente ou juntos, a provar que não é assim, que as atrocidades cubanas têm recebido cobertura proporcional, que o genocídio no Tibete foi assunto de manchetes e editoriais, que a matança de cristãos nos países islâmicos e comunistas é objeto de constantes denúncias, que a amizade PT-Farc é alvo de impiedosas reportagens investigativas.

O senso das proporções é a base de toda justiça.

Suum cuique tribuere , “dar a cada um o que é seu”, diziam os juristas romanos. O mesmo vale para o cálculo da importância respectiva das notícias. Ignorar e pisotear essa matemática básica é a regra áurea do jornalismo brasileiro.

A Felicidade Geral Da Nacao

9 de fevereiro de 2003 | Zero Hora

Dias antes da eleição do senhor Luiz Inácio para a presidência, escrevi que, no cargo, ele não poderia combater o narcotráfico sem desagradar a seus amigos das Farc, nem deixar de combatê-lo sem desagradar ao Brasil inteiro.

Santa ingenuidade! Naqueles dias já circulava entre os intelectuais de esquerda a solução do dilema, só invisível aos tacanhos reacionários como eu.

Tratava-se, simplesmente, de liberar o uso de drogas. O tráfico passaria a ser um comércio legal, decente, benéfico aos cofres públicos, seja por efetuar-se sob o comando do próprio Estado, seja pelos impostos, naturalmente altíssimos, que o empresariado viesse a pagar pelo requintado privilégio de drogar a nação.

Pó e baseados entrariam com guia de importação, em embalagens douradas com mensagem social em letras azuis e uma grave advertência do Ministério da Saúde: “Isto endoida.”

Sob as penas da lei, o distribuidor estaria obrigado a pagar em dia seus fornecedores, e o miserável dinheirinho que hoje rola por baixo do pano para as Farc seria multiplicado por dez ou cem, saindo em plena luz do dia em malotes do Banco do Brasil, sob a vigilância severa da Receita Federal. O doutor Palocci, que na sua cidade natal viu frustradas suas tentativas de ser o Papai Noel das Farc em escala municipal, teria uma revanche de proporções federais.

Uma parte substantiva dos lucros seria destinada ao Fome Zero, podendo os beneficiados gastá-la de volta, se o desejassem, em maconha e coca, que eliminando alguns esfomeados ajudariam a eliminar a fome.

Legalizado, o comércio da insanidade em pó ou em folhas conquistaria novas fatias do mercado, atualmente inibidas pelos riscos de subir o Morro Dona Marta de táxi, às três da madrugada, cruzando a cada esquina com um segurança de 12 anos armado de metralhadora Uzi.

A rede de distribuidores ilegais teria se tornado inútil e, da noite para o dia, suas organizações criminosas desabariam como castelos de cartas. Os Fernandinhos que hoje aterrorizam o país seriam trancafiados e obrigados a tricotar roupinhas para as crianças pobres, enquanto suas vagas na hierarquia do narcotráfico seriam ocupadas por burocratas inofensivos, selecionados em concurso público. As autoridades, triunfantes, proclamariam na TV: “Conosco é na dureza. Lugar de bandido é na cadeia.” Findo o programa, iriam comemorar a vitória contra o crime dando uma cafungadinha no posto de distribuição mais próximo.

As únicas drogas proibidas que restariam para o comércio ilícito seriam Viagra falsificado, xarope para tosse e cola de sapateiro. Sem o dinheiro da Colômbia para repartir, os poucos remanescentes das gangues extintas não trocariam mais tiros em disputas territoriais e voltariam a ocupações razoáveis, como assaltos à mão armada, seqüestros de banqueiros e prostituição de menores.

À noite, o silêncio nas ruas anunciaria que a paz da província voltara a reinar sobre as capitais. E o senhor Luiz Inácio seria celebrado como o mais sábio estadista brasileiro de todos os tempos. Bastaria, para isso, que consentisse em tornar-se o maior narcotraficante do universo. Não é lindo?

Em 9 de fevereiro de 2003

A Previsao E A Franga

9 de dezembro de 2000 | O Globo,

O petismo do governo gaúcho tem sido apontado como uma imagem do Brasil futuro. Mas que Brasil será esse? Quem está fora do Rio Grande não tem a menor idéia do que se passa por lá. Como saber se a previsão é promessa ou ameaça?

Algumas informações recentes talvez ajudem. O diretor do jornal “Zero Hora”, Nelson Sirotsky, falando para uma platéia de duzentas pessoas na Associação da Classe Média de Porto Alegre, confirmou que o governo Olívio Dutra vem usando das verbas de publicidade oficial para limitar o exercício da liberdade de expressão no seu Estado. Ele citou o exemplo dos pequenos jornais que, por debilidade financeira, se rendem ao PT para não perder anúncios. Poderia também ter mencionado os jornalistas Políbio Braga, Hélio Gama, Gilberto Simões Pires e outros, que informam ter sido removidos de suas tribunas por pressão do governo. Simões Pires, um dos comentaristas mais populares da TV local, além de perder o emprego está sendo processado porque, exibindo uma foto na qual o governador e sua secretária da Educação, entre bandeiras vermelhas, posavam ao lado de escolares que faziam a tradicional saudação do punho cerrado, disse que se tratava de uso de crianças para propaganda de uma ideologia violenta — conclusão irrefutável, mas, ao que parece, proibida.

Quem conheça o estilo da retórica esquerdista, um caldeirão fervente onde termos como “canalha”, “ladrão” e “vendido” borbulham em profusão, pode se espantar de que pessoas tão grosseiras no falar tenham ouvidos tão sensíveis e berrem de dor ante a simples conclusão de um silogismo. Mas comunistas são mesmo assim: eles podem imputar a você os piores crimes, mas se você os chama simplesmente de atrasados, de ignorantes — ou de comunistas, o que dá na mesma –, eles entram em estado de choque. Recentemente um professor da USP, célebre pelas acusações cabeludas que faz ao presidente da República, ouvindo dizer que este chamara a esquerda de “burra” saiu exclamando que se tratava de... temível investida contra a liberdade de expressão. É o que os americanos chamam “overreact” — a marca inconfundível do fingimento histeriforme, sinal de iminente ruptura esquizofrênica da consciência.

Para dar uma idéia de até que ponto esse mal afeta a nossa esquerda, basta mais um episódio, que não tem nada a ver com o caso do Rio Grande, mas que ajuda a compreendê-lo. Na semana passada escrevi aqui que a liberação dos vícios era um item essencial da ideologia esquerdista (como na verdade já o era no tempo do “Flower Power” que, desde os campos de Woodstock, tanto ajudou os comunistas a dominar o Vietnã e a transformá-lo no gueto de terror e miséria que ele é hoje). Pois bem: um professor da UFRJ, em resposta, me enviou um e-mail enfurecido, ameaçando me processar porque eu “dissera que todos os jovens socialistas usam maconha e cocaína” e porque ele e seu filho, ambos socialistas, agora acreditavam enxergar, nos olhares de seus colegas, insinuações pérfidas que os acusavam de maconheiros e cocainômanos. O raciocínio do cidadão consistia em partir de uma premissa mentirosa e deduzir dela, por saltos lógicos assombrosos, uma autorização para fantasiar intenções nas pessoas em torno, um motivo para se sentir vítima e um pretexto para voltar todo o seu ressentimento insano contra um agressor imaginário que, para cúmulo, não conhecia nem a ele nem àquelas pessoas. Joseph Gabel, no clássico “La Fausse Conscience”, usou exemplos como esse para demonstrar que o raciocínio das ideologias totalitárias é idêntico ao de um delírio esquizofrênico. Esse modelo de raciocínio está subentendido tanto no temor que os próceres gaúchos têm dos jornalistas que os observam, quanto, em dose ainda mais expressiva, na mensagem do desvairado professor uférjico. Em ambos os casos, trata-se de instrutores de loucura: o Estado paga-lhes para que transmitam a eleitores e alunos o seu padrão patológico de percepção, para que os incapacitem para a vida adulta, fazendo deles eternos meninos ressentidos que terão de se apegar sempre à muleta de algum discurso de inculpação projetiva.

Mas, voltando aos gaúchos, não é só na imprensa que a liberdade deles sofre restrições que, se impostas por um governante direitista, suscitariam uma onda nacional de protestos. Um começo de passeata, promovido por uma organização de mulheres anti-PT, foi cercado por olheiros que, mais que depressa, acionaram as autoridades para que proibissem qualquer nova manifestação do grupo, o qual não teve remédio senão voltar às ruas com mordaças pretas para informar à população, sem dizer nada, que algo de indizivelmente esquisito estava acontecendo.

Na mesma linha de esquisitice mal conscientizada, um diretor da estatal gaúcha Emater, em discreta circular à “companheirada” (sic), admite que ali o critério de seleção é puramente ideológico, “como se alinhamento ou ficha no partido fosse garantia de competência”. E ele reclama disso não porque a coisa lhe pareça intrinsecamente imoral, mas porque não deu os resultados esperados: “Não conseguimos a hegemonia”, lamenta-se. E sugere, como remédio, “ler um pouco mais de Gramsci”.

Para um governo que nem tem apoio da maioria na assembléia, o do Rio Grande tem mostrado uma precipitação incomum em revelar antes da hora a índole ditatorial da ideologia socialista, violando os ensinamentos do mestre da camuflagem, Antonio Gramsci, o Senhor da Moita. Igual afoiteza, porém, inflamou as meninges do candidato virtual Luiz Inácio Lula da Silva durante sua viagem à Belfort Roxo do Caribe, levando-o a rejeitar em público a cor rosa que a moda analgésica atribui ao seu partido e a assumir, num rompante, que o negócio dele é mesmo o bom e velho comunismo. Tudo enfim leva a crer que, prematuramente solta, sem medo de ser feliz, a franga vermelha abre as asas sobre nós.

Em 9 de dezembro de 2000

O Preco Das Ilusoes

9 de agosto de 2007 | Diário do Comércio

Numa carta enviada a José Sarney em 15 de abril de 1985, José Guilherme Merquior aconselhava ao então presidente fazer “ desde já certos gestos simpáticos à esquerda ” especialmente “ reatar relações com Cuba. Eles [os esquerdistas] ficariam meio ano digerindo este pitéu, obrigados a achar que ‘pô, esse Sarney até que não é assim tão reaça...’ .” (v. José Mário Pereira, “ O Fenômeno Merquior ”).

Explicando as razões dessa idéia que deve ter lhe parecido tão genial quanto ao destinatário da mensagem, o autor de A Astúcia da Mímesis ponderava:

“ Cuba hoje não oferece maiores perigos na América do Sul. O guevarismo já era. E o reatamento tem pelo menos três vantagens para nós: a) abriria um significativo potencial de exportações brasileiras;

b) permitiria ao Brasil influir, em boa medida, na conduta internacional de Havana, como faz o México, em sentido moderador e realista; c) evitaria que, no futuro, nosso reatamento se desse a reboque de uma reconciliação diplomática Cuba/USA, reconciliação essa, a médio prazo, tão certa quanto o foi o reconhecimento de Pequim por Washington, na década passada .”

Se houvesse um concurso mundial de previsões erradas, esse parágrafo não perderia nem para os prognósticos do ministro iraquiano Mohammed al-Sahaf quanto ao futuro glorioso de Saddam Hussein. Por si só, ele explica por que José Guilherme Merquior, depois de morto, se tornou o direitista predileto da esquerda brasileira. Seus não exerceram nela grande influência. Não consta que algum esquerdista tenha abjurado da admiração por Michel Foucault por ler O Niilismo de Cátedra , nem aderido, exceto por fingimento tático, ao triunfalismo liberal de A Natureza do Processo . Em compensação, essas breves palavras dirigidas a um presidente da República deixaram marcas duradouras. Sarney não só pôs em prática a sugestão de reatar as relações do Brasil com Cuba já no ano seguinte, mas, no doce embalo da morte do guevarismo, mandou tirar a disciplina “Guerra Revolucionária” do currículo das escolas militares, deixando duas gerações de oficiais brasileiros desaparelhadas para lidar com a expansão subversiva nas décadas seguintes. Para a esquerda, foi realmente um “pitéu” em dose dupla. Para o Brasil, vejamos:

a) Do total das exportações brasileiras, Cuba compra não mais de 0,2 por cento (dados de 2005; v.

http://www.apexbrasil.com.br/media/cuba.pdf ).

b) O Brasil não influencia em nada a política cubana, mas Cuba, através do Foro de São Paulo, determina e orienta a política de vários países da América Latina, entre os quais o Brasil.

c) A reconciliação entre EUA e Cuba, anunciada como inevitável, simplesmente não aconteceu.

d) Quanto ao falecido “guevarismo”, é o cadáver mais enérgico que já se viu. Hoje em dia a esquerda é praticamente a única força política organizada do continente, amparada no narcotráfico, no apoio da mídia internacional, na ajuda das fundações bilionárias e no poder bélico das Farc. É aliás muito mais eficazmente coordenada pelo Foro de São Paulo do que jamais o foi pela velha OLAS (Organização de Solidariedade Latino-Americana). Em comparação com isso, as guerrilhas dos anos 60-70 parecem escaramuças de crianças.

Poucos políticos de esquerda podem se gabar de haver contribuído tanto para criar essa diferença quanto a dupla Merquior-Sarney.

Escolha O Adjetivo

9 de abril de 2005 | O Globo

Como a expressão “Católicas pelo Direito de Decidir” (CDD) aparece na mídia sem nenhuma ressalva, o leitor entende que se trata realmente de um grupo de mulheres católicas. A impressão é reforçada pelo fato de que elas ocupam um conjunto de salas do prédio da Ordem Carmelita de São Paulo, ao lado da CNBB, sob o olhar complacente de monges, padres e bispos. Mas elas não são católicas de maneira alguma: se entraram na Igreja, foi com o propósito consciente e deliberado de parasitá-la, parodiá-la e destruí-la. A CDD é o braço nacional de uma ONG mundial, a Catholics for a Free Choice , CFFC. Frances Kissling, líder da CFFC desde 1980, não poderia ter sido mais clara quanto ao objetivo da organização:

“Passei a vida procurando um governo que eu pudesse derrubar... até que descobri a Igreja Católica.”

O Conselho Nacional dos Bispos dos EUA também foi muito claro: “A CFFC não merece reconhecimento nem apoio como organização católica.”

Não pensem que o Conselho disse isso por estar repleto de direitistas e reacionários. A CFFC gabava-se de ter “estreitos vínculos” com os bispos esquerdistas de Chiapas, México. Mas eles mesmos, em pastoral de julho de 1991, declararam: “Se essas mulheres apóiam o aborto legalizado, temos de afirmar com máxima clareza que isso anula sua pretensão de ser católicas. Elas se excomungaram a si próprias, colocaram-se fora da Igreja”.

O primeiro escritório da CFFC foi na Planned Parenthood Foundation , dona da maior cadeia de clínicas de aborto nos EUA, e uma de suas principais financiadoras foi a Sunnen Foundation, que lutava para que o Estado, arrogando-se a autoridade dos antigos imperadores romanos em matéria religiosa, forçasse a Igreja Católica, por lei, a mudar sua doutrina quanto ao aborto. A Sunnen foi também patrocinadora do famoso processo “Roe versus Wade”, apresentado como um caso de estupro, que em 1973 resultou na legalização do aborto nos EUA. Passadas três décadas, a suposta vítima pediu pessoalmente a revisão do processo, confessando que não sofrera estupro nenhum mas fora subornada pelos líderes abortistas para declarar isso no tribunal. O caso agora está de volta na Suprema Corte. Toda a história do abortismo é uma história de fraudes.

A atividade da CFFC segue meticulosamente a regra de Antonio Gramsci: não combater a Igreja, mas apossar-se de suas estruturas, esvaziá-las de seu conteúdo espiritual e utilizá-las como instrumento para transmitir a mensagem anticristã.

Mas o mal que essa organização faz à Igreja, infiltrando-se nela para corroê-la desde dentro, não se esgota em puro maquiavelismo político. Quando digo que o catolicismo da CFFC é uma paródia intencional, não estou usando de uma figura de linguagem, mas descrevendo um fato: o primeiro ato público da organização, tão logo inaugurada em 1970, foi sagrar sua fundadora, Patricia F. McQuillan, como “Papisa Joana I”, numa cerimônia realizada nas escadarias da catedral de São Patrício em Nova York. Como se isso não bastasse, a revista do movimento, Conscience, está repleta de declarações de satanismo explícito, como por exemplo versos ao “doce nome de Lúcifer, lírico, santo”, ou esta ode ao ídolo bíblico Baal:

“Do solo onde semeou o trigo novo, Baal levanta-se. Num grito de exaltação, rejubilamo-nos: o Senhor ergueu-se, está sentado novamente no trono. Ele reina. Aleluia!”

Em contraste com a ternura kitsch desses louvores ao Príncipe das Trevas, Kissling e outras líderes da CFFC já se referiram ao Papa João Paulo II como “raivoso”, “insensível”, “perigoso”, “fanático”, “hipócrita”, “mentiroso”, “pernicioso”, “cruel”, “mesquinho” e “obsessivo”, entre outras dezenas de adjetivos. Incorrerei em crime de injúria se usar um desses adjetivos, um só, para qualificar a autoridade religiosa que acolhe paternalmente devotas satanistas e se acumplicia com seus feitos anticristãos? Pois bem, o leitor que escolha. João Paulo II nunca mereceu nenhum deles. Mas o clérigo que estende sua proteção mesmo indireta e sutil sobre o satanismo para que seja oferecido aos fiéis como catolicismo merece pelo menos alguns.

Em 9 de abril de 2005

Um Founding Father

8 junho de 2009 | Diário do Comércio

“O desastre econômico que estamos vivendo é conseqüência da hegemonia, nos últimos trinta anos, do neoliberalismo – uma ideologia de direita que desregulou os mercados financeiros.” Assim diz, em artigo publicado na Folha do dia 1o. de junho, o ex-ministro da Economia Luiz Carlos Bresser-Pereira (v.

http://www.bresserpereira.org.br/view.asp?cod=3393 ). Sem o mínimo esforço de provar essa afirmativa, ele salta direto dela para a conclusão automática de que, se a esquerda não está se saindo tão bem como deveria nas eleições européias, é “porque nos momentos em que esteve no poder nestes últimos trinta anos ela fez tantas concessões ao fundamentalismo de mercado neoliberal que, afinal, sua política muitas vezes se aproximava daquelas propostas pela direita”.

Ou seja: partindo da premissa de que a direita é sempre culpada de tudo, fica demonstrado que a ela cabem também as culpas da esquerda quando esta está no governo. Nem mesmo uma explicação de como simples “concessões” de um lado provam a “hegemonia” do outro o sr. Bresser-Pereira nos fornece, tão longe está da sua imaginação a hipótese hedionda de que alguém possa duvidar das suas palavras. Com o mesmo ar de certeza devota que não tem satisfações a dar aos fatos ou à lógica elementar, ele assegura que, embora contaminando-se pecaminosamente de direitismo na área econômica, no plano social os partidos de esquerda permaneceram limpos e santos, porque, recusando a tentação satânica de uma política baseada na meritocracia egoísta, “mantiveram-se fiéis à idéia de que cabe ao Estado aumentar a despesa social em educação, cuidados de saúde, previdência e assistência social e, dessa forma, diminuir a desigualdade”.

Excetuado o interregno George W. Bush – tão apegado a estatismos e intervencionismos que sua base conservadora acabou por chamá-lo de socialista e traidor –, o fato é que, no período mencionado pelo ex-ministro, quem esteve no poder não só na Europa, mas no mundo, foi a esquerda. Como é possível que uma época de tantos avanços do Estado no controle da sociedade fosse também uma de “hegemonia de direita” na esfera econômica? Seria a política – e especialmente a política social – uma esfera tão separada da economia ao ponto da independência absoluta? O Sr. Bresser-Pereira sabe que não é assim. Quando lhe interessa, ele consegue explicar os fracassos da economia pelos fatores políticos. Justificando seu pífio desempenho como ministro da Economia, ele afirma que, em 1987, renunciou ao ministério “por falta de condições políticas para o necessário ajuste fiscal” (v.

http://www.bresserpereira.org.br/view.asp?cod=1279 ). Já quando se trata de achar um culpado para a crise americana e mundial, ele repentinamente faz abstração das “condições políticas” e proclama, contra toda evidência, que o mal veio tão-somente da desregulamentação do mercado e não da proliferação monstruosa das despesas estatais. Quando um governo acumula um déficit de três trilhões de dólares, só um raciocínio morbidamente artificioso e esquivo pode fugir ao óbvio e declarar que esse governo não acumulou dívidas porque gastou demais e sim porque “desregulamentou os mercados”. Aliás, se a desregulamentação foi tanta como diz o sr. Bresser-Pereira, como foi possível extrair da economia as quantias necessárias para cobrir as “despesas sociais” cada vez maiores? Como pode a “hegemonia neoliberal” coexistir com tal pletora de impostos e gastos públicos?

Se o ex-ministro esconde por trás de uma verbiagem insensata o papel dos fatores políticos na produção da crise, é porque esses fatores, inteiramente criados pela esquerda, forçaram propositadamente o aumento dos gastos estatais e a implosão do sistema bancário, visando a gerar artificialmente a crise de modo a poder lançar as culpas de tudo no espantalho do “neoliberalismo” e, com a cara mais cínica do mundo, propor como remédio ao desastre causado pelo excesso de gastos uma dose centuplicada de novos gastos miraculosamente investidos de não se sabe quais virtudes salvadoras (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/090305dc.html ).

O próprio estilo com que esse homem escreve é o de um demagogo de palanque, não o de um cientista como ele se pavoneia de ser. Todo o seu arremedo de argumento baseia-se em estereótipos lisonjeiros para um lado, depreciativos para o outro, e no apelo às certezas da mitologia esquerdista, tomadas como premissas desnecessitadas da mais mínima prova ou discussão. Na prática do charlatanismo intelectual, esse indivíduo iguala-se a qualquer Emir Sader ou Frei Betto, compondo, com eles e outros tantos, o panteão dos Founding Fathers da miséria cultural e moral brasileira.

Em 8 de junho de 2009

Extrema Direita E Extrema Burrice

8 dez. 2001 | O Globo

Um dos sinais alarmantes da estupidez endêmica do nosso mundo universitário é o uso que nele se faz dos termos “esquerda” e “direita”. Nenhum estudioso acadêmico tem o direito de ignorar que palavras como essas têm sentidos diversos quando usadas como autodefinições de grupos e partidos e quando usadas num contexto intelectualmente relevante como designações de fenômenos objetivos, identificáveis. Mas é precisamente essa distinção, elementar e obrigatória, que escapa a tantos analfabetos funcionais que hoje se dizem cientistas políticos, sociólogos e filósofos.

Para o militante que se creia “de esquerda”, e que identifique o esquerdismo com o bem, a verdade e a liberdade, “direita” só pode significar o mal, a mentira e a opressão, com o corolário inevitável de que ele atribuirá estas qualidades, a priori , ao que quer que contrarie a política autodenominada “esquerdista” no momento. Daí até o casuísmo mais arrebatado, que faz catalogações ideológicas gerais com base nas posições adotadas em face de questões muito particulares, muito miúdas — como a privatização de uma estatal ou uma greve de professores —, é apenas um passo. Transposto esse passo, atolamos de vez no lamaçal da mais grudenta inconsciência.

Que, passados uns anos, o que foi tido como direitismo e reacionarismo possa, numa visão retrospectiva, se revelar mais “progressista” aos olhos da própria esquerda do que aquilo que na época se rotulava esquerdismo, eis algo que não preocupa no mais mínimo que seja esse militante, o qual se deixa guiar pelos rótulos do dia como o burro é levado daqui para lá pelos repuxões das rédeas, sem ter a menor idéia de para onde vai.

Mas o historiador, o cientista político, o estudioso, se é digno da sua condição profissional, deve dar nomes às coisas, precisamente, conforme o lado para onde elas vão de fato e não conforme a impressão superficial que possam dar no calor da hora. O próprio Karl Marx não estava inconsciente dessa obrigação, ao confessar mais afinidade com o conservador Honoré de Balzac do que com os socialistas utópicos, porque aquele captava a direção da História (conforme Marx a entendia) e estes fugiam para a Terra do Nunca.

Mas num meio social onde o intelectual acadêmico em geral está mais comprometido com sua imagem popular de cabo eleitoral do que com as obrigações da ciência, seria possível esperar dele o reconhecimento de verdades óbvias?

É por exemplo uma verdade óbvia que o general Geisel, quando presidente, seguiu o programa convencional da esquerda em dois pontos essenciais da sua administração: a orientação econômica ferozmente estatizante e o ostensivo “terceiromundismo” nas relações exteriores. O fato de que os comunistas, durante o seu governo, estivessem geralmente na cadeia não modifica isso em nada, pois havia muito mais comunistas nas prisões de Cuba ou da China.

Na época, só um esquerdista percebeu que Geisel era de esquerda: Glauber Rocha. O raciocínio que o levava a essa conclusão era o mesmíssimo que a esquerda aceitava quando a aplicado a Gamal Abdel Nasser, ao General Alvarado do Peru ou — retroativamente — a Getúlio Vargas. Visto de longe, o governante durão que punha os comunistas de molho para mais livremente se tornar ele próprio a encarnação monopolística da política de esquerda podia ser aceito como um representante digno do esquerdismo essencial, pouco importando se revestido de direitismo nominal. De perto, o casuísmo dos ressentimentos políticos predominava descaradamente sobre a classificação objetiva. Glauber foi portanto chamado de louco, e Geisel continuou, para todos os efeitos, um “direitista”.

É que neste país a obrigação número um do acadêmico é bajular a massa, ainda que ao preço de danificar irreparavelmente seu próprio cérebro.

Mais vergonhosa ainda é a catalogação puramente emotiva e quantitativa dos direitistas em “moderados” e “extremados”, não segundo o conteúdo objetivo de suas respectivas propostas políticas, mas segundo a oposição mais discreta ou mais ostensiva que, ao sabor das circunstâncias passageiras, façam ao avanço do comunismo. A rigor — e se fosse para raciocinar coerentemente a partir da própria autodefinição do esquerdismo —, o leque das nuances da direita começaria na liberaldemocracia e terminaria nos autoritarismos de inspiração religiosa, como o franquismo, a ditadura católica de Dolfuss na Áustria ou a TFP do dr. Plínio Correia de Oliveira, todos mais ou menos herdeiros de Juan Donoso Cortés. No Brasil, porém, estas últimas correntes foram tão bem criminalizadas e excluídas do debate público pela censura gramsciana, que os liberal-democratas puderam, com a maior facilidade, ser removidos nominalmente para a “extrema direita”. Trocando de lugar no espectrograma ideológico por uma pura decisão do oportunismo esquerdista, eles são assim preparados para entrar por sua vez na lista dos criminalizados e excluídos, sem que a opinião pública dê pela anormalidade da coisa. A fraude adquire ainda maior potencial destrutivo quando reforçada pelo pressuposto — abolutamente mentiroso, conforme já demonstrei em artigos anteriores — que cataloga na direita o nazismo alemão, uma ideologia revolucionária, socialista, estatizante, materialista e anticristã como o marxismo, e que só se distingue dele por associar sistematicamente o ódio ao burguês com o ódio ao judeu. Assim, o liberal democrata tipicamente laico, céptico e voltaireano não só vai para a extrema direita junto o católico teocrata Donoso Cortés, mas também junto com Adolf Hitler, o sujeito que tinha como objetivos prioritários do seu programa político a abolição da liberaldemocracia e a promessa de “esmagar a Igreja Católica como se pisa num sapo”. Sim, a “bête noire” direitista contra a qual se volta o rancor esquerdista é uma síntese de Voltaire, Donoso Cortés e Adolf Hitler — um bicho certamente mais difícil de encontrar no universo real do que o Abominável Homem das Neves.

Orientado por professores capazes de operar no corpo da realidade essas cirurgias, mais radicais que mudanças de sexo porque trocam a própria identidade histórica dos fatos e pessoas, o estudante brasileiro só pode mesmo tornar-se um burro de presépio, um conformista idiota que, ao ecoar mecanicamente os urros da massa, ainda acredita piamente estar exercendo sua liberdade de “pensamento crítico”.

Não tenham a menor dúvida: quem quer que, falando de Roberto Campos, de José Osvaldo de Meira Penna, de José Guilherme Merquior ou de qualquer outro defensor do liberalismo, se refira a eles como a homens de “extema direita”, é um vigarista, um charlatão — sua presença numa cátedra acadêmica é sintoma de uma doença do espírito e uma vergonha para a cultura nacional.

Em 8 de dezembro de 2001

Dois Codigos Morais

8 de setembro de 2009 | Diário do Comércio

A entrevista do Cabo Anselmo ao programa “Canal Livre” (TV Bandeirantes, 26 de agosto, http://www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=2267&Itemid=34 ) é um dos documentos mais importantes sobre a história das últimas décadas e mereceria uma análise detalhada, que não cabe nas dimensões de um artigo de jornal. Limito-me, portanto, a chamar a atenção do leitor para um detalhe: o confronto do entrevistado com os jornalistas foi, por si, um acontecimento revelador, talvez até mais que o depoimento propriamente dito.

Logo de início, o apresentador Boris Casoy perguntou se Anselmo se considerava um traidor. Ele aludia, é claro, ao fato de que o personagem abandonara um grupo terrorista para transformar-se em informante da polícia. Para grande surpresa do jornalista, o entrevistado respondeu que sim, que era um traidor, que traíra seu juramento às Forças Armadas para aderir a uma organização revolucionária. A distância entre duas mentalidades não poderia revelar-se mais clara e mais intransponível. Para a classe jornalística brasileira em peso, o compromisso de um soldado para com as Forças Armadas não significa nada; não há desdouro em rompê-lo. Já uma organização comunista, esta sim é uma autoridade moral que, uma vez aceita, sela um compromisso sagrado. Nenhum jornalista brasileiro chama de traidor o capitão Lamarca, que desertou do Exército levando armas roubadas, para matar seus ex-companheiros de farda. Traidor é Anselmo, que se voltou contra a guerrilha após tê-la servido. Anselmo desmontou num instante a armadilha semântica, mostrando que existe outra escala de valores além daquela que o jornalismo brasileiro, com ares da maior inocência, vende como única, universal e obrigatória.

O contraste mostrou-se ainda mais flagrante quando o jornalista Fernando Mitre, com mal disfarçada indignação, perguntou se Anselmo não poderia simplesmente ter abandonado a esquerda armada e ido para casa, em vez de passar a combatê-la. Em si, a pergunta era supremamente idiota: ninguém – muito menos um jornalista experiente – pode ser ingênuo o bastante para imaginar que uma organização revolucionária clandestina em guerra é um clube de onde se sai quando se quer, sem sofrer represália ou sem entregar-se ao outro lado. Conhecendo perfeitamente a resposta, Mitre só levantou a questão para passar aos telespectadores a mensagem implícita do seu código moral, o mesmo da quase totalidade dos seus colegas: você pode ter as opiniões que quiser, mas não tem o direito de fazer nada contra os comunistas, mesmo quando eles estão armados e dispostos a tudo. Ser anticomunista é um defeito pessoal que pode ser tolerado na vida privada: na vida pública, sobretudo se passa das opiniões aos atos, é um crime. Não que todos os nossos profissionais de imprensa sejam comunistas: mas raramente se encontra um deles que não odeie o anticomunismo como se ele próprio fosse comunista. Essa afinidade negativa faz com que, no jornalismo brasileiro, a única forma de tolerância admitida seja aquela que Herbert Marcuse denominava “tolerância liberdadora”, isto é: toda a tolerância para com a esquerda, nenhuma para com a direita.

Mais adiante, ressurgiu na entrevista o episódio do tribunal revolucionário que condenara Anselmo à morte. Avisado por um policial que se tornara seu amigo, Anselmo fugira em tempo, enquanto os executores da sentença, ao chegar à sua casa para matá-lo, eram surpreendidos pela polícia e mortos em tiroteio. De um lado, os entrevistadores, ao abordar o assunto, tomavam como premissa indiscutível a crença de que Anselmo fora responsável por essas mortes, o que é materialmente absurdo, já que troca o receptor pelo emissor da informação. De outro lado, todos se mostraram indignados – contra Anselmo – de que no confronto com a polícia morresse, entre outros membros do tribunal revolucionário, a namorada do próprio Anselmo. Em contraste, nenhum deu o menor sinal de enxergar algo de mau em que a moça tramasse com seus companheiros a morte do namorado. Entendem como funciona a “tolerância libertadora”?

A quase inocência com que premissas esquerdistas não-declaradas modelam a interpretação dos fatos na nossa mídia mostra que, independentemente das crenças conscientes de cada qual, praticamente todos ali são escravos mentais da auto-idolatria comunista.

Ao longo de toda a conversa, os jornalistas se mantiveram inflexivelmente fiéis à lenda de que os guerrilheiros dos anos 70 eram jovens idealistas em luta contra uma ditadura militar, como se não estivessem entrevistando, precisamente, a testemunha direta de que a guerrilha fôra, na verdade, parte de um gigantesco e bilionário esquema de revolução comunista continental e mundial, orientado e subsidiado pelas ditaduras mais sangrentas e genocidas de todos os tempos. Anselmo colaborou com a polícia sob ameaça de morte, é certo, mas persuadido a isso, também, pela sua própria consciência moral: tendo visto a verdade de perto, perdeu todas as ilusões sobre o idealismo e a bondade das organizações revolucionárias – aquelas mesmas ilusões que seus entrevistadores insistiam em repassar ao público como verdades inquestionáveis – e optou pelo mal menor: quem, em sã consciência, pode negar que a ditadura militar brasileira, com todo o seu cortejo de violências e arbitrariedades, foi infinitamente preferível ao governo de tipo cubano ou soviético que os Lamarcas e Marighelas tentavam implantar no Brasil? Ao longo de seus vinte anos de governo militar, o Brasil teve dois mil prisioneiros políticos, o último deles libertado em 1988, enquanto Cuba, com uma população muito menor, teve cem mil, muitos deles na cadeia até hoje, sem acusação formal nem julgamento. A ditadura brasileira matou trezentos terroristas, a cubana matou dezenas de milhares de civis desarmados. Evitar comparações, isolar a violência militar brasileira do contexto internacional para assim realçar artificialmente a impressão de horror que ela causa e poder apresentar colaboradores do genocídio comunista como inofensivos heróis da democracia, tal é a regra máxima, a cláusula pétrea do jornalismo brasileiro ao falar das décadas de 60-70. Boris Casoy, Fernando Mitre e Antonio Teles seguiram a norma à risca. Desta vez, porém, o artificialismo da operação se desfez em pó ao chocar-se contra a resistência inabalável de uma testemunha sincera.

Conhecendo as muitas complexidades e nuances da sua escolha, Anselmo revelou, no programa, a consciência moral madura de um homem que, escorraçado da sociedade, preferiu dedicar-se à meditação séria do seu passado e da História em vez de comprazer-se na autovitimização teatral, interesseira e calhorda, que hoje rende bilhões aos ex-terroristas enquanto suas vítimas não recebem nem um pedido de desculpas.

Moral e intelectualmente, ele se mostrou muito superior a seus entrevistadores, cuja visão da história das últimas décadas se resume ao conjunto de estereótipos pueris infindavelmente repetidos pela mídia e consumidos por ela própria. O fato de que até Boris Casoy, não sendo de maneira alguma um homem de esquerda, pareça ter-se deixado persuadir por esses estereótipos, ilustra até que ponto a pressão moral do meio tornou impossível a liberdade de pensamento no ambiente jornalístico brasileiro.

Em 8 de setembro de 2009

Coelhos Fantasmas

8 de setembro de 2001 | O Globo

Dezesseis de dezembro de 1933 é uma data memorável para os devotos da epopéia socialista. Nesse dia, o agente búlgaro do Comintern, George Dimitrov, acusado falsamente de incendiar o Parlamento alemão, pronunciou ante o tribunal de Leipzig o célebre discurso que desmascarou o regime nazista como fachada do poder econômico, “a ditadura dos Krupp e dos Thyssen” (grandes grupos industriais alemães).

O episódio e o giro verbal que o condensa fixaram na memória da esquerda mundial a definição marxista do nazismo como regime da “direita”, o recurso totalitário adotado in extremis pela burguesia para sufocar a iminente revolução proletária.

Essa versão, de tão repetida, tornou-se um lugar-comum, um dogma da teologia mística socialista que, ao menos no Brasil, conserva toda a força da sua autoridade. Guardada no fundo do inconsciente, ela volta à tona de tempos em tempos, em livros escolares e artigos de jornal, sempre apresentada como um marco de referência inabalável, tão certo e confiável quanto a regularidade dos movimentos celestes ou o teorema de Pitágoras.

Não obstante, tudo nesse episódio é falso. Tudo. Da narrativa à interpretação, das premissas à conclusão, nada no mito Dimitrov corresponde à realidade, nem mesmo num sentido remoto e aproximativo do termo.

Talvez não haja exemplo mais nítido da compulsão irrefreável de mentir, que caracteriza a religião esquerdista e a mentalidade do seu clero.

Para começar, George Dimitrov não foi herói nenhum. Nem sequer correu perigo. Anunciada sua prisão iminente, ele e seus assessores Popov e Tanev, em vez de se esconder, sentaram-se num restaurante repleto de oficiais nazistas e tranqüilamente aguardaram a chegada da polícia. Eles sabiam, desde o início, que seriam inocentados e devolvidos intactos às autoridades soviéticas, que já tinham combinado tudo com o governo nazista.

A URSS e o III Reich estavam inaugurando então um programa de intensa colaboração subterrânea para a obtenção de dois tipos de vantagens mútuas.

De um lado, a Alemanha fornecia assistência técnica para a modernização do atrasado Exército Vermelho, em troca da permissão para dar aos oficiais alemães, em território soviético, o treinamento militar que o Tratado de Versalhes proibia em solo alemão. De outro lado, as duas ditaduras mais ferozes da Europa ajudavam uma à outra na liquidação de suas respectivas oposições internas, mediante troca de informações entre seus serviços de espionagem, intercâmbio de prisioneiros e, last not least , colaboração fraterna no homicídio de indesejáveis.

Tudo foi concebido por um dos mais próximos colaboradores de Stalin, Karl Radek. Para encobrir a delicada e perigosa manobra, Radek criou uma vasta operação de despistamento: uma campanha de antinazismo verbal, sob a direção do gênio comunista da propaganda, Willi Münzenberg, um artista perto do qual o dr. Goebbels não passava de um amador caipira. Para o espetáculo foram cooptadas dúzias de celebridades do show business e das letras, que, como geralmente acontece com essas criaturas, se deixavam levar pela aparência e não tinham a menor idéia da sórdida artimanha com que colaboravam. O processo farsesco em Leipzig foi um episódio da campanha, que logo formou um comitê pela libertação de Dimitrov, encabeçado com grande alarde por André Gide e André Malraux. A farsa aí chegou ao cúmulo do requinte. Estimulados por insinuações vindas do governo alemão, os dois acadêmicos partiram de trem, entre fanfarras, para uma entrevista com o ministro da Propaganda do Reich. Goebbels nem sequer os recebeu, porque o único propósito de atraí-los à Alemanha era um jogo de cena para agitar o meio parisiense. De fato, nada havia a reivindicar em Berlim, onde a libertação de Dimitrov e seu retorno à URSS já eram favas contadas desde o início, mas Gide e Malraux voltaram a Paris sem se dar conta de que tinham servido de fantoches no teatrinho de Goebbels e Radek.

Dimitrov, aureolado das glórias de sua performance , foi inocentado, retornou à URSS e recebeu uma bela promoção, enquanto Popov e Tanev, os homens que sabiam demais, foram jogados para o fundo do Gulag e desapareceram para sempre...

A definição do nazismo como braço armado dos capitalistas, enunciada pelo ator principal no momento culminante do espetáculo, não foi jamais nem o próprio Dimitrov imaginou que fosse uma tradução da realidade. Mas também não foi apenas uma fala entre outras no script geral da farsa. Foi um momento especial, a pièce de résistance na programação da camuflagem. Não houve talvez, nos anais da oratória forense, declaração mais cínica e mentirosa. Pois Dimitrov sabia perfeitamente que aqueles capitalistas que ele acusava, personificações do complexo industrial-militar alemão, sustentáculos do Partido Nazista, eram os mesmos que, naquele preciso instante, ajudavam a consolidar o Estado soviético mediante a assistência técnica e a exportação de equipamentos indispensáveis ao Exército Vermelho. O rearmamento da URSS e o show de Dimitrov no tribunal tinham o mesmo patrocinador do Partido Nazista: ou seja, a “ditadura dos Krupp e dos Thyssen”.

É verdade que, enquanto isso, comunistas eram espancados e mortos nas ruas pelos militantes nazistas. Mas isso fazia parte do show e parecia a Stalin e Radek um preço módico a pagar em troca da ajuda militar e econômica, das preciosas informações da Gestapo e da liquidação de comunistas dissidentes que se encontrassem ao alcance da polícia alemã. Tanto que, no auge da tagarelice antinazista em Paris, Radek, em carta a um amigo íntimo, confessava: “Só um idiota pode imaginar que vamos romper com os alemães. Ninguém nos daria o que eles nos dão.”

Profissionais E Amadores

8 de novembro de 2010 | Diário do Comércio

Conclusões óbvias da eleição de domingo:

1. Somados aos sete por cento de votos brancos e nulos, os 22 por cento de abstenções, mais que significativos num país onde o voto é obrigatório, sugerem fortemente que quase a terça parte do eleitorado não leva a sério a democracia vigente, no que alias dá prova de um realismo impecável.

2. Sugerem também que uma parcela enorme do eleitorado antipetista fez as contas e achou que não valia a pena perder a diversão do feriado só para votar em José Serra, candidato apetitoso como papinha de alface. Sem sal e light , é claro.

3. Dos votos concedidos a Serra, um terço, pelo menos, ele deveu ao movimento anti-abortista – a única militância conservadora deste país, providencialmente desligada de qualquer partido, que a teria castrado ao primeiro sinal de vida.

4. Outro terço ele deveu, meio a meio, à força de personalidade de seu vice Índio da Costa e à ojeriza antipetista difusa, que votaria num bacalhau empalhado para não ter de votar em Dilma – e que só votou em Serra porque não encontrou um bacalhau empalhado na lista do TSE.

5. Um terço, se tanto, ele deveu à sapiência dos marqueteiros que o aconselharam a caprichar no bom-mocismo, a derramar-se em louvores à figura sacrossanta do presidente Lula, a explorar o inexistente capital politico dos seus tempos de militante estudantil e a nada oferecer como alternativa à ferocidade de Dilma Rousseff senão uma imagem ideologicamente neutra e inodora de “bom administrador”, de mistura com afetações de esquerdismo asséptico que, como não poderia deixar de ser, irritaram a direita e não seduziram a esquerda. Idiotas presunçosos, amadores, incultos e despreparados, muitos deles mais interessados em salvar o esquerdismo do que em derrotar o petismo, esses sujeitos arrasariam a mais promissora das candidaturas que a eles se confiasse. Como poderia sobreviver a seus conselhos o anêmico José Serra?

6. Descontadas as abstenções, os votos nulos e brancos e os votos dados a José Serra, Dilma Rousseff elegeu-se com o apoio de não mais de 41 por cento do eleitorado total. Os tucanos não deixaram de registrar esse fato, buscando nele um consolo que não posso deixar de considerar postiço no mais alto grau. Que votação relativamente minguada tenha bastado para eleger um presidente, ou presidenta, não prova a fraqueza eleitoral do PT, mas a força da sua estratégia. Desde o início, a tônica da campanha petista consistiu menos em enaltecer as virtudes de Dilma – esforço inglório de multiplicar por zero – do que em inibir, pela virulência dos ataques e pelo cinismo estupefaciente das alegações, qualquer veleidade serrista de empreender uma campanha mais agressiva. Quando veio a simples e arquiprovada revelação do compromisso abortista de Dilma, a esquerda nacional em peso respondeu com esgares de indignação moral fingida, imputando falsamente a prática de crime de calúnia e difamação a milhares de pessoas – a maioria sem compromissos partidários – que nada mais tinham feito senão dar provas cabais do que diziam. Que poderia o campo serrista fazer diante de tão descarado histrionismo? A única reação à altura teria sido despejar sobre os farsantes petistas uma tempestade de processos criminais, mostrando que com fatos comprovados não se brinca, que ninguém tem o direito de tentar sufocar a verdade mediante caretas e micagens. Temendo ultrapassar as fronteiras do debate pacífico, a oposição preferiu permanecer no campo da troca de palavras, nivelando, aos olhos da multidão, os direitos da verdade e os da mentira. Mais ainda, abdicando do dever de punir o crime verdadeiro, encorajou o PT a perseguir crimes imaginários. Acobertando seus inimigos culpados, facilitou a perseguição de seus amigos inocentes. Tão fundo foi aí a obsessão de amortecer confrontos, que até mesmo o reforço vindo do Papa Bento XVI à campanha nacional anti-aborto pareceu a alguns próceres tucanos, como o governador Alberto Goldmann, uma provocação temerária. Que esperança de vitória pode ter um partido que concede ao inimigo o direito de acusá-lo de crimes que ele não cometeu, e ao mesmo tempo se inibe de usar no combate a arma justa e devida que lhe foi entregue em mãos pelo próprio Papa?

Tudo isso se enquadra tão bem na tipificação da “espiral do silêncio”, que me parece impossível fugir à conclusão de que, ao longo de toda a campanha, o PT manteve eficiente controle sobre a conduta de seus concorrentes, operação levada às suas últimas conseqüências no truque sujo do feriado improvisado, que dissuadiu de votar em Serra muita gente que já estava decidida a não votar em Dilma.

Se a campanha serrista se ateve fielmente ao emprego dos instrumentos eleitorais mais convencionais e batidos, o lado petista combateu num front muito mais amplo e por meios muito mais inventivos, apelando mesmo a ardis de engenharia psico-social que o outro lado não tinha nem competência nem disposição para enfrentar.

Neste país, só os revolucionários e criminosos são profissionais. A oposição democrática, com toda a sua afetação de elegância, é de um amadorismo patético.

Em 8 de novembro de 2010

Traicao Anunciada

8 de maio de 2006 | Diário do Comércio

Pela primeira vez na História humana, animal, vegetal ou mineral, um presidente, vendo as propriedades nacionais no exterior invadidas e confiscadas manu militari pelo governo local, se abstém por completo de defender os interesses e a honra da nação e, bem ao contrário, sai elogiando os autores da brutalidade. E o detalhe mais extravagante no caso é que o homem tenta dar a impressão de que, ao fazer isso, age como um cristão exemplar, voltando humildemente a outra face em vez de revidar o insulto. Seria assim, de fato, se não houvesse alguma diferença entre oferecer a própria face e a face dos outros – a face de um povo inteiro. A resposta do sr. Luís Ignácio Lula da Silva à agressão boliviana não é nenhuma efusão de bons sentimentos. É o ato de entreguismo mais explícito, mais descarado, mais cínico e mais subserviente que já se viu neste país ou em qualquer outro.

Se causas faltassem para um impeachment , só essa conduta, isolada, já bastaria para justificá-lo com sobra de fundamento e razão. Nunca a traição foi tão clara, nunca tão patente a redução do patrimônio comum dos brasileiros a instrumento dócil de objetivos transnacionais sobre os quais os eleitores não foram consultados, aliás nem informados.

Não seria certo, porém, dizer que foi acontecimento desprovido de conseqüências pedagógicas úteis. Numa só alocução, com breves palavras, o sr. presidente rasgou de uma vez a fachada de “nacionalismo” com que a esquerda brasileira vinha enganando aqueles que não conhecem a sua história ou que não conseguem lembrá-la no momento apropriado. Espero que agora pelo menos alguns dos militares com que andei discutindo aqui semanas atrás, tão propensos a acreditar nas afeições patrióticas de quem quer que as proclame do alto de um palanque, entendam onde foi que se meteram ao buscar uma aproximação com a esquerda com base na confusão entre patriotismo e anti-americanismo.

Também seria injusto dizer, no entanto, que foi ato inesperado, de improviso, surgido do nada.

Num texto publicado em 2003, bem lembrado pelo articulista Cristiano Romero no jornal Valor , o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, expunha o que tem sido a diretriz básica da política externa do governo Lula. Diz Romero:

“‘Generosidade’ nas relações com os vizinhos sul-americanos é um conceito caro a Samuel Pinheiro Guimarães. Num texto intitulado ‘O Gato e a Onça: ameaças e estratégia’, ele defende, como ‘objetivo fundamental’ da política externa, a construção do que chama de espaço econômico e político sul-americano. Diz que o Brasil deve fazer isso sem qualquer pretensão hegemônica e com base na generosidade ‘decorrente das extraordinárias assimetrias entre o Brasil e cada um de seus vizinhos’. ‘É necessário praticar o princípio do tratamento especial e diferenciado quase que na proporção das assimetrias reais’.

” Isso já era, antecipadamente, o nosso presidente defendendo o direito que “um povo sofrido” tem de romper contratos e assaltar seus parceiros de negócios.

Vendo a teoria de Guimarães ser levada à prática de maneira tão literal, o embaixador Rubens Barbosa, lembrando uma frase do ex-secretário de Estado americano John Foster Dulles, declarou que “essa é uma visão ingênua, porque países não têm amigos; têm interesses ”.

Mas o que é ingenuidade à luz dos interesses nacionais manifestos pode ser esperteza desde o ponto de vista de interesses supranacionais ocultos. Quem leu o meu artigo no Diário do Comércio de 26 de setembro de 2005 ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/050926dc.htm ) já sabia, desde então, que o sr. presidente, eleito em nome da “transparência”, tomava decisões de governo em reuniões secretas com ditadores e criminosos estrangeiros, longe dos olhos do povo, do parlamento, da mídia e da justiça. Ele próprio, de porre ou sóbrio, tinha confessado isso no seu discurso de 2 de julho de 2005, pronunciado na celebração dos quinze anos de existência do Foro de São Paulo. Nesse documento fundamental, cujo significado a grande mídia nacional em peso fez questão de amortecer ou omitir completamente, Lula admitia que o Foro de São Paulo, fundado por ele e Fidel Castro, era uma entidade secreta ou pelo menos camuflada (“ construída... para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política “), criada para imiscuir-se ativamente na política interna de várias nações latino-americanas, tomando decisões e determinando o rumo dos acontecimentos, à margem de toda fiscalização de governos, parlamentos, justiça e opinião pública. Ele admitia também haver decidido pontos fundamentais da política externa brasileira não enquanto presidente da República em reunião com seu ministério, mas enquanto participante e orientador de reuniões clandestinas com agentes políticos estrangeiros (“ foi uma ação política de companheiros, não uma ação política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com outro presidente “). Não seria possível uma confissão mais explícita de que, para esse homem, os interesses nacionais que nominalmente ele estava incumbido de representar deviam submeter-se a considerações mais altas, isto é, à estratégia de dominação continental comunista delineada pelo Foro de São Paulo. O compromisso dele não era para com seus eleitores brasileiros: era para com seus “companheiros” da Venezuela e de Cuba.

Meses depois, em 12 de dezembro de 2005, mais explicitamente ainda, oPlano de Trabalho da Secretaria de Relações Internacionais do PT informava a “linha justa” a ser seguida pelo Partido: “ Aprofundar a prática internacionalista do Partido, nos vários sentidos desta palavra: a solidariedade, as relações com organizações comprometidas com o socialismo e com outra ordem internacional, a mobilização interna e externa em torno de temas de nosso interesse, a ação parlamentar e de governos no plano internacional.

” Para que não pairassem dúvidas quanto ao tipo de ligações aí aludidas, o documento esclarecia: “ Este é o motivo principal pelo qual o PT seguirá investindo suas energias na existência e consolidação do Foro de São Paulo, organização criada em 1990.”

Sabendo-se que desde os tempos da sua campanha eleitoral o próprio sr. Evo Imorales anunciava seu propósito de estatizar todos os campos de petróleo da Bolívia, as fontes nacionais já forneciam material mais que suficiente para que, delas, qualquer pessoa medianamente acordada concluísse qual seria a reação do nosso governo quando o presidente boliviano transformasse suas palavras em ações: afagar-lhe o ego paternalmente, como há décadas o partido dominante vem fazendo com todos os delinqüentes e transgressores, desculpando-os como vítimas da “desigualdade” e da “exclusão social”. O princípio que se aplica aos indivíduos serve, com muito mais razão, a povos inteiros: a “generosidade” do sr. Samuel Pinheiro Guimarães não é senão a “política de direitos humanos” do governo, transposta à escala internacional. A evolução da caridade petista, nesse sentido, é notavelmente coerente: começou defendendo o direito de os trombadinhas da praça da Sé meterem as mãos nos bolsos dos transeuntes, depois foi gradativamente ensinando à nação estupefata que os invasores de terras eram vítimas em vez de agressores, que os únicos grupos criminosos merecedores de punição eram os policiais, os empresários e os políticos ditos conservadores, que o Estado deve indenizar os seqüestradores em vez dos seqüestrados, que os traficantes de cocaína são heróis da liberdade e que o combate ao narcotráfico é terrorismo de Estado. Que mais faltava, senão oferecer as garantias da alta moralidade ao assalto entre nações?

Deixemo-nos, portanto, de nhem-nhem-nhem, como diria FHC. Ninguém foi surpreendido pelo imprevisível. Todo mundo sabia o que ia acontecer e como o sr. Lula ia reagir. O único aspecto surpreendente no episódio foi a falta completa do elemento surpresa.

Mas, se foi assim, por que ninguém alertou para o perigo nem fez algo para evitá-lo? E, uma vez consumado o delito, por que tantos ainda hesitam em condená-lo como tal, por que se sentem ainda entorpecidos por dúvidas insanáveis, por que relutam em admitir a evidência da escalada criminosa, protelando por meio de tergiversações sem fim a conclusão de um silogismo incontornável?

A resposta é simples: para apreender o sentido de uma sucessão de acontecimentos, não basta conhecer os fatos. É preciso ter os conceitos, os termos gerais capazes de iluminar o desenho exato dos detalhes e permitir unificá-los num quadro coerente. No caso, o termo geral era “estratégia revolucionária continental”, ou, mais sinteticamente, “Foro de São Paulo”. Só vista nessa perspectiva a multidão dos detalhes soltos adquiria uma forma, uma direção, um sentido. Ora, esse elemento articulador foi sistematicamente suprimido dos debates nacionais ao longo de dezesseis anos por um decreto unânime dos donos da opinião pública. Quem quer que ousasse falar disso, nos jornais, na TV ou no Parlamento, tornava-se primeiro alvo de chacota, depois era rotulado de louco, depois abertamente difamado, depois boicotado profissionalmente, por fim calado por meio da intimidação direta, como o sr. Lula fez no ar com o âncora da TV Record, Boris Casoy, ou da demissão pura e simples, como veio a acontecer comigo e com o próprio Boris.

Nunca, na história universal da manipulação de notícias, se viu um esforço tão vasto, tão geral, tão uniforme de ocultar o essencial, de desviar as atenções, de paralisar a inteligência da vítima para que não sentisse de onde vinha o ataque.

Todos os chefes de redação e donos de empresas jornalísticas deste país, com raríssimas e louváveis exceções que no conjunto acabaram não fazendo diferença prática, acumpliciaram-se ativamente, persistentemente ao projeto petista de anestesiar e estupidificar a opinião pública, preparando-a para aceitar com apatetada e ignóbil passividade o confisco progressivo dos seus direitos, da sua liberdade e do seu patrimônio.

Sem o silêncio cúmplice da mídia, jamais o projeto continental de poder, urdido por Fidel Castro, Hugo Chávez e Luís Ignácio Lula da Silva em reuniões que não precisavam nem mesmo ser secretas, já que ninguém queria divulgá-las, poderia ter chegado ao ponto em que chegou.

Agora, é tarde para revertê-lo. Imaginar que resistências pontuais, que protestos avulsos contra abusos isolados possam deter a marcha do monstro ou aplacar sua voracidade é apegar-se a uma ilusão pateticamente impotente. Uma estratégia abrangente só pode ser combatida por outra estratégia abrangente, e a idéia mesma de conceber uma é coisa que ainda nem passa pela cabeça da maioria dos liberais e conservadores, persistentemente ocupados, depois de tudo o que aconteceu, em ater-se a elegantes declarações doutrinais genéricas e em evitar cuidadosamente o rótulo de “anticomunistas”.

Durante uma década e meia tentei fazer com que essa gente acordasse. Agora começo a achar que despertá-la seria uma crueldade, tão feio é o panorama que se abriria ante seus olhos quando isso acontecesse. O melhor mesmo é deixar que durma. O que a aguarda, em qualquer das hipóteses, é o sono eterno. Seu fim está decretado e é quase tão irreversível quanto o giro da Terra em torno do Sol. Uns vinte anos atrás, Roberto Campos perguntado sobre qual seria o destino do Brasil no caso de Lula ser eleito presidente, disse que haveria duas saídas: Galeão e Cumbica. Não sei se a vida imita a arte. Mas no Brasil ela imita cada vez mais o humorismo. Já começo a me abster de ouvir piadas, por medo de que se tornem realidade. Não me acusem, porém, de derrotismo, de matar as esperanças dos brasileiros. Ao contrário: o que tem matado os brasileiros é a esperança. Recusar-se a admitir uma situação desesperadora é recusar-se às ações desesperadas que poderiam, contra toda a esperança, reverter o quadro da tragédia. O Brasil não precisa de esperança. Precisa é de coragem inflexível e lucidez heróica. Não me chamem de derrotista por recusar-me a afagar cabeças moralmente covardes e intelectualmente indolentes.

Vejo-me no dever de dizer essas coisas principalmente porque se aproxima a data do Seminário “Democracia, Liberdade e o Império das Leis”, que a Associação Comercial de São Paulo vai promover no Hotel Cesar Business nos dias 15 e 16 de maio, e porque tenho a certeza de que ali, pela primeira vez, intelectuais liberais e conservadores vão olhar de frente a questão da estratégia comunista continental em vez de refugiar-se nas teorizações usuais, tão corretas no conteúdo geral quanto deslocadas da situação política especial.

O Seminário é uma antiga idéia minha que tive a sorte de soprar nos ouvidos certos e, sem grande ajuda da minha parte, frutificou graças à tenacidade do líder empresarial Guilherme Afif Domingos, do psiquiatra Heitor de Paola e dos combativos redatores do jornal eletrônico Mídia Sem Máscara (Paulo Diniz Zamboni, Edward Wolff, Graça Salgueiro e tantos outros), bem como da colaboração da Atlas Foundation for Economic Studies.

Voltarei a escrever sobre o assunto durante a semana, mas desde já asseguro que, pelo menos entre os participantes brasileiros do evento, todos estão muito conscientes da urgência desesperadora de uma rejeição firme e inflexível do comunismo continental, quaisquer que sejam as diferentes versões com que ele se apresente, todas forjadas e articuladas no Foro de São Paulo.

Sem Falsa Modestia

8 de maio de 2004 | O Globo

“A releitura do que se publicou na imprensa no período eleitoral deveria ser matéria obrigatória em todas as faculdades de jornalismo”, afirma o colunista Diogo Mainardi na última revista Veja. Ele diz isso com razão, e é sem medo nem falsa modéstia que ofereço meus artigos de 2002 ao julgamento do tempo, sabendo que tudo o que anunciei ali foi confirmado, ponto por ponto, pelo desenrolar dos acontecimentos.

Mas quantos jornalistas, hoje, denunciam o presente estado de coisas sem por um só instante lembrar que eles próprios o criaram, consentindo em fazer-se de ajudantes voluntários do sr. Duda Mendonça?

Com a mesma afetação de superioridade olímpica, com a mesma desenvoltura irresponsável com que então fomentaram a embriaguez de messianismo lulista, jogam pedras no presidente na República como se ele fosse um malefício vindo de fora e não a encarnação de uma vontade nacional da qual eles próprios foram os mais ruidosos e entusiásticos porta-vozes.

É escandaloso e imoral em toda a linha, mas não é caso isolado. Com as raras, honrosas e inevitáveis exceções de sempre, os jornalistas brasileiros tornaram-se especialistas em errar sem nunca dar o braço a torcer.

Mas isso não veio do nada.

Desde a faculdade, os estudantes de jornalismo não são ensinados a observar o mundo mas a “transformá-lo” como preconizava Karl Marx. Não querem ser testemunhas da História, e sim “agentes de mudança social”. Vacinados contra a idéia de realidade objetiva por meio de teorias tão pretensiosas quanto obtusas, primam em não dizer o que vêem, mas o que querem que o povo acredite. Arrogantes, intolerantes, monstruosamente incultos, quando julgam e condenam o que está acima de sua compreensão não o fazem somente de narizinho empinado; fazem-no com a ilusão de estar combatendo o autoritarismo e a prepotência, o que já é a apoteose da cegueira vaidosa.

Veja-se por exemplo o que fizeram com a correspondência, recém-divulgada, entre Lincoln Gordon e o governo de Washington. De um comunicado de 29 de março de 1964, em que o embaixador, confirmando a iminência da queda do presidente, insistia para que seus superiores dessem algum respaldo ao movimento que se preparava, tiraram a brilhante conclusão de que aí estava – enfim! – a prova, tão antecipadamente alardeada pela esquerda nacional durante quarenta anos, de que os americanos haviam tramado o golpe ou ao menos tomado parte no seu planejamento. A minha conclusão, ao contrário, é que esses jornalistas não sabem ler ou não quiseram enxergar a data do documento. Na ocasião do comunicado, fazia mais de um ano que líderes civis e militares locais vinham tramando a derrubada de Jango. Se dois dias antes da eclosão do movimento o governo americano era convocado às pressas para fazer alguma coisa, o que isso prova é evidentemente o contrário do que a esquerda sempre alegou. Ninguém prepara um golpe com dois dias de antecedência. Os americanos acompanhavam a coisa de longe e, quarenta e oito horas antes de o general Mourão Filho colocar a tropa na rua, ainda estavam tentando decidir o que fazer. Acabaram, é claro, por não fazer nada.

Veja-se também a credibilidade instantânea, a recepção calorosa que a nossa mídia dá a qualquer intriga anti-Bush, mesmo quando fundada em provas tão suspeitas quanto as fotos de “torturas” alegadamente praticadas no Iraque pelas tropas de ocupação. Vários especialistas europeus puseram em dúvida a autenticidade do material, e poucos dias atrás já se revelou que outra série de fotografias publicadas pela imprensa esquerdista, com soldados americanos estuprando pobres mulheres muçulmanas, era uma fraude preparada com imagens extraídas de sites pornográficos. Quem quer que tenha lido “La Désinformation par l’Image” de Vladimir Volkoff (Paris, 2001) sabe que ninguém, no mundo, é contumaz na montagem dessas patifarias como russos e chineses. Mas, se amanhã ou depois ficar provada a falsidade das acusações, qual jornal ou revista, após tê-las usado para reforçar com manchetes escandalosas a onda de anti-americanismo, publicará com o mesmo destaque a advertência: “Mentimos”?

Em 8 de maio de 2004

Israel Ante O Poder Global

8 de junho de 2010 | Diário do Comércio

O episódio do navio turco em Israel resume-se em dois termos: “factóide” e “guerra assimétrica”. Seria a marinha turca tão despreparada, tão ingênua, tão pueril ao ponto de ignorar que nenhum governo do mundo jamais deixaria um navio estrangeiro desembarcar toneladas de caixas numa zona em conflito sem examiná-las primeiro? Sobretudo depois que os mediadores israelenses foram recebidos a socos e pontapés, por que deveria o governo de Tel-Aviv aceitar a priori a hipótese de que o conteúdo das caixas fosse algo de tão inocente quanto bolinhos de bacalhau ou picolés de abóbora? É com base nesta hipótese maluca, teatral, fingida até o último limite de desespero, que a tal “opinião pública mundial” se desfaz em lágrimas de cólera contra a ação israelense.

O significado do caso vai, no entanto, muito além do de mais uma encenação patética de autovitimização palestina. Muitos estudiosos do poder global, inclusive alguns bem honestos, asseguram que o establishment bancário europeu e anglo-americano tem no Estado de Israel um dos seus principais instrumentos de ação imperialista para a conquista do poder sobre todo o orbe planetário. A hipótese parece razoável à primeira vista, tendo-se em conta a elevada presença de judeus nos altos círculos do globalismo, mas ela recebe um desmentido cabal e flagrante quando se observa a atuação da mídia internacional nos vários conflitos que envolvem Israel. Afinal, um bilionário ter nascido judeu não faz dele automaticamente um patriota israelense ou um amigo dos demais judeus, como o sujeito ter nascido americano não faz dele um discípulo fiel dos Founding Fathers . A mídia é o instrumento supremo de ação das elites globalistas sobre a opinião pública. Daniel Estulin demonstrou, em “A Verdadeira História do Grupo Bilderberg”, que hoje em dia a grande mídia da Europa e dos EUA está concentrada nas mãos de uns poucos grupos globalistas. Se Israel estivesse a serviço desses grupos, o que veríamos nos jornais e canais de TV seria a defesa incondicional dos interesses israelenses mesmo quando fossem injustos e prejudiciais ao resto do mundo. Na realidade, o que se vê é precisamente o contrário: façam os judeus o que fizerem, eles são sempre os errados, os malvados, os imperialistas, os agressores. A guerra de ocupação cultural muçulmana no Ocidente, em contrapartida, é invariavelmente pintada com as cores mais inocentes e comovedoras, como se a imposição arrogante da shariah e do poder islâmico na França, na Alemanha ou na Inglaterra fosse apenas uma questão de proteger imigrantes desamparados e inermes. Diante de cada confronto espontâneo ou fabricado, a reação pró-islâmica e anti-israelense da classe jornalística mundial é sempre imediata, unilateral e sem o mais mínimo exame crítico. A duplicidade de critérios com que aí são julgados os contendores mostra que a cobertura desses episódios, em praticamente todos os países e idiomas, já foi muito além do mero viés jornalístico e se transformou numa arma de guerra assimétrica. Ela tem a constância automática da obediência a um programa de ação previamente decidido. E quem o decidiu, senão os que têm os meios de fazê-lo, os donos da geringonça midiática? Se Israel tivesse a seu lado o esquema globalista, teria também a mídia internacional, mas esta é de fato o seu principal e mais odiento inimigo. Longe de ser instrumento de um projeto mundial de poder, Israel é hoje quase uma nação pária, como Honduras, a Colômbia, Uganda ou o Estado americano do Arizona, carregando, como eles, a culpa de tomar decisões independentes em favor de seu povo em vez de auto-sacrificar-se masoquisticamente no altar da Nova Ordem Mundial, como o fazem as nações européias.

Em 8 de junho de 2010

Os Numeros E O Milagre

8 de junho de 2006 | Jornal do Brasil

Desde ontem, ecoam por toda parte os belos discursos contra a invasão da Câmara Federal. Com uma ou outra exceção irrelevante, sua tônica é uniforme: dão a impressão de que essa truculência, como todas as anteriores, foi um susto passageiro, um abuso fortuito incapaz de abalar no mais mínimo que seja a tranqüilizante rotina democrática em que vivemos. Está tudo sob controle: temos um presidente amante da ordem, nossas instituições são estáveis e as Forças Armadas, é claro, estão vigilantes.

Não vou discutir com quem diz que acredita nisso. Peço apenas ao leitor que atente para o aspecto aritmético da questão. Some a militância do PT, do MST e MLST, da CUT, do PCC e das demais facções da esquerda revolucionária (assim denomino as que estão afinadas com a estratégia continental do Foro de São Paulo). São uns quarenta milhões de pessoas. Não incluo aí simpatizantes, burros de presépio e meros eleitores. Conto apenas os militantes, gente doutrinada, adestrada, disciplinada, disposta a tudo. São a quarta parte da população brasileira. Nem me pergunto quantos deles estão armados, prontos para matar. Mesmo que tivessem apenas estilingues, restaria este dado brutal: nunca houve, na história do mundo, uma organização revolucionária dessas dimensões. Muito menos pergunto quanto custou: não consigo somar os lucros do narcotráfico e dos seqüestros, a hemorragia crônica de verbas federais, os dízimos da militância e as contribuições de fundações estrangeiras bilionárias. O total é impensável. Você acha realmente que alguém constrói uma monstruosidade dessas para não fazer nada com ela além de cumprir as leis e ser bom menino? O futuro do Brasil está decidido, de maneira praticamente irreversível, por um fato aritmético de envergadura majestosa e potência avassaladora.

Esses números, aliás, não são uma quantidade informe, distribuída a esmo no espaço. Há entre eles toda uma rede de conexões. Eles formam uma equação bem definida, um mapa, um organograma completo. Sempre que uma das entidades que mencionei acima entra em ação, é em parceria com as outras. O PCC espalha o terror por meio de técnicas que aprendeu com o MST, que as absorveu das Farc, cujos líderes são íntimos da cúpula petista e do sr. presidente da República. O Comando Vermelho, para produzir efeito idêntico no Rio, usou o que aprendeu direto da elite esquerdista que hoje governa o país. Quando um agente das Farc é preso logo depois de declarar que deu dinheiro do narcotráfico ao PT, mais que depressa essa elite se mobiliza para mandá-lo ao exterior. Idêntica iniciativa surge da mesma fonte para libertar os mestres-seqüestradores do MIR chileno que pegaram Abílio Diniz e Washington Olivetto. E, quando o MLST entra na Câmara depredando tudo e esmagando crânios, quem está no seu comando é um membro da Comissão Executiva Nacional do PT. Não há ações isoladas. Distribuídos sob denominações diversas, quarenta milhões de fanáticos estão perfeitamente articulados, solidários, na afinação diabolicamente eficiente de uma orquestra da destruição.

Na época das CPIs, bastava aparecer uma ligação telefônica entre um empreiteiro e algum deputadinho corrupto para o PT sair gritando: “É uma conspiração! É um Estado dentro do Estado!” Diante de indícios imensuravelmente maiores e mais probantes, a nação ainda se recusa a conceber, mesmo de longe, uma hipótese semelhante para explicar o que acontece hoje, embora não haja nenhuma outra explicação plausível, exceto a aposta louca no prodígio das meras coincidências repetidas em série. É que hoje não há um Estado dentro do Estado. Há um Estado acima do Estado, impondo o caos e chamando-o de “ordem”. Nessas circunstâncias, parece sensato abolir a aritmética, a álgebra, a razão inteira, e apegar-se à esperança de um milagre. Mas o único santo milagreiro à disposição é São Lulinha, e o único milagre que ele sabe fazer é precisamente o que já está fazendo.

Em 8 de junho de 2006

Saindo Pela Esquerda

8 de junho de 2006 | Diário do Comércio

A descoberta de um depósito de cabeças cortadas, no Iraque, foi noticiada com relativa discrição pela mídia chique de Nova York e Washington e não provocou nenhuma reação indignada de Hillary Clinton, Ted Kennedy, John Kerry, John Murtha e outros autores de protestos apopléticos contra as “violências” cometidas pelos americanos em Abu-Ghraib. Com toda a evidência, a moral politicamente correta considera mais humano cortar uma cabeça do que vestir-lhe uma calcinha.

A apropriação do discurso moralizante pelos adeptos de ideologias amorais e genocidas só poderia levar mesmo à deformação caricatural do próprio sentido da moralidade, culminando na completa inversão dos critérios de julgamento.

Para os que, no meio da confusão psicótica, ainda se conservam capazes de apreender as coisas como são, a nova revelação da crueldade dos terroristas iraquianos leva a duas conclusões incontornáveis: (1) ou o governo constitucional do Iraque, com a ajuda americana, prossegue a luta até a destruição total do inimigo, ou será preciso entregar o país a uma gangue de assassinos de mentalidade incalculavelmente monstruosa; (2) se George W. Bush cometeu erros, invadir o Iraque não foi um deles.

Na verdade, a queda de popularidade do presidente não se deve a nada que possa ter desagradado a elite esquerdista. Deve-se justamente ao fato de que esse mandatário, tão firme e decidido nas ações que empreende no Oriente Médio, é tímido e acomodatício ante as exigências da oposição interna, não hesitando em sacrificar o futuro do seu partido no altar de concessões vexatórias. A mais escandalosa dessas concessões é decerto, o projeto de anistia para doze milhões de imigrantes ilegais, contra a vontade da maioria da população e praticamente a totalidade do eleitorado conservador. O acordo parece tanto mais repugnante porque a proposta de anistia veio justamente de dois inimigos tradicionais do presidente, um democrata, Ted Kennedy, o outro republicano, John McCain.

Depois de uma política de gastos públicos megalômanos que foi uma inversão exata de suas promessas de campanha, a aproximação com Kennedy e McCain parece, aos eleitores de Bush, uma traição intolerável. Se, às vésperas da votação do projeto de anistia, o presidente tenta aplacar a multidão conservadora com a oferta de uma emenda constitucional proibindo os casamentos gays , a multidão não vai se deixar comprar por esse agradinho de improviso: vai aplaudir a proibição e continuar malhando Bush. Os políticos republicanos, que dominam o Senado e a Câmara, sabem que o presidente está vendendo suas cadeiras para a oposição e muitos deles já decidiram que gostam mais de seus postos do que dele. Mas o presidente em pessoa parece ainda não ter entendido que um parlamento com maioria democrata significará quase que inevitavelmente o seu processo de impeachment .

Não é a primeira vez que um presidente americano eleito com plataforma conservadora decepciona seus eleitores e joga sua carreira pela janela em troca de uns sorrisos hipócritas dos adversários. Richard Nixon entrou na presidência pela direita e saiu pela esquerda. O atual presidente parece inspirado nesse fantasma ilustre. O problema dos republicanos agora é: salvar George W. Bush dele próprio ou salvar-se entregando George W. Bush aos leões.

Em 8 de junho de 2006

Por Tras Das Palavras

8 de fevereiro de 2010 | Diário do Comércio

Por que os direitistas brasileiros se denominam “liberais” em vez de “conservadores”? A escolha das palavras revela uma diferença específica que, bem examinada, basta para explicar a debilidade e o fracasso da direita nacional.

O termo “conservador” denota a adesão a princípios e valores atemporais que devem ser conservados a despeito de toda mudança histórica, quando mais não seja porque somente neles e por eles a História adquire uma forma inteligível. Por exemplo, a noção de uma ordem divina do cosmos ou a de uma natureza humana universal e permanente. Fora do quadro delimitado por essas noções, a “História da humanidade” dissolve-se numa poeira de processos temporais heterogêneos, descompassados, inconexos, não raro incomunicáveis e mutuamente incompreensíveis. Só resta então aceitar a completa irracionalidade da existência histórica ou, não podendo suportar essa idéia, fabricar uma unidade postiça, baseada na “luta de classes”, na “luta das raças”, na “evolução animal”, na dialética hegeliana, no determinismo geográfico ou em qualquer outro pseudoprincípio, que pode ser obtido seja pela ampliação hiperbólica de algum fenômeno empírico limitado, seja, nos casos mais graves, pela invencionice pura e simples. Uma vez estabelecido esse pseudoprincípio, pode-se deduzir dele um “sentido” unilinear da História e, deste, um programa político que se torna automaticamente obrigatório para todos os seres humanos, atirando-se à guilhotina ou aos campos de concentração os discordes e recalcitrantes. Tal é precisamente o trabalho da mentalidade revolucionária. Se as revoluções invariavelmente resultam na implantação de regimes totalitários, não é nunca por algum desvio de seus belos ideais de origem, mas pelo simples fato de que, transfigurada em ação política, a certeza de conhecer o sentido total da História não pode, por definição, admitir que alguém permaneça alheio ao dever de realizá-lo. A mera indiferença política basta então para fazer do cidadão um inimigo da espécie humana.

O conservadorismo, em contrapartida, funda-se na admissão de que a ordem divina não pode nem ser conhecida na sua totalidade nem muito menos realizada sobre a Terra. A eternidade jamais pode ser espremida dentro da ordem temporal, tal como o infinito não cabe dentro do finito. Por isso, em toda política genuinamente conservadora que se observa ao longo dos tempos, a ordem divina nunca é um princípio positivo a ser “realizado”, mas apenas um limite que não deve ser transposto, um critério negativo de controle e moderação das presunções humanas. O conservadorismo é, em essência, um freio às ambições prometéicas do movimento revolucionário e, mais genericamente, de todos os governantes. A modéstia e a prudência, a rejeição de toda mudança radical que não possa ser revertida em caso de necessidade, a recusa de elaborar grandes projetos de futuro que impliquem um controle do processo histórico, a concentração nos problemas mais imediatos e nas iniciativas de curto prazo, tais são os caracteres permanentes da política conservadora. Encarnações eminentes do pensamento conservador ao longo dos tempos são Lao-Tsé, Aristóteles, os profetas hebraicos, Cícero, Sto. Tomás, Richard Hooker, Shakespeare, Goethe, Disraeli, Jacob Burckhardt, Winston Churchill e Ronald Reagan. Malgrado as diferenças de épocas e mentalidades, todos exibem um sacrossanto horror à hübris revolucionária, um sentimento agudo de que em política nada é melhor que a moderação e a prudência.

Que não haja nem possa haver um conservadorismo perfeito, é algo que decorre da definição mesma do conservadorismo. Quando o amor à ordem divina se inflama ao ponto de fazer esquecer a impossibilidade humana de realizá-la no mundo histórico, ou quando a resistência a um projeto revolucionário específico se cristaliza na ambição de invertê-lo materialmente, elementos do discurso conservador são absorvidos e integrados num discurso revolucionário substitutivo que, travestido de conservadorismo, pode seduzir parcelas imensas da população, inclusive as mais tradicionalistas e reacionárias, usando-as como bucha de canhão em aventuras políticas suicidas.

Revolução é, em essência, todo projeto de mudança social e política profunda a ser realizado mediante a concentração de poder. O conservadorismo expressa a resistência natural, geral e espontânea da alma humana a deixar-se usar como instrumento a serviço de promessas irrealizáveis sob o guiamento de líderes pretensamente iluminados. Quando a contra-revolução, em vez de contentar-se em ser apenas uma medida de emergência contra uma situação de fato, se enche de sonhos de glória e cria seu próprio projeto de mudança social profunda, ela própria se torna um movimento revolucionário. Eis por que o conservadorismo é a mais forte linha de resistência contra todas as revoluções “de esquerda” e “de direita”. Os exemplos de Dolfuss e Churchill na década de 30 bastam para ilustrar o que estou dizendo.

O liberalismo, em contraste, é a resistência a uma modalidade específica de projeto revolucionário, o socialismo. Ambos nasceram no século XIX e se definem um ao outro como irmãos inimigos. Ao socialismo a proposta liberal opõe a defesa da economia de mercado e das liberdades políticas no quadro do moderno Estado laico. A todos os componentes do movimento revolucionário que escapem da definição formal de socialismo, que portanto não ataquem diretamente esses dois pilares da ideologia liberal, o liberalismo não pode oferecer nenhuma oposição eficaz. Nada, no discurso liberal, oferece fundamento sólido para a rejeição do abortismo, do feminismo radical, da liberação de drogas, do gayzismo, do multiculturalismo, da guerra assimétrica, da abolição das soberanias nacionais ou da destruição de todos os pilares culturais e religiosos milenares em que se assenta a possibilidade de existência do próprio liberalismo. Quando essas bandeiras se tornam as principais armas de propaganda do movimento socialista, só resta ao liberalismo opor-lhes uma resistência muito fraca, fundada em argumentos de legalidade formal, ou então aderir a elas, na esperança louca de parasitar a força retórica do discurso socialista para fins de imediatismo eleitoral. Nesta última hipótese, cada miúdo triunfo eleitoral dos liberais torna-se mais uma vitória ideológica de seus adversários.

Em 8 de fevereiro de 2010

Pague E Leve

8 de fevereiro de 2004 | Zero Hora

Se você ficou espantado com aquilo que contei de Bill Clinton, é porque não imagina o que sei de John Kerry, virtual candidato democrata à presidência dos EUA. São coisas que jamais você lerá fora desta coluna, pois a mídia brasileira beatificou o Partido Democrático na mesma medida em que demonizou os republicanos, e ela não haverá de sacrificar a reles fatos a pureza da sua fidelidade ideológica.

O principal financiador da campanha de Kerry — e, por tabela, da próxima Convenção Nacional Democrática, marcada para julho em Boston — é nada menos que o governo comunista do Vietnam. A ajuda não veio do nada: é retribuição de gentilezas recebidas anos atrás. Quando os EUA estavam rompidos com o Vietnã, o então senador Kerry arranjou encontros discretos entre o tenente-coronel Liu Chaoying, da inteligência vietnamita, e funcionários da Comissão de Títulos e Câmbio dos EUA. O governo do Vietnã, mais um regime comunista falido, estava ansioso para entrar no mercado capitalista mundial, mas isso era impossível sem o reatamento das relações diplomáticas com os EUA. O maior obstáculo eram os prisioneiros de guerra americanos que permaneciam em território vietnamita, dos quais o governo local não queria dar nenhuma informação. Kerry, que é pela paz e pelo diálogo, não podia suportar essa situação desumana. Então criou no Senado uma Comissão de Prisioneiros de Guerra, em cuja chefia colocou a srta. Francis Zwenig. A boa moça logo arranjou uma solução, sugerindo aos vietnamitas que simplesmente inventassem histórias para explicar o destino dos prisioneiros desaparecidos. Kerry foi surpreendido pelas câmeras quando assegurava a seus queridos vietnamitas que não teriam nenhum problema por isso. E ele tinha razão: o governo dos EUA acabou engolindo as invencionices. As relações foram reatadas e os vietnamitas puderam finalmente abrir no território americano empresas de fachada para comprar material bélico que em seguida revendem à China.

Outro importante financiador de Kerry é Hassan Nemazee, um iraniano que, para poder fazer doações de campanha ao Partido Democrático, já falsificou sua identidade duas vezes, uma como venezuelano, outra como indiano. Fundador do Iranian American Political Action Committee (IAPAC), Nemazee fez fortuna enriquecendo os mulás e aiatolás que governam o Irã e outros países notoriamente hospedeiros e protetores de organizações terroristas.

A Associated Press confirma que pelo menos três vezes Kerry foi pego recomendando para altos cargos em bancos federais pessoas das quais tinha acabado de receber doações.

É por essas coisas que Kerry recebeu de seus inimigos o apelido de Cash-and-Kerry , que soa exatamente “cash-and-carry”, pague e leve.

Mas não imaginem que Kerry só pensa em dinheiro. Ele confessou que, na guerra do Vietnã, cometeu “as mesmas atrocidades que milhares de outros cometeram”. Acrescentou ainda que “todos esses atos eram contrários à convenção de Genebra, foram cometidos por ordens escritas e os homens que os ordenaram são criminosos de guerra”. Pungente confissão, não é mesmo? Ela seria uma prova de honestidade, se não lhe faltasse um detalhe. Kerry, na ocasião dos combates, não era soldado raso: era oficial superior. Ele não recebia as ordens, mas as assinava.

Pela primeira vez, um país que até uma década atrás se recusava a votar em candidatos que não tivessem uma folha de serviços militares no mínimo honrosa, corre o risco de aceitar como presidente um criminoso de guerra confesso, além de picareta nato.

Em 8 de fevereiro de 2004

Libertacao Tardia

8 de dezembro de 2010 | Diário do Comércio

Quando me mostraram um vídeo em que Carlos Vereza, no programa do Jô Soares, falava o diabo do governo, julguei que se tratava de explosão emocional inconseqüente, fútil. O que me levou a essa conclusão foi o fato de que o ator, por baixo de suas acusações aos ocupantes do poder, tentava salvar a honra do discurso esquerdista que, precisamente, os havia colocado lá.

“Aí está – pensei – mais um brasileiro que odeia as conseqüências sem deixar de amar as causas.”

Agora, lendo o seu blog ( http://carlosverezablog.blogspot.com/2010/11/forcas-armadas-acordem.html ), percebo que Vereza evoluiu muito desde aquele primeiro protesto. Está sinceramente angustiado com o estado de coisas e não cessa de colocar em revisão suas velhas crenças, com notável coragem moral, em busca de uma explicação e de um remédio. O horror que a barbárie petista lhe inspira faz com que ele chegue até a aceitar a conveniência de uma intervenção militar saneadora – idéia que ninguém pode alimentar sem primeiro ter-se libertado de todo preconceito antidireitista e especialmente da visão estereotipada e caluniosa do golpe de 1964, que se consolidou na opinião pública como fruto de uma das mais vastas, obstinadas e irrespondidas campanhas difamatórias que o mundo já conheceu.

Quando um intelectual com raízes esquerdistas tão fundas chega a esse ponto, é que seu desespero ante a feiúra indescritível do panorama político-cultural já expulsou da sua mente os últimos resíduos daquele sentimento de dívida moral que a máquina de dominação esquerdista sabe com tão ardilosa astúcia infundir preventivamente na alma de seus adeptos e simpatizantes, para aprisioná-los numa rede de escrúpulos paralisantes em caso de perda do entusiasmo revolucionário.

Esses fantasmas sempre podem ser expulsos, mas o custo emocional do exorcismo é ainda mais elevado que o do isolamento social, das chacotas, dos insultos, das amizades perdidas, do boicote profissional e demais sanções que a engenhoca infernal do Partido, montada para reinar soberanamente sobre a intimidade mais secreta das consciências, faz desabar sobre o infeliz que, de repente ou pouco a pouco, comece a enxergar a maldade do esquema em que colaborou por anos a fio.

A primeira tentação é a de acusar esse esquema de “incoerência”, condená-lo como infiel a seus próprios princípios, sem perceber que a mescla indissolúvel da política e do crime, das belas palavras com os atos mais hediondos e escabrosos, longe de ser uma traição ou desvio, é ela própria um dos princípios orientadores da estratégia revolucionária desde o tempo de Karl Marx, que considerava a extinção violenta de povos inteiros um preço bem modesto para o advento de um sistema social do qual ele próprio se contentava com ter nada mais que uma idéia muito geral e vaga. O apelo revolucionário de Karl Marx, bem como o de seus sucessores, resume-se na proposta mais cínica que algum celerado já fez a seus irmãos humanos: “Matem e morram por algo que inventei mas que eu mesmo não sei dizer o que é.”

Se perguntamos como foi que promessa tão evanescente logrou seduzir e escravizar tantos milhões de pessoas cultas, a melhor resposta ainda é a do ex-militante Douglas Hyde em seu livro Dedication and Leadership , de 1966: o partido não domina as almas dos militantes pelo que lhes dá, mas pelo que lhes toma. Quanto mais você lhe oferece dedicação, esforço, dinheiro e até a renúncia à sua dignidade pessoal, mais você se sente devedor, porque deu ao movimento revolucionário sua alma e seu coração, toda a sua substância espiritual, e, ante a mera hipótese de sair dele, se sente só, vazio, desprezível, um cadáver moral. Para libertar-se dessa obsessão, é preciso uma espécie de virilidade intelectual que vai se tornando ainda mais rara que a virilidade física.

De longe, aprecio o esforço interior de Carlos Vereza, sabendo que seu despertar veio tarde demais.

Publicado com o título “O despertar, tarde demais” Em 8 de dezembro de 2010

Perdidos No Espaco

8 de dezembro de 2005 | Jornal do Brasil,

Os juízes da Primeira Turma Recursal de Brasília que semanas atrás impuseram uma pesada multa ao Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz por chamar uma abortista de abortista já mostraram, só com isso, sua falta do mínimo de capacidade lingüística requerido para um cargo no qual ler, ouvir e compreender são noventa por cento do serviço. A sentença só agora foi publicada, e lida por inteiro fica ainda pior do que aos pedaços.

Afinal, nenhum termo do idioma pode ser pejorativo ou insultuoso quando não há outro supostamente mais amável para substituí-lo. A palavra “abortista” é a única que existe para designar o adepto do aborto e distingui-lo tanto do “aborteiro”, que pratica o que ele prega, quanto do “anti-abortista” que se opõe a ambos. Aplicá-lo, numa polêmica anti-aborto, a alguém que dedicou anos de sua vida à promoção do abortismo, é não somente um direito, mas um dever. Um dever de precisão vocabular. A reverência ao termo próprio corresponde, na língua escrita e falada, à retidão na prática judicial. Mostrando-se, por unanimidade, desprovidos de uma coisa e da outra, e ademais inclinados a punir um inocente pelo delito de ter as duas, aqueles magistrados nada provaram contra o réu, mas contra si mesmos: não compreendem o sentido das palavras nem podem, por isso mesmo, julgar com justiça os fatos que elas enunciam.

Mas, então, com que direito permanecem nas altas funções que ocupam sob estipêndio do Estado? Com o direito — respondo eu — ao analfabetismo doutoral, o qual nunca existiu mas foi consagrado neste país desde que um governante disléxico se tornou doutor honoris causa sem precisar ter para isso a causa nem muito menos a honra. Se o presidente pode resolver os destinos da nação inteira sem entender o que lê nem o que diz, por que não poderia aquele punhado de excelências decidir, com igual privação de entendimento, o destino de um mísero cidadão brasileiro?

Mas nem tudo é deficiência naquele tribunal. Em compensação talvez de sua inépcia jurídica e linguística, Suas Excelências excelem no dom da comédia e da farsa em medida raramente igualada não só no mundo real mas em todo o universo da ficção. Pois, além de punir a expressão perfeita de uma verdade óbvia como se delito fosse, ainda vetaram ao réu todo uso futuro da mesma palavra. Ora, o silêncio seletivo, a proibição de dizer certas coisas, é figura inexistente no direito civil ou penal brasileiro. Encontra-se apenas no direito canônico. Faz parte da disciplina clerical. Para aplicá-la, portanto, os magistrados brasilienses tiveram de fantasiar-se mentalmente de superiores eclesiásticos do réu e, ao mesmo tempo, atribuir ao seu tribunal cardinalício imaginário uma prerrogativa da justiça civil e penal, que é a de impor multas. Após terem assim sintetizado em suas pessoas os poderes eclesial e estatal, usando-os para tapar a boca de um cidadão sem poder nenhum, ainda proclamaram que ele – e não o tribunal que o condenava – era a Santa Inquisição rediviva.

Esses magistrados, portanto, não falham somente em compreender o sentido das palavras, por falta de sensibilidade lingüitica. Falham também, por excesso de imaginação, em perceber a situação real, imediata, concreta, na qual eles próprios vivem e atuam. Com a maior desenvoltura e segurança, entendem-na às avessas, como aquele maluco do filme de Woody Allen que, recebendo no hospício a visita diária da médica, acreditava ser o psicólogo clínico atendendo a paciente em mais uma sessão de análise. Em psiquiatria, isso chama-se “delírio de interpretação”. Suas excelências não se contentam com não saber o que dizem. Não sabem onde estão nem o que fazem. A exemplo do mineiro da piada, bem poderiam despertar de um traumatismo craniano perguntando:

Docovim? Oncotô? Pocovô?

(“De onde vim? Onde estou? Para onde vou?”). A diferença é que o mineiro despertou. Não creio que este artigo ajude Suas Excelências a fazer o mesmo.

Em 8 de dezembro de 2005

Mentira Temivel

8 de agosto de 2008 | Diário do Comércio

O protesto do governo russo contra a equiparação moral de nazismo e comunismo condensa uma das falsificações históricas mais temíveis de todos os tempos. Temível pelas dimensões da mentira que engloba e duplamente temível pela credulidade fácil com que é acolhida, em geral, pelos não-comunistas e mesmo anticomunistas.

Até John Earl Haynes, o grande historiador do anticomunismo americano, subscreve esse erro: “Ao contrário do nazismo, que explicitamente colocava a guerra e a violência no cerne da sua ideologia, o comunismo brotou de raízes idealísticas.” Nada, nos documentos históricos, justifica essa afirmativa. Séculos antes do surgimento do nazismo e do fascismo, o comunismo já espalhava o terror e o morticínio pela Europa, atingindo um ápice de violência na França de 1793. A concepção mesma de genocídio – liquidação integral de povos, raças e nações – é de origem comunista, e sua expressão mais clara já estava nos escritos de Marx e Engels meio século antes do nascimento de Hitler e Mussolini.

O idealismo romantizado está na periferia e não no cerne da doutrina comunista: os líderes e mentores sempre riram dele, deixando-o para a multidão dos “idiotas úteis”. É significativo que Marx, Engels, Lênin, Stalin, Mao ou Che Guevara tenham dedicado pouquíssimas linhas à descrição da futura sociedade comunista e das suas supostas belezas, preferindo preencher volumes inteiros com a expressão enfática do seu ódio não somente aos burgueses e aristocratas, mas a milênios de cultura intelectual e moral, explicados pejorativamente como mera camuflagem ideológica do interesse financeiro e do desejo de poder. Entre os não-comunistas, a atribuição usual de motivos idealísticos ao comunismo não nasce de nenhum sinal objetivo que possam identificar nas obras dos próceres comunistas, mas simplesmente da projeção reversa da retórica de acusação e denúncia que nelas borbulha como num caldeirão de ódio. A reação espontânea do leitor ingênuo ante essas obras é imaginar que tanta repulsa ao mal só pode nascer de um profundo amor ao bem. Mas é próprio do mal odiar-se a si mesmo, e simplesmente não é possível que a redução de todos os valores morais, religiosos, artísticos e intelectuais da humanidade à condição de camuflagens ideológicas de impulsos mais baixos seja inspirada no amor ao bem. O olhar de suspicácia feroz que Marx e seus continuadores lançam sobre as mais elevadas criações dos séculos passados denota antes a malícia satânica que procura ver o mal em tudo para assim parecer mais suportável na comparação. Para aceitar como verdade a lenda do idealismo comunista, teríamos de inverter todos os padrões de julgamento moral, admitindo que os mártires que se deixaram matar na arena romana agiram por interesses vis, ao passo que os assassinos de cristãos na URSS e na China agiram por pura bondade.

Nos raros instantes em que algum dos teóricos comunistas se permite contemplar imaginativamente as supostas virtudes da sociedade futura, ele o faz em termos tão exagerados e caricaturais que só se podem explicar como acessos de auto-excitação histérica sem qualquer conexão com o fundo substantivo das suas teorias. Ninguém pode reprimir um sorriso de ironia quando Trotski diz que na sociedade comunista cada varredor de rua será um novo Leonardo da Vinci. Como projeto de sociedade, isso é uma piada – o comunismo inteiro é uma piada. Ele só é sério enquanto empreendimento de ódio e destruição.

Ademais, o protesto russo suprime, propositadamente, dois dados históricos fundamentais:

(1) O fascismo nasceu como simples dissidência interna do movimento socialista e não como reação externa. Sua origem está, comprovadamente, na decepção dos socialistas europeus com a adesão do proletariado das várias nações ao apelo patriótico da propaganda belicista na guerra de 1914. Fundados na idéia de que a solidariedade econômica de classe era um laço mais profundo e mais sólido do que as identidades nacionais – alegadamente invenções artificiosas da burguesia para camuflar seus interesses econômicos –, Lênin e seus companheiros de partido acreditavam que, na eventualidade de uma guerra européia, os proletários convocados às trincheiras se levantariam em massa contra seus respectivos governos e transformariam a guerra num levante geral socialista. Isso foi exatamente o contrário do que aconteceu. Por toda parte o proletariado aderiu entusiasticamente ao apelo do nacionalismo belicoso, ao qual não permaneceram imunes nem mesmo alguns dos mais destacados líderes socialistas da França e da Alemanha. Ao término da guerra, era natural que o mito leninista da solidariedade de classe fosse submetido a análises críticas dissolventes e que o conceito de “nação” fosse revalorizado como símbolo unificador da luta socialista. Daí a grande divisão do movimento revolucionário: uma parte manteve-se fiel à bandeira internacionalista, obrigando-se a complexas ginásticas mentais para conciliá-la com o nacionalismo soviético, enquanto a outra parte preferiu simplesmente criar uma nova fórmula de luta revolucionária – o socialismo nacionalista, ou nacional-socialismo.

Não deixa de ser significativo que, na origem do “socialismo alemão” – como na década de 30 era universalmente chamado –, a dose maior de contribuições financeiras para o partido de Hitler viesse justamente da militância proletária (v. James Pool “Who Financed Hitler: The Secret Funding of Hitler’s Rise to Power, 1919-1933”, New York, Simon & Schuster, 1997). Para uma agremiação que mais tarde os comunistas alegariam ser puro instrumento de classe da burguesia, isso teria sido um começo bem paradoxal, se essa explicação oficial soviética da origem do nazismo não fosse, como de fato foi e é, apenas um engodo publicitário para camuflar ex post facto a responsabilidade de Stalin pelo fortalecimento do regime nazista na Alemanha.

2) Desde a década de 20, o governo soviético, persuadido de que o nacionalismo alemão era um instrumento útil para a quebra da ordem burguesa na Europa, tratou de fomentar em segredo a criação de um exército alemão em território russo, boicotando a proibição imposta pelo tratado de Versailles. Sem essa colaboração, que se intensificou após a subida de Hitler ao poder, teria sido absolutamente impossível à Alemanha transformar-se numa potência militar capaz de abalar o equilíbrio mundial. Parte da militância comunista sentiu-se muito decepcionada com Stalin quando da assinatura do famoso tratado Ribentropp-Molotov, que em 1939 fez da União Soviética e da Alemanha parceiros no brutal ataque imperialista à Polônia. Mas o tratado só surgiu como novidade escandalosa porque ninguém, fora dos altos círculos soviéticos, sabia do apoio militar já velho de mais de uma década, sem o qual o nazismo jamais teria chegado a constituir uma ameaça para o mundo. Denunciar o nazismo em palavras e fomentá-lo mediante ações decisivas foi a política soviética constante desde a ascensão de Hitler – política que só foi interrompida quando o ditador alemão, contrariando todas as expectativas de Stalin, atacou a União Soviética em 1941. Tanto do ponto de vista ideológico quanto do ponto de vista militar, o fascismo e o nazismo são ramos do movimento socialista. (Deixo de enfatizar, por óbvia demais, a origem comum de ambos os regimes no evolucionismo e no “culto da ciência”. Quem deseje saber mais sobre isto, leia o livro de Richard Overy, “The Dictators. Hitler’s Germany, Stalin’s Russia” New York, Norton, 2004.)

Mas ainda resta um ponto a considerar. Se o comunismo se revelou uniformemente cruel e genocida em todos os países por onde se espalhou, o mesmo não se pode dizer do fascismo. A China comunista logo superou a própria URSS em furor genocida voltado contra a sua própria população, mas nenhum regime fascista fora da Alemanha jamais se comparou, nem mesmo de longe, à brutalidade nazista. Na maior parte das nações onde imperou, o fascismo tendeu antes a um autoritarismo brando, que não só limitava o uso da violência aos seus inimigos armados mais perigosos, mas tolerava a coexistência com poderes hostis e concorrentes. Na própria Itália de Mussolini o governo fascista aceitou a concorrência da monarquia e da Igreja – o que já basta, na análise muito pertinente de Hannah Arendt, para excluí-lo da categoria de “totalitarismo”. Na América Latina, nenhuma ditadura militar – “fascista” ou não – jamais alcançou o recorde de cem mil vítimas que, segundo os últimos cálculos, resultou da ditadura comunista em Cuba. Comparado a Fidel Castro, Pinochet é o menino-passarinho. Em outras áreas do Terceiro Mundo, nenhum regime alegadamente fascista fez nada de parecido com os horrores do comunismo no Vietnam e no Cambodja. O nazismo é uma variante especificamente alemã do fascismo, e essa variante se distinguiu das outras pela dose anormal de violência e crueldade que desejou e realizou. Em matéria de periculosidade, o comunismo está para o fascismo assim como a Máfia está para um estuprador de esquina. Mas não podemos esquecer aquilo que diz Sto. Tomas de Aquino: a diferença entre o ódio e o medo é uma questão de proporção – quando o agressor é mais fraco, você o odeia; quando é mais forte, você o teme. É fácil odiar o fascismo simplesmente porque ele sempre foi mais fraco do que o comunismo e sobretudo porque, como força política organizada, está morto e enterrado. O fascismo jamais teve a seu serviço uma polícia secreta das dimensões da KGB, com seus 500 mil funcionários, orçamento secreto ilimitado e pelo menos cinco milhões de agentes informais por todo o mundo. Mesmo em matéria de publicidade, as mentiras de Goebbels eram truques de criança em comparação com as técnicas requintadas de Willi Münzenberg e com a poderosa indústria de desinformatzia ainda em plena atividade no mundo. Se, no fim da II Guerra, a pressão geral das nações vencedoras colocou duas dúzias de réus no Tribunal de Nuremberg e inaugurou a perseguição implacável a criminosos de guerra nazistas, que dura até hoje, o fim da União Soviética foi seguido de esforços gerais para evitar que qualquer acusação, por mínima que fosse, recaísse sobre os líderes comunistas responsáveis por um genocídio cinco vezes maior que o nazista. No Cambodja, o único país que teve a coragem de esboçar uma investigação judicial contra os ex-governantes comunistas, a ONU fez de tudo para boicotar essa iniciativa, que até hoje se arrasta entre mil entraves burocráticos, aguardando que a morte por velhice livre os culpados da punição judicial. O fascismo atrai ódio porque é uma relíquia macabra do passado. O comunismo está vivo e sua periculosidade não diminuiu nem um pouco. O temor que inspira transmuta-se facilmente em afetação de reverência exatamente pelos mesmos motivos com que o entourage de Stalin fingia amá-lo para não ter de confessar o terror que ele lhe inspirava.

Em 8 de agosto de 2008

Da Ignorancia A Maldade

8 de agosto de 2005 | Diário do Comércio

WASHINGTON, DC – Quando você olha um objeto qualquer – um gato, uma cadeira, uma nuvem, um palito de fósforo –, não percebe nele somente o traço essencial que o define pelo nome. Percebe também um conjunto de aspectos secundários que o individualizam e o distinguem de outros entes da mesma espécie. Percebe, por exemplo, que é um gato rajado e não preto, que é grande e gordo em vez de pequeno e magro, que está deitado e imóvel em vez de correr e saltar, que está no sofá da sala e não em cima da mesa da cozinha etc., etc. É esse conjunto de aspectos secundários que diferencia a percepção concreta da mera idéia abstrata de “gato”, a qual idéia é sempre a mesma para todos os gatos de todos os tamanhos e cores, percebidos em todos os lugares, posições e atitudes possíveis.

Aristóteles denominava “categorias” esses vários aspectos sob os quais um ente ou coisa é percebido instantaneamente. Perceber com realismo é apreender um objeto, fato ou situação sob as várias categorias, captando com exatidão as diferenças que ele exibe em cada uma delas e articulando-as num todo concreto. É claro que nem sempre essa articulação é intuitiva e instantânea. Às vezes surge uma incongruência qualquer entre os aspectos percebidos, e o todo não se completa intuitivamente. Aí você recorre à conjeturação lógica para tentar completá-lo mentalmente, mas o melhor que a lógica vai produzir então é uma hipótese mais plausível. A verificação da hipótese só pode ser obtida por um segundo exame do objeto. Por exemplo, se a forma externa que ele mostra sugere que é um gato, mas o tamanho parece excessivo para um gato, você pode conjeturar que é uma onça ou tigre, mas só tirará a dúvida se olhar para o bicho de novo, ao menos pela fração de segundo necessária para concluir que está na hora de sair correndo. Em todos os casos e circunstâncias, nada substitui a percepção intuitiva adequada e completa.

Tanto é assim que, mesmo naquelas formas de conhecimento mais elevadas e complexas a que chamamos “ciências”, o teste da verdade vem sempre, em última análise, da experiência, isto é, do acesso intuitivo a algum dado de realidade presente. A experiência sistemática é, na esfera das ciências, o equivalente da percepção intuitiva na cognição vulgar ou pré-científica. Os conceitos descritivos e explicativos de qualquer ciência, por sua vez, não são senão aplicações mais especializadas das dez categorias descobertas por Aristóteles (substância, qualidade, quantidade, relação, ação praticada, ação sofrida, lugar, tempo, posição e atitude). O conhecimento da realidade é sempre uma questão de percepção, e percepção é articulação intuitiva de traços percebidos sob as várias categorias. A conclusão inevitável é que a aplicação eficaz dos conceitos científicos depende de uma boa percepção vulgar prévia. A tentativa de aplicar conceitos científicos a realidades mal percebidas resulta apenas em delírio pedante, em histórias da carochinha adornadas com uma aparência de linguagem intelectualmente sofisticada. Na imagem resultante, os traços percebidos são deformados por categorias impróprias e a confusão pode chegar a tal ponto que o trabalho mental de gerações inteiras se torna esforço perdido.

Na percepção de fatos mais complexos do que um gato dormindo, a possibilidade de incorrer nesse erro é enorme, sobretudo quando são fatos públicos sujeitos a deformações operadas por toda sorte de “especialistas”, palpiteiros, ativistas fanáticos e partes interessadas. Maior ainda a possibilidade do desastre quando a comunidade que participa do debate não tem prática do assunto e arrisca, por automatismo, e às vezes com fartura de termos científicos, jurídicos, sociológicos, etc., toda sorte de interpretações deslocadas, adaptadas de experiências vagamente parecidas, tornando ainda mais inacessível a realidade do objeto.

No caso do Mensalão, por exemplo, a incapacidade geral de atinar com a diferença específica do que está acontecendo é produzida pelo seguinte fator: uma década e meia de denúncias, fomentadas astuciosamente pelo partido que num choque de retorno veio a tornar-se depois o principal suspeito delas, criou o hábito de encarar o dinheiro do Estado como o bem mais valioso, superior mesmo ao próprio Estado, e de não conceber os crimes contra o Estado senão sob a categoria do roubo e da corrupção. Isso tornava impossível imaginar a possibilidade de delitos mais vastos e ambiciosos, que assim podiam ser cometidos sem medo ante milhões de olhos cegos.

Ora, o partido que infundiu esse hábito na mente do povo fez isso justamente porque sabia que o calcanhar-de-Aquiles dos adversários a quem desejava destruir estava na sua ânsia de enriquecimento pessoal, coextensiva à sua vacuidade ideológica, à sua completa falta de objetivos político-estratégicos maiores. Ele, por sua vez, tinha um objetivo político-estratégico maior: a destruição da ordem democrática, a deglutição do Estado no ventre da onipotência partidária, a criação de um regime socialista nos moldes delineados pelo Foro de São Paulo, o alinhamento do Brasil no eixo comuno-terrorista. Tinha esse objetivo e sabia não apenas que ele era ilegal em si mas que sua realização exigiria o uso de meios criminosos de envergadura jamais ambicionada por seus miúdos adversários. Não se tratava de enriquecer o sr. fulano ou de garantir o futuro do sr. beltrano, corrompendo, para esse fim, meia dúzia de parlamentares e uns quantos funcionários burocráticos. Tratava-se de elevar um partido acima do poder do Estado – e para isso era preciso corromper o maior número de políticos, a classe política inteira se possível, sobretudo e de preferência os virtuais adversários do partido, para que, em caso de perigo, corressem em socorro dele ou pelo menos se abstivessem de dizer o que sabiam contra ele. Tratava-se de comprar tudo e todos, organizadamente, sistematicamente, para que ninguém pudesse denunciar nada sem denunciar-se a si próprio.

Foi para isso, precisamente, que esse partido desencadeou mil e uma campanhas de “ética”, fomentando a indústria do denuncismo que ao longo de uma década e meia manteve a nação num permanente estado de sobressalto, sempre à espera de novos e novos escândalos que minavam a confiança do povo nas instituições e o induziam a apostar suas últimas esperanças na idoneidade do denunciante, sem imaginar que ele não produzia denúncias senão como elemento de um plano criminoso infinitamente mais vasto e ambicioso do que todos aqueles delitos isolados contra os quais ele incitava a revolta popular. Desviar contra os corruptos vulgares o potencial explosivo dessa revolta, amortecendo ao mesmo tempo o impacto de crimes incomparavelmente mais graves como o respaldo dado pelo Foro de São Paulo aos narcotraficantes das Farc e aos seqüestradores do MIR – mesmo quando atuavam no território nacional, matando brasileiros, treinando quadrilhas de bandidos nos morros, envenenando crianças com cocaína nas escolas –, foi a tática usada numa longa operação de amortecimento da inteligência pública, de modo a torná-la incapaz de perceber os fatos com suas devidas proporções. A recém-descoberta corrupção petista não é a negação dos velhos slogans “éticos” do partido: é a continuação natural deles, já que não foram inventados senão para prepará-la por meio da camuflagem, do diversionismo e da imbecilização planejada.

Os corruptos à moda antiga apropriavam-se do dinheiro do Estado para seus próprios fins particulares. O PT apropriou-se do Estado, usando o dinheiro dele para suas próprias finalidades estratégicas. Os primeiros deixavam o Estado intacto porque viviam dele, alimentando-se das suas sobras. O PT usou o Estado inteiro como alimento, assimilando-o no sentido estritamente fisiológico do termo, isto é, eliminando-o como entidade independente e recriando-o como elemento da sua própria estrutura.

Hoje está claro que a estratégia seguida para isso ao longo das últimas décadas comportava, antecipadamente, planos alternativos:

PLANO A Dominar psicologicamente a sociedade por meio da tática dos sobressaltos e da chantagem moralista, e em seguida tomar o Estado quando já não houvesse mais resistência exceto suicida.

PLANO B Se isso falhasse, entregar à execração pública alguns bodes expiatórios e tentar salvar a aura mágica do símbolo Lula para poder recomeçar tudo de novo.

PLANO C Se isso também falhasse, salvar ao menos a reputação do esquerdismo como tal, apresentando a corrupção petista não como a implementação lógica de uma estratégia de conjunto e sim como uma “traição” aos belos ideais da esquerda, e transferindo para algum partido secundário – escolhido dentre os muitos do Foro de São Paulo — o encargo de posar como nova encarnação da moral e dos bons sentimentos.

O plano A falhou porque Roberto Jefferson aceitou o suicídio como meio de resistência. O plano B está falhando. O plano C está em plena realização. A nova encarnação da moralidade é a sra. Heloísa Helena com o seu PSOL. Até militares patriotas estão caindo no engodo, sem perceber que esse partido é tão sujo quanto o PT, já que tem entre seus mentores nada menos que um terrorista, Achille Lollo, condenado na Itália pelo assassinato de duas crianças, escondido durante décadas por padrinhos poderosos e por fim acolhido no Brasil pelo governo petista – um belíssimo curriculum vitae, que em nada perde para o do agente cubano José Dirceu.

Não por coincidência, escrevi com um ano e meio de antecedência que isso ia acontecer ( Jornal da Tarde, 12 fev. 2004 ), e tudo está acontecendo exatamente como descrevi. O Brasil é de uma obviedade acachapante.

No entanto, tão arraigado é o vício mental infundido na população pela propaganda “ética” petista, que ninguém, hoje, parece perceber a diferença entre casos corriqueiros de corrupção e o crime incomparavelmente maior que o PT praticou e está praticando. O que o PT fez não foi desviar dinheiro daqui e dali para constuir piscinas ou alimentar amantes de deputados. Foi criar um macro-sistema de corrupção destinado a neutralizar oposições, a debilitar a capacidade investigativa do Estado e a confundir a população inteira para fazer dela e da própria máquina estatal instrumentos dóceis a serviço da instauração lenta e anestésica de uma ditadura informal sob o nome de democracia.

Isso não é corrupção. É golpe. É conspiração. É alta traição. Para quem se meteu em empreendimento tão ambicioso, tão perverso, tão maligno, ser acusado de mera corrupção é um alívio. Sempre resta a esperança de que seus crimes sejam nivelados assim aos de um P. C. Farias qualquer, sem manchar a reputação dos “ideais” que os inspiraram e sem estrangular a esperança de que o esquema desmantelado possa ser reconstruído em seguida com outros agentes e outro rótulo partidário.

Intoxicada por meio século de “revolução cultural” que tornou a cosmovisão da esquerda a única referência moral vigente, atordoada pela tagarelice “ética” de duas décadas, a nação parece empenhada em tomar os anéis da elite golpista com todo o cuidado para não lhe machucar os dedos. Dissolvendo a percepção da realidade concreta numa sopa de classificações abstratas inapropriadas à situação, ela colabora para que o criminoso, na mais ousada das hipóteses, seja condenado por um crime menor e saia ileso para tentar de novo o golpe maior.

Sociedade E Mercado

8 de Junho de 2002 | 8 de Junho de 2002

O meu amigo Nelson Lehmann, do Instituto Liberal de Brasília, mandou-me umdos mais brilhantes textos que li nos últimos tempos (“O mercado ou a teoriados três verbos”), no qual ele lança luz sobre a suspeita que os socialistasde todos os matizes lançam sobre o que se chama de mercado, a economia de produção em massa destinada ao processo de trocas. Ele demonstra que os socialistas querem é um retorno à forma familiar de organização, anterior à Polis, algo impossível depois de certo estágio de desenvolvimento. O verbo doar (registre-se: compulsoriamente, via Estado) é o que está por trás de todo o argumento socialista e daí ser essa proposta política ntrinsecamente totalitária, pois doação compulsória não obedece a critério racional algum, exceto à vontade do governante. A doação compulsória será sempre precedida pelo ato de tomar, algo bastante primitivo e injusto, bárbaro, próprio das relações pré-civilizadas.

O fato objetivo é que não consigo ver oposição entre o conceito de mercado e o de sociedade. São sinônimos. Pela palavra mercado designa-se o conjunto de relações econômicas que interligam indivíduos isolados que, por laços invisíveis do processo de trocas, interagem e cooperam para o bem-estar coletivo. É o que poderíamos chamar de a própria construção do social. As tentativas que o Estado tem feito para se substituir a esse processo podem ser consideradas um redondo fracasso, na medida em que não resolve os supostos males que visa a combater e ainda pratica a injustiça de forma arbitrária.

O único campo da ação humana onde sociedade e mercado não se equivalem nos tempos modernos está no âmbito das relações familiares, como bem demonstrou Nelson Lehmann. Aqui o verbo doar se sobrepõe aos dois outros, o tomar e o trocar. Há uma outra lógica. Quando enxergamos o convívio de milhões de seres que se desconhecem e ainda assim cooperam de forma racional para a sobrevivência coletiva, é que percebemos o quanto a liberdade de iniciativa e a busca dos interesses individuais, dentro das regras civilizadas, são a melhor forma de se alcançar a prosperidade coletiva e a paz social.

O verbo tomar, abstraindo os chamados grupos criminosos, passou a ser conjugado apenas pelos governantes (sim, eles praticam o roubo consentido, legal), que acham que podem se substituir ao mercado. Estão enganados. Eles apenas praticam a injustiça de forma arbitrária contra pessoas indefesas e que praticam as virtudes necessárias para que haja o processo produtivo, a diligência, o trabalho diuturno como valor em si, a competência, a organização, a cooperação.

Outro dia, conversando com uma filha adolescente, travei um diálogo que me lembrou um dito de Adam Smith, o de que o nosso almoço não depende da caridade do açougueiro, mas da sua busca por seus próprios interesses. Como todo adolescente generoso, a menina me disse que quer fazer um curso de nível superior que lhe possa permitir ajudar às pessoas. Qual?

Perguntei-lhe. Medicina. Perguntei-lhe em seguida: você não acha que o agricultor que nos colocou a comida à mesa (estávamos jantando), a pessoa que fabricou a roupa que você veste, aqueles que produziram o automóvel, etc, também não lhe estão ajudando e ajudando a todos? Ela me olhou espantada, pois jamais haviam lhe ocorrido que esses bens, tão necessários à vida, não caem do céu e nem nos chegam pelo ato de doação. Em troca deles, os membros produtivos da nossa família dão o melhor de si, o que acaba beneficiando toda a coletividade, até mesmo indivíduos que podem estar no lado oposto do Planeta, no extremo mais longínquo.

O texto do Nelson Lehmann não nos diz outra coisa, cercado de toda erudição e rigor expositivo, como lhe é próprio. Quem sabe tem que louvar o mercado. Só quem é ignorante e está possuído de má fé para não reconhecer essa obviedade.

Em 8 de junho de 2002

Leituras

Rodizio De Santidades

7 de setembro de 2006 | Jornal do Brasil

A construção do sistema nacional de roubalheira petista não começou em 2003, nem é um desvio acidental da linha partidária. Vem do início dos anos 90. É parte integrante da estratégia de conquista progressiva do poder total, que passa pela destruição sistemática da ordem pública e pela parceria ignóbil entre partidos esquerdistas e organizações criminosas no Foro de São Paulo. Não há um só dirigente do PT ou de qualquer outro partido de esquerda que não saiba disso, nem jornalista que o ignore. Por isso mesmo conseguiram escondê-lo tão bem.

Agora que se tornou difícil continuar negando as patifarias mais espetaculares usadas para implementar o grande engodo, só resta aos mentores esquerdistas fazer aquilo que previ em março de 2004: “Se o PT cair em total descrédito..., entrará em ação o Plano B: suicidar o governo alegando que falhou porque estava muito ‘à direita’ — e aproveitar-se da oportunidade para acelerar a transformação revolucionária do país, ...

transferindo a militância (petista) para outra e mais agressiva organização de esquerda .” (Cf.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/040311jt.htm .)

O manifesto (publicado na Folha de terça-feira) no qual 250 picaretas acadêmicos internacionais, lulistas históricos, saem repentinamente acusando o governo Lula de “neoliberal” e pedindo votos para a Sra. Heloísa Helena, já é o plano B em ação.

Retroativamente, o padroeiro da esquerda é jogado para a direita junto com suas culpas, a data dos delitos é transferida para 2002 e doze anos de conspiração criminosa desaparecem numa nuvem de enxofre, de trás da qual emerge puro e santo o novo objeto de devoção, veraz e autêntico como uma virgem celeste de desfile carnavalesco, esmagando sob os seus mimosos pezinhos a serpente do capitalismo malvado e ladrão.

Limpar-se na sua própria sujeira é a tática mais velha e persistente do repertório esquerdista. Não há limites para a mendacidade, a malícia, a perversidade e o grotesco da mente revolucionária. Seu único deus é o Poder, sua única moral é a da vitória a todo preço. O resto é jogo dialético para estontear o adversário.

Continuem confiando nessa gente e ela lhes roubará tudo, a liberdade, a bolsa, a vida e o último resíduo de dignidade, como roubou no Leste Europeu e em Cuba. E, se vocês acham que existe algum esquerdista mais honesto que o outro, não estão de todo errados: o antecessor é quase sempre um pouco menos canalha do que o sucessor.

Acabo de ler, maravilhado, o estudo que Paulo Mercadante consagrou a um herói da inteligência brasileira ( Tobias Barreto, o Feiticeiro da Tribo , UniverCidade, 2006). Não sei o que admirar mais: o estilo e a erudição do autor, remanescente da espécie extinta dos grandes escritores brasileiros, ou a energia incansável com que o personagem, isolado e sem recursos no meio provinciano, luta para manter-se ao nível dos debates filosóficos do seu tempo, um dever que os intelectuais subsidiados de hoje em dia ignoram solenemente. Honrado pela mídia chique com a infalível homenagem do silêncio total, o livro só se torna, por isso, ainda mais digno de atenção.

Em 7 de setembro de 2006

A Voz Dos Fatos

7 de outubro de 2010 | Diário do Comércio

Não é necessário analisar os resultados da eleição de domingo. Eles falam por si. O fato mais significativo, acima de qualquer possibilidade de dúvida, foi a votação espetacular do palhaço Tiririca. Ela é a moral da história de oito anos da Era Lula. Ostentando com franqueza sarcástica a sua condição de candidato inculto, burro, desprepreparado e inepto, Tiririca explicitou a regra implícita que elegeu o sr. Luís Inácio Lula da Silva em 2002 e lhe garantiu o aplauso de todo o beautiful people deste país.

Todos conhecem a previsão do general Olimpio Mourão Filho, publicada no seu livro de 1978, A Verdade de um Revolucionário : “Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semi-analfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é um gênio político e um grande homem, e de que tudo o que faz está certo. Em pouco tempo transforma-se um ignorante em um sábio, um louco em um gênio equilibrado, um primário em um estadista. E um homem nessa posição, empunhando as rédeas de um poder praticamente sem limites, embriagado pela bajulação, transforma-se num monstro perigoso.”

A Era Lula foi muito além da profecia. A adulação transpôs os limites do círculo palaciano, espalhou-se por todas as camadas sociais, implantando em milhões de almas uma nova escala de julgamento que invertia, num só lance, todos os valores. Pois não chegaram a enxergar uma virtude mística no fato de que o homem, subindo na escala social como nenhum outro brasileiro, aprendesse a vestir ternos Armani, a aparar a barba e a polir as unhas, mas continuasse tão iletrado – e orgulhoso de sê-lo – quanto no começo da carreira? Ao longo do governo Lula, o império do mau exemplo se impôs mediante atos, sem que ninguém ousasse verbalizar o seu significado, no entanto evidente aos olhos de todos. Tiririca simplesmente traduziu em palavras a máxima que meio Brasil já vinha seguindo sem declará-la: o maior dos méritos é subir na vida sem mérito.

Os 1.350.000 eleitores que transformaram a abestada criatura no deputado mais votado do Brasil fizeram muito mais do que enviar um eloqüente recibo a Lula e seus cultores: “Captamos a mensagem, sr. Presidente”. Mostraram, da maneira mais clara, que uma expressiva parcela do eleitorado já desistiu de levar a sério uma palhaçada eleitoral onde a maioria conservadora – algo entre 70 e 80 por cento – não tem canais partidários por onde se fazer ouvir. Essa situação grotesca e degradante é precisamente aquilo que o sr. Presidente da República chama de “novo paradigma” e, inflado de triunfo, qualifica de irreversível, provavelmente com razão. Rateado o espaço eleitoral entre a esquerda da esquerda e a direita da esquerda, os remanescentes da antiga direita encaixam-se aí como podem: os sicofantas explícitos, na primeira, os camuflados na segunda. Não resta ninguém para pregar o desmantelamento da máquina de corrupção e subversão petista, nem para prometer um castigo exemplar aos protetores das Farc e do PCC nas altas esferas, nem para dar voz à repulsa do povo pelas políticas abortistas, nem mesmo para explicar, com a simplicidade da lógica elementar, que uma inclinação sexual mutável não pode ser fonte de direitos permanentes.

Já na Era FHC não havia direita. Havia esquerda e “centro”. Associada a palavra “direita” a toda sorte de crimes e abusos – objetivamente, no entanto, muito menores que os da esquerda –, todo direitista buscou prudente abrigo num inócuo meio-termo, sem saber que com isso se condenava à “espiral do silêncio” e à derrota inevitável. O passo seguinte foi rotular ao menos parte do “centro” como “extrema direita”, de modo que os centristas trocassem novamente de crachá. Quando o sr. Luís Inácio festejou como apoteose da democracia a ausência de candidatos presidenciais de direita nas presentes eleições, a obra da “espiral do silêncio” estava completa. Era a vitória final do “novo paradigma”: vote em quem quiser, contanto que seja de esquerda. É uma daquelas situações que o velho Karl Kraus diria impossíveis de satirizar, por já serem satíricas em si mesmas. Quem pode encarná-la melhor do que um palhaço profissional que alardeia como suprema razão para votarem nele a sua completa falta de qualificações para o cargo?

Outros dois fatos devem ser interpretados na mesma direção.

A vitória do sr. Tarso Genro no Rio Grande do Sul mostra que os liberais gaúchos nunca entenderam o óbvio: que sua vitória de 2006 não se deveu às suas lindas doutrinas e doces propostas, mas à hostilidade do povo gaúcho ao partido que durante doze anos transformara o Estado na sede nacional da subversão comunista. Uma vez no poder, tinham a obrigação precípua de destruir o esquema comunopetista, com o qual, em vez disso, preferiram cultivar uma política servil de boa vizinhança. Perderam para o velho inimigo porque não ousaram ser direitistas. Num campeonato de esquerdismo, vence, por definição, o mais esquerdista.

Quanto à votação modesta do sr. José Serra, ela já era esperada. Ele só poderia ampliá-la se, em vez das meras e evanescentes alusões que fez à aliança PT-Farc, apresentasse um programa de ação claro, definido, para o desmantelamento do Foro de São Paulo e de todas as articulações criminosas que o compõem. Parece até abusivo ter de lembrar isto a um político profissional, mas falemos o português claro: Candidatos presidenciais não fazem “críticas”, candidatos presidenciais não “denunciam”. Criticar e denunciar, no fim das contas, é somente falar. Isso é para os habitantes do Parlamento, que é um foro de debates, ou para os articulistas de mídia, que não têm poder de mando. Candidatos presidenciais, em vez disso, apresentam propostas de ação. Uma proposta de ação que quebre a espinha da narco-subversão e devolva a paz a um povo atemorizado pela violência – eis o que o eleitorado brasileiro espera. O sr. Serra, em vez de atender ao grito sufocado de uma nação prisioneira, limitou-se à função de crítico, e de crítico inibido pela timidez de ferir seus antigos companheiros de militância, dos quais, por alguma razão, se sente devedor e refém. A crítica, em si, tem seus méritos, e creio tê-los reconhecido sem meias palavras. Mas de um candidato presidencial espera-se muito mais. O sr. Serra que mostre a disposição de fazê-lo, e atrairá para si muito mais votos do que poderá obter mediante arranjos e alianças, nos quais o eleitorado só verá uma confirmação a mais de que votar em Tiririca foi a decisão mais razoável, dadas as circunstâncias.

Em 7 de outubro de 2010

Da Piedade Ao Orgulho

7 de outubro de 2000 | Época

O trajeto do catolicismo de esquerda termina na beatificação do Mal “Lênin era completamente indiferente ao sofrimento humano, que só o comovia quando apto a sublinhar seu ódio ao capitalismo.” Quem diria que essa observação de Franz Borkenau sobre o inimigo jurado do cristianismo viria um dia a poder aplicar-se, ipsis litteris , aos sacerdotes da Igreja de Cristo?

No entanto, quem ler as declarações de certos bispos brasileiros nos últimos anos haverá de reparar que, nelas, a piedade e a compaixão, longe de ocupar o centro e o topo de seu universo de valores, estão sempre subordinadas a um projeto político, reduzidas a instrumentos e adornos retóricos da luta de classes: não é qualquer sofrimento que merece a atenção dessa gente – é só aquele que, exposto, sirva para despertar o ódio e a revolta contra o governo, os ricos ou o FMI.

Isso é empiricamente verificável por simples análise textual, e basta para comprovar que tais indivíduos não são cristãos nem mesmo num sentido remoto e figurado da palavra. São simplesmente comunistas. São movidos pela mesma ambição milenarista que tornava Lênin tão insensível ao padecimento alheio quanto sensível às oportunidades de aproveitá-lo politicamente.

Compaixão é sofrer junto, é partilhar de uma dor que nem sempre se pode aliviar. É afeição que não entra em nosso peito sem trazer consigo a lembrança de nossa fragilidade, portanto a exigência incontornável da humildade e da paciência. Um dos atrativos mágicos do socialismo é justamente a perspectiva de nos libertar desse sentimento constrangedor, absorvendo-o e superando-o na síntese moral de um serviço prestado à História. O Bem, aí, identifica-se com a vitória sobre o presente, com a criação do “mundo melhor”. A convicção de servir ativamente a esse Bem infunde no homem tamanho amor-próprio que ele já não precisa das virtudes passivas, restos sombrios de uma era de submissão e impotência.

Por isso o comunista não se deixa afetar pelo sofrimento de seus contemporâneos. Ele já lhes deu o que há de melhor: sua luta pelo futuro, sua promessa de construção do socialismo. Que mais poderiam exigir?

Com as velhas virtudes abandonadas, vai embora também a consciência de culpa – e o neovirtuoso, com a maior naturalidade, subtrai-se aos julgamentos humanos. Aponte-lhe os pecados, e ele não verá em você senão a obstinação do Mal antigo que resiste ao advento do novo Bem. Já não há outro pecado no mundo senão o “reacionarismo”: quem está livre deste é puro por definição e eternamente imaculado e imaculável, faça o que fizer.

É por isso que o saldo de 100 milhões de mortos e a miséria indescritível criada pelas economias socialistas não abalam em nada a boa consciência esquerdista, imersa de uma vez por todas numa atmosfera embriagante de autobeatificação que transfigura em expressões supremas do Bem e do amor todos os crimes e desvarios: L’amour en action voilà la révolution. É também por isso que com tanta desenvoltura a mais anticristã das ideologias se adorna do encanto residual de um cristianismo em dissolução. Esse fenômeno encontra sua cabal explicação, com séculos de antecedência, na fórmula de Agostinho: “Todos os vícios se apegam ao Mal, para que se realize; só o orgulho se apega ao Bem, para que pereça”.

É dos pastores desse novo culto que o rebanho foge, buscando abrigo nas igrejas evangélicas.

Em 7 de outubro de 2000

Quem Sao E O Que Pensam Os Jovens Militantes De Direita Que Fazem Usp

7 de novembro de 2011 | ,

Eles são monarquistas, anticomunistas, contrários ao aborto e à homossexualidade, defensores do porte de arma – e alunos de mesma universidade famosa pela sua militância de esquerda. Conheça a União Conservadora Cristã (UCC), o lado direitista da USP Vida Urbana – Por IGOR RIBEIRO. – 07/11/2011 OS ANTI-MARX Saulo Mega Soares, entre dois jovens conservadores. Eles provocam um novo embate ideológico no meio universitário Alto, magro, de olhos claros e cabelos cacheados, Arthur Pittarello poderia se orgulhar de sua juventude. Mas o estudante de ciências sociais da USP parece não ligar para a própria idade. “Aí você me pegou. Tenho 22 ou 23...”, diz. Sua hesitação é reveladora: Pittarello é um cara tradicional. Monarquista e religioso, é presidente da União Conservadora Cristã (UCC). A entidade nasceu num ambiente naturalmente hostil: entre os estudantes da USP, famosos por sua histórica militância de esquerda. Mais curioso é que ele sobreviva sem o apadrinhamento de nenhum partido político de centro ou de direita. Mesmo assim, cerca de 20 jovens como ­Pittarello (23 anos confirmados) integram o UCC.

A entidade surgiu há dois anos para disputar o Diretório Central dos Estudantes da USP. Conseguiu o apoio de 217 pessoas e ficou em sexto lugar. Sem chance de vencer, a chapa chamou a atenção. Em maio, voltou a ser notícia ao participar da Contra-­Marcha da Maconha, questionando os argumentos pró-legalização da droga. O episódio rendeu à UCC a pecha de extremadireita, prontamente recusada.

Por saber que defendem ideias controvertidas no âmbito acadêmico, seus integrantes costumam ser avessos à exposição. Relutaram em falar com a reportagem de Época SÃO PAULO. Alguns não quiseram fornecer seus nomes reais e apenas um quis mostrar o rosto: o rapaz em primeiro plano na foto à direita, Saulo Mega ­Soares, de 21 anos. “Eu era trotskista quando cheguei à faculdade”, diz ele, hoje no quarto ano de Direito. “Estudei e debati muito até perceber que a filosofia marxista é equivocada. O século XX foi a completa negação de tudo o que Marx previu.” Além de ser articulado e denotar erudição, Soares joga futebol e vai à academia. “Além da leitura, gosto muito da atividade física.”

Cada um tem suas razões para estar na entidade. Catarina (nome fictício), de 20 anos, cresceu numa família católica do interior paulista. Tímida, retraída e claudicante nas palavras, ela diz que sempre cultivou um sentimento anticomunista. “A busca pela verdade é o que me move”, afirma ela, que também estuda na faculdade do Largo São Francisco. Seu colega, Pedro Henrique Barreto, de 21 anos, entrou em depressão ao procurar respostas sobre a questão do aborto – diz que a reflexão político-religiosa o salvou. “Somos movidos pela castidade. Deus nos mandou ser assim”, diz o estudante, que namora uma conservadora como ele. Sexo, só depois do casamento. Barreto gosta de jazz, música clássica e do filme Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles. Catarina prefere rock, como AC/DC e Titãs. Um de seus filmes preferidos é Tropa de elite, o mesmo de Soares, que ouve Skank e Jota Quest.

De gostos diferentes, se irmanam na ideologia. São todos monarquistas, reprovam o aborto e a homossexualidade – e defendem o porte de arma. Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, eles preenchem uma lacuna real na militância universitária. “Os grupos de esquerda atuais não defendem mais objetivos ideológicos, como justiça social”, diz o professor de ética e filosofia política da USP. Isso favoreceria a defesa de causas opostas.

“Acho saudável que exista alguma reação como a UCC”, diz o filósofo Olavo de Carvalho. Espécie de guru do conservadorismo brasileiro, ele lamenta a ausência de oposição ao que chama de “hegemonia da esquerda”. Mas acha que a militância jovem não terá força fora das universidades. “Politicamente, não vai dar em nada”, diz. Segundo Carvalho, figuras como o falecido doutor Enéas Carneiro e o deputado Jair Bolsonaro são expoentes “patológicos e excêntricos”. Para ele, não existe uma direita intelectualmente respeitável no Brasil.

Pittarello concorda: “A situação política de hoje não dá espaço a um conservador. Não temos um projeto de poder”. É nesse vazio que a UCC se mobiliza para estudar, discutir e promover eventos sobre os temas que defende, seja na USP, seja na Unicamp, onde também conta com adeptos. “Não vamos nos reduzir à mera divulgação política”, diz Barreto. “A gente também quer estudar, quer saber, quer aprender.”

AS BASES DE UM CONSERVADOR O filósofo Olavo de Carvalho elaborou a lista ao lado para ajudar a diferenciar conservadores de revolucionários TRADIÇÃO O conservador preza a experiência passada como forma de pensar o presente, em contra-ponto ao revolucionário, que entende o presente com base num futuro hipotético PROVIDÊNCIA O povo não deve sofrer os efeitos das escolhas de gerações anteriores. Os políticos têm o direito de experimentar e aprender com a experiência, mas não o de testar práticas ­arriscadas de longo prazo REFORMA Governos não têm o direito de fazer algo que os seguintes não possam desfazer. Ne­nhuma ordem social do passado foi tão ruim a ponto de bloquear a mera possibilidade de uma nova ordem DEMOCRACIA A revogabilidade das medidas de governo é um princípio democrático essencial, mas propostas revolucionárias tendem a concentrar o poder e a excluir para sempre as propostas alternativas EQUILÍBRIO A mentalidade revolucionária não é um traço permanente da natureza humana e deve ser erradicada como condição essencial para a sobrevivência da liberdade no mundo.

Em 7 de novembro de 2011

Leituras

Recordacoes Inuteis

7 de março de 2012 | Diário do Comércio

Uma fraqueza crônica do pensamento liberal é que, em sua resistência obstinada e não raro heróica ao crescimento do poder estatal, acaba por fazer vista grossa ao fato de que nem sempre os movimentos revolucionários e ditatoriais concentram o poder no Estado, mas às vezes fora dele. Na verdade, nenhum movimento poderia se apossar do Estado se primeiro não se tornasse mais poderoso que ele, criando meios de ação capazes de neutralizar e sobrepor-se a qualquer interferência estatal adversa, bem como, é claro, de manobrar o Estado desde fora e utilizá-lo para seus próprios fins. Qualquer principiante no estudo do leninismo sabe disso.

Que a esquerda petista e pró-petista estava destinada a dominar por completo o Estado brasileiro sem encontrar a mais mínima resistência, é coisa que para mim já estava clara pelo menos desde 1993, quando as famosas CPIs mostraram ser o nosso Parlamento nada mais que um bichinho dócil às injunções da grande mídia, alimentada e manobrada por sua vez pelo onipresente e onissapiente serviço de informações do PT. Foi naquele ano que publiquei A Nova Era e a Revolução Cultural , dando ciência – a quem não desejava ciência nenhuma, por achar que já possuia todas – de que a petização integral do Brasil era apenas questão de tempo. Mal havia então, entre os liberais, quem imaginasse sequer que o PT pudesse vir a ter alguma chance de eleger um presidente da República. E todos me olhavam como a um egresso do Pinel quando eu lhes dizia que, quando isso viesse a acontecer, como fatalmente aconteceria, seria numa ocasião em que o Estado já estivesse completamente dominado por dentro e por fora, a conquista do governo federal nada mais constituindo que a oficialização derradeira de um fato longamente consumado.

Enquanto isso, a intelectualidade liberal gastava todos os seus neurônios no empenho idealístico de defender no plano doutrinário a economia de mercado e a liberdade democrática, duas coisas que a esquerda nem pensaria em atacar muito seriamente naquele momento, já que precisava de ambas para poder parasitá-las e continuar crescendo até ficar forte o bastante para subjugá-las, deformá-las e, no devido tempo (que só agora está chegando) extingui-las.

Havia até quem celebrasse a proliferação das ONGs como um progresso notável da democracia liberal, na medida em que, consagrando as vias não-oficiais de ação social e política, fortalecia a sociedade civil contra as pretensões avassaladoras do gigantismo estatal.

Em vão advertia eu a essas criaturas que a “sociedade civil” era o terreno de escolha para a penetração das forças revolucionárias, decididas a só se lançar à conquista do poder de governo quando estivessem seguras de controlar, por vias não-oficiais, todos os meios possíveis de modelagem da opinião pública, assim como todos os canais de financiamento estatal e privado de uma multidão de empreendimentos revolucionários maiores e menores, setorizados e discretos o bastante para que seu efeito de conjunto simulasse uma transformação espontânea da mentalidade popular. A própria disseminação do termo, insistia este insano colunista, refletia a influência crescente e anônima do pensamento de Antonio Gramsci, naquela época já o autor mais estudado e mais citado em todas as faculdades de letras e de ciências humanas no Brasil, só ignorado por aqueles que mais interesse deveriam ter em defender-se da revolução gramscista.

O primeiro sinal de que alguém havia me prestado alguma atenção não veio senão decorrida quase uma década, e não veio dos liberais. Um artigo memorável do general José Fábrega, publicado em jornal de pequena circulação, mostrou que entre os militares havia ainda alguma inteligência desperta, o que veio a se comprovar nos anos seguintes com os dois livros espetaculares, tecnicamente perfeitos, do general Sérgio Augusto de Avelar Coutinho, A Revolução Gramscista no Ocidente (Rio, Estandarte, 2002) e Cadernos da Liberdade (Belo Horizonte, Grupo Inconfidência, 2004), infelizmente publicados tarde demais para poder inspirar qualquer ação eficaz contra o projeto de controle hegemônico da sociedade brasileira, àquela altura já praticamente vitorioso. O general Coutinho faleceu em 27 de dezembro de 2011 (v.

http://www.forte.jor.br/tag/general-sergio-augusto-de-avellar-coutinho/ ), amargurado de ver a facilidade estonteante com que a malícia organizada – que a estratégia de Gramsci não passa disso – havia se apoderado do país. O que mais o entristecia era que um processo de dominação tão óbvio, tão patente, tão bem explicado de antemão e tão fácil de compreender, pudesse ter sido aplicado a toda uma nação de maneira tão anestésica e imperceptível que qualquer gemido de protesto acabasse soando como extravagância intolerável e quase sinal de demência. Se no resto do mundo a vida imita a arte, no Brasil ela imita a piada: nossa democracia realizou à risca, com séculos de atraso, a boutade de Jonathan Swift sobre o cidadão que morreu mas, não tendo sido avisado disso, continuava acreditando que estava vivo.

Em 7 de março de 2012

Geringonca Hipnotica

7 de março de 2011 | Diário do Comércio

Os três agentes principais do processo globalizante, como vimos em artigo anterior, não são espécies do mesmo gênero: um é um grupo de governos, o outro uma comunidade internacional de bilionários, o terceiro uma cultura religiosa sem fronteiras, espalhada mesmo em território inimigo.

Só o primeiro pode ser descrito nos termos usuais da geopolítica, mas, na medida em que o projeto do Império Russo se amplia em “Império Eurasiano”, toda tentativa de defini-lo geopoliticamente esbarra em obstáculos intransponíveis. Uma vez que o domínio eurasiano abrange também o Islam, chega a ser cômico que o grande estrategista russo Alexandre Duguin apresente a disputa de poder no mundo como uma luta entre “impérios terrestres” e “impérios marítimos”, classificando a “Eurásia” entre os primeiros e os EUA no segundo grupo. De um lado, o Islam, após ocupar com grande facilidade os seus territórios circunvizinhos, alcançou projeção mundial sobretudo como potência maritima. Já na segunda metade do século IX – escreve Paolo Taufer no seu magnífico estudo sobre Espansionismo Islamico Ieri e Oggi – “todas as grandes vias marítimas eram controladas de fato pelos muçulmanos: do Estreito de Gibraltar até o Mar da China, dos portos do Egito que se comunicam com o Mar Vermelho até os da Síria.” Quanto à própria Rússia (então URSS), seu poder no século XX baseou-se menos na força dos seus exércitos que na presença ativa do Partido Comunista e do serviço secreto soviético em todas as nações e continentes. Nada houve de “terrestre” na expansão tentacular do Kremlin na África ou na América Latina. Não posso crer que os soldados de Nikita Kruchev tenham trazido a pé os mísseis que instalaram em Cuba em 1962. O combate entre a Terra e o Mar não vale nem como símbolo, já que um símbolo só funciona quando traz embutida, sinteticamente, uma multidão de fatos reais, não de ficções. O Império Eurasiano não é um símbolo, é um mito soreliano – o que é o mesmo que dizer: uma imensa cenoura-de-burro, uma geringonça hipnótica concebida para colocar milhões de idiotas no encalço de um futuro que não será jamais o que promete.

Se a missão do intelectual em tempos obscuros é dar nome aos bois, exorcizar as palavras ocas e trocar os slogans estupefacientes por uma representação exata do estado de coisas, os “eurasianos” falham miseravelmente em cumprir seu dever. Só o que podem alegar como atenuante é que os estrategistas dos dois outros blocos globalizantes também se notabilizam menos pelo realismo do que pela capacidade prodigiosa de encobrir o mundo sob a imagem projetiva de seus respectivos interesses.

Em 7 de março de 2011

Professores De Corrupcao

7 de maio de 2012 | Diário do Comércio

Ninguém é mais imoral, nem mais perigoso para a sociedade, do que o juiz da conduta alheia que tome a sua própria alma corrompida como medida máxima da moralidade humana. O homem que julga por esse padrão – pior ainda, o que ensina a julgar assim – é uma força dissolvente e corruptora ainda mais daninha do que o imoralista praticante, o bandido, o ladrão que ao menos não faz da sua torpeza pessoal uma teoria, um critério e uma lei.

Jean-Jacques Rousseau, que abandonou os filhos num orfanato, mentia mais que um cabo eleitoral, ia regularmente para a cama com as mulheres de seus benfeitores e ainda saía falando mal deles, jurava que em toda a Europa não havia ninguém melhor que ele – e, quando falava de suas altas qualidades morais, derramava lágrimas de comoção.

Rousseau tinha ao menos a desculpa de ser louco, mas sua loucura inaugurou a moda universal de tomar o próprio umbigo como ponto culminante da perfeição humana e medir tudo pela distância que vai daí ao chão.

Não faltam exemplos disso na mídia nacional. Em artigo recente, o sr. Paulo Moreira Leite jura que todo discurso moralizante é falso, porque “ tem como base uma visão fantasiosa das sociedades humanas. Considera que há pessoas de caráter límpido... incapazes... de ter segredos inconfessáveis e ambições que condenam em público mas cultivam na vida privada... A vida real não é assim...

” O que ele está dizendo é que na vida real não existem – prestem atenção: absolutamente não existem – pessoas “sem segredos inconfessáveis e ambições que condenam em público mas cultivam na vida privada”. A conclusão é inevitável: Se essas pessoas não existem, o sr. Moreira Leite, que existe, não pode ser uma delas. Logo, ele tem segredos inconfessáveis e ambições que condena em público mas cultiva na vida privada. E notem bem: ele não disse “alimentar em segredo”, que ainda poderia ter a acepção de mera fantasia; ele disse “cultivar em privado”, isto é, praticar escondido. Ele não se limita, portanto, a sonhar em ser um dia tão bem sucedido quanto os malvados que critica em público: ele se dedica ativamente a emulá-los quando não há ninguém olhando. E não apenas ele é assim, mas não concebe que exista alguém melhor que ele, alguém isento desses defeitos morais abjetos.

Ninguém pediu ao sr. Moreira essa confissão de baixeza. Ele a fez porque quis. Se entendesse o que escreve (como se isto não fosse exigir demais!), deveria admitir que ela o desautoriza automaticamente a falar mal de pessoas que, no fim das contas, não têm outro defeito senão o de ser tão ruins quanto ele.

Afinal, se não há seres humanos melhores, que possam servir de medida de aferição das virtudes e dos pecados, então só há duas alternativas: condenar os vícios em nome de padrões abstratos confessadamente inatingíveis ou deleitar-se em criticar o mal em nome do mal. A primeira hipótese chama-se moralismo insano, a segunda, fingimento cínico. O sr. Moreira critica a primeira em nome da segunda.

Todo julgamento moral sensato deve partir de certas constatações óbvias e autoprobantes. Como o Bem infinito e o Mal absoluto são entidades metafísicas que se furtam à experiência humana, só resta aos nossos pobres cérebros raciocinar em termos relativos, pesar as coisas na balança do melhor e do pior. Para isso o sujeito tem de ampliar a sua imaginação moral, pelo estudo, pela experiência e pela meditação, numa escala que vai da máxima santidade comprovada à maldade mais extrema registrada nos anais da História. Só quem se entregou a esse exercício por anos a fio tem condições de julgar a conduta alheia objetivamente, e mesmo assim com algum risco de erro. Os demais opinam arbitrariamente, em nome de preconceitos bobocas, preferências subjetivas, caprichos de momento ou interesses camuflados.

A imaginação moral do sr. Paulo Moreira Leite é, nesse sentido, a mais atrofiada e mesquinha que se pode conceber. No alto da sua escala de valores, está ele próprio. Em baixo, alguém que não é pior que ele. Em grego, “idios” quer dizer “o mesmo”. “Idiotes”, de onde veio o nosso termo “idiota”, é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez.

Que alguém tão obviamente despreparado para opinar em questões de moralidade tenha à sua disposição uma revista de circulação nacional para aí infundir na cabeça do público a miséria dos seus julgamentos é, por si, um sintoma de debacle moral muito mais alarmante, por seus efeitos sociais, do que qualquer caso específico de corrupção, de roubo, de obscenidade, até de violência. Platão já ensinava que a desordem se instala na sociedade quando muitas pessoas começam a galgar postos de importância e prestígio para os quais não têm a mais mínima qualificação. Isso refere-se principalmente àqueles que hoje chamaríamos “intelectuais” ou “formadores de opinião”. Delinqüentes, vigaristas e políticos ladrões trazem dano material às suas vítimas, mas só se corrompem a si próprios. Quando a corrupção penetra na alma dos críticos sociais, dos professores de moral, ela se alastra por toda a sociedade.

Em 7 de maio de 2012

Quem E Filosofo E Quem Nao E

7 de maio de 2009 | Diário do Comércio

À medida que se espalha a consciência da debacle total das nossas universidades públicas e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.

Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht – no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema de ensino era ignorá-lo. Se queriam prestar ao público um bom serviço, acrescentei, que tratassem de ajudar os autodidatas, aquela parcela heróica da nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o melhor da nossa cultura superior. O meio de ajudá-los era colocar ao seu alcance os recursos essenciais para a auto-educação, que é, no fim das contas, a única educação que existe. Cheguei a conceber, para isso, uma coleção de livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.

Minha sugestão foi gentilmente engavetada, e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até tornar-se aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé popular, crime organizado ou desorganizado.

Na mesma medida, o número de cartas desesperadas que me chegam pedindo ajuda pedagógica multiplicou-se por dez, por cem e por mil, transcendendo minha capacidade de resposta, forçando-me a inventar coisas como o programa True Outspeak , o Seminário de Filosofia Online e outros projetos em andamento. E ainda não dou conta da demanda. As cartas continuam vindo, e o pedido que mais se repete é o de uma bibliografia filosófica essencial. É pedido impossível. O primeiro passo nessa ordem de estudos não é receber uma lista de livros, mas formá-la por iniciativa própria, na base de tentativa e erro, até que o estudante desenvolva uma espécie de instinto seletivo capaz de orientá-lo no labirinto das bibliotecas filosóficas. O que posso fazer, isto sim, é fornecer um critério básico para você aprender a discernir à primeira vista, entre os autores que falam em nome da filosofia, quais merecem atenção e quais seria melhor esquecer.

Tive a sorte de adquirir esse critério pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele –, a primeira coisa que fazia era analisá-lo segundo os métodos e pontos de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou criticar nada. Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores estudados, a solução que lhe parecia a melhor.

A coisa era uma delícia, para dizer o mínimo. Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento das “opiniões dos sábios” e tentar articular esse material como se fosse uma teoria única. Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a questão chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso.

A conclusão imediata era a seguinte: a filosofia é uma tradição e a filosofia é uma técnica . Chega-se ao domíno da técnica pela absorção ativa da tradição e absorve-se a tradição praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.

Note-se a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita que seja, sobre as idéias de um filósofo, e levá-las à prática fielmente, como se fossem nossas, no exame de problemas pelos quais sentimos um interesse genuíno e urgente. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como se fossem papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do conhecimento. É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio , que significa “trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos da atualidade.

Muitas pessoas, levadas por um amor exagerado à sua independência de opiniões (como se qualquer porcaria saída das suas cabeças fosse um tesouro), têm medo de deixar-se influenciar pelos filósofos, e começam a discutir com eles desde a primeira linha, isto quando já não entram na leitura armadas de uma impenetrável carapaça de prevenções.

Com o Pe. Ladusãns aprendíamos que, no conjunto, as influências se melhoram umas às outras e até as más se tornam boas. Incorporadas à rede dialética, mesmo as cretinices filosóficas mais imperdoáveis em aparência acabam se revelando úteis, como erros naturais que a inteligência tem de percorrer se quer chegar a uma verdade densa, viva, e não apenas acertar a esmo generalidades vazias.

Algumas regras práticas decorrem dessas observações:

1. Quando você se defrontar com um filósofo, em pessoa ou por escrito, verifique se ele se sente à vontade para raciocinar junto com os filósofos do passado, mesmo aqueles dos quais “discorda”. A flexibilidade para incorporar mentalmente os capítulos anteriores da evolução filosófica é a marca do filósofo genuíno, herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles. Quem não tem isso, mesmo que emita aqui e ali uma opinião valiosa, não é um membro do grêmio: é um amador, na melhor das hipóteses um palpiteiro de talento. Muitos se deixam aprisionar nesse estado atrofiado da inteligência por preguiça de estudar. Outros, porque na juventude aderiram a tal ou qual corrente de pensamento e se tornaram incapazes de absorver em profundidade todas as outras, até o ponto em que já nada podem compreender nem mesmo da sua própria. Uma dessas doenças, ou ambas, eis tudo o que você pode adquirir numa universidade brasileira.

2. Não estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema vai mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom. Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e, confrontando-o com o legado da tradição, dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.

Mudam Se Os Tempos

7 de maio de 2005 | O Globo

No meu tempo de menino, as brigas eram de um contra um, rodeados de um círculo de fiscais devotados a impedir que algum dos contendores apelasse a paus e pedras ou se socorresse da ajuda de amigos para sobrepujar ilicitamente o adversário. A gente batia e apanhava com honestidade. Hoje a molecada se vangloria de sua esperteza quando se junta em três ou cinco ou dez para esmigalhar um infeliz sem chance de defesa.

O modelo vem dos adultos, por exemplo os distintos candidatos da última eleição presidencial, todos comunistas ou pró-comunistas, alegremente dividindo em família o espaço dos debates, seguros de não ser atacados em nenhum ponto vital após excluídas da mídia, do ensino e da campanha as vozes dos eventuais discordantes. Ao som das fanfarras que enalteciam a “a eleição mais transparente de toda a nossa História”, a existência de um pacto explícito entre três dos presidenciáveis no quadro do Foro de São Paulo, reforçada pela cumplicidade consciente do quarto, foi totalmente escondida do público graças aos bons serviços da classe jornalística transmutada em “agente de transformação social”, isto é, em departamento de propaganda enganosa a serviço da hipnose esquerdista.

Quando homens e meninos se igualam na prática geral da tapeação organizada, é que uma nação perdeu os últimos resquícios de vergonha na cara a está madura para desarmar os cidadãos de bem, entregando-os para ser caçados como coelhos, enquanto os representantes das Farc circulam pelas ruas sob a proteção do governo, gastando sem preocupações os lucros das duzentas toneladas de cocaína que venderam ao sr. Fernandinho Beira-Mar.

Quando um país chega a esse ponto, a fala humana se torna impotente para reclamar do estado de coisas, podendo apenas registrá-lo com aquela serenidade trágica que expressa a anestesia da alma ante o absurdo que a transcende.

Não creio que, na História universal, haja exemplo de degradação semelhante, que com tanta facilidade se apossasse de um país de dimensões continentais, e em vez de revolta popular suscitasse nada mais que sussurros contra o aumento de impostos ou a taxa de juros, comprovando ser o bolso o único ponto sensível da moralidade geral.

Não espanta que o próprio território desse país seja roído por narcoguerrilheiros e por ONGs bilionárias a serviços do autoconstituído governo mundial da ONU, enquanto a mídia e os bem-pensantes, afetando patriotismo, alertam contra a mera hipótese da instalação de bases militares americanas que, na verdade, seriam a única defesa possível contra essa invasão multilateral já em avançado estado de consumação. Quando o senso moral se inverte, inverte-se também o instinto de sobrevivência, mais ou menos como naqueles filmes em que a mocinha imbecilizada pelo pavor estapeia o policial e se refugia nos braços do serial killer .

Não uso à toa a expressão “imbecilizada pelo pavor”. Cento e cinqüenta mil homicídios anuais (a taxa, equivalente a cinco guerras do Iraque, é divulgada pelo repórter Luís Mir no seu recente livro “Guerra Civil”) bastam para fazer de um país um bicho amestrado, pronto para curvar-se docilmente, como os alemães do período entre guerras, àquele novo tipo de autoridade anunciado por Fritz Lang no seu filme profético de 1933, “O Testamento do Dr. Mabuse”:

“ Quando a humanidade, subjugada pelo temor da delinqüência, se tornar louca por efeito do medo e do horror, e quando o caos se converter em lei suprema, então terá chegado o tempo para o Império do Crime .”

Em carta ao Globo , de novo a sra. Kissling se esquiva de refutar minhas denúncias e busca refúgio em lacrimejações fingidas contra “ataques pessoais” que jamais lhe fiz. Como iria fazê-los, se nada sei da sua vida particular? E fazê-los para quê, se os atos da sua vida pública já são mais escandalosos do que qualquer coisa que ela possa ter feito na privada?

Em tempo: Os documentos comprobatórios do que aleguei contra a sra. Kissling e suas discípulas estão no livro “Catholics For a Free Choice Exposed”, de Brian Clowes (Front Royal, VA, Human Life International, 2001).

Em 7 de maio de 2005

Suprema Iniquidade

7 de julho de 2009 | Diário do Comércio

Uma rápida pesquisa no Google mostra 1.600.000 casos de emprego da palavra “abortista” para qualificar os adeptos do aborto e/ou da sua legalização. Excluem-se desse total os exemplos de uso do mesmo termo em revistas e jornais impressos, livros, debates orais, conferências, aulas e conversações do cotidiano, que elevariam o cômputo para várias centenas de milhões, sobrepujando o número de pessoas existentes no Brasil.

A partir do momento em que o Supremo Tribunal Federal acatou a sentença que condenara o Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz pelo crime de chamar uma adepta do aborto de abortista, os demais casos de emprego do termo no mesmo sentido passam automaticamente a ser crimes. Cabe portanto às autoridades a escolha entre punir todos os seus autores – isto é, a população nacional em peso, excluído o modestíssimo contingente dos militantes pró-aborto que jamais tenham usado a palavra proibida (o que não é o caso de todos eles) –, ou então deixá-los todos impunes e castigar discricionariamente um só, o Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz.

Se optar pela primeira alternativa, aquele egrégio tribunal terá se igualado ao Dr. Simão Bacamarte, superando-o apenas nas dimensões da sua megalomania, de vez que o Alienista de Machado de Assis encarcerou somente os habitantes da vila de Itaguaí, ao passo que Suas Excelências o terão feito com a quase totalidade dos brasileiros e, de quebra, com algum turista lusófono – português ou angolano, digamos – que tenha a imprudência de desembarcar nestas plagas sem primeiro informar-se das proibições vocabulares vigentes no local.

Na segunda hipótese, já não será um tribunal de justiça, e sim um comitê de aplicação seletiva de injustiças politicamente convenientes.

Nas duas eventualidades, estará desmoralizado – e, como não há logicamente uma terceira, não vejo como escapar à conclusão de que já o está.

Suas Excelências, depois de tantas outras que as precederam em postos legalmente habilitados a esse tratamento honorífico, na Presidência da República, no Senado, na Câmara dos Deputados, nas assembléias estaduais e no próprio STF, terão demonstrado, uma vez mais, que a excelência de um cargo não se transmite sempre – ou quase nunca – à pessoa do seu ocupante.

Certa vez, como eu elevasse a minha voz num bate-boca com um general embrulhão, ele exigiu que eu respeitasse a sua farda.

– Respeito-a, como não?, retruquei. – Por isso mesmo espero que ela o vomite o quanto antes, para não andar por aí com essa vergonha por dentro.

O referido enfiou a viola no saco, e eu, que felizmente jamais o vira fardado, não sei o que fez desde então, pois nunca voltei a vê-lo em indumentária nenhuma, ou desprovido dela.

Diante da atitude dos juízes para com o Pe. Lodi, sinto-me tentado a esboçar uma analogia entre a farda e a toga, mas deixo isso para depois. Por enquanto, limito-me a constatar que, além do paradoxo lingüístico-juridico acima apontado, Suas Excelências meteram-se noutro ainda pior ao endossar a premissa adotada pelo tribunal inferior, que considerou “pejorativo” o termo “abortista”.

Uma palavra só pode ser pejorativa em duas circunstâncias: ou ela é pejorativa em si mesma, como um palavrão ou um apelido insultuoso, não cabendo usá-la jamais em sentido neutro; ou, ao contrário, trata-se apenas do uso pejorativo de uma expressão que, noutro contexto, poder ser totalmente neutra e inofensiva.

Em qual dois casos está a palavra “abortista”? Em nenhum dos dois. Para que fosse pejorativa em si mesma, seria preciso que houvesse outra palavra, neutra, eufemística ou elogiosa, que designasse o mesmo objeto sem as conotações negativas da primeira. Como o próprio Pe. Lodi observou, os juízes que o condenaram foram totalmente incapazes de citar um só termo alternativo que nomeasse, sem as supostas intenções pejorativas, os adeptos do aborto e do abortismo.

Na segunda hipótese, seria preciso reconhecer que o termo “abortista”, em si, nada tem de pejorativo, que apenas são pejorativos certos usos dele, como acontece, por exemplo, com a palavra “político”, que, em certos contextos, pode ser a designação neutra de uma ocupação humana e, em outros, quase um palavrão. Admitido isso, seria preciso em seguida provar que o emprego do termo pelo Pe. Lodi teve intenção pejorativa, ou seja, que ele chamou a militante pró-aborto de abortista no “mau” sentido e não no “bom”.

Para complicar ainda mais as coisas, a prova de intenções pejorativas, na segunda hipótese, é praticamente impossível, de vez que, se não há um termo alternativo, há no entanto um termo correlato, “aborteiro”, que designa o autor de um crime e é muito anterior, no vocabulário corrente, ao surgimento da expressáo “abortista”, pelo simples fato de que a prática de abortos antecede historicamente a existência de um movimento organizado em defesa dela. A palavra “abortista” surgiu, precisamente, para distinguir entre a prática e a doutrina, subentendendo, com toda a evidência, que todo aborteiro é necessariamente abortista mas nem todo abortista é aborteiro, e excluindo, portanto, de toda suspeita de crime de aborto os meros defensores da legalização do procedimento. Esse termo constitui, assim, precisamente o oposto de um pejorativo: ele existe para proteger, não para ofender.

Como nem os juízes do tribunal inferior nem os do STF examinaram estas questões e nem mesmo as mencionaram, mostrando-se totalmente inconscientes dos tremendos problemas semânticos envolvidos na criminalização de uma palavra, a única conclusão possível é que lavraram sentença sobre um caso do qual não entenderam nada, não procuraram entender nada e nem mesmo suspeitaram de que nele houvesse algo a ser entendido antes de ser julgado.

Se foi assim, e não vejo logicamente como poderia ter sido de outro modo, então é claro que Suas Excelências de ambos os tribunais prejulgaram o caso com um desleixo imperdoável em ocupantes de cargos de tão alta responsabilidade, acrescido de uma pressa indecente em ceder às exigências histéricas de um grupo de pressão queridinho da mídia.

A Farsa Da Revolucao

7 de julho de 1999 | Jornal da Tarde

Alguém ainda tem dúvida de que se prepara uma revolução neste país? Não vou perder meu tempo tentando provar o óbvio. Salto direto para o item seguinte: revolução de quem contra quem?

As duas facções do conflito brasileiro já estão, segundo os revolucionários do momento, perfeitamente definidas. De um lado, a “direita”: o governo, aliado aos poderes globalistas, empenhado em impor ao País um modelo neoliberal fundado na entrega do nosso patrimônio à rapinagem internacional. De outro, a “esquerda”, nacionalista e progressista, empenhada na defesa do que é nosso, disposta a enfrentar o mundo, se preciso for, para inverter os termos de uma injusta barganha que oprime o povo para favorecer banqueiros.

Dito isso, qualquer cidadão cujo senso moral não esteja obnubilado por interesses egoístas optará resolutamente pela última alternativa.

Mas, aí, surge um problema. E se a equação revolucionária, tão nítida e cortante na sua fórmula verbal, não corresponder realmente à divisão das forças em disputa? E se, por baixo das facções aparentes, outros agentes mais poderosos estiverem se mexendo para dar ao espetáculo um desenlace diferente do previsto por ambos os lados em disputa? O menor deslocamento entre discurso e realidade, nessas horas, tornará a revolução um desperdício macabro de sangue, tempo e dinheiro.

Convido portanto o leitor a contemplar o abismo entre as palavras e os fatos.

De um lado, o governo. É verdade que, na esfera econômica, ele favorece o capitalismo internacional. Mas isto quer dizer que seja direitista? Como pode ser direitista um governo que, mais que qualquer de seus antecessores, se empenha em transformar a educação nacional num sistema oficial de doutrinação marxista? Como pode ser direitista um governo que favorece e incentiva todas as reivindicações mais ousadas do neo-esquerdismo mundial – o aborto, o feminismo, a affirmative action ?

De outro lado, a esquerda. É verdade que ela se opõe valentemente à venda de algumas estatais – notadamente aquelas que hoje estão sob o domínio de seus militantes. Mas como podem ser nacionalistas as organizações patrocinadas pelo dr. David Rockefeller? Como podem ser nacionalistas os homens que governam o Rio de Janeiro, cuja primeira preocupação foi a de cumprir à risca o programa de desarmamento das populações diretamente concebido pela central da Nova Ordem Mundial? Como podem ser nacionalistas os homens do MST, financiados e paparicados pela Coroa Britânica? Como pode ser nacionalista o movimento da affirmative action , modelo estrangeiro financiado pela Fundação Ford, pela Comunidade Econômica Européia e pelo BankBoston, e que, para cúmulo de antinacionalismo, nega a unidade nacional para afirmar, acima dela, a unidade racial, numa política de franco-divisionismo que só pode favorecer as ambições internacionais? Como pode ser nacionalista a esquerda ecológica e indigenista, que favorece a ocupação do nosso território por ONGs inglesas?

Lamento informar, mas essa história de revolução está mal contada. Não existe nenhuma esquerda nacionalista em luta contra uma direita internacionalista. Existem, sim, internacionalistas por toda parte, uns tentando sufocar o nacionalismo brasileiro sob pretextos liberais, outros tentando corrompê-lo, reciclá-lo e induzi-lo a servir, com plena inconsciência, à Nova Ordem Mundial. Os primeiros dizem-se liberais, mas tudo fazem para sufocar sob uma burocracia de chumbo toda iniciativa econômica popular. Os segundos dizem-se nacionalistas, mas seus programas e pretextos vêm prontos da mesma central que dita os discursos dos primeiros. Liberalismo e nacionalismo são belos ideais, expressos por belas palavras. Mas são apenas isso e não têm nada a ver com o que está acontecendo aqui. O Brasil é uma ilha de ingenuidade cercada de espertalhões por todos os lados.

A nossa pretensa revolução só terá um vencedor, e não seremos nós. Sufocada ou esvaziada a revolução, o establishment fernandino continuará loteando o Estado; vencedora, receberá a conta de toda a ajuda internacional que a tornou possível, e não haverá concessão, não haverá prosternação, não haverá subserviência que chegue para aplacar a sede de reconhecimento dos nossos benfeitores globalistas, de Rockefeller ao príncipe Charles. Os poucos nacionalistas que sobrarem terão saudades de FHC.

Nossa revolução, enfim, é uma farsa – e o bufão da cena somos nós.

Em 7 de julho de 1999

Por Favor Me Expliquem

7 de agosto de 2008 | Jornal do Brasil

Os documentos publicados pela revista “Cambio” esclarecem detalhes da conspiração PT-Farc, mas não são de maneira alguma necessários para prová-la. Ela já estava provada, muito além do que a mente mais cética poderia desejar, nas atas do Foro de São Paulo e nas edições da revista comunista “America Libre”. Se um grupo de políticos se reúne com delinqüentes para traçar uma estratégia em comum com eles para a tomada do poder, isso já constitui, acima de qualquer dúvida razoável, delito de formação de quadrilha.

Elaborar um plano revolucionário junto com quem quer que seja é aceitá-lo, a priori , como futuro parceiro na partilha do aparelho de Estado, com toda a promessa de vantagens comuns que isso implica. Portanto, o sr. Luís Inácio Lula da Silva e outros líderes petistas, conscientes dos crimes hediondos praticados pelas Farc, pelo Mir chileno e organizações congêneres, inclusive contra cidadãos brasileiros, não só se omitiram de denunciar seus autores mesmo quando estes se encontravam no território nacional, e incorreram assim em delito de prevaricação, mas ainda os premiaram antecipadamente, convidando-os para desfrutar com eles os benefícios do poder sobre todo um continente.

Mas essa aliança nunca foi só um plano de futuro: foi uma prática presente, efetiva, ao longo de toda a existência do Foro de São Paulo. Qualquer plano estratégico traçado em comum entre organizações militantes absorve e integra em si, por definição, as várias ações, lícitas e ilícitas, desempenhadas por todas elas em seus respectivos campos de atuação. A articulação engenhosa, ora camuflada, ora ostensiva, da luta política legal com o uso da violência criminosa é uma tradição centenária do movimento comunista. No Foro ela é mais que visível, na medida em que os assassinatos, os seqüestros, o contrabando de armas e o narcotráfico prosseguiram imperturbavelmente ao longo dos dezesseis anos em que o sr. Luís Inácio Lula da Silva presidiu a entidade. Nem uma única vez, ao longo desse tempo, ele deu ali o menor sinal de descontentamento ou inconformidade com esses crimes. Bem ao contrário, aplaudiu e apoiou seus autores ao ponto de condenar como “terrorismo de Estado” as ações antiguerrilha do governo colombiano. Já em plena gestão presidencial do sr. Lula, seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, ao lado do principal intelectual petista, Emir Sader, continuava publicando uma revista de propaganda comunista em associação com as Farc, enquanto seu partido se mobilizava, sistemática e obstinadamente, para proteger e libertar cada agente dessa organização ou do Mir chileno preso no Brasil. Se isso não é formação de quadrilha, por favor me expliquem o que é.

Em 28 de outubro de 2003 já fazia dois anos que o traficante Fernandinho Beira-Mar havia confessado vender armas às Farc em troca de drogas para distribuir no mercado brasileiro. Nessa data, o dr. Emir Sader e o vice-presidente do PT, Valter Pomar, estavam no seminário internacional “Experiencias de Poder Popular en América Latina y el Caribe”, da revista “America Libre”, ao lado de Raul Reyes, aquele mesmo comandante das Farc que havia confessado à Folha de S. Paulo ser o PT o principal contato da quadrilha no Brasil. Confiram em http://www.nodo50.org/americalibre/eventos.htm . Se até agora toda a “grande mídia” continua fazendo de conta que esse encontro jamais aconteceu – embora ele não se realizasse em nenhum cafundó inacessível, e sim em São Paulo –, é justamente porque ele é a prova cabal de que, pelo menos durante o primeiro mandato do sr. Lula, o PT e as Farc continuavam unidos na busca de seus objetivos comuns. E a mentira mais cínica das últimas semanas é aquela de que quaisquer contatos do com as Farc foram motivados por interesse humanitário do partido pela sorte dos reféns mantidos em cativeiro pela quadrilha. Verifiquem as atas do Foro e as de todos os seminários de “America Libre”: nem uma única palavra se disse ali, jamais, em favor desses reféns. Tudo o que se disse foi em favor do socialismo e da tomada do poder continental.

Em 7 de agosto de 2008

O Bem E O Mal Segundo Olivio Dutra

7 de abril de 2000 | 7 de abril de 2000

Um empresário é um sujeito que ganha a vida organizando a atividade econômica. Ele acumula um capital, investe, ganha, paga suas dívidas para com os fornecedores, os empregados e o Estado, e no fim, se todo dá certo, tem um lucro. A quase totalidade do lucro é reinvestida no mesmo ou em outros negócios. Uma parte ínfima ele pode gastar em benefício próprio e da família. Se seu negócio é muito, muito próspero, mesmo essa parte ínfima basta para que ele compre mansões, iates, jatinhos e jatões, carros de luxo, cavalos de raça, e tenha, se é do seu gosto, múltiplas amantes. Em geral ele se contenta com muito menos.

Um político de esquerda é um sujeito que ganha a vida tentando jogar os empregados contra os empregadores. Ele mostra aos operários os aviões, os cavalos de raça e os carros de luxo do patrão e grita: “É roubo!” No começo ele faz isso de graça. É um investimento. Assim como o empresário investe dinheiro, ele investe insultos, gestos, caretas de indignação, apelos à guilhotina. Em troca, dão-lhe dinheiro. Ele vive disso. Quando alcança o sucesso, pode dispor de mansões, iates, jatinhos e jatões, carros de luxo, cavalos de raça e amantes em quantidade não inferior às do mais próspero capitalista.

Tanto a atividade do empresário quanto a do político de esquerda pode ser exercida de maneira honesta ou desonesta. O empresário pode dar golpes em seus fornecedores, vender produtos fraudados, sonegar o pagamento devido aos operários, ou então pode pagar tudo direitinho e vender produtos bons. Do mesmo modo, o político de esquerda pode desviar dinheiro público, utilizar-se indevidamente de imóveis do Estado, possuir sob ameaça aterrorizadas empregadinhas domésticas como o fazia Mao-tsé-tung. Ou então pode fazer tudo dentro da lei que ele próprio instaurou e ser incorruptível como Robespierre.

A diferença é a seguinte: da atividade do empresário, mesmo o mais desonesto, resultam sempre uma ativação da economia, uma elevação da produtividade, a expansão dos empregos. Esses resultados podem vir em quantidade grande ou pequena, mas têm de vir necessariamente, pela simples razão de que “empresa” consiste em produzi-los e em nada mais.

Da atividade do político de esquerda, mesmo o mais honesto, resultam sempre um aumento do ódio entre as classes, o crescimento do aparato estatal que terá de ser sustentado pelos padrões com dinheiro extraído aos empregados e consumidores, a politização geral da linguagem que transformará todos os debates em confrontos de força e, em última instância, desembocará num morticínio redentor. Esses resultados também podem vir em quantidades grandes ou pequenas, mas virão necessariamente, pois “política de esquerda” consiste em produzi-los e em nada mais.

Um empresário, honesto ou desonesto, está no auge do sucesso quando pode, sem prejuízo de seus investimentos, comprar mansões, iates, carros de luxo, jatinhos, jatões etc. Ele alcança isso quando se torna um mega-empresário. Para chegar a esse ponto, ele tem de deixar em seu rastro fábricas, bancos, plantações, jornais, canais de TV e mil e um outros negócios dos quais vivem e prosperam milhares de pessoas.

Em político de esquerda, honesto ou desonesto, está no auge do sucesso quando destruiu toda oposição às suas idéias e comanda uma sociedade fielmente disposta a realizá-las. Ele alcança isso quando se torna o chefe de uma revolução vitoriosa. Para chegar a esse ponto, ele tem de deixar em seu rastro milhares ou milhões de cadáveres, edifícios destruídos, plantações queimadas, órfãos e viúvas vagando pelas ruas, fome, miséria e desespero.

O governador Olívio Dutra acha que é imoral ser empresário e que é lindo ser um político de esquerda.

Ele não tem maturidade intelectual suficiente para perceber que o sucesso final de um empresário, mesmo desonesto, traz sempre mais bem do que mal, e que o sucesso final de um político de esquerda, mesmo inflexivelmente honesto como ele, produz uma quantidade de mal acima do que qualquer bem poderá jamais reparar.

O governador Olívio Dutra, como qualquer outro político de esquerda, tem uma consciência moral deformada por um uso falso da linguagem. Ele ouviu dizer na infância: “Lucro egoísta”, “justiça social”, e impregnou-se de tal modo desses símbolos verbais do mal e do bem, que pôs sua vida a serviço do que lhe parece uma nobre causa: combater as coisas que têm nomes feios e louvar as que têm nomes bonitos. Uma coisa que criou as nações mais prósperas e livres da Terra deve ser muito má, pois tem o nome hediondo de “lucro egoísta”. Uma coisa que matou cem milhões de bodes expiatórios e reduziu à escravidão e à miséria um bilhão e meio de outros inocentes deve ser ótima, pois leva o belo nome de “justiça social”.

Romper a unidade mágica de nomes e coisas é uma operação dolorosa. Custa vergonhas e humilhações à mente altiva. Mas é o preço da maturidade. No julgamento são do homem maduro – o “ spoudaios ” –, via Aristóteles a única esperança de um governo justo, do predomínio, ainda que relativo e precário, do bem sobre o mal. Não existe bem onde não existe amor à verdade, e não existe amor à verdade onde uma mente obstinada se apega ao instinto pueril de julgar as coisas pelos nomes que ostentam.

O problema do governador Olívio Dutra, assim como de milhares que pensam como ele, já foi diagnosticado por Jesus Cristo dois milênios atrás: “Na verdade, amais o que devíeis odiar e odiais o que devíeis amar.” Eles pecaram contra o Espírito, protegendo-se por trás da belas palavras contra a visão das realidades feias, e receberam como castigo exatamente aquilo que pediam: a cegueira forçada tornou-se espontânea, e hoje a sua moralidade invertida lhes parece a atitude mais natural do mundo, a única maneira possível de julgar as coisas — o caminho do bem, fora do qual tudo é perdição e “lucro egoísta”.

As Farc E O Silencio Obsequioso

7 de Junho de 2002 | 7 de Junho de 2002

Tentando chegar a uma definição aceita universalmente sobre o que seja terror, a ONU até hoje não chegou a nenhuma. Ao tentar uma definição, esbarra numa parede, os países muçulmanos. Se estes países não concordam sobre o que seja terrorismo, chegaram a um consenso sobre o que não é terrorismo: qualquer coisa que se inclua na luta palestina. Trocando em miúdos: um palestino que se enrola em bombas e se explode em meio a civis, velhos, mulheres e crianças, não pode ser definido como terrorista. Porque os árabes não querem.

Se o Ocidente tem conceitos precisos sobre o que seja terror, a Suécia fez uma bela presepada à União Européia no mês passado. Os quinze países da UE pretendiam incluir as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), guerrilha marxista colombiana, na lista de organizações terroristas. Os suecos alegaram que não devem fazer parte da lista organizações que estejam em processo de negociação ou diálogo com seus governos. Ou seja, você pode explodir carros-bomba, matar, seqüestrar, mas não será considerado terrorista enquanto se dispuser a dialogar com as vítimas. Porque os suecos não querem.

A decisão dos suecos foi amplamente divulgada na imprensa internacional e brasileira. Fere a delicada psique das esquerdas associar marxismo a terrorismo. Se nossos jornais se apressaram a divulgar o veto nórdico, há um silêncio obsequioso quando se trata de trazer ao leitor documentos que associem as Farc ao terror. Numa época em que até mesmo órgãos como O Globo e o Estadão abrem colunas para velhos bolcheviques, pouco se pode esperar dos demais jornais, que se pretendem de esquerda ou que pelo menos com as esquerdas simpatizam. Torna-se então inteligível mas nem por isso justificável o silêncio em torno a temas que possam prejudicar o PT.

Embora o partido atualmente as negue, são notórias suas relações com a guerrilha que há décadas vem destruindo a Colômbia. Seus representantes são recebidos com tapete vermelho pelo governo petista gaúcho e fazem palestras em universidades e escolas de prefeituras geridas pelo PT. Se alguém ousa afirmar que as Farc vivem do narcotráfico, não falta um militante indignado para dizer que tais denúncias não passam de estratégia do Estados Unidos para invadir, primeiro a Colômbia, e depois o continente.

O leitor já deve ter notado a escassa presença, nas páginas dos jornais, do narcotraficante Luiz Fernando da Costa, mais conhecido por Fernandinho Beira-Mar. E não é por falta de notícias. Preso em Brasília desde abril do ano passado, Fernandinho aceitou reunir-se com agentes da DEA (Drug Enforcement Administration) e falou de suas relações com a guerrilha colombiana. A gravação desta confissão, pela sua importância, tornou-se a peça-chave que permitiu aos Estados Unidos pedir a extradição de três guerrilheiros das Farc e três narcotraficantes brasileiros, entre eles Fernandinho. Foi publicada, há questão de um mês, na revista colombiana Cambio, dirigida por Gabriel Garcia Márquez. Você pode lê-la, na íntegra, aqui. Na imprensa brasileira, nem um pio sobre este documento.

Em correspondência com meus interlocutores, costumo afirmar que as gentes já não lembram de fatos ocorridos há dez anos. Urge uma errata: não lembram de fatos ocorridos há dois meses. Se o PT hoje nega qualquer relação com as Farc, há poucas semanas elas eram publicamente defendidas pelos militantes. Não bastassem as boas relações do governo gaúcho com a narcoguerrilha colombiana, em março passado, líderes petistas de Ribeirão Preto, ligados ao prefeito Antônio Palocci Filho, coordenador do programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva, anunciaram um comitê pró-Farc no município. Entre as funções do Comitê de Solidariedade ao Povo Colombiano e aos Movimentos de Libertação Nacional estariam colher assinaturas pró-guerrilha e defender as posições do grupo no Brasil. “Precisamos difundir e abrir comitês das Farc no mundo inteiro sobre os problemas que ocorrem naquele país”, disse Beto Cangussú, vereador petista. Para selar a união, houve uma reunião em Ribeirão Preto entre o ex-vereador Leopoldo Paulino, o proponente do comitê, e Olivério Medina, porta-voz informal da narcoguerrilha no Brasil, que chegou a ser preso em 2000 em Foz do Iguaçu, a pedido do governo colombiano, acusado de atividades terroristas.

Fernandinho Beira-Mar pagava dois milhões de pesos aos camponeses pela coca, por 600 quilos por semana, e às Farc mais um milhão por cada quilo, para cristalizá-la. Vendia o quilo de cocaína por U$ 3.500 no Brasil. A operação exigia um vôo que custava U$ 15.000, mais U$ 15.000 pelo aluguel da pista de aterrissagem. Mais U$ 25.000 para o piloto e U$ 5.000 para o co-piloto. Fernandinho, que também fornecia munição à guerrilha marxista, chegou a entregar-lhes 150 mil caixas de balas, com 20 balas cada uma. Segundo o narcotraficante brasileiro, as Farc não têm ideologia, Estão ali pela grana, se tornaram capitalistas e só querem a grana, a grana, a grana....

O ex-vereador Leopoldo Paulino pensa diferente. Não é a eleição que vai resolver, é a revolução. Hoje no Brasil não há condição de fazer uma revolução armada, mas na Colômbia não é assim. Eles têm um exército organizado”. Este exército redentor são as Farc, é claro.

ONU, árabes ou suecos podem permitir-se uma posição dúbia. Ser benevolente com o terror distante é fácil. Mais difícil é aceitá-lo quando se vive sob sua mira. O PT, herdeiro das mais sinistras ditaduras do século, sente-se naturalmente atraído pela narcoguerrilha marxista. Tenta então desvencilhar-se do aliado inconveniente. Ocorre que o terror está em seu DNA. E produz reflexos condicionados.

Todo leitor adulto deve lembrar-se do belíssimo filme de Kubrick, Dr. Strangelove. No papel-título, temos um cientista alemão paraplégico refugiado nos Estados Unidos, cujo braço direito conserva ainda reflexos dos dias do Reich. Esporadicamente, o braço se ergue em saudação nazista, e Strangelove precisa segurá-lo com a mão esquerda. É o que ocorre com os petistas. Podem reivindicar os melhores propósitos, fazer juras de bom comportamento, mas volta e meia o braço totalitário não resiste e saúda o terror. Como aconteceu na semana passada, quando o PT, au grand complet, prestou homenagens de herói ao terrorista João Amazonas.

Não é conveniente, em ano eleitoral, falar de Fernandinho. Felizmente, vivemos dias de Internet, onde sempre há uma brecha para conjurar o silêncio obsequioso da grande imprensa.

Em 7 de junho de 2002

Leituras

Os Novos Puritanos

6 dez. 2001 | Jornal da Tarde

Quando um gerente de armazém chama uma empregada doméstica de “negra suja”, o episódio sai em manchetes de oito colunas. Quando porém o autor da ofensa racista é um líder do PT e o ofendido é um ex-governador de Estado, personagem histórico das lutas contra o regime militar, o caso é solenemente ignorado pela mídia como se não passasse de miudeza da crônica provinciana.

Algo, definitivamente, está errado nos critérios do jornalismo nacional.

Se não tivesse lido por acaso uma entrevista de Alceu Collares no site do meu amigo Diego Casagrande ( www.diegocasagrande.com.br ), eu jamais teria sabido que o ex-governador do Rio Grande fôra chamado de “negro sujo”, em público, pelo sr. Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre e um dos mentores intelectuais do PT gaúcho. Muito menos saberia do processo por crime de racismo, que Collares está movendo contra o brutamontes verbal.

Casagrande, por seu lado, já sofreu toda sorte de incomodidades em razão de seu mau hábito de dar notícias que o governo gaúcho não quer que ninguém leia. O último desses constrangimentos foi a repentina suspensão do seu “site” por iniciativa do provedor estatal que o hospedava. Casagrande, no meio da briga que se seguiu, ganhou um prêmio jornalístico e foi por pouco que voltou ao ar em tempo de noticiar sua própria premiação.

Já seu colega Políbio Braga, este não ganhou prêmio, mas deveria: é recordista de processos movidos pelo governo estadual gaúcho para impedi-lo de falar. O bombardeio de processos, que pode ser inofensivo contra uma grande empresa, contra uma ONG milionária com centenas de advogados na sua folha de pagamentos, é letal quando cai sobre o cidadão comum como um Boeing sobre o World Trade Center. Processos não comem só dinheiro: comem tempo, energia, paciência, saúde. Paralisam e desarmam. Simone Weil dizia que, para o réu inocente, ser processado já é castigo.

O pior é que Políbio não acusou o governo estadual senão de constrangê-lo no exercício de suas funções profissionais. A resposta veio rápida: mais um constrangimento.

O normal, diante de episódios como esse, seria que a classe jornalística, que precisa da liberdade como do ar que respira, tomasse firme posição ao lado dos perseguidos.

Em vez disso, um bom punhado de jornalistas gaúchos foi mostrar fidelidade ao perseguidor. O governador Olívio Dutra, em investigação por suspeita de envolvimento ilícito com bicheiros, não precisará esperar o término das investigações para saber o que a imprensa vai noticiar. Inocente ou culpado, será declarado inocente. Como interpretar de outro modo a participação de jornalistas numa “manifestação de desagravo” ao governador suspeito? Desagravo, que eu saiba, vem depois da absolvição do acusado. Antes, só pode significar que este foi absolvido “a priori” pela imprensa, como outros, igualmente antes das provas, e independentemente delas, foram condenados “a priori” e nunca mais se levantaram. Mas como poderia ser de outro modo, se em prol de Olívio a mobilização para reprimir as averiguações, que feita em favor de outros se chamaria manobra sórdida, recebe, nos artigos assinados pelo candidato presidencial Luís Inácio Lula da Silva, o nome dignificante de “resistência democrática”? Como haveriam, as belas almas, de resistir ao apelo de uma causa tão nobre?

Não, esses jornalistas não são amorais. O amoral, não tendo moral nenhuma, favorece ora um lado, ora o outro, conforme as conveniências. Aquele que mente sempre em favor de um mesmo lado não é desprovido de um código moral. Sua moral é, ao contrário, rígida e incorruptível. É a moral dos lobos. Lobo não come lobo. Jamais se ouviu contar de um lobo que, corrompido mediante propinas, tomasse o partido das ovelhas.

A inflexibilidade na defesa do mal pode render ao pior dos homens, aos olhos do povo, a fama de honesto e justo. O teólogo Richard Hooker, no século XVII, já notava esse traço nos fanáticos da Revolução Puritana. Com tanta veemência falavam contra o adversário, com tão emocionadas palavras se afirmavam santos e puros, que o público acabava achando mesmo que eram homens bons. A ambição de poder, o ódio cego, a inumanidade, a deformação política da mensagem evangélica, a mentira pertinaz e sistemática – tudo, no revolucionário puritano, acabava parecendo lindo. O nome mesmo de “puritanos” lançava sobre os mais impuros desígnios a aura da santidade.

Mudou alguma coisa, desde então? Nada. Malandros conservadores, liberais, democratas ou simplesmente fisiológicos, quando abafam investigações, pelo menos não alardeiam elevadas motivações cívicas. Fazem sua safadeza à sombra, como que envergonhados. Os novos puritanos chamam-na “resistência democrática”, proxenetando memórias de combates heróicos, e dormem com a consciência mais tranqüila do mundo.

Em 6 de dezembro de 2001

Celebrando Theodor Adorno

6 de setembro de 2003 | O Globo

Para apagar a má impressão residual dos atentados de 11 de setembro, nada melhor do que desviar as atenções para outros acontecimentos associados à mesma data.

Nosso governo vai celebrar nesse dia a memória de Salvador Allende, morto em 11 de setembro de 1973. Pranteado como vítima de “golpe militar”, Allende foi tirado do poder constitucionalmente, por decisão da Câmara dos Deputados e da Suprema Corte, que, ante sua resistência armada, convocaram o Exército para expulsá-lo. Padeceu o que padeceria Fernando Collor se, após a votação do impeachment , transformasse o Palácio do Planalto num bunker em vez de voltar para casa (v. “A Tale of Two Chileans”, de Robin Harris, www.lakota.clara.net/harris.pdf ).

Outro 11 de setembro, já festejado antecipadamente, é o centenário de Theodor Adorno, segundo a mídia nacional um dos maiores filósofos do século XX. Na verdade, não existe nenhuma filosofia de Theodor Adorno, apenas aplicações engenhosas que ele fez das idéias de seu amigo Max Horkheimer à estética e à crítica cultural. Horkheimer e Adorno são inseparáveis como o yang e o yin — sendo Adorno o yin , o lado mais externo e aparente.

A inspiração comum dos frankfurtianos é bem óbvia, ainda que invisível até hoje para suas tietes. Seu marxismo inicial era bem diluído. Estavam vagamente interessados em judaísmo, e suas primeiras críticas ao mundo moderno lembravam as dos tradicionalistas românticos. Mas, meninos ricos, revoltadíssimos contra as famílias que os paparicavam, o retorno à religião de seus pais era mais do que seu orgulho podia suportar. Por isto seu destino não foi o do seu contemporâneo Franz Rosenszweig, materialista reconvertido: seus estudos judaicos se desviaram, em vez disso, para o lado mais fácil — a heresia gnóstica. Aí encontraram a fórmula para poder continuar marxistas sem abdicar de uma certa aura de mistério religioso. Os princípios da “teoria crítica” de Horkheimer e Adorno são pura gnose traduzida em freudomarxês. O gnosticismo jura que a criação foi um erro maligno cometido por uma divindade menor, o Demiurgo, contra a vontade do deus superior, entidade excelsa que jamais cairia em semelhante esparrela. O universo sendo inteiramente mau, o dever do espírito é lutar pela destruição de tudo o que existe. A “teoria crítica” segue essa receita à risca, enxergando horror por toda parte e afirmando mesmo que uma sociedade mais justa não pode existir ou sequer ser imaginada, mas acreditando ver nisso um motivo a mais para odiar as injustiças do presente. Abominar o mal sem crer no bem parece coisa de herói trágico, e aí reside o “glamour” peculiar dos frankfurtianos. Mas, no fundo, é de um comodismo atroz. Moralmente, permitiu a Max Horkheimer proclamar, com Maquiavel, que todo poder e riqueza vêm da opressão e da mentira, e ao mesmo tempo encarnar pessoalmente essa teoria, gabando-se de dominar seus colaboradores “como um ditador” ( sic ) e enriquecendo à custa da vil exploração do trabalho deles. Intelectualmente, a brincadeira era ainda mais cínica. Não havendo critério de justiça, a denúncia das injustiças estava autorizada, sem pecado, a ser ela própria injusta, arbitrária e louca. Assim, embora reconhecendo que o comunismo soviético era “o mal absoluto”, Adorno e Horkheimer preferiram deixá-lo em paz, concentrando suas baterias no ataque à sociedade americana e fornecendo ao movimento comunista o simulacro de autoridade moral que o ajudou a sobreviver à queda da URSS. Seu colaborador Herbert Marcuse achava o livre debate uma coisa barbaramente repressiva, preferindo, como mais democrático, o cerceamento direto de todo discurso anti-esquerdista. Através de Marcuse, a Escola de Frankfurt inspirou a censura “politicamente correta”, que hoje, em muitas universidades americanas, condena a estágios de “reeducação sensitiva” obrigatória, como nos centros soviéticos de “reforma da mentalidade”, quem quer que se oponha à ortodoxia marxista dominante (v.

www.zetetics.com/mac/articles/reeducation.html , www.newsmax.com/commentarchive.shtml?a=2000/10/29/152520 e www.shadowuniv.com/reviews/9901hlr-has-kors.html ). Parece estranho apostar na Novilíngua de “1984” como instrumento de “libertação”, mas como poderia ser de outro modo se o ponto de partida é a universalidade do mal e, portanto, a absoluta falta de vontade — ou capacidade — de discerni-lo do bem? Quando Marcuse nos intoxica de expressões tão manifestamente embromatórias quanto “tolerância repressiva” e “intolerância libertadora”, ele apenas enfeita com o rótulo de “dialética” a técnica pavloviana da estimulação paradoxal que dissemina a confusão maliciosa de liberdade e opressão. A teoria crítica inteira, com efeito, é uma coleção de engenhosos artifícios de auto-estupidificação moral, que culminam na louvação devota do Marquês de Sade como exemplo de conduta superior e na apologia da “perversidade polimórfica” ( sic ) — incluindo, evidentemente, sadismo, masoquismo e pedofilia — como única forma de sexualidade saudável. Não espanta que, fugidos do nazismo, Horkheimer e Adorno não conseguissem enxergar diferença substantiva entre morrer numa câmara de gás em Auschwitz e pontificar livremente numa bem remunerada cátedra em Columbia, sob os aplausos da sociedade chique. Tal é a origem do equivalentismo moral que, hoje, finge igualar a democracia americana aos mais sangrentos totalitarismos, dos quais o próprio equivalentista, já que ninguém é de ferro, busca refúgio em Nova York ou Miami. Raros filósofos foram, como os frankfurtianos, tão escrupulosos em apontar os pecados alheios quanto insensíveis aos seus próprios. Mas a “teoria crítica” consiste precisamente nisso, segundo confessava Horkheimer: rosnar soturnamente contra o universo mau, mas tratando de levar, enquanto isso, “um alto padrão de vida” ( sic ). Nesse sentido, não se pode julgar que Theodor Adorno tenha agido mal quando, ao ver as doutrinas da Escola de Frankfurt levadas à prática por estudantes rebeldes, chamou a polícia tão logo eles invadiram sua sala.

Gostei da cartinha da Unicamp. Pena que fugisse à questão central: a reitoria, afinal, topa ou não topa promover, ao lado ou depois do “Colóquio Marx-Engels”, um “Colóquio Antimarxista”? Se não topa, a recusa já é resposta suficiente, sendo desnecessárias as explicações enviadas ao Globo .

Em 6 de setembro de 2003

Derrota Inevitavel

6 de novembro de 2008 | Jornal do Brasil

Quando um candidato se acumplicia à fraude montada contra ele próprio, seu destino eleitoral está selado. José Serra e Geraldo Alckmin acreditaram que podiam vencer Lula nas eleições após tê-lo ajudado a esconder suas ligações com os terroristas e narcotraficantes do Foro de São Paulo. Bobagem. Perderam feio. John McCain acreditou que podia derrotar Barack Obama nas urnas após tê-lo ajudado a ocultar praticamente toda a sua biografia – a mais prodigiosa carreira de fraudes e mentiras que já se viu na política americana (v.

www.wnd.com/index.php?fa=PAGE.view&pageId=80008 ). Entre a sinceridade e o fingimento, a sinceridade quase sempre vence. Se a luta é entre o fingimento ativo e o fingimento passivo, o primeiro tem todas as vantagens. Tem a seu favor a iniciativa, a liberdade de ação, o cinismo, em face de um adversário tolhido pela consciência de seu secreto handicap .

McCain, ao contrário da maioria de seus eleitores, sabia muito bem que o adversário tinha tudo a esconder e que, para escondê-lo, não hesitara em bloquear o acesso a praticamente todos os seus documentos, inclusive referentes à sua vida pública. O candidato republicano, que, como todos os aspirantes à presidência americana desde George Washington, colocara seus papéis à vista do público, poderia ter vencido as eleições de maneira direta e arrasadora, simplesmente exigindo igual transparência do adversário ou, caso não fosse atendido, recusando-se a aceitá-lo como concorrente leal e recorrendo à Justiça para obrigá-lo a jogar limpo. Mesmo na hipótese remotíssima e quase nula de que a revelação dos documentos nada provasse contra Obama, ele já estaria queimado ante a opinião pública pelo simples fato de havê-los escondido no começo da campanha. Colocar o adversário nessa situação constrangerora seria uma impolidez da parte dos republicanos, mas não mais ofensiva, e sobretudo não mais prepotente, que a de um ilustre desconhecido que exige tornar-se o homem mais famoso do mundo ao mesmo tempo que se arroga o direito de proteger-se, como um bandido, dentro de uma fortaleza de confidencialidade inexpugnável.

Mas Obama não foi protegido só pela omissão suicida de seus adversários. Enquanto ele ocultava a realidade da sua vida sob a fachada de um personagem ficcional criado em laboratório, a grande mídia inteira, com exceções raras, parciais e tímidas, vendia o personagem como autêntico e se esquivava sistematicamente à investigação da realidade. Como se isso não bastasse, duas vezes mais repórteres eram designados para cobrir Obama do que para cobrir McCain e o número de matérias simpáticas ao candidato democrata ocupava o dobro do espaço concedido a seu concorrente. Mesmo sem levar em conta que a campanha de Obama, sustentada pela elite global bilionária – como invariavelmente acontece com os representantes dos pobres e oprimidos –, tinha três vezes mais dinheiro que a de McCain, o fato é que McCain aceitou, desde o início, uma luta desigual contra um candidato investido de direitos especiais ilimitados, inclusive o de ocultar a lista de suas contribuições de campanha, coisa que jamais aconteceu na história da democracia americana ou de qualquer outra. Se para desempenhar esse papel sui generis os democratas escolheram um político de raça negra, foi justamente para camuflar sob a diferença epidérmica a diferença substantiva entre o que se cobrava de um dos concorrentes e o que se permitia ao outro. Só para vocês fazerem uma idéia: o processo aberto na Suprema Côrte para exigir a certidão de nascimento de Obama foi ignorado pelos jornais e canais de TV, ao passo que uma insignificante comissão estadual de inquérito contra Sarah Palin foi alardeada como um escândalo nacional. A governadora do Alasca foi inocentada na véspera da votação, tarde demais para que ela tirasse algum proveito eleitoral disso, e, por decisão do Juiz David Souter, Obama só terá de responder à Suprema Côrte em 1o. de dezembro, quando isso já não poderá lhe trazer nenhum dano eleitoral.

Em 6 de novembro de 2008

Rumo A Censura Total

6 de março de 2014 | Diário do Comércio

Desde a publicação do livro do delegado Romeu Tuma Jr. ninguém ignora que o assassinato de reputações, praticado com recursos do Estado e primores de sordidez que desafiam a imaginação humana, é o procedimento usual e normal da quadrilha comunopetista para lidar com aqueles que a incomodem.

Mas, no tempo em que o delegado começou a beber sua quota desse veneno, a poção só era servida a políticos, a altos funcionários ou a empresários dos quais se desejasse extorquir algum dinheiro.

Desde então a indústria da intriga progrediu muito. Sofreu ao mesmo tempo uma transformação e um upgrade, ampliando o seu círculo de alvos e elevando-se a instrumento perfeito da censura total, do controle completo do fluxo de informações, uma espécie de Marco Civil avant-la-lettre.

Não existindo um partido de direita, nem qualquer força política de direita organizada, nem muito menos poderes financeiros sustentando uma militância de direita, nem, enfim, nenhuma classe ou entidade sobre a qual se possa lançar as culpas de todo o mal que o governo faz, só res ta ao esquerdismo voltar suas baterias contra indivíduos, cidadãos isolados e sem qualquer respaldo político ou econômico – jornalistas, escritores, blogueiros – e atacá-los com a fúria e o desespero de quem defendesse a própria vida contra uma invasão imperialista ou um golpe militar.

A quantidade de pavor imaginário que esses indivíduos despertam nas hostes esquerdistas – bem como em pequenos grupos de extrema direita empenhados em mostrar serviço –, o volume dos recursos que se mobilizam para emporcalhar suas imagens, a obstinação devota que se consagra à criação de toda sorte de invencionices, calúnias e chacotas contra eles, constituem sem dúvida um capítulo notável da história da covardia universal – algo que não se poderia passar, talvez, em nenhum outro país, e que as gerações futuras chegarão a duvidar de que possa ter acontecido.

Contudo, como toda difamação pode ser desfeita em pó e toda calúnia voltar-se contra o caluniador, logo esse bombardeio de infâmias cessou de satisfazer à sanha destrutiva que a inspirava.

De fato, chega a ser cômico usar contra um escritor táticas de “character assassination” que seriam letais se voltadas contra um político ou alto funcionário. A fama de um escritor jamais depende de uma imagem de idoneidade impoluta, mas da sua simples habilidade de registrar seus pensamentos e emoções, quaisquer que sejam, bons ou maus, e comunicá-los ao público. Mesmo que o exército de difamadores alcançasse sucesso em me pintar nas cores de um réprobo, de um criminoso, de um monstro, isso não me privaria de um só leitor.

Ninguém jamais deixou de ler Jean Genet por causa da sua folha corrida, nem de apreciar os poemas de Rimbaud ao saber que o autor foi contrabandista de armas. Ninguém parou de ler André Gide quando ele próprio se confessou pedófilo. E nem mesmo o mais escandaloso dos rótulos – o de colaborador do nazismo – tirou leitores de Louis-Ferdinand Céline, de Martin Heidegger ou de Paul de Man. Em todos esses casos, os crimes eram verdadeiros. Quanto mais impotente não seria então a imputação de delitos e pecados imaginários?

Foi por isso que se passou de uma estéril campanha difamatória ao bloqueio dos meios de expressão.

Tão logo o deputado Marco Feliciano denunciou na Câmara a campanha de assassinato de reputação que eu vinha sofrendo (veja-se https://www.youtube.com/watch?v=CIFB9RXmIi0), a militância do crime, decerto mobilizada por alguma Excelência em pânico, mudou de tática e passou a tentar bloquear a minha conta no Facebook para que, diante do assalto multitudinário à minha pessoa e à minha honra, não me restasse nem o miserável e último recurso de defesa que é espernear na internet.

O ardil consiste simplesmente em entrar na minha conta desde um IP qualquer que não seja o meu, acionando automaticamente o Facebook para que bloqueie a conta e inicie um procedimento de verificação. Tentaram isso esta semana, usando um IP registrado numa cidade da Índia.

Como eu conseguisse restaurar a conta, aperfeiçoaram o sistema. Fornecem ao Facebook, usando a minha senha de que se apossaram não sei como, um número de telefone falso (desta vez foi +33 7 87 16 56 82), de modo que o código para restauração da conta é enviado a esse número e não chega jamais a mim. Assim, torna-se impossível reativar o acesso à página. Os quase cinqüenta mil leitores que ali me acompanham me escrevem, perguntando quando voltarei ao ar, e só o que posso lhes responder é: Não sei.

A coisa é de uma sordidez impensável, mas, se querem saber, não me surpreende que a militância “enragée” apele a esse recurso, ou talvez a outros mais abjetos ainda. A mentalidade dessa gente faria os porcos vomitarem, se lhes fosse servida no cocho.

Porém igualmente desprezíveis são aqueles que, no intuito de isentar de culpas uma lideranca política que notoriamente estimula esses crimes e recompensa os agentes que os praticam, dizem: “Ah, isso não é nada, é só um grupo de jovens gozadores.” Pois desde quando, pergunto eu, desde quando uma facção governante, ao praticar um crime, o assina com o carimbo da sua identidade partidária? Os Black Blocs não eram também apenas jovens gozadores até o momento em que comprovou de onde vinham as ordens e o pagamento? Os próprios mensaleiros não eram simples ladrõezinhos avulsos, que agiam pelas costas do inocente poder público?

O Avesso Do Avesso

6 de março de 2006 | Diário do Comércio

Até o começo dos anos 90 ainda era possível acreditar, honestamente, que a Nova Ordem Mundial que se formava ante os olhos de todos após a queda da URSS era, em essência, a mundialização do poder americano, a realização dos sonhos mais ambiciosos dos imperialistas do Norte.

Todas as aparências indicavam isso, e estudiosos tão isentos de viés esquerdista como o Pe. Michel Schooyans e o historiador espanhol Ricardo de La Cierva afirmavam categoricamente que a ONU, governo mundial em germe, não era senão a expressão e instrumento do Estado americano ampliado à escala global.

Hoje, quem quer que continue acreditando nisso, depois de tudo o que aconteceu nessa década e meia e com todas as informações que se tornaram acessíveis a respeito, é um autêntico homem de Neanderthal, se não for seu antepassado mais próximo, o dr. Emir Sader em pessoa.

Na visão dessas criaturas primevas, a Nova Ordem Mundial é o bom e velho imperialismo americano que, mal camuflado, estende suas asas sobre o globo terrestre, pondo em risco a soberania das nações pobres, cuja esperança então se volta para os poucos núcleos de resistência espalhados pelo mundo, como Cuba, a Coréia do Norte e os terroristas islâmicos, bravos pigmeus em luta contra o gigante, à imagem e semelhança da Princesa Léa e Luke Skywalker enfrentando aos trancos e barrancos as tropas imperiais sob o comando de Darth Vader (não inventei a comparação; ela já se tornou um lugar-comum do imaginário esquerdista).

Hoje em dia, o material disponível com as provas cabais de que não é nada disso que está acontecendo é tão vasto, tão abundante e tão consistente, que a única desculpa razoável que alguém pode apresentar para continuar apegado a essa idéia é ser pessoalmente o dr. Emir Sader e nada poder fazer contra tão cruel destino. Todos os demais são culpados de negligência proposital.

Digo isso com a ressalva de que, as informações pertinentes sendo talvez menos acessíveis no Brasil do que em qualquer outro lugar do mundo com exceção dos países islâmicos e comunistas, a ignorância geral dos fatos explica a subsistência residual, neste país, de lendas e estereótipos já desmoralizados pelo tempo e em toda parte.

Mas mesmo ignorantes profissionais não podem ter deixado de notar, nos últimos anos, o conflito aberto entre a ONU e os EUA, seguido de uma explosão mundial de anti-americanismo, cujas manifestações nas ruas e na mídia, simultâneas, súbitas e organizadíssimas, não poderiam ter surgido do nada, sem longa e dispendiosíssima preparação secreta. De repente, os pobres e esfarrapados tinham a seu serviço o New York Times , o Washington Post , a CBS, a CNN e praticamente todo o restante da grande mídia internacional (a brasileira, então, nem se fala), enquanto os ricaços imperalistas mal conseguiam uma entrevistinha na Fox, uns minutos no programa de rádio do Rush Limbaugh, sem a menor repercussão fora dos EUA, e dois parágrafos em sua defesa na coluna da Mary O’Grady no Wall Street Journal . A desproporção contrastava tão dramaticamente com a visão convencional dos coitadinhos em luta contra as forças tentaculares do império financeiro intergalático, que parecia mesmo a coluna do dr. Emir, “O Mundo pelo Avesso”.

Para quem ainda tivesse alguma dúvida, bastava, para eliminá-la, olhar a lista dos financiadores da gritaria anti-americana, entre os quais brilhavam, junto com George Soros, as fundações Ford e Rockefeller e outras fortunas do mesmo porte. Depois disso, só mesmo o cérebro geneticamente lesado dos apreciadores daquela coluna poderia, imune ao gritante paradoxo, continuar acreditando piamente na identidade de americanismo e globalismo. Nem falo dos discípulos do sr. Lyndon La Rouche, os quais, admitindo o paradoxo, tentavam explicá-lo como rebuscado truque do maquiavelismo ianque, como se rebuscada não fosse antes essa explicação e como se atrair todos contra si fosse astúcia digna do governo americano e não, mais apropriadamente, do saudoso Chapolín Colorado.

Não obstante, a afirmação absoluta dessa identidade é não apenas a crença unânime do esquerdismo local, para o qual ela tem ao menos a utilidade de fomentar o ódio ao seu inimigo tradicional, mas é também o fundamento de uma “nova doutrina militar brasileira” que vem se esboçando desde os anos 90, firmemente empenhada em criar, com base em informação deficiente, uma estratégia desastrosa que arrisca fazer das Forças Armadas brasileiras, amanhã ou depois, o instrumento servil da revolução continental, seja como aliadas da esquerda lulo-chavista que tanto as difamou e humilhou ao longo das décadas, seja, na melhor das hipóteses, como suas concorrentes na liderança do anti-americanismo nacional.

Essa visão das coisas não expressa nenhuma realidade objetiva; expressa apenas, indiretamente, o estado de total alienação da elite falante brasileira, separada do mundo por um muro de fantasias obsessivas e complexos incapacitantes, agravados por uma indolência intelectual verdadeiramente criminosa e pela compulsão irresistível de complicar ainda mais as coisas tentando mostrar boniteza em vez de exercer a única virtude que, numa hora dessas, poderia ser salvadora: a sinceridade.

Se entre todos os políticos, oficiais de alta patente, grandes empresários, professores de universidade, juristas e economistas de uma nação não se encontra um só que seja capaz de descrever corretamente o estado de coisas no mundo e enquadrar nele a posição do país – e a realidade é que não se encontra praticamente nenhum –, é claro que esse país está perdido e desorientado no espaço e no tempo, condenado a erros descomunais de política externa e administração interna que só por milagre não tornarão inviável sua existência de Estado independente num prazo mais veloz do que a imaginação desses indivíduos e grupos pode alcançar.

Os planos de grandeza e discursos patrióticos que saem da boca dessa gente são um coral de marinheiros bêbados num barco prestes a afundar. São sintomas psicóticos de uma total falta de senso da realidade.

Na verdade, ao tentar lhes explicar que as coisas não são como eles pensam, eu mesmo me sinto um pouco psicótico. Esperar que entendam alguma coisa é tão louco, no fundo, quanto apostar no futuro de um país liderado por eles. Mas, como essa esperança se recusa a morrer, vamos lá. Vamos tentar outra vez.

Os EUA são mesmo a potência hegemônica, mas é ridículo imaginar que todas as ações que os projetam no mundo sejam o resultado de um cálculo unitário fundado no seu “interesse nacional” (no sentido que o termo tem na ESG). Com mais freqüência, isto sim, exteriorizam o conflito interno americano, conflito que, por força da própria hegemonia dos EUA, expressa por sua vez a essencial divisão de forças no mundo. Dito de outro modo: a política americana, o drama americano, a guerra cultural americana, são o modelo em miniatura do conflito global. O problema é que, entre os palpiteiros midiáticos, acadêmicos, empresariais e militares do Brasil, ninguém entende coisíssima nenhuma do que acontece nos EUA, portanto enxerga menos ainda o que se passa no mundo.

Duas visões padronizadas, ambas falsas e profundamente idiotas, se alternam no imaginário nacional como pretensas descrições do cenário americano:

Visão 1 – As duas correntes em disputa ali são apenas duas faces da mesma moeda imperialista. Nos EUA não existe esquerda politicamente atuante, apenas uma direita capitalista durona e outra mais molinha.

Visão 2 – Existem, sim, uma direita e uma esquerda: a direita, republicana, é fundamentalista, imperialista e militarista, representando os interesses calhordas da elite financeira e industrial: a esquerda, democrata, representa os pobres e oprimidos do mundo, os direitos humanos, a democracia iluminista e, enfim, tudo o que é lindo desde o ponto de vista do Fórum Social Mundial.

Quanta besteira, porca pipa!

A divisão americana, em primeiro lugar, não é entre republicanos e democratas. É entre conservadores e globalistas. Estes estão nos dois partidos, os primeiros estão em parte no republicano, em parte órfãos de agremiação partidária, sem por isto deixar de constituir uma força política e cultural considerável.

O programa globalista, longe de ser imperialismo americano, consiste essencialmente em quebrar a soberania dos EUA, submetendo cada vez mais o país a organismos internacionais, sendo necessário, para esse fim, diluir a cultura e a identidade nacionais numa pasta “multiculturalista”.

O globalismo não tem finalidades essencialmente econômicas ou mesmo político-militares: é todo um conceito integral de civilização, uma verdadeira mutação revolucionária da espécie humana, incluindo a total erradicação das religiões tradicionais ou sua diluição numa religião biônica universal cuja expressão mais visível é o movimento da “Nova Era”. Seus ideais são tão opostos aos valores e interesses da nação americana que os conservadores, sem pestanejar, os consideram inimigos tão perigosos quanto a Al-Qaeda. Os poderosos grupos econômicos que apóiam o globalismo são os mesmos que elegeram Bill Clinton e sustentaram a campanha de John Kerry. Apóiam o aborto, o casamento gay , a liberação das drogas e tudo o mais que possa dissolver rapidamente a unidade histórica da cultura nacional americana. Fazem uso maciço do ativismo judicial para mudar completamente o sentido da Constituição através de sentenças que permitem o que era proibido e proibem o que era permitido. Patrocinam maciçamente a esquerda do Terceiro Mundo e as manifestações anti-americanas, mas, lutando para enfraquecer o país enquanto Estado independente, buscam ao mesmo tempo fortalecê-lo como instrumento da ONU. Daí a ambigüidade de suas tomadas de posição quanto ao terrorismo, por exemplo.

Os conservadores, cuja base de apoio econômico está essencialmente na prodigiosa capacidade de coleta de fundos de milhares de organizações populares ( grassroots ), mas que têm algum respaldo na indústria nacional acossada pela concorrência chinesa, defendem o predomínio americano no mundo, mas não querem a diluição do país num império transnacional. Suas ambições “imperialistas”, incomparavelmente mais modestas que as de seus concorrentes, consistem apenas em manter uma relativa superioridade econômica e militar dos EUA (numa inversão patética, é este plano, e não o globalista, que a mídia brasileira denuncia como grande perigo para a nossa soberania). Não aceitam a ingerência de organismos internacionais em assuntos de soberania, defendem as interpretações consagradas da Constituição, a restrição dos poderes do governo central, o liberalismo econômico clássico, os direitos das religiões tradicionais – protestantismo, catolicismo e judaísmo — e a preservação da identidade cultural americana.

Cada palavra que se ouve em debates na mídia, no parlamento, nas universidades dos EUA, ecoa essa divisão, da qual o Brasil em peso continua ignorando praticamente tudo, graças aos bons préstimos de uma elite falante mentirosa, corrupta, vaidosa e radicalmente estúpida (e não estou me referindo a governo, não; a elite governante é só uma parcela da elite falante).

É absolutamente impossível entender o jogo de forças no mundo – e portanto tomar uma posição consistente dentro dele – sem ter em conta a luta de concepções civilizacionais por trás do conflito partidário americano que a reflete de maneira irregular e parcial. O presidente Bush, por exemplo, é moralmente um conservador, mas atado por mil e um compromissos globalistas que tornam suas ações freqüentemente ambíguas e não raro incompreensíveis nos termos usuais do debate político.

Entender essas coisas dá algum trabalho, requer muito estudo e o mergulho numa infinidade de dúvidas, mas é imensamente recompensador para quem, com sinceridade, queira encontrar uma esperança para o Brasil nesse mare ignotum . Em vista disso, peço aos distintos jornalistas, empresários, professores etc., que, por favor, por caridade, por misericórdia, não saiam dando palpites sobre o presente artigo antes de estudar pelo menos estes três livros:

* Carroll Quigley, Tragedy and Hope: A History of the World in Our Time , New York & London, Macmillan, 1966. É a Bíblia do globalismo. Não existe uma do antiglobalismo; as objeções estão espalhadas; aqui vão duas amostras:

* Cliff Kincaid, Global Bondage: The U. N. Plan to Rule the World , Lafayette, Louisiana, Huntington House, 1995.

* Lee Penn, False Dawn: The United Religions Initiative, Globalism and the Quest for a One-World Religion , Hillsdale, NY, Sophia Perennis, 2004.

* Vale a pena também examinar o artigo de Steven Yates, “From Carroll Quigley to the UN Millennium Summit: Thoughts on the New World Order”, em http://www.lewrockwell.com /yates/yates14.html .

Tinha De Acontecer

6 de junho de 2013 | Diário do Comércio

A maior, a mais profunda e aparentemente a mais irrevogável consequência da dissolução do Império Soviético foi esta: como agora o comunismo não existe mais, qualquer um está livre para defender as mesmas políticas que os comunistas defendiam, impor os mesmos controles sociais que os comunistas impunham, atacar e denegrir as mesmas pessoas e valores que os comunistas atacavam e denegriam, cultuar e enaltecer os mesmos ídolos que os comunistas cultuavam e enalteciam, tudo isso sem jamais poder ser chamado de comunista.

Os comunistas, é claro, sempre gostaram de camuflar-se, de agir sob mil máscaras irreconhecíveis. Mas agora já não precisam disso: são os seus inimigos que os camuflam, que os escondem, por medo, por terror pânico de parecer saudosistas da Guerra Fria ou “extremistas de direita” (sabendo-se que hoje em dia tudo o que esteja à direita do centro-esquerda é extremismo).

Em vez de um comunismo que não ousa dizer seu nome, temos agora um comunismo do qual os adversários não ousam dizer o nome.

Tão intenso é entre liberais e conservadores o temor de pronunciar a palavra proibida, que qualquer semi-analfabeto de plantão numa cátedra universitária, com um retrato de Che Guevara na camiseta e o livrinho dos pensamentos do presidente Mao no bolso, estourando de orgulho por ter ajudado a matar cem milhões de pessoas, pode se alardear comunista no horário nobre e em cadeia nacional, seguro de que todo mundo verá nisso nada mais que um modo de dizer, uma graciosa hipérbole usada pour épater le bourgeois por um bom menino que, no fundo do seu coraçãozinho, não é comunista de maneira alguma (ver, como exemplo, o site http://www.cdc.ufop.br/ ).

Foi assim que, sob a proteção de uma densa e bem articulada rede de proibições linguísticas e inibições mentais, o movimento comunista chegou a dominar quase todo o cenário político latino-americano, a controlar todos os países da Europa Ocidental por meio de um grupo de burocratas jamais eleitos, a retomar o poder em várias nações recém egressas do comunismo e até a colocar um dos seus mais devotos servidores na presidência dos EUA – enquanto todos os que viam isso acontecer temiam que, se dissessem que estava acontecendo, soariam tão antiquados quanto um deputado da UDN, tão malvados quanto um torturador fascista ou tão loucos quanto o mais inventivo “teórico da conspiração”.

Como foi possível que transformação tão vasta, tão rápida e – em aparência – tão paradoxal viesse a suceder? Como foi possível que, à queda fragorosa de um regime falido e reconhecidamente criminoso se seguisse, não o debilitamento ou extinção da corrente política que por toda parte o sustentava, mas sim, ao contrário, a sua ascensão espetacular à posição de ideologia mundial dominante e, graças à proibição de nomeá-la, inatacável?

Só faço essa pergunta por caridade para com a burrice alheia, para com a indolência mental e a covardia moral daqueles que hoje, somente hoje, começam a suspeitar de algo que já estava óbvio e patente nos primeiros anos da década de 1990. Óbvio e patente, é claro, para quem observa, estuda, investiga e busca a verdade no meio da confusão; não para aqueles que se sentem tranquilos e seguros de si porque assistiram ao Jornal Nacional ou leram a Folha de S. Paulo.

Hoje, aos 66 anos de idade, faltando apenas dois para completar meio século de jornalismo, estou definitivamente persuadido de que qualquer cidadão que tenha sua principal ou única fonte de informações na mídia popular – chamada “grande”, talvez, apenas pela dimensão das suas dívidas ou das suas negociatas com o governo –, é um bocó de mola incurável, um cretino desprezível cuja opinião não vale o bafo que a expele.

Vendo o sucesso mundial do comunismo sem rosto, não cabe perguntar: “Como isso aconteceu?” e sim: “Como poderia não ter acontecido?” Imaginem se, finda a 2a Guerra, derrubado o governo do Führer, ninguém movesse uma palha para punir os crimes do regime extinto e expor ao mundo o horror da ideologia que os produzira, mas, ao contrário, todo mundo tratasse de silenciar a respeito “para não reabrir velhas feridas” e deixasse os altos funcionários nazistas nos seus lugares, enriquecidos pelo rateio dos bens do Estado e livres para circular pelo mundo como honestos e bem-vindos investidores? Quem não vê que em dez anos o nazismo estaria de volta sob outro nome, talvez “Poderíamos ter vencido o comunismo em 1991”, disse Vladimir Bukovski, “mas para isso precisaríamos de um novo Tribunal de Nuremberg”.

Não houve tribunal nenhum. Mutatis mutandis, de que serviu abortar em 1964 o golpe comunista que se preparava no Brasil, se em seguida o novo regime, em vez de educar a população contra o comunismo, preferiu se embelezar com as pompas da “neutralidade ideológica” e do “pragmatismo” e só combater os comunistas seletivamente e na sombra, como que envergonhado de antemão pelos crimes que essa escolha imbecil o levaria quase que inevitavelmente a cometer?

Pior ainda, de que adiantou bloquear o avanço dos comunistas se em seu lugar se instalou no governo um autoritarismo tão centralizador quanto o deles, substituindo a elite iluminada vermelha por uma elite iluminada verde-oliva, tão ciumenta das suas prerrogativas ao ponto de excluir da política os líderes conservadores mais populares, preenchendo os seus espaços com os mais medíocres e subservientes, para os quais o posto de meros carimbadores de decretos era até uma honra insigne?

A Paz Mortifera

6 de julho de 2006 | Jornal do Brasil

A notícia saiu no Brasil com uma discrição que raia a invisibilidade: vinte e sete anos depois da queda do regime comunista, oito depois da morte de seu líder máximo Pol Pot, começou em Phnom Penh, segunda-feira, o julgamento dos culpados pelo genocídio no Camboja, que matou dois milhões de civis entre abril de 1975 e janeiro de 1979.

Desde as primeiras negociações para o tribunal, em 1997, a burocracia da ONU fez de tudo para adiar o julgamento até à morte do último acusado. Embora restem apenas septuagenários para ser julgados, a abertura dos trabalhos é uma vitória do povo cambojano contra a má-vontade internacional. Esta pode aliás ser explicada pelas seguintes razões:

1. Logo depois que os soldados americanos saíram do território vietnamita, o Vietnã do Norte invadiu o Vietnã do Sul e forneceu a base de apoio para a tomada do vizinho Camboja pelas tropas de Pol-Pot. A matança nos dois países somou três milhões de pessoas – mais de três vezes o número das vítimas da guerra. O resultado havia sido previsto repetidamente pelos “falcões” do Pentágono, que, contrariando a gritaria pacifista, denunciavam a retirada das tropas americanas como uma sentença de morte contra vietnamitas e cambojanos. A paz mais assassina que a guerra foi obra direta dos ativistas de esquerda dos anos 60 e 70, que até hoje tentam passar como benfeitores da humanidade por isso.

2. O regime de Pol-Pot foi ostensivamente apoiado por toda a elite esquerdista da Europa e dos EUA. Jean-Paul Sartre escreveu louvores ao ditador e Noam Chomsky fez o diabo para ocultar a realidade do genocídio.

3. O que está em jogo é portanto a segurança psicológica da esquerda internacional, que não suporta um novo confronto com a verdade e foge mais uma vez à contemplação do seu próprio rosto hediondo.

O socialismo, já disse e repito, matou mais gente do que todas as epidemias, terremotos e furacões do século XX, somados a todas as ditaduras de direita, mesmo se incluirmos nestas últimas o nazismo e o fascismo, o que é inexato. O socialismo é o fenômeno mais cruel e absurdo de toda a história humana, e nada, absolutamente nada pode justificar as tentativas de explicar sua constante e obsessiva fome de cadáveres como uma sucessão de coincidências fortuitas que em nada o comprometem moralmente.

Ser socialista, em qualquer grau ou medida, é ser duplamente criminoso: é ser cúmplice moral de cem milhões de homicídios e é reivindicar cinicamente para o regime assassino um novo crédito de confiança para o futuro, arriscando expor a humanidade a mais um banho de sangue pelo qual, é claro, nenhum socialista de amanhã se sentirá responsável. E tão criminoso quanto o socialista é o liberal ou conservador que, diante desses fatos, reclama que mencioná-los é falta de polidez para com o adversário, como se a pusilanimidade abjeta de debatedores pó-de-arroz devesse prevalecer sobre a verdade ou sobre o respeito para com os mortos.

As democracias capitalistas podem ser feias em comparação com o ideal imaginário de uma sociedade perfeita. Mas o socialismo é monstruoso em comparação com algumas das piores sociedades do passado. O total de vítimas da Inquisição Espanhola – vinte mil em quatro séculos – foi a quinta parte do que Fidel Castro matou em duas décadas, entre seus próprios compatriotas e correligionários. Gengis-Khan e Átila o Huno não conseguiriam inventar um pesadelo tão opressivo quanto o socialismo, muito menos teriam a baixeza de apresentá-lo como a mais bela esperança da humanidade.

Segundo leio no site do Stephen Kanitz, sou o terceiro na lista dos formadores de opinião mais lidos no Brasil, logo abaixo do próprio Kanitz e do guru empresarial Tom Peters. Se tão honroso posto não equivalesse, de acordo com a mesma fonte, ao centésimo-septuagésimo-milésimo lugar no correspondente ranking mundial, eu começaria a achar que sou mesmo alguma coisa. Estar entre os mais lidos num país onde ninguém lê nada é ser campeão de caratê num torneio de velhinhos com Alzheimer.

Em 6 de julho de 2006

Apostando Na Estupidez Humana

6 de julho de 2002 | O Globo

O mais notável fenômeno psicológico da última década foi o “upgrade” mundial do discurso comunista, que, por meio da pura alquimia verbal, transmutou o fracasso sangrento de um regime campeão de genocídio em argumento plausível para elevar ao sétimo céu o prestígio e a autoridade moral da causa esquerdista.

Foi o maior “non sequitur” de todos os tempos. Para realizá-lo, os meios empregados foram espantosamente simples:

Primeiro: declarar o comunismo episódio encerrado, de modo a inibir a tentação de estudá-lo, portanto a aptidão de reconhecê-lo no seu estado presente e a vontade de combatê-lo.

Segundo: trocar a palavra “comunismo” por qualquer de seus equivalentes eufemísticos tradicionais (“forças democráticas”, etc.), que, na atmosfera de esquecimento geral assim criada, poderiam sem dificuldade passar por novos.

Terceiro: continuar imperturbavelmente a usar as mesmas categorias de pensamento e os mesmos meios de ação do marxismo tradicional, com a perfeita segurança de que ninguém na platéia os reconheceria. (Assim, por exemplo, a lei de quotas raciais é simples aplicação de um velho preceito de Stálin, mas quem lê Stálin hoje em dia?)

Quarto: instigar a hostilidade muçulmana contra Israel e os EUA, de modo a disfarçar a guerra anticapitalista sob o manto de um conflito entre dois conservadorismos, o islâmico e o judaico-cristão. (Para dar credibilidade ao disfarce, bastava apagar certos detalhes do quadro, como por exemplo o fato — omitido em quase toda a grande mídia mundial — de que a gigantesca manifestação anti-israelense e anti-americana de 20 de abril em Nova York não foi organizada por nenhum muçulmano, mas por Brian Becker, comunista linha-dura e colaborador de Fidel Castro.)

Pronto. Com esses poucos truques, a esquerda consegue fazer hoje a opinião pública aceitar as teses marxistas da luta de classes e da supressão completa da oposição conservadora como sinais de moderação e tolerância democrática. O mundo fica assim dividido em duas categorias de pessoas: as saudáveis, tolerantes e equilibradas, adeptas do comunismo sob qualquer nome que seja, e as radicais, insanas, fanáticas e autoritárias, adeptas de tudo o mais. O lugar das primeiras é na mídia; o das segundas, na cadeia ou no hospício.

Nunca ninguém apostou tanto na estupidez humana — e ganhou com tamanha facilidade.

Tantos são os livros, os artigos, os filmes, os programas de TV empenhados nessa aposta, que a listagem não teria mais fim.

À guisa de amostra nacional, aponto a esmo a recém-publicada tese do prof. Rodrigo Patto Sá Motta, “Em Guarda Contra o ‘Perigo Vermelho’: o Anticomunismo no Brasil 1917-1964”. Há muito o que observar nela, tal a profusão dos meios a que o autor recorre para fazer a difamação vitriólica do anticomunismo parecer a coisa mais isenta e científica do mundo. Não sobra espaço para comentar a obra aqui, ficando pois o assunto para um artigo vindouro. Para os curiosos, adianto apenas o seguinte: Patto, sobrenome do autor, escreve-se com dois “tt”. Pato, com um “t” só, é o leitor.

Anos atrás escrevi que o dr. Nelson Jobim, sonhando em proteger os cidadãos contra a violência criminal mediante a supressão de seus meios de legítima defesa, não me parecia homem esperto o bastante para captar a diferença do grau de periculosidade de um revólver quando visto pelo lado do cabo e pelo lado do cano. Agora, noto, sem surpresa, que o fleumático jurista não enxergou nas acusações ao senador José Dirceu nenhum motivo para querer saber mais a respeito. Pena que tão sobranceira incuriosidade não tenha predominado em outras ocasiões, quando qualquer zunzum na mídia bastou para legitimar tantos inquéritos espetaculares, que, se nada de substancial fizeram contra a corrupção, destruiram virtualmente todos os obstáculos à ascensão da esquerda nacional. Pena que a indiferença a fofocas tenha entrado em cena tão tarde, em tempo de proteger contra denúncias histéricas tão-somente aquele que foi, sob muitos títulos, o pai do denuncismo histérico no Brasil.

Em 1993, a CPI do Orçamento não julgou indignas de investigação as intrigas anônimas que o senador José Dirceu alegava para incriminar uma certa construtora. Ninguém censurou a afoiteza do senador quando, baseado nuns papéis suspeitos que encontrara, ele já ia apontando Roberto Campos à execração pública antes de averiguar que o cidadão ali mencionado era apenas um homônimo do então colunista do Globo. Ninguém o acusou de invencionice quando ele identificou como peça-chave da corrupção na Câmara Federal um inexistente funcionário de prefeitura do interior. Ninguém o rotulou de cara-de-pau quando ele, notoriamente oficial aposentado do serviço secreto cubano, denunciou a existência de um “Estado paralelo” em sinistra conspiração contra os direitos políticos dele mesmo e de seus similares. E ninguém pôs em dúvida sua credibilidade quando ele atribuiu o assassinato do prefeito de Santo André a “organizações terroristas de direita”.

Pena que não tivesse prevalecido, nessas ocasiões, o olímpico desprezo jobiniano a hipóteses e conjeturas. Mas não é mesmo uma linda coincidência que o balde de água fria só tenha chegado em tempo de salvar do incêndio o maior dos incendiários?

Juizes E Pop Stars

6 de janeiro de 2001 | Época,

Origens do espetacular moralismo judiciário europeu, que alguns acham um exemplo para nós Pouco antes da queda da URSS, Mikhail Gorbachev reuniu a elite da espionagem soviética e ordenou que a maior parcela possível do patrimônio da KGB fosse privatizada em nome de testas-de-ferro e investida no Ocidente. Isso nada teve a ver com as privatizações legais que se seguiram no governo Ieltsin. Foi uma lavagem de dinheiro – a maior da História. Graças a ela, a KGB, que hoje é ainda o principal esteio do governo Putin, é apenas meia KGB: a outra metade está espalhada no planeta, com nomes em inglês e japonês, com a cara mais capitalista do mundo, subsidiando a guerra cultural, comprando consciências, financiando guerrilhas e tráfico, com cifras que seriam impensáveis no tempo em que o “ouro de Moscou”, para passar ao Ocidente, tinha de atravessar uma complexa rede de lavanderias secretas como a de Armand Hammer, o patrocinador da família Gore. Agora já vem tudo lavado.

Tal é a raiz da expansão aparentemente inexplicável da propaganda esquerdista na década de maior sucesso do capitalismo. Não é nada estranho que essa expansão se desse sobretudo nos meios universitários americanos, hoje tomados pela fúria militante e, como nota René Girard, cada vez mais incapacitados para tarefas intelectuais superiores. Desde a década de 30 o movimento comunista está consciente de que ganhar as classes intelectuais é mais rentável que converter proletários. Apenas isso nunca foi tão fácil quanto hoje: se já na Guerra do Vietnã a URSS e a China gastaram mais dinheiro em propaganda antiamericana dentro dos Estados Unidos que no custeio de material bélico, pode-se calcular o quanto esse gênero de operação se tornou mais maneiro com a KGB transfigurada numa rede sutil e inabarcável de empresas e ONGs ocidentais.

Para fazer uma idéia da quantia envolvida, basta ter em mente que aquele patrimônio, secreto e inacessível mesmo ao Poder Legislativo da antiga URSS, incluía, como apenas um de seus itens, o tesouro nacional espanhol em peças de ouro, acumulado desde Felipe II, levado para Moscou durante a Guerra Civil e, evidentemente, jamais devolvido...

Não por coincidência, tão logo certas ações um pouco anteriores à terceirização da KGB começaram a chamar a atenção na Europa, com a revelação de documentos dos recém-abertos arquivos do Comitê Central do PCUS que atestavam as quantias formidáveis passadas a partidos comunistas, a jornais e editoras e até às principais lideranças social-democráticas do Ocidente na década de 80, a esquerda reagiu com vigor. Ela mobilizou seus agentes no Poder Judiciário para que desencadeassem uma universal caça às bruxas, paralisando e desmoralizando mediante fáceis acusações de corrupção menor todas as lideranças liberais e conservadoras que soubessem demais.

Mas não se tratava só de ocultar o passado imediato: a sucessão de belos espetáculos judiciários, com juízes transformados em pop stars, que foi uma marca dos anos 90 e na qual os caipiras de todo o planeta viram um exemplo de alta moralidade digno de fazer corar os políticos do Terceiro Mundo, serviu para desviar as atenções do público, dando tempo à KGB terceirizada para que se espalhasse por toda parte, discretamente, sem que ninguém atrapalhasse seu próspero comércio de caixas-pretas. Foi a mais vasta operação diversionista de que se tem notícia, feita para encobrir a mais notável trapaça de todos os tempos.

Em 6 de janeiro de 2001

Para Que Serve A Direita

6 de fevereiro de 2013 | Diário do Comércio

Os dados da situação são bastante claros. Quando o mesmo governo que prepara, estimula e financia arruaças emite um decreto que lhe permite usar as Forças Armadas para reprimi-las, e quando, ao mesmo tempo, as autoridades e os arruaceiros se acusam mutuamente de “direitistas”, está na hora de o cidadão avisado lembrar-se, caso já os conheça, dos versos de Antonio Machado:

“A distinguir me paro las voces de los ecos, y escucho solamente, entre las voces, una.”

Essa voz única é a da esquerda nacional – o único movimento político que existe, o único que tem um projeto, ainda que confuso, e os meios de ação paraexecutá-lo. A “direita”, de tanto esvaziar-se ideologicamente, de tanto renunciar a toda identidade própria, de tanto se amoldar servilmente aos valores, critérios e conveniências de seus inimigos, parece ter alcançado finalmente o seu ideal: desmaterializou-se por completo e hoje não tem mais substancialidade que a de um mero nome feio, um xingamento usado nas discussões internas da esquerda.

Essa condição só não equivale à perfeita inexistência porque esse nome feio tem uma função histórica a cumprir, e a tem cumprido de maneira exemplar. Sem ele, a esquerda, que domina praticamente sem oposição o Estado, a cultura, a mídia, a educação e a mente da sociedade, tendo mesmo a seus pés todos os antigos oligarcas regionais que um dia personificaram a “direita”, não teria como explicar para si mesma e para a opinião pública por que ainda não conseguiu, com tantos recursos e defrontando-se com tão pouca ou nula resistência organizada, criar neste país o paraíso de paz e prosperidade socialistas que ela promete há sete décadas. Não teria como explicar os setenta mil homicídios anuais, a distribuição orgiástica de favores milionários aos altos funcionários e amigos do governo, a corrupção ampliada até à escala do indescritível, o crescimento galopante do consumo de drogas, a desordem e o medo generalizados, os horrores e abjeções da educação nacional e o endividamento-monstro de um povo a quem todos os dias se diz que não deve se preocupar, porque tem todas as contas pagas ( ver aqui ).

Eis a função histórica que cabe à palavra “direita”. Direi que é a de um bode expiatório? Não, porque parasacrificar um bode expiatório é preciso um bode, não apenas a palavra que o designa. Na medida em que xingam uma à outra de direitistas, a esquerda “de cima” e a esquerda “de baixo” — personificadas simbolicamente pela presidente Dilma e pelos Black Blocks –, sem sacrificar nada mais que um verbete de dicionário, se absolvem e se isentam da obrigação de enxergar a miséria e a vergonhaque, em nome de um socialismo que nem sabem dizer qual seja, têm espalhado por toda parte. O que quer que ambas façam de errado, de torpe, de criminoso, vai para a conta de uma “direita” que, não existindo, também nada paga pelos crimes que lhe imputam.

Mas o apelo a essa prestidigitação vocabular não funcionaria, não teria credibilidade nem mesmo para esses artistas do auto-engano que são os militantes de esquerda, se não houvesse no quadro nacional algumas coisas que, sem ser a direita política, podem fazer as vezes dela ad hoc.

A primeira dessas coisas é a burguesia. Ela existe e, como dizia Marx, tem interesses objetivos a defender. O fato de que essa classe só se relacione com as autoridades na base dos afagos e beijinhos, de que portanto veja com horror a mera sugestão de combatê-lo no campo político, deve, nesse quadro, ser negligenciado para que se possa proclamar, com o sr. Leonardo Boff, que “os atores dadireita estão bem posicionados institucionalmente e politicamente” e que para desalojá-los é preciso dar todo apoio à sra. Dilma Rousseff, ou, com o deputado psolista Ivan Valente, que pela mesmíssima razão é preciso denunciar a presidente como uma reencarnação do general Médici. As duas hipóteses funcionam igualmente bem: a única força política existente se absolve dos seus pecados, e a inexistente, é claro, também nada paga por eles.

A segunda coisa que se parece vagamente com umadireita política são os jornalistas e blogueiros que criticam ao mesmo tempo o governo e os arruaceiros, a esquerda oficial e a oficiosa. Sem nenhuma conexão partidária, sem subsídios de qualquer espécie e sem nenhum plano nem mesmo hipotético de tomada do poder, eles são uma oposição meramente cultural sem meios nem desejo de ação política. Mas, como dizem o que pensam, e o quepensam ecoa alguma insatisfação popular difusa, é claroque as duas esquerdas apontam neles a arma polêmica do interesse capitalista e advertem que são “uma ameaça às liberdades civis”. Dessa maneira a esquerda governante é dispensada de explicar sua aliança promíscua com a burguesia, a esquerda arruaceira dispensada de explicar sua aliança promiscua com o governo, e a burguesia assegurada de que tudo o que faça de ruim em parceria com o governo será debitado na conta de jornalistas sem um tostão furado no bolso, que desprezam tanto a ela quanto ao governo. Ficam assim tranqüilizadas as consciências esquerdistas de cima e de baixo, bem como as de seus aliados burgueses, felizes de que aqueles que não a representam de maneira alguma sejam apontados como seus representantes e castigados no lugar dela sob esse pretexto. Esse é o único papel histórico da “direita” hoje em dia: ser o nome do mal e isentar de culpas aqueles queo praticam. A indústria brasileira de alucinógenos verbais é uma das maravilhas da tecnologia moderna.

Em 6 de fevereiro de 2014

Obviedades Estrategicas

6 de fevereiro de 2012 | Diário do Comércio

Se vocês querem algum dia ter no Brasil um movimento conservador vigoroso, apto a conquistar e exercer o poder, comecem por meditar os seguintes pontos:

1. Os grupos que dominam a política, a mídia e o mercado livreiro provêm das universidades e especialmente do movimento estudantil. A elevação dos líderes estudantis às posições de poder leva aproximadamente trinta anos. Quem domina as universidades hoje dominará o país em trinta anos.

2. Dominar as universidades não é um processo espontâneo. É o resultado de um trabalho sistemático de ocupação de espaços, de remoção dos adversários, de interproteção mafiosa e de conquista progressiva dos altos postos, que não rende frutos em menos de uma geração: mais trinta anos, que podem se reduzir a dez porque a conquista da hegemonia universitária e a formação da nova geração de estudantes não são fases estanques, mas fundidas e superpostas. O tempo necessário para a formação de um movimento político viável é, pois, de quarenta anos aproximadamente.

O acerto desse cálculo é ilustrado por exemplos inumeráveis. Data dos anos 60 o início da conquista das universidades da Europa, dos EUA e da América Latina pela “nova esquerda” inspirada na Escola de Frankfurt e naquilo que seus críticos viriam a rotular, sem muita precisão, de “marxismo cultural”. Decorridas quatro décadas, a ideologia do “politicamente correto”, do feminismo, do gayzismo, do abortismo, do racialismo e do ódio anti-ocidental e anticristão dominava, e domina até hoje, a política, a mídia e o mercado editorial em toda essa área – um terço da superfície terrestre.

3. O trabalho de conquista, primeiro das universidades, depois do poder em geral, depende de duas condições: (a) só pode ser empreendido por organizações estáveis e duradouras, capazes de esforço concentrado e sistemático ao longo de pelo menos duas gerações; (b) exige organizações que estejam firmemente decididas a realizá-lo e que vejam nele a sua obrigação mais essencial e incontornável, ao ponto de sacrificar a ele todos os seus demais interesses políticos, sociais, culturais, financeiros etc.

Em todo o planeta, há quase dois séculos, só se interessaram seriamente por esse objetivo as organizações ligadas ao movimento revolucionário mundial em todas as suas variantes internas (comunismo, nazifascismo, terceiromundismo, “nova esquerda” etc.) Nenhuma outra. Não estranha que a mentalidade revolucionária, em suas várias versões, incluindo as mais inconscientes de si próprias, tenha se tornado a chave dominante do pensamento político – e até da moralidade pública – em todo o mundo ocidental. Hoje em dia, uma nova versão do movimento revolucionário – o radicalismo islâmico – está fazendo um sério, bem organizado e bem financiado esforço para conquistar as universidades da Europa e dos EUA. Se esse esforço for bem sucedido, será impossível evitar a islamização forçada do Ocidente no prazo de uma ou duas gerações.

4. Os grupos conservadores, liberais (no sentido brasileiro), cristãos, judeus sionistas etc. têm-se limitado a opor à hegemonia revolucionária nas universidades o combate intelectual, a “guerra cultural” ou “luta de idéias”. Apostam nisso o melhor das suas forças. Mas é estratégia absolutamente impotente, pois o que está em jogo não é realmente nenhuma “luta de idéias” e sim uma luta pela conquista dos meios materiais e sociais de difundir idéias – coisa totalmente diversa. Você pode provar mil vezes que tem a idéia certa, mas, se o sujeito que tem a idéia errada é o dono das universidades, da mídia e do movimento editorial, o que vai continuar prevalecendo é a idéia errada. Basta ler revistas como New Criterion ou a Salisbury Review para notar que, em comparação com a “esquerda”, os conservadores têm hoje uma superioridade intelectual monstruosa. Nem por isso eles mandam no que quer que seja. Em política, a superioridade intelectual tem apenas um valor instrumental muito relativo. Se você não sabe usá-la para quebrar a autoridade do adversário, para tomar o cargo dele e colocar lá alguém da sua confiança, ela não serve para absolutamente nada. O movimento revolucionário já entendeu há tempos que “ocupar espaços” não é vencer debates letrados. Concentrando-se na “luta de idéias”, recusando-se nobremente a praticar a ocupação de espaços, a infiltração nos postos decisivos e o boicote aos adversários, os conservadores deixam a estes o exercício do poder e se contentam com a satisfação subjetiva de sentir que são mais inteligentes e moralmente melhores. O senso solidariedade mafiosa, então, escapa-lhes por completo. Dificilmente um conservador ou liberal chega a reitor, a ministro ou mesmo a diretor de departamento, sem imediatamente rodear-se de auxiliares esquerdistas, só para provar a si próprio (e para grande satisfação do adversário) que seu respeito pelas pessoas está “acima de divergências ideológicas”. Essa boniteza moral é fonte de tantos malefícios políticos, que chega a ser criminosa.

5. A luta pela ocupação de espaços pode comportar uma parte de debate político-ideológico, mas tem de ser uma parte bem modesta. O essencial não é vencer as “idéias” do adversário, mas o próprio adversário, pouco importando que seja por meios sem qualquer conteúdo ideológico explícito. Trata-se de ocupar o seu lugar, e não de provar que ele está do lado errado. Isso se obtém melhor pela desmoralização profissional, pela prova de incompetência ou de corrupção, pela humilhação pública, do que por um respeitoso “debate de idéias” que só faz conferir dignidade intelectual a quem, no mais das vezes, não tem nenhuma.

Em 6 de fevereiro de 2012

Contradicoes Sinistras

6 de dezembro de 2001 | 6 de dezembro de 2001

A prefeitura da cidade de São Paulo começou a distribuir a chamada bolsa-escola, conforme fui informado por uma propaganda oficial ufanista e reconstrutivista, a mando da senhora prefeita. Ao mesmo tempo, estimativas da imprensa indicam que cerca de sessenta mil alunos ficarão de fora da rede de ensino público municipal por absoluta falta de vagas. O setor público municipal — e estamos falando aqui do ensino fundamental, sua missão constitucional — simplesmente não se equipou para atender a demanda. Em paralelo, a prefeita iniciou embate político na Câmara de Vereadores, objetivando reduzir a obrigatoriedade de alocar 30% da arrecadação tributária para a rubrica Educação, instituída pela Lei Orgânica do Município, reduzindo-a para 25%. E, de quebra, passando a considerar os gastos com inativos e pensionistas como elemento de cálculo para atingir o percentual, reduzindo ainda mais os recursos efetivos para o investimento e o custeio na estrutura educacional.

As contradições são gritantes. Como implantar um programa adicional (a bolsa-escola) para o conjunto privilegiado de alunos que têm a vaga e, supostamente por falta de recursos financeiros, não criar as sessenta mil vagas faltantes, penalizando duplamente os que não estão na escola, sem vaga e, portanto, sem o requisito para ter acesso ao benefício pecuniário? Qual é a hierarquia de prioridades, incluir benefícios para os incluídos e esquecer à danação os excluídos ? Mas não é plataforma política da prefeita e do seu Partido denunciar a exclusão? Como então praticar efetivamente a exclusão? Parece coisa de um ser esquizóide: que não saiba a sua direita o que faz a sua esquerda, ora pois.

Quero declarar que por princípio sou contrário ao “carimbo” das verbas orçamentárias para o que quer que seja. Para mim 30 ou 25% continua sendo um número arbitrário. A cidade e as necessidades da população mudam ao sabor dos tempos e é bem provável que as mudanças nas variáveis demográficas, com o tempo, reduzam tanto a quantidade de crianças que a estrutura já feita não terá clientela. Por outro lado, a ponta oposta da escala etária será tão populosa – e provavelmente tão carente – que será merecedora da atenção especial do poder público, fenômeno que já se verificou em outros países. Pelo carência de vagas, seria o caso do município, no momento, investir até mais, quem sabe 35 ou 40% da receita tributária, porque não?

O ponto é que a prefeita e seu Partido acreditam na ossificação orçamentária como instrumento de garantia para as suas políticas e é nisso que reside a inconsistência: afinal, a Educação é, ou não, para eles, uma prioridade? A julgar pela peça que enviaram para a Câmara, não é, ou, como diria um recorrente candidato à Presidência da República, é menas prioridade .

O fato objetivo é que sessenta mil crianças pobres ficarão fora da escola e isso é algo imperdoável. É, para resumir numa palavra, incompetência. Nada justifica. O município de São Paulo é suficientemente rico para que suas crianças não fiquem fora da escola, desde que os governantes tenham como prioridade as reais necessidade de seus cidadão e que sejam movidos pelo propósito da inclusão social.

Lamentavelmente, os fatos gritam em sentido contrário. E continuamos a construir mais uma geração de analfabetos, párias sem lugar na sociedade, por culpa exclusiva de governantes despreparados. Isso no coração da cidade mais rica do Brasil.

Em 6 de dezembro de 2001

Leituras

Olavo De Carvalho Teremos De Impor O Debate A Forca

6 de abril de 2015 | entrevista Olavo de Carvalho

O filósofo e professor Olavo de Carvalho é hoje o maior expoente do pensamento de direita em âmbito nacional. Nesta entrevista realizada por e-mail, o filósofo, residente dos EUA, diz que o reavivamento da direita é resposta à prepotência da esquerda que desembocou no assalto aos cofres públicos. Mas ele aponta que somente a “inteligência individual” é capaz de contrapor-se à esquerda em uma “guerra cultural”.

Muitos brasileiros foram às ruas no domingo (15/03) impulsionados, em sua maioria, pelo escândalo do Petrolão e pedindo a deposição da presidente Dilma Roussef. O senhor entende que seja a corrupção sistemática, como apontou o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, o mal maior gerado nos governos petistas?

Sem dúvida, mas esse mal não surgiu sozinho. Ele nasceu desde dentro de um vasto projeto de poder e é parte integrante desse projeto. Afinal, os crimes de corrupção não foram cometidos para enriquecer este ou aquele indivíduo isoladamente, mas para financiar o PT. Esse é o mal mais vistoso, mas ele não é a raiz, é o resultado final de um processo corruptor muito mais profundo, que começou com a adoção da estratégia de Antonio Gramsci para a tomada do poder e assumiu forma decisiva com a fundação do Foro de São Paulo de 1990. O projeto de Antonio Gramsci consiste basicamente em ludibriar toda a sociedade para que aceite o socialismo sem percebê-lo, até que o partido que comanda o processo adquira – são palavras dele – “o poder invisível e onipresente de um imperativo categórico de um mandamento divino”. Nessa perspectiva, o Partido é o único juiz de si mesmo e pode fazer o que bem entenda, sem prestar contas à população e sem nem lhe explicar o que está acontecendo. A corrupção financeira é apenas o aspecto mais exterior que acaba assumindo a corrupção muito mais profunda de toda vida social e política. O Foro de São Paulo se arroga o direito de governar em segredo um continente inteiro, determinando o curso da vida de dezenas de povos, sem lhes prestar a mínima satisfação e, é claro, sem jamais se submeter ao seu julgamento moral. O direito de roubar é só a expressão financeira do direito mais geral de ludibriar.

Esse foi o primeiro movimento de massas identificado com a direita desde o início do governo Sarney. Como o senhor entende esse período de acabrunhamento da direita e o que a fez despertar neste momento?

A estratégia de Antonio Gramsci inclui como elemento essencial a “ocupação de espaços”, que significa preencher com elementos da esquerda todos os postos na educação, na mídia, nas instituições culturais e, por fim, na administração pública, tomando de uma possível oposição direitista todos os meios de se fazer ouvir. Nos anos 90, essa operação já foi coroada de sucesso, de modo que já não havia uma oposição de direita não somente no Parlamento, mas em parte alguma. Lula celebrava como apoteose da democracia o fato de que nas eleições presidenciais todos os candidatos fossem de esquerda. A esquerda tinha o monopólio absoluto da palavra, o restante da sociedade caiu na “espiral do silêncio” e perdeu até todo o desejo de falar. Foi só quando a prepotência da esquerda assumiu a forma do assalto geral e cínico aos cofres públicos, que a opinião excluída acabou por se ver praticamente obrigada a manifestar-se de novo.

O senhor é apontado por muitos líderes destes movimentos que pedem a saída de Dilma e que são contra o comunismo como o responsável pela quebra de uma “espiral de silêncio” que marginalizava o pensamento à direita. O senhor vislumbra para os próximos anos um ambiente favorável a verdadeiros debates, uma vez que o pensamento de esquerda é hegemônico entre profissionais de imprensa, na academia e no meio artístico?

A esquerda dominante jamais aceitará o debate franco, pois sabe que vive de mentirinhas tolas e que num confronto honesto sairá sempre perdendo. Sua única esperança é tapar definitivamente as bocas dos discordantes para que não mostrem que o rei está nu. Se queremos restaurar a possibilidade de um debate franco, teremos de impor isso à força.

Em um dos artigos de “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, o senhor explica porque não é um liberal, mas um conservador. Vê-se nos movimentos a união destas duas correntes. Isto demonstra a incipiência desta nova direita? Qual diferenciação o senhor faz entre elas?

Basicamente, liberais (especialmente libertarians) e conservadores se distinguem porque os primeiros privilegiam a argumentação econômica, fazendo vista grossa à guerra cultural, que é justamente o ponto principal da estratégia da esquerda. Conservadores, por seu lado, insistem na argumentação cultural e moral ao ponto de às vezes, deixar-se enganar pelo conservadorismo moralista de um Vladimir Putin. Nenhuma corrente ideológica é jamais inteligente o bastante para se mover com agilidade entre as sutilezas da vida política. Só inteligência individual é capaz de dar conta das ambiguidades e astúcias de uma situação política em mutação veloz.

O senhor vem denunciando há anos a influência do Foro de São Paulo sobre a política brasileira e da América Latina. O governo brasileiro não se manifesta contra o que ocorre na Venezuela, por exemplo, onde opositores são presos ou mortos. O Brasil pode chegar a isso?

Acho até engraçado quando ouço advertir que “o Brasil pode virar uma Venezuela”. O Brasil “fez” a Venezuela. No discurso do décimo quinto aniversário do Foro de São Paulo, o senhor. Lula confessou isso abertamente. O regime Hugo Chavez foi concebido no Brasil e criado através do Foro de São Paulo. Em segundo lugar, até muito recentemente, a Venezuela estava muito melhor que o Brasil, pois lá havia uma oposição atuante e combativa, enquanto o nosso povo, aceitava com passividade bovina e silêncio de pedra toda imposição do esquerdismo dominante.

Qual a gravidade de o PT ser ligado ao Foro de São Paulo? Por que o senhor defende que o Foro de São Paulo deve ser excluído da política brasileira?

Em primeiro lugar, o Foro articula, numa estratégia global, partidos legais e organizações criminosas de terroristas, de narcotraficantes, de sequestradores. Isso faz dele, como um todo, uma organização criminosa. Em segundo lugar, o Foro atuou de maneira clandestina, negando sua própria existência, até quando foi forçado a admiti-la pelas denúncias sucessivas que eu mesmo divulguei. Como se pode admitir que a política de um país ou, pior ainda, de vários deles, seja determinada por uma entidade clandestina, calculada, nas palavras do senhor Lula “para que ninguém soubesse do que estávamos falando”? Como pode haver normalidade democrática se as decisões são tomadas em conluio com criminosos estrangeiros e se nós, o povo, não temos sequer o direito de saber do que eles estão falando?

O senhor também é um grande crítico do sistema educacional brasileiro. De que forma esta “deseducação” contribui para a formação da hegemonia à esquerda?

A doença principal da educação brasileira foi a adoção do sistema de alfabetização chamado “socioconstrutivista”, criado inteiramente por estrategistas comunistas como Lev Vigotsky, Emilia Ferreiro e Paulo Freire para transformar as crianças em servos dóceis de um movimento político, com total desprezo pelo desenvolvimento real das suas capacidades. Hoje em dia está mais do que provado que o sistema socioconstrutivista destrói a inteligência das crianças e produz até mesmo lesões cerebrais. Os responsáveis pela adoção desse sistema são diretamente culpados pelo fracasso retumbante das nossas crianças, amplamente comprovado pelos testes internacionais. Esses homens não são educadores, são criminosos O senhor defende uma hegemonia da direita? Em que ela seria mais saudável que a atual hegemonia?

Já tivemos uma hegemonia da direita durante o regime militar. Ela fez algumas coisas boas na esfera econômica mas, por ter idéias estereotipadas sobre o comunismo e nada entender da estratégia gramsciana, deixou o campo livre para que a esquerda se apossasse da mídia, do mundo editorial e do sistema educacional. Direitismo não é atestado de inteligência.

Costuma-se apontar o PSDB como a direita brasileira, e aqueles que protestam contra os governos petistas como “golpistas”, representantes de uma “elite branca opressora”. O que há de errado nestas qualificações?

Não se pode falar do PSDB inteiro, onde há homens bons e maus. O que é certo é que seus líderes mais destacados, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra, estão comprometidos até à medula com o esquema do Foro de São Paulo. Estão entre os seus maiores aliados e protetores. Isso remonta pelo menos a 1993, quando o senhor. Fernando Henrique Cardoso teve uma reunião secreta com os dirigentes do Foro e os do “Diálogo Interamericano” que é o think tank da ala mais esquerdista do Partido Democrata Americano. O que se tem feito para esconder o conteúdo das decisões ali tomadas forma uma das mais estranhas histórias de mistério do mundo. Já contei isso várias vezes e não vou me repetir aqui.

O senhor vislumbra um Brasil melhor após o 15 de março? Em que estas manifestações são distintas daquelas de 2013? Por que se diz que em 2013 o povo protestou e agora se diz que foram as elites descontentes e desejosas de um terceiro turno?

Essa opinião nem merece resposta. Basta ver as fotos e vídeos das passeatas para saber que as camadas populares estavam ali muito bem representadas, enquanto a “elite”, especialmente a da mídia, fazia o possível para achincalhar o movimento e deformar a sua identidade. Termos como “burguesia”, “proletariado”, “elite”, “povo” etc., na boca de esquerdistas, quase nunca designam conceitos descritivos, ancorados em dados da realidade. São símbolos, estereótipos, slogans e senhas que nada dizem da realidade exterior, mas expressam apenas o sentimento de identidade de um grupo ativista, a mitologia que sustenta a sua existência e unidade enquanto grupo, ao mesmo tempo que delineiam, na mente dos seus membros, a imagem do inimigo ideal a ser odiado, temido e achincalhado – inimigo que, quando não é totalmente inexistente, pelo menos jamais está no lugar onde o apontam.

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De Quem E A Festa

5 de outubro de 2006 | Diário do Comércio

Se algo as eleições de domingo demonstraram, foi a monstruosa desproporção entre a esquerda e seus concorrentes, que se tornou cláusula pétrea da regra do jogo político entre nós. A diferença começa nos objetivos mesmos: a esquerda quer e faz tudo para destruir seus adversários, arruinar sua reputação, excluí-los da política, derrubá-los de sua posição social e econômica e assassiná-los psicologicamente, de modo que percam até o desejo de se reerguer um dia. Eles, em resposta, contentam-se com disputar votos muito polidamente, muito delicadamente, com todo o cuidado de não ferir a dignidade do concorrente esquerdista e de preservá-lo intacto para as eleições seguintes.

A esquerda, contra eles, usa tudo e mais alguma coisa. Eles, até quando têm nas mãos uma carga de TNT suficiente para fazer em cacos o prestígio esquerdista, tratam de fazê-la explodir em algum recinto limitado, onde não machuque a estrutura de poder da esquerda, muito menos as bases da sua hegemonia ideológica, mas apenas alvos individuais selecionados, sem dano para o conjunto. O pouco de maquiavelismo impiedoso que se usou contra políticos esquerdistas nos últimos vinte anos veio sempre do PSDB, no fim das contas, ele próprio um partido de esquerda, sem qualquer divergência ideológica séria com os demais que vieram do berço comum, a resistência esquerdista ao regime militar.

Pior ainda: a esquerda luta em todas as frentes, buscando e obtendo o total domínio cultural, moral e psicológico da sociedade, enquanto seus adversários abdicam de tudo isso e consentem docilmente em brincar de política como meninos bem comportados, num campo sociológico previamente delimitado pelo inimigo, de acordo com as regras estabelecidas por ele e amoldando-se passivamente (ou até inconscientemente) aos valores e metas que ele escolheu.

Qualquer vitória eleitoral, nessas condições, é uma bolha de sabão que se desfaz ao primeiro vento mais forte. Poder político sem hegemonia é castelo no ar, é fogo-fátuo, é aparência de poder sem fundamento na realidade social. Fernando Collor e Antonio Carlos Magalhães são exemplos notórios: confiantes na popularidade pessoal, julgavam-se indestrutíveis. Não resistiram ao primeiro soco. Caíram porque não tinham plano estratégico, substantividade ideológica e respaldo cultural. Tinham apenas uma boa propaganda eleitoral.

O bom-mocismo de Geraldo Alckmin, recusando-se a dizer uma palavra contra o Foro de São Paulo, é a imagem perfeita do descompromisso ideológico autocastrador que gera e destrói os Collors e os Magalhães. Alckmin pode até eleger-se, talvez, aproveitando-se de circunstâncias momentâneas que o favorecem. Seis meses depois, estará na lata de lixo da história ou lambendo os pés de seus inimigos em troca de uma sobrevivência.

Na verdade, tudo o que o PT perdeu nestas eleições, perdeu em favor de outros partidos de esquerda, inclinados no momento a ostentar distância da sujeira petista, mas que quase infalivelmente voltarão às boas com o lulismo ao primeiro sinal de perigo geral para a esquerda.

On revient toujours à ses premiers amours e um divórcio de mero oportunismo, é ainda mais instável que um casamento de ocasião.

Quando uma população como a de São Paulo, repudiando o lulismo e até tendo o bom senso de dar ao candidato conservador Guilherme Afif uma votação expressiva, põe tudo a perder elegendo senador um mentecapto no qual só se pode votar por piedade, está na hora de a “direita” lembrar que antilulismo não é antipetismo, e antipetismo não é anti-esquerdismo. Do jeito que as coisas vão, até uma derrota de Lula pode representar no fim das contas uma vitória geral da esquerda. O luto político na casa de Dona Marisa pode ser festa no Foro de São Paulo.

Em 5 de outubro de 2006

Alienacao Nacional

5 de outubro de 2003 | Zero Hora

Em trinta e tantos anos de estudos e de jornalismo, nunca vi um caso de alienação tão grave e tão geral quanto a obstinação dos brasileiros em ignorar as relações PT-Farc ou, nos casos extremos, em negar a existência delas contra toda a evidência de fatos e documentos.

Quem quer que fale a respeito, pouco importando que o faça ante adeptos ou adversários do governo, vê erguer-se diante de si uma barreira de hostilidade mal disfarçada, como se houvesse traído um compromisso de silêncio firmado entre todos os homens de boa vontade, do qual dependesse a própria sobrevivência do país. O Brasil inteiro parece ter apostado sua honra e seu futuro num pacto de vassalagem cega, depositando mais fé na palavra de um partido do que algum dia depositou na palavra de Deus.

A motivação psicológica dessa atitude é bem compreensível: da parte dos petistas, ela reflete, seja a astúcia de quem sabe de tudo e não deseja revelar nada, seja, nos restantes, a autodefesa das almas contra a possibilidade de um escândalo que as deprimiria além do que podem suportar. Da parte dos antipetistas, denota a natural relutância de admitir que podem ter sido feitos de idiotas.

Mas uma explicação psicológica não é uma justificação moral.

Os fatos são de tal ordem que menosprezá-los é uma loucura e um crime, é fazer com que todo o debate político brasileiro, fugindo sistematicamente do essencial, se torne uma desconversa suicida.

1. O comandante das Farc, em entrevista à Folha de S. Paulo, afirmou que a cúpula petista é o principal contato da organização no Brasil.

2. Como fundador e dirigente do Foro de São Paulo — coordenação estratégica do movimento comunista no continente –, o sr. Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em dezembro de 2001, um manifesto que alardeava solidariedade às Farc e condenava como “terrorismo de Estado” sua repressão pelo governo da Colômbia. Tão logo divulguei esse documento, ele foi retirado do site do Foro, http://www.forosaopaulo.org, o qual logo em seguida foi desativado, permanecendo “em reconstrução” há muitos meses.

3. Embora desde 2002 já não reste entre as autoridades policiais e militares muita dúvida razoável quanto ao envolvimento das Farc no tráfico de cocaína para dentro do Brasil, o sr. Lula insiste em proclamar a inocência delas e em dar à narcoguerrilha colombiana o estatuto de organização política legítima. Ninguém tem sequer a curiosidade de perguntar se o defensor entusiasta de uma organização tão obviamente suspeita pode ter idoneidade para ser, ao mesmo tempo, o responsável máximo pela segurança do país.

4. A denúncia do deputado Alberto Fraga (PMDB-DF), de que o PT havia recebido contribuições de campanha das Farc, foi abafada pela quase totalidade da mídia nacional, e o pedido de constituição de uma CPI para investigar o assunto está congelado até hoje na Câmara Federal.

Se tudo isso não significa nada, se a fé nacional na honorabilidade petista está acima dos meros fatos, se enfim o país não tem o mínimo interesse em tirar a limpo uma questão que lhe parece ínfima e desprezível, por que deveria eu insistir? Na condição de único jornalista brasileiro que vem falando do assunto há dois anos, não encontrando como resposta senão insultos e represálias, tenho a impressão de que já fiz mais do que era do meu dever. Qualquer que seja o rumo das coisas doravante, ninguém há de me acusar de omisso.

Em 5 de outubro de 2003

A Verdadeira Direita

5 de novembro de 2000 | O Globo,

Se nas coisas que escrevo há algo que irrita os comunas até à demência, é o contraste entre o vigor das críticas que faço à sua ideologia e a brandura das propostas que lhe oponho: as da boa e velha democracia liberal. Eles se sentiriam reconfortados se em vez disso eu advogasse um autoritarismo de direita, a monarquia absoluta ou, melhor ainda, um totalitarismo nazifascista. Isso confirmaria a mentira sobre a qual construíram suas vidas: a mentira de que o contrário do socialismo é ditadura, é tirania, é nazifascismo.

Um socialista não apenas vive dessa mentira: vive de forçar os outros a desempenhar os papéis que a confirmam no teatrinho mental que, na cabeça dele, faz as vezes de realidade. Quando encontra um oponente, ele quer porque quer que seja um nazista. Se o cidadão responde: “Não, obrigado, prefiro a democracia liberal”, ele entra em surto e grita: “Não pode! Não pode! Tem de ser nazista! Confesse! Confesse! Você é nazista! É!” Se, não desejando confessar um crime que não cometeu, muito menos fazê-lo só para agradar a um acusador, o sujeito insiste: “Lamento, amigo, não posso ser nazista. No mínimo, não posso sê-lo porque nazismo é socialismo”, aí o socialista treme, range os dentes, baba, pula e exclama: “Estão vendo? Eis a prova! É nazista! É nazista!”

Recentemente, cem professores universitários, subsidiados por verbas públicas, edificaram toda uma empulhação dicionarizada só para impingir ao público a lorota de que quem não gosta do socialismo deles é nazista. Não se trata, porém, de pura vigarice intelectual. A coisa tem um sentido prático formidável. Ajuda a preparar futuras perseguições. Consagrado no linguajar corrente o falso conceito geral, bastará aplicá-lo a um caso singular para produzir um arremedo de prova judicial. Para condenar um acusado de nazismo, será preciso apenas demonstrar que ele era contra o socialismo. Hoje esse raciocínio já vale entre os esquerdistas. Quando dominarem o Estado, valerá nos tribunais. Valerá nos daqui como valeu nos de todos os regimes socialistas do mundo.

Intimidados por essa chantagem, muitos liberais sentem-se compelidos a moderar suas críticas ao socialismo. Mas isso é atirar-se na armadilha por medo de cair nela. Já digo por que.

Socialismo é a eliminação da dualidade de poder econômico e poder político que, nos países capitalistas, possibilita – embora não produza por si — a subsistência da democracia e da liberdade. Se no capitalismo há desigualdade social, ela se torna incomparavelmente maior no socialismo, onde o grupo que detém o controle das riquezas é, sem mediações, o mesmo que comanda a polícia, o exército, a educação, a saúde pública e tudo o mais. No capitalismo pode-se lutar contra o poder econômico por meio do poder político e vice-versa (a oposição socialista não faz outra coisa). No socialismo, isso é inviável: não há fortuna, própria ou alheia, na qual o cidadão possa apoiar-se contra o governo, nem poder político ao qual recorrer contra o detentor de toda riqueza. O socialismo é totalitário não apenas na prática, mas na teoria: é a teoria do poder sintético, do poder total, da total escravização do homem pelo homem.

A formação de uma “nomenklatura” onipotente, com padrão de vida nababesco, montada em cima de multidões reduzidas ao trabalho escravo, não foi portanto um desvio ou deturpação da idéia socialista, mas o simples desenrolar lógico e inevitável das premissas que a definem. É preciso ser visceralmente desonesto para negar que há uma ligação essencial e indissolúvel entre elitismo ditatorial e estatização dos meios de produção.

O socialismo não é mau apenas historicamente, por seus crimes imensuráveis. É mau desde a raiz, é mau já no pretenso ideal de justiça em que diz inspirar-se, o qual, tão logo retirado da sua névoa verbal e expresso conceitualmente, revela ser a fórmula mesma da injustiça: tudo para uns, nada para os outros.

Porém, no próprio capitalismo, qualquer fusão parcial e temporária dos dois poderes já se torna um impedimento à democracia e ameaça desembocar no fascismo. Não há fascismo ou nazismo sem controle estatal da economia, portanto sem algo de intrinsecamente socialista. Não foi à toa que o regime de Hitler se denominou “socialismo nacional”. Stalin chamava-o, com razão, “o navio quebra-gelo da revolução”. Por isso os socialistas, sempre alardeando hostilidade, tiveram intensos namoros com fascistas e nazistas, como nos acordos secretos entre Hitler e Stalin de 1933 a 1941, na célebre aliança Prestes-Vargas etc. Já com o liberalismo nunca aceitaram acordo, o que prova que sabem muito bem distinguir entre o meio-amigo e o autêntico inimigo.

Por isso mesmo, é uma farsa monstruosa situar nazismo e fascismo na extrema-direita, subentendendo que a democracia liberal está no centro, mais próxima do socialismo. Ao contrário: o que há de mais radicalmente oposto ao socialismo é a democracia liberal. Esta é a única verdadeira direita. É mesmo a extrema direita: a única que assume o compromisso sagrado de jamais se acumpliciar com o socialismo.

Nazismo e fascismo não são extrema-direita, pela simples razão de que não são direita nenhuma: são o maldito centro, são o meio-caminho andado, são o abre-alas do sangrento carnaval socialista. Os judeus, perseguidos em épocas anteriores, podiam usar do poder econômico para defender-se ou fugir: o socialismo alemão, estatizando seus bens, expulsou-os desse último abrigo. Isso seria totalmente impossível no liberal-capitalismo. Só o socialismo cria os meios da opressão perfeita.

Não, a crítica radical ao socialismo não nos aproxima do nazifascismo. O que nos aproxima dele é uma crítica tímida, debilitada por atenuações e concessões. E essa, meus amigos, eu não farei nunca.

Em 5 de novembro de 2000

Mundo Paralelo

5 de março de 2004 | O Globo

Em artigo recente, Alexandre Soares Silva, simpático e talentoso blogueiro de São Paulo, comete o desatino de me fazer os mais rasgados elogios, mas, nas linhas finais, recupera o bom-senso e censura com aspereza minha insistência em falar do Foro de São Paulo.

Boa parte dos louvores que recebo são assim. Dão-me dez em português e matemática, mas insinuam que só me deram cinco de comportamento por indulgência paternal, já que na verdade eu mereceria zero.

O critério subjacente é, por si, um retrato do estado de coisas.

Desde logo, a reprimenda à teimosia individual de tocar no assunto proibido vem desacompanhada de qualquer advertência quanto à obstinação geral em omiti-lo. O preceito subentendido é que esta última é normal e saudável, aquela um vício sem perdão.

Tendo em vista que o assunto referido é a maior organização política da América Latina e que essa organização tem uma estratégia continental em avançado estágio de implantação em vários países, sem referência à qual é impossível compreender o que neles se passa, a conclusão implícita do julgamento acima é que a missão do comentário político não é analisar a realidade, mas variar semanalmente a escolha de seus assuntos de maneira a conservar os leitores num agradável estado de fruição lúdica, como o fazem os cronistas digestivos.

O fato de que, na prática, os cronistas digestivos produzam sermões contra George W. Bush com freqüência incomparavelmente maior que a das minhas modestas anotações sobre o Foro de São Paulo não modifica em nada esse julgamento, porque falar mal de George W. Bush é hábito que já se incorporou ao modelo brasileiro de sanidade. Não se torna objeto de suspeitas psiquiátricas nem quando presume que derrubar uma ditadura sangrenta é o mesmo que implantá-la, que vestir calcinhas nos inimigos é crime tão hediondo quanto cortar suas cabeças, que implantar à força eleições livres é mais odioso do que proibi-las como a China vem fazendo no Tibete há meio século.

A tranqüilidade com que esse critério é obedecido demonstra a força que a mídia tem de não só criar um mundo paralelo, mas de torná-lo obrigatório e normativo, condenando como louco e radical quem quer que insista em continuar olhando para o mundo originário em que todos nascemos e vivemos.

O fato ilustra a tese de Guy Debord sobre a mídia-espetáculo, mas, significativamente, invertendo-lhe o sentido ideológico: a substituição dos fatos pelas imagens de fantasia não se faz em proveito da acumulação capitalista, mas de uma elite socialista mais poderosa do que qualquer capitalista jamais pensou em ser. Na mesma medida, a falsificação, servindo a objetivos mais vastos e ambiciosos do que o simples lucro, deixa de ser avulsa, ocasional e tímida: torna-se agressiva, prepotente e dogmática, impondo-se com uniformidade a todos os canais de comunicação e reduzindo toda objeção possível ao status de “aberração individual”, exatamente segundo planejado — com esse termo — por Antonio Gramsci. Os críticos da mídia-espetáculo capitalista ganhavam cátedras universitárias e aplausos gerais; os da socialista, um leito no hospício, ameaças de morte e, na mais amável das hipóteses, louvores atenuados por puxões de orelhas. A mentira é proclamada com tanta fé, a verdade negada com tanta veemência, que o novo padrão de realidade se impõe mesmo àqueles que, em tese, rejeitam o objetivo político nele embutido. Nesse padrão, o sorriso da sociedade vale o crime de tornar o Foro de São Paulo ainda mais invisível.

Não havendo um movimento liberal-conservador com convicções definidas, qualquer oportunista ideologicamente inócuo pode ser convocado a personificar a “direita” ad hoc, fornecendo à esquerda o espantalho facilmente abominável de que ela precisa para manter as criancinhas num estado de sacrossanto horror a um capitalismo que desconhecem e que só imaginam pela feiúra desse boneco de palha. O passo seguinte da alucinação é o boneco de palha adquirir vida própria e tentar atrair para si o prestígio do esquerdismo, gritando que direitistas são os outros. Eis a vida e obra do senador Jefferson Peres.

Em 5 de março de 2005

A Esquerda Inventada

5 de maio de 2009 | Diário do Comércio

Entre liberais e conservadores, no Brasil e no resto do mundo, só uns poucos têm uma noção clara de quem é seu inimigo e de como enfrentá-lo. A maioria luta apenas contra uma esquerda idealizada, um trompe l’oeil fabricado pela própria esquerda para ser consumido por seus adversários como uma droga estupefaciente, paralisante e incapacitante. O modelo do artifício é copiado de algo que já existiu historicamente: uma esquerda humanitária, democrática, anticomunista, só separada da direita pela diferente concepção dos meios, mais estatistas do que capitalistas, a ser usados para realizar valores que no fundo eram os mesmos de parte a parte – liberdade, direitos humanos e uma vida decente para todos.

Embora vagamente herdeira do reformismo de Eduard Bernstein e de Karl Kautsky – o “renegado”, como o chamava Lênin –, essa esquerda só se tornou um ator de destaque na mídia ocidental por ocasião da Guerra Civil Espanhola, quando a violência assassina desencadeada pelo comando estalinista contra seus próprios companheiros de trincheira agiu como um toque de alerta sobre muitos esquerdistas, levando-os a compreender que o comunismo era pelo menos tão destrutivo quanto o nazismo. O pacto Ribbentropp-Molotov de agosto de 1939 completou a decepção. Alguns mudaram de lado completamente, tornando-se conservadores. Outros, renegando toda fidelidade ao governo soviético, embora não à idéia socialista, acabaram se integrando nos partidos trabalhistas e socialdemocratas e tornando-se bons aliados dos conservadores na luta contra o comunismo, continuando a combatê-los no plano das políticas sociais. George Orwell e o filósofo Sidney Hook são exemplos famosos. O primeiro tornou-se mesmo, com os livros Animal Farm e 1984 , um dos grandes criadores da linguagem anticomunista, calculada para parodiar e implodir o jargão comunista. O segundo foi o principal organizador do Congresso pela Liberdade da Cultura, o único empreendimento sério já tentado – em 1949-50, com a ajuda da CIA – para reunir intelectuais anticomunistas e opor alguma resistência à avassaladora ofensiva cultural soviética iniciada trinta anos antes.

Não é preciso dizer o quanto a existência de uma prestigiosa esquerda anticomunista incomodava o establishment soviético. A política de “coexistência pacífica” inaugurada por Nikita Kruschev teve como uma de suas principais finalidades reintegrar na estratégia comunista o exército de desgarrados. O sucesso da operação foi completo. Já nos anos 70, conforme o escritor Vladimir Bukovski viria a descobrir nos Arquivos de Moscou, praticamente toda a mídia socialdemocrata da Europa era subsidiada e controlada pela KGB (v.

Jugement à Moscou. Un Dissident dans les Archives du Kremlin , Paris, Robert Laffont, 1995). Nos EUA, infiltrado e dominado por agentes camuflados ou declarados da esquerda revolucionária, o Partido Democrata, que até a década de 60 funcionara como o abrigo ideal dos esquerdistas anti-soviéticos, foi indo cada vez mais para a esquerda, até assumir a bandeira do anti-americanismo mais radical e intolerante. A bibliografia que documenta essa transformação é abundante, não havendo desculpa decente para os autoproclamados especialistas em política internacional ignorarem o fenômeno, como os nossos o ignoram em massa. Vejam, por exemplo, David Horowitz and Richard Poe, The Shadow Party, How George Soros, Hillary Clinton and the Sixties Radicals Seized Control of the Democratic Party , Nashville, TN, Nelson Current, 2006; James Piereson, Camelot and the Cultural Revolution: How the Assassination of John F. Kennedy Shattered American Liberalism , New York, Encounter Books, 2007; Phil Kent, Foundations of Betrayal. How the Liberal Super-Rich Undermine America , Johnson City, TN, Zoe Publications, 2007.

A transfiguração da esquerda moderada americana em agente da esquerda radical culmina na presidência Obama, que protege ostensivamente organizações terroristas e criminaliza qualquer resistência conservadora, ao mesmo tempo que continua a ostentar os sinais convencionais do progressismo democrático (v.

http://truth11.wordpress.com/2009/04/22/former-presidential-candidate-alan-keyes-has-given-perhaps-his-most-dire-warning-yet-saying-that-the-obama-administration-is-preparing-to-stage-terror-attacks-declare-martial-law-and-cancel-the-2012/ , http://www.onenewsnow.com/Politics/Default.aspx?id=494798 , http://www.onenewsnow.com/Politics/Default.aspx?id=490720 e http://www.worldnetdaily.com/index.php?pageId= ).

Na América Latina, a encarnação mesma da “esquerda moderada”, o Partido dos Trabalhadores, é discretamente o coordenador do Foro de São Paulo, isto é, o estrategista máximo da violência revolucionária no continente.

Em suma, a esquerda democrática, civilizada, concorrente leal dos conservadores, já não existe mais como força política independente. Financiando e acobertando movimentos terroristas e subversivos por toda parte, e impondo sob outros nomes as mesmas políticas que seriam rejeitadas pela população se apresentadas com o rótulo de comunistas, a “esquerda moderada” é um inimigo ainda mais perigoso dos conservadores do que poderiam sê-lo os próprios comunistas de carteirinha, os quais sem ela não teriam poder nenhum.

A diferença entre as duas esquerdas é que uma quer alternar-se no poder com os conservadores, segundo o rodízio democrático normal, enquanto a outra não se contenta em vencer esses adversários nas eleições, mas busca destrui-los completamente, marginalizá-los, criminalizá-los, expeli-los para sempre não só da política mas da vida social, quando não da existência física. Outra diferença é que a segunda é a única que existe na realidade; a outra, só na imaginação residual da direita.

Se a esquerda ainda se prevalece da bela imagem de moderação democrática criada nos campos de batalha da Espanha, é somente para ludibriar seus inimigos. Mas que estes continuem acreditando na existência dela, e imaginem combater adversários leais quando na verdade se defrontam com revolucionários e assassinos, é algo que decorre de uma imperdoável covardia intelectual e moral, suicida como todas as covardias.

Em 5 de maio de 2009

O Guia Genial Dos Povos

5 de maio de 2002 | Zero Hora

Aristóteles dizia que todo governo deve amoldar-se aos valores dominantes, ao ethos da população. Fracassada a tentativa de mudar o ethos pela ação do governo, que marcou história da primeira metade do século XX, a segunda metade, em vez de abandonar o projeto insano da “construção do homem socialista”, se empenhou em resgatá-lo mediante a simples inversão da fórmula. Lendo Lukács, Horkheimer, Adorno, Marcuse e sobretudo Antonio Gramsci, a esquerda internacional foi induzida a apostar na hipótese de mudar primeiro o ethos para que depois o novo ethos mude o governo: construir o homem socialista para que este construa o socialismo. Essa idéia pode ser denominada genericamente com a expressão gramsciana de “revolução cultural”.

Mas o fato é que, antes que qualquer desses pensadores sequer chegasse a enunciar o projeto, o próprio Stálin, com a ajuda de Karl Radek, já o havia detalhado e posto em prática, com a ressalva de que o utilizou para orientar somente a ação organizada da esquerda internacional, enquanto no plano interno continuava a usar o velho esquema do ethos estatal. Basta estudar as diretrizes que ele formulou na década de 30 para o Partido Comunista Americano — esquecer os proletários, concentrar-se na arregimentação de “companheiros de viagem” entre as celebridades e os formadores de opinião — para perceber que o “Velho” já servia o bolo quando Gramsci ainda perguntava o preço da farinha.

Sob esse aspecto, os autores que com suas idéias nominalmente heterodoxas deram novo alento a uma militância desiludida com o que então lhe parecia ser a pobreza intelectual do stalinismo, não foram senão stalinistas que se ignoravam a si mesmos. Stálin, antecipando-se de décadas a gerações inteiras de intelectuais pretensamente iluminados, realizou literalmente a promessa contida no título recebido de seu círculo de bajuladores mais próximos: ele foi realmente o “guia genial dos povos”. Nunca houve nem haverá um esquerdista mais inteligente que Stalin, e o motivo disto é simples: a verdadeira natureza do socialismo só se revela a quem a encare com frio realismo, despindo-se da ilusões humanistas e progressistas que ele mesmo dissemina “ad usum delphini”.

Toda a história política, social, psicológica, religiosa e intelectual desse período que se prolonga até hoje é apenas o conjunto das manifestações exteriorizadas da “revolução cultural” marxista, um movimento unitário e organizado de envergadura tão gigantesca que, aos olhos do observador leigo, se torna inabarcável e invisível ao ponto de seus efeitos acabarem sendo explicados como produtos da mera coincidência.

Em parte, essa impressão reflete apenas o fato de que movimentos desse tipo não se disseminam pela arregimentação formal de militantes organizados, mas por impregnação passiva da imaginação de milhares de idiotas úteis em resposta à iniciativa discreta de um número muito pequeno de agentes. Desde suas primeiras experiências de cooptação de intelectuais, Willi Münzenberg, o executivo principal do plano Stalin-Radek, ficou impressionado com a facilidade com que suas palavras-de-ordem se disseminavam entre os intelectuais — uma docilidade espontânea e inconsciente que jamais a propaganda comunista havia encontrado entre os proletários. Entre os letrados a ação comunista era tão fértil que Münzenberg a chamava “criação de coelhos”. Pode parecer estranho que logo as camadas “mais esclarecidas” sejam assim fáceis de manipular, mas o fenômeno tem uma explicação bem simples. Se as pessoas menos cultas resistem à manipulação porque são desconfiadas da novidade e apegadas a costumes tradicionais, os intelectuais capazes de iniciativa pessoal originária, de resposta direta e criativa aos dados da experiência real são muito raros: à maioria, que já não conta com a tradição para guiá-la nem tem forças para uma reação personalizada, só resta seguir a moda do dia. Nove décimos da atividade mental das classes letradas são imitação, macaquice, eco passivo de palavras-de-ordem que ninguém sabe de onde vieram nem para onde levam.

Essa proporção tende a aumentar na medida mesma da ampliação das oportunidades de acesso às profissões intelectuais, cada vez mais abertas a multidões de incompetentes — o “proletariado intelectual” como o chamava Otto Maria Carpeaux — cujo único teste para a admissão no grêmio é, justamente, a facilidade de impregnação dos cacoetes mentais mais típicos desse grupo social. Daí a proliferação de tantas modas intelectuais, artísticas e políticas cuja absurdidade grotesca é claramente percebida pelo homem das ruas, mas que aos de dentro do círculo parecem a encarnação mais pura do elevado e do sublime.

Em 5 de maio de 2002

Traicao Sem Fim

5 de maio de 2001 | O Globo

Em carta publicada no GLOBO do último dia 21, a professora Denise Rollemberg esclarece que é minha e não dela a conclusão que tirei do seu livro “O apoio de Cuba à luta armada no Brasil” e segundo a qual “a ação conjunta dos militares (em 1964) resultou da intervenção cubana na guerrilha, e não esta daquela”. Ela nem precisava ter dito isso. Uma convenção universal do ofício pensante reza que aquilo que um autor infere de fatos alegados por outro é de inteira responsabilidade do primeiro. Mas a professora Denise não haverá de se magoar comigo se eu acrescentar que, arcando com a responsabilidade das conclusões, levo também o mérito que possa haver nelas. Inversa e complementarmente, recai sobre ela a responsabilidade — bem como o mérito, se algum há nisso -— de recusá-las contra os fatos que as impõem.

No seu livro, a professora Denise, logo após reconhecer que o governo de Cuba participava de ações revolucionárias no Brasil desde 1961, escreve: “Após 1964, a esquerda tendeu, e tende ainda, a construir a memória da sua luta, sobretudo, como de resistência ao autoritarismo do novo regime... No entanto, a interpretação da luta armada como essencialmente de resistência deixa à sombra aspectos centrais da experiência nos embates travados pelos movimentos sociais de esquerda no período anterior a 1964.”

Traduzido do peculiar idioma universitário nacional — o único, no mundo, em que ambigüidade é sinônimo de rigor — que significa esse parágrafo senão que a esquerda brasileira, com a ajuda de Cuba, tentava conquistar o poder por via armada desde três anos antes do golpe militar e que, depois dele, passou a usar o novo regime como pretexto retroativo para alegar que fora compelida ao uso das armas, a contragosto, com lágrimas de piedade nos olhos, pela supressão autoritária de seus meios incruentos de luta?

A esquerda, enfim, mentiu durante quase 40 anos, enquanto a direita, a execrável direita, simplesmente dizia a verdade ao alegar que o golpe de 1964 fora uma reação legítima contra uma revolução em curso que não se vexava de recorrer à violência armada com a ajuda clandestina de uma ditadura estrangeira.

Nada, absolutamente nada nesses fatos permite concluir, com a professora Denise, que “o apoio que o governo cubano deu a guerrilheiros no Brasil, em três momentos diferentes, não poderia explicar — e muito menos justificar — a ação dos militares”. A idéia mesmo de que uma ingerência armada de país estrangeiro não explique nem justifique uma reação igualmente armada da nação ofendida é, por si, suficientemente extravagante para não precisar ser discutida: sua expressão em palavras já basta para impugná-la no ato.

Que essa reação, porém, assumisse a forma de um golpe militar e da derrubada do governo constituído é algo que poderia parecer estranho, mas cuja explicação, involuntária aliás, vem da própria professora Denise. Ela conta (p. 26) que esse governo, ao apreender em fins de 1962 as provas materiais da intervenção armada cubana, em vez de encaminhar pelo menos um protesto público aos organismos internacionais, como seria sua mais modesta obrigação, que é que fez? Escondeu as provas e as devolveu, discretamente, a um emissário de Fidel Castro.

A professora Denise não percebe nesse ato presidencial nada de particularmente anômalo, tanto que, meio às tontas, o descreve como simples e corriqueira “solução diplomática”. Mas qual presidente, de qual país, tendo as provas de uma intervenção armada estrangeira, as esconderia de seus compatriotas e as devolveria ao país interventor sem tornar-se cúmplice dele e, portanto, culpado de crime de alta traição? E por que haveria João Goulart de cometer esse crime se não estivesse mais comprometido com os planos do agressor do que com seus deveres de governante?

Meu Deus! Num país onde um presidente foi escorraçado do cargo por simples desvio de verbas e um senador arrisca perder o mandato por violar o sigilo da votação numa miúda comissão parlamentar, será tão difícil à professora Denise compreender a gravidade imensurável do crime de passar a uma nação agressora um segredo militar? E como não enxergar aí a parceria do criminoso e do cúmplice na implementação de uma única e mesma estratégia revolucionária?

Entre a guerrilha de 1961 e a retórica “pacífica” que se lhe seguiu havia diferenças, sim, mas elas não refletiam senão a astuta combinação de métodos, ora simultâneos, ora alternados, com que os comunistas, realizando a fórmula consagrada de Stálin que prevê a unidade da estratégia por meio de uma alucinante variação de táticas, desnorteiam seus adversários. Nada, nada neste mundo pode ocultar a continuidade do esforço revolucionário que, orientado desde Havana, sacode o continente há quatro décadas. Confirma-o — involuntariamente, como sempre — a própria professora Denise, ao admitir que “após a experiência frustrada das Ligas (1961), e já instaurada a ditadura civil-militar, Cuba redefiniu a maneira de apoiar a revolução no Brasil”. Quem poderia “redefinir” o que já não estivesse definido? Ao trair a confiança da nação, João Goulart não fez senão dar prosseguimento, por outros meios, à guerrilha de 1961, do mesmo modo que a luta armada após o golpe deu prosseguimento à traição goulartiana e, em seguida, três décadas e meia de ocultação e mentiras, nas cátedras e nos jornais, deram prosseguimento à guerrilha de Marighela e Lamarca, sempre variando os meios em vista da finalidade constante: a implantação do regime comunista. Se fosse preciso maior prova dessa continuidade estratégica, deu-a o Foro de São Paulo, ao assumir, sob o aplauso de Lulas e tutti quanti , sua identidade de reencarnação do Comintern, destinada a “reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu”, segundo palavras reproduzidas no jornal oficial cubano “Granma” de 5 de julho de 1990.

É evidente que a professora Denise, sabendo disso, não poderia dizê-lo nesses termos sem arriscar seu emprego num meio universitário comprometido, até à goela, com a sustentação da mentira. Por isso ela o disse com meias palavras. É compreensível que ela se irrite quando alguém o traduz para palavras inteiras.

Mas, da minha parte, estou pouco me lixando para o emprego de quantos acadêmicos, há quatro décadas, sejam remunerados pelo Estado brasileiro para colaborar com a ingerência cubana, soviética e chinesa nos assuntos nacionais, seja sob a forma de guerrilhas, seja de sua ocultação. Cada salário que essa gente recebeu é pagamento, extorquido da vítima, em recompensa de um ato mensal de traição. Não afirmo que este seja o caso pessoal da professora Denise, da qual nada sei. Mas que ninguém venha dizer que acuso somente um dos lados, pois não me canso, nesta coluna e em outras publicações, de denunciar os que hoje recebem dinheiro de fundações americanas para minar as bases da identidade nacional. Que freqüentemente sejam os mesmos que trabalham para Cuba, é coisa indigna de espanto. Traição é traição, qualquer que seja o país estrangeiro beneficiado por ela.

Em 5 de maio de 2001

Uma Observacao E Duas Notas

5 de janeiro de 2014 | Diário do Comércio

Até hoje ninguém respondeu satisfatoriamente – nem responderá jamais – à minha observação de que o socialismo-comunismo é a fusão de poder político e poder econômico, portanto um acréscimo formidável dos meios de controle social e opressão. Já ouvi tudo quanto é xingamento quando digo isso, mas nenhuma refutação.

Também ninguém responderá à constatação de Hans-Hermann Hoppe de que a passagem das antigas monarquias para o republicanismo democrático trouxe a deterioração da vida social, o aumento exponencial da criminalidade e a escalada sem fim do intervencionismo estatal.

Não há um só advogado da democracia contra o socialismo que não esteja consciente de defender nada mais que um mal menor. Alguns, no fundo, reconhecem até que o mal menor é apenas um caminho mais longo para o mal maior. Isso coloca-os numa posição de desvantagem no confronto com os socialistas e comunistas, que não têm satisfações a prestar à realidade histórica e que em geral são mesmo psicopatas insensíveis a quaisquer escrúpulos de consciência. Mas em todo caso é melhor falar com um freio na boca do que não falar de maneira alguma.

O problema, no fundo, é que tanto a democracia quanto o socialismo são filhos da mentalidade revolucionária, isto é: ambos consistem essencialmente em fazer promessas que não podem cumprir. Ambos rejeitam categoricamente a antiga noção de que o curso das coisas depende de fatores incontroláveis e proclamam que “o homem” deve tomar nas mãos o seu próprio destino – esquecendo que, na prática, isso sempre e invariavelmente resulta em que alguns poucos homens passarão a decidir o destino dos outros.

Em grande parte, o crescimento dos meios de opressão não depende de nenhuma escolha política, mas do simples progresso da ciência e da técnica. O grampo generalizado que tanto escandaliza o público, os aviões teleguiados com câmeras que vasculham o interior das casas, os simples arquivos eletrônicos de informações que colocam todo mundo à mercê da chantagem governamental são avanços técnicos formidáveis, cuja criação custou tão caro que só o Estado poderia financiá-los, o que imediatamente faz do cidadão a vítima inerme da aliança inevitável entre conhecimento científico e poder, transmutando em piada macabra a promessa iluminista de que a ciência libertaria a humanidade da opressão e das trevas. Nenhum desses processos, que superam infinitamente as mais loucas ambições de poder absoluto de Hitler e Stálin, depende de uma adesão ideológica ao socialismo ou à democracia capitalista. Onde quer que haja um Estado, ele tem a seu serviço as tecnologias mais caras e a própria complexidade crescente da administração pública o forçará a usá-las mais dia, menos dia. Por toda parte continua a cumprir-se assim, mesmo depois da extinção dos dois grandes regimes totalitários, a profecia de Jacob Burckhardt, enunciada no umbral do século XX: “A autoridade reerguerá a cabeça, e será uma cabeça temível.”

Mais claramente ainda, é o progresso mesmo da tecnologia que viabiliza o controle do fluxo de informações, reduzindo a massa popular a um estado de ignorância por vezes completa do real estado de coisas. Com ou sem este nome, a censura, a supressão dos fatos indesejáveis, tornou-se a rotina da grande mídia internacional democrática como outrora o foi na URSS e ainda é no comunismo chinês. Dificilmente a KGB terá algum dia empreendido uma operação-abafa tão vasta e tão bem sucedida quanto a ocultação dos documentos falsos de Barack Hussein Obama pela mídia americana ou o completo sumiço do Foro de São Paulo, por dezesseis anos, nos jornais e canais de TV do Brasil.

Enquanto a humanidade não entender que aqueles que a estimulam a “tomar nas mãos as rédeas do seu próprio destino” estão somente sugerindo que ela entregue essas rédeas nas mãos deles, as perspectivas da liberdade no mundo continuarão se estreitando cada vez mais, e a própria liberdade de percebê-lo será exercida por um número cada vez menor de pessoas.*** Amigos e leitores perguntam-me sobre as próximas eleições. Elas não me interessam de maneira alguma. Por meio do funcionalismo público e da rede de “movimentos sociais”, o PT e os partidos de esquerda seus aliados controlam o Estado, não somente o governo. Qualquer não-petista que seja eleito presidente terá de dançar conforme a música ou sofrer o destino de Fernando Collor de Mello.

Eleger um presidente não é prioridade. A prioridade é criar uma militância e um esquema de poder, fora do governo, para dar sustentação a um presidente antipetista no governo quando for possível e conveniente elegê-lo. Um presidente que só tem o apoio do eleitorado difuso, sem uma militância organizada por perto, pronta para o que der e vier, é um pato de barro sentado num estande de tiro.

Uma pesquisa recente ( veja aqui ) mostrou que só oito por cento dos estudantes do ensino fundamental adquirem os conhecimentos adequados.

Enquanto existir um Ministério da Educação essas coisas continuarão acontecendo. A idéia de que a educação é incumbência do Estado, não da sociedade, é uma das mais destrutivas que já passaram pela cabeça humana Em 5 de janeiro de 2014

A Apoteose Da Burrice Nacional

5 de fevereiro de 2007 | Diário do Comércio

“ Estão internacionalizando a Amazônia. Não dá para entender como um processo desses ocorre no governo do PT ”, exclama o senador Pedro Simon, diante do projeto governamental que permite à União conceder à iniciativa privada a administração e exploração econômica das florestas nacionais. Ora, se o senador lesse os meus artigos ou assistisse às minhas conferências, não estaria tão surpreso diante do óbvio. Desde pelo menos dez anos antes da eleição do sr. Luís Inácio para a Presidência da República eu advertia: “Se vocês querem saber o que é entreguismo, esperem o PT chegar ao poder.”

Por que eu dizia isso? Dizia-o pelo mesmo motivo que me levou a publicar, no Jornal do Brasil do dia 1o., a seguinte notinha:

“ Elogiado em San Salvador pela sua fidelidade inflexível ao movimento comunista, homenageado na mesma semana em Davos pela sua conversão ao capitalismo, o presidente Luís Inácio Lula da Silva parece ser o maior enigma ideológico de todos os tempos. Porém ainda mais admirável é a recusa geral da mídia em notar o paradoxo e pedir explicações ao personagem. O cérebro nacional tornou-se tão lerdo e apático que já aceita sem reagir as informações mais desencontradas, a tudo aquiescendo com indiferenç a bovina e uma reconfortante sensação de normalidade.

” A solução do enigma Lula é, ao mesmo tempo, a resposta à perplexidade do senador Simon. Tudo isso seria claro como um diamante, se não estivéssemos num país onde não entender nada é um dever patriótico. Já expliquei mil vezes, mas vou começar tudo de novo:

Enquanto os nacionalistas brasileiros, burros e intoxicados de esquerdismo, continuam bradando contra o bom e velho “imperialismo ianque” dos anos 40 e vendo nos conservadores americanos a encarnação máxima desse fantasma glutão inventado por Stálin, muita coisa sucedeu nos EUA que escapa totalmente ao seu acanhado horizonte de visão.

A principal é que um grupo de milionários, senhores quase absolutos da grande mídia e do establishment universitário, embarcou com todas as suas armas e bagagens na aventura utópica do governo mundial destinado a transcender e suprimir a república norte-americana. Não, não se trata de nenhuma trama secreta. Está tudo publicado, explicado, oficializado. Revolucionários desse porte não apostam no seu próprio segredo, mas na estupidez das massas que não enxergam o que está diante do seu nariz.

Muitas vezes mencionei aqui a comissão parlamentar de inquérito (Reese), que já nos anos 50 havia provado o empenho de várias fundações bilionárias no sentido de minar a identidade nacional , a cultura e a capacidade de defesa da nação americana, de modo a criar um centro de poder transnacional independente, sustentado na tripla base da economia globalizada, dos organismos internacionais e do controle sobre a rede de movimentos subversivos e revolucionários espalhados pelo mundo. Desde então esse projeto deu passos enormes no sentido da sua realização.

Em 1994, no “Relatório sobre o Desenvolvimento Humano”, a ONU já declarava abertamente:

“ Os problemas da humanidade já não podem ser resolvidos pelos governos nacionais. O que é preciso é um Governo Mundial.

A melhor maneira de realizá-lo é fortalecendo as Nações Unidas .” (V. mais explicações em http://www.olavodecarvalho.org/semana/040103globo.htm .)

No ano seguinte, a resolução aparecia sob a forma de um plano detalhado, “Our Global Neighborhood,” publicado pela Comissão de Governanç a Global, que pregava “ a subordinação da soberania nacional ao transnacionalismo democrático”. As etapas necessárias para a consecução do objetivo incluíam: 1. Imposto mundial. 2. Exército mundial sob o comando do secretário-geral da ONU. 3. Legislações uniformes sobre direitos humanos, imigração, armas, drogas etc. (sendo previsível a proibição dos cigarros e a liberação das drogas pesadas). 4. Tribunal Penal Internacional, com jurisdição sobre os governos de todos os países. 5. Assembléia mundial, eleita por voto direto, passando por cima de todos os Estados Nacionais. 6. Código penal cultural, punindo as culturas nacionais que não se enquadrem na uniformidade planetária “politicamente correta”. (V.

http://www.sovereignty.net/p/gov/gganalysis.htm e http://www.olavodecarvalho.org/semana/030524globo.htm .)

O Tribunal Penal Internacional já é uma realidade desde 1998. O código penal cultural já estava informalmente em vigor antes dessa data (expliquei isso na palestra que fiz em 8 de julho de 1997 na Casa de América Latina, em Bucareste, Romênia, depois reproduzida em O Futuro do Pensamento Brasileiro , Rio, Faculdade da Cidade Editora, 1997; os intelectuais romenos entenderam imediatamente a importância do recado, que proliferou em convites para debates nas semanas seguintes; os brasileiros continuam imunes e sonsos.) As legislações uniformes já são uma realidade patente, especialmente nos campos dos direitos humanos, saúde e educação – com resultados uniformemente desastrosos nas três áreas. Faltam o imposto mundial, a assembléia global e o exército único. Passos importantes na direção deste último vêm sendo dados diariamente, com a ajuda da grande mídia mundial, no sentido de negar o direito de defesa às nações atacadas (principalmente quando essas nações são os EUA e Israel) e de atribuir à ONU o monopólio da atividade guerreira legítima.

De acordo com Jim Garrison, presidente do State of the World Forum (que ele fundou em parceria com Mikhail Gorbachev) e talvez o principal teórico da transmutação globalista hoje em dia, a função dos EUA resume-se à de um “império transitório” destinado a dar à luz o governo mundial e dissolver-se nele, desaparecendo como unidade identificável (v.

http://www.wie.org/j24/garrison.asp ).

O projeto globalista abrange ainda uma reforma radical da mentalidade humana em escala planetária, mediante a imposição de novos critérios morais, como o casamento gay , o abortismo, o feminismo, a eutanásia, sempre de maneira rápida e inquestionada, reprimindo-se por meio do combate publicitário e judicial qualquer resistência possível. O objetivo final é a supressão da tradição religiosa judaico-cristã e sua substituição por uma religião biônica mundialista, com fortes tonalidades ocultistas e ecológicas. Graças à a ção intensiva da ONU e da rede de ONGs associadas, essa parte do programa está em fase avançada de implementação. Só para dar um exemplo entre milhares: em inúmeras escolas públicas dos EUA e da Europa as crianças são obrigadas a participar de rituais consagrados à “Mãe Terra”, de inspiração nitidamente teosófica, ao passo que as orações cristãs em público são proibidas e o simples ato de carregar uma Bíblia é motivo de punição.

A repressão legal ao cristianismo espalha-se rapidamente por todos os Estados americanos, enquanto as entidades religiosas tradicionais se vêem repentinamente privadas do acesso a verbas públicas concedidas generosamente a organizações gays , comunistas, islâmicas etc.

Garrison é cínico o bastante para proclamar que a lideranç a americana tem de ceder ante o projeto global porque, “para alcançar a grandeza, um império necessita de uma visão transcendental que possa unir os elementos dispersos num propósito abrangente. Ele tem de ser fundamentalmente construtivo e não destrutivo”.

Ora, uma coisa é um corpo de valores e princípios capaz de orientar a humanidade na direção de instituições políticas mais racionais e mais humanas. Outra coisa é um projeto de dominação abrangente. Quem quer que, no mundo, fale em liberdade, democracia, direitos humanos, garantias constitucionais, aprendeu isso com o exemplo vivo da nação americana e com ninguém mais. Esses valores, como já assinalava Alexis de Tocqueville, surgem da síntese tipicamente americana das exigências políticas do iluminismo inglês (muito diferente do iluminismo revolucionário da Europa continental) com as tradições cristãs trazidas ao Novo Mundo no bojo do Mayflower . Milhões de americanos morreram nos campos de batalha da Europa e da Ásia, não para escravizar e explorar os vencidos como o fizeram a Alemanha nazista e a URSS, mas para criar democracias independentes, pujantes, capazes de concorrer com a própria economia americana e de oferecer resistência aos EUA na arena da diplomacia mundial.

Em comparação, que valores e princípios nos oferece a elite globalista? O abortismo, a eutanásia, o ateísmo militante, a destruição das identidades e tradições nacionais, a tirania dos regulamentos econômicos uniformes que subjugam e estrangulam povos inteiros, a imposição de normas culturais aberrantes e fúteis inspiradas no lixo teosófico de Madame Blavatski, Alice Bailey e Aleister Crowley.

(V., além do já abundantemente citado False Dawn , de Lee Penn, Under the Spell of Mother Earth , de Berit Kjos, Wheaton, Illinois, Victor Books, 1992, e The Hidden Dangers of the Rainbow. The New Age Movement and Our Coming Age of Barbarism , Shreveport, Louisiana, Huntigton House, 1983.)

Nos EUA, a linha divisória da disputa política é entre os adeptos da soberania nacional (conservadores) e os da submissão à estratégia globalista (“liberals”, no sentido americano do termo, e esquerdistas em geral).

A posição do presidente Bush é ambígua, na medida em que por um lado busca afirmar o poderio americano no Iraque mas por outro lado está comprometido até à medula com o projeto globalista da “North American Commonwealth”, a dissolução dos EUA numa unidade multinacional com o México e o Canadá. Bush, por mais conservador que se pretenda em questões de moral, é no fim das contas um membro do CRF, Council on Foreign Relations , o mais poderoso think tank pró-ONU, diretamente responsável pela concepção da Commonwealth. Falar em projeto, no caso, é eufemismo, pois Bush já assinou um protocolo de intenções com o presidente do México e o primeiro-ministro do Canadá, dois anos atrás, comprometendo-se a realizar a fusão. O documento permaneceu secreto até que um cidadão desconfiado apelou ao Freedom of Information Act (uma das maravilhas da democracia americana) e obrigou o governo a revelar seu conteúdo. Quem quiser informação atualizada a respeito, leia o número de janeiro da revista Whistleblower ( www.wnd.com ).

Tudo isso é a substância do debate político diário nos EUA. Não há um só cidadão americano maior de idade que ignore que essas questões abrangentes, muito mais do que a invasão do Iraque em particular, são o fundo da disputa de entre o governo americano e a ONU. Ninguém nos EUA ignora que o destino da humanidade nas próximas gerações depende de uma escolha fundamental quanto à hierarquia de poder no mundo: continuará a existir um sistema de nações independentes, mais ou menos garantido pela hegemonia política, militar e econômica da democracia americana, ou esta cederá o lugar à uma burocracia global firmemente disposta a eliminar a soberaria nacional dos EUA e, junto com ela, a de todas as demais nações?

Os cretinos que, no Terceiro Mundo, esbravejam contra o “imperialismo ianque” e buscam abrigo na “ordem internacional” representada pela ONU são servos conscientes ou inconscientes do mais gigantesco, ambicioso e desavergonhado plano imperialista que alguém já ousou conceber – algo que ultrapassa, em amplitude e desejo de poder, os mais megalômanos sonhos de Hitler, Stalin e Mao Dzedong.

Do ponto de vista econômico, esse plano pode ser resumido na fórmula: usar o crescimento econômico globalizado como instrumento para fortalecer a burocracia internacional que o regula e o administra. É uma receita quase infalível, capaz de atrair a colaboração de correntes políticas as mais heterogêneas, com a condição de que não questionem as implicações mundiais do plano e se atenham aos aspectos parciais e regionais que pareçam coincidir momentaneamente com as suas idéias e programas. Liberais que, obsediados pela liberdade econômica, vejam nela uma causa sui e se tornem cegos para os fundamentos culturais, religiosos e morais que a possibilitam são utilíssimos para promover a destruição desses fundamentos em nome da primazia do “mercado”, senão da “racionalidade científica”. Nacionalistas de esquerda intoxicados de anti-americanismo são ótimos para sacrificar a soberania de seus países no altar do imperialismo global no instante mesmo em que imaginam salvá-la dos EUA. Comunistas e enragés em geral, empenhados em criar blocos econômico-militares regionais para “resistir ao imperialismo ianque”, esses então são os queridinhos por excelência do globalismo: espalham ódio ao principal adversário do esquema, fortalecem a ONU e, de quebra, já vão promovendo as integrações regionais que, pelo menos desde Hans Morgenthau foram admitidas como a única via possível para a implantação do governo mundial. Dos socialdemocratas embriagados de “Terceira Via”, então, não preciso nem falar: esses são a própria burocracia internacional em a ção. Vocês entendem agora o que Garrison queria dizer com “visão transcendental que possa unir os elementos dispersos num propósito abrangente”? Não se trata de valores civilizacionais, mas apenas de uma estratégia global capaz de atrair e usar em seu favor todas as cegueiras regionais.

Ora, em matéria de cegueira, ninguém supera os brasileiros. O exemplo mais recente é, evidentemente, a própria manifestação de surpresa do senador Simon. Ele não tem a menor idéia de que, de todos os partidos brasileiros, o que tem ligações mais profundas e extensas com as centrais do poder global – e isso não vem de hoje – é o PT. Ele não enxerga sequer que a política inteira do governo Lula, com sua característica síntese de contrários – ortodoxia econômica e apoio declarado à revolução comunista bolivariana –, recebe tanto aplauso internacional porque nela confluem harmonicamente (pelo menos até agora) as duas linhas de a ção principais do esquema globalista: economia mundial administrada e utilização dos movimentos subversivos e revolucionários contra os EUA. O senador tem mesmo de estar surpreso. Como todo brasileiro falante, ele lê a grande mídia nacional e se acha informado. É o mesmo que enfiar a cabeç a num buraco. Querem ver até que ponto a mídia nacional está ocultando o que acontece no mundo? Vejam a ilustração deste artigo. É uma primeira página do jornal El Mercurio , do Chile. Vocês imaginam essa matéria publicada na capa da Folha ou do Globo ? Impossível. Esses jornais podem dar uma agulhadinha ou outra em Hugo Chávez (o que, no ambiente nacional , já basta para serem rotulados de “direitistas”), mas jamais darão ao leitor uma idéia exata da gravidade do estado de coisas na Venezuela. Ou em qualquer outro lugar do mundo. Seu repertório é estritamente limitado ao temário-padrão das discussões internas da esquerda. Um cérebro alimentado desse material tem mesmo de ficar chocado com o que lhe parece uma “virada” pró-imperialista do PT. Porque jamais soube o que é o PT.

Querem outro exemplo? Vejam o “Relatório de Situação” elaborado pelo Grupo de Trabalho da Amazônia (GTAM) e distribuído entre integrantes e colaboradores do chamado Sistema Brasileiro de Inteligência, cujo órgão central é a Agência Brasileira de Inteligência (Abin):

“ A questão indígena atinge uma gravidade capaz de pôr em risco a seguranç a nacional . Considerando a atual reivindicação de autonomia e a possibilidade de futura reivindicação de independência de nações indígenas, o quadro geral está cada vez mais preocupante, especialmente na fronteira norte. As organizações não governamentais (ONGs), algumas controladas por governos estrangeiros, adquiriram enorme influência, na maioria das vezes usada em benefício da política de suas nações de origem, em detrimento do Estado brasileiro. Na prática, substituem, nas áreas indígenas, o governo nacional .”

“ Quanto à presenç a militar estadunidense na Amazônia, um componente relativamente novo na questão da seguranç a da região amazônica brasileira é a crescente presenç a de assessores militares estadunidenses e a venda de equipamentos sofisticados às Forças Armadas colombianas, pretensamente para apoiar os programas de erradicação das drogas, mas que podem ser utilizados no combate às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e ao ELN (Exército de Libertação Nacional ) .”

Nem comento a redação, obra de semi-analfabetos. Ao longo de todo o documento, a sigla ONU nem mesmo aparece.

A transformação das áreas indígenas em nações independentes, para quebrar a espinha dos Estados nacionais a que pertencem, é um objetivo repetidamente proclamado pela ONU, e as organizações não-governamentais presentes na Amazônia são todas associadas à ONU, mas os iluminados experts militares que elaboraram o “Relatório de Situação” não têm a coragem, não têm a hombridade – ou não têm a inteligência — de declarar que o território amazônico está sendo ocupado pelo mesmo esquema internacional que orienta e subsidia os movimentos anti-americanos por toda parte.

Preferem fazer de conta que as únicas forças agentes no cenário do mundo são os Estados nacionais e, por via desse raciocínio, lançam a culpa de tudo nos EUA, aproveitando a ocasião, é claro, para bajular o esquerdismo imperante. Afinal, depois de apanhar tanto dos esquerdistas, alguns dos nossos bravos militares parecem ter chegado à conclusão de que é melhor humilhar-se voluntariamente do que sofrer humilhação forçada. Falam da honra das Forças Armadas, mas lhe dão uma interpretação psicológica peculiar: não há desonra em apanhar de alguém a quem se ama; logo, se você está sendo surrado, salve a honra apaixonando-se pelo agressor.

Idioma Extinto

5 de fevereiro de 2006 | Zero Hora

A coisa mais difícil é encontrar no Brasil um jornalista, escritor, economista, sociólogo, professor universitário, oficial superior das Forças Armadas, senador, deputado, governador ou ministro que tenha capacidade para acompanhar, mesmo por alto, o movimento das idéias nos EUA. O desnível mental entre os dois países tornou-se abissal e intransponível, por atrofia acelerada de um deles e crescimento ininterrupto do outro.

Só para dar uma idéia. O filósofo Leo Strauss morreu em 1973. Alguns de seus discípulos ocupam postos importantes no governo Bush e no partido republicano. A bibliografia de e sobre Strauss e as controvérsias em torno de sua influência política já somam alguns milhares de volumes. No Brasil, ninguém sabe nada sobre isso, e tudo o que os jornais puderam fazer para simular informação – e isto já no segundo mandato do presidente americano — foi copiar às pressas uns dois artigos do New York Times , escolhidos a esmo entre o que de mais bobo se escreveu a respeito.

Mas não falta só informação. O idioma mesmo já não funciona. Simples colunas de jornal – Larry Elder ou Mona Charen, por exemplo, ou mesmo Ann Coulter – tornaram-se intraduzíveis, tal a riqueza do vocabulário e a profusão de alusões culturais subentendidas. A língua da nossa mídia não alcança essas sutilezas. O brasileiro simplesmente já não sabe do que o americano está falando. Acredita cada vez mais numa humanidade unificada, globalizada. Mas cada vez há mais planetas neste planeta – e alguns ficam bem longe.

Não espanta que a visão que se tem dos EUA no Brasil regrida velozmente aos estereótipos “anti-imperialistas” dos anos 50. São mais acessíveis à inteligência média e protegem contra a visão súbita do incompreensível.

Entre alguns jovens brasileiros, com pretensões letradas, a visão do hipertrófico desenvolvimento intelectual americano das últimas décadas teve uma conseqüência estranha: mergulharam nesse turbilhão e afogaram-se nele. Não vêem mais nada em torno. Conhecem cada linha de Thomas Pynchon, Jane Smiley, Alice Munro. Nunca leram Homero ou Dante. Nem, evidentemente, conhecem o próprio passado cultural americano. A atualidade novaiorquina é a medida da sua consciência histórica. A maior prova da incapacidade de absorver uma cultura estrangeira é a facilidade de ser absorvido por ela.

A mente brasileira hoje em dia é tão confusa, tão tortuosa, tão emperrada, tão cercada de prevenções, temores, superstições e fetichismos, que a comunicação das coisas mais simples se torna às vezes impossível. Diga você o que disser, não é jamais respondido na mesma clave. Muito menos respondido no sentido integral daquilo que disse. Cada ouvinte pega uma frase, uma palavra, uma vírgula que o impressionou por motivos inteiramente subjetivos, atribui a ela o sentido que bem entende e lhe opõe, não raro com eloqüência feroz, respostas que vão parar longe da discussão inicial.

E não me refiro ao povão, mas às classes letradas, aquelas que têm direito a voz e voto ao menos nas cartas de leitores. Com freqüência, não respondem ao que está sendo dito agora, mas a situações de vinte, trinta anos atrás, que se consolidaram no seu subconsciente e aí instalaram uma rede de reflexos condicionados, prontos para ser acionados, com automatismo cego, à simples audição de certas palavras que evoquem semelhanças remotas, independentemente do contexto novo em que aparecem.

É tudo uma mistura de preguiça mental, ignorância, informação faltante ou viciada, suscetibilidade mórbida e, invariavelmente, mau português. Mau português não só na ortografia troncha ou na construção errada, o que seria perdoável até certo ponto, mas no sentido quase que infalivelmentente impróprio das palavras, denotando percepção turva, como num sonho de alcoólatra. Tudo entremeado, conforme a idade do remetente, de eloqüência kitsch para fingir dignidade ou de desleixo afetado para fingir menosprezo.

Para quem está longe da terra natal e, privado dos estímulos do ambiente físico, se apega ao idioma como vacina contra a diluição da identidade pátria, ler essas coisas é um tormento: sinto ter vindo de um país que já não existe mais, de uma cultura esquecida, só conservada na memória de um saudosista semilouco, vagando errante pelas ruas de um país longínquo, falando sozinho em idioma extinto.

Em 5 de fevereiro de 2006

Voce Estar Comunisto

5 de dezembro de 2014 | Diário do Comércio

O falecido Jean Mellé, fundador e diretor do “Notícias Populares”, que se tornaria um clássico do jornalismo de escândalo, era um refugiado romeno que tinha sólidas razões para odiar o comunismo. Grande e musculoso, de vez em quando agarrava um de seus subordinados pela goela e, com um olhar feroz de grão-inquisidor, perguntava: “Você estar comunisto?”. Se a resposta fosse “Não”, ele se dava por satisfeito.

Em noventa por cento dos casos, o interrogado era um membro do Partido e saía rindo do patrão cujo poder ameaçador se neutralizava a si mesmo com uma dose patética de ingenuidade.

Na verdade, Mellé não era nada ingênuo. Conhecia de trás para diante a ambiguidade escorregadia da conduta dos comunistas. Não tinha a menor ilusão de que andassem com foice e martelo estampados na testa ou declarassem de bom grado sua identidade ideológica. Contentava-se com a resposta sumária somente porque não dominava a língua nacional o suficiente para encompridar a discussão. Queria apenas infundir um pouco de medo no coração dos comunas, e conseguia. Eles vingavam-se com risadinhas forçadas que espalhavam o mito do adversário simplório, grandão bobo que até crianças poderiam enganar. Mentiam, e mentiam sobre a mentira: ocultavam sua filiação partidária e fingiam que tinham conseguido ludibriar “a direita”. A satisfação com que se entregavam a esse empreendimento acabava por se impregnar nas suas mentes, transfigurando o fingimento ocasional numa sintomatologia histérica completa e o autoengano num estilo de vida permanente.

Decorrido meio século, o movimento comunista ainda tem no jornalismo brasileiro um exército de colaboradores fiéis cuja tática persuasiva habitual e praticamente única consiste em inventar uma versão ridiculamente simplória do comunismo, atribuí-la aos direitistas e, demolindo-a com duas ou três piadinhas sem graça, cantar vitória, ficando assim provado que o comunismo não existe, que é apenas uma fantasia paranoica de direitistas raivosos. É o bom e velho recurso erístico do “homem de palha”, que nessas pessoas já se tornou uma segunda natureza.

Alguns dos praticantes dessa mágica besta são homens tarimbados, treinados em Havana e Praga. A prova mais patente do poder que adquiriram nas redações é a naturalidade com que estágios em centros de propaganda e desinformação na Cortina de Ferro entram nos seus currículos como provas de “experiência jornalística”, como se a técnica de mentir fosse a mesmíssima coisa que a de relatar os fatos. É óbvio que, ao menos nos velhos tempos, muitas dessas gentis criaturas eram agentes pagos de serviços secretos comunistas. Seus nomes, com atraso de meio século, vão sendo pouco a pouco revelados pelos documentos arquivados em Praga no Instituto para o Estudo dos Regimes Totalitários (ver aqui e aqui ).

Outros, mais jovens, não precisaram viajar para adquirir as manhas da prosa comunista. Aprenderam-nas por aqui mesmo, em faculdades de jornalismo que os cavalheiros mencionados no parágrafo anterior transformaram em centros de adestramento da militância pelo menos desde a década de 70 do século passado.

O primeiro sinal de que você é inteligente é a sua capacidade de perceber que um outro é mais inteligente. Mutatis mutandis, o primeiro sinal de burrice é supor, sempre, que o outro é mais burro do que é. Nisso consiste o artifício de retórica erística a que me referi: O sujeito define o comunismo da maneira mais simplória e mecânica e, argumentando que esse comunismo não existe (como de fato não pode existir), conclui que todo anticomunismo é uma doença mental, fonte de violência e “crimes de ódio”.

A definição usada nesse truque é a seguinte: o comunismo é a estatização completa, repentina e ostensiva dos meios de produção e de toda propriedade particular. O governante pega o microfone e anuncia: “Olhe aqui, gente, eu sou comunista. Agora quem manda nesta porcaria é o comunismo. Passem aí as suas propriedades ou vão para o Gulag.”Para tipos como o sr. Jô Soares e outras cabeças iluminadas que guiam o pensamento nacional, o fato de que isso nunca tenha acontecido é a prova cabal de que o perigo comunista não passa de uma invencionice criada para justificar um golpe de Estado ou coisa pior.

Em contraste com essa desconversa vagabunda, vejamos o que é o comunismo de verdade, na sua teoria e na sua prática no mundo.

Karl Marx ensinava que a estatização dos meios de produção – etapa inicial da construção do socialismo – seria um processo complexo que deveria se estender por muitas décadas ou séculos, e que não poderia nem mesmo começar antes que os meios capitalistas de produção alcançassem o seu máximo desenvolvimento possível.

A última coisa que um governante comunista deve fazer – sobretudo se chegou ao poder pelas vias democráticas usuais e sem derramamento de sangue — é portanto sair estatizando tudo, desmantelando a classe capitalista. Ao contrário: deve ajudar os capitalistas a ganhar o máximo de dinheiro que possam, ao mesmo tempo que os destitui dos seus meios de ação política e ideológica. A função do capitalista nessa fase do socialismo é fazer dinheiro e não dar palpite, tornando-se tanto mais próspero quanto mais politicamente inócuo e subserviente à elite governante comunista. Seduzidos pelos ganhos fáceis, os capitalistas vão transferindo aos comunistas todo o seu poder ideológico, de modo que, em prazo relativamente breve, quatro coisas acontecem:

(1) Em pleno regime de prosperidade capitalista, só há ideias comunistas em circulação. De maneira mais ostensiva ou mais camuflada, a propaganda comunista se torna o único discurso vigente na sociedade. As ideias concorrentes desaparecem ao ponto de se tornarem impensáveis. Subsistem, na melhor das hipóteses, como vagos mitos de outras épocas. Um restinho de “ideologia capitalista” permanece no ar, reduzido à apologia da eficiência econômica, que os comunistas seriam os últimos a negar.

(2) A riqueza deixa de ser um meio de ação política independente e se reduz a instrumento da propaganda comunista. Cada capitalista gasta rios de dinheiro elegendo comunistas e financiando o ódio ao capitalismo.

(3) Ter uma imensa conta bancária dá menos poder do que uma carteirinha do Partido ou um cargo público qualquer. O poder político-ideológico é transferido da burguesia para a elite partidária sem que a propriedade capitalista sofra qualquer arranhão visível.

(4) Os comunistas, por seu lado, podem tanto se gabar de ser os dominadores absolutos da situação como continuar a se fazer de vítimas indefesas da burguesia. Passam do discurso ameaçador às lágrimas de autocomiseração com a maior facilidade, e a incoerência mesma da sua atitude serve para desnortear ainda mais o adversário.

Nessa etapa, não há guerra econômica. Não se trata de tomar as propriedades dos burgueses, mas de destituí-los de seus meios de autodefesa ideológica.

Indio Pode Virar O Jogo

5 de agosto de 2010 | Diário do Comércio

Se o PT insistir nessa fanfarronada de processar o candidato vice-presidencial Índio da Costa, o acusado poderá sem a mínima dificuldade virar o jogo, imputando ao acusador a prática manifesta, patente, claríssima, de litigância de má-fé. Na mesma semana em que trombeteava aos quatro ventos a ameaça de processo, o partido do sr. Presidente da República fez publicar em seu site oficial o rascunho do Documento-Base do XVI Encontro do Foro de São Paulo (a realizar-se em Buenos Aires de 10 a 20 de agosto), onde, entre lágrimas de crocodilo jorrando em catadupas, clamava contra “ a cruenta agressão armada de tropas colombianas, respaldadas pela tecnologia e pelos serviços de inteligência dos EUA, em território ecuatoriano, em Sucumbios, no dia 1o de março de 2008 ”. Ou seja: no instante mesmo em que acusava de calúnia quem mencionara sua ligação com os narcoguerrilheiros colombianos, o PT se irmanava com eles para protestar contra a liquidação do chefe da quadrilha, o célebre Raul Reyes, tão íntimo da liderança petista. Negar ligações, depois disso, é explicar uma mancha de batom na cuéca como obra de arte comprada na Sotheby’s.

O protesto não só vem naquela linguagem entre melosa e truculenta que se tornou clássica da oratória comunista, mas é típico também pela inversão de sujeito e objeto, uma das regras fundamentais da lógica revolucionária. Agressão, segundo o documento, não é abrigar em território equatoriano os terroristas que dali partiam, em segurança, para atacar a Colômbia. Agressão é tirá-los de lá à força para revelar ao mundo o crime praticado por eles em conluio com o governo do Equador.

Leia o documento do PT em http://www.pt.org.br/portalpt/dados/ bancoimg/100728161714borradorversion3paradeliberaciondelGT.doc e diga se é possível duas ou mais organizações, legais ou ilegais, conceberem uma proposta dessas sem ter ligação nenhuma, nem projeto em comum, nem estratégia conjunta.

Em artigo valiosíssimo publicado dias atrás , o prof. Denis Rosenfield desmascara o cacoete mental, de amplo uso nas altas esferas federais e na mídia, que apresenta as Farc como um grupo de idealistas revolucionários tardiamente “degenerado” em quadrilha de narcotraficantes. Não existe, diz ele, essa antinomia. Bem ao contrário, revolução e narcotráfico são irmãos siameses, unidos desde sempre e para sempre. Ele cita a “guerra do ópio” empreendida por Mao Dzedong contra várias províncias chinesas. Esse exemplo fala por si: foi o primeiro caso registrado na História em que um poder político organizado viciou deliberadamente a população do seu próprio país, para enfraquecê-la, explorá-la e dominá-la.

Mas há um exemplo mais próximo de nós. Não sei se o prof. Rosenfield o conhece, mas tem aí uma comprovação da sua tese em grau superlativo. O grande narcotráfico latino-americano não surgiu como puro negócio ilícito, só mais tarde articulado com a luta revolucionária. Até os anos 50, o comércio de drogas no continente era um problema policial controlável. Não cresceu espontaneamente. Quem lhe deu a estrutura organizacional que haveria de transformá-lo num monstro capaz de atemorizar Estados e exércitos foi o governo soviético, através de “medidas ativas” do seu serviço de inteligência. A operação, lenta e sorrateira – até hoje ignorada pela “grande mídia” –, teve dois objetivos: usar as drogas como arma de guerra psicológica, para enfraquecer as nações capitalistas, e criar ao mesmo tempo uma fonte local de dinheiro para os movimentos revolucionários latino-americanos, cujo financiamento estava saindo caro demais para os soviéticos. Os meios utilizados para isso foram bem simples: de um lado, infiltrar agentes nas várias quadrilhas de narcotraficantes, para que as controlassem; de outro, enviar à URSS os traficantes já cooptados e leais, para que aprendessem técnicas avançadas de organização, inteligência, guerrilha urbana etc. A operação foi descrita em detalhes por um de seus próprios mentores e comandantes, o general tcheco Jan Sejna, em depoimento ao escritor inglês Joseph D. Douglass, que a publicou no livro Red Cocaine: Drugging the Americas and the West (London, Edward Harle, 1999).

Ante o desenrolar subseqüente dos acontecimentos, é impossível negar que as duas metas visadas pelos soviéticos foram atingidas. Sem as drogas, jamais teria sido possível corromper a juventude universitária dos EUA ao ponto de fazer dela o principal instrumento de boicote ao esforço de guerra no Vietnã e, desde então, a toda iniciativa anticomunista do governo americano. Sem as drogas, teria sido impossível transformar as frustradas guerrilhas latino-americanas dos anos 60 na tremenda força político-militar-criminal que hoje, sob a proteção do Foro de São Paulo, espalha o terror no continente.

Só quem nada estudou da mentalidade revolucionária pode imaginar que, nela, haja alguma contradição entre ideais pomposos e crimes hediondos. Foi a fusão indissolúvel desses dois elementos que a criou e que hoje, como sempre, a define.

O livro de Joseph D. Douglass é leitura indispensável a quem deseje sinceramente compreender o que está se passando na América Latina.

No filme A Batalha da Inglaterra , um capitão do serviço de informações está com os nervos em frangalhos de tanto ver suas análises acertadíssimas serem sistematicamente rejeitadas pelos oficiais superiores, mesmo com risco para o país. Então ele vai chorar as mágoas a um coronel mais compreensivo e o coronel lhe explica:

— O problema é que achamos você mais inteligente que nós e isso nos deixa inseguros.

Depois de ter cometido tantas vezes o pecado de acertar quando todo mundo em volta errava, começo a desconfiar que o problema do capitão é o mesmo que eu, menos inteligente que ele, tenho com os líderes empresariais, políticos e militares deste país: quando me ouvem eles se sentem burros. Só que, em vez de entender que isso é um sinal de que não são tão burros assim, preferem tapar os ouvidos, tornando-se então, por decisão própria, tão burros quanto se imaginaram.

Em 5 de agosto de 2010

A Avo De Todos Os Crimes

5 de agosto de 2000 | Época

A crença de que a miséria produz a violência é, ela própria, geradora de violência Na sucessão memorável de lições sobre as causas sociais do crime, destacou-se a do secretário da Segurança do Rio Grande do Sul, José Paulo Bisol: a onda de violência é criada por um “estado de necessidade” que torna essas ações moralmente legítimas.

O doutor Bisol, caso o leitor não recorde, é aquele cérebro prodigioso que, na CPI do Orçamento, apreendeu 40 quilos de documentos e, 24 horas depois, já apresentava suas conclusões da leitura, só não entrando para o Guinness porque não há justiça neste mundo. Mas raciocinemos, nós, em velocidade humana. Em dois sentidos pode-se dizer que a miséria produz o crime. Num sentido direto, o homem a quem falta o pão para os filhos vai e rouba um pão. No outro sentido, a miséria geral e difusa pode induzir ao crime, por contágio psíquico, um cidadão que não seja diretamente afetado por ela; um cidadão que tenha não somente o indispensável à vida, mas ainda o excedente para a compra de armas e drogas.

Os crimes cometidos no primeiro sentido não são crimes. A premência da situação desconfigura o delito e o acusado sai livre, sem entrar nem mesmo nas estatísticas. O doutor Bisol, leitor voraz, não pode ignorar esse detalhe penal. Mas, numa discussão sobre a violência brasileira, a menção a esses pseudocrimes, não sendo alegação extemporânea de um ignorante, só pode soar como argumentação implícita em favor da segunda hipótese: a escusa do estado de necessidade deve ser estendida àqueles casos em que a ligação entre miséria e crime é indireta. Para justificar o delito não é preciso que seu autor seja compelido por uma necessidade pessoal. Basta a miséria geral. A miséria dos outros. Eventualmente, a miséria das vítimas.

Mas, onde a ligação entre miséria e crime não é direta, também não é necessária, forçosa, inescapável: é casual e probabilística. Premido pela necessidade pessoal, qualquer um roubaria. Sugestionados pela miséria geral, uns roubam, outros não. Depende. Depende de quê? Depende de uma escolha – daquela escolha, justamente, que o homem necessitado não podia fazer. Necessidade é impossibilidade de escolha. Se há escolha, não há necessidade. A miséria, aí, não é causa: é simples ocasião do crime.

Escolhas dependem de crenças. O homem livre rouba ou se abstém de roubar, mata ou se abstém de matar, conforme creia que deve ou não fazê-lo, que é certo ou errado fazê-lo. A doutrina Bisol parece lhe dizer que é certo. Não o diz claramente, mas o insinua com aquela nebulosidade que, confundindo o ouvinte e o próprio falante, mais facilmente ainda os induz a aceitar o que despertos e atentos rejeitariam.

Hoje essa doutrina não apenas é aceita em muitos meios, mas todo impulso de rejeitá-la é aí recebido com exaltadas demonstrações de escândalo que inibem as objeções, ao mesmo tempo que, reprimindo a discussão franca, adensam ainda mais a névoa cataléptica da indistinção entre necessidade e escolha, entre causa e ocasião. E a névoa, ao se expandir sob os auspícios da classe culta, amortece no criminoso potencial os últimos escrúpulos de consciência. Filha do lusco-fusco, mãe da escuridão, ela é a avó de todos os crimes.

Em 5 de agosto de 2000

Esquema Invencivel

5 de abril de 2007 | Jornal do Brasil

Quaisquer que sejam as razões dos controladores de vôo – e elas sem dúvida existem –, uma coisa é óbvia: no momento em que militares prestam menos obediência a seus comandantes do que a agitadores sindicais, estamos em pleno estado pré-insurrecional, alimentado pelo governo para desmantelar o que resta das Forças Armadas e substituí-las por tropas paramilitares a serviço do Foro de São Paulo.

Quem quiser acreditar na sinceridade do recuo do sr. presidente da República, que acredite. As reservas de crédito desse cidadão parecem aumentar na proporção direta do seu invejável repertório de fintas e rodeios.

A comparação com os dias finais do governo Goulart é puramente eufemística: naquela época a sociedade civil organizada – incluindo a mídia — era maciçamente conservadora, a direita tinha porta-vozes do calibre de um Carlos Lacerda, a Igreja Católica não era comunista, Jango não tinha o respaldo internacional que tem Lula, não havia uma militância esquerdista armada e adestrada com as dimensões do MST e sobretudo as Forças Armadas tinham líderes de verdade, investidos de prestígio histórico.

Hoje a situação da esquerda é tão confortável que já nem mesmo os políticos rotulados de direitistas têm a coragem de fazer ao governo uma oposição ideológica genuína, limitando-se a críticas administrativas menores, com o máximo cuidado de não ferir os preconceitos esquerdistas sacralizados por três décadas de falatório unânime. E mesmo esse direitismo residual, atrofiado, tímido, masoquista, já parece excessivo e intolerável à autoridade imperante, que conta os dias à espera de extirpá-lo como quem corta uma verruga.

Passar para o esquema petista o controle do espaço aéreo é apenas o complemento inevitável da apropriação, já totalmente consumada, do controle do tráfego rodoviário pelas tropas do MST. Fazer isso agora ou daqui a pouco dá na mesma. A técnica da revolução gramsciana é adiar a etapa insurrecional até o momento em que o adversário esteja tão fraco que já nem valha a pena matá-lo. Até lá, é preciso alternar sabiamente a ousadia na ocupação de espaços e o fornecimento de anestésicos para amortecer cada novo escândalo. O timing e o cálculo das dosagens têm sido perfeitos. Até aqueles que se revoltam contra o estado de coisas só conseguem expressar seu desconforto nos termos da retórica esquerdista, infringindo a regra número um da arte do debate – não falar na língua do inimigo – e assim fornecendo à esquerda mais uma vitória ideológica a cada miúda vantagem político-eleitoral que obtêm.

Ditando as regras do jogo, o esquema que nos domina é invencível. Mais um pouquinho de relutância covarde em partir para a oposição ideológica franca, e a oportunidade de fazê-lo terá ido embora para sempre.

Pergunta horrorosa: No momento em que a hierarquia militar é flagrantemente quebrada, onde estão os nossos oficiais ditos “nacionalistas”? Não se diziam os primeirões a defender a honra das Forças Armadas? Por que todo o silêncio imemorial dos sepulcros caiados baixou repentinamente sobre esse grupo de tagarelas incansáveis?

Em 5 de abril de 2007

Forum Expoe Divergencia Estado X Empresas

5 de abril de 2000 | CORREIO DO POVO

CORREIO DO POVO PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 5 DE ABRIL DE 2000 Oradores não se entenderam nos primeiros pronunciamentos, fazendo aflorar as questões ideológicas de governo e empresários Lewin criticou o intervencionismo do Estado na história J á na abertura do XIII Fórum da Liberdade, realizado ontem na Fiergs, sobressaiu a divergência ideológica entre empresários e governo estadual. Ao passo que Sérgio Lewin, presidente do Instituto de Estudos Empresariais (IEE), organização promotora do fórum, defendeu o ‘egoísmo racional’, social e economicamente empreendedor do capitalismo, o governador Olívio Dutra advertiu os participantes para a ‘ingenuidade’ da crença de que o Estado não deve participar ativamente da vida econômica. Também no primeiro debate da manhã, a divergência aflorou. Em uma de suas intervenções, o filósofo e jornalista Olavo de Carvalho, autor de ‘O Imbecil Coletivo: Atualidades Culturais Brasileiras’, alfinetou: ‘Em vez de me sentir constrangido de dirigir uma empresa que desse lucro, eu me sentiria constrangido em dirigir um Estado que desse prejuízo’. (1) ‘Uma sociedade em que poucos têm muito e muitos têm muito pouco não pode ser caracterizada como equilibrada’, contestou o governador à platéia lotada do Teatro do Sesi, que aprovou as colocações de Olavo de Carvalho e o discurso do presidente do IEE. Os 2.530 participantes aplaudiram Lewin, principalmente quando ele enfatizou: ‘Está na hora de parar de pensar que destruindo os ricos pode-se enriquecer os pobres’. Para essa colocação em particular, o governador insistiu que é necessário penalizar a parcela de ‘ricos’ que, ao longo de 500 anos, exploraram a população pobre.

O confronto de ideologias e os discursos ásperos, apesar de polidos, não resultam em atritos entre o governo e o empresariado, na avaliação de Olívio Dutra. ‘A explicitação das diferenças de opinião é fundamental para a consolidação do planejamento do futuro e faz parte do processo civilizatório’, disse Olívio.

Em seu discurso, Lewin criticou o perfil assistencialista e intervencionista do Estado, presente na história brasileira, e salientou que o grande problema no Brasil é a carência de capital humano com formação. O membro do Conselho Nacional dos Institutos Liberais e presidente da comissão executiva do Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade (PGQP), Jorge Gerdau Johannpeter, concordou com a posição de Lewin. Para Gerdau, os investimentos do Estado na indústria de base, apontados pelo governador como uma intervenção positiva e necessária, poderiam ter sido feitos em educação e saúde. ‘O projeto de infra-estrutura básica foi implantado pelo Estado a um alto custo’, argumentou.

Correio do Povo Porto Alegre – RS – Brasil (1) Nota do administrador da homepage do jornal :

O governador Olívio Dutra havia afirmado, dias antes, que jamais dirigiria uma empresa privada, por ser entidade voltada para o “lucro egoísta”.

Em 5 de abril de 2000

Leituras

Heranca E Confusoes

4 de setembro de 2015 | Diário do Comércio

Um dos mitos preferidos da cultura americana é o de que a Reforma protestante foi uma das fontes principais da liberdade religiosa, dos direitos individuais e da proteção contra os abusos de um governo central. Some-se a isso a falsa crença weberiana (ou semiweberiana) de que a “ética protestante” gerou o capitalismo, e a única conclusão possível é que o cidadão de hoje em dia deve a Lutero e Calvino, no fim das contas, praticamente todos os benefícios legais, políticos e econômicos de viver numa democracia moderna.

Mas tudo isso é propaganda, não História.

Desde logo, a supressão da autoridade política da Igreja – um dos objetivos declarados da Reforma, que nisso concordava perfeitamente com Maquiavel – liquidava toda mediação espiritual institucionalizada entre o governo e o povo, reduzindo a sociedade a um campo de disputa entre duas forças apenas: de um lado, uma poeira dispersa de consciências individuais com suas crenças subjetivas infindavelmente variadas e variáveis; de outro, a vontade de ferro do governante, consolidada na doutrina da “Razão de Estado”, necessidade incontroversa à qual ninguém podia se furtar.

Não é preciso dizer qual dessas duas forças acabou por prevalecer. O clássico estudo de Bertrand de Jouvenel, Du Pouvoir, Histoire Naturelle de sa Croissance (1949), demonstrou de uma vez por todas que o crescimento do poder do Estado, com a consequente atrofia das liberdades individuais, é a mais nítida constante da História ocidental moderna, pouco importando se falamos de “democracias” ou de “ditaduras”.

Mesmo na mais louvada das democracias, o Estado é hoje o mediador e juiz soberano de todas as ações e relações humanas, até as mais particulares e íntimas, com uma sanha controladora e uma prepotência invasiva desconhecidas em todas as sociedades anteriores – com uma única exceção, a ditadura de João Calvino em Genebra, o que não é de maneira alguma uma coincidência.

A experiência tem provado que os direitos e garantias individuais, assegurados verbalmente na Constituição americana e no Bill of Rights, nada podem contra a expansão avassaladora dos controles burocráticos amparados numa complexa tecnologia, mesmo no caso em que estes se voltam patentemente contra os interesses nacionais mais óbvios, como é o caso de tantas medidas do governo Obama.

Não cabe sequer alegar que essa exaltação abusiva do poder estatal foi apenas – para usar a expressão de Weber – um “resultado impremeditado” da Reforma, já que Lutero, a contrapelo da doutrina tomista que proclamava o direito de rebelião contra injustiças em geral, advogava ostensivamente a submissão total e incondicional dos cidadãos ao governante, admitindo a revolta só no caso específico de o Estado interferir em questões de religião.

Essa dupla exigência – a submissão integral ao Estado e a abstinência deste em matéria religiosa – forma o perfil claro do “Estado laico” moderno, onde necessariamente o argumento religioso perde toda força contra a racionalidade “neutra” da vontade estatal e acaba sendo banido do cenário político, quando não de toda a vida pública.

O processo culmina no “politicamente correto”, onde qualquer desejinho sexual, por mais vulgar e tolo, se cobre da proteção legal de um tremendo aparato repressivo e se coroa de um prestígio intocável, beatificante, superior aos mais altos valores morais da religião.

Por uma ironia aliás bastante compreensível, as igrejas protestantes sofrem as consequências disso tanto quanto ou mais que a católica, à qual hoje têm de se juntar num front comum para fazer face a perigos temíveis que nunca teriam chegado a existir sem a ajuda solícita de Lutero e Calvino.

Em páginas memoráveis da sua History of Political Ideas, vol. IV (22 das Collected Works), Eric Voegelin, alias ele próprio um luterano, explica que nem o monge de Wittemberg nem o doutrinário genebrino compreendiam as grandes questões políticas nas quais interferiam ousadamente com sua boa consciência de “eleitos”.

Silencio Geral

4 de novembro de 2001 | Zero Hora

O silêncio geral da mídia brasileira em torno do processo que exilados cubanos movem contra Fidel e Raul Castro, na Bélgica, por crimes contra a humanidade, contrasta de tal modo com o carnaval montado em apoio às investidas judiciais anti-Pinochet do dr. Baltazar Garzón, que qualquer sugestão de atribuí-lo à mera coincidência deve ser afastada, “in limine”, como tentativa de acrescentar à imoralidade da omissão a perversidade da camuflagem.

O esquecimento a que os órgãos de imprensa do eixo Rio-São Paulo condenaram essa notícia importantíssima não é um fato isolado: o exame meticuloso dos jornais dos últimos vinte anos mostrará que eles suprimiram sistematicamente qualquer menção aos crimes praticados pelo governo cubano nesse período, ao mesmo tempo que, numa ostensiva inversão de todos os critérios jornalísticos admissíveis, davam destaque cada vez maior à exumação de episódios de violência anticomunista, incomparavelmente menores em número e em gravidade, ocorridos trinta ou quarenta anos atrás no Brasil ou no Chile.

Nesse mesmo sentido deve ser compreendida a ocultação obstinada e sistemática do julgamento do clã Pol-Pot, certamente o acontecimento judiciário mais relevante desde o julgamento de Nuremberg.

A orientação geral do noticiário brasileiro, nesses pontos, é moldada segundo os padrões clássicos da propaganda e da desinformação comunista, e a generalização desse fenômeno rebaixa a nossa classe jornalística a uma horda de militantes sectários, indignos da confiança que o público deposita em profissionais “soi disant” empenhados em informá-lo.

Pouco importa o que dirão de mim, ao ler isso, os círculos bem-pensantes da classe a que afinal pertenço, e em cuja defesa já me mobilizei, em outras épocas, com riscos iguais aos que pesavam sobre meus companheiros. Pois uma coisa é unir a classe para resistir a um regime autoritário. Exageros retóricos e pequenas distorções, aí, correm por conta das angústias do momento. Outra coisa completamente diversa é, num regime democrático, com plena liberdade de imprensa, essa classe arrogar-se o poder de censura para ocultar os crimes de seus ídolos enquanto alardeia histericamente os de seus desafetos, com base no dogma monstruoso e imoral, proclamado na TV por um idiota politicamente correto, de que “a melhor direita é pior do que a pior esquerda”.

Solidariedade na luta contra a ditadura é uma coisa. Cumplicidade na destruição da democracia é outra. Usar a primeira como pretexto para a segunda é ainda uma terceira.

É evidente que nem todos os jornalistas são agentes, conscientes ou inconscientes, dessa desinformação. Mas os poucos que não o são estão perdidos e isolados na massa de seus colegas hostis, ou então calados e paralisados pelo medo dos insultos e da discriminação ostensiva ou camuflada.

Sobre Fidel e Raúl pesam culpas incomparavelmente maiores que as do general Pinochet. Se este foi um governante autoritário que fez vista grossa a excessos na repressão a opositores armados, aqueles são genocidas comprovados, responsáveis pelas mortes de 17 mil cidadãos desarmados, em seu próprio país, e de mais algumas dezenas de milhares de angolanos, liquidados pelas forças de ocupação cubanas comandadas pelo sociopata sanguinário Ernesto Che Guevara.

A cumplicidade da imprensa nacional na ocultação dos crimes dos Castros já durou tempo demais e já deixou claro que parcelas imensas da classe jornalística entendem por “ética” a prática costumeira e cínica da desinformação a serviço de ditaduras comunistas.

A vasta repercussão midiática da denúncia de que o governador Olívio Dutra seria beneficiário de um acordo com bicheiros pareceria indicar uma mudança de atitude da parte da classe jornalística, uma atenuação do seu sectarismo ou ao menos um súbito acesso de escrupulosidade.

Mas a acusação de envolvimento com miúdos contraventores, lançada sobre um governante que tem conversações secretas com os narcoguerrilheiros das FARC, é quase uma amabilidade. É, no fim das contas, desviar as atenções do público para um delito menor, amortecendo o impacto de suspeitas infinitamente mais graves e dissuadindo de investigá-las.

É compreensível que, de puro medo de reconhecer a verdadeira escala de periculosidade dos fatos que ocorrem no Brasil de hoje, liberais e conservadores prefiram tratar seus adversários no plano da pura disputa eleitoral corriqueira, acusando-os, no máximo, de má administração ou de desvio de verbas, como é usual e banal nos confrontos democráticos. Evitam assim tomar consciência de que esse adversário não tem apenas, como eles, um moldesto buquê de táticas eleitorais pragmáticas, mas toda uma estratégia longamente pensada um plano enormemente mais amplo e de longo alcance, voltado à transformação revolucionária da sociedade e intimamente associado ao esquema de revolução continental já em andamento na Venezuela e na Colômbia sob a inspiração de Fidel Castro.

Para não ver o perigo, refugiam-se no “wishful thinking” de que acusações de corrupção, letais quando dirigidas contra eles próprios, possam fazer idêntico mal a revolucionários cujo esteio é o eleitor ideologicamente comprometido, imbuído da ética da justificação dos meios pelos fins, cego para todos os crimes de seus líderes e sempre disposto a desculpá-los em função de um bem mais alto: a causa da revolução.

Liberais e conservadores desejariam ah! como desejariam! estar numa democracia estável, onde os partidos não visassem senão a ocupar o governo em turnos, concorrendo lealmente para esse fim e abandonando cavalheirescamente as posições conquistadas quando derrotados nas eleições.

A Mao Esquerda 2

4 de março de 2009 | Diário do Comércio

Quando o sr. Luís Inácio da Silva aceitou ser o chefe de um governo de transição para o socialismo, teria ele plena consciência do que isso significa? Governos de transição revolucionária são como preservativos: começam encobrindo a arma do crime e terminam jogados na privada. Lula representou a face sorridente e amável sob a qual a esquerda ocultava a pesada máquina de guerra das militâncias enfurecidas, das tropas de guerrilheiros, das quadrilhas de narcotraficantes e seqüestradores, dos bandos de delinqüentes comuns adestrados e equipados por técnicos em terrorismo para espalhar o caos nos momentos estrategicamente convenientes. Durante anos, ele administrou com habilidade e prudência uma complexa política de mão dupla, agradando aos capitalistas pelo gerenciamento “ortodoxo” da economia, aos comunistas pela subversão sistemática dos valores morais e educacionais, pela distribuição perdulária de verbas até mesmo a entidades criminosas, pela proteção dada a terroristas estrangeiros em atividade no território nacional e pelo apoio paternal concedido aos tiranetes de esquerda que, nas nações em torno, iam brotando como fungos, fortalecidos pela unidade da estratégia continental do Foro de São Paulo que ele próprio fundara e organizara. Que, jogando com dois grupos de aliados incompatíveis entre si, prometesse simultaneamente a vitória aos antigos e a prosperidade aos novos, logrando persuadir a ambos de sua integral sinceridade, é prova de uma duplicidade de caráter elevada ao estatuto de obra de arte, pela qual, abstraída a imoralidade intrínseca da coisa, ninguém deve lhe sonegar admiração. Ora acirrando as contradições, ora amortecendo-as com um senso agudíssimo do timing e das conveniências, sua destreza no manejo da ambigüidade chegou ao requinte quase inverossímil de atrair sobre sua pessoa galardões contraditórios, fazendo com que, na mesma semana, fosse homenageado no Fórum Econômico de Davos por sua conversão ao capitalismo e no Fórum Social Mundial por sua fidelidade ao comunismo.

Mas é da natureza do jogo duplo acabar por duplicar-se a si mesmo, articulando à oposição entre os pólos em jogo a duplicidade de ritmos necessária a administrá-los. O governante de transição quer, afinal, chegar à meta, apressando sua própria remoção ao depósito de lixo do passado, ou adiá-la indefinidamente, eternizando a promessa de mudança radical e arriscando-se a ser odiado por seus antigos admiradores como aborteiro da revolução? Nesse ponto, o controle do tempo, que no começo era a arma do sucesso, torna-se ele próprio um problema insolúvel. As forças opostas que o próprio governo pôs em movimento já não obedecem ao seu comando: a organização militante acostumada a roubar sob a proteção estatal reivindica o direito à prática do homicídio político, o Poder Judiciário longamente aplacado pelas homenagens verbais à sua independência começa a agir como se de fato fosse independente. O presidente da República nem pode amarrar as mãos assassinas de seus companheiros de ontem, nem tapar a boca do magistrado inconveniente, cansado de ver a lei usada como anestésico do crime.

Os otimistas de sempre podem achar que é uma crise passageira, que o gênio da conciliação, tradição nacional da qual o presidente tem sabido se aproveitar tão bem, acabará por encontrar um subterfúgio inteligente e adiar, uma vez mais, o desenlace do insolúvel.

Talvez tenham razão. O tamanho do território, a consistência tênue e esparramada da sociedade civil, a incultura geral que predispõe à resignação apalermada foram até agora os fatores que permitiram ao sr Lula prolongar no tempo, sem crises nem danos notáveis, a sua querida engenharia da procrastinação. Mas a recusa de decidir é ela própria uma decisão, e tomada repetidas vezes acaba por se consolidar num “estado de coisas” aparentemente imutável, atraindo contra si as mesmas forças de mudança que, no início do processo, aceitaram a conciliação porque esperavam que fosse provisória.

Dizem que o ídolo e modelo do sr. Lula é Getúlio Vargas. Este era, de fato, um artista da indecisão, tática que ele consagrou no lema “Deixa como está para ver como é que fica”. Também é certo que por meio desse artifício logrou articular os incompatíveis e, como disse dele o filósofo José Ortega y Gasset, “fazer política de direita com a mão esquerda”. Mas, quando sua mão direita se moveu, foi para empunhar o revólver com que desferiu um balaço contra o próprio peito. Lula, ao inverso dele, faz política de esquerda com a mão direita. Corre o risco de enforcar-se com a mão esquerda.

Em 4 de março de 2009

A America Brasilianizada

4 de janeiro de 2006 | Diário do Comércio

Nos EUA, os imigrantes brasileiros são conhecidos como eméritos falsificadores de documentos. Achando muito natural e sempre justo resolver qualquer dificuldadezinha mediante a alteração de datas, nomes, números e fatos, eles têm sido um poderoso estimulante à corrosão da velha “sociedade de confiança” americana e à sua substituição por um sistema rígido de controles estatais e burocráticos. Esse sistema quadra bem com a mentalidade do nosso povo, que prefere ser controlado de fora para não ter de assumir as responsabilidades da vida adulta. Mas, para o americano, que vê sua orgulhosa autonomia individual dissolver-se numa sopa de regulamentos e proibições, ele é a morte. A “democracia na América”, como bem viu Tocqueville, fundava-se na síntese indissolúvel de liberdade externa e self control moral e religioso. O burocratismo socializante inverte a fórmula, fomentando a irresponsabilidade pueril que suscita a proliferação de bedéis, fiscais e sargentos de polícia. O americano tradicional sabia que podia haver governo limitado e liberdade para todos se cada um se governasse a si próprio, lesse a Bíblia e abdicasse de cobiçar a mulher ou os bens do próximo. O estatismo cresce estimulando a inveja e a cobiça generalizadas, adornando de pretextos sofisticados a recusa do autocontrole e a proclamação arrogante do primado do prazer sobre o dever. Por toda parte, aqui, observa-se o avanço implacável do infantilismo socialista sobre a antiga liberdade americana, cujos defensores se batem contra a aliança quase onipotente da burocracia estatal com as fundações bilionárias e a multidão dos ativistas enragés .

Não resta dúvida: os EUA brasilianizam-se.

Os avanços do controle estatal, não é preciso dizer, vêm sempre por iniciativa da esquerda, mas por duas vias opostas, uma positiva, outra negativa, operando segundo o consagrado esquema de uma “pressão de cima” que se opõe dialeticamente a uma “pressão de baixo” para produzir o desejado efeito de conjunto (a estratégia é descrita num famoso documento do Partido Comunista da Tchecoslováquia, escrito por Jan Kozak e divulgado no Ocidente sob o título And Not a Shot Is Fired ). Positivamente e “desde cima”, os esquerdistas tornam o aumento do controle estatal sobre a sociedade uma idéia aceitável em nome de programas sociais soi disant beneméritos. Negativamente, “desde baixo”, estimulam o ódio, a revolta e exigências anarquizantes que começam nas puerilidades do “sex’ lib” e culminam na defesa aberta da espionagem e do terrorismo, criando a permanente ameaça do caos que, naturalmente, só pode ser enfrentada por meio de novos acréscimos do poder estatal. A dupla estratégia articula-se, por sua vez, com a duplicidade de discursos. Quando o acréscimo do poder estatal vem pelas mãos da própria esquerda, é utilizado como símbolo de “moderação” e “equilíbrio” para seduzir a parte não-esquerdista do eleitorado. Quando, ao contrário, é a direita que está no poder e se vê obrigada a lançar mão do mesmo mecanismo para deter o avanço do caos alimentado “em baixo” pela esquerda, isso é explicado como sintoma do “totalitarismo” do governo conservador. Bill Clinton era louvado por defender o direito presidencial de mandar espionar terroristas sem ordem judicial, enquanto George W. Bush é chamado de fascista por fazer exatamente a mesma coisa. Num caso, a pretensão presidencial funcionava como prova de que a esquerda não era tão amiga de terroristas quanto se dizia; no outro, como prova de que os conservadores se utilizam do pretexto do terrorismo para ampliar os mecanismos repressivos sobre a sociedade inteira.

O efeito de conjunto dessa quádruplo ataque é devastador, e pode ser explorado ainda, secundariamente, como alimento da propaganda anti-americana nos países periféricos. Observando por alto os avanços do controle estatal nos EUA sem saber como foram produzidos, a platéia do Terceiro Mundo pode ser facilmente persuadida a enxergá-los como provas do “fascismo conservador”.

Muito do que no Brasil se chama de “análise política” consiste somente na repetição desesperadoramente mecânica desse engodo. Carreiras universitárias inteiras constroem-se em cima disso. Os brasileiros, que nos EUA ajudam a fomentar a intromissão da autoridade governamental em tudo, em casa se autolisonjeiam falando mal do governo americano por meter-se em tudo. Não falsificam só documentos, para tirar proveito ilícito do país hospitaleiro que odeiam. Falsificam a imagem inteira desse país, para sentir-se mais honestos que a vítima da fraude que praticam.

Em 4 de janeiro de 2006

O Poder De Conhecer

4 de agosto de 2001 | O Globo

“Experimentai de tudo, e ficai com o que é bom”, aconselha o apóstolo. Experiência, tentativa e erro, constante reflexão e revisão do itinerário — tais são os únicos meios pelos quais um homem pode, com a graça de Deus, adquirir conhecimento. Isso não se faz do dia para a noite. “Veritas filia temporis”, dizia Sto. Tomás: a verdade é filha do tempo. Não me venham com fulgurações místicas e intuições súbitas. “Que las hay, las hay”, mas mesmo elas requerem preparação, esforço, humildade, tempo. Até Cristo, no cume da agonia, lançou ao ar uma pergunta sem resposta. Por que nós, que só somos filhos de Deus por delegação, teríamos o direito congênito a respostas imediatas?

O aprendizado é impossível sem o direito de errar e sem uma longa tolerância para com o estado de dúvida. Mais ainda: não é possível o sujeito orientar-se no meio de uma controvérsia sem conceder a ambos os lados uma credibilidade inicial sem reservas, sem medo, sem a mínima prevenção interior, por mais oculta que seja. Só assim a verdade acabará aparecendo por si mesma. O verdadeiro homem de ciência aposta sempre em todos os cavalos, e aplaude incondicionalmente o vencedor, qualquer que seja. A isenção não é desinteresse, distanciamento frio: é paixão pela verdade desconhecida, é amor à idéia mesma da verdade, sem pressupor qual seja o conteúdo dela em cada caso particular.

Não há nada mais estúpido do que a convicção geral da nossa classe letrada de que não existe imparcialidade, de que todas as idéias são preconcebidas, de que tudo no mundo é subjetivismo e ideologia. Aqueles que proclamam essas coisas provam apenas sua total inexperiência da investigação, científica ou filosófica. Não dando valor à sua própria inteligência — porque jamais a testaram — apressam-se em prostituí-la à primeira crença que os impressione, e daí deduzem, com demencial soberba, que todo mundo faz o mesmo. Não sabem que uma aposta total no poder do conhecimento bloqueia, por antecipação, todas as apostas parciais em verdades preconcebidas. Se o que está em jogo para mim, no momento da investigação, não é a tese “x” ou “y”, mas o valor da minha própria capacidade cognitiva, pouco se me dá que vença “x” ou vença “y”: só o que importa é que eu mesmo, enquanto portador do espírito, saia vencedor. Nenhuma crença prévia, por mais sublime que seja o seu conteúdo, vale esse momento em que a inteligência se reconhece no inteligível. Quem não viveu isso não sabe como a felicidade humana é mais intensa, mais luminosa e mais duradoura que todas as alegrias animais.

Infelizmente, a classe intelectual está repleta de indivíduos que não conhecem, da inteligência, senão o seu aparato de meios — a lógica, a memória, os sentimentos, cada qual prezando mais um ou outro desses instrumentos, conforme suas inclinações pessoais — mas não têm a menor idéia do que seja a inteligência enquanto tal, a inteligência enquanto poder de conhecer o real. É impressionante como o poder mesmo que define a atividade dessas pessoas — o intelecto — pode ser desprezado, ignorado, reprimido e por fim totalmente esquecido na prática diária de seus afazeres nominalmente intelectuais. O culto da razão ou dos sentimentos, das sensações ou do instinto, da fé cega ou do “pensamento crítico”, não é senão o resíduo supersticioso que sobra no fundo da alma obscurecida quando se perde o sentido da unidade da inteligência por trás de todas essas operações parciais. A inteligência, com efeito, não é uma função, uma faculdade em particular: é a expressão da pessoa inteira enquanto sujeito do ato de conhecer. A inteligência não é um instrumento, um aspecto, um órgão do ser humano: ela é o ser humano mesmo, considerado no pleno exercício daquilo que nele há de mais essencialmente humano.

Perguntaram-me uma vez, num debate, como eu definia a honestidade intelectual. Sem pestanejar, respondi: é você não fingir que sabe aquilo que não sabe, nem que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem. Se sei, sei que sei. Se não sei, sei que não sei. Isto é tudo. Saber que sabe é saber; saber que não sabe é também saber. A inteligência não é, no fundo, senão o comprometimento da pessoa inteira no exercício do conhecer, mediante uma livre decisão da responsabilidade moral. Daí que ela seja também a base da integridade pessoal, quer no sentido ético, quer no sentido psicológico. Todas as neuroses, todas as psicoses, todas as mutilações da psique humana se resumem, no fundo, a uma recusa de saber. São uma revolta contra a inteligência. Revoltas contra a inteligência — psicoses, portanto, à sua maneira — são também as ideologias e filosofias que negam ou limitam artificiosamente o poder do conhecimento humano, subordinando-o à autoridade, ao condicionamento social, ao beneplácito do consenso acadêmico, aos fins políticos de um partido, ou, pior ainda, subjugando a inteligência enquanto tal a uma de suas operações ou aspectos, seja a razão, seja o sentimento, seja o interesse prático ou qualquer outra coisa.

É claro que, para cada domínio especial do conhecimento e da vida, uma faculdade em particular se destaca, ainda que sem se desligar das outras: o raciocínio lógico nas ciências, a imaginação na arte, o sentimento e a memória no conhecimento de si, a fé e a vontade na busca de Deus. Mas, sem a inteligência, que é cada uma dessas funções, ou a justaposição mecânica de todas elas, senão uma forma requintada de fetichismo? Que é uma imaginação que não intelige o que concebe, um sentimento que não se enxerga a si mesmo, uma razão que raciocina sem compreender, uma fé que aposta às cegas, sem a visão clara dos motivos de crer? São cacos de humanidade, jogados num porão escuro onde cegos tateiam em busca de vestígios de si mesmos. Toda “cultura” que se construa em cima disso não será jamais senão um monumento à miséria humana, um macabro sacrifício diante dos ídolos.

Só o inteligir, assumido como estatuto ontológico e dever máximo da pessoa humana, pode fundamentar a cultura e a vida social. Por isso não há perdão para aqueles que, vivendo das profissões da inteligência, a rebaixam e a humilham. Cada vez que um desses indivíduos grita, seja na língua que for, seja sob o pretexto que for, “Abajo la inteligencia!”, é sempre o coro dos demônios que ecoa, do fundo do abismo: “Viva la muerte!”

Em 4 de agosto de 2001

O Obvio Esoterico

31 de outubro de 2012 | Diário do Comércio

A derrota do sr. José Serra em São Paulo demonstra, pela enésima vez, que é impossível vencer o PT e seus aliados sem fazer precisamente as duas coisas que a oposição tem evitado a todo preço: (1) livrar-se do resíduo ideológico “politicamente correto”, adotando um discurso conservador sem concessões nem atenuações; (2) denunciar incansavelmente a aliança criminosa de partidos comunistas e quadrilhas de narcotraficantes – o Foro de São Paulo.

Quem duvida que o sucesso de Magalhães Neto, em contrapartida, deveu muito à nostalgia de um conservadorismo linha-dura que o seu nome de família ainda evoca na imaginação do eleitorado baiano? Antonio Carlos Magalhães nunca foi um conservador em sentido estrito, mas, faute de mieux , a esquerda fez dele o símbolo quintessencial da direita, e, ao menos nos seus últimos anos, ele vestiu a camiseta com alguma bravura, cujo prestígio agora reverte em benefício do seu neto.

Uma das razões mais óbvias do triunfo da esquerda, não só no Brasil mas em toda parte, é a solidariedade profunda, a aliança inquebrantável entre seus setores moderados e radicais, sempre articulados para bater no adversário com duas mãos. Na direita, ao contrário, os moderados, menos ciosos do seu futuro político que da imagem que exibem na mídia esquerdista, tratam de marcar distância dos radicais, seja fingindo ignorá-los, seja mesmo insultando-os, ao menos da boca para fora.

A mensagem que isso transmite ao eleitor é clara: o esquerdismo é um remédio bom, do qual se pode, no máximo, discutir a dosagem; o direitismo, ao contrário, é um veneno que só pode ser bom em doses mínimas.

É preciso ter subido muito na escala da idiotice para não entender que isso é a política de quem já se acostumou tanto com a derrota que já não pode viver sem ela.

O PT não se inibe de aliar-se ao PSOL, ao PSTU, aos Sem-Terra e até, mais discretamente, às Farc. Mas quem pode imaginar os homens do DEM – para não falar de José Serra – posando numa foto em visita, mesmo de pura cortesia, ao Instituto Plínio Correia de Oliveira ou ao Clube Militar? Cito essas entidades de caso pensado: elas nada têm de radical, mas assim as rotulou a mídia esquerdista para isolá-las da direita oficial, que, como sempre, aceitou servilmente jogar segundo a regra imposta pelo adversário.

O mais elementar bom-senso político ensina que toda maioria moderada precisa dos radicais – ou de quem o pareça — para dizer em público o que ela não pode dizer. Ensina também que a minoria enfezada só pode ser posta sob controle quando inserida numa aliança. A esquerda já aprendeu isso há décadas. A direita nem começou a pensar no assunto.

Na França, a vitória da esquerda teve como causa principal ou única a impossibilidade de um diálogo entre a direita gaullista e o Front National. Nos EUA, em 2008, John McCain jamais teria perdido a eleição se não houvesse caprichado tanto naquele bom-mocismo centralista que os conservadores abominam. E no Brasil o sr. José Serra teria tido uma carreira mais brilhante se atirasse à lata de lixo da História um passado esquerdista que, quanto mais ostentado, mais honra e eleva a imagem dos seus inimigos. Desculpem-me por insistir no óbvio, mas, neste país, o óbvio vai-se tornando cada vez mais um segredo esotérico, só acessível a um círculo de iniciados: num campeonato de esquerdismo, vence, por definição, o mais esquerdista. O eleitorado brasileiro é maciçamente conservador, mas, não tendo quem o represente na política, acaba votando a esmo, conforme simpatias de momento ou interesses de ocasião que no fim o tornam tão corrupto, ao menos psicologicamente, quanto os políticos que ele despreza. O voto interesseiro vai, necessariamente, para quem está no poder, para quem controla a usina de favores. A oposição teria tudo a ganhar se contrapusesse a esse estado de coisas um discurso ideologicamente carregado, restaurando o senso da política como conflito de valores em vez de mera disputa de cargos. Mas ela não vai fazer isso. Há tempos ela já se persuadiu de que acumular derrotas é mais confortável do que fazer um exame de consciência.

Em 31 de outubro de 2012

Corrida Para A Derrota

31 de outubro de 2004 | Zero Hora

Quando membros do nosso governo federal admitem que Bush na presidência dos EUA é melhor para o Brasil do que Kerry, por ser menos protecionista, estão admitindo implicitamente que sabem muito mais do que isso: sabem qual dos dois representa o imperialismo globalista e qual a defesa de uma soberania nacional que ele ameaça tanto quanto à nossa. Na verdade, qualquer pessoa razoavelmente informada em relações internacionais sabe que Kerry — ou, de modo geral, o Partido Democrata — é o instrumento de um esquema de poder mundial encastelado na ONU, na Comunidade Européia e nos grandes bancos internacionais. Outro braço desse esquema é a rede de partidos latino-americanos de esquerda, fortemente incentivados pelo Departamento de Estado, desde o governo Carter (um antepassado de Kerry), a demolir as forças armadas de seus respectivos países para torná-los cada vez mais vulneráveis às pressões internacionais do globalismo ecológico, dos movimentos indigenistas que planejam desmembrá-los em pequenas repúblicas “independentes” (isto é, agências da ONU), das burocracias internacionais que ditam legislações a povos inteiros que não as elegeram para isso, etc. etc. Bush, apoiado por grupos industriais mais voltados para o mercado interno e por organizações religiosas apegadas aos valores tradicionais da república americana, personifica a resistência da nação mais poderosa do mundo a um neo-imperialismo que, sugando desde dentro e minando desde fora as forças da adversária, se torna dia a dia mais poderoso que ela, e cujas ambições praticamente ilimitadas incluem a transferência da soberania americana para os organismos internacionais.

Os homens do nosso governo estão bem conscientes disso, mas justamente por essa razão sabem que é preciso manter a massa na ignorância dessas coisas, canalizando seu sentimento nacionalista contra os EUA para fazer dele um instrumento inconsciente a serviço da destruição dos valores que imagina defender.

É preciso reconhecer que, na consecução desse intuito, vêm obtendo um sucesso espetacular. O eleitorado brasileiro está maciçamente persuadido de que os perigos para a nossa soberania vêm dos EUA. Defendendo-se assim de um perigo inexistente, permanece cego (só para dar um exemplo entre muitos) ante a ocupação do território amazônico por uma rede de ONGs associadas à ONU e subsidiadas pelas mesmas grandes fontes internacionais que alimentam generosamente o Fórum Social Mundial, o MST e, de modo geral, todos os partidos brasileiros de esquerda (se é que ainda há algum que não seja de esquerda). Mesmo quando o PT no poder anuncia sua intenção de entregar faixas imensas da Amazônia à administração internacional, a mentalidade popular está tão hipnotizada por estereótipos, que continua achando que os grandes inimigos da pátria brasileira são George W. Bush e a “direita conservadora”.

A mídia nacional, que bebe nas mesmas fontes (intelectualmente e economicamente), fez um trabalho incansável para deixar o povo brasileiro cego e sonso, incapaz de atinar com a origem de seus males. O senso de auto-identidade nacional constitui-se hoje de um sistema de inversões psicóticas criadas por um prodigioso maquiavelismo de esquerda, capaz de usar o ufanismo verde-amarelo como instrumento da capitulação definitiva da nacionalidade. Quando a inconsciência de um povo chegou a esse ponto, é praticamente impossível detê-lo na sua corrida entusiástica para a derrota, o fracasso e a humilhação. Não consigo contemplar esse estado de coisas sem recordar os versos que Antonio Machado consagrou à sua Espanha ao vê-la estonteada como cabra-cega no meio das manipulações internacionais que a precipitaram no suicídio coletivo da guerra civil:

...Fue un tiempo de mentira, de infamia. A España toda, la malherida España, de carnaval vestida nos la pusieron, pobre y escuálida y beoda, para que no acertara la mano con la herida.

Em 31 de outubro de 2004

Saudades Do Mensalao

31 de março de 2006 | Diário do Comércio

Quando tucanos e “liberais” insistem em tentar derrubar o esquema petista mediante puras imputações criminais, abstendo-se pudicamente de fazer oposição político-ideológica, já confessam antecipadamente uma fraqueza que prenuncia desastres imensuráveis.

Se o grupo petista atualmente no poder sustenta-se no desvio sistemático de dinheiro público, a esquerda continental, da qual esse grupo não é senão um pseudópodo especialmente saliente, apóia-se num aparato muito mais vasto e temível: a narcoguerrilha das Farc, o banditismo organizado do MIR chileno e outras entidades criminosas pertencentes ao Foro de São Paulo.

A corrupção instalada no governo federal, preparada desde o começo da década de 90, é apenas uma engrenagem ínfima da máquina criminosa montada pelo movimento comunista para “reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste europeu”.

A concentração do ataque oposicionista em denúncias apolíticas pode parecer, no momento, um ardil inteligente, porque atrai para as trincheiras do antilulismo uma parcela da esquerda. Mas essa parcela só se volta contra os corruptos pegos com as calças na mão, queimados, indefensáveis. Por baixo, continua firmemente unida à máquina continental que os gerou. Ela só consente em juntar sua voz à gritaria moralizante porque acredita que, substituídas as peças que o escândalo tornou inutilizáveis, a máquina ganhará nova credibilidade para poder continuar delinqüindo em escala incomparavelmente maior. Como já aconteceu inúmeras vezes na História, a esquerda se subdivide para tirar proveito publicitário de seus próprios crimes, e o faz servindo-se da ajuda de adversários ingênuos e débeis. Insistindo em combater num campo limitado, mais proporcional à sua minguada coragem e à sua inteligência estratégica provinciana, esses adversários lhe entregam antecipadamente o controle do território maior.

Tucanos e liberais estão tentando vencer num jogo simulado, enquanto fogem do combate real. Quando estiverem comemorando a vitória obtida nessa brincadeira, despertarão no meio de um campo de batalha, onde já não terão de enfrentar demagogos corruptos, mas guerrilheiros e narcotraficantes furiosos.

Aí terão saudades do Mensalão.

Em 31 de março de 2006

Echando Por Tierra La Historia Oficial De 1964

31 de marzo de 1964 | , año 1, número 3, 18 de septiembre dee 2002

NOTA PREVIA DE OLAVO DE CARVALHO Desde 1964, la creencia, lanzada por la oposición izquierdista, de que el golpe del 31 de marzo de ese año fue orquestado por los norteamericanos, ha ido conquistando un espacio cada vez más amplio en los medios de comunicación, en los libros de “Historia” y en la enseñanza, hasta convertirse en un dogma que sólo un lunático o un desalmado agente del imperialismo osaría discutir.

Sin embargo, se basa por completo en documentos falsos, forjados por el espionaje checo que, en aquella época, era el brazo de la KGB en Brasil.

Quien ha contado eso con detalle ha sido nada menos que el coordinador de la operación, Ladislav Bittman.

Su confesión está en el libro The KGB And Soviet Disinformation . El libro, publicado en Washington en 1985, ha sido totalmente ignorado en Brasil, tanto por los periodistas como por los llamados “investigadores” académicos.

Esa omisión, que es fruto del desinterés o del interés, ha contribuido enormemente a la consolidación de la mentira como verdad absoluta, transmitida a dos generaciones de lectores y estudiantes.

Hasta 2001, los dueños de la opinión pública todavía podían, verosímilmente, alegar ignorancia. El 17 de febrero de ese año, sin embargo, publiqué en Época un artículo que resumía las revelaciones de Bittman y hacía un llamamiento a la conciencia moral de los periodistas para que alguno de ellos tomase la iniciativa de entrevistar al ex-jefe del espionaje checo.

Inútil. La única respuesta fue un silencio aterrador, más elocuente que mil altavoces en un mitin de Lula.

La leyenda del “golpe tramado por la CIA” ha seguido siendo difundida por todo el país y ha acabado por entrar en los libros didácticos, transmitiendo incluso a los niños en clase una perversa mentira comunista.

“El periódico lucra con la noticia que no sale”, decía Gondim da Fonseca. En la época en que dijo eso los periódicos eran económicamente débiles, y los patrones dictaban la pauta, en efecto, según el molde de sus intereses comerciales. En el nuevo periodismo que ha surgido en Brasil a partir de la década de los 70, actuando en varios campos simultáneamente, la independencia económica de las empresas ha hecho aumentar mucho la autonomía de las redacciones, las cuales han pasado a dictar la línea política de los periódicos al margen de interferencias comerciales. Los periódicos siguen lucrando con las noticias que no salen. Pero el lucro de la omisión ya no es comercial, es político, y no beneficia a los patrones, sino a la militancia izquierdista organizada, perversa y prodigiosamente maquiavélica que hoy domina las redacciones. MSM está acumulando prueba sobre prueba para apoyar esa observación.

El caso de Ladislav Bittman es, entre dichas pruebas, una de las más elocuentes.

¿Qué excusa hay para el silencio general y uniforme de los medios de comunicación respecto a revelaciones tan fundamentales, provenientes de fuente tan libre de sospecha, que podrían modificar de arriba a abajo la visión de cuatro décadas de historia de Brasil? No hay excusa, pero hay explicación: esas revelaciones tenían que ser ocultadas precisamente por eso, porque modificarían la visión oficial de cuatro décadas de Historia de Brasil, consagrada por un pacto de sinvergonzonerías académicas y periodísticas.

También sería exceso de ingenuidad pensar que, con la caída de la URSS, operaciones de desinformación como la que Bittman describe en su libro han dejado de ser realizadas, en Brasil o en cualquier otro país. La KGB sólo ha cambiado de nombre por enésima vez, el servicio secreto chino ha ampliado sus actividades hasta el punto de conseguir influenciar directamente sobre un presidente de EUA, y la rede de contactos del espionaje comunista en el mundo occidental sigue intacta y a pleno rendimiento, principalmente por lo que se refiere al trabajo de los agentes de influencia , que en los medios de comunicación brasileños son abundantes y, en algunos casos, – para quien ha estudiado el asunto – notorios.

La única diferencia entre la situación de hoy y la de hace treinta años, en ese aspecto, es que el fin de la URSS, exactamente como había previsto Anatoliy Golytsin en New Lies for Old , ha sido usado como pretexto para desacreditar, inhibir y reprimir toda investigación, de modo que el trabajo de espías y agentes de influencia comunistas y pro-comunistas nunca se ha desarrollado con tanta libertad y en condiciones tan favorables como ahora. Pero, a tal fin, no sólo ha sido usada la alegación de la caída de la URSS. Las nuevas modas mentales introducidas en Occidente desde la década de los 60 – muchas de ellas creadas directamente por la KGB – también han servido para lo mismo. La fuerza inhibidora de lo “políticamente correcto” fue muy usada durante el gobierno Clinton para bloquear investigaciones contra los terroristas árabes y los espías chinos.

En esas circunstancias, no es muy difícil saber por qué, en Brasil, las denuncias de vinculación del PT con la narcoguerrilla colombiana nunca son investigadas. Por las mismas razones, la CUT [Central Única de los Trabajadores] puede incluso alardear de que tiene ochocientos periodistas en su nómina, sin que nadie de los medios de comunicación vea en ello nada anormal. La cosa está clara: no se paga a agentes de influencia para que se denuncien a sí mismos.

Importantísimo, en este aspecto, es el trabajo de los corresponsales extranjeros. Vladimir Boukovski, en Jugement à Moscou, informa de que ha descubierto en los Archivos del Comité Central del PCUS pruebas de que una buena parte de los corresponsales en París, Londres y Nueva York estaba en la nómina de la KGB.

Para valorar la amplitud de la actividad de ese tipo de corresponsales en Brasil, basta notar que hasta hoy, en muchos periódicos extranjeros – incluido Pravda (cuyas noticias al respecto serán dentro de poco reproducidas en MSM) -, los asesinatos de los alcaldes petistas de Santo André y Campinas todavía constan como obra homicida de grupos de “extrema derecha”, incluso después de haber sido probado que no han sido nada de eso. El envío de desinformación al Exterior es importante para mantener encendida la llama de la opinión pública izquierdista mundial, usada como instrumento de presión para influenciar sobre la política brasileña en los momentos decisivos. El gobierno petista de Rio Grande do Sul, por ejemplo, tiene hoy más apoyo en Londres y París que en Porto Alegre, pero nadie en este país ha intentado hasta hoy rastrear las conexiones políticas de los corresponsales extranjeros que han producido ese milagro.

El texto de Ladislav Bittman tiene por tanto que ser leído no sólo como un relato histórico, sino como un modelo para el análisis de los medios de comunicación brasileños en el presente.

Olavo de Carvalho La desinformación soviética en Brasil y el golpe de 1964 Ladislav Bittman Extraído de: Ladislav Bittman, The KGB And Soviet Disinformation.

An Insider’s View, Washington, Pergamon-Brassey’s, 1985.

Bajo supervisión directa soviética, el departamento de desinformación checo, durante los años siguientes, creó centenares de estratagemas contra Estados Unidos, mejoró antiguas técnicas de falsificación y desarrolló nuevas. Cuando Ivan I. Agayants, el oficial comandante del departamento de desinformación soviético, visitó Praga en 1965, felicitó a sus subordinados checos por sus éxitos e insistió en la necesidad de fortificar la coordinación entre los servicios de inteligencia del Pacto de Varsovia.

La mayoría de esas victorias fue conquistada en países en vías de desarrollo, afectados por un alto índice de paro, complicados problemas sociales, lingüísticos, tribales y económicos, nacionalismo agresivo, influencia de oficiales militares en asuntos políticos y una considerable ingenuidad entre sus líderes políticos. América Latina, con sus fuertes sentimientos antiamericanos, fue campo especialmente fértil y respondió bien a las provocaciones del Este Europeo. Usando México y Uruguay como base de operaciones para el resto del continente, la inteligencia checoslovaca concentró su atención primeramente en Brasil, Argentina y Chile, así como en México y Uruguay.

En febrero de 1965, el servicio me envió a diversos países latinoamericanos, incluidos Brasil y Argentina, para hacer una valoración personal del clima político en aquellos lugares y buscar nuevas ideas operacionales. En aquel tiempo, la inteligencia checa tenía numerosos periodistas a su disposición en América Latina. Dicha inteligencia ejerció su influencia ideológica y financieramente sobre diversos periódicos de México y Uruguay e incluso había poseído un periódico político brasileño hasta abril de 1964. Pero la desinformación estaba tradicionalmente vinculada, en gran parte, a técnicas de falsificación.

La Operación Thomas Mann estaba llegando a su fase conclusiva cuando llegué a Brasil. Su objetivo era probar que la política externa americana en América Latina había sufrido una revisión y transformación fundamentales tras la muerte del presidente John F. Kennedy. Queríamos dar énfasis a una supuesta política americana de explotación y de ingerencia en los asuntos internos de los países latinoamericanos. Según la teoría montada, el Secretario Asistente de Estado, Thomas A. Mann, era el autor y director de la nueva política. Queríamos crear la impresión de que Estados Unidos estaba imponiendo una presión económica injusta a los países sudamericanos que tuviesen políticas desfavorables a las inversiones del capital privado norteamericano. También queríamos crear la impresión de que Estados Unidos estaba forzando a la Organización de Estados Americanos (OEA) a tomar una postura más anticomunista, y a la vez que la CIA planeaba golpes contra los regímenes de Chile, Uruguay, Brasil, México y Cuba. La operación fue proyectada para crear en el público latinoamericano una prevención contra “la nueva política americana de línea dura”, incentivar demostraciones más intensas de sentimientos antiamericanos y colgarle a la CIA el sambenito de consabida urdidora de maquinaciones antidemocráticas.

Algunos canales anónimos eran suficientes para diseminar toda una serie de documentos falsos. El primero – un press release falso de la Agencia de Información de Estados Unidos (USIA) en Rio de Janeiro – contenía los principios fundamentales de la “nueva política externa americana”. En segundo lugar se falsificó una serie de circulares publicadas en nombre de una organización ficticia llamada “Comité para la Lucha contra el Imperialismo Yanqui”. El objetivo declarado de esa organización inexistente era alertar al público latinoamericano sobre la existencia de centenares de agentes de la CIA, del DOD y del FBI, disfrazados de diplomáticos. El tercer documento falso fue una carta escrita supuestamente por J. Edgar Hoover, director del FBI, a Thomas A. Brady, un agente del FBI. La carta atribuía al FBI y a la CIA la ejecución exitosa del golpe de estado brasileño de 1964.

El falso press release de la USIA en Rio de Janeiro fue ciclostilado y distribuido a mediados de febrero de 1964, en un simulacro de sobre de la USIA, a la prensa brasileña y a políticos brasileños escogidos. Una carta de presentación, anexada al release y supuestamente escrita por un funcionario local de la USIA, declaraba que el jefe americano de la misión había mandado romper la carta por ser demasiado franca. El funcionario revelaba que había conseguido salvar varias copias y que las había enviado a la prensa brasileña porque estaba convencido de que el público tenía que saber la verdad. Como conclusión, el remitente anónimo decía que no podía revelar su nombre porque pondría en riesgo su puesto de trabajo.

El 27 de febrero de 1964, la falsificación apareció en el periódico brasileño O Semanário bajo el titular “MANN DECIDE LÍNEA DURA DE EUA: NO SOMOS VENDEDORES AMBULANTES COMO PARA QUE REGATEEN CON NOSOTROS”. Un ataque antiamericano acompañaba al texto del press release falsificado. Algunos días después, el 2 de marzo de 1964, Guerreiro Ramos, un miembro del Partido Laborista Brasileño (PTB), hizo un discurso en el que comentaba la nueva política atribuida a Thomas Mann y concluía que obviamente Estados Unidos había vuelto a la línea dura de John Foster Dulles tras la muerte del presidente Kennedy. (Posteriormente reconoció su equivocación y explicó que la declaración atribuida a Mann se basaba en un documento falso.) En una declaración pública del 3 de marzo, el embajador americano en Rio de Janeiro contestó a funcionarios brasileños que Mann jamás había propuesto tal política y que su embajada jamás había emitido aquel press release.

En los meses siguientes, la prensa izquierdista latinoamericana empleó el nombre de Thomas A. Mann como un símbolo vivo del imperialismo americano. El 29 de abril de 1964, el semanario mexicano pro-comunista Siempre publicó un artículo que hacía referencia al llamado “Plan Thomas Mann contra América Latina”, afirmando que dicho plan perseguía la caída de los gobiernos de Chile, Brasil, Uruguai y Cuba, así como el aislamiento de México durante el año 1964; el periódico uruguayo Época reprodujo la misma acusación el 20 de mayo. Dos semanas después, el primer secretario del Partido Comunista Uruguayo habló en el parlamento, en el contexto de una discusión sobre exportaciones americanas, y acusó a Thomas Mann de “favorecer cínicamente golpes de Estado”. Como la embajada americana en Montevideo – al día siguiente – publicó una nota diciendo que el llamado “Plan Thomas Mann” era una falsedad, el órgano de prensa comunista El Popular contestó, el 5 de junio de 1964, con un artículo significativamente titulado “Mister Mann: Plan de Guerrilla para toda América Latina”. Incluso bastante tiempo más tarde, el 16 de junio de 1965, el periódico izquierdista mexicano El Dia publicó un cuarto de página con un anuncio del “Comité de Coordinación Nacional para el apoyo a la Revolución Cubana”. El artículo declaraba que, en 1964, Mann había liderado la Operación Aislamiento, creada para debilitar la postura de Cuba como líder de la lucha antiimperialista en América Latina.

Como he mencionado antes, una segunda técnica usada en esa campaña de desinformación consistió en la distribución de circulares y manifiestos con el nombre de una organización ficticia, el “Comité para la Lucha contra el Imperialismo Yanqui”. La mayor parte de esos documentos acusaba de espías a representantes norteamericanos en América Latina, incluidos diplomáticos, hombres de negocios y periodistas. La selección de candidatos era relativamente sencilla. Publicaciones americanas contenían valiosos datos biográficos sobre diplomáticos americanos y funcionarios de diversas organizaciones oficiales y privadas americanas que operaban en el exterior. Era fácil seleccionar aquéllos cuya biografía se ajustaba al objetivo del infundio. Esas acusaciones ficticias eran aceptadas la mayoría de las veces como información fiable.

En julio de 1964, el público latinoamericano recibió “prueba” extra de las actividades subversivas americanas en forma de dos cartas falsas firmadas por J. Edgar Hoover. Ambas iban dirigidas a Thomas Brandy, un funcionario del FBI. La primera, fechada en 2 de enero de 1961, era un mensaje de felicitación a Brady con motivo de sus veinte años de servicio en el FBI. Su objetivo era autentificar una segunda carta, fechada en 15 de abril de 1964, dirigida a la misma persona.

Washington, D.C 15 de abril de 1964 Personal Caro Sr. Brady: Mediante la presente quiero expresar mi aprecio personal a cada agente destinado en Brasil, por los servicios prestados en la ejecución de la “Revisión”.

Mi admiración por la forma dinámica y eficiente con que esa operación a gran escala ha sido ejecutada, en tierra extranjera y en condiciones difíciles, me ha movido a expresar mi gratitud. El personal de la CIA ha cumplido bien con su papel y ha conseguido muchas cosas. Sin embargo, los esfuerzos de nuestros agentes han tenido un valor especial. Estoy satisfecho sobre todo de que nuestra participación en el caso se ha mantenido secreta y de que la Administración no ha tenido que hacer declaraciones públicas para negarla. Todos podemos estar orgullosos de la participación crucial del FBI en la protección de la seguridad de la Nación, incluso fuera de sus fronteras.

Sé muy bien que nuestros agentes muchas veces hacen sacrificios personales en el cumplimiento de sus deberes. Las condiciones de vida en Brasil puede que no sean las mejores, pero es realmente muy estimulante saber – por vuestra lealtad y por las actividades mediante las que habéis prestado servicio a vuestro país, de forma crucial aunque callada – que no abandonáis el trabajo. Este espíritu es el que permite que nuestro Bureau afronte hoy con éxito sus graves responsabilidades. Sinceramente, J. E. Hoover Como trasparece en el texto, la intención de la falsificación era probar la implicación directa americana en la deposición del gobierno brasileño de João Goulart. El servicio checoslovaco habría preferido echar toda la culpa a la CIA, pero el motivo de la inclusión del FBI en la conspiración americana fue muy prosaico: el servicio secreto no tenía el modelo de papel oficial de entonces de la CIA. La falsificación y una de las circulares mencionadas anteriormente aparecieron primero en el periódico argentino Propósitos, el 23 de julio. A esta publicación le siguió una reacción en cadena en la prensa latinoamericana, a medida que los periódicos, uno a uno, se turnaban en denunciar esa “nueva onda de actividad subversiva americana.” * * Última Hora , Santiago, 24 de julio de 1964;

Vistazo , Santiago, 27 de julio de 1964;

El Siglo , Santiago, 28 de julio de 1964;

El Popular , Montevideo, 28 de julio de 1964;

Prensa Latina , Montevideo, 28 de julio de 1964;

Marcha , Montevideo, 31 de julio de 1964;

Época , Montevideo, 1 de agosto de 1964;

Combate , Santiago, 1 de agosto de 1964;

El Siglo , Santiago, 2 de agosto de 1964;

El Día , Ciudad de México, 17 y 20 de enero de 1965;

La Gacota , Bogotá, marzo/abril, 1965; y probablemente muchos más.

Apéndice Sugerencia a los colegas Olavo de Carvalho Época, 17 de Febrero de 2001 ¿Por qué nadie entrevista a Ladislav Bittman, el ex-espía checo que lo sabe todo sobre 1964?

Millones de niños brasileños, en las escuelas públicas, son adiestrados para repetir que el golpe militar de 1964 fue obra de Estados Unidos, como parte de un proyecto de endurecimiento general de la política exterior yanqui en América Latina.

¿Saben quién inventó esa historia y la difundió por la prensa de este país? Fue el servicio secreto de Checoslovaquia, que en aquel tiempo subvencionaba a numerosos periodistas y periódicos brasileños.

El jefe del servicio checo de desinformación, Ladislav Bittman, en persona, vino a inspeccionar las fases finales del ingenioso plan que se llamaba “Operación Thomas Mann”. Ese nombre no aludía al novelista, sino al entonces secretario-adjunto de Estado, Thomas A. Mann, que debía pasar como responsable de una “nueva política exterior” de incentivo a los golpes de Estado.

La sinvergonzonería fue realizada a través de la distribución anónima de documentos falsificados, que la prensa y los políticos brasileños, sin la menor comprobación, se tragaron como “pruebas” del intervencionismo americano. El primer paso fue dado en febrero de 1964: un documento con sello y sobre falsos de la Agencia de Información de EUA en Rio de Janeiro, que resumía los principios generales de la “nueva política”. La cosa llegó a los periódicos junto con una carta de un ficticio funcionario americano anónimo, que interpretaba, como en las películas, el papel de héroe oscuro que, juzgando que “el pueblo tiene derecho a saber”, divulgaba el secreto que sus jefes le habían mandado guardar.

El escándalo estalló con grandes titulares y los planes siniestros del Sr. Mann fueron denunciados en el Congreso. El embajador americano desmintió que tales planes existiesen, pero era tarde: toda la prensa y la intelectualidad izquierdistas de las Américas ya se habían movilizado para confirmar la patraña checa. La mentira penetró tan hondo que, tres décadas y media después, el nombre de Thomas A. Mann aún es citado como símbolo vivo del imperialismo intervencionista.

A esa primera falsificación le siguieron varias más, para darle credibilidad, entre ellas una lista de “agentes de la CIA” infiltrados en los medios diplomáticos, empresariales y políticos brasileños, que circuló por los periódicos como de autoría de un “Comité de Lucha Contra el Imperialismo Americano”, que nunca existió fuera de la cabeza de los agentes checos. En realidad, ha confesado Bittman, “no conocíamos ni un sólo agente de la CIA en acción en Brasil”. Pero el montaje más espectacular fue una carta de 15 de abril de 1964, con firma falsificada de J. Edgar Hoover, en la que el jefe del FBI felicitaba a su funcionario Thomas Brady por el éxito de cierta “operación”, que, por el contexto, cualquier lector identificaba inmediatamente con el golpe que había depuesto a João Goulart”.

Toda una bibliografía con pretensiones historiográficas, toda una visión de nuestro pasado y unas cuantas docenas de glorias académicas se han construido sobre esos documentos falsos. Bien, el fraude ya ha sido desenmascarado por uno de sus propios autores, y no fue ayer o anteayer. Bittman contó todo en 1985, tras desertar del servicio secreto checo. Lo que pasa es que hasta hoy esa confesión sigue siendo desconocida por el público brasileño, bloqueada por la amalgama de pereza, ignorancia, interés y complicidad que ha transformado a muchos de nuestros periodistas e intelectuales en agentes de la desinformación checa mucho más diligentes de lo que fue el jefe mismo del servicio checo de desinformación. ¿Cuántos, en esos medios, no continúan actuando como si fuese mucho más ético transmitir a las futuras generaciones, a título de ciencia histórica, la mentira de la que el propio autor renegó hace 15 años?

Diplomacia De Sonambulos

31 de maio de 2010 | Diário do Comércio

Pergunto-me se alguém, no nosso governo, tem alguma compreensão do pano-de-fundo religioso, místico e esotérico das manobras do presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad. A resposta é evidentemente “Não”. A simples idéia de que em política a religião possa ser algo mais que um adorno – ou disfarce – publicitário é absolutamente inalcançável para os brucutus do Palácio do Planalto e para os galináceos engomados do Itamaraty. Toda vez que essa gente toma decisões em assuntos que pairam infinitamente acima de seus neurônios e arrastam o povo na direção de um destino que este compreende menos ainda, a liderança intelectual, política, empresarial e militar deste país deveria bater no peito e, genuflexa, recitar:

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa . O Brasil está se transformando no instrumento mais passivo, bocó e inconseqüente de políticas internacionais desastrosas que, nas presentes condições, não podem sequer ser objeto de um debate público sério por absoluta falta de debatedores informados.

A ideologia dominante no mundo moderno apregoa que a sociedade política é uma realidade auto-subsistente, dentro da qual, e como parte subordinada da qual, existe um fenômeno chamado “crenças”, cujo exercício o Estado, conforme lhe dê na telha, protege ou reprime.

Essa visão das coisas, hoje tida como dogma do senso comum, é diretamente contraditada pela realidade histórica. Não existe no universo um só Estado ou nação que não tenha surgido desde dentro das religiões, como capítulo fugaz da história dos seus antagonismos internos e externos. O elemento durável e decisivo na História são as religiões: o Estado, a nação e, no fim das contas, tudo o que hoje se denomina “política” são apenas a espuma na superfície de uma corrente que se constitui, em essência, da história das religiões, tomado o termo num sentido amplo que abrange os movimentos ocultistas e esotéricos, incluindo os que se travestem de materialistas e agnósticos (o marxismo é o exemplo mais nítido: leiam Marx and Satan , do pastor Richard Wurmbrand, e To Eliminate the Opiate , do rabino Marvin Antelman, e entenderão do que estou falando).

Obscurecido pela ilusão da “política”, o predomínio absoluto do fator religioso na História mostrou uma vez mais sua força no instante em que o projeto de governo global, muito antes de se traduzir em medidas políticas concretas, teve de se constituir, já desde os anos 50, numa engenhoca espiritual que acabaria por tomar o nome de United Religions Initiative (cito uma vez mais Lee Penn, False Dawn: The United Religions Initiative, Globalism and the Quest for a One-World Religion , leitura obrigatória para quem quer que deseje entender o mundo de hoje).

Mas, se as lideranças globalistas estão bem cientes desse fator, ele continua ignorado pela massa dos analistas políticos, comentaristas de mídia e “formadores de opinião” em geral, apegados, por força da sua formação universitária, ao mito do “Estado leigo”, como se a razão de ser deste último não fosse, precisamente, o advento final de algo como a United Religions Initiative .

O único lugar do planeta onde a consciência do poder da religião como força modeladora da História está viva não só entre os intelectuais como até entre a população em geral, é o Islam. Por isso é que milhões e milhões de muçulmanos têm um senso de participação consciente em planos estratégicos de longuíssima escala – em escala de séculos – para a instauração do império islâmico mundial. Esse senso, aliado à completa invisibilidade dessa escala no horizonte histórico estreito dos políticos ocidentais, basta para explicar que o Islam tenha hoje a maior militância organizada que já se viu no mundo – um poder avassalador a cuja marcha triunfante os países mais ricos e supostamente mais fortes não sabem nem podem oferecer senão uma resistência verbal perfeitamente inútil.

Habituados a raciocinar em termos de poderes estatais, militares, econômicos e burocráticos, os estrategistas do Ocidente perdem freqüentemente de vista a unidade profunda do projeto islâmico ao longo do tempo, nublada, a seus olhos, por divergências momentâneas de interesses nacionais que, para eles, constituem a única realidade efetiva. E nisso refiro-me aos estrategistas das grandes potências, não a seus macaqueadores de segunda mão que hoje constituem a “zé-lite” da diplomacia luliana. Estes não têm sequer a noção de que exista, para além dos lances do momento, um projeto islâmico de longo prazo, ao qual servem sem atinar com o sentido daquilo que fazem ou dizem. Movem-se na cena do mundo como sonâmbulos errando entre sombras, imitando o soneto célebre de Fernando Pessoa:

“Emissário de um rei desconhecido, Eu cumpro informes instruções de além, E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anômalo sentido.”

Em 31 de maio de 2010

Explicando De Novo

31 de maio de 2003 | O Globo

Meu artigo anterior alertava aos leitores que as ambições imperialistas sobre a Amazônia — e sobre o Brasil inteiro — não vêm tanto do lado americano quanto daquele mesmo complexo de poderes que sustentou o lobby pró-Saddam na mídia internacional durante a guerra do Iraque.

Aglutinados nos grandes organismos burocráticos — ONU, CE, Unesco, FMI –, e atuando também por meio de uma rede de ONGs milionárias, esses poderes têm as pretensões arrogantes de um virtual governo do mundo, criando da noite para o dia mutações políticas e sociais postiças que os povos mal chegam a entender, tomando parcelas cada vez maiores dos territórios das nações a pretexto de proteger a ecologia ou populações minoritárias, e professando abertamente destruir todas as soberanias nacionais para substitui-las pelo chamado “transnacionalismo progressista”.

Suas fontes ideológicas são muitas — do socialismo fabiano ao radicalismo islâmico, do nazifascismo ao neocomunismo e aos romantismos tradicionalistas –, e pode parecer espantoso que idéias tão heterogêneas possam servir a um objetivo unificado. Mas na conquista do poder mundial os pretextos ideológicos são simples instrumentos, enquanto a meta final é tudo, o que faz da variedade dos discursos uma vantagem em vez de um problema. Ademais, oitenta anos de experiência da propaganda soviética ensinaram que o ataque multilateral sob uma variedade de pretextos contraditórios aumenta a credibilidade do conjunto, sobrepujando em eficácia psicológica o discurso coerente.

A ambição avassaladora desse neoglobalismo, que se apresenta como uma ruptura completa com as bases da civilização ocidental — ao ponto de o cristianismo ser formalmente excluído da lista das valores fundantes da nova CE — tem a seu serviço recursos praticamente ilimitados. Dentro do próprio establishment americano ela tem servidores fiéis. Graças a eles, os EUA ocuparam-se, durante quase uma década, de cortar orçamentos militares e desmantelar seus serviços de segurança, tornando-se vulneráveis a ataques terroristas, enquanto a China, com a ajuda do próprio governo Clinton, subia à condição de potência nuclear capaz de ameaçar a segurança nacional americana, objetivo considerado também prioritário, hoje, para as forças armadas da CE.

Por muito tempo o povo americano, ludibriado para confundir seu interesse nacional com os do globalismo, deixou que os organismos internacionais e as ONGs a seu serviço pintassem e bordassem no seu país, como estamos deixando que o façam no nosso. Em conseqüência, ONGs ligadas à ONU e à CE já tomaram dos americanos mais de dez por cento do seu território, já impuseram às escolas dos EUA normas de ensino voltadas à destruição explícita da identidade nacional e dos valores da civilização judaico-cristã e já ganharam para a causa anti-americana as parcelas mais ativas da indústria cultural — hoje meras subestações repetidoras da propaganda “transnacional progressista” –, além de subsidiar generosamente organizações terroristas.

A eleição de George W. Bush, a aprovação maciça à guerra do Iraque e a crescente hostilidade às potências européias mostraram que, finalmente, a oposição irredutível entre os interesses da América e os do neoglobalismo tinha chegado à consciência popular. A reviravolta na política externa dos EUA abalou os alicerces da burocracia mundial, suscitando uma explosão de histeria anti-americana, na qual, para cúmulo de cinismo, os próprios senhores da administração globalizada, os mais empedernidos adversários de toda soberania, apareciam como bondosos defensores de uma nação independente ameaçada pela “sanha imperialista” de George W. Bush.

Na verdade, o poderio econômico e militar dos EUA, a firmeza obstinada de Israel e a consciência histórica dos povos do Leste Europeu libertados do comunismo são as únicas esperanças de que a “pós-democracia” dos burocratas internacionais não prevalecerá.

No Brasil, o avanço do neoglobalismo se dá por várias vias simultâneas: pela ocupação da Amazônia através de ONGs ecológicas e indigenistas, pelo apoio europeu à revolução agrária do MST, pela imposição de padrões “politicamente corretos” de educação que reduzem nossa juventude à perfeita imbecilidade, pelo apoio nem sempre discreto às Farc e, sobretudo, pela desnorteante campanha anti-americana que joga sobre os EUA as culpas de seus inimigos, chegando ao absurdo de apresentar como instrumentos de interesses americanos as próprias agências da burocracia internacional.

Tudo isso é empiricamente demonstrável por montanhas de fatos e documentos que podem não ser conhecidos da elite brasileira — sempre atrasada e inculta –, mas que se encontram reunidos em livros e teses acadêmicas de fácil acesso. Tenho analisado o assunto em aulas e conferências, desde há anos, mas não posso, no espaço desta coluna, expor o tema em toda a sua complexidade nem dar uma lista razoável de fontes. A título de amostra mínima, sugiro por ora a leitura do estudo de John Ponte, do Foreign Policy Research Institute, “The New Ideological War in the West”, em http://www.fpri.org/ww/0306.200205.fonte.ideologicalwarwithinthewest.html .

Qualquer patriota sincero pode sentir-se atônito ante a novidade dessas informações, mas por isso mesmo tem a obrigação de buscar saber mais. Em vez disso, uns quantos militares da chamada “ala nacionalista” reagiram ao meu artigo com insultos e acusações caluniosas de uma baixeza indescritível, escritas em linguagem de prostíbulo (que, a contragosto mas para efeito de prova, reproduzi do meu site www.olavodecarvalho.org ). Provaram, com isso, duas coisas. Primeira, que não são nacionalistas, muito menos patriotas, mas apenas anti-americanos. Dariam o Brasil a Satanás, se estivessem certos de que isso resultaria em dano para os EUA. Segunda: que muito do nosso pretenso nacionalismo mais recente, combatendo o inimigo imaginário e servindo ao inimigo real, é um tipo de alienação psicótica que, desmascarada, se torna violenta.

Em 31 de maio de 2003

Botao De Descarga

31 de julho de 2013 | Diário do Comércio

Poucos jornalistas brasileiros têm denunciado a fraude geral do governo petista com a constância, o brilho e a bravura de Diogo Mainardi, mas isso não quer dizer que ele compreenda claramente o que está acontecendo neste País, nem que se abstenha de sugerir remédios capazes de até agravar consideravelmente a situação.

Numa recente mensagem postada no seu Facebook, ele exclama: “Falta uma mudança total, de tudo. Falta uma greve geral que tenha a força de liquidar essa quadrilha do PT, incrustada no poder. Falta o impeachment da Dilma... O impeachment, na minha visão, funciona como o botão que se aperta para dar descarga na privada.”

Isso não seria grave se Mainardi fosse o único a pensar dessa forma, mas a sua visão do cenário político é a mesma de uma grande parte da sociedade brasileira.

O primeiro erro dessa perspectiva é ignorar que às vezes o centro vivo do poder, portanto a fonte geradora do mal, nem sempre reside no ocupante do mais alto posto da hierarquia constitucional; e, quando está em curso um processo revolucionário comunista sob camuflagem democrática, não reside quase nunca.

É da natureza mesma do movimento comunista, sobretudo nas épocas de incerteza, não queimar jamais os seus quadros melhores expondo-os aos riscos de um cargo público demasiado visível.

O comando do processo está hoje nas mãos do Foro de São Paulo, e quando digo isso não me refiro nem mesmo às suas assembleias gerais, porém mais aos círculos de conversações discretas, ou até secretas, em que se fazem e desfazem governos e se decidem os destinos de nações inteiras sem que as respectivas populações tenham disso a menor notícia, ou, como confessou o sr. Lula, “sem que pareça”. O discurso que esse ex-presidente fez no 15o aniversário do Foro, em 2005 – documento que ninguém na grande mídia publicou ou leu –, contém informações essenciais onde se pode obter uma ideia do poder avassalador da organização que por quase duas décadas se fingiu de inexistente ou inofensiva com a ajuda do silêncio obsequioso da classe jornalística em peso ( ver link ). Igualmente significativas, sob esse aspecto, foram as declarações do sr. José Dirceu em entrevista ao sr. Antonio Abujamra à qual ninguém prestou alguma atenção inteligente ( ver link ).

Há anos o Foro decidiu que o fim do mandato de Lula assinalaria o fim da “etapa de transição” e o começo da conquista abrangente e definitiva do poder, ou, em outras palavras, o upgrade decisivo, a passagem do socialismo meia-bomba ao socialismo-bomba ( ver link ).

A recente onda de protestos, planejada e incitada por agentes do Foro, inclusive com treinamento de guerrilheiros urbanos para dar à coisa um aspecto devidamente atemorizante ( ver link ) e justificar medidas mais drásticas contra o bode expiatório de sempre, a “direita fascista” ( ver link ), mostra claramente que o comando revolucionário não hesitou em espremer a sra. Dilma Rousseff contra a parede, para que esta se definisse, isto é, assumisse a liderança do processo ou fosse passada para trás pelas facções mais ousadas da esquerda nacional.

Os resultados do teste, porém, apareceram embaralhados pela intromissão de um fator inesperado: espontaneamente, numa desorganização majestosa, massas de liberais, conservadores e cidadãos sem cor política revoltados contra a esbórnia federal saíram também às ruas em quantidades oceânicas e, em certos pontos, acabaram ocupando o espaço e os megafones destinados inicialmente à agitação esquerdista.

Embora atônita e desorientada – prova inequívoca de não ter passado no exame –, a presidenta foi salva pela decisão do comando revolucionário, ele próprio a essa altura atônito e desorientado, de dar marcha a ré na sucessão de badernas e fechar-se em copas para autocrítica e remanejamento estratégico. Não fossem esses imprevistos, o fracasso da presidenta em dirigir os acontecimentos teria marcado o fim da sua carreira política e a ascensão de novas estrelas de esquerda, longamente preparadas para isso na escolinha maternal do próprio Foro de São Paulo ( ver link ).

Dito de outro modo: se só Dilma Rousseff tivesse se mostrado perplexa e o próprio Foro não tivesse perdido o controle da situação, a cabeça da presidenta já teria rolado, e o sonho do sr. Diogo Mainardi teria se realizado, mas não em proveito do povo brasileiro e sim da parte mais furiosa da esquerda nacional, com a subsequente instauração de um regime francamente revolucionário. E este, com a centralização abrupta e descarada do poder, não hesitaria em apelar, sob o pretexto de saneamento e até sob os aplausos da massa ingênua, não só à violência repressiva tipicamente comunista como também a formas de corrupção de tipo soviético, ainda mais requintadas e perversas do que aquelas a que nos habituou a mixórdia petista.

No rumo que as coisas tomaram, ficou tudo em suspenso até melhores análises estratégicas, mas, qualquer que seja o caso, o que está provado e bem provado é que livrar-nos de Dilma não é a mesma coisa que livrar-nos do mal. Se o fosse, o próprio Foro não teria chegado tão perto de apertar o botão de descarga. Mais sobre isso no próximo artigo.

Links:

(A) http://www.recantodasletras.com.br/artigos/686733 ;

(B) https://www.youtube.com/watch?v=px7nPh8GGIY ;

(C) https://www.youtube.com/watch?v=CRENnVnRWTQ ;

(D) http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/felipe-patury/noticia/2013/07/b-base-de-treinamento-da-guerrilha-urbanab.html ;

(E) http://www.dcomercio.com.br/index.php/opiniao/sub-menu-opiniao/113257-o-lobo-de-sabonete ;

Abandono Intelectual

31 de julho de 2008 | Diário do Comércio

O governo quer mandar à cadeia, por delito de “abandono intelectual”, todo pai ou mãe de família que tente dar instrução a seus filhos em casa em vez de deixá-los à mercê do primeiro agitador comunista, chavista, gayzista, ateísta ou abortista encarregado oficialmente de pervertê-los sob a desculpa de educá-los.

O Código Penal Brasileiro assim define aquele crime: “Deixar, sem justa causa, de prover à instrução primária de filho em idade escolar.” Em nenhuma parte do Código está dito que educar as crianças em casa é privá-las de instrução.

Quer o governo persuadir-nos de que aquele que se incumbe de educar seus próprios filhos, provendo-lhes os conhecimentos, tomando-lhes lições, zelando todo dia pelo seu progresso nos estudos, assume pela instrução deles uma responsabilidade menor do que aquele que simplesmente os deixa num ponto de ônibus, ao alcance de quantos ladrões, estupradores e narcotraficantes se encontrem à espera deles no trajeto até à porta da escola ou mesmo dentro dela?

Notem bem. O Ministério da Educação foi fundado em 1930. É mais velho do que 95 por cento dos nossos conterrâneos. Mais velho do que praticamente todas as empresas particulares em operação no país. Que resultados obteve nessa longa existência? De 2001 até hoje, nossos estudantes secundários tiram sistematicamente os últimos lugares no Pisa – Programa internacional de avaliação promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas como poderia ser diferente, se o próprio MEC reconhece que 66 por cento dos professores não têm formação adequada? Ou seja: em 78 anos de esforços, o MEC deu provas cabais da sua incapacidade não só para prover uma educação de bom nível, mas até para formar os agentes encarregados de fazê-lo. Ele não é capaz de educar nem mesmo os educadores, quanto mais as crianças.

Que autoridade moral ou intelectual tem essa instituição para ditar regras sobre o que é educação e o que não é?

O presente ministro da Educação é muito elogiado por seus planos. Todos os seus antecessores também foram. E os frutos desses planos estão à vista de todos.

O sr. Fernando Haddad pode ter os talentos que bem entenda: o fato é que nunca educou ninguém – nem mesmo a si próprio. Vejam o currículo do homem: é só marxismo de alto a baixo. Depois que subiu ao Ministério, veio com umas conversas de pluralismo, de neutralidade ideológica. Por que não pensou nisso antes? Por que nunca deu o menor sinal de interessar-se pelo que quer que estivesse fora do estreito círculo de atenção da militância comunista?

Eu, que já eduquei várias centenas de jovens brasileiros e os tornei capazes de um confronto intelectual vantajoso com qualquer de seus professores universitários, não entregaria jamais um filho meu para ser educado pelo sr. Haddad, nem aliás por qualquer dos que o antecederam no cargo nos últimos vinte ou trinta anos.

Sugeri, e volto a fazê-lo, um Pisa, um teste internacional para os professores universitários, para os ministros da Educação. Se é verdade que pelos frutos os conhecereis, tenho a certeza de que os gênios do planejamento educacional brasileiro não obterão melhor classificação que a daqueles que eles educaram. Não há abandono intelectual mais danoso, triste e desesperançado, do que entregar nossos filhos aos cuidados dessas pessoas. Vejam este vídeo, por exemplo — http://www.youtube.com/watch? v=cSA239vNRGQ –, e digam se estou exagerando.

Será que não está na hora de contestar a idéia mesma de que um grupo de cérebros iluminados, pagos com dinheiro público, tenha a capacidade de planejar a educação de todo um país de dimensões continentais?

Será que não está na hora de tentar a única idéia que nunca foi tentada, isto é desregulamentar e desburocratizar a educação brasileira, reservar ao governo um papel meramente auxiliar na educação, deixar que a própria sociedade tenha o direito de ensaiar soluções, criar alternativas, aprender com a experiência?

O Pt Ja Nasceu Corrompido

31 de janeiro de 2010 | Entrevista concedida a Sionei Ricardo Leão

Os escândalos que atingiram recentemente o DEM em Brasília e o PT na época do Mensalão são resultado de uma degradação da moral e da intelectualidade nacional que vem ocorrendo há duas décadas no País, analisa o filósofo Olavo de Carvalho. “Se o Brasil ficar assim mais cinco anos, ele não se levantará nunca mais”. O filósofo concedeu esta entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília por telefone, de Richmond, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, onde mora desde 2005. Na Academia, Olavo de Carvalho é considerado um crítico impiedoso das esquerdas brasileiras. Para ele, o Partido dos Trabalhadores enganou a sociedade.

“O prestigio do PT cresceu pelo discurso de combate à corrupção. Mas a máquina de corrupção do partido já estava sendo montada há muito tempo”. Nessa avaliação, ele aponta que, no quadro partidário atual, o eleitor não tem opção, pois faltam candidatos que consigam ou sejam interessados em representar os anseios do povo brasileiro, que “é profundamente conservador, sobretudo no aspecto social”.

Da mesma maneira, ele considera que há um monopólio de pensamento político no Brasil. “Isso não pode acontecer num país”. Os desafetos de Olavo de Carvalho o classificam de direitista convicto ou até reacionário, rótulo que ele desdenha. “Qual é o problema de ser de direita? É proibido? Não tem sentido você proibir a direita e ao mesmo tempo falar em pluralismo democrático. Em todos os países, há esquerdas e direitas. Agora, com quem vou debater isso no Brasil? Com pessoas indignas, cuja obra intelectual é zero? Imagine se eu vou querer que essas pessoas me respeitem ou me reconheçam!”

Nos EUA, o filósofo ocupa o tempo com um curso de Filosofia a distância que tem adesão de vários alunos brasileiros. Ele também está preparando uma publicação sobre o pensador Mário Ferreira dos Santos.

* * * O PT durante anos brandiu a causa da ética. Ao chegar ao poder foi desgastado pelo escândalo do mensalão. O DEM passou a levantar a mesma bandeira, mas foi tragado com o caso de Brasília. A defesa da ética tem alguma maldição?

Em primeiro lugar, o prestígio do PT cresceu pelo discurso de combate à corrupção, mas a máquina de corrupção do partido já estava sendo montada enquanto isso acontecia. Tanto que foi organizado um serviço de inteligência privado do PT, que ficou conhecido como PTPol. A coisa foi denunciada pelo governador Esperidião Amin (Santa Catarina), mas nada se investigou depois. Em 1993, quando houve aquela famosa CPI da Corrupção, a máquina já estava montada, já fazia três anos que o PT fundara o Foro de São Paulo, associando-se a organizações de traficantes e seqüestradores como as Farc (Força Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o Mir chileno ao mesmo tempo em que, em público, pregava a moral e os bons costumes. Todo aquele combate aparentemente moralista era para encobrir o esquema. O PT foi o partido que mais enganou a população, pois ele já nasceu corrompido. Em segundo lugar, a decadência moral dos partidos acompanha a decadência geral do Brasil, que se aprofundou muito nos últimos 20 anos.

Para o senhor a desmoralização partidária é então resultado de um processo mais amplo?

A decadência não se dá apenas no aspecto moral, ela aconteceu intelectualmente. Nossos estudantes invariavelmente tiram os últimos lugares nos testes internacionais, abaixo de gente que vem de países muito mais pobres. Note que a produção de trabalhos científicos no Brasil aumentou bastante nos últimos anos. Mas as citações de pesquisas internacionalmente diminuíram muito, mostrando que a produção nacional tem cada vez menos valor para o progresso da ciência no mundo. A produção de trabalhos científicos tornou-se mera empulhação quantitativa para facilitar a caça às verbas. Compare o Brasil dos anos 50 a 70 com o atual. Tínhamos então uma infinidade de escritores e pensadores de nível mundial. Hoje, “intelectual” é o Jô Soares, é o Luís Fernando Veríssimo, é o Emir Sader. É comparar Atenas com a Baixada Fluminense. No campo moral, até se você usar como referência líderes de esquerda do passado como Carlos Marighella e Luiz Carlos Prestes, não há qualquer menção de que eles tivessem se envolvido com negociatas, com corrupção. Tanto que recentemente houve o episódio de a filha do Prestes negar-se a receber qualquer indenização do Estado, porque para ela isso mancharia a imagem do pai. Até os esquerdistas eram mais decentes naquele tempo. Agora, esse pessoal que está aí, descaradamente, assalta os cofres do Estado. Eles também apelam à violência. Veja as mortes dos prefeitos de Santo André e de Campinas.

Há luz no fim do túnel em outras legendas partidárias?

Os outros partidos são cúmplices. Hoje não se pode falar de esquerda e de direita, o que se tem é um sistema único. Destruíram o quadro partidário do Brasil.

O senhor defende que a polarização entre direita e esquerda ficou no passado?

O Brasil não tem uma direita há muito tempo. Nas últimas eleições presidenciais, os discursos de todos os candidatos eram semelhantes. O Partido Democratas foi inspirado na esquerda americana. Portanto, não pode ser considerado exemplo de partido conservador.

Como o senhor classifica o eleitor brasileiro? Desinformado e provinciano ou consciente, engajado, universalista?

O povo brasileiro é profundamente conservador. Sobretudo no aspecto social. É maciçamente contra o aborto, o feminismo radical, as quotas raciais, o gayzismo organizado. No entanto, não há político que fale em nome do povo: estão todos comprometidos com os lobbies bilionários que protegem esses movimentos.

Então a seu ver, falta hoje no quadro partidário quem traduza ou represente politicamente o pensamento da sociedade?

Não há candidato que defenda os valores em que o povo acredita. Aí fica esse vácuo. E a nossa suposta direita está mais interessada em comer dinheiro do governo. Se só há candidatos de esquerda, então o eleitor vai votar em quem? Durante as eleições, os candidatos camuflam o seu radicalismo, mas depois de eleitos, quando se sentem firmes no poder, tiram a máscara. Na eleição seguinte, o contingente de eleitores novos não sabe o que se passou e confia de novo em candidatos que já enganaram a geração anterior.

Por que os brasileiros votam em pessoas, em lugar de partidos?

O discurso dos partidos não é nítido. Numa eleição na Inglaterra, por exemplo, você tem uma direita e uma esquerda bem definidas. Você sabe quem é quem. Aqui nos Estados Unidos ninguém ignora que a Hillary Clinton é de esquerda, que o Glenn Beck é de direita, tal como todo mundo sabia que Ronald Reagan era de direita e Jimmy Carter era de esquerda. Apesar disso, nas últimas eleições, os americanos parecem que copiaram o Brasil: a postura dos democratas e dos republicanos foi igual, os candidatos ficaram jogando confete um no outro.

Há algum otimismo de sua parte quanto ao futuro do quadro político brasileiro, o senhor acredita em melhoras?

Poder melhorar sempre pode. Mas depende da ação humana. O nível de coragem política diminuiu assustadoramente no Brasil. As novas gerações são muito covardes. Se o Brasil ficar assim mais cinco anos, ele não se levantará mais. Veja o caso do filme que foi lançado sobre a biografia do Lula. Se aqui o governo financiasse um filme sobre a vida do Obama, isso daria em impeachment. No Brasil, a realização do filme do Lula não gerou nenhum protesto organizado. A reação está vindo do povo, que não vai ver o filme no cinema.

No seu modo de ver, como se dará à disputa entre a ministra Dilma Rousseff (PT) e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), nessas eleições presidenciais?

Os dois candidatos vão promover um campeonato de esquerdismo. Como o Serra tem alguns aliados conservadores, talvez ele venha com um discurso mais moderado, e sua eleição dê uma folga para que a direita possa se reconstruir, se ainda houver nela alguém interessado mais nisso do que em bajular a esquerda e participar do banquete de verbas públicas.

Para o senhor a ausência de discursos e de programas de direita empobrece a política brasileira?

A Forca Do Segredo

31 de janeiro de 2008 | Jornal do Brasil

Na mesma semana em que o Foro de São Paulo é objeto de uma reportagem em Veja , Fidel Castro revela que a idéia de criá-lo não foi nem dele: foi do próprio Lula. Sim, coube a este, não ao ditador cubano ou ao seu colega da Venezuela, a glória macabra de salvar da extinção o movimento comunista na América Latina. E esse fato vem à tona quase no mesmo dia em que um importante líder empresarial, o sr. Emílio Odebrecht, tenta impingir a si próprio a balela anestésica de que “Lula nunca foi de esquerda”. A alienação da burguesia brasileira em relação ao estado de coisas no país é uma das maravilhas do universo, mas ela não teria sido possível sem o longo e persistente silêncio da “grande mídia” nacional quanto ao Foro de São Paulo.

A gigantesca engenharia de ocultações que sonegou ao público o conhecimento dos lances essenciais da história política da última década e meia é, por si mesma, um acontecimento inédito nos anais do jornalismo mundial, um fenômeno tão espetacular e tão criminoso quanto as atividades do próprio Foro.

Um dia a ciência histórica terá de sondar os mais baixos estratos da sordidez humana para explicar como foi possível tanta vileza, tanta abjeção, da parte daqueles que recebiam os melhores salários do jornalismo para abster-se de praticá-lo.

As conseqüências da sua omissão foram portentosas.

Consolidando numa estratégia de dimensões continentais a clássica articulação comunista dos meios de luta lícitos e ilícitos, o Foro de São Paulo é a mais vasta, a mais íntima, duradoura e bem sucedida parceria que já se viu entre a política e o crime na América Latina. Se a força dessa parceria não tivesse crescido em segredo, não teria crescido de maneira alguma: nem o Parlamento, nem a opinião pública, nem a Justiça, nem o empresariado, nem as Forças Armadas teriam tolerado ver o presidente da República cochichando pelos cantos com os comandantes das Farc e do Mir chileno. Muito provavelmente Lula não teria chegado aonde chegou, mas, se chegasse, não escaparia do impeachment à primeira notícia da sua condição de aliado e protetor máximo de assassinos, narcotraficantes e seqüestradores.

Se o eleitorado não tivesse sido reduzido à menoridade mental pelos autoconstituídos censores a serviço da boa imagem esquerdista, o partido beato, desmascarado antes de consolidar-se no poder, não teria podido montar um espetáculo de corrupção ante o qual o próprio P. C. Farias, se pudesse vê-lo do além, cairia pasmo de incredulidade.

Se o Foro de São Paulo tivesse sido denunciado em tempo, os comandantes das Farc não teriam podido transitar livremente pelo Brasil e ser recebidos como hóspedes de honra enquanto seus subordinados, discretamente, treinavam o PCC e o Comando Vermelho para matar brasileiros.

Se os fatos mais decisivos não tivessem se tornado invisíveis, não teríamos chegado ao recorde hediondo de 50 mil homicídios por ano.

Agora, que a notícia da sua existência foi publicada com dezessete anos de atraso, o poder do Foro de São Paulo já se tornou tão gigantesco, tão onipresente, que ninguém, no Parlamento, na Justiça, nas Forças Armadas ou seja lá onde for, terá os meios nem a coragem de reagir à altura, de fazer o que é preciso fazer ante esse fabuloso concurso de crimes.

Se já houve neste país motivo para uma CPI, é o Foro de São Paulo, mas quem, nas duas casas do Congresso, terá a hombridade de solicitá-la? E, na remota hipótese de que alguém a solicite, quantos não votarão para bloqueá-la, com ou sem o incentivo de uma nova edição do Mensalão?

Em 31 de janeiro de 2008

Traicao Anunciada 2

31 de agosto de 2002 | O Globo

Pela primeira vez na história das eleições brasileiras, um candidato a presidente admite em público que suas promessas de campanha são apenas um entorpecente usado para tranqüilizar a parcela mais idiota do eleitorado e que, uma vez no poder, pretende fazer coisa totalmente diversa.

A confissão é tão torpe, tão cínica, que a platéia, diante dela, entra em estado de estupor e não faz nada, nada para punir o engraçadinho. Nada: nem o desmoraliza em manchetes de oito colunas, nem organiza atos públicos de protesto, nem pede à Justiça Eleitoral a impugnação da sua candidatura, nem mesmo registra na Delegacia do Consumidor uma queixazinha de propaganda enganosa.

Ao contrário: inquietos e temerosos, milhões de cúmplices se remexem, numa agitação silenciosa dos bas fonds , para amortecer o escândalo e fazer de conta que nada aconteceu.

Até as vítimas principais do engodo fazem vista grossa, para não admitir que foram ludibriadas, mesmo porque o foram com sua própria ajuda.

Nem os demais presidenciáveis se sentem à vontade para tirar proveito da gafe monumental, pois se o fizessem dariam à campanha um sentido de confrontação ideológica que, entre adeptos de uma mesma ideologia, pegaria muito mal. Mais que pegar mal, retardaria o processo de transição para o socialismo, que cada um deles sonha em protagonizar com mais engenho e glamour que os outros três, nisto consistindo o único ponto de divergência que os separa nesta eleição.

Assim, a mais medonha e temível declaração que já se fez numa campanha presidencial neste país passa como se fosse um detalhe irrisório.

Lembram-se do estrago devastador que a mídia fez na reputação do político que disse “Esqueçam o que escrevi”? Pois nada de similar se fará com aquele que agora diz: “Esqueçam o que eu disse.” E o primeiro referia-se a obras acadêmicas de trinta anos antes, que nada de concreto prometiam no plano das ações práticas. O segundo, não. O que ele quer que esqueçamos é a totalidade de um programa de governo apresentado há poucos meses, repentinamente desmascarado como um sistema de engodos publicitários calculado para encobrir objetivos discretos, se não secretos, só confessados entre quatro paredes a velhos companheiros de militância. Para armar uma celeuma contra o primeiro, valeram todas as especulações maliciosas, todo o humorismo perverso, todas as mais escabrosas atribuições de intenções. Contra o segundo, não se alegará nem mesmo o sentido explícito e literal de uma traição anunciada.

O máximo que sucederá ao desastrado será sofrer uma discreta reprimenda de seus amigos e partidários por ter dado com a língua nos dentes, coisa que antes ele só costumava fazer no sentido fonoaudiológico e politicamente inofensivo da expressão.

Na escalada da inconsciência nacional, chegamos assim ao último estágio do torpor hipnótico. Nem mesmo o estalar dos dedos do próprio hipnotizador pode despertar o paciente que aprendeu a repetir para si mesmo, em sonhos, as sugestões que o induziram ao sono.

Jamais uma eleição se realizou num estado de tão profunda, total e voluntária indiferença às suas conseqüências, mais que previsíveis, declaradas de antemão.

Pois esse homem que subirá ao poder firmemente disposto a fazer o contrário do que prometeu não será, se eleito, um presidente como qualquer outro. Será um presidente especial, será o governante mais poderoso que já existiu no Brasil, pois além do comando do Executivo terá em suas mãos armas de grosso calibre que nenhum de seus antecessores jamais ousou ambicionar.

Terá, em primeiro lugar, o Partido — um partido diferente dos outros, um partido revolucionário com 300 mil militantes adestrados na rígida disciplina do “centralismo democrático” leninista, dispostos a tudo para aproveitar a chance de consolidar o poder da organização como orientadora máxima do Estado, planejadora da sociedade futura e fiadora do caminho brasileiro para o “Eixo do Mal”.

Terá, de lambuja, o exército dos Sem-Terra — mais 300 mil combatentes, doutrinados e fanatizados até o limite da alucinação, muitos deles com treinamento paramilitar, distribuídos ao longo de todas as estradas do país e, conforme já provaram, habilitados a paralisá-las num instante.

Terá os 800 ou mais jornalistas assalariados da CUT e mais não sei quantos militantes e “companheiros de viagem” incrustados nas redações, que, se agora já têm força para expelir do noticiário o que lhes pareça inconveniente ao bom nome do socialismo, muito mais poderão fazer, decerto, quando escorados na autoridade do presidente da República.

Terá a rede inteira de ONGs milionárias — a “quinta-coluna dos direitos humanos”, como a chama o FrontPage Magazine de David Horowitz –, pronta a denunciar na mídia internacional, como crime e conspiração fascista, o que quer que contrarie a vontade suprema de S. Excia.

Terá o apoio armado continental das Farc e de seus agentes na rede nacional do narcotráfico.

Nunca um brasileiro teve ao alcance de suas mãos um painel tão rico e variado de comandos, para brincar de demiurgo socialista com os destinos de cento e sessenta milhões de pessoas.

E é esse o homem que declara que suas promessas tranqüilizantes são indignas de confiança.

Traicion Anunciada

31 de agosto de 2002 | O Globo

Por primera vez en la historia de las elecciones brasileñas, un candidato a presidente admite en público que sus promesas de campaña no son más que un barbitúrico utilizado para tranquilizar a la porción más idiota del electorado y que, una vez en el poder, pretende hacer algo totalmente distinto.

La confesión es tan torpe, tan cínica, que la platea, ante ella, entra en estado de estupor y no hace nada, nada para punir al chistoso. Nada: ni lo desacredita en titulares de ocho columnas, ni organiza actos públicos de protesta, ni pide a la Justicia Electoral la impugnación da su candidatura, ni siquiera registra en la Comisaría del Consumidor una quejilla por propaganda engañosa.

Al contrario: inquietos y temerosos, millones de cómplices se ponen en movimiento, en una agitación silenciosa de los bas fonds, para amortiguar el escándalo y hacer como si nada hubiese pasado.

Hasta las víctimas principales de la añagaza hacen la vista gorda, para no tener que admitir que han sido burladas, en parte también porque lo han sido con su propia ayuda.

Tampoco los demás presidenciables se sienten libres como para sacar provecho de la metedura de pata monumental, pues si lo hiciesen darían a la campaña un cariz de enfrentamiento ideológico que, entre adeptos de una misma ideología, quedaría muy mal. Más que quedar mal, atrasaría el proceso de transición hacia el socialismo, que cada uno de ellos sueña protagonizar con más ingenio y glamour que los otros tres; en eso consiste el único punto de divergencia que les separa en estas elecciones.

Así pues, la más tremebunda y terrible declaración que se haya hecho jamás en una campaña presidencial en este país pasa como si fuese un detalle irrisorio.

¿Se acuerdan del estrago devastador que los medios de comunicación hicieron en la reputación del político que dijo: “Olvídense de lo que he escrito”? Pues nada semejante se hará con el que ahora dice: “Olvídense de lo que he dicho.” Y el primero se refería a obras académicas de treinta años atrás, que no prometían nada concreto en el plano de las acciones prácticas. El segundo, no. Lo que quiere que olvidemos es la totalidad de un programa de gobierno presentado hace pocos meses y repentinamente desenmascarado como un sistema de añagazas publicitarias calculado para encubrir objetivos discretos, si no secretos, sólo confesados entre cuatro paredes a viejos compañeros de militancia. Para armar un alboroto contra el primero, valieron todas las especulaciones maliciosas, todo el humorismo perverso, todas las más escabrosas atribuciones de intenciones. Contra el segundo, no se alegará ni siquiera el sentido explícito y literal de una traición anunciada.

Lo máximo que le pasará al metepatas será recibir una discreta reprimenda de sus amigos y partidarios por haberse ido de la lengua, cosa que antes sólo solía hacer en el sentido fono-audiológico y políticamente inofensivo de la expresión.

En la escalada de la falta nacional de conciencia, llegamos así al último estadio del sopor hipnótico. Ni siquiera el chasquido de dedos del propio hipnotizador puede ya despertar al paciente que ha aprendido a repetirse a sí propio, en sueños, las sugestiones que le han inducido a dormir.

Jamás unas elecciones se han realizado en un estado de tan profunda, total y voluntaria indiferencia ante sus consecuencias, más que previsibles declaradas de antemano.

Pues ese hombre que subirá al poder firmemente dispuesto a hacer lo contrario de lo que ha prometido no será, si es elegido, un presidente como cualquier otro. Será un presidente especial, será el gobernante más poderoso que ya ha existido en Brasil, puesto que, además del mando del Ejecutivo tendrá en sus manos armas de grueso calibre que ninguno de sus antecesores nunca osó ambicionar.

Tendrá, en primer lugar, el Partido — un partido diferente de los demás, un partido revolucionario con 300 mil militantes adiestrados en la rígida disciplina del “centralismo democrático” leninista, dispuestos a todo para aprovechar la ocasión de consolidar el poder de la organización como orientadora máxima del Estado, planeadora de la sociedad futura y fiadora del camino brasileño hacia el “Eje del Mal”.

Tendrá, de propina, el ejército de los Sin-Tierra — 300 mil combatientes más, adoctrinados y fanatizados hasta el extremo de la alucinación, muchos de ellos con entrenamiento paramilitar, distribuidos a lo largo de todas las carreteras del país y, como ya lo han demostrado, capaces de paralizarlas en un instante.

Tendrá los 800 o más periodistas a sueldo de la CUT y no sé cuántos militantes y “compañeros de viaje” más, incrustados en las redacciones, que, si ahora ya tienen fuerza para expurgar de las noticias todo lo que les parece inconveniente para el buen nombre do socialismo, mucho más podrán hacer, sin duda, cuando se apoyen en la autoridad del presidente de la República.

Tendrá la red entera de ONGs millonarias — la “quinta-columna de los derechos humanos”, como la llama el FrontPage Magazine de David Horowitz –, preparada para denunciar en los medios de comunicación internacionales, como crimen y conspiración fascista, todo lo que vaya en contra de la voluntad suprema de S. Exc.

Tendrá el apoyo armado continental de las Farc y de sus agentes en la red nacional del narcotráfico.

Nunca un brasileño ha tenido al alcance de su mano un panel tan rico y variado de mandos, para jugar a demiurgo socialista con los destinos de ciento sesenta millones de personas.

Ése es el hombre que declara que sus promesas tranquilizantes son indignas de confianza.

Astucias Indigenas

31 de agosto de 2000 | Jornal da Tarde

Os índios que anarquizaram os festejos de 500 anos de Brasil e foram reprimidos pela polícia estão exigindo uma indenização bilionária. Um dos pretextos é: “danos culturais”. Mas quanto o Estado deveria cobrar deles pelo dano que, a serviço de potências estrangeiras, infligem à cultura nacional ao negar publicamente a legitimidade da existência do Brasil enquanto nação? Sim, quando proclamam que o território é deles, que todos os que viemos nas caravelas ou nas levas de imigrantes somos intrusos e usurpadores, o que reivindicam é a reintegração de posse do maior latifúndio que já existiu na face da Terra, e a conseqüente dissolução do Estado indevidamente instalado na sua propriedade por um bando de posseiros, arrivistas e criminosos.

Um Estado que aceita discutir nesses termos não precisa nem mesmo ser destruído: ele já acabou. Pois o protesto dos índios não se voltou contra o governo, contra o regime, contra esta ou aquela lei: voltou-se, com toda a força de uma irracionalidade fingida, contra a civilização brasileira no todo – excetuado o elemento indígena – e portanto contra a existência do organismo estatal que é a cristalização jurídica e política da sua obra de cinco séculos. Que o façam de maneira acentuadamente paradoxal, abrigando-se à sombra das leis de um Estado soberano para negar a soberania do mesmo Estado, é um curto-circuito lógico que poderia ser atribuído à ingenuidade pretensiosa de povos ainda mal despertos para as realidades complexas da civilização moderna, se não fosse antes um nonsense planejado, obra da astúcia dos estrategistas europeus e norte-americanos que os orientam, todos eles bem treinados na técnica de suscitar crises pela estimulação contraditória da opinião pública, na arte de desarmar a reação de um povo pelo choque dos sofismas paralisantes. Criar “movimentos sociais” no Terceiro Mundo é hoje uma profissão especializada, ensinada a alunos europeus e norte-americanos em cursos de alto nível nos organismos internacionais. Nenhuma, absolutamente nenhuma reivindicação ou agitação se elevou neste país nos últimos vinte anos sem ser planejada por engenheiros sociais estrangeiros, subdiada por fundações e governos estrangeiros, respaldada pela mídia estrangeira e enquadrada meticulosamente numa estratégia global em que os interesses dos reclamantes entram apenas como gatilhos para desencadear transformações que vão muito além do que esses enfezados marionetes possam imaginar.

Cada um desses movimentos é pura chantagem, calculada para desferir um golpe mortal na soberania do Estado brasileiro. É mais um passo na marcha incessante e brutal de centralização, onde um poder maior, com pretensões ao monopólio, dissolve os poderes intermediários com a ajuda dos grupos menores, descontentes com a situação local.

Já escrevi, outrora, em defesa das culturas indígenas. Mas, hoje, discutir a justiça ou injustiça da causa indígena em abstrato e fora do contexto político mundial é cair num engodo lógico, num jogo de diversionismo hipnótico. Ninguém que queira justiça começa por negar a autoridade do próprio tribunal ao qual recorre. O que os índios e seus mentores estão exigindo não é justiça: é a destruição do tribunal.

A manifestação ocorrida nos festejos tem as marcas inconfundíveis de uma operação planejada por cientistas comportamentais para gerar artificialmente um constrangimento sem saída: permiti-la seria dar caráter oficial à negação da legitimidade do Estado brasileiro; reprimi-la é expor-se a humilhações na mídia internacional e a chicanas jurídicas como esse grotesco pedido de indenização.

Os índios, um dia, foram povos indefesos, que só sobreviveram à derrota graças à generosidade do vencedor, generosidade que eles próprios jamais tiveram para com as tribos que guerreavam. Hoje, eles são uma arma temível nas mãos das potências que regem o mundo, e aproveitam-se dessa situação para tirar vantagens abusivas e destruir o Estado que os acolheu e lhes deu direitos especiais. A malícia de sua estratégia revela que já não têm mais nada do pretenso caráter “primitivo” que um dia justificou a promulgação desses direitos: alcançaram a maioridade, tornaram-se um grupo político moderno, astucioso e perigoso, aliado de interesses imperialistas e inimigo jurado da nação brasileira.

Em 31 de agosto de 2000

A Mao Esquerda 3

30 de setembro de 2000 | Época,

Hoje ela é poderosa porque é invisível; a outra mão ainda nem começou a se mexer Algo que os eleitores ignoram completamente hoje em dia é que os partidos de esquerda não funcionam como os outros partidos. Estes se constituem exclusivamente de seus membros inscritos, de seus funcionários, diretores e representantes no Legislativo e no Executivo. A esquerda, além de tudo isso, conserva toda a rede de conexões secretas que sempre formou a base da militância revolucionária, que se expandiu formidavelmente durante os anos de clandestinidade e, após a restauração democrática, ampliou-se mais ainda sob a proteção da mentalidade conciliadora e preguiçosa da direita.

Para fazer face a isso, simplesmente não há direita organizada. Confiando na soberania do processo eleitoral, os partidos conservadores ocupam-se exclusivamente dos mecanismos ostensivos de propaganda e coleta de votos. Estão completamente fora das áreas extra-oficiais, que foram deixadas à mercê da voracidade esquerdista, num convite a que arrombasse uma porta aberta. Hoje eles não têm sequer militantes para contrabalançar a gritaria da esquerda em manifestações de massa. Nunca mais, neste país, se viu um confronto de rua, violento ou pacífico, entre grupos de direita e de esquerda. Onde quer que apareça o povão reunido, é sob as ordens da esquerda. A esquerda tem o monopólio das ruas, a direita faz intrigas de gabinete: o estereótipo publicitário esquerdista tornou-se realidade.

Mas, além das organizações de massa, a esquerda tem quatro armas decisivas, todas secretas ou discretas: a rede de espiões e informantes; a rede de disciplinados agentes de influência na mídia e nas universidades; a rede de colaboradores bem encaixados em postos essenciais da polícia, da Justiça, da administração pública; e a rede de ONGs sempre prontas a dar respaldo internacional a toda palavra de ordem das lideranças locais.

Isso permite ações de grande envergadura, cujos efeitos chovem de vários lados simultaneamente, dando a impressão de uma harmonia espontânea das várias correntes da opinião pública. Em cada emergência, basta acionar as redes e pronto: daqui vem uma notícia de TV, de lá uma manifestação pública, de acolá uma peça de teatro infantil, de mais adiante um comentário na imprensa de Paris ou de Londres, um sermão repetido em todas as igrejas, um parecer técnico firmado por autoridade científica sempre insuspeitíssima. Eis como se cria, sob encomenda, a fachada de unanimidade avassaladora que parece brotar do coração do povo tão naturalmente quanto o sol nasce ou o vento sopra. Tais operações não são, de maneira alguma, raras e excepcionais. São o dia-a-dia de um movimento que, há mais de um século, cultiva a prática das ações encobertas e tem no espírito de clandestinidade um dos componentes tradicionais de seu modo de ser.

Este país não conhecerá a normalidade democrática enquanto a esquerda não abdicar de sua eterna vocação de agir por baixo do pano sob a desculpa de que é perseguida e coitadinha demais para ser sincera e franca. Há também a hipótese de a direita começar a conspirar, por seu lado, para quebrar a mão invisível que hoje move os cordões da opinião pública. Mas então restará a pergunta temível: uma das mãos paralisará a outra ou as duas se unirão para nos estrangular?

Em 30 de setembro de 2000

O Velhinho Comunista

30 de setembro de 1999 | Jornal da Tarde

Nos tempos antigos, em cada cidade do interior existia um velhinho erudito que vivia entre livros e não conversava com ninguém. Como compensação talvez de seu isolamento, era em geral comunista – e se não era, ao menos tinha fama de ser, já que nesses meios ninguém sabia em que podia consistir o tal comunismo, razão pela qual a palavra que o nomeava era usada para designar qualquer conduta suspeita que não fosse adultério ou pederastia. E nada mais suspeito, é claro, do que ler livros.

Foi assim que ser comunista – ou, melhor ainda, parecer comunista – se tornou um emblema convencional de cultura. E quando a expansão do ensino público, obra dos governos militares açambarcada pela militância esquerdista, deu a imensas populações o acesso ao vocabulário do Partidão e da AP, aí foi uma festa: todo menino que adquirisse os cacoetes verbais do esquerdismo sentia-se um sujeito cultíssimo, habilitado a opinar sobre política, religião, moral, metafísica e viagens espaciais. As eleições trouxeram quantidades maciças dessas criaturas para o Parlamento, a seleção dos jornalistas por diploma colocou-as nas redações, o crescimento do ensino universitário elevou-as a professores e reitores. Foi inevitável que essa gente logo tratasse de nivelar todos os valores culturais pela sua própria estatura, sendo nisto reforçada pela providencial ascensão do “politicamente correto” na Grande República do Norte, a qual, justamente por ser a terra do abominável capitalismo, foi declarada testemunha insuspeita para opinar no caso. E tão universal aceitação alcançou o novo sentido da palavra “cultura”, que até as classes ricas, que tinham acesso a um ensino melhorzinho, abdicaram dele para não perder o trem da História, e hoje acham inteiramente natural pagar mensalidades pesadíssimas em colégios de luxo para que aí seus filhos aprendam, democraticamente, a não saber mais do que os outros. Na década de 70, o romancista Osman Lins fez um exame da nossa literatura didática e encontrou um panorama de desoladora estupidez. Na época, foi fácil atribuir ao governo militar a culpa das enormidades que esse material escrito impingia às nossas crianças. Mas as hordas esquerdistas que, com a redemocratização, tomaram de assalto todos os órgãos educacionais, estão lá há 20 anos e conseguiram tornar ainda mais patético, pelas altas presunções modernosas que o legitimam, o conteúdo dos livros didáticos.

Em resultado, a burrice das elites falantes brasileiras raia hoje o calamitoso e é, no fim das contas, o único problema nacional – o único problema substantivo, do qual todos os demais derivam como seqüelas e corolários que a eliminação dele suprimiria automaticamente, sem esforço.

No entanto, basta abrir os jornais, ligar a televisão ou – com um pouco mais de caridade – assistir a congressos acadêmicos para notar que todos os problemas são discutidos, menos esse. É lógico: quem discute é a própria elite falante, e ela necessita chamar a atenção para mil e um problemas para que ninguém perceba que ela mesma é o problema. Discute-se principalmente a educação popular, nunca a educação da elite incumbida de educar o povo – o que leva o ingênuo ouvinte a pressupor que, essa elite já existindo e estando preparadíssima, só falta educar os outros...

A incapacidade de pensar, a rombuda incompreensão de palavras e argumentos, a tendência incoercível a raciocinar por slogans e termos da moda, o empirismo tolo que se perde em detalhes e casuísmos por incapacidade de abstração, a compulsão senil de rebaixar o nível de exigência intelectual para agradar a uma platéia “popular” que no fundo está pouco se lixando para isso, a redução de todos os debates ao confronto mais imediatista de governo e oposição – tudo isto mostra que o Brasil entregou o seu destino mental ao guiamento de um bando de macacos que só sabem pular, se exibir e pedir pipocas.

Visto de longe, esse espetáculo se torna ainda mais grotesco. Gilberto Amado dizia que tinha um orgasmo cada vez que via um brasileiro capaz de juntar premissa e conclusão. Hoje ele viveria numa privação ascética de fazer inveja a Santo Antão.

E dizer que tudo isso começou porque o pessoal decidiu tornar-se culto e, vendo o exemplo do velhinho comunista, achou que para ser culto bastava ser comunista...

Em 30 de setembro de 1999

O Imbecil Do Pires E O Meu

30 de setembro de 1996 | 30 de setembro de 1996

Relembrando o Pires Pires, no caso, não é aquela concavidade, geralmente de louça ou porcelana, em que se apóia a bunda da xícara. É um ser humano, com todos os atributos aparentes da espécie, inclusive o ridículo de nascença. Apenas, ele vai, neste particular, um pouco além da média humana, provando, para gáudio dos igualitaristas, que todo mundo pode ser superior em alguma coisa.

Pelo texto que a seguir reproduzo, e diante do qual o Pires permaneceu mudo e estatelado como sói acontecer com os objetos de louça quando admoestados, o leitor poderá notar que o Pires estava particularmente qualificado para escrever, com a maior isenção , sobre a minha edição dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux , sendo por isto escolhido para essa tarefa pelo seu chefe, isto é, por ele mesmo. Sim, o Pires dirige o caderno Prosa ao Inverso , e não pode nem mesmo alegar que só escreveu porque lhe mandaram.

Data venia do falecido presidente Jânio, o Pires fê-lo porque qui-lo . Fê-lo porque gosta. Fê-lo porque é o Pires, porque está condenado a sê-lo pelo resto de seus dias e porque nada se pode fazer para salvá-lo desse destino.

Que o Pires é um sujeito isento, é coisa que não nego. Só não me perguntem isento de quê, porque, se perguntarem, eu digo.

Sua resenha do meu trabalho também foi isenta — isenta de qualquer referência e esse trabalho.

Certa vez, quando o editor do caderno hoje dirigido pelo Pires era Luciano Trigo, fui convidado para escrever a resenha de um livro de João Ricardo Moderno. Respondi que, sendo o autor um notório inimigo meu, eu só faria a resenha se, lendo a obra, encontrasse nela algo que pudesse louvar. Qualquer jornalista digno do nome faria o mesmo. Mas eu sou do tempo em que a ética ainda não tinha voltado a ser tal como era antes de Sócrates, isto é, tal como a entendia o velho Alcebíades: ajudar os amigos e sacanear os inimigos.

O Imbecil do Pires e o meu Extraído de O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (2 a ed., Rio, Faculdade da Cidade Editora, 1997).

É manifesto que o crítico Paulo Roberto Pires ( Prosa & Verso , 31 de agosto ) não gostou do meu livro O Imbecil Coletivo . Tanto não gostou que inventou outro e escreveu sobre ele, jurando que era o meu. Superando além de toda medida o mero “não li e não gostei”, inaugura-se assim uma nova e mais econômica modalidade de crítica literária, que prescinde do autor, do editor e do livro, ficando todas essas funções reunidas na pessoa do crítico. Para que o leitor faça uma idéia de como se pratica o novo gênero, assinalo aqui algumas das diferenças substanciais entre o livro que escrevi e aquele que o crítico comentou:

Segundo o Pires, chamo as pessoas de “medalhões”. A palavra “medalhão” só aparece duas vezes no meu livro: na citação do título “Teoria do Medalhão” de Machado de Assis, e na explicação do uso que dela faz Lima Barreto. Não qualifiquei uma única pessoa com esse adjetivo.

“A seus olhos – diz o Pires – , a presença de autores estrangeiros nos papers universitários, ensaios e suplementos culturais é sinal de subserviência intelectual.” Não afirmei nem afirmaria jamais uma asneira dessas, que o Pires mesmo inventou com a finalidade mal disfarçada de fazer-me parecer um asno.

Segundo o Pires, meu livro acusa sistematicamente de “macaqueação” quem quer que cite um autor que não me agrade. Onde ele viu isso? Ao longo de todas as páginas, não acuso ninguém de macaquear qualquer autor que seja, quer me agrade ou não.

Ainda segundo o Pires, insinuo que sou perseguido pela massa ignara. Nunca insinuei nem afirmei isso, muito menos no livro. O único ignaro que me persegue é o Pires.

Informa o mesmo Pires que acuso os intelectuais de “conservadores”. Não encontro nada disto no meu livro, mesmo porque, no meu entender, nem “conservador” é xingamento, nem “progressista” é elogio, embora possam sê-lo para o Pires, sujeito progressista a mais não poder.

Na contagem do Pires, meu livro tem 289 páginas. Nem nisto o infeliz diz a verdade: tem 383.

Por que o Pires não pode, como os críticos normais, se ater fielmente ao texto que pretende criticar? Por que tem de inventar um texto fictício para fazê-lo posar em lugar de um livro do qual não sabe sequer o número de páginas, e que provavelmente só conhece por referências de terceiros ou por uma lambida muito rapidinha no índice e no prólogo? A resposta é simples: é que ele não pretende criticar, nem mesmo impiedosamente, um texto. Quer difamar um homem, destruir-lhe o crédito e a auto-estima, feri-lo psicologicamente e criar em torno dele uma atmosfera de hostilidade maliciosa e suspicaz — propósito que só não se cumpre em razão da fraqueza do agressor e do bom estado de saúde da vítima. Prova suplementar dessa intenção, caso fosse preciso, é que o Pires não se contenta com falsificar o conteúdo da obra, mas se aventura a colar um rótulo depreciativo e falso diretamente na pessoa do autor: segundo ele, sou filósofo apenas por autodenominação . Mas não me autodenomino coisa nenhuma, nem poderá o Pires assinalar uma única página d’ O Imbecil Coletivo onde eu o tenha feito. Sou assim denominado pela Academia Brasileira de Filosofia — onde acabo de ser publicamente homenageado nessa condição —, pelo Instituto Brasileiro de Filosofia, pela Faculdade da Cidade, pela Universidade Católica do Salvador, por muitos intelectuais de primeira ordem e pelo mesmo jornal onde o Pires escreve mal que dói. Não podendo ignorar esse fato notório, o Pires mentiu deliberadamente, com intuito de difamação, nisto como em tudo o mais que falseou. E após ter assim procurado ferir de maneira intencional a dignidade de um sujeito que ele nunca viu e que nunca lhe fez mal algum, o Pires ainda o acusa de “grosseiro”. Certo, certo. O Pires é que é fino. Fino e de porcelana como um urinol do Império.

No seu dedicado empenho de tudo distorcer, o Pires chega a trocar o sujeito das minhas frases. Segundo ele, afirmo que meu trabalho “é mais que uma alusão satírica”. Digo isso do título, não do livro. Mas como o Pires leu do livro pouco mais que o título, compreende-se a troca.

E tal é sua ânsia de destruir, que ele não recua diante das maiores temeridades no uso de uma lógica extravagante. Ele diz que meu livro está cheinho de contradições. Mas, com inexplicável comedimento, cita uma só: é que o autor “não prescinde da mesma mídia que condena”. Conclui-se que, para o Pires, toda crítica à mídia, para ter coerência, deve abster-se de ser divulgada. O Pires, além de não saber ler, definitivamente não raciocina. Ademais, não condenei mídia nenhuma, apenas o uso que os Pires fazem dela.

O Pires, em resumo, não gostou nem leu: inventou. Sua crítica é pura fraude, que não vai enganar a ninguém. Nem sequer a ele mesmo, que já revela, no fundo, a sujidade da sua consciência. Querem ver? Segundo ele, o “formulário-padrão”, em que vacino meu livro contra os chavões da maledicência, “anula qualquer possibilidade de diálogo”. Deduz-se daí, inescapavelmente, que o Pires não concebe nenhuma outra forma de diálogo possível senão as rotulações padronizadas que o “formulário” satiriza. E ele se sente muito constrangido porque, não sabendo fazer outra coisa, já não pode mais exercer esse tipo de “diálogo” sem se autodenunciar no ato. Nunca vi tanta pressa em vestir uma carapuça.

Sem Novidades Exceto As Piores

30 de outubro de 2006 | Diário do Comércio

Com a reeleição de Lula, o Brasil continuará sendo governado diretamente das assembléias e grupos de trabalho do Foro de São Paulo, sem a mínima necessidade de consultar o Parlamento ou dar satisfações à opinião pública; o direito da esquerda ao crime e à mentira, já exercido sem maiores restrições, será consagrado como cláusula pétrea da moral política nacional, e os que a infringirem se sentirão pecadores e réprobos; os representantes das Farc e do Mir continuarão circulando livremente pelo território onde vendem drogas e seqüestram brasileiros; os cinqüenta mil homicídios anuais subirão para sessenta ou setenta, mas a liquidação de quadrilhas locais concorrentes da narcoguerrilha colombiana continuará sendo apresentada como vitória esplêndida da lei e da ordem; o MST continuará ditando a política agrária federal; e os empresários que não participem de mensalões ou esquemas similares continuarão sendo criminalizados pela Receita. Até aí, tudo será como antes, exceto do ponto de vista quantitativo, no sentido de que o ruim ficará incalculavelmente pior. As únicas novidades substantivas previsíveis são as seguintes:

(1) Nossas Forças Armadas, que até agora conseguiram adiar um confronto com a realidade, terão de escolher entre continuar definhando ou integrar-se alegremente na preparação de uma guerra continental contra os EUA, ao lado das Farc e sob o comando de Hugo Chávez.

(2) Como Lula promete para o seu segundo mandato a “democratização dos meios de comunicação”, os órgãos de mídia que se calaram quanto aos crimes maiores do presidente serão recompensados mediante a oficialização da mordaça. Não deixa de ser um upgrade .

(3) Alguns políticos com veleidades legalistas, que faziam alarde de querer punir os crimes do PT, partirão para o adesismo retroativo e inventarão para isso justificativas sublimes. Tudo o que ficou impune será esquecido ou premiado.

Geraldo Alckmin perdeu porque sacrificou sua candidatura, sua consciência e até sua religião ao voto de silêncio no que diz respeito ao abortismo, ao Foro de São Paulo, às ligações de Lula com as Farc e do PT paulista com o PCC. No último debate, uma insinuação velada – ou ato falho — mostrou que ele estava bem avisado pelo menos quanto a este último ponto, mas não queria passar a informação aos eleitores. Gastou seus quinze minutos de fama empregando nisso o melhor da sua covardia, e não se pode dizer que se esforçou em vão. Simultaneamente, um artigo meu sobre o Foro de São Paulo era censurado na Zero Hora de Porto Alegre e o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh fazia o que podia para calar o jornal eletrônico Mídia Sem Máscara . No tópico do abortismo, pela primeira vez na história das eleições no mundo um partido proibiu, com sucesso, toda menção pública a um item do seu próprio programa oficial. Os que violaram o voto de censura pagaram pela audácia: o arcebispo do Rio de Janeiro teve sua casa invadida pela polícia e, em Belo Horizonte, dois jovens foram presos por distribuir folhetos sobre o compromisso firmado por Lula no sentido de legalizar o aborto no país. Nunca um partido teve um controle tão completo sobre a lista dos argumentos permitidos e proibidos na propaganda eleitoral. Os últimos dias da campanha deram uma amostra do que o segundo mandato de Lula promete ao Brasil.

Em 30 de outubro de 2006

Para Alem Do Charlatanismo

30 de outubro de 2003 | Jornal da Tarde

Entre outros serviços que presta à humanidade, o dr. Emir Sader publica regularmente na internet uma coluna denominada “O Mundo pelo Avesso”. O intuito pedagógico já se revela no título: significa que, para saber o que se passa no mundo, basta inverter o que diz o colunista.

Agora, por exemplo, ele nos dá esta definição de esquerda e direita, que extraiu de Norberto Bobbio: “No nosso tempo, todos os que defendem os povos oprimidos, os movimentos de libertação, as populações esfomeadas do terceiro mundo, são a esquerda. Aqueles que, falando do alto do seu interesse, dizem que não vêem por que distribuir um dinheiro que suaram para ganhar, são e serão a direita.”

O discurso de auto-exaltação de uma corrente política, sozinho ou acompanhado das conclusões depreciativas que dele se deduzam quanto à corrente adversária, não constitui jamais uma definição desta ou daquela, mas apenas um dado, entre outros, do próprio complexo fenomênico que se pretendia definir. Será tão difícil perceber a diferença entre uma definição de “porco” e um rabo de porco ou pé de porco? Rabo, pé, orelha, pernil — tudo isso são dados, entre outros, da entidade porcina, dos quais se há de extrair, por síntese abstrativa, a definição buscada. O erro de lógica que Bobbio comete e Sader aplaude é grosseiro demais para ser tolerado mesmo num menino de ginásio. Mas é precisamente para isso que alguns sujeitos tiram diploma de cientistas políticos: para poder dar a tolices pueris, quando lhes convêm, a aparência enganosa de opinião séria e científica.

Qualquer corrente política, para ser corretamente conceituada, tem de ser examinada na junção de dois níveis, pelo menos: seu discurso ideológico e sua ação histórica efetiva. Bobbio e Sader omitem-se de cumprir essa exigência elementar por um só motivo: sabem que, se algum sistema econômico deste mundo gera fome e miséria em proporções alarmantes, é o socialismo. Nenhum outro conseguiu matar à míngua, com um só plano econômico, trinta milhões de pessoas, como Mao Tsé-tung fez no “Grande Salto para a Frente” da agricultura chinesa. Nenhum conseguiu baixar a quota de proteínas ingeridas pelo cidadão médio para uma quantidade inferior à de seis décadas antes, como a URSS dos anos 80. O socialismo produz tanta fome, que acabou por assumi-la como coisa útil, transformando-a em arma estratégica para liquidar oito milhões de camponeses ucranianos rebeldes.

A corrente política que na prática gerou esses efeitos pode, é claro, alegar que o fez com a melhor das intenções humanitárias. O que não pode é ser definida por um cientista político unicamente com base nessa pretensão autolisonjeira, abstraída daquela prática e de seus resultados. Pois, como fenômeno objetivo, a esquerda mundial aparece definida justamente por essa contradição, pelo contraste chocante entre a generosidade das alegações e a miséria das realizações, nunca pelas alegações em si, amputadas de toda substância histórica e consideradas tão somente na sua intencionalidade verbal de idéias puras.

Mutatis mutandis , a recusa egoísta de socorrer o pobre não é um programa assumido declaradamente por nenhuma corrente política direitista, conservadora ou capitalista, mas uma intenção maligna que lhes é atribuída, desde fora, pela ideologia adversária. Conceder a um partido o privilégio de autodefinir-se pelos seus méritos idealizados e de definir ao mesmo tempo o adversário pela atribuição pejorativa de intenções, isso não é ciência política nenhuma: é charlatanismo explícito.

Mas Sader vai além: exige que todos se assumam como direitistas ou esquerdistas segundo a definição citada, qualquer recusa de enquadrar-se na estereotipagem bobbiana sendo condenada in limine como hipocrisia: “Escolha o seu lado e lute por ele, sem esconder seus valores.” O dever primordial e supremo do homem sincero, portanto, consiste em mentir: mentir em favor de si mesmo, se está na esquerda; contra si mesmo, se está na direita, tornando-se assim o direitista ideal da esquerda, aquele que não precisa sequer ser difamado porque consente em difamar-se a si próprio. Chamar essa proposta de charlatanismo seria eufemístico. A malícia de impor a colaboração com o engodo como uma obrigação moral das vítimas está acima dos talentos do charlatão vulgar. O dr. Sader põe nisso um toque de gênio — o único, creio eu, que a natureza avara lhe concedeu nesta vida.

Em 30 de outubro de 2003

Os Comunistas Na Chefia

30 de novembro de 2011 | Diário do Comércio

Ainda a propósito da “imprensa nanica” dos tempos da ditadura, duas notas:

(1) Tão logo publicados os meus artigos sobre o assunto, a leitora Míriam Macedo teve a gentileza de me enviar uma cópia da tese “Preparados, leais e disciplinados: os jornalistas comunistas e a adaptação do modelo de jornalismo americano ao Brasil” (2007), dos pesquisadores Afonso de Albuquerque e Marco Antonio Roxo da Silva, ambos da Universidade Federal Fluminense (v.

http://www.compos.org.br/files/22ecompos09_Albuquerque_Silva.pdf ). A tese confirma integralmente o que eu disse: nunca houve uma fronteira nítida, muito menos um abismo de diferença entre a “grande mídia” e a “imprensa alternativa” no período militar. A esquerda tinha poder de mando numa como na outra. Numa revisão de praticamente toda a bibliografia publicada a respeito, os autores concluem: “Os comunistas tiveram uma presença significativa nos jornais desse período, tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo (cargos de chefia).” E não se tratava apenas de infiltrados individuais: o PCB atuava ali organizadamente, como centro de comando subterrâneo embutido na hierarquia formal das redações. A mídia alternativa nunca foi um refúgio de excluídos e marginalizados: foi um pseudópodo lançado pela esquerda dominante desde a chefia dos grandes jornais, um instrumento auxiliar na longa luta dos comunistas brasileiros pelo domínio monopolístico dos canais de informação, luta que hoje vai alcançando o seu ponto culminante com o projeto fatídico do “Marco Regulatório das Comunicações”, que virtualmente submeterá ao governo petista o controle das informações circulantes no país. A História, para os comunistas, nunca foi apenas um estudo erudito, mas um instrumento de ação política. A auto-idealização sentimental do velho jornalismo de esquerda não é, portanto, uma simples falsificação do passado: é a preparação do futuro império da falsidade.

(2) Não imaginem que, ao escrever meus dois artigos a respeito, eu tenha examinado as narrativas dos porta-vozes da velha “mídia alternativa” com malevolência de crítico azedo. Faltava-me qualquer motivo para isso, no mínimo porque fui eu mesmo um personagem daquela história, tendo colaborado com vários órgãos da imprensa então dita “nanica” e participado até mesmo do lance mais decisivo da série, cantado em prosa e verso nos longos depoimentos de Audálio Dantas, José Hamilton Ribeiro e Fernando Pacheco Jordão ao documentário do Instituto Vladimir Herzog. Refiro-me à edição do célebre número 4 do jornal “Unidade”, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, que denunciou pioneiramente o assassinato de Herzog e acabou por desencadear uma onda nacional de protestos contra o regime. A juventude dessas criaturas foi a minha. A diferença entre nós é que, ao chegar à maturidade, reexaminei minha vida com senso crítico em vez de me deixar estagnar na deleitação caquética de um mito corporativo, para não dizer de uma mentira deliberada, consciente, maquiavélica. Uma coisa que compreendi, e que essa gente não parece ter compreendido até hoje, é que nenhum ódio que tivéssemos ao regime autoritário brasileiro, por mais legítimo que fosse, poderia jamais justificar a cumplicidade da nossa geração de jornalistas com as ditaduras genocidas da URSS, da China, da Hungria, da Alemanha Oriental, do Vietnam, do Camboja, da Coréia ou de Cuba. E não se trata apenas de comparar, em abstrato, ditaduras com ditaduras. Vários desses governos davam orientação, ajuda e treinamento aos terroristas brasileiros, tornando-se portanto personagens ativos do drama nacional. Qualquer tentativa de isolar uma coisa da outra, de modo a fazer os comunistas brasileiros parecerem puras vítimas da violência alheia, sem culpa pelo que seus mandantes e parceiros faziam no mundo, falsifica por completo a realidade do quadro histórico. Quando lembro o tempo que despendi na sede do Sindicato, preparando aquela e outras edições do “Unidade”, nas ruas gritando slogans comunistas ou em casa escondendo fugitivos do regime, não me vejo como um herói, à maneira dos comovidos apologistas de si mesmos, nem como miniatura de herói, mas como um idiota útil, privado do senso das proporções, incapaz de medir a gravidade relativa dos males e entender que a ditadura brasileira, por execrável que fosse em si mesma, era um preço módico a pagar pela eliminação da ameaça comunista, cuja existência negávamos com cinismo exemplar ao mesmo tempo que nós mesmos a representávamos pessoalmente e tudo fazíamos para que ela se realizasse. “Éramos jovens”, pode-se alegar. É, éramos mesmo, mas não somos mais. Não temos o direito de falsificar toda a memória histórica de um país só para continuar dando a impressão de que éramos lindos. O simples fato de que essa operação-camuflagem assuma hoje o nome de “Comissão da Verdade” já mostra que o fingimento se tornou, entre os esquerdistas brasileiros, um estilo de vida.

P. S. — Do ponto de vista da emocionada autolatria comunista, a expressão acima, “preço módico”, soará cruel e escandalosa. Discutirei isso em artigo vindouro, mas desde já advirto: na política e na ciência que a estuda, a comparação da gravidade relativa dos males, da qual a esquerda nacional hoje foge como o diabo da cruz, é uma exigência incontornável e a base de quase todos os diagnósticos e decisões. Qualquer tentativa de evitá-la é pura hipocrisia e culto da ignorância politicamente conveniente.

Em 30 de novembro de 2011

O Mal Na Politica

30 de março de 2014 | Diário do Comércio

Muitas vezes o leitor já deve ter-se perguntado como é possível que tantas pessoas, aparentemente racionais, amem e aplaudam os governos mais perversos e genocidas do mundo e se recusem a enxergar a liberdade e o respeito de que elas próprias desfrutam nas democracias ocidentais, ao mesmo tempo que continuam acreditando, contra todas as evidências, que são moral e intelectualmente superiores aos que não seguem o seu exemplo.

Hoje em dia essas pessoas, no Brasil, são a parcela dominante no governo, no Parlamento, nas cátedras universitárias, no show business e na mídia. A presença delas nesses altos postos garante a este País setenta mil homicídios por ano, o crescimento recorde do consumo de drogas, o aumento da corrupção até a escala do indescritível, cinquenta por cento de analfabetos funcionais entre os diplomados das universidades e, anualmente, os últimos lugares para os alunos dos nossos cursos secundários em todos os testes internacionais, abaixo dos estudantes de Uganda, do Paraguai e da Serra Leoa. Sem contar, é claro, indícios menos quantificáveis, mas nem por isso menos visíveis, da deterioração de todas as relações humanas, rebaixadas ao nível do oportunismo cínico e da obscenidade, quando não da animalidade pura e simples.

Isso torna a pergunta ainda mais crucial e urgente. A resposta, no entanto, vem de longe.

Sessenta e tantos anos atrás, alguns estudantes de medicina na Polônia, na Hungria e na Checoslováquia começaram a notar que havia algo de muito estranho no ar. Eles haviam lutado na resistência antinazista junto com seus colegas, e isto havia consolidado laços de amizade e solidariedade que, esperavam, durariam para sempre. Aos poucos, após a instauração do regime comunista, novos professores e funcionários, enviados pelos governantes, estavam alterando profundamente o ambiente moral nas universidades daqueles países. Um jovem psiquiatra escreveu:

“nós sentíamos que algo estranho tinha invadido nossas mentes e algo valioso estava se esvaindo, de forma irreparável. O mundo da realidade psicológica e dos valores morais parecia suspenso em um nevoeiro gelado. Nosso sentimento humano e nossa solidariedade estudantil perderam seus significados, como também aconteceu com o patriotismo. Então, nos perguntamos uns aos outros: ‘Isso está acontecendo com você também?’” Impossibilitados de reagir, eles começaram a trocar ideias, perguntando como poderiam se defender da devastação psicológica geral. Aos poucos essas conversações evoluíram para o plano de um estudo psiquiátrico da elite dirigente comunista e da sua influência psíquica sobre a população.

O estudo prosseguiu em segredo, durante décadas, sem poder jamais ser publicado. Aos poucos os membros da equipe foram envelhecendo e morrendo (nem sempre de causas naturais), até que o último deles, o psiquiatra polonês Andrej Andrew) Lobaczewski (1921-2007), reuniu as notas de seus colegas e compôs o livro que veio a sair pela primeira vez no Canadá, em 2006, e que agora a Vide Editorial, de Campinas, está para publicar em tradução brasileira de Adelice Godoy:

Ponerologia. Psicopatas no poder , do qual extraí o parágrafo acima.

“Poneros”, em grego, significa “o mal”. O mal, porque o traço dominante no caráter dos novos dirigentes, que davam o modelo de conduta para o resto da sociedade, era inequivocamente a psicopatia. O psicopata não é um psicótico, um doente mental. É uma pessoa de inteligência normal ou superior, às vezes dotada de uma capacidade incomum para agir no ambiente social. Só lhe falta uma coisa: os sentimentos morais, especialmente a compaixão e a culpa. Não que ele desconheça esses sentimentos.

Conhece-os perfeitamente, mas os vivencia de maneira puramente intelectual, como informações a ser usadas, sem participação pessoal e íntima. Quanto maior a sua frieza moral, maior a sua habilidade de manipular as emoções dos outros, usando-as para os seus próprios fins, que, nessas condições, só podem ser malignos e criminosos. Justamente porque não sentem compaixão nem culpa, os psicopatas sabem despertá-las nos outros como quem toca um piano e produz o acorde que lhe convém.

Não é preciso nenhum estudo especial para saber que, invariavelmente, o discurso comunista, pró-comunista ou esquerdista é cem por cento baseado na exploração da compaixão e da culpa. Isso é da experiência comum.

Mas o que o dr. Lobaczewski e seus colaboradores descobriram foi muito além desse ponto. Eles descobriram, em primeiro lugar, que só uma classe de psicopatas tem a agressividade mental suficiente para se impor a toda uma sociedade por esses meios. Segundo: descobriram que, quando os psicopatas dominam, a insensitividade moral se espalha por toda a sociedade, roendo o tecido das relações humanas e fazendo da vida um inferno. Terceiro: descobriram que isso acontece não porque a psicopatia seja contagiosa, mas porque aquelas mentes menos ativas que, meio às tontas, vão se adaptando às novas regras e valores, se tornam presas de uma sintomatologia claramente histérica, ou histeriforme.

O histérico não diz o que sente, mas passa a sentir aquilo que disse – e, na medida em que aquilo que disse é a cópia de fórmulas prontas espalhadas na atmosfera como gases onipresentes, qualquer empenho de chamá-lo de volta às suas percepções reais abala de tal modo a sua segurança psicológica emprestada, que acaba sendo recebido como uma ameaça, uma agressão, um insulto.

Karl Marx Na Fonte Da Juventude

30 de julho de 2007 | Diário do Comércio

O recente “tsunami Marx que acaba de invadir as prateleiras das livrarias de todo o País”, como o qualifica entusiasticamente O Estado de S. Paulo do dia 22, comprova, da maneira mais clara possível, algo que venho dizendo há tempos: o bom e velho Partido Comunista ainda domina a indústria editorial e a mídia cultural no Brasil, aí exercendo um poder mais vasto e eficiente até do que nos anos 50 ou 60.

É natural que esse controle monopolístico do mercado jamais admita sua própria existência, procurando, ao contrário, explicar a onipresença retumbante da propaganda marxista nas livrarias como se fosse um fenômeno espontâneo gerado pela pura “vitalidade intelectual” do marxismo, imune ao fracasso econômico dos regimes socialistas.

Mas essa vitalidade intelectual simplesmente inexiste.

Nove décimos do “pensamento marxista” desde a morte de Marx consistem em produzir novos significados para a doutrina do mestre, de modo que ela acabe dizendo o que não dizia antes e, a cada vez que é refutada pelos fatos, pareça emergir do confronto revigorada e vitoriosa.

Uma das estratégias mais freqüentes usadas para esse fim é dissolver a estrutura da teoria tal como aparece nos escritos de Marx e reconstruí-la desde algum ângulo que pareça mais vantajoso – ou menos vexaminoso – desde o ponto de vista do estado presente dos conhecimentos.

O marxismo, como o darwinismo, não sobrevive ao teste do tempo mediante repetidas comprovações da sua veracidade originária, como acontece com a aritmética elementar ou com a tabela periódica dos elementos, mas mediante a descoberta – ou invenção — de novas veracidades possíveis ocultas sob os escombros das suas pretensões refutadas.

Qualquer teoria, beneficiada ciclicamente por esse tratamento rejuvenescedor, pode adquirir uma espécie de eternidade. O que os responsáveis por semelhante milagre geriátrico jamais informam à deslumbrada platéia é que esse tipo de vida eterna não é próprio das teorias científicas e sim dos símbolos literários, que, justamente por não terem significados estáveis e definitivos, podem sempre se enriquecer de novos e novos significados, até mesmo contraditórios entre si, à medida que a experiência os sugira à fértil imaginação de cada interessado. Mergulhado de tempos em tempos nessa fonte da juventude, até mesmo o “eterno retorno” nietzscheano pode retornar eternamente sem que ninguém jamais consiga refutá-lo de uma vez por todas, embora todo mundo saiba que ele é falso.

Mas essa estratégia, no caso do marxismo, seria impotente para obter resultados tão animadores se não fosse secundada por uma técnica ainda mais sutil e maravilhosa, que é a de camuflar as ações e os efeitos da própria militância marxista sob a aparência de forças sociais impessoais que, hipostasiadas, posam então de agentes da história em lugar dos agentes de carne e osso a serviço dos movimentos revolucionários. Não deixa de haver uma certa virtude ascética na humildade com que os exércitos de formadores de opinião e agentes de influência esquerdistas renunciam ao mérito histórico das suas ações e desaparecem por trás do cenário, atribuindo os resultados de seus esforços à dialética anônima do “mercado”, a qual, abstração feita da guerra cultural incessante movida pela militância esquerdista para corromper o capitalismo desde dentro, parece até funcionar como Marx disse que funcionaria.

O acontecimento mental mais importante e notório da segunda metade do século XX é a disseminação do “marxismo cultural” entre as classes superiores no mundo ocidental. Ela tem como corolário inevitável a apostasia geral em relação aos valores morais e religiosos que fundaram o capitalismo. Na geração dos baby-boomers que hoje brilham nos altos postos das finanças, da indústria, da mídia e do show business , quem não aderiu francamente ao esquerdismo e ao anti-americanismo ao menos abjurou por completo das crenças religiosas dos seus pais e se imbuiu de um progressismo darwinista ou de um liberalismo amoral que não hesita em promover as causas esquerdistas – especialmente o abortismo e o gayzismo –, pensando só nas vantagens econômicas imediatas que isso pode lhe trazer e nem de longe se preocupando com as conseqüências sociais, culturais e políticas de longo prazo. O resultado é que a democracia vai sendo minada nas suas bases por meio dos mesmos instrumentos econômicos criados para fomentá-la. Se, nesse panorama, você fizer abstração do fator “guerra cultural”, que é o principal determinante do conjunto, restará apenas a contradição crescente entre democracia e enriquecimento capitalista, dando razão aparente à previsão de Marx. Assim os próprios agentes da guerra cultural matam dois coelhos com uma só cajadada: dão sumiço às suas próprias ações subversivas e no mesmo ato elevam ao nível de verdade profética a visão fantasiosa que Marx tinha das “contradições do capitalismo”. (Como já expliquei dias atrás — http://www.olavodecarvalho.org/semana/070620dce.html –, a duplicidade de línguas é traço permanente e estrutural da mente esquerdista, toda ela modelada pelo exemplo “dialético” de Stalin, que fomentava o nazismo em segredo para e o condenava em público.)

O “tsunami Marx”, além de ser um acúmulo de simultaneidades demasiado ostensivo para poder ser explicado ele próprio pelas tendências espontâneas do mercado, é todo ele constituído de mutações retroativas como aquela que acabo de descrever. O novo Karl Marx que ali se apresenta para receber os aplausos da galera tem tanto a ver com o antigo quanto o evolucionismo do sr. Richard Dawkins, onde tudo acontece por acaso, tem a ver com o darwinismo originário no qual nada acontece por acaso (de modo que em qualquer dos dois casos o evolucionista está sempre com a razão).

Qualquer filosofia ou teoria científica que se arrogue o direito de mudar de significado quando bem lhe interesse adquire o delicioso privilégio de não poder ser jamais contraditada pelos fatos. Que uma parcela significativa da classe intelectual e de seus acólitos na mídia se dedique à produção dessas transmutações, é a prova incontestável de que a “cultura superior” está se transformando cada vez mais numa modalidade socialmente aceita de crime organizado.

Absoluta falta de escrúpúlos No meu artigo anterior, escrevi:

“ O movimento gayzista foge a toda discussão, ele não quer debater com seus adversários, mas destruí-los socialmente, privá-los de seus meios de expressão, reduzi-los à condição de párias e, por fim, colocá-los na cadeia em massa. Nos sites e assembléias onde se prepara a reação gayzista aos críticos, não se vê uma só tentativa de conceber argumentos para um eventual enfrentamento dialético: só planos de assédio judicial, de boicote, de assassinato moral .”

Na mesma semana, reagindo a um outro artigo meu ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/070719jb.html ), a militância enfurecida ofereceu ainda mais provas disso, estampando no Orkut apelos ostensivos à minha imediata exclusão da mídia. O mais bonito foi este: “O Julio Severo já foi calado, só falta esse monte de b...ta chamado Olavo.” Para não dizer que essa palavra de ordem veio desacompanhada de qualquer tentativa de refutar os meus argumentos, o remetente, respondendo à minha afirmativa de que “Júlio Severo se limita a opor ao homossexualismo a moral cristã, que não manda currar ninguém”, informava a um estupefato mundo que o Levítico manda empalar – sim, empalar – os acusados de homossexualismo. Não sei se fico mais mavavilhado ante esse feito sublime de exegese bíblica ou ante a passividade sonsa das entidades cristãs e judaicas que deixam todo mundo praticar com total impunidade o crime de ultraje a culto.

Recebi também algumas cartas de gayzistas enfezados, que me acusavam de “associar o movimento homossexual à pedofilia”. A reclamação não faz sentido. Quem associou gayzismo e pedofilia não fui eu. Foram os líderes gayzistas Luiz Mott e Denilson Lopes, o primeiro com aquela sua desavergonhada apologia do “moleque ideal”, o segundo em artigos e conferências que, no mínimo, verberam como “intolerância” toda condenação à pedofilia.

Outra associação da qual muito reclamam é entre homossexualismo e promiscuidade. Mas ela também não é uma rotulação externa, vinda de fanáticos homofóbicos ou mesmo de críticos sérios do movimento. Ao contrário, é um título de glória ostentado pelo sr. Luiz Mott, que se gaba de ter tido relações homossexuais com pelo menos quinhentos homens!

Se Mott e Lopes são representantes autorizados do movimento gay , então é manifesto que este defende a pedofilia e a promiscuidade. Se não são, então os demais líderes do movimento têm a obrigação de expressar publicamente seu repúdio à conduta de ambos. Como não fizeram isso até agora, não têm o direito de reclamar quando a palavra dos dois é tomada como se fosse a sua própria palavra.

Por outro lado, é óbvio que inventei o neologismo “gayzista” (ou gueizista), em oposição a gay , para marcar a distância entre condenar uma conduta sexual e criticar um movimento político.

Até o momento, tudo o que escrevi foi contra o movimento político, a ideologia e o projeto de poder gayzistas e contra a sua expressão mais imediata, a proposta de lei “anti-homofóbica” – mas, pelas reações que meus artigos suscitam entre a militância, é patente que isso também se enquadra no delito de “homofobia”.

Se eu quisesse uma prova suplementar de que esse movimento é totalitário na sua inspiração e nos resultados políticos que planeja obter, essas reações já bastariam para fornecê-la com a máxima clareza possível.

Quando se acusa de “homofobia” cada objeção à lei “anti-homofóbica”, é claro que a divergência em si já está criminalizada, antes mesmo que a proposta se consagre em lei. Isso é totalitarismo no sentido mais eminente do termo.

Da minha parte, não apenas me abstive de participar de qualquer cruzada moralizante contra o homossexualismo (nisso diferindo dos críticos religiosos), mas tenho feito o possível para compreendê-lo como experiência humana, sine ira et studio . Não tenho portanto a menor dificuldade em simpatizar com a causa dos homossexuais que desejam ser aceitos socialmente como tais e não apenas como “seres humanos” ou “cidadãos”, abstrata e assexualmente. No mínimo, sei o que é um fumante ser admitido, entre sorrisos postiços, em ambientes que professam ser hospitaleiros aos fumantes... contanto que eles procedam como se não o fossem. Por motivos que já expliquei aqui ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/070326dc.html ), o gay que tenha de fazer abstração de sua preferência sexual para se sentir aceito socialmente vivencia isso como a mais intolerável das humilhações.

Meu problema com a militância gayzista não tem nada a ver com homossexualismo, mesmo porque há muitos gayzistas que não são gays (o sr. presidente da República é um; o prefeito de São Paulo é outro; o PT e as fundações Ford e Rockefeller estão repletas de tipos similares) e muitos gays que não são gayzistas (nas igrejas cristãs, por exemplo).

Meu problema é que a ideologia gayzista, desde suas primeiras formulações, já mostrou uma inclinação totalitária escandalosa, descarada, persistente. Ela não quer proteger os homossexuais, garantir para eles um lugar entre pessoas que sejam diferentes deles. Ela quer destruir radicalmente tudo o que, na sociedade, na cultura ou nas mentes individuais, seja contrário ao homossexualismo. Ela quer proibir toda divergência moral, toda repulsa espontânea, toda palavra adversa, todo pensamento que a desagrade, todo mandamento religioso que lhe seja contrário. Ela quer eliminar toda diferença e imperar, soberana, sobre uma montanha de concordância e subserviência. Quem diz isso não sou eu. São as próprias atitudes públicas de seus porta-vozes.

Um exemplo já antigo é a perseguição aberta, oficial, aos ex- gays e aos psicólogos que professem ajudar o paciente interessado em abandonar as práticas homossexuais. O movimento gayzista trata os primeiros como traidores abjetos e os segundos como criminosos. Que é que se pode depreender disso senão que é proibido abandonar o homossexualismo, que a liderança gayzista se dá o direito de policiar a vida privada de cada homossexual e de se impor como uma verdadeira máfia, na qual se pode entrar livremente mas só se pode sair morto? Não há maior atentado à liberdade individual do que forçar um ser humano a ostentar uma identidade social que ele já não considera sua.

Mais tarde veio a discriminação dos homossexuais machões aos transexuais que ousavam invadir o espaço sacrossanto das saunas gays . Repugnava aos primeiros ver peitos de silicone numa atmosfera que desejariam cem por cento varonil, musculosa e peluda. “Tenho nojo disso”, exclamava um deles ante os travecos. Ora, todo mundo sabe que o instinto sexual se compõe não só de afeição a certos estímulos (visuais, tácteis etc.) mas de repugância instintiva aos estímulos contrários. Um homem cujas fantasias eróticas envolvam privacidade e segredo sentirá repulsa incoercível ante exibições públicas de erotismo. O transexual do tipo conhecido como “autoginéfilo”, que só se excita quando se vê como mulher, se sentirá humilhado e constrangido se o parceiro lhe lembrar por atos ou palavras a sua condição de varão.

Mutatis mutandis , o homossexual puro sangue, o macho atraído por machos, sentia nojo de homens que pareciam mulheres. Lembro-me de que o sr. Luiz Mott, convidado a arbitrar a disputa, deu razão aos dois lados, mostrando que compreendia perfeitamente bem a dialética de atração e repulsa. Mas o mesmo Luiz Mott, ante o heterossexual a quem repugnem as ostentações de homossexualismo, gritará: “Crime!”, “Homofobia!”, “Nazismo!” O direito à repulsa, portanto, é monopólio exclusivo da comunidade gay . Os demais, que tratem de gostar do que não gostam. Conheci uma vez um guru argentino, da escola gurdijeffiana, famosa nos meios ocultistas por sua índole autoritária e brutal. Para quebrar a resistência dos discípulos recém-chegados, ele já lhes ditava logo na entrada o parágrafo número um do seu regulamento disciplinar: “ Que te guste lo que no te gusta .” É isso aí. É o mandamento número um que a ideologia gayzista impõe aos não- gays . Para os recalcitrantes, cadeia.

São ou não são uns intolerantes hipócritas esses líderes gayzistas?

Vejam por exemplo a diferença, o duplo critério no julgamento dos heteros e dos homos. A mulher que admita ter ido para a cama com quinhentos homens desiste, ipso facto , de qualquer pretensão à respeitabilidade familiar. Mas o sr. Luiz Mott se vangloria dos seus quinhentos parceiros, e ai de quem o chame de promíscuo!

Nada, na galeria da presunção universal, se compara à prepotência gayzista. Se ainda duvidam, leiam este despacho da Agência de Notícias da Aids ( http://www.acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=2029 ):

“Stalinista. Foi dessa forma que o ativista José Araújo, diretor da AFXB (Centro de convivência para crianças que vivem com HIV/Aids em São Paulo ), classificou alguns setores do movimento gay... ‘A fome de poder deles está sendo saciada pelo Programa Nacional [de DST/Aids]’, avalia Araújo.

“Para José Roberto Pereira, mais conhecido como Betinho, está acontecendo ‘um aumento cada vez maior da intervenção do movimento gay no movimento de Aids’.

“‘Eu sou gay, não tenho o menor problema com gay, mas... existe uma espécie de estrangulamento do movimento de Aids com o crescimento do movimento gay’, acredita Betinho.

“Fundos importantes da Aids estão indo para o movimento gay e não estou vendo uma queda dos índices [da epidemia do HIV entre os homossexuais]’, avalia Betinho, um dos colaboradores do Projeto Bem-Me-Quer. (...) ‘O movimento de Aids está perdendo sua característica. Está virando um grande movimento gay’, lamentou, em outro momento, José Araújo, da AFBX.”

Se os líderes gayzistas a que se referem Betinho e Araújo não se vexam nem de roubar dinheiro do socorro a seus correligionários aidéticos para fomentar uma agenda política, que é que pode impedi-los de usar, contra seus poucos e inermes adversários, as armas mais torpes e mesquinhas?

Escrúpulos? É claro que eles não têm nenhum.

O Brasil Quebrou

30 de julho de 2002 | 30 de julho de 2002

O Brasil quebrou. Na semana passada isso já estava claro. A expressiva desvalorização do real ontem apenas homologou no mercado o que os analisas já sabiam. Quebrar significa que ele não tem os meios para pagar o que deve aos credores internacionais. O que fazer?

O drama maior é que a quebra deu-se antes de concluída a sucessão presidencial. Na prática, os credores internacionais e as instituições multilaterais não têm interlocutor válido para discutir os caminhos a seguir. O governo FHC acabou, perdeu a autoridade.

Não resta ao país outra coisa que não gerar grandes superávits na balança comercial e, para tanto, terá que ter também grandes superávits primários, capazes de conter a expansão da dívida pública e a demanda interna. A redução do Estado, que deveria ser algo a ser feito de forma racional e com tempo, agora terá que ser feita a fórceps, em curto o prazo. Nada como uma crise para apressar o parto.

Isso significa que a recessão poderá ser muito grande. Não me espantaria uma queda no PIB relevante ainda este ano, por conta do tumulto dos últimos meses do ano. Para o ano que vem a queda deverá ser fortíssima.

A fala de Paul O ́Neill, por mais deselegante que possa parecer e mesmo ofensiva, não é mais deselegante e ofensiva do que tem sido a ação da diplomacia brasileira para com o governo Bush e com as conseqüências dos atentados de 11 de setembro. FHC tem discursado em todos os fóruns mundiais contra os interesses dos EUA e contra a orientação política daquele governo. Quem não lembra do discurso na Assembléia francesa? Deveria agora pedir os dólares de que precisa à França.

O governo Bush não tem porque ter solidariedade a um governo francamente contrário aos seus interesses. O nosso povo está pagando pela miopia e liderança errada de FHC.

O fato é que o posicionamento da diplomacia brasileira tem sido um desastre para os interesses do país. Talvez a postura do governo Bush fosse outra se o terceiro-mundismo fernandista não tivesse sido tão radical. FHC fez da nossa política externa uma fábrica de panfletos de centro acadêmico. Cometeu erros primários. Nossos interesses estão indissoluvelmente ligados aos EUA.

O desastre é que faltam ainda três meses para o desenlace da sucessão. Talvez o Brasil não suporte tão longo tempo sem comando político legítimo sem passar por uma grande convulsão.

São também de grandes perigos e grandes sofrimentos.

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP Em 30 de julho de 2002

Leituras

O Dia Em Que A Historia Mudou

30 de agosto de 2001 | 30 de agosto de 2001

Para facilitar a compreensão do processo histórico, historiadores utilizaram alguns marcos ou acontecimentos de importância fundamental, a partir dos quais as relações mundiais tanto a nível cultural, econômico e político foram alteradas substancialmente de forma a produzir mudanças significativas para a humanidade em seu conjunto. Se os marcos podem variar, vamos nos ater aos mais tradicionais tendo em vista tão somente a busca de compreensão didática das transformações planetárias.Tomemos então a divisão que considerara como Idade Antiga o período que foi de 300 AC até 476 d.C, ano que assinala o fim do Império Romano. Em 476, inicia-se a idade Média, que irá até 1453, data da tomada de Constantinopla pelos turcos. De 1453 até a Revolução Francesa em 1789, teríamos a Idade Moderna. Em 1789 o mundo ingressa na Idade Contemporânea. A partir deste 11 de setembro de 2001, sem medo de errar, podemos dizer que entramos numa nova Idade mundial que ainda não tem nome, da qual vislumbramos muito pouco em termos de futuro, mas que acabou de chegar com toda sua carga de transformações profundas, de alterações que irão marcar a vida de cada ser humano em todo o mundo.

Note-se que se os marcos históricos aqui apresentados são caracterizados por conflitos de grande envergadura, neste dia 11 de setembro o mundo assistiu chocado ao hiper-terror, algo nunca antes havido e de onde deriva uma guerra globalizada contra um inimigo ainda sem face. Uma guerra que não se sabe como acabará.

Portanto, não há motivo para regozijo com relação ao ataque às torres do World Trade Center de Nova York e aos prédios do Pentágono, símbolos do poder financeiro e estratégico-militar dos Estados Unidos, ataques que na verdade vitimaram milhares de civis americanos e estrangeiros. Assim, algumas críticas feitas na nossa imprensa por certos intelectuais, muitos dos quais já estiveram na Nação norte americana para estudar, trabalhar e usufruir de sua prosperidade, soam rudimentares e anacrônicas no cenário que se desenha no pós 11 de setembro. Mesmo porque, governos do mundo inteiro, incluindo os da Rússia, da China, de Cuba e o próprio Yasser Arafat demonstraram sua consternação e sua solidariedade diante do atentado brutal e monstruoso que, na verdade, enlutou a humanidade e principiou um período que repercutirá, inclusive, na frágil economia brasileira que já vinha sendo abalada com a crise argentina e as perspectivas pouco alvissareiras da sucessão presidencial.

A repercussão do ato hediondo é tão séria, que nenhum grupo extremista quer assumir a responsabilidade pelo mesmo. Até o Taleban, que no Afeganistão hospeda o bilionário Osama bin Laden, garantiu que o inimigo número 1 dos Estados Unidos e quintessência do “islamismo mais enlouquecido”, na expressão de Gilles Lapouge, não está envolvido. Isto apesar de Bin Laden ter advertido há três semanas atrás, que seus seguidores lançariam um ataque sem precedentes aos Estados Unidos. Além do mais, o cabeça do terrorismo mundial parece ser o único a ter condições para dirigir com êxito a coreografia perfeita do horror a que o mundo assistiu estarrecido.

Desfilar agora críticas ao “Grande Satã Branco”, culpar os Estados Unidos pelo brutal atentado a seu povo, é como dizer que Sílvio Santos foi culpado por seu seqüestro porque o seqüestrador é a verdadeira vítima do sistema.

Com essa toada sempre repetida à exaustão, é que conseguimos aperfeiçoar nosso sistema de impunidade e nos tornamos alvos sempre a disposição de seqüestradores, de criminosos de toda a espécie, de traficantes, cujos direitos humanos no Brasil costumam ser defendidos ferozmente.

De todo modo, se os símbolos do poder norte-americano foram atingidos, a estátua da liberdade permaneceu de pé. Em meio à tragédia sem precedentes isso pode ser um bom indício. Pode significar também, que a partir de agora a guerra se dará entre os que defendem a liberdade, a democracia e a prosperidade, e os que defendem o terror, o narcotráfico, os Bin Laden, os Saddan Hussein, as Farcs, a violência, o desrespeito a vida como meio de dominação. Não haverá meio-termo. E é preciso que o governo brasileiro, cheio de bom-mocismo, sempre em cima do muro em termos de sua política externa, tome consciência disso.

*Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora e professora universitária.

E-mail: mlucia@sercomtel.com.br Em 30 de agosto de 2001

Leituras

Por Linhas Tortas

30 de abril de 2015 | Diário do Comércio

Na vasta bibliografia sobre temas nacionais, especialmente a assinada por autores de esquerda, não há tópico mais abundantemente estudado, explorado, revirado de alto a baixo, do que “a revolução brasileira”. Perdão. É com maiúsculas: Revolução Brasileira.

Livros com esse título, ou com essa expressão no título, foram produzidos por Nelson Werneck Sodré, Franklin de Oliveira, Octávio Malta, Celso Furtado, Pessoa de Moraes, Guerreiro Ramos, Azevedo do Amaral, Jamil Almansur Haddad, Florestan Fernandes, Moisés Vinhas, Danton Jobim, Hélio Silva, José Maria Crispim, Celso Brant e uma infinidade de outros, sem contar aqueles, muito mais numerosos, que trataram do mesmo assunto sem ostentá-lo no título.

Pode parecer estranho o interesse quase obsessivo por esse fenômeno num país que não atravessou nenhuma experiência comparável às revoluções da França, da América, da Rússia, da Espanha ou mesmo do México, limitando-se a nossa sanha revolucionária, a escaramuças locais com derramamento de sangue relativamente modesto no ranking internacional.

No entanto, a referência naqueles títulos não é a nenhum episódio histórico em particular, grande ou pequeno. “Revolução brasileira”, na acepção geral que o termo assumiu numa longa tradição de “interpretações do Brasil”, designa algo como um rio que flui, uma história inteira, um processo intermitente na superfície, contínuo no fundo.

Na verdade, não houve um único grande acontecimento histórico que se pudesse chamar “Revolução Brasileira”. É a série inteira dos pequenos que leva esse nome, designando uma intenção, uma teleologia simbólica subjacente a todos eles: o processo pelo qual o povo, inicialmente um bando de desgarrados e escravos mantidos em obediência estrita sob o peso de uma clique de altos funcionários e senhores de terras (mais tarde banqueiros e capitães de indústria), vai aos poucos emergindo de um estado de passividade abjeta para tentar se tornar o senhor e autor da sua própria História, sempre com sucesso inferior às suas mais ambiciosas expectativas, e por isso mesmo fadado a repetir a tentativa de novo e de novo, em escala um pouco maior.

Contra quem se volta precisamente esse processo? Qual a “classe dominante” que se tenta remover de cima para dar espaço à iniciativa popular? As tentativas de defini-la em termos do marxismo ortodoxo, como “burguesia capitalista exploradora do proletariado”, falharam miseravelmente, tal a míngua de proletários e burgueses num país de poucas indústrias, onde a burguesia industrial só conseguiu ela própria algum espaço quando carregada no colo pela ditadura estatista, semifascista, de Getúlio Vargas.

Na verdade, os autores marxistas não conseguiram sequer entrar num acordo quanto às etapas iniciais e mais remotas do processo, anteriores à Independência, uns falando de “feudalismo”, outros de “capitalismo rural”, outros, ainda, propondo a teoria de uma formação socioeconômica sui generis, alheia às categorias usuais do marxismo, o “escravismo colonial”.

Quem melhor definiu o vilão da história, a meu ver, foi Raymundo Faoro, no clássico Os Donos do Poder. Formação do Patronato Político Brasileiro (Globo, 1958; ainda prefiro a primeira edição à versão reescrita de 1974, mais volumosa).

Partindo de noções obtidas em Max Weber, Faoro redefinia a índole e os objetivos da Revolução Brasileira em termos mais adequados à realidade do que qualquer marxista teria podido fazer no lugar dele. E eu não conseguiria resumir sua tese com mais exatidão do que o fez Fábio Konder Comparato (leia aqui):

“Para Raymundo Faoro, a sociedade brasileira – tal como a portuguesa, de resto – foi tradicionalmente moldada por um estamento patrimonialista, formado, primeiro, pelos altos funcionários da Coroa, e depois pelo grupo funcional que sempre cercou o Chefe de Estado, no período republicano. Ao contrário do que se disse erroneamente em crítica a essa interpretação, o estamento funcional governante, posto em evidência por Faoro, nunca correspondeu àquela burocracia moderna, organizada em carreira administrativa, e cujos integrantes agem segundo padrões bem assentados de legalidade e racionalidade. Não se trata, pois, daquele estamento de funcionários públicos encontrável nas situações de ‘poderio legal com quadro administrativo burocrático’ da classificação weberiana, mas de um grupo estamental correspondente ao tipo tradicional de dominação política, em que o poder não é uma função pública, mas sim objeto de apropriação privada. ” O livro demorou para atrair a atenção pública, mas a segunda edição apareceu como uma balsa para os náufragos numa época em que, esfaceladas as guerrilhas, a esquerda brasileira buscava caminhos para a redemocratização do país e ansiava por um discurso que não soasse demasiado comunista aos ouvidos do governo militar – um esforço cujo primeiro resultado objetivo veio com a fundação do PT em 1980.

Faoro tornou-se quase espontaneamente o santo padroeiro do novo partido. Sua casa era frequentada assiduamente pelo sr. Luís Inácio Lula da Silva, que em 1989 chegou a convidá-lo, em vão, para ser candidato à vice-presidência.

Vestindo a camiseta faoriana de inimigo primordial da apropriação privada dos poderes públicos, o PT fez um sucesso tremendo nos anos 90, como denunciador-mor da corrupção nas altas esferas federais e promotor de uma vasta campanha pela “ética na política”, que resultou na quase beatificação do seu líder principal (quando Lula viajava pelas áreas mais pobres do Nordeste, doentes vinham lhe pedir que os curasse por imposição de mãos, como os reis da França).

Àquela altura, o partido parecia mesmo resumir e encarnar o espírito da “Revolução Brasileira”, com toda a expectativa messiânica embutida nesse símbolo. Daí a vitória espetacular de Lula na eleição de 2002.

Aconteceu – sempre acontece alguma coisa – que a liderança esquerdista em geral, e a petista em especial, não lia nem seguia só Raymundo Faoro. Desde os anos 60-70 lia com deleitação crescente os Cadernos do Cárcere e as Cartas de Antonio Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano e criador da estratégia comunista mais sutil e mais calhorda de todos os tempos: a “revolução cultural” a ser implementada mediante a “ocupação de espaços” em todos os órgãos da administração pública, da mídia, do ensino etc., para culminar no momento em que todo o povo seria socialista sem saber e o partido se tornaria “um poder onipresente e invisível”.

Se Faoro forneceu ao PT a sua identidade aparente e a base do seu discurso “ético”, foi Gramsci quem deu à agremiação a sua estratégia e as suas táticas substantivas. “Gramscismo sob pretextos faorianos” é uma expressão que resume perfeitamente bem a política do PT ao longo de toda a sua existência.

Nunca um partido teve tão bela oportunidade de colocar em prática uma estratégia estritamente comunista sob uma camuflagem weberiana tão insuspeita.

Tudo parecia perfeito. Diante de uma plateia sonsa, a quem a sugestão de que houvesse algum comunismo nisso soava como delírio de “saudosistas da Guerra Fria”, o partido foi “ocupando espaços” e concentrando poder até fazer da administração federal inteira – sem contar o sistema de ensino e a mídia – o instrumento servil dos seus objetivos privados.

Nenhum, nenhum dos seus guias iluminados notou que era impossível fazer isso sem que o partido se transformasse, ele próprio, no odioso e odiado “estamento burocrático”, com o formidável agravante de que, na ânsia de concentrar todo o poder em suas mãos, e sempre enleado na boa consciência de servir à causa da Revolução Brasileira, passou a roubar, trapacear e explorar o povo incomparavelmente mais do que todos os estamentos anteriores.

Faoro morreu em maio de 2003, quatro meses depois de Lula tomar posse no seu primeiro mandato, e não teve tempo de meditar, nem muito menos de alertar o PT, quanto ao desastre que a síntese artificiosa e perversa, o “faorogramscismo”, anunciava como desenvolvimento fatal do processo.

Inevitavelmente, os papéis se inverteram: transmutado por obra do gramscismo na encarnação máxima e mais cínica do “tipo tradicional de dominação política, em que o poder não é uma função pública, mas sim objeto de apropriação privada”, o PT, quando por fim a população em massa se voltou contra ele, revoltada ante os maiores escândalos financeiros de todos os tempos, no fundo dos quais ela enxergava ainda que vagamente a premeditação gramsciana, viu-se perdido, desorientado, atônito, seus líderes ora escondendo-se no palácio como aristocratas assustados na Paris de 1789, ora tentando camuflar o medo mediante bravatas truculentas de um ridículo sem par.

Sim, a Revolução Brasileira está nas ruas. É ela, e não outro personagem qualquer. E veio com mais força do que nunca, brotando da pura espontaneidade popular, quase sem líderes (ou com tantos que se diluem uns aos outros), sem dinheiro, sem respaldo em partidos – o povo contra o “estamento burocrático”. Como diria o próprio alvo supremo da ira popular, “nunca ânftef na iftória dêfte paíf” esse povo demonstrou vontade tão firme e inabalável de ser seu próprio mentor e guia, de criar sua própria História, de mandar às favas todos os importantões e de calar de vez as bocas dos mentirosos. A começar pelas da sra. Rousseff e do sr. Lula.

Zelo Psicotico

30 de abril de 2012 | Diário do Comércio

Ninguém no mundo segue as palavras-de-ordem da esquerda americana com a fidelidade e a constância servil da mídia brasileira. Não há falsidade, não há camuflagem, não há patifaria que, vinda do New York Times, da CNN, do Partido Democrata, do Occupy Wall Street ou diretamente dos escritórios de George Soros, ela não repita ampliada e multiplicada, com um zelo psicótico que, no local de origem, daria na vista e suscitaria, dos próprios interessados, um pedido de moderação.

É que, lá, mesmo os mais extremados propagadores de ficções politicamente rentáveis sabem que não podem passar de um certo limite sem ser desmascarados e às vezes ter de pedir desculpas pelo vexame. No Brasil, o campo é livre: jornais, revistas e TV podem mentir à vontade, sabendo que o troco, se vier, não passará de uns gemidos esboçados por três ou quatro colunistas “de direita”, tão temíveis quanto um pum entre os canhões de Stalingrado.

Nenhum órgão da “grande mídia” americana conseguiu esconder que um repórter da NBC havia maquiado a gravação da conversa entre George Zimmerman e a polícia, para fazer parecer que o inspetor de quarteirão havia atirado em Trayvon Martin por puro racismo (v.

http://pumabydesign001.com/2012/04/09/ trayvon-tragedy-manufactured-racism- how-nbc-edited-racism-into-the-george-zimmerman-911-call/ ).

Também nenhum se recusou a publicar, quando apareceram, o vídeo e as fotos em que a cabeça do autor dos disparos mostrava manchas de sangue na parte de trás, minutos depois do ocorrido, provando que ele dissera a verdade ao alegar que Martin, maior e mais forte, tentara lhe esmigalhar o crânio batendo-o repetidamente na quina da calçada (v.

http://www.mediaite.com/tv/ gma-shows-exclusive-images-of-george-zimmermans-head-injuries-the-night-of-trayvons-death/ e http://the-american-journal.com/zimmerman-head-injury-visible-police-video/ ).

No Brasil, O Globo (v.

http://oglobo.globo.com/mundo/ acusado-de-matar-adolescente-negro-nos-eua-tem-liberdade-condicional-4712342 ), ao noticiar a libertação de Zimmerman, suprime esses dois fatos, apegando-se com desespero fanático à lenda urbana do crime racista, posta em circulação com base na fraude pela qual o engraçadinho da NBC já foi investigado e desmascarado (se bem que a estação procure ainda desculpá-lo dizendo que ele fez a coisa “por engano”, sem intenção de manipular a opinião pública).

O Globo mente da maneira mais depudorada ao dizer que Zimmerman, ao ver Trayvon Martin, “considerou-o suspeito e atirou”, como se nada tivesse acontecido entre esses dois momentos.

O jornal noticia que Zimmerman está sendo processado por assasinato em segundo grau, isto é, homicídio não-intencional, mas não consente sequer em esclarecer aos leitores que o próprio conteúdo da acusação já exclui, in limine, a hipótese de crime racista, a qual nem mesmo uma promotoria ávida dos aplausos da esquerda conseguiu engolir.

Com recursos financeiros ilimitados e o estímulo da própria Presidência da República (que fez do capuz de Trayvon um símbolo da candidatura Obama), a campanha histérica que se montou contra o acusado impingiu a metade da população americana a farsa do crime racista e transformou, da noite para o dia, um imigrante hispânico, pobre e sem aliados, em algo como um supremacista branco, loiro e de olhos azuis, empenhado em varrer do planeta as “raças inferiores”.

Nos EUA, a gritaria anti-Zimmerman, sob os golpes dos fatos adversos, já arrefeceu um bocado. Se depender de O Globo, ela continuará ecoando pelos séculos dos séculos.

Quando digo que a crebilididade da “grande mídia” hoje em dia é zero, especialmente no Brasil, não vai nisso nenhum exagero, nenhuma figura de linguagem.

No tempo em que existia jornalismo, ele era uma variante menor da ciência histórica, fazendo uso, essencialmente, dos mesmos instrumentos de pesquisa e critérios de julgamento do historiador profissional. Privilegiava os documentos de fonte primária e os testemunhos diretos, tratando as opiniões e reações emocionais, no máximo, como complementos interessantes. Agora, o inverso é que vale: uma das principais ocupações da mídia é suprimir documentos e testemunhos, encobrindo-os sob camadas e camadas de opiniões bem-pensantes, jogos-de-cena, slogans e apelos irracionais ao sentimento das massas. Não é jornalismo: é show business, propaganda, engenharia comportamental.

A Vitoria Do Mais Apto

30 de abril de 1998 | Jornal da Tarde

O que tem circulado de besteira a respeito de “darwinismo social” é de natureza a sugerir que o homem não apenas descende do macaco, mas quase chega a ombrear-se, em inteligência, a esse seu engenhoso antepassado.

Emprega-se essa expressão, sistematicamente, num contexto em que denota a concorrência capitalista brutal, que esmagaria os pequeninos se não fossem socorridos, em tempo, pelo igualitarismo marxista.

O socialismo aparece aí como a antítese por excelência da struggle for life, como o chamado celeste à resolução fraternal dos conflitos que, abolindo a competição natural, estabelecerá sobre a Terra a igualdade contratual dos fracos e dos fortes.

Karl Marx, infelizmente, não concordava com isso. Entusiasta do evolucionismo, propôs a Darwin (que modestamente rejeitou a oferta) dedicar-lhe a segunda edição de O Capital, e enxergava na luta de classes o exato equivalente histórico da seleção natural. No seu entender, nada ilustraria de maneira mais eloqüente a “sobrevivência dos mais aptos” do que a futura vitória do proletariado sobre a burguesia, espécie votada à extinção por sua incapacidade de ajustar-se evolutivamente ao desenvolvimento dos meios de produção.

O paralelismo não ficou na teoria. Vitoriosa a Revolução de Outubro, o evolucionismo foi integrado na doutrina oficial do Estado soviético, com a incumbência de justificar cientificamente a extinção sistemática dos dissidentes, dos alienados e dos inúteis.

Mais tarde, a ideologia que associa a mudança revolucionária com o sucesso e a saúde foi levada às últimas conseqüências, quando os inimigos do regime passaram a ser tratados como doentes mentais: submetidos pela força a injeções de haloperidol que tanto acalmam os delirantes quanto perturbam os sãos, acabavam mostrando sintomas delirantes que tornavam necessário tratá-los com injeções de haloperidol – o que bem demonstra a infalibilidade da medicina evolucionista.

Fora e antes do mundo comunista, houve alguns doutrinários que buscaram associar a seleção do mais apto à concorrência comercial e buscar nela um argumento para legitimar a exploração imperialista dos povos mais fracos. Mas essa corrente encontrou sempre forte resistência, sobretudo dos conservadores, que viam na concorrência capitalista uma “seleção inversa” que privilegiava, em vez dos melhores, os piores e os mais descarados. Foi também abominada pelos principais artistas e escritores, como Tolstoi e Flaubert, a quem repugnava uma ética de alpinistas sociais. Enfim, foi taxativamente condenada pela Igreja, que, rejeitando o darwinismo tout court, não teria como engolir seus corolários político-ideológicos. O darwinismo social foi enfim, nos países capitalistas, nada mais que uma idéia entre outras, jamais hegemônica, sobretudo jamais elevada ao status de uma doutrina do Estado.

Os únicos lugares do mundo onde foi apadrinhada oficialmente pelo culto estatal foram, de um lado, a Alemanha nazista, de outro, os países comunistas. Ambos esses totalitarismos encaravam a História, substancialmente, como uma concorrência darwiniana entre as espécies. A diferença era apenas de nuance: para os nazistas, “espécie” queria dizer “raça”; para os comunistas, “classe”. O método para realizar a sobrevivência dos mais aptos, em ambos os casos, era o mesmo: matar os inaptos.

Para maior glória da teoria darwiniana, houve mesmo uma concorrência evolutiva entre os dois evolucionismos estatais. A competição mostrou, acima de toda dúvida, que o mais apto era o comunismo: matando mais gente, sobreviveu mais tempo. E, enquanto o nazismo se encontra hoje sepultado sob toneladas de filmes, livros e jornais que o marcaram para sempre com o estigma do horror e da monstruosidade, seu concorrente vitorioso ainda desfruta, depois de oficialmente extinto, uma honrada sobrevida espiritual nas pessoas laureadas de seus porta-vozes acadêmicos e eclesiásticos, em cuja conduta intelectual ninguém parece enxergar nada de particularmente indecoroso. Se isto não prova o darwinismo, prova ao menos a reencarnação.

Mas, se menciono os eclesiásticos, não é por acaso. Para fazer uma idéia de quanto a força darwiniana do comunismo superou a capacidade de sobrevivência de seu adversário, basta atentar para o seguinte fato: enquanto a Igreja católica hoje se submete a um abjeto mea culpa ante a mídia por “não ter combatido vigorosamente o nazismo” – imitando os acusados dos Processos de Moscou que para posar de bons meninos confessavam crimes que não tinham cometido -, o clero católico parece jamais ter sentido vergonha alguma do “pacto de Metz”, pelo qual, mediante promessa de não fazer nas declarações oficiais do Concílio Vaticano II nenhuma denúncia concreta contra o regime comunista que àquela época já matara 100 milhões de pessoas, se obteve para esse divino conclave o aplauso unânime da mídia elegante, que até hoje ressoa aos nossos ouvidos como um hino de amor à hipocrisia universal. Também a Igreja, afinal, evolui.

Em 30 de abril de 1998

Lula Voce E O Cara

3 de setembro de 2009 | Diário do Comércio

Não sei quem é Caio Lucas nem por quais vias este seu escrito admirável veio parar na minha caixa postal. O que não posso é deixar de repassar aos leitores do Diário do Comércio a sua mensagem, na qual os devotos do nosso presidente encontrarão as respostas objetivas aos seus arrebatamentos retóricos de sicofantas compulsivos. Não há neste artigo, o qual aqui transcrevo com duas ou três correçõezinhas de português que em nada afetam o seu conteúdo, uma só linha que não traga uma verdade incontestável. Parabéns, Caio Lucas, seja lá você quem for. – O. de C.

Lula, você é o cara.

Você é o cara que esteve por dois mandatos à frente desta nação e não teve coragem nem competência para implantar reforma alguma neste país, pois as reformas tributárias e trabalhistas nunca saíram do papel, e a educação, a saúde e a segurança estão piores do que nunca.

Você é o cara que mais teve amigos e aliados envolvidos, da cuéca ao pescoço, em corrupção e roubalheira, gastando com cartões corporativos e dentro de todos os tipos de esquemas.

Você é o cara que conseguiu inchar o Estado brasileiro com tantos e tantos funcionários e ainda assim fazê-lo funcionar pior do que antes.

Você é o cara que mais viajou como presidente deste país, tão futilmente e às nossas custas.

Você é o cara que aceitou todas as ações e humilhações contra o Brasil e os brasileiros diante da Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai e outros.

Você é o cara que, por tudo isso e mais um monte de coisas, transformou este país em um lugar libertino e sem futuro para quem não está no grande esquema.

Você é o cara que transformou o Brasil em abrigo de marginais internacionais, negando-se, por exemplo, a extraditar um criminoso para um país democrático que o julgou e condenou democraticamente.

Você é o cara que transformou corruptos e bandidos do passado em aliados de primeira linha.

Você é o cara que está transformando o Brasil num país de parasitas e vagabundos, com o Bolsa-Família, com as indenizações imorais da “bolsa terrorismo”, com o repasse sem limite de recursos ao MST, o maior latifúndio improdutivo do mundo e abrigo de bandidos e vagabundos que manipulam alguns verdadeiros colonos.

É, Lula! Você é o cara...

Burrice Temivel

3 de outubro de 2004 | Zero Hora

Mais que ódio às Forças Armadas, o fuzuê criado pela associação dos reitores (Andifes) contra a garantia de vagas para os militares nas universidades denota o analfabetismo funcional de Suas Excelências.

A lei que suscitou a indignação da entidade busca impedir que o militar estudante fique em desvantagem ante seus colegas civis, e que sofra essa injustiça em razão do próprio serviço que presta a um Estado investido do direito de mudá-lo constantemente de cidade. Um desequilíbrio constitutivo da condição de soldado é aí corrigido, restaurando a igualdade de oportunidades entre alunos de farda e à paisana, estes, aliás, quase sempre de classe mais rica.

Interpretar isso como “privilégio” é inverter o sentido dos termos, da relação lógica entre eles e da realidade que lhes corresponde. Esse não é um ponto que dependa de opiniões, de valores, de escolha pessoal. É simples questão de compreender um texto – e isto parece estar acima da capacidade dos senhores reitores.

Não o digo para atacá-los, mas para defendê-los. Excetuada a inépcia, a única hipótese restante para explicar sua atitude seria a incompreensão deliberada, maldosa, empenhada em torcer o sentido da lei para fomentar criminosamente o preconceito antimilitar e gerar uma crise institucional. Pois a Lei 9.536, de 1997, oferece a mesma garantia aos militares e aos funcionários civis, mas a Andifes protesta exclusivamente contra sua aplicação àqueles, não a estes. É confusão ou malícia? Na primeira hipótese, aquela assembléia de sábios inverte o sentido da palavra “privilégio” simplesmente porque não o compreende. Na segunda, utiliza-se maquiavelicamente de uma inversão proposital para instigar as ambições de uma classe em detrimento da outra, esfregando as mãos de contentamento por haver conseguido explorar com astúcia as contradições de interesses dentro da estrutura do Estado. Ou os senhores reitores são muito burrinhos, ou são intrigantes revolucionários. Não sendo da minha natureza atribuir más intenções a ninguém, escolho resolutamente a primeira alternativa. Resta, é claro, a possibilidade de que haja nas suas cabeças um misto de ambos os componentes, mas aí sua psicologia já se torna complexa demais para ser analisada num artigo de jornal.

Qualquer que seja o caso, a incapacidade é um fator presente, e por si já é grave o bastante.

A inépcia da elite universitária é a causa mais imediata e geral dos males que acometem este país, e a complacência, se não afeição masoquista da sociedade para com essa classe de mentecaptos subsidiados já ultrapassou, de há muito, o limite de segurança para além do qual uma nação arrisca perder, junto com a consciência intelectual, a capacidade de sobrevivência.

Mas a arrogância da Andifes contra as Forças Armadas torna-se ainda despropositada quando se sabe pelos resultados do Provão que, das instituições superiores de ensino, praticamente só as militares honram a educação brasileira. As outras — públicas e privadas — são em geral nada mais que tubos digestivos, onde por um lado entra o dinheiro do povo em impostos ou mensalidades, pelo outro sai anualmente uma enxurrada de incapazes.

Excetuadas as glórias da nossa engenharia aeronáutica, mérito de militares, a contribuição dos universitários brasileiros ao progresso do conhecimento humano é praticamente nula. Imensurável, em contrapartida, é sua contribuição ao incremento do ódio revolucionário e da crença messiânica no futuro da estupidez socialista. Os dois fatores estão interligados: a demagogia esquerdista, Ersatz consagrado dos estudos sérios, é uma via preferencial para subir na vida sem fazer força, com a ajuda do corporativismo predatório e de interesses partidários infames.

“Tolerância zero” para com a impostura acadêmica é a condição prévia para qualquer esperança de um Brasil melhor. É insensato pretender que um povo possa primeiro resolver seus problemas para só depois tratar de aprender o que tem de aprender.

* * * PS – A liminar concedida quinta-feira pelo juiz federal Aroldo José Washington, da 4.a Vara Federal Cível de São Paulo, em favor das pretensões da Andifes, suspendeu apenas o parecer da Advocacia Geral da União que garantia as vagas para os militares, mas não a lei Lei no 9.536, fundamento dessa garantia, que continua em vigor.

Em 3 de outubro de 2004

O Excelentissimo

3 de novembro de 2002 | Zero Hora

Alguns ingênuos vêm dizendo que para mim será uma experiência constrangedora e traumática ter de chamar o sr. Luís Inácio de “excelência”. Enganam-se: para mim, ele sempre foi o Excelentíssimo. O Excelentíssimo por excelência: o Excelentíssimo Senhor Presidente... do Foro de São Paulo.

Doze anos antes de ser eleito presidente da República, ele já era o magistrado supremo dessa entidade, mais poderosa que o governo brasileiro.

O Foro é a coordenação do movimento comunista no continente. Os recursos com que conta para a implementação de suas decisões são praticamente ilimitados e provêm substancialmente do narcotráfico e dos seqüestros. Uma só das entidades que o compõem — as Farc — tem um orçamento oito vezes superior ao de todas as forças armadas latino-americanas somadas. O MIR chileno, que organizou os seqüestros de Washington Olivetto e Abílio Diniz, entre outros, também não está nada mal de dinheiro, como se vê pelo alto padrão de consumo de seus servidores quando em férias. O co-fundador do Foro, Fidel Castro, tem na Suíça uma conta pessoal, popularmente conhecida como “reserva del comandante”, calculada em dois bilhões de dólares. Por falta de recursos é que nenhuma resolução do Foro deixará de ser cumprida. Algumas delas, aliás, geram ainda mais recursos. Em 1994, por exemplo, a assembléia da entidade decidiu que era preciso estimular o turismo em Cuba — uma exigência que foi prontamente atendida, ao menos, pela mídia brasileira.

Outra resolução importante, na mesma época, foi que eleger o sr. Luís Inácio para a presidência do Brasil, mais dia menos dia, era vital para os fins da organização. O sr. Luís, que não é nada ingrato, foi prestíssimo em reconhecer, no seu primeiro discurso como presidente eleito, que sua vitória não se deveu somente a esforços de brasileiros, mas... de outros latino-americanos! A mídia polidamente esquivou-se de perguntar quais fossem, muito menos lhe ocorrendo ver no fenômeno alguma ingerência indevida de estrangeiros no nosso processo eleitoral, acusação reservada, por um consenso geral, a articulistas americanos que escrevem nos jornais do seu próprio país.

Sem um estudo detalhado das atas do Foro, é impossível compreender o que quer que seja da política brasileira. Durante a campanha eleitoral, por exemplo, todos os luminares do comentário político mantiveram a população em suspense com a pergunta: para quem irá o apoio de Ciro Gomes e Garotinho no segundo turno? Uma breve consulta àquelas atas teria bastado para mostrar que essa pergunta já estava respondida de antemão, pois os partidos desses dois senhores são membros do Foro e jamais desejariam trair um compromisso sagrado. Entre os profissionais da mídia, a ignorância de uns e a perfídia de outros manteve essa informação essencial longe dos olhos do público, induzindo-o a enxergar na rapidez com que os dois candidatos vencidos se aliaram a Lula a espontaneidade de uma decisão súbita.

Muitos desses jornalistas, em seguida, escreveram que a eleição de 2002 foi “a mais transparente de toda a nossa história”. Tão transparente que a expressão “Foro de São Paulo” não apareceu uma única vez nos debates, e só não esteve completamente ausente da mídia graças à minha teimosia — tão maldosa! tão perversa! tão paranóica! — de lembrar a existência do assunto. Graças ao milagre do silêncio geral, o sr. Luís Inácio pôde repetir tranqüilamente suas promessas genéricas de combate ao narcotráfico e ao mesmo tempo já proclamar a inocência das Farc, a priori e contra todas as provas, sem que isso suscitasse, no público ou na mídia, a mais óbvia e incontornável das perguntas: como um homem pode ser confiável no comando supremo de uma operação policial se de antemão já se apresenta como advogado do principal suspeito? Malgrado algumas tentativas de introduzir o tema Farc em entrevistas de TV, ninguém fez a pergunta com a devida clareza, todos preferindo aludir ao assunto de maneira nebulosa e tímida, que só serviu para dar ao entrevistado a deixa para um show de subterfúgios. Faltando na mente do povo a premissa maior, isto é, a articulação de estratégias legais e ilegais no Foro de São Paulo, mesmo o fato de ter colocado na chefia da operação-transição um homem tão obviamente ligado às Farc como o sr. Antonio Palocci não atrairá sobre o novo presidente a menor suspeita de cumplicidade com a narcoguerrilha colombiana.

Enfim, na eleição “mais transparente de toda a nossa história”, o tema central para a orientação dos eleitores foi cuidadosamente elidido do debate público e substituído por picuinhas de pleito municipal.

Se não fosse por isso, ninguém diria que chamar o sr. Lula de Excelentíssimo é para mim uma grande novidade. Com a única exceção de Fidel Castro, esse cavalheiro é, há doze anos, o homem mais poderoso do continente, e jamais duvidei disso. Se ele não é o Excelentíssimo, quem mais o será? Julgo até que, para quem presidiu por mais de uma década uma entidade de envergadura continental e ramificações tentaculares, a redução à escala meramente nacional é um rebaixamento de posto, a que ele só se submeteu por exemplar humildade de militante. Não deixa de ser curioso que, entre tantas virtudes reconhecidas no novo presidente por uma chuva de encômios vindos repentinamente desde as direções mais díspares, faltasse justamente essa. Chamaram-no até de salvador do capitalismo, e não faltou quem, num arrebatamento de devoção superior a todas as exigências da cronologia, o rotulasse “estadista”, fazendo dele o primeiro político do mundo que se tornou estadista antes mesmo de ser chefe de Estado. Mas a virtude suprema, a humildade de transferir a outrem a coordenação continental para contentar-se com uma modesta administração local, esta foi ominosamente esquecida no rol das louvações, e, por ironia, a incumbência de lembrá-la recaiu justamente sobre mim, que não me conto entre os admiradores do Excelentíssimo.

Lembrete ao governador eleito Germano Rigotto. Estou muito feliz de que o senhor tenha vencido as eleições no Rio Grande. Mas não esqueça que o senhor deve isso à valentia de muitos gaúchos — sobretudo do IEE, do Instituto Liberal, da Farsul, da Aclame — e que todo o esforço deles terá sido em vão se, uma vez empossado, o senhor se limitar a governar como se nada tivesse acontecido, sem desmontar a máquina revolucionária petista que se incrustou na burocracia estadual, sobretudo nos setores de segurança e educação. Antes de governar o Rio Grande, é preciso curá-lo.

Em 3 de novembro de 2002

Candura Fingida

3 de junho de 2004 | Jornal da Tarde

“A opinião pública vem se firmando como ator capaz de redirecionar o cenário político”, afirma a escritora Rosiska Darcy de Oliveira em artigo recentemente publicado, no qual tenta induzir os brasileiros a pressionar o eleitorado americano para que vote em John Kerry, o candidato preferido da Coréia do Norte, do Vietnã, do Hamas, da Al-Qaeda e dos militares chineses. O exemplo que ela aponta aos nossos compatriotas vem da Espanha. Não da Espanha heróica e desbravadora do século XVI. Nem mesmo da Espanha nobremente suicida da Guerra Civil. Vem daquela outra Espanha passiva, acovardada, sonsa e desprezível — súbita reencarnação da “España miserable” de Antonio Machado –, que, hipnotizada pela articulação sinistra das bombas assassinas com uma bem planejada blitzkrieg midiática, se lançou de joelhos ante a voz de comando do terrorismo internacional. “Nas eleições espanholas após o atentado terrorista de Madri, em vinte quatro horas, usando celulares e a rede da internet, os eleitores falaram entre si, desmontaram a farsa oficial veiculada pela grande mídia e tiraram do poder o primeiro-ministro que enganara a nação.”

É um dos parágrafos mais cínicos e mentirosos que tenho lido na imprensa nacional. Dona Rosiska pretende fazer-nos crer que a rede de ONGs bilionárias, muitas delas comprovadamente associadas com a estratégia terrorista, que planejam e direcionam o fluxo de informações na mídia internacional, não existe, não age, não influencia coisa nenhuma. Em lugar dela, aparece o personagem anônimo e impessoal chamado “opinião pública” ou “os eleitores”, o qual, miraculosamente, se arregimenta, se articula, se organiza por iniciativa espontânea e, em vinte e quatro horas, está pronto para a ação unitária destinada a mudar o curso dos acontecimentos. Se essa mudança ocorre no sentido desejado e planejado pelos terroristas, se ela realiza milimetricamente o projeto exposto com meses de antecedência em comunicados internos da Al-Qaeda, isto é apenas mais uma coincidência que vem se somar à inocente conjunção de acasos. E, se essas duas linhas de força convergem por sua vez para engrossar a corrente de vociferações anti-americanas dominante na grande mídia de Madri, de Paris, de Berlim e de Nova York, isto não só acontece igualmente sem premeditação alguma, mas também não constitui objeção a que Dona Rosiska pinte o empreendimento todo como uma heróica reação de cidadãos independentes e inermes contra a onipotência do “sistema” organizado e rico.

Como se o “sistema” não consistisse precisamente na parceria dos organismos internacionais com a grande mídia e a organização da militância radical na cerrada malha de ONGs ativistas que cobre todo o planeta e num instante faz ecoar suas palavras-de-ordem em todas as redações, segura da uniformidade das opiniões no dia seguinte.

Como se a mesma mídia que Dona Rosiska finge denunciar não tivesse tido um papel de destaque na condução “espontânea” das massas para a genuflexa rendição à prepotência dos terroristas.

Como se a existência e funcionamento das “redes” fossem totalmente desconhecidos, como se não fossem objetos de uma detalhada bibliografia acadêmica, como se na mesma internet não circulasse desde 1996 uma obra como The Advent of Netwar , de John Arquilla e David F. Ronfeldt ( http://www.rand.org/publications/MR/MR789/ ).

Como se o oceano de dinheiro público e privado que engorda essa máquina infernal de propaganda pudesse ser ocultado dos leitores e já não estivesse bem exposto aos olhos de todos em sites como http://www.activistcash.com .

Como se a própria dona Rosiska, desde os tempos em que servia ao mestre manipulador Paulo Fre ire até a época mais recente em que passou a brilhar nos altos círculos do “beautiful people” nacional e internacional, não tivesse feito toda a sua carreira dentro e sob a generosa proteção desse sistema, ignorando portanto candidamente a existência dele e não tendo, pobrezinha, outra maneira de explicar os resultados espetaculares de suas ações globais senão o apelo pueril a uma hipótese mágica.

Nunca a realidade foi tão simetricamente invertida, nunca a astúcia sagaz dos manipuladores se camuflou sob tão cândida inocência. Compreendo que Dona Rosiska faça tanto sucesso hoje em dia. Seu discurso é um resumo vivo do modelo brasileiro de honestidade intelectual.

Em 3 de junho de 2004

Da Ignorancia A Mentira

3 de julho de 2006 | Diário do Comércio

Um simpático leitor enviou o meu artigo “Dormindo Profundamente” a um círculo de empresários de bastante peso em São Paulo, e recebeu de um deles, em resposta, um compêndio de chavões pueris, irresponsáveis e presunçosos cuja autoridade nesse meio basta, por si, para explicar a desgraça do Brasil, mesmo abstraída a obra petista de destruição. A carta merece ser examinada porque reflete menos a opinião de um indivíduo do que um conjunto de crenças compartilhadas por uma parcela ativa da classe empresarial, crenças que contrariam flagrantemente a realidade mas são reforçadas todo dia pela mídia bem-pensante. Sócrates dizia que a ignorância é a raiz de todos os males. Mas o ignorante pobre só faz o mal a si mesmo, no máximo a mais meia dúzia em torno. Transformar a ignorância em autoridade pública é empreendimento dispendioso: o sujeito tem de pagar muito bem para que as pessoas ouçam com reverência bobagens que sem isso nem mereceriam atenção. Groucho Marx dizia a um desses opinadores milionários: “É preciso ter mesmo muito dinheiro, para sobreviver com essa sua cabeça.”

Mas a ignorância, como tudo o mais nesta vida, não permanece estável: evolui. Nasce como pura falta de conhecimentos, mas transmuta-se em incapacidade e por fim em recusa absoluta de adquiri-los, mesmo quando disso dependa a sobrevivência do interessado. Começa como um estado natural e transforma-se numa requintada forma de perversidade.

Mais ainda: se o ignorante ocupa um lugar de destaque na sociedade, se ele é o que hoje se chama um “formador de opinião”, então deve ter à mão um estoque de declarações requeridas para as diferentes ocasiões de uma vida social variada: jantares, reuniões de diretoria, entrevistas na mídia, discursos de posse, homenagens etc. Sem disposição ou paciência para criar opiniões mediante estudo, só lhe resta preencher as lacunas voluntárias do conhecimento com os produtos espontâneos da sua fantasia pessoal. Não sendo, porém, verossímil que a mente imune ao conhecimento seja ao mesmo tempo dotada de grande vivacidade imaginativa, o mais provável é que o sujeito não crie suas fantasias, mas as absorva passivamente do falatório em torno, repetindo-as como se fossem suas e legitimando-as com a autoridade da sua posição na sociedade. É assim que milhares de mentiras tolas, vindas de uma multidão de pequenos fofoqueiros e desinformantes, se condensam num sistema de cretinices respeitáveis, oficiais, cuja contestação se expõe à repulsa e ao desprezo gerais.

Em todo caso, estou muito grato ao palpiteiro, por ter resumido em poucos parágrafos o conjunto das lendas e ilusões que entorpecem boa parte da nossa classe empresarial e a incapacitam para uma reação eficaz ao presente estado de coisas.

Ele começa sua exposição apelando a dois chavões consagrados: “ Tão atrasado e fora de contexto quanto qualquer projeto revolucionário marxista em qualquer parte do mundo, é o temor e a neurose permanente em combatê-los .” Em outras palavras: (1) O anticomunismo está fora de moda. (2) Ele é um sintoma neurótico.

Discutir com o ignorante é uma das tarefas mais difíceis deste mundo. As razões do debatedor inteligente, culto, são transparentes: exibem-se no conteúdo do seu discurso, porque ele mesmo as pensou e as colocou ali. As do ignorante, sendo desconhecidas dele próprio, vêm de uma atmosfera social difusa, entre obscuras associações de idéias, automatismos de linguagem e mil e um pressupostos mal conscientizados. Desencavá-las é como analisar um sonho. Você tem de mergulhar fundo no inconsciente coletivo para descobrir de onde o cidadão tirou os motivos de crer naquilo que afirma.

A origem das duas idéias expostas é diferente. Uma espalhou-se pela mídia como reação imediata do triunfalismo liberal ante a queda da URSS. A outra é bem anterior: é um slogan inventado pela KGB nos anos 40 e tão intensamente repetido ao longo das décadas que acabou por disseminar entre os próprios liberais e conservadores a inibição de declarar-se e mais ainda de ser anticomunistas. São, ambas, puras expressões emotivas, que nem mesmo podem ser discutidas como juízos de realidade. A primeira expressa um desejo, a segunda uma autodefesa preventiva contra a ameaça do riso e da chacota, propositadamente espalhada no ar pelos próprios inventores do slogan .

No primeiro caso, o que tenho a observar é que a moda local está um tanto atrasada em relação ao debate de idéias nas áreas mais civilizadas do planeta. No ano 2000, Jean-François Revel já publicava La Grande Parade.

Essai sur la Survie de l’Utopie Socialiste (Paris, Plon), expressando a tomada de consciência dos liberais franceses de que o movimento comunista, aparentemente defunto em 1990, se havia reerguido mais poderoso do que nunca, organizado mundialmente e com uma rede de apoios muito mais vasta do que jamais tivera. Esta constatação é uniformemente compartilhada por todos os estudiosos do assunto nos EUA e na Europa. A bibliografia a respeito é esmagadora, mas, no Brasil, como ninguém lê nada, ainda se pode alegar manchetes do Economist de quinze anos atrás como se fossem a última palavra. A ignorância tem seu tempo histórico próprio, imune aos fatos do mundo.

Quanto à difamação do anticomunismo como “neurose”, sua eficácia paralisante tende a diminuir no resto do universo, à medida que a direita européia e americana descobre que foi vítima desse engodo para muito além do que poderia admitir a honorabilidade da sua inteligência. Em 1956, o preconceito contra o anticomunismo fez com que os EUA aceitassem Fidel Castro como um grande líder democrático, ajudando-o a consolidar-se no poder. Em 1973, quando Henry Kissinger recebia o Prêmio Nobel da Paz por ter retirado as tropas americanas no Vietnã, quem dissesse que o efeito da festejada obra diplomática seria o genocídio da população civil era objeto de riso. Três milhões de cadáveres depois, é preciso muita teimosia para não enxergar que a pax kissingeriana ocasionou a tomada do Vietnã do Sul pelo Vietnã do Norte, a ascensão de Pol-Pot no vizinho Camboja e todos os horrores que transcenderam em muito os males da guerra. Em 2002, o analista estratégico Constantine Menges, do Hudson Institute, foi alvo de toda sorte de gracejos maliciosos na mídia nacional por ter dito que a América Latina caminhava para a formação de um eixo anti-americano. Hoje o eixo está visível diante de todos, e aqueles que riram de Constantine Menges já tiraram a máscara, confessando que queriam apenas o silêncio e a discrição necessários para chegar exatamente a isso. O que o cidadão nos propõe é cairmos de novo no mesmo truque, só para não corrermos o risco temível de sermos alvo de gozações comunistas. Não há nada mais ridículo do que o medo do ridículo.

Prossegue o indigitado:

“ Clinton e Jimmy Carter como agentes do comunismo internacional??? A criação de teorias conspiratórias sempre desperta curiosidade e por mais absurdas e não fundamentadas que sejam, apenas por contrariarem radicalmente o senso comum e o que é de domínio público, já conferem a seus autores uma aura de inteligência superior ou informação privilegiada...

” Deixo de comentar a elipse enganosa que, para gerar uma falsa impressão de comicidade, substitui “agentes do CFR” por “agentes do comunismo”. É um tipo de truque estilístico que também remonta ao jornalismo comunista dos anos 40. Seu contínuo poder de impregnação na linguagem dos próprios adversários nominais do comunismo é uma das glórias da estupidez humana.

Também nada digo dos três pontos de interrogação. Seria realmente o cúmulo da genialidade retórica, destruir um edifício de fatos e documentos mediante um simples aceno ortográfico. O sujeito acha que conseguiu isso. Só falta chamar a mãe para contemplar o filhinho em seu momento de triunfo. A vaidade da ignorância é um abismo de miséria humana.

Quanto à depreciação do meu artigo como “teoria conspiratória”, era infalível e já estava prevista nele mesmo. Chavões têm sobre certas mentalidades o poder persuasivo de uma revelação divina. Muito significativamente, após alegar a “falta de fundamentos” da minha exposição, o indivíduo apresenta os da sua: “o senso comum e o que é de domínio público”. Muito bem: contra informações diretas da fonte, prevalece a autoridade do que a patota diz e do que sai no jornal. Mais explícita confissão de credulidade beócia não se poderia esperar. Pergunto-me o que pode ser de um país onde a liderança empresarial se deixa guiar por gente assim, inflada de desprezo pela inteligência e pelos estudos sérios. Foi essa mentalidade, afinal, que elegeu Lula. Não vejo como ela pode tirá-lo do poder que lhe deu.

Baseado no que lê na Folha e no Globo , o indivíduo sentencia: “ Acredito sinceramente que estamos em outro momento histórico, sem espaço para qualquer coisa semelhante a uma revolução esquerdista...

” Ele deveria informar isso ao Fórum Social Mundial, ao Foro de São Paulo, à Organização de Cooperação de Shangai, à rede mundial de ONGs ativistas e ao movimento terrorista internacional.

Em todos esses lugares prevalece a crença oposta: a de que a direita está desmantelada politicamente por toda parte, exceto nos EUA, e de que nunca o projeto da revolução mundial foi tão viável como neste momento. Evidentemente, as atas e documentos dessas entidades, suas discussões internas e as análises feitas por seus estrategistas não saem no Jornal Nacional . Muito menos nas novelas. São um material difícil, tedioso, que só interessa aos envolvidos ou a estudiosos. Se depender de líderes como o autor dessa carta, a classe empresarial jamais conhecerá os planos que seus inimigos estão fazendo contra ela.

Em seguida o sujeito parte para a negação explícita de que os líderes articulados no Foro de São Paulo – Lula, Chavez, Evo Morales, o próprio Fidel Castro — sejam agentes de uma estratégia esquerdista comum. No seu entender, são apenas tipos singulares agindo em função de preferências, idiossincrasias e interesses pessoais. Chavez, por exemplo:

“ Há muito pouco de ideológico nele, sua orientação é apenas e tão somente populista e seu projeto é pessoal... Ele sabe que a adoção de qualquer discurso ou convicção ideológica mais sólida (principalmente a comunista) colocariam seu governo a perigo, reduziriam seu apoio e colocariam sua própria figura em segundo plano... Por isso adota como discurso ideológico o mais óbvio e vazio, mas tão caro aos pobres latino-americanos: o anti-americanismo. Sua semelhança com Lula? Total. Chaves, Lula, Dirceu e companhia leram Maquiavel de cabo a rabo, e aí reside o problema... Não há nem em Lula nem no PT mais nada de ideológico. Acreditar no contrário, é cair na armadilha criada por eles de tentar implicitamente justificar, sob argumentos ideológicos, a bandalheira praticada. O ‘Projeto’ não é à esquerda ou à direita. É de perpetuar-se no poder, pura e simplesmente. Ideologia tem o Bruno Maranhão, que está preso. Ideologia tem a Heloisa Helena e a Luciana Genro, que fundaram um partido nanico..

.”

Cada uma dessas opiniões pode ser rastreada até suas origens na própria mídia esquerdista que as pôs a circular como pura desinformação. Desde logo, a identificação, muito caracteristicamente pequeno-burguesa, de “ideologia” com “idealismo” ou “esperança utópica” em oposição a “interesses”, “maquiavelismo” e “desejo de poder”. Todo esquerdista com QI superior a 12 sabe que essa identificação é falsa, mas por isso mesmo boa para ser espalhada entre direitistas idiotas. Ideologia, segundo a tradição marxista, é precisamente um vestido de idéias encobrindo interesses político-econômicos determinados. Longe de opor-se aos interesses, ela é seu instrumento e é concebida para atendê-los, para conquistar e ampliar o poder. Se o adversário boboca vê uma oposição inconciliável onde o esquerdista sabe haver uma unidade dialética, tanto melhor para este último: pode bater com duas mãos num adversário que só enxerga uma de cada vez.

Mais ingênuo ainda é tentar explicar tudo pelo maquiavelismo pessoal dos líderes esquerdistas, como se a estratégia da revolução gramsciana na sua totalidade não fosse ela própria baseada em Maquiavel. Lula, Chávez e Dirceu, se chegaram a ler Maquiavel, o leram através de Gramsci, e sabem que nas condições do mundo moderno o maquiavelismo individual nada pode: o novo “Príncipe” é o partido revolucionário. As dimensões majestosas da corrupção petista, superando incomparavelmente os delitos avulsos de políticos individuais, são a melhor prova disso.

Quanto à crença de que Chavez ou Lula tenham estratégias pessoais independentes, inconexas entre si, é uma bobagem descomunal que não resiste ao mínimo confronto com os documentos. As atas do Foro de São Paulo atestam abundantemente a estratégia comum — e a unidade dessa estratégia se torna visível nos momentos em que sua realização ameaça estender até à ruptura o conflito de interesses nacionais, como se viu no caso da Petrobrás, no dos lavradores brasileiros expulsos da Bolívia ou nos tiroteios entre as Farc e o Exército nacional. Nada disso, que normalmente resultaria em guerra, abala a firmeza dos acordos estratégicos firmados no Foro de São Paulo. Mais unidade que isso, só na fórmula 1 = 1.

O diagnóstico flagrantemente errado produz uma terapêutica ainda mais alienada da realidade. Contra a marcha avassaladora do esquerdismo continental, o homenzinho propõe o moralismo apolítico, a recusa obsequiosa de atacar a esquerda como tal, a persistência no erro já velho de uma década: “ Melhor seria se a direita conseguisse fazer um contraponto moral àquilo que hoje está aí, o que não consegue porque está contaminada até a alma de interesses espúrios e associada a práticas políticas abomináveis.”

Mas se a falta de ideologia, o oportunismo sujo e o império dos interesses pessoais fizeram tão bem ao PT, por que teriam sido a causa do fracasso do PFL? Por puro instinto lógico, toda criança de dez anos percebe isto: um fator que permanece constante e idêntico em dois processos opostos não pode ser a causa da sua diferenciação. Não é interessante que o apóstolo do “senso comum” o maltrate tão desapiedadamente ao exigir que ele engula como verdade tranqüila uma contradição intolerável?

Sugerir que a direita, para vencer o PT, se dedique a novos e ampliados rituais de auto-sacrifício purificador é querer que ela entregue de bandeja mais algumas cabeças de líderes, como já entregou tantas, na inútil e covarde esperança de assim escapar às críticas maliciosas de petistas que enquanto isso roubavam e delinqüiam incomparavelmente mais que os acusados. Basta comparar as miúdas ilicitudes de um Collor à grandeza imperial do Mensalão ou à violência do caso Celso Daniel para compreender que o apelo à penitência moralista só serve para tornar a direita uma vítima inerme da “guerra assimétrica”, onde um dos lados tem a obrigação de se prosternar no altar da moralidade, enquanto o outro, quando ameaçado por denúncias, aproveita a ocasião para buscar fortalecer sua unidade na defesa comum contra o atacante. A direita nacional começou a destruir-se quando, após ter depositado suas melhores esperanças em Fernando Collor, correu para ajudar o inimigo comum a destrui-lo, mesmo antes de ter contra o suspeito qualquer prova juridicamente válida. Com anos de antecedência, em 1993, expliquei que a “Campanha pela Ética na Política” tinha sido concebida exatamente para isso, que qualquer concessão à versão brasileira da “Operação Mãos Limpas” (ela própria um truque esquerdista sujo) seria apenas cumplicidade suicida com a estratégia mais perversa e astuta já adotada pela esquerda nacional ao longo de toda a sua existência. Collor, mais tarde, foi absolvido pela Justiça, mas sua fama de ladrão, criada pela esquerda, persiste inabalável, mesmo diante da comparação com tudo o que de infinitamente pior veio depois. Para conservá-la viva, a direita consiste em mentir contra si mesma e ainda se oferece para humilhar-se mais um pouco diante do adversário.

Aí a ignorância se transcende, se transforma em apego irracional à mentira. “Liberais” como o signatário dessa carta são a praga que debilita o liberalismo e o impede de se tornar uma força política à altura dos desafios colocados pela ascensão geral do esquerdismo. O serviço que ele presta à esquerda é tão grande, que tornaria razoável a suspeita de tratar-se de um agente provocador ou desinformante infiltrado, se fosse preciso essa hipótese para dar razão de uma conduta que, no entanto, o amor patológico à mentira basta para explicar perfeitamente bem.

Lula Planetario

3 de janeiro de 2004 | O Globo

Se Homero tinha razão ao dizer que os moinhos dos deuses moem lentamente, o cérebro nacional deve ser divino, pois é infinita a lentidão com que processa as mais óbvias informações. O filósofo Raymond Abellio, que nos conhecia bem, observava que nesta parte do universo a germinação das idéias não segue o ritmo histórico, mas o tempo geológico. Nada o ilustra melhor do que a renitente ignorância das elites brasileiras em torno da questão do governo mundial. Nossos líderes empresariais e políticos ainda vivem na época em que toda menção ao assunto podia ser tranqüilamente rejeitada, com um sorriso de desdém, como “teoria da conspiração”. No entanto, há pelo menos dez anos a ONU já declarou oficialmente sua intenção de consolidar-se como administração planetária: “Os problemas da humanidade já não podem ser resolvidos pelos governos nacionais. O que é preciso é um Governo Mundial. A melhor maneira de realizá-lo é fortalecendo as Nações Unidas” ( Relatório sobre o Desenvolvimento Humano , 1994).

A autoridade avassaladora desse projeto constitui hoje a fonte única e central de onde jorram sobre toda a população terráquea legislações uniformes em matéria de indústria, comércio, ecologia, saúde, educação, quotas raciais, desarmamento civil, etc. A docilidade com que até nações poderosas como a Inglaterra se vergam às suas exigências — embora nenhuma com o entusiástico servilismo brasileiro — deve-se em parte à natureza informal, sutil e tácita do processo, que vai se implantando em doses homeopáticas, delicadamente, sem assumir sua existência de conjunto, transferindo para o recinto fechado das comissões técnicas as decisões rotuladas complexas demais para a competência da opinião pública e antecipando, assim, o fato consumado à mera possibilidade da discussão aberta.

As únicas resistências que tem encontrado vêm dos EUA e de Israel.

Mas os EUA permanecem num constante vaivém entre o desejo de afirmar sua independência contra as pretensões do globalismo e a tentação de tomar as rédeas do processo para conduzi-lo a seu modo. Assumir a liderança da uniformização mundial, arriscando perder a soberania e desarmar-se contra agressões letais, ou então entrincheirar-se numa auto-afirmação nacionalista com o risco de desmantelar a aparente “ordem internacional” e suportar a hostilidade conseqüente, eis as opções que se oferecem aos EUA. A primeira dessas tendências predominou no governo Clinton. O resultado foi que os americanos, de concessão em concessão, consentiram em se enfraquecer militarmente e em curvar-se à intromissão estrangeira em campos vitais como ecologia, educação e imigração, ao mesmo tempo que, envergando a máscara de líderes e beneficiários maiores da globalização, se tornavam o bode expiatório do próprio mal que os debilitava. Com o governo Bush, a orientação girou 180 graus. A virada veio em 2001, com a rejeição do Protocolo de Kyoto e a decisão de reagir ao 11 de setembro sem o beneplácito da ONU.

O projeto do governo mundial é originariamente comunista (v. Elliot R. Goodman, O Plano Soviético de Estado Mundial , Rio, Presença, 1965), e os grupos econômicos ocidentais que se deixaram seduzir pela idéia, esperando tirar proveito dela, sempre acabaram financiando movimentos comunistas ao mesmo tempo que expandiam globalmente seus próprios negócios. As fundações Ford e Rockefeller são os exemplos mais notórios. Nesses como em outros casos, a contradição entre o interesse econômico envolvido e as ambições políticas de longo prazo é origem de inumeráveis ambigüidades que desorientam o observador e, se ele é preguiçoso, o induzem a não pensar mais no assunto.

Uma coisa é certa: nos anos 70 e 80, a globalização parecia favorecer os EUA, mas na década seguinte ela tomou o rumo bem claro de uma articulação mundial anti-americana e, por tabela, anti-israelense. A eleição de George W. Bush e a política de afirmação nacional que ele tem seguido são as respostas lógicas a essa nova situação.

Como isso afeta o Brasil?

O sr. Luís Inácio da Silva foi posto no poder com o apoio da rede global de partidos e organizações tecida em torno da ONU. Essa rede constitui o núcleo do governo mundial em avançada fase de implantação. A exorbitância de aplausos internacionais que saudaram a eleição do candidato petista não veio do nada: foi a expressão natural de júbilo do criador ante o sucesso da criatura. Se a própria escolha do Brasil como sede do Fórum Social Mundial poucos meses antes das eleições já não fosse prova suficiente da articulação planetária montada para esse fim, bastaria como confirmação ex post facto a pressa obscena com que a rede se mobilizou para tentar dar ao cidadão um Prêmio Nobel pelo “Fome Zero” antes que uma só colherada de feijão estatal chegasse à boca de algum faminto. O primeiro Nobel-a-crédito da História não chegou a ser conferido, mas é revelador.

Nesse quadro, a mobilização contra o “império americano” é hoje apenas uma vasta operação diversionista para camuflar a implantação do verdadeiro império e para colocar a serviço dele as veleidades nacionalistas de povos pouco esclarecidos, mais propensos a esbofetear espantalhos convencionais do que a identificar e enfrentar as verdadeiras fontes das limitações que os oprimem. Lutando contra a mera possibilidade teórica de um domínio mundial americano, as nações de cretinos tudo cedem ante uma ditadura global já praticamente vitoriosa no presente.

Em 3 de janeiro de 2004

Fora Do Tempo E Fora De Si

3 de dezembro de 2000 | Zero Hora,

Numa época em que a guerrilha comunista domina um país vizinho e no Brasil um partido marxista-leninista com serviço secreto privado e uma bela retaguarda armada está em vias de chegar ao poder, qualquer resistência ao comunismo é, surpreendentemente, acusada de estar “fora de moda”. Ressoando aos ouvidos de um povo que tem um terrível complexo de atraso, essa acusação tem imediato efeito paralisante. Preso em flagrante delito de pedofilia, um brasileiro não sentiria tanta vergonha quanto ao ser denunciado como “demodé” ou “ultrapassado”.

Mas a acusação tem ainda uma nuance mais sutil: ela insinua que o anticomunismo está ultrapassado porque seu inimigo não existe mais; combater o comunismo é lutar contra fantasmas do tempo da guerra fria. A ditadura comunista que oprime um bilhão e trezentos milhões de chineses, vietnamitas e tibetanos não existe, Fidel Castro não existe, os guerrilheiros da Colômbia não existem, Chavez não existe e a revolução camponesa do MST também não existe: nós é que, por sermos retrógrados e desinformados, resistimos às suas agressões como se eles existissem. Se fôssemos pessoas modernas, consentiríamos em que essas criaturas da nossa imaginação, caso não pudessem provar sua inexistência, ao menos decretassem a nossa, suprimindo-nos do rol dos existentes. Aí estaríamos na moda. Mais que socialistas, seríamos socialites.

O problema é que a crença na inexistência do comunismo é coisa ainda mais antiga do que a guerra fria. O comunismo jamais gostou de admitir que existe. Na década de 20 a OGPU (antepassada da KGB) já pagava a escritores exilados para que escrevessem livros demonstrando que o comunismo na Rússia tinha acabado. Mao Tsé-tung foi apresentado em comunicados oficiais do Kremlin como um inofensivo “socialista cristão”, Fidel Castro como um progressista democrático estilo americano. Depois de 1917, ninguém no mundo fez jamais uma revolução comunista anunciando que era uma revolução comunista. Se querem ter idéia do tremendo investimento que o comunismo tem feito, em dinheiro e esforço, para provar que não existe, leiam “New Lies for Old”, de Anatoliy Golitsyn (Atlanta, Clarion House, 1990). O autor é um ex-agente da KGB que testemunhou pessoalmente algumas dessas gigantescas operações de desinformação.

De outro lado, também é errado imaginar que o anticomunismo é coisa de museu. Arquivos históricos não são museus: são depósitos de bombas. Desde a abertura dos arquivos da KGB, o anticomunismo tornou-se o grande assunto nos círculos acadêmicos civilizados. Ela mostrou que tudo aquilo que nos anos 60 nós, jovens militantes, rejeitávamos como mentiras sórdidas do imperialismo, era pura verdade. Acreditávamos que os Rosenbergs tinham sido vítimas de um complô: os arquivos da KGB mostraram que eram mesmo espiões. Acreditávamos que os artistas demitidos de Hollywood eram inocentes perseguidos por discriminação ideológica: os documentos mostraram que cada um deles era um colaborador recrutado pela KGB. Acreditávamos que o “ouro de Moscou” era um mito criado pela CIA: hoje sabemos que bilhões de dólares saíram do Kremlin para financiar revoluções, golpes de Estado e assassinatos políticos. Acreditávamos que os planos comunistas de domínio mundial eram pura invencionice do Pentágono: hoje temos as provas de que eram uma realidade. Agora, que cartas, contracheques, ordens de serviço e memorandos estão à disposição de quem queira conferi-los nos arquivos de Moscou, já não podemos refugiar-nos sob a desculpa de sermos “inocentes úteis”. Como resumiu o historiador John Lewis Gaddis no título de um recente best seller sobre a história do anticomunismo, “We Now Know”: agora sabemos. Sabemos que, hoje, acreditar em comunistas seria inocência perversa. Sabemos? Quem “sabemos”? No Brasil ninguém sabe. Excetuando as buscas de William Waack, das quais a suposta vítima de discriminação ideológica, Olga Benário, emergiu como comprovada espiã do serviço secreto militar soviético, nenhum brasileiro quis saber nada, e o que se vem descobrindo no mundo continua excluído da nossa imprensa e das nossas livrarias, graças ao esforço de devotados vigilantes. Por isso ainda há quem diga que ser anticomunista no ano 2000 está tão fora de época quanto estava dez anos atrás. Nem mesmo em meras questões de moda é prudente acreditar nessa gente. Por isso é preciso também rejeitar com veemência a mentira de que essas excursões de militantes petistas a Cuba, das quais a mais recente levou a Havana 220 deles em companhia do sr. Luís Ignácio Lula da Silva, são meras viagens de saudosismo. A revolução continental da qual o eterno candidato se proclama eterno apaixonado não é coisa do passado. Neste mesmo momento, prisioneiros sofrem tortura e fome nos campos de concentração montados pelas FARC com o apoio de Cuba e sob os aplausos do PT, enquanto o sr. Lula pretende que acreditemos que seus contatos com o alto escalão cubano são apenas festinhas de sessentões nostálgicos. Para acreditar nisso a gente tem de estar não apenas fora do tempo: tem de estar fora de si.

Em 3 de dezembro de 2000

O Ovo E O Pinto

3 de agosto de 2014 | Folha de São Paulo

Meu artigo anterior suscitou uma pergunta interessante na área de comentários: se há tanta gente nas altas esferas colaborando com o comunismo, como é que ele ainda não dominou o mundo?

A primeira e mais óbvia resposta é que “o comunismo” como regime, como sistema de propriedade, é uma coisa, e o “movimento comunista” enquanto rede de organizações é outra. O primeiro é totalmente inviável, mas por isso mesmo o segundo pode crescer indefinidamente sem jamais ser obrigado a realizá-lo, limitando-se, em vez disso, a colher os lucros do que vai roubando, usurpando, prostituindo e destruindo pelo caminho.

São duas faixas de realidade completamente distintas, que se mesclam numa confusão desnorteante sob a denominação de “comunismo”.

Uma analogia tornará as coisas mais claras. Nenhum ser humano pode levar uma vida razoável com base numa loucura, mas, por isso mesmo, nada o impede de ficar cada vez mais louco: ele se estrepa, mas a loucura progride. A força da loucura consiste precisamente em furtar-se ao teste de realidade. Os comunistas não podem realizar a economia comunista. Se têm uma imensa facilidade em arrebanhar pessoas para que lutem por esse fim irrealizável, é precisamente porque ele é irrealizável, o que é o mesmo que dizer: inacessível a toda avaliação objetiva de resultados.

Jamais existirá uma economia comunista da qual seus criadores digam: “Eis aqui o comunismo realizado. Podem julgar-nos e dizer se cumprimos ou não as nossas promessas.” É da natureza mais íntima do ideal comunista ser uma promessa indefinidamente autoadiável, imune, por isso, a todo julgamento humano. Seu prestígio quase religioso vem exatamente disso: o comunismo traz o Juízo Final do céu para a Terra, mas também sem data marcada.

Daí o aparente paradoxo de um movimento que, quanto mais cresce e mais poderoso se torna, mais se afasta dos seus fins proclamados. A esse paradoxo acrescenta-se um segundo: quanto mais se afasta desses fins, mais o movimento está livre para alegar que foi traído e que tem direito a uma nova oportunidade, com meios mais “puros”. Mas o paradoxo dos paradoxos reside numa faixa ainda mais profunda.

Se alguém diz que vai fazer o impossível, com certeza não fará nada ou fará outra coisa. Se fizer, poderá ao mesmo tempo dar a essa coisa o nome daquilo que pretendia e alegar que ela ainda não é, ou que não é de maneira alguma, aquilo que pretendia. Daí a ambiguidade permanente do discurso comunista, que pode sempre se alardear um movimento poderoso destinado a uma vitória inevitável, e ao mesmo tempo minimizar ou negar a sua própria existência, jurando que ela não passa de uma “teoria da conspiração”, de uma invencionice de lacaios do capital.

É alucinante, mas é o que acontece todos os dias. Definitivamente, a mente comunista não funciona segundo os cânones da psicologia usual, mas segue uma lógica própria, onde se misturam, em doses indistinguíveis, a habilidade dialética, o autoengano histérico e a mendacidade psicopática.

Por isso mesmo é que o crescimento vertiginoso do movimento comunista acompanha, “pari passu”, não a decadência do capitalismo, mas a escalada do seu sucesso. O comunismo como regime, como sistema econômico, não existe nem existirá nunca. O comunismo só pode existir como movimento político que vive de parasitar o capitalismo e, por isso mesmo, cresce com ele.

Mas, por mais que sobreviva e se fortaleça, o corpo parasitado não sai ileso da parasitagem: limitado cada vez mais à função de fornecedor de recursos e pretextos para o parasita, ele vai perdendo todos os valores morais, religiosos e culturais que originalmente o inspiraram e reduzindo-se à mecanicidade do puro jogo econômico, cada vez mais fácil de criticar, enquanto o parasita se adorna de todo o prestígio da moral e da cultura.

O modus operandi dessa parasitagem é duplo: de um lado, as economias comunistas só sobrevivem graças à ajuda capitalista vinda do exterior. De outro, em cada nação, o crescimento da economia capitalista alimenta cada vez mais a cultura comunista.

Na mesma medida em que a mais absoluta inviabilidade impede a construção da economia comunista, o comunismo militante alcança vitória atrás de vitória no seu empenho de transformar o capitalismo numa geringonça infernal e sem sentido. Toda a lógica do comunismo, em última análise, deriva da idéia hegeliana do “trabalho do negativo”, ou destruição criativa.

A Falsa Memoria Da Direita

3 de agosto de 2012 | Diário do Comércio

Dizem que o Brasil é um país sem memória, mas isso não é verdade: o Brasil é um país com falsa memória. Esquecer o passado é uma coisa, reinventá-lo conforme as ilusões do dia é bem outra. É desta doença que a memória do Brasil padece, e ela é bem mais grave que a amnésia pura e simples.

Não, não estou falando da manipulação esquerdista do passado. Ela existe, mas é só um aspecto parcial da patologia geral a que me refiro. Esta infecta pessoas de todas as orientações ideológicas possíveis e algumas sem orientação ideológica nenhuma. Ela é um simples resultado da ojeriza nacional à busca do conhecimento, portanto à reflexão madura sobre o que quer que seja.

Querem um exemplo de falsa visão do passado que não foi produzida por nenhum esquerdista? O país está cheio de almas conservadoras e cristãs que ainda idealizam o regime militar, como se ele fosse uma utopia retroativa, a encarnação extinta das suas esperanças.

É verdade que os militares não roubavam, que eles fizeram o país crescer à base de quinze por cento ao ano, que eles construíram praticamente todas as obras de infra-estrutura em que a economia nacional se apóia até hoje, que eles acabaram com as guerrilhas, que no tempo deles a criminalidade era ínfima e que os índices de aprovação do governo permaneceram bem altos pelo menos até a metade da gestão Figueiredo. Que tudo isso são méritos, ninguém com alguma idoneidade pode negar.

Mas também é verdade que, tendo subido ao poder com a ajuda de uma rede enorme de instituições, partidos e grupos conservadores e religiosos, a primeira coisa que eles fizeram foi desmanchar essa rede, cortar as cabeças dos principais líderes políticos conservadores e privar-se de qualquer suporte ideológico na sociedade civil.

Fizeram isso porque não eram conservadores de maneira alguma, eram indivíduos formados na tradição positivista – forte nos meios militares até hoje – que abomina o livre movimento das idéias na sociedade e acredita que o melhor governo possível é uma ditadura tecnocrática. Pois foi uma ditadura de militares e tecnocratas iluminados o que impuseram ao país por vinte anos, rebaixando a política à rotina servil de carimbar sem discussão os decretos governamentais. Suas mais altas realizações foram triunfos típicos de uma tecnocracia, seus crimes e fracassos o efeito incontornável do desejo de tudo controlar, de tudo reduzir a um problema tecnoburocrático onde o debate político é reduzido a miudezas administrativas e a onde a iniciativa espontânea da sociedade não conta para absolutamente nada.

O positivismo nada tem de conservador: é, com o marxismo, uma das duas alas principais do movimento revolucionário. Compartilha com sua irmã inimiga a crença de que cabe à elite governante remoldar a sociedade de alto a baixo, falando em nome do povo para que o povo não possa falar em seu próprio nome. Tal foi, acima de qualquer possibilidade de dúvida, a inspiração que acabou por predominar nos governos militares. Que dessem ao movimento de 1964 o nome de “Revolução” não foi mera coincidência, nem usurpação publicitária de um símbolo esquerdista: foi um sinal de que, por baixo da meta nominal de derrubar um governo corrupto e devolver rapidamente o país à normalidade, tinham planos de longo prazo, totalmente ignorados da massa que os aplaudia e até de alguns dos líderes civis de cuja popularidade se serviram para depois jogá-los fora com a maior sem-cerimônia.

Todas as organizações civis conservadoras e de direita que criaram a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, a maior manifestação popular da história brasileira até então, foram depois extintas, marginalizadas ou reduzidas a um papel decorativo. Como bons tecnocratas, os militares acreditavam piamente que podiam governar sem sustentação cultural e ideológica na sociedade civil, substituindo-a com vantagem pela pura propaganda oficial. Esta, por sua vez, era esvaziada de toda substância ideológica, reduzida ao triunfalismo econômico e à luta contra o “crime”. Gramsci, no túmulo, se revirava, mas de satisfação: que mimo mais delicioso se poderia oferecer aos próceres da “revolução cultural” do que um governo de direita que abdicava de concorrer com eles no campo cujo domínio eles mais ambicionavam? Naqueles anos, e não por coincidência, o monopólio do debate ideológico foi transferido à esquerda, que ao mesmo tempo ia dominando a mídia, as universidades, o movimento editorial e todas as instituições de cultura, sob os olhos complacentes de um governo que por isso se gabava de ser “pragmático” e “superior a ideologias”.

A esquerda, quando caiu do cavalo em 1964, teve ao menos o mérito de se entregar a um longo processo de autocrítica e até de mea culpa, de onde emergiu a dupla e concorrente estratégia das guerrilhas e do gramscismo, calculada para usar os guerrilheiros como bois-de-piranha e abrir caminho para a “esquerda pacífica”, na qual o governo militar não viu periculosidade alguma até que ela, por sua vez, o derrubou do cavalo com o escândalo do Riocentro e a enxurrada de protestos que se lhe seguiu.

Aqueles que, na “direita”, ou no que resta dela, se apegam ao regime militar como um símbolo aglutinador, em vez de examinar criticamente os erros que o levaram ao fracasso, estão produzindo um falso passado. Não o fazem por esperteza, como a esquerda, mas por ingenuidade legítima, com base na qual a única coisa que se pode construir é um futuro ilusório.

Em 3 de agosto de 2012

Rabo A Mostra

3 de agosto de 2010 | Diário do Comércio

Que o PT não tenha nenhuma ligação com as Farc é uma alegação que não se pode aceitar nem a título de hipótese. Mesmo sem levar em conta as atas completas do Foro de São Paulo, nem os favores obscenos do governo Lula ao representante farqueano Olivério Medina, nem a completa omissão governamental ante as provas de atividade criminosa das Farc no nosso território, nem a revelação dos serviços de leva-e-traz oferecidos pelo sr. Marco Aurélio Garcia entre a narcoguerrilha colombiana e o então ministro Luiz Felipe Lampreia, até uma criança de cinco anos é capaz de compreender os seguintes fatos e juntar os pontos:

1. O Foro de São Paulo é a coordenação estratégica do movimento comunista na América Latina.

2. O sr. Luís Ignácio Lula da Silva e o líder das Farc, Raul Reyes, já presidiram juntos uma assembléia do Foro, e juntos participaram de todas as outras.

3. É impossível conceber que os dois coordenadores máximos de uma estratégia comum não tenham nenhuma ligação, nenhuma comunidade de interesses, nenhuma atividade conjunta.

Quem fez a afirmação número 1 foi o próprio PT, no vídeo preparatório do seu III Congresso. A número 2 veio da boca do próprio Raul Reyes em 2003, em entrevista à Folha de S. Paulo , e nenhum representante do PT jamais a desmentiu desde então. A número 3 é uma exigência incontornável da inteligência humana. Negá-la é fazer-se de besta. Ou ser besta sem precisar fazer-se tal.

E não venham dizer que tudo isso é coisa de antigamente, que uma vez na presidência o PT cortou todos os laços com as Farc. Só para dar um exemplo, um modesto exemplo de como as coisas não são assim: em plena gestão Lula o seu assessor de imprensa, Gilberto Carvalho, continuou dirigindo, de parceria com o chefe militar das Farc, Manuel Marulanda Vélez (“Comandante Tirofijo”), a revista de propaganda comunista “América Libre”. Como poderiam fazê-lo sem ter ligação nenhuma é algo que só se alcança conceber, se é que se alcança, em estado alterado de consciência.

A propalada ausência de ligações não é algo que mereça discussão, nem mesmo atenção. É uma desconversa insultuosa, inadmissível, que falta ao mais elementar respeito para com o ouvinte, o eleitorado em geral, a nação inteira, as leis e a moralidade. A simples tentativa de impingir ao público uma mentira tão grosseira, tão boba, tão pueril, já é mostra daquele cinismo ilimitado que caracteriza a mentalidade sociopática, incapaz de medir, seja a feiúra dos seus atos, seja a inverossimilhança das palavras que os encobrem.

Quem quer que venha com esse tipo de subterfúgio só prova duas coisas. Primeira: que tem muito a esconder. Segunda: que ao tentar esconder-se está deixando o rabo à mostra.

O Brasil, como vários outros países da América Latina, é governado por bandidos perigosos, frios, calculistas, organizados, firmemente decididos a sujar-se até à medula, a cometer as mais inconcebíveis baixezas para manter e ampliar ilimitadamente o seu poder. Felizmente, não são tão espertos quanto se imaginam. Retorcendo-se em dores para fingir um sorriso de tranqüilidade superior, só o que conseguem produzir é um sorriso amarelo. Desmentem-se, atrapalham-se, gaguejam e, no fim das contas, dão a cara a tapa. Só não levam o tapa porque neste país não há mais homem que o desfira. Nunca um crime esteve tão patente à vista de todos, nunca tantos desviaram o olhar para não ter de enxergá-lo.

Com aquela ligação esses bandidos estão fazendo o mesmo que fizeram com o Foro de São Paulo inteiro: primeiro negarão peremptoriamente a sua existência; depois buscarão dar-lhe aparência de coisa mínima, inofensiva, sem peso nem substância; por fim, quando sentirem que o perigo do escândalo já passou, começarão a trombeteá-la aos quatro ventos como façanha gloriosa, merecedora da gratidão da espécie humana.

Contarão, para isso, com a colaboração servil da mídia inteira e de praticamente todas as lideranças políticas, empresariais, religiosas, culturais, judiciais e militares deste país. Aqueles que, dessa massa de escravos e sicofantas, se levantarem por um minuto para esboçar um vago muxoxo, para encenar um débil lamento entre prudentes pedidos de desculpas e depois voltar ao confortável silêncio de sempre, serão celebrados como heróis, porque a alma popular se aviltou tanto que já não consegue conceber o heroísmo senão como paródia, como chanchada, como jogo de cena.

Em 3 de agosto de 2010

Olavo De Carvalho Esquerda Ocupou Vacuo Pos Ditadura

3 de abril de 2011 | Veja Online

Filósofo diz que espaço deixado pela ditadura militar foi tomado por esquerdistas, que contaram com a conivência de direitistas O filósofo Olavo de Carvalho se notabilizou pelas críticas à hegemonia esquerdista no espaço cultural e político do país. Desde que publicou o livro O Imbecil Coletivo , obra que ataca consensos construídos no ambiente cultural brasileiro, ele se tornou uma espécie de porta-voz da diminuta intelectualidade conservadora do país (embora tenha aversão a este papel).

Em entrevista concedida por telefone ao site de VEJA, ele diz que a direita tem boa parte da culpa pela própria derrocada e critica o fato de legendas liberais terem se apegado à discussão meramente econômica. O filósofo, que mora na zona rural da Virgínia, diz que o eleitorado conservador não vai encontrar tão cedo um partido que represente suas ideias no país.

A ausência de um partido conservador no Brasil é resultado das circunstâncias políticas ou de uma estratégia bem-sucedida da esquerda?

Não é nem só uma coisa nem só outra. O processo começou durante o regime militar, quando tecnocratas assumiram todo o comando do processo e marginalizaram a política, reduzindo a função dos políticos a carimbar decretos oficiais. E, na concorrência de poder e prestígio, eles eliminaram alguns políticos de direita da mais alta qualidade, como Carlos Lacerda. A Arena era ideologicamente inócua. De lá para cá, a classe política, que era de maioria direitista, acabou sendo marginalizada e deixando um espaço vazio. Esse espaço foi preenchido pelos políticos de esquerda que voltavam do exílio. Quando veio a Constituição de 1988, a esquerda já era praticamente hegemônica.

O regime militar não conseguiu sufocar a oposição de esquerda?

O governo militar se ocupou de combater a guerrilha, mas não de combater o comunismo na esfera cultural, social e moral. Havia a famosa teoria da panela de pressão, do general Golbery do Couto e Silva. Ele dizia: “Não podemos tampar todos os buraquinhos e fazer pressão, porque senão ela estoura”. A válvula que eles deixaram para a esquerda foram as universidades e o aparato cultural. Na mesma época, uma parte da esquerda foi para a guerrilha, mas a maior parte dela se encaixou no esquema pregado por Antonio Gramsci, que é a revolução cultural, a penetração lenta e gradual em todas as instituições de cultura, mídia etc. Foi a facção que acabou tirando vantagem de tudo isso – até da derrota, porque a derrota lhes deu uma plêiade de mártires.

Então a hegemonia cultural veio antes da partidária?

Claro. Acompanhe, por exemplo, as sessões ditas culturais dos principais jornais do país. Você vai ver que, durante 30 anos, não teve uma ideia conservadora lá. O primeiro passo para marginalizar uma corrente de ideias é excluí-la da alta cultura. Você trata aquilo como se fosse uma corrente popular, um bando de caipiras, um bando de fanáticos que não tem respeitabilidade intelectual. O período militar foi a época de maior progresso da indústria editorial de esquerda no Brasil. Nunca se publicou tanto livro de esquerda. Além de ter destacados colunistas de esquerda nos jornais, ainda havia vários semanários importantíssimos de oposição como os tabloides Movimento , Fato Novo , O Pasquim , Ex , Versus , as revistas Civilização Brasileira , Paz e Terra e muitas outras. Além disso, praticamente todos os grandes jornais eram dirigidos por homens de esquerda como Luís Garcia, Claudio Abramo, Alberto Dines, Narciso Kalili e Celso Kinjo. Outra coisa importantíssima: todos os sindicatos de jornais do país eram presididos por esquerdistas.

O presidente do DEM, José Agripino Maia, diz que o partido é de centro e que suas bandeiras estão ligadas ao liberalismo econômico apenas. Como o senhor vê essa declaração?

A limitação do ideário conservador ao aspecto econômico é uma estratégia da esquerda. O que o governo faz? Reserva uma margem de manobra para a empresa privada, mas exerce o controle total sem exercer a responsabilidade. Se tudo dá certo, é glória do governo. Se tudo dá errado, é culpa do empresário. Uma oposição que se limite à defesa da propriedade privada não oferece risco algum para o socialismo. A verdadeira corrente conservadora se manifesta também por um ideário de direitos civis, de liberdade religiosa, da defesa da moral judaico-cristã, da educação clássica, com padrões exigentes. É uma concepção integral da sociedade. Os liberais que acabam concordando com a esquerda no seu ideário cultural e moral são traidores. Uns são traidores conscientes, outros por idiotice.

Na última campanha, o aborto chegou ao debate eleitoral por causa da mobilização de parte da sociedade. Só depois os partidos passaram a debater o tema. É um sinal de que a população é mais conservadora do que seus representantes políticos?

Há uma faixa conservadora, cristã, que não aceita políticas como o “abortismo” e o “gayzismo”. Uma faixa imensa da população não aceita essa brincadeira e se mobilizou fora dos partidos para combater o aborto, num movimento iniciado por grupos religiosas, por igrejas, e o PSDB acabou tirando alguma vantagem disso por falta de alternativa. É o princípio do mal menor: “Não tem mais ninguém, vamos votar no PSDB”. Mas o PSDB não tem mérito nenhum nisso.

Como o senhor vê a implosão do DEM, que vem perdendo força e de onde saíram os fundadores do PSD?

O DEM decidiu se transformar-se num instrumento servil da política de esquerda. Então se autocastrou de propósito.

O que a direita precisa saber para reequilibrar o quadro político? Reocupar os espaços na esfera cultural?

A esquerda, devido à enorme facilidade que teve para ocupar os espaços, começou a promover o que tinha de pior na pseudo-intelectualidade esquerdista. E destruiu a cultura superior no Brasil. Num lugar onde se chamam de intelectuais Emir Sader, Chico Buarque de Hollanda e Tarso Genro, está tudo perdido. É a barbárie completa. A Comissão de Educação e Cultura da Câmara têm entre seus membros o Tiririca, que é um sujeito que quase foi recusado lá por ser analfabeto. A esquerda se aproveitou da facilidade de conquistar esses meios, mas evidentemente não tinha intelectuais de grande gabarito para ocupar todos postos. Então pegou qualquer um. Pegou o lixo. A solução é criar uma nova intelectualidade capaz de desmoralizar esses indivíduos, demonstrar que são vigaristas e charlatães.

A polaridade entre PT e PSDB não exerce esse papel?

Uma vez eu vi um diálogo entre o Cristovam Buarque, quando era o principal intelectual do PT, e o Fernando Henrique Cardoso. Ambos concordavam que os seus partidos não tinham divergência ideológica nenhuma, apenas disputa por cargos. Aqui, a disputa de cargos se substituiu à concorrência ideológica, de propostas. A essência da democracia é a existência de correntes opostas e o seu rodízio no poder, de forma que nenhum governo possa introduzir modificações desastrosas que um governo seguinte não possa desfazer. Funcionou em toda a Europa e está provado que é a única saída eficiente. Ninguém tem a solução de todos os problemas. Às vezes, a direita tem a ideia melhor, às vezes a esquerda tem.

Há quem comemore o fim da distinção entre esquerda e direita como um avanço da democracia.

A Taxa De Juros

3 de Junho de 2002 | 3 de Junho de 2002

O site do Professor Ricardo Bergamini ( www.angelfire.com/sc3/ricardobergamini ) é daqueles imperdíveis para quem estuda a economia brasileira. Ele tem sistematicamente acompanhado a conjuntura econômica e os grandes números dos dois Governos FHC, colocando no site as suas preciosas conclusões. É, claro, um economista crítico com relação ao governo e também não poderia ser diferente: quem enxerga os números sabe que as coisas não andam bem no Brasil.

Um dos pontos de destaque da sua análise é a determinação da taxa de juros do mercado. Para ele, é inútil tentar reduzir a taxa de juros na ponta do tomador privado apenas pela redução da taxa básica. Esta última só interessa para o próprio governo, na medida em que, para cada ponto percentual de redução da mesma, a taxa de mercado sofre contração de apenas 0,04%, segundo seus cálculos.

A fato objetivo é que, pelo mecanismo do depósito compulsório, o governo se apropria de grande parte do dinheiro disponível para crédito, de sorte que pouco sobra para o mercado privado. A taxa básica média para o governo está em torno de 18% a.a., enquanto que a taxa média para o mercado é de 59,42% a.a., sem considerar os impostos, taxas e demais custos do serviço bancário. As lideranças empresariais melhor fariam se lutassem para reduzir essa intervenção indevida no mercado de crédito, que coloca pesada cunha para os tomadores finais. A taxa básica pouco importa para as empresas. Por impedir o desenvolvimento de um sistema de crédito sadio, praticando o quase monopólio da dívida, o que vemos é a economia minguar. Na verdade, os brasileiros (pessoas físicas e jurídicas) se dividem em dois grupos. De um lado, os que são superavitários e sócios do governo na massa tributária. Vivem felizes, cobrando elevados juros do devedor monopolista. Do outro, os que, por qualquer motivo, são obrigados a tomar recursos emprestados, ao custo de mercado. Esses vivem asfixiados financeiramente e freqüentemente apresentam problemas de solvência. Em outras palavras, quebram ou vêem seu nome sujo na praça, sendo automaticamente excluídos do sistema de crédito. A culpa é única e exclusiva do Estado, que impede o desenvolvimento econômico através de um dos seus mecanismos naturais, que é o crédito.

Se o leitor tiver em conta que os brasileiros já pagam uma brutal carga tributária, que cresce sistematicamente a cada ano, irá perceber o verdadeiro horror econômico em que estamos metidos: o governo brasileiro simplesmente impede que a prosperidade aconteça. Quem está desempregado e sem crédito no mercado sabe quem é o autor das suas desgraças. Aqueles que, por algum motivo, vêem os seus sonhos de crescimento fracassarem, sabe quem os seqüestrou.

Da mesma forma, o desempenho frustrante da balança comercial só tem um responsável: o governo e sua voracidade fiscal e creditícia. O mercado internacional não paga o sobrecusto governamental embutido nos preços dos produtos. Então, caro leitor, dá para imaginar o grande engano que é apoiar plataformas políticas que pugnam precisamente por aumentar a intervenção governamental no processo econômico. É suicídio.

Em 3 de junho de 2002

Leituras

Mais Misterio

29 de outubro de 2008 | Diário do Comércio (editorial)

Enquanto os adeptos de Hillary Clinton denunciam que a derrama de títulos de eleitor falsos pela militância obamista não começou agora, mas já vem desde o tempo das eleições primárias (v.

NewsMax.com ), e enquanto o advogado Philip J. Berg recorre à Suprema Corte com o seu pedido de que a certidão de nascimento de Barack Obama seja divulgada para tirar as dúvidas quanto à nacionalidade do candidato (v.

www.obamacrimes.com ), mais um mistério surge na vida do enigmático personagem. A certidão eletrônica publicada no site da sua campanha afirma que Obama nasceu em Honolulu, Havaí, em 4 de agosto de 1961, e quem quer que ouse contestar essa alegação é instantaneamente rotulado de louco, racista, difamador, etc. etc., até mesmo por alguns jornalistas republicanos. Acontece que, naquela data, a mãe de Obama, Stanley Ann Dunham, estava estudando na Universidade do Estado de Washington e morando num apartamento em Capitol Hill, Seattle, a 2.680 milhas de Honolulu.

Ann freqüentou a Universidade do Havaí nos seguintes períodos: outono de 1960, primavera de 1963, verão de 1966, outono de 1972, outono de 1974, primavera de 1978, outono de 1984 e verão de 1992. A da Washington, no outono de 1961, inverno de 1962 e primavera de 1962. Os dados são respectivamente do Office of Admissions and Records da Universidade do Havaí e do Office of Public Records do Estado de Washington (v.

AtlasShrugs.com ).

Se o local de nascimento de Obama já era duvidoso, agora a data também o é. A grande mídia, empenhada com desvelo materno em proteger Obama contra a revelação de quaisquer fatos que o desabonem, menospreza essas dúvidas como “intrigas da internet”, fingindo ignorar que a internet é hoje um meio de difusão incomparavelmente mais confiável e mais respeitado do que os maiores jornais americanos. Estes continuam caindo como jacas maduras na escala da preferência popular. Um estudo da revista Editor & Publisher mostra que, em seis meses de 2008, comparados a igual período de 2007, só dois dos principais jornais americanos não tiveram sua circulação diminuída: O Wall Street Journal , conservador, e o USA Today , jornal mais de espetáculos e esportes que de política. E mesmo assim esses dois não cresceram além de 0,01 por cento. O New York Times caiu 3,58 por cento, o Washington Post 1,94 por cento, o Los Angeles Times 5,20 por cento, e assim por diante. O Los Angeles Times acaba de demitir mais 75 repórteres e o tradicional Christian Science Monitor desistiu de sua edição diária: virou semanário. Quem, na chamada “grande mídia”, tem cacife para empinar o nariz ante o jornalismo eletrônico? Em matéria de público, nenhum jornal americano pode concorrer com www.wnd.com ou com o site de Rush Limbaugh.

Em 2000, quando conversei com Brent Bozell III, fundador do Media Research Center , ele previu que tudo isso ia acontecer caso os jornais não abdicassem do seu esquerdismo desvairado. Nas eleições de 2008, eles escolheram tornar-se mais esquerdistas ainda, apoiando Obama não só em artigos editoriais, o que é do seu direito, mas mediante a supressão de notícias contra o candidato democrata e a exploração abusiva dos menores detalhes prejudiciais à dupla McCain-Palin. Vejam a pesquisa do Project for Excellence in Journalism em NewsMax.com . Recomendo também dois artigos recentes sobre o assunto: “ Media’s Presidential Bias and Decline ”, de Michael S. Malone, ( http://abcnews.go.com/print?id=6099188 ), e “ Would the Last Honest Reporter Please Turn On the Lights?

”, de Orson Scott Card ( http://www.ornery.org/essays/warwatch/2008-10-05-1.htmlrson ). Malone é um veterano repórter de tecnologia da ABC News e Card um romancista de sucesso, que viveu dois anos no Brasil como missionário religioso.

Em 29 de outubro de 2008

Acordo Secreto

29 de outubro de 2006 | Diário do Comércio

Da nossa geração não se pode dizer que viveu, mas que rastejou em silêncio: os jovens rumo à decrepitude, os velhos rumo a sepulturas sem honra.

(Tácito, historiador romano, c. 56 – c. 117 a. D.).

O ponto alto do debate de sexta-feira foi a declaração de Lula de que nenhum governo anterior investigou tão a fundo ou esteve tão bem informado sobre os crimes de corrupção quanto o seu. Não é mesmo maravilhoso que o mais avisado dos presidentes nada saiba dos crimes cometidos por cinco de seus próprios ministros? Não é uma delícia que o governo que enxerga tudo da delinqüência espalhada no país inteiro ignore o que se passa no Palácio do Planalto?

Mas não pensem que a inconsistência do seu próprio discurso seja motivo de preocupação para Lula. Estontear a platéia com um bombardeio de afirmações contraditórias tem sido há anos a técnica essencial da propaganda lulista. Na eleição de 2002, explorou-se até o limite da alucinação o paradoxo de um personagem que merecia ao mesmo tempo a compaixão devida aos iletrados e a reverência devida a um sábio, conhecedor profundo dos problemas brasileiros, doutor honoris causa e candidato virtual à Academia Brasileira de Letras. Agora, ele é simultaneamente o homem da visão de raios-x, a quem nenhum delito escapa, e o pobre ingênuo ludibriado por seus mais próximos amigos e colaboradores.

Mais ingênuo ainda, porém, é quem vê nisso uma prova de confusão mental e incompetência petista. Que incompetência mais estranha, essa que sempre vence a competência alheia! Na verdade, é impossível acreditar que, com tantos cientistas sociais, psicólogos, estrategistas e engenheiros comportamentais a serviço do PT e do Foro de São Paulo, ninguém ali tenha ensinado aos chefes da campanha petista as virtudes estupefacientes da estimulação contraditória e da dissonância cognitiva. Mas nem isso seria preciso: qualquer militante, minimamente treinado na dialética de Hegel e Marx para raciocinar segundo duas linhas de dedução opostas e explorar o duplo sentido das palavras e situações, está habilitado para fazer de trouxa os mais espertos empresários, políticos tradicionais e oficiais das Forças Armadas, viciados numa semântica literaralista e num raciocínio desesperadoramente linear.

Outro detalhe especialmente suculento do debate foi Alckmin enfatizar que os membros do PCC não são do seu partido, como quem diz que são do outro. Com isso ele mostrou saber da ligação íntima entre PT e PCC. Mas, se sabia, por que se calou? E, se preferiu calar, por que não o fez por completo? Por que deixou escapar uma alusão velada que pelo menos os telespectadores informados entenderam perfeitamente bem? O discurso de Alckmin está obviamente travado por algum controle oculto, a que ele, sem apreciá-lo, se curva por necessidade ou oportunismo.

Mas não é preciso sondar conspirações para explicar isso. Tanto o PT quanto o PSDB – e a quase totalidade das carreiras políticas nos outros partidos – nasceram da resistência à ditadura militar, quando a cumplicidade implícita da oposição moderada com a esquerda terrorista era condição indispensável à sobrevivência de ambas. Removido o inimigo comum, perseverou a obediência ao pacto de lealdade: a disputa é legítima, mas denunciar a trama revolucionária da esquerda radical é “fazer o jogo da direita”. Por mais que a esquerda assanhada os rotule de direitistas – e é um alívio para ela tê-los como extremo limite do direitismo admissível –, os tucanos e tutti quanti ainda são, no seu próprio entender, herdeiros morais da tradição esquerdista, de vinte anos de luta que culminaram na lei de anistia e nas “Diretas Já”. A nação inteira está sendo enganada por esse acordo secreto entre irmãos inimigos. Tucanos e similares podem acusar a petezada de crimes menores, mas denunciar a criminalidade pesada, o narcotráfico, os seqüestros, os homicídios, seria trair a causa comum, o objetivo mútuo de varrer a direita do mapa mediante a total ocupação do espaço pelas disputas internas entre a esquerda e a direita da esquerda.

Pode ter havido um acordo explícito nesse sentido, e informações recentes sugerem que houve. Mas nem era preciso: o ódio comum ao fantasma da “direita”, somado à origem uspiana comum das duas esquerdas, é suficiente para persuadir a ala moderada das vantagens de uma luta fingida, travada sobre um fundo de cumplicidade tácita com a ala revolucionária, terrorista, seqüestradora e narcotraficante. Sem contar, é claro, o fato de que muitos dos moderados do tempo da ditadura não o eram senão em aparência, já que pertenciam às mesmas organizações dos terroristas, apenas desempenhando nelas as funções de camuflagem legal, de acordo com a técnica da duplicidade de vias que é uma constante da estratégia comunista desde Lênin.

A geração inteira dos políticos que fizeram carreira na “luta contra a ditadura”, em suma, está comprometida a ocultar e proteger a violência da esquerda radical. Pode-se combater a “corrupção”, usando a mesma linguagem com que se denunciaria a “direita” se no poder ela estivesse. “Colarinho branco”, afinal, é expressão que tem óbvias ressonâncias de luta de classes. Serve para ser usada pelas duas alas. Mas seqüestros, homicídios e narcotráfico são sacrossantos: são as armas da revolução. Denunciá-los seria traição à causa comum de todas as esquerdas. Por isso o pacto de silêncio domina não só a política partidária, mas a grande mídia inteira, dirigida por gente da mesma geração e da mesma extração ideológica de tucanos e petistas. Alckmin pode odiar esse pacto, mas sabe que violá-lo às escâncaras seria condenar-se ao ostracismo definitivo entre os “filhotes da ditadura”. Ele pode sussurrar insinuações entre dentes, mas jamais revelará em voz alta o segredo tenebroso em que assenta, há vinte anos, toda a política nacional.

A conjunção dos dois fatores aqui assinalados – o uso maciço da estimulação contraditória e o pacto geracional de silêncio em torno dos crimes maiores da esquerda – basta para explicar toda a decadência moral e intelectual do Brasil ao longo de duas décadas. A geração de políticos, jornalistas e intelectuais que hoje está por volta dos sessenta anos – a minha geração – é a mais perversa e criminosa de todas quantas já nasceram neste país. Ela é culpada da idiotização e dessensibilização moral do país, origem de todos os crimes que hoje culminam na matança anual de cinqüenta mil brasileiros. Comparados a essa geração, os mais bárbaros torturadores do Dói-Codi eram apenas aprendizes na escola da delinqüência.

Em 29 de outubro de 2006

S Exa E O Fumo

29 de outubro de 1998 | Jornal da Tarde

Em circunstâncias normais o mundo jamais teria ouvido falar de S. Exa., o Meritíssimo Juiz da 4.a Vara Federal de Porto Alegre. Mas o mundo de hoje não é normal: é um mundo espremido, compactado, miniaturizado, que cabe numa tela e é varrido, de Leste a Oeste, num piscar de olhos, pelas lupas eletrônicas de satélites bisbilhoteiros. Na nova escala microscópica das coisas, é bem natural que qualquer criatura de dimensões exíguas apareça formidavelmente ampliada.

Foi preciso, de fato, que o mundo mudasse muito para que um infinitesimal togado pudesse alterar, com um simples toque de caneta, os hábitos e o estado de humor de milhares de pessoas de todos os quadrantes da Terra. Proibindo sumariamente o fumo nos aviões comerciais brasileiros, pouco importando a duração do vôo, seja para Catolé do Rocha ou Tashkent. Posso atestar que, no vôo da Varig que me trouxe de volta à pátria amada no último dia 22, pelo menos durante os 15 minutos da profecia de Andy Warhol S. Exa. foi objeto das atenções de bolivianos, franceses, americanos e japoneses, os quais, em suas respectivas línguas, proferiram a respeito comentários dos quais uma parte não compreendi e a outra parte não ouso reproduzir. É razoável conjeturar que conversações similares tenham se desenrolado em muitos outros vôos, perfazendo, no conjunto, um ibope nada desprezível.

Não me interessa, aqui, sondar as razões de S. Exa. Suponho que se imagine um benfeitor da humanidade. E, se tal é o caso, em nada abalará essa sua crença a informação de que o primeiro governo a reprimir o fumo, sob pretextos humaníssimos, foi o da Alemanha nazista, e de que o conceito de “fumante passivo” foi contribuição pessoal do Führer ao progresso da ciência: duvido que S. Exa. tenha intuição sociológica bastante para captar aí algo mais do que mera coincidência, e afinal a hipótese de um neofascismo disfarçado sempre poderá ser exorcizada mediante um daqueles jogos verbais em que são proverbialmente hábeis os juristas. S. Exa. dirá, por exemplo, que tão graves são os males do fumo que até mesmo a mente nebulosa de Adolf Hitler os percebeu. Em seguida irá dormir o sono dos justos, a salvo de toda comparação incômoda. Nem o poderá abalar a ponderação de que o mencionado conceito, antes de adquirir foros de coisa científica, circulou por décadas no submundo ocultista, até impregnar-se no imaginário coletivo com a obsessividade de um íncubo.

Afinal, que podem estas vãs palavras contra a autoridade pontifícia da Organização Mundial da Saúde? OMS locuta, causa finita . É verdade que as pesquisas tremendamente científicas que associam o fumo às fogueiras do inferno omitiram todo diagnóstico diferencial entre tabacos diversamente tratados, portanto quimicamente diferentes, e se limitaram a calcular estatisticamente os efeitos de um universal abstrato. Também é verdade que não houve diagnóstico diferencial entre fumantes de regiões poluídas e limpas, nem entre fumantes ansiosos e calmos, embora seja o pulmão a sede por excelência das somatizações de angústia. É verdade, ainda, que a própria OMS instituiu o erro sistemático das estatísticas, ao autorizar a classe médica a incluir o tabagismo entre as causae mortis de qualquer fumante que morra de doença pulmonar, independentemente de exames que comprovem a conexão de uma coisa e outra no caso concreto. É verdade que a histeria antitabagística erige em norma legal a suscetibilidade mórbida do paciente alérgico, um neurótico que não consegue desviar a atenção do que o incomoda, e debilita por efeito da propaganda adversa a tolerância normal do indivíduo são. É verdade que a “saúde pública” é hoje um temível instrumento de controle social. Nem mesmo os intelectuais ousam desafiar a nova divindade: as críticas jamais respondidas da contracultura da década de 60 à então chamada “máfia de branco” cederam lugar a uma temerosa e patética subserviência universal, prelúdio de catástrofes. Finalmente, é verdade que todo paternalismo, que alega proteger um homem contra si mesmo, é um atentado contra a dignidade humana.

Tudo isso é verdade, mas S. Exa. não está nem aí. Afinal, sua sentença é apenas uma liminar, esse maravilhoso expediente que permite à consciência jurídica gastar em um segundo seus 15 minutos de fama, sem ter de arcar com a responsabilidade das decisões definitivas e irremediáveis.

Em 29 de outubro de 1998

1968 O Embuste Que No Terminou

29 de maio de 2008 | Jornal do Brasil

Se a celebração das seis décadas de existência do Estado de Israel vem consistindo essencialmente em culpá-lo por todo o mal que lhe fazem e em desejar com fervor a sua morte próxima, a dos 40 anos das rebeliões estudantis de 1968 não tem feito outra coisa senão tomar como realidade, a priori e sem o mínimo exame crítico, a auto-interpretação lisonjeira que seus líderes fizeram desse movimento na época da sua eclosão.

Uma das poucas vozes dissonantes foi Nicolas Sarkozy, que em discurso recente afirmou:

“ O Maio de 68 impôs o relativismo moral e intelectual a todos nós. Impôs a idéia de que não existia mais qualquer diferença entre bom e mau, verdade e falsidade, beleza e feiúra. Sua herança introduziu o cinismo na sociedade e na política, ajudando a enfraquecer a moralidade do capitalismo, a preparar o terreno para o inescrupuloso capitalismo das regalias e das proteções para executivos velhacos .”

Reagindo com indignação a essas palavras, o ativista-historiador Tariq Ali – ele mesmo um dos agitadores de 1968 – exclama: “Não me venha com essa, Sarkozy!”. E, imaginando brandir contra o presidente francês argumentos irrespondíveis, pergunta:

“Então, nós é que somos responsáveis pela crise do subprime , pelos políticos corruptos, pela desregulamentação, pela ditadura do livre mercado, pela cultura infestada por um oportunismo descarado, pela Enron, pela Conrad Black, entre outras coisas?”

Mas a resposta a essa pergunta é, incontornavelmente, “sim”. O movimento de 1968, que na verdade começou em Harvard em 1967, marcou a conversão mundial da esquerda aos cânones da “revolução cultural” preconizada por Georg Lukács, Antonio Gramsci e os frankfurtianos. A ambição da militância, daí por diante, já não era tomar o poder, nem muito menos implantar o socialismo. Estas metas eram adiadas para depois de conquistado o objetivo primordial: destruir a civilização do Ocidente, corroer até à extinção completa as bases culturais e morais sobre as quais tinha se erigido o capitalismo. Ora, o que é o mais bem sucedido sistema econômico, quando amputado de seus fundamentos civilizacionais e reduzido à pura mecânica das leis de mercado? É um mundo de riqueza sem alma, um inferno dourado. Os revolucionários de 1968 produziram esse efeito por três vias e em três fronts:

(1) Espalhados na mídia e nas instituições de cultura, empreenderam a agressão direta, pertinaz e brutal a todos os valores e símbolos mais veneráveis da civilização e a demolição deliberada do sistema de ensino, onde as aulas de grego e latim foram substituídas por seminários de sexo anal.

(2) Infiltrados no meio empresarial como técnicos e consultores, persuadiram os capitalistas a “modernizar-se”, mandando às favas as exigências da moral tradicional e passando a agir segundo o modelo deformado do argentário sem escrúpulos. A caricatura marxista do empresariado tornou-se realidade, não raro encarnada pelos próprios homens de 1968, cuja posadíssima conversão à livre-empresa vinha acompanhada de uma ênfase cínica na eficiência amoral do sistema, propaganda irônica que só fazia ressaltar, de maneira implícita mas por isto mesmo ainda mais contundente, a superioridade moral do socialismo injustamente derrotado pelo mundo mau.

(3) Atuando como líderes e porta-vozes de movimentos sociais, condenavam os efeitos de suas próprias ações como se elas não fossem obra deles e sim de uma abstração hedionda, “o capitalismo”, e simultaneamente exploravam a nostalgia do universo cultural destruído, cooptando de volta os velhos valores e símbolos civilizacionais, até mesmo os religiosos, esvaziando-os de seu sentido originário e reduzindo-os a slogans da propaganda anticapitalista.

Com essa tripla operação, adquiriram o simulacro terrivelmente convincente de autoridade que até hoje aufere lucros morais de seus próprios crimes, debitando-os na conta da burguesia sonsa que se deixa intoxicar pelo seu discurso.

Em 29 de maio de 2008

Da Hipocrisia A Burrice

29 de janeiro de 2004 | Jornal da Tarde

A capacidade fundamental da inteligência humana, da qual dependem todas as outras, é o dom de discernir o essencial do acidental, o importante do irrelevante.

Esse discernimento consiste num feliz ajuste entre o foco da atenção e a estrutura do objeto considerado, seja ele uma coisa ou ente, um problema, uma afirmação ou um estado de coisas. O homem inteligente vai direto ao nexo central que o objeto, por si mesmo, oferece à sua visão, enquanto o sonso ou negligente fica saltando em vão de um ângulo a outro, ou, o que é pior, se apega ferozmente a certas perspectivas costumeiras, deformando o objeto para que se amolde a seus hábitos mentais e crendo apreender uma essência quando não capta senão uma ilusão autoprojetiva.

Sem o discernimento do essencial, a inteligência humana não é propriamente inteligência, é apenas um sistema de reações adquiridas e cacoetes pavlovianos, não muito diferente do de um pato, galo ou peru.

O mais breve exame do desempenho nacional nos debates públicos, ao longo dos últimos anos, permite afirmar sem grande margem de erro que a inteligência, em sentido estrito, desapareceu do cenário brasileiro visível, sendo substituída por uma espécie de cambalache verbal, o comércio de tolices convencionais e frivolidades pessoais.

Não que os homens inteligentes tenham todos morrido. Mas estão fora dos debates públicos, seja porque não os suportam, seja porque sua presença ali não é suportada. Por vergonha, medo ou prudência, recolheram-se às catacumbas.

Chegamos àquele ponto de embotamento senil em que os sambinhas do sr. Ministro da Cultura ou as expressões de bom-mocismo do sr. Marco Maciel são aceitos como produtos culturais de primeira necessidade. Talvez os senhores não percebam, mas isso já é estado de calamidade.

O fenômeno tem múltiplas origens, mas uma delas me parece especialmente relevante. É que um povo, como um indivíduo, pode viver da dissimulação até um certo ponto. Ultrapassado o limite de risco, ela se torna um desvio estrutural do foco de atenção, uma incapacidade adquirida de enxergar as coisas como são, um sistema de defesas automáticas contra a verdade em qualquer de suas formas.

Não é coincidência que o pináculo da estupidez geral seja alcançado ao mesmo tempo que o cume da hipocrisia e do fingimento. Toda a conversação política nacional tornou-se pura dissimulação. Ninguém declara o que vê, todo mundo se empenha com devoção em atenuar, aparar e remoldar a descrição na esperança de, assim, modificar as coisas. Temem que os males, se nomeados, adquiram força, e esperam exorcisá-los à custa de eufemismos, omissões, floreios e lisonjas.

Nessa hora, a última coisa de que o cidadão precisa é inteligência. Precisa, isto sim, do talento de fingir-se de bobo com tal verossimilhança, que acabe se tornando bobo mesmo, sem dar pela transformação, acreditando que o estado final a que chega no processo é não apenas o seu estado natural de sempre, mas o estado natural, eterno e imutável da espécie humana.

Então o homem que persiste no exercício da inteligência começa a parecer estranho, temível, indigno de confiança ou, na melhor das hipóteses, maluco.

Há dez anos, por exemplo, vejo repetir-se ciclicamente a onda dos expurgos na classe política, sem que esta se torne nem um pouco mais honesta por isso. O ritual é fixo e repetível até à náusea: primeiro um político petista acusa alguém de alguma coisa, segue-se um bombardeio de denúncias na mídia e por fim uma investigação em regra que, se não prova nada, ao menos arruína a reputação do elemento, de modo que este, se quer sobreviver politicamente ao episódio, deve retirar-se para a sua esfera provinciana de origem ou dar provas cabais de docilidade ao partido dominante.

Foi assim que todas as lideranças capazes de oferecer risco para o PT foram destruídas ou reduzidas à mais abjeta submissão.

Nenhuma delas jamais denunciou o processo como aquilo que ele é: uma ditadura policial informal, criada pela santa aliança de Partido, Estado e Mídia. Todas fazem questão estrita de disfarçar a gravidade da agressão que sofreram, de posar ante as câmeras com um sorriso amarelo e alardear que a democracia se aperfeiçoa, que o sr. Lula é um grande presidente e que, pensando bem, gordo ele fica lindo.

Licoes Do Afeganistao

29 de dezembro de 2001 | filósofo, professor da UFRGS

Reproduzido de:

http://www.diegocasagrande.com.b r A vitória dos americanos e de seus parceiros da Aliança do Norte é surpreendente. Ninguém podia prever, há duas semanas, um desenlace tão rápido. No entanto, era já visível a determinação dos Estados Unidos em levarem a sua ação às últimas conseqüências, ou seja, à destruição do regime talibã e à captura de Bin Laden e seus asseclas. Não menor determinação mostraram as tropas da Aliança do Norte, conhecedoras do terreno e do tipo de dominação exercido pelos talibãs e pelos ‘‘estrangeiros’’, isto é, as tropas árabes, paquistanesas e outras do Al Qaeda.

A cautela, porém, não pareceu orientar boa parte dos analistas brasileiros e, inclusive, europeus. Imediatamente, os antiamericanos de plantão, que fazem dessa sua posição um substituto da queda do muro de Berlim, reagiram prontamente. Passaram, nas primeiras três semanas, a condenar um bombardeio americano então inexistente, o que assemelhava a crítica a um tipo de ficção científica. Quando os bombardeios começaram, passaram a condenar o seu caráter indiscriminado, como se o seu alvo fossem as populações civis, o que tampouco ocorreu. O que houve foram casos acidentais, causados por erros humanos ou tecnológicos, em todo caso de pequeno número, inferiores aos acidentes de trânsito no Brasil. Os ideologicamente mais afoitos condenaram a ação americana contra o ‘‘povo’’ afegão e apregoaram a ‘‘solidariedade dos oprimidos’’.

O regime afegão desmoronou como um castelo de cartas. As rendições e mudanças de lado foram a regra. Os tão decantados guerreiros praticamente não lutaram. Os líderes fugiram e não se apresentaram como mártires, ao contrário da propaganda divulgada. Dentre as causas da derrocada, assinalemos duas: a) a superioridade militar americana, concretizada em sua força aérea, em seus meios tecnológicos cada vez mais avançados e no trabalho, em terra, de seus serviços de inteligência. A conjunção desses três fatores exibe uma nova arte da guerra, cujos ensinamentos passarão a orientar os estrategistas militares de todo o mundo; b) a falta de sustentação popular do regime talibã. Desabar como desabou mostra como esse regime se apoiava principalmente na força policial, no controle meticuloso da população e na observância de certas regras religiosas. Essas regras nada mais eram do que um meio utilizado pelos talibãs para exercerem o seu poder, em nome de (seu) Deus.

Que crianças não pudessem soltar papagaios, que mulheres não pudessem trabalhar, estudar, nem ter cuidados médicos, sendo obrigadas a vestirem burcas, nada disso parece ter afetado os nossos partidários do ‘‘povo’’ afegão. À medida que os ‘‘combatentes’’ talibãs fugiam, as mulheres começaram a descobrir os seus rostos, algumas sendo mesmo conduzidas à posição de membros do governo provisório, inclusive a uma das vice-presidências. Cinemas foram reabertos e a população disputava lugares. A televisão voltou a funcionar, tendo mulheres como apresentadoras. Os campos de futebol voltaram à sua função original, ou seja, a de serem lugares onde se joga futebol, e não lugares de um ritual macabro de execuções, mutilações e (pseudo) julgamentos.

A dita solidariedade daqueles que se irmanaram ao ‘‘povo’’ afegão mostra-se mais claramente uma ‘‘solidariedade’’ com os opressores desse mesmo povo, desvelando, literalmente, o seu rosto. Um antiamericanismo açodado, porém meticulosamente pensado, apresenta-se mais uma vez, a exemplo de solidariedades passadas e mesmo presentes com a ex-União Soviética, a China, a Albânia e Cuba, como um apoio irrestrito a bárbaras formas de dominação.

Por quem choram agora os nossos talibãs?

Em 29 de dezembro de 2001

Leituras

A Direita Que A Midia Criou

29 de abril de 2010 | Diário do Comércio

Na mesma semana em que a Folha de S. Paulo se arrogava o direito de passar pito no Diário do Comércio , posando de fiscal da idoneidade jornalística alheia, uma senhora aparecia na MTV criticando a Igreja Católica, com base na autoridade intelectual que emanava da sua condição de prostituta aposentada: o celibato clerical, ensinava a criatura, é uma indecência, pois nasceu do desejo vil de preservar o patrimônio da Igreja. Esses dois episódios – que em espírito são um só – ilustram como é difícil, nos dias que correm, distinguir entre realidade e paródia. O segundo deles dá a entender que os mártires e santos se deixaram devorar por leões e canibais por mero interesse financeiro, ao passo que as prostitutas se entregam à lubricidade da clientela por puro amor ao próximo. É uma teoria, não é? Mas o primeiro sugere algumas considerações mais amplas, cuja ligação com o episódio em si talvez não apareça à primeira vista, embora tenham tudo a ver com ele.

O jornalismo é o irmão menor da ciência histórica; seus métodos são em essência os mesmos dela, apenas aplicados às pressas e com menos rigor. A pesquisa dos documentos, a crítica das fontes, a confrontação de testemunhos, a conjeturação de nexos, a reconstituição narrativa ou interpretativa da ordem dos fatos, tudo faz do jornalista, quando o é de verdade, uma espécie de historiador-mirim.

O simples fato de que o currículo das faculdades de jornalismo não inclua sequer uma versão abreviada das disciplinas históricas fundamentais já basta para mostrar que aquelas instituições de ensino não servem para absolutamente nada além de dar a uma elite de pseudo-intelectuais ativistas o controle do mercado de trabalho nas redações.

Quando digo isso, sempre aparece algum espertinho alegando que a obrigatoriedade do diploma universitário no jornalismo foi instituída pelo governo militar, nada tendo portanto a ver com estratégia esquerdista de dominação. Como se o governo não tivesse se esmerado em atender às pressas todas as exigências da esquerda que pudessem, a seu ver – tremendo engano! –, ser neutralizadas ideologicamente, acabando por dar de bandeja aos esquerdistas alguns preciosos instrumentos de agitação e propaganda. Ainda lembro, como se fosse hoje, a voracidade com que a militância esquerdista se apossou das cátedras de Educação Moral e Cívica, instituídas pelo governo na esperança louca de disseminar o patriotismo e as virtudes. Com as faculdades de jornalismo aconteceu a mesma coisa: tudo o que é feito na ilusão da neutralidade ideológica torna-se canal para a difusão da ideologia que mais francamente se assuma como tal. Nada mais patético do que um governo autoritário ideologicamente tímido, de uma timidez que acabou por se incrustar na medula mental da nossa burguesia como um tumor incapacitante, reduzindo à condição de apêndice da esquerda o que possa ter restado de uma “direita” que nem quando estava no poder ousava dizer seu nome.

Nesse processo, aliás, o jornalismo gerado nas faculdades teve um desempenho admirável. Admirável de safadeza. Na mesma medida em que a “direita” não se assume como tal, é a mídia maciçamente esquerdista que se encarrega de chamá-la assim, com insistência obsessiva, de modo que o direitismo só subsiste no imaginário público como rótulo infamante associado precisamente às pessoas que mais o rejeitam, ao passo que os esquerdistas raramente aparecem com rótulo, sendo sempre designados na mídia por suas profissões ou cargos sem identidade ideológica explícita (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/091007dc.html ). A imagem do país na mídia torna-se assim uma inversão simétrica da realidade: a ideologia que tudo controla desfruta de uma confortável invisibilidade protetora, ao passo que sua inexistente adversária é exibida ante os olhos de todos como a encarnação mesma do ideologismo militante.

É precisamente esse processo que se denomina, com um termo que hoje tem nos estudos de comunicação jornalística uma acepção técnica precisa, “a espiral do silêncio” (v. Elisabeth Noelle-Newmann, The Spiral of Silence, The University of Chicago Press , 1993): uma das facções é levada sutilmente a abdicar da própria voz, deixando à inimiga o privilégio de nomeá-la, defini-la e descrevê-la como bem entenda. Auto-hipnotizada pelo mito da neutralidade ideológica, a direita brasileira entregou-se a essa operação com a passividade de um cadáver na mesa do médico-legista. Com uma diferença: nenhum cadáver é idiota o bastante para achar que faz isso por esperteza.

Em 29 de abril de 2010

A Ditadura Minimalista

29 de abril de 1999 | Jornal da Tarde

“A estratégia das revoluções de hoje, nos países capitalistas desenvolvidos, tem de orientar-se para ganhar os aparatos ideológicos do Estado – e não destruí-los como previa a doutrina leninista... Entre os aparatos ideológicos que atuam sobre a consciência, estão os religiosos, os familiares, os jurídicos, os políticos, os de informação – imprensa, rádio e televisão – e os culturais... E aí está a chave para transformar o Estado por ‘uma via democrática’.” (Santiago Carrillo, Eurocomunismo y Estado , Madrid, 1977.)

Esse programa está sendo cumprido no Brasil há tempo suficiente para tornar bem clara a única diferença que o separa da estratégia leninista.

Lenin pregava a conquista do Estado por via insurrecional sob o comando de uma elite autoritária. Quaisquer que fossem os vícios e horrores dessa ditadura, ela não poderia ser acusada de tentar fazer-se passar por uma democracia. A tirania leninista tinha a virtude de seu inventor: a sinceridade brutal dos cínicos.

Já na “transição democrática”, que Carrillo aprendeu em Gramsci, não há ditadura, não há nem mesmo um chefe que se proclame chefe: longe de encarnar-se na figura visível de um líder autoritário, a mão de ferro do partido se desmembra, se subdivide em milhares de dedos autônomos, espalhados discretamente por todo o tecido da sociedade, agindo por vias independentes nas quais só o estudioso discerne a unidade de uma estratégia e onde o povo não consegue ver senão aquela convergência fortuita de resultados, que dá ao conjunto a autoridade miraculosa do curso impessoal da História.

Mas como se dá, em cada uma dessas pequenas unidades, a ocupação do espaço pelos comunistas? Ao contrário do que acontece na esfera eleitoral, onde cada partido é fiscalizado por seus adversários, a luta pelo poder numa empresa, numa escola, numa igreja simplesmente não tem regras. Uma vez conquistada a chefia, o grupo dominante faz o que quer: contrata, demite, ameaça, impõe e, enfim, não governa como um presidente constitucional cuja autoridade é limitada por um Parlamento, mas como um galo que manda e desmanda no galinheiro.

A ditadura, a que a elite comunista abdicou em aparência, é assim restaurada sob a forma de uma multiplicidade de pequenas ditaduras, onde o arbítrio de tiranetes reina gostosamente longe de toda fiscalização pública, tudo sob a sutil coordenação de um partido que, diante dos holofotes, continua exibindo sua carinha bisonha de neodemocrata.

Neste mesmo momento, milhares de subordinados politicamente inconvenientes, na imprensa, no mundo editorial, nas escolas, nas clínicas de psicologia, estão sendo pressionados, chantageados, ameaçados e forçados a seguir uma “linha justa”, que, apresentada diante das câmeras como proposta eleitoral, seria rejeitada no ato com horror e indignação.

Transferida para a meia-luz difusa da “sociedade civil”, a ditadura minimalista passa despercebida, em parte porque a imprensa já está domada para obedecê-la, em parte porque as mentalidades independentes que ali restam mantêm os olhos voltados para a cena política ostensiva, sem suspeitar do que se passa nos cantos mais discretos da vida nacional.

O mais asqueroso da história é que, nenhum outro partido tendo a descomunal cara-de-pau de empreender idêntica manobra, a usurpação comunista encontra campo livre, arrombando portas abertas e arrogando-se um poder a que o tempo e a falta de contestações acabam por dar a legitimidade de um direito adquirido. Foi assim que o simples rótulo de “direitista” se tornou alegação bastante para desqualificar um mestrando na universidade, um candidato a bispo nas igrejas ou um postulante a emprego nos jornais e revistas, como se a hegemonia esquerdista fosse uma cláusula pétrea da Constituição. Capitalistas liberais cretinos, covardes, aproveitadores – ou talvez afetados de “síndrome de Estocolmo” – se acumpliciam com a operação, financiando-a nababescamente em troca dos aplausos do beautiful people esquerdista, elevado, para cúmulo de sem-vergonhice, à condição de distribuidor exclusivo dos encantos sociais.

O mais lindo efeito dessa manobra é a rasteira que, por meio dela, a esquerda vem dando no processo eleitoral, de modo a, rejeitada nas urnas, poder governar sem as responsabilidades de governo.

Em 29 de abril de 1999

Carta A Um Jovem Advogado

29 de Maio de 2002 | 29 de Maio de 2002

Meu jovem amigo,Recebi a sua carta, na forma de e-mail, e decidi responde-la porque me pareceu muito pertinente e oportuna. Os pontos que você nela levanta são os mesmo que os pares de sua geração o fazem: estamos imersos em um mundo de mentira sistemática e é muito difícil para os jovens discernir entre o erro e o acerto, a verdade e a mentira, o justo e o injusto.

Digo-lhe isso com muita convicção, pois tenho filhos praticamente da sua idade, que levantam os mesmo problemas e as mesmas dúvidas. Casualmente uma de minhas filhas cursa o segundo ano de Direito na Faculdade São Francisco, em São Paulo, e o objeto da sua missiva tem sido tema de discussões recorrentes e inesgotáveis.

O seu primeiro ponto, sobre as exigências que lhe fazem sobre a coerência de idéias, é algo bastante comum entre os militantes de esquerda. O que eu posso lhe dar é o testemunho da minha própria existência: sempre mudei. Já fui ateu, comunista, petista, estatista, social-democrata, tudo. Na verdade, é preciso mudar, pois a cada fase da existência alcançamos graus superiores de consciência que freqüentemente negam as antigas convicções. Isso é uma normalidade, é o processo de educação humana em ação. Não se pode exigir que um jovem na faixa dos vinte anos tenha a maturidade e a experiência de alguém com o dobro da sua idade. A cada momento a sua consciência se amplia. Se você for uma pessoa saudável e capaz de auto-desenvolvimento, esse processo será completo.

Quando mudar, então? Quando sua convicção interior lhe recomendar que mude. Não há outro juiz. É você mesmo quem deve saber quando mudar. O processo de aprendizado é algo muito solitário e ninguém de fora pode fazer muito, exceto lhe colocar diante dos olhos os produtos mais refinados do conhecimento humano – das letras e das artes. Se esses conhecimentos poderão ser digeridos e transformados em saber, é uma questão em aberto, que varia de indivíduo para indivíduo.

O fato é que nem todas as verdades são para todos os ouvidos. E só no tempo certo e preparado estamos abertos para as verdades superiores. Lembre-se do alerta do próprio Cristo: “Não dai pérolas aos porcos”.

O que os ideólogos de esquerda querem é que você permaneça usando a linguagem e os cacoetes de um adolescente por toda a vida; é essa a coerência que lhe exigem. Portanto, digo-lhe: jamais seja coerente, cresça na medida em que o tempo lhe fluir e que possa ter mais acesso às fontes do verdadeiro conhecimento. Esqueça essa exigência da coerência burra e infantil, que apenas atesta isso: é a coerência dos beócios, que jamais conseguem sair da idade mental da primeira infância.

Quanto ao fato de dizerem que você não tem personalidade por mudar, é exatamente o contrário: personalidade é individualidade e singularidade. Viver dizendo palavras de ordem e cumprindo o que os falsos gurus determinam é o oposto de ter personalidade própria. Apenas aqueles que mudam é que podem construir uma personalidade para si. Como um indivíduo que parou na primeira infância pode ter uma personalidade? Não pode, por definição. Não passa de uma consciência abortada. Ter personalidade é tornar-se adulto e passar a julgar o mundo e as pessoas pela sua própria ótica. É um supremo exercício de liberdade.

Mude, mude sempre. Siga a sua consciência. Mas advirto: é preciso coragem, pois você irá contrariar o senso comum, você sairá do calor do rebanho dos tolos e medrosos e passará a ter uma existência mais solitária, o que colocará a sua coragem a prova a cada instante. Ser um indivíduo diferenciado é exercer a liberdade, o que significa que deve enfrentar o mundo, o que equivale a enfrentar o Mal. Quem não forma o rebanho ora é visto como um pastor, ora é visto como um lobo que ameaça. É preciso muita inteireza de alma para ser íntegro e não se deixar submergir na maré das idéias feitas e do caos indiferenciado da massa dos tolos.

Você pergunta se “será um pecado ou grande erro mudar de idéia”. É precisamente o contrário. O erro é não mudar. Aqueles que têm compromisso com a Verdade precisam mudar permanentemente, pois conquistar graus elevados de consciência não é algo que se faça de um golpe só, é um processo contínuo que a cada instante exige o abandono das verdades parciais antigas. Ninguém chega à Verdade sem passar pelas dores do longo aprendizado.

É isso que torna uma criança um ser humano adulto e senhor do seu próprio destino, no pleno exercício de sua liberdade. Mude e será um indivíduo pleno.

Receba minhas cordiais saudações.

Em 29 de maio de 2002

Leituras

A Pergunta Que Resta

28 de setembro de 2000 | Jornal da Tarde

Candidato à reeleição, o prefeito de Governador Valadares (MG), Bonifácio Mourão, mandou imprimir panfletos que mostravam a foto de dois homens beijando-se apaixonadamente e, abaixo dela, a inscrição: “É isto o que o PT quer para as nossas famílias. Diga não a essa aberração.”

A Justiça Eleitoral mandou apreender os panfletos, sendo aplaudida pela mídia elegante, a qual aproveitou a ocasião para qualificar o prefeito de neonazista.

Não sou idiota o suficiente para deixar de captar o sentido profundo da mensagem que, com essa decisão, as autoridades eleitorais transmitem ao povo brasileiro. É o seguinte:

1) Se é ilegal um candidato qualificar de aberrante o conúbio homoerótico enquanto tal, muito mais o será chamar de aberrante o projeto de lei que confere a essa modalidade de relação o estatuto de união matrimonial sob a proteção do Estado.

2) Se, em projeto, essa lei já não pode ser criticada como aberrante, muito menos o poderá quando aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente da República.

3) Se é proibido um candidato falar contra os casamentos gays agora que eles ainda não estão na lei, muito mais o será quando estiverem.

4) Assim, embora o uso da palavra “aberração” seja lícito e costumeiro no linguajar de quem condene e deseje revogar alguma lei ou mesmo algum dispositivo constitucional, a lei dos casamentos gays desfruta de um privilégio especialíssimo, que amordaça por precaução os que venham a pensar em criticá-la, antes de aprovada, ou em pedir sua revogação, depois.

5) Se é ilícito um candidato referir-se aos casamentos gays usando um termo bastante comedido que significa apenas “erro” ou “perturbação”, muito mais o será empregar, no mesmo contexto, o termo bem mais pesado “abominação”, que significa coisa asquerosa e digna de repulsa. Como é este último precisamente o termo utilizado no Antigo Testamento para qualificar a conduta homossexual, com mais presteza ainda a Justiça Eleitoral deveria apreender os panfletos se, em vez da declaração pessoal do candidato, estampassem o versículo 24 do capítulo 14 do Terceiro Livro dos Reis. Se é proibido imprimir as opiniões do sr. Mourão, proibidíssimo portanto é publicar, ao menos em tempo de eleições, esse trecho das Sagradas Escrituras.

6) Como a declaração ostentada nos panfletos, de que o PT deseja ver casamentos gays entre os membros de nossas famílias, é uma simples verdade empiricamente comprovável – pois afinal todos os gays provêm de alguma família e o projeto de lei que os une em matrimônio é criação da bancada petista, na pessoa da aliás candidata à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy -, a proibição da circulação desses papéis deve ser compreendida no preciso sentido de que, contra os gays ou contra o projeto, mesmo a evidência mais patente não pode ser alegada nas campanhas eleitorais, cabendo apenas discutir se poderá sê-lo fora delas.

7) Mas se no caso está proibido não somente alegar fatos, mesmo comprovadamente verdadeiros, mas também emitir opiniões, seja as brandas como a do prefeito Mourão, seja, mais ainda, as duras e contundentes como a do Livro dos Reis, isto é, se contra o homossexualismo e contra o projeto de d. Marta não se pode alegar nem juízos de fato nem juízos de valor, então essa proibição abrange, simplesmente, todas as afirmações e todas as negações.

Restam, portanto, somente as interrogações. Aproveito-me dessa margem de liberdade que escapou à vigilância cívica dos juízes eleitorais, e pergunto, “data venia”, a todos os gays, a seus apóstolos e à autora do projeto:

Vocês querem mesmo que essa sua lei, já antes de aprovada – e mais ainda depois -, seja defendida mediante a proibição de todos os argumentos adversos, ou estariam dispostos a concordar comigo se eu dissesse que a iniciativa da Justiça Eleitoral de Minas é um abuso de autoridade, uma aberração jurídica e uma abominação moral?

Uma Opiniao Presidencial

28 de outubro de 2009 | Diário do Comércio

Há opiniões que não podem ser debatidas, apenas analisadas como sintomas do estado de alienação que as produziu. Quando, por exemplo, o nosso presidente celebra como um progresso da democracia o fato de que na eleição do seu sucessor só haja candidatos de esquerda, é absolutamente impossível que ele próprio ou os ouvintes que o aplaudem consigam discernir nessa sentença algum sentido lógico, apto a ser discutido. Tudo o que ela expressa é a confusão de maus sentimentos, mentiras interiores e subterfúgios psicóticos que há décadas constituem o estado de espírito dominante do esquerdismo nacional. Não é uma opinião: é um sintoma.

Perguntem apenas “O que ele quis dizer com isso?”, e verão que ele mesmo não o sabe, nem pode saber.

Estaria ele insinuando que a esquerda, de modo geral e por essência, é mais democrática que a direita? Ainda que o fosse, nem um semi-analfabeto pode acreditar que a maneira mais pura de um partido provar seu amor à democracia é excluir os concorrentes do pleito eleitoral. Mas é igualmente impossível que um cidadão medianamente informado ignore os feitos ditatoriais da esquerda no século XX, enormemente mais vastos e sangrentos que os de todas as direitas somadas (mesmo que se apele ao velho e capciosíssimo expediente de incluir entre as direitas o nazismo). À luz da História, qualquer associação entre esquerdismo e democracia é absolutamente inverossímil.

Alegaria ele então que a esquerda, ditatorial em atos, é democrática pelo menos em teoria e em intenções? Nada o permite. No pensamento de seus clássicos — Marx, Engels, Lênin e sucessores –, o esquerdismo é ditatorial por princípio, proclamando mesmo o terrorismo de Estado e o genocídio como necessidades inerentes à construção do socialismo. Nas suas versões mais brandas — fabianismo e gramscismo, por exemplo –, os métodos truculentos são apenas substituídos pelo dirigismo camuflado, pelo controle estatal das consciências, por toda uma engenharia da exclusão que vai calando lenta e sistematicamente as vozes antagônicas, até que a sociedade inteira, meio às tontas, se curve, como dizia Gramsci, à “autoridade onipresente e invisível” do Partido.

Não, não há nenhum pretexto razoável para supor que a esquerda personifique a democracia, a liberdade ou o Estado de direito. No máximo, ela suporta pacientemente a ordem democrática, à espera de poder substituí-la um dia por algo que lhe pareça melhor, seja a ditadura do proletariado, seja a “democracia plebiscitária” de Rousseau, que não é outra coisa senão a ditadura da maioria enfurecida.

Façamos, por último, a hipótese de que a esquerda, em geral refratária à ordem democrática por princípio e por hábito, tenha tido seu nome casualmente associado à idéia democrática no Brasil, pela circunstância excepcional e local da “luta contra a ditadura” (tal como, na Itália, o antifascismo deu ao PCI, por algum tempo, a fama de democrata, logo desmentida). Mesmo essa alegação desesperadoramente casuística não convence. S. Excia., embora não o diga, sabe perfeitamente que nossos terroristas de esquerda, armados e orientados pelo governo cubano, jamais lutaram por democracia nenhuma, mas pela extensão do regime de Fidel Castro ao Brasil (tanto que suas guerrilhas começaram antes do advento do regime militar, só podendo ser explicadas como reação a ele mediante uma inversão psicótica da cronologia).

Resta, por fim, a hipótese do fingimento proposital: o sr. presidente sabe que o controle hegemônico da sociedade por uma só corrente ideológica é totalitário, mas, como ele gosta precisamente disso, decide chamá-lo de “democracia” por ser uma palavra atraente, boa para servir de camuflagem a tudo o que é mais antidemocrático.

Duvido que S. Excia. seja capaz de tal premeditação maquiavélica. Ele deveu toda a sua carreira às liberdades democráticas, e não é verossímil que as odeie sinceramente. Seu mandato está no fim, e ele até agora não mostrou nenhuma vocação pessoal de ditador (não digo de capomafioso , que é outra coisa).

Que quer então ele dizer? Ele mesmo não o sabe, mas eu o sei: o que ele deseja é o milagre da coincidentia oppositorum , o advento de um mundo impossível onde o absoluto controle governamental da sociedade coexista pacificamente com todas as liberdades e garantias individuais. Aí todos serão felizes.

Mas isso é loucura, dirá o leitor. Precisamente. S. Excia., como em geral os esquerdistas brasileiros, vive naquele estado mental nebuloso e crepuscular onde todos os gatos são pardos, todos os quadrados são redondos, dois mais dois são sempre cinco ou seis e nenhuma palavra dita ou ato praticado tem jamais de responder pelas conseqüências que desencadeia no mundo real. É o estado de perfeita alienação da realidade, em que um indivíduo ou grupo, imunizado contra a percepção de seus crimes e desvarios, pode se entregar gostosamente à auto-adoração narcisística e sentir-se o portador de todas as virtudes, a encarnação das mais belas esperanças da humanidade.

Em 28 de outubro de 2009

Que E Ser Socialista

28 de outubro de 1999 | Jornal da Tarde

O socialismo matou mais de 100 milhões de dissidentes e espalhou o terror, a miséria e a fome por um quarto da superfície da Terra. Todos os terremotos, furacões, epidemias, tiranias e guerras dos últimos quatro séculos, somados, não produziram resultados tão devastadores. Isto é um fato puro e simples, ao alcance de qualquer pessoa capaz de consultar O Livro Negro do Comunismo e fazer um cálculo elementar.

Como, porém, o que determina as nossas crenças não são os fatos e sim as interpretações, resta sempre ao socialista devoto o subterfúgio de explicar essa formidável sucessão de calamidades como o efeito de acasos fortuitos sem relação com a essência da doutrina socialista, a qual assim conservaria, imune a toda a miséria das suas realizações, a beleza e a dignidade de um ideal superior.

Até que ponto essa alegação é intelectualmente respeitável e moralmente admissível?

O ideal socialista é, em essência, a atenuação ou eliminação das diferenças de poder econômico por meio do poder político. Mas ninguém pode arbitrar eficazmente diferenças entre o mais poderoso e o menos poderoso sem ser mais poderoso que ambos: o socialismo tem de concentrar um poder capaz não apenas de se impor aos pobres, mas de enfrentar vitoriosamente o conjunto dos ricos. Não lhe é possível, portanto, nivelar as diferenças de poder econômico sem criar desníveis ainda maiores de poder político. E como a estrutura de poder político não se sustenta no ar mas custa dinheiro, não se vê como o poder político poderia subjugar o poder econômico sem absorvê-lo em si, tomando as riquezas dos ricos e administrando-as diretamente. Daí que no socialismo, exatamente ao contrário do que se passa no capitalismo, não haja diferença entre o poder político e o domínio sobre as riquezas: quanto mais alta a posição de um indivíduo e de um grupo na hierarquia política, mais riqueza estará à sua inteira e direta mercê: não haverá classe mais rica do que os governantes. Logo, os desníveis econômicos não apenas terão aumentado necessariamente, mas, consolidados pela unidade de poder político e econômico, terão se tornado impossíveis de eliminar exceto pela destruição completa do sistema socialista. E mesmo esta destruição já não resolverá o problema, porque, não havendo classe rica fora da nomenklatura , esta última conservará o poder econômico em suas mãos, simplesmente trocando de legitimação jurídica e autodenominando-se, agora, classe burguesa. A experiência socialista, quando não se congela na oligarquia burocrática, dissolve-se em capitalismo selvagem.

Tertium non datur . O socialismo consiste na promessa de obter um resultado pelos meios que produzem necessariamente o resultado inverso.

Basta compreender isso para perceber, de imediato, que o aparecimento de uma elite burocrática dotada de poder político tirânico e riqueza nababesca não é um acidente de percurso, mas a conseqüência lógica e inevitável do princípio mesmo da idéia socialista.

Este raciocínio está ao alcance de qualquer pessoa medianamente dotada, mas, dada uma certa propensão das mentes mais fracas para acreditar antes nos desejos do que na razão, ainda se poderia perdoar a essas criaturas que cedessem à tentação de “fazer uma fezinha” na loteria da realidade, apostando no acaso contra a necessidade lógica.

Ainda que imensamente cretino, isso é humano. É humanamente burro insistir em aprender com a experiência própria, quando fomos dotados de raciocínio lógico justamente para poder reduzir a quantidade de experiência necessária ao aprendizado.

O que não é humano de maneira alguma é rejeitar a um tempo a lição da lógica que nos mostra a autocontradição de um projeto e a lição de uma experiência que, para redescobrir o que a lógica já lhe havia ensinado, causou a morte de 100 milhões de pessoas.

Nenhum ser humano intelectualmente são tem o direito de apegar-se tão obstinadamente a uma idéia ao ponto de exigir que a humanidade sacrifique, no altar das suas promessas, não apenas a inteligência racional, mas o próprio instinto de sobrevivência.

Tamanha incapacidade ou recusa de aprender denuncia, na mente do socialista, o rebaixamento voluntário e perverso da inteligência a um nível infra-humano, a renúncia consciente àquela capacidade de discernimento básico que é a condição mesma da hominidade do homem. Ser socialista é recusar-se, por orgulho, a assumir as responsabilidades de uma consciência humana.

Em 28 de outubro de 1999

O Velho Truque

28 de novembro de 2012 | Diário do Comércio

Um dos mais velhos truques da propaganda comunista no Brasil é esconder-se por trás de algum comunista americano desconhecido nestas plagas e cantar vitória: “Está vendo? Até os ianques dizem que...”

Partindo da premissa popular de que ser americano é um atestado de anticomunismo, até a voz da KGB em inglês soa como uma potente confirmação direitista de qualquer mentira pró-comunista que se pretenda impingir ao cândido leitor brasileiro.

Sempre foi assim. Quando eu era adolescente, esfregavam-me no nariz os artigos de Drew Pearson e me esmagavam com o argumento fulminante: “Está vendo? Até os ianques dizem que...” Acabei, é lógico, acreditando, sem saber que as fontes de informações de Pearson eram dois agentes soviéticos – coisa que só chegou ao meu conhecimento quatro décadas depois, mas ainda é totalmente ignorada pelo público maior, o qual já nem lembra quem foi Pearson e que tremenda influência teve na política americana.

O engodo tornava-se ainda mais persuasivo quando reforçado por um constante bombardeio de artigos e estudos eruditíssimos que nos provavam por a + b que a mídia americana inteira era um instrumento de propaganda imperialista. Qualquer agente comunista minimamente treinado sabe que a maneira mais eficaz de persuadir a plateia não é usar de um argumento lógico continuado, mas jogar com a tensão entre dois argumentos aparentemente opostos (em geral um implícito, o outro explícito).

Quando até os imperialistas admitiam que Fidel Castro era um combatente pela democracia ou que os vietcongues eram patriotas sem um pingo de ideologia comunista nas veias, que brasileiro teria a ousadia de dizer o contrário?

Sempre foi assim. A diferença é que agora esse truque, antigamente usado apenas na imprensa comunista, se tornou norma de redação na grande mídia e multiplicou por mil o seu poder de confundir e ludibriar.

Façam uma revisão do que leram nos jornais brasileiros a respeito de Barack Hussein Obama ao longo das campanhas eleitorais de 2008 e 2012 e verão que, com exceções infinitesimais, as opiniões aí expressas foram de dois tipos e somente dois:

(a) Barack Obama é um progressista moderado, a voz da América esclarecida em luta contra o obscurantismo reacionário e racista.

(b) Barack Obama, sob a aparência de bom moço, é um imperialista ianque como qualquer outro, um “falcão” empenhado em esmagar o pobre mundo sob as patas do Império americano. A única diferença entre ele e John McCain, ou Mitt Romney, é que pelo menos ele não é um caipirão racista como eles.

Forçado a escolher entre o bem absoluto e o mal menor, nos dois casos o “idiota padrão”, que é como nas redações se denomina o leitor médio, acabava sempre ficando com Barack Obama. Se as eleições fossem no Brasil, o candidato democrata teria 99% dos votos sem precisar adulterar as maquininhas, como fez em Ohio e na Pensilvânia.

O benefício secundário dessa técnica é habituar o leitor a escolher entre duas opiniões esquerdistas e a acreditar que com isso está desfrutando de um dos prazeres maiores de viver numa democracia, que é o de poder tomar posição livremente nos debates públicos. Com isso, pouco a pouco a democracia vai se reduzindo ao “centralismo democrático” leninista – a livre discussão dentro do Partido –, sem que a multidão bocó perceba a diferença.

Por fim, a coisa mais maravilhosa: com o tempo, os jornalistas sem filiação ideológica explícita se adaptam ao modelo, por mera imitação dos colegas mais velhos, e acabam por se tornar os mais eficientes colaboradores da manobra comunista, justamente porque não têm nenhuma consciência de estar a serviço dela e rejeitam, com esgares de indignação ou trejeitos de sarcasmo, a hipótese de que estão servindo de idiotas úteis. Aliás é precisamente por essa razão que são chamados de idiotas úteis.

“Hegemonia” é isso: o domínio invisível e insensível exercido sobre as consciências pela força da repetição e do hábito impregnado na linguagem, nas rotinas, no “senso comum” (no sentido gramsciano do termo). Construí-la é, por definição, obra de muitas décadas, apoiada na passagem das gerações e no esquecimento coletivo.

Só um conhecimento muito fino da história cultural e psicológica da sociedade em que vivemos, aliada a um rigoroso exame retrospectivo da nossa própria biografia interior e à firme disposição de encontrar a verdade para além de toda a pressão do nosso grupo de referência, pode nos libertar de uma influência grudenta e anestésica que se impregna em nossas almas como uma segunda natureza.

As pessoas habilitadas a fazer esse exame contam-se nos dedos das mãos, e são ainda mais raras na classe universitária, onde a adaptação ao vocabulário e aos cacoetes mentais do ambiente são condições necessárias da sobrevivência escolar e profissional. A construção da hegemonia aposta na estupidez, na preguiça, no espírito de imitação e na covardia intelectual, qualidades que raramente faltam aos jovens universitários ávidos de reconhecimento.

Mais Sabios Que Deus

28 de novembro de 2005 | Diário do Comércio

Ao chegar à América em 1623, o governador William Bradford encontrou a colônia de Plymouth numa situação desesperadora: magros, doentes, em farrapos, sem atividade econômica organizada, os peregrinos estavam à beira da extinção. Muitos, depois de vender aos índios todas as suas roupas e demais bens pessoais, tinham lhes vendido sua liberdade: eram escravos, vivendo de cortar lenha e carregar água em troca de uma tigela de milho e um abrigo contra o frio.

Interrogando os líderes da comunidade em busca da causa de tão deplorável estado de coisas, Bradford descobriu que a origem dos males tinha um nome bem característico. Chamava-se “socialismo”.

Os habitantes de Plymouth, revolucionários puritanos exilados, trouxeram para a América as idéias sociais esplêndidas que os haviam tornado insuportáveis na Inglaterra, e tentaram construir seu paraíso coletivista no Novo Mundo. As terras eram propriedade comunitária, a divisão do trabalho era decidida em assembléia e a colheita se dividia igualitariamente entre todas as bocas. O sistema havia resultado em confusão geral, a lavoura não produzia o suficiente e aos poucos a miséria havia se transformado naturalmente em anarquia e ódio de todos contra todos.

A um passo do extermínio, a comunidade aceitou então a sugestão de mudar de rumo, voltando ao execrável sistema de propriedade privada da terra. “Isso teve muito bons resultados”, relata Bradford. “Muito mais milho foi plantado e até as mulheres iam voluntariamente trabalhar no campo, levando suas crianças para ajudar.” O surto de prosperidade que se seguiu é bem conhecido historicamente: ele permitiu que os colonos fincassem raízes na América e começassem a construir o país mais rico do mundo.

Homem de fé, Bradford não atribuiu a salvação da colônia aos méritos dela ou dele próprio, mas à mão da providência divina. O sucesso do sistema capitalista, escreveu ele, “bem mostra a vaidade daquela presunção de que tomar as propriedades pode tornar os homens mais felizes e prósperos, como se fossem mais sábios que Deus”.

Encontrei essa história na coluna de Mike Franc no semanário Human Events . Para mim ela era novidade completa, mas depois descobri que por aqui até os meninos de escola a conhecem. O documento clássico a respeito é o livro do próprio Bradford, Of Plymouth Plantation, 1620—1647 . Uma edição confiável é a de Samuel Eliot Morison (New York, Modern Library, 1967).

A experiência socialista em dose mínima teve no corpo da América o efeito de uma imunização homeopática. A arraigada ojeriza do povo americano às experiências coletivistas dura até os dias de hoje, malgrado as tentativas cíclicas de reintroduzi-las subrepticiamente por meio de manobras burocráticas que escapam ao controle do eleitorado, as quais terminam sempre no fracasso geral e no subseqüente retorno à constatação de Bradford: “Deus, na sua sabedoria, viu um outro rumo melhor para os homens.”

Há muita gente que, não gostando do socialismo, se curva de bom grado à sua pretensa necessidade histórica, sob a alegação de que o povo “precisa passar por isso” para aprender com a experiência. Uma das poucas coisas de que me gabo é nunca ter apelado a essa desculpa idiota para justificar meus erros. Adotei como divisa a máxima atribuída pelo povo gaiato ao ex-presidente Jânio Quadros — “Fi-lo porque qui-lo” — e, sem nada conceder ao fatalismo retroativo, considero-me o único autor de minhas próprias cacas (afinal, a gente tem de se orgulhar de alguma coisa na vida).

O problema com a experiência é a dose: a quantidade de veneno de cobra numa vacina não é a mesma da mordida real. O que educa não é propriamente a experiência, mas a rememoração meditativa depois dela. A condição para isso é que você saia da experiência vivo e não muito danificado. Uma coisa é a miniatura de socialismo numa colônia de peregrinos. Outra são décadas de ditadura socialista em extensões territoriais continentais como a da Rússia e a da China. O Brasil ainda não chegou a esse ponto, mas já passou muito além do limite em que a experiência pode ensinar alguma coisa em vez de lesar o aprendiz para sempre. O vício estatista e coletivista é muito antigo e pertinaz, a intromissão do Estado na economia é muito vasta e profunda para que se possa simplesmente parar tudo de uma hora para a outra e meditar sobre o fracasso da experiência. Nem se pode designar com esse nome o que já se tornou um estilo de vida, uma cosmovisão, uma religião, um imperativo categórico investido de fatalidade quase cósmica: um empresário brasileiro sem subsídio estatal se sente tão desamparado quanto um inglês sem guarda-chuva, um russo sem vodca ou um italiano sem mãe. Inversa e complementarmente, não chegou a ser uma experiência a tentação de capitalismo liberal do brevíssimo governo Collor, punida exemplarmente pelo superego estatista sob o pretexto de crimes jamais provados e abortada na gestão subseqüente pelo escândalo das pseudo-liberalizações monopolistas, que um presidente socialista, patrono da revolução no campo e membro de carteirinha da Internacional temporariamente disfarçado em adepto da liberdade econômica, forçou para dar a seus correligionários o pretexto que queriam para voltar correndo aos braços do Estado-babá.

A imersão do Brasil na poção miraculosa do estatismo já durou tempo demais para que um mergulho ainda mais profundo e duradouro possa valer como experiência didática, exceto no sentido em que é didático trancar-se numa jaula com um tigre faminto para averiguar se come gente.

Mas até essa advertência é tardia: já demos esse mergulho, já estamos dentro da jaula. O tigre já está lambendo os beiços. Os que quiserem esperar para só tirar conclusões quando ele começar a palitar os dentes não terão tempo para isso, pois estarão espetados no palito, reduzidos à condição de fiapos de si mesmos.

Não há covardia mais torpe que a covardia da inteligência, a burrice voluntária, a recusa de juntar os pontos e enxergar o sentido geral dos fatos. Toda a chamada “oposição” nacional é culpada desse pecado que terminará por matá-la. Não faltam aí políticos e intelectuais que protestem contra afrontas isoladas, mas não há um só que consinta em apreender a unidade estratégica por trás delas, clara e manifesta, no entanto, para quem tenha algum estudo, por modesto que seja, da técnica das revoluções sociais.

Muitos são os que se sentem insultados pela proposta indecente de cursos especiais para o MST em universidades públicas, com concessão de diploma superior e dispensa de exame escrito, tendo em vista o direito dos doutores ao analfabetismo, já consagrado como um mérito na pessoa do sr. presidente da República e em parte na do próprio ministro da Cultura (seja isto lá o que for). Mais ainda são os que se revoltam contra a obstinada impossibilidade de punir qualquer mandatário petista, mesmo com provas cabais de crimes incomparavelmente superiores ao de um juiz Lalau, de um Maluf e de um P. C. Farias, todos somados.

O que não percebem é que, em ambos os casos, se trata da aplicação de um mesmo princípio básico da estratégia revolucionária, que é a progressiva substituição do sistema de legitimidades vigente por um novo sistema fundado na solidariedade partidária mafiosa. Não se trata nem de sugar vantagens ocasionais para o MST, nem de proteger improvisadamente um criminoso vermelho de colarinho branco. Estas são apenas oportunidades para a aplicação do princípio. Ao postular abertamente vantagens ilícitas para seus protegidos ou festejar descaradamente a impunidade do corrupto-mor, o esquema esquerdista dominante está enviando à nação uma mesma mensagem, que os analistas de plantão podem não perceber, mas que cala fundo no subconsciente do povo e impõe, com a força do fato consumado, o império da nova lei. Traduzida em palavras, a mensagem diz: “A velha ordem constitucional acabou. O Partido-Príncipe está acima de todas as leis. Ele é a fonte única de todos os direitos e obrigações.”

Em todas as revoluções socialistas, essa mudança do eixo da autoridade é ao mesmo tempo o mecanismo básico e o objetivo essencial. Na Rússia, anos de boicote à administração oficial e de parasitagem das suas prerrogativas pelos sovietes antecederam a proclamação explícita de Lênin ao voltar do exílio: “Todo o poder aos sovietes”. Há décadas o MST, que tem uma estrutura e composição interna absolutamente idênticas às dos sovietes – não constituindo uma organização agrícola, mas um todo político-militar complexo, com especialistas em todas as áreas, do marketing à técnica de guerrilhas – já vem habituando a opinião pública a aceitar passivamente a sua cínica usurpação de direitos auto-legados, passando por cima da lei. Desde o instante em que o governo do sr. Fernando Henrique Cardoso – cúmplice consciente de um processo que ele conhece mais do que ninguém – aceitou alimentar com uma pletora de verbas públicas uma entidade legalmente inexistente, estava instaurado o direito à ilegalidade em nome da superior legalidade revolucionária. Destruindo voluntariamente a ordem estabelecida, o sr. Cardoso teria sido objeto de impeachment se sua pantomima de “neoliberal” não tivesse entorpecido as lideranças políticas e empresariais hipoteticamente direitistas, tornando-as insensíveis ao desmantelamento da ordem, porque era preferível que viesse “de um de nós” em vez do espantalho petista. Cardoso elegeu-se com o simples endosso da frase “Esqueçam o que eu escrevi”. Poucos meses depois, seu conluio com o MST trouxe a prova de que ele próprio não se esquecera de nada.

Com a ajuda de uma popularíssima novela da Globo, as invasões de terras foram então legitimadas: a entidade sem registro recebia o registro daquilo que roubava. Muito mais importante do que a posse das terras era, para o MST, essa imposição da sua vontade como força superior às leis. Era, já, a transferência tácita do poder aos sovietes.

As terras podiam não servir de grande coisa, excluída a sua posição estratégica ao longo das estradas, nem sempre boa para o plantio, mas apta a paralisar o país numa futura e talvez até desnecessária hipótese insurrecional. Usá-las para plantar jamais entrou em consideração exceto no mínimo suficiente para jogar areia nos olhos da opinião pública. A prova é que, transformado pelo roubo oficializado no maior proprietário de terras que já houve neste país, o MST não produz sequer o necessário ao sustento dos seus membros, que se nutrem de alimento muito mais substancioso: verbas públicas, direitos usurpados, ocupação do espaço aberto pela legalidade acovardada que recua.

Quanto à impunidade do sr. José Dirceu, é extensão lógica da transformação do STF em assessoria jurídica do Partido-Príncipe. Não é um improviso espertalhão: é um capítulo previsível da história da imposição do poder revolucionário pelos meios esquivos e anestésicos concebidos por Antonio Gramsci mais de sete décadas atrás. Desde 1993 venho tentando chamar a atenção do empresariado, das Forças Armadas dos intelectuais não comprometidos com o poder esquerdista para a obviedade da aplicação do esquema gramsciano não só pelo PT, mas pelo conjunto dos partidos esquerdistas aglomerados no Foro de São Paulo. Passo por passo, etapa por etapa, anunciei antecipadamente cada novo lance da implementação da estratégia. Em vão. Excetuando cinco ou seis homens sensatos que compartilharam imediatamente das minhas preocupações, mas cujo número e poder eram inversamente proporcionais ao mérito da sua coragem intelectual, a resposta que recebi foi sempre a mesma, vinda das mais variadas fontes. Neste país de gente pomposa e burra, o estudo mais extenso, o conhecimento mais preciso dos fatos, a descrição mais exata do seu encadeamento racional nada valem diante do apelo a um chavão tranqüilizante. Despediam-se do problema por meio do rótulo “teoria da conspiração” — e iam descansar seus traseiros gordos e suas consciências balofas no leito macio da traição passiva. Não perdôo ninguém: ricaços presunçosos, generais perfumados, senadores de musical pornô. E não me venham com patacoadas pseudo-evangélicas: Jesus ordenou perdoar as ofensas feitas a nós pessoalmente; jamais nos deu procuração para perdoar as ofensas feitas a terceiros, muito menos a uma nação inteira. Por isso lhes digo: vocês todos são culpados da degradação sem fim que este país está sofrendo. Tão culpados quanto qualquer José Dirceu. E nem falo daqueles que, percebendo claramente a debacle, se adaptaram gostosamente a ela, distribuindo medalhas a criminosos, subsídios a vigaristas, afagos a quem só não os mata porque não chegou a hora. Esses não pecaram por omissão: ao contrário, nunca agiram tanto. Alguns já colheram o fruto amargo da bajulação: foram esmagados sob o peso dos sacos que puxavam. Outros não perdem por esperar. Quando a injustiça se eleva ao estatuto de norma geral, ironicamente sobra sempre um pouco de justiça nos detalhes.

Mas, cavando um pouco mais fundo no estudo dos fenômenos acima apontados, descobre-se que a imposição cínica de direitos auto-arrogados não é nem mesmo um simples instrumento da estratégia de tomada do poder: é um traço constante e uniforme da mentalidade revolucionária, nascido muito antes de que esse instrumento fosse concebido por Lênin no contexto da via insurrecional e adaptado por Gramsci à estratégia capciosa da revolução anestésica.

Norman Cohn, em The Pursuit of the Millenium (Oxford University, 1961), assinala uma característica proeminente de certas seitas gnósticas medievais: seus adeptos sentiam-se tão intimamente unidos a Deus que se imaginavam libertos da possibilidade de pecar. “Isto, por sua vez, os liberava de toda restrição. Cada impulso que sentiam era vivenciado como uma ordem divina. Então podiam mentir, roubar ou fornicar sem problemas de consciência.”

Enquanto essas seitas se refugiavam em círculos estreitos de iniciados esotéricos, a pretensão de imunidade essencial ao pecado não passou de um delírio de auto-adoração grupal. Na entrada da modernidade, porém, como observou Eric Voegelin em The New Science of Politics (University of Chicago, 1952), essas seitas se exteriorizaram em poderosos movimentos de massas. Foi quando começou a Era das Revoluções. Transposta para a esfera da ação política, a autobeatificação permissiva deu origem à moral revolucionária que isenta o militante de todos os deveres morais para com a sociedade existente, santificando as suas mentiras e seus crimes em nome dos méritos de um estado social futuro que ele se autoriza a exibir desde o presente como salvo-conduto para praticar o mal em nome do bem.

Uma das primeiras manifestações dessa transmutação de uma falsa sabedoria esotérica em movimento revolucionário de massas foi, precisamente, a Revolução Puritana na Inglaterra. Nela já estão presentes todos os elementos da autobeatificação petista – e não só petista, mas esquerdista em geral, com especial destaque para a “teologia da libertação”: a absoluta insensibilidade moral aliada à reivindicação de méritos sublimes; a idealização do “pobre” como portador de uma sabedoria excelsa não apesar mas em razão de sua incultura mesma; a vontade férrea de impor seu próprio critério grupal de justiça acima de toda consideração pelos direitos dos outros; o mito da propriedade coletiva; a pseudomística de um Juízo Final terrestrializado e identificado com o tribunal revolucionário.

Pois bem, foram esses mesmos puritanos que, fracassado o intento revolucionário na Inglaterra, vieram criar seu simulacro de paraíso no Novo Mundo. A resistência da sociedade, que encontraram na Europa, ainda podia ser explicada como obstinação dos maus que não se rendiam à autoridade dos “Santos”. Mas o que os “Santos” encontraram do outro lado do oceano não foi nenhuma discordância humana: foi a resistência implacável da natureza material, a estrutura da realidade — ou, em linguagem teológica, a vontade de Deus. A ela souberam no entanto conformar-se, diante da segunda derrota, os teimosos puritanos. Trocando seu orgulho pela humildade que lhes ensinava o sábio Bradford, tornaram-se mansos e herdaram a Terra.

Individualistas E Coletivistas

28 de março de 2011 | Diário do Comércio

Aí vão, conforme anunciei, algumas notas para a próxima rodada do debate com o prof. Duguin.

Comecei minha mensagem inaugural apontando a assimetria entre um indivíduo isolado, que fala apenas em seu próprio nome, e o líder que expressa a vontade política de um partido, de um movimento, de um Estado ou de um grupo de Estados.

O prof. Duguin viu aí a cristalização simbólica da oposição entre individualismo e coletivismo, Ocidente e Oriente.

Essa não me parece ser uma aplicação correta das regras do simbolismo, que tanto ele quanto eu aprendemos em René Guénon.

Um simbolismo genuíno deve respeitar as fronteiras entre distintos planos de realidade, em vez de confundi-los. Onde o prof. Duguin viu um símbolo, eu vejo apenas uma metáfora, e aliás bastante forçada.

O individualismo como nome de uma corrente ideológica é uma coisa; outra completamente diversa, sem nenhuma conexão com ela, é a posição de um ser humano na base, no meio ou no topo da hierarquia de comando. Desta não pode se deduzir aquela, nem ver na posição social de um indivíduo um “símbolo” da sua identidade ideológica real ou suposta. Caso contrário, todo escritor sem suporte numa organização política seria necessariamente um adepto do individualismo ideológico, incluídos nisso os fundadores do nacional-bolchevismo, Limonov e Duguin, no tempo em que começaram, solitários e ignorados do mundo, a especular suas primeiras idéias. Ser um indivíduo isolado é uma coisa; ser um individualista é outra, quer tomemos a palavra “individualista” no sentido de hábito moral ou de convicção ideológica. A dedução implícita no “simbolismo” que o prof. Duguin acredita ter encontrado é um perfeito non sequitur . O simbolismo autêntico, segundo René Guénon, deve ir para além e para cima da lógica, em vez de ficar abaixo das suas exigências mais elementares.

Mais ainda, em vez de colar à força na minha lapela o distintivo de adepto do individualismo ocidental, o prof. Duguin poderia ter perguntado o que penso a respeito. Afinal, a liberdade de expressão num debate não consiste apenas no poder que cada um dos debatedores tem de responder “x” ou “y” a uma questão dada, mas também, e eminentemente, na sua possibilidade de rejeitar a formulação da pergunta e recolocar a questão toda desde seus fundamentos, conforme bem lhe pareça.

Na minha modestíssima e individualíssima opinião, “individualismo” e “coletivismo” não são nomes de entidades históricas substantivas, distintas e independentes, separadas como entes materiais no espaço, mas rótulos móveis que alguns movimentos políticos usam para carimbar-se a si próprios e a seus adversários. Ora, a ciência política, como já afirmei, nasceu no momento em que Platão e Aristóteles começaram a entender a diferença entre o discurso dos vários agentes políticos em conflito e o discurso do observador científico que tenta entender o conflito (que mais tarde os agentes políticos aprendessem a imitar a linguagem da ciência não invalida em nada essa distinção inicial). Logo, nossa principal obrigação num debate intelectualmente sério é analisar os termos do discurso político para ver que ações reais se insinuam por baixo deles, em vez de tomá-los ingenuamente como traduções diretas e francas de realidades prontas.

Com toda a evidência, os termos “individualismo” e “coletivismo” não expressam princípios de ação lineares e unívocos, mas dois feixes de tensões dialéticas, que se exteriorizam em contradições reais cada vez que se tente levar à prática, como se isto fosse possível, uma política linearmente “individualista” ou “coletivista”.

Desde logo, e para ficar só nos aspectos mais simples e banais do assunto, cada um desses termos evoca de imediato um sentido moralmente positivo junto com um negativo, não sendo possível, nem mesmo na esfera da pura semântica, separar um do outro para dar a cada um dos termos uma conotação invariavelmente boa ou má.

O “individualismo” sugere, de um lado, o egoísmo, a indiferença ao próximo, a concentração de cada um na busca de seus interesses exclusivos; de outro lado, sugere o dever de respeitar a integridade e a liberdade de cada indivíduo, o que automaticamente proíbe que o usemos como mero instrumento e coloca portanto limites à consecução de nossos propósitos egoístas.

O “coletivismo” evoca, de um lado, a solidariedade, o sacrifício que cada um faz de si pelo bem de todos; de outro lado, evoca também o esmagamento dos indivíduos reais e concretos em nome de benefícios coletivos abstratos e hipotéticos que em geral permanecem hipotéticos e abstratos para sempre.

Quando vamos além da mera semântica e observamos as políticas autonomeadas “individualistas” e “coletivistas” em ação no mundo, notamos que a duplicidade de sentido embutida nos termos se materializa em efeitos políticos paradoxais, inversos aos bens ou males subentendidos no uso desses termos como adornos ou estigmas.

O velho Hegel já ensinava que um conceito só se transmuta em realidade concreta mediante a inversão do seu significado abstrato.

Essa transmutação é uma das mais notáveis constantes da história humana.

O Suicidio Do Equador

28 de maio de 2006 | Zero Hora

Cedo hoje o espaço desta coluna a um convidado ilustre. Estive conversando com o dr. Edgar Terán, ex-ministro das Relações Exteriores do Equador e, é claro, pedi que me desse algumas explicações sobre o que está acontecendo no seu país. Eis as quatro perguntas que lhe coloquei e as respostas que obtive:

— Qual o objetivo da encampação da Occidental Petroleum?

— O governo do Equador realizou dois atos que violam a Constituição e os tratados de investimentos com os EUA e com outros países: modificar os contratos de participação petroleira para obter mais recursos, não por ato contratual e sim por lei; e, quase de imediato, tomar a propriedade das instalações da companhia OXY (que exportava vinte por cento do petróleo equatoriano). Como tanto a Constituição quanto o Tratado Bilateral de Investimentos proíbem o confisco, a OXY apresentou uma ação arbitral contra o Equador ante o Centro de Arbitragem do Banco Mundial, no valor de pelo menos um bilhão de dólares. O efeito imediato da encampação foi bloquear a assinatura do Tratado de Livre Comércio (TLC) que os EUA já assinaram com a Colômbia e o Peru. Mais de metade das exportações equatorianas vão para os EUA, e aliás sem pagar impostos, dos quais estão isentas por uma lei americana, mas a continuidade da aplicação dessa lei depende de que seja assinado o TLC. Não firmar esse tratado é um suicídio econômico para o Equador. Parece, então, que o objeto foi duplo: confiscar a propriedade petroleira, ao estilo Evo Morales e impedir toda possibilidade de firmar o TLC. Tudo isso somente pela vontade de Hugo Chavez.

— A China está se tornando o mais voraz importador de petróleo do mundo, provocando a escassez do produto e a alta dos preços. Há alguma relação entre esse fato e o que se passou no Equador?

— As companhias estatais chinesas compraram operações petroleiras no Equador. Firmaram acordos com o governo anterior de Gutierrez para expandir a exploração e a industrialização do petróleo. Não chegaram a consumar esses convênios porque eu os denunciei por não submeter-se a licitações internacionais. Sabe-se que Chavez pretende construir um oleoduto desde o Equador até o Panamá para exportar petróleo à China, mas não sei se a China esteve pressionando por trás destas medidas do governo de Alfredo (Evo) Palacio.

— Até que ponto a influência de Hugo Chávez foi determinante no confisco?

— São demasiadas coincidências: Chavez vocifera contra os tratados de livre comércio. Chavez pretende formar a Petroamerica, entidade que vincule as empresas estatais da América Latina. Chavez tem uma política de colaboração energética com a China (parte do petróleo venezuelano se refina na China) coisa que deve estar vinculada ao plano do oleoduto transandino até o Panamá. Chavez aplaudiu a confisco da OXY.

O ex-ministro da Economia, Correa (atual candidato presidencial), e o atual Diego Borja estão vinculados a Chavez e têm viajado à Venezuela para falar de temas de petróleo. É evidente que Hugo Chávez, por quaisquer meios que sejam, está por trás do suicídio do Equador.

— Como lutar contra a ascensão do neocomunismo na América Latina?

— Somente mediante a regionalização da luta poderá deter-se o neocomunismo. O primeiro passo é denunciar publicamente as táticas do eixo Castro-Chavez-Morales-etc. (no “etc.” cabem Lula, Kirchner e talvez outros). Ao mesmo tempo é preciso a cooperação entre as pessoas que defendem a liberdade e a democracia. A luta deve ser orientada de modo a defender a segurança pessoal, porque um povo aterrado pela criminalidade é facilmente dominado; o império da lei, porque é a única garantia do Estado de Direito, o único o freio ao poder; a justiça independente; a imprensa livre e não vendida; o direito dos pais a educar seus filhos, e o direito de todos à saúde e à segurança social. E, além disso, que Deus nos proteja...

Em 28 de maio de 2006

Eram Longas Aquelas Tardes

28 de junho de 2013 | 28 de junho de 2013

ERAM LONGAS aquelas tardes de sábado na Vila Mariana. Eram curtas, aquelas tardes. Estudei com o professor e filósofo Olavo de Carvalho entre os anos de 2002 e 2005, pouco antes de sua partida – creio que definitiva, feliz e infelizmente – para os EUA.

Reuníamo-nos na sede de sua então editora, e ali assistíamos às palestras de quatro, cinco horas, com breve interrupção para o café e para as conversas. A propósito: não eram palestras. Eram aulas. E os alunos não eram tratados como estúpidos.

Estávamos no primeiro mandato do apedeuta da silva e Olavo, entre digressões mais ou menos abruptas para comentar o descalabro intelectual a que nos metíamos imprudentemente, ensinava a teoria discursiva de Aristóteles, a fenomenologia de Edmund Husserl, a filosofia política de Eric Voegelin e Eric Weil, a ontologia de Louis Lavelle e a metafísica de Bernard Lonergan. Vi nascer ali, como texto base para estudo, a tradução das ‘Reflexões Autobiográficas’, de Voegelin, assinada pela Maria Inês, sua filha.

Quatro, cinco horas de aula, quase sempre sem qualquer anotação de apoio, e sem perder a ordem na exposição nem por um único momento. Era impressionante. Tão impressionante quanto sua humildade para responder, a depender da pergunta que lhe fosse feita, com um simples “Não sei. Não estudei o assunto. Prometo prestar atenção nisso e voltamos ao tema em tempo oportuno”.

Enquanto todos, ou quase todos os intelectuais ‘profissionais’ davam de ombros e comemoravam as benesses do sistema democrático brasileiro, Olavo de Carvalho, sem peias e sem meias palavras respondia: “É o começo do fim”. E hoje sabemos quem estava certo e quem estava errado.

E o fato é que nunca fui de fazer alarde acerca desses dois anos e meio de estudo e dessas generosas conversas com o Olavo. Que, por sua vez, nunca gostou muito de ser chamado de ‘mestre’, nem admitia ser visto como ‘guru’ ou guia de qualquer coisa. Eu digo por que eu sei, por que eu estive lá. É dos sujeitos mais generosos e engraçados que conheci. Mas, sobretudo: de uma honestidade intelectual rara. Nada ali soa falso. Mesmo seus erros ou seus exageros eventuais não pecam por falsidade, coisa encontradiça nos meios intelectuais hodiernos. Ser falso e cínico, na academia, é certeza de longa e brilhante carreira.

Nunca fiz em público o que já fiz em privado, mas faço-o, desta vez, aqui: muito obrigado, Olavo de Carvalho.

Fiquem com a entrevista do ótimo cientista político – e, se ele me permite, amigo – Bruno Garschagen. Nem tudo está perdido nesta pocilga.

Eram longas aquelas tardes de sábado na Vila Mariana. Eram curtas, aquelas tardes.

Em 28 de junho de 2013

Leituras

O Panopticon De Olivio Dutra

28 de julho de 2001 | Médico

“ No anel periférico se é totalmente visto, sem jamais ver; na torre central vê-se tudo sem jamais ser visto” Michel Foucault, lembrando Jeremy Bentham O Rio Grande do Sul assiste com um misto de incompreensão, medo e estupefação a uma série de constatações acerca da segurança pública. As últimas notícias veiculadas pela imprensa (jornal Zero Hora e RBS em 25/7/01) dão conta do estado de desinformação da população por falta de estatísticas oficiais por parte do governo do Estado sobre crimes perpetrados no Rio Grande do Sul nos últimos anos. A ausência de dados estatísticos que sonegam à sociedade o mísero direito de saber como, onde, quando, e de quem se proteger, faz aumentar o clima de insegurança e temor dos cidadãos. Não se conformando apenas com o discurso da “generosidade”, e da “solidariedade”, que não sai da boca do governador, a população estremece.

A imprensa já bate em alguns pontos sensíveis e vulneráveis ao revelar o discurso escapista do Secretário da Segurança e da Justiça, José Paulo Bisol, o qual protela a informação de dados estatísticos ao público sobre a criminalidade. De fato, em repetidas vezes o secretário desconversa com esta querela de estatísticas habilmente fugindo das intenções malignas que não provêm apenas da sua mente, mas que fazem parte da estratégia de poder que se arma no estado do Rio Grande do Sul e já se “espraia” para todo o país.

O motivo crucial que está por trás desta aparente demora na divulgação de dados da polícia é que ela é inconfessável, e assim ela é porque a estratégia leninista que inspira TODAS AS AÇÕES deste governo é ela mesma, inconfessável. Ela é típica das ações revolucionárias das antigas polícias secretas de Lênin a Stalin, continuando-se na odiosa polícia revolucionária Cuba, onde um em cada quatro habitantes é um informante do estado totalitário do ditador Fidel Castro. Ela é típica dos arcana imperi que fazem do segredo dos seus atos e da ocultação das informações a sua característica. Conforme Norberto Bobbio, representar é apresentar ao público. Quem se omite em informar não está representando o povo e sim ocultando uma vontade inconfessável. O segredo só é a alma do negócio na vida privada. Esta era a estratégia da Tcheká , a primeira polícia secreta de Lênin que existiu de 1917 a 1922, sendo substituída pelos “ Órgãos ” ( OGPU ), pela NKVD , MGB , e a tristemente célebre KGB . Todas elas omitiam informações a um povo já escravo. Aliás, era o próprio Estado que omitia tudo, que distorcia tudo, que via em cada esquina de Moscou um inimigo contra-revolucionário. Esta paranóia estatal se estendia a tudo e contra todos. Na defesa intransigente e patológica do socialismo sacrificavam o próprio povo. Vivia o infeliz povo russo sob o tacão de um Estado Policial.

O Brasil ainda não é este Estado, mas aqui no Sul já se deram os primeiros passos, e eles começam assim: omissão de dados, o que contraria e ignora lei de 1999 que expressamente obriga o governante a publicar em Diário Oficial as estatísticas de criminalidade; atenção policial crescente para dentro dos lares e famílias e para longe das ruas; tratamento privilegiado de criminosos, que são mostrados à sociedade como “vítimas” da situação econômica; a ausência de policiamento; e a intencional alteração das estruturas de eficiência do trabalho policial – matérias eminentemente técnicas que estão recebendo tratamento ideológico marxista-leninista. Daí ser inconcebível que um político socialista seja o ocupante do cargo em questão, e que “pensa” movido pelo fiel cumprimento do manual revolucionário de Lênin, cujo político-policial favorito era o herói sanguinário Felix Dzjerdzinski, chefe da igualmente sanguinária Tchecá.

O papel patético, para dizer o mínimo, do secretário Bisol, que está mais para Madre Tereza de Calcutá do que para um agente público que luta contra o crime, um exemplo de escandaloso desvio de função, ainda o impede de se igualar a Felix Dzjerdzinski. Bisol jamais sujaria as próprias mãos. Além disso, temos alguns meses até a vitória final da barbárie e isto nos separa das masmorras, da censura brutal e dos campos ( GULAGs ) da ditadura socialista.

E todo o resto decorre. Não admira que o jornal oficial Pravda ( A Verdade (!) ), órgão máximo da imprensa comunista de Lênin a Gorbachov, só publicasse a “verdade” do órgão máximo do Partido, e deixasse de publicar tudo o mais. Mas se a nossa imprensa reluta em afrontar o monstro leninista, talvez imaginando que assim o faz por respeitar a legítima escolha popular, não faria mal em publicar ela mesma outras sábias palavras de Norberto Bobbio:

“... O poder autoritário não apenas esconde para não fazer saber quem é,e onde está, mas tende também a esconder suas reais intenções no momento em que as suas decisões devem tornar-se públicas.”

Amaral Ferrador, RS, 28 de julho de 2001 Em 28 de julho de 2001

Leituras

Monstros

28 de fevereiro de 2008 | Jornal do Brasil

Para os comunistas e seus bajuladores, a morte de uns 400 terroristas, durante o regime militar brasileiro, foi algo de incomparavelmente mais grave, mais revoltante, mais intolerável do que a matança de 75 milhões de civis chineses pela ditadura de Mao Dzedong, de 20 milhões de russos pelo governo soviético ou de 3 milhões de cambojanos pela quadrilha de Pol-Pot. Claro, os comunistas são diferentes de nós. Segundo Che Guevara, são “o primeiro escalão da espécie humana”. Se você mata um deles, mesmo em defesa própria, é crime hediondo. Se ele mata 100 mil de nós, desarmados e amarrados, torna-se um herói, que é como o senhor Mino Carta define Fidel Castro.

Protestando contra a comparação quantitativa entre a ditadura brasileira e a cubana, que o colunista Reinaldo Azevedo faz na última Veja, Gerald Thomas vocifera seu sacrossanto horror à contagem de cadáveres e em seguida se põe a contá-los por sua vez, acusando os militares brasileiros pela “perda da vida de milhares, digo, milhares de vidas inocentes”. Primeiro, não eram inocentes: eram guerrilheiros armados, que só começaram a morrer depois de estourar com bombas dezenas de civis (estes sim, inocentes). Segundo: não foram milhares, foram quatro centenas na mais hiperbólica das hipóteses, jamais submetida a revisão crítica. Para Gerald Thomas, números são um expediente retórico desonesto quando verdadeiros: só os falsos são argumentos honrados.

Sinceramente, já estou velho demais para continuar fingindo que indivíduos capazes de julgar seus semelhantes com um critério tão desproporcional, tão disforme, tão manifestamente iníquo, sejam pessoas normais e decentes com quem eu não tenha senão divergências filosóficas. Esses sujeitos são doentes, são sociopatas perigosos, incapazes de olhar para os discordantes sem antever, com sádica alegria, o cadáver do “inimigo de classe” girando no espeto como um frango no forno da História.

Eis alguns – só alguns – dos objetivos proclamados abertamente pelos líderes e mentores comunistas:

1. Karl Marx: extermínio de classes sociais inteiras e de uns quantos “povos inferiores” (sic).

2. V. I. Lênin: terrorismo sistemático como fórmula de governo.

3. Leon Trotsky: militarização completa do trabalho industrial e agrícola. Supressão da liberdade de escolher emprego.

4. Stálin: “Morte aos pequenos proprietários rurais. Ódio e desprezo aos que os defendem” (sic).

5. Che Guevara: Treinar os militantes para que se tornem “eficientes e frias máquinas de matar” (sic).

Notem bem: não são crueldades impremeditadas, sobrevindas no calor da batalha. São intenções declaradas.

Como é possível que alguém em seu juízo perfeito considere o comunismo um belo ideal humanitário, que um acaso infeliz desviou de seus altos propósitos?

Foi só por um desejo insano de enganar-se retroativamente a si próprios que muitos comunistas, depois da morte de Stálin, começaram a espremer seus cérebros para explicar como o regime dos seus sonhos pudera “degenerar” em tanta violência e maldade. Não era degenerescência: era a execução racional e bem sucedida de planos traçados com muita antecedência – desde Marx – e levados à prática com a frieza metódica de uma obra de engenharia.

Nossos Governantes

28 de agosto de 2008 | Jornal do Brasil

Desafio o governo Lula e seus sessenta intelectuaizinhos de estimação, os partidos de esquerda, o dr. Baltasar Garzón e todos os camelôs de direitos humanos a provar que qualquer das afirmações seguintes não corresponde aos fatos:

1. Todos os militantes de esquerda mortos pela repressão à guerrilha eram pessoas envolvidas de algum modo na luta armada. Entre as vítimas do terrorismo, ao contrário, houve civis inocentes, que nada tinham a ver com a encrenca.

2. Mesmo depois de subir na vida e tomar o governo, tornando-se poderosos e não raro milionários, os terroristas jamais esboçaram um pedido de perdão aos familiares dessas vítimas, muito menos tentaram lhes dar alguma compensação moral ou material. Nada, absolutamente nada, sugere que algum dia tenham sequer pensado nessas pessoas como seres humanos; no máximo, como detalhes irrisórios da grande epopéia revolucionária. Em contrapartida, querem que a opinião pública se comova até às lágrimas com o mal sobrevindo a eles próprios em retaliação pelos seus crimes, como se a violência sofrida em resposta à violência fosse coisa mais absurda e chocante do que a morte vinda do nada, sem motivo nem razão.

3. Bradam diariamente contra o crime de tortura, como se não soubessem que aprisionar à força um não-combatente e mantê-lo em cárcere privado sob constante ameaça de morte é um ato de tortura, ainda mais grave, pelo terror inesperado com que surpreende a vítima, do que cobrir de pancadas um combatente preso que ao menos sabe por que está apanhando. Contrariando a lógica, o senso comum, os Dez Mandamentos e toda a jurisprudência universal, acham que explodir pessoas a esmo é menos criminoso do que maltratar quem as explodiu.

4. Mesmo sabendo que mataram dezenas de inocentes, jamais se arrependeram de seus crimes. O máximo de nobreza que alcançam é admitir que a época não está propícia para cometê-los de novo – e esperam que esta confissão de oportunismo tático seja aceita como prova de seus sentimentos pacíficos e humanitários.

5. Consideram-se heróis, mas nunca explicaram o que pode haver de especialmente heróico em ocultar uma bomba-relógio sob um banco de aeroporto, em aterrorizar funcionárias de banco esfregando-lhes uma metralhadora na cara, em armar tocaia para matar um homem desarmado diante da mulher e do filho ou em esmigalhar a coronhadas a cabeça de um prisioneiro amarrado – sendo estes somente alguns dos seus feitos presumidamente gloriosos.

6. Dizem que lutavam pela democracia, mas nunca explicaram como poderiam criá-la com a ajuda da ditadura mais sangrenta do continente, nem por que essa ditadura estaria tão ansiosa em dar aos habitantes de uma terra estrangeira a liberdade que ela negava tão completamente aos cidadãos do seu próprio país.

7. Sabem perfeitamente que, para cada um dos seus que morria nas mãos da polícia brasileira, pelo menos trezentos eram mortos no mesmo instante pela ditadura que armava e financiava a sua maldita guerrilha. Mas nunca mostraram uma só gota de sentimento de culpa ante o preço que sua pretensa luta pela liberdade custou aos prisioneiros políticos cubanos.

Desses sete fatos decorrem algumas conclusões incontornáveis. Esses homens têm uma idéia errada, tanto dos seus próprios méritos quanto da insignificância alheia. Acham que surrar assassinos é crime hediondo, mas matar transeuntes é inócuo acidente de percurso (e recusam-se, é claro, a aplicar o mesmo atenuante às mortes de civis em tempo de guerra, se as bombas são americanas). São hipersensíveis às suas próprias dores, mesmo quando desejaram o risco de sofrê-las, e indiferentes à dor de quem jamais a procurou nem mereceu. Procedem, em suma, como se tivessem o monopólio não só da dignidade humana, mas do direito à compaixão. Qualquer tratado de psiquiatria forense lhes mostrará que esse modo de sentir é característico de criminosos sociopatas, ególatras e sem consciência moral. Não tenham ilusões. É esse tipo de gente que governa o Brasil de hoje.

Em 28 de agosto de 2008

A Direita Autocastrada

28 de agosto de 2006 | Diário do Comércio

Quando me perguntam como quebrar a hegemonia esquerdista, a primeira fórmula que me ocorre é a do poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal: “Nada se torna realidade na política de um país se antes não está presente, como espírito, na sua literatura.” A palavra “literatura”, aí, tem a acepção ampla de cultura superior escrita. Criem uma cultura superior na qual predominem os valores liberais e conservadores, e a esquerda não terá mais chance na política. Este resultado não se seguirá automaticamente, é claro, mas sem essa limpeza prévia do terreno mental nenhuma iniciativa política poderá prosperar contra o esquerdismo triunfante e monopolístico.

Entrem numa livraria qualquer e verão nas prateleiras a demonstração clara do que estou dizendo: a ascensão do império petista foi precedida de meio século de ocupação do espaço cultural. Antes de o Estado ser engolido pelo PT, impregnaram-se de esquerdismo militante as idéias, os juízos de valor, as palavras, os sentimentos, até as reações automáticas de aplauso e rejeição. A esquerda dominou de tal modo o imaginário nacional que até quem a detesta não ousa criticá-la senão nos termos dela, como se fosse possível derrotar politicamente o inimigo fortalecendo o controle ideológico que ele exerce sobre a sociedade. Políticos tarimbados como os srs. Marco Maciel, José Sarney ou Cláudio Lembo mimetizam o discurso politicamente correto, esperando atenuar sua imagem de “direitistas” e só conseguindo com isso atrair, junto com o ódio usual, uma boa dose de desprezo.

Essa falsa esperteza, tão miúda e provinciana quanto suicida, é o máximo de inteligência estratégica que um exame histológico atento revelará nos cérebros dos políticos “de direita” neste país. Com a colaboração prestimosa e servil dessas criaturas, os critérios e juízos de valor esquerdistas se impregnaram tão profundamente na mentalidade das classes falantes que já não são reconhecidos como tais: tornaram-se dogmas do senso comum. Nessa atmosfera, não é de estranhar que os eventuais opositores do governo já nem mesmo consigam imaginar o que é uma luta política, mas entendam sob esse termo a mera concorrência eleitoral. Essa é a diferença, no Brasil, entre a esquerda e a “direita”: a primeira quer o poder, a segunda quer apenas mandatos. Mandatos conquistam-se nas eleições; a luta pelo poder abrange um território muito mais amplo. Eleição não é política, é o resultado de uma política preexistente que começa no fundo anônimo e obscuro da sociedade, naquela camada quase invisível onde a hegemonia cultural se traduz como influência sutil exercida sobre as emoções básicas da população.

A esquerda sabe disso, a “direita” não. Os partidos de esquerda marcam sua presença numa variedade impressionante de campos da vida social – escolas, sindicatos, campanhas humanitárias, clínicas de psicoterapia e aconselhamento, telas de cinema, exposições de arte, novelas, programas culturais e educativos da TV, o diabo. A direita só é visível nos comitês eleitorais, às vésperas da votação. Isso é assim já faz muitos anos. Quem quer que tivesse observado esse fenômeno, como eu observei, teria chegado, como cheguei há mais de uma década, à conclusão de que a total esquerdização da vida política nacional era não só previsível como inevitável a prazo mais ou menos curto. Os inumeráveis idiotas – políticos, empresários, intelectuais, oficiais militares – a quem expus essa conclusão em tempo de reverter o processo, e que riram dela do alto de sua ignorância presunçosa, olhavam apenas o panorama eleitoral e, vendo ali a vitória fácil de um Collor, de um Fernando Henrique, proclamavam: a esquerda jamais dominará este país.

Ainda às vésperas das eleições de 2002, algumas dúzias desses sábios, selecionados entre brasileiros e brazilianists , consultados pelo Los Angeles Times , asseguravam que Lula não teria mais de trinta por cento dos votos. Não entendiam que os resultados das eleições anteriores refletiam apenas o conservadorismo residual da população brasileira, o qual, desprovido de canais de expressão cultural e partidária, acabaria por ceder terreno à invasão esquerdista. Tanto mais que esta última tomava o cuidado de não se apresentar ostensivamente como tal, camuflando-se de “populismo” ideologicamente neutro e ludibriando até observadores estrangeiros experientes como Mário Vargas Llosa.

Chamemos de direita, para fins de raciocínio, o conjunto heterogêneo e inorganizado dos que não querem viver sob o socialismo. Eles constituem, segundo uma pesquisa da Folha de S. Paulo , 47 por cento da população brasileira, face a 30 por cento de esquerdistas professos. Os restantes 23 por centro definem-se como centristas, com a ressalva de que aquilo que imaginam como centrismo inclui o apoio ostensivo a propostas conservadoras em matéria de moral e segurança pública. Com ou sem nome, a direita é 70 por cento dos brasileiros. Um programa político ostensivamente conservador teria portanto sucesso eleitoral garantido. Mas, como esse programa não existe — e se tentasse existir teria de vencer em primeiro lugar o desafio de criar uma linguagem própria num panorama semântico já totalmente impregnado de esquerdismo –, o resultado é que a população conservadora acaba votando em candidatos de esquerda nos quais não percebe esquerdismo nenhum mas apenas as qualidades externas mais afins à exigência conservadora, a começar, é claro, pela honestidade e honradez. Mas que honestidade e honradez pode haver em políticos que passam o tempo todo tentando parecer o que não são? E qual político brasileiro, de esquerda ou “direita”, se ocupa hoje de alguma coisa que não seja precisamente isso?

Assim, toda a política brasileira tornou-se um sistema de armadilhas e auto-enganos: o eleitorado vota maciçamente em candidatos que representam o contrário simétrico das suas aspirações, os políticos que poderiam representar essas aspirações recusam-se obstinadamente a fazê-lo e se apegam à busca de uma sobrevivência degradante por meio da parasitagem servil do discurso adversário. É tudo fingimento, hipocrisia, teatro, camuflagem, desconversa. Nenhuma discussão objetiva do que quer que seja é possível nessas condições. Os tais “problemas nacionais” podem esperar sentados: nenhuma discussão política, pelos proximos anos, tocará em nada que tenha algo a ver com a realidade. Nossa única esperança de um despertar coletivo é o programa comunista do Foro de São Paulo alcançar sucesso total e, tranquilizado pela ausência de oposições, arrancar finalmente a máscara e dizer a que veio. Aí a platéia chocada perceberá que, por décadas, viveu entre as névoas de uma fantasia entorpecente. Mas essa tomada de consciência tardia já não servirá para nada, exceto para produzir lágrimas inúteis em torno da vida que poderia ter sido e que não foi.

Entre os homens da “direita”, muitos teimaram em recusar os meus diagnósticos, ao longo dos anos, sob o pretexto de que eu era demasiado pessimista. Nem percebiam o quanto sua resposta provava o que eu dizia. Pessimismo e otimismo são atitudes da mente, são estados subjetivos. Não têm nada a ver com a situação externa, com a realidade das coisas. É possível ser pessimista diante de uma situação objetivamente positiva e otimista quando tudo está perdido. Quando uma descrição do estado de coisas é rejeitada por ser “pessimista”, é claro que o ouvinte está respondendo na clave dos seus estados emocionais e não no da percepção da realidade. Ele não está impugnando um diagnóstico: está reagindo contra os sentimentos desagradáveis que ele lhe infunde. É uma mera reação de autodefesa psicológica, uma autovacina contra a depressão pressentida. Só reage assim quem está fragilizado demais para abstrair-se de estados emocionais e concentrar a atenção na realidade. Os fortes não têm medo de encarar o pior: os fracos fogem dele porque sua mera visão os esmaga. Aquelas afetações de otimismo, fingindo desprezo superior ante as minhas análises deprimentes, não eram senão sintomas de debilidade terminal. A liderança “direitista” já não tinha força nem para admitir sua própria fraqueza.

Um pouco mais adiante, ela agravou mais ainda a sua situação, quando, após a revelação dos crimes do PT, perdeu a oportunidade de denunciar toda a trama comunista do Foro de São Paulo e, por covardia e comodismo, se limitou a críticas moralistas genéricas e sem conteúdo ideológico. Estas podiam facilmente ser apropriadas pela esquerda, e de fato o foram. Rapidamente alguns ratos abandonaram o navio petista e trataram de tirar proveito do naufrágio, sendo ajudados nisso pela recusa obstinada da “direita” de falar de assuntos politicamente incorretos O único resultado objetivo alcançado pelas denúncias de corrupção no governo foi a ascensão da sra. Heloísa Helena nas pesquisas eleitorais. Agradeçam esse resultado à autocastração voluntária da liderança “direitista”.

Em 28 de agosto de 2006

Pt Muda

28 de abril de 2002 | “A imprensa mudou, os partidos mudaram e eu mudei”, diz Lula. Ora, mudar tem época. O homem que era

Leituras

A Vaca Louca Da Historia Nacional

28 de abril de 2001 | O Globo

A mente humana não tem nenhum meio de testar uma hipótese senão concedendo iguais chances de credibilidade à hipótese contrária. Mas às vezes isso não fica bem, e em tais circunstâncias os esgares de indignação no rosto do advogado da primeira hipótese devem ser aceitos como cabal demonstração científica da falsidade da segunda. Ora, ninguém sabe mostrar-se indignado com a veemência, com o pathos de um militante de esquerda, apologista dos crimes de tortura e genocídio cometidos pelo governo de Cuba, quando aponta atrocidades análogas, mas de escala muito menor, praticadas no Brasil. Por isso, denúncias de crimes atribuídos ao regime militar não devem ser averiguadas. Têm de ser aceitas prima facie , alardeadas por todos os meios de comunicação, estampadas nos livros escolares, fixadas em letras eternas na memória nacional antes que algum aventureiro ouse amortecer o fervor da certeza por meio de um gélido ponto de interrogação.

Na verdade, não é só que essas denúncias não devam ser averiguadas. Elas nem mesmo podem sê-lo, na prática, pois, com exceção dos arquivos militares, os depósitos de documentos daquele período estão, em geral, entregues à guarda de militantes de esquerda. Dominando as fontes de informação, a esquerda tem ainda o monopólio dos meios de investigação, instalada como está na chefia dos departamentos de História de todas as universidades públicas, assim como na dos órgãos distribuidores de verbas de pesquisas, às quais se acrescentam os generosos subsídios de empresas e fundações estrangeiras, empenhadas em impor aos países do Terceiro Mundo uma ideologia politicamente correta que inclui, como um de seus itens essenciais, a desmoralização sistemática das Forças Armadas.

Acrescentem a isso o predomínio esquerdista nos meios de comunicação e a completa devoção do MEC a seu papel de preparador ideológico das crianças brasileiras para a luta de classes, e terão uma idéia de quanto a imagem do passado histórico forjada no molde da propaganda ideológica se tornou mais difícil de contestar do que um decreto de César na Roma imperial.

Tão vasto poder de controle sobre a visão do passado é fenômeno inédito nas democracias. Somente os regimes totalitários lograram conquistar tão sólida autoridade monopolística sobre a fabricação do relato histórico, fazendo dele um dos pilares de sua dominação ideológica sobre a vida presente.

Mas, por uma atroz coincidência, foi justamente um grande historiador, Lorde Acton, quem disse que o poder absoluto corrompe absolutamente. Os donos do passado, afeitos às delícias do monólogo incontestado, acabam relaxando as precauções mais elementares e caindo na sua própria armadilha: acabam acreditando tão piamente em si mesmos que já não verificam nem as contradições mais gritantes das histórias que alardeiam.

Um caso recente ilustrará isso da maneira mais escandalosa. João Antônio dos Santos Abi-Eçab e sua esposa Catarina Helena, terroristas oficialmente dados como mortos numa colisão entre o Volks em que viajavam e a traseira de um caminhão perto de Vassouras, RJ, teriam, na verdade, sido presos no bairro do Maracanã e mortos a tiros, sepultados em S. João de Meriti e mais tarde desenterrados, vestidos e colocados no automóvel, por gente do Exército, para simular o acidente rodoviário em 8 de novembro de 1968.

A denúncia é do “Jornal Nacional”. Baseia-se no depoimento do ex-soldado Waldemar Martins de Oliveira, que, segundo declarou ao repórter Caco Barcelos, na época atuava no serviço de informações do Exército na área de Marília, SP, e teria presenciado a execução. Contra essa acusação, divulgada em tom de certeza inabalável, restam os seguintes fatos:

Quanto à testemunha:

1. Waldemar diz que desertou do Exército em 1970, cansado de participar de malvadezas governamentais. Ele mente. A folha de alterações do recruta Waldemar no 27 . Batalhão de Infantaria Pára-quedista, da qual obtive cópia com os oficiais que mantêm o “site” http://www.ternuma.com.br, mostra que ele desapareceu do quartel no começo de setembro de 1968, sendo dado como desertor a partir do dia 11 desse mês e não podendo, portanto, estar a serviço do Exército dois meses depois.

2. Waldemar sentou praça em janeiro de 1968. Ele pretende ter realizado inúmeras “operações secretas” entre esse dia e a morte do casal. Mas qual Exército do mundo designaria para operações de inteligência um recruta que nem terminou o período regulamentar de um ano de treinamento? Simplesmente não havia recrutas, mesmo treinados, na área de Operação de Informações do Exército, que só empregava oficiais e graduados com Curso de Especialização. Para piorar ainda mais as coisas, Waldemar, lotado no então I Exército, não poderia atuar em Marília, SP, que era área do II Exército.

Quanto às vítimas:

1. Abi-Eçab e sua esposa não poderiam ter morrido em 8 de novembro, pois no dia 13 do mesmo mês participaram do assalto ao carro pagador do Ipeg (Instituto de Previdência do Estado da Guanabara), segundo depoimento do líder comunista Jacob Gorender na quinta edição, revista e corrigida, de seu livro de memórias “Combate nas Trevas” (São Paulo, Ática, p. 109), confirmado por Luís Mir em “A Revolução impossível. A esquerda e a luta armada no Brasil” (São Paulo, Best-Seller, 1994, p. 337).

2. Mesmo na hipótese de que tivessem morrido no próprio dia 13, seria impossível prendê-los, matá-los, sepultá-los em S. João de Meriti, desenterrá-los, limpá-los, vesti-los e levá-los para Vassouras para simular o acidente, tudo no mesmo dia.

3. Nas fotos exibidas pelo “Jornal Nacional” havia na estrada nítidas marcas de frenagem do Volks até a um metro de distância do caminhão. Um dos dois falecidos teria ressuscitado para frear o carro? Ou este foi freado por algum poderoso recruta Waldemar que, sentado sobre o cadáver, ainda teve tempo de sair voando pela janela um metro antes de que o veículo se espatifasse de encontro à rabeira do caminhão?

Há muitos outros absurdos no depoimento de Waldemar, que não tenho espaço para expor aqui. Mas um desertor que mente sobre a data de sua deserção, mortos que praticam um assalto cinco dias depois de falecidos, um cadáver que acorda e freia um carro que vai bater já não são loucura bastante? A coisa toda é tão imensuravelmente estúpida que, dez anos atrás, ninguém lhe prestaria atenção, exceto psiquiátrica.

Quem Manda Nesta Coisa

27 de setembro de 2010 | Diário do Comércio

As denúncias que hoje circulam contra o PT, e que tanto enfurecem o sr. Presidente da República, não se comparam, em número e virulência, àquelas que o próprio PT espalhou na mídia e alardeou no Parlamento ao longo de vinte anos, destruindo ou subjugando todas as lideranças políticas que pudessem se opor aos seus intentos. Se hoje um Collor, um Sarney, um Maluf e inumeráveis líderes empresariais beijam a mão do presidente da República (como até o valentão Antônio Carlos Magalhães chegou a beijá-la pouco antes de morrer), é porque o partido dele lhes mostrou quem é o chefe, quem é que manda nesta coisa. E o mostrou a gritos e cusparadas, à força de acusações escabrosas, ameaças terrificantes e escândalos fabricados, tão numerosos e persistentes que os anos 90 ficariam marcados para sempre como a década da bandalheira se depois deles não viessem o Mensalão, os dólares na cuéca, os assassinatos dos prefeitos de Campinas e Santo André, etc. etc., reduzindo toda a corrupção anterior à escala de um roubo de chicletes numa cantina de escola.

Ao queixar-se da mídia, o sr. Presidente se esquece de que foi ela a sua principal aliada não só na destruição maciça de reputações perigosas, mas na construção, simultânea e complementar, da imagem do PT como paladino da justiça, sem o que jamais esse partido poderia ter chegado ao poder em 2002 nas asas da “Campanha pela Ética na Política”, uma apoteose de denuncismo e moralismo hipócrita como raramente se viu no mundo.

Sem a transformação da mídia inteira em instrumento da indústria petista do escândalo, o sr. Presidente não teria chegado a ser o sr. Presidente: teria continuado a ser o derrotado que sempre fôra até o momento em que seu partido, superando a velha repugnância da esquerda pela tradição udenista de combate à corrupção, descobriu o poder criador da difamação e da calúnia.

Longe de tratar o sr. Presidente a chicotadas, como ele se queixa de ter sofrido, a mídia, que o criou, sempre procurou poupá-lo e afagá-lo. Vocês já se esqueceram do petismo desbragado da Globo, a mais poderosa rede de TV do país, onde até uns poucos anos atrás não se podia falar do “presidente operário” sem voz embargada e lágrimas mal contidas de comoção cívica?

Naquela época, o sr. Lula não falava de “mídia golpista” nem se queixava de que “oito famílias” monopolizavam a imprensa deste país. Ele deixava isso para os “radicais”, para os jovens enragés que rosnavam no fundo do porão da esquerda, enquanto ele, apadrinhado e beneficiário número um do monopólio, brilhava no palco com sua nova identidade tranqüilizante de “Lulinha Paz e Amor”, pronto a imitar mais tarde o discurso dos enfezados, quando o fim do seu segundo mandato lhe trouxesse a certeza de não precisar mais da ajuda de seus protetores de ontem.

Em setembro de 2004 escrevi: “No tempo de Collor, a conversa vagamente suspeita entreouvida por um motorista indiscreto desencadeou a mais vasta investigação que já se fez contra um presidente. Hoje em dia, seis testemunhas mortas no caso Celso Daniel não abalam em nada a reputação de governantes ungidos pelo dom da inatacabilidade intrínseca.”

Referindo-me às CPIs de 1993, quando os srs. Dirceu e Mercadante berravam acusações do alto das tribunas como se fossem reencarnações de Marat e Robespierre, prosseguia: “É impossível não perceber, hoje, que tudo isso foi apenas um pretexto para aplanar a estrada para o PT, colocá-lo no poder e nunca mais fazer perguntas, aceitando dos novos patrões, com docilidade incuriosa e muda, condutas muito mais suspeitas e extravagantes que as de todos os seus antecessores.”

Assim foi em todos os escândalos do governo Lula. Por mais que se revelassem os crimes dos aliados e colaboradores mais próximos do sr. Presidente, o cuidado obsessivo da mídia era um só: preservar a pessoa dele, aceitar como cláusula pétrea do jornalismo nacional a hipótese louca de que ele nunca, nunca sabia de nada.

É esse o homem que hoje, diante de acusações mais que justas – e dirigidas nem mesmo a ele, mas à sua candidata –, choraminga, num show abjeto de autopiedade histérica, que levou mais chibatadas que Jesus Cristo e, ao mesmo tempo que clama pelo controle estatal da mídia, diz que o exercício do mero direito de cobrar explicações do seu seu partido é “uma ameaça à liberdade de imprensa”.

Vejam a enxurrada de livros investigativos que espalharam acusações temíveis contra Fernando Collor, contra os militares, contra o Congresso, contra as empreiteiras, e comparem-na ao destino do livro que ousou provar a responsabilidade do sr. Presidente no caso do Mensalão: “O Chefe”, de Ivo Patarra, não encontrou um só editor com coragem para publicá-lo. Circula pela internet, como um sussurro proibido.

Liberto de adversários substantivos e elevado ao posto supremo da nação pelos bons serviços da mídia, esse homem se acostumou de tal modo à subserviência da classe jornalística que já não suporta da parte dela a menor desobediência, o menor deslize. E de nada adianta apelar à “opinião pública”. Ele, e só ele, é a opinião pública.

Em Tempo

27 de outubro de 2005 | Jornal do Brasil,

No artigo da semana passada, critiquei o manifesto dos clubes militares por ater-se à denúncia dos delitos mais vistosos e de menor gravidade, omitindo o crime de alta traição que o presidente da República confessou no seu discurso de 2 de julho (v.

http://www.olavodecarvalho.org /semana/050926dc.htm ).

Isso não quer dizer, é claro, que eu discorde do documento nos demais aspectos. Ao contrário: tudo o que está dito ali é certo e merece apoio. Parece-me apenas que, se o partido governante e a esquerda como um todo têm o direito ao exercício da guerra ideológica, igual direito devem ter os brasileiros em geral, militares ou civis, em vez de acomodar-se à camisa-de-força do legalismo ideologicamente “neutro” que lhes restou depois de três décadas de “revolução cultural” gramsciana.

O que nos levou à situação presente foi a conivência de todos com a ditadura mental imposta à mídia e ao sistema educacional pelo ativismo comunista discreto ou ostensivo. Todo anticomunismo foi banido desses canais desde há mais de trinta anos, enquanto a louvação descarada de assassinos e terroristas de esquerda foi ganhando espaço até tornar-se parte essencial e obrigatória da cultura elegante.

O PT não é criminoso só porque rouba. É criminoso porque é comunista, porque conspira com ditadores e narcotraficantes para espalhar o regime chavista-fidelista por toda a América Latina e para transformar o continente inteiro numa arma de guerra a serviço do que existe de pior no mundo.

Se até oficiais das Forças Armadas se sentem inibidos de denunciar isso, é porque a cultura esquerdista dominante obteve sucesso em moldar a consciência de seus inimigos, limitando seu discurso a pontos insuscetíveis de controvérsia ideológica. A corrupção pandêmica que o PT espalhou no país foi o resultado do excesso de poder advindo da hegemonia cultural. O próprio José Dirceu não teria podido transformar-se no invencível capomafioso do petismo se não fosse, acima de tudo, um agente do serviço secreto cubano e o oficial de ligação entre Lula e Fidel Castro. Podar as ervas daninhas sem arrancar suas raízes ideológicas e estratégicas é dar ao povo a ilusão de que existe comunismo honesto, é convidar o Brasil a cair de novo no mesmo engodo.

Quando se quer difamar alguém ante uma platéia intelectualmente fraca, páginas e páginas de acusações não funcionam tão bem quanto uma insinuação breve, de sentido vago e incerto, disparada no ar sem nenhuma explicação. Sempre haverá no auditório idiotas que, na ânsia de fingir que sabem do que o orador está falando, a preencherão imediatamente com algum significado arbitrário e sairão alardeando que se trata de informação segura e arqui-comprovada. Cada novo receptor da mensagem, não desejando confessar que está por fora de tão importante matéria, lhe acrescentará de bom grado seu próprio aval, de modo que o acúmulo de credulidades beócias transformará em moeda corrente aquilo que, na origem, era apenas um malicioso nada.

O comentarista econômico Luís Nassif acaba de usar contra mim esse artifício publicitário superlativamente porcino, rotulando de “fixação”, tout court , a minha insistência em divulgar certos fatos que a classe jornalística omite com insistência maior ainda. Ele não fez isso, é claro, por hostilidade à minha pessoa, mas só pelo desejo de mostrar serviço a quem pode lhe prestar serviço em troca. Ele não quis me esculhambar: quis apenas me usar de papel higiênico para poder exibir à sua clientela uma bundinha intelectual limpinha. Curiosamente, ele diz que “esperto” não é ele: são aqueles que me acompanham na luta inglória, trabalhando de graça para jornaizinhos eletrônicos ou escrevendo artigos de duzentos reais para a Folha de S. Paulo , só para vê-los diluídos num oceano de bem remunerada propaganda esquerdista. Mais estranhamente ainda, ele os chama também de “incultos”, mas se esquiva de citar o nome de um só deles, evitando assim um confronto de habilitações intelectuais que lhe seria fatalmente desastroso.

Em 27 de outubro de 2005

Consolo Geral

27 de novembro de 2005 | Zero Hora,

O Prêmio Imbecil Coletivo, que instituí em 1995 e distribuí generosamente a escritores, professores, artistas e jornalistas brasileiros até 2001, foi suspenso no ano seguinte por excesso de concorrentes. Para fazer justiça seria preciso atribuí-lo ao conjunto dos intelectuais públicos deste país, o que só pode ser feito em intenção e não de corpo presente. O cobiçado galardão tornou-se então uma entidade metafísica, um a priori kantiano que precede a manifestação material das opiniões e já vem anexado à simples intenção de dizer o que quer que seja, mesmo quando não se chegue a dizer coisa alguma.

A comissão julgadora, constituída da minha pessoa, deu-se por derrotada ante a avalanche de panegíricos ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Proclamando a identidade absoluta de estupidez pessoal e sabedoria infusa, esses borbulhos de entusiasmo eleitoral transcendiam infinitamente o fenômeno descrito no meu livro, que pressupunha ao menos uma certa precaução de salvar as aparências. A partir do momento em que a ojeriza ao conhecimento foi assumida abertamente, o Imbecil Coletivo passou da potência ao ato e tornou-se o estado natural de toda a classe falante, não tendo mais motivo para ser premiado.

Contribuiu também para a minha decisão o desencanto, a mágoa profunda que se apossou da minha alma diante de tantas insinuações pérfidas de que eu havia recebido propinas do dr. Emir Sader para premiá-lo todos os anos. O próprio dr. Sader piorou formidavelmente a situação quando escreveu que eu não existia, o que foi interpretado pelos maliciosos como tentativa desesperada de camuflar o suborno negando a materialidade física do subornado.

Essas coisas acabam com o ânimo da gente. Um dia acordei com a pá virada e dei um fim no raio do Prêmio.

No entanto, nem tudo está perdido.

Extinto o certame, o vácuo na alma dos saudosos pode agora ser preenchido vantajosamente por um desses diplomas dos cursos especiais que a Universidade de São Paulo planeja dar aos membros do MST. A posse de um desses objetos tubulares, não totalmente desprovidos de sex appeal para senhoras carentes e gays solitários, dará ao seu portador, mesmo imune a esses encantos suplementares, as honras do título superior sem necessidade de exame escrito, tendo em vista o reconhecimento, por parte daquela instituição de ensino, do direito de todos ao analfabetismo doutoral, até aqui só reservado a uns poucos privilegiados como o sr. presidente da República e o seu ministro da – como era mesmo o nome daquilo? – Cultura.

É o equivalente perfeito do Prêmio, com a vantagem adicional de não ser conferido desde fora, por um palpiteiro leigo como eu, mas desde a origem, desde a raiz, desde a fonte e centro produtor do fenômeno em si, do qual o meu livro não deu senão uma imagem apagada, distante e evanescente como as sombras na caverna de Platão. Fora, névoas da imitação barata! Do fundo das brumas da ilusão já se ergue o Sol da estupidez genuína, que por fim vai brilhar para todos.

Alegrai-vos, pois, candidatos a intelectuais ativistas do Terceiro Mundo! Nada tendes a perder exceto a vergonha na cara, propriedade privada que, segundo o ideal socialista, já abolistes em pensamento há muito tempo.

Em 27 de novembro de 2005

Direto Da Sarjeta

27 de março de 2008 | Jornal do Brasil

Ao longo de mais de 20 anos a esquerda monopolizou tão eficazmente o espaço político brasileiro que, para não dar na vista, teve de nomear para o papel de direita ad hoc uma de suas próprias subdivisões internas, o PSDB, no instante mesmo em que Fernando Henrique Cardoso e Cristovam Buarque, então os mais destacados mentores intelectuais desse partido e do PT respectivamente, reconheciam não haver entre as duas agremiações nenhuma diferença ideológica ou estratégica substantiva, apenas disputa de cargos.

Se na eleição de 2006 o sr. Geraldo Alkmin colaborou com a farsa, prestando-se ao papel de concorrente inofensivo e recusando-se a incomodar o adversário com perguntas sobre suas ligações com gangues de narcotraficantes e seqüestradores, na de 2002 não houve nem isso, apenas um torneio de saudosismo esquerdista, em família, entre quatro patetas que não podiam falar nas guerrilhas dos anos 60 sem lágrimas nos olhos.

No domínio da cultura, então, a hegemonia esquerdista chegou a excluir totalmente, dos currículos universitários, das estantes de livrarias e dos suplementos culturais, qualquer menção a autores que não portassem o nihil obstat dos comitês centrais. Duas gerações de estudantes brasileiros foram submetidos a um regime de privação intelectual quase carcerária, baixando o padrão geral de exigência até àquele nível de miséria extrema em que tipos como Emir Sader e Quartim de Moraes podiam ser impostos como modelos supremos de intelectuais sérios sem que ninguém enxergasse nisso nada de doente.

Essa situação, que se prolongou por tempo suficiente para que o público se tornasse insensível à sua anormalidade, não teria como deixar de refletir-se no jornalismo. Por volta de 1995 já não havia nas redações um só direitista assumido, conservador. No máximo um ou dois “liberais” que recusavam com horror a classificação de “direitistas”.

Nesse ambiente, minha presença era tão singular e extravagante, que alguns leitores chegavam a negar minha existência, tomando-me pelo banqueiro Olavo Monteiro de Carvalho ou por pseudônimo de um milionário carioca, de vez que, na fantasia reinante, ninguém desprovido de um banco próprio ou de uma conta na Suíça poderia ser tão hostil aos belos ideais do socialismo.

Nos últimos anos, a situação mudou um pouquinho. Um pouquinho, quase um nada. Umas quantas opiniões que antes eram só minhas passaram a ser defendidas também por Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e aproximadamente uma dúzia de blogs e jornais eletrônicos.

O aparecimento dessa leve irregularidade numa superfície que se desejaria uniformemente lisa e sem mácula foi o bastante para que um estado de alarma e de indignação heróica se espraiasse entre os defensores do pluralismo e da tolerância democrática.

Um desses baluartes da liberdade de opinião, o sr. Fernando Barros e Silva, escrevendo na Folha de S. Paulo, assegura que nós, os intrusos, somos despudoradamente interbajuladores, defensores de nossos privilégios, praticantes do compadrio, boçais, cínicos, exibidores de falsa cultura, desprezadores do Brasil, preconceituosos, racistas, antinordestinos e misóginos. Tudo isso num artigo que não chega a vinte linhas, no remate das quais ele ainda encontra espaço para acrescentar que o nosso método – sim, o nosso, não o dele – consiste na truculência verbal, no lixo retórico e, last not least, na “cultura da sarjeta” (sic).

Lendo isso, sinto-me tão culpado, tão envergonhado da minha baixeza inominável, que nem encontro palavras para responder ao sr. Barros. Recorro, pois, às de um meu companheiro de “cultura da sarjeta”: Fernando Pessoa. Num poemeto delicadamente intitulado “Ora, porra!”, ele assim se referiu aos Barros e Silva da sua época e nação:

"Então a imprensa portuguesa é que é a imprensa portuguesa?

Então é esta merda que temos que beber com os olhos?

Dialetica Formidavel

27 de março de 2004 | O Globo

No site www.ternuma.com.br , o leitor encontrará uma lista de 120 brasileiros mortos pelos terroristas nos anos 60-70. As vítimas não identificadas somam por volta de oitenta. O terrorismo de esquerda não matou menos de duzentas pessoas neste país.

Ao contrário dos terroristas mortos e vivos, essas pessoas não são homenageadas nos livros de História, não são pranteadas em reportagens de TV, não são sequer lembradas. Seus familiares não mereceram indenizações, não mereceram sequer um pedido de desculpas dos assassinos remanescentes que, hoje, brilham em altos postos do governo e repartem com seus cúmplices, num festival de interbajulação mafiosa, o dinheiro público transformado em prêmio do crime.

Cada um desses criminosos foi armado, adestrado, protegido e subsidiado pelo governo cubano, servindo-o devotadamente como agente informal ou funcionário do serviço secreto. Até hoje alegam, para quem deseje acreditar, que, se ajudaram a consolidar um regime que havia encarcerado 100 mil pessoas e fuzilado 17 mil, foi por amor à democracia e à liberdade. Se aderiram ao frio maquiavelismo da estratégia comunista, foi por amor cristão e sentimentalidade romântica.

Quem note aí alguma falta de lógica ainda não viu nada. Nas escolas, nossas crianças estão sendo adestradas para acreditar que a intervenção armada de Cuba no Brasil, tendo começado em 1961, foi uma justa reação aos acontecimentos de março de 1964.

Para os adultos há uma lição parecida. A historiografia superior, após ter registrado que nesse mês de março de 1964 Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do PCB, proclamava com feroz alegria: “Estamos no poder!”, ensina que a iminência da tomada do Estado pelos comunistas foi uma invenção retroativa da “direita” para justificar o golpe que eclodiu logo depois.

Mais coerente ainda que a história oficial, porém, é a Presidência da República, quando expressa horror ante os atentados da Espanha ao mesmo tempo que remunera com dinheiro, festinhas e cargos públicos os atos similares praticados em terra brasilis . No entender dos nossos governantes, bomba na estação ferroviária de Madri é crime hediondo; no aeroporto de Guararapes é obra de caridade. Os pedaços das vítimas, colados às paredes, não atinaram até hoje com essa sutil distinção. Não creio que tivessem a finura dialética para compreendê-la.

“Dialética”, aliás, é aqui a palavra-chave. Se o leitor se espanta com esses aparentes contra-sensos, mostra apenas sua falta de prática dialética. Para o militante esquerdista, ter duas línguas, das quais uma diz “sim” enquanto a outra diz “não”, é mais que um direito: é obrigação. Hegel, pai espiritual do marxismo, ensina que todo conceito traz dentro de si o seu contrário, o qual, do choque com o primeiro, gera um terceiro que, sem ser um nem o outro, e aliás nem ambos ao mesmo tempo, é a sua “superação dialética”, um treco infinitamente melhor. Por exemplo, quando Jesus fundou a Igreja Católica, el a trazia no ventre seu adversário Lutero, o qual veio a nascer após uma breve gestação de quinze séculos. Do conflito emergiu então Georg W. F. Hegel em pessoa, o qual, sem ser Lutero nem Jesus e nem mesmo a soma dos dois, era um sujeito ainda mais importante porque os “superava dialeticamente”. É claro que Hegel usa desse esquema com muita argúcia e delicadeza, camuflando a enormidade do que está dizendo. Mas, quando passa pelas simplificações requeridas para se adaptar ao QI dos militantes, a dialética de Hegel volta a mostrar aquilo que era no fundo: a arte de proferir enormidades com uma expressão de fulgurante inteligência. Daí derivam algumas artes secundárias: a de cometer crimes para fomentar a justiça, a de construir prisões e campos de concentração para instaurar a liberdade, a de condenar o terrorismo dando-lhe prêmios etc. etc. Só um profano vê aí contradições insanáveis. Para o dialético, tudo se converte no seu contrário e, quando isso acontece, fica provado que o contrário era a mesma coisa. Quando não acontece, ele faz uma forcinha para que aconteça, e em seguida arranja uma explicação dialética absolutamente formidável.

Em 27 de março de 2004

Etica De Ladroes

27 de março de 2003 | Jornal da Tarde

Roubo é subtração não consentida da propriedade alheia. Essa definição, universalmente aceita, subentende que a propriedade obtida por meio de compra, herança, doação ou achado sem dono é legítima em si. Existiu propriedade muito antes de que existisse Estado, e quando este surgiu foi como garantidor da propriedade, no sentido preexistente. Nenhuma sociedade humana, antes do socialismo, desconheceu ou impugnou a propriedade assim compreendida. Tão universal é o seu reconhecimento, que não é exagero supor que constitua um instinto humano fundamental.

A ética socialista pretende que, ao contrário, a propriedade só é legítima como concessão do Estado, o que significa que é ilegítima em si e só se torna legítima per accidens . Tomá-la sem consentimento, portanto, não é ilegítimo em si e só se torna ilegítimo per accidens quando o Estado não legitima sua transferência do espoliado para o espoliador.

A conclusão é inescapável: o socialismo é, em essência, uma ética de ladrões.

Mas, para os socialistas, os proprietários é que eram todos ladrões antes do Estado socialista. Dito de outro modo, a estrutura humana que fundamenta o direito de propriedade é essencialmente má e corrupta, devendo ser substituída por uma nova estrutura que só o Estado socialista pode criar.

Essa nova estrutura pressupõe a supressão de todas as propriedades preexistentes e sua redistribuição pelo Estado socialista. O que era propriedade torna-se roubo, o que era roubo torna-se propriedade.

Mas em que consistia, substancialmente, o crime dos proprietários? Seu crime era o de usurpar as prerrogativas de um Estado que ainda não existia: eram culpados de não ter inventado as doutrinas socialistas.

Assim, aqueles que do ponto de vista da estrutura humana eram apologistas do roubo puro e simples se tornam, do ponto de vista deles próprios, os primeiros exemplares honestos da espécie humana, os inauguradores da primeira e única sociedade justa.

Tão rebuscado e artificioso é esse raciocínio, que aqueles que o adotam acabam por se enroscar em contradições sem fim – e não me refiro somente a contradições lógicas, e sim existenciais: contradições que não invalidam só o pensamento, mas levam a ação a um curto-circuito que a neutraliza e esteriliza por completo, quando não faz dela uma geradora de desgraças.

Exemplo disso é a dupla atitude do governo Lula no concernente aos direitos de propriedade: por um lado, quer dar escritura definitiva aos ocupantes de terrenos nos morros cariocas; de outro, quer liberar as invasões de terras no campo.

Legalizar posses antigas e, de modo mais geral, racionalizar o sistema de propriedade formal vigente num país é medida saneadora que merece aplausos.

Terrenos possuídos de maneira ilegal ou semilegal não podem ser convertidos em capital: são riqueza morta. Um estudo feito em vários países subdesenvolvidos pelo economista peruano Hernando de Soto demonstrou que, somadas todas as propriedades imobiliárias dos pobres, elas superam em muito o total de bens das classes ricas. Teoricamente, os pobres têm portanto tudo para ficar ricos. A diferença é que os bens dos ricos têm registro legal e os deles são mera posse, de valor legal duvidoso. Nos EUA, qualquer pobretão que quer abrir um negócio começa por hipotecar sua casinha. No Brasil, na Bolívia ou no Egito, ninguém pode fazer isso, porque o sistema de propriedade formal é caótico e barreiras burocráticas intransponíveis mantêm quase toda a riqueza dos pobres num estado permanente de ilegalidade ou semilegalidade. Conclusão: eles não podem gerar capital. Estão condenados à pobreza.

A idéia do governo, de legalizar os terrenos das favelas, faria imediatamente, de milhares de favelados, pequenos empresários em potencial.

Paulada Na Consciencia Ou A Direita Da Esquerda

27 de maio de 2000 | Época, 27 de maio de 2000

Poucos dias após declarar que as violências do MST não eram um caso de polícia, o governador Mário Covas vê-se agora na obrigação de admitir que uma paulada na sua cabeça também não é. Qualquer cidadão que leve um pontapé no traseiro reage pedindo um inquérito policial. O governador, ferido no seu órgão pensante, está comprometido por suas próprias palavras a não fazer nada de mais drástico contra o agressor do que liberar para ele uma verba do Estado.

O episódio reflete, desde logo, a confusão de um país onde todos os conceitos da ciência ética foram embaralhados para servir ao denuncismo oportunista e não podem mais atender à sua finalidade originária de iluminar os julgamentos humanos. Quando um governador já não pode sem contradição lógica declarar que é crime as pessoas lhe darem pauladas, o país pode não estar à beira da convulsão social, mas está, certamente, à beira da completa estupidez moral. Se continuarmos assim, em breve o título do livro satírico de Malcom Bradbury, Eating People Is Wrong, começará a nos parecer a audaz afirmação peremptória de um juízo duvidoso.

Porém a paulada – bem como o ovo ministerial que se lhe seguiu – revela ainda um outro aspecto, mais secreto, da vida nacional. A geração de Covas e Serra subiu ao poder precisamente porque era a encarnação histórica da esquerda que voltava ao cenário após uma década de exílio. Poucos anos depois, ela representa publicamente a “direita” e desempenha com certa naturalidade o papel que a lógica imperante reserva aos direitistas, que é o de dar a cara a tapa.

Diante de fenômeno tão espantoso, a imprensa reage com as generalidades de praxe sobre violência e democracia, sem se dar a mínima conta de que ovadas e pauladas – para não falar de coisas piores – são a quota que a História tradicionalmente reserva àqueles que, na tragicomédia das revoluções, consentem em fazer o papel de direita da esquerda. O próprio nome que os designa – socialdemocratas – assinala a natureza intermediária da função que desempenham: levados ao poder a título provisório, devem aplanar o caminho para a revolução e depois desaparecer para sempre. Acontece que enquanto isso eles têm de governar, e acabam adquirindo, aos olhos da “esquerda autêntica”, as feições de seus antecessores direitistas. Mas estes desapareceram da cena e só sobrevivem como imagens de um passado extinto, derrotado, morto. Em vida, eram temidos. Mortos, tornaram-se Judas em sábado de Aleluia e, no semblante de quem quer que os encarne agora, a imagem do odioso aparece tingida de fraqueza. Daí o fenômeno, sempre repetido, de que a esquerda revolucionária tenha mais ódio a seus parceiros socialdemocratas do que aos direitistas que sua aliança combateu um dia. Diante da verdadeira direita, era impossível evitar o medo, e o medo é uma forma de respeito. Agora o ódio pode aparecer sem mescla: a falsa direita está aí para ser chutada, cuspida, achincalhada. Seus agressores sabem que a dominam psicologicamente. Sabem que o máximo que ela vai fazer é passar a mão na cabeça dolorida e conjeturar tristemente se uma paulada, assim como uma invasão de banco, não seria uma forma normal de expressão democrática.

24/05/00 Em 27 de maio de 2000

Dois Escandalos

27 de maio de 1999 | Jornal da Tarde

Um presidente norte-americano, que havia escapado incólume a cabeludas acusações de corrupção, acabou perdendo o mandato porque mandou grampear o telefone dos adversários. No Brasil, grampeiam-se telefones de deputados, de ministros e agora do presidente da República – e só o que repercute na imprensa é o conteúdo das conversações gravadas, sem que ninguém se mostre nem um pouco escandalizado com o fato mesmo da espionagem política, cuja prática assim vai se tornando hábito e direito adquirido.

Mas, mesmo que as conversações de agora trouxessem uma prova inequívoca de corrupção – o que não é o caso absolutamente –, restaria perguntar: por que as verbas públicas deveriam ser tão sacrossantas e intocáveis, se a própria autoridade do Estado não vale nada e pode ser violada impunemente por qualquer araponga travestido de guardião da moral?

Todos sabemos que a oposição de esquerda tem seu próprio serviço secreto, que, graças à estratégia gramsciana da “longa marcha da esquerda para dentro do aparelho de Estado”, nenhum cidadão e nenhum homem público está hoje a salvo dos olhos e ouvidos onipresentes da hedionda KGB tupiniquim. Onipresentes e onipotentes: seus agentes e colaboradores, infiltrados em todos os escalões da administração, vasculham os papéis e a vida privada de quem bem entendem, copiam documentos, violam segredos bancários e gravam telefonemas à vontade, sem que ninguém dê o menor sinal de perceber que isso já é um Estado policial paralelo instalado no País, aguardando apenas a posse de um candidato de esquerda na Presidência da República para oficializar o reinado do Big Brother que tudo sabe, tudo ouve e tudo vê.

É óbvio que, ao dizer isso, serei fatalmente mal interpretado e dirão que estou apenas defendendo FHC. Não haveria mal algum em defender o presidente, mas, com toda a sinceridade, digo que a sorte de nenhum político individual me comove o bastante para vencer minha preguiça de escrever em sua defesa. O que estou defendendo é um princípio – o famoso Estado de Direito do qual os hipócritas da KGB falam sempre de boca cheia, quando lhes interessa. Mas a moralidade pública deste país foi tão aviltada, tão prostituída por seus defensores oportunistas, que hoje em dia qualquer defesa de um princípio é interpretada, maliciosamente, como defesa de um interesse político determinado. Estou pouco me lixando para as interpretações suínas. O que tenho a dizer é que, se a espionagem política não for punida severamente, vai se consolidar como um hábito culturalmente aceito, uma vitória esplêndida da “revolução cultural” gramsciana, e aí será tarde para defender a democracia, porque já estaremos vivendo sob uma ditadura.

E a reação da opinião pública, irada contra as vagas suspeitas de favorecimento ilícito e indiferente à exibição confessa de espionagem, mostra que a perversão do senso moral já não afeta só os políticos, mas a Nação inteira. O povo que respeita antes o dinheiro público do que a autoridade do Estado e o direito à privacidade é um povo rebaixado ao nível mais ínfimo da moralidade – a moralidade de bandidos para os quais o dinheiro é o único valor. Que essa completa inversão do senso moral tenha se operado em nome da ética, é algo que não posso ver sem sentir ânsia de vômito.

Os policiais do pensamento, que vivem à cata de nazistas embaixo das camas, não vêem nada de mau num pouquinho de nazismo quando ele se volta contra seus tradicionais desafetos, os militares brasileiros. O filme de Sílvio Back, Rádio Auriverde , que mostra a atuação da FEB na 2.a Guerra Mundial desde o ponto de vista da propaganda alemã, desce ao mais sórdido esculacho das nossas forças militares, sempre assumindo a opinião do governo nazista como verdade inquestionável. O texto do documentário é extraído das emissões radiofônicas de guerra psicológica nazista destinadas a corroer o moral de nossas tropas na Itália, e é usado por Sílvio Back com o mal disfarçado propósito de minar o respeito que a Nação brasileira sente pelos heróis da FEB.

O filme é ruim que dói, mas, além de produzido com dinheiro do Banco do Brasil, já foi exibido várias vezes em tevês estatais, sem que nenhum intelectual de esquerda denunciasse o nazismo ostensivo do seu conteúdo. Afinal, do ponto de vista da estratégia comunista, há nazismo ruim e nazismo bom.

Em 27 de maio de 1999

E Proibido Parar De Mentir

27 de junho de 2008 | Diário do Comércio

Seja em ciência política, seja no mero comentário jornalístico, a análise de um candidato a qualquer cargo eletivo, para ter o mínimo de confiabilidade, tem de abranger os seguintes aspectos e suas interrelações:

1. Sua imagem publicitária, o “personagem” criado pela sua campanha, o qual pode coincidir em mais ou em menos com a sua personalidade real.

2. Seu programa de governo ou plano de ação, considerado na sua pura lógica interna.

3. A comparação entre esse plano e a situação externa objetiva que ele promete alterar ou corrigir.

4. As correntes de pensamento atuais ou pretéritas que, de maneira mais próxima ou mais remota, se refletem nesse plano.

5. Os grupos políticos, econômicos e culturais que apóiam o candidato de maneira ostensiva ou discreta.

6. A posição real do candidato ante esses grupos, seja como seu líder efetivo, como seu parceiro permanente ou temporário ou como seu agente e serviçal.

7. As alternativas reais ou possíveis contra as quais sua candidatura se opõe de maneira explícita ou velada.

Só quando esses sete fatores estão esclarecidos você pode ter uma certeza razoável de que conhece o candidato e sabe a que ele veio. É essa a condição sine qua non do alardeado “voto consciente”. E não é preciso dizer que essa condição depende, fundamentalmente, dos “formadores de opinião” – dos intelectuais públicos e da mídia.

Pois bem: em duas eleições sucessivas o brasileiro votou em Lula sem ter a menor idéia de que ele era o fundador e presidente da maior organização revolucionária que já existiu na América Latina. Faltaram por completo, na imagem pública do candidato, os itens 5, 6 e 7 da lista. Essas informações foram propositadamente, sistematicamente sonegadas ao eleitor pela propaganda partidária e por toda a “grande mídia”, com a cumplicidade passiva da pretensa Justiça Eleitoral.

Essas duas eleições foram ilegais no mais estrito sentido da palavra. Não atenderam às condições mínimas de informação fidedigna que o público precisa para escolher uma marca de automóvel, uma geladeira ou um remédio para hemorróidas. Todos os proprietários de jornais, revistas e canais de TV sabiam disso perfeitamente. A Justiça Eleitoral sabia disso. As Forças Armadas sabiam disso. A cumplicidade geral deu ao crime ares de legitimidade, marcando a ruptura definitiva entre o debate público e a realidade da vida nacional e gerando a atmosfera de alienação e loucura da qual a corrupção e a violência, em doses jamais vistas no mundo, são apenas o sintoma mais visível e escandaloso.

Jamais, na história de qualquer nação, a elite falante, por amor e temor a um grupo político ambicioso e cínico, traiu e ludibriou tão completamente um povo.

Não é de estranhar que, decorridos alguns anos, o hábito da trapaça consciente e fria tenha se impregnado tão profundamente na moral dessa elite que até mesmo ao falar de outros países ela tenha de mentir compulsivamente – e mentir no preciso sentido que interessa ao grupo dominante. Só para dar um exemplo, a cobertura jornalística da candidatura Barack Obama na mídia brasileira limita-se estritamente a vender ao público a sua imagem publicitária — item 1 da nossa lista –, sem chegar a tocar nem mesmo no seu programa de governo. Ela mente em favor de Obama ainda mais espetacularmente do que mentiu em favor de Lula. Nenhum jornal ou canal de TV brasileiro jamais informou que Obama é um apóstolo da “Media Reform” calculada para eliminar a liberdade de opinião no rádio, um defensor ardente da proibição total de armas de fogo pela população civil (na mesma linha que Hitler adotou na Alemanha), um partidário fervoroso do imediato desmantelamento das defesas americanas anti-míssil (portanto da rendição incondicional ante qualquer poder nuclear estrangeiro). Ninguém jamais informou que ele votou contra a proibição de matar bebês que sobrevivam ao aborto e que ele é um discípulo da “teologia da libertação” na sua versão mais radical e extremada. Ninguém informou que os grupos que o apóiam são círculos bilionários globalistas aos quais ele serve como agente para a destruição da soberania americana e a imediata implantação de um governo mundial pelos meios mais antidemocráticos que se pode imaginar. E ninguém informou que sua maior vantagem ante o concorrente republicano reside precisamente na superioridade dos seus fundos de campanha (400 milhões de dólares contra 85), o que já basta para mostrar que Obama não é de maneira alguma o candidato dos pobres e oprimidos.

O Alquimista

27 de junho de 2007 | Diário do Comércio

O mesmo governo que continua paparicando as Farc enquanto elas ensinam o Comando Vermelho e o PCC a matar cinqüenta mil brasileiros por ano está ocupadíssimo em proteger gays e lésbicas contra o risco temível de ser atingidos, em plena via pública, por versículos da Bíblia.

O mesmo governo que promove o ensino do homossexualismo nas escolas infantis quer defender as almas puras das crianças contra a imoralidade dos programas de TV.

O mesmo governo que com lágrimas nos olhos denuncia mais de um milhão de mortes de mulheres em abortos ilegais informa-nos agora que o número total de abortos ilegais é mais ou menos esse – o que não deixaria muitas mulheres para contar a história.

Esse governo ficou louco ou quer apenas nos enlouquecer a nós?

Aposto, decididamente, nas duas hipóteses. Ele quer nos enlouquecer porque é louco — mas não é louco do tipo que quer que nós nos tornemos. Ele quer infundir em nós a loucura da estupidez, da completa desorientação no espaço e no tempo. Para si ele conserva a loucura da ambição ilimitada, o sonho infame de tornar-se o “poder invisível e onipresente” de que falava Antonio Gramsci, o manipulador supremo de tudo e de todos, o autor secreto do curso da História. Ele quer para nós a loucura que debilita e paralisa, a loucura da impotência. Para ele próprio, a loucura do poder absoluto.

Ninguém jamais compreenderá o governo Lula se não levar em conta a sua dupla agenda, decorrente da sua condição mesma, mil vezes proclamada ante ouvidos moucos, de governo de transição para o socialismo.

Um governo normal joga segundo uma regra preexistente: ele tem metas econômicas, administrativas e sociais declaradas, as quais têm de se transformar em resultados e tornar-se visíveis para ser julgadas, na próxima eleição, pelo mesmo público que aprovou o plano inicial.

Um governo revolucionário joga segundo uma regra futura que só ele conhece. Ele não tem de ser aprovado senão por si mesmo, porque sua finalidade única é justamente impor a nova regra, à qual o público tem adaptar-se sem julgá-la, sem nem mesmo pedir explicações.

Um governo de transição é uma criatura bicéfala que tem de jogar ao mesmo tempo segundo as duas regras, operando a transmutação alquímica que mudará a primeira de realidade vigente em mera aparência, a segunda de vaga hipótese em dura realidade.

Lula é ao mesmo tempo o presidente regularmente eleito para consolidar a democracia e o agente do Foro de São Paulo incumbido de tranformá-la no seu contrário. Quanto mais louco ele parece no primeiro desses papéis, mais hábil e eficiente se revela no segundo, aos olhos de quem é capaz de observá-lo nesses dois planos ao mesmo tempo. Quanto mais insensato o seu desempenho de economista e administrador, mais admirável ele se torna como mago alquimista, transmutador não só do Brasil mas do continente inteiro.

Cada uma de suas ações reflete a ambigüidade do seu papel histórico mas, para o observador atento, serve como índice do progresso alcançado na realização alquímica.

Registro Para A Historia

27 de fevereiro de 2013 | Diário do Comércio

O “Consenso Nacional da Vaca Amarela”, a que me referi no artigo Causa mortis, consiste na aplicação geral e infalível da regra baixada pelo comissário do povo, Milton Temer, para todos os militantes, simpatizantes e puxa-sacos do comunismo na mídia brasileira: “Não comentem o Olavo de Carvalho” (ver http://www.fazendomedia.com/fm0023/entrevista0023.htm) ).

Não tive, é claro, a honra de ser o único objeto dessa medida preventiva, já existente, aliás, antes que o sr. Temer a condensasse nessa fórmula imortal. Entre meus antecessores ilustres contam-se Gustavo Corção e Antônio Olinto, dois dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. O primeiro, morto há 34 anos, continua a desfrutar de uma confortável inexistência midiática; o segundo só saiu dela quando lhe sobreveio em 1997 a punição ainda maior de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Há também versões menores do pacto, aplicadas em domínios profissionais específicos e mais restritos. Geraldo Vandré e Juca Chaves foram vítimas da Vaca Amarela no show business. Gilberto Freyre esteve proibido na USP até o seu centenário, em março de 2000: tive a ocasião de testemunhar pessoalmente a abertura solene das boquinhas seladas, em cerimônia oficiada não no salão nobre da universidade, mas num discreto barracão, como se fosse um encontro furtivo de amantes ilícitos.

Minha inserção na lista foi devida ao vexame sofrido em 1996 por uma dezena de intelectuais de esquerda, que caíram de paus e pedras sobre o meu livro O Imbecil Coletivo e se deram muito mal, nada mais tendo conseguido provar senão que a obra era a respeito deles próprios.

Esse vexame histórico levou-os à conclusão de que a atitude mais prudente a observar com relação ao autor era a mais rigorosa boca-de-siri. Tal decisão foi tomada na esperança de que, excluído da mídia, eu desapareceria do reino do ser, de vez que essas pessoas, não tendo substância senão midiática, julgam que os outros são compostos de idêntica matéria e sofrem de vazio existencial quando O Globo e a Folha não falam deles.

O Consenso corresponde, esquematicamente, àquilo que a socióloga alemã Elizabeth Noelle-Neumann definiu como “espiral do silêncio”, com a diferença, porém, de que o silêncio só é observado na grande mídia, ao passo que, nas salas de aula e outros círculos de influência, longe da possibilidade de um revide, os signatários e aderentes do pacto se empenham num zunzum dos diabos, atribuindo-me todas as intenções que não tenho nem posso ter – como a de instalar um governo teocrático, mandar homossexuais à fogueira ou fazer ressurgir da tumba o general Francisco Franco –, de modo a atiçar contra mim a imaginação de estudantes que sentem nisso um frisson indescritível.

Mal acabava eu de dar duas provas da contínua vigência daquele acordo célebre em pleno ano de 2013, quando logo em seguida me veio mais uma. Em artigo publicado no jornal Valor Econômico ( http://www.valor.com.br/cultura/3000238/o-fim-de-um-tempo-no-jornalismo-cultural ), um cidadão de nome Flávio Moura, professando dar um breve panorama do jornalismo cultural no Brasil atual, menciona ali todos os nomes, inclusive alguns dos mais óbvios continuadores do meu trabalho, omitindo, é claro, o de alguém que não só atuou muito mais que eles nessa área (e em algumas mais altas), mas ainda pôs em circulação uma infinidade de autores essenciais esquecidos ou nunca antes mencionados na nossa mídia cultural, como Louis Lavelle, Eugen Rosenstock-Huessy, Constantin Noica, Émile Boutroux, Eric Voegelin, Lipot Szondi e não sei quantos outros, coisa que por si já ultrapassa imensuravelmente as contribuições, conquanto meritórias, dos jornalistas referidos no artigo.

É claro que omissões como essa não me ferem no mais mínimo que seja (afinal, não foi por afã de notoriedade que só estreei como opinador na mídia aos 48 anos), mas registrá-las é estritamente obrigatório porque documentam, mais que quaisquer outros indícios, o estado presente da incultura brasileira, fenômeno tão inédito e deprimente que já começa a incomodar até mesmo os seus próprios pais e responsáveis. O sr. Mino Carta que o diga.

Também é fato, atestado para além de qualquer dúvida possível por meus livros O Jardim das Aflições , Aristóteles em Nova Perspectiva , A Dialética Simbólica ou A Filosofia e Seu Inverso , bem como pela massa inabarcável dos cursos e conferências do Seminário de Filosofia ( www.seminariodefilosofia.org ) ou pelo material reproduzido no site www.theinteramerican.org, que minhas ambições e esforços estão muito acima do jornalismo cultural, e que seria até uma ofensa designar-me tão-somente por um lugarzinho nessa área. Mas negar-me até mesmo esse lugarzinho só pode ser coisa de quem, como o sr. Temer e similares, assustado ante a abrangência e complexidade de uma obra que escapa ao seu horizonte de compreensão, prefira bater em adversários menores por saber que não tem musculatura para briga de gente grande. Que esse monstruoso e aliás justíssimo complexo de inferioridade se camufle sob afetações de desprezo olímpico só torna o fenômeno ainda mais grotesco, mais macunaímico – e sociologicamente mais significativo. Entre a tentação de responder ao sr. Moura na mesma moeda, da qual aliás não disponho, e o risco de que me acusem pela milésima vez de bater em crianças, escolho esta última hipótese e registro pois aqui o seu nome para garantir, na modesta medida das minhas forças, que os futuros historiadores da miséria mental brasileira não se esquecerão dele.

Em 27 de fevereiro de 2013

Discurso Requentado

27 de dezembro de 2007 | Diário do Comércio

No começo da década de 90, a ilusão triunfalista do “fim do comunismo” produziu nos liberais brasileiros a mais desconcertante das mutações: fez com que daí por diante eles concentrassem suas baterias na propaganda das vantagens da economia de mercado e na apologia abstrata do Estado de Direito, como se não lhes restasse outro inimigo a enfrentar. A esse programa acrescentou-se apenas, a partir de 2002, o combate à corrupção petista – muito mais brando e educado do que aquele que o PT havia travado contra os governos Collor e FHC. Se esse mesmo período foi também o da ascensão da esquerda ao controle hegemônico do Estado e da sociedade, só um cérebro monstruosamente letárgico poderia ver aí só coincidência.

Ao desmantelamento parcial e aparente da URSS seguiu-se, na América Latina, a fundação do Foro de São Paulo. Quando as Farc, em carta ao PT, celebram essa fundação como o acontecimento providencial que salvou da extinção o movimento comunista no continente, elas sabem muito bem do que estão falando: partidos legais e organizações criminosas de esquerda são hoje os dominadores incontestes da América Latina.

Isso aconteceu precisamente no período em que os liberais, desejando limpar-se de toda contaminação com a imagem de um passado conservador, não só se abstinham de toda menção ao perigo comunista, mas não escondiam sua má vontade hostil ante quem quer que ousasse tocar no assunto. Se, numa disputa política, um dos lados está disposto a todos os sacrifícios para reconquistar o terreno perdido e o outro se sente comprometido a jamais denunciar o que o adversário está fazendo, não é preciso ser muito esperto para saber quem vai ganhar a briga. Mas os liberais já a perderam, e a maioria deles ainda se recusa a entender o porquê.

Não percebem, essas angélicas criaturas, que toda a sua retórica não pode fazer nenhum mal à esquerda, a qual já se apossou dela quase que por inteiro, ao ponto de ser acusada, por alguns de seus membros mais loucos e por seus próprios agentes de desinformação empenhados em espalhar falsas pistas, de haver se bandeado para a direita.

O inimigo que hoje se perfila diante dos liberais e conservadores do continente não é um nebuloso “populismo”, não é um mero estatismo administrativo, não é um adocicado burocratismo social-democrata de estilo europeu: é o marxismo-leninismo, é o bom e velho comunismo de sempre, hoje com uma estratégia mais abrangente e flexível do que nunca e com adversários mais tímidos e bobocas do que seus sonhos mais róseos poderiam jamais ter concebido.

Em 27 de dezembro de 2007

Por Que Lula Empaca

27 de dezembro de 2001 | 27 de dezembro de 2001

Imagine se Lula não empacasse e ganhasse a eleição. No dia de sua posse, teríamos uma bandeira de Cuba hasteada na sacada do Palácio do Planalto, promoveríamos um coquetel de corpo presente para Bin Laden (chega de festejá-lo às ocultas) e iniciaríamos uma grande costura diplomática com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, com o governo Chávez, com o Exército Zapatista, com o Jihad e o Hezbollah e com todos os movimentos insurrecionais da esquerda latino-americana. Romperíamos com o FMI, claro. O Ministério do Exército seria anexado ao da Justiça e confiado ao dr. Bisol, que asseguraria proteção verde-oliva às tropelias do MST. O companheiro Marighella substituiria Caxias como patrono da instituição.

Teríamos o OP federal e as cartilhas do MEC. Entraria no ar, em cadeia nacional, o programa ‘Palavra de Brasileiro’, ou ‘Brasil Vivo’. E – glória suprema! – mandaríamos embora não apenas a Ford, mas a Volks, a GM, a Fiat, a Peugeot, a Renault, a Mercedes-Benz, a Toyota e outras que nem elas. Promoveríamos fóruns mundiais sobre tudo e não resolveríamos coisa alguma. E o Congresso votaria uma alteração da matriz tributária por ano.

Cada agricultor que deixasse a terra seria substituído por um desempregado da cidade e assim faríamos, ao mesmo tempo, a maior reforma agrária e a maior reforma urbana do planeta. As rodovias federais seriam patrulhadas pelo olho ganancioso dos pardais e haveria parquímetros nos acostamentos e nos belvederes. Seria terminantemente proibido ocupar prédios da União, mas ficaria aberta a temporada de invasões em repartições estaduais sob governos oposicionistas. O partido do presidente, com tantos cargos à disposição em todo o país, criaria não um clubinho de seguros, mas fundaria o Grupo Cidadania, composto de seguradora, banco e financeira.

Faltou-me espaço e não tinta para pintar o quadro das razões pelas quais Lula corre na pista, mas não decola. É possível que você esteja julgando meio fantasiosa a cena. Nesse caso, vale a pergunta: se a descrição acima é delirante, como você qualifica o que está acontecendo no Rio Grande do Sul?

Em 27 de dezembro de 2001

Leituras

A Oligarquia Contra O Povo

27 de agosto de 2015 | Diário do Comércio

Interrompo temporariamente as considerações teóricas da série “Ilusões democráticas” para analisar brevemente o atual estado de coisas.

A premissa básica para se chegar a compreender a presente situação política do Brasil é a seguinte: o PT não subiu ao poder para implantar o comunismo no Brasil, mas para salvar da extinção o movimento comunista na América Latina e preparar o terreno para uma futura tomada do continente inteiro pelo comunismo internacional.

É fácil comprovar isso pelas atas das assembleias do Foro de São Paulo, o qual foi fundado justamente para a realização desse plano.

Na operação, o Brasil exerceria não somente a função de centro decisório e estratégico, mas o de provedor de recursos para os governos e movimentos comunistas falidos.

No décimo-quinto aniversário do Foro, em 2015, o comando das FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, reconheceu em documento oficial que a fundação desse organismo pelo PT havia pura e simplesmente salvado da extinção o comunismo latino-americano, debilitado e minguante desde a queda do regime soviético.

Para a consecução do plano, era necessário que o PT no governo prosseguisse na aplicação firme e constante da estratégia gramsciana da “ocupação de espaços” e da “revolução cultural”, aliando-se, ao mesmo tempo, a grandes grupos econômicos que pudessem subsidiar e consolidar, pouco importando se por meios lícitos ou ilícitos, a instrumentalização partidária do Estado, o controle da classe política, a supressão de toda oposição ideológica possível e a injeção de dinheiro salvador em vários regimes e movimentos comunistas moribundos.

Basta isso para explicar por que o então presidente Lula pôde ser, numa mesma semana, homenageado no Fórum Social Mundial pela sua fidelidade ao comunismo e no Fórum Econômico de Davos pela sua adesão ao capitalismo, tornando-se assim o enigmático homem de duas cabeças que os “verdadeiros crentes” da direita acusavam de comunista e os da esquerda de vendido ao capitalismo.

Mas as duas cabeças, no fundo, pensavam em harmonia: a confusão ideológica só podia favorecer aqueles que, por trás dos discursos e slogans, tinham um plano de longo prazo e a determinação de trocar de máscara quantas vezes fosse necessário para realizá-lo.

O plano era bom, em teoria, mas os estrategistas iluminados do comunopetismo se esqueceram de alguns detalhes:

1. Dominando a estrutura inteira do Estado em vez de se contentar com o Executivo, o partido se transformou no próprio “estamento burocrático” que antes ele jurava combater. Já expliquei isso em artigo anterior (leia aqui).2. O apoio dos grandes grupos econômicos o descaracterizava ainda mais como “partido dos pobres” e o identificava cada vez mais com a elite privilegiada que ele dizia odiar.

3. O uso maciço das propinas e desvios de verbas como instrumentos de controle da classe política tornava o partido ainda mais cínico, egoísta e desonesto do que essa elite jamais tivera a ousadia de ser. O PT tornou-se a imagem por excelência da elite criminosa e exploradora.

4. O PT havia sido, na década de 90, a força mais ativa nas campanhas que sensibilizaram o povo para o fenômeno da corrupção entre os políticos. Ele criou. Assim. a atmosfera de revolta e até a linguagem do discurso de acusação que haveriam de fazer dele próprio, no devido tempo, o mais odioso dos réus.

5. A “revolução cultural”, a “ocupação de espaços” e a instrumentação do Estado deram ao PT os meios de fazer uma “revolução por cima”, mas o deixaram desprovido de toda base popular autêntica. Ao longo dos anos, pesquisas atrás de pesquisas demonstravam que o povo brasileiro continuava acentuadamente conservador, odiando com todas as suas forças as políticas abortistas e a “ideologia de gênero” que o partido comungava gostosamente com a elite financeira e com o “proletariado intelectual” das universidades e do show business.

Desprovidas as massas de todo meio de expressar-se na mídia e de canais partidários para fazer valer a sua opinião, no coração do povo foi crescendo uma revolta surda, inaudível nas altas esferas, que mais cedo ou mais tarde teria de acabar eclodindo à plena luz do dia, como de fato veio a acontecer, surpreendendo e abalando a elite petista ao ponto de despertar nela as reações mais desesperadas e semiloucas, desde a afetação grotesca de tranquilidade olímpica até a fanfarronada do apelo às “armas” seguido de trêmulas desculpas esfarrapadas.

A convergência de todos os fatores produziu um resultado que só pessoas de inteligência precária como os nossos congressistas, os nossos cientistas políticos e os nossos analistas midiáticos não conseguiriam prever: quando a mídia pressionada pelas redes sociais e pela pletora de denúncias judiciais desistiu de continuar acobertando os crimes do PT (voltarei a isto em artigo próximo), a revolta contra o esquema comunopetista tomou as ruas, nas maiores manifestações de protesto de toda a nossa História e, mesmo fora dos dias de passeata, continuou se expressando por toda parte sob a forma de vaias e panelaços, obrigando os falsos ídolos a esconder-se em casa, sem poder mostrar suas caras nem mesmo nos restaurantes.

As pesquisas mostram que o apoio popular ao PT é hoje de somente um por cento, já que seis dos famosos sete consideram o governo apenas “regular”, isto é, tolerável.

Como é possível que um partido assim desprezado, odiado e achincalhado pela maioria ostensiva da população continue se achando no direito de governar e habilitado a salvar o país mediante desculpinhas grotescas que, à acusação de crimes, respondem com uma confissão de “erros”?

Em que se funda o poder que o PT, acuado e desmoralizado, continua a desfrutar? Esse poder funda-se em apenas quatro coisas:

1. O apoio da oligarquia cúmplice.

2. A militância subsidiada, cada vez mais escassa, incapaz de mobilizar-se sem o estímulo dos sanduíches de mortadela, dos cinquenta reais e do transporte em ônibus, tudo pago com dinheiro público.

3. O apoio externo, não só do governo Obama, dos organismos internacionais e de alguns velhos partidos da esquerda europeia, mas sobretudo do Foro de São Paulo, já articulado para mover guerra ao Brasil em caso de destituição do PT.

4. Uma militância estudantil, também decrescente, que tudo fará pelas grandes causas idealísticas que a animam: drogas e camisinhas para todos, operações transex pagas pelo governo, banheiros unissex, liberdade de fazer sexo em público no campus, reconhecimento do sexo grupal como “nova modalidade de família” etc. etc.

A base de apoio do PT é uma casquinha da aparência na superfície de uma sociedade em vias de explodir.

O único fator que realmente mantém esse partido no poder é o temor servil com que as forças ditas “de oposição” encaram uma possível crise de governabilidade e, sob a desculpa da “legalidade”, e da “normalidade democrática”, insistem em dar ao comunopetismo uma sobrevida artificial, encarregando a classe política de ajudá-lo a respirar com aparelhos ou pelo menos a matá-lo só aos pouquinhos, de maneira discreta e indolor.

Mas que legalidade é essa? Por favor, leiam:

Constituição Federal, Título I, Art. V, parágrafo único: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. ” Será que o “diretamente” não vale mais? Foi suprimido? Os representantes eleitos adquiriram o direito de decidir tudo por si, contra a vontade expressa do povo que os elegeu? Só eles, e não o povo, representam agora a “ordem democrática”?

Senhores deputados, senadores, generais e importantões em geral: Quem meteu nas suas cabeças que a ordem constitucional é personificada só pelos representantes e não, muito acima deles, por quem os elegeu? Parem se ser hipócritas: defender “as instituições” contra o povo que as constituiu é traição. A vontade popular é clara e indisfarçável: Fora Dilma, Fora PT, Fora o Foro de São Paulo!

O Pais Dos Bois De Piranha

27 de agosto de 2000 | Zero Hora (Porto Alegre), 27 de agosto de 2000

A opinião pública brasileira nunca soube grande coisa dos métodos de ação comunistas. Desinteressando-se do assunto desde que lhe disseram que o comunismo não existe mais, passou a saber menos ainda. Quanto menos sabe, mais tolamente se deixa enganar por velhos e banais expedientes de camuflagem que o estudioso, mesmo amador e ocasional, reconhece à primeira vista. E não me refiro só ao povão, mas às classes letradas, aos dirigentes políticos e empresariais. A ignorância do assunto, entre essas pessoas, é total, compacta e renitente. Daí a facilidade com que qualquer militante com uns aninhos de treinamento em Cuba faz a todas elas de idiotas, usando-as de instrumentos para operações que têm por objetivo, quase declaradamente, a sua destruição.

É difícil, hoje em dia, encontrar alguém que tenha, por exemplo, a mais remota consciência de que toda campanha publicitária e jornalística por trás da qual haja o dedo comunista é quase infalivelmente o disfarce de alguma operação que visa a objetivos bem diversos dos alegados. Vou ilustrar como a coisa funciona. Durante uma década houve uma mobilização maciça de jornalistas, intelectuais e artistas do mundo todo para despertar a indignação da humanidade ante a situação dos chamados “meninos de rua” do Brasil. Eram reportagens, filmes, programas de TV, cartazes, reuniões, espetáculos de teatro, exposições, um escarcéu dos diabos. Com essa campanha, obteve-se da sociedade o apoio para a instalação de ONGs destinadas a socorrer os pobres meninos. Hoje elas são, no Rio de Janeiro, 450. Os meninos à solta nas ruas da cidade são 440, segundo rigorosa contagem da Faperj, Fundação de Amparo à Pesquisa. Há portanto uma ONG para cada um e ainda sobram dez ONGs. Elas recebem verbas do Exterior e amparo oficial, fazem lobby à vontade no Senado e na Câmara e, na reforma do Estado, obtiveram o direito de assumir sob seus cuidados fatias inteiras da administração pública federal (como por exemplo o “serviço civil”, hoje sob as ordens do Viva-Rio).

Os meninos desamparados não sumiram das ruas, mas, de um ano para cá, deixaram de ser assunto, desapareceram do cardápio de urgências da mídia. Sim, para que continuar falando em meninos de rua? O objetivo da campanha foi atingido: estender mais um tentáculo do Estado paralelo que hoje nos governa. Os meninos, como papéis higiênicos usados, foram jogados fora.

O público não tem nem mesmo idéia de que esse gênero de operações exista. Sua inteligência, privada de informações a respeito e desviada para escândalos financeiros escavados por colaboradores das mesmas operações, pode mesmo negar-se a admitir que exista alguém capaz de tanta malícia. Sim, nosso povo está tão idiotizado pelo noticiário, que já não consegue conceber malícia e safadeza senão em vulgares desvios de dinheiro público. Que interesses e ambições infinitamente mais vastos possam usar de doses desproporcionalmente maiores de astúcia maquiavélica, eis algo que nem passa pela sua imaginação. Enquanto houver Sérgios Nayas e Lalaus para servir de bois de piranha – “y que los hay, los hay” -, os condutores da grande fraude poderão continuar operando tranqüilos ante os olhos sonsos de um povo hipnotizado.

A operação que mencionei é das mais simples, para os profissionais da área. Outras bem maiores envolveram continentes inteiros, produzindo um efeito bem próximo do engano universal. A mais notável foi o “antifascismo” dos anos 30, truque inventado por Karl Radek, que mobilizou milhares de intelectuais do Ocidente numa onda de entusiasmo romântico que marcou profundamente as manifestações culturais da época — tudo só para encobrir a secreta colaboração com que Stalin e Hitler, já quase uma década antes do famoso pacto, se ajudavam a liquidar suas respectivas oposições internas. E pensar que até hoje há intelectuaizinhos imbecis que vivem da nostalgia desse “antifascismo” de encomenda...

O que confunde ainda mais as pessoas, nas operações que mencionei, é que vêem por trás delas o apoio norte-americano e, habituadas a raciocinar segundo as categorias estereotipadas da época da guerra fria, supõem que nada pode haver de comunista nessas coisas. Quando compreenderão que, no novo mundo unipolar, os remanescentes comunistas se tornaram um dos principais instrumentos da política exterior norte-americana? Desaparecida a União Soviética, neutralizada a China pelo narcótico dos compromissos comerciais, os comunistas deixaram de ser uma ameaça para EUA, mas no mesmo instante se tornaram úteis para a sua estratégia, na precisa medida em que, desarmados para uma guerra entre potências, obrigados a ações mais dispersas e regionais, ainda têm organização e meios para constituir ameaça para aqueles Estados menores e mais fracos dentro dos quais atuam – aqueles mesmos Estados que a política globalista visa a enfraquecer ou destruir. Tudo isso é claro, depois que a gente percebe. Mas quantos percebem?

Em 27 de agosto de 2000

A Loucura Triunfante

27 de abril de 2000 | Jornal da Tarde

Durante décadas, a esquerda acreditou que havia neste país duas burguesias: uma nacionalista, empenhada em desenvolver a nossa economia; outra, aliada aos interesses norte-americanos e decidida manter o Brasil na condição de fornecedor de matéria-prima barata. A estratégia era portanto simples: aliar-se com a “burguesia nacional” contra o imperialismo.

A fórmula de Luiz Carlos Prestes, do agrado de Moscou que então advogava uma linha de luta eleitoral pacífica, tinha a vantagem de tornar o comunismo palatável a muitas famílias de ricaços e de abrir assim aos comunistas o acesso a altos postos no governo.

Na década de 60, a aliança rompeu-se. A incapacidade dos “burgueses progressistas” para reagir contra o golpe militar deixou os comunistas órfãos e eles entraram num surto de autocrítica do qual a estratégia de Prestes emergiu desfeita em cacos. O livro de Caio Prado Jr., A Revolução Brasileira, publicado se não me engano em 1969, teve um formidável impacto desagregador. Ele alegava que não havia burguesia nacional nenhuma, que eram todos uns malditos imperialistas. Logo, o melhor era mandar a estratégia eleitoral às favas e partir para a luta armada, conclusão endossada por um livreto infame, também de muito sucesso, Revolução na Revolução, de Régis Debray. Tudo parecia muito científico, mas deu no que deu.

Os anos seguintes foram marcados pelo estancamento das fontes francesas, pelo desmantelamento do comunismo no Leste Europeu e pela formidável ascensão da “nova esquerda” norte-americana, que tão bem soube se aproveitar dos movimentos de direitos civis e juntar suas forças com a avassaladora onda psicótica da New Age que ia dissolvendo, um por um, os pilares da cultura tradicional norte-americana. Somou-se a isso a disseminação das idéias de Antonio Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano, que em vez da tomada violenta do poder por uma organização monolítica pregava a lenta penetração da esquerda na administração estatal e nos órgãos formadores da opinião pública por meio de redes flexíveis de colaboradores informais. Ao mesmo tempo, as nações ricas começavam a implantar o projeto de globalização e governo mundial, causando revolta entre os nacionalismos, mas, sobretudo, atraindo o concurso de ambiciosos intelectuais esquerdistas de todos os países, que, na esperança de aplicar a estratégia de Gramsci em escala global, iniciaram a “longa marcha” para dentro dos organismos internacionais, onde hoje reinam soberanos sobre os “movimentos sociais” plantados por engenheiros comportamentais no Terceiro Mundo e sobre os programas educacionais que vão moldando a mente da Humanidade futura.

A esquerda brasileira assimilou confusamente essas transformações, endossando a esmo os slogans dos novos movimentos sociais globalistas – feminismo, gays, “minorias raciais”, etc. -, e enxertando-os, aos trancos e barrancos, no ideário híbrido onde reminiscências da guerrilha já se mesclavam absurdamente a apelos nacionalistas herdados da aliança com a “burguesia progressista”.

Por isso é que hoje nossos esquerdistas podem, ao mesmo tempo, bufar de indignação patriótica ante o leilão de empresas estatais e inflamar-se de entusiasmo belicoso no apoio a protestos grupais divisionistas, insuflados por organizações estrangeiras para debilitar o poder nacional. Por isso é que podem berrar contra o “desmanche do patrimônio nacional”, ao mesmo tempo que aderem fanaticamente a uma visão afro-indigenista da História que resulta em negar a legitimidade da existência do Brasil enquanto nação. Por isso é que podem clamar contra a política do FMI e servir às organizações que lhe dão suporte no plano cultural e psicossocial. Por isso é que podem, ao mesmo tempo, querer salvar a economia e destruir o País.

Nossa esquerda, em suma, enlouqueceu. Mas enlouqueceu enquanto subia na vida. Encontrando as portas abertas pela omissão covarde de todas as outras correntes de opinião e pela ajuda de empresários idiotas que repetem às tontas “o comunismo morreu”, a esquerda colhe hoje os louros de 30 anos de “longa marcha”, imperando sobre os meios de comunicação, sobre o aparelho educacional e sobre a administração pública, repetindo, do alto do pódio, seu discurso monológico e insano. Ela nunca teve tanto poder e tanto medo.

Ela tem todos os meios à sua disposição: mas já não tem nada a transmitir exceto os germes de sua decomposição intelectual.

Foi o contágio da loucura esquerdista que transformou os festejos dos 500 anos numa palhaçada grotesca e masoquista. É ele que está no fundo de toda a angústia e a incerteza da vida brasileira hoje em dia.

Em 27 de abril de 2000

As Eleicoes Na Colombia

27 de Maio de 2002 | 27 de Maio de 2002

Eleger um inimigo declarado dos rebeldes, que lhe ceifaram covardemente o pai, não poderia ser uma mensagem mais clara do povo colombiano para o seu governo: a guerrilha precisa ser destruída. É esse o mandato claro que emerge das urnas. É isso que o presidente Álvaro Uribe Vélez vai procurar fazer.Não será fácil, no entanto. Um movimento armado de insurreição, que já dura três décadas, tem raízes profundas. Debela-lo demanda, além de vontade política, esforço econômico de guerra e competência militar, também a ajuda dos países amigos. Se a Colômbia, sozinha, pudesse ter vencido as FARC, já o teria feito. É previsível que o governo norte-americano se envolva mais no problema, seja enviando recursos, seja enviando assessores e meios militares.

E o Brasil? Como país de maior envergadura do subcontinente Sul-americano, não poderá se omitir. Sei que razões ideológicas paralisam o atual governo no que tange a um apoio aberto ao povo colombiano contra a guerrilha de esquerda. Ao Brasil, todavia, está reservado um papel relevante no processo, ainda que seu governo não o deseje. O acirramento do conflito armado coloca imediatamente o desafio da exportação eventual das ações militares para nosso território, de um lado, e o risco de uma onda de imigração de refugiados de guerra, do outro. Ambas as situações serão de difícil administração.

O correto seria uma posição afirmativa e de liderança do Brasil na ajuda internacional à Colômbia, seja no âmbito militar, seja no âmbito econômico. Assim, seria possível, com muita rapidez, pôr um fim à capacidade operacional dos rebeldes. Mas não percebo essa vontade política no atual governo e nem no provável sucessor de FHC. Não posso deixar de pensar que esse é um erro estratégico lamentável, que muito poderá nos custar.

O pior dos cenários é um envolvimento de tropas norte-americanas no teatro de operações de guerra. Pensando em termos geopolíticos, seria muito ruim, não apenas para o Brasil, mas para o conjunto dos países sul-americanos. Abriria um precedente perigoso de intervenção militar de uma potência de fora. A única maneira dessa realidade não acontecer é o Brasil e seus vizinhos chamarem para si a responsabilidade, que sempre foi sua.

Em 27 de maio de 2002

Leituras

Maquiavel E Os Bobos

26 de setembro de 2007 | Diário do Comércio (editorial), 26 de setembro de 2007

“Não digo jamais aquilo em que creio, nem creio naquilo que digo – e, se descubro algum pedacinho da verdade, trato logo de escondê-lo sob tantas mentiras que se torna impossível encontrá-lo.” Não, não neutralizem esta confissão feita por Nicolau Maquiavel a um amigo, aplicando a ela o “paradoxo do mentiroso”. Ele aqui é perfeitamente sincero, pois escreve em privado sobre sua obra pública. A técnica das mentiras superpostas, entrecruzadas e mescladas é realmente o segredo dessa obra, tão obscura que Benedetto Croce a declarava impenetrável, mas que se abre de par em par tão logo descobrimos essa chave, fornecida pelo próprio autor num momento de franqueza, ou talvez fraqueza.

Maquiavel não é o imoralista vulgar que nele viram seus primeiros críticos, nem o realista científico que seus admiradores modernos fizeram dele, nem o límpido patriota que tantos intérpretes italianos celebram.

É o criador do plano revolucionário de destruir o cristianismo desde dentro e subjugá-lo a um Estado economicamente igualitário e politicamente totalitário, que hoje diríamos um Estado socialista. É também o inventor da estratégia incumbida de realizar esse fim: desorientar e dominar a sociedade por meio de um bombardeio alucinante de mentiras e fingimentos histriônicos, propositadamente contraditórios entre si para que que suas vítimas não percebam a unidade do objetivo político por trás de tudo.

Quem melhor compreendeu Maquiavel foi Antonio Gramsci, mas não o compreendeu perfeitamente. Seu próprio amoralismo sociopático de revolucionário o tornou cego para o caráter satânico do empreendimento maquiavélico e o fez enxergar nele, ao contrário, todas as belezas ilusórias que ali tinham sido postas justamente para seduzir intelectuais meia-bomba.

O que Gramsci viu claramente foi que o Príncipe não era um indivíduo, mas uma elite revolucionária capaz de controlar a sutil engenharia do engodo e conquistar, ante o olhar sonso de adversários impotentes, “o poder onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”.

Se querem um exemplo imediato de como a coisa funciona, observem o “Movimento dos Sem-Mídia”.

Notem bem. Durante quase duas décadas os jornais e canais de TV deste país não apenas glorificaram os ídolos da revolução comunista, demonizando seus adversários, e não apenas estenderam sobre o Foro de São Paulo o manto de silêncio protetor que lhe permitiu crescer sem ser notado, mas também se abstiveram sistematicamente de noticiar as atrocidades genocidas praticadas pelos regimes comunistas e seus aliados nesse período e forneceram integral apoio a todas as iniciativas da “revolução cultural” politicamente correta: abortismo, gayzismo, cotas raciais, liberação das drogas, etc. etc. Mais esquerdismo que isso, nem no Pravda.

Durante anos tentei convencer os liberais e conservadores de que deviam organizar um movimento de protesto contra essa dominação hegemônica que os marginalizava ao ponto de só permitir sua sobrevivência como súcubos ideológicos da corrente dominante. Como não o fizeram em tempo, a própria esquerda o faz agora em lugar deles, fingindo-se de vítima oprimida quando é na verdade a única autora e beneficiária do crime. É um blefe tão monstruoso, tão cínico, que ilude os observadores mais espertos e acaba passando por empreendimento de boa-fé.

É um exemplo corriqueiro. A técnica da contradição estupefaciente está em tudo o que a esquerda faz. Enquanto seus adversários não atinarem com isso, continuarão sendo feitos de bobos a cada semana.

Em 26 de setembro de 2007

Lula Reu Confesso

26 de setembro de 2005 | Diário do Comércio

Eu deveria estar grato ao sr. presidente da República. Quando praticamente a mídia nacional inteira se empenha em camuflar as atividades ou até em negar a existência do Foro de São Paulo, tachando de louco ou fanático aquele que as denuncia, vem o fundador mesmo da entidade e dá todo o serviço, comprovando de boca própria as suspeitas mais deprimentes e algumas ainda piores que elas.

O discurso presidencial de 2 de julho de 2005, pronunciado na celebração dos quinze anos de existência do Foro e reproduzido no site oficial do governo, http://www.info.planalto.gov .br/download/discursos/pr812a .doc , é a confissão explícita de uma conspiração contra a soberania nacional, crime infinitamente mais grave do que todos os delitos de corrupção praticados e acobertados pelo atual governo; crime que, por si, justificaria não só o impeachment como também a prisão do seu autor.

À distância em que estou, só agora tomei ciência integral desse documento singular, mas os chefes de redação dos grandes jornais e de todos os noticiários de rádio e TV do Brasil estiveram aí o tempo todo. Tendo sabido do discurso desde a data em que foi pronunciado, ainda assim continuaram em silêncio, provando que sua persistente ocultação dos fatos não foi fruto da distração ou da pura incompetência: foi cumplicidade consciente, maquiavélica, com um crime do qual esperavam obter não se sabe qual proveito.

O sentido destes parágrafos, uma vez desenterrado do lixo verbal que lhe serve de embalagem, é de uma nitidez contundente:

“Em função da existência do Foro de São Paulo, o companheiro Marco Aurélio tem exercido uma função extraordinária nesse trabalho de consolidação daquilo que começamos em 1990... Foi assim que nós, em janeiro de 2003, propusemos ao nosso companheiro, presidente Chávez, a criação do Grupo de Amigos para encontrar uma solução tranqüila que, graças a Deus, aconteceu na Venezuela. E só foi possível graças a uma ação política de companheiros. Não era uma ação política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com outro presidente. Quem está lembrado, o Chávez participou de um dos foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível construirmos, com muitas divergências políticas, a consolidação do que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez como presidente da Venezuela.

“Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política.”

O que o sr. presidente admite nesses trechos é que:

1o. O Foro de São Paulo é uma entidade secreta ou pelo menos camuflada (“ construída... para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política “).

2o. Essa entidade se imiscui ativamente na política interna de várias nações latino-americanas, tomando decisões e determinando o rumo dos acontecimentos, à margem de toda fiscalização de governos, parlamentos, justiça e opinião pública.

3o. O chamado “Grupo de Amigos da Venezuela” não foi senão um braço, agência ou fachada do Foro de São Paulo (” em função da existência do Foro... foi que propusemos ao companheiro presidente Chavez ...”).

4o. Depois de eleito em 2002, ele, Luís Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo que pro forma abandonava seu cargo de presidente do Foro de São Paulo, dando a impressão de que estava livre para governar o Brasil sem compromissos com alianças estrangeiras mal explicadas, continuou trabalhando clandestinamente para o Foro, ajudando, por exemplo, a produzir os resultados do plebiscito venezuelano de 15 de agosto de 2004 (” graças a essa relação foi possível construirmos a consolidação do que aconteceu na Venezuela “), sem dar a menor satisfação disso a seus eleitores.

5o. A orientação quanto a pontos vitais da política externa brasileira foi decidida pelo sr. Lula não como presidente da República em reunião com seu ministério, mas como participante e orientador de reuniões clandestinas com agentes políticos estrangeiros (“ foi uma ação política de companheiros, não uma ação política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com outro presidente “). Acima de seus deveres de presidente ele colocou sua lealdade aos “companheiros”.

O sr. presidente confessa, em suma, que submeteu o país a decisões tomadas por estrangeiros, reunidos em assembléias de uma entidade cujas ações o povo brasileiro não devia conhecer nem muito menos entender.

Não poderia ser mais patente a humilhação ativa da soberania nacional, principalmente quando se sabe que entre as entidades participantes dessas reuniões decisórias constam organizações como o MIR chileno, seqüestrador de brasileiros, e as Farc, narcoguerrilha colombiana, responsável segundo seu parceiro Fernandinho Beira-Mar pela injeção de duzentas toneladas anuais de cocaína no mercado nacional.

Nunca um presidente eleito de qualquer país civilizado mostrou um desprezo tão completo à Constituição, às leis, às instituições e ao eleitorado inteiro, ao mesmo tempo que concedia toda a confiança, toda a autoridade, a uma assembléia clandestina repleta de criminosos, para que decidisse, longe dos olhos do povo, os destinos da nação e suas relações com os vizinhos. Nunca houve, no Brasil, um traidor tão descarado, tão completo e tão cínico quanto Luís Inácio Lula da Silva.

A maior prova de que ele ludibriou conscientemente a opinião pública, mantendo-a na ignorância das operações do Foro de São Paulo, é que, às vésperas da eleição, amedrontado pelas minhas constantes denúncias a respeito dessa entidade, mandou seu “assessor para assuntos internacionais”, Giancarlo Summa, acalmar os jornais por meio de uma nota oficial do PT, segundo a qual o Foro era apenas um inocente clube de debates, sem nenhuma atuação política (v.

http://www.olavodecarvalho.org /semana/10192002globo.htm ).

E agora ele vem vem se gabar da “ação política de companheiros”, praticada com recursos do governo brasileiro às escondidas do Parlamento, da justiça e da opinião pública.

Comparado a delito tão imenso, que importância têm o Mensalão e fenômenos similares, senão enquanto meios usados para subsidiar operações parciais no conjunto da grande estratégia de transferência da soberania nacional para a autoridade secreta de estrangeiros?

Pode haver desproporção maior do que entre vulgares episódios de corrupção e esse crime supremo ao qual serviram de instrumentos?

A resposta é óbvia. Mas então por que tantos se prontificam a denunciar os meios enquanto consentem em continuar acobertando os fins?

Aqui a resposta é menos óbvia. Requer uma distinção preliminar. Os denunciantes dividem-se em dois tipos: (A) indivíduos e grupos comprometidos com o esquema do Foro de São Paulo, mas não diretamente envovidos no uso desses meios ilícitos em especial; (B) indivíduos e grupos alheios a uma coisa e à outra.

O raciocínio dos primeiros é simples: vão-se os anéis mas fiquem os dedos. Já que se tornou impossível continuar ocultando o uso dos instrumentos ilícitos, consentem em entregar às feras os seus operadores mais notórios, de modo a poder continuar praticando o mesmo crime por outros meios e outros agentes. O conteúdo e até o estilo das acusações subscritas por essas pessoas revelam sua natureza de puras artimanhas diversionistas. Quando atribuem a corrupção do PT, que vem desde 1990, a acordos com o FMI firmados a partir de 2003, mostram que sua ânsia de mentir não se inibe nem diante da impossibilidade material pura e simples. Quando lançam as culpas sobre “um grupo”, escamoteando o fato de que as ramificações da estrutura criminosa se estendiam da Presidência da República até prefeituras do interior, abrangendo praticamente o partido inteiro, provam que têm tanto a esconder quanto os acusados do momento.

Mais complexas são as motivações do grupo B. Em parte, ele compõe-se de personagens sem fibra, física e moralmente covardes, que preferem ater-se ao detalhe menor por medo de enxergar as dimensões continentais do crime total. Há também o subgrupo dos intelectualmente frouxos, que apostaram na balela da “morte do comunismo” e agora se sentem obrigados, para não se desmentir, a reduzir a maior trama golpista da história da América Latina às dimensões mais manejáveis de um esquema de corrupção banal, despolitizando o sentido dos fatos e fingindo que Lula é nada mais que um Fernando Collor sem jet ski . Há os que, por oportunismo ou burrice, colaboraram demais com a ascensão do partido criminoso ao poder e agora se sentem divididos entre o impulso de se limpar do ranço das más companhias em que andaram, e o de minimizar o crime para não sentir o peso da ajuda cúmplice que lhe prestaram. Há os pseudo-espertos, que dão refrigério ao inimigo embalando-se na ilusão louca de que é mais viável derrotá-lo roendo-o pelas beiradas do que acertando-lhe um golpe mortal no coração. Há por fim os que realmente não estão entendendo nada e, com o tradicional automatismo simiesco da fala brasileira, saem apenas repetindo o que ouvem, na esperança de fazer bonito.

Peço encarecidamente a todos os inflamados acusadores anticorruptos das últimas semanas — políticos, donos de meios de comunicação, empresários, jornalistas, intelectuais, magistrados, militares – que examinem cuidadosamente suas respectivas consciências, se é que alguma lhes resta, para saber em qual desses subgrupos se encaixam. Pois, excetuando aqueles poucos brasileiros de valor que subscreveram em tempo as denúncias contra o Foro de São Paulo, todos os demais fatalmente se encaixam em algum.

Seria absurdo imputar tão somente a Lula e ao Foro de São Paulo a culpa do apodrecimento moral brasileiro, esquecendo a contribuição que receberam desses moralistas de ocasião, tão afoitos em denunciar as partes quanto solícitos em ocultar o todo. Nada poderia ter fomentado mais o auto-engano nacional do que essa prodigiosa rede de cumplicidades e omissões nascidas de motivos diversos mas convergentes na direção do mesmo resultado: criar uma falsa impressão de investigações transparentes, uma fachada de normalidade e legalidade no instante mesmo em que, roída invisivelmente por dentro, a ordem inteira se esboroa.

A destruição da ordem e sua substituição por ” um novo padrão de relação entre o Estado e a sociedade “, decidido em reuniões secretas com estrangeiros, tal foi o objetivo confesso do sr. Lula. Esse objetivo, disse ele em outra passagem do mesmo discurso, deveria ser alcançado e consolidado ” de tal forma que isso possa ser duradouro, independente de quem seja o governo do país “.

O que se depreende da atitude daqueles seus críticos e acusadores é que, nesse objetivo geral, o sr. Lula já saiu vitorioso, independentemente do sucesso ou fracasso que venha a obter no restante do seu mandato. A nova ordem cujo nome é proibido declarar já está implantada, e sua autoridade é tanta que nem mesmo os inimigos mais ferozes do presidente ousam contestá-la. Todos, de um modo ou de outro, já se conformaram ao menos implicitamente em colocar o Foro de São Paulo acima da Constituição, das leis e das instituições brasileiras. Se reclamam de roubalheiras, de desvios de verbas, de mensalões e propinas, é precisamente para não ter de reclamar da transferência da soberania nacional para a assembléia continental dos “companheiros”, como Hugo Chávez, Fidel Castro, os narcoguerrilheiros colombianos e os seqüestradores chilenos. É como a mulher estuprada protestar contra o estrago no seu penteado, esquecendo-se de dizer alguma coisinha, mesmo delicadamente, contra o estupro enquanto tal.

Talvez os feitos do sr. Lula e do seu maldito Foro não tenham trazido ao Brasil um dano tão vasto quanto essa inversão total das proporções, essa destruição completa do juízo moral, essa corrupção integral da consciência pública. Nunca se viu um acordo tão profundo entre acusado e acusadores para permitir que o crime, denunciado com tanto alarde nos detalhes, fosse tão bem sucedido nos objetivos de conjunto ” sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem “.

Não é elogio nem auto-elogio Em 22 de fevereiro de 2003 escrevi no Globo : “A direita fisiológica imaginou que, bajulando o dominador, ganharia tempo para recompor-se e derrotá-lo um dia. Ledo engano. Se fora do governo a esquerda já logrou reduzir os Magalhães e os Malufs ao mais humilhante servilismo, no governo não descansará enquanto não os atirar à completa impotência e marginalidade. Não dou dois anos para que cada um deles, culpado ou inocente, esteja na cadeia, no exílio ou no mais profundo esquecimento.”

Magalhães foi para o museu faz mais de um ano. Maluf está na cadeia.

Em 11 de março de 2004 escrevi no Jornal da Tarde : “O partido governante não tem a menor intenção de curvar-se às exigências morais e legais das quais se serviu durante uma década para destruir reputações, afastar obstáculos, chantagear a opinião pública e conquistar a hegemonia. Denúncias e acusações não têm a mínima condição de obrigá-lo a isso, porque não há força organizada para transformá-las em armas políticas.”

O STF vetou os processos de cassação de mandatos contra José Dirceu e os demais acusados petistas (até agora o único punido foi, não por coincidência, o denunciante dos crimes).

Há mais de uma década, todas as previsões que fiz sobre os rumos da política nacional se confirmaram, enquanto os mais badalados comentaristas e politólogos, da mídia e das universidades, não acertavam uma, uma sequer (breve mostruário em http://www.olavodecarvalho.org /semana/050625globo.htm ).

Como se explica um contraste tão acachapante?

Quinta-feira da semana retrasada, ao receber-me na Atlas Foundation de Washington para a breve alocução que ali pronunciei ( http://www.olavodecarvalho.org /palestras/palestra_atlas _set2005.htm ), Alejando Chafuen, presidente da entidade, economista e filósofo de fama mundial, disse que as minhas análises estavam entre as mais valiosas realizações que ele já tinha visto no campo da ciência política. Não entendo isso como elogio, mas como o simples reconhecimento de um fato. O poder de previsão fundado na análise racional dos dados é a marca mais característica e inconfundível do saber científico. Tenho despendido uma energia considerável no empenho de compreender cientificamente a sociedade e, se o resultado é algum conhecimento efetivo, não há nisso surpresa maior do que aquela que você tem quando deixa o carro enguiçado no mecânico e no dia seguinte o carro sai funcionando. É verdade que meus trabalhos teóricos, como “Ser e Poder” e “O Método nas Ciências Humanas”, que circulam como apostilas de meus cursos na PUC do Paraná, continuam inéditos em livro e não têm como ser resumidos em artigos de jornal, onde as conclusões monstruosamente compactadas da sua aplicação aos fatos do dia aparecem como se nascidas do nada. Mas já vão longe os tempos em que o editor Schmidt, pela leitura de uns relatórios de prefeito do interior de Alagoas, adivinhava um romancista oculto. Hoje a totalidade da classe falante é incapaz de suspeitar que exista alguma investigação científica por trás de uma sucessão ininterrupta de previsões certas que, de outra forma, só se explicariam por dons sobrenaturais como a sabedoria infusa de São Lulinha.

Longe da mídia brasileira * No noticiário da passeata anti-Bush em Washington, nenhum jornal brasileiro, absolutamente nenhum, mencionou nem mesmo por alto as ligações diretas entre algumas das entidades que promoveram essa manifestação e as organizações terroristas responsáveis pela violência contínua no Iraque. Quem quiser saber algo a respeito encontrará todas as informações no site de David Horowitz, www.discoverthenetwork.org .

* Altos funcionários do governo da Lousiana estão sob investigação criminal por desvio de 60 milhões de dólares de verbas federais enviadas, muito antes do furacão Katrina, para a reforma das barragens de New Orleans. Entendem por que a obra não saiu?

* O repórter da ABC, Dean Reynolds, foi filmado em pleno vexame de tentar extorquir declarações anti-Bush de vítimas da enchente, recebendo respostas contrárias às que esperava. O mais lindo foi o diálogo com uma senhora negra:

— A senhora não tem raiva do presidente por causa da resposta federal tardia?

— Não, de maneira alguma. Os governos do Estado e do município é que tinham de estar a postos primeiro.

— E não estavam?

— Não, não estavam. Meu Deus, não estavam!

* O primeiro-ministro Tony Blair estragou a festa dos ecochatos na reunião da Clinton Global Initiative num hotel chiquérrimo de Manhattan. Ex-partidário do badalado Protocolo de Kyoto, chegou à reunião dizendo que ia falar “com honestidade brutal”, e fez exatamente isso: disse que, quando o tratado expirar em 2012, país nenhum vai querer assiná-lo de novo, boicotando seu próprio crescimento econômico. O colunista James Pinkerton, da Tech Central Station , disse que em tempos normais essa declaração seria manchete em todo mundo. Agora, a grande mídia americana, mais interessada em ativismo ecológico global do que em jornalismo, preferiu ignorá-la.

Estado Policial Ja

26 de outubro de 2002 | O Globo

O PT, ansioso, não quer nem esperar a posse de Lula para instaurar neste país o Estado policial dos seus sonhos cubanos. O sr. André Singer, assessor do candidato petista, está fazendo o que pode para dar cinco anos de cadeia a cada internauta que tenha emitido ou repassado e-mails com mensagens anti-Lula, numa gama que vai das notícias falsas às meras piadas. O próprio partido encarregou-se de rastrear os culpados. O número deles subirá fatalmente a alguns milhares. Em poucas semanas, a estréia petista no poder terá superado de muito a ditadura militar, que em vinte anos não fez mais de dois mil presos políticos.

Mas não se pode acusar o PT de obsessão punitiva. O partido faz também policiamento preventivo: os proprietários do site http://antilula.blogspot.com foram aconselhados a fechá-lo para evitar um processo. O aviso veio de um tal de Grupo de Repressão a Atos de Intolerância, um nome que é novilíngua em estado puro.

Também tenho um aviso: faz anos que militantes e simpatizantes petistas vêm espalhando na internet palavras injuriosas e fofocas cabeludas a meu respeito, muito piores do que qualquer coisa que se possa ter dito de Lula. Já me chamaram de tudo, desde neonazista até agente sionista, além de enviar mensagens falsas em meu nome a fóruns de debates, de me prometer um lugar de honra no “paredón” e de notificar ao distinto público que há trinta anos não trabalho, vivendo da exploração de mulheres. Por falta de tempo, de dinheiro e de estômago, nunca tomei qualquer iniciativa judicial contra essas criaturas, mas olhem que o sr. Singer acaba de me dar uma boa idéia...

A naturalidade com que essa gente petista se concede as mais abusivas liberdades, fazendo pose de dignidade ofendida quando alguém esboça uma resposta mesmo tímida, é, com toda a evidência, prova daquele total desprezo ao próximo, daquele egocentrismo grosseiro e cego que caracteriza os sociopatas. Não há mesmo nada de estranho nisso, pois todas as militâncias ideológicas dos tempos modernos nunca passaram de sociopatia organizada. Característico é o hábito de juntar-se em bandos para vociferar insultos ameaçadores e, quando a vítima se confessa intimidada, rotular de “terrorismo” a expressão de seus sentimentos. Como kapos de um campo de concentração, os cães-de-guarda petistas só admitem uma resposta aos seus latidos: o silêncio contrito, a humildade cabisbaixa, a confissão dos pecados seguida de uma declaração de amor a Lulinha...

Qualquer breve exame da retórica petista comprovará que, em matéria de linguagem desbocada e truculenta, ela não tem concorrentes. Num concurso de “hate speech”, o petismo levaria todos os prêmios. A resposta de Lula a Regina Duarte ganharia pelo menos menção honrosa. Aliás ninguém vê nada de mais em que ele acuse o presidente da República de “extorsão” e xingue de “picaretas”, numa só tacada, trezentos parlamentares ou um escritor cubano que ele nem conhece. Mas se um de nós responde que ele é um iletrado metido a falar do que não sabe, ah, isto não! É injúria, é difamação, é... terrorismo!

O próprio horror antibacharelista que intelectuais do PT alardeiam ante a exigência de diploma para o seu candidato é puro fingimento malicioso. Quando comecei a publicar livros de filosofia e obtive algum sucesso, a mesma turminha caiu de paus e pedras em cima de mim, pela ousadia de fazê-lo sem “diploma de filósofo”. Bacharelismo por bacharelismo, alguns bichos, de fato, são mais iguais que os outros...

Mas, voltando da hipocrisia à prepotência: o PT já nomeou até um fiscal-mor para vigiar e punir tudo o que se escreva contra Lula. Desde Felinto Müller ninguém exercia tão alta função inquisitorial neste Brasil. Mesmo no tempo dos militares, quando alguém inventava piadas sobre o general Costa e Silva, o único risco que corria era o de vê-las entrar no repertório do presidente, que as colecionava e repassava, divertindo-se a valer. Mas essa gente do PT se leva infinitamente a sério. Não sabe rir, só dar aquelas gargalhadas forçadas das zombarias ginasianas. Quando quer expor ao ridículo um adversário, não é capaz de sátira inteligente ou ironia sutil: recorre ao hiperbolismo bufo, disforme e rancoroso das velhas chalaças comunistas — o equivalente mais próximo do senso de humor nas almas endurecidas pelo orgulho e pelo ódio.

O referido fiscal já tem em mãos a cópia de um artigo meu, para escarafunchá-lo em busca de “calúnias” e, provavelmente também, “terrorismo”. Pois que procure. Que tente encontrar ali uma só falsidade, um só fato que não seja atestado em documentos e conhecido da mídia nacional ou estrangeira. Que se divirta com esse esporte macabro de ciscar, espumando de rancor vingativo, indícios de antilulismo. Da minha parte, nada mais tenho a procurar: já encontrei e já divulguei provas cabais do compromisso de solidariedade que liga o sr. Lula à narcoguerrilha colombiana, e nem toda a polícia mental petista reunida conseguirá apagar da História o rastro de perfídia e hipocrisia que esse candidato deixou ao mentir a toda uma nação, negando o que sua própria assinatura atestava e provando que tem muito a esconder.

Aliás, a mentira, quanto mais esconde, mais revela. Dois exemplos: (1) Tão logo publicados os meus artigos que transcreviam resoluções do Foro de São Paulo, esses documentos foram retirados do site da entidade, com a pressa dos criminosos que apagam as pistas do crime. (2) Ao obter do TSE a proibição de que José Serra mencionasse o caso Farc no horário eleitoral, o PT apenas imitou um ardil já testado na Venezuela, anos atrás, contra o concorrente de Hugo Chávez.

São atos que põem à mostra precisamente aquilo que pretendiam esconder: a mão onipresente do Foro de São Paulo...

Em 26 de outubro de 2002

Efeitos Da Grande Marcha

26 de outubro de 2000 | Jornal da Tarde, São Paulo, 26 de outubro de 2000

A Justiça Eleitoral existe, como o próprio nome o diz, para que as eleições sejam justas. Mas ela se compõe de funcionários públicos e, desde que apareceu neste país um fenômeno chamado “a grande marcha da esquerda para dentro do aparelho de Estado”, essa classe vem se tornando cada vez mais suspeita de estar interessada em tudo, menos em eleições justas. Pois a “grande marcha” consiste em ocupar o maior número de empregos públicos, com a finalidade de colocar o aparelho de Estado a serviço de um partido, o qual então passa a exercer o governo sem ser governo, desfrutando das prerrogativas do poder sem as suas concomitantes responsabilidades.

Essa operação foi calculada por seu inventor, Antonio Gramsci, para ser realizada de maneira lenta e sorrateira, de modo que os próprios governantes acabem sendo responsabilizados pelos efeitos globais nefastos das ações de funcionários infiltrados na burocracia para desmoralizá-lo e enfraquecê-lo.

Um exemplo da eficácia alucinante desse procedimento foi obtido já durante o governo militar. O regime, por ser autoritário e não totalitário, desejava a apatia política do povo e não fez nenhum esforço para doutriná-lo segundo os valores do movimento de 1964 (o totalitarismo, ao contrário, exige doutrinação maciça). Essa atitude deixou à mercê da oposição de esquerda a rede de instrumentos editoriais, jornalísticos e escolares de formação da opinião pública (o que, entre outras coisas, resultou na ampliação formidável do mercado de livros esquerdistas). Uma das poucas tentativas de doutrinação feitas pelos militares foi a introdução, nas escolas, das aulas de “Educação Moral e Cívica”. Mas tão displicente foi essa tentativa que o Partido Comunista se aproveitou da oportunidade para lotar de bem treinados agitadores as cátedras da nova disciplina, as quais assim se tornaram uma rede de propaganda comunista subsidiada pelo governo. É claro que muitos professores ideologicamente descomprometidos também se apresentaram para suprir as vagas, mas os militantes faziam o mesmo como tarefa partidária, de modo que, no conjunto, o plano comunista de apropriar-se dos recém-abertos canais de doutrinação não concorreu com uma premeditação igual de signo ideológico contrário, mas apenas com a resistência amorfa de uma massa politicamente indiferente e sem direção. A brutal politização marxista das escolas, que hoje culmina nas barbaridades ideológicas impingidas às crianças pelos manuais publicados pelo próprio Ministério da Educação, começou precisamente aí.

O mais notável foi que, ocupado em reprimir a guerrilha, o governo militar não apenas deu rédea solta à ala “pacífica” e gramsciana da esquerda, mas até lhe concedeu substanciais incentivos. O principal editor comunista da época jamais deixou de receber subsídios oficiais, até que, com a abertura política, começou a ter dificuldades financeiras e acabou vendendo sua empresa.

Jamais interrompida, rarissimamente denunciada, a “grande marcha” parece enfim ter chegado à Justiça Eleitoral, que, nos últimos tempos, tomou pelo menos três decisões bastante suspeitas. Primeiro, proibiu menções adversas à aliança do PT com o movimento “gay” (v. meu artigo no JT de 20 de setembro); depois, mandou distribuir cartazes que incentivavam o eleitor a votar “para mudar”, o que é mensagem de signo ideológico indiscutivelmente nítido; por fim, vetou propagandas do candidato do PPB à Prefeitura de São Paulo que apresentavam sua concorrente como adepta da causa abortista – uma afirmação cuja veracidade é empiricamente confirmável por qualquer um.

Cada uma dessas decisões, isoladamente, pesa pouco. Somadas – se ainda não vierem outras –, talvez não sejam capazes de decidir uma eleição. Mas, na escala minimalista de uma estratégia que aposta antes na somatória de milhares de ações imperceptíveis do que nos riscos da propaganda espetacular, elas vêm engrossar o caudal da “revolução cultural” gramsciana, a mutação sutil e persistente dos padrões de percepção do povo brasileiro, cujos resultados, em São Paulo e em outras cidades importantes, já estão em vias de se traduzir em resultados eleitorais superficialmente limpos e profundamente sujos.

É impossível não ver simultaneamente um efeito da “grande marcha” na greve da polícia pernambucana, claramente ilegal e insurrecional, e em mil e um outros fatos que parecem isolados, mas cuja origem comum está sempre num funcionalismo público bem adestrado para trabalhar contra quem paga seu salário.

Em 26 de outubro de 2000

Estado Policial Ya

26 de octubre de 2002 | O Globo

El PT, ansioso, no quiere esperar a la toma de posesión de Lula para instaurar en este país el Estado policial de sus sueños cubanos. El Sr. André Singer, asesor del candidato petista, está haciendo lo posible por condenar a cinco años de cárcel a todo internauta que haya emitido o reenviado e-mails con mensajes anti-Lula, en una gama que va desde las noticias falsas hasta los meros chistes. El partido mismo se ha encargado de seguir el rastro de los culpados. Su número subirá fatalmente a algunos miles. En pocas semanas, el estreno petista en el poder habrá superado con mucho a la dictadura militar, que en veinte años no hizo más de dos mil presos políticos.

Pero no se puede acusar al PT de obsesión punitiva. El partido realiza también vigilancia policial preventiva: a los propietarios del site http://antilula.blogspot.com/ se les ha aconsejado cerrarlo para evitarse un proceso. El aviso ha provenido de un cierto “Grupo de Represión a Actos de Intolerancia”, nombre que es novilingua en estado puro.

Yo también tengo que hacer una advertencia: hace años que militantes y simpatizantes petistas están difundiendo en internet palabras injuriosas y chismes espeluznantes sobre mí, mucho peores que lo que se haya podido decir de Lula. Ya me han llamado de todo, desde neonazi hasta agente sionista, a parte de enviar mensajes falsos en mi nombre a varios forum de debates, de prometerme un lugar de honra en el paredón y de notificar al distinguido público que desde hace treinta años no trabajo, sino que vivo de la explotación de mujeres. Por falta de tiempo, de dinero y de estómago, nunca he tomado ninguna iniciativa judicial contra esas criaturas, pero, ojo, que el Sr. Singer me acaba de dar una buena idea...

La naturalidad con que esa gente petista se permite las libertades más abusivas, haciendo ademán de dignidad ofendida cuando alguien esboza una respuesta incluso tímida, es, con toda evidencia, prueba de ese total desprecio al prójimo, de ese egocentrismo tosco y ciego que caracteriza a los sociópatas. No es que en eso haya algo raro, pues todas las militancias ideológicas de los tiempos modernos nunca han sido más que sociopatía organizada. Lo que sí es característico de ellas es el hábito de juntarse en bandos para vociferar insultos amenazadores y, cuando la víctima confiesa que se siente intimidada, para tildar de “terrorismo” la manifestación de los sentimientos. Como “kapos” de un campo de concentración, los perros guardianes petistas sólo admiten una respuesta a sus ladridos: el silencio contrito, la humildad cabizbaja, la confesión de los pecados seguida de una declaración de amor a Luliña...

Incluso el más somero examen de la retórica petista demostrará que, en materia de lenguaje desbocado y truculento, no tiene rival. En un concurso de “hate speech”, el petismo se llevaría todos los premios. La respuesta de Lula a Regina Duarte ganaría al menos una mención de honor. Por cierto, nadie ve nada de particular en que Lula acuse al presidente de la República de “extorsión” y llame “truhanes”, de una sola tacada, a trescientos parlamentares o a un escritor cubano que ni lo conoce. Pero si uno de nosotros responde que él es un iletrado que habla de lo que no sabe, ¡ah, eso no! ¡Es injuria, es difamación, es... terrorismo!

El horror anti-bachiller que exhiben algunos intelectuales del PT ante la exigencia de un título para su candidato es puro fingimiento malicioso. Cuando yo empecé a publicar libros de filosofía y obtuve cierto éxito, la misma pandilla cayó sobre mí con palos y piedras, por mi osadía de hacerlo sin “título de filósofo”. Bachillerismo por bachillerismo, algunos bichos, de hecho, son más iguales que otros...

Pero, volviendo de la hipocresía a la prepotencia: el PT hasta ha nombrado ya un fiscal-mayor para vigilar y punir todo lo que se escriba contra Lula. Desde Felinto Müller nadie ejercía tan alta función inquisitorial en este Brasil. Incluso en tiempo de los militares, cuando alguien inventaba chistes sobre el general Costa e Silva, el único riesgo que corría era el de verlos entrar en el repertorio del presidente, quien los coleccionaba y releía, divirtiéndose la mar. Pero esa gente del PT se toma a sí misma infinitamente en serio. No sabe reír, sólo dar aquellas carcajadas forzadas de las bromas de colegio. Cuando quiere dejar en ridículo a un adversario, no es capaz de hacer sátira inteligente o ironía sutil: recurre a la hipérbole grotesca, deforme y rencorosa de las viejas chocarrerías comunistas — el equivalente más cercano al sentido del humor en las almas endurecidas por el orgullo y por el odio.

El citado fiscal tiene ya en sus manos una copia de un artículo mío, para examinarlo a fondo en busca de “calumnias” y, probablemente también, de “terrorismo”. Pues que busque. Que intente encontrar en él una sola falsedad, un solo hecho que no esté atestiguado con documentos y que no sea conocido por los medios de comunicación nacionales o extranjeros. Que se divierta con ese deporte macabro de expurgar, echando espumarajos de rencor vengativo, indicios de anti-lulismo. Por mi parte, ya no tengo que buscar más: ya he encontrado y ya he divulgado pruebas fehacientes del compromiso de solidaridad que vincula al Sr. Lula con la narcoguerrilla colombiana, y ni toda la policía mental petista reunida conseguirá borrar de la Historia el rastro de perfidia e hipocresía que ese candidato ha dejado al mentir a toda una nación, negando lo que atestigua su propia firma y demostrando que tiene mucho que esconder.

Por cierto, la mentira, cuanto más esconde, más revela. Dos ejemplos: (1) Inmediatamente después de haber sido publicados mis artículos que transcribían resoluciones del Foro de São Paulo, esos documentos han sido retirados del site de la entidad, con la prisa de los criminales que destruyen las pistas del crimen. (2) Al obtener del TSE la prohibición de que José Serra mencione el caso Farc en el horario electoral, el PT no ha hecho más que imitar un ardil ya probado en Venezuela, años ha, contra el rival de Hugo Chávez.

Son actos que muestran precisamente lo que pretenden esconder: la mano omnipresente del Foro de São Paulo...

Em 26 de outubro de 2002

Español

Um Lembrete Incomodo Para O Vaticano

26 de março de 2000 | Miami, 26 de março de 2000

Prezado Sr. Diretor, Agradecemos antecipadamente a divulgação deste artigo de Armando Valladares, poeta, ex-prisoneiro politico cubano e ex-embaixador norte-americano na Comissão de Direitos Humanos da ONU.

Saudações cordiais, Florentino González, Fundación Valladares, Miami Fundacion@Valladares.as O pedido de perdão que não houve: a colaboração eclesiástica com o comunismo Armando F. Valladares Nos recentes textos de S.S. João Paulo II e de diversos Cardeais, nos quais pedem perdão pelo que consideram como pecados passados e presentes dos filhos da Igreja, não me foi possível encontrar a menor referência à cumplicidade de tantos eclesiásticos com o comunismo, em Cuba e em outros países do mundo, por ação ou por omissão, durante as últimas décadas; tampouco vi referências às devastações provocadas no rebanho católico pelos “teólogos da libertação” de inspiração marxista.

A constatação dessa lacuna protuberante encheu-me de perplexidade e até de angústia. Com efeito, se se trata de identificar e de admitir culpas, que fato houve de mais grave, neste século XX que termina, do que essa colaboração eclesiástica com uma ideologia “intrinsecamente perversa”, responsável pelo massacre de 100 milhões de pessoas? Assim sendo, — e quanto eu gostaria de ser desmentido, não por desqualificações verbais, mas sim de maneira séria e documentada — como, então, explicar essa omissão?

Em relação a Cuba, como num filme de terror me vêm à mente o apoio público do Cardeal Silva Henríquez e dos “Cristãos pelo socialismo” ao ditador Fidel Castro, em 1971, quando este visitara o Chile durante o regime do socialista Salvador Allende; as declarações em Cuba, em 1974, de D. Agostino Casaroli, artífice da Ostpolitik vaticana, então Secretário do Conselho de Assuntos Públicos da Santa Sé e posteriormente Cardeal Secretário de Estado, segundo as quais “os católicos que vivem na ilha são felizes dentro do sistema socialista” e que “em geral, o povo cubano não tem a menor dificuldade com o governo socialista”, negando frontalmente tantas evidências históricas; as declarações em Cuba, em 1989, do Cardeal Roger Etchegaray — então presidente da Pontifícia Comissão Justiça e Paz e hoje presidente do Comitê Central do Jubileu de 2.000 — de que a “Igreja do Silêncio” já não existia mais na ilha-prisão; também em 1989, a carta do Cardeal Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, dirigida a um “queridíssimo Fidel”, na qual afirmava discernir nas “conquistas da Revolução” nada menos que “os sinais do Reino de Deus”; e os reiterados pronunciamentos do Cardeal Ortega y Alamino, Arcebispo de Havana, durante as últimas décadas, em favor de um diálogo de colaboração com o regime comunista.

Quanta coisa mais se disse, de maneira documentada, a respeito da colaboração de tantos eclesiásticos das Américas com o comunismo cubano! Às vésperas do 27o Encontro Interamericano de Bispos, realizado na ilha-presídio de Cuba entre 14 e 16 de fevereiro de 1999, em carta aberta aos dirigentes do CELAM e das conferências episcopais dos Estados Unidos e do Canadá que ali se reuniriam, tive ocasião de afirmar, e hoje o reitero: dificilmente teria sido possível prolongar, durante tantas décadas, a ditadura comunista em Cuba e o martírio do povo cubano, se não fosse, ora por esse silêncio, ora por essa contemporização e até complacência, de tantas figuras eclesiásticas das Américas. Atitudes essas que, em linhas gerais, foram contínuas desde o começo da revolução comunista em Cuba até hoje (cf. Diario Las Américas, Miami, 31-1-1999).

Permito-me acrescentar, no mesmo sentido e num plano mais universal, que inclui o problema cubano, mas o transcende amplamente, um fato que com a perspectiva do tempo resulta estremecedor: a negativa do Concílio Vaticano II de condenar o comunismo, apesar do solene pedido nesse sentido, subscrito por 456 Padres conciliares de 86 países. Durante as sessões do Concílio o Cardeal Antonio Bacci havia advertido sobre a imperiosa necessidade de uma condenação explícita do comunismo: “Todas as vezes que se reuniu um concílio ecumênico, foi para resolver os grandes problemas que agitavam sua época e para condenar os respectivos erros. Creio que fazer silêncio sobre este ponto seria uma lacuna imperdoável, melhor dito, um pecado coletivo. Esta [o comunismo] é a grande heresia teórica e prática de nossos tempos; e se o Concílio não se ocupa dela, poderá parecer um concílio fracassado!” (Acta Synodalia, vol. IV, parte II, pp. 669-670).

De fato, analisar os problemas contemporâneos dos católicos sem referir-se ao comunismo — um adversário tão completamente oposto a sua doutrina, tão poderoso, tão brutal e tão astuto como a Igreja nunca encontrou antes em sua história — seria como se hoje em dia um congresso mundial de médicos se reunisse para estudar as principais doenças sem fazer a menor referência à Aids.

Por todas essas lamentáveis atitudes de tantos e tão qualificados filhos da Igreja, não se pediu perdão de modo explícito. Lamento-o profundamente como católico, como cubano e como uma das incontáveis vítimas.

Desejo manifestar que não me sinto só em minhas perplexidades e críticas a respeito das cerimônias de pedido de perdão. Houve declarações de conceituadas autoridades eclesiásticas e de destacados intelectuais católicos que manifestaram suas dúvidas e até suas discrepâncias sobre aspectos centrais de tais cerimônias, antes mesmo que estas se realizassem há poucos dias. De qualquer maneira, permito-me, uma vez mais, reiterar conceitos expressos aos altos prelados interamericanos reunidos em Havana, em 1999, sobre o direito do católico de manifestar filialmente seus pontos de vista sobre temas tão delicados: a Igreja nunca foi, a Igreja não é, a Igreja jamais será um cárcere para as consciências de seus filhos. Por isso, tenho a certeza de que se saberá compreender estes respeitosos comentários de um fiel católico cubano que, nas masmorras castristas, implorou à Virgem da Caridade do Cobre, Padroeira de Cuba, a graça de rejeitar — ainda ao preço da própria vida — mesmo a menor forma de aceitação da nefasta revolução cubana e a menor aproximação do regime, baseado no ensinamento tradicional da Igreja, que condena o comunismo como “intrinsecamente perverso” e considera “inadmissível a colaboração com ele em qualquer terreno” (Pio XI, Divini Redemptoris).

—————- Armando Valladares, ex-preso político cubano, foi embaixador dos Estados Unidos junto à Comissão de Direitos Humanos de ONU, em Genebra, durante as administrações Reagan e Bush.

Tel.: (305) 3083573 Em 26 de março de 2000

Leituras

Quem Paga

26 de junho de 2013 | Diário do Comércio

De uns tempos para cá, as expressões “extrema direita” e “ultradireita” passaram a ser usadas para carimbar com o estigma do nazifascismo qualquer cidadão ou grupo que se oponha ao abortismo, ao casamento gay ou à proibição de opiniões religiosas na vida pública. Opiniões majoritárias, consagradas pelo uso universal e incorporadas de há muito na prática democrática das nações civilizadas, são assim, repentinamente, movidas para as trevas exteriores, para zona do anormal, do inaceitável e do proibido. A elite iluminada se autoconstitui em medida-padrão do normal e do certo, e, como o dr. Simão Bacamarte no “Alienista” de Machado de Assis, condena o povo inteiro como louco, fanático e extremista.

Essa deformação semântica monstruosa, violência simbólica em estado puro, aparece com notável uniformidade tanto no discurso da esquerda em geral quanto na “grande mídia” da qual essa mesma esquerda, com a hipocrisia de quem sabe que domina os cargos de chefia em quase todas as redações do país, se finge de inimiga e vítima indefesa.

O objetivo da operação é, de imediato, mergulhar a população cristã na “espiral do silêncio”, destituí-la dos meios verbais de autodefesa e, portanto, debilitar sua identidade ao ponto de dissolvê-la por completo. Já é, portanto, um genocídio cultural indisfarçado, cínico, criminoso no mais alto grau, que prepara a oficialização do anticristianismo militante como prática nacional obrigatória e a realização do sonho de Lênin: “Varrer o cristianismo da face da Terra”.

Que uma política inspirada na religião cristã possa ter algum parentesco mesmo longínquo com o nazismo ou com o fascismo é uma crença indefensável sob todos os aspectos, quando mais não fosse pela obviedade de que foi precisamente a derrota do nazifascismo que trouxe ao poder, pela primeira vez na história européia, partidos declaradamente cristãos, a Democracia Cristã na Alemanha e na Itália.

Mutatis mutandis , foram os conservadores católicos e protestantes que, em toda a Europa, pregaram a resistência a Hitler quando os comunistas e esquerdistas em geral preferiam a acomodação, então favorável aos interesses de Moscou, que partilhava com os nazistas o cadáver da Polônia.

A liderança comunista explora despudoradamente a ignorância histórica de seus militantes quando os induz a crer que são “deextrema direita” precisamente aquelas opiniões majoritárias que trouxeram a paz, o equilíbrio e a normalidade democrática ao mundo após o pesadelo da II Guerra Mundial, enquanto, nas zonas ocupadas pelo comunismo, as instituições repressivas criadas pelo nazismo eram simplesmente modernizadas e adaptadas às necessidades de uma ditadura mais astuta e mais eficiente.

Hoje sabe-se, para além de qualquer dúvida razoável, que o nazismo jamais teria crescido às proporções de uma ameaça mundial se não fosse pela ajuda soviética, passada por baixo do pano por anos a fio e camuflada sob um antinazismo de fachada.

Quando os comunistas tentam associar a imagem de seus inimigos conservadores à lembrança do nazifascismo, não fazem senão repetir o procedimento-padrão, estabelecido desde os tempos de Lênin, que consiste em cometer o crime e apagar as pistas rapidamente, lançando as culpas sobre o primeiro bode expiatório disponível antes que alguém sequer suspeite da verdadeira autoria.

Nunca houve nem nunca haverá um comunista bem intencionado, pela simples razão de que o comunismo nega, na base, todo princípio moral e o substitui por uma nova “ética” em que não há outro Bem Supremo acima dos interesses da Revolução, nem outra obrigação moral superior à de fazer crescer, por todos os meios, o poder do Partido.

Todo comunista, sem exceção, é um canalha e um manipulador, pronto a elevar-se ao estatuto de assassino e genocida tão logo, inchado de orgulho, seja convocado a isso pelo clero revolucionário. Ninguém jamais se tornou comunista por amor aos pobres, por idealismo humanitário ou por qualquer outro motivo elevado. Todos entraram nisso movidos pelo desejo de enobrecer-se e beatificar-se pela prática do mal transfigurada em virtude partidária. O comunismo não explora os sentimentos mais altos, e sim o mais baixo de todos, que é o desejo de inverter o senso moral para que cada um se sinta tanto mais santo quanto mais se emporcalhe na mendacidade e no crime.

Novo e oportuno exemplo dessa inversão vem agora do sr. Tarso Genro, que atribui a “grupos pagos de extrema direita” as depredações ocorridas em várias cidades do Brasil. Esse grotesco arremedo de intelectual e escritor sabe perfeitamente bem que os atos de violência ocorreram sobretudo nos primeiros dias, quando havia praticamente só radicais de esquerda nas ruas – estes sim, pagos pelo sr. George Soros e pelo Foro de São Paulo –, muito antes de que qualquer cristão, conservador ou patriota fosse “melar”, como disseram os esquerdistas, o tão bem planejadinho tumulto destinado a forçar um “upgrade” do processo revolucionário comunista.

É o bom e velho “acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”, que os comunistas seguem à risca desde há um século. Como sempre, essa inversão prepara aquilo que eles mais gostam de fazer: perseguir os inocentes, enviá-los à cadeia, matá-los e depois ainda culpá-los.

Tristeza Pura

26 de junho de 2005 | Zero Hora

WASHINGTON – Lendo as opiniões que me chegam pela internet, noto uma radical discordância entre os esquerdistas: uns dizem que o PT virou um bando de ladrões porque se deixou impregnar de direitismo; outros asseguram que o partido é honesto e que a tempestade de denúncias contra ele é uma conspiração da direita.

Entre os antipetistas, a divisão é ainda mais profunda, pois não opõe duas alas distintas e sim duas opiniões antagônicas que se alternam e se engalfinham dentro das mesmas cabeças: cada um jura que o PT está liquidado e cada um já treme de pavor ante a perspectiva de que o cadáver se erga do túmulo nos braços dos “movimentos populares” e instaure o reino triunfante do Leviatã.

A simples existência dessa dupla polaridade de opiniões basta para sugerir que as quatro concepções são falsas. Mas isso não interessa, porque já faz tempo que as categorias do verdadeiro e do falso desapareceram do horizonte mental brasileiro. Sobraram apenas o conveniente e o inconveniente, isto é, aquilo que lisonjeia ou deprime os sonhos políticos do freguês. Na verdade (com o perdão da palavra), isso é o resultado de dois processos concomitantes, que se abateram sobre este país há pelo menos uma década e meia.

O primeiro foi a expansão avassaladora do modo “politicamente correto” de pensar, que inverte o funcionamento do senso moral, dissolvendo na poção ácida do relativismo os critérios fundados na experiência milenar ou na natureza das coisas e consolidando em monumentos de absolutismo pétreo os juízos de aprovação e desaprovação baseados em objetivos políticos ocasionais ou interesses de grupos de pressão. Assim, por exemplo, o genocídio ou o tráfico de drogas podem ser aceitos como procedimentos lícitos, tendo em vista as circunstâncias culturais, mas a rejeição do aborto ou do homossexualismo é invariavelmente um pecado escandaloso, imperdoável. A facilidade com que, sem o mínimo desconforto intelectual, a mente assim formada transita do indiferentismo cético ao mais intolerante dogmatismo é, sem dúvida, uma deformidade espiritual monstruosa. Sua propagação epidêmica é universal, mas, se em toda parte ela encontra resistências firmes e corajosas, no Brasil ela ocupou o espaço cultural inteiro sem ter de enfrentar senão piadinhas de ocasião que só testemunhavam a incapacidade geral de admitir a gravidade do fenômeno.

O segundo fator foi a célebre “campanha pela ética na política”, que, como previ mais de dez anos atrás, não teve outro resultado senão dar eficácia social prática à perversão politicamente correta, corrompendo a capacidade de julgamento moral da população ao ponto de que tornou impossível pensar o bem e o mal exceto como sinônimos respectivos dos “ideais sociais” esquerdistas e dos obstáculos que a eles se opunham, obstáculos que, a despeito da inexistência de qualquer direita organizada no Brasil, infalivelmente eram demonizados como frutos da obstinação reacionária contra a maré montante da bondade petista.

Trabalhada por esses dois fatores, a mente nacional terminou incapaz de avaliar moralmente até mesmo as situações mais simples, e se afoga num lamaçal de conjeturações postiças cuja obscuridade infernal simula as operações de uma inteligência profunda.

Daí as reações desencontradas, irracionais, ao escândalo do Mensalão. De um lado, forçando a realidade até o último limite do absurdo, trata-se de inculpar a direita per fas et per nefas : ou ela cometeu os crimes do PT, ou não há crime nenhum e foi ela quem inventou tudo, numa trama diabólica financiada, é claro, pelos gringos. De outro lado, uma direita esfrangalhada, constituída da mistura impossível de intelectuais inermes com empresários oportunistas e políticos ideologicamente inócuos, se dilacera ainda mais saltando nervosamente do triunfalismo fingido ao terror do apocalipse imaginário.

Ver tudo isso, de longe, é ainda mais triste do que ver de perto. Aí, a confusão e o medo ambientes ainda contaminavam minha visão das coisas. À distância, conheço a tristeza em estado puro.

Em 26 de junho de 2005

Quem Ai Le Noruegues

26 de julho de 2011 | Diário do Comércio

A mídia iluminada está em festa: no meio de milhares de atentados mortíferos praticados por gente de esquerda, conseguiu descobrir o total de um (1, hum) terrorista ao qual pode dar, sem muita inexatidão aparente, o qualificativo de “extremista de direita”. O entusiasmo com que alardeia a presumida identidade ideológica do norueguês Anders Behring Breivik contrasta da maneira mais flagrante com a discrição cuidadosa com que o qualificativo de “extremista de esquerda” é evitado em praticamente todos os demais casos. Mais recentemente, até a palavra “terrorista” vinha sendo banida nos chamados “grandes jornais” do Ocidente, acusada do pecado de hate speech , até que o advento de Breivik lhe deu a chance de um reingresso oportuno e – previsivelmente – momentâneo. Antes disso, tamanho era o desespero da esquerda mundial ante a escassez de terroristas no campo adversário, que não lhe restava senão inventar alguns, como o recém-libertado Alejandro Peña Esclusa, que nunca matou um mosquito, ou espremer até doses subatômicas o limão do “neonazismo” – ocultando, é claro, o detalhe de que os movimentos dessa natureza surgiram como puras operações de despistamento criadas pela KGB (prometo voltar a escrever sobre isso). Breivik saciou uma sede de décadas, fornecendo aos controladores da informação universal o pretexto para dar um arremedo de credibilidade ao slogan matematicamente insustentável de que a truculência homicida é coisa da direita, não da esquerda.

Aos que sejam demasiado tímidos para fazer côro com a difamação explícita, os atentados de Oslo fornecem a ocasião para que essas sublimes criaturas exibam mais uma vez sua neutralidade superior, alegando que “toda violência é igualmente condenável”, que “todos os extremismos são igualmente ruins” e estabelecendo assim, para alívio e gáudio dos campeões absolutos de violência assassina e definitiva humilhação da aritmética elementar, a equivalência quantitativa entre um e mil, um e dez mil, um e cem mil. Isso já se tornou quase obrigatório entre as pessoas elegantes.

Se quando os terroristas são de esquerda qualquer menção a seus motivos ideológicos é suprimida, camuflada sob diferentes denominações ou até invertida mediante insinuações de direitismo (cujo desmascaramento posterior não obtém jamais a menor repercussão na mídia), no caso de Breivik os profissionais da farsa não se contentaram com a mera rotulação: forneceram, do dia para a noite, um perfil ideológico completo, detalhado, definindo o sujeito como uma espécie de Jerry Falwell ou Pat Robertson, e aproveitando a ocasião, é claro, para sugerir que as idéias do Tea Party, desde o outro lado do oceano, haviam movido a mão do assassino.

Que a imprensa norueguesa, em contraste, informasse ser Breivik um membro do Partido Nazista, não mudou em nada a firme decisão geral de pintar o criminoso como um cristão sionista. Afinal, quem lê norueguês? Meu amigo Don Hank, do site Laigle’s Forum , lê, como lê não sei quantas outras línguas – e me repassa notícias de primeira mão que o resto da humanidade desconhece. Não deixar-se enganar, nos dias que correm, exige cada vez mais recursos de erudição inacessíveis à massa dos leitores. A elite farsante não se incomoda de que dois ou três estudiosos conheçam a verdade e a proclamem com vozes inaudíveis: ela sabe que a própria massa ficará contra nós, curvando-se à autoridade universal do engodo e chamando-nos de “teóricos da conspiração”.

Que Breivik fosse ostensivamente maluco é outro detalhe que não atenua em nada o desejo incontido de explicar o seu crime por um intuito político real e literal. Lembram-se de Lee Harvey Osvald? Leves sinais de neurose bastaram para que o establishment e a mídia em peso isentassem o assassino de John Kennedy de qualquer suspeita de intenção política, embora o indivíduo fosse um comunista militante e tivesse contatos nos serviços secretos da URSS e de Cuba, de onde acabara de voltar. Embora Breivik tenha uma conduta ostensivamente psicótica e não haja o menor sinal de contato entre ele e qualquer organização conservadora ou sionista dos EUA, o diagnóstico vem pronto e infalível: um sujeito ser cristão, sionista ou, pior ainda, ambas as coisas, é um perigo para a espécie humana, uma promessa de crimes hediondos em escala epidêmica.

A pressa obscena com que se associa o crime de Breivik ao seu alegado cristianismo também não é refreada pela lembrança de que a mesma associação se fez persistentemente, universalmente, no caso de Timothy McVeigh, autor dos atentados de Oklahoma em 1995, até que veio, tardiamente como sempre, a prova de que o criminoso era muçulmano e ligado a organizações terroristas islâmicas. Veremos quanto tempo transcorrerá até que a pesquisa histórica erga um sussurro de protesto contra o vozerio unânime da mídia internacional.

Fundados na certeza da ignorância popular que jamais poderá desmascará-los, alguns dos diagnosticadores de cristianismo assassino vão até mais longe, deleitando-se em análises profundíssimas segundo as quais a coisa mais danosa e mortífera do mundo, inspiradora dos atentados em Oslo, é a idéia reacionária de combater o “marxismo cultural” – rótulo infamante inventado pela direita para sugerir (oh!, quão difamatoriamente!) que os filósofos da Escola de Frankfurt tinham a intenção de destruir a civilização do Ocidente. Na verdade essa intenção foi proclamada aos quatro ventos pelo próprio fundador da escola, o filósofo húngaro Georg Lukács, mas, como parece que não pegou bem, não custa atribuí-la aos seus inimigos.

Pior ainda: escrevendo num site chamado Crooks and Liars (que só posso atribuir à modéstia de seus editores), o articulista David Newett, ecoando aliás mil comentários no mesmo sentido publicados cinco minutos após a notícia do atentado, informa que o combate ao marxismo cultural é inspirado por abjetos preconceitos anti-semitas, e dá como prova disso o fato de William S. Lind, que se destacou nesse combate, ter informado numa conferência que todos os membros-fundadores da Escola de Frankfurt eram judeus de origem, coisa que eles eram mesmo, como aliás o próprio Karl Marx, e daí?

A implicação do raciocínio não escapará aos leitores mais atentos: Anders Behring Breivik, além de ter matado dezenas de não-muçulmanos por ódio ao Islam, foi também movido por sentimentos pró-judaicos anti-semitas.

Não entenderam nada? Não é mesmo para entender. Já expliquei mil vezes que a técnica da difamação exige atacar a vítima por vários lados, sob pretextos mutuamente contraditórios, para confundir e paralisar a defesa, obrigando-a a combater em dois ou mais fronts ao mesmo tempo e a usar de uma argumentação complexa, com aparência sofística, incapaz de fazer face à força maciça da acusação irracional.

Se alguma dúvida resta na mente dos leitores quanto à realidade da hegemonia revolucionária no mundo, objeto de meus últimos artigos, a uniformidade do noticiário sobre Anders Behring Breivik lhes dá uma amostra de que, mais uma vez, não estou tão louco quanto pareço.

Em 26 de julho de 2011

Perdedores

26 de julho de 2007 | Diário do Comércio

Se os nossos liberais e conservadores quiserem tirar proveito da crescente impopularidade do governo Lula para destruí-lo na base do puro moralismo apolítico, sem vincular a corrupção petista ao esquema revolucionário continental que a origina e explica, só conseguirão um resultado: ajudar a esquerda a limpar-se na sua própria sujeira e a emergir ainda mais forte e prestigiosa da revelação dos seus crimes inumeráveis, pronta para cometê-los em dose ainda maior sob o manto da autoridade moral adquirida mediante um antilulismo de ocasião.

Habituada a um jogo tático provinciano que só cuida de imagem eleitoral e marketing – sem planos de longo prazo, sem estragégia, sem luta pela hegemonia cultural, sem visão das questões mundiais, até mesmo sem militância organizada –, nossa “direita” não pensa senão em aproveitar-se dos momentos de sorte e minar a reputação do adversário sem precisar fazer política de verdade.

Os anos finais da carreira de Antonio Carlos Magalhães deveriam bastar como ilustração do destino que aguarda uma facção política conformada a perder sempre e ainda ser acusada de “dona do poder”.

Quando todos viam no ex-governador da Bahia uma força política invencível, anunciei que o PT não precisaria de mais de cinco minutos para reduzi-lo à total impotência, só não o fazendo porque não o considerava, até então, perigoso o bastante para ter de ser removido da cena. Ao morrer, o grande cacique não tinha mais de nove adeptos na Câmara onde outrora tivera mais de duzentos.

O mesmo afirmei do sr. Paulo Maluf, cuja mais alta ambição política hoje em dia, se alguma lhe resta, é conseguir terminar seus dias fora da cadeia.

Digo agora coisa idêntica dos srs. Aécio Neves, César Maia e demais líderes antipetistas restantes. Cada um deles pode, a qualquer momento e sem a menor dificuldade, ser jogado na lata de lixo da História, sem direito a dizer “ai”. Nenhum deles tem cacife para resistir a um esforço conjugado da esquerda para destruí-lo, coisa que até agora ela só não fez porque não precisou.

O motivo dessa fraqueza congênita é mais que evidente: esses políticos e as forças que os apóiam só têm eleitores, não militantes.

Eleitor é o sujeito que dá uma forcinha ao político, durante alguns segundos, de quatro em quatro anos.

Militante é aquele que luta pelos objetivos do seu partido vinte e quatro horas por dia, que se adestra para isso e se imbui de um corpo de sentimentos de solidariedade grupal pelos quais dá a vida e oferece a morte.

A esquerda tem milhões de militantes, preparados ao longo de quarenta anos. A “direita” tem eleitores ocasionais, volúveis, dos quais muitos votaram em Lula e não hesitarão em votar em Heloísa Helena.

A esquerda faz política nas escolas, nas igrejas, nos lares, nas instituições de cultura e dentro das redações. Faz política até em consultórios de psicologia clínica e aconselhamento matrimonial, injetando fundo seus símbolos e valores nas almas fragilizadas.

A “direita” faz política em editoriais de jornal, em manobras parlamentares e em discursos eleitorais.

A esquerda, tendo conquistado a hegemonia cultural, dirige o processo como um todo. A “direita” se adapta como pode, tentando defender um votos aqui, um carguinho acolá. Isso não é disputa. É derrota mal camuflada.

Nada poderia deixar mais evidente a subserviência – ou suicídio — mental da direita do que a decisão do PFL, quando da sua mudança para DEM, de declarar-se inspirado no modelo do Partido Democrata americano – o partido de Fidel Castro, Hugo Chávez e George Soros.

Analisando Ciro Gomes

26 de julho de 2002 | 26 de julho de 2002

Se a eleição fosse hoje (segundo turno), Ciro seria o eleito, asseguram as pesquisas de opinião. Como seria eventualmente o seu governo? Que forças sustentam a sua candidatura? Quais as crenças do candidato, a sua filosofia política?

Penso que o primeiro passo é separar o que é esforço eleitoral do que seria o governo de fato. Esse esforço compreende uma espécie de ônibus de apoio, no qual entra qualquer um, num leque que vai da esquerda (PPS, PDT, PSDB) ao centro, (PTB) e a direita (PFL). Considero essa classificação um tanto enganosa. No fundo, todos esses partidos são patrimonialistas e se opõem a uma plataforma de corte liberal. São todos amantes do Estado grande e acreditam que as soluções para os problemas do País passam pelo agigantamento do Estado ou, pelo menos, na manutenção do seu tamanho atual.

E o candidato? Penso que Ciro acredita nisso também, mas tem todos os elementos para fazer um julgamento mais crítico do fetiche estatal: governou (quem vive o Levitam por dentro e tem um mínimo de discernimento compreende com rapidez os limites da ação estatal) durante muito tempo, é membro de um grupo político chefiado por um empresário (Tasso) e é oriundo de uma família tradicional da política. A primeira conclusão é que dele não se deve esperar sobressaltos que possam colocar as relações de propriedade em risco.

O ideário político até agora ventilado é socialista e patrimonialista, especialmente através de suas falas na TV e nos artigos do guru Mangabeira Unger. Eu não levaria a sério o seu conteúdo, pois acredito não passar de propaganda eleitoral. Para mim é coisa postiça na boca do candidato.

Um eventual governo Ciro, assumindo na conjuntura que está posta, será marcado pelo conservadorismo na condução dos orçamentos públicos e por decisões visando a minimização da crise econômica, com ênfase na crise cambial. Os graus de liberdade de qualquer governante que venha a assumir o poder serão pequenos, pois terá necessariamente que buscar caminho para superar o estrangulamento externo, a inflação e o déficit público. Ciro provavelmente trilhará o caminho da racionalidade, o que equivale a dizer que os seus dois primeiros anos serão de recessão, não porque queira ou goste, mas porque não há alternativa. Com certeza um acordo com o FMI deverá ser feito, pois a alternativa seria a moratória técnica, o que não seria bom para ninguém.

Na verdade, as virtudes que vejo no candidato serão mais “negativas”, no sentido do que não fará: não tentará ir contra o mercado, não atentará contra a propriedade privada, não elevará a carga tributária, não multiplicará os ditos programas sociais. Não é pouca coisa perto do que fariam os seus adversários, especialmente Lula. Um governo Ciro será conservador e provavelmente contará com as condições de governabilidade, na medida em que fará o jogo político das elites tradicionais, o que também não é pouca coisa, perto da ruptura que seria um eventual governo Lula, um tumulto político sem fim.

Ciro certamente não fará um governo que seja o sonho político de um liberal, mas certamente não é um incendiário. É essa a inclinação do eleitor médio brasileiro e seu governo será certamente a expressão desse eleitor. É, com certeza, a melhor escolha entre os nomes postos para a eleição.

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP Em 26 de julho de 2002

Leituras

A Colera Dos Imbecis

26 de janeiro de 2014 | Diário do Comércio

Depois das investidas ferozes contra o meu “O Imbecil Coletivo”, em 1997, nas quais só conseguiram exemplificar o que eu dizia no livro, os mais destacados intelectuais de esquerda preferiram entrar num mutismo preventivo, para não se expor a novos e mais catastróficos vexames. O único dentre eles que voltou a tocar no assunto OIavo de Carvalho foi o Ricardo Mussi, mas veio falando de mim num tom respeitoso que revelava algum bom-senso e contrastava com a presunção louca daqueles primeiros e desastrados críticos. Depois, vendo que a intelectualidade nacional não podia me fornecer um antagonista à altura, decidiram importar um, o prof. Alexandre Duguin, que também não conseguiu se sair muito bem mas teve ao menos a hombridade de reconhecer que o debate fôra “duríssimo”, contrastando, nisso, com a empáfia histriônica daqueles que saiam com o bumbum esfolado jurando que haviam batido com ele no meu pé.

Até hoje a situação está mais ou menos assim. Quem tem alguma reputação evita arriscá-la num confronto que se revelou letal para seus antecessores Leandro Konder, Emir Sader, Carlos Nelson Coutinho, Alaor Café e muitos outros. Só quem ainda ousa falar de mim com ares de superioridade desafiadora são precisamente indivíduos que não têm reputação nenhuma e que esperam angariar alguma por meio de uma disputa suicida, como jovens pistoleiros desmiolados nos filmes de faroeste.

Esses saem vencedores de algum modo, porque são tão numerosos que se torna impossível responder-lhes a todos, de maneira que sempre haverá um ou outro que passe a ostentar no seu currículo imaginário a glória de ter afugentado o oponente mais velho que lhe recusou uma resposta ou não chegou nem mesmo a tomar ciência do desafio.

“Derrotar o Olavo de Carvalho” tornou-se, entre milhares de estudantes universitários – e, horresco referens, alguns professores –, uma obsessão incurável e a glória máxima a que aspiram. Lamentavelmente nunca sugerem alguma questão específica a ser debatida, preferindo conceder-me a dupla honra de ser ao mesmo tempo debatedor e assunto dodebate.

Mas, precisamente porque aquilo que os move é o ódio ao oponente e não o interesse genuíno por algum tópico de discussão, quase todos entram em campo contestando algo que imaginam que eu disse, e não o que eu realmente disse. O empenho guerreiro que colocam em furar as bolhas de sabão que eles mesmos sopraram é a reprodução exata da fúria com que um peixinho beta investe contra sua própria imagem no espelho.

Não é que apenas me julguem sem ter lido meus livros. É que se recusam terminantemente a lê-los e consideram mesmo ofensiva a sugestão de que deveriam fazê-lo antes de me julgar. É como se vissem nesses livros uma ameaça sinistra da qual devem fugir por todos os meios, um poder de persuasão diabolicamente irresistível, de cujo contato devem preservar suas almas para não corromper — vade retro! — a pureza da sentença condenatória que já assinaram.

Na verdade, a adivinhação paranóica de poderes malignos já evoluiu para a conjeturação de como me enviar para a cadeia, não importa por qual crime inexistente ou impossível. O sr. Sebastião Nery sugeriu, tempos atrás, “falsidade ideológica”, porque dou cursos de filosofia sem possuir “diploma de filósofo”, ainda que, em vez de ostentar um título falso como o fez a nossa presidenta ( ver aqui ), eu me gabe publicamente de não possuir nenhum nem havê-lo desejado jamais. O sr. Paulo Ghiraldelli informa a um estupefato mundo que meus alunos vêm à minha casa não para estudar, e sim para satisfazer os meus instintos lúbricos de velho sátiro, e até pagam para isso, tão irresistíveis são as minhas artes de sedução. Um tal sr. Alexandre Melo, cuja página do Facebook acabou aliás sendo fechada por isso, raciocina na mesma direção e insinua que se trata de crime de pedofilia, infelizmente sem explicar aos perplexos leitores como se pratica esse delito com pessoas adultas.

São só três exemplos no meio de centenas. Sob os risos de inumeráveis leitores, cada um se degrada e se esculhamba entre gemidos de prazer masoquista, afogando-se mais e mais na latrina onde pretendia me depositar.

Como explicar essa descida voluntária da inteligência esquerdista até abismos de autodestruição onde o próprio Satanás teria alguma dificuldade de respirar?

A hipótese que me ocorre é a seguinte. Até os anos 60 a esquerda era uma minoria insatisfeita em luta contra o establishment acomodado. Tinha, por isso, alguma mobilidade intelectual, seguia o debate cultural mais amplo e, no mínimo para se posicionar contra, lia atentamente os livros de seus adversários locais e internacionais.

À medida que foi se concentrando na luta e depois no exercício dopoder, fechou-se em si própria, numa busca obsessiva de autoconfirmação e na reiteração de chavões necessários ao adestramento da militância animalizada, e simplesmente perdeu o pé no mundo da alta cultura. Já não entende o que se fala fora dos seus círculos internos, e, não entendendo, reage com a impulsividade cega e louca de quem nada tem a dizer, só a maldizer. O melhor que tem a objetar ao autor de alguma idéia que lhe desagrada é ensejar que vá preso ou morra.

Não tenho dúvida de que, mais cedo ou mais tarde, passarão dodesejo à ação, como sempre fizeram em todos os países que governaram e fazem ainda naqueles em que mandam.

Queda De Braco 2

26 de janeiro de 2012 | Diário do Comércio

Hoje, quinta-feira, 26 de janeiro de 2012, é a data marcada para Barack Hussein Obama comparecer ao Tribunal Administrativo da Geórgia e apresentar documentos que comprovem ser ele um cidadão nativo dos EUA, admissível portanto na lista de candidatos presidenciais naquele Estado.

É a segunda vez na história americana que um presidente da República é intimado a comparecer em juízo. A primeira foi em 1974, quando Richard Nixon teve de depor como testemunha no processo contra seu assessor John Erlichman e acabou ele mesmo se dando muito mal.

Os advogados de Obama tentaram livrá-lo do vexame alegando que os Estados não têm jurisdição sobre as eleições federais, o que é verdadeiro em tese, mas falso no caso concreto, porque admitir ou rejeitar candidatos nas listas eleitorais é de atribuição exclusivamente estadual. Argumentaram também que comparecer à audiência iria tomar o tempo precioso de um presidente ocupadíssimo, o que chega a ser cômico, pois, entre todos os presidentes americanos, Obama tem sido o recordista absoluto de férias, viagens de turismo pagas com dinheiro público, festas milionárias e longas temporadas de golfe, tendo merecido os apelidos de “Turista-em-chefe” e “Golfista-em-chefe”.

Qualquer que seja o caso, o juiz Michael Malihi rejeitou o pedido de dispensa e intimou Obama a comparecer de qualquer modo.

Muito provavelmente Obama não irá. Não irá, pelos seguintes motivos:

1) Ele não tem nenhuma prova de que é cidadão nativo, condição sine qua non para ser admitido como candidato presidencial segundo a Constituição Americana. Pelo menos desde uma sentença de 1875 a Suprema Côrte define como “cidadão nativo” o indivíduo nascido de pais (no plural) americanos, em território americano. A definição foi confirmada por uma decisão unânime do Senado, subscrita pelo próprio Obama em 2008. Segundo a certidão de nascimento divulgada pela Casa Branca, o pai de Obama nasceu no Quênia, sendo portanto súdito britânico. A única prova que o presidente pode alegar, a famosa certidão de nascimento, mesmo se admitida como autêntica, demonstra exatamente que ele não é cidadão nativo de maneira alguma. Tanto é assim que ele só tem conseguido se livrar dos processos de inelegibilidade, desde antes das eleições de 2008, mediante o apelo a tecnicismos jurídicos que se esquivam de entrar no mérito da questão.

2) Se a certidão de nascimento prova exatamente o contrário do que Obama desejaria provar, ela também não pode ser alegada em juízo por uma segunda razão: praticamente todos os peritos que a examinaram asseguram que ela é falsa. Os indícios de forjicação são tantos e tão patentes, que tudo o que os acusadores de Obama mais desejam no mundo é que ele apresente esse documento no tribunal, transformando um processo administrativo de inelegibilidade num processo-crime por fraude documental ( forgery ), que será certamente o maior escândalo político da história americana.

3) Não comparecendo, Obama pode ganhar tempo, esperando que o juiz Malihi repasse o processo a uma instância superior e esticando a embromação até as eleições de novembro. Mas há algum risco de que o próprio tribunal da Geórgia, tendo em vista a ausência de provas de elegibilidade, suprima o nome de Obama da lista de candidatos, tirando-lhe milhões de votos e dando um exemplo que poderá ser seguido em outros Estados.

Até agora, a disputa da elegibilidade tem sido uma queda-de-braço entre a letra da lei e a dificuldade política (alguns diriam: impossibilidade absoluta) de aplicá-la contra a força maciça de um presidente que tem a seu favor a totalidade da grande mídia, o aparato repressivo do Estado e uma vasta militância alimentada por financiamento bilionário, incomparavelmente superior ao de seus adversários. Nada me tira da cabeça que Obama foi posto na presidência por pessoas perfeitamente cientes da sua inelegibilidade, com o propósito específico de minar o sistema constitucional americano. Posso estar errado, mas a hipótese de que ninguém tenha reparado nas conseqüências legais da nacionalidade estrangeira de Obama pai é demasiado louca para ser verdade. Tanta inocência assim não existe no planeta Terra.

Qualquer que seja o resultado de hoje, a dupla questão da elegibilidade e da falsidade documental continuará sendo investigada na comissão nomeada pelo xerife do condado de Maricopa (Arizona), Joe Arpaio, a pedido de eleitores da região. O próprio Arpaio foi intimado a depor no tribunal da Geórgia, mas já anunciou que não tem nada a dizer antes do término das investigações, marcado para fevereiro. Tão logo noticiado o início dos trabalhos da comissão, o governo federal reagiu ameaçando abrir um inquérito contra Arpaio por suposta “discriminação contra hispânicos”, mas, solicitado a apresentar provas, recusou-se a fazê-lo e depois começou a amolecer, buscando um “diálogo” com o xerife.

Em 26 de janeiro de 2012

Onde Estao Os Cinco Justos

26 de janeiro de 2010 | Diário do Comércio

No seu editorial de terça-feira passada, o Estadão choraminga que “a Segunda Conferência Nacional de Cultura, programada para março, foi concebida como parte de um amplo esforço de liquidação do Estado de Direito e de instalação, no Brasil, de um regime autoritário. O controle dos meios de comunicação, da produção artística e da investigação científica e tecnológica é parte essencial desse projeto e também consta do Programa Nacional de Direitos Humanos”.

São verdades óbvias, impossíveis de desmentir. Mas vêm tarde demais. Quem há de deter a ascensão do autoritarismo esquerdista num país onde as facções “de direita” se enfraqueceram tanto que já nem podem lançar um candidato presidencial próprio e só lhes resta escolher o “menos esquerdista”, sem nem mesmo ter a clara certeza de que essa gradação hipotética corresponde a uma realidade ou a uma falsa esperança? Esperança que, diga-se a bem da justiça, o próprio escolhido não pode ser acusado de alimentar em ninguém.

Já passaram por essa mesma humilhação em 2002, e nem isso bastou para alertá-las quanto à gravidade do estado de coisas. Ao contrário, não houve, no meio delas, quem não celebrasse como apoteose da democracia aquilo que foi, com toda a evidência, uma farsa esquerdista calculada e montada para pregar o último prego no caixão da direita com a anuência servil e até festiva da própria vítima. Quando uma facção politicamente destruída não tem sequer a coragem de confessar o desastre, isso significa que internalizou a derrota ao ponto de já nem mais poder pensá-la como tal. Sai da competição e, apegando-se à mentirinha tola de que a surra brutal foi apenas uma brincadeira entre amigos, passa a disputar nada mais que um lugar de sparring na academia do adversário.

Foi precisamente nessa condição que o sr. Alckmin subiu ao ringue eleitoral em 2006: desmanchando-se em demonstrações de polidez e bom-mocismo, omitindo-se de denunciar os crimes do partido adversário, não concorreu com ele senão para ajudá-lo a ocultar sob um manto de respeitabilidade postiça o sangue e as fezes que então, decorridos dezesseis anos da fundação do Foro de São Paulo, já o manchavam até à raiz dos cabelos.

Nunca um candidato foi tão vulnerável, tão fácil de derrotar quanto o foi o sr. Luís Inácio Lula da Silva nos dois últimos pleitos. Para destruir não somente sua candidatura, mas todas as suas ambições políticas quaisquer que fossem, bastaria mostrar, nos debates da TV, o compromisso de ajuda integral que ele assinara com a narcoguerrilha colombiana em 2001 e perguntar se, no governo, ele pretendia ser fiel à sua aliada, traindo os eleitores brasileiros, ou cumprir as leis do país e tornar-se alvo do ódio do Foro de São Paulo inteiro. Se o candidato nominalmente de direita tivesse feito isso uma vez, uma única vez, ele seria hoje presidente da República, e não haveria nenhuma “Conferência Nacional de Cultura” ou “Plano Nacional de Direitos Humanos” para assombrar as noites dos editorialistas do Estadão . Em vez disso, o sr. Alckmin preferiu dar a impressão de que tudo o que o distinguia do seu adversário eram miúdas diferenças políticas entre cidadãos igualmente decentes, igualmente democratas, não separados nem mesmo por alguma divergência ideológica substantiva.

Mas estou sendo injusto com o sr. Alckmin. Ele não foi o único que, sob o pretexto de “manter alto o nível do debate”, elevou aos píncaros a imagem de um inimigo que, já então, chafurdava gostosamente, fazia uma década e meia, no lamaçal da aliança entre crime e revolução, protegido do olhar curioso do eleitorado pelos bons préstimos de toda a “grande mídia”, de todos os partidos políticos, de todos os comandantes militares, de todas as igrejas, de todos os intelectuais, de todos os “formadores de opinião”.

O sr. Alkmin não teve culpa nenhuma senão a de ser igual, em coragem e senso de responsabilidade histórica, a praticamente todos os demais líderes da “direita”. As exceções contavam-se e contam-se nos dedos de uma só mão, mas duvido que a completem. Se há cinco justos na direita brasileira, digam-me quem são eles, e expliquem por que não escolhem um deles como candidato na próxima eleição presidencial.

Em 26 de janeiro de 2010

A Farsa Da Farsa

26 de janeiro de 2002 | O Globo

No famoso “Imposturas intelectuais”, Alan Sokal pôs em teste a erudição científica dos mestres da esquerda contemporânea — Althusser, Foucault, Derrida, Lacan et caterva — e demonstrou que eram todos charlatães da mais baixa espécie.

O historiador australiano Keith Windschuttle, em “The killing of History”, prova que em matéria de conhecimentos históricos eles não se saem nada melhor. Somem-se a isto os impiedosos exames lógicos empreendidos por Roger Scruton em “Thinkers of the new left” e a descrição apocalíptica que em “Tenured radicals” Roger Kimball apresentou da devastação mental das universidades americanas submetidas à influência desses gurus, e sobra no fundo de tudo apenas uma pergunta: como foi possível que durante meio século a intelectualidade esquerdista, a casta letrada mais pretensiosa que já existiu, a que mais candidamente se arrogou a missão de guiar o mundo, se deixasse por sua vez guiar pelos mais estúpidos, perversos, mentirosos e incapazes?

A resposta é que estamos diante de um fenômeno coletivo de racionalização neurótica, com todas as conseqüências letais que o esforço de fugir da realidade pode ter sobre a inteligência humana. “Neurose é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita”, dizia meu falecido amigo Juan Müller, um gênio da psicologia clínica. Quando o vendaval de fatos em torno ameaça remover a mentira de dentro do entulho inconsciente, a alma se agarra a subterfúgios cada vez mais desesperados, mais inconseqüentes e mais tolos para evitar o choque da luz, a revelação libertadora da culpa longamente negada.

A culpa, no caso, não poderia ser mais incontornável. Por toda parte onde conquistou o poder, o socialismo provou a essência maléfica e genocida dos ideais pretensamente lindos que o inspiravam.

Explicar cem milhões de mortos, o Gulag e o Laogai como efeitos acidentais e epidérmicos da aplicação de idéias que em si permanecem sublimes e generosas é mais do que pode o discurso humano.

Moralmente, socialismo e nazismo são indiscerníveis. Querem um exemplo? Leiam Máximo Gorki, o piedosíssimo Gorki de “A mãe”, que até hoje arranca lágrimas da militância pueril e senil. Ele aconselhava a seus companheiros de luta: “O ódio de classe deve ser cultivado por meio da repulsa orgânica ao inimigo, enquanto ser inferior, enquanto degenerado não somente no plano moral, mas no físico.” O doutor Goebbels não o diria com mais brilho. Partindo daí, como não concluir com Sartre que Robespierre, aquele frouxo, não matou gente o bastante?

Ter empenhado toda a força dos seus talentos na defesa de semelhante monstruosidade fez de gerações inteiras de intelectuais de esquerda cúmplices de crimes contra a espécie humana, exatamente no sentido em que esses crimes são definidos no Código Penal da própria pátria dos Sartres e Bourdieus: “Deportação, escravização ou prática sistemática e em massa de execuções sumárias, de tortura ou outros atos inumanos, inspirados por motivos políticos, raciais ou religiosos, segundo plano concertado contra um grupo de população civil.”

O pertinaz embelezamento do genocídio é culpa suficiente para alimentar na alma da intelligentzia esquerdista o terror ante a mera possibilidade de um Julgamento de Nuremberg para os crimes do comunismo. Desde 1956, com o Relatório Krutchov, esse terror veio crescendo, até atingir a máxima intensidade com a queda da URSS e a abertura dos arquivos de Moscou. À medida que ele crescia, enrijeciam-se as defesas neuróticas, proliferavam os subterfúgios, superavam-se em inventividade os contragolpes retóricos e as manobras diversionistas.

Tudo o que a casta letrada esquerdista escreveu e disse desde a década de 50 não passa de uma sucessão de encenações desesperadas para escapar à consciência de suas culpas. Tudo: chantagens morais, intimidações de testemunhas, afetações histéricas de horror ao liberalismo, acrobacias lógicas concebidas para separar de suas conseqüências históricas um platônico marxismo ideal. In extremis, apelou-se à demolição da lógica, da linguagem e da cultura. Quando já não se pode negar a realidade, resta destruir o próprio senso da realidade. Não sendo possível apagar a luz, furam-se os olhos da platéia. Se toda a humanidade aderir à semiótica, ao desconstrucionismo, à etno-história, ao relativismo, ao historicismo absoluto etc., ninguém mais poderá associar com certeza razoável as idéias aos atos, os atos às conseqüências: tudo se tornará incerto, e ninguém mais terá de suportar a medonha consciência de ter feito o que fez. A elite esquerdista terá livrado sua cara, à custa de mergulhar a Humanidade nas trevas.

Os reflexos dessa alucinação auto-induzida dos intelectos mais covardes e mendazes que já ocuparam o cenário público do Ocidente vão parar longe — e quanto mais longínquos, mais grotescos. Nem um perfeito charlatão pode competir, em ridículo e miséria, com macaqueadores de charlatães: tal é a diferença entre a intelligentzia esquerdista da Europa e a do Terceiro Mundo. A farsa do centro repercute, na periferia, como imitação de farsa. Farsa da farsa. Se num Althusser ou num Foucault a mentira existencial conservava ao menos a autenticidade da tragédia interior que ela encobria, já nem esse farrapo de dignidade resta a seus imitadores tupiniquins. Os efeitos sociais de seu duplo fingimento são portentosos: toda a história cultural e política do Brasil nos últimos quinze anos pode ser descrita como a progressiva perda, pelas classes falantes, do mais elementar discernimento moral, diluído na mistura de tagarelice pseudo-intelectual nas universidades e de vociferação pseudo-ética nos palanques.

No auge da pantomima, aqueles que ensinaram aos delinqüentes a técnica dos seqüestros e os princípios da organização paramilitar; que durante quarenta anos adularam a alma criminosa até instilar nela o orgulho autobeatificante e a ambição de poder sem limites; que apregoaram do alto das cátedras e dos púlpitos o desprezo a toda moral, a toda lei, a toda autoridade; que assim colocaram a sociedade inteira no banco dos réus ante um júri de assassinos e seqüestradores — esses mesmos, quando o monstro que criaram escapa de seu controle e se volta contra alguns deles, de repente aparecem em público travestidos de paladinos da ordem. Choram por seus companheiros mortos o que nunca choraram por milhares de vítimas de seus pensamentos, transmutados em ações cruentas pelo fértil convívio na Ilha Grande. Nos seus rostos, nenhum sinal de arrependimento. Nenhuma dúvida, nenhuma inquietação moral. É que para ter problemas de consciência seria preciso ter consciência. Livres desse mal, partem para a terça-feira gorda do longo carnaval sangrento envergando sua nova fantasia com a naturalidade de quem tivesse nascido dentro dela. Disto, nem os mais escorregadios charlatães parisienses seriam capazes. A mentira brasileira tem profundidades que seus próprios modelos desconhecem.

Em 26 de janeiro de 2002

Cale A Boca Farsante

26 de fevereiro de 2009 | Diário do Comércio

Em entrevista divulgada pela agência Carta Maior , José Luís Del Roio, 65, brasileiro transfigurado em senador na Itália pelo Partido da Refundação Comunista entre 2006 e 2008, protesta contra a insistência do governo italiano em obter a extradição de Cesare Battisti: “O Brasil não pode entregar um homem inofensivo a um governo fascista”, diz ele. Del Roio adverte que o governo Berlusconi está trazendo o fascismo de volta à Itália e tentando criminalizar como terroristas os heróis da luta revolucionária comunista.

A imaginação popular está tão bem adestrada na deformação gramsciana do senso das proporções, que poucas pessoas notam o grotesco da situação quando um comunista adverte contra os perigos do fascismo italiano. Como o leitor pode observar no meu artigo anterior, o regime de Mussolini nem mesmo entra na lista dos poderes genocidas que marcaram o século XX como a etapa mais sangrenta da história humana – lista na qual os governos comunistas da URSS e da China são responsáveis por mais da metade do total dos assassinatos em massa praticados por autoridades estatais contra suas próprias populações civis.

Os comunistas são os mais freqüentes usuários do termo “fascista” para queimar a reputação dos seus adversários, mas eles sabem perfeitamente bem que lhes falta por completo a mais mínima autoridade moral para isso, não só pelo fato de que o uso monstruosamente elástico que dão ao termo acaba por esvaziá-lo de qualquer sentido identificável, rebaixando-o a mera expressão subjetiva de ódios irracionais, mas também porque, comparado aos feitos homicidas do comunismo, o fascismo italiano, por mais repugnante que seja em si mesmo, começa a parecer um hotel de cinco estrelas. A desproporção entre as culpas do acusador e as do acusado é tamanha, que a única resposta cabível ao sr. Del Roio é:

Cale a boca, farsante . Todo comunista, e o sr. Del Roio não constitui exceção, é cúmplice moral dos crimes mais hediondos já praticados contra a espécie humana, e está, por definição, excluído do rol das pessoas decentes cuja opinião merece ser ouvida com atenção e respeito.

A distância entre o governo Berlusconi e o fascismo é uma coisa tão óbvia que só uma mente deformada não consegue enxergá-la. Para o sr. Del Roio, porém, o mero sentimento de incomodidade que afeta os italianos quando vêem a imigração usada como instrumento de ocupação cultural já é uma prova inequívoca de “fascismo”. Mas mesmo que o gabinete Berlusconi estivesse repleto de camisas-negras e cantasse “Facceta nera” no início de todas as suas sessões, sua periculosidade seria quase nula em comparação com as tradições que o próprio sr. Del Roio representa. Nessas condições, a simples disposição de discutir as opiniões dessa criatura num jornal respeitável já é, de certo modo, corromper a opinião pública, cegando-a para os verdadeiros termos da equação em jogo. Nenhum comunista tem o direito moral de falar em “liberdade”, “direitos humanos” e coisas dessa ordem – nem mesmo quando, na falsidade geral do quadro que ele impinge ao público, alguns fatos se destacam como verdades isoladas. Mas na entrevista do sr. Del Roio não há nem mesmo verdades isoladas. Ele considera um escândalo, por exemplo, que o governo italiano tente neutralizar velhos conflitos históricos recusando-se a endossar a distinção maniqueísta que transforma todos os fascistas em demônios e todos os partiggiani comunistas em heróis angélicos. Como militantes comunistas, os partiggiani carregavam nas costas mais crimes de assassinatos em massa do que Mussolini ousaria sequer imaginar. Se, no contexto local e momentâneo, lutavam ao lado de democratas sinceros contra um regime autoritário, isto não faz deles “combatentes pela liberdade”, mas apenas aproveitadores que tentaram se utilizar de uma aliança com os democratas para substituir o mero autoritarismo de Mussolini pelo totalitarismo de Stalin. Não há mérito nenhum nisso. Há apenas hipocrisia e cinismo, exatamente como nos terroristas brasileiros pagos e treinados por Fidel Castro para trocar o autoritarismo brando e hesitante dos nossos militares por um regime de feição cubana, com um agente da polícia secreta para cada 28 habitantes.

Quando a agência Carta Maior divulga a entrevista do sr. Del Roio sem dar ao leitor a mínima idéia do contexto histórico em que se inserem as suas palavras, ela faz propaganda comunista e desinformação. Não discuto, por demasiado cínica, a tentativa que o entrevistado faz de classificar o autor de quatro assassinatos como “homem inofensivo”. Nem discuto a comparação que ele monta entre Cesare Battisti e os governantes estrangeiros exilados no Brasil, Marcelo Caetano e Alfredo Stroessner. No caso deste último, a comparação, embora juridicamente despropositada, é quase justa do ponto de vista moral. No de Marcelo Caetano, que jamais foi um ditador, mas apenas herdeiro acidental de uma ditadura que ele tentou abrandar por todos os meios, é totalmente absurda. Mas, nos dois casos, equalizar chefes de Estado com um assassino já condenado pela justiça é obviamente capcioso. Nenhum desses dois políticos estava condenado com sentença transitada em julgado, que é precisamente o caso de Battisti – um homem que seus próprios companheiros de militância repelem como assassino feroz indigno de piedade.

No mesmo momento em que a Carta Maior espalha a mensagem do sr. Del Roio como se fosse uma defesa sincera dos direitos humanos, começa em Phnom Penh o primeiro julgamento de um genocida comunista – um dos líderes do Khmer Vermelho –, com meio século de atraso e sem a mais mínima repercussão na mídia internacional. O esforço pertinaz da classe jornalística em toda a parte para ocultar os crimes comunistas sob espantalhos de ocasião como o fascismo italiano ou o ex-ditador chileno Augusto Pinochet é, em si mesma, um crime contra a humanidade. Mas esse crime já se tornou tão rotineiro que já ninguém mais o percebe como tal.

Em 26 de fevereiro de 2009

A Dialetica Da Divida Publica

26 de dezembro de 2001 | 26 de dezembro de 2001

A primeira coisa que governos de programa esquerdista ou populista (quase que sinônimos) fazem ao tomar posse, se as finanças públicas estão organizadas e há dinheiro em caixa é se engajar na gastança, seja elevando a emissão de moeda, seja aumentando impostos, seja, ainda, endividando o Estado. Ao fazer isso, esses governos apenas antecipam consumo e investimentos, comprometendo o futuro, vale dizer, criam um passivo a ser resgatado pelas futuras gerações, na forma de inflação elevada, que precisa ser debelada com arrocho nas contas públicas, e também pela necessidade de estabilizar e mesmo reduzir o endividamento público.

Quando esses governos tomam posse com as finanças públicas em estágio avançado de comprometimento, em desordem, querem ainda assim manter a gastança e sempre vem a tona propostas de elevação da carga tributária, de tabelamento de preços e de calote na dívida pública. A primeira hipótese é as vezes factível, ao preço da escravidão tributária de toda a gente, preâmbulo de revoltas políticas. A segunda é também irrealista, conseguindo apenas a paralisação da oferta, em prejuízo de toda a economia. A terceira, essa é impossível, porque as formas de financiamento do Estado são amarradas em obrigações contratuais que prevêem pesadas sanções. Se o Estado não tem poder militar para enfrentar o resto do mundo, não tem os meios objetivos de impor o calote na dívida externa. Da mesma forma, se tenta tomar os recursos dos portadores de títulos públicos internos, a única coisa que consegue é destruir o mercado de capitais e eliminar a possibilidade de novos financiamentos.

Se o sistema de justiça continuar operante, facilmente serão concedidas decisões obrigando o Estado a honrar os títulos. Para não pagar o que deve aos seus cidadãos só se for instalada a tirania, que leva necessariamente a movimentos de contestação, por vezes armados. Então esse não é o caminho.

A tentativa de calote na dívida externa é uma miragem, não apenas porque os bens do governo ficam à mercê de decisões de arresto em tribunais do exterior, como também acontece o estrangulamento do comércio internacional por falta de financiamento e garantias bancárias para a exportação e a importação, o que leva a um empobrecimento rápido e irreversível do caloteiro. É claro que também não é uma solução.

Na verdade, a sociedade civil e o mercado dispõem de dois instrumentos de poder para enquadrar governos irresponsáveis, que ignoram as leis da boa gestão do setor público. Esses instrumentos são a formação de preços e a cessação de créditos adicionais. Governos irresponsável encontram seu limite na hiperinflação e/ou na bancarrota do crédito público. A Argentina, por exemplo, viveu os dois lados desse processo, primeiro com a hiperinflação até o primeiro governo Menen e o segundo agora, com a incapacidade de honrar seus compromissos internacionais. É inexorável, em face da irresponsabilidade fiscal dos sucessivos governos.

Na verdade, quando esses dois instrumentos são acionados é porque a capacidade produtiva já está ameaçada e o mal-estar coletivo em grau avançado, com desemprego, fome, miséria, desespero, todos os desastrosos sintomas que os populistas usam precisamente para tentar a saída mais rápida, que é a intervenção no mercado, tabelando preços, e declarando moratória e aventando a anulação da dívida.

O Estado, através da classe política e da burocracia, que é o único culpado por tudo, passa a acusar os empresários e os banqueiros por sua própria incúria. E, ao fazer isso, obscurece a realidade, retardando a tomada das decisões corretas e necessárias para a superação dos problemas, quais sejam, a redução do próprio Estado e a liberalização do mercado.

Não há solução fora da boa gestão da coisa pública, principalmente da moeda e do crédito governamental. Tal e qual uma pessoa física ou uma empresa, o Estado tem que zelar pelo seu bom nome. É tudo que os esquerdistas e populistas não querem fazer. É tudo que são obrigado a fazer, queiram ou não. O mercado é o poder em última instância, que acaba por impor a ordem nas finanças públicas, onde ela foi deteriorada.

Em 26 de dezembro de 2001

Leituras

Gilberto Freyre Na Usp

26 de agosto de 2000 | O Globo

Enquanto Aldo Rebelo, Jacob Gorender e eu realizávamos na PUC-SP a nossa pequena “glasnost” intelectual em torno da celebração do centenário de Gilberto Freyre, descongelamento similar preparava-se no mais improvável dos “freezers”: a USP, o foco da mais renitente hostilidade ao autor de “Casa-grande & senzala”, ali execrado como o antagonista reacionário da sociologia paulista, marxista e petista do dr. Florestan Fernandes.

Convidado a participar, pensei: uai, o Brasil civiliza-se. Sim, ma non troppo. A tardia admissão no templo do esquerdismo quatrocentão custou ao morto ilustre um preço escorchante: ser submetido a análises pejorativas, responsabilizado pelos desmandos do governo militar e, o que é pior, celebrado como o maior sociólogo brasileiro... depois do dr. Florestan Fernandes.

“Oh, Peter, você não mudou nada.” A USP também não. Fingindo homenagem, a velhinha só repetiu, entre sorrisos amarelos, as mesmas coisas que antigamente dizia entre esgares de ódio.

Deixando de lado as fofocas restantes, direi o que penso do confronto entre o sociólogo pernambucano e o paulista. Para Gilberto, o Brasil forma uma civilização original, onde a miscigenação avassaladora lançou as bases de um novo modelo de convivência entre raças, tendendo a neutralizar espontaneamente conflitos e diferenças.

Para Florestan, o escravismo criou uma sociedade estratificada, que, ao converter-se de agrícola em industrial, reservou a melhor quota das oportunidades para os brancos, repetindo, no conflito das raças, a luta de classes.

As duas visões correspondem a alguma realidade. Há o Brasil miscigenado e há o Brasil estratificado. Há o Brasil de família multicor e o Brasil onde a maioria mestiça, somada à minoria negra, fica com a parte menor e pior do bolo. Negar qualquer dos dois é maluquice.

A diferença é a seguinte: o que Gilberto apreende são traços profundos, duradouros, que marcam a originalidade de uma cultura em formação e dos valores que ela tem para dar ao mundo. O que Florestan descreve é uma situação temporária, que pela própria evolução econômica vai se dissolvendo e tende a desaparecer.

Essa diferença provém de outra, mais básica: o horizonte de visão de Gilberto é incomparavelmente maior. Ele abarca e transcende qualquer fenômeno particular e datado. Não há dificuldade em assimilar, no quadro gilbertiano, as dificuldades encontradas pelos descendentes de escravos para integrar-se na sociedade industrial. O que não tem sentido é tentar ampliar inflacionariamente esse ponto para fazer dele o princípio de uma interpretação geral do Brasil, oposta e concorrente à de Gilberto.

Na verdade, longe de dar base empírica à hipótese de um Brasil estruturalmente racista, o fenômeno assinalado por Florestan resulta de um acidente alheio a conflitos de raças. Entre a abolição da escravatura e o primeiro surto industrial brasileiro mais de 40 anos se passaram. Nesse período a população negra e mestiça se multiplicou em ritmo formidável sem que se multiplicassem concomitantemente os empregos. Sua exclusão econômica nasceu dessa defasagem. Os negros não ficaram sem empregos por culpa de racistas brancos: ficaram sem empregos porque não havia empregos. Sem trabalho, ficaram também sem instrução e, fatalmente, foram sobrepujados pelos imigrantes que já vinham instruídos e treinados. É burrice ou perversidade apelar a uma rebuscada hipótese acusatória para explicar um fato que já está mais que explicado por uma impossibilidade econômica pura e simples.

Ampliada e generalizada, a analogia florestânica de raças e classes não é aliás nenhuma teoria nova e original. Quando Florestan ainda usava fraldas, em 1933, no ano mesmo da publicação de “Casa-grande & senzala”, Josef Stalin dava ao Comintern a ordem de que os intelectuais comunistas deveriam abordar as relações de raças em termos de luta de classes, para capitalizá-los em proveito da causa comunista. Um sociólogo do Terceiro Mundo atender com três décadas de atraso a um comando stalinista não é propriamente o que se chamaria um grande acontecimento intelectual. Por isso mesmo, vai para o rol dos mitos autolisonjeiros da paulicéia a fama de excelso rigorismo científico da obra de Florestan, que seus devotos alegaram como razão para julgá-la superior ao que chamam “sociologia ensaística” de Gilberto.

Pois Gilberto não apenas dominava todos os métodos sociológicos e históricos conhecidos no seu tempo – e justamente por dominá-los sabia relativizá-los — como também foi o inventor de mais alguns, que as posteriores revoluções científicas acabaram consagrando como conquistas fundamentais. Já o pobre Florestan não fez outra coisa senão meter os pés pelas mãos, com uma mistura de dialética marxista e indutivismo durkheimiano cujo completo non sense foi demonstrado por Alberto Oliva em “Ciência e ideologia: Florestan Fernandes e a formação das ciências sociais no Brasil” (Porto Alegre, Edupucrs, 1997), um livro que na USP ninguém leu – ou, se leu, escondeu.

Não, Florestan não era rigoroso. Ele apenas confundia rigor metodológico com carranca professoral marxista.

O Esquerdismo Veio Para Ficar

26 de abril de 2007 | Jornal do Brasil

A absolvição de Lula e de seus colaboradores pelo Tribunal Superior Eleitoral no caso do dossiê antitucano confirma, novamente, aquilo que já venho dizendo desde antes mesmo da eleição presidencial (e não me refiro à de 2006, mas à de 2002): o PT não veio para ocupar o governo temporariamente, dentro do rodízio democrático normal. Veio para criar um novo Estado, forjado na medida-padrão da sua vontade de poder.

Aqueles que esperam usar as instituições existentes como freio às ambições petistas são sonhadores semidefuntos que já estão na lata de lixo da História e apenas não são inteligentes nem corajosos o bastante para reconhecer sua situação.

As instituições não são nada. O poder esquerdista é tudo.

O esquema que nos governa não será derrubado por meio judicial; não será derrubado por via eleitoral; não será derrubado por golpe militar ou parlamentar; não será derrubado por pressão estrangeira; e não passará sozinho, como um sonho mau, por decurso de prazo.

O PT só deixará o poder quando sentir que a situação está madura para transmiti-lo diretamente às organizações revolucionárias de massa que até agora consentiram em lhe servir de retaguarda paciente e dócil, aguardando a transmutação chavista prometida e, a rigor, inevitável. Esse momento chegará quando aquelas organizações estiverem fortes o bastante para dominar fisicamente o território, com a ajuda de bandos de narcotraficantes associados à guerrilha colombiana (e, por tabela, ao Foro de São Paulo). Elas já provaram ter o monopólio dos protestos de rua, o domínio quase completo do tráfego rodoviário e a capacidade de paralisar cidades inteiras. Faltava o controle do tráfego aéreo, que está sendo providenciado.

O governo petista tem plena consciência de ser uma etapa de transição para a revolução socialista. Sua duplicidade de línguas, sua incoerência alucinante, suas idas e vindas entre o intervencionismo ousado e a omissão abúlica – tudo isso reflete apenas a índole essencialmente ambígua e mutante da sua função histórica.

O PT só deixará o poder quando puder repassá-lo a algo de incomparavelmente pior.

A única força que poderia, em princípio, deter esse processo é a resistência espontânea do povo brasileiro às mudanças rebuscadas e antinaturais que a elite iluminada pretende lhe impor. O povo é conservador e cristão, não gosta de desarmanento civil, abortismo, gayzismo, neo-racismo, feminismo enragé , proibições politicamente corretas e demais frescuras nas quais o típíco pseudo-intelectual ativista imagina ver o suprassumo do progresso e da civilização. O apego desse povo a seus valores de sempre é uma energia tremenda, mas dispersa e marginalizada. Não tem canais de expressão política nem um lugar de respeito na cultura dita superior. Reunir essa energia, dar-lhe consciência de si e transformá-la em ação político-social organizada é trabalho para muitas décadas, que ainda nem começou e que dia a dia se torna mais difícil de começar, graças à traição de um clero vendido ao esquerdismo e dos “direitistas” ansiosos para parecer cada vez mais politicamente corretos.

Em 26 de abril de 2007

Um Discurso

25 de setembro de 2015 | Diário do Comércio

Nada ilustra melhor o estado de coisas numa sociedade do que a linguagem dos seus homens públicos. Aprendi isso com Karl Kraus e até hoje não vi esse critério falhar.

Num de seus últimos discursos, o comandante do Exército, general Eduardo Villas-Boas, afirmou que as Forças Armadas estão conscientes da atual “derrocada dos valores”, mas que sua missão é preservar acima de tudo a “estabilidade” e a “legalidade”.

Ora, se o poder instituído é ele próprio o agente principal da derrubada dos valores – coisa que ninguém mais pode razoavelmente negar –, preservar sua estabilidade é garantir-lhe os meios de continuar a demolir esses valores tranqüilamente, imperturbavelmente, impunemente, sob a proteção de fuzis, tanques e navios de guerra pagos com o dinheiro do povo que ele espolia e engana. É a estabilidade da destruição.

Não creio que essa fosse a intenção subjetiva do general, mas é o sentido objetivo que suas palavras adquirem no contexto real. Lido nessa perspectiva, seu discurso é mais uma amostra do emocionalismo psitacídeo em que se transformou a fala brasileira nas últimas décadas, no qual as palavras valem pelas nuances emotivas associadas diretamente ao seu significado dicionarizado, independentemente dos fatos e coisas a que fingem aludir. Em termos de linguística, o significado usurpa o espaço do referente, que desaparece nas brumas da inexistência.

Quando à segunda expressão, “legalidade”, ela não tem nada a ver com a ordem legal substantiva, já destruída há tempos e que só subsiste na função de referente suprimido: ela visa apenas a marcar a diferença entre os militares de hoje e os de 1964, exigência indispensável do código “politicamente correto” contra o qual o general havia acabado de resmungar umas palavrinhas desprovidas de qualquer efeito objetivo até mesmo sobre o seu próprio discurso.

O general Villas-Boas não é nenhum imbecil e com certeza não é um homem desonesto. O que caracteriza o presente estado de coisas é precisamente que até os homens honestos e inteligentes começam a falar na linguagem dos cretinos e cretinizadores, pelo simples fato de que já não há outra disponível.

A finalidade dessa linguagem é construir aquilo que Robert Musil e, na esteira dele, Eric Voegelin, chamavam de “Segunda Realidade”, uma espécie de mundo paralelo feito inteiramente de significados dicionarizados e sem nenhum fato ou coisa dentro. Uma vez removida para a Segunda Realidade, a mente humana já não serve como instrumento de orientação na realidade genuína, mas conserva apenas duas funções essenciais: o engano e o auto-engano, que passam a vigorar como “ações políticas”, com resultados previsivelmente bem distintos das intenções alegadas.

Os dois milhões de manifestantes que foram às ruas protestar em março e setembro, com o apoio de 93% da população, diziam e berravam da maneira mais clara os nomes dos inimigos contra os quais se voltavam: PT e Foro de São Paulo. Centenas de videos do youtube confirmam isso de maneira incontestável.

A Constituição Brasileira, Título I, Art. 1o., alínea V, parágrafo único, estabelece: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.” Que significa esse “ou diretamente”? Significa que os representantes eleitos, ocupantes do Executivo e do Legislativo, são um “poder instituído”, o qual, por definição, não se sobrepõe jamais ao “poder instituinte”, a massa popular que o criou e que conserva o direito de suprimi-lo a qualquer momento pela sua ação direta.

Como, dos 7% que ainda apoiavam o governo àquela altura, 6% o consideravam nada mais que “regular”, o apoio substantivo de que ele desfrutava era de apenas um por cento. Nunca um governo foi rejeitado de maneira tão geral e avassaladora. Com ele, eram rejeitados também os ajudantes diretos e indiretos que o mantinham no poder contra a vontade do povo: congressistas omissos, juízes cúmplices, mídia chapa-branca.

O povo, em suma, voltava-se frontalmente contra o “sistema” como um todo, sabendo-o aparelhado a serviço do esquema comunolarápio e do Foro de São Paulo, a maior organização subversiva e criminosa que já existiu na América Latina, empenhada em colocar o roubo, o homicídio, o narcotráfico e a mentira em doses oceânicas a serviço da ambição de poder total, não só sobre o país, mas sobre o continente.

O termo “estabilidade” designa uma qualidade, não uma substância. Estabilidade é sempre de alguma coisa, isto é, de uma ordem ou sistema. Ora, nas passeatas de março e setembro havia claramente duas ordens ou sistemas em confronto.

De um lado, a ordem normal e constitucional, em que a maioria absoluta da nação, manifestando sua vontade de maneira direta e inequívoca, exigia o fim das entidades criminosas, PT e Foro de São Paulo. Do outro lado, o sistema federal de exploração, manipulação, roubo e auto-engrandecimento insano. De qual dessas duas ordens o general desejaria “manter a estabilidade”?

Ele não esclareceu esse ponto, que é a substância mesma do assunto nominal do seu discurso. Preferiu o adjetivo sem substantivo, como aliás é de praxe no Brasil de hoje. Acredita piamente ter dito alguma coisa porque a sua linguagem, coincidindo com os usos gerais do dia, soa bem aos seus próprios ouvidos e aos de todos aqueles que não precisam da realidade, só de palavras.

Geracao Maldita 2

25 de setembro de 2006 | Diário do Comércio

Os crimes do partido governante e do seu inocentíssimo chefe ultrapassam tudo o que a imaginação maligna de seus mais odiosos opositores teria podido inventar. As revelações dos últimos dias impõem a conclusão incontornável de que a administração federal, subjugada aos interesses de uma organização partidária auto-idolátrica, se transformou em instrumento para uma variedade alucinante de esquemas delinqüenciais, postos em ação numa escala jamais vista em qualquer parte do mundo ou época da história.

Quando o PT, no início da década de 90, adotou a prática do moralismo acusador que até então tinha sido mais típica da direita (v. Carlos Lacerda, Jânio Quadros e a própria Revolução de 1964), percebi e anunciei claramente que se tratava de um ardil baseado no mais puro cinismo leninista: “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é.” O estilo mesmo das invectivas petistas era tão inflado, tão hiperbólico, tão teatral, que se autodenunciava no ato como camuflagem de alguma perversidade superlativa em curso de preparação. Qualquer ridícula tramóia de políticos de interior para ciscar uns tostões do governo federal, qualquer miúda negociata entre barnabés endividados e financistas ladrões, era denunciada imediatamente como uma “manobra golpista”, um “Estado dentro do Estado”, uma ferida mortal no coração da ordem pública, um perigo apocalíptico para o futuro da nação. Ninguém que desejasse apenas tirar proveito publicitário da desmoralização de seus inimigos exageraria a tal ponto a ênfase da acusação. Tinha de haver algo mais por trás desse esbanjamento retórico.

Investigações que fiz na ocasião levaram-me a concluir que o serviço secreto petista, então denunciado pelo governador Esperidião Amin sob o nome humorístico de “PT-POL”, era uma realidade. Milhares de militantes e olheiros espalhados em partidos, empresas privadas, bancos, organismos da administração federal, alimentavam de informações colhidas ilegalmente a central chefiada pelo sr. José Dirceu, que então as usava para brilhar nas CPIs com revelações espetaculares vindas de fontes anônimas e irreveláveis. Não se tratava, é claro, apenas de brincar de Eliott Ness. O serviço secreto petista já era, por si, uma máquina criminosa de dimensões incomparavelmente maiores do que aquelas que o sr. José Dirceu, em patéticos êxtases de hiperbolismo verbal, atribuía aos réus do momento. Era o Estado dentro do Estado, no sentido literal da expressão, que, camuflando seus crimes sob os alheios, se usava a si próprio como figura de linguagem para ampliar os medíocres delitos dos adversários e lhes dar uma significação política que não tinham. Nada mais interessante do que comparar estilisticamente os discursos da época com as notícias de hoje: os tribunos da moralidade petista nada imputaram a seus microscópicos adversários que eles próprios já não estivessem fazendo ou preparando em dimensão macroscópica. Pequenos delinqüentes eles próprios, tornaram-se gigantes do crime ao erguer-se sobre os ombros dos Anões do Orçamento.

Mais ou menos na mesma época, um dirigente do PT, César Benjamin, era expulso da agremiação por denunciar a criação, pela cúpula do partido, de um esquema de corrupção então ainda em estado germinal. Paralelamente, o PT articulava-se com organizações revolucionárias e gangues de criminosos de vários países do continente, montando o “Foro de São Paulo” como central estratégica devotada ao projeto de “reconquistar na América Latina tudo o que foi perdido no Leste Europeu”, isto é, de reconstruir no continente o regime mais corrupto que já existira no mundo (v.

Nota , no fim do artigo).

Completava o esquema uma rede de apoios jornalísticos solidamente cimentados em lealdades partidárias secretas e na farta distribuição de dinheiro e empregos. A CUT, braço sindical do PT, confessava ter oitocentos jornalistas na sua folha de pagamentos, o bastante para tirar duas edições diárias da Folha , do Estadão e do Globo , embora não publicasse um tablóide semanal sequer.

Como todas essas iniciativas envolviam sempre os mesmos indivíduos – o comando e estado-maior do PT –, era óbvio que elas não constituíam ações separadas e inconexas, mas aspectos da construção integrada de um sistema de poder destinado a engolir o Estado brasileiro e usá-lo para a consecução dos objetivos do Foro de São Paulo.

A existência desse sistema já era visível em 1993, quando José Dirceu e Aloysio Mercadante posavam na CPI das empreiteiras como restauradores da moralidade pública. Quem quer que depois disso ainda tenha confiado na honorabilidade do PT e na sua disposição de disputar eleições lealmente e governar o país em rodízio democrático com os outros partidos, é um irresponsável, um burro, um palpiteiro fanfarrão que, diante das atuais revelações, deve ser excluído do círculo de formadores sérios da opinião nacional e recolher-se à vida privada, senão à privada da vida. Incluo nisto políticos, professores universitários, consultores empresariais pagos a preço de ouro, donos de jornais, chefes de redação e uma coleção inteira de “intelectuais e artistas” de todos os tipos e formatos. Toda essa gente, quando não foi cúmplice consciente do que se tramava contra o Brasil, mostrou ao menos uma futilidade palavrosa que, em matéria de tal gravidade, é um crime tão grande quanto os do PT.

Tudo o que está acontecendo no Brasil de hoje poderia ter sido evitado. Poderia e deveria. Não foi – e, mais do que os próprios delitos petistas, isso ficará como mancha indelével na história da alma nacional. Haja o que houver no futuro, o Brasil terá sido durante quase duas décadas um país de tagarelas levianos, covardes, intelectualmente ineptos, dispostos a sacrificar o futuro do povo no altar de um otimismo vaidoso e da recusa obstinada de enxergar a realidade. O Brasil não foi vítima só de “um grupo”, “uma camarilha”, “uma elite”. Foi vítima de toda uma geração, a mais presunçosa e fútil de todas quantas já nasceram aqui. Essa geração é a minha. Agora entendo retroativamente por que, ao longo de toda minha vida adulta, quase só tive amigos trinta anos mais jovens ou trinta anos mais velhos. Uma desconfiança irracional, instintiva, me afastava dos colegas da minha idade, com exceção de quatro ou cinco puros de coração, visceralmente incapazes de baixeza, alguns dos quais, por significativa coincidência, hoje trabalhando neste Diário do Comércio . Ficar longe dos meus coetâneos foi deprimente e, para a minha carreira nas redações, letal. Mas me livrou de ser cúmplice do maior delito intelectual da nossa história.

Agora, quando a verdadeira índole do petismo já não pode mais ser ocultada ou disfarçada, a presente geração de formadores da opinião pública (refiro-me aos que não foram comprados ou seduzidos pelo PT) corre o risco de repetir esse crime, se presumir que a mera concorrência eleitoral ou mesmo a punição judicial de algumas dúzias dos culpados mais óbvios livrará o país do flagelo e lhe abrirá as portas de um futuro mais digno.

O esquema de corrupção que se apossou do governo federal não é fenômeno isolado. Não é iniciativa de um grupelho autônomo, separado das raízes partidárias. Não é um caso de pura delinqüência avulsa. É parte integrante da máquina revolucionária cuja montagem, se entrou em ritmo acelerado no início dos anos 90, remonta a pelo menos duas décadas antes disso, quando ao fracasso das guerrilhas se seguiu um esforço generalizado de rearticulação da esquerda continental nas linhas circunspectas e pacientes preconizadas por Antonio Gramsci em substituição aos delírios belicosos de Régis Débray, Che Guevara e Carlos Marighela. Quem quer que não conheça essa história com detalhes está por fora do que se passa na América Latina e não tem nenhum direito de solicitar a atenção pública para as opiniõezinhas com que deseje se exibir em colunas de jornal ou encontros empresariais. Está na hora de calar a boca dos palpiteiros irresponsáveis e começar a estudar o assunto que eles ignoram. Incluo entre esses tagarelas o ex-presidente José Sarney e seu ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, que, em plena época de gestação da nova estratégia revolucionária continental, retiraram do currículo das academias militares a disciplina de “Guerra Revolucionária” sob o pretexto de que “os tempos mudaram”, deixando duas gerações de oficiais brasileiros desguarnecidos contra as manobras estratégicas que hoje os usam como instrumentos. Incluo na mesma classificação todos os que, numa fase muito mais avançada do processo de tomada da América Latina pelas forças da esquerda revolucionária, diziam que alertar contra as maquinações do Foro de São Paulo era “açoitar calavos mortos”. Incluo os chefetes de redação que tentaram tapar a minha boca para que eu não perturbasse o lazer de seus leitores com advertências de que viria a acontecer precisamente o que veio a acontecer. Incluo os “liberais” que, vendo montar-se à sua volta a maior organização revolucionária e criminosa já registrada na história da América Latina, insistiam em ater-se a miúdas críticas de ordem econômica e administrativa, como se toda sua diferença com o PT consistisse de polidas divergências doutrinais e estratégicas entre homens igualmente sérios, igualmente honestos, igualmente devotados ao bem do Brasil. O número dos cretinos auto-satisfeitos, que não precisam estudar nada para julgar tudo e ter opiniões definitivas, é grande o suficiente para que o peso do seus rechonchudos traseiros esmague a nação inteira. Toda essa gente é culpada por ter dado ao povo a ilusão de que o PT era um partido normal, respeitador das leis, ordeiro e pacífico. Ele não é nada disso e nunca foi nada disso. Ele já era o partido das Farc, ele já era o partido dos seqüestradores do MIR chileno, muito antes de ser o partido do Mensalão. Muito antes de que brotasse dinheiro em cuécas, a CUT já carregava nas calcinhas seus oitocentos jornalistas, sem que alguém ligasse a mínima quando denunciei isso como a maior compra de consciências na história da mídia universal desde a década de 30. Parafraseando Nelson Rodrigues: a desmoralização nacional não se improvisa, é obra de décadas.

Se, agora, alguém pensa que vai se livrar dessa encrenca com uma eleição e dois ou três processos, está muito enganado. Ninguém empenha décadas da sua vida na construção de um gigantesco esquema de poder, para depois deixá-lo derreter-se e escorrer por entre seus dedos ao primeiro sinal de mudança das preferências da opinião pública.

O que é, substantivamente, o esquema de poder petista? Ele não é apenas uma conspiração de gabinete. Ele se assenta na força da militância organizada que, a qualquer momento, pode colocar nas ruas alguns milhões de manifestantes furiosos, com o apoio de quadrilhas de delinqüentes armados, para impor o que bem entenda a uma nação inerme e aterrorizada. Durante quatro décadas a esquerda desfrutou do monopólio absoluto da formação e adestramento de militantes para a ação permanente em todos os campos da vida social, enquanto seus opositores, confiantes no poder mágico do automatismo institucional, se contentavam com mobilizar auxiliares contratados às pressas para exibir uns cartazes de candidatos nas épocas de eleição. Hoje, a desproporção de força física entre a esquerda e seus opositores é tão grande, que esses últimos têm até medo de pensar no assunto. Novamente, eles se arriscam a confiar no abstratismo das instituições e em vagas “tendências da opinião pública”, contra a massa organizada, adestrada e armada. E novamente eu me arrisco a ser chamado de maluco por advertir contra o perigo óbvio. Qualquer que seja o resultado das eleições, qualquer que seja o desenlace das presentes investigações de corrupção, a gangue petista não vai largar gentilmente a rapadura.

Nota Quem quer que estude um pouco a corrupção no regime soviético notará, de um lado, a desproporção entre seu tamanho e o de seus equivalentes nominais no mundo capitalista; de outro, a sua perfeita continuidade organizacional e hierárquica com a presente “máfia russa”, senhora absoluta do crime organizado no mundo e participante ativa dos atuais esquemas revolucionários no Terceiro Mundo. Não creio que seja possível entender nada do que se passa no mundo sem dar alguma atenção a esse assunto. Os livros básicos a respeito são:

Konstantin Simis, USSR : The Corrupt Society. The Secret World of Soviet Capitalism , New York, Simon & Schuster, 1982.

Alena V. Ledeneva, Russia ’s Economy of Favours. “Blat”, Networking and Informal Exchange , Cambridge Unversity Press, 1998.

Joseph D. Douglass, Red Cocaine.

The Drugging of America and the West , London, Edward Harle, 1995.

Beba Sr Presidente

25 de setembro de 2004 | O Globo

O sr. Luís Inácio da Silva preside um país que mata três vezes mais gente por ano, em tempo de paz, do que os tiros e bombas mataram no Iraque desde o começo da guerra.

Sua política econômica criou menos empregos para seus compatriotas do que o governo dos EUA criou para os iraquianos.

Seus programas sociais fizeram menos pelos brasileiros pobres do que os americanos fizeram pela melhoria das condições sociais num país inimigo.

Contra o crime e a violência, suas vitórias são nulas, sobretudo se comparadas às dos americanos no Iraque. Hoje em dia é mais seguro andar pelas ruas de Bagdá do que no Rio de Janeiro, em São Paulo ou no Recife, pertinho da cidade natal do nosso presidente.

Foi com essa folha de realizações que ele se sentiu investido de autoridade para ir à ONU dar lições a George W. Bush.

Não espanta que o aplauso dado à performance viesse sobretudo dos representantes daqueles países que prosperaram à custa da miséria e do terror implantados por Saddam Hussein. Essas pessoas ficaram revoltadíssimas com o fim da mamata e, compreensivelmente, acusam os americanos de haver entrado no Iraque com um intuito que, na mais depreciativa das hipóteses, foi igual ao delas. Ironicamente, elas mesmas deram a esse intuito um rótulo infamante — “Trocar sangue por petróleo” –, sem perceber que carimbavam a própria testa. Quanto aos americanos, talvez também tenham trocado sangue por petróleo. Mas, mesmo omitindo que até agora nem um único dólar de petróleo iraquiano foi para o bolso deles, sendo tudo reinvestido em benefício do Iraque, ainda resta uma diferença: eles deram na troca o seu próprio sangue e o dos torcionários de Saddam. Franceses e alemães deram o de trezentos mil prisioneiros políticos iraquianos. Não derramaram uma só gota do seu próprio sangue nem investiram um único euro em programas sociais no Iraque.

O presidente brasileiro foi aplaudido, sim, mas por uma assembléia de ladrões e espoliadores cínicos, tal como durante doze anos foi aplaudido, nas reuniões do Foro de São Paulo, por uma platéia de terroristas, narcotraficantes e seqüestradores — o pessoal das Farc, do MIR chileno, do Movimento Revolucionário Tupac Amaru.

Não direi que esse é o público que ele merece, mas, sem dúvida, é o que ele escolheu. Se perguntarem por que fez isso, direi que não teve alternativa: um pobretão do Terceiro Mundo, quando entra na política pelas mãos de patronos internacionais tão sujos quanto a Comunidade Européia, a ONU, Fidel Castro e a Fundação Ford, tem de passar o resto da vida desempenhando o papel de palhaço para o qual o designaram.

E o aspecto mais pitoresco desse papel é que, servindo de instrumento à implantação de uma tirania burocrática em escala global, o ator tem de representá-lo dando a impressão de que faz exatamente o contrário, isto é, de que luta pela soberania nacional e pela autodeterminação dos povos. Tem de proclamar aos quatro ventos, com ares de profunda e sincera emoção, aquilo que sabe ser o inverso da verdade. Isso dói, não dói?

Provavelmente não é justo acusar o sr. Luís Inácio de bêbado. Mas eu, se estivesse no lugar dele, não ficaria sóbrio um minuto sequer. Ninguém pode forçar tanto a consciência sem alguma anestesia. Fica pois aqui o meu conselho para o presidente: se o senhor não bebia, beba. Beba sem medo de ser feliz ao menos fora das horas de espetáculo. Não ligue para o Larry Rother. Ele não entende o seu problema.

* * * A universidade brasileira é inimiga inconciliável dos militares e colaboradora do establishment globalista na destruição das nossas Forças Armadas. Sua recusa de cumprir a lei que garante vaga a soldados e oficiais transferidos é um ato de rebelião ao mesmo tempo criminoso e pueril, bem característico de uma instituição ridícula, cuja contribuição ao progresso do conhecimento é torrar dinheiro público para imbecilizar as novas gerações por meio de uma propaganda política abaixo de ginasiana. Mais uma vez me alegro de haver optado, na juventude, por levar minha vida de estudos bem longe desse templo da estupidez humana.

Em 25 de setembro de 2004

Todos Contra Um

25 de outubro de 2011 | Diário do Comércio

Saudosos tempos aqueles em que os jovens esquerdistas investiam galhardamente contra cavalarianos armados de sabres! Hoje eles se reúnem às centenas para intimidar um homem só, minoria absoluta no Congresso, e se acham uns heroizinhos por isso. Ou, montados no apoio do Estado e de ONGs bilionárias, se articulam maquiavelicamente para cortar os meios de subsistência de um pai de família que, perseguido e acuado em sua terra, vaga de país em país com a mulher e quatro filhos, rejeitado e humilhado por toda parte, sem ter onde cair morto.

Quem quiser conhecer a alma da juventude militante hoje em dia, dê uma espiada nos sites http://pheeno.com.br/lifestyle/video-vaiado-bolsonaro-deixa-universidade-de-camburao e http://www.midiasemmascara.org/mediawatch/noticiasfaltantes/perseguicao-anticrista/12426-ativistas-gays-cortam-a-conta-de-julio-severo-no-paypal.html . Em ambos os casos, os ativistas imaginam, sentem e acreditam, no interior do seu teatrinho mental, que são ousados combatentes pela liberdade lutando contra o centro mesmo do poder opressor, quando na realidade são eles próprios o braço do maior esquema de poder que já se viu no mundo, a aliança do Estado com os organismos internacionais, as grandes fortunas globalistas e a mídia em peso, todos juntos contra focos isolados de resistência, ingênuos e desamparados idealistas que, certos ou errados, nada ganham e tudo arriscam para permanecer fiéis a seus valores.

É a caricatura grotesca, a inversão total da coragem cívica, a perda radical do senso da equivalência de forças, das leis do combate honroso que um dia prevaleceram até em brigas de rua, entre malandros, e hoje desapareceram por completo nos corações daqueles que, para cúmulo de ironia, continuam se achando a parcela mais esclarecida da população.

Quem os ensinou a ser assim? Quem arrancou de suas almas o sentimento mais elementar de justiça, de honra, de amor ao próximo e até mesmo daquela tolerância que tanto exaltam da boca para fora, substituindo-o pelo ódio projetivo, insano, misto de terror, que só enxerga no rosto do oponente a imagem do demônio que os intimida por dentro e os leva a sentir-se ameaçados quando ameaçam, perseguidos quando perseguem, oprimidos quando oprimem, odiados quando odeiam?

Quem os ensinou a temer a tal ponto os argumentos vindos de uma voz solitária que, ao menor risco de ouvi-la, sentem a necessidade de sufocá-la com gritos e ameaças, e acreditam ser isso a apoteose da democracia, da liberdade e dos direitos humanos? Quem os doutrinou para crer que qualquer desafio às suas convicções é crime e não pode ser tolerado nem por um minuto?

Quem os ensinou a imaginar a estrutura do poder de cabeça para baixo, com dois ou três cidadãos isolados e sem recursos no topo, e o conjunto das forças internacionais bilionárias em baixo, gemendo sob o jugo implacável de algum Jair Bolsonaro, Júlio Severo ou Padre Lodi?

Quem os ensinou a enxergar “crimes de ódio”, imputáveis à consciência religiosa, em cada assassinato de homossexuais praticado por garotos de programa, com toda a evidência homossexuais eles próprios e desprovidos, é claro, de qualquer vestígio de escrúpulos religiosos? Quem os ensinou a proclamar, diante desses assassinatos, que “a Igreja tem as mãos sujas de sangue”, quando o próprio Movimento Gay da Bahia confessa ser a maior parte deles cometida por profissionais do sexo e até hoje não se exibiu nenhum, nem um único caso de homicídio cometido contra homossexuais por motivo de crença religiosa ou sentimentos conservadores?

Quem os ensinou a desprezar a tal ponto a realidade e apegar-se a lendas insanas, carregadas de ódio injusto contra inocentes que nunca lhes fizeram mal algum além de discordar de suas opiniões, e que não têm aliás o mais mínimo meio de defesa contra os ataques multitudinários e bem subsidiados que se movem contra eles?

Posso explorar essas perguntas em artigos vindouros, mas nenhuma resposta vai jamais atenuar a estranheza de um fenômeno deprimente, abjeto, moralmente inaceitável: a perda do sentimento de justiça e de honra por toda uma geração de brasileiros. Eu mesmo, quando escrevi “O imbecil juvenil” em 1998 (v.

http://www.olavodecarvalho.org/textos/juvenil.htm ), não esperava que o mecanismo sociológico ali descrito se tornasse, por assim dizer, oficializado, consagrando como virtudes cívicas a covardia, o servilismo grupal e o assalto coletivo a bodes expiatórios desproporcionalmente mais fracos.

Em 25 de outubro de 2011

O Segundo Nariz

25 de outubro de 2010 | Diário do Comércio

Que significa a pressa obscena com que, ao primeiro abalo sofrido pela candidatura Dilma Rousseff, o governo Lula partiu para a prática dos crimes eleitorais mais descarados e cínicos de todos os tempos? Significa, antes de tudo, que durante décadas o PT se preparou para chegar ao governo, mas não para deixá-lo. A perspectiva de ter de voltar à oposição depois de oito anos de poder absoluto parece-lhe um pesadelo aterrorizante, uma catástrofe apocalíptica, a ameaça do retorno a um estado de coisas em cuja liquidação definitiva o sr. Presidente da República e seus seguidores, admiradores e bajuladores apostaram todas as suas energias – e também as do restante da população, que jamais foi consultada quanto às vantagens e desvantagens de tão singular investimento.

O eleitorado brasileiro escolheu o PT em 2002 e 2006 acreditando que votava num partido como os outros – diferente pelo seu programa de governo, como é próprio dos partidos em geral, mas idêntico a eles pela sua estrutura e funções no sistema constitucional. Não lhe foi informado que o PT não era uma agremiação nacional como seus concorrentes, e sim o fundador, cabeça e sustentáculo de uma organização revolucionária internacional empenhada em salvar o comunismo da sua iminente destruição, anunciada pela queda da URSS. Não lhe foi informado que o PT tinha compromissos secretos ou pelo menos discretos com quadrilhas de terroristas e narcotraficantes, irmanadas com partidos comunistas no esforço conjunto de destruir a ordem vigente e preparar a instauração do socialismo na América Latina. Não lhe foi informado que o PT era o braço político da “Teologia da Libertação” – uma seita satânica dedicada a macaquear a Igreja para esvaziá-la de seu conteúdo espiritual e transformá-la em instrumento da subversão comunista (é uma lindeza que hoje esse órgão do pseudocatolicismo militante acuse os outros de “uso eleitoral do discurso religioso”). Não lhe foi informado que o PT só aceitava as regras do jogo democrático a título de mal provisoriamente necessário, pronto a substituí-las por um “novo paradigma”, hoje triunfante, calculado para eliminar todo antagonismo ideológico e reduzir a oposição às funções de ombudsman do partido governante, numa atmosfera de “centralismo democrático”, meio leninista, meio gramsciano, onde o direito de divergir é monopólio dos amigos do Príncipe.

A ocultação, a falsa identidade, o engodo premeditado e sistêmico – tais foram os traços que desde o início definiram, mais que a estratégia do PT, a sua natureza mesma. O personagem do sr. José Dirceu – o homem que trocou de nariz para enganar a esposa e o mundo – é a condensação simbólica mais perfeita do partido ao qual ele serviu, com o melhor dos seus talentos, na condição dupla de eloqüente acusador da corrupção alheia e hábil organizador da roubalheira em família. Roubalheira à qual, por meio do Mensalão, ele deu as dimensões majestosas do impensável e inconcebível, reduzindo os Anões do Orçamento à escala de miniaturas de anões.

O ingresso dessa organização no cenário político nacional foi como a inoculação de um vírus mortífero ao qual o sistema não poderia sobreviver senão por milagre. Ora, milagres não acontecem quando todo mundo está rezando para que não aconteçam. Afinal, quem deu respeitosa credibilidade à farsa petista foi menos o próprio PT do que o consenso de seus adversários nominais, transfigurados em bando alegre de sicofantas. Para qualquer observador capacitado, em 2002 o perfil político-estratégico do PT como cabeça da revolução continental já estava mais que definido, e o “novo paradigma” já estava em pleno vigor numa eleição em que todos os candidatos eram de esquerda sem que ninguém quisesse notar nisso nada de anormal. Quem, entre os políticos ou na mídia dita “conservadora”, não celebrou aquele exagero de opacidade como uma apoteose da transparência democrática? Quem, nesses meios, não ajudou o PT a repartir a arena eleitoral entre a esquerda da esquerda e a direita da esquerda, jogando os conservadores e liberais na lata de lixo do “extremismo” indecoroso e até ilícito? Quem se absteve de colaborar na mentira visceral ante cujos efeitos de longo prazo agora todos choramingam sem querer lembrar de onde eles vieram? Quem pode se dizer inocente do crime de ter ajudado a colar no rosto grotesco de uma organização maligna o segundo nariz que a embelezou ante um eleitorado que não sabia de nada?

Se bem me lembro, só eu, naquela ocasião, denunciei a normalidade simulada e adverti para as conseqüências que adviriam fatalmente da aliança entre o maquiavelismo de uns e a covardia de outros. Leiam meu artigo de 7 de novembro de 2002 ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/07112002jt.htm ) e digam se tudo o que hoje se lamenta e chora na política nacional não poderia ter sido evitado com um pouquinho, só um pouquinho de realismo, de sensatez e de coragem.

Em 25 de outubro de 2010

Loucura Visivel

25 de outubro de 2005 | Diário do Comércio

Se há algo que ninguém neste país ignora é que o voto contra o desarmamento não foi só contra o desarmamento: foi contra o governo. Mas também não foi só contra este governo em particular: foi contra toda uma concepção providencialista do Estado, que durante uma certa época chegou a empolgar a imaginação popular mas cuja periculosidade intrínseca terminou por se tornar evidente para todo o eleitorado.

O atrativo dessa concepção residia na promessa de solução de mil e um problemas que, segundo se alegava, transcendiam as forças dispersas da sociedade civil e requeriam a ação centralizada e centralizadora do Estado.

O perigo – já assinadado pelo economista Friedrich von Hayek nos anos 30 do século passado – era que a as soluções prometidas tinham de ser adiadas até que fosse alcançada a quota de centralização necessária para empreendê-las, e portanto o eixo da atenção se desviava dos problemas originários para concentrar-se na luta contra os obstáculos à centralização. A conquista dos meios, sendo problemática em si mesma, protelava indefinidamente a consecução dos fins e se transformava em finalidade suprema ou única da vida política.

O Estado é expressão da sociedade natural. Quando promete fazer o que ela não pode, tende incoercivelmente a elevar-se acima dela para agir sobre ela como um deux ex machina , acreditando-se força autônoma geradora da sua própria causa. O melhor que consegue então é destruir a sociedade, criando e impondo novos laços, novas obrigações, novos compromissos que já não correspondem à inclinação natural dos seres humanos e que na verdade não se destinam senão a alimentar, com o sangue da sociedade esmagada, a engenhoca estatal que a oprime.

Nunca isso se tornou tão evidente como durante a campanha contra o comércio de armas. Ao alegar que necessitava desarmar a sociedade para protegê-la de si mesma, o Estado incapaz de protegê-la de seus inimigos mostrou que sua prioridade máxima não era defender o povo mas sim defender-se do povo. A reivindicação de poder estatal ampliado não emergia de um plano sincero voltado ao controle da violência criminosa, mas do desejo de camuflar a própria impotência estatal de instaurar esse controle. Incapaz de reprimir os delinqüentes, o Estado propunha a repressão das vítimas.

Tanto foi assim que, após ter ludibriado o povo durante anos com a promessa vã de que o desarmamento civil diminuiria a força do banditismo — como se bandidos houvessem algum dia operado com armas legalmente registradas –, os próceres mesmos da campanha tiveram de confessar que o objetivo visado não era esse, que o desarmamento não protegeria os cidadãos dos bandidos, mas apenas de si próprios. Esperar que a sociedade votasse “Sim”, nessas circunstâncias, era o mesmo que pedir-lhe que assinasse um atestado de menoridade, nomeando o Estado seu tutor. A contradição interna do plano não escapou nem mesmo àqueles que não conseguiriam expressá-la verbalmente: de que valeria uma transferência de autoridade assinada por alguém que, nos próprios termos do documento, era declarado juridicamente incapaz?

Na sua ânsia de poder ilimitado, os apologistas do Estado salvador não se vexam de apelar à incongruência e ao absurdo. Mas, desta vez, sua loucura se tornou visível aos olhos de todos.

Em 25 de outubro de 2005

Mafia Gramsciana

25 de novembro de 1999 | Jornal da Tarde

A cada dia que passa, mais o chamado “debate cultural” brasileiro se reduz a mero debate eleitoral, tudo rebaixando ao nível dos slogans e estereótipos e, pior ainda, induzindo as novas gerações a crer que a paixão ideológica é uma forma legítima de atividade intelectual e uma expressão superior dos sentimentos morais.

Tão grave é esse estado de coisas, tão temíveis os desenvolvimentos que anuncia, que todos os responsáveis pela sua produção – a começar pelos fiéis seguidores da estratégia gramsciana, para a qual aquela redução é objetivo explicitamente desejado e buscado – deveriam ser expostos à execração pública como assassinos da inteligência e destruidores da alma brasileira.

Para Antonio Gramsci, a propaganda revolucionária é o único objetivo e justificação da inteligência humana. O “historicismo absoluto”, um marxismo fortemente impregnado de pragmatismo, reduz toda atividade cultural, artística e científica à expressão dos desejos coletivos de cada época, abolindo os cânones de avaliação objetiva dos conhecimentos e instaurando em lugar deles o critério da utilidade política e da oportunidade estratégica.

É idéia intrinsecamente monstruosa, que se torna tanto mais repugnante quanto mais se adorna do prestígio associado, nas mentes pueris, a palavras como “humanismo” ou “consenso democrático” (naturalmente esvaziadas de qualquer conteúdo identificável), bem como das insinuações de santidade ligadas à narrativa dos padecimentos de Antônio Gramsci na prisão, as quais dão ao gramscismo a tonalidade inconfundível de um culto pseudo-religioso.

Recentemente, um grande jornal de São Paulo, que se gaba de sempre “ouvir o outro lado”, consagrou a Antonio Gramsci todo um caderno, laudatório até à demência, que, sem uma só menção às críticas devastadoras feitas ao gramscismo por Roger Scruton, por Francisco Saenz ou – de dentro do próprio grêmio marxista – por Lucio Coletti, deixa no leitor a falsíssima impressão de que essa ideologia domina o pensamento mundial, quando a verdade é que ela tem aí um lugar muito modesto e até o Partido Comunista Italiano, com nome mudado, já não fala de seu fundador sem um certo constrangimento.

Que o jornalismo assim se reduza à propaganda, nada mais coerente com o espírito do gramscismo, o qual não busca se impor no terreno dos debates, do qual não poderia sair senão desmoralizado, e sim através da tática de “ocupação de espaços”, por meio da qual, excluídas gradualmente e quase sem dor as vozes discordantes, a doutrina que reste sozinha no picadeiro possa posar como resultado pacífico de um “consenso democrático”.

Com a maior cara-de-pau os adeptos dessa corrente atribuirão a um mórbido direitismo esta minha denúncia, sem ter em conta aquilo que meus leitores habituais sabem perfeitamente, isto é, que eu denunciaria com o mesmo vigor qualquer ideologia direitista que tentasse se impor mediante o uso de estratagemas tão sorrateiros e perversos.

Se no momento pouco digo contra a direita é porque sua expressão intelectual pública é quase nula, não por falta de porta-vozes qualificados, mas de espaço. Os liberais, banidos de qualquer debate moral, religioso ou estético-literário, recolheram-se ao gueto especializado das páginas de economia, o que muito favorece o lado adversário na medida em que deixa a impressão de que o liberalismo é a mais pobre e seca das filosofias. Quanto às correntes conservadoras que ainda subsistem, por exemplo católicas e evangélicas, sua exclusão foi tão radical e perfeita, que hoje a simples hipótese de que um conservador religioso possa ter algo a dizer no debate cultural já é objeto de chacota. Chacota, é claro, de ignorantes presunçosos, que, nunca tendo ouvido falar de Eric Voegelin, de Russel Kirk, de Malcom Muggeridge, de Reinhold Niebuhr ou de Eugen Rosenstock-Huessy, acreditam piamente que não pode existir vida inteligente fora de suas cabecinhas gramscianas, e provam assim ser eles próprios as primeiras vítimas da censura mental que impuseram a todo o País.

No campo intelectual, atacar a “direita”, hoje, seria mais que covardia: seria coonestar a farsa de que no Brasil existe um debate cultural normal, quando o que existe é apenas o mafioso apoio mútuo de gramscianos a gramscianos, que priva os brasileiros do acesso a idéias essenciais e ainda tem o cinismo de posar de democrático.

Em 25 de novembro de 1999

Exemplo Didatico 2

25 de março de 2004 | Jornal da Tarde

Creio já ter mencionado a lição de Lênin, que, qualificando os atos terroristas de “propaganda armada”, acrescentava serem eles inúteis quando não acompanhados da correspondente “propaganda desarmada” incumbida de tirar proveito político do crime. Uma organização terrorista, pois, não se compõe só das equipes combatentes, mas também da rede de “agentes de influência” espalhados pela mídia e pela sociedade civil, que, protegidos sob uma aparência inofensiva de meros observadores jornalísticos ou de militantes dos partidos legais, são na verdade as peças decisivas na engenharia do pânico.

A lição é novamente ilustrada pelos atentados de Madri. O encadeamento dos fatos tem aí a ordem e a nitidez de uma exemplificação didática:

1. Em dezembro de 2003, uma mensagem interna de Al-Qaida, divulgada pela CNN após o atentado, afirmava: “O governo espanhol não agüentará mais dois golpes, três no máximo”. Depois disso, prosseguia o comunicado, “a vitória do Partido Socialista estará quase garantida, e com ela a retirada das tropas espanholas do Iraque”. O objetivo da operação era, portanto, bem nítido: desacreditar o governo espanhol e eleger os socialistas.

2. Vinte e quatro horas depois das explosões, uma multidão de manifestantes acorreu às ruas, não anarquicamente, mas organizada, portando cartazes e berrando slogans que atribuíam ao governo Aznar e à aliança com os EUA a responsabilidade moral pelo acontecido. Uma reunião espontânea de milhões de pessoas simplesmente não acontece da noite para o dia. Muito menos acontece que já venham com um discurso pronto, coerente, uniforme e, por mera coincidência, convergente com os objetivos de uma operação terrorista. É evidente que, com antecedência, a rede de ONGs solidárias com o terrorismo já estava pronta para acionar a massa de militantes, simpatizantes e idiotas úteis, a “sociedade civil organizada”, para – como diria Karl Marx — completar com as armas da retórica o trabalho iniciado pela retórica das armas.

3. No dia 11 o governo espanhol, embora apostando na hipótese ETA, divulgava pistas que incriminavam os terroristas islâmicos. No dia seguinte, novo indício, mais eloqüente: o video tape gravado por um colaborador de Bin Laden, que assumia a autoria do atentado.

4. Poucas horas antes da eleição, os manifestantes voltaram às ruas, acrescentando em seus cartazes e refrões mais uma acusação a Aznar: a de ter ludibriado o povo, levando-o a supor que o ataque fora obra do ETA e não dos terroristas islâmicos. Novamente, a rapídez e uniformidade da reação não podem ter sido coincidências. Tanto mais que o apelo dos slogans era rebuscado e postiço: um governo que quisesse incriminar unilateralmente o ETA não teria, é claro, divulgado e sim ocultado as provas contra Al-Qaida.

5. Transcorridas as eleições, alcançado o objetivo político do atentado, a mensagem que mencionei acima não havia ainda sido divulgada pela CNN (até agora, aliás, não saiu na mídia brasileira). Mesmo assim não escapou a ninguém, por ser óbvia demais, a conexão ao menos psicológica entre a pressão terrorista e os resultados da votação. Que outra conclusão se poderia tirar dos acontecimentos senão que o eleitorado espanhol se rendera ante uma chantagem brutal?

6. No intuito de neutralizar essa impressão, uma nova campanha de propaganda foi desencadeada imediatamente em escala mundial, proclamando que os espanhóis não votaram no Partido Socialista pela razão alegada, mas sim porque estaram revoltados com o fato de Aznar, por motivos eleitoreiros, haver tentado induzi-los a crer na culpabilidade do ETA.

7. Como os espanhóis poderiam ter interpretado as coisas assim depois de o governo ter divulgado provas que incriminavam Al-Qaida, ninguém explica. Em vez disso, repete-se o discurso uniforme, espalhado às pressas por milhares de agentes de influência: os espanhóis não votaram sob o impacto de uma emoção perturbadora, não foram manipulados pela articulação de propaganda armada e desarmada. Ao contrário, escolheram com serenidade e sabedoria, rejeitando um governante mentiroso.

Essa versão será repetida obsessivamente nos jornais, nas revistas e na TV, até que o público se esqueça dos fatos que a invalidam e só lhe reste na memória o chavão: “a vitória socialista na Espanha, exemplo de maturidade política”. Exemplo? Sim, exemplo, mas não de maturidade política. Exemplo da teoria de Lênin.

Em 25 de março de 2004

Escolha Desgracada

25 de maio de 2010 | Diário do Comércio

Dos comentários à coluna de Reinaldo Azevedo do último dia 16, uma dúzia enfatizava que as notícias recentes, com provas definitivas da cumplicidade do PT com as Farc e outras organizações criminosas, já constavam de meus artigos de dez ou quinze anos atrás.

“É preciso – diz um dos leitores – fazer justiça ao jornalista exilado nos EUA, Olavo de Carvalho, que durante anos foi motivo de chacota por denunciar sozinho o Foro de São Paulo.”

Outro recorda: “Neste vídeo ( http://www.youtube.com/watch?v=c4taMM83xp8 ), Olavo de Carvalho já denunciava a ligação das FARC com o PT, CV e PCC.”

Outro ainda: “Parabéns ao jornalista Reinaldo Azevedo que foi um dos primeiros a apoiar Olavo de Carvalho, que já falava disso há anos – o ÚNICO cientista político honesto do Brasil.”

E assim por diante.

Nos vinte anos de governo militar, nunca vi um só jornalista ser expulso de toda a “grande mídia” brasileira por divulgar algum fato politicamente indesejado. Esse privilégio, que me lisonjeia ao ponto de me corromper a alma, ficou reservado para ser conferido à minha irrisória pessoa no período histórico imediatamente posterior, chamado, por motivos esotéricos, “redemocratização”. Por informar ao público a existência do Foro de São Paulo e os laços mais que íntimos entre partidos políticos e quadrilhas de narcotraficantes e seqüestradores, fui chutado do Globo , da Época , da Zero Hora , do Jornal do Brasil e do Jornal da Tarde . O número dos que por esses e outros canais me chamaram de louco, de mentiroso, de desinformante, de teórico da conspiração e coisas similares conta-se como as estrelas do céu. Excluído do círculo das pessoas decentes, só encontrei um último abrigo neste bravo Diário do Comércio , onde me sinto cinicamente bem entre outros meninos malvados como Moisés Rabinovici, Roberto Fendt e Neil Ferreira.

Estou grato aos leitores da Veja pela sua fidelidade à memória dos fatos, mas – confesso – nunca me senti entristecido ou magoado com aqueles indivíduos, oficialmente profissionais de imprensa, que imaginaram poder destruir minha reputação a pontapés. As marcas de seus sapatos no meu traseiro desvaneceram-se em questão de segundos tão logo os enviei, por via postal ou radiofônica, à p. que os p. ou à prática do sexo anal consigo próprios. A satisfação que esses desabafos me trouxeram foi tão grande, tão sublime, que, em vez de rancor, passei a sentir uma terna gratidão por aqueles meus ex-patrões, por terem me dado a ocasião de viver tão deliciosos momentos. Mais deliciosos ainda pela certeza absoluta de que tudo os destinatários engoliriam calados, fingindo que não era com eles, quando todo mundo sabia que era. Não há dinheiro que pague uma coisa dessas.

Liberto de mágoas pessoais, não posso, no entanto, deixar de sentir tristeza ao ponderar que o curso deplorável tomado pelos fatos desde há duas décadas poderia ter sido contornado se algumas pessoas em posição de poder e destaque na sociedade tivessem dado ouvidos à voz deste esfarrapado observador da realidade, em vez de dá-los aos bem-pensantes, bem vestidos e bem barbeados bonecos de ventríloquo da mídia e das universidades.

Quem perdeu com isso não fui eu, foi o Brasil. Desgraçado o país que, na falta de sensibilidade intelectual, escolhe seus conselheiros mediante critérios de etiqueta, indumentária e posição social.

Em 25 de maio de 2010

A Liberdade Como Serva Da Tirania

25 de maio de 2009 | Diário do Comércio

Há pelo menos quarenta anos o debate político neste país gira em torno da escolha entre livre mercado e intervencionismo estatal, identificados respectivamente com a “direita” e a “esquerda” e incumbidos de definir automaticamente, a partir dessa base econômica, as demais alternativas humanas em todos os campos da cultura, da legislação, da moralidade, etc. Quando alguém se define como “liberal”, é portanto automaticamente classificado entre os direitistas, conservadores e reacionários, tornando-se, em contrapartida, socialista, progressista e revolucionário tão logo mude para o campo do intervencionismo estatal. Os ícones das facções respectivas são Roberto Campos e Celso Furtado.

Quando outros fatores – de ordem moral, cultural, geopolítica ou militar – intervêm na disputa, complicando o quadro e privando o distinto público dos confortos do esquematismo primário, a única reação do cérebro nacional é tentar recuperar às pressas seu estado de equilíbrio homeostático mediante a proclamação de que a esquerda e a direita não existem mais, de que o mundo entrou numa fase de unanimismo paradisíaco e de que, em suma, não há mais nada a discutir, exceto os nomes destinados a preencher os cargos na hierarquia da paz universal.

Passando, assim, de um esquematismo bocó a outro mais bocó ainda, acreditam ter superado todo conflito ideológico e ascendido às alturas de um pragmatismo sublime, onde, extintas as paixões baixas, reina soberana a razão tecnocientífica, nada mais importando senão o cálculo objetivo de custos e benefícios.

Infelizmente, tudo isso são ilusões autolisonjeiras, destinadas a resguardar a mente humana de um confronto com as dolorosas complexidades do mundo real.

Desde logo, a escolha entre livre mercado e intervencionismo é uma coisa quando encarada como alternativa teórica, como modelo abstrato de sociedade ideal, e outra coisa completamente diversa quando inserida no quadro histórico e geopolítico concreto. A bandeira da liberdade econômica foi erguida, primeiro, contra os despotismos monárquicos. Naquela época ela se identificava com as forças da revolução. Um liberal estava mais próximo de um socialista que de um monarquista ultramontano. Mais tarde, com a ascensão dos totalitarismos estatistas russo e alemão, a liberdade de mercado tornou-se “reacionária”. Contra a ameaça socialista, os liberais davam agora a mão a seus inimigos de outrora, monarquistas e conservadores cristãos. Esta segunda forma adquirida pelo debate ideológico, que é aquela na qual ainda se baseia a distinção usual brasileira entre direita e esquerda, já foi de há muito absorvida e transcendida por uma terceira equação. O livre mercado tornou-se o pretexto com que as forças globalistas interessadas na construção de um governo mundial controlador e despótico vão minando as soberanias nacionais e induzindo povos inteiros a abdicar de todas as demais liberdades em troca do simples poder de comprar e vender. O argumento de que a liberdade econômica traz consigo todas as demais liberdades é aí usado como pretexto para produzir o resultado oposto: suprimir todas as liberdades exceto uma. Concomitantemente, essas mesmas forças globalistas dão apoio bilionário a todas as organizações esquerdistas e revolucionárias do mundo, para jogá-las contra os Estados nacionais, daí resultando que muitos adeptos do livre mercado, imaginando-se embora homens da “direita”, acabem se juntando à rebelião esquerdista contra os tradicionalismos morais e culturais, que para uns são obstáculos à revolução, para outros, entraves ao livre mercado. Unidos pelo apego a velhos estereótipos deslocados da situação presente, ambos não percebem que, em sua luta contra o Estado nacional, que uns odeiam como reacionário e os outros como intervencionista, só contribuem para que, sobre as ruínas de tantos Leviatãs menores, se erga o Grande Leviatã do Estado mundial.

O conflito ideológico não terminou. Apenas complicou-se formidavelmente. A luta entre a liberdade e a tirania assumiu novo formato, no qual os engenheiros da tirania, jogando com os símbolos convencionais do debate político, conseguiram colocar a seu serviço até mesmo os adeptos da liberdade.

Em 25 de maio de 2009

Debate E Preconceito

25 de junho de 2012 | Diário do Comércio

É ilusório esperar que a racionalidade científica prevaleça num confronto que envolve muitos interesses e paixões, mas não é demais desejar que algumas pessoas capacitadas acompanhem e julguem o debate desde um ponto de vista menos enviesado e mais compatível com o estado atual dos conhecimentos.

O número dessas pessoas é, com certeza, mínimo. O que se observa nas disputas correntes é que cada facção, no empenho de conquistar a adesão do povo inculto e distraído, procura não só simplificar suas idéias e propostas, comprimindo-as nuns quantos slogans e chavões que possam ser repetidos até impregnar-se no subconsciente da multidão como imperativos categóricos, porém busca simplificar ainda mais as do partido contrário, reduzindo-as a um esquema caricatural próprio a despertar incompreensão e repugnância. Para os fins práticos da disputa legislativa, é importante que tanto a adesão quanto a repulsa sejam alcançadas da maneira mais rápida possível, contornando discussões aprofundadas que poderiam amortecer as convicções da platéia ou adiar perigosamente a sua tomada de posição. Isso implica que as idéias do adversário não possam nunca ser examinadas objetivamente nos seus próprios termos e segundo suas próprias intenções, mas tenham de ser sempre deformadas para parecer tão repulsivas que a mera tentação de lhes conceder um exame benevolente soe ela própria como repulsiva, inaceitável, indecente.

O debate assim conduzido é, portanto, sempre e necessariamente uma confrontação de preconceitos, no sentido mais literal e etimológico do termo. Esse sentido contrasta de maneira chocante com o uso polêmico que no curso do próprio debate se faça desse termo como rótulo infamante. Carimbar as idéias do adversário como “preconceitos”, dando a entender que não passam de tomadas de posição irracionais e sem fundamento é, na maior parte dos casos, nada mais que um pretexto para não ter de examinar as razões que as fundamentam, muito menos a possibilidade de haverem nascido de boas intenções. Aquilo que aí se chama “debate” não é portanto nenhuma confrontação de idéias, mas uma mera disputa de impressões positivas e negativas, um jogo de cena.

É também natural que, justamente por isso, os debatedores procurem abrigar-se sob a proteção da “ciência”, mas nenhuma acumulação de dados estatísticos, nenhuma carga de citações acadêmicas ou mesmo de alegações cientificamente válidas em si mesmas dará qualquer legitimidade científica a um argumento, se este não inclui a reprodução fiel e a discussão científica dos argumentos antagônicos. Ciência é, por definição, a confrontação de hipóteses: se, em vez de ser examinadas extensivamente, as opiniões adversas são escamoteadas, caricaturadas, deformadas ou expulsas in limine da discussão sob um pretexto qualquer, de pouco vale você adornar a sua própria com as mais belas razões científicas do mundo. Não se faz ciência acumulando opiniões convergentes, mas buscando laboriosamente a verdade entre visões divergentes.

O teste da dignidade científica de um argumento reside precisamente na objetividade paciente com que ele examina os argumentos adversos. Quem logo de cara os impugna como “preconceitos” nada mais faz do que tentar criar contra eles um preconceito, dissuadindo a platéia de examiná-los.

Que as pessoas mais inclinadas a usar desse expediente sejam em geral justamente aquelas que mais apregoam a “diversidade”, a “tolerância” e o “respeito às opiniões divergentes”, não deve ser necessariamente interpretado como hipocrisia consciente, mas muitas vezes como sintoma de uma deformidade cognitiva bastante grave; deformidade que, por afetar pessoas influentes e formadores de opinião, arrisca trazer danos para toda a sociedade.

Quando digo “deformidade cognitiva”, isso não deve ser compreendido no sentido de mera deficiência intelectual moralmente inofensiva. A recusa de examinar as opiniões alheias nos seus próprios termos e segundo suas intenções originárias equivale à recusa de enxergar no adversário um rosto humano, à compulsão de reduzi-lo ao estado de coisa, de obstáculo material a ser removido. Essa compulsão é de índole propriamente psicopática (v. a ótima entrevista da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa da Silva em http://www.youtube.com/watch?v=m_wUDsshdvk ). Quando legitimada em nome de belos pretextos humanitários, torna-se uma força ainda mais desumanizante, pois remove a conduta moral do campo da vida psíquica concreta para o da simples adesão a um grupo político ou programa ideológico. O ser humano então deixa de ser julgado bom ou mau por seus atos e sentimentos pessoais, mas por aderir à facção previamente autodefinida como detentora monopolística das boas intenções — facção dispensada, por isso mesmo, de conceder ao adversário a dignidade da atenção compreensiva. A percepção direta das motivações humanas é aí substituída por um sistema mecânico de reações estereotípicas, altamente previsíveis e controláveis. E quando o programa já se tornou tão disseminado na mídia, no sistema de ensino e no vocabulário corrente ao ponto de já não precisar apresentar-se explicitamente como tal, mas passa a soar como a voz impessoal e neutra do senso comum, então a desumanização preventiva do adversário torna-se o procedimento usual e dominante nos debates públicos.

Não é preciso dizer que esse estado de coisas já vigora no Brasil desde há pelo menos uma década. Estamos em pleno império da manipulação psicopática da opinião pública.

Em 25 de junho de 2012

Nada De Novo

25 de junho de 2005 | O Globo

Todos parecem surpresos com o estado de coisas, mas ele era mais que previsível. Desde o começo da década de 90, quando o PT investiu pesado na construção de uma imagem de moralidade impoluta, avisei que a chegada desse partido ao poder inauguraria uma era de corrupção que faria empalidecer os mais rubros escândalos dos governos anteriores. Essa previsão foi recebida com tanto mais incredulidade quanto mais fundada no conhecimento de fatos que ninguém queria ver e na análise de antecedentes históricos que todos preferiam sepultar no esquecimento.

Logo ao eclodir a famosa “Campanha pela Ética na Política”, observei que o PT manejava com astúcia maligna o duplo sentido do termo “ética”, dando-lhe em público a acepção convencional de idoneidade e honradez, e nos seus documentos internos o significado que o termo possui na expressão gramsciana “Estado ético”, expressão moralmente neutra, que não tem nada a ver com virtudes ou pecados, mas designa apenas, tecnicamente, uma determinada fase do processo de tomada do poder pelo “Novo Príncipe”, o partido revolucionário. Em suma, tratava-se de utilizar como cenoura de burro as esperanças moralizantes da classe média, levando-a a colaborar com um empreendimento que simulava “passar o Brasil a limpo” mas não se ocupava senão de fazer crescer o poder do partido por todos os meios morais, amorais e imorais.

Anunciei com doze anos de antecedência, no meu livro “A Nova Era e a Revolução Cultural”, e depois novamente em “O Imbecil Coletivo”, que essa instrumentalização maquiavélica dos anseios populares só resultaria em mais maldade e sujeira, já que constituía, em si, um crime maior do que todos os atos materiais de corrupção, implicando nada mais, nada menos que a perversão completa do sentido mesmo da moralidade. Uma coisa, dizia eu, lembrando um velho provérbio árabe, é roubar no peso da farinha, vendendo 750 gramas pelo preço de um quilo. Outra coisa é alterar a balança para que nunca mais acuse a diferença entre 750 gramas e um quilo.

Os velhos políticos corruptos limitavam-se a roubar. O PT transformou o roubo em sistema, o sistema em militância, a militância em substitutivo das leis e instituições, rebaixadas à condição de entraves temporários à construção da grande utopia.

Os velhos políticos roubavam para si próprios, individualmente ou em pequenos grupos, moderando a audácia dos golpes pelo medo das denúncias. O PT rouba com a autoridade moral de quem, ao arrogar-se os méritos de um futuro hipotético, já está absolvido a priori de todos os delitos do presente; rouba com a tranqüilidade e o destemor de quem pode usar licitamente de todos os meios, já que é o senhor absoluto de todos os fins.

Todo partido que se volte contra “a sociedade”, prometendo remoldá-la de alto a baixo – se não reformar a natureza humana mesma – coloca-se, instantaneamente, acima dos critérios morais vigentes nessa sociedade, e não pode se submeter a eles senão em aparência, rindo, por dentro, da ingenuidade dos que o tomam por adversário normal e leal. Não é possível destruir o sistema e obedecer às suas regras ao mesmo tempo, só usar as regras como camuflagem provisória da destruição. Ora, o sistema, como tudo o que é humano, comporta igualmente sua dose de injustiças, de erros, de escândalos, e sua parcela de moralidade, de ordem, de lealdade. Todo sistema consiste num equilíbrio precário entre a desordem e a ordem. Nenhuma inteligência sã ignora que só é possível reprimir ou controlar o primeiro desses aspectos fortalecendo o segundo. Toda tentativa de mudar integralmente o sistema, seja pela subversão revolucionária abrupta, seja pelo lento e progressivo solapamento das bases institucionais, começa por destruir o equilíbrio e portanto a ordem, sob a promessa vã de um futuro sem desequilíbrio nem desordem. A modéstia dos objetivos, a limitação do programa político a pontos precisos que não afetem os fundamentos do sistema, eis a marca dos partidos honestos – e essa não é, definitivamente, a marca do PT. A desonestidade desse partido mede-se pela amplitude megalômana das suas promessas.

Em 25 de junho de 2005

Um Dia De Inverno

25 de julho de 2002 | 25 de julho de 2002

Hoje em São Paulo faz um dia lindo de Sol. Parece uma primavera antecipada. Seria um dia fantástico se não fossem as más notícias: 1- Armínio Fraga diz que talvez seja necessário fazer um novo acordo com o FMI. O que se pode entender da mensagem é que os recursos previstos na forma de capitais de risco a aportar devem estar sendo frustrados. Deus nos acuda! 2- O dólar passou a barreira do R$ 3,00. Ave Maria! 3- FHC tornou pública a sua preferência por Lula e a sua previsão do fracasso do Serra. Esperado; 4- O Banco Central admitiu que a meta de inflação vai estourar. Minha própria estimativa é de que chegaremos em dezembro já na casa dos dois dígitos.

Sol não é tudo, como se vê. O ponto é que a partir de agora as más notícias deverão ser multiplicadas. Os torniquetes que o governo tinha colocado para chegar até o período eleitoral estão perdendo efeito.

Na verdade, o agravamento do quadro econômico tem como única novidade que os votos da situação não estão reforçando o Lula Lá. Parece estar acontecendo um fenômeno novo, pois até votos cativos do candidato do PT parecem estar migrando para a candidatura Ciro Gomes. Com eles, legiões de cabos eleitorais e chefes políticos que, por falta de melhor alternativa, haviam desembarcado na candidatura Serra. A última que eu soube foi o grupo do deputado Paulo Octávio, do PFL de Brasília. Se esse processo continuar, a candidatura Serra murcha antes mesmo do início do período da propaganda eleitoral gratuita.

Propaganda eleitoral sem apoio dos puxadores de voto de pouco serve.

Em São Paulo, consolida-se dia a dia a candidatura de Paulo Maluf. A minha própria intuição é que o ressurgir do malufismo está diretamente associado ao fracasso da proposta social-democrata na área de segurança pública. Mais do que o sentimento de insegurança está pegando a raiva das pessoas pela impunidade dos malfeitores e o descaso das autoridades na matéria. Gostemos ou não, Maluf sempre ligou o seu nome ao combate sem tréguas à delinqüência. Não é mais o medo, mas a raiva que está direcionando a preferência do eleitorado, que passou a buscar um xerife.

Se for confirmada a queda dos ingressos de recursos estrangeiros, podemos ter uma moratória técnica do Brasil ainda antes das eleições. Aí todos os demônios da caixa de Pandora, ajudados pelos quatro cavaleiros do Apocalipse, estarão realizando a sua obra maligna. FHC corre o risco de entregar o País em situação ainda pior do que aquela em que recebeu, há oito anos atrás.

A vítima de tudo isso será todo o povo, especialmente os mais pobres. Está mais do que provado que, fora do receituário liberal, a condução dos negócios públicos sempre desemboca em crises periódicas. Viveremos mais uma e essa vai ser de arrasar, talvez a maior de todos os tempos.

Ainda bem que o dia de hoje tem um Sol primaveril.

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP Em 25 de julho de 2002

Leituras

O Padrinho Das Farc

25 de janeiro de 2004 | Zero Hora

Um relatório da CIA, datado de 2000 e recém-revelado pelo jornal El Tiempo , de Bogotá, mostra que antes de lançar o Plano Colômbia o governo Clinton já estava avisado de que esse programa, de 3,2 bilhões de dólares, não reduziria em nada a entrada de cocaína colombiana nos EUA.

O Plano esperava destruir de 50 a 80 por cento das plantações de coca das regiões de Caquetá e Putumayo. O relatório afirma: “Ainda que esses resultados conduzam a algumas mudanças no padrão do tráfico, não alterarão o negócio de forma significativa”, produzindo apenas um aumento da importação de coca dos países vizinhos. Em entrevista dada em Bogotá domingo passado, o embaixador americano na Colômbia, William Wood, admitiu ao menos implicitamente que a previsão estava certa.

Isso não quer dizer, evidentemente, que o Plano tenha sido inócuo. Ele produziu, ao menos, as tais “mudanças no padrão do tráfico”. De um lado, o crescimento da importação colombiana transformou virtualmente a América Latina inteira numa espécie de Colômbia. De outro, a proibição de politizar o combate às drogas por meio de um ataque voltado seletivamente contra a guerrilha acabou transformando as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) na herdeira principal do patrimônio e das redes de distribuição deixadas pelo caminho por alguns cartéis, menos poderosos, cujos negócios foram arruinados pela destruição das plantações locais. Isso aconteceu porque nenhum cartel tinha nem poderia ter jamais uma rede de contatos internacionais comparável à das Farc, investidas que estão do privilégio de negociar ao mesmo tempo por baixo e por cima do pano, na sua dupla e inseparável condição de organização criminosa e de movimento político legitimado por muitos governos, entre os quais os do Brasil, hoje dominado por amigos da guerrilha colombiana. Não existe um “Foro de São Paulo” dos criminosos comuns, mas existe um da bandidagem politizada. Se alguém podia ganhar algo com o Plano Colômbia, eram as Farc. E ganharam.

A CIA sabia disso, avisou Clinton, e Clinton nem ligou.

Os leitores têm aí uma pista para descobrir por que o ex-presidente americano, hoje fortemente rejeitado em seu próprio país, recebe tantos aplausos no Fórum Econômico de Davos, assim como na mídia européia e especialmente na brasileira. William Jefferson Clinton pode ser acusado de tudo, menos de ser pró-americano. Afinal, foi o homem que, eleito com verbas de propaganda de uma estatal pequinense, lançou o manto do silêncio protetor sobre a espionagem nuclear chinesa, forneceu armas nucleares ao governo de Pequim, fez tudo para ceder aos chineses o controle do Canal do Panamá, desmantelou a CIA e cortou severamente as verbas militares americanas, ao mesmo tempo que a China inflava desmesuradamente as suas e colaborava abertamente com as organizações terroristas que os EUA combatiam.

No ambiente de provincianismo mental brasileiro, a hipótese de que um presidente americano possa estar a serviço da esquerda internacional contra o país que o elegeu parece rebuscada demais, porque contrasta com os estereótipos residuais das décadas de 60-80, quando os nossos compatriotas ainda acompanhavam, pela mídia, as manobras do movimento comunista mundial. Desde então o assunto desapareceu dos nossos jornais, e como para o público bocó o que não está nos jornais não está no mundo, William J. Clinton, para ser odiado ou venerado, ainda posa ante a imaginação brasileira como a encarnação viva do americanismo triunfante.

Em 25 de janeiro de 2004

O Pt E A Violencia

25 de janeiro de 2002 | 25 de janeiro de 2002

Analisar em profundidade a violência num curto artigo seria impossível. Essa característica inerente ao ser humano demanda abordagens variadas que vão das filosóficas às sociológicas, das psicológicas às antropológicas. A violência pode ser estudada sob o ângulo da história, do direito, da economia e para combatê-la o Estado se utiliza da lei e de várias de suas instituições.

No Brasil as causas da violência são bastante variadas e as opiniões sobre elas também. Há aqueles, por exemplo, que apontam apenas a pobreza como fator desencadeante de atitudes violentas que se desfecham na criminalidade. Porém é necessário dizer que, se o meio em que o pobre vive pode ser propício ao banditismo, tanto não procede o entendimento de que ele é um criminoso nato quanto a tendência de absolvê-lo a priori das penas previstas na lei quando comete um crime por considerá-lo vítima da própria sociedade.

Justamente comiserações deste tipo têm contribuído para estimular a violência no país, assim como a excessiva benevolência para com os bandidos e seus direitos humanos em detrimento dos direitos do cidadão comum. E isso, naturalmente, tem tudo a ver com a falha da mais importante função do Estado e em nome da qual esta instituição foi criada: a segurança.

Poderia expor também análises referentes à urbanização, desemprego, baixos níveis educacionais e tantos outros fatores que possuem ligação com a violência. Isto seria importante para uma compreensão mais aprofundada do fenômeno, mas aqui vou apenas comentar a questão do PT e da violência, por conta do brutal assassinato do prefeito petista de Santo André Celso Daniel, lembrando que antes dele Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, prefeito deste partido em Campinas, também foi morto recentemente.

Em artigo publicado nesta semana no O Estado de S. Paulo, Frei Beto colocou Celso Daniel na “galeria dos “mártires da justiça” que abriga “Jesus, Tiradentes, Gandhi. Guevara Luther King, etc.”. O bondoso frei não mencionou o prefeito de Campinas, nem aquela mulher que nesta mesma cidade foi seqüestrada e executada em frente a sua casa, nem a incalculável multidão de brasileiros que têm sucumbido pelas armas de assassinos impunes e muito mais bem armados, treinados e motivados do que a polícia. Aliás, o PT nunca se levantou a clamar em defesa das vítimas comuns, mas já fez muito força para a soltura dos seqüestradores canadenses do empresário Abílio Dinís. Naquele episódio lamentável havia também um membro do PT e o partido preferiu dizer que presença do seu militante era apenas uma trama para inviabilizar a vitória de Lula, então em trânsito por sua eterna carreira de candidato à presidência da República.

Quanto a José Genoíno (SP) e a senadora Marina Silva (AC), agora se apressam a pedir a prisão perpétua para seqüestradores sem saber ainda se o prefeito foi realmente seqüestrado. Na verdade o caso continua nebuloso, especialmente por conta das versões contraditórias de Sérgio Gomes da Silva que dirigia o Mistsubishi Pajero de onde Celso Daniel foi retirado para ser morto, sem que houvesse sido feito pedido de resgate.

Recorde-se também que num primeiro momento o PT e seu líder Lula, apressaram-se a dizer que tudo não passava de crime político, insinuando que a responsabilidade seria de uma organização de direita. Mas haveria uma organização de direita tão burra a ponto de fornecer a um partido de esquerda, em plena largada de uma campanha eleitoral, o mártir, a bandeira ensangüentada (recorde-se Volta Redonda) que garantiria a vitória emocional do adversário ideológico? É de se duvidar. E para complicar aparece agora uma fantasmagórica entidade de extrema esquerda denominada Frente de Ação Revolucionária Brasileira (Farb), suposta co-irmã da sangüinária Farc colombiana que o PT tanto exalta, e que se responsabiliza pelos crimes além de ameaçar políticos petistas.

Mas o fato é que se o PT não pode ser responsabilizado diretamente pelas causas da violência no Brasil ou pelas mortes dos seus prefeitos, não deveria esse partido deixar de fazer uma mea culpa para avaliar o resultado do seu estímulo à violência. Afinal, em junho de 1994, o candidato Lula declarou que não lhe interessava a lei mas o que ele considerava como justo e legítimo. Esse discurso de tribunal de exceção foi repetido por lideranças petistas, inclusive, por seu problemático vice José Paulo Bisol, que afirmou: “Quando o Estado não tem condição de coibir a violência, o povo tem direito a ela”. O problema é que a fração do povo que agora tem direito à violência diante da ausência da lei, é aquela composta por facínoras de toda espécie que estão oprimindo o povo.

Há tempos o PT através da CUT – seu braço sindical – e do MST –seu braço armado no campo – tem desencadeando a violência que é colocada como legitima e se sobrepõe à lei. Tudo recheado com uma ideologia socialista que no mundo inteiro não deu certo.

Agora o PT sente os efeitos de um tipo de terrorismo depois de ter declarado que é contra o terrorismo, mas tê-lo justificado quando os seguidores do fanático Bin Laden atacaram os Estados Unidos.

Portanto, é hora do PT fazer seu ato de contrição e de se perguntar qual é sua parcela de culpa diante da morte dos seus próprios companheiros. Conforme o ditado popular: “quem semeia ventos, colhe tempestades”.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora e professora universitária.

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A Crise Argentina

25 de dezembro de 2001 | 25 de dezembro de 2001

Há uma sensação generalizada de que a Argentina encontra-se em um beco sem saída, numa encruzilhada da história: como está não pode ficar, é preciso que as decisões necessárias sejam tomadas para que a crise seja superada Se a decisões corretas não forem tomadas, há possibilidade de piora, com o empobrecimento rápido e generalizado da população. A desordem social já se instalou e a instabilidade das instituições democráticas são visíveis. O que fazer?

A Argentina tem dois dos ingrediente fundamentais para que possa se tornar um país rico: tem recursos naturais e um povo educado, escolarizado. O que lhe falta são as bases políticas para que haja a combinação de fatores humanos e materiais para que chegue a prosperidade. O problema é o como fazer isso.

De um lado, há aqueles que acreditam que só o confronto com a comunidade financeira internacional, a começar pela moratória unilateral, e com o aumento da intervenção do Estado na vida econômica, é que as condições de prosperidade serão reconstituídas. Do outro, há aqueles que advogam pelos ideais liberais, pela normalidade das relações internacionais e pela ação do livre mercado.

Analisemos ambas as abordagens.

A visão esquerdista e populista de que o Estado deve ser o motor do processo econômico é tão antiga quanto a Argentina e está na raiz dos seus atuais problemas. Se o Estado fosse eficaz para a superação dos problemas estes nem sequer teriam surgido, pois ele sempre esteve como motor inspirador e mentor da ação econômica. Na ilusão de que, através de leis e regulamentos, garantem-se direitos, construi-se ao longo do tempo um formidável sistema de subsídios e de privilégios que só puderam ser mantidos enquanto houve financiamento internacional. Ao cessar essa fonte, todos os problemas estruturais vieram à tona de forma irremediável. A decadência Argentina já vinha de anos, talvez desde Peron, em doses homeopáticas, mas a precipitação atual da crise parece demonstrar o completo esgotamento desse modelo. O parque produtivo encontra-se em estado terminal.

É absolutamente falso dizer que a rígida paridade cambial tenha sido imposta de fora para dentro e que ela é um receita neoliberal. O populismo argentino apenas descobriu que a estabilidade do câmbio significava a estabilidade de seus privilégios, daí terem se agarrado a ela de forma quase que religiosa, protegendo assim as suas sinecuras. Essa constitui uma variante ao populismo tradicional, que sempre fez das desvalorizações cambiais o seu instrumento preferido de tomar os recursos da população produtiva. Como lá os populistas já tinham os seus direitos garantidos, elegeram a rigidez cambial como o seu instrumento de momento.

Outra conseqüência desastrosa do populismo econômico foi de ordem psicológica, fazendo crer para a população em geral que riquezas não provêm do trabalho diligente e diuturno, mas de ações e relações políticas. Tudo que as pessoas deveriam fazer é ficar sob a proteção de algum graúdo do Estado para ter a sua própria sinecura e agir como militante sempre que comandado pelo chefe. Isso só pode ser mantido para um pequeno número de pessoas e desde que a maioria continue a trabalhar produtivamente. Na medida em que o número de parasitas cresceu e o número de produtivos diminuiu, a mágica acabou e a crise se instalou. O mandamento bíblico de se ganhar o pão como o suor do próprio rosto ainda continua valendo, a escassez é a condição humana.

É próprio dessa corrente eleger bodes expiatórios para iludir a opinião pública. Assim, o FMI, os banqueiros nacionais e estrangeiros e até mesmo o Brasil passaram a ser objeto dos discursos irados e hipócritas daqueles que sabem muito bem onde está a raiz da crise, na sua própria ação política. Pode-se dizer que o esquerdismo e o populismo são intrinsecamente irracionais e destrutivos quando dispõem do poder de Estado. O desastre argentino será talvez um dos exemplos históricos mais acabados. Dessa vertente de pensamento não é possível esperar qualquer solução, vez que suas ações são pautadas por princípios irracionais, que contrariam a ordem natural das coisas.

Por exclusão, é possível afirmar que a solução liberal, ou algum arranjo inspirado no liberalismo político e econômico, é a única saída para a nação argentina. É preciso despolitizar as relações econômicas; é preciso proteger quem produz. Para isso é necessário a desregulamentação, a redução efetiva do Estado – aí incluindo a redução na carga tributária e, portanto, da despesa – a implantação do realismo cambial, a normalização das relações com a comunidade financeira internacional.

O problema é fazer isso quando a propaganda política de décadas a fio afirmava o contrário e interesses arraigados dos potenciais perdedores poderão lutar até a morte para a manutenção das suas conquistas . A população portenha, provavelmente em sua maioria, não sabe que foi enganada o tempo todo e que existe uma verdade superior à mera tutela do Estado sobre a sociedade civil. Mas não vejo como escapar a esse enfrentamento, alargando a consciência política da população. A Argentina, como país soberano, está encostada na parede. Fora daquilo que é racional e necessário, não há salvação, significando isso a desordem econômica e política e um desfecho imprevisível para as instituições democráticas e para o bem estar social.

Em 25 de dezembro de 2001

Leituras

Trashed 4

25 de agosto de 2011 | Diário do Comércio

Em entrevista publicada pela BBC Brasil no último dia 19, o historiador americano John French, da Duke University, afirmou que, vinte anos após a queda da URSS, a esquerda no Brasil – e na América Latina em geral – está mais forte do que nunca, graças à criação do Foro de São Paulo em 1990.

“Quando eles começaram, disse French, os partidos que se reuniam nesses encontros a cada dois anos estavam todos em crise e se perguntando qual seria o futuro da esquerda”.

“Duas décadas depois – prossegue a BBC –, muitos desses mesmos partidos estão no poder em seus países, observa French, ao citar os exemplos da Frente Ampla (do Uruguai), da FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, de El Salvador) e da FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional, da Nicarágua), todos integrantes do Foro de São Paulo.”

French conclui: “O fato de que eles conseguiram chegar ao poder na última década é realmente impressionante.”

Impressionante, digo eu, é a resistência obstinada que a elite brasileira em geral opôs, durante duas décadas, a reconhecer que isso estivesse acontecendo. Mais impressionante ainda é que, depois de tudo, continue louvando e badalando os palpiteiros cegos que então a induziram em erro, e afetando desprezo olímpico a quem lhe informou e explicou tudo com antecedência mais que suficiente.

O Sr. Merval Pereira, cujo único feito jornalístico admirável foi repetir, diluídos, os meus artigos de dez anos antes, ganhou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

O Sr. Pedro Bial, que ao me entrevistar em 1996 só faltou rir ante a minha assertiva de que a esquerda estava crescendo (v.

http://www.youtube.com/watch?v=ehjFqQatiCo ), até hoje não reconheceu que desconfiou da pessoa errada.

Os liberais quase todos, que só queriam falar de economia e não ligavam a mínima para o Foro de São Paulo, continuam arrotando doutrina como se ter sido atirados à lata de lixo da História pelo curso dos acontecimentos fosse um título de glória, uma prova de superioridade, não um atestado de incompetência colossal. Um deles, cujo nome não citarei por ser um ex-aluno meu pelo qual guardo um resto de condescendência paterna, insiste na conversa anestésica da massacrada e desmoralizada geração liberal anterior, assegurando, contra todas as estatísticas, que a participação das Farc no comércio de entorpecentes é mínima, que portanto a liberação das drogas – a menina-dos-olhos da ideologia libertarian – não trará vantagem nenhuma à esquerda latino-americana.

Os militares, já habituados a apanhar sem dar um pio, celebram a substituição de Nelson Jobim por Celso Amorim no Ministério da Defesa, como se essa mudança não trouxesse consigo, em troca da simples remoção de um ministro mal-educado, a promessa da total submissão das nossas Forças Armadas aos objetivos estratégicos do Foro de São Paulo.

E não faltam aqueles que, reconhecendo por fim aquilo que negavam, buscam consolar-se alegando que afinal o governo da esquerda onipotente não é tão mau assim, que a ordem democrática foi preservada e que o PNB – a medida máxima da realidade, na sua visão – está crescendo. Sabem perfeitamente que 50 mil brasileiros são assassinados por ano, que o sistema educacional foi totalmente destruído, que muito mais do que o país crescem a dívida federal e o consumo de drogas. Mesmo quando dispõem dessas informações, nada dizem a respeito, porque são coisas que não saem nas manchetes – e admitir qualquer informação que não seja avalizada pela mídia é expor-se ao risinho dos maliciosos, que os brasileiros de hoje, sem fibra nem caráter, temem como se fosse arma de destruição em massa. Pior ainda é acreditar piamente, como tantos, que todos esses fatos são detalhes laterais, sem significação política, quando na verdade constituem os pilares mesmos em que se assenta o poder da esquerda triunfante.

Já não me pergunto mais: Quando essa gente vai aprender? Já sei a resposta: é “Nunca”.

A frivolidade criminosa das nossas classes falantes – especialmente da nossa “direita” – é um fenômeno tão abjeto, tão deprimente, que só um masoquista da erudição se atreveria a descrevê-lo em detalhe. Da minha parte, sigo o conselho que Virgilio deu a Dante no primeiro círculo do inferno:

O Silencio Dos Tagarelas

25 de agosto de 2005 | Jornal do Brasil

O ciclo de palestras “O Silêncio dos Intelectuais” não é, como aparenta, uma oportunidade de reflexão sobre os crimes do PT: é parte integrante da trama criminosa.

Patrocinado pelo mesmo governo que subornou metade da classe política, sua única finalidade é ajudar a elite esquerdista a lucrar com a revelação de sua própria torpeza, requentando e vendendo como novidade salvadora os decrépitos slogans, chavões e mentiras que a levaram ao poder e encobriram seus planos delituosos com a máscara da superioridade moral.

Não estranha que as estrelas maiores do espetáculo sejam as mesmas que criaram as condições culturais para a ascensão petista, nem que a mais cintilante do elenco, Marilena Chauí, rebole até à exaustão no palco da dialética para tentar suprimir o óbvio, lançando as culpas do vexame governamental sobre a política econômica do dr. Palocci, como se os crimes denunciados não viessem de mais de uma década e não tivessem nada, nadinha a ver com a velha afeição do PT por quadrilhas de narcoterroristas e seqüestradores.

O título mesmo do show é propaganda enganosa. Quando os que aparecem acusando-se de excesso de silêncio não são outros senão os gurus políticos mais tagarelas do hemisfério, presenças infalíveis em todos os debates lindamente democráticos da esquerda com ela própria, é manifesto que a confissão fingida tem por objetivo camuflar o pecado genuíno e habilitar o pecador a cometê-lo de novo, com redobrada força e ainda maior tranqüilidade de conciência.

Mesmo como discussão genérica do papel dos intelectuais na vida pública, o ciclo, a julgar pelos resumos e transcrições publicados até agora, é puro blefe diversionista, como se vê pelo seu alheamento de todos os debates sobre o assunto ocorridos fora do estreito círculo da militância esquerdista na última década. Claro: os pontos centrais desses debates têm sido a subserviência dos intelectuais de esquerda aos regimes genocidas, a obstinação patética com que negam seus crimes mesmo depois de provados com fartura de documentos e, last not least, a astúcia escorregadia com que, no empenho de fugir a um confronto com seu passado infame, apelam ao recurso extremo de dissolver os critérios mesmos da verdade e até os meios linguísticos de apreendê-la (modas como o desconstrucionismo ou o neo-relativismo foram inventadas para isso e para nada mais).

Inumeráveis livros têm sido publicados a respeito, como “Un Pavé dans l’Histoire” de Stéphane Courtois, “Tenured Radicals” de Roger Kimball, “The Twilight of the Intellectuals” de Hilton Kramer, “In Denial” de John Earl Haynes ou “Literature Lost” de John M. Ellis. Tão vasto é o impacto de obras como essas na compreensão que se tem hoje dos intelectuais na sociedade, que sua omissão num debate alegadamente focado no assunto só pode ser prova de inépcia completa, de deliberação maliciosa ou da mistura tipicamente esquerdista desses dois ingredientes. Quando alguém se mostra muito assanhado para discutir alguma coisa, ao mesmo tempo que nem cogita em obter informação atualizada a respeito, contentando-se preguiçosamente com as referências mais antigas e convencionais, é evidente que sua afetação de interesse no objeto é mero disfarce de alguma intenção não declarada. Para fins de dissimular a sujeira esquerdista sob uma aparência de preocupação intelectual séria, bastam mesmo o velho Sartre, a escola de Frankfurt, etc., enfim a ração consuetudinária do esquerdismo escolar.

Tão evidente é o oportunismo publicitário da comédia, tão patente o seu desprezo às condições requeridas para um estudo responsável do tema anunciado, que discuti-la no plano das idéias é atribuir-lhe uma dignidade que não tem. Intelectualmente, ela não significa nada. Politicamente, é de uma baixeza sem par.

Se o Brasil quer se livrar da corrupção política, deve primeiro abster-se de outorgar a intelectuais corruptores uma deferência imerecida, principalmente quando ela, como as consciências dos Delúbios, é comprada com dinheiro público.

Em 25 de agosto de 2005

Transicao Revolucionaria

25 de agosto de 2002 | Zero Hora

A mídia nacional já levou longe demais essa farsa de rotular o tucanato de “direita”, um truque inventado pela esquerda para poder condenar como extremismo e fascismo tudo o que esteja à direita de FHC, ou seja, à direita da centro-esquerda.

Se é verdade que o atual presidente obedeceu em linhas gerais às exigências econômicas do FMI — coisa que qualquer outro faria no lugar dele e que o próprio Lula promete fazer igual, o que não torna nem um nem o outro direitistas –, por outro lado o presente governo subsidiou fartamente com dinheiro público o crescimento da mais poderosa organização revolucionária de massas que já houve na América Latina, introduziu ou ao menos permitiu a doutrinação marxista nas escolas, instituiu a beatificação oficial de terroristas aposentados e a concomitante desmoralização das Forças Armadas, generalizou o uso de critérios morais “politicamente corretos” para o julgamento das questões públicas e destruiu uma por uma as lideranças regionais mais ou menos “conservadoras” que restavam, além de deixar montado todo o aparato legal e fiscal que seu sucessor necessitará para criminalizar a atividade capitalista, sufocar as críticas de oposição e, tendo feito tudo dentro da lei, poder posar de democrático. Democrático no sentido de Hugo Chavez, é claro.

Sem tocar nos interesses internacionais, mas seguindo estritamente a receita de guinada à esquerda que lhe foi preparada desde 1998 por Alain Touraine, FHC fez mais pelo avanço da revolução comunista no Brasil do que o próprio João Goulart, que ficou só na ameaça.

Se, não obstante, seu governo ainda é rotulado de “direitista”, é somente graças a um fenômeno bastante conhecido na mecânica das revoluções: sempre que uma facção revolucionária toma o poder, suas próprias dissensões internas se substituem às divisões de partidos e facções existentes no regime anterior. Assim, por exemplo, após a revolução de 1917, a ala revolucionária menchevique passou a ser atacada pela ala radical como direitista e reacionária. Evidentemente, o sentido de “direita” havia mudado por completo: antes, era ser contra a revolução; agora, era não ser revolucionário o bastante. A diferença entre o caso russo e o brasileiro é que naquele a mudança foi declarada e consciente, ao passo que entre nós ela está proibida de ser mencionada em público.

Um dos elementos primordiais da revolução cultural gramsciana em curso é o lento e inexorável deslocamento de todo o eixo de referência dos debates públicos para a esquerda, de modo a estreitar a margem de direitismo possível e, aos poucos, substituir a direita genuína pela facção direita da própria esquerda ou por algum fanatismo hidrófobo estereotipado e fácil de desmoralizar. O processo deve ser conduzido de maneira tácita e, se alguém o denuncia, negado com veemência. As coisas devem acontecer como se não estivessem acontecendo. Os discordes e recalcitrantes, mais que censurados, são jogados para o limbo da inexistência e se tornam tão deslocados que parecem malucos.

Poucos brasileiros se dão conta da profundidade das mudanças políticas por que este país passou ao longo dos últimos quinze anos. Elas podem ser resumidas assim: a oposição de esquerda ao antigo regime militar tomou o poder, ocupa todos os postos do governo e da oposição e não deixa lugar para mais ninguém. Os poucos remanescentes do antigo regime se apegam desesperadamente aos últimos resíduos de poder que lhes sobram em escala regional, ao passo que na disputa nacional não podem aspirar senão ao papel de auxiliares e meninos de recados de alguma das facções esquerdistas em disputa. As presentes eleições deixaram isso muito claro.

À completa liquidação da direita corresponde, quase instantaneamente, a institucionalização de uma das facções de esquerda no papel de “direita” — uma direita fabricada ad hoc para as necessidades da esquerda.

O processo foi enormemente facilitado pelo fato de que, nas eleições legislativas federais, estaduais e municipais, o Brasil tem uma das mais altas taxas de substituição de políticos já observadas no mundo. A transfusão de lideranças, a completa destruição de uma classe e sua substituição por outra já são fatos consumados. A revolução está em curso. Se vai descambar para a destruição violenta das instituições ou se vai chegar a seus fins por via anestésica, é algo que só o futuro dirá. Mas negar o caráter revolucionário das mudanças observadas é realmente abusar do direito à cegueira.

Alguns enxergam essas mudanças, mas só parcialmente e segundo um viés predeterminado. Notam, por exemplo, a destruição de velhas lideranças, abominadas como “corruptas”, e vêem nisso um progresso da democracia — sem reparar que não há progresso nenhum numa caçada a corruptos de menor porte que serve apenas de disfarce para encobrir o crime infinitamente maior em que estão envolvidos os próprios moralizadores mais estusiásticos: a narcoguerrilha, o terrorismo internacional, a revolução continental.

Que, no meio, surjam algumas situações paradoxais — como por exemplo o fato de que o próprio Partido Comunista, com nome trocado, acabe aparecendo como única alternativa à ascensão da esquerda revolucionária –, é coisa que faz parte da natureza intrinsecamente nebulosa do processo. E que ninguém seja capaz de discernir por baixo do paradoxo a lógica implacável que leva este país dia a dia para dentro do bloco terrorista internacional, é sintoma do mesmo turvamento geral das consciências, sem o qual nenhum processo revolucionário jamais teria sido levado a efeito no mundo.

Em 25 de agosto de 2002

Transicion Revolucionaria

25 de agosto de 2002 | Zero Hora

Los medios de comunicación nacionales ya han llevado demasiado lejos esa farsa de etiquetar al partido de los tucanes (PSDB) como “derecha”, un truco inventado por la izquierda para poder condenar como extremismo y fascismo todo lo que esté a la derecha de Fernando Enrique Cardoso (FHC), o sea, a la derecha del centro-izquierda.

Si bien es cierto que el actual presidente ha acatado en líneas generales las exigencias económicas del FMI — cosa que cualquiera haría en su lugar y que el mismo Lula promete hacer igualmente, lo que no convierte ni a uno ni a otro en derechista –, por otro lado el actual gobierno ha subvencionado abundantemente con dinero público el crecimiento de la más poderosa organización revolucionaria de masas que haya habido jamás en América Latina, ha introducido, o al menos ha permitido, el adoctrinamiento marxista en las escuelas, ha instituido la beatificación oficial de terroristas jubilados y el concomitante descrédito de las Fuerzas Armadas, ha generalizado el uso de criterios morales “políticamente correctos” para dirimir las cuestiones públicas y ha destruido uno a uno los liderazgos regionales más o menos “conservadores” que quedaban, aparte de dejar montado todo el aparato legal y fiscal que su sucesor necesitará para criminalizar a la actividad capitalista, sofocar las críticas de oposición y, habiendo hecho todo dentro de la ley, poder dárselas de democrático. Democrático en el sentido de Hugo Chávez, claro está.

Sin tocar en los intereses internacionales, pero siguiendo estrictamente la receta de viraje a la izquierda que le preparó desde 1998 Alain Touraine, FHC ha hecho más por el avance de la revolución comunista en Brasil que el mismo João Goulart, que se quedó en mero amago.

Si, a pesar de todo, su gobierno aún es tildado de “derechista”, es sólo gracias a un fenómeno bastante conocido en la mecánica de las revoluciones: cada vez que una facción revolucionaria toma el poder, sus propias disensiones internas substituyen a las divisiones de partidos y a las facciones existentes en el régimen anterior. Así, por ejemplo, tras la revolución de 1917, el ala revolucionaria menchevique pasó a ser atacada por el ala radical como derechista y reaccionaria. Evidentemente, el concepto de “derechista” había cambiado por completo: antes, era ser contrario a la revolución; ahora, era no ser suficientemente revolucionario. La diferencia entre el caso ruso y el brasileño es que en aquél el cambio fue declarado y consciente, mientras que entre nosotros está prohibido mencionarlo en público.

Uno de los elementos primordiales de la revolución cultural gramsciana en curso es el lento e inexorable desplazamiento del eje de referencia de los debates públicos hacia la izquierda, con el fin de reducir el margen de derechismo posible y, poco a poco, sustituir a la derecha genuina por la facción derecha de la izquierda o por algún fanatismo hidrófobo estereotipado y fácil de desacreditar. El proceso debe ser llevado a cabo de manera tácita y, si alguien lo denuncia, hay que negar con vehemencia que exista tal proceso. Las cosas tienen que pasar como si no estuviesen pasando. Los disconformes y recalcitrantes, más que censurados, son echados al limbo de la inexistencia y se vuelven tan desplazados que parecen chiflados.

Pocos brasileños se dan cuenta de la profundidad de los cambios políticos por los que ha pasado este país a lo largo de los últimos quince anos. Pueden ser resumidos así: la oposición de izquierda al antiguo régimen militar ha tomado el poder, ocupa todos los puestos del gobierno y de la oposición y no deja sitio a nadie más. Los pocos que quedan del antiguo régimen se apegan desesperadamente a los últimos residuos de poder que sobran a escala regional, mientras en la disputa nacional no pueden aspirar más que al papel de auxiliares y chicos de los recados de alguna de las facciones izquierdistas en disputa. Las actuales elecciones han dejado esto muy claro.

A la completa liquidación de la derecha corresponde, casi instantáneamente, la institucionalización de una de las facciones de izquierda en el papel de “derecha” — una derecha fabricada ad hoc para las necesidades de la izquierda.

El proceso ha sido enormemente facilitado por el hecho de que, en las elecciones legislativas federales, estaduales y municipales, Brasil tiene una de las tasas más altas de substitución de políticos ya observadas en el mundo. La transfusión de liderazgos, la completa destrucción de una clase y su substitución por otra son ya hechos consumados. La revolución está en curso. Si va a dar un bandazo hacia la destrucción violenta de las instituciones o si va a llegar a sus fines por vía anestésica, es algo que sólo el futuro dirá. Pero negar el carácter revolucionario de los cambios observados es realmente abusar del derecho a la ceguera.

Algunos ven esos cambios, pero sólo parcialmente y desde un sesgo predeterminado. Notan, por ejemplo, la destrucción de viejos liderazgos, abominados como “corruptos”, y ven en eso un progreso de la democracia — sin reparar en que no hay ningún progreso en una caza a corruptos de menor porte que sólo sirve de tapadera para encubrir el crimen infinitamente mayor en que están involucrados precisamente los moralizadores más entusiastas: la narcoguerrilla, el terrorismo internacional, la revolución continental.

Que, en medio de todo eso, surjan algunas situaciones paradójicas — como por ejemplo el hecho de que el Partido Comunista, con otro nombre, acabe presentándose como única alternativa al ascenso de la izquierda revolucionaria –, es algo que forma parte de la naturaleza intrínsecamente nebulosa del proceso. Y que nadie sea capaz de discernir bajo la paradoja la lógica implacable que lleva a este país día a día hacia dentro del bloque terrorista internacional, es síntoma del mismo aturdimiento general de las conciencias, sin el que ningún proceso revolucionario jamás habría sido llevado a efecto en el mundo.

Em 25 de agosto de 2002

Español

A Nova Ordem Nacional 2

25 de agosto de 2001 | O Globo

Nunca, na História do mundo, uma revolução comunista foi abortada com tão escasso derramamento de sangue como aconteceu no Brasil em 1964. Mesmo o regime autoritário que se seguiu, ao defrontar-se com a resistência armada dos derrotados, conseguiu desarticulá-la com um mínimo de violência: 300 mortos à esquerda, 200 à direita. Eis um placar que não permite, em sã consciência, fazer de um dos lados um monstro de crueldade, do outro uma vítima inerme e angelical — principalmente quando se sabe que a guerrilha não foi um último recurso encontrado por opositores desesperados após o esgotamento das alternativas legais, mas a retomada de uma agressão que, subsidiada e orientada desde Cuba, já havia começado em 1961, em pleno regime democrático.

Muito menos é razoável admitir a hipótese mongolóide —- ou mentira pérfida —- de que guerrilheiros armados, treinados e financiados pelo governo genocida de Fidel Castro, fossem democratas sinceros em luta contra a tirania, em vez daquilo que de fato eram: agentes revolucionários a serviço da mais sangrenta ditadura do continente, que só se opunham a um autoritarismo de direita em nome de um totalitarismo de esquerda.

Na mais modesta das hipóteses, o retorno à democracia deveria implicar, para os dois lados, a obrigação de confessar publicamente seus pecados e crueldades, bem como de renunciar formalmente ao uso futuro de qualquer meio de ação revolucionário, autoritário ou totalitário.

Não obstante, o fim do período militar não trouxe a pacificação, mas apenas a transferência dos combates do campo da luta armada para o da guerra de informações. Nesta nova fase, o conflito adquiriu uma feição das mais estranhas: só um dos lados prosseguiu combatendo, enquanto o outro se recolhia à passividade e ao silêncio, confiando, com boa-fé suicida, na cicatrização espontânea das feridas que seu adversário, enquanto isso, ia reabrindo à força, tenazmente, dia após dia.

Passados 37 anos do golpe e uma década e meia do retorno à normalidade, a campanha pertinaz e crescente de ódio aos militares e de beatificação dos comunistas poderia parecer apenas um sádico e gratuito exercício de revanchismo. Os poucos protestos que se elevaram contra ela condenaram-na precisamente nesses termos.

À luz dos acontecimentos das últimas semanas, porém, a aparente loucura revela toda a sua razão de ser, toda a premeditação certeira que a articulava por trás do pano. A deformação sistemática do passado não visava apenas a obter para os esquerdistas o consolo tardio e simbólico de uma vingança verbal, nem mesmo a valorizar sua mercadoria histórica na disputa por indenizações e pensões estatais. Visava a preparar o terreno para que, um dia, qualquer iniciativa das Forças Armadas contra o retorno da violência revolucionária pudesse ser denunciada, criminalizada e enfim bloqueada como ameaça de retorno à violência reacionária.

Esse dia chegou. Um conluio de jornalistas de esquerda, policiais federais e procuradores vem conseguindo fazer com que pareça um crime intolerável o Exército investigar uma entidade empenhada em fomentar guerrilhas, enquanto essa entidade, por seu lado, se gaba publicamente de ter seu próprio serviço de espionagem e o usa para dar apoio a esse mesmo conluio, sem que ninguém veja nisso nada de anormal ou condenável.

Políticos, repórteres, articulistas, comentaristas de TV, em uníssono, cobram do Exército, em tons de moralismo escandalizado, “explicações” sobre sua iniciativa de manter sob vigilância pessoas e entidades ligadas à ditadura cubana e aos narcoguerrilheiros genocidas das Farc, como se o crime não residisse nessas ligações mesmas e sim na ousadia de investigá-las para impedir que o Brasil se transforme numa Colômbia. Ao mesmo tempo, ninguém pergunta se, no vazamento de informações que desencadeou a investida dos policiais federais em busca de documentos sigilosos do Exército, houve alguma participação do serviço de espionagem ilegal mantido pelo MST. Também ninguém se pergunta se, ao abrir para jornalistas o acesso a documentos colhidos num inquérito realizado “sob segredo de Justiça”, os procuradores não agiram como dóceis instrumentos a serviço das entidades que o Exército investigava.

Ninguém se pergunta se esses procuradores e policiais federais não estão entre aqueles que, em 7 de julho de 1993, o mesmo jornal que agora incrimina o Exército acusava de constituírem um núcleo de agitação esquerdista montado para fomentar rebeliões dentro do aparato judiciário e policial.

Ninguém se pergunta se esses jornalistas estão entre os 800 que naquele mesmo ano a CUT reconhecia ter em sua folha de pagamento, ou se pelo menos não são militantes, colaboradores ou “companheiros de viagem” de uma esquerda que alardeia seu desejo de paz enquanto entrega as crianças nas escolas aos cuidados educacionais de agentes das Farc para que instilem nelas o ódio guerrilheiro.

E, quando o coro dos protestos é engrossado pelo maior partido político da esquerda nacional, ninguém se pergunta se essa organização, presidida por um ex-agente secreto cubano, tem mais isenção para opinar no assunto do que a teria, num caso de conspiração da direita, algum partido presidido por um agente aposentado da CIA.

Não, nada disso pode ser investigado. A nação, estupidificada pela propaganda, não se lembra, sequer, de que essas perguntas possam ser formuladas, mesmo em imaginação. Mas, para além de todas as perguntas possíveis, resta uma certeza histórica: um movimento político revolucionário que através da engenharia do escândalo consegue humilhar e pôr de joelhos as Forças Armadas para usurpar o controle do seu serviço de inteligência é, ponto por ponto, a repetição do que se passou na Alemanha entre 1933 e 1939.

Autoridades

25 de abril de 2013 | Diário do Comércio

Quanto mais tempo fico nos Estados Unidos, mais nítida se torna, aos meus olhos, uma diferença crucial entre o Brasil de hoje e as nações civilizadas: é a completa ausência, no nosso país, de qualquer debate científico ou filosófico, pelo menos audível em público, ou mesmo de qualquer consciência, entre as classes alfabetizadas, de que esses debates existem em algum lugar do planeta.

Só esse fenômeno, por si, já basta para mostrar que algo aí deu muito errado, que a vida dos brasileiros está indo numa direção francamente regressiva, incompatível com o estado da nossa economia e com a pretensão nacional de representar algum papel significativo no cenário do mundo.

Nos EUA e na Europa, não há ideia, não há doutrina, não há crença estabelecida, por mais oficial e majoritária que seja, que não sofra contestações e desafios o tempo todo, que não se veja obrigada a buscar argumentos cada vez mais elaborados para defender um prestígio que assim não arrisca jamais congelar-se em ídolo tribal, em tabu sacrossanto.

Qualquer professor universitário ou intelectual público que, desafiado, se feche em copas e fuja à discussão sob o pretexto de que suas crenças são lindas demais para rebaixar-se a um confronto com a ideia adversária, cai imediatamente para o segundo escalão, quando não se torna objeto de chacota. Os próprios correligionários do prof. Richard Dawkins arrancaram-lhe o couro quando ele, afetando inatingível superioridade olímpica, se esquivou a um debate com o filósofo William Lane Craig.

Nem mesmo a classe jornalística, tão burra e presunçosa em Nova York como em toda parte, confunde o consenso escolar – aquele corpo de teorias e crenças que o apoio majoritário consagrou como aptas para ser transmitidas às crianças – com a vida nas altas esferas intelectuais onde tudo, mesmo o aparentemente óbvio, pode e deve ser desafiado, contestado, forçado a buscar novos e cada vez mais sólidos fundamentos.

No Brasil só existe o consenso escolar. Ele impera sobre as cabeças dos intelectuais com a mesma autoridade indiscutível com que se impõe, nas salas de aula, aos trêmulos e indefesos corações infantis.

Basta você questionar de leve algum item do Credo ginasiano, e as reações indignadas mostram o escândalo, o horror que você despertou nas almas virgens, jamais tocadas antes pelas dúvidas que, em outros países, pululam por toda parte e alimentam discussões sem fim.

Especialmente os ídolos da ciência popular, Newton, Galileu, Darwin ou Einstein, adquiriram no Brasil o estatuto de divindades intocáveis, e não só entre meninos de ginásio, mas entre professores universitários, cientistas e formadores de opinião. Critique um desses habitantes do Olimpo, e o tom das respostas lhe mostrará, por a + b, que neste país até mesmo banalidades arqui-sabidas dos historiadores por toda parte são novidades escandalosas e provas incontestáveis de que você é um louco.

Quando mencionei, por exemplo, as consequências nefastas que o mecanicismo newtoniano espalhou na cultura europeia – fato que já é de domínio público pelo menos desde o século 19 –, só não me xingaram a mãe porque não acreditavam que alguém capaz de atentar contra a memória do autor dos Princípios Matemáticos da Filosofia Natural pudesse jamais ter tido mãe.

Quando escrevi que o próprio Charles Darwin fora o inventor do design inteligente, hoje tão abominado pelos evolucionistas – coisa que não pode ser ignorada por ninguém que tenha lido algo mais que as orelhas de A Origem das Espécies –, fui imediatamente rotulado como fanático religioso indigno de ocupar um espaço na mídia.

Quando expliquei que sem o conhecimento do simbolismo astrológico é impossível compreender direito as concepções cosmológicas de Sto. Tomás de Aquino ou a estética das catedrais góticas – o que é a obviedade das obviedades para quem haja estudado o assunto –, passei a ser chamado pejorativamente de “astrólogo” pelos srs. Rodrigo Constantino e Janer Cristaldo, que, como ninguém ignora, são autoridades insignes em História medieval.

Adistância, em suma, entre o que se discute desses assuntos na Europa e nos EUA e o que se sabe a respeito no Brasil já se ampliou de tal modo, que ter algum conhecimento nessas áreas se tornou realmente perigoso: a ignorância completa e radical é hoje a única fonte de credibilidade, o único depósito de premissas onde o opinador pode buscar argumentos com a certeza de que soarão razoáveis ante uma plateia ainda mais ignorante que ele.

Tendo violado essa regra, tornei-me o único comentarista brasileiro de mídia ao qual incumbe, sempre e sistematicamente, o ônus da prova – com o detalhe de que, quando termino de provar tudo direitinho, os fulanos mudam de assunto e encontram outro motivo qualquer para continuar achando ruim.

Às vezes chegam, nisso, a requintes de imbecilidade jamais alcançados antes no universo. Indignados de que, num artigo aliás excelente sobre Otto Maria Carpeaux, o prof. Maurício Tuffani citasse de passagem o meu nome, alguns leitores ofereceram a singela sugestão de que eu fosse excluído para sempre de toda mídia. O autor do artigo, então, com a maior paciência, explicou que no caso isso não era possível, por ter sido eu mesmo o editor de um dos livros de Carpeaux ali mencionados.

Precaucoes Saudaveis

24 de novembro de 2009 | Diário do Comércio

Se o prezado leitor deseja entender algo do mundo atual, o mínimo indispensável de prudência recomenda que se atenha às seguintes regras no julgamento das informações que lhe chegam:

Regra 1 : O que quer que venha rotulado como consenso da opinião mundial, aprovado unanimemente por vários governos, pelos organismos internacionais, pela grande mídia, pela indústria do show business e pelos intelectuais públicos mais em moda, ou seja, pela quase totalidade dos “formadores de opinião”, é suspeito até prova em contrário.

Sei que ao dizer isso pareço contrariar um dos preceitos tradicionais do pensamento aristotélico-escolástico, segundo o qual, embora a opinião humana seja falível e o argumento de autoridade seja o mais fraco dos argumentos, a espécie humana tomada na sua totalidade dificilmente se equivocará em questões essenciais, sendo portanto arriscado contestar aquilo em que “todos, em toda parte, sempre acreditaram” ( quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est ).

Mas é só aparência. Na perspectiva escolástica, o valor da opinião unânime depende inteiramente da sua permanência temporal imutável nas mais diversas circunstâncias culturais, religiosas e sociopolíticas. Em vez de identidade, há uma diferença radical — para não dizer uma oposição insanável — entre a universalidade da opinião humana ao longo dos tempos e um consenso repentino, surgido como que do nada e imposto urbi et orbi como se fosse a coisa mais óbvia e inegável do mundo; consenso que, ademais, não é consenso nenhum, visto que há tanta resistência a ele por toda parte fora dos círculos interessados.

Por “círculos interessados” entendo, de um lado, a elite — financeira, política e burocrática — empenhada na instauração de um governo mundial estatista, invasivo e controlador de tudo (vale a pena consultar a respeito o site de Daniel Estulin, www.danielestulin.com/?idioma=en ); de outro, a militância inumerável espalhada em ONGs e universidades por toda parte, pronta a ecoar as palavras-de-ordem ditadas pela elite. Entre as duas, a classe jornalística, os intelectuais ativistas e o beautiful people das artes e espetáculos formam uma espécie de camada intermediária incumbida de formatar como modas elegantes as propostas mais revolucionárias de mutação sociocultural, tornando-as palatáveis à população maior, gerando, pela variedade das formas e canais, a impressão enganosa de unanimidade espontânea, e encobrindo assim a unidade estratégica que a circulação de dinheiro entre os três níveis comprova da maneira mais contundente (v. a documentação exaustiva em www.discoverthenetwork.org e www.activistcash.com ).

O que quer que venha por esses três canais ao mesmo tempo — não necessariamente o que venha só de um deles em particular — não é quase nunca informação confiável. (O termo “quase” não é usado aqui para atenuar a regra, mas apenas para assinalar aquela dose mínima de veracidade modesta sem a qual nenhuma mentira ambiciosa teria jamais credibilidade alguma e para dar o devido relevo a eventuais falhas e até rombos do sistema, sempre inevitáveis). A rigor, não é informação de maneira alguma: é estímulo pré-calculado para produzir no público, aos poucos, as desejadas mudanças de atitude, segundo pautas de engenharia social elaboradas com uma antecedência, em geral, de décadas. A continuidade da ação histórica de longo curso, aí, garante parcialmente a sua própria invisibilidade, transcendendo o horizonte de visão tanto da população imediatista, que nada enxerga, quanto dos “teóricos da conspiração” que crêem enxergar para além do que enxergam realmente e acabam inflando a imagem de poder dos “controladores” até dimensões quase míticas. Este último fenômeno é aliás um caso característico de “paralaxe cognitiva”, já que o próprio número de denúncias, proliferantes na internet e nas livrarias, evidencia os erros, debilidades e fracassos de um controle universal “secreto” que aí se descreve, no entanto, como quase onipotente.

Regra 2 : Quando a unanimidade é negativa, isto é, quando não consiste em alardear alguma história inventada (como o aquecimento global, a epidemia de gripe suína ou os riscos mortíferos do fumo passivo), mas em suprimir fatos e em achincalhar ostensivamente quem deseje ao menos investigá-los, então já não se trata de mera suspeita, mas da probabilidade altíssima de estarmos em presença de uma tentativa global de controle da opinião pública por meio do recorte premeditado do noticiário. Essas tentativas jamais alcançam sucesso absoluto, mas também nunca são desmascaradas no todo e de uma vez para sempre: no mínimo, resta a possibilidade de um eficiente gerenciamento de danos, transmutando-se a negação peremptória em aceitação atenuada, anestesiante, como ocorreu — para dar um exemplo brasileiro — no caso do Foro de São Paulo, que passou da categoria de inexistente à de irrelevante tão logo desmoralizado o dogma da sua inexistência.

Embora não tendo a menor idéia de onde nasceu Barack Obama, não hesito em incluir nesse gênero de tentativas a ocultação geral, sistemática, histérica e obstinada de praticamente todos os documentos essenciais para o estudo da biografia do presidente americano, a começar pela sua certidão original de nascimento. Quando a grande mídia dos EUA em peso chama de desequilibrados e loucos aos que cobram de Obama a exibição desses documentos, o que ela está proclamando é que o normal, o saudável, o obrigatório para a razão humana, consiste em acreditar, sem perguntas, que um cidadão gastou quase dois milhões de dólares com um escritório de advocacia para ocultar seus papéis sem que houvesse neles nada digno de ser ocultado. A inversão da lógica e da distinção entre o normal e o patológico é aí tão flagrante, que vale como uma prova: uma prova do contrário daquilo que se desejaria impingir à opinião pública.

Em 24 de novembro de 2009

Golpe De Estado No Mundo

24 de maio de 2003 | O Globo

Que existe um neoglobalismo em ação, um novo Império cuja expansão coloca em risco as soberanias nacionais, ninguém no Brasil duvida. Todos os nossos líderes políticos, intelectuais e militares se dizem conscientes e alertas quanto a esse ponto. Mas, quando perguntamos de onde vem o perigo, as respostas provam que estamos conversando com sonâmbulos e teleguiados, prontos a deixar-se usar como instrumentos pelo próprio inimigo que alegam combater.

Não sabem, por exemplo, o que o Império está fazendo, com discreta e espantosa facilidade, contra um país bem mais forte que o Brasil: a Grã-Bretanha.

A Grã-Bretanha como nação independente está para acabar nos próximos dias, quando Tony Blair oficializar sua anuência à nova Constituição da União Européia, que cria os Estados Unidos da Europa e transfere para a sede do Império em Bruxelas o poder de decisão do governo de Londres sobre orçamento, comércio, transportes, defesa nacional, relações internacionais, imigração, justiça e direitos humanos, reduzindo o Parlamento à condição de assembléia local subordinada.

Há quem diga que Blair deveria submeter o assunto a um referendo, mas ele não quer. Alega que a questão é complicada demais para ser julgada pelo povo. É assim que se fazem hoje os golpes de Estado: por meio de passes de mágica incompreensíveis à multidão. Uma pesquisa do jornal “The Sun” mostrou que, de fato, 84 por cento dos eleitores britânicos ignoravam a iminente transferência de soberania.

Mas, deste lado do oceano, a ignorância é maior ainda. Aqui, até as elites desconhecem tudo do novo quadro internacional. Imaginam que o neoglobalismo é uma extensão do bom e velho “imperialismo ianque” e, infladas de antiamericanismo, se preparam para combater os marines na selva amazônica.

O governo global que se forma ante os nossos olhos não é americano: é uma aliança das velhas potências européias com a revolução islâmica e o movimento esquerdista mundial. Suas centrais de comando são os organismos internacionais, e a única força de resistência que se opõe à mais ambiciosa fórmula imperialista que já se viu no mundo é o nacionalismo americano.

Os planos do governo mundial estão expostos desde 1995 no documento “Our Global Neighborhood,” publicado por uma “Comissão de Governança Global”, que prega abertamente “a subordinação da soberania nacional ao transnacionalismo democrático”. Esses planos incluem: 1. Imposto mundial. 2. Exército mundial sob o comando do secretário-geral da ONU. 3. Legislações uniformes sobre direitos humanos, imigração, armas, drogas etc. (sendo previsível a proibição dos cigarros e a liberação da maconha). 4. Tribunal Penal Internacional, com jurisdição sobre os governos de todos os países. 5. Assembléia mundial, eleita por voto direto, passando por cima de todos os Estados Nacionais. 6. Código penal cultural, punindo as culturas nacionais que não se enquadrem na uniformidade planetária “politicamente correta”.

É o Estado policial global, a total liquidação das soberanias nacionais. E não são meros “planos”: com os Estados Unidos da Europa, tudo isso entra em vigor imediatamente no Velho Continente, da noite para o dia, sem consulta popular, sem debates, sem oposição, anunciando para prazo brevíssimo a extensão das mesmas medidas para o globo terrestre inteiro pelo mesmo método rápido da transição hipnótica.

A Inglaterra, que parecia resistir, cedeu. Hoje está claro que o apoio de Blair aos EUA no Iraque se destinou somente a amortecer o choque da traição que viria em seguida. Só num país o assunto é discutido abertamente, e a opinião pública se volta em massa contra os planos da Governança Global: os EUA.

A guerra entre os EUA e o governo mundial já começou. Se a soberania americana cair, cairão todas. E o Brasil, burro como ele só, acredita defender a sua armando-se de prevenções contra os EUA e abrindo-se gostosamente aos detonadores explícitos de toda soberania.

Uma das causas desse trágico engano é a incultura pura e simples. Mas a desinformação ativa também pesa nisso. Uma de suas inumeráveis fontes é o sr. Lyndon La Rouche, que se faz de herói antiglobalista vendendo receitas de antiamericanismo no Terceiro Mundo e é muito lido no Brasil. Num panfleto recente, ele chegou ao cúmulo de associar a política externa de Bush aos planos de governo mundial traçados por Herbert George Wells num livro de 1928, “The Open Conspiracy”.

Isso é a exata inversão da realidade. As idéias de Wells germinaram na Fabian Society de Londres, entidade socialista sob orientação da chancelaria soviética, e são a origem direta dos planos de “Governança Global” da ONU, contra os quais, precisamente, se volta a política externa de George W. Bush.

Lendas e mentiras sobre a Amazônia também ajudam a enganar todo mundo, criando a ilusão de que precisamos defendê-la contra as ambições americanas. Quem quer que investigue um pouco a presença estrangeira na Amazônia verificará que ela se constitui maciçamente de ONGs européias. Há algumas americanas, sim, mas são as mesmas que subsidiam as campanhas “pacifistas” anti-Bush, o esquerdismo internacional e, em última análise, o terrorismo.

Ignorantes e semiloucos, vemos a realidade às avessas, pedimos socorro ao bandido e colocamos nossos sentimentos nacionalistas a serviço do neo-imperialismo global, que vai nos subjugar e humilhar até um ponto que nem todos os imperialistas americanos, somados, chegaram jamais a ambicionar em sonhos.

Crocodilos Em Panico

24 de julho de 2013 | Diário do Comércio

Antes de analisar qualquer coisa que o sr. Mauro Santayana escreva, é preciso saber que ele trabalhou como comentarista político da Rádio Praga, órgão oficial do governo comunista checo, e foi nada menos que redator-chefe das emissões em português da Rádio Havana. Essas estações nunca praticaram o jornalismo, no sentido normal do termo. Eram órgãos de desinformação, partes integrantes da polícia política comunista. A segunda ainda é. Chamar o sr. Santayana de “jornalista” tout court , sem esclarecer o uso específico que ele faz dessa fachada profissional, é sobrepor um formalismo burocrático-sindical à realidade substantiva do trabalho que ele exerce. Ele é, sob todos os aspectos possíveis e imagináveis, um agente de influência comunista. O jornalismo é o canal, não a substância da sua atividade.

Um agente de influência não faz propaganda comunista. Mantém-se numa posição discreta, equilibrada, e só procura influenciar as autoridades e os formadores de opinião em pontos determinados, precisos, para induzi-los a decisões que sirvam à estratégia comunista sob pretextos que não pareçam comunistas de maneira alguma. Esse esforço só se intensifica e sobe de tom quando se trata de medidas urgentes, vitais para a sobrevivência do movimento comunista. É só aí que o lobo perde a compostura ovina, rosna, mostra os dentes e sai mordendo.

No momento a coisa mais urgente e vital para o comunismo na América Latina é afastar a ameaça de uma investigação fiscal no Foro de São Paulo. É urgente e vital porque há 23 anos essa entidade gasta fortunas incalculáveis, transportando incessantemente centenas de politicos, intelectuais, militantes e terroristas entre todas as capitais do continente, hospedando-os nos melhores hotéis, sem jamais informar à população de onde veio o dinheiro. O envolvimento de alguns de seus membros mais prestigiosos no narcotráfico é fato notório, comprovado por depoimento do traficante Fernandinho Beira-Mar e pelos computadores do ex-comandante das Farc, Raul Reyes, apreendidos pelo exército colombiano.

O Foro de São Paulo é o comando estratégico do movimento comunista latino-americano. Faz e desfaz governos, interfere na política interna de dezenas de países, decide os destinos do continente, fornece cobertura a terroristas e narcotraficantes e, segundo confissão do seu fundador e nosso ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, faz tudo isso de modo calculado para que “as pessoas não percebam do que estamos falando” ( sic ). Chamar isso de conspiração não é portanto uma “teoria”. É usar o termo apropriado para definir um fato tal como descrito pelo seu autor principal.

Durante dezesseis anos o Foro cresceu em segredo, sob a proteção da mídia cúmplice que negava a sua existência e que, quando não pôde mais fazer isso, passou a mostrá-lo sob aparência maquiada, como um inofensivo “clube de debates”. A desconversa não pegou, é claro, em primeiro lugar porque nenhum clube de debates emite resoluções unânimes repletas de comandos a ser seguidos pelos participantes; e, em segundo lugar, porque o próprio fundador da coisa deu com a língua nos dentes, no discurso que pronunciou no décimo-quinto aniversário de fundação da entidade.

A simples ajuda mútua entre os partidos legais e as quadrilhas de teroristas e narcotraficantes que o compõem já bastaria para fazer do próprio Foro, como um todo, uma organização criminosa no sentido mais estrito e legal do termo, mesmo sem levantar a hipótese, praticamente inevitável, de que a troca de vantagens políticas importasse em benefícios financeiros ilícitos para qualquer das partes.

No entanto, entre tantos segredos que preenchem a história do Foro, as finanças são ainda o mais bem guardado. Mesmo depois que, forçado pelas circunstâncias a passar do silêncio ao exibicionismo histriônico, o seu atual dirigente Valter Pomar decidiu embelezá-lo como entidade transparente e aberta ao público, nem uma palavra veio à sua boca em resposta à pergunta decisiva e proibida: Quem paga a festa? Quem pagou durante 23 anos? As Farc? O governo brasileiro? O petróleo do sr. Hugo Chávez? Cadê os recibos? Cadê as notas fiscais? Cadê as autorizações de despesa?

Quem lançou essa pergunta, semanas atrás, fui eu (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/130626dc.html ). Esperava que, como todas as anteriores que coloquei no ar, ela caísse em ouvidos moucos. Para minha surpresa, alguns grupos de jovens, que não conheço e que não me consultaram em nada, deram-lhe atenção e fizeram dela uma das bandeiras do seu movimento “Marcha das Famílias”. Embora a passeata que organizaram contra o comunismo reunisse não mais de cem pessoas, ela espalhou pelas ruas e pela internet o mais óbvio, inegável e legítimo dos pedidos: auditoria no Foro de São Paulo, já!

Aí, é claro, foi o pânico. Antes mesmo que qualquer solicitação formal de uma investigação fosse enviada ao Ministério Público ou à Receita Federal, era preciso criar contra ela uma predisposição hostil para dissuadir as autoridades, a priori , da tentação de atendê-la.

Primeiro veio então a página do “Opera Mundi” que, naquele tom lacrimejante próprio dos crocodilos, se queixava de que o Foro “sofria ameaças violentas”. Coitadinho. Ele só tem, para defendê-lo, os exércitos de Cuba e da Venezuela, as tropas das Farc e a militância armada do MST e da Via Campesina, sem contar o governo brasileiro. Não é mesmo para ficar aterrorizado ante umas dezenas de estudantes que o xingam pela internet?

O Lula Americano

24 de julho de 2008 | Jornal do Brasil

Além de ouvir o hino americano com as mãos sobre a bolsa escrotal e não sobre o coração, Barack Hussein Obama adulterou o emblema das armas nacionais para fazer dele um logotipo de sua propaganda eleitoral, declarou que a bandeira americana “é um símbolo de violência” e, para completar, tirou as cores do país do leme do seu avião de campanha, substituindo-as pelo “O” que representa... ele próprio.

Mais que simples desprezo, essas atitudes denotam um esforço consciente de destruição dos símbolos nacionais. Esse esforço, por sua vez, não precisa de interpretação simbólica: seu sentido é auto-evidente. Ele dá expressão eleitoral à guerra cultural travada contra os EUA, de dentro e de fora do país, desde os anos 60: trata-se de erigir, sobre os escombros do patriotismo e da soberania, um novo sistema de lealdades, baseado na aliança de todos os ódios anti-americanos, anti-ocidentais e anticristãos com os interesses bilionários empenhados na implantação do governo mundial. O sinal mais claro dessa aliança são as fontes de apoio financeiro do candidato: de um lado, grupos radicais e pró-terroristas, de outro as megafortunas globalistas e a grande mídia em peso. Daí o vigor da sua campanha, que tem quatro vezes mais dinheiro que a do oponente e – sem exagero – vinte ou trinta vezes mais cobertura jornalística.

Com esse respaldo, ele se permite desafiar não só todas as conveniências, mas passar por cima das exigências legais mais elementares: depois de sonegar durante meses sua certidão de nascimento, apresentou uma certidão manifestamente falsa (v.

http://web.israelinsider.com/Articles/Politics/12993.htm ). O documento original, que continua sumido, é necessário para tirar a limpo uma questão essencial: Obama é cidadão americano ou é um estrangeiro, inelegível portanto? A ocultação e a fraude subseqüente falam em favor da última hipótese, mas o entusiasmo inalterado dos obamistas, contrastando com o seu absoluto desinteresse em esclarecer essa questão, mostra que preferem antes demolir de um só golpe o sistema eleitoral americano do que permitir que os republicanos continuem no poder: o novo sistema de lealdades já está em vigor, sobrepondo à integridade nacional as ambições partidárias da esquerda.

Com a mesma insolência autoconfiante, os planos de governo de Obama contrariam flagrantemente a vontade da maioria, sem precisar temer que isso tire um voto sequer do candidato. A nação quer baixar o preço da gasolina; Obama promete aumentá-lo, mantendo o veto à abertura de novos poços de petróleo. A América quer ver os imigrantes ilegais pelas costas; Obama promete não somente anistiá-los, mas dar-lhes assistência médica com o dinheiro dos contribuintes. A nação quer menos impostos; Obama promete criar mais alguns. Se milhões de cidadãos americanos que pensam e querem o contrário de Obama juram votar nele para presidente, não é por causa do que ele promete, mas a despeito de ele lhes prometer até mesmo o inferno. A atração da imagem hipnótica é mais forte do que o cálculo de custo-benefício.

A campanha de Obama é uma obra de engenharia psicológica de precisão, planejada não para conquistar os eleitores pela persuasão racional, mas para debilitá-los, chocá-los e estupidificá-los ao ponto de fazê-los aceitar todo prejuízo, toda humilhação, toda derrota, só para não contrariar a suposta obrigação moral de elegê-lo, pouco importando que ele seja mesmo um inimigo disfarçado. Sacrificar tudo ante um fetiche, e fazê-lo até certo ponto conscientemente, compartilhando portanto as culpas da operação e incapacitando-se previamente para lutar contra ela depois de realizada, eis o que Obama está exigindo – e obtendo – dos eleitores.

Já vimos essa operação ser realizada no Brasil, com base na imagem estereotipada do “presidente operário”, contra cujos crimes e perfídias já ninguém pode levantar uma voz audível, pois, arrastados pela chantagem psicológica, todos se acumpliciaram de algum modo ao ritual de sacrifício ante o altar do ídolo.

Em 24 de julho de 2008

Coisa Espantosa

24 de julho de 2005 | Zero Hora

A coisa mais espantosa no falatório geral em torno da corrupção no governo é a insistência dos denunciantes, mesmo os mais inflamados, em manter a discussão do assunto encerrada no estrito limite prático-judicial, sem tocar nas fontes ideológicas da criminalidade petista.

Ora, a diferença essencial entre os casos de corrupção pré-Lula e os de agora é aquela que existe entre o delito avulso e o crime sistêmico, a iniciativa isolada de grupos em busca de vantagem própria e a organização maciça da delinqüencia em escala nacional, longamente preparada pelo entorpecimento metódico das consciências que, por isso mesmo, se vêem agora desarmadas para apreender a raiz da tragédia nacional, a ligação natural e indissolúvel entre política revolucionária e crime organizado.

De Marx a Antonio Gramsci, de Lenin a Fidel Castro, a tradição marxista é unânime tanto no seu desprezo à “moral burguesa” quanto na sua perfídia de imitá-la para destrui-la. Pode haver coisa mais burguesa do que colocar as leis e a ordem de uma sociedade nominalmente capitalista acima das conveniências estratégicas e táticas da esquerda? O petista que incorresse nessa fraqueza se sentiria réu do pecado mortal de traição à causa da “classe operária”. Fingir respeito, sim. Envergar uma máscara de idoneidade para ludibriar ricaços idiotas e pseudo-conservadores poltrões, sim. Adaptar-se às conveniências para não afugentar alianças indispensáveis, sim. Mas introjetar os princípios da moral vigente, guardá-los no coração e obedecê-los com sinceridade na prática política, ah, isto não! Seria o suprassumo da baixeza.

Se o PT no poder elevou o nível de corrupção acima do que exércitos inteiros de Anões do Orçamento ousariam conceber, foi porque se preparou para isso ao longo de décadas de auto-intoxicação ideológica que, arrogando à militância do presente os méritos imaginários do socialismo futuro, lhe concedia no mesmo ato o salvo-conduto para mentir em nome da verdade, roubar em nome da honestidade, delinqüir em nome da lei, até matar em nome da vida. Sim, matar, porque não há entre os líderes petistas (e esquerdistas em geral) um só que, pranteando as trezentas vítimas do regime militar até o limite do sentimentalismo kitsch e prodigalizando indenizações a seus descendentes até o limite da devassidão orçamentária, não considere de seu dever cuspir simultaneamente no túmulo das duas centenas de vítimas do terrorismo, recusando-lhes até mesmo o direito a um tímido esboço de homenagem verbal, que alguns deles, cheios de brios feridos e embriagados de ódio político imune à passagem de quatro décadas, descreveram como “um acinte” e “um show de horror”. Quando o simples respeito aos mortos é condicionado a exigências ideológicas, como não perceber que, na mente desses indivíduos, os preceitos mais elementares da moral, os sentimentos humanos mais básicos e universais foram esmagados sob o peso da idolatria partidária, da solidariedade mafiosa entre os irmãos de carteirinha? E, diante de tamanha deformidade do espírito, como não prever que, investidos dos meios de reforçar ilegalmente o esplendor do seu partido com recursos do Estado, tais indivíduos fariam exatamente isso? Gente capaz de prostituir no leito dos seus interesses partidários até a fé religiosa, como o faz a teologia da libertação, até os mais elevados sentimentos de compaixão popular, como se fez nas coletas do Betinho, até a aspiração nacional de ordem e decência, como na “campanha pela ética na política”, por que haveria de respeitar os bens do Estado em vez de usá-los para finalidades que, na sua imaginação narcísica, transcendem infinitamente em nobreza e importância o próprio Estado?

Esperar outra conduta do PT no poder, como o fizeram até as elites mais diretamente interessadas na preservação do capitalismo brasileiro, foi tão absurdo, tão irrealista, que, hoje, aqueles que apostaram nisso sentem o impulso de despolitizar a notícia dos crimes para não ter de denunciar, junto com eles, a sua própria recusa obstinada de ligar às causas às conseqüências, a sua vergonhosa e imperdoável covardia intelectual de capitalistas bajuladores de comunistas.

Em 24 de julho de 2005

Ideias De Jerico

24 de julho de 2002 | 24 de julho de 2002

Qualquer governante sério que assuma o poder no Brasil terá que tomar – TERÁ que tomar, repito – duas decisões que se impõem: congelar o salário mínimo e a remuneração dos servidores públicos por tempo indeterminado e aumentar o superávit fiscal, o que significa, na prática, reduzir a ação do Estado, eliminando programas sociais e evitando criar novos. Será a única maneira de ganhar tempo para escolher as opções para administrar o rombo da Previdência Social e não deixar a dívida pública sair do controle.

Os jornais de hoje dão destaque a alguns temas da proposta econômica do PT – a sua enésima versão divulgada ontem ao público supostamente light – à qual ainda não tiver acesso, dizendo que supostamente ela teria sido desideologizada. Algumas delas: redução da jornada de trabalho, ampliação do seguro-desemprego e o aumento da multa por rescisão no contrato de trabalho. Ora, implantar essas medidas será a decretação da falência do Estado e da desordem econômica no Brasil. Só alguém que misture em seus propósitos mendacidade e burrice para expor idéias dessa natureza. É tentar apagar incêndio com gasolina.

Aumento de salário mínimo de 20% a.a. (a outra taxa que seja, ainda que menor) fará com que a déficit da Previdência Social fique incontrolável, vez que ela concentra um enorme contingente de pessoas que recebem nessa faixa. O mesmo pode ser dito dos gastos com pessoal das esferas de governos mais pobres, os estados e municípios.

A idéia de ampliar o seguro-desemprego se choca com a necessidade de gerar superávit primário, isso numa conjuntura em que a arrecadação está caindo de forma rápida. Simplesmente será impossível custear novos benefícios dessa natureza. Não passa de uma idéia asinina, impraticável, de quem não tem qualquer limite para pregar mendacidades eleitoreiras.

A redução da jornada de trabalho, além de demente, pois colocaria as empresas diante de um custo adicional que não teriam como repassar ao mercado e, portanto, significaria desemprego instantâneo, prejudicaria os trabalhadores, os supostos beneficiados. A economia informal tenderia a substituir a economia formal, prejudicando adicionalmente a Previdência Social.

Aumentar a multa na rescisão do contrato de trabalho vai na mesma direção. Esse conjunto de medidas, se implantado, jogaria a economia em depressão no espaço de tempo não superior a três meses. Sandice pura.

E a promessa de fazer crescer o PIB a 5% a.a. é piada de mau gosto. Como? Não tem como, se não for resolvido antes o estrangulamento externo, que não tem nem solução fácil e nem de curto prazo. É um delírio demagógico de cunho eleitoreiro.

Se, caro leitor, você é um possível eleitor de Lula Lá e leu essa patacoada nos jornais, pense bem no que vai fazer. O PT tem nas suas propostas uma mistura explosiva de loucura, irrealismo e irresponsabilidade. Eleições não são apenas eleições, é todo o nosso porvir que estará sendo definido. Pense bem.

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP Em 24 de julho de 2002

Leituras

O Pt Tira A Mascara

24 de agosto de 2007 | Diário do Comércio

O vídeo preparatório ao 3o Congresso do PT é a prova cabal de tudo aquilo que venho dizendo desse partido há mais de uma década: é um partido revolucionário, empenhado em implantar no Brasil um regime comunista.

Assistam e tirem suas dúvidas. Entre outras coisas, a propaganda deixa claro que o PT foi o fundador e organizador do Foro de São Paulo e, como tal, o responsável direto pelo advento dos Chávez, Morales e tutti quanti , aos quais até os luminares do Departamento de Estado americano imaginaram que ele pudesse servir de alternativa democrática.

Extinguir o capitalismo com a ajuda sonsa dos próprios capitalistas, chegar ao socialismo usando “a democracia como estratégia” ( sic ), é o mínimo que o novo programa petista promete e, não encontrando resistência praticamente nenhuma, vai realizar sem a menor dificuldade, entre sorrisos de suas vítimas subservientes.

Por ter dito a verdade óbvia a respeito do processo revolucionário comunista, que agora o próprio PT assume da maneira mais descarada, fui xingado, escarnecido e ridicularizado, sofri mais difamação do que qualquer outro brasileiro vivo, perdi três empregos na mídia e recebi tantas ameaças de morte que passei a me considerar oficialmente falecido e não me preocupei mais com isso.

Não, não estou me queixando. O fenômeno me toca menos como incomodidade pessoal do que como sintoma da ignorância presunçosa das nossas elites políticas, empresariais e militares, que com perseverança asinina insistiram em rejeitar as minhas advertências e em cultivar uma imagem lisonjeira do petismo, seja em busca de vantagens imediatas – suicidas a longo prazo –, seja simplesmente de proteção poliânica contra uma realidade que se anunciava temível demais para as suas alminhas frágeis e trêmulas.

Também não quero humilhar os derrotados, quero apenas adverti-los novamente, desta vez com a certeza absoluta de que o tempo restante para uma reação eficaz está se esgotando rapidamente, muito rapidamente.

Uma reação eficaz subentende conhecimento exato do estado de coisas e da sua longa preparação histórica, assim como disposição para jogar ao lixo todas as ilusões de que o comunismo acabou, de que o Brasil, por especial proteção divina, é imune à tentação revolucionária, ou de que o governo americano está interessado em defender o nosso país contra a onda castrochavista.

Os americanos só se interessarão por isso se lutarmos para despertar seu interesse. Por enquanto, o único brasileiro que vem tentando fazer alguma coisa nesse sentido sou eu – sem apoio institucional, sem dinheiro, sem um único ajudante e contando apenas com a força de uma cara-de-pau que a mim mesmo me surpreende. Não tenho acesso direto ao governo, mas tenho falado o quanto posso, em think tanks , instituições universitárias e até na Academia de West Point.

Noventa por cento dos que me ouvem me dão razão, mas não posso competir com a ação petista espalhada em Washington e Nova York, protegida até mesmo pelas frações do empresariado brasileiro aí presentes.

Em 24 de agosto de 2007

Concurso Midia Sem Mascara

24 de agosto de 2002 | Mídia Sem Máscara

Cuanto peor, mejor: diga la cosa más idiota y gane un libro inteligente MÍDIA SEM MÁSCARA (www.midiasemmascara.org) regalará un ejemplar por estrenar del best seller de Ann Coulter, Slander. Liberal Lies About The American Right (New York, Crown Publishers, 2002) al autor de la crítica más imbécil y deshonesta hecha a este periódico hasta el 30 de septiembre del año en curso.

Las condiciones para participar en el certamen son las siguientes:

1 – El autor de la cosa tiene que ser periodista profesional, escritor conocido, político de renombre, profesor universitario o al menos estudiante de nivel superior, para que su opinión sea representativa del pensamiento nacional y no pueda ser disculpada como parida irrelevante de un don nadie.

2 – La sandez tiene que haber sido publicada en los medios de comunicación, tanto gráficos como electrónicos, y no sólo pensada en el retrete tenebroso de un cerebro enfermizo. Una vez publicada, su inscripción en el concurso es automática, sin necesidad de envío de una copia a la redacción. Si nadie acepta publicarla, por excesivamente estúpida, aún así el interesado puede inscribirla, bastando para ello enviarla por e-mail a MÍDIA SEM MÁSCARA.

3 – Para merecer el primer premio, es imprescindible que la obra cumpla los siguientes requisitos:

(a) Emplear al menos 2 (dos) lugares-comunes de la oratoria izquierdista, lanzándolos contra el periódico con la convicción inconmovible de estar esgrimiendo contra el mismo argumentos fulminantes.

(b) Apelar con la mayor inocencia al argumentum ad ignorantiam, es decir, usar el propio desconocimiento de algo como prueba irrefutable de la inexistencia de ese algo.

(c) Manifestar una total ojeriza contra la mera hipótesis de intentar comprobar, incluso someramente, las alegaciones impugnadas, demostrando de tal guisa tener un odio visceral a la primera obligación del oficio periodístico y de la vida intelectual en general.

(d) Ser o al menos parecer completamente sincera, pues no queremos ver a nadie haciendo el papel de idiota sin tener los méritos requeridos para ello.

4 – El vencedor recibirá el premio aunque sea a disgusto y con protestas, aunque se niegue a remitirnos su dirección postal, aunque se esconda en la falda de su madre el día de la premiación e incluso aunque se abalance violentamente contra la comisión juzgadora en el momento de la entrega. MÍDIA SEM MÁSCARA no se anda con remilgos: tira la piedra y enseña la mano.

Primeros colocados hasta ahora:

Por ahora los concursantes que más prometen son los siguientes:

Transformando A Cia Numa Kgb

23 de setembro de 2009 | Diário do Comércio

No livro da Sra. Saunders, que mencionei no artigo anterior, a inversão do detalhe FHC é, no fim das contas, dos males o menor. A tese essencial da obra – a de que a CIA até ultrapassou a KGB em seu esforço de seduzir e manipular intelectuais e escritores – é de alto a baixo uma inversão.

Um dos fatos centrais da história das idéias no século XX foi a ofensiva cultural soviética no Ocidente, que começou bem antes da II Guerra Mundial e, mutatis mutandis, continua até hoje. A extensão desse fenômeno pode avaliar-se pelo fato de que a influência comunista no cinema americano, começando modestamente com a Writer’s Guild de John Howard Lawson, acabou por dominar Hollywood praticamente inteira a partir da década de 60, fazendo da indústria cinematográfica a fortaleza invencível do anti-americanismo cultural, lado a lado com as universidades e a “grande mídia” (v. Ronald Radosh, Red Star Over Hollywood. The Film Colony’s Long Romance with the Left , San Francisco, Encounter Books, 2005, e Michael Medved, Hollywood vs. America , New York, HarperCollins, 1992). Jamais houve uma operação de guerra cultural tão vasta, tão rica e tão bem sucedida. A linguagem, os critérios de julgamento e os cacoetes mentais colocados em circulação pela KGB desde os anos 30 impregnaram-se de tal modo na indústria cultural e midiática dos EUA que hoje soam como se fossem o que há de mais genuinamente americano no mundo. Acentuada pelo fato de que a mentalidade pró-americana foi sendo banida e criminalizada ao ponto de que hoje a simples tentação de tomar partido dos EUA em qualquer guerra ou confrontação política soa como intolerável extremismo de direita, se não de racismo, a impressão de espontaneísmo autóctone do anti-americanismo chique dissipa-se assim que você rastreia a origem das opiniões, das figuras de linguagem e dos estereótipos dominantes – uma investigação que está infinitamente acima das possibilidades do leitor comum. Aí você descobre que hoje a elite americana fala do seu país na linguagem criada por Willi Münzenberg, o pioneiro da ofensiva cultural soviética (v. Sean McMeekin, The Red Millionaire. A Political Biography of Willi Münzenberg, Moscow’s Secret Propaganda Tzar in the West , Yale University Press, 2003). A lenta mutação de mentalidade foi criando as condições para que, depois de muitas décadas de preparação psicológica, o eleitorado americano aceitasse, às tontas, um presidente empenhado em socializar de um só golpe a economia americana, em desmantelar o sistema de defesas do país e em criminalizar toda e qualquer expressão de patriotismo americano tradicional.

Contra a influência avassaladora e onipresente da propaganda soviética, tudo o que a CIA fez foi esboçar, nos anos 50, um “Congresso pela Liberdade da Cultura”, imitando em escala miniaturizada os procedimentos do concorrente (financiar revistas de cultura, seduzir artistas e jornalistas, etc.), com duas diferenças: as verbas a seu serviço eram incomparavelmente menores (a sra. Saunders fala em “dezenas de milhões de dólares”, uma miséria pelos padrões da KGB) e seus colaboradores participavam da coisa por livre vontade, sem medo de ir para o Gulag em caso de recusa (os próprios criadores da ofensiva cultural soviética acabaram caindo em desgraça: Karl Radek morreu na prisão e Münzenberg, esgotada sua utilidade, foi assassinado a mando de Stalin).

Omitindo-se de todo exame comparativo, a Sra. Saunders cria a impressão de que o Congresso foi algo de tão majestoso, impressionante e temível quanto o chamado “Münzenberg Trust”, a rede mundial de jornais, revistas, editoras, estúdios de cinema, estações de rádio, bancos, universidades e agências de turismo, presidida pelo maior gênio da guerra cultural de todos os tempos. Em conclusão, aquilo que foi, ante a pujança do adversário, nada mais que um tiro de estilingue, fica parecendo uma guerra imperialista descomunal, intrusiva e sem motivo.

O simples cotejo geográfico bastaria para mostrar que as denúncias da Sra. Saunders não passam de encenação forçada. Vejam a extensão da presença comunista nas artes e espetáculos dos EUA e perguntem se algum estúdio de cinema, jornal ou negócio editorial em Moscou foi algum dia controlado pela CIA. A ofensiva cultural soviética penetrou fundo no próprio território americano, ao passo que os americanos podiam, no máximo, tentar defender algumas áreas de influência nos países amigos. Diante dessa desproporção, que é que pode ter havido de abusivamente imperialista no Congresso pela Liberdade da Cultura, exceto do ponto de vista da própria desinformação soviética, da qual a Sra. Saunders se faz, assim, fiel servidora?

A Sra. Saunders eleva a hipérbole às alturas do delírio megalômano ao declarar que, subsidiando um exército de intelectuais e artistas, “a CIA funcionava, na verdade, como o ministério da Cultura dos EUA”. A insinuação não resiste ao mais mínimo confronto com o anti-americanismo geral da indústria cultural americana, mas isso não abala em nada as certezas da Sra. Saunders nem muito menos amortece a credulidade de seus leitores brasileiros.

Entre outras maldades gratuitas praticadas pela CIA, segundo disse a sra. Saunders em estrevista à Folha, esteve a proibição de que “escritores progressistas”, como Pablo Neruda e Jean-Paul Sartre, participassem da operação. Na verdade, “escritores progressistas” eram o grosso da tropa a serviço do Congresso, que cortejava a esquerda moderada para jogá-la contra a esquerda radical (uma burrada, na minha modesta opinião, mas nem por isso um dado histórico menos certo). E nem Neruda nem Sartre eram “progressistas”, a não ser no sentido que essa palavra tem, em código, no vocabulário da propaganda comunista: o primeiro era um agente pago da KGB, o segundo um virulento apóstolo do genocídio comunista, persuadido de que “todo anticomunista é um cão” e empenhado em mostrar à Europa a bondade e o humanismo do regime cambojano de Pol-Pot. A Folha, que é ela própria um órgão de desinformação pró-comunista, naturalmente publica as declarações da Sra. Saunders sem esses dados complementares que as desmentem por inteiro.

Na mesma entrevista, a Sra. Saunders revela toda a extensão da sua desonestidade quando o repórter da Folha lhe pergunta se as operações da CIA na guerra cultural se igualam à propaganda nazista e soviética. Não podendo responder que sim, pois o exagero seria flagrante demais, mas não querendo também admitir que o governo americano é mais decente que o nazista ou o soviético, ela se safa explicando que “o que a CIA fez foi infinitamente mais sofisticado do que fizeram os nazistas ou os soviéticos... foi uma forma muito sutil de propaganda, em que as pessoas envolvidas em sua produção, e aquelas envolvidas em seu consumo, sequer sabiam o que é propaganda”. Quem conhece a história sabe que a CIA não inventou essa “forma sutil de propaganda”, apenas a copiou, atenuada, do que os soviéticos já faziam desde os anos 30. A propaganda indireta era a base mesma da técnica Munzenberg nas democracias ocidentais, reservando-se a doutrinação grossa para o Terceiro Mundo e as populações dos próprios países comunistas.

Em 23 de setembro de 2009

Conforme O Previsto

23 de setembro de 2008 | Diário do Comércio

A pressa indecente com que os opositores nominais do governo correm para apoiá-lo ao mínimo aceno de alguma vantagem possível é a prova de que a passagem do PT pelo poder, exatamente como previ há mais de dez anos, e ao contrário do que afirmavam todos os sapientes, não terá sido um episódio normal do rodízio democrático, e sim a inauguração de um novo sistema que, superposto à ordem democrática, terminará – já quase terminou – por engoli-la e fazê-la desaparecer para sempre.

A “Nova República” não foi senão uma tênue interface entre o governo militar e o Brasil socialista, marcado pela hegemonia esquerdista em todos os setores da vida social, pela simbiose macabra entre o governo e o banditismo crescente, pela corrupção em níveis jamais antes imaginados, pela destruição completa da cultura superior, pela institucionalização do paternalismo estatal como garantia do apoio popular, pelo fechamento das fronteiras mentais do país ao debate de idéias no mundo, pela transformação do sistema de ensino em máquina de adestramento da militância comunista e, last not least , pela progressiva e tácita criminalização de toda atividade capitalista, louvada ao mesmo tempo, numa alternância pavloviana de choques e queijos, como indispensável ao progresso da nação. Como, no meio de toda essa tragédia, a economia cresce um pouquinho e esse pouquinho basta para acalmar uma multidão de consciências que aliás jamais foram muito exigentes, o sucesso do conjunto está garantido, e é óbvio, é patente que o sr. Lula tem todas as condições não apenas para fazer o seu sucessor, mas o sucessor do seu sucessor e todos os sucessores deste último por muitas décadas à frente. Cada político “de oposição” sabe disso e já tem nas mãos um leque de estratégias para adaptar-se à situação o mais confortavelmente possível, até simulando motivos éticos. E os militares? Eles têm algum ressentimento, é verdade, mas, marginalizados e reduzidos a condições de subsistência humilhante, já nada podem fazer senão esboçar aqui e ali um protesto simbólico, ridicularizado pela mídia. Muitos deles já parecem reger-se pela psicologia dos miseráveis: prometam-lhes alguma coisa, por mínima que seja, e eles farão o que você quiser. Antigamente a farda protegia contra a deterioração moral do ambiente. Mas ela não pode proteger contra uma cultura inteira. Só um gênio ou um louco pode desaculturar-se a si próprio. O homem comum, fardado ou não, cede à onipresença hipnótica dos contravalores que antes desprezava, em nome de valores dos quais já não se lembra. Tudo o que muitos oficiais das nossas Forças Armadas estão esperando é um pretexto patriótico para a adesão final. Criaturas solícitas como o general Andrade Nery dão o melhor de si para fornecê-lo, dirigindo habilmente contra os EUA o ódio que deveria se voltar contra o globalismo anti-americano da ONU, o qual, sob pretextos indigenistas e contando com a proteção da Presidência da República, vai comendo território e reservas minerais do Brasil enquanto a “Hora do Povo” e o próprio sr. presidente desviam as atenções de civis e militares para a presença alegadamente ameaçadora da IV Frota americana que, é claro, vem roubar o nosso petróleo...

Esse panorama não apenas já era previsível em 2002 e até bem antes, como foi efetivamente previsto nos meus próprios artigos, enquanto ilustres comentaristas políticos e analistas estratégicos, pagos a peso de ouro pelo empresariado, diziam que nada disso ia acontecer, que o PT desfrutaria de seus quinze minutos de fama e em seguida sumiria na lata de lixo da História, deixando caminho aberto aos liberais para que construíssem uma democracia capitalista moderna e pujante, de fazer inveja à Suíça.

Pela raiva que tantos ainda sentem de quem lhes disse a verdade, pela generosidade com que continuam premiando quem os ludibriou, o que me pergunto é se, sob o pretexto de ouvir análises de conjuntura, o que querem mesmo não são apenas umas palavras animadoras, tanto mais bem-vindas quanto mais falsas.

Em 23 de setembro de 2008

E Proibido Comparar

23 de outubro de 2004 | O Globo

Desta vez a farsa durou pouco. Mas terá o leitor reparado na pressa obscena com que a quase totalidade da grande mídia nacional, de posse de umas fotos bem duvidosas, saiu alardeando mais uma de suas rotineiras vitórias morais sobre uma direita militar já praticamente extinta? Terá notado que o enredo do espetáculo corresponde ponto por ponto a um script repetível, periodicamente reencenado ante todos os holofotes, para a glória dos mártires esquerdistas e a desonra dos homens de farda?

Há sempre um ex-cabo, ex-soldado, ex-agente que aparece do nada, com revelações estapafúrdias e contraditórias, vendidas ao público como verdades auto-evidentes e aterradoras. Passadas umas semanas, nada se prova, é claro, mas a reputação das Forças Armadas sai um pouco mais suja.

Nos dois casos imediatamente anteriores, um morto despertava para frear um carro, escapando ao constrangimento de morrer duas vezes, e um agente especial, em fuga das investigações de tortura, não dispondo de cinco minutos para obedecer à ordem de queimar documentos comprometedores, passava horas cavando um buraco para escondê-los...

O grotesco da invencionice não tem limites. Mas quem ousará duvidar da autoridade moral dos campeões de tantas belas campanhas pela ética, pela paz, pelo desarmamento? Contra a inteligência do público, o jornalismo blefa — e ganha. O bom senso popular, retraído, cede lugar à credulidade servil que se rende ante a voz unânime dos bem-pensantes.

Desta vez a farsa durou pouco. Mas quando serão tiradas a limpo as anteriores? Resposta: quando a verdade dos fatos se tornar mais importante que a celebração ritual da santidade esquerdista.

O vexame desta semana apressará a mudança? Não creio.

“Dar voz aos dois lados” é o mandamento mais banal da profissão, mas ele não pode ser cumprido quando o objetivo é enaltecer um deles e humilhar o outro. Esse objetivo tornou-se cláusula pétrea do jornalismo nacional. Rompê-la é atrair o ódio de uma classe cuja solidariedade interna se identifica consubstancialmente à unidade histórica do ethos esquerdista.

Nos combates da era militar, o placar das mortes foi bem equitativo. Os esquerdistas mataram duzentos e perderam trezentos.

Se, respeitando as proporções, a memória jornalística publicasse duas fotos dos primeiros para cada três dos segundos, duas declarações dos familiares daqueles para cada três dos descendentes destes, a imagem pública dos acontecimentos seria bem diversa do que é. Mas, se os trezentos são pranteados a cada momento como heróis e mártires, os duzentos não merecem senão o silêncio cheio de desprezo que se consagra a um detalhe irrisório. É injusto, inumano e surpremamente cínico.

Se para cada três imagens de esquerdistas mortos saísse nos jornais ao menos uma do tenente Mendes Júnior, assassinado a coronhadas, amarrado, pelo valente Carlos Lamarca, ou de Márcio Toledo, militante “justiçado” sob acusação de deslealdade à causa, ninguém acreditaria na lenda de que a luta foi de bravos e leais idealistas contra torturadores covardes e cruéis.

Pior. Se as vítimas da repressão fossem comparadas às do terrorismo, logo se tornaria visível uma diferença: as primeiras foram, todas, gente envolvida no conflito. Entre as segundas houve um número considerável de civis inocentes, configurando a prática fria e persistente de um crime hediondo nem um pouco mais perdoável que o de tortura.

Aí já não seria possível à nossa mídia — ou governo — continuar condenando da boca para fora os atos de terrorismo em Nova York ou Madri ao mesmo tempo que os louva quando voltados contra brasileiros.

Se as ligações políticas dos terroristas fossem descritas com veracidade, todo mundo saberia que eles combatiam uma ditadura culpada de trezentas mortes, mas o faziam como cúmplices de outra ditadura, culpada de mais de cem mil.

O Futuro Que A Russia Nos Promete

23 de maio de 2011 | Diário do Comércio

O prof. Alexandre Duguin, à testa da elite intelectual russa que hoje molda a política internacional do governo Putin, diz que o grande plano da sua nação é restaurar o sentido hierárquico dos valores espirituais que a modernidade soterrou. Para pessoas de mentalidade religiosa, chocadas com a vulgaridade brutal da vida moderna, a proposta pode soar bem atraente. Só que a realização da idéia passa por duas etapas. Primeiro é preciso destruir o Ocidente, pai de todos os males, mediante uma guerra mundial, fatalmente mais devastadora que as duas anteriores. Depois será instaurado o Império Mundial Eurasiano sob a liderança da Santa Mãe Rússia.

Quanto ao primeiro tópico: a “salvação pela destruição” é um dos chavões mais constantes do discurso revolucionário. A Revolução Francesa prometeu salvar a França pela destruição do Antigo Regime: trouxe-a de queda em queda até à condição de potência de segunda classe. A Revolução Mexicana prometeu salvar o México pela destruição da Igreja Católica: transformou-o num fornecedor de drogas para o mundo e de miseráveis para a assistência social americana. A Revolução Russa prometeu salvar a Rússia pela destruição do capitalismo: transformou-a num cemitério. A Revolução Chinesa prometeu salvar a China pela destruição da cultura burguesa: transformou-a num matadouro. A Revolução Cubana prometeu salvar Cuba pela destruição dos usurpadores imperialistas: transformou-a numa prisão de mendigos. Os positivistas brasileiros prometeram salvar o Brasil mediante a destruição da monarquia: acabaram com a única democracia que havia no continente e jogaram o país numa sucessão de golpes e ditaduras que só acabou em 1988 para dar lugar a uma ditadura modernizada com outro nome.

Agora o prof. Duguin promete salvar o mundo pela destruição do Ocidente. Sinceramente, prefiro não saber o que vem depois. A mentalidade revolucionária, com suas promessas auto-adiáveis, tão prontas a se transformar nas suas contrárias com a cara mais inocente do mundo, é o maior flagelo que já se abateu sobre a humanidade. Suas vítimas, de 1789 até hoje, não estão abaixo de trezentos milhões de pessoas – mais que todas as epidemias, catástrofes naturais e guerras entre nações mataram desde o início dos tempos. A essência do seu discurso, como creio já ter demonstrado, é a inversão do sentido do tempo: inventar um futuro e reinterpretar à luz dele, como se fosse premissa certa e arquiprovada, o presente e o passado. Inverter o processo normal do conhecimento, passando a entender o conhecido pelo desconhecido, o certo pelo duvidoso, o categórico pelo hipotético. É a falsificação estrutural, sistemática, obsediante, hipnótica. O prof. Duguin propõe o Império Eurasiano e reconstrói toda a história do mundo como se fosse a longa preparação para o advento dessa coisa linda. É um revolucionário como outro qualquer. Apenas, imensamente mais pretensioso.

Quanto ao Império Mundial Eurasiano, com um pólo oriental sustentado nos países islâmicos, no Japão e na China, e um pólo ocidental no eixo Paris-Berlim-Moscou, não é de maneira alguma uma idéia nova. Stalin acalentou esse projeto e fez tudo o que podia para realizá-lo, só fracassando porque não conseguiu, em tempo, criar uma frota marítima com as dimensões requeridas para realizá-lo. Ele errou no timing : dizia que os EUA não passariam dos anos 80. Quem não passou foi a URSS.

Como o prof. Duguin adorna o projeto com o apelo aos valores espirituais e religiosos, em lugar do internacionalismo proletário que legitimava as ambições de Stálin, parece lógico admitir que a nova versão do projeto imperial russo é algo como um stalinismo de direita.

Mas a coisa mais óbvia no governo russo é que seus ocupantes são os mesmos que dominavam o país no tempo do comunismo. Substancialmente, é o pessoal da KGB (ou FSB, que a mudança periódica de nomes jamais mudou a natureza dessa instituição). Pior ainda, é a KGB com poder brutalmente ampliado: de um lado, se no regime comunista havia um agente da polícia secreta para cada 400 cidadãos, hoje há um para cada 200, caracterizando a Rússia, inconfundivelmente, como Estado policial; de outro, o rateio das propriedades estatais entre agentes e colaboradores da polícia política, que se transformaram da noite para o dia em “oligarcas” sem perder seus vínculos de submissão à KGB, concede a esta entidade o privilégio de atuar no Ocidente, sob camadas e camadas de disfarces, com uma liberdade de movimentos que seria impensável no tempo de Stalin ou de Kruschev.

Ideologicamente, o eurasismo é diferente do comunismo. Mas ideologia, como definia o próprio Karl Marx, é apenas um “vestido de idéias” a encobrir um esquema de poder. O esquema de poder na Rússia trocou de vestido, mas continua o mesmo – com as mesmas pessoas nos mesmos lugares, exercendo as mesmas funções, com as mesmas ambições totalitárias de sempre.

O Império Eurasiano promete-nos uma guerra mundial e, como resultado dela, uma ditadura global. Alguns de seus adeptos chegam a chamá-lo “o Império do Fim”, uma evocação claramente apocalíptica. Só esquecem de observar que o último império antes do Juízo Final não será outra coisa senão o Império do Anticristo.

Em 23 de maio de 2011

Fantamasgoria Verbal

23 de maio de 2002 | Jornal da Tarde

Há uma diferença substancial entre aderir a uma posição política, julgando os fatos com base nela, e tomar conhecimento de fatos que, por sua força intrínseca, e mesmo contra a nossa vontade, acabam por mudar nossa opinião política.

Três obstáculos tornam difícil aos brasileiros de hoje perceber essa diferença na prática, se não mesmo apreendê-la conceptualmente.

O primeiro é o tradicional verbalismo nacional. Verbalismo não é amor às palavras. Também não é falar muito. É um mau hábito de percepção verbal, que faz o sujeito reagir emocionalmente à simples menção de certas palavras, sem esperar para obter uma adequada representação imaginativa das coisas e fatos mencionados.

O segundo obstáculo é o analfabetismo funcional, endêmico nas nossas classes superiores. Analfabetismo funcional é impossibilidade de produzir a representação imaginativa da coisa lida ou ouvida. É um upgrade do verbalismo. É verbalismo compulsório.

O terceiro é o adestramento ideológico marxista, que encobre e protege sob a capa de um discurso automatizado os dois vícios acima, tornando-os inacessíveis às mais engenhosas terapêuticas.

O verbalista salta direto do estímulo verbal à reação emotiva, sem passar pelo trabalho de imaginação e muito menos pela triagem crítica das representações imaginativas. Daí sua tendência a comover-se ante simples jogos vocabulares que, bem examinados, não significam nada e não podem suscitar emoção nenhuma. Todo o sucesso do movimento concretista em poesia deveu-se a esse tipo de leitores.

O analfabeto funcional não pode alcançar a representação imaginativa: ou permanece insensível à mensagem verbal ou tem de projetar sobre ela algum conteúdo da memória, escolhido ao acaso das associações de idéias e embebido de conotações valorativas deslocadas do assunto.

O sujeito ideologicamente adestrado já traz na memória todo um repertório de conteúdos prontos para ser projetados sobre qualquer mensagem, o que o dispensa e protege do contato intelectual com o interlocutor e lhe dá ao mesmo tempo o sentimento tranqüilizante de estar compreendendo tudo da situação. (Há dois tipos de adestrados ideológicos: os assumidos, cândidos ou antigos, que crêem piamente na ideologia salvadora e não hesitam em oferecê-la como resposta a todos os problemas, e os enrustidos, maliciosos ou modernos, que se dizem livres de preconceito ideológico, mas, não tendo nenhum outro sistema de referências pelo qual orientar-se, continuam julgando tudo segundo os cânones da ideologia que pensam ter abandonado.)

No fundo, essas três doenças são a mesma, tomada em três níveis de gravidade crescente. O sujeito começa verbalista por herança cultural doméstica. Passa a analfabeto funcional pela consolidação do vício tornado irreversível. Por fim, ao receber instrução universitária, reveste-se aí daquela carapaça verbal que, consolidando e legitimando os dois vícios anteriores sob o rótulo de cultura superior, o tornará para sempre imune ao impacto de novas mensagens verbais. Só na educação superior o desenvolvimento da estupidez lingüística alcançará aquele patamar de estabilidade que permitirá ao sujeito não compreender nada e julgar tudo. O verbalista e o analfabeto funcional ainda têm uma fresta de insegurança, por onde pode entrar um raio de luz. A instrução universitária veda o buraco e encerra o sujeito numa escuridão perfeitamente segura.

Por isso são as pessoas instruídas as que mais têm dificuldade de atinar com a diferença que mencionei. Para essas, não há verdade e mentira, fato e ficção, lógica e nonsense. Há apenas “posições políticas” — a delas e a dos outros. Na verdade não há nem isso, porque uma opinião política própria é conhecida instantaneamente pelo sujeito no simples ato de inventá-la, ao passo que a alheia requer atenção, estudo e objetividade, inacessíveis por definição a essas criaturas. Então, para elas, só existe uma coisa: sua própria posição política, da qual a adversária não é senão a inversão projetiva, produto totalmente imaginário. Daí a facilidade com que enxergam a unidade de uma conspiração adversa por trás dos produtos mais díspares e heterogêneos da inventividade ideológica humana, compondo com eles o desenho de um inimigo impossível que é ao mesmo tempo liberal e conservador, saudosista da Idade Média e democrata burguês, católico e maçom, sionista e nazista. Que esse inimigo não possa existir no mundo real, pouco lhes importa: se deixassem de acreditar na existência dele, veriam que sua própria existência é fantasmal e ilusória.

Em 23 de maio de 2002

Um Capitulo De Memorias

23 de junho de 2008 | Diário do Comércio

Que o leitor me permita começar este artigo por um episódio da minha porca vida, do qual espero tirar algumas conclusões de interesse geral.

Tão logo cheguei a este mundo, uma estranha infecção pulmonar adiou meu ingresso oficial nele durante sete anos, reduzindo-me a um estado de inconsciência febril e delirante do qual só emergi no dia de ir para a escola, se bem que meus desafetos digam que não saí dele jamais.

Embutido no uniforme, eu me parecia exteriormente com os demais meninos, mas por dentro era um bebê, simplório como um passarinho, por total ignorância não só dos pecados como também de tudo o mais.

Sendo a escola uma instituição religiosa, os professores leram-me trechos do Evangelho, que me comoviam até às lágrimas, mas daí, mediante uma lógica que me escapava, deduziam e me atribuíam a incumbência de confessar meus pecados, dos quais o único que me ocorria, na minha desesperadora pobreza de repertório, era o pecado original. Disfarçando como podia a minha radical incompreensão do estado de coisas, entrei na fila do confessionário esperando que quando chegasse a minha vez tudo se esclareceria. Mas foi então que veio o pior. De trás de uma cortina que o tornava semi-invisível, um padre não identificado me perguntou:

— Você fez porcarias?

Eu não tinha a mais mínima idéia do que podiam ser as tais porcarias, mas, fossem lá o que fossem, pareciam ser comuns a toda a humanidade, de modo que, por mera precaução, respondi: “Sim.” E já ia me sentindo muito aliviado pelo meu sucesso neste teste inicial, quando o padre voltou à carga:

— Com meninos ou com meninas?

Agora ele me pegou, pensei aterrorizado. Como poderia eu supor que aquele delito misterioso e incognoscível se praticava com ambos os sexos? Não querendo, porém, dar o braço a torcer, declarei peremptoriamente: “Com os dois.” Feito isso, fui liberado para a parte leve do serviço, que consistiu em rezar dez Pai-Nossos e dez Ave-Marias, coisa que eu já fazia habitualmente sem ter de passar por aquele vexame preliminar.

Alguns meses se passaram antes que eu recebesse alguma informação fidedigna quanto à natureza das porcarias – e mesmo depois de cientificado ainda continuei duvidando que as pessoas fizessem mesmo aquelas coisas, as quais me pareciam sumamente despropositadas e tediosas. Tardiamente chegado a um universo repleto de estímulos e desafios, eu não podia conceber que alguém perdesse seu tempo “fazendo porcarias” em vez de se dedicar a alguma atividade mais substantiva como jogar bolinha de gude, brincar de Roy Rogers ou ir à matinê ver os desenhos de Tom & Jerry.

Mais tarde informaram-me que alguns meninos se dedicavam mesmo a um exercício denominado “troca-troca”, mas, como jamais eu visse nenhum deles se entregando a essa prática, permaneci incrédulo, só fingindo acreditar em tudo para não desagradar a ninguém e para não parecer ainda mais esquisito do que aquilo me parecia a mim. As porcarias, no fundo, se é que existiam mesmo, deviam ser coisa de gente grande, aquelas pessoas aborrecidas que só falavam de assuntos chatos – dívidas, doenças, arrumação de casa, políticos corruptos, juízes de futebol ladrões – e, para cúmulo, achavam normal comer brócolis em vez de sorvete. Que encanto pudesse haver nos seus afazeres porcaríferos era algo que me escapava por completo.

Quando, finalmente, compreendi do que se tratava, admiti que podia até haver algum interesse na coisa, mas aí um outro fenômeno me chamou a atenção, e este não era nem um pouco divertido: meditando a experiência da minha primeira confissão, descobri o abismo imensurável e sem fundo que pode haver entre a realidade da nossa alma e as imagens padronizadas que somos chamados a personificar na sociedade, imagens pelas quais os outros nos reconhecem, que eles chamam pelo nosso nome e nas quais, pelo efeito da repetição, acabamos por acreditar, sufocando a memória da nossa experiência efetiva e substituindo-a por um arranjo cômodo de aparências, que por sua vez se amoldam tão bem às necessidades da comunicação diária que acabamos por achar que são o verdadeiro “eu”.

A essa altura, aquela parte que ficou para trás, sem nome, não desaparece de todo, mas, excluída do mundo da linguagem, torna-se o nosso depósito pessoal de fantasmas, de temores inconfessáveis, de vergonhas indizíveis, de sensações informes e incomunicáveis.

Durante o meu período de doença, conheci mais dores e sofrimentos do que em geral os meninos da minha idade podiam sequer imaginar. Era todo um universo sombrio, opressivo, fechado. Sobretudo incomunicável: eu bem via o rosto angustiado de minha mãe, de meu pai, de meus tios, tentando puxar a minha dor para si próprios mas conseguindo apenas olhá-la de fora, atônitos e inermes, e atormentar-se em vão. Todo mundo passa por experiência semelhante algum dia, seja por meio da doença, da pobreza, da loucura, do abandono, da prisão. Minha diferença é que eu conheci esse lado obscuro da vida antes de conhecer qualquer outra coisa. Quando emergi desse inferno, tudo em volta me parecia tão interessante, tão bonito, tão atraente, que a hipótese de alguém poder entediar-se ao ponto de ter de buscar uma fonte extra de deleites me parecia simplesmente inverossímil. Eu não conhecia o sexo e, no meu deslumbramento com tudo o mais, não imaginava que alguém pudesse precisar dele (tudo o que depois li sobre sexualidade infantil me parece uma bobagem descomunal). Mas a estranha conjunção de uma experiência prematura do sofrimento humano com a ignorância radical de fatos elementares da fisiologia fez de mim uma incongruência viva, como Lao-Tseu, que nasceu velho e com o tempo foi se tornando um bebê. Claro, eu não era o único esquisitão do universo. Mais tarde descobri que cada ser humano tem por dentro algo de radicalmente diferente dos outros, um recinto próprio que a linguagem mal consegue penetrar e que, embora constitua a sua existência mais íntima e pessoal, acabará sendo totalmente ignorado pelos que em torno imaginam conhecê-lo. Toda a riqueza e o interesse da convivência humana consiste em usar os esterereótipos como meros bilhetes de ingresso nesse recinto, jogando-os fora tão logo entramos mais fundo na alma alheia. Mas como poderíamos fazer isso, se tudo em volta nos convida a encarnar os estereótipos cada vez mais esforçadamente, com um arremedo de sinceridade cada vez mais perfeito, até acabarmos acreditando que eles são nós?

As sociedades humanas podem ser comparadas – e julgadas – pelo seu sucesso ou fracasso em transmutar a linguagem comum em instrumento do encontro genuíno entre os seres humanos. E, de tudo o que vi e vivi depois, concluí que a sociedade brasileira se destaca pelo total desinteresse em fazer isso, pela acomodação complacente a uma convivência feita só de estereótipos. Foi isso o que o conde de Keyserling, aquele observador arguto, notou ao dizer que, enquanto nos outros países as pessoas só imitam aquilo que desejam tornar-se no futuro, os brasileiros se contentam com a imitação enquanto tal, esmerando-se nela ao ponto de esquecer que é possível ser algo na realidade e acabando por acreditar que a única coisa a esperar da vida é o sucesso no fingimento. Não é à toa que a obra do maior dos nossos ficcionistas é uma galeria de fingidos, hipócritas e palhaços como jamais se viu no mundo. Em Machado de Assis o único personagem sincero, o único que fala consigo mesmo e tenta se compreender a si próprio e aos outros, o conselheiro Aires, acaba vivendo num prudente e recatado isolamento. Isso explica muita coisa da nossa política.

Bandidos E Poltroes

23 de julho de 2010 | Diário do Comércio

Os termos em que o sr. Presidente da República apelou a José Serra, pedindo-lhe que pare de tocar na ferida das ligações PT-Farc, são uma obra-prima de tartufismo como raramente se viu na história do teatro universal.

Em vez de negar peremptoriamente que aquelas ligações existem – o que seria muito temerário, dada a abundância de provas –, ele tentou sensibilizar o coração do candidato, exigindo dele a omissão cúmplice que, na iminência da revelação de crimes escabrosos, se esperaria de um velho companheiro de militância para quem a solidariedade mafiosa deve estar, segundo os cânones da moral presidencial, acima da verdade, acima do respeito aos eleitores, acima dos interesses da pátria, acima do bem e do mal.

A chantagem emocional é o mais velho recurso dos patifes apanhados de calças na mão, mas o sr. Presidente da República, mesmo sendo incapaz de abster-se desse golpe baixo, poderia ao menos ter tido a decência de usá-lo em privado, em vez de mostrar em público, uma vez mais, que não tem o menor senso de moralidade.

O autor desse apelo abjeto assinou, em 2001, como presidente do Foro de São Paulo, um voto de solidariedade integral às Farc e outras organizações criminosas, e deu provas em cima de provas de que seu governo e seu partido vêm cumprindo o compromisso à risca. Recusar-se a qualificar essas organizações como terroristas e narcotraficantes, que é o que elas são com toda a evidência, já é prova de solidariedade. Somem a isto as mobilizações políticas montadas instantaneamente pelo PT e outras agremiações de esquerda para libertar qualquer membro daquelas quadrilhas que seja preso no território nacional; a participação de ministros do governo Lula na propaganda das Farc através da revista América Libre ; a contínua colaboração entre Farc e PT na formulação da estratégia esquerdista continental através das assembléias e grupos de trabalho do Foro de São Paulo; a recusa obstinada de levar em consideração as descobertas do juiz federal Odilon de Oliveira, que apresentou provas cabais da parceria entre as Farc e quadrilhas locais de assassinos e seqüestradores (tornando-se por isso virtualmente um prisioneiro, enquanto os acusados continuam à solta); somem tudo isso e me digam se existe, além do instinto de autodefesa dos envolvidos na tramóia, alguma razão para não falar de ligações entre PT e Farc, entre PT e MIR, entre PT e ELN ou entre o PT e qualquer outra organização pertencente ao Foro de São Paulo.

Quanto ao próprio Foro, que, sob as bênçãos do nosso partido governante, continua todo mês gastando quantias consideráveis em viagens de centenas de seus membros entre as várias capitais latino-americanas, o sr. Lula seria, mesmo quando ainda candidato, o primeiro a ter a obrigação de esclarecer qual o estatuto legal da entidade e de onde vem o dinheiro que a sustenta. Como ninguém teve a coragem de lhe perguntar isso em 2002 nem em 2006, ele se sentiu livre para não dizer nada. Com o tempo, a licença para silenciar, que então lhe foi concedida como um favor pela polidez covarde dos seus adversários, da mídia, das classes empresariais, dos militares e de tutti quanti , tornou-se, na cabeça dele, um direito adquirido. É em nome desse direito imaginário que ele agora exige dos candidatos oposicionistas a gentileza da omissão cúmplice, mesmo quando essa gentileza arrisque, uma vez mais, tirar das mãos deles a arma da verdade e da justiça, a mais poderosa em qualquer eleição presidencial.

Está na hora de mostrar que esse direito nunca existiu, exceto como conjunção momentânea de interesses vis entre bandidos e poltrões.

Se o PT insistir em querer processar o candidato vice-presidencial Índio da Costa, o que este e José Serra têm a fazer para desmoralizar por completo a fanfarronada petista é muito simples:

1. Inserir no processo as atas completas das assembléias do Foro de São Paulo, a lista dos membros da entidade e a coleção das revistas America Libre. Isso já basta para comprovar a ligação que o PT desmente.

2. Inserir nos autos os dois discursos em que o sr. Lula reconhece, até com orgulho, o caráter secreto e clandestino das atividades do Foro de São Paulo.

3. Convocar o testemunho do juiz Federal Odilon de Oliveira, provando que o PT continuou a relacionar-se em bons termos com as Farc enquanto a Justiça Federal já tinha provas suficientes de que essa organização criminosa colaborava com quadrilhas locais empenhadas em matar cidadãos brasileiros a granel.

Façam isso e não apenas vencerão o processo e as eleições: conquistarão a gratidão de todos os brasileiros honrados.

Em 23 de julho de 2010

Operacao Avestruz

23 de julho de 1998 | Jornal da Tarde

O novo mundo de governo planetário e “paz perpétua” que se anuncia para o século vindouro só é reconfortante e tranqüilizador para a população dos cemitérios. Para o restante da humanidade, ele é tão estranho, incompreensível e atemorizador, que as mentes mais fracas se recusam a vê-lo e se refugiam numa feroz nostalgia das guerras e revoluções do século 20, onde pelo menos todo mundo acreditava saber o que estava em jogo. Como fantasmas num teatro abandonado, continuam a reencenar mecanica-mente os velhos enredos, para uma platéia vazia, enquanto em torno o universo rui.

Quando ouço os miúdos discursos domésticos de nossos esquerdistas e de nossos liberais, em defesa do Estado ou da livre empresa, não posso deixar de constatar que tudo não passa de uma regressão uterina para um extinto mundo simples, em reação de autodefesa psíquica ante um súbito e temível alargamento do cenário histórico.

Entre nossos intelectuais, acadêmicos, jornalistas, políticos e comentaristas de tevê, quase ninguém quer realmente saber o que se passa, e, bem ao contrário, todos buscam produzir ansiosamente um discurso qualquer que os dispense de olhar para o mundo e lhes dê a ilusão de estar pisando no terreno firme da década de 40.

Mas a simples ignorância natural não bastaria para defendê-los de um mundo que se precipita, em velocidade atordoante, para dentro do desconhecido. Para manter-se numa reconfortante penumbra, têm de produzir com esforço deliberado uma espécie de ignorância ativa , reforçada todos os dias mediante novas e mais engenhosas negações dos fatos. Toda a imprensa nacional, sem exceções visíveis, é hoje apenas um mecanismo auxiliar dessa vasta Operação Avestruz, a força-tarefa designada para a missão de tapar os olhos da massa às notícias incatalogáveis.

Um exemplo característico é a facilidade unânime com que se dá por pressuposto, seja para maldizê-la, seja para enaltecê-la, que a Nova Ordem Mundial não é se-não um novo nome do bom e velho imperialismo norte-americano. Partindo dessa premissa, tudo não passa de uma questão de reeditar o discurso varguista contra o inimigo estereotípico da soberania pátria, ou de, inversamente, louvar os benefícios de uma economia transnacional. Ano após ano, enquanto o mundo em torno vai se tornando cada vez mais sinistro e ininteligível, o confronto nacional de idéias repete o debate Almino Affonso versus Carlos Lacerda, ou, na mais atualizada das hipóteses, sambão versus Tropicália. A moçada das redações, ignorante até o limite do sublime, reproduz as velhas notícias, com o entusiasmo caipira do trilionésimo Colombo.

Há certos temas de atualidade, no entanto, que por sua simples menção bastariam para desmantelar todo o teatrinho mental em que essa gente se refugia, e os quais, por isso mesmo, jamais entrarão na nossa imprensa, se não for pelo preciso canal por onde estão entrando agora, isto é, por um artigo assinado do campeão nacional de atipicidade jornalística, que não é outro senão este vosso atento criado, obrigado.

Digo logo um deles: em muitos meios conservadores norte-americanos – aqueles mesmos que, no nosso catálogo mental, seriam os mais associados aos interesses das grandes empresas –, a Nova Ordem Mundial é abominada como temível ameaça à soberania nacional dos Estados Unidos . Na visão dessas pessoas, o Federal Reserve System que governa hoje a economia norte-americana é uma intervenção estrangeira, o resultado de uma conspiração de poderosos interesses multinacionais que pretendem transformar a nação ianque em instrumento passivo de um inédito esquema onde, pela primeira vez na História humana, o futuro será inteiramente fabricado em laboratório, re-baixando a democracia à condição de um véu de fumaça para encobrir secretos manejos de engenharia social.

Como os sujeitos que dizem isso destoam das nossas expectativas quanto ao que deve ser a conduta supostamente típica de um imperialista ianque, livramo-nos deles num relance, decretando que devem ser uns esquisitões irrelevantes ou então agentes disfarçados da mesma conspiração que condenam. À horrenda perspectiva de ter de pensar para poder compreender um fenômeno estranho, optamos, no primeiro caso, por imaginar que sabemos melhor que os americanos quem é e quem não é importante na sua política interna; no segundo, como bons paranóicos, apostamos num maquiavelismo hiperbolicamente satânico do denunciante para não ter de nos preocupar com a hipótese mais dosadamente maquiavélica que ele denuncia.

Em ambos os casos, é a Operação Avestruz em marcha.

A intelectualidade brasileira nunca foi muito hábil em prever para onde vai o mundo, e nós dentro dele. Pois agora sua minguada capacidade preditiva vai sendo ainda mais debilitada, com a ajuda de uma imprensa unanimista onde o que não sai num jornal não sai em nenhum deles, e em coro, diante de qualquer fato novo, recua com o horror do poeta García Lorca ante a “sangre derramada” de seu amigo, toureiro morto na arena:

– No! Yo no quiero verla!

Em 23 de julho de 1998

O Segredo De Um Terrorista

23 de janeiro de 2009 | Diário do Comércio

Muitos se escandalizam com o asilo político concedido ao assassino Cesare Battisti, mas poucos tentam averiguar o que o episódio significa realmente. A sucessão de casos similares, a proteção concedida pela esquerda brasileira a praticamente todos os terroristas internacionais que aqui aportam – Achille Lollo, Olivério Medina e sua esposa, os seqüestradores de Abílio Diniz e Washington Olivetto – e o contraste que esses casos formam com a recusa de asilo aos dois boxeadores cubanos deveriam alertar para a obviedade de que não se trata de episódios isolados, mas de uma atividade permanente, sistemática. Mas mesmo aqueles que o percebem hesitam em sondar a relação entre esses fatos e a estratégia geral petista.

Qual é exatamente a posição do Brasil no quadro da esquerda internacional em ascensão? A uma visão superficial, o Brasil é uma democracia de esquerda moderada, favorável ao livre mercado e respeitosa da ordem jurídica. Quase ninguém entende que o país precisa ser tudo isso precisamente para poder desempenhar a função nuclear que lhe cabe na estratégia esquerdista mundial. Também poucos querem enxergar que a democracia brasileira é hoje um puro formalismo jurídico a encobrir o poder monopolístico da esquerda e a total exclusão da simples possibilidade teórica de uma oposição conservadora, seja na política eleitoral, seja na mídia, seja até na pura esfera cultural.

O Brasil, democracia sui generis onde as liberdades legalmente constituídas coexistem pacificamente com a total impossibilidade de exercê-las, é a origem e o centro de comando da revolução comunista na América Latina. É da elite intelectual petista, fundadora do Foro de São Paulo, que emanam discretamente as instruções gerais destinadas a transformar-se em espetáculos de esquerdismo histriônico por meio dos Chávez, Morales e outros tantos que às vezes nem mesmo compreendem as sutilezas dialéticas do processo e por isto acabam, com freqüência, exagerando no desempenho de seus papéis. Se a Venezuela e a Bolívia parecem estar na vanguarda da revolução, e o Brasil muito na retaguarda, é porque o comando, por definição, fica na retaguarda.

Por isso mesmo é que o Brasil se torna também o abrigo ideal para os revolucionários caídos em desgraça nos seus respectivos países. Se eles fossem para Cuba ou para a Venezuela, teriam de conservar sua identidade exterior de revolucionários e se tornariam inúteis para funções mais discretas e relevantes. Aqui, podem adquirir uma fachada de cidadãos pacíficos, aposentados de toda violência, e integrar-se, sem risco nenhum, nos altos círculos intelectuais que comandam o processo. Só um idiota completo pode acreditar que o governo brasileiro aceitaria o risco de uma crise diplomática só para agradar a uma socialite . Tal como Achille Lollo e Olivério Medina, Cesare Battisti não recebeu apenas um asilo político, mas uma promoção, subindo na hierarquia revolucionária, do posto de executor na linha de frente para o de analista e planejador nas altas esferas. Ele é protegido porque é útil, não porque Carla Bruni é bonitinha.

Nenhuma análise séria dos fatos políticos pode-se fazer desde o ponto de vista liberal e conservador se este não absorve, primeiro, a perspectiva do adversário. Se você não está capacitado para fazer uma análise marxista da situação exatamente como a fariam os teóricos e estrategistas do movimento revolucionário, suas opiniões a respeito da política de esquerda serão sempre meras tentativas de projetar sobre ela categorias que lhe são estranhas, ajudando, portanto, a encobrir seus verdadeiros intuitos e a conferir o privilégio da invisibilidade quase absoluta às estratégias e táticas do esquerdismo.

Afinal, o marxismo não é só uma “ideologia”: ele é uma estratégia da praxis revolucionária e, nesse sentido, é uma ciência – uma ciência extremamente sutil e complexa, da qual os formadores de opinião liberais e conservadores, no Brasil, não sabem praticamente nada. O deslocamento entre as categorias analíticas e a natureza do fenômeno estudado é garantia segura de incompreensão, e a incompreensão é por sua vez a origem dos erros estratégicos monstruosos que, ao longo dos últimos trinta anos, reduziram o liberalismo e o conservadorismo, de forças imperantes, a exceções doentias que só subsistem graças à tolerância provisória do sistema.

É fácil observar de fora os erros da economia marxista e pontificar que todo movimento baseado nela está condenado ao fracasso. Mas a estratégia do movimento comunista não é, de maneira alguma, uma decorrência direta e mecânica da sua economia. Principalmente não o é na esfera da luta cultural, onde as manobras e rodeios da intelectualidade ativista vão, com freqüência, no sentido contrário daquilo que se poderia deduzir do economicismo marxista vulgar. Trata-se de um ramo de conhecimento que tem sua própria autonomia e que não pode ser dominado senão mediante longos anos de estudo. É só aprendendo a pensar como os teóricos da revolução mundial que se pode, em seguida, transcender a sua visão das coisas e condená-la com fundamento. Atirar-lhe pedras desde fora é ficar abaixo dela e tornar-se vítima cega do processo revolucionário.

Em 23 de janeiro de 2009

A Vinganca Da Inepcia

23 de janeiro de 2007 | Diário do Comércio

Aviso chocante a uma nação estupefata: o a craseado não é nenhuma monstruosidade abominável, é apenas o feminino da contração “ao”. É o equivalente de “aa”, onde o primeiro “a” significa a preposição “a” (ou “para”) e o segundo o artigo definido “a”. Quem quer que leve mais de dois segundos para entender isso e mais de três para aprender a aplicá-lo corretamente é um retardado mental incapacitado para o exercício da cidadania adulta. Deve ser imediatamente destituído de qualquer função pública e entregue aos cuidados do INSS antes que faça alguma besteira perigosa.

Infelizmente, no Brasil, a quase totalidade dos parlamentares e governadores de Estado se inclui nessa classificação junto com o sr. Presidente da República e uma infinidade de jornalistas, professores universitários, oficiais de alta patente, juízes de direito, empresários e doutores em geral.

O acento grave destina-se a indicar uma contração preposicional que sem ele teria de ser adivinhada. Acreditar que pessoas incapazes de perceber essa contração com a ajuda do acento haveriam de apreendê-la mais facilmente sem ele é uma espécie de otimismo às avessas, bem característica de boçais inaptos para imaginar mesmo as hipóteses mais simples e óbvias da vida. Aqueles que se confessam humilhados pela crase não atinam com os abismos de humilhação e confusão a que a ausência dela os jogaria perante uma frase como: “Não envie à polícia.” Suprimam o acento grave e me digam se algo não deve ser enviado à polícia ou se a polícia não deve ser enviada a algum lugar. Nem o parlamento inteiro, reunido em sessão extraordinária permanente e empanturrado de jetons , poderia tirar essa dúvida.

Isso não quer dizer que a proposta de abolição da crase não tenha nenhum sentido. Ela tem um profundo sentido político, tanto que provém do mesmo partido que advoga a substituição dos exames vestibulares por sorteios, onde o acesso ao ensino superior será aberto igualitariamente aos capacitados e aos incapacitados, compensando por meio da ação estatal a injusta distribuição do QI entre os cidadãos. Ainda do mesmo partido provieram idéias como o salário mínimo vitalício, pago desde o berço talvez como compensação pelo destino cruel de nascer brasileiro, e a “poupança fraterna”, que nivelará por baixo os ganhos de todos, instaurando a distribuição igualitária da pobreza.

A inspiração comum de todos esses projetos de lei é o ódio radical dos complexados, burros, preguiçosos e incapazes às pessoas normais, saudáveis, diligentes e estudiosas. É o ressentimento da inépcia contra a capacidade, é a vingança do demérito contra o mérito. Isso faz muito sentido, faz sentido até demais: é a razão de ser do próprio PT.

Em 23 de janeiro de 2007

Saudades Do Jornalismo

23 de abril de 2012 | Diário do Comércio

Quatro ou cinco décadas atrás, você abria os jornais e encontrava análises políticas substantivas. Fossem “de esquerda” ou “de direita”, os articulistas ainda acreditavam numa coisa chamada “verdade” e faziam algum esforço para encontrá-la. Eram também homens de boa cultura literária, conheciam e respeitavam o idioma. Tenho saudades dos longos artigos de Júlio de Mesquita Filho, Paulo Francis, Antônio Olinto, Paulo de Castro, José Lino Grünewald, Nicolas Boer, Gustavo Corção; do próprio Oliveiros da Silva Ferreira, que está vivo mas longe da mídia diária. E tantos outros. Tantos e tantos.

Hoje em dia temos puros polemistas, que não investigam nada, não explicam nada, não fazem nenhum esforço intelectual, não tentam entender coisa nenhuma, só tomam posição, lavram sentenças como juízes e ditam regras. Também os havia então, mas como escreviam bem! Carlos Lacerda, Nelson Rodrigues e Raquel de Queiroz eram provavelmente os melhores. O próprio Otto Maria Carpeaux era do time. Contrastando com a destreza dialética alucinante da sua crítica literária, os artigos de política que ele publicava no Correio da Manhã, produzidos em série e como que por automatismo, eram traslados servis das palavras-de-ordem do Partidão, do qual em pleno declínio de suas faculdades intelectuais ele se fizera “companheiro de viagem” por puro medo da ditadura, talvez do desemprego. Estão repletos de erros pueris, desinformação comunista grossa, mas neles ainda se reconhece o pulso firme do escritor. Do outro lado, havia, por exemplo, David Nasser. Sempre se sabia de antemão o que ia defender ou atacar. Mas com que graça se repetia, variando as formas ao ponto de fazer as opiniões mais estereotipadas soarem como novidades!

Tudo isso está morto e enterrado. Em toda a grande mídia só raros colunistas ainda honram o idioma, e o melhor deles não é brasileiro, é português: João Pereira Coutinho. Leio com satisfação Reinaldo Azevedo (o mais informado) e Neil Ferreira (o mais engraçado). Os outros que dão gosto estão só na internet. Em todos os grandes jornais ninguém escreve com a seriedade de Heitor de Paola, a elegância de Percival Puggina, a inventividade de Yuri Vieira, a precisão vernácula de José Carlos Zamboni, a erudição bem-humorada de J. O. de Meira Penna. Os outros que me perdoem: a lista dos melhores excluídos não tem mais fim.

Nas faculdades estuda-se, por incrivel que pareça, a decadência do jornalismo brasileiro. Mas lança-se a culpa em tudo, menos nos jornalistas. Como se a má pintura não fosse nunca obra de maus pintores ou a comida sempre fosse ruim a despeito dos excelentes cozinheiros. A classe tem um tremendo esprit de corps quando lhe interessa, mas nunca faz um julgamento sério de seus próprios atos, uma avaliação realista do seu impacto na sociedade. Narra sua história como se fosse autora de tudo o que é bom, vítima inerme de tudo o que é mau. Nada, absolutamente nada, lhe dói na consciência. Não lhe ocorre nem mesmo a conveniência de um vago mea culpa por ter ocultado o Foro de São Paulo ao longo de dezesseis anos, praticando a censura com mais eficácia, amplitude e tenacidade do que a Polícia Federal do tempo dos militares. Sua falsa auto-imagem raia a sociopatia pura e simples (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/111130dc.html , http://www.olavodecarvalho.org/semana/111124dc.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/111125dc.html ). Nos anos da ditadura, como a liberdade de imprensa e a liberdade de ação da esquerda sofressem juntas as mesmas restrições oficiais (amplamente inoperantes na prática), jornalismo e esquerdismo se deram as mãos na luta contra o inimigo comum. Foi justo e oportuno. Mas, decorridas três décadas do fim do regime, a aliança de ocasião não quer admitir que seu tempo passou, que não há mais inimigos armados contra os quais o fingimento é a única defesa da parte mais débil. Na época a esquerda já dominava a mídia, mas fazia-se de coitadinha, de nanica, de excluída. Oprimida nas ruas e nas praças, discriminava os direitistas nas redações (como a intelectualidade acadêmica fazia nas universidades), reproduzindo às avessas, no microcosmo da profissão, o controle repressivo que o governo exercia na escala maior em torno. Hoje ela domina o país inteiro, e o que era precaução tática compreensível se tornou instrumento de perpetuação de poderes e prestígios imerecidos. A arma dos fracos tornou-se uma gazua nas mãos dos fortes. Nunca, ao longo de todo o período militar, a esquerda esteve tão amordaçada quanto a direita conservadora, especialmente religiosa, está hoje na grande mídia. Para camuflar esse estado de coisas, é preciso eternizar o luto, alimentar e realimentar, com um jorro constante de lágrimas forçadas e caretas de pavor fingidas, padecimentos e temores velhos de mais de um quarto de século. Essa é a mentira estrutural que está na raiz de todas as degradações do jornalismo brasileiro. É a proibição total da sinceridade. A destruição da linguagem vem daí. Ninguém pode escrever direito quando vive de se esconder de si mesmo.

Em 23 de abril de 2012

Brincar De Genocidio

23 de Junho de 2001 | Época

É o que a gente faz quando aceita falar respeitosamente do comunismo Não há insolência maior nem mais pérfida armadilha verbal que exigir daquele que combate o comunismo que o faça “em tom respeitoso”. Vou lhe mostrar o que acontece quando você, por medo de ser chantageado em nome de supostas regras de polidez do debate democrático, cede a essa exigência.

Logicamente falando, só há dois motivos possíveis para continuar respeitando uma ideologia depois que ela matou 100 milhões de pessoas: ou você admite que esse resultado letal foi um desvio acidental de percurso, um detalhe supérfluo na evolução histórica de um lindo ideal, ou parte logo para a legitimação ostensiva do genocídio. Ou você defende o marxismo mediante a supressão do nexo essencial entre fatos e idéias que é a própria base dele, ou o enaltece mediante um argumento que faz dele uma apologia do crime. No primeiro caso, você é um idiota; no segundo, é um monstro de amoralidade e frieza. Não há como escapar dessa alternativa quando se aceita apostar 100 milhões de vidas num ameno e respeitoso joguinho de idéias.

Tão logo entra nisso, com boa-fé e sem se dar conta das implicações morais de sua decisão, você se desliga de sua consciência profunda – que percebe essas implicações perfeitamente bem – e passa a raciocinar só com a periferia de seu ser pensante. Rompido o elo entre o coração e a máquina de tagarelar, você já é um esquizóide ao menos honorário: e quando a patologia adquirida começa a se manifestar em sintomas – um sentimento de culpa difusa, um medo sem razão, umas inibições súbitas e inexplicáveis – você já não tem a menor condição de saber de onde eles vieram.

Todas as neuroses, dizia Igor Caruso, são produzidas pela repressão da consciência moral, da voz interior que nos indica o sentido profundo de nossas escolhas e a lógica implacável de suas conseqüências. Quando você sufoca a voz da consciência, é essa lógica que você expele de seu horizonte de visão. Por não querer arcar com o peso da escolha moral consciente, você entrega as rédeas de seu destino à mecânica do inconsciente – ou ao primeiro que, em torno, deseje pegá-las. E quem mais desejaria pegá-las que o manipulador que sonha em conduzi-lo pela argola do nariz, como um boi sonso, a transigências e complacências que lúcido e consciente você não poderia aceitar de maneira alguma?

Então, ao admitir que matar ou não matar 100 milhões de pessoas é apenas uma livre escolha entre “linhas ideológicas”, você já nem pode se dar conta de que isso é o mesmo que um assassino declarar que entre ele e sua vítima nada mais se passou que uma divergência quanto à interpretação do Código Penal.

Contra essa insinuação, subentendida na exigência acima referida, é preciso reiterar com todo o vigor: a condenação do comunismo não é um ato político ou ideológico, é um ato moral. Não é livre escolha, é obrigação elementar e indeclinável como a condenação do nazismo e do fascismo. A moral transcende infinitamente a esfera das ideologias e dos jogos de poder. Submetê-la a essa esfera é prostituí-la, e ninguém a prostitui mais que o comunista que, após tê-la assim subjugado, alardeia querer “ética na política”, com uma piscadela maliciosa ao círculo dos iniciados que sabem aonde ele quer chegar com isso.

Contra esse jogo é preciso não esquecer jamais que comunismo é genocídio. É genocídio na teoria, é genocídio na estratégia, é genocídio na prática historicamente conhecida e é genocídio nos métodos atuais com que subsiste em Cuba, se fortalece na China e se propaga na Colômbia. É genocídio na apologia da violência por Karl Marx, na técnica leninista do terror sistemático, na arquitetura stalinista e maoísta do Estado-presídio cuja máxima eficiência, segundo técnicos da KGB, foi alcançada em Cuba. O comunismo prega o genocídio, justifica o genocídio, orgulha-se do genocídio e, onde quer que tenha reinado, sempre viveu do genocídio. Discuti-lo respeitosamente é admitir que exista o direito moral à propaganda do genocídio.

Em 23 de junho de 2001

Morrer Dormindo

22 de setembro de 2002 | Zero Hora

“Il faut que vos sachiez que le danger qui nous ménace n’est pas seulement de mourir: c’est de mourir comme des idiots.”

(Georges Bernanos) Durante oito anos, instigado pelo clamor esquerdista, o governo FHC fez o possível para desmoralizar as Forças Armadas, alimentando denúncias escandalosas, cortando verbas, suprimindo ministérios e premiando com cargos, homenagens e verbas públicas os terroristas que na década de 70 foram subsidiados pelo governo de Cuba para matar soldados brasileiros.

Essa operação-desmanche seguiu, à risca, uma receita do cientista político Samuel Huntington, muito elogiada pelo ministro Francisco Weffort, o homem do PT no gabinete ministerial.

Para cada gota de energia subtraída às Forças Armadas, dez foram despejadas no reservatório do MST, seja em dinheiro, seja em terras estrategicamente situadas ao longo das rodovias, de modo a transformar esse movimento, ilegal e revolucionário, numa força capaz de paralisar em poucas horas a rede viária nacional.

Para cada fragmento de autoridade extraído dos serviços de inteligência militar, cem foram incorporados à espionagem extralegal esquerdista, infiltrada, segundo informa o próprio MST, em todos os escalões da hierarquia estatal.

Para cada átomo de prestígio arrebatado às Forças Armadas, mil foram abrilhantar a imagem dos ídolos do esquerdismo chique.

Agora, quando a oficialidade está esgotada, humilhada, no fundo do poço do rancor impotente, os mesmos agentes esquerdistas que produziram esse estado de coisas e dele se beneficiaram aparecem, de repente, como salvadores da pátria, redentores da dignidade militar.

Para ser aceitos e aplaudidos nesse novo papel, não precisaram senão atenuar um pouquinho o tom do seu discurso e acenar de longe com a vaga promessa de mais verbas e de uma retomada do programa nuclear brasileiro.

Em troca de tão pouco, num instante foram esquecidos todos os rancores, secaram-se todas as feridas, apagaram-se todas as cicatrizes da honra aviltada, e uma centena de homens de farda se lançou aos braços do algoz transfigurado em padrinho.

Todo mundo sabe onde isso aconteceu. Pode-se perguntar se o Instituto de Estudos Estratégicos representa a opinião da Escola Superior de Guerra e se esta representa a opinião das Forças Armadas. Se a resposta a essa dupla pergunta for “sim” — e espero que seja “não” –, uma conclusão temível se imporá automaticamente: abdicando de todo julgamento autônomo, as Forças Armadas cederam por fim ao astuto jogo de alternâncias pavlovianas — um choque, um queijo; um tapa, um afago — montado para transformar a instituição, que um dia foi a “Grande Barreira”, no “Grande Pedestal” para a ascensão triunfante do esquerdismo revolucionário.

Não se produz de improviso um milagre dessas proporções. A mutação reflexológica foi longamente preparada por agentes de influência bem situados na ESG e nas academias militares.

Mas a imagem não é totalmente exata. Choques e queijos, tapas e afagos não se alternaram em doses proporcionais. Nem foi preciso. A quantidade mesma dos estímulos negativos suprimiu a necessidade dos positivos. Depois de vinte anos de choques, bastou um anúncio de queijo. Depois de uma enxurrada de tapas, um esboço de afago. A vítima, exausta, abriu-se num largo sorriso de alívio, pronta a receber sua salvação das mãos do carrasco. Qualquer semelhança com a Síndrome de Estocolmo é o oposto da mera coincidência.

Tampouco é coincidência que o estímulo à ambição nuclear confirme o diagnóstico de Constantine C. Menges, de que a esquerda petista e uma parcela da direita militar estão irmanadas no sonho de tornar o Brasil um parceiro atômico de Saddam Hussein. É quase infalível: quando a mídia brasileira em peso tacha uma idéia de delirante e paranóica, a idéia é provavelmente valiosa e veraz.

Muito menos é coincidência que o anúncio das núpcias do seqüestrador com sua vítima tenha tido como mestre de cerimônias aquele mesmo ex-ministro do Exército que, suprimindo os estudos de “Guerra Revolucionária” das escolas militares sob o pretexto maluco de que “ è finita la rivoluzione, per sempre finita, non tornerà più” , deixou duas gerações de oficiais despreparadas para compreender a situação em que agora estão mergulhadas até à goela.

Mas não faz mal. No fim das contas, nenhum brasileiro — com a exceção deste que lhes fala e mais dois ou três maníacos — está muito interessado em compreender o que se passa hoje em dia, porque o que se passa é inquietante demais para ser compreendido sem traumas, e o melhor é sonhar.

Daí que, diante de uma precipitação de acontecimentos que qualquer estudante aplicado reconheceria como sinais evidentes de uma situação revolucionária, todos, paralisados de terror por dentro, continuem por fora ostentando uma prótese de sorriso, num rictus de tranqüilidade catatônica. De dentro da cadeia, um fornecedor e parceiro da guerrilha colombiana assume o comando do Estado do Rio. No preciso momento em que a polícia vai invadir o presídio, brota do nada uma passeata esquerdista que bloqueia a entrada das tropas e, como quem não quer nada, força as autoridades ao recuo e ao diálogo com os delinqüentes. No dia seguinte, novas passeatas paralisam a cidade, ao mesmo tempo que um outro sócio das Farc, anunciando o virtual alinhamento brasileiro no front de Saddam Hussein, arranca aplausos de uma centena de militares. Por fim, o mesmo governo que liberou o país para os traficantes anuncia, dando-se ares de machão, um policiamento mais drástico... das empresas financeiras. É o Estado-pedagogo recitando ao povo a moral politicamente correta da história: para os traficantes armados, diálogo e compreensão; para os malditos capitalistas, os rigores da lei.

Morir Durmiendo

22 de septiembre de 2002 | Zero Hora

“Il faut que vos sachiez que le danger qui nous ménace n’est pas seulement de mourir: c’est de mourir comme des idiots.”

(Georges Bernanos) Durante ocho años, instigado por el clamor izquierdista, el gobierno FHC [Fernando Enrique Cardoso] ha hecho lo posible por desacreditar a las Fuerzas Armadas, alimentando denuncias escandalosas, cortando subvenciones, suprimiendo ministerios y premiando con cargos, homenajes y subsidios públicos a los terroristas que en la década de los 70 fueron subvencionados por el gobierno de Cuba para matar soldados brasileños.

Esa operación-desguace ha seguido, al pie de la letra, una receta del científico político Samuel Huntington, muy elogiada por el ministro Francisco Weffort, el hombre del PT en el gabinete ministerial.

Por cada gota de energía substraída a las Fuerzas Armadas, diez han sido vertidas en el depósito del MST [Movimiento de los Sin-Tierra], sea en dinero, sea en tierras estratégicamente situadas a lo largo de las carreteras, hasta llegar a transformar a ese movimiento, ilegal y revolucionario, en una fuerza capaz de paralizar en pocas horas la red viaria nacional.

Por cada fragmento de autoridad extraído a los servicios de inteligencia militar, cien han sido incorporados al espionaje extralegal izquierdista, infiltrado, según informa el MST mismo, en todos los escalones de la jerarquía estatal.

Por cada átomo de prestigio arrebatado a las Fuerzas Armadas, mil han ido a abrillantar la imagen de los ídolos del izquierdismo chic .

Ahora, cuando la oficialidad está agotada, humillada, en el fondo del pozo del rencor impotente, los mismos agentes izquierdistas que han producido ese estado de cosas y que se han beneficiado de él aparecen, de repente, como salvadores de la patria, redentores de la dignidad militar.

Para ser aceptados y aplaudidos en ese nuevo papel, les ha bastado atenuar un poco el ton de su discurso y llamar la atención desde lejos con la vaga promesa de más subvenciones y de reanudar el programa nuclear brasileño.

A cambio de tan poco, en un instante han sido olvidados todos los rencores, se han secado todas las heridas, se han borrado todas las cicatrices de la honra vilipendiada, y un centenar de hombres de uniforme se ha echado en brazos del verdugo transfigurado en padrino.

Todo el mundo sabe dónde ha pasado eso. Cabe preguntar si el Instituto de Estudios Estratégicos representa la opinión de la Escuela Superior de Guerra [ESG] y si ésta representa la opinión de las Fuerzas Armadas. Si la respuesta a esa doble pregunta es “sí” — y espero que sea “no” –, una conclusión temible se impondrá automáticamente: abdicando de todo juicio autónomo, las Fuerzas Armadas han cedido por fin al astuto juego de alternancias pavlovianas — una descarga eléctrica, un queso; un tortazo, un halago — montado para transformar la institución, que un día fue la “Gran Barrera”, en el “Grande Pedestal” para el ascenso triunfante del izquierdismo revolucionario.

No se produce de improviso un milagro de esas proporciones. La mutación reflexológica ha sido largamente preparada por agentes de influencia bien situados en la ESG y en las academias militares.

Pero la imagen no es totalmente exacta. Descargas eléctricas y quesos, tortazos y halagos no se han alternado en dosis proporcionales. No ha sido necesario. La propia cantidad de los estímulos negativos ha suprimido la necesidad de los positivos. Después de veinte años de descargas eléctricas, ha bastado un anuncio de queso. Después de un torrente de tortazos, un esbozo de halago. La víctima, exhausta, se ha abierto en una amplia sonrisa de alivio, pronta para recibir su salvación de manos del verdugo. Cualquier semejanza con el Síndrome de Estocolmo es lo opuesto de la mera coincidencia.

Tampoco es coincidencia que el estímulo a la ambición nuclear confirme el diagnóstico de Constantine C. Menges, de que la izquierda petista y una parte de la derecha militar están hermanadas en el sueño de convertir Brasil en un socio atómico de Saddam Hussein. Es casi infalible: cuando los medios brasileños de comunicación en peso tachan una idea de delirante y paranoica, esa idea es probablemente valiosa y veraz.

Mucho menos es coincidencia que el anuncio de las nupcias del secuestrador con su víctima haya tenido como maestro de ceremonias a aquel mismo ex-ministro del Ejército que, suprimiendo los estudios de “Guerra Revolucionaria” de las escuelas militares con el loco pretexto de que “ è finita la rivoluzione, per sempre finita, non tornerà più ”, ha dejado a dos generaciones de oficiales sin preparación para comprender la situación en que ahora están inmersas hasta el cuello.

Pero no importa. En definitiva, ningún brasileño — con la excepción del que les habla y dos o tres maníacos más — está muy interesado en comprender lo que pasa hoy día, porque lo que pasa es demasiado inquietante como para ser comprendido sin traumas, y lo mejor es soñar.

De ahí que, ante una precipitación de acontecimientos que cualquier estudiante aplicado reconocería como signos evidentes de una situación revolucionaria, todos, paralizados de terror por dentro, continúan por fuera ostentando una prótesis de sonrisa, en un rictus de tranquilidad catatónica. Desde la cárcel, un proveedor y socio de la guerrilla colombiana asume el mando del Estado de Rio de Janeiro. En el preciso instante en que la policía va a invadir el presidio, brota de la nada una manifestación izquierdista que bloquea la entrada de las tropas y, como quien no quiere la cosa, fuerza a las autoridades al repliegue y al diálogo con los delincuentes. Al día siguiente, nuevas manifestaciones paralizan la ciudad, al mismo tiempo que otro socio de las Farc, anunciando el virtual alineamiento brasileño con el front de Saddam Hussein, arranca aplausos de un centenar de militares. Finalmente, el mismo gobierno que ha franqueado el país a los traficantes anuncia, dándose aires de machote, un control policial más drástico... de las empresas financieras. Es el Estado-pedagogo leyendo al pueblo la cartilla de la moral políticamente correcta de la historia: para los traficantes armados, diálogo y comprensión; para los malditos capitalistas, los rigores de la ley.

Os Novos Demiurgos

22 de outubro de 2009 | Diário do Comércio

O que torna ainda mais odioso o dirigismo estatal na educação, universalmente buscado e ardentemente defendido pelos sapientíssimos intelectuais de esquerda, é que ele desmente da maneira mais flagrante e cínica o discurso educacional esquerdista de três ou quatro décadas atrás, do qual eles se serviram como puro instrumento de sedução, prontos a jogá-lo fora na primeira oportunidade, como estão fazendo agora.

Nos anos 60, 70, os mais destacados próceres da pedagogia esquerdista posavam de libertários, acusando a “educação burguesa” de ser um aparato de dominação que sacrificava o livre desenvolvimento intelectual e emocional das crianças em favor de objetivos de mero poder político-econômico.

A acusação, verdadeira quanto a alguns casos isolados bem pouco significativos, observados quase sempre em grotescas ditaduras de Terceiro Mundo (por ironia, sempre mais estatistas do que pró-capitalistas), era completamente falsa quando generalizada a toda a “civilização ocidental” ou mesmo a qualquer das grandes democracias capitalistas em particular — mas seus porta-vozes insistiam em ampliar-lhe o alcance ilimitadamente, dando-lhe foros de teoria científica geral.

No mínimo, a educação ocidental não podia de maneira alguma ser pura dominação de classe, pela simples razão de que se amoldava, com humilde reverência, a valores e critérios velhos de séculos e milênios, muito anteriores e estranhos a qualquer “interesse burguês”, como por exemplo a moral judaico-cristã, a arte clássica, medieval e renascentista, o ideal aristotélico da ciência racional e o direito romano.

Justamente ao contrário do que proclamavam os acusadores, por toda parte a educação e a alta cultura eram um freio às ambições cruas dos capitalistas mais assanhados, forçando-os pela pressão moral da sociedade — especialmente nos EUA — a sacrificar boa parte de suas fortunas em doações para museus, escolas, fundações educacionais e institutos de pesquisa empenhados nas atividades mais alheias a qualquer imediatismo dinheirista ou interesse de classe.

Não deixa de ser significativo que o projeto educacional mais bem sucedido da história americana tenha sido o dos liberal arts colleges , hoje espalhados por toda parte nos EUA e responsáveis diretos pela vitalidade cultural do país, que não transmitem a seus estudantes nenhuma “ideologia burguesa” ou técnica utilitária, mas o modelo de alta cultura desenvolvido na tradição greco-romana e medieval do trivium , do quadrivium , da filosofia e das belas artes. Se a educação americana tencionasse mesmo criar servos mecanizados do capital, não se esforçaria tanto para infundir nos estudantes as virtudes dos estadistas romanos e a acuidade crítica dos eruditos escolásticos. E notem que isso não vem de hoje. Eric Voegelin, ao estudar em Columbia entre 1924 e 1926, teve a grata surpresa de descobrir que estava num país onde Platão, Aristóteles, o direito romano e a teologia cristã não eram assuntos só para acadêmicos, mas presenças vivas nos debates públicos.

Ademais, como já observei aqui a propósito de um daqueles teorizadores do inexistente (Pierre Bourdieu), se os burgueses quisessem mesmo fazer da educação um instrumento de dominação de classe, deveriam ter ao menos elaborado um plano de engenharia social nesse sentido, e as marcas do trabalho desenvolvidos para isso — organizações, atas de assembléias, publicações, orçamentos — deveriam ser visíveis por toda parte, quando o fato é que nada dessa papelada existe nem existiu jamais, o próprio Bourdieu sendo incapaz de citar um só documento que ateste alguma premeditação técnica por trás da alegada “máquina de reprodução”. A única possibilidade de dar razão à sua teoria seria apostar na hipótese de que o controle burguês da educação se construiu por transmissão inconsciente e muda, como que por telepatia (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/090204dc.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/090212dc.html ).

Em todo caso, o ódio que esse e outros pop stars intelectuais do esquerdismo votavam àquele fantasma de sua própria invenção fazia com que parecessem, em comparação com ele, os maiores defensores da liberdade e criatividade infantis, supostamente ameaçadas pelo dirigismo mental do “aparato ideológico burguês”. Alguns deles chegavam mesmo, como o Pe. Ivan Illitch, a pregar a “desescolarização” integral da sociedade, a supressão pura e simples do sistema educacional, o advento do homeschooling universal. Alexander S. Neill, um discípulo do psiquiatra e doente mental marxista Wilhelm Reich, anunciava provar que “a liberdade funciona”, usando crianças como cobaias de um experimento desastroso — uma escola onde meninos de cinco anos de idade tomavam decisões administrativas e fumavam durante as aulas, enquanto seus colegas mais velhos preferiam masturbar-se no pátio diante dos olhos complacentes de professores e funcionários. Logo após a morte do fundador, os alunos deram um passo adiante na conquista da liberdade: atearam fogo à escola.

Não por coincidência, esses protetores da meninada ocidental nunca se preocuparam muito com as crianças da URSS, da China e de Cuba, forçadas diariamente a repetir slogans e a fiscalizar-se umas às outras como pequenos policiais, em busca de sinais de desvio ideológico mirim.

Quando, por fim, o Império Soviético veio abaixo, seguiu-se a isso a tremenda ascensão do esquerdismo no Ocidente. Aí os intelectuais ativistas, no poder ou próximos dele, trataram de se livrar do velho libertarismo fingido e encarar a sério a “construção do socialismo”. Para isso era preciso admitir que “a liberdade não funciona” e que a educação tem de ser, conforme as recomendações de Antonio Gramsci, um dócil instrumento nas mãos do partido-Estado. Passaram em suma a praticar, na realidade e mil vezes aumentado, o delito que antes atribuíam falsamente à educação burguesa. É sempre assim: quando essa gente planeja um crime, a primeira coisa que faz é acusar dele algum inocente, a título preventivo, para que quando o crime venha mesmo a ser praticado o público se recuse a enxergá-lo, acreditando que é um mal já superado, de outra época. Não por coincidência, os valores universais que antes preservavam a educação de transformar-se em instrumento da ideologia de classe são agora jogados ao lixo. Claro: revolucionários iluminados, imunes aos escrúpulos da burguesia, não iriam deixar-se inibir por tradições milenares — para eles, meras “construções culturais” tão desprovidas de fundamento quanto as doutrinas que eles próprios inventam. Com a maior desenvoltura, a nova pedagogia estatal cria do nada novos códigos morais, novos padrões de conduta e julgamento, os mais postiços, insensatos e disformes que se possa imaginar, punindo e marginalizando a criança que não se adapte aos mandamentos da recém-criada “socialização” invertida. Como disse o diretor de Concepções e Orientações Curriculares do Ministério da Educação, Carlos Artexes Simões, a escola está aí para “construir um Estado republicano”. De seres livres e inventivos, como as proclamavam os Illichs e os Neills, as crianças transformaram-se em tijolos, blocos de argila mudos e passivos nas mãos dos novos demiurgos: Carlos Artexes Simões e similares.

Em 22 de outubro de 2009

Uma Corda Para Lenin

22 de março de 2007 | Jornal do Brasil

Quando Georg Lukács proclamou que o inimigo prioritário a ser destruído pelos comunistas não era “o capitalismo”, mas “a civilização judaico-cristã” — sendo logo seguido nisso pelos frankfurtianos, por Antonio Gramsci e enfim por todo o movimento esquerdista mundial –, ele enviou aos adeptos do capitalismo uma mensagem que eles não parecem ter recebido até hoje: esvaziado dos valores civilizacionais judaico-cristãos, o livre mercado é o terreno ideal para o florescimento da revolução cultural marxista.

A experiência não cessou de lhe dar razão: quanto mais as sociedades capitalistas abandonam os princípíos que aprenderam com o judaísmo e o cristianismo, mais poder e autoridade ganham os movimentos de esquerda. Isso acontece por igual na Europa Ocidental, nos EUA e nos países periféricos em transe de “modernização capitalista”. Se a queda da URSS não diminuiu em nada a força do esquerdismo ocidental, é porque este tirava e tira sua energia das próprias condições locais, e não da ajuda soviética. Essas condições podem ser descritas sumariamente assim: expansão capitalista e destruição concomitante das bases morais e culturais do capitalismo. Entre os dois fatores, a ampliação dos meios de participação democrática é financiada pelo primeiro para acabar servindo cada vez mais ao segundo.

O liberalismo, erigindo o livre mercado no princípio máximo da vida social em substituição aos antigos valores civilizacionais que o possibilitaram, é o instrumento ideológico principal dessa transmutação masoquista do capitalismo em imimigo de si mesmo. No mínimo, a democratização liberal-capitalista em curso é o fato consumado, é a situação vigente, e por isso mesmo não pode ser um ideal de futuro. O liberalismo torna-se assim o advogado do status quo que o estrangula culturalmente, deixando aos esquerdistas o reino dos ideais e valores. Quando se apossa dos slogans “progressistas” da esquerda para tentar provar que se realizam melhor no capitalismo, tudo o que consegue com essa simulação de esperteza é subsidiar com o dinheiro capitalista o aumento do prestígio da esquerda, reduzindo o capitalismo a um meio e entregando à utopia socialista o monopólio do fins, o cetro da autoridade moral. Daí o paradoxo: quanto mais notório o sucesso econômico do capitalismo, mais espetacular a ascensão cultural e política do socialismo.

Lênin dizia: “O capitalismo nos fornecerá a corda com que o enforcaremos.” O liberalismo é essa corda .

Milhares de pessoas deixaram de ser homossexuais por meio de tratamento ou devoção religiosa.

Época jamais entrevistou uma delas. Mas bastou um pastor que trabalhava na área contar que era gay enrustido, e a revista fez o maior barulho em torno do charlatão confesso, dando a entender que todos os envolvidos em evangelização de homossexuais são como ele. Isso não é jornalismo. É propaganda. As duas maiores revistas semanais brasileiras, Veja e Época , são amostras patentes de como a defesa da economia de mercado pode coexistir com a adesão cega e subserviente às metas da revolução cultural esquerdista.

Em 22 de março de 2007

Ad Aeternum

22 de maio de 2008 | Jornal do Brasil

Ao longo dos tempos, a militância socialista usou de dois meios preferenciais de luta, juntos ou alternados: o assassinato e o roubo, ou, mais genericamente, a crueldade e o embuste. A primeira fez as glórias da esquerda cubana, o segundo as da brasileira.

Nenhum governo da América Latina pôde jamais competir com o de Fidel Castro em brutalidade, nem com o de Lula em safadeza. O primeiro ficou no poder por quarenta anos enviando cem mil cubanos ao outro mundo e mais cem mil para a cadeia. O segundo mantém-se no alto das pesquisas conservando fora da cadeia todos os que deveriam estar nela — uma longa lista que começa nos ministros que falsificam documentos para legitimar a fragmentação do território nacional, passa pelos familiares do presidente transfigurados em milionários da noite para o dia e culmina nos terroristas estrangeiros aos quais o partido do sr. presidente prometeu e jamais negou solidariedade.

Em qualquer democracia normal, um só dos crimes desse governo – o laudo falso em prol da doação de Roraima, por exemplo – bastaria para levar o presidente ao impeachment e seus assessores ao cárcere. Aqui, centenas desses episódios acumulados provocam, no máximo, uns resmungos preguiçosos, umas gesticulações de vago descontentamento, umas simulações pusilânimes de protesto cívico e, coroando tudo, a firme decisão de não fazer nada.

Nada? Estou sendo injusto. As elites falantes “dêfte paíf” fazem alguma coisa, e até uma coisa revolucionária, inédita: chamam de “normalidade institucional” o direito concedido a uma agremiação partidária de roubar o quanto queira, de distribuir a seus cúmplices estrangeiros o patrimônio nacional, de tratar como parceiros e amigos os terroristas que armam e adestram os quadrilheiros locais para que espalhem o terror nas ruas, de destruir a cultura nacional no altar da propaganda comunista e do mais vulgar show business politicamente conveniente, de abafar investigações e censurar notícias, de usar a burocracia estatal como secretaria do partido, de ofender toda semana os sentimentos morais e religiosos da população, de gastar dinheiro público numa orgia carnavalesca onde a esposa de um ministro se esfrega despudoradamente num governador e respectiva digníssima, etc. etc. etc.

Cada um desses episódios daria um livro, como o Mensalão deu “O Chefe”, de Ivo Patarra ( http://www.escandalodomensalao.com.br/ ). Todos juntos formariam uma enciclopédia da patifaria como jamais se viu no mundo. Mas, como se convencionou que a soma desses descalabros constitui a “normalidade institucional”, toda alternativa ao presente estado de coisas parece medonha ameaça de golpe, hipótese que inspira um sacrossanto horror e conduz inevitavelmente à conclusão de que o lulismo é uma fatalidade cósmica inelutável: ruim com ele, pior sem ele. E assim vão se passando os dias, o Chefe cada vez mais poderoso, os políticos “de oposição” cada vez mais colaboracionistas, a elite cada vez mais acanalhada e subserviente, a “sociedade civil” cada vez mais atrelada às ONGs esquerdistas bilionárias, a vontade popular cada vez mais débil, mais fácil de desviar contra alvos fictícios e bodes expiatórios, entre os quais ela própria.

O sr. Lula diz que ele e José Serra inauguraram um novo modo de fazer política. É verdade, com a ressalva de que ele não falava de duas pessoas, mas de dois partidos, gêmeos nascidos do ventre da USP. E esse novo modo consiste no seguinte acordo: Nós dois vamos à ONU, pegamos cada um uma cópia do receituário globalista para a destruição das soberanias nacionais e da civilização judaico-cristã e o aplicamos no Brasil à risca, mas fazendo de conta que seguimos duas políticas diferentes e trocando uns tapinhas de vez em quando. Como prêmio, a mídia internacional dirá que somos maravilhosos e exibirá ao mundo nossa alternância no governo como prova de maturidade democrática. Os brasileiros, idiotas, dirão que é “normalidade institucional” e, temendo rompê-la, nos manterão no poder ad aeternum .

Em 22 de maio de 2008

Horror E Insensibilidade

22 de junho de 2009 | Diário do Comércio

Na década de 60, as organizações de esquerda tinham de se esforçar muito para conseguir recrutar dez militantes entre cada cem ou duzentos jornalistas. A lei que tornou obrigatório o curso universitário para o exercício da profissão mudou isso completamente, entregando sucessivas gerações de jovens desmiolados à guarda de doutrinadores e recrutadores bem capacitados. A conversão maciça da classe jornalística ao esquerdismo tornou possíveis fenômenos como o da ocultação geral do Foro de São Paulo e a farsa da eleição presidencial de 2002, um arranjo entre partidos de esquerda, com exclusão de toda oposição possível, celebrado cinicamente pela mídia nacional em peso como uma apoteose da livre concorrência democrática.

O STF fez muito bem ao eliminar a pérfida exigência do diploma, armadilha maquiavélica que rebaixou a qualidade dos nossos jornais e reduziu sua credibilidade ao ponto de que hoje eles não vendem mais exemplares do que o faziam nos anos 50, quando a proporção de analfabetos em nossa população era imensamente maior.

No entanto, a simples eliminação desse instrumento de seleção ideológica não basta para garantir que um pluralismo de verdade venha a reinar na nossa imprensa. Há meios de controle mais sutis e eficientes do que a imposição legal direta. No seu livro The True Story of the Bilderberg Group (Chicago, Independent Publishers Group, 2009), o jornalista espanhol Daniel Estulin mostra como essa plutocracia globalista, empenhada na construção de uma ditadura mundial, conseguiu se manter oculta desde 1954 até pelo menos 1998, estigmatizando como “teoria da conspiração” qualquer tentativa de revelar sua existência: seus componentes simplesmente compraram todos os grandes jornais e redes de TV dos EUA e da Europa. Isso determinou uma mudança mais profunda das funções do jornalismo do que a maioria da população pode ainda conceber. Como o objetivo da elite globalista é derrubar a economia americana e implantar em cima de seus escombros um novo sistema com moeda mundial unificada, impostos globais e administração burocrática planetária, as notícias, na quase totalidade da mídia, já não são selecionadas por nenhum critério de importância objetiva, mas pelo serviço que prestem à programação mental das multidões, de modo a fazê-las aceitar passivamente mudanças drásticas que em condições normais suscitariam explosões de ódio e revolta. A supressão e a manipulação tornaram-se gerais e sistemáticas, ao ponto de atentar diariamente contra a dignidade da inteligência humana e de transformar os mecanismos eleitorais da democracia num mero jogo de aparências.

Quando a elite globalista faz eleger presidente dos EUA um desconhecido, proibindo por todos os meios qualquer investigação séria da sua biografia e reprimindo por toda sorte de ameaças a exigência de que ele apresente seus documentos pessoais, é claro que a noção de “transparência” se transformou numa utopia inalcançável e está instaurado o império do segredo. Quando o indigitado mata um mosquito, compra um cachorro ou brinca de “dama por um dia” nos jardins da Casa Branca, de mãos dadas com a digníssima, o fato é noticiado com imenso alarde em todos os jornais e noticiários de TV, mas até atos oficiais do seu governo, quando arriscam criar alguma resistência, são omitidos por completo ou publicados com discrição que beira o silêncio.

O mesmo acontece com inúmeras notícias de importância histórica mundial que, se reveladas, teriam o dom de despertar as multidões do torpor hipnótico que as imobiliza e incapacita. Dificilmente o leitor encontrará nas páginas dos jornais, tão cuidadosamente foi escondida, a notícia de que Kaing Guek Eav, ex-diretor do sistema de prisões no regime comunista do Camboja, confessou ter mandado assassinar sistematicamente milhares de crianças, filhas de prisioneiros políticos, para que não tentassem vingar seus pais depois de crescidas (v.

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPE55705320090608 ). Nada ilustra melhor a natureza do comunismo. Essas crianças não foram mortas acidentalmente por bombas durante uma guerra. Se o fossem, e as bombas fossem americanas, estariam em todas as primeiras páginas como provas da maldade capitalista. Como foram assassinadas deliberadamente, e o foram pelo simples crime de ser crianças, é preciso abafar o horror para que, no mínimo, as massas continuem na ilusão do equivalentismo moral entre os países comunistas e os EUA.

Do mesmo modo, as vítimas das FARC e do terrorismo latino-americano em geral, brasileiro inclusive, são meticulosamente excluídas do noticiário, proibidas de entrar no círculo da piedade humana e esquecidas, por fim, como meros dejetos acidentais indignos de atenção.

Enquanto isso, a mídia inteira considera normal e aceitável publicar palavras como estas do Dr. Emir Sader: “Há personagens com uma tal estatura histórica que, independente dos adjetivos e de todos os advérbios, ainda assim não conseguimos retratá-los em nada do que podemos dizer ou escrever. O que falar de Marx, que permaneça à sua altura? O que escrever sobre Fidel? ... O Che é um desses personagens cósmicos.”

Num rápido manejo de teclado, criminosos desprezíveis, mentores de Pol-Pot, são elevados às alturas sublimes do indizível, do inefável, do transcendente à linguagem humana. Será exagero chamar isso de idolatria psicótica? Mas mesmo os que não apreciam o comunismo aceitam essa monstruosidade em nome da “diversidade de idéias”, como se a matança deliberada de crianças fosse uma idéia, uma hipótese, um mero jogo acadêmico.

A longa convivência com essas enormidades, forçada diariamente pela mídia, dessensibiliza as consciências e as torna incapazes de perceber qualquer diferença entre a santidade e o crime, entre a virtude e a abominação. Na mesma medida e pela mesma razão, a estatura moral das sociedades democráticas vai baixando, e, com a ajuda de milhões de emires sáderes, os Ches e Pol-Pots se aproveitam disso para ostentar mais um pouco da sua infinita superioridade moral, anjos de bondade que pairam no céu, longe do “inferno capitalista”.

Em 22 de junho de 2009

Mst Mostra Que A Meta E A Tomada Do Poder

22 de junho de 1999 | O Estado de S. Paulo

Decorrido já quase um ano da publicação desta notável série de reportagens, o governo, os empresários e a mídia elegante continuam empenhados em dar ao MST a aparência pacífica e nobilitante de um movimento legal, comprometido apenas com a defesa dos delicados sentimentos do ser humano contra a dureza do mundo mau. Reproduzo-a nesta homepage como um lembrete para todas aquelas pessoas maravilhosas que acreditam que o comunismo morreu e que, mesmo se não tivesse morrido, não nos ofereceria o menor perigo, pois São Pentágono vela por nós.

— O. de C.

I Antes de deflagrar a ação, a preparação. Antes de mobilizar a massa, é preciso fortalecer as convicções dos militantes, reacender a mística que os anima para a luta, configurar como ilegítimo “o que está aí”, ou seja, o sistema jurídico e representativo vigente. É preciso chamar a atenção da mídia e das populações urbanas para a causa. A luta pela terra é coisa do passado. O Movimento dos Sem-Terra (MST) e a Coordenadoria Latino-Americana de Organizações do Campo (Cloc), unidos, jamais serão vencidos. Pois unidos vão detonar, com a aceleração da luta de classes, a democracia capitalista e o neoliberalismo que sufocam as esquerdas progressistas.

Somados à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), à Central Única dos Trabalhadores (CUT), ao Partido dos Trabalhadores (PT) e valendo-se do apoio de entidades religiosas “úteis” como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Igreja Católica, além de múltiplas organizações não-governamentais (ONGs) nacionais e estrangeiras, dinheiro não é nem será problema para bloquear estradas, promover invasões, ocupações e acampamentos em todo o País, sob o comando da Coordenação-Geral. A meta é a tomada do poder. “Hasta la victoria siempre!”

Estas foram algumas das normas e diretrizes ministradas em português e espanhol aos 93 participantes do Curso de Capacitação de Militâncias do Cone Sul, realizado numa chácara de Sidrolândia (MS), cidade de 18 mil habitantes, limpa e pacata, situada 70 quilômetros ao sul de Campo Grande, a capital do Estado, no início de maio.

Agora, os formados – 44 brasileiros, 21 paraguaios, 17 argentinos, 6 bolivianos e 5 chilenos – aguardam os grandes protestos prometidos pelo MST e pela Cloc, promotores do curso, para “materializar a prática individual e coletiva da Mística”.

Os documentos obtidos com exclusividade pelo Estado foram confirmados por Marcial Congo, representante da Cloc no Brasil, e por Sérgio Reis Marques, do MST e coordenador do curso.

A chácara (um seminário desativado) escolhida para sediar o encontro identifica-se como Centro Cultural São Francisco de Assis. É dirigida por dois frades capuchinhos, conta com algumas vacas leiteiras, um belo açude onde se criam grandes carpas herbívoras, um pomar de frutas variadas e altas mangueiras. Os militantes lembram-se com saudades do curso e dos dias em que gritaram numa só voz, como um pelotão militar, as “questões do coração” que animam a Mística.

O chefe perguntava: “Qual é nossa grande causa?” E eles respondiam: “A libertação do proletariado.” Pausa. Nova pergunta: “Quais são os caminhos para chegar a essa causa?” Resposta: “A reforma agrária e o socialismo.” Então vinha a questão-chave: “Quais são as formas para realizar isso?” Resposta: “Todas as formas de luta possível, tendo sempre em mente o poder.” Exigente, o chefe insistia: “Como?” E os militantes, (formados) numa só voz, repetiam: “Tendo sempre em mente o poder.”

Os frades forneciam o café da manhã, o almoço e o jantar. A comida era farta e a diária, barata: apenas R$ 8 por dia e por pessoa.

O MST por ele mesmo – Ao explicar-se para os companheiros nacionais e hispano-americanos, durante o Curso de Capacitação de Militantes do Cone Sul, o MST esclarece: “Defendemos a idéia de que somente as grandes mobilizações de massa podem alterar a co-relação de forças atuais na sociedade brasileira e colocar na pauta o projeto popular – e não apenas medidas paliativas, como querem setores moderados da oposição; estimulamos todas as formas de luta de massas por necessidade imediata, como ocupações de terras, de moradias, mobilizações de desempregados e ocupações de fábricas; estimulamos outros setores para que também o façam.”

Todo o trabalho do governo federal e dos governos estaduais relativo à reforma agrária é omitido, não existe. “Ao longo de sua trajetória, o MST organizou-se como um movimento social de massas, mas é também um movimento político, porque, ao lutar pela reforma agrária no Brasil, atinge diretamente os interesses da oligarquia rural e do Estado”, diz o documento, preparado pela Coordenação Nacional do MST. Após lembrar que a entidade foi confirmada como movimento nacional em 1984, o documento destaca que “nesses 15 anos de lutas conquistamos terras para mais de 200 mil famílias de trabalhadores rurais em área equivalente a 7 milhões de hectares, depois de mais de 2 mil ocupações massivas de latifúndios”.

Em seguida, sutil, mas orgulhosamente, afirma: “Nas áreas reformadas tentamos desenvolver um novo método de educação, garantindo que todos tenham acesso à escola e sejam aplicados conhecimentos voltados para as necessidades dos trabalhadores.”

Para o MST, os cinco primeiros anos do governo Fernando Henrique Cardoso significam “cinco anos de uma política econômica neoliberal, irresponsável e entreguista, que só trouxe mais dificuldades para o povo, aumento do atraso e da dependência externa do País”.

Para provar, o MST aborda o caso específico da dívida externa: “Em 1994, a dívida somava US$ 146 bilhões e, atualmente, soma US$ 212 bilhões; só de 1989 a 1997 o Brasil desembolsou (juros e amortizações) US$ 216 bilhões; vejam, portanto, que a dívida era de US$ 115 bilhões; pagamos US$ 216 e continuamos devendo US$ 212 bilhões.”

A conta é atrapalhada, mas a Coordenação Nacional parece desprezar detalhes. Prefere atuar como uma profética pitonisa: “Este mandato do governo FHC (99-2002) será de muita crise econômica e de piora nas condições de vida do povo; resta saber se o povo vai aceitar isso de braços cruzados.”

Via Camponesa – Preocupado com a adoção de políticas econômicas neoliberais em quase todos os países do Terceiro Mundo, com a abertura de mercado para as grandes empresas multinacionais e com as altas taxas de juros, o MST está construindo uma grande articulação chamada Via Camponesa, da qual fazem parte mais de 80 organizações em todo o mundo, “para defender uma alternativa a esse modelo neoliberal, de globalização excludente, que só interessa ao capital financeiro internacional”.

Em novembro ocorrerá a 2a Conferência Internacional da Via Camponesa, na Índia. Na América Latina, o MST atua com a Cloc, com quem planeja realizar uma grande marcha do Canal do Panamá até a fronteira do México com os Estados Unidos, numa manifestação contra a dominação imperialista norte-americana. No Brasil, participa da campanha Jubileu 2000 coletando assinaturas contra o pagamento da dívida externa brasileira e preparando um tribunal internacional para julgá-la. Esse julgamento já tem data marcada. Será no Rio de Janeiro, entre 26 e 28 de abril do ano que vem.

Acima de tudo isso, porém, “o MST se empenha para que as organizações sociais e políticas de esquerda retomem o trabalho de formação de militantes, com uma nova concepção: a de que é possível implantar o socialismo”.

Em Sidrolândia, enquanto observavam o farfalhar das folhas das altas mangueiras que orlam o auditório dos frades capuchinhos, os militantes do MST aprendiam o já sabido. Aprendiam que, em meados do século passado, um estudioso alemão chamado Karl Marx analisou os mecanismos de funcionamento da sociedade capitalista e elaborou uma proposta chamada “socialismo científico”. Aprendiam que, segundo essa proposta, os meios de produção (terras, máquinas, fábricas, etc.) deixam de ser propriedade particular e passam a ser controlados pelos próprios trabalhadores, que também decidem como será feita a partilha dos frutos da produção. Que para alcançar o socialismo, os trabalhadores devem, em primeiro lugar, organizar-se para, mobilizando as massas, conquistar o poder político e o controle do Estado. Dirigindo o Estado, os trabalhadores farão a minoria capitalista submeter-se às suas vontades. Começa então a construção do socialismo.

Um militante chileno gritou: “Hasta la victoria!” E um argentino completou: `Siempre!” Ambos foram advertidos que a construção do socialismo é um processo demorado. As folhas das mangueiras continuavam farfalhando. Um mugido de vaca veio de longe, demorou no ar por segundos e, antes que a atenção dos militantes se dispersasse, eles aprenderam que os revolucionários têm de concentrar-se em ganhar o controle dos meios de produção, de comunicação e de distribuição em nível local, regional e nacional. “Os movimentos devem definir, em primeiro lugar, seus papéis em relação ao sistema econômico como classes e não nos termos da distinção legal de cidadãos, que existe no sistema eleitoral; em segundo lugar, devem identificar as divisões de classes que definem a `sociedade civil’ e rechaçar a ideologia que homogeneiza todas as classes como membros da mesma `sociedade civil’ no regime neoliberal vigente.”

Também aprenderam – e este tema foi trabalhado durante dois dias inteiros – que “a igualdade de gênero é um pré-requisito para a transformação social que o MST e os movimentos revolucionários propõem”. A questão de gênero foi ministrada pela professora Izabel Green. Em síntese, as aulas ensinaram que a luta dos sem-terra e demais “progressistas” por igualdade entre homens e mulheres, entre o gênero masculino e o feminino, “se baseia na solidariedade de classes para a reforma agrária, a socialização dos bancos, dos meios de comunicação e do Estado”.

E ainda que “os movimentos revolucionários e suas líderes femininas propõem uma aliança de mulheres dentro da luta de classes por reforma agrária contra a proposta neoliberal que subordina mulheres camponesas a mulheres burguesas”.

II O Curso de Capacitação de Militantes de Base do Cone Sul promovido e ministrado pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) e pela Coordenadora Latino-Americana de Organizações do Campo (Cloc) no início de maio, em Sidrolândia (MS), contou com a presença do governador do Estado, Zeca do PT, na sua inauguração. A Metodologia e a Mística tiveram destaque especial. Segundo a definição do texto-base que conduziu o curso, Metodologia “é um conjunto de técnicas e procedimentos educativos ligados a uma visão de mundo e a uma opção política; é o caminho que percorremos para alcançar determinados objetivos”.

A Mística foi definida como a “alma das esquerdas”, como “a paixão que anima a militância”, como “palavra de origem religiosa, alimentada pela esperança de um objetivo a ser alcançado”.

Seja o que for, o importante é que a Mística se transforme em “uma causa” e o militante passe a viver por ela. No entender do MST, a materialização da Mística dá-se pela prática individual e coletiva. “Por isso, é necessário manter, em nível nacional e estadual, equipes treinadas para alimentar a Mística.”

Na aprazível chácara denominada Centro Cultural São Francisco de Assis, na periferia de Sidrolândia, a 70 quilômetros da capital do Estado, os militantes do MST vindos de São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Rondônia e Brasília, juntaram-se a companheiros paraguaios, argentinos, bolivianos e chilenos, formando um contingente de 93 “agentes de transformação social”.

Símbolos – Ali aprenderam que, “na Mística, os símbolos desempenham o papel de guias que representam o esforço coletivo; não são mitos, são reais e, por isso, cantar o Hino (Nacional) com os punhos fechados não é um simples gesto, representa desobediência à ordem estabelecida”. A bandeira e a foice são os principais símbolos do MST e devem ser exibidos com orgulho e destaque nas caminhadas, ocupações de prédios públicos, marchas, acampamentos e invasões de terra. “A militância precisa de um templo que consolide seu caráter e o compromisso com os ideais de uma nova sociedade: a Mística tem essa função!”

Quem decide as linhas, as formas e as cores da Mística? “Essa é uma tarefa desenvolvida pelos dirigentes que, por lógica, possuem a visão do futuro com clareza e vivem a esperança de transformações com maior intensidade.” Por esse motivo cabe aos militantes manter a disciplina no cumprimento dos acordos coletivos feitos pelos dirigentes e nunca os entender como uma ordem de cima.

“A disciplina brota do interior do militante como uma postura de zelo e segurança pela própria vida e pela vida do movimento; as orientações construídas coletivamente ajudam a combater dentro de cada um o vício de amparar-se nos outros, a mania de improvisação e a idéia da concorrência.” E para que as brasas da Mística permaneçam rubras e ardentes é preciso jamais esquecer o objetivo – a libertação do proletariado e a tomada dos bens de produção. Ao mesmo tempo, os militantes não podem deixar de acreditar que “são válidas todas as formas de luta possível, tendo sempre em mente o poder”.

Luta pela terra – No âmbito da Metodologia, a Coordenação-Geral do MST considera “fundamental” tornar claro “quais são as relações já superadas na questão da luta pela terra e pela reforma agrária”. Nesse ponto se tornam escombros as tentativas do governo, da Justiça e de todos os que tentam resolver os conflitos pipocados pelo MST em diversos pontos do território nacional. “A reforma agrária ganhou outra dimensão e já não deve ser feita por `razões econômicas’ como no passado e, sim, por `razões políticas’ ou, se quisermos, por `razões ideológicas’, tendo em vista que vivemos um tempo de disputas mais amplas”, decreta o texto-base oficial intitulado Lições Históricas da Luta Pela Reforma Agrária no Brasil, especialmente redigido para ser estudado durante o curso.

O documento é claro e direto. “Apenas ocupar a terra para trabalhar é uma posição já superada; essa posição se esgotou na luta pela conquista da terra vivenciada pelo MST na década passada e isso se comprova por duas razões: primeira – pela `facilidade’ de ocupar latifúndios, tendo em vista a queda do preço da terra (no começo dos anos 80, uma ocupação era uma verdadeira operação de guerra, enquanto hoje qualquer líder um pouco inteligente consegue organizar ocupações em todo o Brasil); segunda – a disputa fundamental não se dá mais entre sem-terras e fazendeiros, mas, sim, entre os sem-terra e o Estado.”

Desenvolvendo o tema, o documento apresenta o atual exercício dialético do MST. “No fim da década de 80, quando formulamos o grito de guerra `Ocupar, Resistir e Produzir’, a resistência era uma necessidade fundamental para conseguir permanecer nas áreas ocupadas ou para garantir um lugar para acampar depois da retirada, mas, agora, a resistência em si mesma já não se justifica; precisamos combinar novas formas de luta na sociedade. A ação militar sem orientação e controle político é como uma árvore sem raízes. Precisamos articular nossa resistência com a sociedade local, nacional e internacional para conseguir vitórias econômicas e políticas importantes, com a participação do maior número de pessoas possível”, informa o texto.

“A fase da luta pela terra como necessidade da categoria dos `sem-terra’ foi importante na década passada e no início desta, para dar identidade ao movimento. Mas, se ficar restrita à categoria dos `sem-terra’, a batalha perderá força rapidamente e não se sustentará nem se transformará em verdadeira luta social. A luta corporativa, mesmo que consiga alguma vitória, não será duradoura; as contradições serão cada vez maiores entre os trabalhadores e a burguesia e isso só se resolve quando a luta adquire um caráter político e de classe.”

Exercício – O exercício dialético prossegue tratando do marxismo (“o marxismo é nada mais que a ciência da história em desenvolvimento, uma ciência inesgotável que se alimenta da própria realidade,” etc. etc. etc.); destaca a necessidade de promover ações para aparecer na imprensa, utilizando-a, mas sem se deixar dirigir por ela; salienta que “a luta pela reforma agrária chegou ao ponto de tornar-se uma verdadeira arte,” porque é “um movimento de massas que tem a característica de apresentar-se como verdadeiras ondas, ou seja, depois de grandes enfrentamentos, ela desaparece para `descansar’, recuperar as forças e voltar em outro momento”; ressalta que “um movimento de massas se sustenta por longo período e se mantém em ascensão se a sua sigla organizativa tiver maior expressão que o nome de seus líderes porque, assim, os líderes locais adquirem significado e não só o `líder’ nacional, pois a expressão nacional deve ser o nome da organização, o que facilita que muitas pessoas a representem em muitos lugares ao mesmo tempo e, além disso, derrotas ou erros de `um líder’ não podem comprometer o crescimento e a credibilidade da organização.”

Ao concluir essa “lição”, a Coordenação-Geral do MST avisa que os militantes não podem esquecer-se do objetivo final da organização (o poder) e “devem saber combinar táticas para atacar em diferentes pontos do País, assegurando o potencial de força da organização”. Como de costume e praxe, o novo grito de guerra, em espanhol (numa demonstração de solidariedade aos companheiros do Chile, Argentina, Paraguai e Bolívia presentes), coroou os trabalhos: Hasta la victoria siempre!

Os Cursos de Capacitação de Militantes multiplicam-se e têm dupla finalidade: proporcionar o intercâmbio de informações entre agentes de regiões diversas, além de atualizar as lideranças ativas (e remuneradas) quanto às metas, a doutrina e a estratégia do MST. Tratam com desvelado carinho um tema em torno do qual “a organização” empenha seus melhores esforços: Como Mobilizar a Massa.

Manual – A pormenorização de etapas e procedimentos chega a ser exagerada. A seguir, alguns itens pinçados do manual elaborado pelo MST sobre essa ciência:

Tudo se extrai da massa – A massa é fonte inesgotável de tudo o que se necessita para a organização. Depende apenas da capacidade e da criatividade dos dirigentes.

Combinação de diferentes formas de luta – A organização de massa não deve bitolar-se em desenvolver uma forma de luta e de pressão apenas. Deve buscar a combinação de diferentes formas para confundir o inimigo e atacar em diferentes frentes. Embora os objetivos táticos sejam diversos, devemos combinar nossos objetivos estratégicos com outras organizações para atuar na terra, nas fábricas, nas escolas, nos bancos, no Parlamento ou naquela luta mais avançada ainda.

A estruturação orgânica – Mobilizar é diferente de organizar. O movimento de massa, além de mobilizado, deve estar profundamente organizado. Sem mobilizar é difícil organizar. Uma coisa depende da outra. A massa cresce e se educa quando se mobiliza. Qualifica os militantes e atrai os indecisos.

A massa tem necessidades e aspirações próprias – Muitas vezes as aspirações do dirigente não são as mesmas da massa. Nesse caso, é preciso desenvolver um trabalho ideológico para fazer com que as aspirações da massa adquiram caráter político e revolucionário.

Os dirigentes – É fundamental reconhecer a importância da direção, que tem a responsabilidade de conduzir a organização, elaborar métodos de trabalho, formular propostas, analisar a realidade, buscar recursos, programar as atividades, colocar bem as lideranças ou quadros, formar mais companheiros para a luta, distribuir as tarefas de acordo com as capacidades, controlar a organização e aplicar todos os princípios revolucionários.

A educação da massa – O conteúdo ideológico e político a ser passado para as massas deve ser planejado antes e transmitido nos momentos de mobilização – ou por meio dos meios de comunicação.

Articulação das lutas – Nenhum movimento, por mais forte que seja, pode sobreviver sem articulação com outros movimentos ou outras forças importantes. A articulação das diversas lutas desenvolvidas por diferentes forças deve primar pelo caráter classista procurando atingir objetivos táticos imediatos e estratégicos a longo prazo.

A massa precisa de vitórias – Ninguém se mobiliza de forma permanente se as mobilizações não trazem resultados concretos. As vitórias, mesmo que pequenas, devem ser comemoradas para servir de estímulo. As vitórias precisam também ser materiais. Não podem ser apenas políticas porque as reinvindicações são concretas (econômicas) e é por elas que ocorrem as mobilizações.

Grupo e massa – Trabalho de grupo e trabalho de massa são duas faces da mesma moeda. Ambos se complementam. Trabalhos de grupo, para nós, é fundamentalmente a organização de núcleos, os grupos-motores , dentro dos assentamentos onde está constituída a base do MST. O trabalho de massa refere-se às mobilizações e às ações programadas visando à conquista da terra, dos meios de produção e do poder, reinvindicações que complementam essa atividade.

III As manifestações de protesto deflagradas pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) e seus aliados prosseguem pipocando no Paraná, em São Paulo, Brasília, Pará, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Goiás. Ao promover saques, seqüestros, invasões, marchas, bloqueios de estradas, ocupações de bancos e prédio públicos, a “organização” está apenas desenvolvendo a “prática diária da Mística que anima os militantes”.

Ao ameaçar, como fez o líder João Pedro Stedile dias atrás, reunido com a cúpula do PT na Câmara dos Deputados, “levar o povo para a rua e quebrar tudo”, o MST está apenas se utilizando da imprensa a favor de seu projeto político, “que é revolucionário e tem por meta a conquista do poder para construir, sobre os escombros do capitalismo, uma sociedade socialista”.

No Curso de Formação de Militantes de Base que o MST e a Coordenadora Latino-Americana de Organizações do Campo (Cloc) promoveram em Sidrolândia (MS), os alunos aprenderam que “a Agitação e a Propaganda têm dois canais: o indireto, através dos meios de comunicação e o direto, que é pessoal, mais vivo, mais eficiente para formar a consciência do povo”.

Ocorre que o povo, avalia o MST, “não tem modo de pensar próprio” e, por essa razão, “precisa ser trabalhado por meio da agitação e da propaganda”. Para tornar o conceito mais claro: “Não dá para fazer uma sem a outra, mas a propaganda se volta (em pichações, rádios, jornais, palestras, panfletos, etc.) para a formação de uma consciência que o povo não tem porque está com a cabeça feita pela idéia da social-democracia, ao passo que a agitação se volta para uma experiência pessoal, direta, que se traduz na luta: é o exemplo.”

Sigla – Embora contrariando a norma pela qual é obrigatório dar maior destaque à sigla da “organização” do que à figura de seus líderes, o MST acata todas as bravatas e ameaças, concretas ou não, de Stedile e alguns outros chefes como Gilmar Mauro, do Paraná, Gilberto Portes, de Brasília, e Egídio Bruneto, de São Paulo.

Os militantes submetem-se à regra da obediência e “os dirigentes, como já estão num nível mais avançado”, situam-se acima das críticas, “pois necessitam de uma Mística diferenciada para não fraquejar e continuar lutando”, como reza o capítulo IV da cartilha intitulada Como Organizar a Massa.

Os dirigentes são o oráculo que guia os militantes, que devem guiar a massa, “que é a fonte inesgotável de tudo o que se necessita para a organização e que, para ser mobilizada, depende apenas de capacidade e da criatividade dos dirigentes”.

Neste fim de semestre e antes das eleições municipais do próximo ano, o MST não só reformulou seu grito de guerra (que passa a ser Até a Vitória, Sempre!), como também atualizou o que considera seu “principal desafio”. Este resume-se na “ocupação de múltiplos espaços na sociedade”. O fundamento teórico que a organização apresenta para alicerçar seu novo direcionamento é o seguinte: “Ocupar e controlar espaços é ter poder; a ocupação de espaços deixa de ser uma ação oportunista para transformar-se em atitude revolucionária, se estiver dentro de uma estratégia de acúmulo de forças para alcançar um objetivo.”

O programa para vencer “o desafio” desenvolve-se sem nenhum disfarce ou timidez, até pôr o MST e o pretexto da “reforma agrária” na cabeça e no comando da vanguarda revolucionária.

Os postulados iniciam-se com um gesto amigo, propondo a tese da Vanguarda Compartilhada, uma composição de forças que podem manifestar-se em forma de partido, organização política, exército revolucionário ou frente ampla. “Portanto, não é a organização que se intitula vanguarda, mas a aceitação da capacidade que ela tem para dirigir o processo revolucionário é que a torna expressão e referência política”, defende o programa. E afirma, em seguida: “Esse espaço está vazio no Brasil por dois motivos fundamentais, que são: os desvios de princípios e a incapacidade de formular métodos corretos, que envolvam toda a sociedade em lutas de massas.”

Apontando provas, o MST declara: “A Central Única dos Trabalhadores (CUT) faz propaganda e agitação; a diferença com o PC do B é que este não tem tendência e, portanto, tem unidade; o PT tem muitas tendências e, por isso, não tem jornal nem eficiência na propaganda; o MST está zelando para manter a unidade e sua sigla representa a mesma coisa em qualquer lugar.”

Na seqüência, o programa lembra que “a força de transformação está nas massas organizadas e, por isso, não basta criar um partido ou uma organização qualquer, é preciso saber se esta tem influência e está enraizada na mobilização de massas; por outro lado, para ser vanguarda, a organização deve formular e seguir sempre a teoria revolucionária para ter condições de realizar a revolução”.

Tarefa – O coroamento dos argumentos e justificativas precedentes, finalmente emerge, seco e enérgico: “Nossa tarefa é colocar a Reforma Agrária no centro da luta e torná-la a bandeira capaz de unificar a sociedade em relação a um objetivo estratégico maior.”

O complemento dessa tarefa é eleger o MST como “a organização”, cegamente, “sem nos preocuparmos em saber quem são seus líderes”. E, para concluir, “depois disso, devemos procurar quais são as organizações que têm caráter e princípios voltados para a preparação revolucionária do povo e, assim, estabelecer critérios em torno de pontos convergentes.”

Seguem-se algumas diretrizes básicas para que uma vanguarda revolucionária se consolide. Dentre elas, “capacidade de propor, organizar e conduzir diferentes formas de lutas, para acumular forças, mantendo as pessoas disciplinadas; capacidade de conduzir disputas nos terrenos econômico, político e ideológico; cuidar da formação ideológica de quadros e núcleos em todos os níveis; saber enfrentar disputas com forças reformistas que vierem a desviar o rumo da luta de classes; ocupar o espaço da divulgação e da prática dos princípios políticos revolucionários”.

De repente, aflora esta máxima: “Como a água é capaz de fazer seu caminho de acordo com as circunstâncias naturais que encontra, também o militante e a organização devem preparar a vitória a partir da ubiquação do inimigo, para alcançar os objetivos fixados.”

A Mística volta a ser exaltada como “a arte de incentivar e manter os lutadores animados e felizes”, como “a força que vence a depressão depois de uma derrota” e como “a razão para lutar com outros por uma grande causa coletiva, o socialismo, causa pela qual vale a pena lutar e morrer!”

Na ocupação de novos espaços que propõe a si mesmo, o MST quer “vincular a reforma agrária como `uma luta de todos’ nas áreas oficiais que dão forma orgânica à sociedade”. Para atingir esse objetivo, ajusta sua mira na direção das “prefeituras dos municípios do interior que podem ter influência dos assentados, onde geramos renda e dinamizamos a economia”.

Também “as Câmaras Municipais podem ser um espaço para contribuir, solucionando os problemas da sociedade local”. Além desses alvos, a mira aponta para “os sindicatos de trabalhadores rurais, que na maioria dos lugares se dispersaram, mas ainda possuem força moral e referência política”.

Escolas – O MST não se esquece das escolas, faculdades e igrejas, principalmente as igrejas. A imensa importância logística de milhares de paróquias espalhadas por todo o território nacional, interligadas e conectadas, “muito contribuiu para desenvolver o MST, através de suas pastorais”, reconhece a organização. A meta é o poder, “é ocupar os espaços que se conformam na superestrutura da sociedade”.

No fim do curso, um aviso aos navegantes: “Se alguém disser que esses espaços não devem ser ocupados por nossa organização, pois esses temas não nos competem, digamos sem receio de estarmos equivocados: os audazes sempre prevalecem sobre os medrosos!”

A Ingenuidade Petista

22 de julho de 2002 | 22 de julho de 2002

A entrevista que o deputado José Dirceu, presidente do PT, deu à Folha de São Paulo de hoje, é emblemática da ingenuidade de quem nunca esteve no centro de poder e nunca teve que negociar para valer com os parceiros internacionais. O mote foi o encontro que ele manteve com credores e membros do governo dos EUA na última semana.

Na primeira pergunta, o repórter foi direto: “Afinal, o que Lula pretende fazer com a dívida externa?”. A resposta deveria ser acaciana: “Pagar”. No caso do PT, todavia, as coisas não são bem assim, muito simples. Não falou, em momento algum, que iria pagar. Acenou com um provável crescimento da economia como instrumento alternativo à obtenção de superávit e a um acordo com o FMI.

[É como se essa hipótese existisse para uma economia altamente endividada. FHC está largando o governo com a economia em recessão não porque queira ou seja um Nero da economia, é porque não há escolha. Se a economia crescer, pouco que seja, o déficit no balanço de pagamentos fica inadiministrável, explode. Nada a fazer quanto a isso, a não ser preparar a economia para um crescimento futuro, quando for possível. O mesmo pode ser dito quanto ao FMI: não se assina acordo com o Fundo por gosto ou por masoquismo, mas sim, por falta de alternativa. O fato é que o Brasil está quebrado e os credores já têm todas as razões do mundo para fugirem daqui. A única coisa que os segura aqui é o aval do FMI, que garante um mínimo de racionalidade na política econômica e, portanto, um conforto para os credores. Do contrário, ocorrerá a debandada, mais ou menos como vimos na Argentina. Seria o desastre sem um acordo com o FMI.] O deputado pede trégua aos credores, como se fosse esse o caso. Quem deveria pedir trégua são os credores, que sempre foram ameaçados com a inadimplência pelos próceres do PT, que até um plebiscito inventaram para saber se deveriam honrar a dívida.

A segunda pergunta é: “Como funcionaria essa trégua?” A resposta não poderia ser mais fora da realidade: “Dar tempo ao Brasil é interesse do próprio governo norte-americano, da própria sociedade norte-americana, dos próprios credores e investidores”. Deus do céu, a sociedade norte-americana nem sabe onde o Brasil está no mapa. O governo Bush está combatendo o terrorismo e não tem tempo para países falidos. E os credores, bem, todos esses anos o que eles fizeram foi nos dar trégua, através dos acordos com o FMI. Quer trégua? Faça o acordo com o FMI, do contrário, paga ou quebra. É simples assim.

Na seqüência afirma que se o Brasil quebrar seria “uma crise sem volta nas finanças internacionais”. Quanta ignorância! Os ativos brasileiros já estão registrados na contabilidade com menos de 30% de seu valor. Estamos no famoso “creli” dos bancos, os Créditos em Liquidação, os recursos aqui emprestados são vistos como prejuízo, perda por emprestar a mau pagador. Quebrados nós já estamos e um agravamento da nossa crise, por imperícia na condução da política econômica, só afetaria a nós mesmos. A fome será só nossa e de mais ninguém.

Pergunta: “O que é exatamente essa trégua?” Resposta: “Não atacar o Brasil, não cortar os créditos do Brasil, deixar o Brasil escolher o novo presidente”. O ato falho aqui merece destaque: deixar o Brasil escolher o novo presidente... Mas banqueiro não vota aqui, nem investidores e, até onde se sabe a soberania do Brasil não se discute, são os brasileiros que escolhem os seus governantes. “Tenho certeza de que o Brasil, crescendo, honrará seus compromisso...” Já vimos que isso não pode acontecer. Entenda-se então que, se não houver crescimento, não haverá pagamento. Se eu fosse um banqueiro, sacaria tudo antes, depois de ouvir isso. Ele sabe que não há como ter crescimento nos próximos anos.

E completa a obra: “Não a partir de juro alto e de privatização, mas a partir do crescimento da economia e da modernização da infra-estrutura e do mercado interno. Isso que eu disse a eles”. Se eu estivesse ouvindo esse papo de quebrado querendo fixar os juros, já ligaria imediatamente para os operadores: vendam tudo!

A pergunta seguinte foi mortal: “Sim, mas isso é a trégua do lado deles. E a do PT?”. A resposta, além de suprema ingenuidade, saiu carregada de ameaças: “Escute, se eles querem receber pelos investimentos que fizeram no Brasil, o que é legítimo, e receber os juros da dívida (seria legítimo? NC) o país precisa mudar a política econômica e crescer”. E arremata, de forma bem tola: “É o contrário do que eles pensam”. Ah, bom, esses banqueiros e investidores, donos de bilhões de dólares, nada sabem de economia, mas os militantes “sociais”, os ex-guerrilheiros, os burocratas do Partido é que sabem. Ah, bom, está explicado, devem pensar os banqueiros. E, ato contínuo, ligam para os operadores: vendam tudo!

Depois dessas besteiras, complementa, como se fosse possível: “Isso não significa não honrar contratos, não manter o superávit primário nesse momento” (grifo meu). Mas isso é precisamente a política econômica que está posta em prática! Aí o banqueiro mais brincalhão deve ter rido e dito: “Boa piada. Agora conta outra”.

Pergunta: “O mercado perdeu então o medo do Lula” Resposta: (Supostamente espirituoso) “Precisa ver se aumentou o medo que nós temos do mercado (Risos)”. E, de novo, em pleno delírio irracional: “É um gravíssimo erro do governo e da sociedade norte-americanos, seja investidor, seja credor, tomar o país por esse momento...” Não deveria ser sério, mas foi assim dito, seriamente.

Pergunta: “Como foram as conversas, de uma maneira geral?” Resposta: “Não tive dúvida de falar com franqueza, ainda que de forma respeitosa, que nós: 1- Não vamos manter o Armínio Fraga na presidência do Banco Central; 2- Não queremos ir ao FMI; e 3- Que essa história de BC independente não necessariamente é a solução para o Brasil”. E aquele banqueiro galhofeiro deve ter pensado: “Além de quebrado, esse homem é doido”.

Pergunta: “Qual a reação deles?” Resposta: “Não senti nenhuma surpresa (também pudera, tudo já havia sido dito e escrito nos documentos do Partido), não ficaram estupefatos (sic) e nem acharam absurdo (o deputado aqui tomou a boa educação da platéia como uma concordância). Eles realmente estão ouvindo (ora, foi para isso que ele foi lá). Procurei transmitir que nós temos política, segurança no que propomos, que a única saída é crescer”. De fato, os banqueiros, com essa conversa, ficaram bem seguros que iremos ao fundo... do poço.

Pergunta: “O PT não iria ao Fundo em hipótese nenhuma?” Resposta: “Nós faremos tudo o que for possível para não ir”. E o tal banqueiro galhofeiro: “Já estão”.

O repórter perguntou: “Que medidas (Lula presidente) tomaria?

Resposta: “Nós fizemos a nossa parte. Já votamos a CPMF (que diabos isso tem a ver? Não teria sido melhor cortar despesas? Para os banqueiros, é absolutamente indiferente como o país fará para ter os meios para pagar a dívida. Se preferir esfolar o seu próprio povo, bem, isso se acerta nas urnas, devem pensar – NC). Não vi nenhum deles comentar: ‘Mas essa política de vocês é completamente irresponsável, isso não vai dar certo’. (Será que Dirceu não imagina que esse tipo de assunto é para o segundo escalão, para os burocratas do FMI? Acho que não).

Recomendo enfaticamente, caro leitor, o artigo de Nahum Sirotisky (“Coisa séria para o Brasil”) que está circulando pela Internet. Lá ele relata a opinião de um “think thank” sobre o Brasil, homem de grande influência (Constantine Menges), que, ao contrário dos banqueiros, pode falar livremente, dispensando os protocolos (que o deputado tomou como um assentimento tácito dos banqueiros). O que está escrito é que a elite norte-americana pensa que o Mister da Silva está ligado politicamente aos guerrilheiros da Colômbia, a Hugo Chávez, a Fidel Castro e que o governo dos EUA vê como um perigo a sua eleição para a Presidência do Brasil, pois pode fragilizar a fronteira Sul, inclusive no que diz respeito a possíveis ataques terroristas em solo americano.

Ler a coluna do Nahum – a propósito, um dos grandes talentos jornalísticos de nosso país, com quem muito aprendo da arte de escrever –, junto com a entrevista, dá bem a medida do que o povo brasileiro pode esperar de um possível governo de Mister da Silva. Valha-nos Deus.

Diagnostico Da Situacao

22 de fevereiro de 2007 | Diário do Comércio

Os militares ditos “nacionalistas”, que aliás não são muitos, acusam-me de tachá-los de comunistas e de não compreender suas elevadas intenções patrióticas. Ao contrário. Sei que não são comunistas. São anticomunistas, entusiastas do capitalismo de Estado, anti-americanos por cálculo e não por ideologia. E compreendo perfeitamente bem suas intenções. Discuti-as muitas vezes com o remoto mas influente mentor do grupo, o falecido general Carlos de Meira Mattos, meu amigo, inteligência brilhante, e lhe expus francamente minha discordância, então ainda nebulosa e mal fundamentada.

O que sonham é aproveitar-se da onda esquerdista, ajudando-a a precipitar uma situação virtual de guerra contra os EUA que elevaria às nuvens o poder das Forças Armadas, facilitando a derrubada dos esquerdistas e a instauração de um governo nasserista de salvação nacional.

O plano não é comunista: é apenas louco. Trata-se de matar o país para disputar a posse do cadáver. Uma situação de guerra ou mesmo de pré-guerra na América Latina é tudo o que os globalistas precisam para colocar a área sob intervenção da ONU. A soberania nacional desapareceria em segundos, a Amazônia seria internacionalizada por automatismo. Os militares nacionalistas iriam para a cadeia e os comunistas voltariam ao poder como heróis da democracia, sob os aplausos da comunidade internacional e da mídia chique.

O plano é furado porque sua base teórica é a metodologia errada da Escola Superior de Guerra , cujo conceito fundamental de “poder nacional” só reconhece como sujeitos agentes da História os Estados e os governos. Estados e governos não são sujeitos da ação histórica: são seus instrumentos. Sujeitos históricos são entidades mais permanentes e estáveis, cuja ação se estende para além da duração dos Estados e governos.

Sujeitos da História são as castas religiosas, as dinastias monárquicas e oligárquicas e as seitas gnósticas transfiguradas em movimentos ideológicos de massa. Sua ação atravessa os séculos passando por cima do prazo de vida dos Estados e do horizonte de visão de seus governantes.

O atual espetáculo do mundo é a disputa entre quatro sujeitos da História: as religiões cristã e judaica, com suas concepções tradicionais da civilização, o movimento revolucionário mundial, a oligarquia globalista e o expansionismo islâmico. Estes três têm relações ambíguas entre si; ora são aliados, ora concorrentes. Os cristãos e judeus estão sozinhos contra todos, mal articulados em movimentos conservadores que só têm expressão nos EUA. Mas neles repousa a única esperança de preservar a civilização e impedir a dissolução das soberanias nacionais.

A mera contraposição de nacionalismo e globalismo é estreita e provinciana demais para dar conta do quadro. Ela falseia a realidade e eleva a planos de ação insensatos, condenados ao fracasso.

O obstáculo que separa de mim aqueles militares não é ideológico: é a ciumeira de intelectos atrofiados contra o estudioso que enxerga mais que eles. Se pusessem a pátria acima de seus egos, estariam me ouvindo em vez de me jogar pedras.

Em 22 de fevereiro de 2007

O Tamanho Da Encrenca

22 de fevereiro de 2004 | Zero Hora

Ninguém, mais que os gaúchos, conhece o lado tenebroso do PT. O acervo de informações que coletaram a respeito é tão vasto que, não cabendo mais em páginas de jornais, acabou se condensando em livros e formando uma pequena biblioteca da teratologia política esquerdista. Obras como as de Adolpho João de Paula Couto (“A Face Oculta da Estrela”), Onyx Lorenzoni (“Os 500 Dias do PT no Governo”), Denis Rosenfield (“PT na Encruzilhada”), Paulo Couto e Silva (“O Impeachment de Olívio Dutra”), José Hildebrando Dacanal (“A Nova Classe” e “O Pedagogo do PT”), Dagoberto Lima Godoy (“Neocomunismo no Brasil”) e José Giusti Tavares (“Totalitarismo Tardio”) são absolutamente indispensáveis a quem queira conhecer o verdadeiro funcionamento dessa engenhoca política sui generis , capaz de somar aos rendimentos publicitários do mais agressivo moralismo as vantagens indiscutíveis da amizade com bicheiros, narcotraficantes e seqüestradores.

Se esses livros tivessem sido lidos pelo Brasil a fora, provavelmente o PT jamais teria conquistado a presidência da República no instante mesmo em que perdia o governo do Rio Grande. Infelizmente, sua difusão ficou restrita a este Estado, por mais que eu fizesse para divulgá-los na mídia carioca e paulista.

Foi justamente por tê-los lido que percebi, antes de qualquer outro comentarista da grande mídia nacional, a profunda e essencial articulação entre dois aspectos da organização petista que, para a opinião ingênua da maioria, permanecem separados e antagônicos: a máquina de investigação e acusação que elevou o PT à condição de juiz supremo da moralidade nacional e a máquina de corrupção organizada que fez dele o partido mais rico e poderoso do país.

Simplesmente não pode ser coincidência que o líder petista que apadrinhou Waldomiro Diniz seja o mesmo que anos atrás, com sua experiência de agente secreto treinado em Cuba, era acusado de ter sob seu comando batalhões de olheiros e “arapongas” infiltrados em todos os escalões da administração pública, brilhando nas CPIs com informações espetaculares das quais nem as autoridades policiais dispunham.

Simplesmente não pode ser coincidência que o partido mais intimamente associado a organizações internacionais criminosas como as Farc e o MIR chileno esteja, na escala nacional, tão próximo de quadrilhas de contraventores que, como ninguém ignora, são a fachada incruenta da indústria global do narcotráfico e dos seqüestros.

Só uma organização desse porte — e dessa complexidade — poderia realizar o prodígio de meter-se em tantas atividades suspeitas e, ao mesmo tempo, conservar a imagem de autoridade moral com que destrói a reputação de tantos adversários e reduz os demais à condição de colaboradores servis.

Tudo indica que no PT a retórica de acusação moralista e a promiscuidade com o crime não são dois aspectos contraditórios. São peças perfeitamente articuladas de uma engrenagem gigantesca voltada para um só objetivo: a conquista do poder total por todos os meios possíveis e imagináveis, pouco importando se lícitos ou ilícitos.

Está na hora de os gaúchos contarem ao Brasil tudo o que descobriram durante a era Olívio Dutra. Só assim este país poderá fazer uma idéia do tamanho da encrenca em que se meteu quando resolveu brincar de “ética” no teatro de marionetes do PT.

Em 22 de fevereiro de 2004

A Cabeca Da Direita

22 de fevereiro de 2003 | O Globo

Dois colegas que muito aprecio, Merval Pereira e Luís Nassif, publicaram recentemente artigos de importância vital que não parecem ter algo a ver um com o outro, mas têm.

Merval, em O Globo do dia 16, faz votos de que a “direita” brasileira desista de viver de esmolas da esquerda e assuma posição própria. Só com uma direita e uma esquerda assumidas e conscientes, diz ele, pode haver democracia de verdade.

Nassif, na Folha do dia 15, denuncia que o dr. Roberto Amaral demite cientistas do seu ministério por pura discriminação ideológica: “Estão sendo demitidos profissionais de alto nível, suspeitos de ser ‘neoliberais’.”

A análise de Merval é perfeita. No regime militar, havia eleições, o parlamento funcionava. Por que, então, não havia democracia? Não havia democracia porque a oposição não tinha vida própria, era um apêndice do governo. E aí tudo ficava demasiado confortável para os de cima.

Mas a esquerda petista logrou criar para si uma situação igualmente confortável antes mesmo de chegar ao governo. Neutralizando uma a uma as lideranças direitistas por meio de denúncias chocantes, que nunca precisam ser comprovadas para produzir seu efeito politicamente letal, chegou às eleições sem ter adversários senão de fachada, dois dos quais seus associados no Foro de São Paulo e um terceiro que só lhe fazia concorrência na ostentação de fervor esquerdista. A farsa grotesca deixou constrangido até o líder comunista italiano, Massimo d’Alema, que, em visita ao Brasil, perplexo indagava: “Aqui não existe direita?” A resposta que um esquerdista sincero lhe daria é: “Existe de fato, mas não de direito. Tem a existência provisória de um crime impune, que sobrevive dos cochilos da lei, tentando desesperadamente cavar um lugarzinho na sociedade decente por meio do adesismo e da lisonja.”

Se a direita não levantar a cabeça até ombreá-la com a da esquerda, nossa democracia será somente um disfarce da onipotência esquerdista como o bipartidarismo de 1964 foi um disfarce do poder militar. Merval enxerga sinais de revigoramento da direita e, sem ser um direitista ele próprio, pressente nisso um bom augúrio. A democracia, com efeito, depende essencialmente de homens que sobreponham a integridade do sistema às ambições de seus partidos.

O problema é: quantos desses homens existem na elite esquerdista que nos governa? Respondo sem hesitação: nenhum. O espírito do partido triunfante foi resumido na lamentação do guru presidencial, Frei Betto: “ Só conquistamos o governo; não o poder.

” O PT não é nem foi jamais um partido normal, disposto a alternar-se no governo com os concorrentes direitistas. É um partido totalitário, para o qual o governo é só uma etapa em direção ao socialismo, do qual, por definição, qualquer direita capitalista estará excluída para sempre. Ele não concebe a “democracia” senão como absolutismo esquerdista sustentado na massa de militantes enfurecidos e legitimado pela completa hegemonia sobre a cultura, a educação e a mídia.

E é aí que entra Luís Nassif. Um governo que posa de democrático enquanto destrói a elite científica por meio da perseguição ideológica é, com toda a evidência, um governo de duas caras — e não é preciso ser muito esperto para perceber qual delas é a verdadeira. Se as demissões atingissem gente da esquerda, a mídia, a intelectualidade e a universidade em peso se levantariam para protestar, com justa razão, e ninguém poria em dúvida a gravidade do ocorrido. Sendo as vítimas “neoliberais”, nem elas mesmas terão a ousadia de reclamar. Farão como os familiares de vítimas do terrorismo, que preferem calar-se, intimidados, fazendo de conta que não doeu. E o resto do país se omitirá também, para não perturbar a “festa da democracia”.

A lógica da situação não poderia ser mais clara. Conforme o próprio presidente da República admitiu em off ao Le Monde e o sr. Marco Aurélio Garcia proclamou a La Nación , cada concessão aparente, cada acomodação de superfície, cada sorriso “light” que o presente governo atire como migalhas aos tolos esperançosos ou como anestésico aos investidores estrangeiros é somente recuo tático numa estratégia destinada a seguir implacavelmente o rumo traçado pelo Foro de São Paulo. Esse rumo é idêntico, em essência, ao de Hugo Chávez: política econômica bem comportadinha para evitar conflitos na área externa, enquanto se sufoca a oposição interna e se articula a “tomada do poder”. Hipnotizado pela controvérsia econômica, o público nem repara no detalhe, muito mais significativo, da discriminação ideológica que sorrateiramente vai entrando na rotina normal de governo como já tinha entrado na da mídia e das universidades. Muito menos repara na coincidência entre o destino dos cientistas demitidos e a simultânea tempestade de acusações contra o sr. Antonio Carlos Magalhães, jogado aos leões por ter cometido meia dúzia de vezes o crime de espionagem política que a esquerda pratica impunemente, todos os dias, desde há vinte anos.

A direita fisiológica imaginou que, bajulando o dominador, ganharia tempo para recompor-se e derrotá-lo um dia. Ledo engano. Se fora do governo a esquerda já logrou reduzir os Magalhães e os Malufs ao mais humilhante servilismo, no governo não descansará enquanto não os atirar à completa impotência e marginalidade. Não dou dois anos para que cada um deles, culpado ou inocente, esteja na cadeia, no exílio ou no mais profundo esquecimento. Para haver democracia, é preciso que a direita levante a cabeça. Mas o governo, com a ajuda da mídia, vai decepá-la antes disso.

A Diplomacia Das Sombras

22 de dezembro de 2008 | Diário do Comércio

“Monroe deve estar rolando no túmulo”, comentou Julia Sweig, diretora do programa latino-americano do Concil on Foreign Relations (CFR), ao saber que os EUA tinham sido excluídos do encontro de chefes de Estado da América Latina em Costa do Sauípe, BA. A famosa doutrina de 1823, que colocava o continente fora dos limites de ação dos poderes europeus e fazia dele uma área de influência dos EUA, está morta e enterrada.

É o resultado inevitável da política adotada pelo presidente George W. Bush, de tentar seduzir a “esquerda moderada” latino-americana para fazer dela um muro-de-arrimo contra a avalanche do esquerdismo revolucionário. Praticamente não houve nos altos círculos de Washington, na grande mídia americana e no próprio CFR quem não achasse essa política o cume da sabedoria diplomática universal. Os democratas só reclamavam – um pouquinho – que ela não era esquerdista o suficiente. Os republicanos reagiam com desprezo e impaciência a qualquer tentativa de apontar a sua falha fundamental.

Desde que cheguei aos EUA, em maio de 2005, discursei em várias instituições conservadoras e distribuí dezenas de artigos a políticos e formadores de opinião, dizendo que ignorar a unidade profunda da esquerda latino-americana, apostando na possibilidade de jogar um país contra o outro por meio de vantagens comerciais, era coisa de uma estupidez descomunal, senão uma traição deliberada que os esquerdistas do Departamento de Estado fomentavam e os direitistas sonsos se recusavam a enxergar.

Celebrado pela esquerda como amostra de “independência”, o afastamento do continente em relação aos EUA não é nada disso: é a submissão integral e descarada à estratégia expansionista de russos, chineses e iranianos. Nos últimos anos, o presidente chinês Hu Jintao passou mais tempo na América Latina do que George W. Bush, intensificando as relações comerciais e diplomáticas com vários países do continente. Mahmud Ahmadinejad já está convidado a visitar o Brasil e os navios russos vão fazendo alegremente manobras conjuntas com os da Venezuela, numa área onde isso seria impensável uns anos atrás. A penetração russa e chinesa nos negócios do Brasil através de uma infinidade de testas-de-ferro é impossível de medir, mas, em geral, onde você lê “Espanha” deve entender “Rússia”. O reingresso de Cuba na comunidade latino-americana, sem oferecer em troca nenhuma concessão na área dos direitos humanos, foi celebrada pelo presidente Lula como justificativa cabal para o encontro, mesmo que ali não se resolvesse mais nada.

Lula, no qual George W. Bush apostou como um instrumento essencial da diplomacia americana para conter o avanço do comunismo continental, é ele próprio, hoje como desde a fundação do Foro de São Paulo em 1990, o grande articulador da subversão latino-americana, coisa que este encontro deixou mais claro do que nunca. Se, ao mesmo tempo, ele fomenta a economia de mercado e o livre comércio internacional, segue nisso a mesma orientação de russos, de chineses e de todo o movimento comunista internacional: adiar sine die a socialização dos meios de produção e usar o próprio crescimento capitalista como via para a construção do poder político esquerdista global. O que Lênin fez na Rússia está sendo agora aplicado em escala mundial: seduzir os capitalistas com uma conversa suave enquanto se aumenta até o extremo limite do possível o poder político do movimento comunista.

Acostumado a fazer as análises e previsões mais acertadas e a vê-las recebidas com sorrisinhos de desdém e afetações de superioridade olímpica – emblema clássico da imprevidência beócia –, lembro-me de que ainda em 2005, quinze anos depois da fundação do Foro de São Paulo, já então o senhor quase absoluto da política continental, a ilustradíssima assembléia do CFR se recusava a acreditar até mesmo na existência da entidade. Um dia, daqui a trinta ou quarenta anos, saberemos se essa demonstração de cegueira foi fruto da estupidez genuína ou da ação esperta de intelectuais iluminados. A política, é certo, é um jogo de aparências. Mas ninguém pode manipular aparências se não permanece fora delas, firmemente ancorado no chão da realidade. No fim das contas, aqueles que se acostumam a viver de aparências acabam se infectando de um horror sacrossanto à realidade: sua ostentação vaidosa de realismo, maturidade e sabedoria prática é uma pantomima grotesca que encobre a sua total incapacidade de ação eficaz, ao mesmo tempo que os investe do poder ilusório de manipular sombras dentro de sombras, transmutados em sombras eles próprios.

Em 22 de dezembro de 2008

Absurdo Monumental

22 de agosto de 2005 | Diário do Comércio

Enquanto o povo inteiro se emociona com a mirabolante sucessão de escândalos do Mensalão, outros acontecimentos, mais discretos porém ainda mais reveladores da ruína moral e intelectual da nação, podem passar totalmente despercebidos.

Escolhi este porque é, em si, um monumento ao desastre.

O leitor sabe que quem torce pelo Flamengo é flamenguista, quem vota no Maluf é malufista, quem se dói de amores por Lula é lulista, quem quer ver o comunismo implantado no mundo é comunista. Mas, segundo decisão unânime da Primeira Turma Recursal dos Juizados Especiais do DF, quem defende a prática do aborto não pode ser chamado de abortista. Ah, isso não. O Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz, do Pró-Vida de Anápolis, SP, entidade que luta contra a legalização do aborto, foi condenado a pagar R$ 4.250,00 de multa por ter designado com esse termo uma notória defensora (bem subsidiada pela fundação MacArthur, é claro) do direito de matar bebês no ventre de suas mães, em quantidade ilimitada, a mero pedido das ditas cujas. Pior: o sacerdote foi informado pela autoridade judicial de que doravante deve abster-se de usar a palavra proibida não só ao falar da mencionada senhora, ou senhorita, mas de qualquer outra pessoa, por mais abor(CENSURADO)ista que seja.

Não sei o nome dos juízes que compõem a Turma. Mas sei que das duas uma: ou a proibição que baixaram se aplica a todos os cidadãos brasileiros ou exclusivamente ao Pe. Lodi. Na primeira hipótese, os signatários dessa nojeira ultrapassaram formidavelmente suas atribuições de magistrados e se autopromoveram a legisladores, com o agravante de que usaram dessa inexistente prerrogativa para instaurar, pela primeira vez na História universal da jurisprudência, a proibição de palavras (e logo de um termo banal do idioma, consagrado em dicionários e em pelo menos 24 mil citações no Google). Na segunda, terão negado a um cidadão em particular o direito de livre expressão desfrutado por todos os demais, configurando o mais descarado episódio de discriminação pessoal já registrado nos anais do hospício judicial brasileiro.

Num caso, usurpam a autoridade do Congresso e a usam para baixar uma lei digna da Rainha de Copas. Noutro, infringem a Constituição que lhes incumbe defender.

Bem, uma ordem que tem dois significados possíveis, antagônicos entre si e cada um absurdo em si mesmo, é, com toda a evidência, uma ordem sem significado nenhum.

Como obedecê-la, portanto? Obedecer a uma ordem é traduzir o seu significado em atos. Não havendo significado, a obediência é impossível. Ninguém pode se curvar a ela sem anular, no ato, os princípios constitucionais e legais que fundamentam a autoridade mesma de quem a emitiu.

Aos juízes da Turma Recursal cabe, portanto, a invenção desta novidade jurídica absoluta: a sentença auto-anulatória.

Se pretendem seriamente que ela seja cumprida, portanto, os magistrados brasilienses violam não somente um dos princípios fundamentais do Direito, que reza “ad impossibilia nemo tenetur” (ninguém é obrigado a fazer o impossível), mas também as leis da lógica elementar, a ordem causal da ação humana e, enfim, a estrutura inteira da realidade. Perto disso, aquele famoso prefeito de cidade do interior que mandou revogar a lei da gravidade foi um primor de modéstia, já que suspendeu somente uma das leis da mecânica clássica, deixando o resto da ordem universal em paz. O próprio Deus jamais sonhou remexer tão fundo os pilares do cosmos como o pretenderam os meritíssimos, já que anunciou desfazer no Juízo Final tão-somente o universo corpóreo presentemente conhecido, conservando intactos o princípio de identidade e os nexos de causa e efeito, sem o que não poderia julgar os vivos e muito menos os mortos. Sto. Tomás de Aquino ensinava que a onipotência divina não tem limites externos mas os tem internos: não pode anular-se a si própria, decretando uma absurdidade intrínseca. Para os juízes da Turma Recursal, isso não é obstáculo de maneira alguma.

Se os leitores pensam que a comédia parou por aí, enganam-se. Uma sentença que não tem sentido lógico requer interpretação psicológica. Mas quando tentamos sondar a obscuridade mental de onde suas excelências extraíram o fruto patético de suas caraminholações, defrontamo-nos com uma dificuldade insuperável: ou esses juízes compreendem o sentido do que assinaram, ou então assinaram a esmo, de supetão, num arrebatamento paroxístico que só poderia alegar em defesa própria o atenuante da insanidade. No primeiro caso, são um grupo revolucionário místico-gnóstico pelo menos tão perigoso quanto o de Jim Jones, empenhado em corrigir os erros do Todo-Poderoso mediante a supressão da realidade. No segundo, estão absolutamente incapacitados para a função judicial ou aliás para qualquer outra, sendo obrigação da corregedoria removê-los imediatamente do cargo e devolvê-los aos cuidados de suas respectivas mães, para que estas apliquem nos seus bumbuns os corretivos requeridos em casos de molecagem intolerável.

Incapaz de atinar com algum sentido lógico ou psicológico na enormidade judiciária brasiliense, acredito no entanto que posso encontrar para ela uma explicação sociológica: Suas Excelências são o produto acabado da universidade brasileira. Quatro décadas de desconstrucionismo, multiculturalismo, “direito alternativo”, teologia da libertação e slogans politicamente corretos, sem nenhum contrapeso de racionalidade científica e educação clássica, bastam para infundir em pessoas clinicamente sãs a doença espiritual do irracionalismo anticósmico, de modo que, continuando a agir de maneira normal no dia a dia, são subitamente atacadas de autodivinização aguda quando no exercício de alguma função que lhes pareça ter relevância ideológica. Aí, sem a menor hesitação de consciência, passam a exigir que dois mais dois dêem cinco, que os pássaros voem para trás, que as vacas produzam vinho francês em vez de leite e que a soma dos ângulos internos dos triângulos dê 127,5. E fazem tudo isso acreditando cumprir uma alta missão ético-social. Já vamos para a terceira geração de estudantes brasileiros afetados por essa grotesca deformidade do espírito. Não é de espantar que, elevados ao cargo de magistrados, esses meninos tenham alguma dificuldade de discernir entre a toga judicial e a capa do Super-Homem.

Pompeius Minimus Como não há nenhuma direita politicamente atuante no país, a esquerda a toda hora inventa uma, para lançar sobre ela as culpas de seus próprios crimes ou simplesmente para não ter de confessar que não tem antagonistas, que todo o seu heroísmo consiste em brandir uma espada de papelão contra sua própria sombra, num palco vazio. Mas, sendo difícil apontar nomes representativos de uma corrente política inexistente, é natural que, ao selecionar suas vítimas pré-alvejadas, ela dê preferência aos personagens mais execrados do dia, atribuindo postiçamente um sentido ideológico a atos cometidos em mero interesse próprio, de modo que a direita assim surgida ex nihilo pareça não somente existir como também ser algo de indiscutivelmente ruim. Às vezes, porém, o truque falha – pois é difícil fazer o povo enxergar algum conteúdo doutrinal nas mesquinhas bandalhices de um João Alves ou do Juiz Lalau. Nesses casos, a esquerda apela ao recurso extremo de usar alguns de seus próprios membros como palha para estufar o espantalho direitista, como fez com a família Sarney, com a socialdemocracia tucana e por fim com a mídia inteira. Essa ingratidão dos diabos, que num instante atira ao lixo pais, protetores, amigos e cúmplices de uma vida inteira, também traz algum benefício secundário, na medida em que prepara a opinião pública, sutilmente, para acostumar-se à idéia de viver no futuro paraíso socialista, onde as únicas correntes políticas existentes serão a esquerda da esquerda, o centro da esquerda e a direita da esquerda, tudo isso reunido sob o nome de “democracia aprofundada”.

Em qualquer das duas opções, porém, a verossimilhança do boneco falhava num ponto. Que raio de direita era aquela, que nunca aparecia numa manifestação pública, que não tinha um jornal ou revista para leitura de seus militantes, que não fazia uma assembléia, uma reunião, um debate interno sequer? Como era possível que uma força onipotente, causadora de todos os males do país, só pudesse ser designada por seus efeitos remotos, sem jamais ser vista fisicamente em parte alguma?

Como era possível que figuras tão inconexas como, por exemplo, Paulo Maluf, José Serra, Jair Bolsonaro, o embaixador dos EUA e até eu, que nunca nos falamos nem tivemos motivo para isso, compuséssemos, sem sabê-lo, uma força política coesa, organizada, capaz de bloquear maldosamente a marcha das forças populares em direção à glória final do socialismo? Que laço misterioso, que magnetismo desconhecido nos reunia em algum salão secreto da terra do nunca, tomava decisões em nosso nome sem nos avisar, baixava instruções aos esquadrões etéreos de nossos militantes compostos de pura antimatéria e, assim, impunha por toda parte o poder temível da “direita”?

Não, não era possível continuar assim. Algum sinal físico da existência da maldita direita tinha de ser inventado. A oportunidade para isso apareceu por pura sorte, faz uma semana.

Foi o seguinte:

Gostem ou não gostem, o deputado Roberto Jefferson é a principal atração do circo nacional. Todos querem vê-lo, ouvi-lo, decifar o enigma do herói-patife que mandou para o beleléu a própria carreira política pelo simples prazer — sublime, admito — de fazer em cacos a indústria petista do crime. A Associação Comercial de São Paulo não escapou à curiosidade geral. Cometeu a imprudência de convidar seus membros e o público em geral para tirar as dúvidas numa conversa direta com o personagem. Mal sabia ela, com todos os seus cento e tantos anos de experiência, que a malícia esquerdista consegue transformar qualquer coisa em qualquer outra coisa e ainda chamar isso de “jornalismo”. Encarrega-se da mágica, desta vez, Roberto Pompeu de Toledo, tardio homônimo do general romano Pompeius Magnus, que não enfrentou as legiões de César mas realiza semanalmente proeza ainda mais dificultosa, provando que é possível fazer sucesso no jornalismo opinando com desenvoltura e segurança sobre assuntos dos quais não tem a mínima idéia. Nas mãos desse enrolador emérito, o encontro realizado no Hotel Jaraguá transmuta-se – por fim! – numa manifestação política da “direita”, com o deputado Jefferson transfigurado no Newt Gingrich brasileiro e a platéia casual, com todos os seus Pompeus de Toledo inclusos, numa massa de militantes a delirar de “entusiasmo adolescente” (sic) ante as propostas maquiavélicas de um plano de ação reacionário.

Uma vez provada assim a existência da direita organizada, Pompeius Minimus passa à etapa seguinte: desmoralizar o inimigo antes de lhe dar tempo de passar da hipótese à realidade. Nada melhor, para esse fim, do que imputar-lhe conteúdos ideológicos inexistentes, criados por simples inversão dos méritos auto-atribuídos da esquerda. Assim, pois, se esta se alardeia a rainha da justiça social, a direita tem de ser, naturalmente, a apologista das desigualdades. Pouco importa a Pompeius Parvus que só o capitalismo tenha conseguido dar aos pobres alguma existência digna, ou que a distância econômica entre pobres e ricos, no socialismo, seja consolidada pela exclusão política dos descontentes, tornando oficial e definitiva a barreira entre as classes. Tratando-se de tomar palavras por coisas, o simples contraste semântico entre os termos “igual” e “desigual” basta como prova da infinita superioridade moral do socialismo.

Num giro verbal ainda mais suíno, Pompeius Minor atribui aos conspiradores da direita a intenção de queimar a reputação dos esquerdistas por meio do argumento retoricamente suicida de declarar que “eles são tão ruins quanto nós”. Quem lê jornal sabe que apelar ao equivalentismo moral tem sido o último recurso do partido governista surpreendido com as calças na mão. Por meio desse expediente, ele procura atenuar as diferenças brutais entre a corrupção avulsa e incruenta de seus antecessores e o império petista do crime com todo o seu envolvimento em homicídios, conspiração com narcoterroristas internacionais e suborno maciço da classe política praticamente inteira. Pompeius Infimus eleva à enésima potência a eficácia desse truque infame, colocando-o na boca dos próprios difamados. Se ele pensa que engana a alguém com essa porcaria, deve ter razão. O Brasil está tão maluco que o pessoal já não se contenta com acreditar em duendes, mulas sem cabeça, extraterrestres, cachaça diet e propaganda petista: acredita em Roberto Pompeu de Toledo.

Em tempo 1) Tal como anunciei aqui, George W. Bush acaba de nomear Thomas Shannon para o lugar do mocorongo Roger Noriega. Péssima notícia para Hugo Chavez.

La Victoria Del Partido Unico

21 de octubre de 2002 | Jornal da Tarde

Una parte considerable de los medios de comunicación brasileños está bajo control de servidores conscientes e inconscientes de la desinformación izquierdista, encargados de excluir de las noticias todo lo que pueda dar a los lectores una idea del avance de un proceso revolucionario que, al ser conducido por las vías suaves de la estrategia gramsciana, debe seguir siendo discreto hasta que se llegue a ser irreversible.

Como toda censura, la que nos domina tiene el don de ocultar su propia existencia. Pero en ella ese don es potenciado por el hecho de que, al ser ejercida por los propios periodistas, no hiere las susceptibilidades de esa clase y sólo encuentra la resistencia de individuos aislados, cuyas voces son fáciles de impugnar como expresiones de insania o fanatismo.

Es más, ese tipo de censura tiene el poder de auto-reproducirse indefinidamente: si denuncias un hecho que no ha aparecido en los periódicos, te responden que tu denuncia no es fiable, porque no es confirmada por los periódicos. Lo tuyo es mera opinión; las páginas de noticias tienen el monopolio de los hechos. Y si aparece el hecho, sale escondido en un rincón de página e inmediatamente es expelido del centro de los debates. No entra en la memoria popular, no se integra en el “sentido común”, y cada vez que vuelves a alegarlo es puesto en duda una y otra vez. Al quedar atrapado en una red de objeciones circulares, acabas arrojando la toalla.

Es fácil, para descargo de conciencia, publicar una noticia pro forma, desviando de ella la atención de los lectores. Basta no darle continuidad, basta no explotar sus repercusiones y listo: queda lo dicho como no dicho y lo cierto como dudoso. En el periodismo, la insistencia lo es todo. Todo órgano de los medios de comunicación tiene el poder de ampliar o disminuir el espacio que una noticia ocupa en la memoria del público. De ahí que la muerte de tres centenares de terroristas en Afganistán resulte parecer mayor crueldad que la masacre de un millón de civiles tibetanos por las tropas chinas. De ahí que los preparativos de EUA para responder al ataque iraquí parezcan infinitamente más indignantes que la inminente invasión de Taiwan por China o la de Georgia por Rusia, ésta anunciada por el propio Putin pero suprimida de nuestros periódicos. De ahí que la hipótesis rocambolescamente inventiva de la ocupación de Amazonia por soldados americanos sea más temida que la presencia actual y comprobada de tropas de las Farc en la región.

Por ese mismo proceso de desvío de la atención, el vínculo de la izquierda con el narcotráfico desaparece de escena como si nunca hubiese existido. Entonces, naturalmente, la complicidad de un candidato presidencial brasileño con organizaciones terroristas, aunque haya sido consolidada mediante pacto firmado en el Foro de São Paulo, pasa por conjetura dudosa urdida en la cabeza de chiflados. La misma cruzada publicitaria que el ciudadano emprende en pro de la buena fama de las Farc es interpretada como signo de que él es inocente, y no, como debería ser obvio, de que está meramente prestándoles la solidaridad que les ha prometido, solidaridad que también le impedirá, si es elegido, cortar la línea de comercio criminoso que abastece a la guerrilla colombiana de armas, y de drogas al mercado nacional. La resolución número 9 del 7 de diciembre del 2001 del X Foro de São Paulo, realizado en La Habana, es muy explícita sobre ese punto. Tras condenar la represión de la guerrilla por parte del gobierno colombiano como “terrorismo de Estado” y como “verdadero plan de guerra contra el pueblo”, decide:

“9. Ratificar la legitimidad, justeza y necesidad de la lucha de las organizaciones colombianas y solidarizarnos con ellas.” Siguen las firmas de los representantes de 39 organizaciones, y entre ellas las Farc – y el PT. Si eso no es un pacto de solidaridad, ¿entonces qué demontre es?

Para colmo de ironía, el hecho de que ninguno de sus contrincantes le haya pedido explicaciones al respecto durante los debates electorales funciona como prueba de que las sospechas son infundadas. Pero también ahí lo que produce la falsa conclusión es la desaparición de la premisa básica. Pues casi nadie sabe que, de esos contrincantes, dos también estaban ligados al compromiso con las Farc, porque sus partidos son co-firmantes de la resolución antes citada. El tercero, más empeñado en probar su lealtad izquierdista que en ganar las elecciones, está psicológicamente imposibilitado para decir una palabra que pueda acarrear daño serio a la imagen de las izquierdas en general.

Ignorando esas cosas, el público no ve que las actuales elecciones, proclamadas por los hipócritas como “las más democráticas de toda nuestra historia”, son unas elecciones con un único partido: el partido del Foro de São Paulo.

Em 21 de outubro de 2002

Español

Protestos Fingidos

21 de novembro de 2007 | Diário do Comércio

Malgrado o fato público e notório de que a grande mídia nacional em peso favoreceu o candidato Lula em 2002 e 2006, e malgrado a leniência paternal com que continua tratando o sr. presidente em circunstâncias nas quais estaria clamando pelo impeachment de seus antecessores, ela nem sempre trombeteia com a esperada eloqüência a propaganda oficial das glórias petistas. Por mais arraigado que seja o seu esquerdismo em todas as questões do debate público e mais persistente o seu silêncio em torno das ligações Farc-PT; por mais obstinada que se mostre a sua recusa em denunciar a matança contínua de cristãos no Vietnã e de budistas no Tibete; por mais que ela insista em alardear os pretensos horrores de uma prisão americana onde nunca morreu um só prisioneiro e em atirar ao lixo os apelos desesperados dos presos políticos cubanos que vêem seus companheiros morrerem de torturas à base de um por semana; por mais que ela glorifique todos os dias meia dúzia de ídolos comunistas das letras e das artes, sem mencionar jamais seus equivalentes do outro lado sem sugerir que há algo de errado no cérebro deles, — é preciso reconhecer que alguma diferença, ao menos de tom, ainda resta entre ela e publicações histericamente comunistas como Caros Amigos , Carta Capital , A Hora do Povo e www.vermelho.org. Estas imitam abertamente os discursos de Fidel Castro, enquanto aquela ainda tem algum apego ao estilo frio e comedido do jornalismo clássico, o que implica ao menos um certo fingimento de neutralidade superior e, de vez em quando, umas palavrinhas em favor das liberdades constitucionais e da economia de mercado. Isso basta para que tipos como Emir Sader, Paulo Henrique Amorim e Luís Fernando Veríssimo denunciem o seu reacionarismo, rotulando-a golpista e direitista. A ênfase horrorizada com que pronunciam esta última palavra é a prova mais evidente de que na sua concepção da democracia não cabe oposição de direita, só de esquerda, e mesmo assim não muito perto do centro, que raia perigosamente o outro lado.

O que entendem por democracia é, com toda a evidência, o “centralismo democrático” leninista, o regime interno do Partido Comunista, ao qual servem com aquela inocência perversa, com aquela devoção cega e psicótica dos fanáticos que se ignoram.

Objetivamente, não pode haver a mínima dúvida de que a mídia nacional favorece a esquerda em tudo e pauta sua conduta por um sacrossanto horror a tudo o que possa ser ou parecer conservadorismo, palavra que ela só usa aliás como sinônimo de totalitarismo nazifascista ou, na mais branda das hipóteses, de militarismo latino-americano.

Diagnosticar a orientação ideológica do jornalismo não deveria ser uma questão de opinião, mas de empregar os métodos científicos de análise ideológica, de base estatística, consagrados há tempos nos cursos de comunicações, métodos que repentinamente parecem ter desaparecido da memória dos interessados em inverter o sentido óbvio dos dados existentes.

Pelo menos aqui nos EUA o uso desses métodos é considerado uma premissa básica em toda discussão pública quanto às preferências ideológicas da mídia, e quem quer que consentisse em ignorá-los em favor do mero achismo palpiteiro seria imediatamente jogado fora do debate como um charlatão desprezível. No Brasil, ao contrário, a mera hipótese de apelar à arbitragem estatística nessa questão parece ter-se tornado um tabu, dando aos Veríssimos e Amorins a chance de poder continuar negando o óbvio, sem medo e com uma cara de pau exemplar.

É claro que há uma diferença entre a orientação ideológica de fundo e o apoio concedido, ou sonegado, a cada ato concreto de um governo com se está ideologicamente de acordo. Os atuais acusadores esquerdistas da mídia sabem que estão mentindo quando fazem dessa simples diferença uma prova do direitismo da Globo ou da Folha de S. Paulo . Até por uma simples questão de técnica jornalística as expressões de concordância profunda não podem se estender a cada detalhe da política diária, sob pena de o jornalismo perder o restinho de credibilidade que ainda conserva na base da afetação de sobriedade. O que os protestos contra o alegado direitismo da mídia revelam é que mesmo esse último resíduo simbólico se tornou intolerável, que até mesmo o fingimento de objetividade jornalística deve ser extinto, que em breve a liberdade de imprensa será um privilégio exclusivo dos órgãos de mídia abertamente comunistas e petistas. A falsa alegação de direitismo é uma autêntica imposição de esquerdismo.

Em 21 de novembro de 2007

Noticias Omitidas

21 de março de 2004 | Zero Hora

As duas notícias mais importantes da semana foram omitidas, uma pela totalidade dos jornais brasileiros, outra pela quase totalidade. Primeira: a prova de que os atentados de Madri foram planejados para eleger os socialistas. Segunda: o pronunciamento — agora oficial — do Vaticano sobre o filme “A Paixão de Cristo”.

“O governo espanhol não agüentará mais dois golpes, três no máximo”, diz uma mensagem interna de Al-Qaida, escrita em dezembro e agora divulgada pela CNN: depois disso, prossegue o comunicado, “a vitória do Partido Socialista estará quase garantida, e com ela a retirada das tropas”.

A idéia de que os terroristas manipularam as eleições é, portanto, a simples expressão de um fato. Mas, no entender de muitos dos nossos jornalistas, talvez seja melhor o leitor brasileiro não saber disso.

Tanto mais que, segundo as últimas sondagens, publicadas no UOL, 56 por cento dos iraquianos (contra 18) acham que o país melhorou graças à invasão americana. Só quinze por cento querem a saída imediata das tropas, e 71 por cento (contra 6 por cento) acreditam que, com americanos e tudo, a vida no Iraque estará ainda melhor daqui a um ano. A campanha dos Kerrys e Zapateros contra a presença americana é, portanto, fundada apenas no ódio aos EUA e não em qualquer zelo sincero pelo bem do povo iraquiano.

Quanto à “Paixão de Cristo”, o Vaticano é taxativo: ali não há anti-semitismo nenhum, o filme segue fielmente o relato evangélico, atacá-lo é atacar o Evangelho, proibi-lo é proibir o Evangelho. Quem quiser doravante falar mal do trabalho de Mel Gibson deve fazê-lo em nome do anticristianismo explícito ou decretar-se, de uma vez, mais teólogo que o Papa.

Vi o filme. O único tipo grotesco e repugnante que aparece é Herodes, assassino de crianças judias. Caifás, o sumo-sacerdote que condena Cristo, é mostrado como juiz criterioso, embora de mentalidade estreita, que ralha contra acusações sem provas e só se enfurece quando o próprio acusado repete uma declaração que, tomada literalmente, parecia mesmo blasfematória. As mulheres judias choram e gritam de pena do condenado que os romanos espancam. E o único personagem que vem a ser chamado de “judeu” em tom depreciativo é Simão, o jovem corajoso que ajuda Cristo a carregar a cruz. Se isso é anti-semitismo, eu sou o Emir Sader em pessoa.

Não me espanta que o grosso da tagarelice anti-Gibson na mídia venha dos mesmos intelectuais iluminados que endossaram a farsa do “Massacre de Jenin” e compararam a cerca de Sharon ao Muro de Berlim. Para desviar as atenções do perigo real que eles próprios representam para Israel, esses crápulas tentam vender à comunidade judaica uma proteção fictícia contra o temibilíssimo Mel Gibson. Querem jogar os judeus contra a Igreja como os espanhóis foram jogados contra os EUA.

Circulou pela internet um protesto ridículo contra o que escrevi aqui sobre John Kerry. Alegação: nada daquilo pode ser verdade, porque se fosse teria chegado ao conhecimento da Casa Branca e seria usado contra o candidato democrata. Que estupidez! Os EUA não são o Brasil, onde o governo pode tudo nas eleições. As informações que dei circulam livremente em publicações importantes como WorldNetDaily (dois milhões de leitores por dia), e foram obtidas de comissões de inquérito do Congresso. Na verdade, Kerry é bem pior do que o descrevi. Se houver espaço, voltarei ao assunto.

Em 21 de março de 2004

Quem Pode Contra Isso

21 de junho de 2003 | O Globo

O rumo das coisas neste país é tão claro, tão evidente, que qualquer dificuldade de enxergá-lo só pode nascer de uma recusa oportunista ou de um pavor mórbido de admitir a realidade.

A ocupação total do espaço dos debates políticos pelos bate-bocas internos da esquerda é já um fato consumado. Consumado e, segundo parece, irreversível. Doravante, toda divergência profunda e geral, toda polêmica entre concepções opostas da sociedade, está excluída do cenário público. Restam as miudezas administrativas e fiscais, cuja discussão deixa intacto o unanimismo socialista, transfigurado em “quadro institucional”.

As demais correntes políticas, encolhendo-se em trejeitos de bajulação servil ou saltitando em volta da mesa para ciscar migalhas do banquete federal, reduziram-se a instrumentos auxiliares das facções esquerdistas em disputa.

Se, durante a campanha eleitoral, não tivessem ajudado o candidato petista a ocultar suas ligações com o Foro de São Paulo e as Farc, não estariam hoje nessa situação.

Mas queriam porque queriam sonhar que estavam vivendo na Suíça ou na Inglaterra, numa democracia de Primeiro Mundo, num jardim pós-comunista com instituições estáveis e imunes à tentação revolucionária. Assim, ajudaram o comunismo a fazer-se de morto para assaltar o coveiro.

Agora, é tarde para reagir. O totalitarismo camuflado e sorridente que nos domina já não tolera divergência senão interna. À primeira e comedidíssima tentativa de oposição frontal, o PFL já recebeu o choque pavloviano apto a dissuadi-lo de idênticas ousadias no futuro: acusado de lavagem de dinheiro, seu líder foi posto na constrangedora alternativa de perseverar na timidez suicida ou de mostrar-se mais valente na defesa da sua própria liberdade do que o foi na da liberdade alheia.

A investida contra ele é só mais um capítulo da novela que, conforme já anunciei aqui faz tempo, terminará com a prisão ou a marginalização completa de todos os líderes políticos não esquerdistas de maior destaque.

O uso da própria lei como instrumento de destruição da classe dominante é um requinte da estratégia revolucionária brasileira, que se preparou para isso mediante a meticulosa criação de regras fiscais e trabalhistas impossíveis de cumprir, que virtualmente criminalizam a atividade capitalista e colocam a classe empresarial de joelhos ante o governo, deixando-o agora livre para cortar cabeças ou aceitar que se curvem em preito de vassalagem.

Há mais de uma década venho escrevendo que a onda pseudomoralizante, encabeçada pelas esquerdas mas aplaudida com patética ingenuidade por quase toda a opinião pública nacional, é uma manobra insincera e astuta, um instrumento da estratégia destinada a substituir os políticos e líderes empresariais tradicionais por uma classe de revolucionários infinitamente mais ambiciosos, desonestos e perigosos do que milhares de “anões do orçamento” e juízes Lalaus.

O maquiavelismo perverso da operação revela-se na escala de prioridades no combate aos crimes. É uma escala invertida.

Não há males mais graves do que o morticínio generalizado, o narcotráfico, os seqüestros. É impossível investigar esses crimes em profundidade sem chegar às suas fontes: as Farc, o MIR chileno e, no topo, Fidel Castro e o Foro de São Paulo.

Ora, essas entidades e pessoas são intocáveis. As Farc são combatentes pela liberdade, o MIR é um grupo de idealistas angélicos, Fidel Castro é a voz de Deus na Terra, o Foro de São Paulo é um inocente círculo de debates acadêmicos.

Tal é o dogma oficial.

Logo, é preciso desviar as atenções para delitos menores e incruentos, dando a impressão de que o juiz Lalau é Fernandinho Beira-Mar, Bornhausen é Lucky Luciano e cada homem rico é um assassino de mulheres e crianças.

Aterrorizado ante a impossibilidade de conter o narcotráfico e a violência, o povão encontra alívio postiço na humilhação de ricaços de opereta, “poderosos” que não podem nada.

A manobra diversionista tem ainda a vantagem secundária de introduzir no aparente combate ao crime a subtonalidade implícita de luta de classes, preparando o povo para aplaudir, logo mais, a destruição geral e ostensiva da classe indesejável.

Para realizar a operação, os partidos de esquerda já tinham, antes do acesso ao poder, sua própria máquina investigativa, infiltrada em todos os escalões da administração e muito bem articulada com a classe jornalística, esta última ansiosa por superar sua condição subalterna de fornecedora de notícias e elevar-se ao papel de “agente de transformação social”.

Agora têm tudo isso e mais o aparato fiscal e policial do Estado.

Quem pode contra isso? Nunca, neste país, uma facção política reuniu em suas mãos um poder tão geral, tão incontrastável, tão avassalador, em face de oposições tão frágeis e desarmadas, reféns do consentimento provisório de um poder revolucionário ao qual não convém ainda declarar seu nome.

A esquerda brasileira é onipotente. Tão onipotente que pode se dar o luxo cíclico das automutilações revigorantes, rejeitando uma parte de si como “direitista” para que todo o país acompanhe a parte restante num movimento geral para a esquerda, cada vez mais para a esquerda.

A velha classe dominante está encurralada e paralisada, gastando suas últimas reservas de energia numa fútil encenação de tranqüilidade que só prova o seu medo de perceber que está com medo.

O medo emburrece. O medo não reconhecido emburrece duplamente. Parece que neste país os empresários já não entendem sequer o que acontece quando as indústrias passam a ter metas oficiais a cumprir e punições se falharem. É o fim da liberdade econômica, a total redução do empresariado a órgão auxiliar da administração estatal. Ainda não é o comunismo, mas já é o “socialismo alemão”, a economia nazifascista, que, deixando com os burgueses a posse nominal dos meios de produção, fazia da burguesia mesma uma propriedade do Estado.

Os Anos De Chumbo Sao Agora

21 de junho de 2002 | Junho de 2002

Leituras

Pt O Partido Dos Ricos

21 de janeiro de 2008 | Diário do Comércio

O PT não é um partido ladrão porque abandonou seus altos ideais e se corrompeu ao contato com a maldita direita. Para que a direita o corrompesse seria preciso que ela fosse mais corrupta do que ele, e é só comparar a lista de escândalos dos governos respectivos para ver que o próprio P. C. Farias teria muito a aprender com os Dirceus e Berzoinis. O PT é um partido ladrão porque é um partido revolucionário, filiado a uma tradição de amoralismo maquiavélico que pelo menos desde a Revolução Francesa, com intensidade crescente desde a Primeira Internacional de 1864 e mais ainda desde a fundação do Partido Socialdemocrata de Lênin, sempre achou que era de seu direito, e até da sua obrigação, financiar a si próprio por meio de assaltos, de seqüestros, de extorsões, de desvio de dinheiro público, bem como de uma infinidade de negócios capitalistas legais e ilegais, cujo volume total faria inveja a seus mais reacionários inimigos burgueses.

Estudem a vida de Lênin e confirmarão o que estou dizendo. O volume do capital que o financiava, sem contar a ajuda de governos estrangeiros, era tal que, se aplicado em atividades produtivas, teria feito dele uma espécie de J. P. Morgan – com o detalhe significativo de que as contribuições de J. P. Morgan engrossavam aquele capital junto com o dinheiro dos assaltos comandados por Stálin. Revoluções custam caro. O revolucionário Parvus, que enriqueceu com mil e um negócios na Turquia, já ensinava em 1914: “A melhor maneira de derrubar o capitalismo é nós mesmos nos tornarmos capitalistas.” Não foi o Lulinha quem descobriu essa fórmula. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht riram dela e acabaram derrotados. Lênin, o vitorioso, ouviu-a com reverência e gratidão da boca de seu gerente financeiro na Suíça, Jacob Hanecki, a quem depois da Revolução premiaria com o cargo de Comissário do Povo para as Finanças. Leiam Lenin in Zurich , de Alexander Solzhenitsyn (London, Farrar, Straus & Giroux, 1975). A revolução socialista consiste na simples transfiguração de uma elite ativista proprietária de boa parte do capital em senhora absoluta de todo o capital. Sempre foi assim, e com a esquerda nacional não é diferente. O mensalão não foi um pecado temporão cometido por almas santas no último minuto antes da ascensão aos céus. Foi a execução lenta e metódica de planos traçados desde o começo da década de 90 — contemporâneos à criação do Foro de São Paulo –, já denunciados então por César Benjamin, algo como uma versão “los macaquitos” de Karl Liebknecht, à qual, como a este último, a História e o distinto público deixaram falando sozinha.

Tomem, por exemplo, a forma mais simples e bruta do capital – a posse da terra – e façam a conta de tudo o que a militância organizada, com o auxílio deste governo e dos anteriores, vem amealhando ao longo dos últimos anos. Somem a extensão das propriedades do MST com as reservas indígenas, com os quilombos (ou ditos tais) em vias de desapropriação, com os imóveis estatais e privados já transferidos a ONGs ativistas, com as áreas sob domínio das Farc diretamente ou através de seus prepostos locais – e verão que nunca houve, neste país, um patrimônio imobiliário comparável. Nem incluo aí o patrimônio financeiro – as verbas estatais que jorram sobre as organizações esquerdistas, as participações acionárias em mil e uma empresas, as contribuições internacionais impossíveis de calcular e, last not least , os lucros do narcotráfico. Os ricos não serão destruídos pelos pobres. Serão destruídos pelos mais ricos.

No fundo, o cinismo lulista é até mais respeitável do que o moralismo posado de seus críticos de esquerda, postiço até o desespero, macaqueação tardia do mesmo discurso enganoso que levou o PT às supremas glórias eleitorais. O que o antilulismo de esquerda nos promete, na hipótese viabilíssima de sua ascensão ao poder, são prodígios de ladroagem que farão Dirceu e Berzoini parecerem São Cosme e São Damião. No ato mesmo em que explicam a corrupção petista como traição aos ideais revolucionários, os santarrões do PSOL e do PSTU se desmascaram a si próprios com uma eloqüência quase sublime: Quem pode acreditar em patifes que prometem fazer a revolução marxista sem descumprir em nada os ditames da moral burguesa?

Ademais, por que alardeiam suas denúncias na Rede Globo, na Folha , no Estadão – naquela mesma mídia a que chamam reacionária e imperialista – antes de haver sequer tentado discuti-las discretamente no Foro de São Paulo, a instância máxima do esquerdismo continental? Roupa suja se lava em casa, e quando alguém o faz em público antes de haver nem mesmo tocado no assunto em família, é porque está tramando alguma. Imaginem um soi disant dissidente soviético que, nos anos 60, saísse berrando contra o comunismo na Voz da América ou Rádio Europa Livre, ao mesmo tempo que conservasse seu cargo e suas boas relações no Politburo ou na KGB. É exatamente a mesma coisa. Se a esquerda está dividida entre os corruptos e os honestos, a divisão deveria aparecer primeiro nos seus debates internos – só depois ante os inimigos, se chegasse a tanto. O inverso é prova clara de que se trata de pura encenação, de que por trás a família continua unida e coesa, tramando para ludibriar uma vez mais a multidão dos trouxas. Não há cisão na esquerda: há apenas uma natural divisão de trabalho – uns amealham dinheiro e poder à custa de enfeiar a imagem do esquerdismo, outros embelezam a imagem consentindo devotadamente em adiar o recebimento da sua quota de dinheiro e poder. Sempre foi assim. O movimento revolucionário limpa-se na sua própria sujeira, engorda alimentando-se do seu próprio cocô.

O hábito de salvar o prestígio do esquerdismo no ato mesmo de denunciar os seus crimes já está tão arraigado nas rotinas mentais da classe falante, que aparece até mesmo nos lugares que se julgariam, à primeira vista, os mais inusitados. Falando dos reféns em poder da narcoguerrilha colombiana, escreve a Veja desta semana – sim, Veja , nominalmente o spalla da orquestra antipetista:

“A organização que mantém cerca de oitocentas pessoas em seu poder, conhecida pela sigla Farc, não é formada por guerrilheiros marxistas , como repete a denominação usual (grifo meu). Nem Marx endossaria as barbáries cometidas pelas Farc, que se originaram numa querra civil ocorrida na Colômbia e depois tiveram inspiração esquerdista, mas há muito tempo degeneraram em uma espécie de seita de fanáticos que vive à custa do tráfico de cocaína.”

Desde logo, é falso que Marx não endossaria essas violências e outras piores, de vez que contemplava como exigência normal e desejável do processo revolucionário a extinção sumária de povos inteiros. Em segundo lugar, o narcotráfico das Farc é mixaria perto do que foi feito na China por Mao Dzedong, a quem ninguém jamais acusou de ser infiel às tradições marxistas. Em terceiro lugar, o comércio latino-americano de drogas foi na sua parte mais substantiva uma criação da KGB, que se empenhou nisso desde os anos 50 (v. o depoimento do general tcheco Jan Sejna – um participante direto da operação – em Christopher Story , Red Cocaine.

The Drugging of America and the West , London, Edward Harle, 2nd. Ed., 1999). Devemos crer que o governo soviético, Mao Dzedong e o próprio Marx não representam o autêntico espírito do marxismo, cujo único porta-voz autorizado é o redator de Veja ? Este aliás se trai miseravelmente ao dizer que, de esquerdistas genuínos, os militantes das Farc se trasnformaram numa “seita de fanáticos”. Se dissesse que se transformaram em aproveitadores sem fé nenhuma, talvez enganasse melhor. Mas “fanáticos”? Fanáticos do quê? Do espiritismo? Do vegetarianismo? Da Seicho-No-Iê? Fanáticos jogadores de futebol-de-botão? Fanáticos admiradores da Ana Paula Arósio? Fanáticos, por definição, acreditam em alguma coisa, e em que acreditam os homens das Farc, senão no bom e velho marxismo de sempre? Fanáticos marxistas, sim, é o que são, ontem como hoje. Se não o fossem, não seriam aceitos e celebrados como representantes fidedignos do marxismo no templo mesmo da revolução comunista, o Foro de São Paulo. Ou será que Veja tem mais autoridade do que o Foro de São Paulo para julgar a ortodoxia comunista dos outros?

Mais abusadamente ainda, Marcelo Otávio Dantas, no artigo “ Messianismo e o credo petista ” ( Folha de S. Paulo ), querendo contrastar o PT corrupto de hoje com o PT puríssimo de outrora, diz que a mentalidade do partido “converteu-se, assim, em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante, especializada em justificar o injustificável”. Como se os traços da heresia de Sabbatai Zevi já não estivessem no próprio sangue do movimento revolucionário desde sempre e como se a marca distintiva do PT não tivesse sido, desde a origem, o culto do pecado redentor assumido até mais explicitamente que o dos outros partidos de esquerda então existentes. Nascido de uma aliança entre os comunistas e a esquerda católica, o PT veio imbuído do projeto gramsciano de subverter a Igreja por dentro, esvaziando-a de seu conteúdo espiritual e fazendo dela o instrumento dócil do que pode haver de mais anticristão no mundo, a revolução comunista. Se isso não é uma forma extrema de heresia messiânica, não sei em que outra classificação possa caber. O discurso untuosamente moralista do PT nunca teve nada de sincero, foi sempre, entre os líderes, uma parasitagem maquiavélica do prestígio da Igreja para fins de propaganda e, na arraia miúda dos militantes, uma forma patológica de auto-engano lisonjeiro. Perto disso, o mensalão é apenas um pecadinho de fim de semana. A corrupção financeira do PT não é senão a exteriorização tardia – e mais vistosa, para a mentalidade dinheirista – da podridão interior sem fim que inspirou a criação do partido-seita.

Em 21 de janeiro de 2008

O Futuro Da Direita

21 de fevereiro de 2008 | Jornal do Brasil

A Playboy deste mês publica uma entrevista reveladora com alguns líderes emergentes do chamado “liberalismo” brasileiro, filhos de velhos caciques regionais falecidos, aposentados ou desativados. Reveladora, digo eu, porque ilustra com clareza didática algumas obviedades que tenho publicado nesta coluna, mas que os bem-pensantes insistem em não querer admitir, como outrora se recusavam a admitir a existência do Foro de São Paulo.

A mais flagrante delas é que não existe direita politicamente relevante no Brasil. Os entrevistados não só rejeitam a denominação de direitistas – o que já é bastante significativo, tendo em vista o orgulho com que os esquerdistas se assumem como tais –, mas subscrevem no fim das contas todo o programa sociocultural da esquerda, com a única diferença de que desejariam realizá-lo pelo livre mercado em vez da ação estatal direta.

Que isso constitua mesmo uma diferença, é altamente duvidoso. Do ponto de vista econômico, a disputa entre liberais e socialistas no mundo vai-se tornando cada vez mais adjetiva: nenhum político é louco o bastante para advogar em público a supressão do Estado previdenciário, nem idiota o suficiente para continuar acreditando na eliminação total da propriedade privada. A guerra entre os sistemas tornou-se uma tênue oscilação para lá e para cá de um confortável meio-termo. A direita quer o capitalismo sob a proteção do governo-babá, a esquerda quer o socialismo vitaminado pela força do livre mercado. É a tese de Paul Edward Gottfried em After Liberalism : Mass Democracy in the Managerial State (Princeton University Press, 2001): junto com o socialismo real morreu também o liberalismo ideal. A vitória da “revolução dos gerentes” matou os dois, inaugurando a era da democracia de massas, o que é o mesmo que dizer: o império universal da burocracia.

Com isso, o foco da disputa efetiva transferiu-se para um domínio mais sutil — e infinitamente mais decisivo para o futuro da humanidade: o sonho do espírito revolucionário já não é o controle estatal da economia, mas o controle estatal da vida privada, da mentalidade popular, dos usos e costumes, da imaginação e dos sentimentos. É promover a ruptura total com as tradições históricas e operar enfim a longamente ambicionada mutação radical da natureza humana. Décadas atrás os melhores cérebros da esquerda – Lukács, Gramsci, os frankfurtianos – já haviam concluído que nesse campo, e não na economia, seria travada a batalha decisiva. Mas a idéia era prematura quando a lançaram. O advento da “democracia de massas” vem dar-lhe uma atualidade explosiva, preparando o terreno para a revolução cultural globalizada.

No novo contexto, o dever máximo ou único de uma direita historicamente consciente é defender os princípios e valores civilizacionais milenares, resistindo à ambição insana de planejadores sociais para os quais a espécie humana não passa de matéria-prima para experimentos que variam entre o irresponsável e o macabro.

Mas muito provavelmente essa resistência será em breve criminalizada como extremismo de direita, e, se não lutar como um exército de leões, desaparecerá do cenário político decente. Só sobrará lugar para a “direita bossa nova”, como a chama a Playboy – a direita que cede tudo em troca de um pouco de capitalismo.

A economia de mercado deve, sim, ser defendida, porque só nela os princípios e valores hoje ameaçados podem subsistir. Mas abdicar deles em troca da economia de mercado pura e simples, fazendo dela a única finalidade em vez de um meio entre outros, é servir duplamente ao esquerdismo, entregando-lhe de mão-beijada o que ele mais almeja conquistar e ainda criando uma camuflagem “capitalista” para dar aparência inofensiva à mais temível mutação revolucionária de todos os tempos.

Em 21 de fevereiro de 2008

Poligamia Na Gra Bretanha

21 de fevereiro de 2008 | Diário do Comércio

Quando o arcebispo de Canterbury declarou dias atrás que as leis britânicas teriam de assimilar algumas regras do direito islâmico mais cedo ou mais tarde, talvez nem mesmo ele imaginasse que sua sugestão já estava se materializando naquele mesmo instante, e da maneira mais revolucionária possível: destruindo de repente a instituição do casamento civil e religioso e legalizando a poligamia.

A mudança não foi feita às claras, nem precedida de qualquer debate no Parlamento ou na mídia. Se o fosse, teria sido rejeitada maciçamente. Em vez disso, foi introduzida subrepticiamente por uma obscura comissão técnica – é esse o procedimento legislativo mais usado hoje em dia – mediante uma simples mudança no regulamento da previdência, sem que o povo sequer se desse conta da revolução sociocultural que se tramava às suas costas. Segundo noticia a National Review desta semana, os maridos britânicos polígamos terão doravante o direito a uma pensão estatal para cada uma de suas esposas – e o dinheiro não irá nem para elas: será depositado diretamente na conta deles! A lei não fará distinção entre os casamentos poligâmicos celebrados no Exterior e nas mesquitas do Reino Unido: valerão uns como os outros.

Na prática, isso significa não somente a legalização da poligamia, mas um formidável incentivo estatal à sua expansão, portanto à conversão em massa dos súditos de Sua Majestade ao islamismo.

Não é preciso dizer que isso trará como conseqüência a destruição total do que ainda possa restar da cultura britânica tradicional, depois de todas as transformações devastadoras descritas por Peter Hitchens em The Abolition of Britain: From Winston Churchill to Princess Diana (San Francisco, Encounter Books, 2000) e mais assustadoramente ainda por Melanie Phillips em Londonistan: How Britain is Creating a Terror State Within (Encounter Books, 2006; vídeo da autora em conferência na Heritage Foundation, http://www.heritage.org/Press/Events/ev051006a.cfm ; mais informações em http://www.melaniephillips.com ).

Também não é preciso dizer que as políticas de “apaziguamento” e “multiculturalismo” que produziram esse estado de coisas não são promovidas só pela esquerda, mas pelas correntes “liberais” que abdicam de todos os valores religiosos e culturais para concentrar-se na pura defesa do livre mercado, como se a economia fosse tudo. Já expliquei mil vezes que um liberalismo infectado de ateísmo e cientificismo militantes não é uma alternativa cultural viável: serve apenas para criar um vazio que é preenchido imediatamente, seja pela mitologia revolucionária da esquerda, seja pelo islamismo.

Mas não é de todo inútil ressaltar algo que a mídia mundial ignora por completo: que o poder da comunidade islâmica na Grã-Bretanha, desproporcional com o número de seus membros, não adveio da pura imigração, nem da propaganda ostensiva, mas, muito antes disso, veio da influência direta exercida por organizações esotéricas islâmicas sobre membros da família real e sobre parcelas importantes da elite intelectual britânica. Essas organizações, as “taríqas” (o plurál árabe é “turuq”, mas achei melhor adaptar o termo para a flexão portuguesa) dispõem de conhecimentos sobre as correntes profundas da História, que em geral os analistas políticos ocidentais não podem nem mesmo imaginar, e que transcendem, em precisão e sutileza, a estratégia revolucionária de Antonio Gramsci. Elas não têm grande dificuldade para transmutar em islamização maciça o que começou como “revolução cultural”. E é precisamente o que está acontecendo na Grã-Bretanha. Tempos atrás escrevi que a questão mais decisiva para as décadas vindouras era saber se quem sairia ganhando com a destruição das tradições ocidentais seria o movimento revolucionário ou o Islam. O Islam parece que está ganhando.

Em 21 de fevereiro de 2008

O Estado Covarde

21 de fevereiro de 2006 | Diário do Comércio

Uma coisa espantosa no Brasil de hoje é a candura, a inocência pueril ou mongolóide com que, num país onde ocorrem 50 mil homicídios por ano, as pessoas se acomodam à violência como uma fatalidade inevitável , dizendo de si para si que aquilo que não tem remédio remediado está, e saem buscando soluções para outros problemas em volta.

Digo cinqüenta mil porque é a estatística oficial da ONU. Segundo o repórter espanhol Luís Mir são 150 mil. Mas, se fossem cinqüenta mil, já seria o equivalente a três guerras do Iraque por ano, em tempo de paz.

Quem pode fazer a economia render, ampliar o mercado de empregos, aumentar a produção de bens, melhorar a distribuição, numa sociedade onde ninguém tem o mínimo de segurança física para saber se vai voltar vivo do trabalho? Quem pode pensar em educação, saúde, habitação, vestuário, se está sob ameaça de morte 24 horas por dia?

Isso é tudo ilusão, besteira, desconversa. Sem segurança não há progresso, educação, saúde, nem coisa nenhuma. Todo mundo sabe disto e faz de conta que não sabe. Faz de conta porque tem medo de enfrentar o problema fundamental, e então sai brincando de resolver os problemas periféricos só para dar “a si mesmo ou à platéia” a impressão de que está fazendo alguma coisa.

A taxa anual de homicídios no Brasil significa, pura e simplesmente, que não há ordem pública, não há lei nem direito, não há Estado, não há administração, há apenas um esquema estatal de dar emprego para vagabundos, sanguessugas, farsantes. O Estado brasileiro é uma instituição de auto-ajuda dos incapazes. E você, brasileiro, paga. Paga a pantomima toda. Paga para o sr. Gilberto Gil fazer de conta que é culto, paga para o sr. Nelson Jobim fazer de conta que é honesto, até para o sr. Lula da Silva fazer de conta que preside alguma coisa.

O Brasil, na verdade, só tem dois problemas: a insegurança geral e a inépcia da classe dirigente. O primeiro não deixa ninguém viver e o segundo anestesia a galera para que não ligue e trate de pensar em outra coisa.

Desaparecidos esses dois problemas, a sociedade encontraria sozinha as soluções dos demais, sem precisar da ajuda de governo nenhum. A sociedade pode perfeitamente criar e distribuir riqueza, dar educação às crianças, encontrar meios de que todos tenham uma renda decente, moradia, saúde, assistência na velhice.

O que a sociedade não pode é garantir a ordem pública pela força das armas e educar os governantes para que governem. Isso tem de vir do Estado. Mas o Estado, justamente para não ter de fazer o que lhe compete, prefere se meter em todo o mais. É o Estado educador, o Estado médico, o Estado assistente social, o Estado onissapiente. Só não é o Estado-Estado. Só não é o que tem de ser.

É o Estado que tem cada vez mais poder sobre os cidadãos e menos poder contra os inimigos do cidadão. É o Estado santarrão, pomposo, grandiloqüente e covarde.

Em 21 de fevereiro de 2006

A Demolicao Das Consciencias

21 de dezembro de 2009 | Diário do Comércio

Quem tenha compreendido bem meu artigo “Armas da Liberdade”, deve ter percebido também a conclusão implícita a que ele conduz incontornavelmente: boa parte do esforço moralizante despendido pela “direita religiosa” para sanear uma sociedade corrupta é inútil, já que termina sendo facilmente absorvida pela máquina da “dissonância cognitiva” e usada como instrumento de perdição geral.

Notem bem: moralidade não é uma lista de condutas louváveis e condenáveis, pronta para que o cidadão a obedeça com o automatismo de um rato de Pavlov.

Moralidade é consciência, é discernimento pessoal, é busca de uma meta de perfeição que só aos poucos vai se esclarecendo e encontrando seus meios de realização entre as contradições e ambigüidades da vida.

Sto. Tomás de Aquino já ensinava que o problema maior da existência moral não é conhecer a regra geral abstrata, mas fazer a ponte entre a unidade da regra e a variedade inesgotável das situações concretas, onde freqüentemente somos espremidos entre deveres contraditórios ou nos vemos perdidos na distância entre intenções, meios e resultados.

Lutero — para não dizerem que puxo a brasa para a sardinha católica — insistia em que “esta vida não é a devoção, mas a luta pela conquista da devoção”.

E o santo Padre Pio de Pietrelcina: “É melhor afastar-se do mundo pouco a pouco, em vez de tudo de uma vez”.

A grande literatura — a começar pela Bíblia — está repleta de exemplos de conflitos morais angustiantes, mostrando que o caminho do bem só é uma linha reta desde o ponto de vista divino, que tudo abrange num olhar simultâneo. Para nós, que vivemos no tempo e na História, tudo é hesitação, lusco-fusco, tentativa e erro. Só aos poucos, orientada pela graça divina, a luz da experiência vai dissipando a névoa das aparências.

Consciência — especialmente consciência moral — não é um objeto, uma coisa que você possua. É um esforço permanente de integração, a busca da unidade para além e por cima do caos imediato. É unificação do diverso, é resolução de contradições.

Os códigos de conduta consagrados pela sociedade, transmitidos pela educação e pela cultura, não são jamais a solução do problema moral: são quadros de referência, muito amplos e genéricos, que dão apoio à consciência no seu esforço de unificação da conduta individual. Estão para a consciência de cada um como o desenho do edifício está para o trabalho do construtor: dizem por alto qual deve ser a forma final da obra, não como a construção deve ser empreendida em cada uma das suas etapas.

Quando os códigos são vários e contraditórios, é a própria forma final que se torna incongruente e irreconhecível, desgastando as almas em esforços vãos que as levarão a enroscar-se em problemas cada vez mais insolúveis e, em grande número de casos, a desistir de todo esforço moral sério. Muito do relativismo e da amoralidade reinantes não são propriamente crenças ou ideologias: são doenças da alma, adquiridas por esgotamento da inteligência moral.

Em tais circunstâncias, lutar por este ou aquele princípio moral em particular, sem ter em conta que, na mistura reinante, todos os princípios são bons como combustíveis para manter em funcionamento a engenharia da dissonância cognitiva, pode ser de uma ingenuidade catastrófica. O que é preciso denunciar não é este ou aquele pecado em particular, esta ou aquela forma de imoralidade específica: é o quadro inteiro de uma cultura montada para destruir, na base, a possibilidade mesma da consciência moral. O caso de Tiger Woods, que citei no artigo, é um entre milhares. Escândalos de adultério espoucam a toda hora na mesma mídia que advoga o abortismo, o sexo livre e o gayzismo. A contradição é tão óbvia e constante que nenhum aglomerado de curiosas coincidências poderia jamais explicá-la. Ela é uma opção política, a demolição planejada do discernimento moral. Muitas pessoas que se escandalizam com imoralidades específicas não percebem nem mesmo de longe a indústria do escândalo geral e permanente, em que as denúncias de imoralidade se integram utilmente como engrenagens na linha de produção. Ou a luta contra o mal começa pela luta contra a confusão, ou só acaba contribuindo para a confusão entre o bem e o mal.

Em 21 de dezembro de 2009

Lenin E O Nosso Lenin

21 de dezembro de 2006 | Jornal do Brasil

Convidado a definir sua posição ideológica, o sr. presidente já deu três respostas: (1) É de esquerda. (2) Nunca foi de esquerda. (3) Foi de esquerda mas já não é mais.

As três juntas exemplificam didaticamente algo que há anos venho tentando em vão explicar à Zé-Lite. Quando lhes digo que Lula é comunista, que Marco Aurélio Garcia é comunista, ou até que Hugo Chávez é comunista, essas cândidas criaturas me respondem: “Mas será mesmo que eles ainda acreditam nisso?” O pressuposto da pergunta é que a filiação ideológica é uma crença subjetiva, mais ou menos de tipo religioso, que para funcionar tem de ser sincera.

Ora, as idéias, as crenças íntimas, só são determinantes do comportamento no caso dos homens intelectualmente diferenciados, capazes de dirigir seus atos desde o centro da sua consciência. Indivíduos mentalmente passivos, fragmentários, não agem desde si próprios, mas desde a estimulação ambiente, desde as pressões e seduções que recebem do seu grupo de referência. Um velho ditado francês ensina: “Quer mudar as opiniões do homem medíocre? Mude-o de lugar.”

Daí esta precaução de método: para saber a filiação ideológica de qualquer político brasileiro, não pergunte em que ele crê, mas com quem ele anda, a quais pressões e injunções ele é sensível, em quais esquemas de ação coletiva está metido.

Os grupos de referência de Lula são dois: a esquerda continental e a alta burguesia com a qual ele passou a conviver depois de eleito presidente. Seus compromissos com o primeiro são antigos, públicos e notórios. Com o segundo, são recentes e discretos: qualquer demonstração de afeto mais ostensiva, e lá vem paulada da esquerda inteira.

A diferença essencial é que, desses dois grupos, só o primeiro tem um projeto estratégico abrangente. A burguesia — mesmo a internacional – contenta-se com afagos a seus interesses financeiros imediatos, apostando, por puro wishful thinking , que a economia acabará ditando os rumos da política. A posição geográfica de Lula na intersecção desses dois grupos define a sua orientação ideológica: satisfazer as exigências econômicas imediatas da burguesia ao mesmo tempo que vai fortalecendo o esquema estratégico esquerdista de longo prazo. Mantém o capitalismo funcionando para alimentar com ele a máquina do poder esquerdista que acabará por dominar o espaço político inteiro. Todo mundo sai contente, sem pensar no amanhã sinistro que está sendo gerado com isso.

Os burgueses querem apenas dinheiro, os revolucionários querem o poder absoluto, a posse integral dos meios de matar. A história provou que é possível satisfazer a ambos. Mas o primeiro a descobrir isso e a usá-lo como arma estratégica foi Lênin. Ele sabia que no fim das contas, o dinheiro é nada, o poder de matar é tudo. Por isso conseguiu implantar a ditadura comunista na Rússia ao mesmo tempo que persuadia os investidores estrangeiros de que não era comunista de maneira alguma. Lula não é Lênin: apenas repete por automatismo, em resposta às pressões do meio, o jogo de ambigüidades que Lênin inventou. Quando Marx disse que a história se repete como farsa, não sabia que estava falando da história do socialismo.

Em 21 de dezembro de 2006

Apostando Contra O Tempo

21 de agosto de 2009 | Diário do Comércio

Quando comecei a alertar os leitores quanto ao Foro de São Paulo, mais de uma década atrás, ainda era possível fazer alguma coisa para deter, sem muitas dores ou traumas, o crescimento do monstro. Agora, que ele tem o apoio do governo americano e transformou a OEA em instrumento de suas ambições ilimitadas, só atos de bravura incomum, sustentados numa visão estratégica implacavelmente lúcida, podem livrar a América Latina do risco iminente – ou promessa segura – de uma ditadura socialista continental. Mas será concebível que duas décadas de adestramento contínuo na prática da covardia e da alienação produzam de repente uma explosão de coragem e lucidez?

Sei que, medido na escala mental da elite brasileira, o problema, ainda hoje, parece nem existir. Basta ler as palavras entusiásticas com que o presidente da Confederação Nacional da Indústria, deputado Armando Monteiro Neto, saudou o presidente da República ao homenageá-lo com o Grande Colar da Ordem do Mérito, conferido por aquela entidade:

“A abertura ao diálogo marcou sua história e, no presente, se consolidou como característica de seu governo... Com uma agenda de preservação dos fundamentos macroeconômicos e de inovação social, o Brasil se diferenciou. Ganhou confiança interna e transformou-se em exemplo para a América Latina e o mundo” (V.

http://pt.org.br/portalpt/index.php?option=com_content&task=view&id=80330&Itemid=195 ).

Não digo que a “preservação dos fundamentos macroeconômicos” tenha sido de todo irreal. Digo, sim, que julgar só por ela o desempenho de um presidente, ignorando que a política econômica do presente governo se enquadra na estratégia maior de dominação continental do Foro de São Paulo, é coisa de um oportunismo imediatista imperdoável, voluntariamente cego para as conseqüências históricas de suas opções de momento.

Já expliquei e vou explicar de novo, com requintes de didatismo que normalmente só seriam necessários no ensino pré-escolar:

O Brasil foi o criador e é o centro de comando do Foro de São Paulo; como tal, fica na retaguarda, orientando e protegendo as vanguardas incumbidas das ações táticas mais imediatas, espetaculosas e arriscadas.

Acalmar e até contentar o empresariado local é a condição sine qua non para que o governo petista possa, sem risco de crises e hostilidades, ir fortalecendo discretamente a máquina de guerra do Foro de São Paulo, já hoje habilitada a ocupar manu militari o continente inteiro, só não o fazendo para não correr o risco de abortar um processo que, pelas vias mais indiretas da política, da subversão cultural e do fomento ao banditismo, se anuncia de sucesso praticamente inevitável.

Afinal, o governo que “preserva os fundamentos macroeconômicos” é o mesmo que acoberta a ação das Farc no Brasil, aplaude todos os arreganhos militaristas de Hugo Chávez, abre o nosso território à ocupação por organismos internacionais e sacrifica até os mais óbvios direitos da nação para favorecer o crescimento dos governos de esquerda nos países em torno. Quando um presidente explode de indignação e chega a desferir palavrões contra um de seus próprios ministros pelo simples fato de que este cedeu à tentação de defender os interesses nacionais em vez de sacrificá-los à cobiça estrangeira (v.

http://congressoemfoco.ig.com.br/coluna.asp?cod_canal=14&cod_publicacao=29210 ), é óbvio que algo de muito estranho, para não dizer de abertamente criminoso, se passa nas altas esferas da República, transformadas em agentes locais de um esquema internacional de dominação.

Ajudando a consolidar o poder e prestígio desse governo, por simples gratidão a pequenas vantagens momentâneas que ele lhe oferece, a Confederação Nacional da Indústria contribui, involuntariamente decerto, para que em breve tempo o Brasil se transforme numa singularidade geopolítica jamais vista no mundo: uma nação capitalista cercada de regimes comunistas e governada pelo próprio agente que os criou. Quanto tempo durará esse capitalismo quando o processo da revolução continental em torno estiver completado, é pergunta inteiramente desnecessária: ele durará o tempo exato para que cada empresário escolha entre submeter-se a um comissário político ou transformar-se ele próprio em comissário político.

Em tempo: Kenneth Maxwell, aquele mesmo consultor do CFR segundo o qual o Foro de São Paulo não existe (v.

www.olavodecarvalho.org/semana/11232002globo.htm ), aparece agora na Folha (onde mais poderia ser?) jurando que “os latino-americanos são unânimes em seu apoio a Manuel Zelaya, o presidente hondurenho derrubado”.

Fugindo A Luta

21 de agosto de 2008 | Diário do Comércio

Com raras, honrosas e inevitáveis exceções, a única reação que os liberais e conservadores neste país têm oferecido à ascensão irrefreável da esquerda consiste em apologias da economia de mercado, eruditamente explicada como superior à política estatista ou socialista. Por santas que sejam as suas intenções, e por mais acertados os argumentos que emprega, essa forma de luta é absolutamente inócua. Os esquerdistas riem dela. Riem mais ainda quando ela usa como embalagem uma retórica “progressista”, calcada no slogan idiota de que o socialismo é coisa do passado. Coisa do passado é imaginar que a estatização da economia constitui o objetivo primordial do esquerdismo e que combatê-la é a coisa mais urgente a fazer em defesa da democracia capitalista. Essa concepção do socialismo correspondia à realidade dos anos 30 e 40, quando nações inteiras foram repentinamente submetidas ao sistema de economia centralizada, não somente por iniciativa dos comunistas mas também dos fascistas e nazistas. Tudo o que era preciso dizer contra essa tendência foi então dito por Friedrich von Hayek e Ludwig von Mises. Repetir os argumentos desses dois grandes economistas em 2008 é combater um inimigo que não existe mais, fechando os olhos para o avanço daquele que existe. Quando um liberal chama os comunistas de “dinossauros”, ou proclama, como a última edição de “Veja”, que eles ainda vivem no tempo dos tílburis, ele está projetando sobre eles o anacronismo da sua própria visão do comunismo.

Karl Marx ensinava que a estatização da economia deveria ser um processo lento e gradual, prolongando-se por décadas ou séculos e realizando-se por etapas anestésicas e não traumáticas, como o imposto de renda escalar e a supressão progressiva do direito de herança por meio da taxação crescente. Acreditando que o socialismo surgiria de dentro do próprio capitalismo tão logo este fosse levado às suas últimas possibilidades de desenvolvimento, ele entendia, logicamente, que a supressão forçada e repentina do livre mercado traria a paralisação geral da economia e a extinção do próprio socialismo.

Essa lição foi esquecida tanto na URSS quanto na China, daí resultando que, mesmo antes do fracasso desses dois regimes, muitas críticas à economia de um e de outro já circulavam dentro do próprio campo socialista, não raro associadas à condenação dos aspectos mais brutais do totalitarismo, que, segundo esses críticos, uma política ortodoxamente marxista teria podido evitar (ilusão, é claro: Marx nunca ocultou que mesmo sua idéia da socialização progressiva só poderia ser implantada mediante a liquidação sistemática “de povos inteiros”).

A autodissolução da URSS e a abertura da China ao capital estrangeiro, longe de constituirem uma vitória pura e simples das democracias capitalistas, resultaram de um upgrade autocrítico do movimento comunista, que, na boa tradição de Lênin, deu mais uma vez “um passo para trás para dar dois para a frente”, só que agora um passo gigantesco, de dimensões mundiais.

Longe de se desmantelar como previam os triunfalistas liberais, o movimento comunista se reorganizou rapidamente, trocando a velha hierarquia de tipo militar por uma estrutura flexível na forma de “redes” e em poucos anos redobrou sua força, dominando praticamente toda a grande mídia ocidental e fazendo dela um instrumento dócil da guerra cultural e do anti-americanismo militante. Vendo-se acossado por um inimigo que ele próprio declarava morto, o governo de Washington respondeu com um subterfúgio verbal tão estúpido quanto ineficaz, declarando que o único inimigo era agora o “radicalismo islâmico” e recusando-se a enxergar a ação russa e chinesa por trás da agitação frenética das multidões de fanáticos muçulmanos. O resultado foi que os EUA perderam sua mais próxima área de influência no mundo, a América Latina, hoje dominada por partidos frontalmente anti-americanos e em vias de transformar-se numa gigantesca versão cucaracha da velha URSS.

Na mesma onda de mudanças estratégicas, o movimento comunista abdicou do estatismo radical, reconhecendo que uma quota aliás bem grande de livre mercado é indispensável à sobrevivência dos regimes socialistas, mesmo os mais autoritários.

A essa altura, a pura defesa da economia de mercado, sobretudo se acompanhada de desprezo economicista pela guerra cultural e pela formação de uma militância conservadora adestrada no estudo da estratégia marxista, é um anacronismo completo, uma forma de alienação que só pode levar às mais devastadoras conseqüências.

Na verdade, se tantos políticos e intelectuais liberais se apegam a essa atitude autocastradora, é não só porque sua mentalidade empresarial se sente mais à vontade no front econômico do que no político ou cultural, mas porque sabem instintivamente que a luta aí desenvolvida suscita respostas menos ferozes da esquerda do que ataques desferidos em pontos mais vitais do esquerdismo. Não por coincidência, essa opção pela fuga sistemática ao combate – que Lênin diagnosticava como sinal de morte iminente – vem junto com um esforço de manter, nos debates com a esquerda, uma polidez medrosa, ilusoriamente sedutora, que os esquerdistas, por seu lado, desprezam em troca de uma retórica cada vez mais truculenta e ameaçadora. Em vão o Hino Nacional proclama: “Verás que um filho teu não foge à luta.” Tornou-se praticamente impossível mostrar aos liberais brasileiros que a covardia não é uma modalidade superior de realismo.

Em 21 de agosto de 2008

Revanchismo Coisa Nenhuma

21 de agosto de 2008 | Jornal do Brasil

Na mesma semana em que pela primeira vez a classe militar esboça uma reação coletiva à perseguição de seus membros acusados de tortura, o juiz Baltasar Garzón desembarca no Brasil anunciando que vai puni-los se o governo local não o fizer, e dois porta-vozes da ONU aparecem nos jornais pontificando que “está mais do que na hora de o Brasil enfrentar esse assunto da anistia”. Está mais do que na hora, digo eu, é de os nossos militares entenderem que as tentativas de rever a Lei de Anistia não são mero “revanchismo” e sim uma vasta operação internacional, montada com todos os requintes do planejamento racional, da execução cuidadosa e do timing preciso, para quebrar a espinha das Forças Armadas latino-americanas e obrigá-las a escolher entre colocar-se a serviço da estratégia esquerdista continental ou perecer de morte desonrosa. A astúcia com que o governo brasileiro pulou fora de um confronto direto com os oficiais reunidos no Clube Militar, deixando a parte suja do serviço para seus aliados estrangeiros que com sincronismo admirável se ofereciam para a tarefa, é mais do que suficiente para ilustrar o que digo.

O tratamento dado a essas notícias pela mídia nacional também não é mera coincidência e sim um componente vital da trama. Um despacho da Agência Estado, reproduzido por toda parte, apresenta os dois homens da ONU como “peritos”. O termo visa a dar ares de isenção científica ao que dizem contra a Lei de Anistia, mas para que esse engodo funcione é preciso sonegar ao leitor, como de fato os jornais sonegaram, qualquer informação substantiva sobre o curriculum vitae dos entrevistados. O primeiro, Miguel Alfonso Martinez, foi nomeado para a Comissão de Direitos Humanos da ONU por Fidel Castro em pessoa, o que significa que está lá para encobrir os crimes da ditadura cubana sob uma cortina de acusações a governos bem mais inofensivos. O segundo, Jean Ziegler, suíço, entrou na mesma comissão em abril deste ano, sob os protestos de mais de vinte países, que não gostaram de ver nesse cargo um notório amigo e protetor de ditadores truculentos como Robert Mugabe, do Zimbábue, Muamar Khadafi, da Líbia, Mengistu Haile Mariam, da Etiópia, e o próprio Fidel Castro. Ziegler criou mesmo o “Prêmio Muamar Khadafi de Direitos Humanos”, que soa mais ou menos como “Prêmio Mensalão de Ética e Transparência”. Se o leitor soubesse dessas coisas, entenderia que os dois patetas falam apenas na condição de paus-mandados do comunismo internacional, e que ao apresentá-los como “peritos”, sem mais, a mídia nacional desempenha papel exatamente igual ao deles.

Mesmo o sr. Baltasar Garzón, por trás de sua fachada de campeão dos direitos humanos, permanece um desconhecido para a multidão dos brasileiros. Em 2001 ele recebeu um vasto dossiê contra Fidel Castro, mas respondeu que nada faria a respeito porque seu tribunal não tem jurisdição sobre governantes em exercício. O critério jurídico aí subentendido já é por si uma monstruosidade abjeta, pois significa que, para escapar ao senso justiceiro do sr. Garzón, tudo o que um ditador tem de fazer é permanecer no governo até à morte, em vez de devolver o poder ao povo como o fez o general Pinochet. O caso torna-se ainda mais escandaloso porque Fidel Castro agradeceu publicamente ao juiz a gentileza da sua reação e porque anos depois, quando Castro apeou do poder, Garzón não deu o menor sinal de perceber que ele tinha ipso facto caído sob a sua jurisdição.

Da minha parte, não tenho a menor dúvida de que essas pomposas iniciativas contra violadores de direitos humanos, sempre unilaterais e escancaradamente alheias ao senso das proporções, que é a essência mesma da justiça, têm no fundo um único objetivo: acostumar a população mundial à idéia de que assassinatos em massa são um direito inalienável e até um dever moral dos ditadores de esquerda, ao passo que qualquer violência incomparavelmente menor praticada contra comunistas é um crime hediondo cujo autor deve ser exposto à execração universal.

Em 21 de agosto de 2008

Petismo E Revolucao Armada

21 de agosto de 2000 | 21 de agosto de 2000

Transcrição de Luiz Triches dos Reis NB – Todas as correções que introduzi estão assinaladas entre colchetes. – O. de C.

Ranzolin: O senhor é filósofo e jornalista, conhecido dos gaúchos pelos artigos que publica em Zero Hora . Por que o senhor tem afirmado que a esquerda tornou-se hegemônica?

Olavo de Carvalh o – Veja que, desde que começou o regime militar, a esquerda brasileira começou uma vasta operação, que já vem de muitas décadas, que consistia, primeiro, em infiltrar-se em todos os escalões do aparelho de Estado. Segundo: tomar de maneira avassaladora todos os meios de comunicação, as instituições culturais, o aparato educacional e até mesmo os consultórios de psicologia, consultórios de aconselhamento matrimonial, todos os canais por onde o povo ouve alguma coisa. Isso chama-se, na estratégia do teórico esquerdista Antonio Gramsci, que é a grande influência da esquerda brasileira, a “Revolução Cultural”. Ou seja, operar uma transformação tão sutil na escala de valores, no imaginário, na mente das pessoas, que se possa fazer uma transição para um governo comunista quase que de maneira indolor. A dor só será sentida depois, quando os comunistas já estiverem com o poder na mão e começarem as perseguições, as ações punitivas. Mas a transição ninguém percebe que já está acontecendo, e acontece diariamente, diante dos nossos olhos, sendo que o público está muito mal-informado. Veja, por exemplo, o PT. Ele é um partido sui generis . Se você vê a propaganda do PT, o que [os candidatos dele] falam em palanques, anúncios, artigos e discursos na Câmara, é uma coisa. Se você lê o material interno, discutido em congressos do PT, é outra. Para fora eles falam em combate à corrupção, em democracia. Dentro, eles falam em tomada do poder, em luta de classes, em toda aquela velha conversa comunista. É um partido que por dentro é uma coisa, por fora, é outra. Isso já é uma coisa de uma desonestidade tão grande, que nem vejo como um partido desses possa existir legalmente. É o único partido que adquiriu os meios e o direito de agir na esfera legal e na ilegal. Por um lado participa de eleições, por outro lado, tem ramificações [clandestinas] e apóia o movimento armado. Ou uma coisa ou outra. Ou você participa da esfera legal, das eleições, ou você parte para a esfera ilegal e pega em armas e faz uma revolução armada. Agora, o PT tem o direito de atuar nas duas frentes.

Ana Amélia: Se há essa infiltração da esquerda dentro do “establishment” governamental e em todas as áreas que o senhor acabou de citar, como é que eles não denunciaram os desmandos no caso do TRT de São Paulo, por exemplo, já que eles estão dentro do sistema?

Olavo de Carvalho – Veja, tudo isso é feito de uma maneira lenta e calma. O processo é de uma sutileza fantástica. Na Itália, onde essa técnica foi utilizada pela primeira vez, o Partido Comunista tinha preparado a tomada do poder durante quarenta anos, tanto que ofereceram ao seu secretário-geral, Palmiro Togliati, o cargo de primeiro-ministro. Ele não aceitou, por achar que era prematuro. Isso depois de quarenta anos. Imagine a sutileza do negócio. Isso não é feito do dia para a noite. E veja: incentivar a corrupção para depois denunciá-la é uma coisa característica [dos comunistas]. A atividade cultural da esquerda, dentro das escolas, sobre a mente popular, visa sempre destruir o centro de valores, o centro de moral. Isso incentiva [a corrupção, é] uma das principais causas da corrupção. Aí, quando a corrupção acontece, o partido a denuncia. E jamais assume a sua responsabilidade por esse estado de coisas.

Ranzolin – Professor, não quero perder a oportunidade de perguntar o que o senhor quer dizer quando afirma que dentro da ideologia comunista o significado de luta pela democracia tem um significado específico, bem diferente do que tem na linguagem corrente.

Olavo de Carvalho – Isso é uma questão clássica, vem de 1910, quando o Lenin fez a revolução na Rússia. Você faz a revolução em duas etapas, a primeira [é] democrática, e a segunda é a revolução socialista. Exatamente como na Rússia, onde houve duas revoluções, exatamente como na China, ou em Cuba. Primeiro uma mudança democrática que só serve para abalar a estrutura do sistema. Na hora em que ele está destruído, você cria um caos, onde o grupo que comanda o processo adquire o poder absoluto. “Luta pela democracia” é um termo técnico, uma etapa para a revolução comunista. No Brasil, ninguém mais sabe disso. Fora do círculo que promove isso, o povo não sabe. O povo não tem mais informação, está acreditando que o comunismo acabou, que não existe mais, não é? A própria esquerda alimenta isso. Abrindo um parêntese: eu não sou contra a esquerda, não. O que não deve existir é uma esquerda revolucionária, isto é, a pior das corrupções, das maldades. As pessoas só acreditam em corrupção quando envolve dinheiro. Quando é uma corrupção gigantesca, que envolve a tomada do poder, para instalação de um poder absoluto, [o povo] não percebe que isso é corrupção.

Ranzolin – Mas aqui no Brasil houve, o senhor mesmo tocou nesse ponto, uma luta pela redemocratização, uma luta para retomar a normalidade democrática. Aí o senhor diz que apenas uma parte dos objetivos foi alcançada, a parte menor. Qual era a parte maior?

Olavo de Carvalho – No plano da esquerda — esse plano inclusive está escrito, está falado –, a revolução tinha duas etapas. A primeira era a redemocratização, que era simplesmente para criar uma situação caótica, seguida pela tomada do poder. É exatamente o que está acontecendo. Se você [examinar] todo o processo redemocratizatório e a Constituição de 1988, [verá que ele] é todinho conduzido pela esquerda. Um grupo de esquerda muito discreto, não necessariamente formado pelas pessoas que aparecem. Não estou falando em Luíza Erundina e Olívia Dutra, mas de gente muito mais sofisticada, que estudou o marxismo por vinte ou trinta anos, [pessoas] que estão habilitadas a implementar esse processo da revolução sutil, da revolução cultural, que eles chamam também de revolução passiva , o que é maligno, porque a revolução passiva é a que acontece sem ninguém perceber e onde a falta de reação do povo é interpretada pela cúpula comunista como aprovação.

Ranzolin – O senhor é a favor da extinção da esquerda?

Olavo de Carvalho – De maneira nenhuma! Todo país tem de ter esquerda, centro e direita. O que não pode é um partido usar instrumentos revolucionários.

Ana Amélia – O senhor citou alguns partidos que estariam comprometidos com essa revolução. Agora, o PPS, o PSB de Arraes, o PDT de Brizola, o PSDB, estariam nessa linha?

Olavo de Carvalho – O PSB eu não tenho informações corretas, eu não posso dizer. Mas as ligações entre o PT e o MST são evidentes. Há uma parceria. Um faz as coisas na esfera da violência e o outro se senta no Parlamento. Se você olhar a história do comunismo, vai ver que é assim há séculos. Só que a fórmula é escondida do povo. O povo não sabe dessa diferença [entre os] discurso das teses internas do PT e a sua propaganda. Essa diferença é notável. Mas o povo não lê esses documentos.

Ranzolin – O que fazer para fortalecer a democracia do País, em última análise?

Olavo de Carvalho – Em primeiro lugar, é necessário que os partidos que não são de esquerda, que não são coniventes com essa coisa, tomem consciência de que nós estamos vivendo em um processo revolucionário em preparação acelerada. Estamos à beira da tomada do poder pelos comunistas num processo revolucionário. O Brasil foi designado para ser o lugar onde a fênix comunista vai renascer. Isso é uma decisão firme tomada [pela] esquerda, o processo está em curso, acontecendo [sob as] nossas barbas. A primeira coisa é tomar consciência e se informar urgentemente. E adquirir também o senso de ter as informações para perceber que coisas que outros partidos consideram imorais, para os comunistas são perfeitamente normais. Por exemplo, você fazer uma campanha só de fachada, sem a intenção verdadeira de levar aquilo adiante, é uma coisa impensável. Para os comunistas, não. Por exemplo, a famosa Campanha Contra a Fome e a Miséria, do Betinho. Para o público o Betinho dizia uma coisa, em particular [dizia que seu objetivo] não era nada daquilo. Era chegar à socialização dos meios de produção. Dentro do regime comunista. [Em] público, [a campanha] era [para] socorrer os pobres numa emergência, no recinto privado eram recursos para fazer a revolução. Essa campanha contra a corrupção que [está] aí, você veja que nos autos de acusação nunca tem gente da esquerda, nunca tem gente deles. Compreendeu? Isso está muito bem articulado. Se você pegar a classe jornalística de São Paulo e Rio, 75% são petistas e estão coniventes com isso.

Ana Amélia – O fato de eles cuidarem mais da moralidade não é para ter essa imagem de pureza perante a opinião pública?

Olavo de Carvalho – Bom, é muito simples, de fato eles cuidam mais da moralidade. Pelo seguinte: eles têm mais poder sobre os seus militantes. Eles visam ao processo revolucionário e não vão permitir que os seus militantes estraguem a revolução roubando um pouquinho de dinheiro aqui e ali. São muito policiados, nesse sentido. Eles passam a impressão [de honestidade], mas essa honestidade é só com o dinheiro público. O que eles estão fazendo por trás, essa desmontagem do sistema, essa operação revolucionária clandestina, é infinitamente mais desonesta do que qualquer desvio do dinheiro público.

Ana Amélia – Como é que a direita está se articulando contra isso?

Olavo de Carvalho – Em primeiro lugar, não existe mais direita nenhuma. Há partidos muito enfraquecidos que nem têm uma tomada de posição. O pessoal do PFL só tem discurso em favor da iniciativa privada. E ponto. Como um discurso desses pode se opor a uma operação dessas [dimensões]? Não há ninguém no PFL que saiba disso que eu estou falando!

Ana Amélia – Nem o ACM?

Olavo de Carvalho – Que ACM? Aquele não sabe nada. É um homem ingênuo. É um bobão. É isso o que eu estou dizendo: [é] preciso cultura, é preciso conhecimento, é preciso ter estudado história. Nossos políticos são todos semi-analfabetos, não lêem livros. A história das revoluções comunistas ninguém conhece no Brasil, e [ela] está acontecendo de novo sob as nossas barbas.

Ana Amélia – Nesse aspecto, pelo menos um setor não está agindo com a sutileza que o senhor comenta. É o caso do MST. Que é um dos movimentos mais importantes...

Olavo de Carvalho – (interrompendo) O MST é um dos braços. Como eu disse, existem duas frentes, ou dois andares. Existe a atuação legal, através do Partido Comunista (1), e a ilegal, que é preparar a guerrilha, os guerrilheiros, a rede de espionagem. O MST é uma das alas do negócio. Mas em perfeita consonância com o resto da esquerda. Não se estudam mais essas coisas. As pessoas ignoram. Na juventude fui comunista. Estudei as obras de Lenin, de Karl Marx. Fui um comunista até muito aplicado. Para um comunista experiente, isso que eu disse é arroz-com-feijão, mas, para a população brasileira, isso aqui é um [mistério] (2), ninguém tem a menor idéia disso. Tem pessoas aí que, se você [lhes disser] que o PT é um partido comunista, dirão que você está maluco, porque o PT jamais fala isso em público. Então, eu digo: leiam as atas dos congressos do PT, leiam o material interno do PT, que não é secreto, e vocês verão que as decisões, a estratégia, tudo é exatamente igual a todos os partidos comunistas do mundo.

Ranzolin – E qual é professor, qual é o recurso ideológico dos liberais dentro desse quadro?

Olavo de Carvalho – Veja bem, em primeiro lugar: nunca se deve desejar destruir a esquerda. Tem de existir uma esquerda. Mas ela deve ser disciplinada para abdicar dos recursos revolucionários. Ela não pode ao mesmo tempo participar do processo eleitoral legal e estar tramando a guerrilha, treinando guerrilheiros, juntando armas, criando um aparato de espionagem. Como existe hoje uma rede de espionagem petista, todos sabemos que existe, com um serviço secreto muito mais vasto que qualquer serviço secreto do governo. Então, temos um partido político que tem o privilégio de operar secretamente campos de guerrilha – e não é bem um partido, é um aglomerado de partidos de esquerda – que tem uma série de direitos e de possibilidades que os [outros] partidos não têm. Você imagine, por exemplo: se se descobrisse que o PFL está treinando um grupo de terroristas para soltar bombas no PT, toda a cúpula do PFL seria presa na mesma hora. No entanto, nós descobrimos que o PT, o PC do B, através de suas ligações clandestinas, estão treinando guerrilheiros, e não acontece nada... Note bem que o Governo Fernando Henrique é cúmplice disso aí.

Notas (1) Evidente lapsus linguae da minha parte. Eu quis dizer Partido dos Trabalhadores. Mas no fundo é a mesma coisa.

Transgenicos Em Cuba

21 de abril de 2001 | Época,

Quem diria? Mas nem tudo o que é bom para Cuba é bom para o Brasil Alertado por um gentil leitor, fui verificar na internet e comprovei que os transgênicos, tão odiados pela esquerda nacional, recebem as mais solícitas atenções do governo de Cuba e têm ajudado a melhorar consideravelmente a produção agrícola daquele Jardim do Éden.

Se têm dúvidas (e há indivíduos cuja ocupação primordial na vida é cobrir de suspeitas qualquer informação que venha de Olavo de Carvalho, chegando alguns a questionar a existência física desse articulista), podem tirá-las examinando o site http://www3.cuba.cu/ciencia/ibp/index.html , do Instituto de Biotecnología de Las Plantas, de Santa Clara, Cuba, entidade estatal destinada “al desarrollo y aplicación de técnicas biotecnológicas” e entre cujas criações se destacam “plantas transgénicas de caña de azúcar, banano, papa y papaya” , de grande sucesso entre os agricultores.

O senhor Bové, portanto, só será admitido na ilha de mãos amarradas e com focinheira, para não obstruir o progresso da ciência.

Mas a incongruência da situação não nos deve fazer esquecer que nada, na atuação das forças de esquerda no continente, é pura arbitrariedade de excêntricos. Desde a fundação do Foro de São Paulo, vem tudo muito bem coordenadinho de Havana, exatamente como nos tempos da Organización Latinoamericana de Solidariedad, a Olas, o QG da revolução continental do qual aquela entidade é a reencarnação pós-moderna.

Se Cuba aposta nos transgênicos, mas busca impedir que sejam usados aqui, não é por loucura: é por cálculo. É pelo mesmíssimo cálculo que o MST, dizendo querer plantar e produzir, invade, desmantela e paralisa fazendas produtivas.

“Loco sí, pero no tonto.”

No novo panorama do mundo, os movimentos revolucionários tornaram-se um dos principais instrumentos com que a Nova Ordem Mundial debilita e subjuga os Estados nacionais. Por isso os ataques que esses movimentos fazem às grandes potências são meramente verbais e pro forma . Nem poderia ser de outro modo, pois delas vêm o dinheiro que os sustenta e o aplauso que recebem da mídia chique em Londres e Paris. Já suas investidas contra a ordem pública, contra os valores nacionais, contra as forças armadas e contra o progresso econômico dos Estados periféricos nunca ficam em palavras. São ações materiais, contundentes, eficazes, profundas.

Entregue à sanha de invasores e de ecologistas enragés , a agricultura acabará por se tornar um investimento caro demais para as fortunas brasileiras. Quem ganhará com isso? Investiguem quem patrocina esses sujeitos e terão a resposta.

Mas a agricultura é só um detalhe no conjunto de uma estratégia que, hoje, só os cegos de profissão não querem enxergar. Que exemplo poderia ser mais patente que a santa aliança das multinacionais com a extrema esquerda na luta pela affirmative action ?

O mais cínico nisso tudo é que essa esquerda, para vender o país, se utiliza da velha retórica nacionalista dos anos 50. E o discurso ainda funciona tão bem que muitos patriotas sinceros, ouvindo-o, não chegam a perceber que o orador diz uma coisa e faz outra.

PS – Um outro leitor, escandalizado por minha afirmativa de que a associação de iluminismo com liberdade é só um reflexo condicionado verbal sem respaldo na realidade histórica, protesta que sou ingrato com o iluminismo, desfrutando as liberdades que ele criou e ainda falando mal dele. Que raio de raciocínio é esse? Se acabo de dizer que o iluminismo criou o totalitarismo, não posso, ao mesmo tempo, estar grato a ele por liberdade nenhuma. Ou o distinto trate de provar que minha premissa é falsa, ou não exija que eu aceite a conclusão da premissa contrária. Mas os requisitos mínimos de consistência, sem os quais nenhuma discussão é possível, parecem que se tornaram, para o típico brasileiro opinante de hoje, sutilezas inapreensíveis e mistérios esotéricos. E, quanto mais o sujeito tem preguiça de se elevar ao nível de uma discussão, menos resiste à comichão de dar palpite nela.

Em 21 de abril de 2001

A Politica E As Caracteristicas Espirituais Do Nosso Tempo

21 de Abril de 2002 | 21 de Abril de 2002

Proferida no salão da Escola de Belas Artes em 28 de setembro de 1935, publicada pela Imprensa Nacional em 1939 e depois recolhida em O Estado Nacional (Rio de Janeiro, José Olympio, 1941), esta conferência é, segundo Wilson Martins, “um dos grandes textos da nossa literatura política, não apenas pela argúcia profética com que analisava os sinais dos tempos, mas ainda pela alta qualidade do estilo e a gravidade do pensamento” (História da Inteligência Brasileira, São Paulo Cultrix, 1979, vol. VII, p. 43). A posterior colaboração de Francisco Campos com o Estado Novo não empanaria em nada o brilho desta e de outras contribuições suas ao pensamento brasileiro, se as idéias que veiculam não tivessem se revelado, justamente por causa de sua veracidade profunda, impossíveis de assimilar ao discurso esquerdista oficial, como aconteceu sem maiores problemas com as de tantos outros adeptos do varguismo. “A Política e as Características Espirituais do Nosso Tempo” é um documento de valor inestimável, que por tempo excessivo tem permanecido oculto e esquecido dos estudiosos e do público em geral. Recolocá-lo em circulação é um dever essencial, que este site pôde cumprir graças à colaboração do Prof. Bráulio Porto Matos, da UnB, que nos presenteou com um exemplar da primeira edição do texto, e ao qual nesta ocasião agradecemos. – O. de C.

O aspecto trágico das épocas de transição Quando escolhi o tema deste monólogo, não pensei na vossa e na minha impaciência. Ao primeiro golpe de vista, porém, percebi que o caminho era difícil e, sobretudo, longo. E o que o melhor para nos distrair da caminhada não seria um monólogo, que a torna mais fatigante e monótona, mas uma imensa e alegre controvérsia, em que cada um, sem outro interesse que não fosse o interesse pelo jogo das idéias, confessa assim em voz alta o que realmente pensa sobre o mundo dos negócios humanos. Esse mundo está mudando à nossa vista, e mudando sem nenhuma atenção para com as nossas idéias e os nossos desejos. Nele a nossa geração não encontra resposta satisfatória às questões que aprendeu a formular, nem quadram com as soluções que lhe foram ensinadas por uma laboriosas educação os problemas que desafiam a sua competência. Que esta é a situação em que nos encontramos há mais de vinte anos é o que mostra, com relevo extraordinário, o movimento que se vem operando na educação. A esta é que incumbe, com efeito, adaptar o homem às novas situações. Nenhum setor refletirá, portanto, com mais fidelidade a inquietação contemporânea do que aquele cuja função consiste precisamente em adaptar o homem ao ambiente espiritual do nosso tempo. Ora, o que se nota nesse domínio é que vai por ele uma grande desarrumação. Os valores consagrados foram postos em dúvida, sem que se fizesse a sua substituição por outros valores. O que caracteriza a educação em nossos dias é que ela não é uma educação para este ou aquele fim, para um quadro fixo, para situações mais ou menos definidas, mas não sei para que mundo de possibilidades indeterminadas; não uma educação para tais ou quais problemas, mas uma educação para problemas, uma educação que se propõe em não a fornecer soluções, mas a criar uma atitude funcional do espírito, isto é, atitude para o que vier, seja o que for e de onde quer que venha, como a sentinela atenta, noite escura, às sombras e aos rumores.

Não há mais soluções, nem problemas que possam antecipadamente ser postos em equação. Há apenas uma situação problemática, ou, antes, situação que muda segundo uma razão que ainda não conseguimos fixar. De onde não poder a educação exercer-se sobre problemas definidos, que, postos hoje em certos termos, terão amanhã configuração diversa, exigindo novo exame em outra posição relativa dos elementos. Acontece, porém, que essa é uma educação ainda à procura dos seus métodos, — se é possível, numa educação para problemas, encontrar-se um método que não seja igualmente problemático. O fato é que os métodos tradicionais foram postos de lado e que ainda não foram encontrados os novos métodos. Estamos diante do problema de como tratar satisfatoriamente não problemas definidos, mas simplesmente problemas de que não podemos antecipar os termos ou prever a configuração dos elementos. Esta só poderá ser, evidentemente, a educação do futuro e para o futuro. Há, porém, o problema das gerações já educadas, ou em curso de educação, das que foram ou estão sendo precisamente educadas num determinado clima espiritual ou pressuposto de haver problemas definidos suscetíveis de soluções definidas. Essas gerações foram ou estão sendo educadas por um mundo anterior ao atual, por um mundo em que havia tipos e arquétipos, por um mundo de espírito platônico, um mundo de ordem e de hierarquia, um mundo de modelos e de formas e em que os problemas eram dóceis e educados como essas árvores de jardim que obedecem, no seu crescimento, à direção do jardineiro. E enquanto, na pedra de aula, no papel e nas preleções, os educadores construíam os modelos segundo os quais haviam de configurar-se os problemas humanos, estes, como se o mundo houvesse passado da escala de Platão para a de Heráclito, estavam precisamente mudando, porém mudando num sentido estranho, porque segundo uma razão que não era a da mecânica dos quadros negros e sob a influência de valores não computados na tabulação das pessoas educadas. Daí, o mundo da interpretação, — construído segundo os nossos desejos, e o mundo da realidade, — refratário a um sistema interpretativo em desacordo com a escala e o passo dos acontecimentos.

É o aspecto trágico das épocas chamadas de transição.

A época de transição é precisamente aquela em que o passado continua a interpretar o presente; em que o presente ainda não encontrou as suas formas espirituais, e as formas espirituais do passado, com que continuamos a vestir a imagem do mundo, se revelam inadequadas, obsoletas ou desconformes, pela sua rigidez, com um corpo de linhas ainda indefinidas ou cuja substância ainda não fixou seus pólos de condensação. Nós fomos educados pelo passado para um mundo que se suponha continuassem a se modelar pela sua imagem. O nosso sistema de referências continuou a ser o que fora calculado para um mundo de relações definidas ou constantes, mas nós nos vemos confrontados com uma realidade em que as posições não correspondem às fixadas na carta topográfica. O que chamamos época de transição é exatamente esta época profundamente trágica em que se torna agudo o conflito entre as formas tradicionais do nosso espírito, aquelas em que fomos educados e de cujo ângulo tomamos a nossa perspectiva sobre o mundo, e as formas inéditas sob as quais os acontecimentos apresentam a sua configuração desconcertante.

Nas épocas de transição, o presente, ainda não acabada a ressonância da sua hora, já se converteu em passado. O demônio do tempo, como sobre a tensão e escatológica da próxima e derradeira catástrofe, parece acelerar o passo da mudança, fazendo desfilar diante dos olhos humanos, sem as pausas a que eles estavam habituados, todo o seu jogo de formas que, nas condições normais, teriam que ser distribuídas segundo uma linha de sucessão mais ou menos definida e coerente. Daí o caráter problemático de tudo: a acelerado o ritmo da mudança, toda situação passa a provisória, e a atitude do espírito há de ser uma atitude de permanente adaptação não as situações definidas, mas simplesmente de adaptação à mudança. A função normal do espírito (normal pelo menos em relação aos cânones até então consagrados pela escala de referências válida, ou tida como válida fossem quais fossem as circunstâncias), passou a ser precisamente o oposto, isto é, a de mudar perpétua mente o seu sistema de referências, em função de posições em movimento.

Educação para o que der e vier Nunca se pôs em questão, de uma vez, tão grande número de pontos de fé. Nunca falhou em tão grande escala a confiança humana na coerência do universo do pensamento e do universo da ação. Há uma vocação do mundo moderno para os problemas e um correspondente ceticismo em relação às soluções. Pode-se dizer que o homem do nosso tempo pôs de novo em equação, transformando-as em problemas, todas as soluções que constituíam a sua herança intelectual, política e moral. A educação reflete esse estado de coisas. O que se quer é que ela seja uma educação para problemas, e não para soluções, não para este ou aquele regime de vida, pois não se sabe ou não se acredita saber em que quadro de linhas móveis e flutuantes irá o homem viver. Como educar para a democracia, se esta não é hoje senão uma cafarnaum de problemas, muitos dos quais propondo questões cuja solução provável implicará o abandono dos seus valores básicos ou fundamentais? Educação individualista ou educação para um mundo de massas, de cooperação ou de configuração coletiva do trabalho, do pensamento e da ação?

Nenhuma, nem outra coisa, mas uma educação para o que der e vier, como se estivessemos preparando uma equipe de aventureiros para uma expedição em que tivessem de consumir a sua vida adaptando-se as circunstâncias que não poderíamos prever e realizando obras de trabalhos nunca antes realizados pela raça humana. A problemática de hoje envolve todos os aspectos da vida. A nossa substância espiritual, se se pode chamar de substância o movimento, é toda ela constituída de problemas. Perdemos as aquisições substanciais do passado e não constituímos ainda novo patrimônio. Um patrimônio espiritual é um conjunto de valores organizado segundo um sistema mais ou menos coerente de referências em que cada um tem a sua posição definida em relação à dos demais.

Pois bem, desarrumamos o sistema de valores que constituía a nossa herança espiritual. Não há mais uma reflexão fixa ou constante entre os valores. Todos ele se tornaram relativos, e não apenas o sentido de serem relativos entre si, ou a um valor fundamental, mas de serem relativos simplesmente, isto é, de não guardarem entre si nenhuma relação. Se se pode chamar de sofistica essa atitude problemática do espírito, a sofística de nossos dias não se pode comparar, em dimensão espiritual, com a sofistica dos Gregos.

A sofistica moderna Entre Sócrates e os sofistas havia um diálogo, ou uma discussão, porque um em outros admitiam valores comuns, pelo menos um valor — o valor de verdade. A sofistica de hoje, embora continuando a empregar a linguagem dos valores tradicionais, eliminou a substância de qualquer valor, até do valor de verdade, pois a sua significação passou a ser exatamente o contrário, o valor de verdade não constituido precisamente na verdade, mas naquilo que, não sendo a verdade, funciona, entretanto, como verdade. Teremos oportunidade de ver a importância dessa atitude do espírito não mais no plano da especulação, porém da mais prática das práticas, que é a prática política. Veremos, com efeito, como se constituiu uma teologia política que tem por substância a afirmação de que o seu dogma fundamental deve ser acreditado como verdadeiro, embora declare que o seu valor não é precisamente um valor de verdade. A teologia soreliana do mito político não é mais do que uma aplicação, como o reconhece o seu próprio autor, da filosofia de Bergson e, pensamos nós, mais diretamente do pragmatismo anglo-saxão e do seu conceito de verdade. Do estudo das condições do mundo moderno, Sorel chegou à conclusão de que só uma revolução total mudará o sistema de posições de forças econômico-políticas, cujas injustiças tanto o impressionaram. No seu entender, porém, aquela revolução não resultará fatalmente das condições internas do regime capitalista, como queria Marx, pois a estrutura social é mais complexa do que a descrita pelo marxismo, que a reduziu à oposição entre duas classes. A idéia de Marx não é verdadeira, mas, acreditada como verdade, constitui o único instrumento capaz de conduzir à grande revolução. Convém, portanto, o cultivar a idéia de luta de classes e forjar um instrumento intelectual ou, antes, uma imagem dotado de grande carga emocional, destinada a servir de polarizador das idéias ou, melhor, dos sentimentos de luta e de violência tão profundamente ancorados na natureza humana.

Esta imagem é um mito. Não tem sentido indagar, a propósito de um mito, do seu valor de verdade. O seu valor é de ação. O seu valor prático, porém, depende, de certa maneira, da crença no seu valor teórico, pois um mito que se sabe não ser verdadeiro deixa de ser mito para ser mentira. Na medida, pois, em que o mito tem um valor de verdade, é que ele possui um valor de ação, ou um valor pragmático.

Papel do mito soreliano O papel do mito soreliano é, portanto, equívoco, e nisto reside a sua principal vantagem, ou a principal vantagem que lhe atribui Sorel, e que consistem em ser irrefutável:

quand on se place sur ce terrain dês mythes, on est ‘a lábri de toute refutation.

A impossibilidade de refutar Sorel está precisamente em que ele atribui ao mito dois valores contraditórios: o valor de verdade para os que acreditam no mito, e o valor de artifício puramente técnico o para os que sabem que se trata apenas de uma construção do espírito. Atacado do ponto de vista da teoria do conhecimento, Sorel sorri da objeção, alegando que ele propõe não uma verdade, mas o oposto da verdade. Mas, quando atacado, no terreno prático, pelo argumento de que o mito só funcionará como motivo de ação enquanto conservar o seu valor de verdade, responderá que isto equivale a reconhecer ao mito um valor puramente de verdade, porque o que nele se postula é a impossibilidade da sua realização e, portanto, o seu caráter último final de inverificável. A sofistica atual tem dois critérios de verdade: a verdade que se sabe ser a verdade, pois, se não houvesse um critério da verdade, não haveria como de extinguir entre mito e verdade, e a verdade que embora não sendo verdadeira, funcionará indefinidamente como verdade, porque o que ela postula da realidade é, por definição, insuscetível de verificar-se. A refutação de Sorel torna-se, assim, impossível, não porque a sua doutrina seja irrefutável, mas porque ele mesmo se encarregou de refutá-la por antecipação. Não se arromba, evidentemente, uma porta aberta, nem se toma de assalto uma fortaleza abandonada. Não se poderá, entretanto, contestar que a fortaleza tenha sido ocupada, porque nela já não se encontravam os seus defensores.

A duplicidade do mito, no sentido soreliano, não se limita apenas ao plano teórico. Toda a técnica, ainda a do espírito, é indiferente aos fins. A técnica espiritual da violência, que Sorel havia construído com o fim de tornar agudo o antagonismo entre duas classes, mobilizando-as para uma guerra permanente, tinha por objeto, de acordo com as tendências e simpatias intelectuais do autor, dissolver a unidade do Estado, construída pelos juristas e graças ao emprego de métodos artificiosos de racionalização próprios à teologia, no multiverso político do sindicalismo.

Fichte e a sua fórmula patética Aconteceu, porém, que a técnica espiritual da violência, destinada por Sorel a dissolver a unidade do cosmos político, haveria de ser empregada logo depois no sentido absolutamente oposto, precisamente no sentido de pôr fim à luta de classes e reforçar a unidade política do Estado. Ao politeísmo político de Sorel, e pelos mesmos processos e intelectuais de que ele se servia, opunha-se, de maneira vitoriosa, a teologia monista do nacionalismo. Em seu discurso de outubro de 1922, em Nápoles, antes da marcha sobre Roma, dizia Mussolini, traindo a leitura recente de Sorel: “criamos nosso mito. O mito é uma crença, uma paixão. Não é necessário que seja uma realidade. É realidade efetiva, porque estímulo, esperança, fé e ânimo. Nosso mito é a nação; nossa fé, a grandeza da nação”. Aliás, não há, no nacionalismo italiano e alemão, nenhum conteúdo espiritual novo. O mito da Nação já se encontrava construído um com todo o seu ethos e, sobretudo, o seu pathos, nos Discursos de Fichte à Nação Alemã. A retórica nacionalista dos nossos dias, por mais alto que tenha elevado a sua nota de paixão, ainda não encontrou fórmulas em que se condensasse com mais vigor a carga emocional do mito totêmico do moderno matriarcado político nacionalista do que nas de Fichte: “a aspiração natural do homem é realizar, no temporal, o eterno. O homem de coração nobre possui uma vida eterna sobre a terra. A fé na duração eterna da atividade do homem na terra encontra o seu fundamento na esperança da duração eterna do povo que lhe deu a existência. O caráter racial do seu povo é o elemento eterno ao qual o homem liga a sua própria eternidade e a toda a sua obra. É a ordem de coisas eternas na qual o homem põe o que ele mesmo tem de eterno.”

A declaração da Carta Del Lavoro sobre a unidade da nação faz o papel de uma pálida fórmula jurídica, destituída de alma e de fé, diante das fórmulas patéticas de Fichte sobre a unidade e a eternidade da Nação. A unidade desta não se funda na unidade do regime jurídico, representada pela constituição e pelos códigos, mas no sentimento de que a nação é o envoltório do eterno. Nunca o Estado totalitário encontrou uma expressão mais enérgica do que esta: “o Estado, alto administrador dos negócios humanos, autor responsável, diante de Deus e perante a sua consciência, de todos os seres menores, têm plenamente o direito de constranger estes últimos à sua própria salvação. O valor supremo não é o homem, mas a nação e o Estado, aos quais o homem deve o sacrifício do corpo e da alma”.

Tudo que constitui conteúdo espiritual dos novos regimes políticos já se encontra no romantismo alemão. O estado racionalista, racista, totalitário, a submersão dos indivíduos no seio totêmico do povo, da raça, da nação, é o Estado de Fichte e de Hegel, o pathos romântico do inconsciente coletivo, seio materno dos desejos e dos pensamentos humanos. O que é novo é a aliança do ceticismo com o romantismo, o emprego, pelos sofistas contemporâneos, das constelações românticas como instrumento ou como técnica de controle político, tornando ativas, através da ressurreição das formas arcaicas do pensamento coletivo, as emoções de que elas continuam a ser os pólos de condensação e de expressão simbólica. Aliás, o estado de alma favorável à germinação dos mitos políticos da violência já vinha sendo preparado antes da guerra. Esta acabou por libertar forças que até então se vinham mantendo em estado de latência graças à crença, embora já vacilante, em certas formas tradicionais de cultura moral e política, de que o grande conflito acabou por mostrar a tenuidade, para não dizer a ausência, de substância ou de medula espiritual. As filosofias anti-intelectualistas do fim do século XIX e do princípio do século XX, dando novos fundamentos ao ceticismo das elites na razão, não lhes forneceu novos conteúdos espirituais, a não ser a vaga indicação, tanto mais poderosa quanto mais vaga, de que os valores supremos da vida não constituem o objeto de conhecimento racional, podendo apenas ser traduzidos em símbolos ou em mitos, isto é, em expressões destituídas de valor teórico, cuja função não é dar a conhecer, mas tão-somente reviver os estados de consciência ou as emoções de que são apenas a imagem mais ou menos inadequada.

Primado do irracional Assim se instalava no centro da vida o primado do irracional, e, em se tratando de formas coletivas de vida, o primado do inconsciente coletivo, por intermédio de cujas forças subterrâneas ou telúricas se tornava possível realizar, de modo mais ou menos completo, a integração política, que o emprego da razão somente obtivera de maneira precária e parcial. O irracional é o instrumento da integração política total, e o mito, que é a sua expressão mais adequada, a técnica intelectualista de uma utilização do inconsciente coletivo e para o controle político da nação. Assim, as filosofias anti-intelectualistas forneciam aos céticos não uma fé ou uma doutrina política, mas uma técnica de golpe de Estado. Ao serviço dessa técnica espiritual coloque o maravilhoso arsenal, construído pela inteligência humana, de instrumentos de sugestão, de intensificação, de ampliação, de propagação e de contágio de emoções, e terei isso o quadro dessa evocação fáustica dos elementos arcaicos da alma humana, de cuja substância nebulosa e indefinida se compõe a medula intelectual da teologia política do momento.

Não há para esta teologia processos racionais de integração política. A vida política, como a vida moral, é do domínio da irracionalidade e da ininteligibilidade. O processo político será tanto mais eficaz quanto mais ininteligível. Somente o apelo às forças irracionais ou às formas elementares da solidariedade humana tornará possível a integração total das massas humanas em regime de Estado. O Estado não é mais do que a projeção simbólica da unidade da Nação e essa unidade compõe-se, através dos tempos, não de elementos nacionais ou voluntários, mas de uma cumulação de resíduos de natureza inteiramente irracional. Tanto maiores as massas a serem politicamente integradas, quanto mais poderosos hão de ser os instrumentos espirituais dessa integração, a categoria intelectual das massas não sendo a do pensamento discursivo, mas a das imagens e dos mitos, a um só tempo intérpretes de desejos e libertadores de forças elementares da alma. A integração política pelas forças irracionais é uma integração total, porque o absoluto é uma categoria arcaica do espírito humano. A política transforma-se dessa maneira em teologia. Não há formas relativas de integração política, e o homem pertence, alma e corpo à Nação, ao Estado, ao partido. As categorias da personalidade e da liberdade são apenas ilusões do espírito humano. Só é livre o que perde a sua personalidade, submergindo-a no seio materno onde se forjam as formas coletivas do pensamento e da ação, ou, como diz Gentile, aquele que sinta o interesse geral como o seu próprio e cuja vontade seja a vontade do todo. O indivíduo não é uma personalidade espiritual, mas uma realidade grupal, partidária ou nacional. É o restabelecimento da relação em que estava o homem primitivo com o seu clã.

Tentativa de definição Façamos uma breve pausa para ver se conseguimos reagrupar, numa tentativa de configuração, as características espirituais do nosso tempo, ou do novo ciclo de cultura que parece abrir-se, com a nossa época, para a humanidade. A política é solidária das outras formas de cultura. Não é um domínio isolado, se não um elo na cadeia de formas espirituais, cuja constelação dá a cada cultura a sua configuração individual ou a suas características fisionômicas. A irracionalidade e o sentimento da mudança, eis as duas notas dominantes ou as tônicas da alma contemporânea. As categorias coletivas do pensamento e da ação constituem hoje as formas espirituais expressivas do nosso tempo, em todos os domínios da atividade humana. Há como que uma volta à comunhão totêmica, sensível nas grandes concentrações urbanas do mundo moderno, e, nestas, o fenômeno, apenas em começo, da tendência à super condensação não somente sob a forma de habitações coletivas, como sob todas as demais formas de vida em comum, em que tudo se torna típico, uniforme e coletivo, ou em que todos participam de tudo, por que há uma participação recíproca ou cada um está em relação aos outros em um estado mais ou menos equívoco de participação ou de comunhão. As formas de vida íntima ou pessoal tendem a desaparecer. O estado de massa gera a mentalidade de massa, propaga e intensifica as expressões próprias a essa mentalidade. A moderna teologia política é o resultado de uma cultura de massa, pois que, em cada época, os processos espirituais de integração política só podem ser determinados pelas formas expressivas ou dominantes da sua cultura. Já houve uma integração pela fé, nas épocas de religião, e uma fraca integração, ou, antes, uma tentativa de integração política por processos intelectuais, o ao menos de aparência intelectual, quando as massas, em razão do seu volume relativamente reduzido e da deficiência da técnica das comunicações, o melhor, no contágio, eram antes um elemento passivo, ainda não dotado, como em nosso tempo, de unidade de alma e de ação. Ora, uma integração política num regime em que se torna possível organizar e mobilizar as massas só se pode operar mediante forças irracionais, e a sua tradução só é possível na linguagem bergsoniana do mito, não, porém, de um mito qualquer, mas, precisamente, do mito da violência, que é aquele em que se condensam as mais elementares e poderosas emoções da alma humana.

Condensemos, porém, o pensamento, procurando indicar, em alguns traços, de valor apenas sugestivo, as demais notas que se agrupam em torno das duas tônicas a que já nos referimos – a irracionalidade e o sentimento da mudança. A volta à comunhão totêmica, fórmula sintética que tenta exprimir esse estado de participação recíproca criado pela forma moderna da vida no quadro da massa, tem como resultado a atribuição de um valor especial às categorias instintivas e irracionais do pensamento e da ação, categorias em que a alma coletiva encontra a sua tradução espontânea e natural. A irracionalidade e a tendência à mudança — esta última tão profundamente ligada às formas emotivas do pensamento e categoria específica da lógica do irracional ou dos sentimentos — determinam a confiança nas forças obscuras da geração, colocando, na escala dos valores, acima do ser, que é a categoria olímpica ou masculina — a da ordem da hierarquia, da clareza, da inteligência, da razão — o “em ser”, a preferência pelo que não se deixa traduzir em forma coerente, a aspiração fáustica, sem pólo definido, o mundo dos desejos, a que falta a ordem da autoridade paterna, confundido ou identificado com o mundo da realidade, o frenesi dionisíaco, que procura exorcizar o demônio do tempo não pelo sentimento do eterno, mas por meios mecânicos e temporais — a velocidade, a instantaneidade, a simultaneidade. O homem moderno entrega-se ao em ser com a ilusão de ser mais do que o ser, que é para ele a morte, isto é, a objetividade, a lucidez, o reconhecimento do limite entre o mundo dos desejos e o da realidade. Pragmatismo, bergsonismo, teosofismo, espiritismo, comunismo: instrumentos de exorcismo da autoridade olímpica ou paterna, que imprime ordem, hierarquia, disciplina às tendências e paixões, que eles visam libertar da forma e da medida, ou, antes, meios de satisfação de desejos contrariados pela realidade.

O mito é o meio pelo qual se procura disciplinar e utilizar essas forças desencadeadas, construindo para elas um mundo simbólico adequado às suas tendências e desejos. O mito sobre que se funda o processo de integração política terá tanto mais força quanto mais nele predominarem os valores irracionais. O mito da nação incorpora grande número desses elementos arcaicos. O seu contexto não é, porém, um contexto de e experiências imediatas. Ele se constitui em grande parte de abstrações ou pelo menos de imagens destituídas, pelo caráter remoto das suas relações com a experiência imediata, de uma carga afetiva a atual ou capaz de organizar e configurar, numa síntese motora, as imagens com que não está em ligação direta ou em relação de continuidade. A personalidade é um mito em que o tecido dos elementos irracionais é mais denso e compacto. As massas encontram no mito da personalidade, que é constituído de elementos da sua experiência imediata, um maior poder de expressão simbólica do que nos mitos em cuja composição entram elementos abstratos ou obtidos mediante um processo mais ou menos intelectual de inferências e ilações. Daí a antinomia, de aparência irracional, de ser o regime de massas o clima é ideal da personalidade, a política das massas a mais pessoal das políticas, e não ser possível nenhuma participação ativa das massas na política da qual não resulte a aparição de César. O mito da nação, que constituía o dogma central da teologia política sob cujo regime vive hoje uma das zonas mais volumosas e significativas da cultura contemporânea, já se encontra abaixo da linha do horizonte, enquanto assistimos à ascensão do micros solar da personalidade, em cuja máscara de Gorgona as massas procuram ler os decretos do destino.

Aparição de César As massas encontram-se sob a fascinação da personalidade carismática. Esta é o centro da integração política. Quanto mais volumosas e ativas as massas, tanto mais a integração política só se torna possível mediante o ditado de uma vontade pessoal. O regime político das massas é o da ditadura. A única forma natural de expressão da vontade das massas é o plebiscito, isto é, voto-aclamação, apelo, antes do que a escolha. Não o voto democrático, expressão relativista e cética de preferência, de simpatia, do pode ser que sim pode ser que não, mas a forma unívoca, que não admite alternativas, e que traduz a atitude da vontade mobilizada para a guerra.

Há uma relação de contraponto entre massa e César. Os ouvidos habituados a distinguir, à distância, o rumor das coisas que se aproximam, percebem, sob o tropel confuso das massas, cuja sombra começa a dominar o horizonte da nossa cultura, os passos do homem do destino.

Essa relação entre o cesarismo e a vida no quadro das massas é hoje um fenômeno comum. Não há, a estas horas, país que não esteja à procura de um homem, isto é, de um homem carismático, ou marcado pelo destino para dar às aspirações da massa uma expressão simbólica, imprimindo a unidade de uma vontade dura e poderosa ao caos de angústia e de medo de que se compõe o pathos ou a demonia das representações coletivas. Não há hoje um povo que não clame por um César. Podem variar as dimensões espirituais em que cada povo representa essa figura do destino. Nenhum, porém, encontrando a máscara terrível, em que o destino tenha posto o sinal inconfundível do seu carisma, deixará de colocar nas suas mãos a tábua em branco os valores humanos.

O mundo político fôra construído à imagem do mundo forense A entrada das massas no cenário político, com seu irreprimível pathos plebiscitário e os novos instrumentos míticos de configuração intelectual do processo político, que é, de si mesmo, ou, por natureza, e racional, ou apenas suscetível de uma inteligibilidade parcial, já está exercendo sobre ele uma influência decisiva, no sentido de torná-lo cada vez mais irracional, e de latente em ostensivo o estado de violência, que constitui o potencial energético até aqui dissimulado pelas ideologias racionalistas e liberais, e do qual, em última análise, resultam as decisões políticas. Essa influência traduz-se, de modo particular, pelo divórcio, hoje confessado, entre a democracia e o liberalismo. O sistema democrático-liberal fundava-se, com efeito, no pressuposto de que as decisões políticas são obtidas mediante processos racionais de deliberação e que a dialética política não é um estado dinâmico de forças, mas de tensão puramente ideológica, capaz de resolver-se num encontro de idéias, como se se tratasse de uma pugna forense. Haveria aqui toda uma página a escrever sobre a influência da mentalidade forense e da sofística jurídica na tentativa de dissimulação ou de subtilização da substância de irracionalidade que constitui, de modo específico, a medula do processo político.

O sistema intelectual, que constitui o pressuposto ou a premissa maior inarticulada do liberalismo do século passado, construiu o mundo político à imagem do mundo forense, ampliando ao plano ou ao teatro da ação política as categorias formalistas do processo do foro, no quadro das quais se resolvem, de acordo com as premissas ou as presunçoes infantis do pensamento jurídico, por uma balança de argumentos ou por uma dialética de idéias e de razões, os conflitos submetidos à arbitragem do juiz. Para essa psicologia intelectualista, as decisões resultam exclusivamente de elementos intelectuais, a substância irracional da vontade representando apenas como instrumento passivo destinado a obedecer e executar os decretos da razão. De acordo com esses pressupostos intelectualistas é que se construiu a teologia democrático-liberal. Para esta, com efeito, a decisão política é objeto de um processo puramente intelectual, não se reservando outro papel à vontade que o de cumprir as decisões da inteligência. Daí a divisão dos poderes: de um lado o parlamento, deliberando pela técnica das discussões ou da dialética racional, de cujo funcionamento resultariam, por hipótese, as decisões políticas; de outro lado, o executivo, centro da vontade, e a que se reserva não a faculdade de tomar decisões, mas simplesmente de executar a deliberação do parlamento. A extensão desses pressupostos a todo processo democrático, e, particularmente, ao da formulação da vontade geral, dá a imagem esquemática da aplicação dos processos forenses às deliberações políticas. Há, certamente, no processo democrático, um irredutível momento de irracionalidade, que é, precisamente, o da formulação da vontade geral mediante o voto. A este momento, porém, a democracia faz preceder, como no processo parlamentar das decisões políticas, o da livre discussão, destinado a esclarecer as vontades convocadas a participar da deliberação final. A eleição, que é um julgamento de Deus, vem, assim, a revestir-se, como a decisão do juiz no processo forenses e a dos representantes do povo no processo parlamentar, de uma aparência de racionalidade, que satisfaz plenamente às modestas exigências intelectuais do sistema. Este, porém, só se completa por um pressuposto último e final, que é da existência de uma opinião pública em que as razões de um e de outro lado são cuidadosamente pesadas em vista de uma decisão racional ulterior. A técnica de formação, ou de organização, em um foro comum, do conglomerado caótico das opiniões individuais, de cuja condensação num pólo único se constitui a opinião pública, é o arsenal com que o liberalismo contribui para o aparelhamento intelectual da democracia: a liberdade de reunião, de associação, de imprensa e das demais manifestações do pensamento. Segundo o postulado liberal, o processo político, passando por essas fases de tratamento ou de elaboração forense, dá em resultado decisões conformes à razão, ou ao critério de justiça ou de verdade.

A publicidade e a discussão constituem garantias de que as decisões políticas incorporarão no seu contexto os elementos de razão e de justiça que constituem, segundo o otimismo beato do sistema liberal, o fundo inalienável da natureza humana. A publicidade e a discussão passam a ser, assim, o sortilégios mediante o qual o orfismo democrático fascina as forças ctônicas do inconsciente coletivo, submetendo-as à disciplina da razão, e operando, dessa maneira, a transformação da força em direito, e da dinâmica dos interesses e tendências em conflito em uma delicada balança de idéias, diante de cujos resultados a vontade e se inclina em reverência.

Quando o baixo profundo de Caliban interrompeu a voz de Ariel Durante algum tempo o sistema pôde funcionar segundo as regras do jogo, porque o processo político que se limitava a reduzidas zonas humanas e o seu conteúdo não envolvia senão estados de tensão ou de conflito entre interesses mais ou menos suscetíveis de um controle racional e acessíveis, portanto, ao tratamento acadêmico das discussões parlamentares.

De repente, porém, amplia-se o quadro: o controle político tende a abranger massa cada vez mais volumosa de interesses, entre os quais o estado de conflito tende a assumir a forma da tensão polar, refratária aos processos femininos de persuasão e da sofística forense, e as zonas humanas do poder vêem aumentadas, em escala sem precedentes, a sua área, a sua densidade, e sobretudo a sua inquietação conseqüente à instabilidade das relações dinâmicas entre os centros de interesse de cujo contato resulta, efetivamente, a centelha das decisões políticas. Verifica-se, então, que a concepção forenses de mundo, construída pelo liberalismo para uma fase eminentemente benigna de pensão ou de conflito econômico e político, de cujos estados de ênfase se compõe a substância da história, conseguira apenas dissimular, graças às formas atenuadas e à escala reduzida do processo político, a irracionalidade que é da sua essência e constitui o seu caráter específico. Sob a máscara socrática com a qual a risonha leviandade otimista do racionalismo liberal tentara dissimular aos seus próprios olhos o caráter trágico dos conflitos políticos, a própria democracia começa a perceber os traços terríveis da Górgona multitudinária e a distinguir, intervindo na ária composta para o delicado registro de voz de Ariel, o baixo profundo de Caliban entoando o encanto da sua libertação das guenas históricas do ostracismo político. Durante séculos, as forças cresceram encadeadas e em silêncio, esperando que soasse a hora com que o destino costuma advertir que é chegada a sua vez de imprimir à história o selo do seu caráter trágico e a configuração demoníaca do seu estilo. Então começa para os homens a tarefa de decifrar o enigma da ininteligível relação entre a vontade humana e a grandeza ou a envergadura dos acontecimentos que excedem os propósitos ou as intenções a que os nossos hábitos racionalistas costumam atribui-los ou imputá-los. Todas as grandezas históricas, as que mordem na terra o seu sinal indelével, têm tanta relação com vontade deliberada do homem quanto o signo de Salomão com os insondáveis desígnios do destino.

Nós começamos a penetrar num desses climas históricos, que se encontram sob o sinal do destino. O clima das massas é o das grandes tensões políticas, e as grandes tensões políticas não se deixa resumir em termos intelectuais, nem em polêmica de idéias. O seu processo dialético não obedece às regras do jogo parlamentar e desconhece as premissas racionalistas do liberalismo. Com o advento político das massas, a irracionalidade do processo político, que o liberalismo tentara dissimular com seus postulados otimistas, torna-se de uma evidência tão lapidar, que até os professores, jornalistas e literatos, depositários do patrimônio intelectual da democracia, entram a temer pelo destino teórico do seu tesouro ou da suma teológica cuja substância espiritual parece ameaçado de perder a sua pesquisa significação.

Assistimos, então, a essa manobra de grande estilo das instituições democráticas: o seu divórcio ostensivo e declarado do liberalismo. O regime de discussão, que não conhecia limites, e passa a ter fronteiras definidas e intransponíveis. A opinião, pressuposto básico da livre discussão e do sistema de opinião, só pode exercer-se entre termos mais ou menos indiferentes, ou entre os quais não existam estado agudo de tensão, de conflito polar ou de extremada antinomia. As decisões políticas fundamentais são declaradas tabu e integralmente subtraídas ao princípio da livre discussão. O sistema constitucional é dotado de um novo dogma, que consiste em pressupor acima da constituição escrita uma constituição não escrita, na qual se contem a regra fundamental de que os direitos de liberdade são concedidos em sobre a reserva de se não envolverem no seu exercício os dogmas básicos ou as decisões constitucionais relativas à substância do regime. A opinião se demarca, dessa maneira, um campo reduzido de opção, no qual tão-somente se encontram as decisões secundárias ou os temas partidários que não interessa aos pólos extremos do processo político, exatamente aqueles em torno dos quais se organizam e concentram as constelações de interesse e de emoção de maior poder ou de mais intensa carga dinâmica. Assim, a democracia, para salvar as aparências de racionalização do sistema político, recorre, como última ratio ou como recurso de defesa dos resíduos do liberalismo, a que ela sempre me esteve tão intimamente associada, aos processos irracionais de integração política, transformando as decisões fundamentais, sobre cuja correção não admite controvérsias, em dogma em relação aos quais, como nas ideologias políticas anti-liberais, exige, pelo menos, as marcas exteriores do assentimento e da conformidade. Eliminando do seu sistema o princípio de liberdade de opção, com a amplitude em que o havia a formulado o liberalismo, a democracia perde o seu caráter relativista e cético, traço secundário que ela devia à sua fortuita associação como a doutrina liberal, passando a ser um sistema monista de integração política, em que as decisões fundamentais são abertamente subtraídas ao processo dialético da discussão, da propaganda e e da publicidade, para serem imputadas a um centro de vontade, de natureza para o irracional como os centros de decisão política dos regimes de ditadura. A pressão determinada pelo advento histórico das massas determinou, assim, uma crise interna do regime democrático, levando-o, pelo abandono da suas premissas liberais, ao estado de permanente contradição consigo mesmo, estado este que não poderá, evidentemente, contribuir, não de maneira transitória, para manutenção dos últimos traços que ainda conserve da sua associação com o liberalismo. As condições de que resultou essa crise interna das instituições democráticas tendem, necessariamente, a desenvolver o o seu poder de decomposição dos resíduos liberais, estendendo a outros termos, entre os quais se venha a estabelecer um estado agudo de conflito, a imunidade à discussão, já decretada pela democracia em relação a certas questões em torno das quais veio a criar-se um estado mais acentuado de tensão ou de ênfase o emotiva da opinião pública. Ora, como as questões subtraídas à livre discussão pertencem ao número daquelas sobre as quais se concentra a maior carga de interesse, as forças que se polarizam no seu sentido tendem a abrir outros caminhos suscetíveis de levar à solução daquelas questões. Desta maneira, crescendo a tensão entre os métodos liberais da democracia e as forças a que se recusa o uso dos instrumentos democráticos, cresce, evidentemente, em correspondência com aquela tensão, a contingência, para as instituições democráticas, de recorrer ao emprego, em escala cada vez maior, dos processos irracionais de integração política. A conseqüência do desdobramento desse processo dialético será, necessariamente, a transformação da democracia, de regime relativista ou liberal, em estado integral ou totalitário, deslocado, com velocidade crescente, o centro das decisões políticas da esfera intelectual da discussão para o plano irracional ou ditatorial da vontade. É o que já se vem observando nos regimes democráticos, em que dia a dia aumenta a zona de transcrição ou de ostracismo político a que vão sendo relegadas massas de opinião cada vez mais volumosas e significativas.

A técnica do Estado totalitário ao serviço da democracia Observa-se, ainda uma vez, no domínio político, esse estranho e obscuro processo dialético, em virtude do qual o processo de crescimento das instituições humanas além de certo limite virtual sofre uma brusca mutação em sentido contrário aos princípios que pareciam haver presidido ao seu nascimento ou às fases mais características da sua formação. No curso de algum tempo, adotada pela democracia a técnica do Estado totalitário, à qual ela foi forçada a recorrer (por mais contraditório que pareça) para salvar as suas aparências liberais, a democracia acabará por assimilar o conteúdo espiritual do adversário, fundindo-se dessa maneira em um pólo o único do as concepções do mundo tão aparentemente inconciliáveis ou antitéticas. Aliás, a crise do liberalismo no seio da democracia é que suscitou os regimes totalitários, e não estes aquela crise. A democracia havia criado, com efeito, um aparelhamento de aparência racional destinado a conduzir o processo político, sem maiores crises de tensão, a soluções ou decisões suscetíveis do mais largo e compreensivos assentimento. A irracionalidade dos seus métodos, uma vez que se ampliou a a escala dos acontecimentos e um vulto das questões, tornou-se, porém, de evidência lapidar. O princípio básico do regime liberal era, com efeito, que as questões deveriam ser propostas e discutidas perante o fórum da opinião pública, a fim de que ela tomasse as decisões depois de suficientemente esclarecida. Enquanto a área do governo se restringia a uma reduzida a esfera de negócios, e particularmente aos mais simples e elementares, foi possível deliberar por aqueles processos ou, melhor, submeter ao voto da opinião soluções sobre as quais já não havia divergências agudas ou conflito irritantes. As últimas conseqüência da revolução industrial criaram, porém, aos governos, novas e complexas funções, estendendo a área do seu controle de maneira a envolver na sua deliberação questões para a elucidação das quais se exigem conhecimentos técnicos e especializados cada vez mais remotos ainda à compreensão das pessoas cultivadas. A densidade e a extensão da área de governo torna, cada vez mais, inacessíveis à opinião, os problemas do governo. Enquanto se tratava de questões suscetíveis de serem colocadas em termos de sentimento ou de encontrar resposta adequada ou satisfatória na atmosfera de emoção originada dos debates públicos, ainda era possível o funcionamento do regime de opinião. Eram questões humanas por excelência, no sentido de acessíveis ao entendimento ou ao sentido geral. As questões que se encontram hoje no plano das cogitações do governo são, porém, de outra natureza. Ou são questões remotas à compreensão geral, ou estranhas ao interesse geral, por não serem suscetíveis de despertar emoções sem as quais não se estabelece nenhuma corrente de opinião pública, ou são questões que envolvem no seu seio, pelo menos em estado de latência, tais possibilidades de antagonismo ou de conflito, que propô-las ao pronunciamento da opinião seria, evidentemente, expor-se ao grave risco de provocar contra a sua decisão a resistência violenta dos interesses em cujo prejuízo fosse ela proferida, e portanto tornaria inevitável uma forma de luta que o processo democrático se propõe precisamente a evitar. De maneira que se restringe sempre mais o campo de opção reservado aos processos deliberativos característicos das democracias liberais. Cumulativamente com esses fatores, como a nova circunstância contribui para tornar o regime de opinião impróprio às funções que lhe foram atribuídas. As prodigiosas conquistas científicas e técnicas, que costumam ser um dos temas preferidos do otimismo beato nas suas exaltadas esperanças em relação à espécie humana e ao seu aperfeiçoamento moral e político, conferiram ao império do irracional poderes verdadeiramente extraordinários, mágicos ou surpreendentes. Aí está mais uma das antinomias que parecem inerentes à estrutura do espírito humano: a inteligência contribuindo para tornar mais irracional, o inteligível, o processo político. É possível hoje, efetivamente, e é o que acontece, transformar a tranqüila opinião pública do século passado em um estado de delírio ou de alucinação coletiva mediante os instrumentos de propagação, de intensificação e de contagem de emoções, tornadas possíveis precisamente graças aos progressos técnicos, que nos deram a imprensa de grande tiragem, com sua nova técnica de apresentação e de apreciação dos fatos, a radiodifusão, o cinema, os recentes processos de comunicação que conferem ao homem um tom aproximado ao da ubiqüidade, e, dentro em pouco, a televisão tornando possível a nossa presença simultânea em diferentes pontos do espaço. Não é necessário o contato físico para que haja multidão. Durante toda a fase de campanha ou de propaganda política toda a nação é mobilizada em estado multitudinário. Nessa atmosfera de contemplação emotiva, seria ridículo admitir que os pronunciamentos da opinião possam ter outro caráter que não sejam o ditado por preferências ou tendências de ordem absolutamente irracional. Já se disse das campanhas presidenciais americanas, para traduzir o ambiente desordenado em que se processam, que cada uma delas é uma libertinagem que dura quatro meses. A opinião não pode manifestar-se sobre a substância de nenhuma questão. Ela toma simplesmente seu partido, e por motivos tão remotos ou estranhos a qualquer nexo lógico ou reflexivo, que se torna inteligível ou irredutível a termos de razão o processo das suas inferências. A ainda há pouco, nos Estados Unidos, All Smith não foi eleito presidente da República pela única circunstância de ser católico, fato do qual somente por via de inferências irracionais poderia resultar a conseqüência da sua inaptidão para o governo. É sabido que na primeira eleição geral na Inglaterra, logo depois da guerra e ainda na aura emotiva que esta deixou atrás de si por muito tempo, Lloyd George conseguiu a maioria nadando como tema central da sua propaganda a promessa do enforcamento do Kaiser, circunstância da qual não se poderiam inferir que nem a sua capacidade de administrador nem os méritos de seu programa de governo.

Queremos Barrabás!

Deixemos, porém, com o maior dos exemplos, porque depois do seu nome nenhum mais poderá ser ouvido: Capítulo XVIII do Evangelho de São João. “Eles conduziram Jesus da casa de Caifas ao pretório; era de manhã. Mas, eles não quiseram entrar no pretório para não se manchar e a fim de comer as páscoa. Pilatos saiu, pois, ao seu encontro e disse: “Que a acusação tendes contra este homem?”. Eles lhe responderam: “Se não se tratasse de um malfeitor, não o teríamos trazido à tua presença”. Pilatos e exigisse: “Julgai-o vós mesmos segundo a vossa lei”. Os judeus lhe responderam: “Não nos é permitido dar a morte a ninguém” — a fim de que se realizasse a palavra e a pele que Jesus tinha dito, em indicando de que morte ele deveria morrer. Pilatos, voltando ao pretório, chamou Jesus e lhe disse: “És o rei dos judeus?” Jesus respondeu: “És tu que dizes isto ou os outros t ́o disseram?” Pilatos respondeu: “É que eu sou judeu? A nação que o chefe dos sacerdotes que entregaram a mim: que fizesse?” Jesus respondeu: “Meu reino não é deste mundo; se meu reino fosse deste mundo, aqueles que me servem ter-se-iam oposto a que fosse entregue aos judeus, mas agora meu reino não é deste mundo”. Pilatos lhe disse: “És rei?” Jesus respondeu: “Tudo dizes, eu sou o rei e vim a este mundo para dar testemunho da verdade; quem é da verdade, escuta a minha palavra”. Pilatos lhe disse: “Que é a verdade?” dizendo isto, ele saiu de novo ao encontro dos judeus ele disse: “Para mim ele não tem crime. Mas a costume que eu vos entregue alguém na festa de Páscoa. Quereis que eu vou entregue o rei dos judeus?” então, todos gritaram: “Ele não, mas Barrabás!” Ora, Barrabás era um ladrão — termina o evangelista.

Deslocamento do centro da decisão política Se os processos democráticos nunca se destinam a convencer da verdade o adversário, mas a conquistar a maioria para, por intermédio da sua força, dominar ou governar o adversário, claro é que, dadas as circunstâncias características do mundo contemporâneo, os processos de captação da maioria só podem consistir em instrumentos de utilização da substancial irracional de que se compõe o tecido difuso é incoerente e da opinião. Assim, as instituições representativas já não têm um conteúdo espiritual que sirva de pólo a um sistema de crenças essencial para garantir a duração de todas as instituições humanas. A categoria da discussão, que era um processo forjado pelo liberalismo para instrumento intelectual das decisões políticas já não comporta, pela própria natureza de que se reveste o fenômeno político, os termos entre os quais se arma a curva de tensão dos conflitos sociais e econômicos do mundo contemporâneo. As formas parlamentares e da vida política são hoje resido os destituídos de qualquer conteúdo ou significação espiritual. As próprias massas já perceberam que as tensões políticas se deslocam para outro plano de dimensões proporcionais às das forças em conflito, e que não se trata, no processo político, de resolver uma divergência de idéias ou de pontos de vista intelectuais, mas de compor o antagonismo de interesses, cada um dos centros de conflito fazendo o possível para reunir a maior massa de forças a fim de que a decisão final lhe seja inteiramente favorável.

Na própria imprensa, em que de modo mais fiel se refletem os interesses do dia, observa-se em todos países com uma indiferença crescente pelo que se passa nos parlamentos. Ninguém hoje tem dúvidas de que o meridiano político não passa mais pela sua antecâmaras ou pela suas salas de sessões. O centro de gravidade do corpo político não cai com de reina a discussão, mas onde impera a vontade. Os corpos deliberativos deixaram de deliberar. A linguagem política do liberalismo só tem um conteúdo de significação didática, ou onde reinam os professores, cuja função é conjugar o presente e o futuro nos tempos do pretérito. Para as decisões políticas uma sala de parlamento tem hoje a mesma importância que uma sala de museu. A um episódio que desenha, com traços de caricatura, a situação de perplexidade a que atingiram os parlamentos.

Um conto chinês Conta Spender, no seu livro sobre a vida pública na Inglaterra, que em 1920 recebeu na sala de redação do seu jornal a visita de três simpáticos de inteligentes chineses que desejavam ouvir a sua opinião sobre os negócios públicos da China e particularmente sobre o impasse verdadeiramente extraordinário em que então se encontravam. Era o caso que o parlamento se achava instalado, os deputados eram assíduos, assentavam-se regularmente, falavam, tornavam assentar-se e falavam de novo. O cerimonial não deixava a desejar. Nada, porém, acontecia. Como Mr. Asquith não exercesse no momento nenhuma função oficial na Inglaterra e lhes parecesse que somente um inglês poderia dar remédio à situação, pediam a Spender que os aproximasse de Mr. Asquith, a ver se ele podia passar alguns meses em Pequim, de maneira a transmitir aos chineses a ciência ou a técnica de fazer acontecer alguma coisa num parlamento. Mas, se nada acontecia no parlamento chinês, não era, evidentemente, por falta de congenialidade dos processos intelectuais que lhe são próprios com o temperamento de uma raça tão notória e abundantemente adotada para os jogos da inteligência e a sutileza das idéias. Nada acontecia no parlamento chinês porque nada acontecia em nenhum parlamento do mundo, porque o parlamento é, precisamente, o lugar onde nada acontece e nada se decide. Mas, a política vive de de acontecimentos de decisões. Seu centro a que a decisão é juridicamente imputada nada decide, forma-se imediatamente ao seu lado um centro de decisões de fato . Assim se resolveu na própria China, sem as luzes de Mr. Asquith, o o estado de perplexidade do seu parlamento.

Na Alemanha, enquanto um parlamento em que já houve o maior número de partidos procurava inutilmente chegar a uma decisão política mediante os métodos discursivos da liberal-democracia, Hitler organizava nas ruas, ou fora dos quadros do governo, pelos processos realistas e técnicos por meio dos quais se subtrai da nebulosa mental das massas uma fria, dura e lúcida substância política, o controle do poder e da nação.

Na França, quando se trata das grandes e graves questões, em que a opção envolve riscos e abre margem ao perigo, o parlamento, numa ostensiva confissão da sua abulia, transmite os plenos poderes a um César temporário.

Como se forma a vontade dos povos Quem quiser saber qual o processo pelo qual se formam efetivamente, há hoje em dia, as decisões políticas, contemple a massa alemã, medusada sobre a ação carismática do Führer, e em cuja mascarar os traços de tensão, de ansiedade e de angústia traem o estado de fascinação e de hipnose.

Só podem ter dúvidas sobre o áspero clima político, em cuja atmosfera carregada de tensão mal começamos a penetrar, os homens que vivem em estado de ingenuidade em relação à experiência imediata, ou num mundo de satisfação simbólica de desejos em que tudo se passa como nos contos azuis, ou no parlamento da China.

Esse mesmo estado de espírito é que julga possível realizar, por processos racionais, não só a integração política nacional, mas igualmente a internacional, ou a organização de toda a humanidade numa comunhão de interesses e de fins. Para ele, com efeito, o conceito de política é o conceito que os professores costumam dar da política nos recintos herméticos onde se fabricam modelos da realidade não à imagem desta mais à imagem dos sonhos ou dos arquétipos platônicos que a imaginação propõe aos nossos desejos. O mesmo pensamento liberal, que concebia a política interior como um conflito de idéias, suscetível de resolver-se mediante os métodos da inteligência discursiva ou da dialética forense, transpondo esse conceito para o plano mundial julgou possível realizar a organização de uma comunidade internacional, criando um Forum Mundi em que um grupo de juristas, assistido por uma equipe de técnicos, ponha e resolva em termos de razão a massa racional de motivos por força dos quais se arma entre as nações um arco de tensão política e econômica sempre mais refratário a qualquer tratamento racional ou ideológico.

Assim, porém, como o processo democrático de integração política deixou de funcionar quando cresceu em extensão e intensidade área dos antagonismos, das tensões e dos conflitos internos, nós assistimos, no domínio intelectual, avolumar-se a massa das tensões econômicas e políticas, particularmente as determinadas pela ressurreição do mito nacional e do conseqüente Estado totalitário ou estado de massas. Ao armamentismo, à luta pelos mercados consumidores e pelas matérias-primas — fatores que tendem a revestir um caráter político cada vez mais agudo — junta-se o mito nacional, cuja função, na história, foi sempre a de polarizar intensas cargas políticas, isto é, constelações dos mais poderosos motivos de antagonismos, de conflitos e de guerras. A integração política totalitária, apesar do nome, não consegue eliminar, de modo completo, as tensões políticas internas. Se conseguisse, deixaria de existir Estado, que é, precisamente, a expressão de um modo parcial de integração política das massas humanas. O que o Estado totalitário realiza é — mediante o emprego da violência, que não obedece, como nos Estados democráticos, a métodos jurídicos nem à atenuação feminina da chicana forense — a eliminação das formas exteriores ou ostensivas da tensão política. Há, porém, elementos refratários a qualquer processo de integração política. No Estado totalitário, se desaparecem as formas atuais do conflito político, as formas potenciais aumentam contudo de intensidade. Daí a necessidade de trazer as massas em estado permanente de excitação, de maneira a tornar possível, a todo momento, a sua passagem do estado latente de violência ao emprego efetivo da força contra as tentativas de quebrar a unidade do comando político. Ora, não é em vão que se libertam, em tão grande escala, as reservas de violência por tanto tempo acumuladas na alma coletiva. Essas reservas, que não podem ser restituídas ao estado de inação, precisam ser permanentemente utilizadas. De onde o fato do Estado totalitário ou nacional tender a derivar o estado de tensão interna para um estado de tensão internacional — manobra que torna possível exaltar ainda mais os fatores de irracionalidade que operaram e que continuam a garantir a integração totalitária.

Essas as forças elementares que os juristas pretendem fascinar, não com a máscara de Medusa com que o Césares paralisam o inconsciente coletivo em que se desencadeou o estado de violência pela hipnose do medo ou do terror, mas com os sortilégios de fórmulas ou de cerimônias já destituídas de qualquer significação ou substância espiritual. O processo político, assim o nacional como o internacional, tem por medula uma constelação polar, ou uma constelação em que existem, ao menos em estado virtual, dois campos nitidamente separados por uma linha ou uma zona de tensão. Esta constelação pode, em determinados momentos, apresentaram o estado de tensão atenuada, quando os conflitos, que constituem o seu conteúdo, não se armam entre termos extremos ou polares. Há, contudo, no processo político, um estado latente de violência, que pode resolver-se em estado de agressão atual. Essa passagem do estado latente ao estado atual de violência, que é uma possibilidade imanente ao processo político, é o que se verifica, com freqüência, em certas democracias, em que ao julgamento de Deus das eleições se segue, com espantosa regularidade, o julgamento de Deus das revoluções.

Toda integração política, por mais ininteligível que seja o seu processo, é sempre uma tentativa de racionalização do irracional. O irracional, porém, contém elementos absolutamente refratários a todos os processos de racionalização. Ora, o processo político, definido pela constelação polar, é eminentemente do domínio do irracional ou do ininteligível. Não é possível nenhuma integração política total enquanto o homem, definido por si mesmo como animal racional, conservar e defender, como vem fazendo com crescente veemência, o seu patrimônio hereditário. No dia em que a massa nacional fosse integrada politicamente de maneira a não deixar resíduos ela deixaria simplesmente de ser Estado, que é um conceito político, isto é, um conceito polêmico, a menos que, como entidade nacional, entrasse em relação de tensão com outras massas nacionais. De igual modo, admitir a integração política da humanidade é postular um estado apolítico do homem, porque a humanidade não poderia constituir um termo da constelação polar em falta de outro termo que pudesse entrar em relação de conflito. A Sociedade das Nações, no dia em que, como Forum Mundi , pudesse exercer a função, que lhe é atribuída, de integrar politicamente a humanidade, deixaria de ser sociedade de nações, porque não haveria mais nações ou Estados para integrar.

Reacao Debil E Tardia

20 de setembro de 2007 | Jornal do Brasil

Em 17 de setembro de 1998, no Jornal da Tarde de São Paulo, denunciei a propaganda comunista mentirosa e emburrecedora que, a pretexto de ensinar História, o governo do sr. Fernando Henrique Cardoso — sim, o governo tucano — espalhava pelas escolas brasileiras. Mencionei especialmente, entre outras obras usadas para esse fim, a Nova História Crítica , de Mário Schmidt (v. ).

Não me limitei a expor esse e inumeráveis fatos similares. Tanto em livros e conferências quanto em artigos, mostrei, com todo o rigor possível, que não se tratava de episódios isolados, mas de uma imensa articulação estratégica baseada “revolução cultural” de Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano, da qual o então presidente da República se gabava de ser ainda melhor conhecedor e implementador do que seus amigos, concorrentes e depois sucessores petistas. Segundo essa proposta, o movimento revolucionário deveria conquistar o controle hegemônico da cultura, do imaginário social e dos debates públicos antes de se aventurar a introduzir mudanças radicais na política econômica ou na estrutura de poder.

Decorridos nove anos, O Globo finalmente conseguiu notar a existência do livro acima mencionado – como se fosse o único do mesmo teor — e, ao comentá-lo na coluna de Ali Kamel, ainda se gaba de fazê-lo “sem incomodar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia etc.”

Se até um jornalista competente como Ali Kamel leva quase uma década para notar o que está acontecendo, se o percebe somente por um ângulo isolado e se ao falar do assunto ainda se sente inibido de pedir ao leitor um pequeno esforço intelectual para apreender o conjunto de uma situação que nesse ínterim evoluiu do perigoso ao catastrófico, tão persistente letargia pode parecer estranha, mas não para mim. Sem medo de incomodar, informo aos interessados que hegemonia é precisamente isso: é dominar o fluxo das idéias ao ponto de controlar a velocidade de percepção do adversário, de modo que ele só note o perigo quando já não tenha mais tempo nem força para reagir.

De 1998 até agora, a ideologia comunista que entrou pelos livros de História se alastrou pelo sistema de ensino inteiro e infectou todas as disciplinas — até matemática e educação física –, de modo que para as novas gerações de estudantes brasileiros tudo o que escape da cosmovisão marxista se tornou inexistente e impensável. Como previa Gramsci, o “senso comum modificado” é algo de mais profundo e arraigado do que a mera crença consciente.

Ao longo desses anos, as organizações Globo, em parte iludidas pelo mito da morte do comunismo, em parte manipuladas desde dentro por agentes esquerdistas, não fizeram outra coisa senão colaborar com o empreendimento gramsciano, cultuando os santos do panteão comunista e glamurizando tudo aquilo que Roberto Marinho detestava.

Não espanta que, agora, ao emergir pouco a pouco de um longo torpor mental, o grupo não consiga esboçar senão gestos de reação débeis e acovardados, dizendo mui polidamente umas palavrinhas pró-capitalistas pela boca do sr. Eduardo Gianetti da Fonseca ou fazendo na coluna de Ali Kamel um eco parcial, tímido e quase inaudível a minhas denúncias de uma década atrás.

Também não espanta que, como prêmio de sua paternal solicitude para com os esquerdistas, a Globo agora receba deles toda sorte de insultos, acompanhados da ameaça de fazer com ela o que Hugo Chávez fez com a RCTV. Vocês não imaginam com que satisfação os comunistas atiram ao lixo um “companheiro de viagem” quando não precisam mais dele.

Em 20 de setembro de 2007

Oficialmente

20 de setembro de 2006 | Diário do Comércio

Um amigo, a quem considero o maior e mais sério conhecedor do problema do aborto no Brasil, me abre os olhos para esta seqüência de informações, cuja lógica implacável acaba diluída no fluxo diário de notícias:

1.

Em dezembro de 2004, Lula colocou oficialmente a legalização do aborto entre as prioridades do seu governo.

2.

Em abril de 2005, comprometeu-se com a ONU, oficialmente, a legalizar o aborto no país.

3.

Em agosto, escreveu uma carta à CNBB negando oficialmente qualquer intenção de realizar as promessas 1 e 2.

4.

Em setembro, começou a realizar ambas, enviando à Câmara um projeto de lei que descriminalizava oficialmente o aborto.

5.

Em dezembro, incluiu oficialmente a legalização do aborto entre as diretrizes do seu programa de governo para o segundo mandato.

Como a população brasileira é maciçamente contra o aborto, toda menção ao assunto, que por si só bastaria para arruinar a candidatura do engraçadinho, é meticulosamente evitada na sua campanha eleitoral. A grande mídia, obsequiosa e, aliás, comprometida por mil e um acordos com ONGs bilionárias e organismos internacionais abortistas, não faz ao candidato nenhuma pergunta a respeito.

É, portanto, oficial:

1.

Lula não tem o menor respeito pela sua própria palavra e pela sua própria assinatura, que ele põe oficialmente em qualquer papel que lhe interesse no momento, sem qualquer intenção de honrá-la. O critério do cronista José Simão para distinguir entre Lula candidato e Lula presidente continua portanto válido e infalível: “Quando ele promete merda, é candidato; quando faz merda, é presidente”. O caso do abortismo sugere apenas que nem sempre a matéria excrementícia prometida é aquela que vem a ser realizada: Lula não é confiável nem mesmo na sua produção fecal.

2.

Lula não tem o menor respeito pela religião que diz professar. Mas não me espanta que seja cínico ao ponto de tentar enganar a Igreja, uma vez que se acha esperto o bastante para enganar o próprio Deus, como o fez ao alegar que podia comungar sem confessar por ser “homem sem pecados”. veja:

http://www.olavodecarvalho.org /semana/050416globo.htm .

3.

Lula não tem o menor respeito pelo eleitorado, ao qual ele sonega informação essencial sobre seus planos de governo.

4.

Da minha parte, não tenho o menor respeito por Lula, que os fatos aqui relatados provam ser um farsante maquiavélico e perigoso. Qualquer palavrinha que eu tenha escrito em favor dele, mesmo décadas atrás e antes que eu soubesse da existência do Foro de São Paulo, deve ser-me perdoada como expressão da minha profunda estupidez e substituída por um palavrão equivalente e contrário.

5.

Muito menos tenho algum respeito pela grande mídia brasileira, que, com exceções, se tornou uma vasta societas sceleris empenhada em ocultar, por dinheiro ou por ambição de poder, tudo o que possa obstar a realização dos planos criminosos do Foro de São Paulo.

O Surrealismo No Poder

20 de novembro de 2008 | Diário do Comércio

Que Obama exibe por toda parte uma imagem de pura propaganda enquanto move céus e terras para ocultar os documentos essenciais sobre sua vida e sua carreira, é um fato que nem os adeptos mais fanáticos do presidente eleito conseguem negar. Também é certo que nenhum candidato ou presidente antes dele, nos EUA ou em qualquer outro país, se furtou tão obstinadamente ao dever de provar sua identidade. Mesmo os tiranos mais solidamente protegidos entre muralhas de segredos jamais se rebaixaram ao ponto de bloquear ao exame público documentos banais como um histórico escolar, uma ficha médica, uma tese de doutoramento, um certificado de alistamento militar. E note-se que Obama não se limita a escondê-los pessoalmente: montou para isso uma vasta operação-sumiço, mobilizando governadores e secretários de Estado, deputados, senadores, o presidente e o primeiro ministro de uma nação estrangeira, centenas de jornalistas e toda uma equipe de advogados caríssimos, tudo para impedir que os americanos saibam em quem votaram. Centenas de pedidos de abertura fundados no Freedom of Information Act , do qual nem segredos de guerra costumam escapar, foram solenemente ignorados. Ninguém se esforça tanto para se esconder se não tem nada a esconder.

Pavoneando-se como um pop star e ao mesmo tempo ocultando-se como um foragido da justiça, Obama tornou-se o personagem mais anormal, mais esquisito e mais suspeito que já ousou aproximar-se do Salão Oval, não digo para ocupá-lo, mas mesmo para visitá-lo: nenhum visitante entra lá sem mostrar os documentos na porta.

A situação torna-se ainda mais absurda e grotesca, porque nunca a checagem dos candidatos a cargos no funcionalismo público foi tão rigorosa quanto depois do advento de Obama: cada um, agora, tem de informar até se possui arma em casa – pergunta que os governos anteriores considerariam indecorosa.

O contraste entre a conduta de Barack Obama e a de todos os seus antecessores na presidência ou nas eleições é tão extremo e tão chocante, que continuar enfatizando a cor da sua pele é desviar as atenções para um detalhe menor. Um negro na presidência dos EUA, mais cedo ou mais tarde, era uma probabilidade bem maior, pelo menos, do que um na presidência de Cuba. Enquanto personagem moral, Obama é muito mais diferente de qualquer político normal do que um Zulu é diferente de um Viking.

Porém mais extravagante ainda é o esforço unânime da grande mídia e da cúpula democrata (duas entidades cada vez mais indiscerníveis) para fingir que tudo isso é normal e para estigmatizar como um abuso intolerável, uma prova de racismo ou um sintoma de paranóia toda veleidade de investigar a vida do presidente eleito. Numa comparação objetiva, essa campanha intimidatória é o mais vasto empreendimento de subversão psicológica já observado na história humana: é o establishment bilionário inteiro que se empenha com todas as suas forças em destruir rapidamente, na população, o discernimento moral mais elementar, o senso das proporções e a noção mesma de obrigações e direitos. Na verdade a subversão não é somente psicológica: a partir do instante em que se tenta consagrar a mera vitória nas urnas como um salvo-conduto para o presidente eleito ignorar a constituição, as leis e os mais mínimos requisitos de transparência, a democracia representativa está ameaçada de extinção, instaurando-se em seu lugar, da noite para o dia, a “democracia plebiscitária” de Jean-Jacques Rousseau. Nada mais lógico do que o regime inventado por um mentiroso compulsivo tornar-se realidade em benefício de outro mentiroso compulsivo.

Falando nisso, até agora a única tentativa bem sucedida de desencavar documentos de Obama por meio do Freedom of Information Act revelou ao público – depois das eleições, é claro – o alistamento militar do referido. Nos EUA não há serviço militar obrigatório, mas todo cidadão tem de se inscrever no “Selective Service”, à espera de uma possível convocação, entre os 18 e 26 anos. Obama, nascido em 1961, tinha prazo até 1987. Seu certificado de alistamento parece regular, pois está datado de 30 de julho de 1980. Só há dois detalhes:

(1) A data de impressão do formulário é 2008.

(2) O carimbo postal vem com a sigla USPO, “United States Post Office”, mas o nome da repartição foi mudado em 1970 para “United States Postal Service”, USPS, e todos os carimbos anteriores foram automaticamente invalidados.

Todo mundo sabe que Obama multiplica os pães e caminha sobre as águas. Agora revela-se que ele pode não só preencher formulários dezoito anos antes de que sejam impressos, mas também carimbá-los dez anos antes de preenchê-los. Se não é milagre, é pelo menos crime federal. Confiram aqui .

Em 20 de novembro de 2008

Um Ditador Na Casa Branca

20 de novembro de 2008 | Jornal do Brasil

Sendo o presidente da República um funcionário pago com o dinheiro do Estado, é direito inalienável de qualquer contribuinte certificar-se de que o beneficiário dos seus impostos preenche todas as condições para ocupar o cargo, condições que não se resumem à vitória eleitoral, mas abrangem também as exigências constitucionais definidas dois séculos antes das eleições. Tal como em qualquer concurso público, o ônus da prova aí incumbe integralmente ao candidato: cabe a ele apresentar os documentos que atestem suas qualificações, não ao Estado ou ao contribuinte provar que ele não as tem.

Se alguns juízes têm sentenciado ao contrário, é porque os cidadãos americanos que vêm questionando a eleição de Obama nos tribunais erram ao usar como argumento principal as dúvidas quanto à nacionalidade do presidente eleito. Mesmo que Obama houvesse nascido no Capitólio em 4 de julho, seria dele a obrigação de prová-lo com documentos válidos. A simples recusa de atender a essa obrigação bastaria para evidenciar o desprezo do candidato pela Constituição, desqualificando-o automaticamente para o cargo de supremo defensor dela e das leis. Colocando no centro da discussão o problema da nacionalidade em vez da falta de documentos, os queixosos atraem sobre si próprios o ônus da prova, enfraquecendo uma cobrança que, sem isso, nenhum juiz teria como deixar de atender.

Por mais razoáveis que sejam em si mesmas, dúvidas são apenas isso: dúvidas. A recusa de mostrar documentos, ao contrário, é um fato, o fato mais comprovado ao longo de todo esse episódio. Na verdade, é mais que simples recusa: é toda uma engenharia da ocultação, montada simultaneamente nos EUA e no Quênia, para impedir qualquer acesso não só à certidão de nascimento, mas a quase todos os documentos do presidente eleito, sem os quais nada que sua propaganda afirme sobre ele pode aceitar-se como verídico, exceto por um ato de fé irracional.

A anormalidade da situação não consiste tanto na possível presença de um estrangeiro na presidência, quanto no fato de que esse ato de fé vem sendo exigido de todos os cidadãos americanos como se fosse um dever óbvio e inquestionável, ao ponto de qualquer tentativa de resistir a ele por via judicial ser condenada oficialmente como “lixo” ( sic ) pela assessoria de Obama.

Diante desse estado de coisas, não tem sentido perguntar se o novo presidente “vai” ou “pretende” instalar na Casa Branca um governo ditatorial. Antes mesmo de ele tomar posse, um gigantesco esquema ditatorial, concebido deliberadamente para colocá-lo fora do alcance da Constituição e das leis, já está em pleno funcionamento, com a cumplicidade ativa da grande mídia inteira e de uma boa parcela do Partido Republicano. Mais grave ainda: tão logo o comando obamista se certificou de que a blindagem montada em torno de seu líder fora aceita passivamente pela maioria do eleitorado, a proibição de perguntar foi imediatamente ampliada para outros domínios. Primeiro, o Federal Reserve anunciou que não ia mais divulgar os nomes dos recebedores de dois trilhões de dólares em “empréstimos de emergência”, tornando virtualmente impossível a identificação dos responsáveis pela crise financeira. Segundo, a Comissão Federal Eleitoral recusou-se a investigar os 63 milhões de dólares em contribuições ilegais do exterior recebidas pela campanha de Obama.

Inacessível e intocável, o homem que não pode ser investigado já tem livre acesso aos mais altos segredos de Estado e prepara-se para reinar sob a dupla proteção da militância armada, transfigurada em “força civil de segurança pública”, e da Fairness Doctrine , que acabará com os programas radiofônicos de oposição.

Enquanto isso, os candidatos às sete mil vagas abertas no funcionalismo público federal são esquadrinhados nos mínimos detalhes das suas vidas (vetando-se desde logo os proprietários de armas), e toda expressão de hostilidade a Obama surgida na internet é vasculhada pelo Serviço Secreto em busca de sinais de “racismo”.

Em 20 de novembro de 2008

O Estupro Das Soberanias Nacionais

20 de março de 2006 | Diário do Comércio

A ONU está firmemente decidida a tornar o abortismo obrigatório em todas as nações do mundo, sob pena de sanções econômicas. É a mais vasta e brutal interferência uniformizante que um poder transnacional já ousou fazer em países nominalmente soberanos. A intromissão vai furar a casca jurídica e administrativa e ir direto aos fundamentos de cada sociedade. Será a extirpação completa das raízes morais e religiosas milenares de culturas inteiras – e não é preciso dizer que junto com esses fundamentos irão embora as respectivas identidades nacionais.

Nomeada e paga por Estados independentes, a burocracia internacional da ONU e da CE se empenha ativamente em destruí-los e em erguer-se acima deles como governo mundial. A decisão explícita nesse sentido já está tomada desde 1994: “Os problemas da humanidade já não podem ser resolvidos pelos governos nacionais. O que é preciso é um Governo Mundial. A melhor maneira de realizá-lo é fortalecendo as Nações Unidas” ( Relatório sobre o Desenvolvimento Humano ).

Até o momento, a imposição desse novo poder era camuflada e sutil. Decisões da alçada dos governos e parlamentos iam sendo, pouco a pouco, transferidas para comissões técnicas transnacionais, inteiramente protegidas de qualquer fiscalização pelos eleitorados. A soberania política, jurídica, econômica e militar das nações ia sendo cortada fatia por fatia, lentamente, sem que os povos afetados recebessem informação em tempo de organizar-se para reagir. Uma autêntica “operação salame” em escala global. Foi assim que a burocracia internacional conseguiu impor programas uniformes em matéria de educação, saúde, economia, etc., até mesmo às nações mais fortes e orgulhosas (a total devastação do ensino público americano foi obra da ONU, implantada com a cumplicidade de Jimmy Carter e George Bush pai). A obra-prima do maquiavelismo anestésico veio quando a Inglaterra, tradicionalmente refratária à promiscuidade internacional, consentiu em ceder ao escritório da Comunidade Européia, em Bruxelas, os poderes de decisão do governo de Londres quanto a orçamento, comércio, transportes, defesa nacional, relações internacionais, imigração, justiça e direitos humanos, reduzindo o Parlamento à condição de assembléia local subordinada (v.

http://www.olavodecarvalho.org /semana/030524globo.htm ). Uma pesquisa do jornal The Sun mostrou que 84 por cento dos ingleses ignoravam tudo a respeito.

A decisão quanto ao aborto assinala o que Mao Tsé-tung chamaria “salto qualitativo”: uma lenta acumulação quantitativa de fatores homogêneos muda, de repente, a natureza do processo. Décadas de manipulação sorrateira tornaram as nações suficientemente passivas para curvar-se, sem o mais mínimo questionamento, à imposição ostensiva de uma nova lei moral, contrária a tudo em que acreditaram durante séculos ou milênios.

Se há uma situação em que faz sentido falar de “genocídio cultural”, é essa. E não é preciso dizer que novas medidas do mesmo teor virão nos próximos anos, varrendo do mapa símbolos, valores, costumes e tradições que desagradem ao autonomeado governo do mundo. A profundidade e abrangência da mutação planejada vai além de tudo o que a imaginação banal dos politólogos acadêmicos e dos analistas econômicos da mídia pode hoje conceber.

De um lado, a substância ideológica dessa revolução é extraída diretamente do materialismo revolucionário do século XVIII: trata-se de criar uma sociedade global totalmente administrada e controlada por uma elite de intelectuais iluminados, porta-vozes da razão científica contra o obscurantismo das religiões e culturas tradicionais.

Mas todo esse racionalismo é somente uma casca brilhante construída para engodo das multidões (nisto incluído o “proletariado intelectual” das universidades). Por dentro, o iluminismo inteiro foi um amálgama tenebroso de ocultismo, magia, gnosticismo, sociedades secretas, rituais entre cômicos e macabros. Não há um só historiador sério que ignore isso.

Do mesmo modo, o laicismo “esclarecido” da nova ordem global é puro teatro. Suas fontes são as mesmas do ocultismo da “Nova Era”. Seus gurus são Helena Petrovna Blavatsky, Alice Bailey, Aleister Crowley e outros saídos do mesmo esgoto espiritual. Se duvidam, informem-se sobre um movimento denominado United Religions Initiative.

Já mencionei aqui o livro de Lee Penn, False Dawn: The United Religions Initiative, Globalism and the Quest for a One-World Religion , Hillsdale, NY, Sophia Perennis, 2004. Está tudo lá. Apelo ao leitor para que estude essa obra enquanto é tempo. São centenas de páginas de documentos de fonte primária, que não deixam a menor margem a dúvidas. O governo mundial que se forma diante dos nossos olhos tem um programa “religioso” bem definido: criar uma nova “espiritualidade global” biônica que domestique as religiões tradicionais e as nivele a qualquer seita ocultista, mágica, ufológica ou satanista, e na qual o objetivo essencial da atividade religiosa não seja o culto a Deus, mas a “reforma social” – na linha, é claro, escolhida pela burocracia.

A intelectualidade brasileira está radicalmente desqualificada para discutir essas mutações e suas conseqüências para o país. O destino nacional está sendo decidido por forças que ninguém, no Congresso, na mídia, nas universidades ou nas Forças Armadas, entende nem mesmo por alto. Nunca os cérebros foram tão pequenos para desafios tão grandes. As discussões a respeito são meros concursos de literatice provinciana, enquanto em volta tudo é arrastado na voragem de uma revolução que não é compreendida nem pelos seus próprios agentes locais.

Notícias do mundo real Quem quiser saber o que se passa no país e no mundo, que pare de ler os jornalões e comece a vasculhar a internet . Três exemplos:

Primeiro . Leio no site www.alertabrasil.blogspot.com que, segundo Leonardo Attuch, autor do livro “A CPI que Abalou o Brasil”, Mino Carta recebeu R$ 2,5 milhões do Mensalão para sua revista Carta Capital , cujo petismo fiel e intransigente fica assim explicado. O dinheiro saiu por ordem direta de Luiz Gushiken. Attuch informa que uma lista extensiva de jornalistas “amiguinhos do governo” está para vazar a qualquer momento. Que acontecerá a esses mensaleiros da mídia? O mesmo que aconteceu a seus oitocentos colegas subsidiados pela CUT em 1993. Nada. Continuarão posando de fiscais impolutos da moralidade alheia.

Segundo . No site www.vcrisis.com , você encontra tudo sobre a Venezuela – desde listas de presos, mortos e desaparecidos até acordos secretos de colaboração atômica entre Hugo Chávez e o governo da Coréia do Norte. Em represália contra essa mania de jornalismo, seu editor, Alexander Boyd, cidadão venezuelano auto-exilado na Inglaterra, é acusado pelos agentes chavistas de representar uma “conexão anglo-venezuelana” subsidiada pelo governo americano. Ameaçam até pedir sua extradição ao governo britânico, sob alegações que até o momento não consigo imaginar. Boyd é meu amigo, passou uns dias aqui em casa e asseguro que ele não tem onde cair morto. Se o governo americano o subsidia, o raio do cheque deve estar atrasado há anos.

Terceiro . Partindo de uma informação divulgada por mim tempos atrás, o blog www.cacom.blogspot.com cobrou da senadora Heloísa Helena uma explicação das relações perigosas entre seu partido e o terrorista italiano Achille Lollo, condenado pela justiça de seu país pelo assassinato dos dois filhos de seu inimigo político Mario Mattei, um deles de oito anos de idade, ambos queimados vivos num incêndio proposital. Com uma sentença de dezoito anos de prisão a cumprir na Itália, o terrorista vive no Brasil, sob proteção do governo ao qual a sra. Heloísa Helena finge fazer oposição ao mesmo tempo que continua a colaborar com ele no Foro de São Paulo. Lollo é co-fundador do PSOL e publica artigos de teoria marxista no jornal do partido da senadora.

Gabriel Castro, editor do blog , achou com razão que uma candidata à Presidência da República não poderia andar de mãos dadas com um parceiro tão sujo sem dar ao menos alguma satisfação à opinião pública. Ante a pergunta, a assessoria da senadora, que antes havia concordado com a entrevista, reagiu com quatro pedras na mão, fazendo pose de dignidade ofendida e espalhando no ar toda sorte de insinuações perversas para fugir de dar uma resposta. O jornal então avisou que iria publicar as perguntas sem as respostas , e a senadora, agora em pessoa, não perdeu a ocasião de se fazer de vítima, uma das técnicas de desconversa mais usuais nos meios esquerdistas: “Ameaça? Acha V.Sa. que eu tenho medo de alguma coisa? Passei a vida como sobrevivente tendo que engolir meus próprios medos, entendeu?”

Performance comovente, senadora. Mas, encerrado o espetáculo, cadê a explicação? Nada. Silêncio total. O blog então publicou as provas da participação de Lollo no PSOL, acompanhadas de um documento aterrorizante: a foto de uma das vítimas do incêndio, queimada mas ainda viva, tentando em vão escapar pela janela da casa em chamas.

O que achei mais bonito na reação da assessoria foi a pergunta insolente enviada a Gabriel Castro: “O seu público sabe quem é Olavo de Carvalho? Assim fica difícil agente ( sic ) fazer alguma coisa.” Que é que seus ajudantes querem dizer com isso, senadora? Que a senhora me conhece, que sabe a meu respeito algo de terrivelmente comprometedor que o editor do blog ignora? Pois então diga logo, madame. Na verdade, você não vai dizer é nada, nem contra mim nem a seu favor. Não vai dizer, porque não tem nada a dizer. Já está suja pela parceria com esse assassino monstruoso, sujou-se mais ainda por fugir da pergunta e, ao defender-se por trás de alusões difamatórias a um terceiro, completou a porcaria. O valente Gabriel Castro encerra o relato do episódio com uma conclusão incontornável: “Quando um entrevistado foge e não responde a uma pergunta, sem querer ele diz muito mais do que se houvesse respondido.”

Derrota completa Os soldados do Exército voltando aos quartéis, sob uma chuva de cusparadas da mídia, após uma frustrada incursão nos morros cariocas, são a imagem da derrocada aparentemente irremediável das nossas Forças Armadas. Desde o tempo em que optaram por responder às sucessivas ondas de calúnias com tímidas notinhas oficiais em vez dos processos judiciais devidos e moralmente obrigatórios, os comandantes das três armas mostraram sua disposição de sacrificar a dignidade das suas corporações no altar de uma simulação gramsciana de democracia e ordem. Depois passaram da omissão ao masoquismo explícito, condecorando os detratores das Forças Armadas, mostrando reverência indevida a um governo cúmplice das Farc e submetendo-se alegremente à ordem de transformar soldados em cavouqueiros a serviço do MST. Negando contra toda evidência o alcance militar e estratégico do narcotráfico no continente, deixaram crescer impunemente o inimigo, enquanto se vangloriavam de não se rebaixar a “funções policiais”. Fugindo à luta maior, à luta para salvar o país da trama continental urdida pela aliança macabra de comunistas e traficantes, agora só lhes resta tentar mostrar serviço saindo à cata de bandidinhos avulsos e provando que já não estão capacitadas nem para isso.

Mas, se nossas tropas têm capacidade para sufocar a bandidagem no Haiti, por que mostram um desempenho tão chinfrim no Rio de Janeiro? É simples: no Haiti não havia mídia hostil, não havia ONGs e políticos maliciando tudo, não havia a pressão de uma elite cheia de ódio e despeito à classe militar. Tiros e bombas não assustam o soldado brasileiro. O que o amedronta é o olhar perverso do beautiful people , a malícia difusa dos falsos moralistas, a língua pérfida dos maiores fofoqueiros do universo. É a esses que as nossas Forças Armadas, tão valorosas sob outros aspectos, foram cedendo tudo. Caluniadas, aviltadas, achincalhadas, sabotadas por todos os meios imagináveis, não souberam reagir com eficácia enquanto era tempo, e agora têm de inventar às pressas algum pretexto edificante para justificar sua transformação em tropa auxiliar do Foro de São Paulo. Quanto falta para isso? Depois que nossos soldados foram submetidos à tarefa humilhante de montar estandes para o Fórum Social Mundial, falta realmente muito pouco.

Nada disso teria acontecido se ao menos uma parte da alta oficialidade não se tivesse deixado induzir por pseudo-intelectuais fardados e civis a acreditar que, com a queda da URSS, a luta ideológica era coisa do passado e daí por diante o conflito Leste-Oeste tinha cedido lugar à concorrência Norte-Sul, ou países ricos contra países pobres. Engolindo essa estupidez infame, não percebiam – ou fingiam não perceber — que se tornavam intrumentos ao menos passivos da estratégia comunista internacional no instante mesmo em que proclamavam a morte do comunismo.

Bem sei que a maioria absoluta dos militares não quer nada disso. Já escrevi, e repito, que só na classe dos homens de armas encontrei no Brasil um genuíno patriotismo, um sentimento profundo da continuidade histórica do país como um legado de heroísmo e de sacrifícios. Sei que eles continuam fiéis ao seu primeiro amor. Mas o que pode haver de mais perturbador que o conflito de lealdades? Ser um militar brasileiro, hoje, é ter o coração dilacerado entre a obediência formal a um regulamento e o apego aos valores que o originaram. Normalmente, as leis são a expressão dos valores. Mas, quando estes são subvertidos por baixo da carapaça legal enquanto esta permanece intacta, aí se instaura a luta entre a forma e o conteúdo. Criar e explorar esse antagonismo, levando o país à confusão, ao cansaço, ao desespero e por fim à rendição, eis a obra da “revolução cultural” gramsciana. Ela não tem preferência pela farda do soldado, pela toga do magistrado, pelo terno do executivo ou pelo macacão do operário: ela divide e enfraquece todas as almas. Por sobre a derrota de todos, só o Partido se forlalece. E quando digo “partido”, não me refiro ao PT, mas ao complexo de partidos de esquerda bem articulados, por trás de suas divergências de superfície, na estratégia continental da subversão e do roubo. Se o sr. Luís Inácio da Silva, para assumir a presidência do país, abandonou a do Foro de São Paulo, isso é apenas uma formalidade administrativa sem alcance político nenhum. Depois que esse indivíduo confessou tomar decisões estratégicas em encontros secretos com ditadores estrangeiros, sem dar ciência delas ao Congresso ou à população, só mentalidades covardes demais para admitir a realidade podem continuar negando que o Brasil é governado desde o Foro de São Paulo, que Hugo Chávez e Fidel Castro mandam aqui dentro mais que qualquer ministro de Estado ou comandante militar. O país sabe que está de quatro, mas continua fazendo de conta que sua humilhação é motivo de orgulho. Decididamente, está havendo alguma confusão entre orgulho nacional e orgulho gay .

Recado Aos Judeus

20 de março de 2004 | O Globo

Tenho estudado bastante a questão do anti-semitismo; algumas entidades judaicas já me ouviram falar a respeito e sabem que não sou, no assunto, nenhum novato, nenhum ingênuo, nenhum palpiteiro leviano. Quem dedica longo tempo a um problema acaba por levantar perguntas que não ocorreriam ao recém chegado — e às vezes encontra respostas que parecem incompreensíveis e chocantes a quem não fez sequer as perguntas.

Em maio de 2002, quando a mídia esquerdista fazia alarde da ameaça anti-semita personificada no sr. Le Pen, escrevi: “Por que os judeus haveriam de confiar em quem os adverte contra um inimigo desarmado ao mesmo tempo que ajuda o inimigo armado? Por que a esquerda mundial estaria tão ansiosa para protegê-los contra um perigo futuro e hipotético na França, quando se esforça para entregá-los às garras de um perigo real e imediato na sua própria terra?”

Mas o anti-semitismo de Le Pen, por desarmado que fosse, ao menos era explícito e inegável. Já Mel Gibson proclama que os judeus não foram mais culpados do que ele próprio pelo assassinato de Cristo, e no entanto, segundo a mídia iluminada, há motivos para temê-lo como se fosse a Inquisição rediviva.

Deixarei para analisar mais tarde o filme que deu pretexto à celeuma. Por enquanto só quero chamar a atenção para um detalhe: vocês não notaram nada de estranho no súbito acesso de filojudaísmo que se apossou da intelligentzia esquerdista mundial? Aqueles mesmos que endossaram a farsa do “massacre de Jenin”, aqueles mesmos que comparavam Ariel Sharon a Adolf Hitler aparecem hoje com o coração transbordante de zelos fraternais, vendendo ao povo judeu proteção contra o temível genocida Mel Gibson. Vocês vão cair nessa? O Papa, que sempre foi seu amigo leal, diz que não há perigo, que “A Paixão de Cristo” não infunde sentimentos anti-semitas em ninguém (recentes sondagens do Institute for Jewish Research mostram que não infunde mesmo), e vocês hão de preferir dar ouvidos àqueles sujeitos que na conferência de Durban tramaram para condenar o sionismo como “ideologia racista”? Abraham Foxman já retirou as acusações, intelectuais sionistas como David Horowitz asseguram que Gibson é inocente, e vocês hão de dar mais crédito àquelas lindas criaturas que, contra a intervenção no Iraque, saíram gritando pelas ruas de Nova York de mãos dadas com Louis Farrakhan e David Duke? Hão de se precaver contra uma hipótese rebuscada enquanto se expõem ao perigo manifesto de aceitar os serviços de advogados indignos de crédito, entre os quais, no Brasil, gente bem articulada com o Foro de São Paulo e, através dele, com o terrorismo islâmico? Hão de se deixar manipular como os eleitores espanhóis e, ludibriados pelos inimigos, voltar-se contra os amigos? Algo no meu íntimo diz que não, que essa tragédia postiça não chegará ao medonho desenlace planejado.

Mas a mídia esquerdista sabe combinar a supressão dos fatos com a produção de factóides. O pronunciamento oficial do Papa em favor do filme foi omitido ou abafado em quase todos os jornais brasileiros. As opiniões de judeus americanos pró-Gibson foram totalmente excluídas, para criar a falsa impressão de unanimidade hostil. Em compensação, publicou-se uma longa entrevista com o líder de um grupo ultramontano em São Paulo, que endossa a culpabilidade hereditária “dos” judeus no assassinato de Cristo. Vocês lêem e vêem aí a prova de que “os” católicos conservadores são mesmo anti-semitas. O que ninguém lhes informa é que o referido é um tipo isolado, detestado igualmente na TFP, na Sociedade de S. Pio X e em todos os meios tradicionalistas que ele ali parece representar.

Meu recado aos judeus é simples: nenhum mal lhes virá pelo lado cristão. Os inimigos de Israel são hoje os inimigos da cristandade. Se vocês querem mesmo saber de onde vem o perigo, leiam o livro do rabino Marvin S. Antelman, To Eliminate the Opiate (Jerusalem, The Zionist Book Club, 2 vols.). Não precisam endossar o diagnóstico em detalhes. Mas verão que, em linhas gerais, ele está na pista certa — e essa pista passa a muitas léguas de Mel Gibson.

Em 20 de março de 2004

Lutando Contra Um Fantasma

20 de maio de 2013 | Diário do Comércio

Sempre que um intelectual esquerdista do Terceiro Mundo abre a boca para atacar a “direita”, o mínimo que se pode esperar da sua performance é uma confusão dos diabos. Desde logo, o objeto das suas imprecações não existe substancialmente: é uma sombra projetada pela aglomeração casual de entidades diversas que, por motivos heterogêneos e não raro incompatíveis entre si, atravessaram o caminho do processo revolucionário.

Para não admitir que dispara a esmo contra alvos dispersos, que simplesmente odeia toda sorte de discordâncias venham de onde vierem, ele tem de inventar por trás desse caleidoscópio de diversidades a unidade fictícia de uma impossível “internacional direitista”, fundindo num só corpo de intenções, concepções ideológicas e planos estratégicos o nazismo e o sionismo, o Papa e a Maçonaria, os libertarians e os saudosistas do Ancien Régime, o racismo evolucionista e o fundamentalismo evangélico, e até – no caso brasileiro – as facções da própria esquerda que, por um restinho de escrúpulos democráticos, se oponham a tal ou qual medida governamental do dia.

Mesmo uma inteligência mediana basta para perceber que essas várias correntes são tão estranhas umas às outras que a simples hipótese de se sentarem em torno de uma mesa para discutir suas divergências é utópica no mais alto grau; mas o esquerdista tem de descer abaixo do mediano para poder continuar acreditando que luta contra um inimigo determinado e não, como de fato ocorre, contra todo o restante da espécie humana.

É certo que a esquerda também tem suas contradições e antagonismos internos, mas, de um lado, isso nunca impediu que suas facções diversas mantivessem um intenso diálogo e se unissem, a todo instante, para iniciativas de envergadura mundial que surpreendem pelo sinergismo dos objetivos e pela simultaneidade dos meios.

De outro lado, é fato notório que, entre os “direitistas”, só uns poucos consentem em perceber os sinais dessa unidade estratégica e organizacional que prevalece sobre todas as dissensões ideológicas e táticas; a maioria prefere enfatizar as diferenças e incompatibilidades, na esperança louca de dividir as forças do adversário, sem notar que qualquer concessão feita a uma das facções da esquerda resulta sempre, mais cedo ou mais tarde, em vantagem para todas elas.

Se o esquerdista insiste em enxergar o que não existe, o direitista em geral recusa-se a enxergar o que existe; fato que, por si mesmo, já reflete a homogeneidade de um lado e a heterogeneidade do outro. Pois, afinal, todas as correntes de esquerda remontam à fonte comum de uma teoria unificada da História, enquanto as raízes da “direita” são diversas e incompatíveis na origem, como o Papado e a Reforma, o evolucionismo e o evangelismo, o individualismo liberal de Adam Smith e o organicismo social de Adam Müller, o nacionalismo extremado dos fascistas e o globalismo da elite bancária.

O fato, porém, de que o monstro direitista seja uma entidade inexistente, de que portanto o discurso ideológico esquerdista seja perfeitamente fictício, não implica nenhuma desvantagem para a política de esquerda. Ao contrário: como todo discurso ideológico, esse não visa a descrever uma realidade, mas a fundar e reforçar a identidade do grupo militante, o que, é claro, se obtém muito mais facilmente brandindo diante dele a imagem odiosa de um fantasma do que forçando-o a um confronto desnorteante com a complexidade dos fatos.

A unidade fictícia do fantasma projeta-se retroativamente sobre a mentalidade do grupo, exercendo sobre ela um influxo não só unificante, mas encorajador: quem não parte para o combate com mais bravura quando carrega num recanto obscuro da alma a suspeita secreta de que o adversário é de brinquedo?

O impulso incoercível de projetar o ódio do grupo contra unidades fictícias cresce às vezes até as dimensões do mais grotesco hiperbolismo, desembocando na total desconexão psicótica com a realidade ambiente, mas sem que por isso seu efeito sobre a plateia se atenue no mais mínimo que seja.

A diatribe recente da professora Marilena Chauí contra a classe média exemplifica-o com a maior nitidez. A imagem da pequena burguesia como classe intrinsecamente reacionária, produtora, na melhor das hipóteses, de intelectuais revolucionários vacilantes e indignos de confiança, é um dos chavões mais antigos da retórica marxista. Aparece, volta e meia, nos escritos de Lênin, Stálin, Mao e tutti quanti.

A Profa. Marilena não fez senão repeti-lo pela milionésima vez, com a diferença de que o fez, sem notar nenhuma incongruência, para uma plateia constituída integralmente de membros da classe condenada e em nome de um partido cujos militantes e eleitores são recrutados eminentemente nessa mesma classe. Isso não impediu que a professora fosse aplaudida por ouvintes que, igualando o nível de alienação da conferencista, nem de longe se sentiram envolvidos na generalização depreciativa em que ela os enquadrava.

Não, não venham me falar de paralaxe cognitiva. Inventei esse termo para descrever o deslocamento entre o eixo da construção teórica e o da experiência direta tal como esse fenômeno aparece em sistemas complexos de filosofia, onde erros dessa natureza podem passar despercebidos até a grandes inteligências.

Fora De Pareo

20 de junho de 2011 | Diário do Comércio

Em artigo recentemente publicado no Estadão ( http://www.estadao.com.br/noticias/geral,a-direita–o-papagaio-e-o-facao,726992,0.htm ), Eugênio Bucci, que se diz professor universitário e, pior ainda, talvez o seja realmente, denuncia, com horror sacrossanto, a emergência de uma nova direita que tem o desplante, a arrogância, a intolerável empáfia de ir além do limite que lhe foi fixado pela esquerda – a defesa da economia de mercado – e externar opiniões até mesmo em assuntos morais, culturais e filosóficos.

Contra esse abuso criminoso das liberdades civis, Bucci não perde tempo refutando argumentos: dispara contra o objeto de sua indignação cívica o arsenal inteiro dos chavões consagrados (“intolerância”, “xenofobia”, “anacronismo”, “sanha persecutória”, “fundamentalismo”, “prepotência”, “extremismo”, “retrocesso”, etc. etc.) e sai todo satisfeito, acreditando que disse alguma coisa.

Incapaz de fornecer um só exemplo concreto de ação ou opinião que mereça esses rótulos, ele apela à clássica inversão revolucionária de ataque e defesa, qualificando de “perseguição aos homossexuais no Congresso” o esforço que católicos e evangélicos têm feito para defender-se de uma lei inventada com o propósito explícito de levá-los todos à cadeia por “crime de homofobia”. Inversão tanto mais insultuosa e ridícula porque, no caso, o perseguido tem a força do governo, da grande mídia, do show business e do establishment universitário, enquanto o perseguidor não tem sequer a totalidade dos púlpitos nas igrejas. O lobo da fábula inventou mil e uma contra o cordeiro, mas não o acusou de persegui-lo.

Esquivando-se ao debate com representantes nacionais da tal direita, dos quais parecia estar falando, Bucci ataca à distância a sra. Marine Le Pen por defender a opinião hediondamente direitista de que o escândalo Strauss-Kahn revela algo da podridão moral da classe política francesa – como se não fosse prática geral, centenária e obrigatória, entre esquerdistas, apontar cada sem-vergonhice pessoal de líderes, governantes ou empresários como prova da ruindade intrínseca do capitalismo.

Chega a ser admirável o despudor com que o articulista do Estadão ostenta em público sua incapacidade (ou recusa) de raciocinar com algum senso de eqüidade, de justiça, de equilíbrio. “O fato de ser acusado de um crime sexual não transforma Strauss-Kahn no representante de uma elite estupradora”, protesta ele (fingindo ignorar que a noção mesma de “elite estupradora” é uma invenção da esquerda feminista), e já dois parágrafos adiante joga sobre nós, os porta-vozes daquilo que ele chama “direita histriônica”, a responsabilidade por “assassinatos de líderes ambientalistas”, como se o fato de escrevermos contra a União Européia ou a PL-122 nos transformasse em mandantes de crimes no interior do Brasil. O desejo irrefreável de imputar culpas mediante associações fantasiosas já é imoral o bastante, mas Bucci soma à calúnia o insulto quando reconhece que os autores daqueles crimes jamais foram descobertos, donde se conclui que, na cabeça dele, a total incerteza quanto aos agentes materiais do delito é fonte de certeza quanto aos seus culpados intelectuais remotos. Será exagero meu dizer que esse professor de moralidade tem um senso moral pervertido, baseado em ódio insano e sem o mínimo controle racional?

Mas, hiperbólico e desgovernado o quanto seja nos seus julgamentos morais, Bucci não é destituído daquele senso de autopreservação que é, na esfera da mesquinharia humana, a versão caricatural da prudência evangélica. Ao fulminar a direita no tom de um Júpiter tonitroante, ele não ousa citar por nome um só teórico ou polemista da execrada corrente. Limita-se a aludir de passagem ao deputado Jair Bolsonaro, que não é nem uma coisa nem a outra e que, sendo pessoa alheia aos debates intelectuais, não lhe oferece o menor perigo de um revide.

Escrevendo com os típicos esgares patéticos de quem se esmera na ginástica impossível de alegar indiferença superior enquanto gesticula e berra para infundir na platéia o temor de um perigo iminente, ele torna ainda mais problemática essa operação, já de si complexa, ao fundi-la com o esforço teatral de fingir coragem ante adversários que ao mesmo tempo insiste em conservar ausentes, anônimos e abstratos. Quando ele os chama “histriônicos”, é impossível não ver nisso o mecanismo grosseiro e típico da acusação projetiva.

Se o estilo é o homem, Eugênio Bucci está definitivamente fora de páreo em qualquer debate sério. Falta-lhe franqueza, consistência e aquele mínimo de controle autocrítico sem o qual o melhor mesmo é só puxar discussão com entidades genéricas, fugindo ao confronto com interlocutores de carne e osso.

Em 20 de junho de 2011

Como Debater Com Esquerdistas

20 de junho de 2007 | Diário do Comércio

Os liberais e conservadores deste país nunca hão de tirar o pé da lama enquanto continuarem acreditando que nada mais os separa dos esquerdistas senão uma divergência de idéias, apta a ser objeto de polidas discussões entre pessoas igualmente honestas, igualmente respeitáveis. A diferença específica do movimento revolucionário mundial é que ele infunde em seus adeptos, servidores e mesmo simpatizantes uma substância moral e psicológica radicalmente diversa daquela que circula nos corações e mentes da humanidade normal. O revolucionário sente-se membro de uma supra-humanidade ungida, portadora de direitos especiais negados ao homem comum e até mesmo inacessíveis à sua imaginação. Quando você discute com um esquerdista, ele se apóia amplamente nesses direitos, que você ignora por completo. A regra comum do debate, que você segue à risca esperando que ele faça o mesmo, é para ele apenas uma cláusula parcial num código mais vasto e complexo, que confere a ele meios de ação incomparavelmente mais flexíveis que os do adversário. Para você, uma prova de incoerência é um golpe mortal desferido a um argumento. Para ele, a incoerência pode ser um instrumento precioso para induzir o adversário à perplexidade e subjugá-lo psicologicamente. Para você, a contradição entre atos e palavras é uma prova de desonestidade. Para ele, é uma questão de método. A própria visão do confronto polêmico como uma disputa de idéias é algo que só vale para você. Para o revolucionário, as idéias são partes integrantes do processo dialético da luta pelo poder; elas nada valem por si; podem ser trocadas como meias ou cuécas. Todo revolucionário está disposto a defender “x” ou o contrário de “x” conforme as conveniências táticas do momento. Se você o vence na disputa de “idéias”, ele tratará de integrar a idéia vencedora num jogo estratégico que a faça funcionar, na prática, em sentido contrário ao do seu enunciado verbal. Você ganha, mas não leva. A disputa com o revolucionário é sempre regida por dois códigos simultâneos, dos quais você só conhece um. Quando você menos espera, ele apela ao código secreto e lhe dá uma rasteira.

Você pode se escandalizar de que um desertor das tropas nacionais seja promovido a general post mortem enquanto no regime que ele desejava implantar no país o fuzilamento sumário é o destino não só dos desertores, mas de meros civis que tentem abandonar o território. Você acha que denunciando essa monstruosa contradição acertou um golpe mortal nas convicções do revolucionário. Mas, por dentro, ele sabe que a contradição, quanto menos explicada e mais escandalosa, mais serve para habituar o público à crença implícita de que os revolucionários não podem ser julgados pela moral comum. A derrota no campo dos argumentos lógicos é uma vitória psicológica incomparavelmente mais valiosa. Serve para colocar a causa revolucionária acima do alcance da lógica.

Você não pode derrotar o revolucionário mediante simples “argumentos”. A eles é preciso acrescentar o desmascaramento psicológico integral de uma tática que não visa a vencer debates, mas a usar como um instrumento de poder até mesmo a própria inferioridade de argumentos. Em cada situação de debate é preciso transcender a esfera do confronto lógico e pôr à mostra o esquema de ação em que o revolucionário insere a troca de argumentos e qual o proveito psicológico e político que pretende tirar dela para muito além do seu resultado aparente.

Mas isso quer dizer que o único debate eficiente com esquerdistas é aquele que não consente em ficar preso nas regras formais num confronto de argumentos, mas se aprofunda num desmascaramento psicológico completo e impiedoso. Provar que um esquerdista está errado não significa nada. Você tem é de mostrar como ele é mau, perverso, falso, deliberado e maquiavélico por trás de suas aparências de debatedor sincero, polido e civilizado. Faça isso e você fará essa gente chorar de desespero, porque no fundo ela se conhece e sabe que não presta. Não lhe dê o consolo de uma camuflagem civilizada tecida com a pele do adversário ingênuo.

Em 20 de junho de 2007

Chavez Lula E Gurdjieff

20 de julho de 2010 | Diário do Comércio

Na opinião do sr. Hugo Chávez, que com leves diferenças de nuance é a mesma do nosso governo e da nossa mídia, as Farc, que assaltam, seqüestram e matam a granel, não são uma organização terrorista de maneira alguma; terrorista é a TFP, que nunca matou um mosquito nem sugeriu o roubo de uma azeitona.

Quando lhes digo que o traço essencial e permanente da mentalidade revolucionária é a inversão psicótica, não estou brincando, nem exagerando, nem fazendo figura de retórica: estou apontando um dos fatos mais bem documentados da história cultural dos últimos séculos – um fato que pode ser verificado tanto nas estruturas gerais do pensamento revolucionário quanto nas atitudes práticas e até nos detalhes de linguagem de seus representantes mais notórios.

Quando o sr. Luís Inácio Lula da Silva se recusa a dizer uma palavrinha em favor de um preso político cubano em greve de fome, alegando escrúpulos de interferir nos assuntos internos de uma nação estrangeira, ao mesmo tempo que ajuda a reintroduzir no território hondurenho um presidente banido e se gaba de ter metido gostosamente o bedelho do Foro de São Paulo nos plebiscitos venezuelanos, ele ultrapassa os limites da mentira política normal, que no mínimo respeita um pouco o senso do verossímil: ele entra com as quatro patas no campo da inversão psicótica, chocando a platéia ao ponto de idiotizá-la, dessensibilizando-a para o absurdo do que está ouvindo.

Embora esse modo de falar possa se consolidar como vício ao ponto de seu próprio usuário se tornar insensível à maldade que pratica quando o emprega, na verdade ele se originou como uma técnica psicológica muito bem elaborada. Denomino-a “impressão paradoxal”, embora na bibliografia seja citada também com outros nomes, como “dissonância cognitiva” ou “psicose informática”. Georges Ivanovitch Gurdjieff, o maior gênio do charlatanismo esotérico, usava esse tipo de discurso para estontear seus discípulos e reduzi-los a uma obediência canina. Por exemplo, ele mobilizava todo o arsenal lógico do materialismo científico para persuadi-los de que eram apenas máquinas, de que não tinham alma nenhuma, e em seguida afirmava, com a maior seriedade, que poderiam adquirir uma alma... mediante uma certa quantia em dinheiro.

O sujeito que ouvia uma coisa dessas caía imediatamente numa zona nebulosa entre a piada e a realidade, sem saber como reagir ante a impressão paradoxal. Reaplicada a técnica um certo número de vezes, o infeliz perdia todo interesse em compreender racionalmente a situação e daí por diante se deixava conduzir pelo mestre como uma vaca puxada pela argola do nariz.

Quando Gurdjieff introduziu essa técnica no Ocidente, talvez nem ele próprio imaginasse a velocidade com que ela se disseminaria entre os políticos e os intelectuais ativistas, como um instrumento perfeito para tornar as massas incapazes de diferenciar entre a percepção humana normal e a inversão psicótica.

Adolf Hitler, que consta ter recebido a influência de um discípulo de Gurdjieff (Klaus Haushoffer), criou uma técnica oratória inteiramente baseada na impressão páradoxal, articulando o grotesco e o temível de modo que a platéia sentisse ao mesmo tempo o desejo de rir dele e o medo de ser punida por isso. Que fazer então, senão jogar fora o próprio cérebro e trocá-lo por uma recompensadora aceitação passiva do que desse e viesse? ( Mutatis mutandis , foi por esse mesmo artifício que o sr. Lula transmutou, no coração do seu público, a piedade em admiração fingida, e a admiração fingida em bajulação compulsiva.)

Os comunistas deram um uso muito mais amplo a essa técnica, extorquindo do seu público a aprovação a crimes hediondos em nome dos sentimentos mais altos e sublimes, forçando a elasticidade moral até o último limite do humanamente suportável. A contradição internalizada acumulava-se no inconsciente até o ponto em que as vítimas estourariam se não descarregassem seus sentimentos de culpa sobre algum bode expiatório, acusando-o de toda sorte de delitos imaginários. Daí a facilidade com que o público – não só o exército dos militantes, mas a vasta massa dos intoxicados pela “onipresença invisível” da cultura revolucionária – perde todo senso de verossimilhança e acaba aceitando como razoável a conversa idiota de que a TFP é uma organização de alta periculosidade ou de que o sr. Alejandro Peña Esclusa, malgrado seu diploma de engenheiro, guardava em casa, ao lado do quarto onde dormiam suas três filhas pequenas, explosivos suficientes para fazer seu prédio voar em cacos.

Em 20 de julho de 2010

Capitalismo E Liberdade Iii

20 de julho de 2002 | 20 de julho de 2002

No próximo dia 31 de julho, Milton Friedman completará noventa anos de idade.

O papel do governo em uma sociedade livre é o objeto do segundo capítulo do livro “Capitalismo e Liberdade”, de Milton Friedman, sobre o qual discorrerei aqui, encerrando a série de comentários que me propus fazer sobre a obra. Ele é taxativo: “Por mais atraente que possa o anarquismo parecer como filosofia, ele não é praticável em um mundo de homens imperfeitos. As liberdades dos homens podem entrar em conflito e quanto isso acontece a liberdade de uns deve ser limitada para preservar a de outros”.

O Estado é visto pelo autor como uma espécie de árbitro: “Do mesmo modo que um bom jogo exige que os jogadores aceitem tanto as regras quanto o árbitro, encarregado de interpretá-las e de aplicá-las, uma boa sociedade exige que seus membros concordem com as condições gerais que presidirão as relações entre eles...“. Friedman afirma que, consoante a sua tese de que é preciso separar o mais possível o poder econômico do poder político, que “quanto maior o âmbito de atividades cobertas pelo mercado, menor o número de questões para as quais serão requeridas decisões explicitamente políticas”.

Enquanto árbitro, o governo precisa garantir as regras, pois a “organização de atividade econômica através da troca voluntária presume que se tenha providenciado, por meio do governo, a necessidade de manter a lei e a ordem para evitar a coerção de um indivíduo por outro; a execução de contratos voluntariamente estabelecidos; a definição do significado de direitos de propriedade, a sua interpretação e a sua execução; o fornecimento de uma estrutura monetária”.

Friedman gasta alguns parágrafos do seu texto para analisar o problema dos monopólios e a sua relação com o governo.Embora reconheça que, “na prática, o monopólio freqüentemente, se não geralmente, origina-se de apoio do governo ou de acordos conspiratórios”, ele reconhece que em algumas situações ocorre o chamado “monopólio técnico”, cabendo três alternativas de ação: monopólio privado, monopólio público ou regulação pública. Ele não tem uma resposta pronta, uma regra geral, para os casos de monopólio natural. Cada situação deveria ser examinada para se ver o posicionamento adequado do governo.

A fato é que no Brasil sabemos em que dá o monopólio público, natural ou não. É sempre uma fábrica de favorecimentos e de esbulho dos consumidores indefesos, como vemos hoje no caso dos derivados de petróleo e da energia elétrica. Penso que o melhor mesmo é que a iniciativa privada realize a produção econômica em qualquer situação, cabendo ao governo fazer a regulação, para que não se permita que o abuso estatal seja substituído pelo abuso privado. Em qualquer caso, penso que o governo jamais deverá ser um produtor direto de bens e serviços.

Esses são os pontos mais relevantes do capítulo. Fridman fecha o texto insistindo que “o liberal consistente jamais é um anarquista”. Tenho de concordar com ele. O Estado pode ser um legítimo defensor da Ordem, uma necessidade para a humanidade. O anarquismo não é alternativa. Uma estrutura de poder democrático é a maneira mais inteligente de se controlar as tentações totalitárias sempre implícitas por parte dos agentes do Estado. Para tanto, é preciso impor como regra fundamental a separação completa entre o poder econômico e o poder político.

Sempre que me debruço sempre esse assunto – a relação entre política e economia – releio com proveito o artigo de Olavo de Carvalho, datado de 16/09/1999, intitulado “Dinheiro e Poder”, publicado no Jornal da Tarde. Friedman concordaria com ele. Segundo o filósofo, tornar um homem rico ou “mais rico” não torna os demais mais pobres. Com o poder a coisa é diferente. O “mais poder” se faz sempre em um jogo de soma zero, de modo que alguém só se torna mais poderoso se os demais forem submetidos.

O Estado é necessário, sim, porém a vigilância sobre ele deve ser cerrada, sem tréguas, permanente. Senão, o monstro cresce e escraviza a todos nós.

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP Em 20 de julho de 2002

Leituras

Manipulando As Forcas Armadas

20 de julho de 2002 | Época

O corte das verbas militares é, com toda a obviedade, mais uma etapa da pertinaz campanha de destruição das nossas Forças Armadas. Resta saber quem dirige essa campanha e com que fins.

Muitos recusam-se a fazer essa investigação, alegando que não há nada a investigar. Já sabem de onde vem a coisa: vem “dos americanos”. Baseados nessa certeza, agentes da esquerda ocupam espaço na ESG e nas academias militares, cortejam a oficialidade, exploram seus sentimentos patrióticos e buscam integrá-la na grande estratégia anti-americana da revolução continental.

Mas o diagnóstico que vendem ao público militar omite alguns detalhes essenciais:

1) O governo FHC que estaria assim hipoteticamente a serviço do imperialismo norte-americano promove a glorificação dos guerrilheiros comunistas da década de 70, muitos dos quais, ainda vivos, são eles mesmos os atuais propugnadores da aliança “anti-imperialista” com os militares.

2) O mesmo governo que reduziu à míngua as Forças Armadas alimenta o MST com verbas substanciosas sem as quais ele jamais teria se tornado a temível força revolucionária que hoje é.

3) A grande mídia nacional que a esquerda acusa de servir ao imperialismo é o principal instrumento da propaganda esquerdista no país, falseando as notícias sobre o Oriente Médio, encobrindo os crimes de Cuba e da China com um véu de silêncio protetor, usando uma linguagem na qual “conservador” é sinônimo de malvado, bombardeando as Forças Armadas com denúncias escandalosamente falsas de atrocidades anticomunistas e dando força a conluios de jornalistas e promotores para usurpar o papel das seções de inteligência das Forças Armadas de modo a torná-las inofensivas contra a violência revolucionária da aliança MST-Farc.

4) Nas relações com os militares, a esquerda segue uma divisão de tarefas demasiado evidente para não denotar manipulação premeditada: seus ataques às Forças Armadas vêm sempre através de seus agentes na mídia e nas entidades “de direitos humanos”, nunca das lideranças políticas, poupadas para fazer no jogo pavloviano da estimulação contraditória o papel do queijo, não o do choque. O sr. Miguel Arraes, por exemplo, merece o Troféu Camembert do ano.

5) As pressões imperialistas mencionadas acima vieram substancialmente durante a gestão do sr. Clinton, o mesmo que, eleito com a ajuda financeira da China, debilitou as Forças Armadas dos EUA, desmantelou a CIA e o FBI, transferiu o controle de zonas estratégicas para uma estatal chinesa, bloqueou as investigações sobre espionagem no laboratório nuclear de Los Alamos e abarrotou de equipamentos militares e de informação privilegiada o maior agressor potencial do seu país (v. Bill Gertz, “The China Threat”, Washington, 2002).

6) As ONGs acusadas de meter o dedo imperialista no território amazônico não são em geral americanas, mas européias. Servem à CEE, a mesma entidade que dá dinheiro para o sr. Yasser Arafat comprar armas e, de parceria com a ONU, promove a criação de um Tribunal Penal Internacional feito sob medida para criminalizar os EUA e Israel. E quem aplaude as ambições separatistas indígenas que põem em risco a integridade nacional não é o “imperialismo ianque”: é a mídia esquerdista européia.

7) A esquerda é hoje o único movimento político e cultural organizado globalmente, capaz de operações de desinformação em escala mundial.

Da exposição dos fatos, duas perguntas decorrem:

1) Se a máquina estatal americana pode ser manipulada pela desinformação esquerdista, acabando por colaborar servilmente com seu inimigo chinês, por que não poderia, pelos mesmos meios, ser induzida a adotar no Brasil e na AL em geral uma política que fomenta o anti-americanismo entre os militares da região?

Dolares E Vacinas

20 de julho de 2000 | Jornal da Tarde

AVISO: Cometi neste artigo um medonho erro de concordância, que passou impune pelos meus olhos de lince bêbado e pela revisão, em geral competentíssima, do Jornal da Tarde: “o entusiasmo... não são”. Não liguem não. É apenas senilidade precoce. – O. de C.

Tenho dito e repetido que o entusiasmo “ético” por trás de CPIs, tentativas de impeachment e violentas campanhas de imprensa contra “os corruptos” não são nem serão jamais outra coisa senão manobras sórdidas para extirpar do cenário as lideranças políticas indesejáveis e preparar o caminho para um Estado policial.

Que democratas de velho feitio udenista se deixem iludir pelas aparências e se prestem a colaborar com um empreendimento que simula realizar seus elevados ideais de moralidade e transparência, isso não muda em nada a natureza profunda da operação, que é maliciosa e golpista até a medula e que terminará por destruir esses mesmos ajudantes quando a vitória os houver tornado inúteis.

A prova mais decisiva está na seleção nitidamente facciosa dos casos que devem ser investigados e dos que devem ser protegidos sob um manto de silêncio e paternal cumplicidade. Um exemplo já antigo foram os empréstimos irregulares ao governo comunista da Polônia, uma trapaça bilionária que meu amigo José Osvaldo de Meira Penna, de vez em quando, busca em vão desenterrar do esquecimento. Embora o prejuízo brasileiro no episódio fosse muito superior às quantias cujo sumiço resultou na deposição de um presidente da República, e embora todos os implicados pelo lado polonês tenham ido para a cadeia, seus cúmplices brasileiros foram poupados até mesmo de humilhações verbais, por serem protegidos da cúpula esquerdista que já começava a dominar e hoje domina completamente a máquina nacional de denúncias e investigações. Outro caso foi o dos “arapongas” do PT, infiltrados em todos os órgãos do governo, surrupiando documentos para minar reputações e criando – justamente nos anos em que o governo federal, fechado o SNI, ficara sem assessoria na área de informações – um vasto serviço secreto privado, a mando dos interesses de um grupo político. Malgrado as denúncias do governador Esperidião Amin, ninguém achou que a ação desse poder estatal paralelo fosse mais digna de investigação do que miseráveis desvios de verbas feitos por politiqueiros do interior.

Mas não é preciso ir buscar exemplos no passado. Há apenas três semanas o dr. Isaías Raw, do Instituto Butantã, denunciou que as famosas vacinas cubanas contra a meningite B, que já custaram ao Brasil nada menos de US$ 300 milhões, são perfeitamente ineficazes para o principal grupo de risco dessa doença, as crianças de 4 anos ou menos.

A denúncia não ecoou no Brasil. Saiu no Diário Las Américas, dos exilados cubanos em Miami, no dia 28 de junho, e circula pela Internet, o “samizdat” eletrônico a que têm de recorrer os portadores de notícias proibidas.

A compra desses medicamentos foi praticamente imposta ao Brasil pelo lobby fidelista no Congresso norte-americano, quando um grupo de 110 parlamentares persuadiu a secretária Madeleine Albright de que as vacinas, até então jamais testadas fora de Cuba, eram o máximo em matéria de prevenção da meningite B.

Confiando na palavra desses sujeitos e na de um ministro cubano “doublé” de garoto-propaganda, o governo brasileiro encomendou logo 15 milhões de doses.

É previsível que venha a encomendar mais ainda, porque a prestigiosa indústria farmacêutica Smith-Kline-Beecham anunciou que pretende entrar na produção das vacinas, de parceria com o Instituto Finlay, de Cuba.

Agora, quando o Centro de Vigilância Epidemiológica comprova que as vacinas simplesmente não funcionam, o que sucede? Indignação geral? Manchetes, discursos inflamados, comissões de inquérito, pedidos de cabeças? Nada.

Nada, absolutamente. Apenas uma solícita aliança de silêncios para varrer para baixo do tapete os riscos de escândalo. Afinal, os US$ 300 milhões não foram para os bolsos de execráveis capitalistas, mas para o fundo de auxílio ao paraíso falido do Caribe.

Observem e verão: sistematicamente, nos últimos dez anos, denúncias de corrupção, de crimes, de violências só são investigadas quando úteis para a destruição de líderes políticos que constituam um risco potencial para a estratégia da dominação esquerdista. As outras são ignoradas ou abafadas.

Dificil Resposta

20 de fevereiro de 2014 | Diário do Comércio

Fora de alguns círculos discretos de neo-estalinistas, muita gente de esquerda reconhece hoje que o comunismo soviético foi uma tirania genocida e uma economia tão louca e ineficiente que acabou por se auto-eletrocutar.

O problema é que, ao persistir na esquerda, essa turma nos deixa sem uma resposta razoável para a seguinte e incontornável pergunta: Se o comunismo foi tão ruim, por que deveríamos admitir que o monopólio do bem e da virtude reside, hoje, naqueles que o apoiaram e não naqueles que o combateram?

Por que os herdeiros ideológicos que só renegaram o comunismo quando ele já estava morto e não havia mais meio de salvá-lo são pessoas mais decentes do que aqueles que o enfrentaram de peito aberto, arriscando a vida e a honra, quando ele era vivo e todo-poderoso? Por que chamar de heróis os que fomentaram o crime e de vilões os que tentaram detê-lo?

Será porque Hitler foi anticomunista? Mas Hitler também foi antitabagista, e ninguém sai por aí fumando só para ostentar antinazismo. Hitler foi vegetariano fanático, meio veganista, mas vegetarianos e veganistas pululam na esquerda mais que na direita, sem que ninguém os olhe com desconfiança.

Hitler foi feroz inimigo da liberdade de mercado e nenhum socialista se vexa, por isso, de atacar a liberdade de mercado. Sobretudo, é claro, Hitler odiava os judeus, e nem por isso deixa de ser elegante, na esquerda, aplaudir os terroristas que os matam.

Não. Aqui, como em praticamente tudo o mais, a reductio ad hitlerum, ou Lei de Godwin é uma fraude, e não um argumento.

A solução do enigma está em outro lugar. Para enxergá-la é preciso estar ciente de três fatos. A descrição que aqui forneço deles é demasiado compacta, mas corresponde estritamente à realidade e pode ser comprovada por amostragem mais que abundante:

1 É só nos dicionários que o comunismo é o nome de um sistema econômico definido, bem delimitado, inconfundível com o capitalismo, com a economia fascista, com a socialdemocracia etc. Na realidade, os governos comunistas tentaram todos os arranjos e misturas, porque o comunismo dos dicionários – a completa estatização dos meios de produção e subsequente desaparição do Estado por efeito paradoxal da onipresença é uma impossibilidade absoluta.

2 Se não tem a unidade de um sistema econômico definido, o comunismo tem, em contrapartida, a de um movimento: é uma rede mundial de organizações de variados tipos (como partidos legais e grupos terroristas) em permanente intercomunicação, onde o conflito e a a solidariedade concorrem dialeticamente para o crescimento e avanço do conjunto na luta pelo poder.

3 Em razão dos dois fatos anteriores, a variedade de sentidos da palavra “comunismo” já se incorporou há tempos no discurso comunista, servindo igualmente bem para desnortear o adversário e fortalecer a unidade do movimento por trás de divergências de superfície. Um governo dominado pelos comunistas pode, por exemplo, ser admitido como “comunista” perante a platéia interna, ao mesmo tempo que, quando se fala ao público geral, se jura que ele não é comunista de maneira alguma (por exemplo, porque favorece o livre mercado, como fez Lênin com sua Nova Política Econômica em 1921). Mutatis mutandis, essa flexibilidade semântica resolve o problema de como o movimento comunista presente e atuante deve falar dos governos comunistas extintos ou reconhecidamente fracassados.

Conforme a platéia a que se dirija, ele tanto pode denominá-los “comunistas”, para dar a entender que ele próprio não o é, quanto pode jurar que eles nunca foram comunistas, salvando assim o ideal comunista abstrato de toda responsabilidade pelos crimes e pecados do comunismo histórico: o primeiro desses modos de dizer é usado para o público externo que se deseja tranquilizar anestesicamente, enquanto o segundo é utilizado para uma platéia mais próxima de militantes que se deseja encorajar ou de simpatizantes que se espera recrutar.

Desses três fenômenos a solução do problema com que iniciei este artigo brota espontaneamente: quando se condena o velho comunismo, mas exaltando os que o defenderam e denegrindo os que o combateram, de um só golpe a coesão, o revigoramento e o prestígio do movimento são assegurados, junto com a necessária camuflagem protetora, pelo artifício de rejeitar s uas partes mortas e dar um novo nome às suas partes vivas.

Desde as suas mais remotas origens até a atualidade mais candente, o movimento revolucionário vive de incessantes autonegações e transmutações dialéticas que desnorteiam a platéia leiga, mas que, aos olhos do estudioso – seja ele comunista ou anticomunista – são de uma simplicidade quase pueril e algumas vezes de um automatismo deprimente.

O assassinato de reputações começou nas altas esferas federais, mas agora baixou para o humilde recinto do jornalismo. A página do Facebook, “Ruth Sheherazade – a irmãzinha boa da Raquel” foi criada especialmente para sujar a imagem da apresentadora de TV, jogando, de raspão, uns respingos fecais na minha pessoa.

Democratizando O Extremismo

20 de fevereiro de 2012 | Diário do Comércio

Leiam em http://www.fas.org/irp/eprint/rightwing.pdf . O relatório do Departamento de Segurança Interna dos EUA ( Homeland Security ) sobre o “extremismo de direita” é exemplo claríssimo de uma velha tática ditatorial: alertar contra um perigo hipotético, improvável ou inexistente para justificar a adoção de controles repressivos reais e imediatos.

Desde logo, um movimento, um partido, um grupo, não pode ser definido como “extremista” ou “moderado” somente com base no diagnóstico que ele faz da realidade. O extremismo, assim como a moderação, só começa quando do diagnóstico se passa a alguma proposta de ação, a alguma estratégia pelo menos genérica e abstrata. Por exemplo, se alguém diz que o capitalismo se baseia na exploração dos pobres pelos ricos, não se pode deduzir daí que ele pregue a destruição violenta do regime, ou muito menos que a esteja planejando. Uma mesma descrição de um estado de coisas é compatível com muitas propostas de ação diferentes, ou até com a recusa de oferecer propostas. O crítico do capitalismo pode achar, por exemplo, que o regime deve ser mudado pacificamente e por via democrática. Ou pode achar que o capitalismo, por pior que seja, é ainda preferível às outras alternativas. Pode até achar que não há nada a fazer, que a exploração dos pobres é um destino inelutável da humanidade.

O Homeland Security ignora essas distinções elementares e começa a carimbar os cidadãos com o qualificativo infamante de “extremistas” simplesmente com base na visão que eles têm da realidade, no modo como eles enxergam o que está acontecendo.

Ao longo de todo o relatório, não se vê uma menção sequer a alguma proposta de ação política radical ou violenta dos “extremistas de direita”. Estes são assim nomeados porque não gostam da administração Obama, porque acham que a imigração ilegal é um perigo para o país, porque são contra algum programa de “proteção às minorias” ou contra as legislações de controle de armas e, last not least , porque acreditam que há um governo mundial em formação, arriscando debilitar a soberania americana.

São puros delitos de opinião, dissociados de qualquer plano, veleidade ou sonho de ação concreta, seja “extremista”, seja mesmo “moderada”. Por esse critério, nenhum americano conservador escapa da classificação de “extremista”. Quais, então, devem ser vigiados e, eventualmente, presos? Onde toda uma faixa da população está criminalizada a priori , o governo está livre para selecionar os suspeitos conforme as conveniências políticas do momento. A política anti-extremista do Homeland Security começa a se parecer com a legislação fiscal e trabalhista do Brasil, calculada para colocar na ilegalidade todos os empresários, sem distinção, de modo que, nas diversas contingências da política, o governo se sinta à vontade para escolher quais lhe convém prender ou deixar à solta.

A única ação a que o relatório alude por alto não é política: consiste em comprar armas e munições. O próprio governo federal estimula o povo a fazer isso, na medida em que se recusa a agir decisivamente contra a imigração ilegal e, por outro lado, anuncia a cada momento novas medidas restritivas contra a posse de armas pelos cidadãos. Essa conduta oficial induz cada americano a imaginar o que será da sua família quando sua casa for invadida por ilegais armados e ele não tiver sequer um 38 para se defender. O resultado é uma corrida às lojas de armas, que o mesmo governo, então, aponta como sinal de extremismo galopante. Como, porém, o relatório admite que o impulso de se armar é crescente não só entre os “extremistas” mas também entre os “cidadãos honestos”, resta a pergunta: como distinguir estes daqueles? O próprio relatório fornece a resposta, ao menos implicitamente: é preciso cruzar os critérios, articulando a compra de armas ao perfil de opinião. Se você compra um Smith & Wesson calibre 22 e é contra o governo, você é um extremista. Se compra um fuzil-metralhadora, mas é obamista devoto, está fora de suspeita.

Qualquer semelhança com a política nazista, que reprimia a posse de armas pelos cidadãos comuns mas favorecia a emissão de licenças para os membros e simpatizantes do Partido, é mera coincidência, não é mesmo? Ou vocês são por acaso “teóricos da conspiração”, portanto suspeitos de extremismo?

Para tornar as coisas um pouco mais sombrias, o presidente aprovou em 31 de dezembro passado, aproveitando a distração geral de fim de ano, um decreto que permite ao governo prender e manter preso indefinidamente, sem processo nem habeas corpus , qualquer suspeito de terrorismo (v.

http://thinkprogress.org/security/2011/12/31/396018/breaking-obama-signs-defense-authorization-bill/?mobile=nc ). Com aquele seu típico ar de candura no qual só mentes demoníacas enxergariam uma ponta de malícia, Obama assinou o decreto ao mesmo tempo que prometia não permitir sua aplicação. As mentes demoníacas começaram a perguntar: “Então por que aprovou em vez de vetar?”, mas ainda não obtiveram resposta.

Como o Homeland Security inclui na lista de suspeitos virtuais de terrorismo quem quer que estoque alimentos para mais de uma semana (o que no temor geral de uma crise já virou epidemia), está claro que, uma vez carimbado como extremista, basta o sujeito fazer uma compra mais fornida no Walmart para sofrer um upgrade no catálogo, passando à categoria de terrorista. Para metade da população americana, vai ser difícil escapar dessa. É claro que o governo não vai prender todo mundo. Vai prender, e manter na cadeia indefinidamente, quem bem lhe interesse.

Em 20 de fevereiro de 2012

A Superioridade Dos Piores

20 de dezembro de 2010 | Diário do Comércio

Já citei várias vezes a máxima de Hugo von Hofmannsthal, profundamente verdadeira, de que nada está na política de um país sem estar primeiro na sua literatura. Uma das decorrências dela é que, sem extenso conhecimento da história cultural e literária, o observador só capta, dos fatos políticos, a forma final ostensiva com que aparecem no noticiário do dia, sem nada enxergar das correntes profundas onde se formaram e onde poderiam, em tempo, ter sido modificados.

Praticamente não existe manobra política, tática ou estratégica, que não tenha surgido antes como artifício literário. A razão disso é simples: ninguém pode fazer o que primeiro não imaginou, e explorar as possibilidades do imaginário social, tornando-as pensáveis na linguagem comum, é a função precípua dos artistas da palavra. Na “direita” brasileira, a obsessão da economia, da administração e do marketing leva muitos pretensos “homens práticos” aos erros mais pueris e desastrosos, que poderiam ter sido evitados com um pouco de cultura literária.

Vou dar-lhes um exemplo chocante.

Quando hoje em dia vocês vêem terroristas dando lições de moral, narcotraficantes e seqüestradores passando pito em senadores e deputados, travestis vestidos de freiras forçando um padre a lhes dar a comunhão, ou o próprio presidente da República enaltecendo os bandidos das Farc como pessoas honestas que têm todo o direito de ascender ao poder de Estado, vocês ficam naturalmente desorientados e não sabem como reagir diante de condutas tão cínicas e descaradas, que vão se multiplicando aos olhos de todos, até o ponto de se impor como práticas normais e legítimas.

É um fenômeno que tende a expandir-se ilimitadamente e que só poderá ser detido à custa de uma trabalhosíssima e quase impossível reeducação de toda a sociedade. Mas poderia ter sido estrangulado na origem, se os liberais e conservadores, em vez de ficar hipnotizados ante os acontecimentos mais vistosos, se dessem o trabalho de ver como essas coisas nascem e se desenvolvem numa discreta penumbra antes de aparecer estrepitosamente nas manchetes.

Essas e outras táticas abjetamente maliciosas, que já se tornaram parte do nosso cenário quotidiano, apareceram, como em geral todos os componentes do que viria a ser a técnica da “espiral do silêncio”, no séc XVIII; e, como não poderia deixar de ser, apareceram primeiro como um recurso de técnica literária.

Seu inventor foi Denis Diderot, um gênio perverso da propaganda revolucionária. Para criá-la, ele se apoiou na velha tradição dramatúrgica do “bobo da corte” — o personagem de baixo nível social que, justamente por sua aparência desprezível, desempenha o papel de fiscal da classe dominante, com a permissão e sob a proteção desta última, à qual serve como espelho amplificador onde ela enxerga seus defeitos e fraquezas. Tanto na dramaturgia quanto, com freqüência, na própria realidade histórica, o bobo da corte foi durante séculos uma peça essencial no aparato perceptivo dos governantes, que através dele podiam tomar consciência de seus pontos cegos, evitando embriagar-se em ilusões perigosas e assegurando um domínio mais firme sobre a realidade das situações.

Diderot descobriu que, com pequenas modificações, o bobo poderia tornar-se um instrumento voltado, não à orientação e correção da classe dominante, mas à sua destruição. Bastava, para isso, acrescentar à inferioridade social do personagem alguns traços de perversidade moral genuína, conservando-o, ao mesmo tempo, no seu papel de fiscal e crítico da moralidade do mundo. No seu diálogo “O Sobrinho de Rameau”, (1761) ele criou a figura daquilo que viria depois a chamar-se, nos estudos literários, o “herói abjeto” (leiam o estudo magistral de Michael André Bernstein, Bitter Carnival: Ressentiment And The Abject Hero , Princeton University Press, 1992). É um tipo declaradamente inferior, não só do ponto de vista social como o velho bobo da corte, mas humano e moral. É um vigarista, um criminoso cínico, um sociopata na mais legítima acepção do termo — mas, por isso mesmo, está na posição perfeita para enxergar a sociedade inteira como um tecido de crimes, projetando nela a sua própria torpeza de alma e interpretando tudo pela ótica corrosiva de um discurso de acusação verdadeiramente infernal.

O exemplo frutificou, mas não somente na literatura. Alastrou-se pela retórica política e se tornou um lugar-comum da propaganda revolucionária. Cinco anos após a morte de Diderot, seu personagem já havia se multiplicado em milhares de criminosos de verdade, grandes e pequenos, que, exaltados pela Revolução, subiam aos púlpitos e às cátedras para verberar, do alto da sua incontestada autoridade moral, os pecados da sociedade.

Quando uma idéia literária se consagra como um topos , um lugar comum da retórica política, já é impossível impedir que as pessoas enxerguem a realidade sob a sua ótica deformante. Os fatos, por mais numerosos e evidentes, já nada podem. Digam eles o que disserem, o automatismo do imaginário os reconstruirá à sua maneira, dando-lhes, de novo e de novo, o sentido fictício que se consagrou no topos .

Fora da França, a transmutação do “herói abjeto” em arma de combate político foi mais lenta, mas nem por isso menos irreversível. Primeiro veio a crença de que os criminosos são vítimas passivas da sociedade, e não autores dos seus próprios atos. Depois, a transfiguração das pretensas vítimas em símbolos dos valores morais genuínos, que a sociedade hipócrita usurpara. Por fim, o símbolo tornou-se realidade: criminosos, prostitutas e psicopatas já não somente “representavam” o melhor da sociedade, mas o carregavam em si como qualidade pessoal concreta.

Em Quem Acreditar

2 de setembro de 2013 | Diário do Comércio

Quem lançou o ataque com gás sarin que matou umas mil e cem pessoas na Síria? Foi Bashar al-Assad, parceiro dos russos, ou os jihadistas da Irmandade Muçulmana que o governo Obama apoia? O secretário de Estado americano John Kerry diz ter provas de que foi o primeiro, mas não mostra nenhuma. Diz que não é preciso. Que a credibilidade dos Estados Unidos já deve bastar para que todo mundo acredite na acusação sob palavra.

Bem, pode ser que os Estados Unidos tenham alguma credibilidade, mas John Kerry não tem nenhuma. Ele estreou no palco do mundo mentindo contra seu próprio país para favorecer o inimigo.

Em 22 de abril de 1971, recém-chegado do Vietnã, ele testemunhou perante o Comitê de Relações Públicas do Senado que soldados americanos haviam “estuprado mulheres, cortado orelhas e cabeças, amarrado genitais humanos com fios elétricos e ligado a corrente, amputado braços e pernas, explodido corpos, atirado a esmo em civis e arrasado vilas de uma maneira que lembrava Gengis Khan”.

Essa performance garantiu-lhe a primeira página nos principais jornais e o horário nobre nos maiores canais de TV da América – nada mau como motor de arranque para uma carreira política que culminaria numa candidatura à presidência. Tal como agora não exibe as provas que diz possuir, na época ele não citou nenhuma fonte ou documento que desse respaldo às acusações. Talvez imaginasse que a credibilidade do movimento anti-guerra, então de grande sucesso nas universidades, na mídia e no show business, bastava como prova.

Aconteceu que, poucos meses atrás, o mais alto oficial da inteligência soviética que já desertou para o Ocidente, o general romeno Ion Mihai Pacepa, publicou um livro (Disinformation) em que conta várias operações de desinformação anti-americana, montadas pela KGB, das quais havia sido participante ou testemunha direta.

Uma delas consistiu precisamente em espalhar em todos os meios esquerdistas da Europa e das Américas o rol de acusações, totalmente inventado, que o depoimento de Kerry repetiu no Senado “quase palavra por palavra” (sic).

Desinformação, stricto sensu, só existe quando a mentira comprometedora não é ouvida da boca do inimigo, mas de alguém de confiança da vítima. Estampadas no Pravda ou vociferadas pela Rádio Moscou, aquelas acusações seriam apenas notícias falsas vindas de uma potência hostil. Repetidas com ares de seriedade por um ex-tenente condecorado da Marinha americana e reproduzidas no New York Times, no Washington Post e por toda parte na mídia “respeitável”, tornavam-se desinformação de primeira ordem, uma contribuição essencial à transmutação da vitória militar americana no Vietnã em uma humilhante derrota política e diplomática.

Kerry nunca pagou por esse crime, mas também não se pode dizer que a reputação tão facilmente obtida tenha permanecido intacta. Em 2004, no papel de porta-voz do movimento contra a invasão do Iraque, a qual ele mesmo havia aprovado como senador, apresentou-se candidato à presidência dos EUA. E ele saiu por toda parte pavoneando-se das condecorações militares que havia recebido – afirmava – por operações de alto risco nas quais padecera – dizia – ferimentos horríveis no Vietnã.

Seus colegas de pelotão e dois dos seus ex-comandantes apareceram então dizendo que Kerry havia se machucado por acidente numa operação sem risco nenhum, e o médico que tratara dele num hospital militar informou que os ferimentos eram tão graves que ele os havia curado com um simples band-aid.

Kerry perdeu a eleição para o inexpressivo George W. Bush. Seu companheiro de chapa, John Edwards, mocinho bonito que a plateia feminina anunciava como a futura grande estrela do Partido Democrata, não teve sorte melhor: viria a ter a carreira política destruída em 2007, quando se revelou que tivera um filho ilegítimo com sua amante Rielle Hunter, acusação que primeiro negou indignado e em seguida admitiu com o rabo entre as pernas.

Edwards sobrevive no limbo, mas Kerry foi exumado por Barack Hussein Obama para ser seu secretário de Estado depois que Hillary Clinton se melou toda no episódio Benghazi.

Tal é o homem que se apresenta como a personificação viva da “credibilidade americana” e se apoia nela para mais uma operação que, coerente com o programa Obama-Clinton, se destina a dar mais apoio militar aos jihadistas, como deu no Egito – com os resultados que todo mundo conhece –, e a transformar definitivamente os Estados Unidos, como disse o ex-deputado democrata David Kucinich, em Força Aérea da Al-Qaeda.

Do outro lado, cada um sente vergonha de ter de concordar com Vladimir Putin e defender o governo Assad. Talvez por isso mesmo todos se veem obrigados a apresentar alguma prova. E as provas têm aparecido umas atrás das outras.

Primeiro veio a denúncia, na ONU, de que os rebeldes sírios usam o gás sarin ( ver aqui ). Depois veio a prova de que o irmão de Barack Obama é membro da Irmandade Muçulmana, para a qual recebeu do governo Obama uma ajudinha de 1,5 bilhão de dólares ( ver aqui ).

Depois, um vídeo em que os jihadistas apareciam panejando lançar foguetes carregados do gás fatídico ( ver aqui ). Por fim, os próprios rebeldes sírios acabaram se gabando de usar o tal gás ( ver aqui ).

A Arte Da Acusacao Invertida

2 de outubro de 2006 | Diário do Comércio

Comunista, quando quer caluniar alguém, não precisa inventar crimes: atribui-lhe um dos seus, e pronto. Resolve dois problemas de uma vez: queima a reputação do infeliz e ainda esconde as suas próprias culpas sob as cinzas do cadáver. Isso é assim desde os tempos de Lênin. O método é simples, prático, brutal e descarado. Tão descarado que a platéia, recusando-se instintivamente a acreditar que alguém seja mau o bastante para usá-lo, cai no engodo de novo e de novo e de novo.

O exemplo mais espetacular, em escala nacional, foi aquele que citei aqui no artigo anterior: o hiperbolismo retórico dos Dirceus e Mercadantes, na CPI de 1993, transformando os Anões do Orçamento em gigantes do crime e acusando-os de montar “um Estado dentro do Estado”, coisa que ia muito além das possibilidades e até da imaginação daquelas diminutas criaturas, tudo para camuflar a montagem de um genuíno “Estado acima do Estado”, obra-prima de maquiavelismo, que o próprio PT já ia construindo com a ajuda das mais ricas e temíveis organizações criminais do continente, e cuja potência continua e continuará produzindo efeitos devastadores, pouco influindo nisso o resultado das eleições de ontem.

No plano internacional, exemplos ainda mais edificantes brotam em profusão cornucópica. O caso mais célebre talvez tenha sido a matança de 20 mil oficiais poloneses num campo de prisioneiros da II Guerra, executados por nada, por frescura, por divertimento. Os soviéticos levantaram a denúncia no Tribunal de Nuremberg. O mundo ficou chocado ante as fotos de cadáveres que não paravam de surgir do fundo da floresta de Katyn. Anos depois, vieram provas concludentes de que os autores do massacre tinham sido os próprios acusadores. Notem bem o detalhe: haveria escassez de crimes praticados pelos nazistas, para que os soviéticos tivessem de lhes emprestar um? Não, é claro. Mas a coisa parece que está no sangue: é uma comichão, uma volúpia irresistível, uma compulsão avassaladora. O gostinho da dupla mentira leva esses sujeitos ao orgasmo. Não é delicioso, por exemplo, xingar os judeus em todos os jornais do mundo e depois sair choramingando que eles são os donos da mídia? É melhor que sexo. O sujeito fez isso uma vez, não quer parar nunca mais.

Pos isso mesmo, essa conduta não se limita aos comunistas professos. Ela espalhou-se na esquerda em geral ao ponto de constituir um reflexo condicionado, um estilo de vida, um modo de ser, um traço permanente da cultura “progressista”. Mais recentemente, veio a onda de denúncias contra os padres pedófilos. Foi uma tempestade mundial, uma epidemia planetária. Por toda parte, os homens comprometidos com o voto de castidade pareciam não ter outra ocupação na vida senão bolinar meninos. Mas havia na acusação alguns detalhes estranhos. Desde logo, embora na quase totalidade dos casos as vítimas fossem do sexo masculino, as palavras “homossexual”, gay ou mesmo “pederasta”, que era o termo técnico exato para descrever a conduta dos criminosos, não aparecia nunca no noticiário. Nunca mesmo. A uniformidade global da omissão sugeria que os pedófilos eram pedófilos não por serem homossexuais, mas por serem padres. A idéia subjacente era persuadir o público de que a culpa de tudo estava no cristianismo, não numa cultura anticristã intoxicada de estímulos a toda sorte de sacanagem lícita ou ilícita, cultura da qual a própria mídia internacional era a expressão mais vasta e permanente.

A intenção canalha tornava-se ainda mais evidente porque o número de pedófilos entre os padres era muito menor do que entre os assistentes sociais da ONU, uma classe politicamente correta que havia devastado duas gerações de meninos na África e na Ásia, com o agravante cruel de aproveitar-se da situação local de miséria e dependência, própria a induzir as vítimas a que se submetessem a qualquer exigência despótica em troca de comida e abrigo. Ora, estes casos eram divulgados apenas em livros, em sites de organizações filantrópicas e em pesquisas acadêmicas: nem uma palavra sobre os campeões mundiais do abuso de menores aparecia naqueles mesmos jornais e noticiários de TV que ostentavam tanta indignação contra os padres. A seletividade deformante era tão óbvia, que tinha de haver alguma perversão maior por trás de tudo.

Só entendi o fenômeno quando li o livro do repórter Michael S. Rose, Goodbye, Good Men: How Liberals Brought Corruption into the Catholic Church (Washington DC, Regnery, 2002).

Era a história de como organizações ligadas ao movimento gay haviam infiltrado psicólogos nos seminários, durante duas décadas, para que vetassem o ingresso de homens vocacionalmente dotados para o sacerdócio e, em contrapartida, dessem preferência a candidatos homossexuais. Fontes citadas pelo autor: os próprios psicólogos, muitos deles arrependidos de haver colaborado com essa maldade descomunal. A operação havia mudado radicalmente a composição do clero americano, produzindo artificialmente a situação que depois seria imputada à Igreja Católica pelos próprios autores do crime. É claro que esse efeito não depende de um acordo prévio, de uma conspiração entre os planejadores originais e a mídia que anos depois completa a operação. Nesses casos, pode-se contar sempre com aquilo que Willi Munzenberg, o gênio comunista da desinformação midiática, chamava “criação de coelhos”. Basta dar o empurrão inicial, e o resto vem pelo automatismo imitativo – o processo mental mais característico do “proletariado intelectual” que espalha as modas culturais. Hoje em dia qualquer engenheiro social de quinta categoria domina a técnica de gerar esses efeitos. O mundo cultural está agora repleto não somente de coelhos, mas de milhões de pequenos Willis Munzenbergs com orelhas de coelho. Por meio deles a arte de usar os próprios crimes como instrumento de difamação dos inimigos deixou de ser privilégio da elite comunista para tornar-se patrimônio geral da esquerda.

E não venham com a bobagem de que estou contando isso por “preconceito”, “homofobia” ou coisas assim. Jamais abri minha boca para criticar as preferências sexuais de quem quer que seja. Apenas não sou idiota o suficiente para confundir preferência sexual com crime. Muito menos crime comum com uma operação de calúnia em larga escala, montada como camuflagem perversa de uma trama ainda mais perversa voltada contra a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A desvantagem do ardil é que, pela sua própria tendência de reproduzir-se mecanicamente ad infinitum , ele só serve para ludibriar ignorantes. Quem conheça a história do movimento comunista logo acaba apreendendo a fórmula do truque e reagindo ao automatismo com outro automatismo: onde quer que ouça um comunista acusando alguém de qualquer coisa, já sabe que alguma o comunista fez. O outro pode também ter feito, mas não é por isso que o comunista o acusa. É porque ele próprio fez, e quase com certeza fez pior. Posso testemunhar que, no meu caso, esse reflexo imunizante jamais falhou: todas as vezes que busquei algum crime por trás do discurso de acusação esquerdista, encontrei. E em geral encontrei mais de um.

O sr. Marco Aurélio Garcia acaba de me fornecer mais um exemplo, ao chamar de “violação da Justiça e da vontade popular” a divulgação das imagens do dinheiro usado na compra do dossiê anti-PSDB, comparando o episódio ao seqüestro do empresário Abílio Diniz em 1989, quando, diz ele, os malvados direitistas “tentaram identificar seqüestradores com o PT” por meio de uma foto dos delinqüentes com camisetas do partido.

A inversão é patente, para quem se lembra do caso. Quem “identificou o PT com os seqüestradores” não foi a foto. Não foram os direitistas. Foi o próprio PT, com a desavergonhada campanha que moveu para proteger e libertar os bandidos. Essa campanha mobilizou rapidamente todo o beautiful people paulista, a tropa inteira das garotas-propaganda do comunismo local, mostrando a extraordinária importância política que a causa tinha para o partido, tradicional amigo do MIR chileno, a quadrilha dos seqüestradores. Maior prova de cumplicidade não poderia haver. Cumplicidade não quer dizer necessariamente ajuda material na execução do delito, nem participação nos seus lucros financeiros. Dar suporte político ao crime é crime, e o suporte dado pelo PT aos seqüestradores de Abílio Diniz repetiu-se igualzinho no seqüestro de Washington Olivetto, praticado pela mesma gangue. No ano seguinte ao do primeiro seqüestro, a aliança do PT com o MIR, com as Farc e com outras organizações criminosas foi formalizada com a fundação do Foro de São Paulo, que articula ações políticas com a prática de delitos para a vantagem mútua dos dois braços da revolução comunista, o “legal” e o “ilegal”. Quando veio o caso Olivetto, a mobilização do suporte político foi mais rápida e eficiente, porque já estava tudo pré-arranjado no Foro. O PT estava tão profundamente comprometido com os autores do seqüestro, que além de socorrê-los na mídia e na Justiça ainda tratou de livrar a cara do MIR, dizendo que os bandidos eram “ex-membros” da organização, mentira que uma vez passado o perigo foi desmascarada por um dentre eles mesmos, Mauricio Norambuena, ostentando num jornal chileno uma bandeira do MIR e afirmando que era, sim, membro da quadrilha e não um extraviado free lancer como o rotulavam seus protetores petistas para descaracterizar a origem comunista do crime. Mais impressionante ainda foi a operação montada para livrar da justiça brasileira o falso padre Olivério Medina, para que não esclarecesse em público o que havia revelado a amigos numa festa petista: que havia trazido dinheiro das Farc para a campanha do PT em 2002. O PT está, sim, envolvido com narcotráfico e seqüestros, está envolvido com as Farc, com o MIR, com tudo quanto é bandido esquerdista no continente. Se ganha ou não dinheiro com isso, é indiferente. Ganha politicamente, e sabe que ganha. Isto já basta para qualificá-lo, acima de qualquer possibilidade de dúvida, como beneficiário de uma série interminável de crimes hediondos, como o partido mais criminoso que já existiu neste país. O sr. Garcia sabe de tudo isso, e se ele vier com desconversa esfrego-lhe no nariz os documentos do Foro de São Paulo que provam a unidade estratégica das ações empreendidas em escala continental por partidos legais de esquerda e organizações criminosas, tudo sob o comando direto do delinqüente-mor, fundador e mentor da porcaria toda, Luís Inácio Lula da Silva.

Um detalhe especialmente elegante da fala do sr. Garcia é a singela cara de pau com que ele sugere que a “vontade popular” é não saber nada sobre o dinheiro do dossiê antitucano. Informar os eleitores é insultá-los. Mentir para eles, mantê-los na ignorância como menores de idade, isto sim é que é respeitá-los. Cabeça de comunista é assim. Não se contenta com a perversão. Parte logo para a inversão. E não estou falando de inversão sexual, que é um fenômeno corriqueiro na sociedade. Comunista não se satisfaz com tão pouco: quer praticar veadagem é com o traseiro dos outros. O traseiro da pátria. O traseiro da humanidade.

Uma Carta De Porto Alegre

2 de novembro de 2000 | O resto do Brasil não tem a menor idéia do que está acontecendo no Rio Grande do Sul, imagem e proje

O resto do Brasil não tem a menor idéia do que está acontecendo no Rio Grande do Sul, imagem e projeto do futuro que espera todo o país. Empenhado em conservar sua imagem de bom-mocismo na mídia, o PT, através de seus servidores nas redações de jornais, esconde da opinião pública o descalabro gaúcho. Esta carta que acaba de receber dá um testemunho direto, e bem comedido, de algumas coisas que estão acontecendo por lá.

– O. C.

Por Disneu Santiago Júnior Prezado Olavo:

Tenho acompanhado seus artigos, publicados por “Época”, e tenho me identificado muito com sua linha de raciocínio político. Hoje lí o último, da edição de 30/10, e passei a correlaciona-lo com alguns comentários que ouvi no rádio, nestes dias de eleição. Veja, sou paulista, mas trabalho em Porto Alegre desde abril – mudei-me com a família, em busca de melhor qualidade de vida, o que realmente consegui. Porém, o que vejo aqui me apavora.

O trabalho de propaganda que o PT faz aqui é algo impressionante. Esta cidade não tem nada de excepcional, a não ser suas virtudes inatas, porém “eles” dizem que são responsáveis pela qualidade de vida que temos aqui. O governo do Estado é um fracasso, porém a propaganda alardeia que “é o governo da participação popular”. Nada mais enganoso.

Eles dizem que o Orçamento Participativo é a mais avançada forma de participação e democracia existente na gestão de uma cidade. Não funciona, pois os coordenadores são do partido, que detém a chave do cofre e a prerrogativa de vetar propostas que não são de seu interesse. As favelas da cidade se multiplicam, como em qualquer outra metrópole brasileira, mas a propaganda diz que tudo vai bem.

A impressão que eu tenho é que eles, no país inteiro, estão nos anestesiando com aquela anestesia de dentista – lenta e gradual. Está começando a “formigar”. O cenário está muito claro, pelo menos sob meu ponto de vista. O MST se arma, treina, invade, recua e treina outra vez, invade outra vez, e assim vai; o PT se veste de rosa (menchevique ou social-democrata) e fatura nas capitais e maiores cidades; em 2002, se aproveitam da “anestesia” e levam o Planalto; as forças policiais são desmoralizadas e desmanteladas; as agitações no campo começam, passam para as cidades, as milícias estarão prontas e pimba!!!, acabou a democracia – tudo em nome do “povo” que clama por inclusão social, por terra, por trabalho, pelo fim do capitalismo selvagem, pela quebra dos contratos, pelo fim da propriedade privada e tudo mais que já conhecemos. Aí cai a máscara. Acabou.

Aqueles que hoje passeiam pelas ruas com seus carros importados portando alegremente bandeiras do PT serão os primeiros a ter a garganta cortada.

Por que não declaram o que buscam? Por que não mostram ao povo brasileiro o que realmente desejam, que é o fim da democracia? Mostrem-se por inteiro e deixem que o povo decida o que é melhor. Não basta usar o disfarce de bom-moço para ganhar as consiências; precisa mostrar-se por inteiro, sem a máscara que estão acostumados a usar. Máscara de cordeiro. Estão sim, calando a imprensa, pois a estão infiltrando, desde há muito, começando pelas faculdades; estão subvertendo a igreja, através de uma bem organizada infiltração em seminários; estão dominando a sociedade, mediante a óbvia dominação de órgãos de classe, como os estudantís e os sindicatos.

Quando a anestesia passar, será tarde. O que faz o governo a respeito disso? O que fazem as instituições conservadoras deste país a respeito disso? O que fazem os órgãos de segurança que permitem a ação impune dos líderes do MST? Temos pouco tempo para reagir. Necessitamos de um novo Carlos Lacerda, na tribuna, que grite, denuncie e influencie. Como articular a reação? Seá que não se percebe o risco que estamos correndo?

Um preocupado abraço a você.

Por Que A Direita Sumiu

2 de março de 2012 | Diário do Comércio

Em artigo recente ( http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,uma-nova-direita–por-que-nao-,839845,0.htm ), João Mellão Neto define muito corretamente o espírito do conservadorismo, mas falha em explicar por que a direita se enfraqueceu no Brasil ao ponto de todos os candidatos, nas duas últimas eleições presidenciais, serem de esquerda. Isto aconteceu, diz ele, porque a direita apoiou a ditadura e a ditadura não respeitou os direitos humanos. Esse diagnóstico revela mais sobre a mente que o produziu do que sobre os fatos a que pretende aludir. Mellão, com toda a evidência, aceitou a narrativa histórica dos adversários e argumenta contra eles numa perspectiva que, no fim das contas, continua sendo a deles.

Ninguém entenderá a história do período militar sem estar consciente de que em 1964 não houve um golpe, porém dois: o primeiro removeu do poder um governante odiado por toda a população, que foi às ruas aplaudir entusiasticamente a derrubada do trapalhão esquerdista. O segundo, meses depois, traiu a promessa de restauração democrática imediata e iniciou o longo e deprimente processo de demolição das lideranças políticas conservadoras, substituídas, no poder, por uma elite onipotente de generais e tecnocratas “apolíticos”. A grande ironia das duas décadas de governo militar foi que este, movendo céus e terras para liquidar a esquerda armada, nada fez contra a desarmada, mas antes a cortejou e protegeu, permitindo que ela assumisse o controle de todas as instituições universitárias, culturais e de mídia, fazendo daqueles vinte anos, alegadamente “de chumbo”, uma época de esfuziante prosperidade da indústria das idéias esquerdistas no Brasil.

Vasculhem a história do período e verão que, se o governo perseguia e amaldiçoava a violência guerrilheira, ao mesmo tempo nada fazia para combater o comunismo no plano ideológico, muito menos para ensinar à nação o valor perene dos princípios conservadores, que pouco a pouco foram caindo no total esquecimento até tornar-se como que uma língua estrangeira, desaparecida do cenário público decente já antes de que os líderes esquerdistas mais notórios voltassem do exílio.

À imperdoável omissão dos governos militares no campo da guerra cultural e ideológica somou-se o desprezo da clique oficial pela classe política, onde as grandes lideranças conservadoras foram sendo apagadas, uma a uma, como velas sob um vendaval. Foi durante aquele regime que vozes poderosas do campo conservador, como as de Carlos Lacerda e Adhemar de Barros, foram caladas, enquanto outras, como as de Pedro Aleixo e Paulo Egídio Martins, foram menosprezadas e esquecidas, e outras ainda, como a de Roberto de Abreu Sodré, acabaram se acomodando à mediocridade oficial até perderem toda relevância própria. Tanto foi assim que, quando o governo Geisel deu sua virada à esquerda, adotando uma política nuclear antiamericana, estimulando o mais obsceno “terceiromundismo” na diplomacia e até fornecendo armas, dinheiro e assistência técnica para Fidel Castro invadir Angola, não se ouviu um protesto sequer das lideranças civis. E a única resistência que apareceu, vinda do campo militar por meio do valente general Sylvio Frota, foi logo sufocada sob acusações de “golpismo” e aplausos gerais ao presidente triunfante que estrangulara a “linha dura”. Nas universidades, a direita foi sistematicamente preterida na distribuição de verbas e cargos, que a generosidade insana do governo prodigalizava aos esquerdistas na ilusão de neutralizá-los ou seduzi-los (o processo, de uma indecência sem par, é descrito em http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/QTMFB.pdf pelo estudioso venezuelano Ricardo Vélez Rodriguez, um dos mais abalizados conhecedores da vida universitária no Brasil). Até mesmo no jornalismo, foi ainda durante o período militar que a esquerda assumiu de vez o controle das redações (v. meus artigos a respeito em http://www.olavodecarvalho.org/semana/111124dc.html , http://www.olavodecarvalho.org/semana/111125dc.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/111130dc.html ), enquanto porta-vozes fulgurantes do pensamento conservador, como Gustavo Corção, Lenildo Tabosa Pessoa e Nicolas Boer, iam sendo jogados para escanteio sem que ninguém desse pela sua falta. A direita pensante e atuante foi, literalmente, esmagada pela ditadura, que ao mesmo tempo, na esperança idiota de dividir os adversários e ganhar o apoio de uma parte deles, abria as portas e os cofres das instituições de cultura para o ingresso da revolução gramsciana.

Quando terminou a era dos governos militares, em 1988, só quem era ainda conservador no Brasil era o povão mudo, desprovido de canais para fazer valer suas opiniões, enquanto o espaço cultural inteiro – mídia, movimento editorial, universidades, escolas secundárias e primárias, etc. – já era ocupado, gostosamente, pela multidão de tagarelas da esquerda que ainda mandam e desmandam no panorama mental brasileiro. Aos sucessos retumbantes que obteve na economia e no combate às guerrilhas, a ditadura aliou, em triste compensação, uma cegueira ideológica indescritível, que expulsou a direita do cenário público e entregou o espaço inteiro àqueles que até hoje o dominam. Cabe, nesse contexto, lembrar mais uma vez o dito de Hugo Von Hofmannsthal, segundo o qual nada está na política de um país que primeiro não esteja na sua literatura (tomada em sentido amplo de alta cultura). A direita saiu da política nacional, porque, com a complacência e até a ajuda do governo militar, foi primeiro banida da cultura nacional.

Em 2 de março de 2012

Mascara E Rosto Da Direita

2 de maio de 2004 | Zero Hora

O Fórum da Liberdade é a única arena de debates verdadeiramente democrática que existe neste país – muito diferente dos festivais de autopromoção esquerdista que o dinheiro público espalhou por toda parte.

O décimo-sétimo, do qual participei em abril na PUC de Porto Alegre, foi o maior e o melhor de todos, talvez por ter sido realizado em ambiente universitário, tradicional feudo esquerdista que pela primeira vez teve a oportunidade de ver liberais e conservadores em pessoa e não pelas lentes deformantes do preconceito estabelecido.

Ao longo de quase trinta anos de ininterrupta “ocupação de espaços”, sem defrontar-se com a mínima resistência, a esquerda conseguiu até mesmo o prodígio de inventar uma direita para seu uso próprio, constituída de banqueiros vorazes e velhos políticos corruptos, oportunistas e sem nenhuma crença política identificável, mas dotados do physique de rôle apropriado para encobrir, com suas panças grotescas, o rosto da direita autêntica, hoje quase desprovida de porta-vozes políticos e constituída tão-somente de intelectuais marginalizados pelo patrulhamento gramsciano, estudantes oprimidos pela inquisição “politicamente correta” e empresários estrangulados pelo fisco. Tão grande é a força hipnótica dos estereótipos, que nem o fato mesmo de aqueles banqueiros e políticos constituírem um dos mais fortes esteios do establishment petista impede que a opinião pública, bem amestrada pelo jogo pavloviano da propaganda oficial, continue a encará-los como a personificação mesma do capitalismo, assim facilmente associado ao mal. É nessa condição que eles vêm servindo de Judas em sábado de aleluia, desviando para sua própria testa as pauladas destinadas ao governo e babando-se de prazer no desempenho desse ofício abjeto.

Para desmontar essa farsa, nada melhor do que a direita subir ao palco e mostrar-se ao público, desalojando os fantoches pré-fabricados que a astúcia esquerdista pôs no seu lugar para desmoralizá-la.

Não há quem, ouvindo um Eduardo Gianetti da Fonseca, um Denis Rosenfield, uma Ruth Richardson, um Daniel Piza, não perceba de imediato três realidades que vêm sendo sistematicamente ocultadas: (1) que o pensamento pró-capitalista é, do ponto de vista intelectual, esmagadoramente superior ao esquerdismo estabelecido; (2) que o liberalismo nada tem a ver com o estereótipo “neoliberal” que a esquerda inventou para encenar vitórias fáceis sobre um adversário fictício; (3) que ser conservador é lutar pela conservação de valores morais e da liberdade, não de privilégios e mamatas – um “conservadorismo” típico, isto sim, dos marionetes a serviço do governo federal.

É para tornar essas realidades patentes que existe o Fórum da Liberdade. Ele cumpre esse papel com honra e brilho incomuns, e para mim tem sido uma alegria poder contribuir de algum modo para o seu sucesso.

Se algo fosse possível fazer para torná-lo melhor ainda, eu sugeriria duas coisas.

Primeira, o Fórum tem de ser levado para outros Estados da federação. O mérito do empreendimento é gaúcho, mas seus benefícios devem estender-se a todos os brasileiros.

Segunda: que o temário, ainda bastante concentrado nos tópicos econômico-administrativos, seja estendido para abranger a estratégia de dominação esquerdista nos seus aspectos político, cultural e criminal. Sei que isso é explosivo, mas a insistência nos assuntos econômico-administrativos pode legitimar uma impressão de normalidade da situação político-social, contribuindo involuntariamente para dar credibilidade à mentira esquerdista imperante. Expor e denunciar a ação revolucionária do “Foro de São Paulo”, coordenação do movimento comunista no continente, responsável por todos os descalabros que hoje atormentam este país, é obrigação de todos os que a conheçam. Ainda há tempo de fazer isso. Mas há cada vez menos tempo.

Em 2 de maio de 2004

Politica Desavergonhada

2 de maio de 1994 | Se no Brasil o voto fosse facultativo, como o é na maioria dos países, possivelmente muita gente se

Naquela ocasião, pude observar de perto a segurança com que os fervorosos adeptos da estrela barbuda discutiam temas polêmicos, certos que seu líder já estava eleito. Eles não hesitaram em utilizar a crítica contundente e de caráter populista, que tenta acender as paixões eleitorais e oferece a desforra dos pobres contra os ricos. Cientes de sua força, brandindo do alto do triunfo previsto o fogo sagrado de sua pureza, os professores do PT execraram a união do PSDB com o PFL em apoio ao então candidato Fernando Henrique Cardoso. O mínimo que disse Marco Aurélio Garcia, foi que o PFL representava os grotões e o coronelismo ainda existente no Brasil.

O que dirão agora sobre as aproximações do seu partido com o PL e o PMDB de Orestes Quércia, os professores Marco Aurélio e Maria Vitória? Como Aloizio Mercadante, certamente dirão que as circunstâncias são outras. Provavelmente, também pedirão para que todos esqueçam o que o PT disse ou foi. Aliás, ensinaram ao candidato Lula dizer que as pesadas denúncias sobre Quércia nunca foram comprovadas e, portanto, nada de mais um acerto entre ambos. Em 1994, quando Quércia afirmou que “o PT nunca dirigiu um carrinho de pipoca”, e que “o PT é fascista (...) o problema do Lula é sua orígem e não adianta ele querer mascará-la”, Lula retrucou: “Só respondo ao Quércia quando ele estiver com o prontuário limpo”.

A questão que se coloca, então, não é a flexibilização do PT face as naturais alianças políticas, mas o tipo de política desavergonhada que adotou depois de pregar moralismo como se fosse a UDN da esquerda. Isso em termo mais amplos, esmaece ainda mais os valores em uma sociedade como a nossa, onde a moralidade sempre foi dúbia e a lei pouco cumprida.

Parafraseando o grande jornalista H.L. Mencken, se o PT achar que converter-se ao canibalismo pode lhe render votos, mandará engordar um bispo da Igreja Universal no quintal da casa do Lula.

Em 15 de maio de 2002

Leituras

Filhotes Do Genocidio

2 de junho de 2001 | Época

Para cada homicídio que denunciam, eles foram cúmplices de outros 49 Os brasileiros que foram treinar guerrilha em Cuba não se tornaram somente pontas-de-lança da estratégia cubana no Exterior, mas também, obviamente, suportes do regime de Fidel Castro no próprio âmbito cubano. Recebidos com honras, sustentados com verbas do Estado, tiveram funções e utilidades bem nítidas no esquema de poder fidelista, alguns como oficiais da inteligência militar, outros como símbolos legitimadores e garotos-propaganda do regime, um papel a que muitos ainda se prestam com cínica devoção.

Como qualquer ajudante e beneficiário de uma ditadura, fizeram-se cúmplices dos crimes cometidos por ela, no mesmo sentido e na mesmíssima proporção com que acusam de parceria nos crimes da ditadura nacional qualquer indivíduo, daqui ou de fora, que de algum modo tenha apoiado o regime militar ou recebido favores dele. Moralmente, a única diferença que pode haver entre uma cumplicidade e a outra reside na magnitude dos crimes praticados pelas ditaduras respectivas. Mas essa comparação não é nada favorável aos que hoje detêm o monopólio do direito de acusar.

O Brasil do período ditatorial não teve mais de 2 mil prisioneiros políticos. Cuba teve 100 mil. Para cada esquerdista brasileiro preso no DOI-Codi, no Dops, na Ilha Grande, 50 cubanos foram jogados nas prisões políticas de Havana, com a solícita cumplicidade política e moral desse brasileiro. E os mortos, então? A ditadura brasileira fez 300 vítimas; a cubana, 17 mil. Para cada comunista brasileiro morto pelos militares, morreram mais de 50 dissidentes cubanos.

A diferença não é só quantitativa. Ela afeta a própria natureza dos crimes. Dezessete mil mortes, numa população cerca de 14 vezes menor que a do Brasil, já são um genocídio, a liquidação metódica e sistemática de um grupo, de uma classe. Genocídio com um detalhe ainda mais pérfido: em Cuba, desde a fuga de Batista, não houve resistência armada interna. A ditadura brasileira matou guerrilheiros e terroristas. Cuba, com o apoio deles, matou cidadãos desarmados, pacíficos e sem periculosidade alguma, a maioria por motivos fúteis, muitas vezes por uma simples tentativa de sair em busca de uma vida melhor.

Se é lícito denominar “filhote da ditadura” a qualquer um que tenha colaborado com o regime militar, com igual rigor e justiça os que se beneficiaram da ajuda de Cuba devem ser chamados “filhotes do genocídio”.

Mas 17 mil são só os que morreram em território cubano. Não estou contando aqueles que tropas armadas, instruídas e financiadas pelo governo de Havana, co-irmãs da guerrilha brasileira, assassinaram no Peru, na Nicarágua, na Colômbia. São 80 mil no total: para cada comunista morto no Brasil, seus companheiros mataram mais de 49 não-comunistas no continente. E continuam matando. Seus sofrimentos, além de fartamente indenizados em dinheiro, já foram vingados 49 vezes. Com que autoridade moral, pois, ainda erguem seu dedo acusador contra os “filhotes da ditadura”? Malgrado a força intrínseca desses fatos e números, a malícia esquerdista poderá tentar neutralizá-los alegando que saem da boca de um anticomunista. Mas seria inverter causa e efeito. Não penso essas coisas por ser anticomunista: tornei-me anticomunista porque me dei conta dessas coisas.

Mesmo assim, guardei-as comigo anos a fio, por medo de prejudicar aqueles a quem um dia chamara “companheiros”. Se de algo posso ser acusado, é desse comodismo pusilânime do qual por fim me libertei, mas que me fez tardar demasiado em dizer a verdade. Muitos, sabendo dela tanto quanto eu, vivem ainda de camuflá-la sob jogos de palavras, e não para proteger a terceiros, mas a si mesmos e às vantagens de que hoje desfrutam, seja como membros do governo, seja como ídolos da oposição. Nisso consiste toda a sua moral: culpa reprimida, transmutada em fome insaciável de retaliações e compensações.

É claro que os crimes da ditadura militar devem ser denunciados, investigados e punidos – mas não por esse tipo de gente. Não por essa escória.

Em 2 de junho de 2001

Alguem E Ninguem

2 de julho de 2013 | Diário do Comércio

Tentando justificar a ausência de escritores liberais e conservadores na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) deste ano, assim se pronunciaram seus mais destacados representantes:

Miguel Conde, curador: “Não acho que escritores associados à direita sejam numerosos. Tenho até dificuldade em pensar em nomes.”

Sérgio Miceli, membro da principal mesa de debates: “Bons pensadores à direita são peça rara no País.”

Milton Hatoum, conferencista encarregado da palestra de abertura do evento: “De escritor importante no Brasil, não me lembro de nenhum de direita.”

Dada a relevância dos personagens, não creio exagerar ao supor que suas opiniões e seu nível de cultura exemplificam a média dos participantes, excetuada a hipótese, hedionda mas plausível, de que ela vá daí para baixo.

Nesse sentido, a FLIP é a mais espetacular amostra viva da completa destruição da alta cultura no País, substituída pela tagarelice autopromocional de usurpadores e carreiristas barbaramente incultos e infinitamente presunçosos, cuja sobrevivência no cenário intelectual se deve tão e somente a três fatores: (1) proteção governamental, (2) interbadalação mafiosa, (3) sistemática e preventiva exclusão dos adversários reais e possíveis.

O fator 3 vem sendo aplicado com tal perseverança, que acabou por moldar a cabeça dos seus mesmos praticantes. Primeiro eles se recusam a falar de um autor, depois concluem, do seu próprio silêncio, que ele não existe. Sua regra áurea é o argumentum ad ignorantiam: “Tudo aquilo que não sei ou esqueci é inexistente, nulo ou irrelevante.”

Os três citados mostraram mais ignorância da cultura brasileira do que se poderia tolerar – mas não aprovar – em alunos de ginásio.

Não vou discutir com esses palhaços. Vou fornecer ao leitor um breve mostruário daquilo que eles, tomando a sua própria ignorância como medida da realidade, dizem ser inexistente ou quase.

Eis aqui, colhidos a esmo, uns poucos nomes de escritores e outros intelectuais brasileiros de ontem e de hoje, todos mais do que consagrados (muitos internacionalmente), tidos como “de direita”, seja por eles próprios, seja por seus detratores esquerdistas: Afonso d’Escragnolle Taunay, Alberto Oliva; Ângelo Monteiro; Antônio Olinto; Antônio Paim; Arthur César Ferreira Reis; Augusto Frederico Schmidt; Bruno Garschagen; Bruno Tolentino; Carlos Lacerda; Cornélio Penna; Demétrio Magnoli; Denis Rosenfield; Diogo Mainardi; Dora Ferreira da Silva; Eduardo Gianetti da Fonseca; Eduardo Prado; Eugênio Gudin; Gerardo Mello Mourão; Gilberto de Mello Kujawski; Gilberto Freyre; Gustavo Corção; Heitor de Paola.; Heraldo Barbuy; Ignácio da Silva Telles; Irineu Strenger; Ives Gandra da Silva Martins; João Camilo de Oliveira Torres; João de Scantimburgo; Joaquim Nabuco; Jorge Caldeira; José Américo de Almeida; José Guilherme Merquior; José Osvaldo de Meira Penna; Josué Montello; Júlio de Mesquita Filho; Leonardo Prota; Leonel Franca (Pe.); Lúcio Cardoso; Luís Viana Filho; Luiz Felipe Pondé; Machado de Assis; Manuel Bandeira; Maria José de Queiroz; Mário Ferreira dos Santos; Mário Guerreiro; Mário Vieira de Mello; Maurílio Penido (Pe.); Miguel Reale; Milton Campos; Nelson Rodrigues; Nicolas Boer; Octavio de Faria; Oliveira Lima; Oliveira Vianna; Otto Maria Carpeaux (primeira fase); Paulo Francis (segunda fase); Paulo Mercadante; Paulo Ricardo de Azevedo (Pe.); Pedro Calmon; Percival Puggina; Plínio Barreto; Rachel de Queiroz; Reinaldo Azevedo; Renato Cirell Czerna; Ricardo Velez Rodriguez; Roberto Campos; Roberto Fendt Júnior; Rodrigo Gurgel; Romano Galeffi; Roque Spencer Maciel de Barros; Ruy Barbosa; Vicente Ferreira da Silva; Vilém Flusser e Wilson Martins.

Faço a lista no improviso e de memória, porque tenho alguma e porque estudei. Os anões da FLIP não sabem nada; não são intelectuais exceto no sentido muito elástico e gramsciano do termo, isto é, agentes de organizações de esquerda encarregados de “ocupar espaços” na mídia, nas universidades e no movimento editorial e ali abrir vagas para os seus parceiros de militância, vetando o acesso de candidatos politicamente indesejáveis.

O establishment esquerdista recompensa-os generosamente, ao ponto de induzir cada um deles à ilusão de que é mesmo – como diria Léon Bloy – “aquilo que se convencionou chamar de alguém” – e de que tudo o mais é apenas um vasto ninguém.

Mais que um simples escândalo literário e editorial, a FLIP deste ano é um delito de malversação de dinheiro público do governo do Rio de Janeiro, da Embratel, da Petrobras e da Eletrobras. Pessoas que desconhecem a cultura brasileira não têm nenhum direito de representá-la e de ser subsidiadas para isso pelos já tão espoliados e exaustos contribuintes. A FLIP não é um acontecimento da esfera intelectual, é só mais um episódio banal da corrupção avassaladora que tomou conta deste país.

Assinalo aqui, de passagem e com imensa tristeza, o recente falecimento de um queridíssimo amigo, o escritor e filósofo Paulo Mercadante, uma das inteligências mais lúcidas e produtivas que este Brasil já conheceu.

Comunista na juventude, Paulo rompeu com o Partido após a denúncia dos crimes de Stálin por Nikita Kruschev em 1956, e formou, com Antônio Paim e outros, o núcleo do que viria a ser a corrente liberal do pensamento brasileiro nas décadas seguintes.

Refens De Um Blefe

2 de fevereiro de 2009 | Diário do Comércio

Segundo pesquisa publicada na Folha de S. Paulo do último dia 25, a maioria dos brasileiros – até eventuais simpatizantes do PT – é contra as intromissões do governo na mídia e nos sindicatos. Pesquisas anteriores ( http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=eleitor-brasileiro-conservador&cod_Post=40197&a=111 ) mostraram que, dos nossos conterrâneos, 79 por cento são contra a descriminalização da maconha, 63 por cento contra a legalização do aborto, 84% defendem a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e 51% querem a instituição da pena de morte. Como se esses resultados já não falassem por si, e como se o plebiscito das armas também não fosse eloqüente o bastante, 47 por cento se definem explicitamente como “de direita”, 23 por cento “de centro” e apenas 30 por cento “de esquerda”.

Por que diabos, então, não há um partido que fale pela maioria, um autêntico partido conservador neste país? Por que, entre os políticos, até aqueles que em privado defendem idéias conservadoras fazem questão de ostentar sempre algum esquerdismo em público, na ilusão estúpida de que isso lhes dará votos?

A resposta é bem conhecida dos esquerdistas. Quatro décadas atrás, o cientista político Michael Parenti ( Inventing Reality: The Politics of the Mass Media , New York, St. Martin’s Press, 1968) já ensinava à sua platéia de militantes que não deviam se deixar impressionar pela opinião dominante da mídia, a qual em grande parte dos casos não era dominante de maneira alguma, apenas fingia sê-lo: os mandarins do jornalismo faziam-se de porta-vozes de uma maioria que, em geral, não seguia as preferências deles no mais mínimo que fosse.

A esquerda absorveu essa lição e, logo na geração seguinte, já aplicava o truque com uma destreza, com uma pertinácia, com um cinismo que seus antecessores nas salas de redação não poderiam nem mesmo ter imaginado.

Nossos conservadores e liberais não entenderam isso até hoje. Acreditam piamente que se desagradarem aos articulistas da Folha e do Globo estarão desagradando o eleitorado, quando na verdade quem o desagrada é a Folha , é o Globo , é a elite midiática em geral.

A tiragem dos nossos “grandes jornais”, hoje substancialmente a mesma dos anos 50, enquanto a população triplicou e o analfabetismo praticamente desapareceu, já basta para mostrar que a influência dos jornalistas sobre a opinião popular é mínima, é ridícula, é desprezível. O que lhes sobra é pose, é encenação, é um talento extraordinário para o blefe, para a chantagem psicológica. Justamente porque sabem que não fazem a opinião pública, esmeram-se em fazer-se de donos dela, e mediante esse truque bobo inibem os direitistas e conservadores, tornando-os reféns de um perigo imaginário.

Em 2 de fevereiro de 2009

Antropofagia

2 de fevereiro de 2006 | Jornal do Brasil

Desde que existe esquerda no mundo, ela se alimenta do seu próprio cadáver. Digo isso, antes de tudo, em sentido literal e físico: somem o Terror revolucionário na França, os expurgos soviéticos, a Revolução cultural na China, os campos de morte do Camboja e o paredón cubano, e verão, acima de qualquer dúvida razoável, que ninguém no mundo matou tantos esquerdistas quanto a esquerda mesma. Talvez por isso ela fique tão revoltada com tipos como Franco ou Pinochet. Em número de vítimas, estes não são páreo para Stalin e Mao: tornam-se odiosos porque são direitistas intrometidos que usurpam o direito esquerdista de matar em família.

Mesmo se incluirmos na “direita” o nazismo e o fascismo, o que os estudos magistrais de Ludwig von Mises, Ernest Topitsch e Erik von Kuenhelt-Leddin nos ensinaram ser sociologicamente e historicamente inexato, ainda assim o placar mortuário assinalará a superioridade invencível da esquerda. Isso explica por que todo esquerdista gosta tanto de contar cadáveres de vítimas da direita, mas perde instantaneamente o gosto pela aritmética e sai gritando contra a “contabilidade macabra” ante a mera sugestão de um cálculo comparativo.

Porém tão notável quanto a autodevoração física é a antropofagia verbal e publicitária: cada nova geração de esquerdistas se nutre do descrédito da anterior, esperando que ela entre em agonia e então parasitando e monopolizando, às pressas, as acusações que até a véspera repelia como calúnias direitistas hediondas. Claro: se a esquerda tem o direito exclusivo de matar esquerdistas, por que não teria também o de cuspir neles? Aliás, seria muito desconfortável livrar-se dos velhos e decadentes sem primeiro assassiná-los moralmente. O procedimento é tão normal, tão rotineiro na vida esquerdista, que não raro os próprios condenados colaboram ritualmente com sua própria extinção, acusando-se de crimes imaginários para ter o consolo de prestar um último serviço à causa revolucionária no papel pedagógico de maus exemplos.

Essas constantes históricas dos dois últimos séculos são tão nítidas, que elas bastam para ilustrar o fundo gnóstico da alma esquerdista, movida em essência pelo ódio a si própria, transfigurado em ódio à existência em geral e só parcialmente projetado sobre o inimigo político do momento, cuja liquidação, por isso mesmo, jamais basta para satisfazê-la. Também é aí que se deve buscar a razão do aparente paradoxo de um movimento que, quanto mais fracassa em criar um sistema político-econômico segundo seus próprios cânones, mais sucesso obtém em espalhar o caos infernal no sistema adversário. A esquerda é apenas uma força de destruição: jamais criará nada, jamais admitirá que uma só criação alheia permaneça viva por tempo suficiente para beneficiar uma parcela razoável da humanidade.

Mas é precisamente essa incalculável miséria interior, essa dor sem trégua que o agita por dentro, que dá ao esquerdismo militante a força histriônica para aqueles gritos e trejeitos de indignação que, ante uma platéia de paspalhos, aparecem como provas de altos sentimentos ofendidos e de superior autoridade moral. Só a consciência culpada do criminoso é capaz de infundir nos outros a culpa por delitos que não cometeram e que aliás nem sabem se foram mesmo cometidos. Só para dar um exemplo: quantos brasileiros que de racistas não têm nada, e que se vêem incapazes de apontar um só racista entre seus conhecidos, não estão prontos a admitir, ante a intensidade da cobrança, que praticamente o Brasil inteiro é racista? Só a mente criminosa consegue induzir o inocente a confessar-se criminoso. Fingimento e chantagem são a essência do discurso moral esquerdista.

Pensem nessas coisas quando ouvirem alguma Heloísa Helena acusando Lula de traidor e “neoliberal”. Se a acusação fosse sincera, a primeira coisa que essa senhora faria seria denunciar o homem ao Foro de São Paulo, pedindo sua expulsão. Não confundam moral com reciclagem culinária de um virtual cadáver político.

Em 2 de fevereiro de 2006

Passado E Futuro

2 de dezembro de 2000 | Época,

O primeiro está desfigurado pela falsificação histórica; o segundo, por anúncios de vingança Em 1964, uma revolução comunista estava em marcha no Brasil, sob orientação direta do governo soviético, recebida no começo do ano por Luís Carlos Prestes em Moscou. Os arquivos da KGB confirmam isso de maneira irrespondível. A revolução foi detida por um movimento militar apoiado na maior mobilização popular de toda a nossa História (800 mil pessoas nas ruas, duas décadas antes das Diretas Já). Total de mortos na operação: dois.

Os vencidos, inconformados, buscaram apoio na ditadura cubana, que lhes deu dinheiro e treinamento para a ação armada, e desencadearam uma campanha de terror, matando a tiros e bombas vários colaboradores grandes e pequenos do novo regime e pelo menos um de seus próprios militantes, executado à simples suspeita de “fraquejar”.

O governo reagiu instalando um regime policial que, além de fazer vítimas em combate, consentiu na tortura e na morte de prisioneiros, à imitação dos terroristas que chegaram a assassinar a coronhadas um homem amarrado. No placar final, os comunistas mataram aproximadamente 200 pessoas; os militares, 300. A diferença não é tão grande que justifique tratar os primeiros como anjos, os segundos como demônios.

Em favor dos militares, resta um fato. Não há, na História do mundo, outro exemplo de revolução armada, num país de cerca de 100 milhões de habitantes, que fosse abortada com menos derramamento de sangue. Desafio qualquer pessoa a impugnar, com números e provas, essa afirmação. Em Cuba, com população dez vezes menor, a simples repressão a opositores desarmados levou à morte 17 mil dissidentes. Ditadura é ditadura, mas nivelar a brasileira e a cubana é mais que demagogia: é empulhação.

Não obstante, a violência do extinto regime repercute na mídia até hoje, em ondas cada vez mais volumosas à medida que o tempo passa, com periódicas efusões de tinta e lágrimas em louvor dos comunistas mortos, enquanto as 200 vítimas que eles mataram têm de repousar quietas e esquecidas na lata de lixo da História, o lugar reservado aos que se opõem aos desígnios da Providência revolucionária. Nos 15 anos que se seguiram ao fim da ditadura, elas jamais foram manchete, enquanto seus algozes o são pelo menos de três em três meses, sob variados pretextos, incansavelmente, sem contar filmes, programas de TV e menções chorosas nos livros didáticos.

Mas, se na imprensa qualquer referência àquelas vítimas tem sido em geral excluída das páginas noticiosas, só timidamente vazando através de colunas de opinião, cochichá-la na internet não é menos proibido. Um único e modesto site devotado a documentar os crimes cometidos pelos comunistas no Brasil, www.ternuma.com.br, tão logo apareceu foi imediatamente submetido a um bombardeio de ameaças dissuasórias, das quais cito duas por falta de espaço para mais. A primeira anuncia: “Vocês não perdem por esperar. Os novos tempos da revolução... virão à tona, fazendo com que paguem com a vida... A rebelião começará nos quartéis e os comandantes cairão diante da ira do povo”. Sublinhando a promessa de rebelião militar, a segunda assegura: “Como prova o grande camarada Lamarca, muitos militares estão a nosso lado... A Ditadura do Proletariado lhes (sic) espera!” Eis no que deu ajudar os comunistas a esconder seu passado: agora eles querem suprimir nosso futuro.

Em 2 de dezembro de 2000

Capitulos De Historia Bestial

19 de setembro de 2013 | Diário do Comércio

A história das reações da esquerda à minha presença no cenário público brasileiro divide-se em três fases.

Na primeira, logo após a publicação de O Imbecil Coletivo (1995), os guias iluminados dessa facção política saltaram sobre minha pessoa como um esquadrão de ninjas alucinados, imaginando que poderiam suprimi-la do universo com dois ou três sopapos.

Deram-se muito mal e, quando da minha edição dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux (1999), da qual não podiam falar mal sem arranhar a pele póstuma de um ídolo do esquerdismo, passaram à segunda fase, a Operação Vaca Amarela, ou Boca-de-Siri, condensada na instrução baixada pelo comissário geral Milton Temer aos miltantes e companheiros de viagem do comunismo pátrio: do Olavo de Carvalho não se fala.

Quer dizer: não se fala em público. Não se fala, porque ele responde, porca miséria, e aí a gente passa vexame. Em privado, longe dos ouvidos do monstro, sem perigo de um revide, podia-se rosnar à vontade, fazer a caveira do desgraçado, inventar contra ele as histórias mais escabrosas. Podia-se e devia-se fazer isso sobretudo nas salas de aula, vacinando a juventude contra a tentação de ler o que ele escreve, ensinando-a a odiá-lo sem passar por esse doloroso sacrifício preliminar.

O ataque frontal foi trocado pelo zunzum sorrateiro e onipresente, planejado para transferir o abacaxi às mãos da geração mais nova e produzir,debaixo das aparências de uma retirada geral, os mais bombásticos efeitos de longo prazo.

A coisa foi bem calculada, até certo ponto: a terceira fase eclodiu quando o muro de silêncio erigido na grande mídia foi rompido na esfera bloguística. De repente, centenas de jovens impregnados de visceral anti-olavismo começaram a desferir-me os ataques mais cretinos e involuntariamente cômicos, tentando vencer pelo número e dispensando seus mestres de passar vergonha pessoalmente. De uma fase até a outra decorreram aproximadamentequinze anos – o prazo que, em La Teoría Historica de las Generaciones, Julián Marías diz marcar o trânsito entre duas gerações de agentes históricos.

Devo confessar que eu mesmo contribuí, inadvertidamente, para o sucesso da transição. Em 2006, cansado de receber mais e-mails de amigos, alunos e leitores do que jamais daria conta de responder por escrito, criei o programa True Outspeak para me comunicar com esse círculo mais facilmente, calculando que no rádio a gente fala umas vinte linhas por minuto e levaria uma hora para escrevê-las.

Sendo o programa como que um encontro em família, podia ali me contentar com afirmações compactas e sumárias, ciente de que, em caso de dúvida, aquele público afeito ao meu trabalho procuraria maiores explicações nos meus livros, artigos e nas quase 40 mil páginas de transcrições das minhas aulas.

Contra todas as minhas intenções e previsões, o programa acabou sendo ouvido por centenas de milhares de pessoas, que, sem ter lido uma só linha da minha autoria nem presenciado minhas aulas, não podiam captar corretamente as alusões e subentendidos de que aquela conversa estava repleta, e acabavam vendo naqueles improvisos, não raro despudoradamente humorísticos, a expressão formal e acabada do meu pensamento, dando por pressuposto que eu nada mais sabia nem dissera a respeito.

Para os que vinham da universidade babando de vontade de dizer alguma coisa, qualquer coisa, contra o abominável Olavo de Carvalho, foi um prato cheio. O pesquisador interessado nesse capítulo estranhíssimo da devastação cultural nacional confirmará que, na totalidade dos casos, os referidos nada mais conheciam das minhas ideias senão o que tinham ouvido em duas ou três emissões radiofônicas, o que não os impedia de, com base nelas, lançar os mais temerários julgamentos de conjunto sobre a minha pessoa e obra, um deles chegando a falar de “trajetória de vida inteira”.Não podendo responder a um por um como fazia com seus gurus no tempo do Imbecil Coletivo, tomei por norma selecionar a esmo alguma dessas baratas de vez em quando e esmagá-la em público para não encorajar as outras por omissão.

Meus alunos e leitores habituais nem sempre gostam disso: dizem que estou batendo em criança e desperdiçando tempo. Mas, da minha parte, entendo que esses episódios têm de ser documentados porque um dia, quando o QI da nação voltar ao normal, ninguém vai acreditar que sucederam.

Um detalhe significativo nessa inumerável produção de micagens histéricas é que, no instante mesmo em que estou desmontando um por um esses arremedos de argumentos, com todos os requintes da lógica e uma paciência de Jó, seus autores berram que sou “avesso ao debate” e que não argumento jamais, só xingo e “desqualifico os adversários” – expressão que subentende terem eles alguma qualidade.

Desde o tempo do “Imbecil” eu já havia notado que, no Brasil dos anos 1980 em diante, a demonstração lógica é tida na conta de imposição autoritária e, em compensação, a adesão devota, impulsiva e acrítica ao discurso coletivo politicamente correto vem sempre com o rótulo de “pensamento independente”.

Salvando A Mentira

19 de setembro de 2008 | Diário do Comércio

O New York Times , como ninguém ignora, torce – e distorce – para a esquerda. Notícias que maculem gravemente a imagem dos ídolos do esquerdismo só saem lá em último caso, quando a porcaria é grande ou notória demais para ser escondida. Se é contra a direita, contra os EUA ou contra Israel, qualquer picuinha vai logo para a primeira página. No entanto, o enviezamento ideológico do velho diário não passa muito além desse ponto. Vexames colossais de outras épocas, como as matérias estalinistas do arqui-embrulhão Walter Duranty (modelo de jornalismo da “Hora do Povo”), a campanha dos anos 50 para convencer os americanos de que Fidel Castro era um grande líder pró-ocidental ou a imensa foto de primeira página do árabe agredido pela polícia israelense que era na verdade um judeu agredido por árabes, jamais se repetiram. A mentira completa e proposital passou a ser evitada sempre que possível, ao menos para dar às distorções sutis uma credibilidade jornalística que elas não teriam, digamos, num semanário do MST.

No jornalismo brasileiro, porém, essas precauções já foram para o beleléu faz muito tempo. Com exceções infinitesimais que só servem para sublinhar a generalidade onipresente da regra, a grande mídia nacional transformou-se num eco passivo dos debates internos da esquerda, onde só são admitidas as opiniões e notícias que possam, sem escândalo, ser lidas do alto do pódio numa assembléia geral do Foro de São Paulo. O leitor leigo pode se deixar impressionar pelas freqüentes acusações de direitismo lançadas pelos jornalistas uns contra os outros, mas, como nunca viu direitismo de verdade, não tem meios de comparação e não percebe, portanto, que o teor dessas acusações é precisamente idêntico ao daquelas que se poderiam ouvir, em tumultos estudantis dos anos 60, atiradas pela AP contra o PCB ou vice-versa. O que aí se denuncia é um direitismo figurado, de segundo grau, que não consiste em adesão firme e coerente a qualquer proposta liberal ou conservadora, mas em simples contaminação parcial, em concessão por fraqueza, em fidelidade imperfeita ao ideário esquerdista. A veemência crescente do tom em que essas acusações são proferidas, dando a falsa impressão de que há uma direita em ascensão no país, revela na verdade que mesmo esse direitismo metafórico e diluído já é cada vez menos tolerado. A esquerda lucra duas vezes com isso: fortalece sua posição na mídia e mantém a militância naquele estado de temerosa expectativa de uma investida inimiga, necessário para a maior disciplina, lealdade e coesão.

Nessa confortável posição de controle absoluto, ela está livre para mandar às favas os últimos escrúpulos de idoneidade jornalística e deixar que a imaginação militante assuma o lugar do que possa ter sido um dia o senso de realidade, mesmo atrofiado e mínimo.

Isso acontece em todos os maiores jornais do país, mas a Folha e o Globo são aqueles onde a obliteração da consciência jornalística é mais visível.

Vejam por exemplo a matéria que saiu no New York Times sob o título “Personagem do caso Rosenberg confessa ter espionado para os soviéticos”. Reproduzida na Folha , transformou-se na seguinte coisa: “Ethel Rosenberg era inocente, diz ex-réu”.

Como é possível transformar uma confissão de culpa na proclamação de um erro judiciário, na denúncia de uma condenação iniquamente imposta a pessoa inocente? É o milagre jornalístico dos títulos. Com quatro ou cinco palavras você inverte o sentido de uma matéria inteira. Como a maior parte dos leitores só lê os títulos, o impacto da notícia real é neutralizado e é o contrário dela que permanece na memória geral. Repitam esse processo uns milhares de vezes e as mais estúpidas histórias da carochinha se tornam verdades de evangelho. Isso é o que no Brasil de hoje se chama “jornalismo”.

Vale a pena examinar o caso com mais atenção. Segundo o despacho do NYT , Morris Sobell, condenado à prisão em 1951 por espionagem atômica enquanto seus cúmplices Julius e Ethel Rosenberg iam para a cadeira elétrica em Sing Sing, continuou alegando inocência obstinadamente, até que, aos 91 anos, desistiu e confessou que ele e Julius eram mesmo espiões soviéticos. A culpa deles é monstruosa: passaram aos russos segredos essenciais de construção da bomba atômica, transformando a falida URSS numa potência ameaçadora, colocando o mundo sob risco de guerra nuclear e inaugurando a era da Guerra Fria.

A confissão derruba uma das maiores e mais persistentes mentiras do calendário litúrgico esquerdista. Durante mais de meio século, a intelectualidade e o jornalismo de esquerda proclamaram a inocência de Sobell e dos Rosenbergs. Ainda em 1988 centenas de artistas e escritores esquerdistas participaram do “Rosenberg Era Art Project” (v. Rob A. Okun, ed., The Rosenbergs: Collected Visions of Artists and Writers , Universe Books, 1988), uma rodada de exposições e conferências, repetida nas mais famosas galerias de arte dos EUA em homenagem aos Rosenbergs, ali apresentados como mártires inocentes, vítimas de perseguição macartista e – é claro – de anti-semitismo (Arnaldo Jabor adora essas coisas). As provas em contrário, no entanto, continuaram se acumulando e acabaram por se tornar irrespondíveis após a abertura dos Arquivos de Moscou e a decifração, pelo exército americano, dos códigos Venona, comunicações secretas entre o Kremlin e a embaixada soviética nos EUA. A bibliografia a respeito é abundante e, por ironia, quase toda produzida por autores judeus (por exemplo, Ronald Radosh, The Rosenberg File , Yale Univ. Press. 1997; John Earl Haynes and Harvey Klehr, Venona: Decoding Soviet Espionage in America , id., 1999; Herbert Rommerstein and Eric Breindel, The Venona Secrets: Exposing Soviet Espionage and America’s Traitors , Regnery, 2000). Para cúmulo, o próprio agente soviético que serviu de ligação entre Moscou e os Rosenbergs, Alexander Feklisov, contou tudo no seu livro de memórias ( The Man Behind the Rosenbergs , Enigma Books, 2001).

Se ainda faltasse lançar a pá de cal sobre uma das mais vastas, dispendiosas e obstinadas campanhas de desinformação comunista, a entrevista de Sobell fez precisamente isso. O debate está encerrado e, mais uma vez, comprovada a mendacidade esquerdista que produziu as mais extraordinárias falsificações históricas do século XX.

A consciência moral da Folha , porém, não podia aceitar calada uma injustiça tão grande. A verdade vencera? Que horror! Era preciso dar um jeito nisso, restabelecer o equilíbrio, salvar ao menos um pedacinho da mentira moribunda. Felizmente, a própria entrevista de Sobell dava margem a isso. Confessando o crime dele e de Julius Rosenberg, o espião aposentado acrescentava que Ethel, a mulher do seu cúmplice, sabia de tudo mas não teve grande participação na rede de espionagem. Era tudo o que a Folha precisava para transfigurar a confissão de crime em denúncia de erro judiciário, jogando a essência comprovada da notícia para baixo do tapete e puxando para o título o detalhe menor e duvidoso.

Mais que duvidoso, na verdade. A ocultação proposital de um ato de espionagem que coloca a segurança de um país em risco é parte integrante da própria espionagem. Ethel não encobriu só o marido: encobriu a operação inteira, que transformou o inimigo inerme em ameaça temível contra os EUA. Em nenhum tribunal do mundo ela seria considerada “inocente”. Só no título da Folha e, daí por diante, na imaginação dos otários que acreditam nela.

A técnica jornalística mais elementar ensina que o título deve resumir a parte mais importante e confirmada da notícia, ficando para o corpo do texto os detalhes complementares, sobretudo se não comprovados. A confissão de Sobell é em si um fato, e de importância histórica inegável. Sua declaração sobre Ethel é mera opinião, contraditada aliás pelo testemunho do próprio Feklisov. Mesmo se admitida como verdadeira não provaria nenhuma “inocência” de Ethel Rosenberg.

A Folha não se vexa de inverter o preceito básico do noticiário jornalístico, para atenuar o impacto de uma notícia que poderia pegar mal – ó horror! – para a reputação ilibada dos comunistas.

Adendo Ao Resumo Didatico

19 de outubro de 2006 | Jornal do Brasil

Toda a cúpula petista se formou lendo Marx, Lênin, Trotski, Mao, Che Guevara, Antonio Gramsci, e nem uma palavra contra. Passaram a vida intoxicando-se de esquerdismo e nada enxergam fora do horizonte consagrado da sua mitologia grupal. O domínio que têm da cultura revolucionária contrasta brutalmente com sua radical ignorância do pensamento conservador, ignorância que lhes permite inventar uma direita por mera inversão mecânica de seus próprios estereótipos e investir suas melhores energias no combate a essa miragem.

Em última análise, eles nada têm feito nos últimos trinta anos senão arrombar portas abertas, sob os aplausos e a proteção paternal da classe que alardeiam combater. Críticas e acusações, quando lhes vêm, vêm da própria esquerda, com o cuidado meticuloso de ater-se a pontos específicos que não maculem a honorabilidade do esquerdismo enquanto tal. Combate ideológico, não sofrem nenhum. Devem seu sucesso à ausência de inimigos, exceto os nascidos das suas próprias fileiras. A lenda do assédio direitista serve-lhes como vacina contra a percepção de que todos os seus fracassos advêm de sua própria inépcia e não de alguma resistência exterior. Fugindo de uma autoconsciência deprimente por meio do ódio a um objeto imaginário, sua mentalidade é uma mistura quase inconcebível de astúcia maquiavélica e ingenuidade pueril, aterrorizada por fantasmas de sua própria fabricação. Conseguem criar planos estratégicos de requintada complexidade, ludibriando suas vítimas durante décadas, mas quando pegos com as calças na mão saem-se com evasivas de meninos de escola, tão rudimentares que dão pena. Passam da vociferação autoritária aos gemidos de autopiedade com a rapidez do fingimento histérico, que só não dá na vista deles próprios.

São falsos até à medula, mas seus críticos esquerdistas são piores ainda. O PT, quando subiu ao poder sobre os escombros das reputações destruídas pelo seu moralismo acusador, montando ao mesmo tempo uma máquina de roubar mais ambiciosa e voraz do que mil Anões do Orçamento, não fez senão seguir a fórmula clássica de Lênin: corromper o capitalismo para acusá-lo de corrupto (e ainda financiar a propaganda anti-roubo com dinheiro roubado). Isso é de um realismo inatacável e, dentro da moral comunista, perfeitamente obrigatório. O antipetismo de esquerda, ao fingir-se de indignado com a roubalheira oficial, quer nos fazer crer que pode e vai operar a transição revolucionária para o socialismo dentro da mais estrita obediência à moral e às leis do Estado burguês. O PT, quando fazia essa mesma promessa, sabia que mentia. Tanto que já ia preparando os futuros mensalões e waldomiragens. Era desonesto para com o Brasil inteiro, mas honesto para com o compromisso leninista. Já os psóis da vida são tão falsos intrinsecamente, tão desprovidos do senso da verdade, que prometem o impossível com perfeita sinceridade subjetiva. Por isso mesmo não se vexam de explicar como traição àquele compromisso o que foi na verdade a sua implementação fiel. Se há algo de que o PT está inocente, é de infidelidade à estratégia comunista.

Em 19 de outubro de 2006

Qualquer Coisa E O Sr Summa

19 de outubro de 2002 | O Globo

Após fazer o diabo para abafar a repercussão das denúncias quanto à sua ligação com a narcoguerrilha colombiana, chegando ao supremo blefe de atribuí-las a especulações bizarras de um solitário “picareta” de Miami, o PT finalmente reconheceu que estava fingindo, que o caso realmente teve grande cobertura na mídia internacional e que, enfim, estava na hora de o partido sair da moita e dizer alguma coisa. Qualquer coisa.

A incumbência de escrever a coisa recaiu sobre a pessoa do sr. Giancarlo Summa, “assessor para a imprensa estrangeira” da campanha de Lula, o que é extremamente chique mas prova que o candidato se apressa em dar satisfações antes à mídia de fora do que à opinião pública local, condenada a satisfazer-se, até o momento, com negativas sumárias e evasivas lacônicas. A nota oficial que o sr. Summa divulgou anteontem consiste, na essência, em seis afirmativas, que passo a expor e comentar.

1. “O PT não tem nada a ver com as Farc”.

Para reduzir essa alegação a pó, basta ler a Resolução número 9 do X Foro de São Paulo, de 7 de dezembro de 2001. Após condenar a repressão da guerrilha pelo governo colombiano como “terrorismo de Estado” e como “verdadero plán de guerra contra el pueblo”, a assembléia decide: “9. Ratificar la legitimidad, justeza y necesidad de la lucha de las organizaciones colombianas y solidarizarnos con ellas.” Seguem-se as assinaturas dos representantes de 39 organizações, entre as quais o PT. Uma promessa de solidariedade seguida, poucos meses depois, de uma declaração de não ter nada a ver com isso. Em qual das duas a assinatura do PT foi fraudulenta?

2. “O Foro de São Paulo — onde há 12 anos as duas organizações se encontram para conversações a intervalos regulares — “é um foro de debates, e não uma estrutura de coordenação política internacional”.

Porca miséria, quem já viu um mero foro de debates emitir “resoluções” ao fim das assembléias? Resolução é decisão, é diretriz prática, é norma de ação. Uma assembléia que emite resoluções, subscritas unanimemente por organizações de vários países, não pode estar fazendo outra coisa senão coordená-las politicamente. É, aliás, o que afirma a resolução final do I Foro (São Paulo, 4 de julho de 1990), ao expressar seu intuito de “avanzar propuestas de unidad de acción consensuales”. O esforço comum para formular uma “unidade de ação” não pode ser puro debate, sobretudo quando se cristaliza em “resoluções”: ele é, no mais pleno sentido do termo, coordenação política.

3.” Os contatos do PT com as Farc visaram unicamente a colaborar com as negociações de paz entre elas e o governo colombiano”.

Então o PT tem um dom de antecipação profética, pois seus contatos com as Farc no Foro de São Paulo começaram oito anos antes das falhadas iniciativas de paz.

4. “Alguns dos primeiros parlamentares brasileiros com os quais as Farc se encontraram, em final de 1998, foram os deputados tucanos Tuga Angerami (PSDB-SP) e Arthur Virgilio (PSDB-AM).”

Conversa mole. Os primeiros contatos de políticos petistas com as Farc datam de 1990, no I Foro de São Paulo — e refiro-me apenas aos contatos oficiais, sem entrar em conjeturas, mais que plausíveis, quanto a encontros informais que podem ter-se realizado muito antes disso em algum hotel cubano de cinco estrelas, na presença do anfitrião Fidel Castro. Os dois tucanos mencionados é que só buscaram conversa com os guerrilheiros muito depois, por ocasião das conversações de paz.

5. “O plano Colômbia — ajuda técnica e militar norte-americana ao governo colombiano para o combate ao narcotráfico — é uma iniciativa “extremamente perigosa, já que pode produzir uma ‘vietnamização’ da região, isto é, a extensão do conflito para os países vizinhos, especialmente o Brasil”.

Lindo argumento. As Farc já entraram no território amazônico, já dão tiros nos nossos soldados, já recrutam brasileiros para o narcotráfico, além de fazer propaganda nas nossas escolas e vender drogas em troca de armas para Fernandinho Beira-Mar — mas o grande, o temível, o iminente perigo para o Brasil não vem delas, e sim de um plano de ajuda norte-americana que nem sequer prevê o envio de tropas à região! Lembram-se da frase de Ionesco que citei no artigo anterior? Pois é. É a lógica do absurdo em todo o seu mais radiante esplendor.

6. “O futuro governo — isto é, o governo do sr. Lula — vai atuar decididamente para romper a ligação entre os narcotraficantes da Colômbia e grupos de traficantes no Brasil.”

Até agora, o sr. Lula — apostando o peso da sua palavra contra o das provas colhidas com Fernandinho Beira-Mar — assegurava que as Farc não faziam comércio de drogas, portanto não podiam ter relação nenhuma com narcotraficantes brasileiros. De repente, seu partido promete que ele vai romper as ligações que proclamava inexistentes. Que zombaria é essa? Até onde irá a confiança petista no poder hipnótico dos jogos de palavras?

Depois dessa sua estréia nas letras pátrias, o sr. Summa, que tem por sobrenome um gênero literário medieval, deveria passar a assinar-se, para maior esclarecimento dos leitores, Summa mendacitatis: “Suprema mendacidade”.

Cualquier Cosa Y El Sr Summa

19 de octubre de 2002 | O Globo

Tras hacer lo indecible por amortiguar la repercusión de las denuncias sobre su vinculación con la narcoguerrilla colombiana, llegando incluso al bluf supremo de atribuirlas a especulaciones estrambóticas de un solitario “truhán” de Miami, el PT ha reconocido por fin que estaba fingiendo, que el tema realmente ha tenido amplia divulgación en los medios de comunicación internacionales y que, en definitiva, ya era hora de que el partido saliese de su escondite y dijese alguna cosa. Cualquier cosa.

El cometido de escribir la cosa le ha tocado a la persona del Sr. Giancarlo Summa, “asesor para la prensa extranjera” de la campaña de Lula, cosa que es extremamente chic pero que prueba que el candidato se apresura a dar explicaciones antes a los medios de comunicación de fuera que a la opinión pública local, condenada a contentarse, de momento, con negativas sumarias y evasivas lacónicas. La nota oficial que el Sr. Summa ha divulgado anteayer consiste, esencialmente, en seis afirmaciones, que paso a exponer y comentar.

1. “El PT no tiene nada que ver con las Farc”.

Para hacer añicos esa alegación, basta leer la Resolución número 9 del X Foro de São Paulo, de 7 de diciembre de 2001. Tras condenar la represión de la guerrilla por parte del gobierno colombiano como “terrorismo de Estado” y como “verdadero plan de guerra contra el pueblo”, la asamblea decide: “9. Ratificar la legitimidad, justeza y necesidad de la lucha de las organizaciones colombianas y solidarizarnos con ellas.” Siguen las firmas de los representantes de 39 organizaciones, y entre ellas el PT. Una promesa de solidaridad seguida, pocos meses después, de una declaración de no tener nada que ver con ello. ¿En cuál de las dos la firma del PT es fraudulenta?

2. “El Foro de São Paulo — donde desde hace 12 años las dos organizaciones se encuentran periódica y regularmente para conversaciones — “es un foro de debates, y no una estructura de coordinación política internacional”.

Porca miseria, ¿dónde se ha visto que un mero foro de debates emita “resoluciones” al término de las asambleas? Resolución es decisión, es directriz práctica, es norma de acción. Una asamblea que emite resoluciones, subscritas unánimemente por organizaciones de varios países, no puede estar haciendo otra cosa que coordinarlas políticamente. Es, en efecto, lo que afirma la resolución final del I Foro (São Paulo, 4 de julio de 1990), al expresar su intención de “avanzar propuestas de unidad de acción consensuales”. El esfuerzo común por formular una “unidad de acción” no puede ser puro debate, sobre todo cuando cristaliza en “resoluciones”: es, en el sentido más estricto del término, coordinación política.

3.” Los contactos del PT con las Farc no han tenido otra finalidad que la de colaborar en las negociaciones de paz entre ellas y el gobierno colombiano”.

Entonces el PT tiene un don de anticipación profética, puesto que sus contactos con las Farc en el Foro de São Paulo empezaron ocho años antes de las fallidas iniciativas de paz.

4. “Algunos de los primeros parlamentares brasileños con los que se encontraron las Farc, a finales de 1998, fueron los diputados tucanes Tuga Angerami (PSDB-SP) y Arthur Virgilio (PSDB-AM).”

Cuento chino. Los primeros contactos de políticos petistas con las Farc datan de 1990, en el I Foro de São Paulo — y sólo me refiero a los contactos oficiales, sin entrar en conjeturas, más que plausibles, sobre encuentros informales que pueden haber tenido lugar mucho antes de eso en algún hotel cubano de cinco estrellas, en presencia del anfitrión Fidel Castro. Los dos tucanes mencionados sí que sólo procuraron encontrarse con los guerrilleros mucho después, con ocasión de las conversaciones de paz.

5. “El plan Colombia — ayuda técnica y militar norteamericana al gobierno colombiano para el combate al narcotráfico — es una iniciativa “extremamente peligrosa, ya que puede producir una ‘vietnamización’ de la región, o sea, la extensión del conflicto a los países vecinos, especialmente a Brasil”.

Lindo argumento. Las Farc ya han entrado en el territorio amazónico, ya pegan tiros a nuestros soldados, ya reclutan brasileños para el narcotráfico, aparte de hacer propaganda en nuestras escuelas y de vender drogas a cambio de armas a Fernandinho Beira-Mar — ¡pero el gran, el temible, el inminente peligro para Brasil no proviene de ellas, sino de un plan de ayuda norteamericana que ni siquiera prevé el envío de tropas a la región! ¿Se acuerdan de la frase de Ionesco que cité en el artículo anterior? Pues eso. Es la lógica del absurdo en todo su más radiante esplendor.

6. “El futuro gobierno — esto es, el gobierno del Sr. Lula — va a actuar decididamente para romper la conexión entre los narcotraficantes de Colombia y grupos de traficantes de Brasil.”

Hasta ahora, el Sr. Lula — apostando el peso de su palabra contra el de las pruebas aprehendidas junto con Fernandinho Beira-Mar — aseguraba que las Farc no hacían comercio de drogas, y que, por tanto, no podían tener ninguna relación con narcotraficantes brasileños. De repente, su partido promete que va a romper las conexiones que proclamaba inexistentes. ¿Qué tomadura de pelo es esa? ¿Hasta dónde va a llegar la confianza petista en el poder hipnótico de los juegos de palabras?

Tras ese su estreno en las letras patrias, el Sr. Summa, que tiene como apellido un género literario medieval, debería pasar a firmar, para mayor ilustración de los lectores, como, Summa mendacitatis: “Suprema mendacidad”.

Cartas A Um Amigo Americano I

19 de novembro 2007 | Diário do Comércio

Quando você esteve no Brasil trinta anos atrás, o panorama de miséria, atraso, opressão e taxas altíssimas de mortalidade infantil por desnutrição parecia ser o resultado inevitável de um regime político dominado por oligarcas rurais corruptos e de uma economia agrícola latifundiária e monoculturista.

A reforma agrária, com distribuição de terras e ajuda estatal aos pequenos proprietários, parecia ser o remédio mais adequado para a situação desesperadora de milhões de brasileiros, mas os senhores do poder opunham à sua aplicação uma resistência obstinada, através do Congresso e da mídia.

Nos grupos políticos, intelectuais e militares livres de compromissos com os oligarcas, não havia muita divergência nem quanto ao diagnóstico, nem quanto à terapêutica. A necessidade da reforma agrária era admitida pelo consenso geral, só restando saber quem iria promovê-la, a esquerda ou a direita. Esta última, subindo ao poder em 1964, tomou logo a dianteira, promulgando o Estatuto da Terra e fundando em 1970 o Instituto nacional de Colonização e Reforma Agrária , que é até hoje o centro de comando da reforma agrária no Brasil.

No mesmo ano, a oposição comunista criou o Movimento dos Sem-Terra, para lutar por um modelo alternativo de reforma. Enquanto o governo preferia distribuir terras sem dono, aproveitando a reforma como instrumento de colonização das imensas áreas desocupadas do país, os comunistas preferiam invadir e ocupar as fazendas dos oligarcas, dando ao empreendimento o teor de luta de classes.

De início, o pretexto para fazer isso foi que se tratava de terras improdutivas, mas logo a distinção se tornou puramente acadêmica, pois fazendas altamente produtivas – algumas consideradas modelares pelos padrões da FAO – passaram a ser também invadidas. Invadidas, queimadas e totalmente destruídas. Isso mostrava claramente que o objetivo do MST não era a produção agrícola, mas sim a ocupação de espaços estratégicos que lhe dessem o controle sobre o sistema rodoviário, como acabou de fato acontecendo.

Outra diferença é que o modelo governamental privilegiava a exportação, enquanto os comunistas chamavam isso de concessão ao imperialismo e diziam preferir o mercado interno, embora jamais explicassem como abasteceriam o mercado interno (ou qualquer outro) queimando os meios de produção.

Antes, porém, que a distribuição de terras, seja pelo modelo governamental, seja pela via comunista, pudesse obter qualquer resultado economicamente sensível, sobreveio na década de 80 uma sucessão de fatos extraordinários que modificaram todo o quadro. No centro-oeste do Brasil há uma imensa extensão de terras que são as mais férteis do País. Uma parcela significativa dessa área foi ocupada pelo MST, cujos militantes, embora subsidiados pelo governo, não conseguiram — é claro — administrá-la, passando então a vender suas propriedades. Estas foram compradas, em parte, pelos antigos oligarcas, mas sobretudo por pequenos proprietários do Sul, que assim se tornaram grandes proprietários no centro-oeste.

Usando técnicas agrícolas aprimoradas, eles conseguiram em poucos anos aumentar de tal modo a produção agrícola das grandes fazendas, que o preço dos alimentos básicos se tornou muito barato e o problema da fome praticamente desapareceu da cena brasileira.

Decerto, o candidato presidencial Luís Inácio Lula da Silva venceu as eleições de 2002 e 2004 anunciando um programa chamado Fome Zero, voltado aos “cinqüenta milhões de brasileiros que passam fome”, mas, após um dos comícios em que voltava a esse assunto, foi filmado declarando a seus assessores, na intimidade, que esse número era pura mentira.

E era mesmo. No Brasil um frango custa um dólar, um litro de leite meio dólar, o quilo de carne bovina dois dólares e meio, uma baguette cinqüenta centavos de dólar. Com cinqüenta ou sessenta dólares por mês você come sanduíches de carne e toma leite todos os dias. As mortes infantis por desnutrição, que eram endêmicas uns anos atrás, tornaram-se praticamente inexistentes.

O dinheiro distribuído pelo Fome Zero pode ajudar as pessoas a comprar sapatos ou a pagar a conta de luz, mas quase ninguém precisa dele para comprar comida. O MST, ricamente subsidiado pelo governo, continua clamando pela reforma agrária, mas é o maior latifundiário do País e sua produção é irrisória.

Cada vez mais o movimento se dedica a objetivos puramente político-estratégicos, invadindo e queimando fazendas produtivas ao longo das rodovias, para poder paralisar o tráfego quando bem entende e assim exigir mais e mais dinheiro do governo.

Sua militância compõe-se em grande parte de desempregados urbanos que perceberam as vantagens de transmutar-se em falsos agricultores sem-terra para poder viver de verbas estatais ou, melhor ainda, de receber de graça terras do Incra, vendê-las e entrar novamente na fila.

Não espanta que, nessas condições, o objetivo declarado do MST, hoje, seja o de destruir precisamente a parte mais produtiva e próspera da agricultura nacional, o chamado agronegócio.

É preciso acabar com essa bête noire porque ela produz comida barata, alimenta o país e desmoraliza não só o MST como também, no fim das contas, a própria idéia de reforma agrária.

O Patinho Feio Da Politica Nacional

19 de março de 2007 | Diário do Comércio

Um artigo que publiquei no Rio de Janeiro, mas que o leitor do Diário do Comércio pode encontrar em http://www.olavodecarvalho.org/semana/070308jb.html , acabou suscitando mais polêmicas do que eu esperava. Nele eu esboçava as preliminares de uma crítica ao hábito da direita brasileira de denominar-se “liberal” em vez de “conservadora”, hábito que resulta numa desastrada inversão das suas intenções e propósitos, já que o liberalismo é uma etapa do movimento revolucionário mundial e não se pode frear um movimento fazendo-o dar, como dizia Lênin, um passo atrás para dar dois para a frente.

A terminologia política americana é muito mais sã e realista do que a brasileira. Direita e esquerda, nos EUA, são chamadas respectivamente “conservatism” e “liberalism”, mostrando que o pivô da luta política é a escolha entre conservar os valores e princípios dos Founding Fathers , ou, ao contrário, liberar-se deles. O fato de que esses valores e princípios absorvam em si o legado do liberalismo econômico clássico (de Adam Smith a Ludwig von Mises) poderia gerar algum equívoco, mas nunca vi um americano com mais de oito anos de idade confundir “classic liberalism”, que é uma teoria econômica, com o liberalismo político de Ted Kennedy, Nancy Pelosi e George Soros, que tende a uma economia estatizante e socialista. É que a divergência em economia é somente um elemento de detalhe numa disputa que se desenrola em torno de diferenças muito mais abrangentes e profundas. Em última instância, o que está em jogo é saber se os princípios da Constituição continuarão valendo em sentido material, substantivo, com todas as suas implicações culturais e morais para o guiamento da vida americana, ou se, ao contrário, serão interpretados num sentido meramente jurídico-formal que permita usá-los em favor de valores opostos aos que inspiraram a redação do documento.

A diferença é exemplificada pelo debate atual em torno do famoso “muro de separação” que Thomas Jeffenson pretendia erguer entre o Estado e as religiões. A idéia original era impedir que o Estado se tornasse instrumento de perseguição religiosa. Os “liberals” apegam-se hoje à fórmula, mas esvaziando-a do seu significado e transformando-a num pretexto jurídico-formal para banir da vida pública toda expressão da fé, instituindo a perseguição anti-religiosa generalizada que, a esta altura, já se traduz numa profusão de leis repressivas.

O que no Brasil incitou a direita a autodenominar-se “liberal” foi o fato de que o debate político nacional se limita quase que por inteiro a uma questão econômica, a disputa entre intervencionismo estatal e livre mercado. Nesse quadro, a simples opção pelo “liberalismo clássico” em economia acabou servindo para definir toda uma corrente política como “liberal” (ou, segundo seus adversários, “neoliberal”, um termo que já comentei aqui; v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/050725dc.htm ). Os inconvenientes disto são múltiplos.

Desde logo, o fato de uma corrente política aceitar definir-se exclusivamente pela sua opção econômica serve para legitimar um debate político atrofiado, expressão cultural de uma sociedade doente obcecada por dinheiro – ou antes, como dizia o Millôr Fernandes, pela falta de dinheiro.

Em segundo lugar, o liberalismo político é desde suas raízes um movimento revolucionário e anti-religioso. A origem do termo é espanhola, opondo “liberales” a “serviles”, abrangendo implicitamente neste último termo a totalidade dos fiéis católicos. Foi o liberalismo que, na França, instituiu a “constituição civil do clero”, virtualmente banindo a Igreja do território nacional. Na linguagem das encíclicas papais, “liberalismo” é a denominação das correntes heréticas que diluíram o dogma tradicional, preparando o advento da apostasia geral e da “teologia da libertação”. Entre os protestantes, “liberalismo religioso” é o nome da traição organizada. “O liberalismo – como resumiu um pregador evangélico americano – substituiu-se à perseguição. A perseguição matava homens, mas fazia prosperar a causa; o liberalismo mata a causa bajulando os homens para induzi-los a compromissos. A verdade perseguida sobreviveu em todas as eras, mas a verdade comprometida nunca sobrevive à tragédia fatal em que a voz de Deus é igualada à voz das tradições humanas” (Judson Taylor, em http://gospelweb.net/OldTimersWorks/judsontaylor.htm ).

Como no Brasil não há outras correntes direitistas além da “liberal”, a ela acorrem em busca de abrigo os conservadores católicos, protestantes e judeus. Mas aí, em nome da liberdade de mercado, são obrigados a camuflar as divergências que têm com os demais liberais em pontos muito mais decisivos de ordem moral e cultural. O “liberalismo” brasileiro, unificado exclusivamente por um programa econômico, é um saco de gatos no qual têm de conviver em harmonia abortistas e anti-abortistas, adeptos e inimigos da liberação das drogas e da eutanásia, fiéis religiosos ao lado de discípulos de Voltaire e Richard Dawkins empenhados em banir a religião da vida pública. Durante algum tempo, essas divergências podem parecer desprezíveis em face da luta mais imediata contra a economia estatista. Mas isso é uma ilusão mortal. Há tempos a esquerda internacional e local já decidiu que a estatização da economia pode ser adiada indefinidamente, se não sacrificada de vez em favor da fórmula mista chinesa — e que muito antes dela vem o combate no campo cultural, a luta contra a civilização judaico-cristã. Nessa luta, bandeiras como a liberação das drogas, a proibição da “homofobia” ou a legalização da eutanásia são prioritárias. Como se pode combater o esquerdismo concentrando o ataque num objetivo hipotético de longo prazo e cedendo ao inimigo todo o campo de batalha real e imediato onde ele já conquistou a hegemonia e tem quase o controle completo da situação? Essa é exatamente a “fórmula estratégica” do liberalismo brasileiro, que no seu enfrentamento com os esquerdistas tem de se limitar à argumentação econômica para não pôr à mostra suas profundas e insanáveis divergências internas, enquanto o discurso da esquerda está livre para abranger todos os temas e todas as dimensões da vida social, seguro de poder contar, em muitas áreas, com o apoio de uma parcela dos “liberais”.

Foi para limpar o terreno e possibilitar uma discussão séria desse problema que escrevi o artigo “Por que não sou liberal”.

O artigo exibia as palavras “liberal” e “conservador” entre enfáticas aspas, para indicar que significavam “tipos ideais”, não assimiláveis a qualquer grupo político concretamente existente nos arredores. Não obstante, muita gente o leu como se fosse um ataque desferido contra um desses grupos. Houve até quem visse nele o manifesto de um alguma confraria política mais ou menos clandestina, que por fim saísse do armário esbofeteando as vizinhas para poder mais facilmente se autodefinir por oposição a elas.

No Brasil de hoje, é isso o que se chama de “ler”. Primeiro, atribuir intenções ao autor e discutir com elas, não com ele. Segundo, transpor o texto para o modo imperativo, interpretando-o como se fosse a expressão de um desejo ou ordem, uma tentativa de interferir na realidade e não de compreendê-la. Já expliquei anos atrás que, das famosas três funções da linguagem classificadas por Karl Bühler, os brasileiros só sabiam de duas: a expressiva (manifestar estados interiores) e a apelativa (influenciar as pessoas). A função denominativa (descrever e analisar a realidade) era totalmente desconhecida nesta parte do mundo, e quem quer que cometesse a imprudência de falar ou escrever alguma coisa nessa clave seria automaticamente traduzido para as outras duas.

Por trás da linguagem informal, meu artigo era um estudo estritamente científico de duas fórmulas ideológicas consideradas na sua pura lógica interna, independentemente de acréscimos e modificações que pudessem sofrer de fatores sociológicos ou psicológicos intervenientes. Para tirar dele conseqüências políticas aplicáveis à situação concreta seria preciso antes compreendê-lo no próprio nível teórico em que se colocava. Saltando essa etapa, alguns preferiram aplicá-lo diretamente a si próprios e achar que eu estava falando mal deles, ficando naturalmente indignados com a injustiça que eu lhes fazia (é a terceira regra de leitura vigente neste país: substituir a compreensão inteligente por alguma afetação de sentimentos morais elevados; a quarta é interpretar tudo como mensagem cifrada de um grupo e não como esforço cognitivo de um cérebro individual).

Quem sabe que os sistemas de idéias têm uma estrutura própria, independente e diversa das intenções subjetivas de seus seguidores, entende claramente que a distinção entre liberalismo e conservadorismo é exatamente aquela que expus. Se alguém não o entende é porque, levado por hábito pessoal ou grupal, anexa ao liberalismo valores externos, — morais ou religiosos — que não são logicamente integráveis na sua estrutura. Muitos dos que caem nesse erro são apenas conservadores que se afeiçoaram, por motivos de pura oportunidade local, ao rótulo de liberais.

Quando o liberal enfezado exclama: “Nós temos princípios, não somos aqueles amoralistas que você descreveu”, ele mostra, desde logo, sua incapacidade de distinguir entre o arranjo terminológico local e a ideologia liberal em si. Mostra ainda sua confusão entre “princípios” e meras regras operacionais.

Um princípio é assim chamado porque vem, ora bolas, no princípio! Não na continuação de alguma coisa. É um preceito fundante e não fundado, condicionante e não condicionado. Justamente porque não depende de mais nada, porque vale por si mesmo, é que um princípio tem de poder ser aplicado universalmente, sem modificações nem atenuantes, a todos os casos abrangidos no seu enunciado, sem que isso leve a nenhuma contradição lógica e muito menos a absurdidades reais. Sem essa propriedade, nenhum enunciado é um princípio. “Não matarás”, por exemplo, é um princípio. Um indivíduo decidido a cumpri-lo até às últimas conseqüências, abstendo-se de tirar a vida alheia mesmo quando os outros o julgassem moralmente obrigado a fazê-lo, nem por isso teria se tornado um assassino. Um omisso ou um covarde, talvez; não um assassino. A extensão indefinida das aplicações não modifica o sentido do princípio, que é princípio justamente por isso: por estar na extremidade inicial de uma série ilimitada de conseqüências sobre as quais ele impera com autoridade inabalável, absoluta.

Já as regras operacionais não instituem o seu próprio campo de aplicação: ele é demarcado por um número ilimitado de outras regras operacionais, algumas delas tácitas ou só descobertas ex post facto , bem como por um número também ilimitado de conveniências de ordem prática que podem intervir em cada caso. Toda regra operacional é por isso intrinsecamente deficiente e não pode ser aplicada senão com muitos atenuantes e modificações.

Um princípio vale por si, independentemente da variedade das situações. As regras operacionais, ao contrário, sempre se dispõem em sistemas e hierarquias compostos essencialmente de limitações mútuas (culminando, idealmente, num princípio que as limita a todas sem ser limitado por elas). Uma regra operacional que, desconhecendo seus limites internos e externos, busque estender indefinidamente seu campo de aplicação, acabará se chocando não só contra outras regras e contra as conveniências externas, mas contra si própria. “Agir no interesse próprio”, por exemplo, é uma regra operacional. Ela funciona em certas circunstâncias da vida, mas, se passar de um certo limite, jogando os interesses do indivíduo contra os de todos os demais, ele se tornará presa de uma situação de isolamento ou de hostilidade que não é do seu interesse de maneira alguma. A regra, para funcionar, tem de ser freada por um sem-número de outras considerações. Na verdade ela já vem com freio, porque os interesses de uma criatura limitada são eles próprios necessariamente limitados, no mínimo pela duração limitada da sua vida. Uma regra operacional erigida indevidamente em princípio leva necessariamente à sua própria negação.

Ora, quais são os “princípios” do liberalismo? Quais são os critérios máximos e comuns a que os liberais, ao tentar dirimir suas divergências internas, apelam como a princípios supremos incumbidos de fundamentar julgamentos unânimes e restaurar a unidade do conjunto?

São dois: a liberdade e a propriedade privada.

Mas esses não são princípios de maneira alguma. São regras operacionais. Quando um liberal diz que “a liberdade de um termina onde começa a do outro”, ele está reconhecendo exatamente isso. E o mesmo aplica-se à propriedade: o terreno do Zé-Mané termina onde começa o do Mané-Zé. Nem a lei da propriedade nem a da liberdade podem ser estendidas ilimitadamente sem negar-se a si próprias. A liberdade absoluta equivaleria à completa ausência de constrangimentos externos, isto é, ao poder absoluto e à completa extinção da liberdade. Do mesmo modo, a propriedade absoluta corresponderia à posse integral e perfeita: seria propriedade em sentido lógico e não jurídico, como a propriedade de respirar, que você não pode vender e portanto não é propriedade em sentido jurídico de maneira alguma.

O “não matarás” não tem limites internos de qualquer natureza. Ele exclui somente aqueles casos que, a priori , já estão fora do seu enunciado, como por exemplo a defesa própria: defender-se não é “matar”, é tentar sair da encrenca por algum meio que, independentemente da sua intenção, resulte na morte do atacante. Se quem se defende em tais circunstâncias não é assassino, muito menos o é quem se recuse a fazê-lo, estendendo a aplicação literal do princípio até à aceitação passiva do dano próprio. Já a liberdade e a propriedade têm o dom inato de liquidar-se a si mesmas quando se erigem em princípios.

Se o liberalismo desemboca com tanta frequência no socialismo – como Verkhovenski pai gera Verkhovenski filho em Os Demônios de Dostoiévski –, é precisamente porque se constitui de regras operacionais que não têm, por definição, a abrangência necessária de princípios capazes de dar conta de suas próprias conseqüências.

O liberalismo é assim em razão da profunda influência que recebeu de Kant. Todo o esforço do filósofo de Koenigsberg foi para esvaziar a moral (e sua filha primogênita, a filosofia política) de todo conteúdo substantivo, reduzindo-a a um punhado de exigências formais, como por exemplo, “age de maneira que a regra que inspira tua ação possa ser adotada em todos os casos idênticos”. Kant não nos diz que regra deve ser essa, e não o diz justamente porque a moral, para ele, não pode ter nenhum fundamento objetivo. Ela repousa inteiramente na “fé”, compreendida como crença subjetiva, e nos “imperativos categóricos”, isto é, em exigências que ninguém pode justificar mas que todos se sentiriam aviltados se não as cumprissem. Para Kant, só existe conhecimento substantivo dos “fenômenos”, aparências naturais estudadas pela ciência física. Tudo o mais são formas lógicas, “imperativos categóricos” ou matéria de crença pessoal. Como nenhuma dessas três coisas é um princípio, no sentido substantivo do termo, isso equivale a dizer que a moral kantiana e a política liberal que nela se inspira são totalmente desprovidas de princípios, exceto lógico-formais e operacionais.

Guido de Ruggiero notou, em sua clássica “História do Liberalismo Europeu”, que o liberalismo não era uma filosofia política no sentido substantivo, mas um “método”, um conjunto de preceitos e regras que podiam ser adaptados às mais diferentes situações mediante um número ilimitado de ajustes e atenuações, conforme as exigências dos casos concretos.

Qualquer afirmação de um princípio substantivo é, na perspectiva kantiana, uma invasão do território reservado às ciências. O kantismo é, nesse sentido, o pai do positivismo, que os liberais de hoje tanto abominam porque têm contra ele aquele ódio extremo dos irmãos inimigos. Na verdade, odeiam nele tão somente a sua política centralizante e intervencionista, mas continuam subscrevendo a proibição kantiano-positivista de levar o conhecimento humano para além dos “fenômenos” e, portanto, de conhecer qualquer princípio moral universal no sentido que esses princípios tinham em Platão ou no cristianismo.

A própria sacralidade da vida humana não cabe de maneira alguma na perspectiva liberal. Para não ser abandonada de todo, ela acaba tendo de ser justificada com base nos dois pseudo-princípios da liberdade e da propriedade. Raciocina-se, por exemplo, da seguinte maneira: o corpo e sua vida são propriedades privadas do seu portador, o qual tem a liberdade exclusiva de decidir o que fazer com eles; logo, matá-lo contra a vontade dele é violar sua propriedade e sua liberdade. Tendo proclamado isso, o liberal acredita ser um sujeito boníssimo, porque defende a integridade da vida humana sem ser compelido a isto por nenhuma obrigação religiosa ou princípio universal, mas somente pelo livre exercício da sua razão individual. Mas não há nisso racionalidade nenhuma, há apenas uma confusão dos diabos. Desde logo, produzir um argumento em favor de alguma coisa não é o mesmo que fundamentá-la. A liberdade e a propriedade podem ser alegadas em favor da proibição de matar, mas não a fundamentam de maneira alguma, porque não são princípios. É impossível, por exemplo, decidir só com base nessas regras se o aborto deve ser permitido ou não: a aplicação dos “princípios” a esse caso só leva a perplexidades insolúveis, como por exemplo, a de saber se o feto é propriedade da mãe ou é dono de sua própria vida, discussão imbecil e postiça que já mostra a deficiência intrínseca do conceito de propriedade, quanto mais a inviabilidade de estender sua aplicação ao ponto de fazer dele o fundamento de alguma coisa mais básica como o direito à vida. Para qualquer pessoa não intoxicada do preconceito kantiano, o direito à vida é que é fundamento da liberdade e da propriedade. Reconhecem-no implicitamente todos os códigos penais do mundo (exceto o velho código penal soviético) ao prescrever penas mais graves para o homicídio do que para a mera subtração da propriedade ou da liberdade. Fundamentar o direito à vida com base na liberdade e na propriedade é torná-lo tão ambíguo quanto elas. E aí a única solução possível é transformar o “Não matarás” num “imperativo categórico”, isto é, em algo que é assim só porque o fulano sente que deve ser assim.

Um liberal pode ter princípios, sim, e a maioria dos que conheço os têm, mas os têm enquanto indivíduos concretos e não enquanto “liberais”. A incongruência da situação reside em que o método liberal, posto a serviço de princípios e valores substantivos tradicionais, constitui precisamente aquilo que nos EUA se chama “conservatism”. Nesse sentido, nem Friedrich Hayek nem Ludwig von Mises jamais foram liberais: e nos EUA não há quem não os considere anjos tutelares do movimento conservador. Porém o mesmo método, separado da moldura tradicional e erigido ele mesmo em princípio, se torna uma arma terrível nas mãos do movimento revolucionário, que através dele põe a serviço da mutação cultural gramsciana milhões de idiotas úteis liberais dispostos a ceder em tudo o que não lhes pareça limitar diretamente a liberdade e a propriedade (ou, pior ainda, em tudo que pareça fomentá-las mersmo à custa de dessensibilizar moralmente a população). Muitos desses, na verdade, não são propriamente idiotas: são liberais no sentido estrito e espanhol do termo, empenhados em destruir a civilização judaico-cristã e em implantar universalmente o império do niilismo por meio da radicalização da economia de mercado transfigurada em molde e princípio para a conduta humana em todas as áreas da vida. Não é sem razão que alguns deles se gabam de ser mais revolucionários que os socialistas.

A economia de mercado, como o liberalismo em si, é um esquema formal, um sistema de regras operacionais que pode ser posto a serviço de princípios e valores ou, usurpando o lugar deles, corroê-los e dissolvê-los. Hoje em dia, no Brasil, chamam-se igualmente “liberais” os adeptos de ambas essas coisas. Mas é uma unidade meramente verbal encobrindo divergências ainda mais profundas e insanáveis do que a oposição de economia de mercado e economia dirigida.

A idéia de unificar sob a bandeira de uma simples predileção econômica pessoas e correntes separadas por concepções morais e civilizacionais opostas e incompatíveis entre si é tão desastrada, que a autodissolução do “liberalismo” nacional já começou. O Instituto Liberal de Porto Alegre mudou seu nome para Instituto Liberdade, e o Partido da Frente Liberal para Partido Democrata. É a carapaça verbal que se rompe, deixando à mostra a confusão interna. O “liberalismo” brasileiro nunca passou de um arranjo oportunista, incapaz de impor respeito a seus adversários ou até a si próprio. A maior parte dos liberais que conheço não são liberais. São conservadores com nome trocado. Confundem o liberalismo econômico clássico, que é parte integrante da tradição conservadora, com a ideologia liberal que é uma camada histórica do movimento revolucionário. Como acreditam no primeiro, ostentam na lapela o emblema da segunda. Imaginam que assim parecem mais “progressistas”, podendo usurpar o prestígio da esquerda e chamá-la de “atrasada”. Mas essa aparente astúcia retórica, além de obrigá-los a reprimir seu conservadorismo e a restringir a luta ao terreno econômico, tem um segundo preço maior ainda: fazendo da sucessão temporal um critério de superioridade, eles acabam endossando uma metafísica predestinacionista da História que é a essência mesma da ideologia revolucionária (v. meu artigo de 26 de fevereiro, http://www.olavodecarvalho.org/semana/070226dc.htm ), e com isso ajudam a precipitar as transformações culturais que produzem inevitavelmente a ascensão da esquerda. É por nunca ter examinado seriamente essas contradições que o liberalismo brasileiro, ao longo dos últimos vinte anos, veio caminhando de derrota em derrota, de humilhação em humilhação.

Quanto tempo falta para que aqueles “liberais” que acreditam em princípios substantivos – religiosos ou não – descubram que nunca foram liberais e sim conservadores? Com isso, decerto, perderão muitos falsos amigos. Mas, afinal, o patinho feio também teve de abdicar de falsas afinidades para descobrir que era algo de melhor que um pato.

Recado Ao General

19 de março de 2005 | O Globo

Escrevo estas mal traçadas para comunicar ao general Jorge Félix que captei perfeitamente a sua mensagem: com ou sem dinheiro por baixo do pano, as relações PT-Farc não são da conta da Câmara nem do Senado, não são da conta da Justiça, não são da conta da mídia, não são da conta da opinião pública. São segredo de Estado. Só pode saber delas quem já sabe, isto é, o próprio PT, as próprias Farc e, evidentemente, o próprio general Félix e seus assessores. Quem, fora desse círculo de iniciados, ousar falar do assunto ou, mais indecentemente ainda, pedir uma investigação pública a respeito, incorrerá em crime contra a segurança da pátria.

Aviso pois ao general que ele nada tem a temer da minha parte. Cumprirei ciosamente meu dever primordial de cidadão, que consiste em fechar os olhos, tampar os ouvidos e calar a boca.

Não sei se o PT recebeu dólares ilegais das Farc e, patrioticamente, não quero saber.

Vou até mais longe.

Antigamente, acreditei saber que a elite petista prestou às Farc apoio contra o governo colombiano, acusando-o de “terrorismo de Estado”. Acreditei saber que alguns líderes da narcoguerrilha foram hóspedes oficiais de um governo petista e, sob a proteção das autoridades brasileiras, circularam livremente pelas ruas deste país ao mesmo tempo que as Forças Armadas os acusavam, sem a mínima repercussão aliás, de atirar contra nossos soldados na fronteira. Acreditei saber que, durante mais de uma década, não só as Farc, mas também outras organizações notoriamente criminosas como o MIR chileno, seqüestrador de brasileiros, se reuniram anualmente com a cúpula do PT no Foro de São Paulo, sob a presidência do sr. Luiz Inácio Lula da Silva e a orientação espiritual de Fidel Castro, para articular suas ações numa estratégia comum.

Todos esses conhecimentos, e outros do mesmo teor, não me pareciam duvidosos, pois os colhi em atas publicadas no site do Foro de São Paulo, depois retiradas do ar e por fim devolvidas ao conhecimento público em versão expurgada, mas só depois de eu as haver copiado no original e transcrito no meu próprio site.

Não obstante, a posse de tais subsídios, por sólidos e confiáveis que sejam, pode me induzir a alguma curiosidade pecaminosa quanto ao caso agora denunciado pela revista “Veja”. De que adianta o conhecimento, se ele nos induz à tentação e dana, se não a nossa alma, a nossa condição de bons cidadãos, fazendo de nós traidores e réprobos? Renuncio, pois, às informações perversas que até ontem freqüentavam a minha mente insana e, purificado pela ignorância, recolho-me a um patriótico silêncio retroativo.

Para tornar minha mudez ainda mais dignificante, confesso que acrescentei à minha indiscrição de outrora o agravante imperdoável do falso julgamento moral.

Aqueles conhecimentos de que dispunha me pareciam falar de crimes maiores do que uma mera contribuição ilícita de campanha. Que eram cinco, dez ou cem mil dólares, em comparação com afagos, legitimação e acobertamento moral oferecidos persistentemente a entidades envolvidas em narcotráfico, seqüestros e homicídios em número incalculável?

Escrevi isso anos a fio, inclusive num semanário de circulação similar à de “Veja”, e nunca fui processado nem acusado de crime contra a segurança da pátria. No entanto, bastou levantar-se a hipótese “dinheiro”, e instantaneamente o Estado, na pessoa do general Félix, sentiu-se exposto, ameaçado, obrigado a fechar-se em copas num muro de segredos, como se fosse tempo de guerra.

Admito, pois: fui mau brasileiro. Coloquei a vida humana, na escala de valores, acima do dinheiro, julguei a cumplicidade moral com o homicídio em massa crime mais hediondo do que a vulgar safadeza financeira, fosse ela real ou imaginária.

A Mao Esquerda

19 de maio de 2010 | Diário do Comércio

Tentei ler o livro de Fausto Wolff, À Mão Esquerda , mas não consegui chegar ao fim. Como atravessar impune quinhentas e tantas páginas de narrativas cruzadas, assinadas por vários personagens que, desde épocas e pontos de vista diversos, escrevem todos igualzinho, todos no mesmo estilo, o estilo jornalistico de Fausto Wolff?

A experiência foi tanto mais dolorosa porque eu tinha acabado de ler Une Vieille Maitresse , de Jules Barbey d’Aurevilly, obra-prima composta no intuito de dar a impressão de ter sido escrita por mulher, e que nos convence disso desde a primeira página, ao ponto de perguntarmos se, na vida real, o autor não desmunhecava ao menos um pouquinho, coisa que de fato ele não fazia. A comparação é acachapante. Louvado como um gênio do romance por seus companheiros de militância e de bebedeira, Fausto Wolff nunca foi um romancista. Ninguém pode ser romancista se não consegue pensar, sentir e escrever como seus personagens, desdobrando-se momentaneamente em eus imaginários. E para quê alguém faria isso, afinal? Justamente para captar no plano estético a unidade de experiências vivas que ainda são demasiado recentes, ou demasiado impactantes, para poder ser compreendidas intelectualmente.

Contar a história é o primeiro nível de elaboração da experiência. O romancista não escreve para explicar nada, mas para registrar um conjunto de experiências reais ou imaginárias cujo nexo último lhe escapa, cujo sentido ele só apreende como forma estética, não como conceito explicativo. Daí o sentimento de descoberta, e ao mesmo tempo de perplexidade, que nos assalta ao lermos um bom romance. Ele nos mostra algo de muito importante, mas que não sabemos precisamente o que seja. Por isso é que ninguém pode dizer qual “o” sentido de um romance. Ele tem necessariamente muitos, e até contraditórios. Um romance é um conjunto articulado de símbolos, e um símbolo, como ensinava Susanne K. Langer, é “uma matriz de intelecções” – não a expressão alegórica de intelecções prévias. Um romance deve dar o que pensar, não um pensamento pronto. Por isso é que homens de idéias, pensadores, ideólogos, formadores de opinião, fracassam com tanta freqüência ao escrever romances: eles falam daquilo que já entenderam, não nos dão uma experiência viva carregada de mistério, de perguntas sem resposta.

Dizer que alguém é um mau romancista não é o mesmo que acusá-lo de ser mau escritor. Grandes escritores – Maurice Barrès é talvez o exemplo mais alto – podem ser romancistas medíocres ou péssimos, porque conhecem demais o sentido daquilo que querem dizer; conhecem-no ao ponto de poder expressá-lo em oratória ou em discurso filosófico, que é o que deveriam fazer em vez de simular experiência viva com material velho e já esclarecido intelectualmente. Não digo que seja o caso de Fausto Wolff: ele nem é um grande escritor, nem tem propriamente idéias. Mas é um escritor razoável: tem aquela naturalidade de expressão que lembra as conversas de botequim entre intelectuais cariocas numa época em que eles falavam muito e falavam com graça. Todos os colaboradores do Pasquim dominavam esse estilo, que de certo modo ainda é modelo para muita gente. A facilidade dessa linguagem induz à tentação de imitá-la em romance. Mas, sinceramente, lavradores gaúchos falando como colunistas do Pasquim são uma experiência traumática da qual ainda estou tentando me recuperar. Há uma diferença abissal entre captar o coloquialismo da linguagem cotidiana e vestir a nossa própria linguagem cotidiana, como uma camisa-de-força, em personagens que jamais poderiam falar como nós. Para ficar em comparações cariocas, ninguém captou a linguagem do povo do Rio de Janeiro como Marques Rebelo, mas, pessoalmente, Rebelo não falava como seus personagens: falava como um erudito, um cultor dos clássicos, conjugando os verbos e colocando os pronomes com exatidão irritante. O gaúcho Fausto Wolff tornou-se um intelectual de Ipanema e, quando toma a palavra em nome de seus antepassados imigrantes, faz deles intelectuais de Ipanema. A coisa é tão desnivelada que, malgrado o interesse da história, e não obstante a própria graça dessa linguagem em si, À Mão Esquerda acaba se tornando insuportável depois de alguns capítulos. Wolff tinha ali o material para um excelente livro de memórias, que estragou tentando parir um romance.

Não obstante, é preciso concordar com Carlos Heitor Cony quando ele diz que, com isso, Wolff “escreveu o livro mais importante da sua geração”. Se por “geração” entendemos precisamente o grupo de intelectuais cariocas dos anos 60-70 que escreviam no Pasquim , Fausto Wolff realmente fez mais pela memória dela do que os velhinhos que, no auge da impotência criadora, tentaram reviver com dinheiro público as glórias daquele semanário mediante uma coisa chamada, muito apropriadamente, Bundas .

À Mão Esquerda é o epitáfio de uma geração que se achava extraordinariamente importante, mas cuja contribuição à cultura nacional se revela cada vez mais nula à medida que os ecos das conversas nos bares de Ipanema vão se extinguindo como um sussurro distante. Da patota, como essa geração se autodenominava, só sobrarão as obras de seus membros periféricos e honorários, Millôr Fernandes e Carlos Heitor Cony. O próprio Francis só sobrevive como personagem, não como autor. A história da intelectualidade brasileira está repleta desses episódios que, por um momento, parecem muito atraentes, mas dos quais só resta, no fim das contas, o esquecimento.

Em 19 de maio de 2010

Touraine Por Que No Te Callas

19 de maio de 2008 | Diário do Comércio

Em recente entrevista à France-Presse, em Lima, o mundialmente célebre sociólogo francês Alain Touraine disse que “a América Latina caminha para a direita”. O argumento que ele apresentou para justificar uma afirmativa tão extravagante foi que “nenhum dos países da região fez reformas para reduzir a desigualdade”.

A ciência política nasceu quando Platão e Aristóteles distinguiram entre o discurso do agente político que quer produzir certos efeitos práticos e o discurso teorético do estudioso que quer apenas compreender a ação política. Decorridos dois mil e quatrocentos anos, ainda há quem se esforce para apagar essa distinção, de modo a que o olhar atento do filósofo não constitua obstáculo à ação política baseada na confusão e no erro. Hoje em dia esse esforço é premiado com honras acadêmicas e aplausos da mídia, constituindo mesmo tudo o que um cidadão precisa fazer para celebrizar-se como cientista político.

“Direita” e “esquerda” são termos que podem ser usados seja por um observador para descrever entidades políticas concretas, seja por essas mesmas entidades para definir-se a si próprias ou a seus adversários. Têm, portanto, três camadas básicas de significado. São, em primeiro lugar, nomes de grupos políticos atuantes, perfeitamente identificáveis. Em segundo lugar, nomeiam um conjunto de ideais e valores, reais ou fictícios, alegados para legitimar as ações desses grupos. Em terceiro lugar, e com emprego inverso, constituem o nome de vícios e crimes que cada um dos grupos imputa ao respectivo adversário. Só o primeiro desses três sentidos corresponde diretamente a uma realidade objetiva: os outros dois são expressões simbólicas de emoções e preferências subjetivas.

Deixar claro em qual desses três sentidos as expressões estão sendo usadas é um dever que incumbe até mesmo às pessoas empenhadas na pura ação política, quanto mais ao estudioso acadêmico. Confundir os significados é a obra dos demagogos e charlatães.

Na primeira das três acepções, “esquerda” é o nome das entidades que sustentam a política de Lula, no Brasil, de Hugo Chávez, na Venezuela, de Evo Morales, na Bolívia, etc. Na segunda acepção, representa o conjunto de pretextos ideológicos que legitimam essa sustentação, o mais veemente dos quais é a promessa de “reduzir as desigualdades”. Na terceira, expressa a auto-imagem desses grupos enquanto inimigos da “direita”, identificada, para fins de propaganda, como criadora e beneficiária da desigualdade.

Nos países latino-americanos presentemente governados pela esquerda, os partidos que ela denomina “de direita” — dos quais alguns se autodefinem como tal e outros não — encontram-se cada vez mais distanciados não só do poder como da mera possibilidade de alcançá-lo um dia, tal a força dos mecanismos repressivos e de controle, ostensivos ou sutis, que a esquerda dominante mobilizou contra eles.

Em segundo lugar, a esquerda latino-americana está organizada supranacionalmente, através do Foro de São Paulo e da sua bem azeitada rede de contatos, que lhe tem propiciado vitórias em cima de vitórias, enquanto os partidos de direita se limitam a reações locais e inconexas, incapazes de fazer face a uma estratégia continental unificada. Muitos desses partidos encontram-se tão debilitados que já temem ostentar o rótulo de direitistas e buscam adaptar-se ao esquerdismo triunfante por meio de toda sorte de concessões pusilânimes e mimetismos simiescos.

Mais ainda, as organizações de esquerda, apoiadas por fundações bilionárias, por organismos internacionais e pela grande mídia da Europa e dos EUA, tem hoje recursos financeiros com que nenhum partido de direita ousaria nem mesmo sonhar.

Por fim, o governo dos EUA, em vez de contrabalançar a situação ajudando os partidos latino-americanos de direita no seu próprio interesse, insiste na velha tática de buscar “conter a esquerda radical” por meio do apoio à “esquerda moderada”, ignorando solenemente a solidariedade profunda entre as duas esquerdas e ajudando a marginalizar e estrangular as poucas forças de direita e pró-americanas que possam restar no continente.

Nesse panorama, a coisa mais evidente é que a esquerda, como força concreta organizada, já domina a América Latina como nenhuma outra corrente política unificada jamais dominou antes, e que as perspectivas de afastá-la do poder são cada vez mais remotas e, a curto prazo, praticamente inexistentes.

Por outro lado, é um fato histórico inegável que a esquerda, justamente nos países que dominou da maneira mais completa e incontrastada, como a URSS, a China ou Cuba, não só fez pouco ou nada para reduzir as desigualdades, como realmente as aumentou. Tanto do ponto de vista político quanto do econômico, a distância entre os privilegiados e a massa popular aí cresceu a um ponto que o cidadão comum das democracias mal pode conceber, mas que se mede em números: jamais se morreu de fome, no mundo, como se morreu nessas nações governadas por nababos revolucionários. Em matéria de fome e miséria, nada, nos países capitalistas, ou mesmo na maior parte das colônias das antigas potências européias, se compara ao que se passou na Ucrânia em 1932-33 ou na China durante o “Grande Salto para a Frente”.

Definir a esquerda pela “luta contra a desigualdade” é defini-la pelo seu discurso de auto-exaltação ideológica exclusivamente, vendendo como realidade atual e concreta o que é somente um slogan publicitário e uma promessa jamais cumprida. Isso não é ciência, é vigarice intelectual. Vigarice tanto mais intolerável quando acoplada à fraude semântica complementar e inversa que, recusando à direita o privilégio conferido à esquerda, de autodefinir-se por seus ideais nominais, a define pelos males e pecados que a esquerda lhe imputa.

Mas fazer desse truque imoral o fundamento para o diagnóstico de uma situação política concreta, saltando da mera confusão proposital de conceitos à falsificação de um estado de fato, já é ir além da pura vigarice, é abdicar da condição de intelectual e rebaixar-se ao nível dos demagogos mais chinfrins e desprezíveis.

Além de camuflar o poder da esquerda sob o falso alarma de uma guinada à direita, desviando as atenções gerais de um desastre atual e presente para um perigo remoto e fictício, o prof. Touraine transforma em propaganda esquerdista aquilo que, pela sua substância fática, só poderia e deveria ser um ataque frontal à hipocrisia das organizações de esquerda, ao já proverbial cinismo com que, uma vez chegadas ao poder, elas só se ocupam em conquistar mais poder ainda, em vez de zelar pelo bem do povo que nelas confiou.

Não, o que define a esquerda, historicamente, não é a luta contra a desigualdade. É a luta pela concentração de poder político, sob o pretexto de combater a desigualdade. Foi isso o que se viu na Revolução Francesa, na Revolução Russa, na Revolução Chinesa, na Revolução Cubana e por toda parte onde a esquerda reinou sem ser atrapalhada pela presença da maldita direita. Mesmo nas nações democráticas, onde tem adversários a enfrentar, a esquerda busca sempre aumentar por todos os meios possíveis o poder da burocracia estatal. E, como a concentração do poder político concentra também necessariamente o poder econômico – motivo pelo qual os capitalistas monopolistas ajudam sempre a esquerda, não a direita –, a esquerda mundial deve ser definida estritamente, segundo a substância da sua realidade histórica, como a força política que há pelo menos dois séculos promove a desigualdade em nome da igualdade.

Embelezando As Farc

19 de maio de 2001 | Época

Estão tentando aliviar a má impressão do envolvimento com o tráfico A prisão de Luiz Fernando da Costa num acampamento de guerrilheiros colombianos, com provas da troca de drogas por armas, foi talvez a coisa mais temível que já aconteceu para a esquerda nacional desde a morte de Carlos Lamarca e Carlos Marighella. Beira-Mar é um arquivo vivente das relações perigosas entre banditismo e revolução, e por isso alguns jornalistas, sempre ansiosos de vasculhar porões e ralos para destroçar a carreira de políticos de direita, são tão circunspectos e evasivos no que diz respeito ao traficante. Se ele soubesse algo capaz de incriminar Antonio Carlos Magalhães ou Paulo Maluf, os repórteres o assediariam dia e noite. Como o que ele sabe é contra a esquerda, há na imprensa quem chegue a protestar contra o destaque que a notícia de sua prisão mereceu em alguns jornais e revistas.

Outros não se contentam com abafar notícias: partem para a desinformação ativa. Segundo uma nota reproduzida em várias publicações na semana passada, o representante do Programa das Nações Unidas para o Controle Internacional de Drogas, Klaus Nyholm, teria dito que as Farc não atuam como traficantes de drogas, limitando-se a cobrar imposto “por toda a cocaína que sai do território colombiano”, e que as tropas paramilitares de extrema direita, estas sim, têm envolvimento direto com o tráfico, do qual obtêm de US$ 200 milhões a US$ 500 milhões por ano.

A primeira dessas declarações é autêntica, mas Nyholm a fez muito tempo atrás, pois já vem citada num artigo de Noam Chomsky de junho de 2000. Com data falseada, ela serve agora de amortecedor contra o impacto das provas encontradas com Beira-Mar. Mas a quem isso pode iludir? Mesmo que não participassem diretamente do tráfico, as Farc seriam ainda mais criminosas que os traficantes, já que os dominaram e reduziram à condição de súditos, tornando-se mandantes e beneficiárias maiores de seu comércio ilícito.

Quanto à segunda declaração, Nyholm simplesmente não poderia tê-la feito. Ninguém que não pretendesse se autodenunciar como mentiroso ou retardado mental afirmaria que as Farc recebem imposto de “toda a cocaína que sai da Colômbia” para, logo na frase seguinte, anunciar que uma parcela considerável desse todo vem do maior inimigo delas. Pois aí o infeliz teria de explicar se a extrema direita paga imposto à guerrilha comunista ou se inventou um jeito de burlar o Fisco.

Só a volúpia comunista de mentir pode tornar um jornalista tão cego para a absurdidade pueril daquilo que inventa. No entanto, seria imprudente explicar pela sanha radical de indivíduos isolados o viés esquerdista que deforma boa parte do noticiário circulante. A situação reflete uma estratégia racional, consciente, empenhada na conquista dos meios de comunicação desde a década de 60, quando entraram no Brasil as idéias de Antonio Gramsci, teórico da “ocupação de espaços”. Já em 1993 a CUT admitia ter em sua folha de pagamento nada menos de 800 jornalistas – o suficiente para produzir sete edições semanais de Época! Somem a isso os que trabalham para o PT, o MST e as centenas de ONGs esquerdistas milionárias (sem que nada de comparável, mesmo remotamente, contrabalance o fenômeno pelo lado da direita) – e verão a classe jornalística amplamente subjugada aos interesses de uma facção política que não prima pela transparência, seja de seus planos para a derrubada do Estado, seja dos meios de financiamento com que pretende realizá-los.

Malgrado suas alegações de “ética”, muitos jornalistas de esquerda estão indo longe demais na prática da regra leninista de que os fins justificam os meios. Alguns deles não têm sequer consciência de que o que estão fazendo é mau e desonesto. Simplesmente identificam a direita com o mal e sentem que mentir contra ela não é pecado. Mas “mentir em prol da verdade” foi o pretexto entorpecente que levou muitos homens bons a colaborar com o genocídio de 100 milhões de vítimas.

Em 19 de maio de 2001

A Primeira Vitima

19 de junho de 2013 | Diário do Comércio

Quaisquer que venham a ser os desenvolvimentos da onda de protestos no Brasil, sua primeira vítima está ali, caída no chão para não se levantar nunca mais, e ninguém sequer se deu conta da sua presença imóvel e fria: é a “direita” brasileira.

Durante décadas, desde os tempos do governo militar, os partidos e movimentos de esquerda vieram construindo sistemática e obstinadamente o seu monopólio das mobilizações de massa, enquanto o que restava da “direita” , atropelado e intimidado por acontecimentos que escapavam à sua compreensão, ia se contentando cada vez mais com uma concorrência puramente eleitoral, tentando ciscar nas urnas umas migalhas do que ia perdendo nas ruas.

Não sei quantas vezes tentei explicar a esses imbecis que o eleitor se pronuncia anonimamente de quatro em quatro anos, ao passo que a militância organizada se faz ouvir quantas vezes bem deseje, todos os dias se o quiser, dando o tom da política nacional e impondo sua vontade até mesmo contra um eleitorado numericamente superior.

Mas a ideia de formar uma militância liberal e conservadora para disputar o espaço na praça pública lhes inspirava horror. Como iriam bater de frente na hegemonia do discurso “politicamente correto”, se este, àquela altura, já se havia impregnado tão fundo nos seus próprios cérebros que já não viam perspectiva senão imitá-lo e parasitá-lo, na ânsia de ludibriar o eleitor e conservar assim os seus cargos, ainda que ao preço de esvaziá-los de qualquer mensagem ideológica diferenciada e própria?

Era inútil tentar fazê-los ver que, com isso, se enredavam cada vez mais, voluntariamente, na “espiral do silêncio” (v. Elisabeth Noelle-Neumann, The Spiral of Silence , The University of Chicago Press, 1993), técnica de controle hegemônico em que uma das facções é levada sutilmente a abdicar da própria voz, deixando à inimiga o privilégio de nomeá-la, defini-la e descrevê-la como bem entenda.

Alguns eram até idiotas o bastante para se gabar de que faziam isso por esperteza, citando o preceito de Maquiavel: aderir ao adversário mais forte quando não se pode vencê-lo. Belo mestre escolheram. O autor do Príncipe foi um bocó em matéria de política prática, um fracassado que esteve sempre do lado perdedor.

Assim, foram se encolhendo, se atrofiando, se adaptando servilmente ao estado de coisas, até o ponto em que já não tinham outra esperança de sobrevivência política senão abrigar-se sob o guarda-chuva do próprio governo que nominalmente diziam combater.

Ao longo de todo esse tempo, ia crescendo a insatisfação popular com um partido que fomentava abertamente o banditismo assassino, cultivava a intimidade obscena com terroristas e narcotraficantes, tomava terras de produtores honestos para dá-las à militância apadrinhada e estéril, estrangulava a indústria mediante impostos, demolia a educação nacional ao ponto de fazer dela uma piada sinistra e, last not least, expandia a corrupção até consagrá-la como método usual de governo.

Milhões de brasileiros frustrados, humilhados, viam claramente o abismo em que o país ia mergulhando. Essa massa de insatisfeitos, como o demonstravam as pesquisas, era acentuadamente cristã e conservadora.

Em 2006 escrevi: “Com ou sem nome, a direita é 70 por cento dos brasileiros. Um programa político ostensivamente conservador teria portanto sucesso eleitoral garantido”. Mas, com obstinação suicida, a “direita” se recusava a assumir sua missão de porta-voz da maioria. Apostava tudo nas virtudes alquímicas da autocastração ideológica.

“Um pouco mais adiante – escrevi na mesma ocasião – , ela agravou mais ainda a sua situação, quando, após a revelação dos crimes do PT, perdeu a oportunidade de denunciar toda a trama comunista do Foro de São Paulo e, por covardia e comodismo, se limitou a críticas moralistas genéricas e sem conteúdo ideológico.”

Etanto tempo se passou, tão grande foi o vazio, que de recuo em recuo essa direita foi abrindo, que a própria esquerda acabou notando a necessidade de preenchê-lo, mesmo ao preço de sacrificar uma parte de si própria e, como sempre acontece nas revoluções, cortar as cabeças da primeira leva de revolucionários para encerrar a fase de “transição” e saltar para as rupturas decisivas, as decisões sem retorno. Há mais de um ano o Foro de São Paulo vinha planejando esse salto, contando, para isso, com os recursos do próprio governo, somados aos da elite globalista fomentadora de “primaveras”.

Como não poderia deixar de ser em tais circunstâncias, o clamor da massa conservadora acaba se mesclando e se confundindo com os gritos histéricos do esquerdismo mais radical e insano, tudo agora instrumentalizado e canalizado pela única liderança ativa presente no cenário.

Condensando simbolicamente essa absorção, a vaia despejada sobre a presidenta Dilma Rousseff no Estádio Nacional de Brasília, autêntica manifestação popular espontânea, já não se distingue da agitação planejada e subsidiada que acabou por utilizá-la, retroativamente, em proveito próprio.

Não se pode dizer que a esquerda tenha “roubado a voz” da direita, pois a recebeu de presente. A opção pelo silêncio, o hábito reiterado da autocastração expulsou a direita nacional de um campo que lhe pertencia de direito e de fato, e terminou por matá-la. Ela não se levantará nunca mais.

Dormindo Profundamente

19 de junho de 2006 | Diário do Comércio

Alguns leitores reclamam que descrevo o problema mas não indico solução. Sabem por que faço isso? É que as únicas soluções possíveis são tão difíceis e remotas que só de pensar nelas a visão do problema se torna ainda mais insuportável. Cada vez que volto ao assunto ecoa na minha memória o verso de Manuel Bandeira, o mais triste da literatura universal, que resume a história do Brasil nas últimas décadas: “A vida inteira que poderia ter sido e que não foi.”

Em 2002, numa reunião internacional (v.

http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4960 ), os estrategistas da revolução latino-americana já haviam chegado à conclusão de que nenhuma força de direita tinha condições de erguer-se para enfrentá-los. Desde então o poder da esquerda veio crescendo formidavelmente, especialmente no Brasil, e seus eventuais adversários não fizeram senão ceder terreno, acomodar seu discurso ao do inimigo, abdicar de toda identidade ideológica e gastar energias preciosas em alianças debilitantes, em campanhas de bom-mocismo sem teor ideológico e em esforços eleitorais perfeitamente fúteis.

É claro que antevejo soluções. Mas tenho a quase certeza de que ninguém vai colocá-las em prática. Todos os que poderiam fazê-lo estão demasiado fracos, demasiado sonsos para poder reagir. Oito, dez anos atrás andei sugerindo soluções. Falei a empresários, políticos, religiosos, intelectuais, militares. Em geral não consegui persuadi-los nem mesmo de que havia um problema – o mesmo problema sob cujo peso agora estão gemendo. Todos, sem exceção, avaliavam a situação baseados somente no que liam na mídia, prescindindo solenemente de qualquer conhecimento das fontes diretas, da bibliografia especializada ou mesmo dos clássicos do marxismo. E julgavam com uma segurança, com uma pose! Uns confiavam nos seus galões, outros no seu saldo bancário, outros nos seus diplominhas da USP como se fossem garantias de infalibilidade, incomparavelmente superiores a décadas de estudo e montanhas de documentos. Uns diziam que eu estava açoitando cavalos mortos, outros estavam tão despreocupados que tinham tempo para criticar detalhes de estilo que os incomodavam nos meus artigos, outros, ainda, davam-me conselhos jornalísticos, recomendando-me temas mais agradáveis para conquistar os coraçõezinhos das leitoras em vez de assustá-las com advertências apocalípticas. Assim o tempo passou. Acabei-me recolhendo à minha insignificância, e hoje me dedico à função que me resta: analisar o mais objetivamente possível a agonia do Brasil, para uso dos futuros historiadores. Larguei a prática da medicina de urgência para dedicar-me ao estudo das patologias terminais. É um assunto inesgotável e, para quem observa o moribundo de longe, interessantíssimo. Se eu estivesse no Brasil, morreria de depressão. À distância em que estou, a melancolia do declínio se torna quase uma experiência estética.

Vou lhes dar só um exemplo de como a esquerda está adiantada na conquista de seus objetivos e a direita, ou o que resta dela, ainda nem começou a se dar conta do estado de coisas.

No fim dos anos 70, o presidente Jimmy Carter, fiel às diretrizes do CFR, decretou que a melhor maneira de combater o avanço do comunismo na América Latina era apoiar a “esquerda moderada”. Quem conhece a figura sabe precisamente o que ele queria dizer com isso: tratava-se de fomentar o comunismo alegando combatê-lo. Os brasileiros estão (até hoje) tão por fora do que acontece nos EUA, que a simples hipótese de um presidente americano pró-comunista ainda lhes parece absurda e fantasiosa. Falta-lhes o conhecimento de pelo menos setenta anos de história. Ainda nem se tocaram de que o braço-direito de Franklin D. Roosevelt em Yalta era um espião soviético, de que na gestão Truman o Departamento de Estado foi entregue a um advogado chiquíssimo cujo escritório representava oficialmente o governo da URSS nos EUA, de que todas as acusações de espionagem nos altos círculos lançadas pelo senador Joe McCarthy acabaram sendo confirmadas (com uma única exceção) e de que, enfim, o lugar mais seguro para os comunistas, depois da redação do New York Times , é o governo americano. É horrível conversar com pessoas que, precisamente por não saber nada, acreditam saber tudo. Principalmente quando elas têm dinheiro bastante para pagar consultores que as conservam na ilusão.

Graças à ação conjugada da ignorância e dos consultores, até hoje o empresariado brasileiro acredita piamente na lenda esquerdista de que os americanos deram o golpe de 64 e não sabem que a verdade é precisamente o contrário, que o governo de Washington não ajudou em nada a criar o regime militar mas sim foi o principal responsável pela sua destruição. “Fortalecer a esquerda moderada” significava, desde logo, eliminar a direita, radical ou moderada, como alternativa válida ao esquerdismo. A morte da direita nacional foi decretada por Jimmy Carter, pelo CFR e pelas fundações Ford e Rockefeller (peço que consultem os meus artigos http://www.olavodecarvalho.org/semana/060611zh.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/060605dc.html para esclarecimentos de ordem teórica). O programa foi cumprido à risca, com sucesso total. Como a política de Washington para com a América Latina não mudou substancialmente desde então (exceto parcialmente e por breve tempo na gestão Reagan), e como a atuação das fundações bilionárias em prol da esquerda continental se intensificou enormemente nas últimas décadas, a direita brasileira não só perdeu qualquer apoio americano residual mas ainda nem sequer se deu conta do tamanho dos inimigos que a cercam e estrangulam hoje em dia.

A esquerda encobriu tão bem essas informações elementares, essenciais para a compreensão do que se passa no Brasil, que até agora elas são radicalmente ignoradas por quem mais precisaria delas. Refiro-me especialmente ao empresariado. Os militares, por sua vez, não desconhecem os fatos, mas, bem trabalhados por agentes de desinformação, interpretam tudo às avessas: enxergam os Carters e os Clintons como agentes do “imperialismo americano” (e não do globalismo anti-americano) e acabam sendo levados pela tentação de se aliar à esquerda para se vingar das humilhações sofridas pelas forças armadas nas últimas décadas. Os aplausos dos homens de farda à recem-constituída “Comissão de Defesa das Forças Armadas” – mais um ardil da esquerda inventado para integrar as nossas tropas na revolução chavista – mostra que o horizonte de consciência dos nossos militares, pelo menos os de comando, é tão estreito quanto o do empresariado.

Entre a esquerda e a direita, no Brasil, não há só uma monstruosa desproporção de forças: há um desnível de consciência imensurável. De um lado, informação abundante e integrada, intercâmbio constante, flexibilidade estratégica, conhecimento e domínio dos meios de ação. Do outro, fragmentos soltos mal compreendidos, amadorismo bem pago, opiniões arbitrárias e bobas voando para todo lado, desperdício das últimas energias em esperanças eleitorais insensatas e projetos “anti-corrupção” ideologicamente inócuos, facilmente absorvidos e instrumentalizados pela própria esquerda. Os esquerdistas absorveram profundamente o preceito de Sun-Tzu: conhecer o inimigo melhor do que ele conhece você. A esta altura, o general chinês, se consultado por algum direitista brasileiro interessado em “soluções”, responderia: “Não converso com defuntos.” Por que eu deveria ser menos realista que Sun-Tzu?

A direita não está somente esmagada politicamente sob as patas da esquerda. Está dominada psicologicamente por ela, ao ponto de repelir com ojeriza a simples hipótese de fazer algo de efetivo contra a adversária. Exemplo? Façam a lista de todas as ONGs, departamentos do governo, cátedras universitárias, empresas de produções artísticas e órgãos de mídia empenhados, há trinta anos, em investigar, divulgar e ampliar até dimensões extraplanetárias os crimes reais e imaginários da “direita”. A quantidade de dinheiro e mão-de-obra envolvida nisso é incalculável. Agora experimentem ir falar com algum empresário soi disant liberal ou conservador, e sugiram ao desgraçado fundar uma ONG, mesmo pequenininha, para informar o público sobre torturas e assassinatos de prisioneiros políticos em Cuba, sobre os feitos macabros das Farc e do MIR, sobre as conexões entre esquerdismo e narcotráfico. A resposta é infalível: ou o sujeito rotula você de extremista, de louco, de fanático, ou desconversa dizendo que não se deve tocar em assuntos indigestos, que é mais bonito circunscrever-nos a assuntos inofensivos de economia e administração. Se um dos lados tem o monopólio do direito de fazer a caveira do outro, e o outro ainda reconhece esse monopólio como legítimo e inquestionável, a briga já está decidida. A própria direita concede à esquerda o direito de matar, torturar, ludibriar, e ainda posar de detentora exclusiva das mais altas qualidades morais. Depois disso, que alternativa resta aos partidos direitistas, senão tornar-se subseções dos de esquerda? Vejam o PFL. Esse partido, que um dia chegou a ter alguma perspectiva de futuro, se autodestruiu mediante sucessivas alianças com a “esquerda moderada” tucana. Em vez de afirmar sua independência, de reforçar sua ideologia, de criar e expandir a militância, preferiu dissolver-se em troca de carguinhos que só lhe davam o poder de fazer o que o sócio mandasse. A experiência de mais de uma década não lhe ensinou nada. Continua ingerindo doses cada vez maiores do remédio suicida.

Querem soluções? Elas existem, mas os homens influentes deste país, tão logo acabem de ler a lista, já vão querer atenuá-las, adaptá-las ao nível de covardia e preguiça requerido para ser direitistas “do bem” ou então diluí-las em objeções sem fim até que se transformem nos seus contrários, mui dialeticamente.

Se querem saber, essas soluções são as seguintes:

1. Aceitar a luta ideológica com toda a extensão das suas conseqüências. Não fazer campanhas genéricas “contra a corrupção”, salvando a cara do comunismo, mas mostrar que a corrupção vem diretamente da estratégia comunista continental voltada à demolição das instituições.

2. Criar uma rede de entidades para divulgar os crimes do comunismo e mostrar ao público o total comprometimento da esquerda atual com aqueles que os praticaram. A simples comparação quantitiva fará o general Pinochet parecer Madre Teresa.

3. Criar uma rede de ONGs tipo media watch para denunciar e criminalizar a desinformação esquerdista na mídia nacional, a supressão proposital de notícias, a propaganda camuflada em jornalismo.

4. Desmantelar o monopólio esquerdista do movimento editorial, colocando à disposição do público milhares de livros anticomunistas e conservadores que lhe têm sido sonegados há quatro décadas.

5. Formar uma geração de intelectuais liberais e conservadores habilitados a desmascarar impiedosamente os trapaceiros e usurpadores esquerdistas que dominaram a educação superior e os órgãos de cultura em geral.

6. Formar e adestrar militância para manifestações de rua.

7. Durante pelo menos dez anos enfatizar antes o fortalecimento interno do movimento do que a conquista de cargos eleitorais.

8. Criar um vasto sistema de informações sobre a estratégia continental esquerdista e suas conexões com os centros do poder globalista, de modo a esclarecer o empresariado, os intelectuais e as Forças Armadas.

Essas são as soluções. Tudo o mais é desconversa. Ou os brasileiros fazem o que tem de ser feito, ou, por favor, que parem de choradeira. Que aprendam a morrer com decência. Se o Brasil cessar de existir, ninguém no mundo vai sentir falta dele. E se todos os brasileiros não inscritos no PT, no PSOL, na CUT e similares entrarem na próxima lista de falecidos do Livro Negro do Comunismo , talvez só eu mesmo ache isso um pouco ruim. Em todo caso, o fim do Brasil não vai abalar as estruturas do cosmos. Os esforços da direita nacional para a conquista da perfeita inocuidade estão perto de alcançar o sucesso definitivo. Quem em vida se esforçou para não fazer diferença, não há de fazer muita depois de morto.

Se escrevo essas coisas no jornal da Associação Comercial, faço-o com dupla razão, porque vejo o esforço dessa entidade para fazer alguma coisa com bravura num país onde todo mundo está procurando um lugarzinho para se esconder em baixo da cama e até a mulher do presidente já tratou de se garantir com um passaporte italiano. Assisto aos vídeos daqueles combatentes reunidos no seminário “Liberdade, Democracia e o Império das Leis”, e me pergunto: Cadê o resto do país? Cadê os donos da mídia, que lambem os sapatos dos comunistas aos quais entregaram suas redações? Cadê os banqueiros, que têm um orgasmo a cada novo aumento dos impostos e sabem que lucram com a destruição da liberdade, da segurança, das leis? Imaginam por acaso que trogloditas capazes de depredar o Congresso vão, miraculosamente, respeitar amanhã as sedes dos bancos privados? Cadê os homens da indústria, que estão de quatro, sem fôlego, e ainda insistem em bajular seus algozes? Cadê a Igreja Católica – ou a entidade que ainda leva esse nome –, autotransfigurada em órgão auxiliar do Foro de São Paulo? Cadê a tal “classe dominante”, cuja única ocupação nas últimas décadas é deixar-se dominar? Cadê os militares, cujo mais alto sonho de glória parece ser a aposentadoria sob as asas do Estado previdenciário socialista? Pergunto isso ao vento, e a resposta vem em outro verso de Manuel Bandeira:

Palhacada Total

19 de janeiro de 2006 | Jornal do Brasil

Muitas vezes, ao longo da história, o movimento comunista demonstrou sua capacidade de tirar proveito publicitário do seu próprio descrédito, trocando de pele e fazendo com que, da revelação de cada novo banho de sangue, o carrasco emergisse com as feições imaculadas de vítima sacrificial.

Mas nada se compara à mágica da transmutação que ele operou ao longo da última década e meia. A queda da URSS, os fracassos da economia socialista e a debacle intelectual do marxismo não paralisaram o comunismo internacional, mas lhe deram um novo sentido de direção: despiram-no de seus adornos doutrinais e reduziram seu discurso ao ódio anti-americano puro e grosso.

O enxugamento ideológico, eliminando atritos que antes limitavam seus movimentos, permitiu que seu raio de ação se estendesse ad infinitum , irmanando comunistas, socialistas, “progressistas” de toda sorte, ateístas e secularistas em geral, militantes gays e black power , radicais muçulmanos, neonazistas, revisores do Holocausto, feministas, abortistas, narcotraficantes e, por fim, nacionalistas de direita (fascistas, para dizer o português claro) do Terceiro Mundo.

Que raio de “sociedade melhor” poderia surgir desse melting pot de tudo o que não presta — eis uma pergunta que pessoas educadas não fazem. O pressuposto subjacente é que os antagonismos inconciliáveis se resolverão espontaneamente para produzir um mundo maravilhoso tão logo removidos da cena planetária os últimos obstáculos à felicidade humana: o Grande Satã americano e seu mascote, o Pequeno Satã israelense.

Tal como o novo paraíso terrestre subseqüente ao Juízo Final tornará amigos o leão e o cordeiro, o reino de justiça e paz que deve emergir da eliminação dos EUA e de Israel trará ao mesmo tempo um governo socialista global e a independência das nações, a implantação mundial da shari’a e a legalização dos casamentos homossexuais, a eliminação do racismo e a apoteose da superioridade ariana, a moralização universal e a liberação das drogas, o fim da exploração sexual infantil e o advento do “sexo intergeracional”. Não pergunte como. Não seja um estraga-prazeres.

A internacional comunista não está morta. Ressuscitou como Internacional da Estupidez Humana. Ao contrário de sua antecessora, que não agradava a todos, ela possui um número ilimitado de adeptos potenciais. Mas seu sucesso não se explica só pela atração do abismo: funda-se numa bem montada estrutura de apoio, que abrange desde a malha planetária dos velhos partidos comunistas, com nomes trocados ou não, até a grande mídia internacional praticamente inteira, a militância islâmica onipresente e a rede global de ONGs ativistas subsidiadas por fundações bilionárias como Rockefeller, Soros ou Ford. Já desde a década de 50 uma comissão parlamentar (v. René Wormser, Foundations: Their Power and Influence , New York, 1958) comprovou que muitas dessas fundações se empenhavam na destruição do sistema americano, visando à constituição de um poder mundial de inspiração socialista. Passado meio século, o fruto desses esforços ganhou vida e está gritando pelas ruas. Com um detalhe especialmente perverso: como a maioria delas tem origem e sede nos próprios EUA, sua atuação é facilmente utilizada como slogan publicitário anti-americano, persuasivo ante platéias semiletradas incapazes de captar a sutil ambigüidade da operação. No Brasil, por exemplo, sob a influência de esquerdistas espertalhões infiltrados na ESG, os generais Andrade Nery e Baeta Neves, entre outros, apontam a presença de pseudópodos dessas organizações na Amazônia como argumentos fulminantes contra o Grande Satã. Dando as mãos aos comunistas do Foro de São Paulo e ajudando Fidel Castro a “resgatar na América Latina o que se perdeu no leste europeu”, podem assim condenar como “agente do imperialismo” quem quer que se oponha a esse projeto, ao mesmo tempo que alegam seu passado militar como prova de patriotismo imune a contaminações esquerdistas. É a palhaçada total.

Em 19 de janeiro de 2006

Pior Para Os Fatos

19 de janeiro de 2002 | O Globo

A teoria marxista da “ideologia” leva, em última análise, a reduzir todo pensamento, todo conhecimento, toda ciência a expressões mais ou menos indiretas, mais ou menos disfarçadas, da luta pelo poder. Ao longo da História, não houve talvez idéia mais falsa, perniciosa e corruptora. É claro que Marx não a inventou sozinho. Nietzsche, com a tal “vontade de poder”, ajudou um bocado. Os pragmatistas, ao decretar que os conceitos não eram descrições da realidade e sim instrumentos para manipulá-la segundo nossos interesses, fizeram o resto, secundados ainda por Freud, para quem todo o universo intelectual humano não era senão a projeção um tanto ilusória dos instintos e desejos infantis.

Nenhuma dessas teorias resiste ao mais elementar dos testes, que consiste em examiná-las segundo seus próprios princípios. Desse exame, que por bons motivos seus adeptos evitam como o diabo foge da cruz, resultam algumas revelações ao mesmo tempo decepcionantes e libertadoras: o marxismo não é senão o véu ideológico em torno dos interesses de classe de Karl Marx — o delírio de poder da intelectualidade ativista –, o nietszcheanismo não passa da fantasia de onipotência de um tímido ressentido, o pragmatismo é pura manipulação utilitarista do conceito de “conceito” e a psicanálise é apenas a extrapolação pseudoteorética dos conflitos libidinais da pessoa de Sigmund Freud.

Nenhuma teoria incapaz de passar incólume por esse teste merece atenção por mais tempo do que o estritamente necessário para atirá-la ao cesto de lixo.

Não obstante, foram essas precisamente as doutrinas mais influentes e populares dos últimos 150 anos. O fato explica-se como efeito colateral indesejado da democratização do ensino universitário, que, em compensação de seus inegáveis benefícios, tornou a condição de “intelectual” facilmente acessível a massas de classe média e baixa para as quais a aquisição de conhecimento não é por si um objetivo satisfatório, mas apenas o trampolim para a ascensão social e a busca de gratificações menores. Marxismo, pragmatismo, nietzscheanismo e freudismo nada nos dizem a respeito da realidade, mas tudo a respeito da mentalidade de seus adeptos. São os quatro pilares do barbarismo contemporâneo. Que a disseminação da sua influência resultasse enfim na supressão dos próprios pretextos intelectuais falsamente elegantes que as justificavam, nada mais lógico: passado um século e meio, as idéias dominantes nos meios acadêmicos já se assumem ostensivamente como afirmações diretas de interesses grosseiros — raciais, sexuais, grupais — e confessam que não têm o mínimo desejo de discutir com seus contestadores, mas apenas de destruí-los socialmente, se não fisicamente.

Uma das manifestações mais brutais e ao mesmo tempo cômicas desse barbarismo é a naturalidade com que as pessoas afetadas dessa obsessão ideologizante explicam qualquer idéia ou opinião que apareça na sua frente como expressão dos interesses financeiros ou políticos de algum grupo ou empresa. À luz desse dogma, o que quer que alguém pense, alguém lhe pagou para que pensasse. Para apreender o sentido íntimo das idéias de um filósofo, de um escritor, de um ensaísta, já não é preciso nenhum esforço hermenêutico: basta ler a assinatura do seu contracheque.

O segredo do sucesso desse método é que ele às vezes funciona com os seus praticantes, os quais por isto crêem que ele explica o resto da humanidade. Se para isto for necessário desmentir ostensivamente a letra dos escritos em exame, atribuindo à vítima idéias e crenças precisamente contrárias àquelas que ela defende, pouco importa: a fonte última das idéias é o guichê do banco. O que quer que você diga fora do que possa enriquecer a sua fonte pagadora, ficará o dito por não dito.

Aplicando esse método à interpretação de minhas idéias, a “Executive Intelligence Review”, do sr. Lyndon LaRouche, num editorial em língua espanhola, acessível na internet pelo endereço www.larouchepub.com/spanish/lhl_articles/2001/comentario_olavo.html, chega à conclusão de que sou um adepto e apóstolo do ecologismo globalista — uma política que até então eu estava ingenuamente persuadido de haver combatido com todas as minhas forças.

As razões alegadas para respaldo dessa surpreendente interpretação são duas. Primeiro: escrevi coisas contra os apologistas do atentado de 11 de setembro e em defesa do direito elementar de os EUA revidarem ao ataque; logo (no entender da EIR) sou um agente do imperialismo global. Segunda: escrevo em um jornal chamado “O Globo”; logo, mais que um globalista, sou mesmo um “oglobalista” (sic). Diante dessas considerações, a revista, com lógica implacável, conclui que estou necessitado do “tratamento de Pasteur para a raiva”.

Desconto, no editorial, as citações entre alteradas e totalmente fictícias que o autor me atribui. Fico com as duas razões essenciais.

A primeira reflete a total incapacidade que os portadores de um cérebro ideologicamente constituído têm de admitir que alguém não produza idéias por simples dedução automática de premissas sectárias. Pouco importa, aí, que a ideologia do crítico seja de “esquerda” ou de “direita”, no sentido em que ele assim se autodefina (pois nada mais típico da “direita” do que seu vício abjeto de deixar-se definir segundo a ótica marxista e, como se diz, vestir a camisa). O que aí se entende por “coerência” não é a fidelidade a princípios gerais, de ordem filosófica ou religiosa — sempre universais o bastante para dar margem à mais ampla flexibilidade no exame dos detalhes concretos –, mas a obediência mecânica a um programa estereotipado, segundo as linhas de ação de algum interesse político definido e imediato. Nuances, distinções, uma ética de respeito à complexidade do real, a simples busca pessoal da verdade e da justiça por cima das “linhas” predeterminadas, nada disso existe. O que quer que escape da fidelidade ideológica que o intérprete atribua ao interpretado deve ser suprimido em nome da coerência da interpretação.

Quanto à segunda razão, os editores da EIR naturalmente não admitem no seu quadro de redatores ninguém que não siga estritamente as doutrinas do sr. Lyndon LaRouche — e por isto imaginam que norma similar vigore neste jornal, “mutatis mutandis”. Que possa haver aqui algum respeito pela diversidade de opiniões, que a diretoria de “O Globo” admita alguma distinção entre jornalismo e publicidade, é algo que nem passa pela cabeça desses senhores: se escrevo para “O Globo”, devo portanto ser um redator de anúncios.

A Ditadura Anestesica

19 de fevereiro de 2007 | Diário do Comércio

Apesar do subtítulo The European Left in the New Millennium , o livro de Paul Edward Gottfried, The Strange Death of Marxism (University of Missouri Press, 2005) fornece uma descrição da esquerda contemporânea que se aplica também às suas vententes norte-americana e latino-americana.

Não vejo como discordar da sua tese central, de que o objetivo da esquerda hoje em dia é “um gerenciamento político que no fim se aproxima do controle total, mas com uma necessidade cada vez menor de empregar a força física”. Vemos isso todos os dias no palco da tragicomédia nacional. Por toda parte a rede de controles vai se estendendo, lenta e inexoravelmente, abrangendo desde a economia até os últimos recintos da vida privada, ao mesmo tempo que os mecanismos formais da democracia continuam em vigor, apenas sem a mínima possibilidade de ser usados contra a máquina ideológica que nos esmaga.

Caracteristicamente, a rede não é toda estatal. Como preconizava Gramsci, está espalhada pela sociedade civil, que se transforma assim na corda com que ela própria se enforca. ONGs, escolas públicas e privadas, casas editoras e a grande mídia fazem a sua parte, submetendo-se docilmente às categorias de pensamento impostas pelo establishment , tão abrangentes e onipresentes que a mera possibilidade de conhecer alguma coisa para fora de seus limites se tornou inconcebível, e pequenas divergências dentro do acordo geral têm de ser convocadas às pressas para dar a impressão de que existe ainda uma oposição ideológica, uma “direita”. E a própria direita – ou aquilo que ainda leva esse nome – se apressa em legitimar o monopólio esquerdista da verdade, do bem e da virtude, proclamando que ser direitista é mesmo uma infâmia, que o máximo de anti-esquerdismo admissível é o “centro”. À direita do centro, estende-se a imensidão do nada. À medida que a recordação mesma do que fosse a direita desaparece da memória popular, a parte amputada cessa automaticamente de doer e mesmo as objeções eventuais contra o novo estado de coisas só podem se expressar na linguagem do esquerdismo, reforçando o sistema geral de crenças no instante mesmo em que protestam contra algum de seus aspectos em particular. A ditadura benévola do esquerdismo consensual é uma cirurgia auto-anestésica.

Nessas circunstâncias, a violência estatal é mesmo desnecessária. Em troca da obediência completa, o bondoso esquerdismo triunfante concede-nos o direito de viver. Mas mesmo esse direito é limitado. A violência estatal não desapareceu: apenas transformou-se em violência indireta. Para manter a população num estado de terror perpétuo basta a criminalidade livre de entraves, estimulada por organizações próximas do partido governante, ao qual as massas e até as elites, ignorantes disso, acorrem em busca de socorro, fechando pelas duas pontas, legal e ilegal, oficial e extra-oficial, o quadro da onipotência. É a perfeita consumação, por novos meios, da clássica estratégia comunista da “pressão de baixo” articulada com a “pressão de cima”. As hordas de delinqüentes desempenham aqui o papel que na Europa e nos EUA cabe aos imigrantes ilegais: são o exército de reserva mediante cuja ameaça a esquerda mantém sob rédea curta as veleidades de toda oposição “direitista” possível.

O rótulo geral de “esquerda pós-marxista”, usado por Gottlieb, é talvez um tanto prematuro, por duas razões. Primeira: o reinado da esquerda assim chamada não é uma situação totalmente nova e imprevista, mas a consumação exata dos planos de Antonio Gramsci e o resultado da aplicação sistemática da sua estratégia voltada a tranformar a ideologia esquerdista na “autoridade onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino” ( sic). Segunda: os teóricos esquerdistas principais de hoje em dia, Antonio Negri, Istvan Meszaros, Immanuel Wallerstein e até o exótico Slavoj Zizek continuam filiados à tradição marxista, e não somente em nome, mas nas categorias gerais do seu pensamento. Também não é prudente ignorar o surto de neo-marxismo asiático, cuja influência sobre a esquerda européia e americana já começa a se fazer sentir (v. Toni E. Barlow, ed., New Asian Marxisms , Durham, Duke University Press, 2002). Afinal, como creio ter explicado claramente algum tempo atrás, é impossível definir o marxismo como uma teoria, como uma filosofia, como um programa de ação política e até como uma ideologia: o marxismo é uma cultura, no sentido antropológico do termo. Sua unidade não reside em nenhum corpo de doutrina, mas no apego ritual da comunidade a um conjunto de símbolos que expressam a sua identidade e o seu anseio de subsistência eterna, e que por isso mesmo sobrevivem intactos não só às variações doutrinais mais extravagantes e contraditórias mas a sucessivos e aparentemente devastadores choques de realidade (v. a série de artigos http://www.olavodecarvalho.org/semana/031218jt.htm , http://www.olavodecarvalho.org/semana/040101jt.htm e http://www.olavodecarvalho.org/semana/040108jt.htm ).

Mais exatamente, o marxismo é uma subcultura dentro da “cultura da revolução mundial”, ou, como prefere chamá-la J. L. Talmon, da “religião da revolução”, cuja origem expliquei brevemente em artigos anteriores. Ao lado do anarquismo (do qual prometo falar outro dia), ele é a terceira dessas subculturas. O iluminismo foi a primeira, a rebelião romântica a segunda. Enquanto subsistir a cultura da revolução, nenhuma dessas subculturas desaparecerá para sempre. Extinta a sua vigência histórica mais espetaculosa, subsistem como camadas profundas do subconsciente, prontas a vir de novo à tona ao primeiro sinal de debilitação da camada mais recente e superficial. A cultura da revolução revigora-se por meio dessas periódicas irrupções do passado. Quando o marxismo soviético começou a fazer água, após o relatório Kruschev de 1956, a “New Left” dos anos 60, irmã siamesa da “New Age”, foi buscar alento num renouveau romântico e irracionalista, calcado não somente no romantismo originário oitocentista mas no modernismo pré-nazista dos anos 20 com seu apelo à “natureza”, ao culto do corpo e da juventude, ao orientalismo e indigenismo “multiculturais”, ao pan-sexualismo e à “experiência iluminadora” das drogas.

Como a mitologia da “New Age” ainda está viva e atuante, constituindo mesmo a força inspiradora por trás de todo o globalismo ecológico, abortista, gay e feminista, não era a ela que nos anos 80 a cultura da revolução podia pedir socorro após o segundo abalo sofrido pela subcultura marxista com a glasnost e a seqüência de autodissoluções do movimento comunista que culminou na queda do Muro de Berlim e na auto-supressão da URSS. Desta vez o apelo foi a uma camada mais antiga do mito revolucionário: o iluminismo. Da noite para o dia, esquerdistas desiludidos retiravam do baú os fantasmas de Voltaire e Diderot, faziam discursos grandiloqüentes em nome da “Razão” e batiam no peito anunciando, em vez do socialismo científico, o advento global das “Luzes”. No Brasil, o mais patente sintoma disso foi o sucesso obtido na esquerda pelos livros de Sérgio Paulo Rouanet, As razões do Iluminismo (1987) e O Espectador Noturno .

A Revolução Francesa através de Rétif de la Bretonne (1988). Apenas trinta anos antes, ninguém na esquerda falava dos philosophes senão com aquela empáfia com que Marx os reduzia a precursores “burgueses” da revolução proletária. Agora, com o comunismo soviético dissolvendo-se a olhos vistos, as fórmulas grandiosas e ocas do iluminismo eram mais que uma tábua de salvação: eram uma injeção de otimismo no corpo debilitado da religião revolucionária, ameaçada de morte próxima pelo “fim da História” que Francis Fukuyama anunciava triunfalmente.

Pode-se notar, en passant , que, assim como os anos 60 apelaram ao romantismo em suas duas versões, a originária oitocentista e a modernista, a ressurreição iluminista não se socorreu somente dos Voltaires e Diderots, mas do seu herdeiro tardio, o cientificismo-evolucionismo da segunda metade do século XIX. De repente, os velhos preconceitos cientificistas de Ernest Haeckel e Ludwig Büchner, que pareciam mortos e enterrados desde as análises implacáveis que lhes concederam as escolas fenomenológica, existencialista e culturalista nas primeiras décadas do século XX, ressurgiam com toda a força, prevalecendo-se da prodigiosa ignorância filosófica das novas gerações. O evolucionismo, em particular, afirmava-se de novo não só como única teoria válida para explicar a variedade das espécies animais (reprimindo os críticos por meio do boicote profissional, de legislações restritivas e de campanhas difamatórias), mas como princípio explicativo universal, capaz não só de abranger desde os protozoários até as esferas mais elevadas da religião, da arte e do pensamento, mas de substituir as religiões tradicionais como base única e suficiente da moral e da civilização. E isso justamente no momento em que a contribuição do darwinismo para as ideologias nazista e comunista, longamente negada pelos grão-sacerdotes do culto evolucionista, aparecia finalmente como um fato histórico bem comprovado (v. o DVD de Richard Weikart, Darwin’s Deadly Legacy. The Chilling Impact of Darwin’s Theory of Evolution , em www.wnd.com ). Na esteira do cientificismo, o anticristianismo militante, que o comunismo soviético havia abandonado em favor de uma política de infiltração e corrosão interna das igrejas, ressurge com virulência inaudita tão logo o pretexto do “diálogo” com os cristãos perde sua razão de ser. E ressurge pelas mãos de quem? Não dos esquerdistas radicais, mas dos liberais iluministas, a retaguarda salvadora da revolução.

Nenhuma das três camadas da religião da revolução – iluminismo-cientificismo, romantismo-modernismo, marxismo-anarquismo – poderá jamais ser considerada extinta enquanto a própria religião da revolução continuar viva. A todo momento, cada uma delas pode ser trazida de novo à tona para reforçar a fé vacilante dos revolucionários, abalada pelo choque de realidade ou pela constatação de seus próprios crimes, infinitamente mais graves do que todos os males que o culto da revolução professou eliminar. O marxismo só morrerá quando o próprio sentimento de unidade da tradição revolucionária internacional se dissolver nas brumas do tempo.

Em 19 de fevereiro de 2007

Malditos Imperialistas

19 de fevereiro de 2006 | Zero Hora

(RICHMOND, VIRGINIA) – Querem saber como funciona o odioso imperialismo americano? Vou lhes mostrar.

Até os anos 60, o governo dos EUA era obrigado, por lei, a estocar reservas de comida suficientes para, no caso de guerra ou crise mundial, alimentar cada cidadão do país por três anos.

Então alguém convenceu o Congresso a dar comida de graça para as populações pobres de outros países.

Desde então, as remessas ao exterior não cessaram de aumentar, e as reservas não cessaram de diminuir.

Em 1996, o governo anunciou que o estoque restante bastava para apenas três dias.

Em 11 de setembro de 2001, os silos do governo estavam quase vazios. Povos que tinham se alimentado do estoque durante anos saltavam nas ruas, festejando a morte de três mil americanos.

E quantidades cada vez maiores de comida continuaram sendo doadas aos pobres da Ásia, da África e da América Latina.

Em 2003, o Departamento de Agricultura parou de medir a reserva estatal em dias, porque restava menos que o suficiente para um dia por pessoa. Logo depois, parou completamente de medir a reserva estatal, que era irrisória, e começou a somar a totalidade da comida circulante no país, incluindo as prateleiras de supermercados. Todo o alimento de consumo diário passou a ser computado como reserva de emergência. Somado, dava 34 quilos por pessoa: o total da comida disponível era dezoito vezes menor que o estoque de emergência de 1960.

E as remessas para os países pobres continuavam aumentando.

Em 2005, com ameaças de guerra pipocando por toda parte, metade do mundo unida numa feroz campanha anti-americana, o estoque total baixou para 7,1 quilos por pessoa. Uma queda de 80 por cento em dois anos.

Militarmente, o ponto mais vulnerável da defesa americana é a comida. Mas ninguém pensa em reduzir a ajuda ao exterior.

Quando vocês me apontarem um caso análogo em toda a história universal, quando me mostrarem alguma nação que tenha se prejudicado a si mesma, consciente e deliberadamente, para socorrer aqueles que em retribuição a xingam e sonham com a sua destruição, então talvez eu comece a desconfiar que os americanos sejam um povo tão ruim quanto qualquer outro.

Até o momento, vivendo aqui desde maio do ano passado, só tenho motivos para acreditar que são melhores. Logo na semana em que cheguei, entrei numa igreja protestante do interior. Só caipira. Sabem o que os malditos rednecks estavam fazendo? Coleta para as crianças pobres... do Brasil.

Cinqüenta entre cada cem americanos fazem trabalho voluntário – a favor de “minorias” locais ou, em geral, de populações do Terceiro Mundo. Claro, de outras nações também sai dinheiro para o mesmo destino. Mas vem de governos, de instituições, de empresas. Um povo, mães e pais de família largando seus afazeres para cuidar de gente que nunca viram – isso nunca houve em parte alguma. Só aqui. O advento de uma sociedade capaz de criar esse tipo de pessoas é o acontecimento mais notável da história moral da humanidade.

Por Fora De Tudo

19 de fevereiro de 2005 | O Globo

“O governo do presidente Lula é tão visceralmente petista, apesar do punhado de ministérios em mãos de siglas aliadas, como o do presidente Bush é republicano”, assegura O Estado de S. Paulo em editorial do dia 16. É uma amostra, entre milhares, da distância cada vez mais intransponível que se abre entre a realidade do mundo e o imaginário dos brasileiros, especialmente “formadores de opinião”.

Lendo esse parágrafo, um amigo americano me enviou as seguintes informações: “Como você se recorda, o chefe da Casa Civil brasileira declarou, ao final do primeiro ano de governo, que, feitas 19 mil nomeações para cargos de confiança, o governo Lula ainda pretendia fazer outras 20 mil. O Presidente dos EUA, se mudar os ocupantes de todos os cargos de confiança que lhe são subordinados, não chegará a 4 mil. E Bush não trocou nem metade, tendo mantido gente de Clinton até em postos como o de diretor da CIA (Tenet). O Departamento de Estado é democrata de cima a baixo, com algumas exceções nos cargos mais altos. O percentual de democratas é de 80-90% nos órgãos públicos em Washington.”

A síntese indissolúvel de ignorância, mendacidade e presunção – sem falar do triunfalismo lulochavista e do antiamericanismo psicótico — dá o tom não só do jornalismo brasileiro, mas de todos os debates públicos neste país. Desde a ascensão da elite esquerdista dos anos 60 à condição de guia dos destinos nacionais, tornamo-nos uma tribo de idiotas cegos, ufanistas do fracasso, cultores do desprezível, devotos da nulidade. Uma nação forte como os EUA pode sair ilesa de um tsunami de estupidez multiculturalista, esquerdista, feminista, gayzista. No Brasil, essa onda arrancou as débeis raízes da cultura superior, devolvendo-nos de chofre ao provincianismo colonial. As eleições de 2002 foram a culminação inevitável de décadas de ódio à inteligência: votamos em Lula porque ele é um incapaz e a exigência de capacidade nos humilha. Consideramos a diferença de QI uma injustiça social a ser abolida por decreto, o conhecimento um luxo indecoroso, a informação correta um odioso truque de propaganda imperialista.

O Brasil de hoje não ignora somente o mundo. Desconhece-se totalmente a si próprio. Na semana que passou, as atenções nacionais concentraram-se obsessivamente nas eleições para a Mesa da Câmara, celebrando-as ou amaldiçoando-as como derrota do partido governante. Eu seria o último a menosprezar a bravura do deputado Bolsonaro, autor maior da façanha. Mas, nos mesmos dias, o acontecimento mais decisivo dos últimos anos passou totalmente ignorado pela mídia e pelo público: o comando do Exército brasileiro está em negociações com o governo comunista do Vietnã para adotar como nossa doutrina militar a “Estratégia da Resistência” herdada de Ho Chi Minh. Resistência contra que? Contra o “invasor”. Qual invasor? Os EUA, naturalmente. Uma invasão de UFOs é mais provável, mas, na estratégia nacional, a escala de iminência dos riscos não conta. O que conta é usar o nosso Exército como instrumento de uma grotesca profecia auto-realizável destinada a criar, do nada e por pura encenação, uma futura hostilidade aberta entre nosso país e os EUA. Com isso, os homens de farda, depois de achincalhados, humilhados e marginalizados anos a fio pelo esquema esquerdista triunfante, recebem de seus perseguidores a generosa oferta de reintegrar-se na sociedade decente, agora na condição de dóceis servidores do Foro de São Paulo.

O que essa notícia suprimida significa é que, após a implantação da hegemonia cultural e a conquista do poder político em vários países, a estratégia de dominação comunista no continente sofre um upgrade notável, passando ao estágio de sua consolidação militar. Perto disso, a eleição do sr. Severino Cavalcanti para a Presidência da Câmara é a apoteose da irrelevância. Ela não modificará em nada o curso das coisas. O próprio sr. Presidente da República disse isso, e com razão.

Só uma oposição conservadora ideologicamente consistente e estrategicamente ambiciosa como sua adversária poderia fazer face à situação real. Mas isso, no Brasil de hoje, é impensável.

Em 19 de fevereiro de 2005

Esquerda Inteligente

19 de fevereiro de 1998 | Jornal da Tarde

Se a esquerda conquistou a hegemonia cultural neste país, não foi só por meio de truques sujos – ocupação forçada de espaços na mídia, badalação mútua entre seus próceres, patrulhamento ideológico, etc. Foi também por mérito. Na década de 60, quando começou a etapa decisiva da sua escalada, a esquerda pensante estava na sua melhor forma. Uma corrente ideológica só se torna a expressão legítima do seu tempo quando se mantém um pouco acima dele e consegue enxergar a linha do seu horizonte. Naquela época, a esquerda tinha uma visão global, conseguia dar ao panorama do mundo a inteligibilidade de um sentido. Hoje ela perdeu a unidade do sentido e o controle intelectual dos dados: não entende mais nada, não sabe onde está e se agita no escuro como uma ratazana presa num bueiro. Sua única certeza é o ódio irracional que sente por aquilo que não compreende. No empenho de preservar à força uma hegemonia que rapidamente vai se tornando mero simulacro, ela atira para todos os lados, na esperança vã de que sua impotência teórica possa ser compensada por uma retórica de insultos e de apelos moralísticos.

Nem tudo, porém, é baixeza e estupidez no templo do esquerdismo letrado. Alguns sinais de vida inteligente e de nobreza de espírito ainda se notam ali, e o mais luminoso deles – justamente o mais desprezado pela massa dos intelectuais militantes – é a obra de Roberto Mangabeira Unger. Ela é extensa demais para ser analisada aqui, e por isto me limito a chamar a atenção para um de seus muitos méritos, no qual se manifesta também a sua limitação intrínseca.

Em seu livro Conhecimento e Política , que, publicado em 1978 pela Forense, ainda não despertou a atenção que merece, Unger faz a crítica das premissas psicológicas subentendidas nas teorias políticas que sustentam o liberalismo capitalista. Tais premissas, segundo ele, implicam uma visão dualista que separa tragicamente a razão e o sentimento, o público e o privado, as exigências da ordem social e as necessidades interiores do homem.

Na desocultação dessas premissas psicológicas Unger mostra uma notável capacidade de apreender as intenções fundamentais por trás de uma variedade imensa de idéias e acontecimentos. É muito séria, também, a crítica que ele faz da mutilação espiritual que essas premissas impõem ao ser humano.

Mas ele passa a muitos metros do alvo ao supor que essa crítica se aplicará, por extensão e mutatis mutandis , ao liberalismo como prática social. Nem por um momento ele parece suspeitar que a mesma prática pode ser sustentada – e de fato o foi – a partir de premissas psicológicas inteiramente diversas e até opostas. Na verdade, uma prática bem-sucedida nem sempre é prova da teoria que a legitima, podendo ser resultado de causas supervenientes não previstas na teoria.

O sistema político inglês, por exemplo, não é um traslado plano e raso das idéias liberais, mas o resultado do enxerto delas num tronco muito antigo, cuja seiva brota de tradições religiosas medievais às quais o liberalismo, em teoria, era francamente hostil.

Do mesmo modo, o sistema norte-americano jamais refletiu o puro e incontaminado liberalismo da teoria, mas, ao contrário, apenas o resultado de sua fusão com um legado religioso profundamente conservador e tradicionalista, cujas premissas psicológicas são radicalmente opostas àquelas que Unger aponta como características do liberalismo. Seria interessante que ele examinasse, por exemplo, o transcendentalismo de Emerson ou a “ética da lealdade” de Josiah Royce, e se perguntasse como elementos tão estranhos ao mencionado dualismo puderam se integrar tão utilmente na ideologia do capitalismo norte-americano.

Malgrado a profundidade do olhar que Mangabeira Unger lança sobre o subconsciente moral do capitalismo, ele não escapa às limitações inerentes ao que chamarei razão progressista : a confusão entre ideal e futuro, que, atribuindo a um futuro indeterminado – e portanto necessariamente sempre adiado – o prestígio e a autoridade do supratemporal, se arroga o direito de tudo julgar segundo uma norma tanto mais dogmática e autofundamentada quanto mais mutável e deslizante.

É em grande parte com base no viés progressista, e não com plena isenção, que Unger empreende sua crítica do liberalismo. Essa crítica é ideológica no sentido restritivo da palavra, isto é, ela amplia desproporcionalmente certos aspectos de seu objeto e diminui outros, não em razão de simples ênfase pedagógica ou figura de linguagem, mas com vistas a um resultado político.

O próprio liberalismo, como teoria e proposta de reforma política, nada mais foi que um momento do perpétuo deslizamento progressista, momento “superado” quando novas críticas e novas propostas fatalmente emergiram, para atribuir ao liberalismo as culpas que ele, por sua vez, atribuíra a seu antecessor na série. A proposta de Mangabeira Unger é um momento posterior do mesmo processo, um novo adiamento do ajuste de contas entre as idéias e suas conseqüências práticas.

Em 19 de fevereiro de 1998

Vocabulario Psicotico

19 de dezembro de 2019 | Na discussão política, e em geral na linguagem jornalística, o uso de significados sem referentes é

O Estado Comunista De Direito

19 de agosto de 2001 | 19 de agosto de 2001

O primeiro texto que reproduzo abaixo é o reconhecimento honesto por um típico escritor da esquerda, Eduardo Galeano, da perfeita simbiose de dois totalitarismos internacionalistas: a globalização e o comunismo. O segundo é a mais pura declaração da essência do liberalismo; uma denúncia do engano soporífero dos “direitos humanos”.

“Desfeitos os utópicos sonhos marxistas da sociedade sem classes e evidenciada a intrínseca ineficiência do chamado “socialismo real”, os comunistas se unem aos piratas hegemonistas da globalização para a opressão dos povos através da liquidação do Estado nacional e dos direitos individuais conquistados em séculos de progresso da humanidade. Uns entram nesta espúria sociedade com o know-how de controle de massas acumulado pelo estado policial marxista-leninista, outros com o capital, a tecnologia e o gerenciamento eficiente da produção. É o total esmagamento do indivíduo, tal como concebido na sociedade livre e democrática, e sua transformação numa massa coletivizada sem direitos e liberdades individuais, o retorno à barbárie”.

Eduardo Galeano, autor de esquerda “Um liberal no sentido clássico rejeitaria a lista de lavanderia de direitos que formam o leito da democracia social contemporânea. Ele reconheceria somente os direitos de um governo limitado que previna a violação da vida, da liberdade, e da propriedade. As pessoas devem ser protegidas de serem roubadas, violentadas, assassinadas. Daí o termo “direitos negativos”. O direito “positivo”, uma lista ainda em construção, é definida por Richard Pipes, de Harvard, como ”o direito `as necessidades da vida às expensas do público, isto é, o direito a algo que não nos pertence”. Moradia, comida, educação, saúde, benefícios para crianças, são direitos positivos, ou seja, são irreais. Um desejo, ou uma necessidade, não são direitos humanos. Se eu tenho direito à comida alguém deve trabalhar para me alimentar... ” Ilana Mercer, autora liberal Dos dois textos acima podemos construir uma verdade que se oculta aos brasileiros, mesmo aos brasileiros cultos, especialistas em áreas afins, alguns formadores de opinião de boa fé. Este início de século tem nos levado a contradições tais, que esta verdade para qual estes dois textos confluem, a ninguém deveria espantar. Desculpados estão, então, os menos avisados.

Do primeiro texto devemos nos deixar estarrecer pela coragem do autor, um homem de esquerda, mas que não se exime de tocar na ferida fundamental, a chaga anticristã do totalitarismo marxista-leninista, misto de horror e burrice, de ofensa à liberdade humana e desprezo ao seu bem-estar; uma advertência de que o monstro totalitário tem duas faces, uma externa, que atende pelo nome de globalização; e outra interna, que responde ao chamado de Marx e Lênin, que tudo fazem pela instalação de um regime bolchevique, ao melhor estilo dos sovietes (conselhos revolucionários). A mesma lógica leva-nos à perfeita compreensão do segundo texto, de inspiração liberal pura, o qual ressalta o prejuízo que a pletora de direitos “inumanos” produz em nós ao se parecer a uma conquista da sociedade, quando na verdade é a afirmação de um Estado cada vez mais onipresente e sufocante. Do primeiro devemos ainda captar outra essência, qual seja, a destruição do indivíduo, através de um processo em que o ser humano, forçado a ser cidadão, é compelido a abdicar de sua vontade e identidade, processo paralelo e equivalente à dissolução da vontade e da identidade nacionais. À cobiça internacionalista da face externa, corresponde a insana vontade estatólatra e coletivista.

Do mundo ao Brasil Que estado é este senão um “Estado Comunista de Direito”, onde o indivíduo é tornado cidadão; um escravo acorrentado e manietado por direitos outorgados ou propiciados por um Estado cada vez mais forte e inumano que não visa a nenhum wellfare , mas à redução ao pó da essência humana que teima em se exteriorizar no exercício das vontades contidas pela Lei – a liberdade -, e na exibição da individualidade consentida à sociedade, e somente a ela? Marx só conheceu um ópio, o da religião, e se enganou. Nós estamos conhecendo um outro ópio muito pior, muito mais inebriante, os direitos “humanos”, que injetados em doses sociais, se chama “direitos sociais”, expressão inocente deixada no próprio texto constitucional não exatamente por desavisados que não reconhecem no Estado a fonte de um inconfessável desígnio, qual seja, a total submissão do indivíduo.

Do Brasil ao Rio Grande do Sul Trotski, se vivo fosse, não teria dificuldade de reconhecer a sua própria obra. Os seus sovietes estão no Rio Grande do Sul, e já presentes em todas as esferas públicas; do legislativo que buscam destruir (Tarso Genro usa como eufemismo o verbo superar, o que na verdade é uma expressão marxista clássica), ao executivo, que já é funcional em vários sentidos; do judiciário, que já discute suas próprias decisões de anos atrás, sem que as leis tenham mudado, e sem que elas tenham se invertido e determinado que o preto é branco e vice-versa , a uma sociedade crescentemente crédula, anestesiada e desinformada pela imprensa socialista simpatizante.

São tais e tantas as conseqüências práticas desta infiltração que o próprio povo somente percebe seus efeitos colaterais; os chama de “violência”, incompetência, omissão administrativa, etc. Como o ano eleitoral se aproxima, o povo só percebe a direção do voto. Não adiantará. Se não souber o que lhes faz mal, não saberá combatê-lo. Não percebe o povo gaúcho, e muitos intelectuais que não leram as sábias páginas da história da Revolução Russa, que o que lá se fez, aqui se repete passo a passo com muita competência e fidelidade. O que não é o Orçamento Participativo senão o soviete de camponeses; o soviete de soldados (da Brigada e da polícia civil, fundidas em um só corpo?); o soviete dos operários, idilicamente denominados classe trabalhadora? Um imenso soviete que presta contas a um politburo de escol, uma nomenklatura leninista onde os dissidentes são expulsos a pontapés, vide o vereador Fortunati, e outros antes dele! O governo gaúcho não pode nesta ótica ser chamado de inconsistente, incompetente e ser acusado de não saber o que está fazendo. Pelo contrário, ele sabe exatamente o que está fazendo: ele executa fielmente o preceito de Lenin do “centralismo democrático”, método prático de eliminar concorrentes; a sociedade é que não sabe. A ela resta perceber os efeitos colaterais do remédio mortal e insidioso que adoece e mata aos poucos o doente social. Não reconhece o soviete como um dos pólos da “dualidade de poder”, na concepção de Trotski, porque não sabe o que é isto. Como não conhece a história do médico, o seu currículo de crimes, e o extenso rol de suas vítimas, continua ela, a sociedade, a dar crédito e mais confiança a quem pretende envenená-la e depois aprisioná-la nas paredes de ferro do Estado totalitário depois de vitoriosa a revolução.

Por último, a mais pérfida traição, o Grito dos Traidores: a Igreja Católica sendo vilipendiada por bispos comunistas da CNBB que incitam o povo à violência e à revolução comunista. Traída está a fé católica verdadeira que não prega o ódio; traída está a lição do cristianismo que não prega atos violentos, senão a verdadeira caridade; traída está a fé de um povo inteiro por meia dúzia de bispos católicos que perderam a razão e a dignidade por darem força a uma revolução atéia que os destruirá tão-logo não precise mais deles; uma revolução que toma terras, primeiro dos fazendeiros, depois do próprio Patrimônio de São Pedro! Estes bispos católicos comunistas começam a destruir a própria Igreja Católica do Brasil. Amanhã serão eles mesmos. Foi assim na União Soviética e na China; é assim em Cuba! Vivemos em um Estado Comunista de Direito, de fato!

Em 19 de agosto de 2001

Leituras

E Muita Bondade

19 de agosto de 2000 | Época, 19 de agosto de 2000

Nunca um presidente “de direita” foi tão generoso com a esquerda quanto FHC Há duas maneiras de ajudar um amigo: removendo os obstáculos de seu caminho ou dando-lhe o que necessita. Só os grandes amigos excedem nos dois tipos de bondade. A esquerda, portanto, não deveria ter raiva de FHC. Ninguém fez tanto por ela quanto o atual presidente. Ele é bom para ela nos dois sentidos – indireto e direto – da máxima bondade.

No sentido indireto, havia dois obstáculos no caminho da esquerda: o sucesso da economia liberal no mundo e o ressentimento dos militares contra seus desafetos que, beneficiados pela anistia, nunca anistiaram quem os anistiou.

FHC removeu os dois. De um lado, vestindo a camiseta da economia liberal, jogou de modo a tornar o time o mais odioso possível aos olhos da torcida, privatizando sem critério, demolindo o capitalismo nacional, estrangulando nossas possibilidades de independência tecnológica, até extrair daí a conclusão de que o liberalismo é mau e de que é preciso voltar ao velho estatismo – conclusão que, num fiel discípulo de Alain Touraine, não tem como deixar de parecer desejada e forçada desde o início.

De outro lado, boicotou, rebaixou e irritou quanto pôde os militares, até que alguns deles começassem a conjeturar que o comunismo talvez não fosse o maior dos problemas: que o maior dos problemas talvez seja o imperialismo globalista, encarnado, segundo eles, em FHC. Se havia um canal por onde eles pudessem começar a dar ouvidos à conversa esquerdista, era esse – e o presidente o abriu.

No sentido direto, a esquerda precisava de duas coisas: dinheiro e canais de difusão. Por trás de uma briguinha de pantomima em que o MST bate e o governo finge que fica brabo, o dinheiro dos cofres públicos tem jorrado copiosamente no pote dessa organização ilegal empenhada em preparar uma guerra revolucionária. Quanto a canais de difusão – o requisito essencial para a consecução da estratégia gramsciana da “revolução cultural” –, um Ministério da Cultura em mãos petistas e um Ministério da Educação que distribui cartilhas de luta de classes já não seriam o bastante?

Não digo que FHC seja, com o perdão da palavra, criptocomunista. Não digo que, no fundo, ele continue o mesmo da Rua Maria Antônia. Detesto conjeturar intenções ocultas; prefiro ater-me àquilo que sei. E sei que os Estados Unidos, sempre que confiaram na esquerda moderada, na social-democracia, como meio de deter ou desviar a ascensão comunista, se deram mal. Nos anos 60, o Departamento de Estado fez essa aposta na América Latina, fortalecendo a Cepal e a Sudene, que se transformaram em focos da ação comunista, e investindo no método Paulo Freire de alfabetização, que se revelou pura doutrinação marxista. Na Europa, os americanos optaram por Willi Brandt, que, no auge de uma linda carreira glamourizada pelo Reader’s Digest , foi desmascarado como espião da Alemanha Oriental. Em Cuba, que coisa era Fidel Castro senão o esquerdista soft , o democrata, o confiabilíssimo inimigo de uma ditadura que já fora tão cortejada pelo Partido Comunista? Todas essas coisas, há quem saiba. O que não me parece seguro é se alguém, daí, já concluiu que seguir conselhos de americanos talvez não seja a maneira mais prudente de se precaver contra o comunismo.

Em 19 de agosto de 2000

Ideias E Grupos

19 de agosto de 1999 | Jornal da Tarde

Uma discussão política nunca é exclusivamente teórica: ela não gira em torno de descrições da realidade, mas de alternativas de ação (mesmo se disfarçadas ou subentendidas sob descrições da realidade). Mas a mera escolha de uma alternativa de ação não é ainda uma opção política, porque a política não consiste no confronto entre hipóteses abstratas, e sim entre grupos humanos concretos. Numa discussão política não se discute só o que fazer, mas sobretudo quem vai fazer. A vitória política não é a conquista do apoio para uma proposta, mas para o grupo que a representa. Por isto, em política, todas as discussões teóricas ou práticas degeneram facilmente em simples meios para a conquista do poder. Quanto mais politizadas as discussões, menor é a probabilidade de que gerem alguma idéia que tenha valor intrínseco, e maior a de que produzam apenas uma retórica de pretextos.

A politização das discussões já chegou a tal ponto, no Brasil, que hoje em dia, para impugnar uma idéia, não é preciso argumentar contra ela: basta encontrar sua classificação no catálogo de dois itens que constitui a totalidade do repertório. Nos meios esquerdistas, a exclamação “É de direita!” neutralizará automaticamente qualquer teoria, argumento ou prova. Já entre os neoliberais, não há fórmula-padrão para exorcisar opiniões, mas alguns termos recorrentes, como “tridentino”, “nacional-desenvolvimentista” ou “estatizante”, pronunciados no adequado tom de desprezo, bastam para encobrir de uma aura de suspeita as mais inocentes idéias.

O resultado dessa simplificação geral da conversa é que as duas teses em disputa não estão mais em disputa, de vez que os argumentos de parte a parte já estão previamente conhecidos e neutralizados pela mútua ojeriza. Pior ainda, nenhuma idéia nova pode entrar no palco, pois será imediatamente aceita ou rejeitada pelo que tenha em comum com as duas anteriores, não conseguindo tornar visível a sua diferença específica, isto se não for logo excluída por ambos os partidos como velharia ou esquisitice indigna de exame. Nessas condições, nenhuma das duas opiniões padronizadas pode ser fecundada ou enriquecida nem pelo contato íntimo com a adversária nem pela interferência de qualquer outra.

Logo, não há mais embate de opiniões: só embate de grupos. E qualquer idéia sobre o que quer que seja – sobre arte, religião, sexo ou culinária – nada mais precisa ou pode alegar em favor de si mesma senão sua perfeita identidade com as convicções do grupo cuja simpatia pretenda angariar, reduzindo-se portanto a circulação de opiniões a um festival de juramentos de fidelidade alternados com expressões de repúdio.

Nesse panorama, é natural que cada um dos blocos ideológicos se encare como um verdadeiro bloco, no sentido físico do termo, isto é, um todo compacto, homogêneo e sem contradições internas. Quando os examinamos de fora, essa impressão se desfaz e ambos se revelam compostos do aglomerado fortuito de elementos sem muita conexão lógica. Mas quem quer que perceba isso está condenado a permanecer de fora, seu ingresso no debate estando impossibilitado pelas condições acima descritas.

Sendo assim, é na condição de puro espectador inerme que faço a seguinte observação: no Brasil, quem é liberal em economia é internacionalista em política externa e quem é nacionalista em política externa é estatizante em economia. Tão fechados em si mesmos estão os dois grupos, que ninguém, dentro de um ou do outro, percebe que não há qualquer conexão lógica entre liberalismo e globalismo, tal como não há entre nacionalismo e estatismo.

Que não há nada de ilógico ou de impossível na combinação de economia liberal com política externa nacionalista, é algo que não é preciso sequer provar no campo da argumentação teórica, pois 200 anos de história norte-americana mostram que essa combinação não apenas existe como possibilidade, mas se realizou como fato. E embora este seja o fato mais gritante da história econômica nos últimos séculos, na mente dos brasileiros a referida combinação não existe nem mesmo como possibilidade teórica e está excluída de todo debate como se fosse uma absurdidade intrínseca ou uma utopia boboca indigna da atenção dos intelectuais sérios.

A única conclusão que posso tirar disso é que esses intelectuais não são tão sérios. E que por isto mesmo preferem, ao embate das idéias, o choque dos grupos.

Em 19 de agosto de 1999

O Fome Zero Americano

18 de setembro de 2012 | Diário do Comércio

Se os caros leitores compreenderam o meu artigo anterior (“A engenharia da desordem”), deve ter-lhes ocorrido, ao menos de raspão, a idéia de que o sr. Barack Hussein Obama talvez não estivesse fazendo puro jogo de cena quando, ao encontrar o sr. Lula em Washington D.C., exclamou: “Esse é o cara!” O presidente americano prometeu imitar o Fome Zero, e não só o fez como vem obtendo, desse empreendimento, resultados perfeitamente simétricos aos alcançados pelo seu colega brasileiro.

Nos últimos anos, a economia americana caiu do primeiro lugar para o sétimo na escala de competitividade do Fórum Econômico Mundial. O desemprego, que em 2008 não passava muito de quatro por cento, já está acima de oito, e a criação de novos empregos é cada vez mais lenta. Comparando números, o colunista Donald Lambro, do Washington Times , conclui que o desempenho do presente governo americano na área trabalhista é o pior desde a II Guerra Mundial ( veja o link ).

Em compensação, Obama foi o recordista absoluto na distribuição de dinheiro do governo não só aos pobres como também aos ricos – incluindo um vistoso leque de empresas falidas por má administração e fraudes, em geral pertencentes a seus contribuintes de campanha. Para isso, sobrecarregou o Estado de mais dívidas do que todos os seus antecessores somados, desde George Washington. É um fracasso colossal, dizem os analistas econômicos. Mas, os utilitaristas que me perdoem, a racionalidade econômica não é a motivação última dos atos humanos. O que do ponto de vista econômico parece um absurdo pode ser politicamente lógico e sensato, ao menos no sentido maquiavélico da coisa.

Um artigo excelente do comentarista Ira Stoll no New York Sun mostra que as melhores chances de sucesso do candidato democrata nas eleições de novembro repousam precisamente no descalabro da sua política trabalhista: na primeira gestão Obama, o número das pessoas que vivem de ajuda governamental começou a superar, pela primeira vez na história americana, o das que trabalham e pagam impostos. Hoje são 46,7 milhões de americanos que recebem vale-alimentação, 8,7 milhões de estudantes bolsistas, mais 7,6 milhões de empregados estatais sindicalizados. Total: 63 milhões de obamistas compulsivos. Quatro milhões acima do número de votos obtidos por John McCain em 2008.

Será especulação psicótica, será “teoria da conspiração” suspeitar que houve alguma premeditação por trás de um fracasso tão benéfico à pessoa do seu autor? Não, quando se leva em conta o seguinte fato: o único emprego que Obama teve na vida, o único ramo de atividade no qual adquiriu alguma experiência, foi o de “organizador comunitário” empenhado na aplicação da estratégia Cloward-Piven. E essa estratégia consiste, de alto a baixo, na arte de fomentar o desastre econômico para tirar dele proveitos políticos. Expliquei isso num artigo de 2009 publicado neste mesmo Diário do Comércio . Que pode haver de tão inverossímil em supor que, na presidência, o homem fez a única coisa que comprovadamente sabe fazer?

Aí reside também a diferença entre ele e o seu modelo brasileiro. Lula, para implantar o monopólio político da esquerda e corromper a sociedade inteira, teve de manter a economia funcionando razoavelmente e fazer o possível para cortejar o empresariado, dessensibilizando-o para tudo o que se passasse fora do círculo de seus interesses mais imediatos.

Obama, ao contrário do nosso ex-presidente, não encontrou uma massa de miseráveis pronta para ser alistada na sua clientela. Teve de fabricá-la – e não havia como fazer isso senão demolindo a economia, aumentando ao mesmo tempo o desemprego e a dívida pública para que esses dois monstros se alimentassem um do outro até à completa exaustão do organismo nacional.

Outra diferença é a posição dos EUA no cenário internacional, que tinha de ser corroída mediante cortes no orçamento militar e o favorecimento inicialmente discreto, depois explícito, às forças inimigas que se levantavam contra governos aliados ou neutros. O assassinato do embaixador americano na Líbia, sincronizado com manifestações anti-americanas na Tunísia, no Iêmen, no Irã e no Egito (onde, para cúmulo, os marines que guardam a embaixada continuam proibidos de portar munição de verdade), é o símbolo condensado da lógica que orienta toda a política do governo Obama. Essa lógica resume-se na simples aplicação local do mandamento globalista: enfraquecer os Estados no plano internacional e fortalecê-los no plano interno. Dito de outro modo: desarmá-los contra seus inimigos e armá-los contra suas próprias populações, de modo a fazer deles os cães-de-guarda, ao mesmo tempo dóceis e implacáveis, da nova ordem global. De sob as cascas dos velhos Leviatãs nacionais começa a erguer-se, majestosamente sinistro, o Leviatã planetário.

Nota : O desenlace sangrento da intromissão dos EUA na Líbia ajudou a grande mídia a abafar pelo menos uma notícia importante: o Instituto de Ciência e Tecnologia de Israel examinou a certidão de nascimento de Barack Hussein Obama divulgada pelo governo americano e confirmou que “é manifestamente falsa” ( veja o link ).

Em 18 de setembro de 2012

Justica Social E Injustica Pessoal

18 de setembro de 2006 | Diário do Comércio

Eis um bom tópico de meditação ante o bombardeio de discursos eleitorais: esses sujeitos que vivem falando de “construir uma sociedade mais justa” praticam apenas a modalidade mais imperdoável de burrice, que é confundir palavras com coisas. Os termos que designam qualidades morais só se aplicam realisticamente a indivíduos humanos, não a estruturas sociais. Um homem pode ser mais justo que outro; uma sociedade, não, pelo simples fato de que a sociedade abrange tanto os autores quanto as vítimas de injustiças, e chamá-la de injusta ou justa seria colocá-los no mesmo saco. Uma sociedade pode fomentar a prática da justiça ou da injustiça, mas isso não tem nada a ver com ela ser justa ou injusta em si mesma. A criminalidade é notoriamente menor em ditaduras truculentas como a China ou o Irã. Tão logo suprimida a injustiça do regime vem o esculacho geral em que os cidadãos se regozijam e se desrecalcam na democratização da injustiça. Qual é a sociedade mais justa: aquela que suprime a criminalidade mantendo igualmente aterrorizados os bandidos e os cidadãos honestos, ou aquela que protege os cidadãos honestos ao ponto de ajudá-los a se tornar bandidos sem que precisem temer punições? O extremismo desses dois exemplos pode convidar o automatismo mental a buscar um hipotético meio-termo entre a repressão total e a libertinagem, mas é óbvio que não há justiça nenhuma no mero equilíbrio estatístico de dois erros. Aliás a revolta contra as injustiças é sempre maior nas sociedades que não são o bastante injustas para reprimi-la. Tal como o demonstra a paz social chinesa ou iraniana em contraste com as explosões de ódio anti-Bush nos EUA, a quantidade de injustiça real é inversamente proporcional ao desejo de erradicá-la.

Mutatis mutandis , a nossa esquerda dos anos 60 berrava contra o autoritarismo brando e chinfrim dos nossos militares mas babava de admiração pela mais sangrenta ditadura latino-americana.

Toda idéia de justiça pressupõe não apenas uma distinção de mérito e demérito, mas também as diferenças escalares dentro de um e do outro. Homenagens, cargos, premiações escolares, hierarquias burocráticas, civis e militares refletem a escala do mérito, o Código Penal e os vários mecanismos de exclusão social a dos deméritos. É inútil falar em “meritocracia”, pois todas as hierarquias sociais são meritocráticas, divergindo apenas no critério de aferição dos méritos. Mesmo essa divergência é mínima. Nenhuma sociedade é tão fortemente apegada a prestígios de família que negue toda possibilidade de merecimento individual autônomo, nem é tão desapegada deles que não reconheça diferença entre ser filho de um herói nacional ou de um assassino estuprador.

Suponham uma rígida sociedade de castas e uma democracia igualitária. Qual das duas é mais justa? A sociedade de castas alega que é justa porque busca refletir na sua estrutura a ordem hierárquica dos valores, premiando em primeiro lugar os homens espirituais e santos, depois os valentes e combativos, depois os esforçados e industriosos e por fim os meramente obedientes e cordatos. Quem chamaria isso de injustiça? O igualitarismo democrático baseia-se na idéia igualmente justa de que ninguém pode prever de antemão os méritos de ninguém, sendo portanto melhor assegurar a igualdade de oportunidades para todos em vez de encaixilhá-los por nascimento em lugares estanques da hierarquia. A sociedade de castas falha porque não é garantido que os filhos de santos sejam santos, de modo que aos poucos a hierarquia social se torna apenas um símbolo remoto em vez de expressão direta da hierarquia de valores. De símbolo remoto pode mesmo passar a caricatura invertida. A democracia, por sua vez, na medida em que nivela os indivíduos nivela também suas opiniões e, portanto, os valores que elas expressam. O resultado é o achatamento de todos os valores, que favorece a ascensão dos maus, egoistas e prepotentes pela simples razão de que já não há critérios para considerá-los piores do que os mansos e generosos. Daí a observação de Georges Bernanos: a democracia não é o oposto da ditadura – é a causa da ditadura.

Pela mesma razão, todo aquele que promete eliminar as exclusões sociais começa por excluir os que não acreditam nele, e aquele que promete uma hierarquia aristocrática perfeita começa por invertê-la quando, ao reivindicar o poder necessário para construí-la, se coloca a si próprio no topo da escala e se torna a medida dela em vez de ser medido por ela.

Na alma do indivíduo bem formado é sempre possível conciliar o senso da hierarquia de valores com o sentimento da igualdade profunda entre os membros da espécie humana. O próprio amor aos valores mais elevados infundirá nele necessariamente um pouco de humildade igualitária, da qual Jesus deu exemplo constante. O indivíduo tem sempre a flexibilidade psíquica para buscar o equilíbrio dinâmico entre valores opostos. Mas nenhuma sociedade pode ser ao mesmo tempo uma sociedade de castas e uma democracia igualitária, nem muito menos ter a elasticidade necessária para passar de uma coisa à outra conforme as exigências morais de cada situação. Os valores morais existem somente na alma do indivíduo concreto. As diferentes estruturas sociais podem apenas macaqueá-los de longe, sempre sacrificando uns em proveito de outros, isto é, institucionalizando uma quota inevitável de erro e de injustiça. Os seres humanos podem ser justos ou injustos – as sociedades só podem sê-lo de maneira simbólica e convencional, eminentemente precária e relativa.

Essas distinções são elementares, e nenhum indivíduo incapaz de percebê-las intuitivamente à primeira vista está qualificado para julgar a sociedade ou muito menos propor sua substituição por outra “mais justa”. Infelizmente, essa incapacidade é precisamente a qualificação requerida hoje em dia de todos os doutrinários de partido, parlamentares, líderes de movimentos sociais etc., porque cada um deles só consegue subir na vida na medida em que personifique a “sociedade mais justa” em nome da qual legitima suas propostas. Ou seja: são sempre os homens injustos que se incumbem de promover a “justiça social”, julgando e condenando aquilo que nem mesmo compreendem. Se em vez de buscar uma “sociedade mais justa” começássemos por derrubar de seus pedestais os homens injustos, um a um, a sociedade em si não se tornaria mais justa, mas haveria mais justiça na sociedade injusta – e isto é o máximo a que seres humanos razoáveis e justos podem aspirar.

Mais um capítulo da luta dos monstros No último número de American Scholar (outono de 2006), Bryan Boyd, professor de inglês na Universidade de Auckland, Nova Zelândia, desce o pau nos seus colegas de teoria literária por continuarem apegados aos dogmas do desconstrucionismo, que se reduzem a pó de traque quando confrontados com as descobertas mais recentes da ciência biológica.

Esses dogmas são dois, o “antifundamentismo” e a “diferença”. O primeiro afirma que nenhum conhecimento humano tem fundamento universal. O segundo diz que todas as afirmativas aparentemente universais são apenas produtos locais nascidos de interesses malignos e do desejo de poder. Enfim, não há realidade objetiva. Tudo é “cultura”, isto é, invenção mais ou menos arbitrária de signos para camuflar alguma bela sacanagem da classe dominante.

Boyd lembra que a possibilidade mesma da cultura – nesse ou em qualquer outro sentido da palavra – nasce de certas características biológicas humanas que, por sua vez, não são invenções culturais mas dados da natureza. Para piorar, a biologia vem descobrindo aspectos “culturais” – símbolos, regras, atos ritualizados – na conduta de inúmeras espécies animais, dos hipopótamos aos passarinhos. A “cultura” não é uma negação da natureza: é uma extensão dela. Enquanto os mandarins dos “estudos culturais” perseverarem na sua ignorância científica radical (mais que demonstrada no clássico episódio Alan Sokal), sua empáfia de onissapientes continuará sendo objeto de chacota entre o pessoal da biologia, da física, etc., os quais realmente sabem alguma coisa.

Até aí, tudo bem. O argumento é irrespondível. Só que, uma vez humilhado o desconstrucionismo, Boyd coloca no lugar dele o seu próprio dogma. O “antifundamentismo” e a “diferença” não estão errados em si mesmos, diz ele. Seu único problema é que opõem natureza e cultura, quando as verdadeiras razões em favor deles estão na natureza tal como compreendida pelos evolucionistas. “Quase um século antes de Derrida, a teoria darwiniana da evolução por seleção natural já havia tornado o antifundamentismo uma conseqüência inevitável.” Claro: se tudo o que acontece na cultura vem da natureza, e se esta é conduzida por mutações randômicas consolidadas pela seleção natural e pela repetição, é incontornável a conclusão de que nada que o ser humano pense tem qualquer fundamento universal – é apenas um produto local e passageiro da evolução natural. Tudo neste mundo é pois incerto e vacilante – exceto, é claro, o fator que o tornou incerto e vacilante: pode-se duvidar de tudo, exceto da evolução darwiniana. Tal como no desconstrucionismo, a suposta razão da falta de fundamentos absolutos torna-se o novo fundamento absoluto.

A simetria oposta, a igualdade dos contrários, torna-se aí mais do que visível. Para o desconstrucionismo, a total inexistência de fundamentos objetivos instaura imediatamente o reinado do fundamento metodológico único, que é ele próprio. Daí a intolerância dogmática com que os gurus desconstrucionistas recusam dialogar com seus críticos – quando chegam a reconhecer que há algum. O desconstrucionismo é tão autoritário e prepotente que se autodenomina “a Teoria”, com ênfase no artigo e na inicial maiúscula, quer dizer, a única teoria que existe ou tem o direito de existir. Boyd cita a propósito o crítico Christopher Ricks: “O império da Teoria é zelosamente inquisitorial com relação a todos os outros impérios exceto o dele próprio.”

Se a ausência de fundamento objetivo gera o império da Teoria, Boyd derruba esse império restaurando um fundamento objetivo incapaz de ser neutralizado por ele, mas com base nesse fundamento ergue um novo império: o do evolucionismo. Só que, se o desconstrucionismo não podia ser discutido porque era a única teoria possível, o evolucionismo também não pode ser discutido, mas por uma razão ainda mais forte: ele não quer ser mera “teoria” – exige ser aceito como “um fato”. Qualquer objeção possível fica assim descartada a priori , já que todas as discussões têm de começar com o reconhecimento unânime do fato, ou melhor, “do” Fato – com ênfase verdadeiramente derridática no artigo e na inicial maiúscula. Não é de espantar que o clero evolucionista seja ainda mais intolerante do que o desconstrucionista, não apenas desprezando os adversários como inexistentes mas demitindo-os de seus cargos, ameçando interná-los em hospícios, negando suas credenciais acadêmicas por mais respeitáveis que sejam e tentando impor a poibição legal de colocar em dúvida “o Fato”.

O ardil retórico com que duas idéias, tão falíveis como quaisquer outras, usam o pretexto da falibilidade geral como artifício para impor-se como infalíveis, é o mesmo em ambos os casos. Se o descontrucionismo se arvorou em dono da cultura negando a existência da natureza, o movimento que hoje se conhece como “darwinização da cultura” (v. uma discussão favorável em Robert Aunger, ed., Darwinizing Culture, Oxford University Press, 2000) vai um pouco mais longe: restaura a natureza para proclamar-se a um tempo senhor absoluto dela e da cultura. Dois de seus apóstolos mais fanáticos, Richard Dawkins e Daniel C. Dennett, proclamam que o evolucionismo deve mesmo suprimir as religiões e tomar o lugar delas como orientador moral e espiritual da humanidade. Tudo isso, é claro, em nome da modéstia científica.

Um dia a humanidade vai rir dessas coisas, como hoje ri do positivismo comtiano, da filosofia marxista da História ou do cientificismo racista de Ernst Haeckel e Thomas Huxley. Mas até lá ainda haverá muito o que chorar ante a devastação que a luta dos monstros vai produzindo na inteligência humana.

Falsos amigos Um detalhe especialmente deprimente nesse panorama é a filiação política mal disfarçada dos desconstrutores e darwinizantes. Os primeiros estão em geral na extrema-esquerda, torcendo pelos terroristas, pedindo a cabeça de George W. Bush, a extinção de Israel e, de modo geral, o fim do Ocidente. O partido darwinista está mais próximo dos “liberal-revolucionários”, que se dizem adeptos do Ocidente, mas de um Ocidente amputado de suas raízes judaico-cristãs, e favoráveis à liberdade de mercado, que eles vêem, no entanto, não como expressão dos valores religiosos e morais que a criaram, mas como o meio mais fácil de promover, sem perdas econômicas traumáticas, o avanço da agenda cultural do movimento revolucionário: abortismo, casamento gay , cotas raciais, o diabo.

Não é preciso dizer que desde suas origens o movimento revolucionário sempre agiu com esses dois braços, usando um ou o outro conforme as conveniências do momento. Na presente situação brasileira, a tentação que pode deitar a perder as parcas energias do nascente movimento conservador é a de submeter-se ao partido liberal-revolucionário e, sob o pretexto de “concessões inevitáveis”, ajudar a fomentar a agenda cultural esquerdista em troca de um pouquinho de liberdade econômica, exorcisando Belzebu em nome de Satanás. Neste momento, os liberal-revolucionários mal perceberam a emergência do movimento conservador e já trataram de se organizar, juntando recursos milionários, para parasitá-lo, desviá-lo de seus fins e usá-lo em benefício próprio. Quando vocês ouvirem alguém pregando liberdade de mercado separada dos valores judaico-cristãos e associada a propostas “politicamente corretas” na esfera cultural e moral, justificadas a título de concessões espertalhonas ou sob qualquer outro pretexto, saibam que não estão na presença de um conservador, mas de um agente infiltrado ou de um idiota útil a serviço daquilo que ele diz combater. O futuro do movimento conservador no Brasil depende de que esses seus falsos amigos sejam identificados e desmascarados, como o foram nos EUA por uma militância conservadora que ganhou muita força ao expeli-los.

Bode Expiatorio Ii

18 de outubro de 2011 | Diário do Comércio

Falando em Era Lula, também não faz sentido louvar o governo petista por ampliar a participação popular no mercado interno (à custa, diga-se em passant , de um endividamento nacional suicida) e ao mesmo tempo reclamar contra a avidez com que os novos consumidores se lançam à conquista de bens a que antes não tinham acesso. Ninguém sai comprando tudo quanto é bugiganga eletrônica só para se vingar de uma ditadura da qual mal ouviu falar.

Aliás, no tempo dos militares ocorreu ascensão social idêntica (o então chamado “milagre brasileiro”), resultando em idêntica febre de consumo. Mas, na ocasião, os porta-vozes da esquerda não se lembraram de festejar a inclusão social maciça que isso representava (maior, proporcionalmente, do que tudo o que os tão badalados programas sociais do governo Lula viriam a realizar). Ao contrário: concentraram suas baterias no ataque moralista ao “consumismo”, como se fosse causa sui e não efeito da melhor distribuição de renda. Quando o mesmo fenômeno se repete em pleno apogeu do lulismo, como fazer para louvar a distribuição de renda sem culpar o governo pelo consumismo resultante? É fácil: desvincule a causa do efeito e debite este último na conta de um governo de trinta anos atrás. Se isso é sociologia, eu sou o José de Souza Martins em pessoa. E olhem que, dos sociólogos uspianos, ele não é o pior.

Até os exemplos que o emérito escolhe para ilustrar a maldade dos corações brasileiros são erros de perspectiva. Motoristas que atropelam pessoas e só tratam de evadir-se da punição legal, sem a mínima piedade pelas vítimas, são decerto tipos execráveis, mas sua insensibilidade é titica de galinha num país onde de quarenta a cinqüenta mil pessoas são assassinadas anualmente com a ajuda de organizações queridinhas do partido governante e não se ouve sequer um debate a respeito. Nossos “intelectuais” esbravejaram mais contra 25 mil baixas na guerra do Iraque do que contra violência mortífera duplamente maior que se comete contra seus próprios compatriotas a cada 365 dias. Será demasiado concluir que seu ódio aos EUA é infinitamente mais intenso que seu amor ao povo brasileiro? E por que raios uma geração de pessoas educadas nessa mentalidade deveria ser um primor de bons sentimentos?

O prof. Martins reclama: “Falta uma bolsa de valores sociais, que meça diariamente quanto perdemos de nós mesmos, de nossa dignidade, de nossa autoestima, da estima e do respeito pelo outro.” Tem razão, mas a medição diária é impossível sem uma escala constante do valor que se mede. Ao longo da história brasileira, essa escala foi uma só e a mesma, desde a chegada de Pedro Álvares Cabral até o advento da “Nova República”: o cristianismo.

O prof. Martins talvez acredite em moralidade sem religião, mas há de reconhecer que uma civilização integralmente “laica” (termo errado, mas usual) é uma hipótese futura, não uma realidade historicamente constatável. E, no caso brasileiro, nem toda a sociologia da USP somada pode ocultar a obviedade de que a manifesta descristianização da sociedade, da educação, da mídia e da cultura tem algo a ver com o aumento da violência, da crueldade, do egoísmo e da insensibilidade.

Para fugir às suas responsabilidades históricas, os “intelectuais” tapam os olhos até às conseqüências mais óbvias e patentes das escolhas a que se entregam com todo o furor entusiástico da paixão militante. Numa época em que a mera fantasia sexual é considerada oficialmente mais valiosa, mais digna, mais merecedora da proteção estatal do que o sentimento religioso da população, é ridículo esperar que o senso dos valores não acabe se dissolvendo numa névoa turbulenta e a confusão resultante não se traduza em atos de maldade cotidiana cada vez mais aceitos como normais e improblemáticos. E não é preciso nenhuma bolsa de valores para saber de onde vem a perda: o Brasil que escandaliza os sentimentos do prof. Martins é criação exclusiva da sua geração de “intelectuais”. Qualquer reclamação que venha dessa fonte é mera camuflagem de culpas, é mero sacrifício ritual de um bode expiatório prêt-à-porter .

Em 18 de outubro de 2011

El Mayor

18 de novembro de 2015 | Diário do Comércio

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva leva uma vida invejavelmente rica e apaixonante, mas num ponto ele tem razão de se queixar: é o homem mais incompreendido do Brasil.

Nunca um personagem foi tão falado, comentado, analisado, louvado e achincalhado sem critério nem senso de observação, sem comparações objetivas nem conceitos descritivos apropriados. Cada um exerce ferozmente, a respeito dele, a paixão humana de juntar palavras no vazio para obter, da contemplação da mera ordem gramatical, a sensação voluptuosa de ter dito algo de importante.

Das muitas teorias que circularam sobre o personagem, talvez a mais imbecil seja aquela que o considerava um imbecil. Eu mesmo, confesso, me senti de início tentado a julgá-lo um incapaz, um trapalhão de comédia da Atlântida.

Como tantos outros, fui levado a isso pela impressão da sua aparência entre desleixada e grotesca, da sua retórica populista, das suas hediondas metáforas futebolísticas, da sua dislalia renitente que trocava os “ss” por “ff”.

Mas nenhum homem pode ser julgado pela falta de qualidades que nunca lhe interessaram. É preciso medi-lo pelo que ele tentou fazer e pelos resultados que obteve.

E o fato é que, após um começo difícil, Lula veio caminhando de vitória em vitória, desnorteando os adversários, articulando com mão de mestre os grupos mais heterogêneos e os interesses mais incompatíveis, até concentrar nas suas mãos mais poder que qualquer dos governantes que o antecederam, reduzindo a pó as oposições e transformando o Estado inteiro numa máquina dócil aos seus interesses partidários. Isso ele quis fazer, e fez. Isso foi o objetivo da sua vida, e foi exemplarmente realizado. A seus inteligentíssimos e refinadíssimos desafetos só restou, como prêmio de consolação, a pose de desprezo fingido, camuflagem do ódio impotente.

Como seria possível um tolo grosseirão ter uma carreira tão espetacular?

A impressão visual era, sem dúvida, enganosa. Se comparassem o homem com personagens reais, em vez de modelos de perfeição estereotipados, perguntariam: afinal, que encantos físicos ou indumentários possuía Josef Stálin? Que grandes tesouros de cultura havia na cabeça de Benito Mussolini? E qual é o problema com os “ss” e “ff”, se Lênin jamais conseguiu pronunciar o “r” russo e seus discursos soavam como fala infantil?

No mesmo intuito de depreciar o que não se consegue derrotar, mas indo um pouco além na presunção interpretativa, muitos liberais brasileiros, esses tipos sublimes, se viram levados a classificar Lula como “populista” porque lhes parecia inculto demais para ser comunista.

“Como falar em marxismo se Lula sequer leu uma página de Marx?”, perguntava o indefectível Marco Antônio Villa, que não perde uma oportunidade de julgar o que não conhece (aqui).

A premissa embutida na pergunta é que o líder comunista tem de ser um intelectual, capaz de orientar-se no mare magnum de O Capital e dar lições eruditíssimas sobre as três leis da dialética materialista. Um tipo como Plekhanov ou Caio Prado Júnior.

Mas isso é a visão de um observador leigo. Dentro do movimento comunista, ao contrário, a condição de intelectual sempre foi um handicap, um sinal de alerta para o risco de hesitações pequeno-burguesas.

Credencial infinitamente mais prezada do que isso era a origem proletária puro-sangue. Nos meios comunistas brasileiros, atulhados de intelectuais pequeno-burgueses, a chegada de um genuíno líder operário recém-importado diretamente do ABC foi uma lufada de ar fresco, uma festa e um anúncio de melhores dias.

Em contraste com o sr. Villa, quem estudou a história do comunismo deve lembrar-se da figura do general Fernando Flores Ibarra, um dos líderes máximos da Revolução Cubana, amigo íntimo e homem de confiança de Fidel Castro, além de responsável maior pela matança de opositores, o que lhe rendeu o gentil apelido de “Charco de Sangre”.

Pois bem, Flores não entendia uma palavra de marxismo-leninismo, não conseguia sequer ler Marx e Engels e, rindo muito, até se gabava disso em público.

Se um exemplum in contrarium não basta para impugnar a validade de um modelo geral, cabe lembrar o papel essencial desempenhado, no movimento comunista da África do Sul, por hordas de trabalhadores recém-egressos do meio tribal, que um historiador descreveu como “incultos, mas possuidores de um elevado senso de solidariedade comunista” (A. B. Davidson, South Africa and the Communist International: Bolshevik Footsoldiers to Victims of Bolshevisation, 1931-1939, Psychology Press, 2003).

“Inculto, mas possuidor de um elevado senso de solidariedade comunista” é quase uma descrição literal do Lula. Foi ele quem, atravessando toda sorte de crises internas, conseguiu criar e salvar sempre a unidade do seu partido, depois a de um pool de partidos aliados sem afinidade ideológica nenhuma, por fim a da esquerda latino-americana inteira.

Não há militante que, ouvindo-o dizer “Companheiros!” não se sinta incluído no grande abraço solidário de uma imensa comunidade combatente.

Um líder político não se julga pelo seu grau de cultura letrada, nem pelas suas convicções íntimas, que permanecem para sempre impenetráveis, mas pelas forças históricas reais que ele encarnou e às quais imprimiu indelevelmente a sua marca pessoal.

Quando Barack Hussein Obama disse de Lula “Esse é o cara!”, ele sabia que estava diante da imagem suprema do comunismo latino-americano.

Após ouvir as ponderações de tarimbados comunistas alemães sobre o fracasso do socialismo chileno, Roberto Ampuero escreveu:

“Convenci-me então de que a esquerda chilena tinha sido guiada por políticos amadores e irresponsáveis, por marxistas de salão afetados de incontinência verbal, por ideólogos capazes de persuadir o seu país a dar um salto no vazio, por líderes incapazes de desenvolver um projeto viável e sustentável.”

O mesmíssimo diagnóstico aplica-se com perfeição ao governo João Goulart: bravatas, radicalismo verbal histérico, inabilidade de concentrar poder por meio de alianças e negociações – precisamente as falhas das quais não se pode acusar o sr. Lula.

A imagem que o sr. Villa e similares têm do comunista típico corresponde precisamente à daquilo que os comunistas de verdade chamam de “marxista de salão”.

Daí deriva um segundo erro monumental na imagem que pintam do sr. Lula. Poucas coisas neste mundo me irritam, mas uma delas é ouvir esquerdistas e direitistas – sempre unânimes na estupidez – dizerem que “Lula traiu seus ideais”.

Uns tentam, com esse artifício verbal, salvar a honra da esquerda, maculada pelo descrédito atual do líder.

Os do outro lado nem percebem que os ajudam nisso ao medir o chefe do Mensalão na régua dos seus próprios valores proclamados, danando a reputação dele mas consagrando esses valores como medida absoluta das ações humanas e concedendo ao adversário uma vitória ideológica geral duradoura em troca de uma vantagem pontual momentânea.

Em ambos os casos, é puro fingimento histérico: uns e outros não raciocinam a partir dos fatos e da História, mas das impressões que desejam incutir na platéia, das quais, para maior verossimilhança do efeito, tratam primeiro de imbuir-se a si próprios. Não são analistas políticos, são marqueteiros, interessados apenas nos resultados imediatos, totalmente insensíveis aos fatores de longo prazo.

Para quem raciocina com base no estereótipo do “idealismo comunista” – uma autoprojeção do espírito pequeno-burguês que nada tem a ver com a realidade dos partidos comunistas –, parece lógico que, se um político de esquerda vai para cama com grandes capitalistas, comete adultério, macula a pureza dos seus “ideais”.

Na história real do movimento comunista, ao contrário, todo idealismo é considerado uma debilidade pequeno-burguesa, e a recusa de fazer alianças necessárias à concentração de poder um pecado mortal.

“Se você tem quatro inimigos – dizia Lênin –, alie-se com três contra o quarto, depois com dois contra o terceiro, depois com um contra o segundo.”

Quanto à intimidade com o grande capital, Stálin, nos anos 30, recomendava ao partido comunista dos EUA que deixasse de lado os proletários e tratasse de conquistar os corações e mentes dos ricos e importantes (V. Stephen Koch, Double Lives).

Foi isso o que mais tarde garantiu à URSS o afluxo de dinheiro americano com que se construiu o parque industrial bélico soviético em tempo de reagir com sucesso à invasão alemã.

Concentrar poder por todos os meios possíveis Como o rótulo de “intelectual de esquerda” já esteve associado a escritores do porte de um Álvaro Lins e de um Sérgio Milliet, é bom advertir que, usado hoje em dia, ele só guarda com o seu objeto a relação distante de um ser vivo com a sua miniatura de plástico.

Nesse sentido, o sr. Mauro Luís Iasi corresponde aproximadamente àquilo que, nos meios comunopetistas, se entende por esse termo na atualidade.

Não lhe faltam, com efeito, os traços essenciais que definem o tipo: um cargo acadêmico, o total desconhecimento dos assuntos em que pontifica e a presunção de superioridade moral, quando não intelectual.

Até pouco tempo atrás, ele não passava de um objeto de consumo interno dos círculos esquerdistas, mas recentemente alcançou notoriedade mais ampla, não mediante algum feito literário ou científico, mas graças à sua proposta singela de matar todos os direitistas.

Como alguns deles lhe respondessem que seria melhor aplicar esse remédio a ele mesmo, ele imediatamente considerou isso uma prova a mais da típica truculência direitista em confronto com o arraigado pacifismo humanista da esquerda, sem nem sequer ponderar a diferença entre os coeficientes de truculência requeridos para matar um só e para matar todos.

Com aqueles ares de inocência ofendida sem os quais é muito difícil subir na vida hoje em dia, ele explicou ainda que foi muitíssimo mal interpretado, que seu desejo de matar não era nada disso, mas uma simples metáfora poética extraída de um texto de Bertolt Brecht, no qual um proletário enragé, discutindo com um burguês, demonstra que matá-lo é apenas uma questão de justiça.

“Para aqueles que não são muito afeitos a poemas e outras manifestações da alma humana, — escreve o sr. Iasi, com infinita piedade pelos pobres ignorantes — é bom explicar que não se trata de uma pessoa e outra conversando, muito menos uma posição pessoal. É uma metáfora de um encontro de classes numa situação dramática, na qual a classe dominante se encontra diante da possibilidade de ser julgada por aqueles que sempre explorou e dominou.”

O estilo é o homem. Desde logo, no trecho citado o que o proletário sugere não é apenas “julgar” a burguesia, isto é, emitir uma opinião sobre ela, mas sim executá-la, mandá-la para o outro mundo. A versão eufemística do sr. Iasi não consegue camuflar o sentido patente do texto. Diante do burguês que se afirma um homem bom e justo, o revolucionário promete:

“Em consideração aos seus méritos e boas qualidades, poremos você diante de um bom muro, atiraremos em você com uma boa bala de um bom revólver e enterraremos você com uma boa pá numa boa terra.”

ASSISTA AQUI:

O revolucionário promete não apenas matar o burguês, mas humilhá-lo post mortem fazendo chacota do seu cadáver. O sr. Iasi confessa que conheceu o poema de Brecht só pela citação que encontrou num livro de Slavoj Zizek, mas quem leu as obras do dramaturgo sabe que esse tipo de humorismo sardônico voltado contra as vítimas da violência estatal comunista era um dos traços mais característicos do estilo brechtiano de escrever e de ser. Brecht não só aplaudiu entusiasticamente as tropas soviéticas que afogaram num banho de sangue a rebelião popular berlinense de 1953, mas, quando alguém alegou que os condenados nos famosos Processos de Moscou eram inocentes, ele respondeu: “Se eram inocentes, tanto mais mereciam ser fuzilados.”

A ironia macabra não era força de expressão. Para a mentalidade comunista, a culpa ou inocência pessoais do acusado eram, de fato, detalhes menores em comparação com a oportunidade áurea de afirmar, mediante a prepotência da execução arbitrária, a autoridade suprema da Revolução, que não devia satisfações a ninguém senão a si mesma.

A metáfora, se o fosse, não era muito metafórica. Citar Brecht no contexto de um apelo à radicalização da luta esquerdista não é de maneira alguma um adorno literário inocente: é sugerir que os comunistas façam aquilo que Brecht os ensinava a fazer e que aliás eles sempre fizeram.

Mas, para piorar um pouco as coisas, não é uma metáfora. Metáfora é quando uma coisa significa outra coisa, por exemplo o leão significa o Sol ou o Sol significa o rei. Entre o signo e o significado há uma diferença de espécie. Quando o sr. Iasi explica que “não se trata de uma pessoa e outra conversando, muito menos uma posição pessoal” e sim de “uma metáfora de um encontro de classes numa situação dramática”, ele só prova que não sabe o que é metáfora.

Na figura de linguagem que ele emprega, o proletário e o burguês não significam coisas de outras espécies, mas sim as espécies respectivas a que eles realmente pertencem: o proletário significa o proletariado, o burguês a burguesia. Isso não é uma metáfora de maneira alguma, é uma metonímia – não uma relação analógica entre coisas especificamente distintas, mas a relação lógica entre a parte e o todo. O sentido do trecho citado não é portanto o de uma ameaça de homicídio, mas de genocídio: não é este proletário que deve matar este burguês em particular, mas o proletariado como um todo que deve exterminar a burguesia inteira.

Já é uma palhaçada deprimente que um sujeito que ignora a distinção elementar entre metáfora e metonímia pose de grande conhecedor da literatura e se dirija aos seus leitores como a um bando de iletrados que “não são muito afeitos a poemas”. Porém mais grotesco ainda é que, ao tentar dar à sua convocação truculenta os ares inofensivos de uma “metáfora poética”, ele não percebesse que, com a ajuda de Brecht, estava confessando seu desejo de saltar da escala do homicídio para a do genocídio.

Raramente uma tentativa de fazer-se de coitadinho resultou tão flagrantemente numa confissão de culpa ampliada. Por isso é que, quando me perguntam se alguém é comunista por burrice ou por maldade, respondo que é por uma união indissolúvel das duas coisas. Nada emburrece mais do que o esforço contínuo de camuflar a própria maldade sob um travesti de inocência ofendida. E ninguém se dedica a esse esforço com mais persistência do que os comunistas.e imagináveis, inclusive mediante alianças com o “inimigo de classe”, é a obrigação número um de todo líder comunista. O sucesso que Lula obteve por esse meio é indiscutível. E é preciso ser uma espécie de PhD em idiotice para medir o coeficiente de comunismo na mente de um político com a régua de um estereótipo moralista pequeno-burguês.

Mais idiota ainda é recusar-se a chamar um comunista de comunista enquanto ele não declarar que o é. Pois nada mais constante, na história do comunismo, do que a sua persistência em parecer outra coisa, em adornar-se com outros nomes: Front Popular, antifascismo, terceiromundismo, “não alinhados”, progressismo, trabalhismo, desenvolvimentismo, o diabo.

Porém o suprassumo da cretinice é contestar a fidelidade de Lula ao comunismo mediante a alegação de que é um larápio, um corrupto.

Qual grande líder comunista não o foi? Qual não viver como um nababo enquanto seu povo comia ratos? Qual partido comunista subiu ao poder sem propinas, sem desvio de dinheiro público, sem negócios escusos, sem roubo e chantagem? Nada mais desprezível, nos meios comunistas, do que o moralismo pequeno-burguês que se apega às regras da decência formal em vez de seguir a moral marxista segundo a qual o bem é o que aumenta o poder do Partido, o mal o que o diminui.

Corrupção? Ninguém expressou melhor a atitude comunista quanto a esse ponto do que o poeta oficial do Partido Comunista francês, Louis Aragon: “Corromperemos o Ocidente a tal ponto, que ele vai começar a feder.” Ninguém encarnou melhor esse propósito do que Luís Inácio Lula da Silva.

Pelo critério das ações objetivas, Lula entrará para a história como o grande salvador e unificador não só da esquerda brasileira, mas do movimento comunista latino-americano, que sem ele teria ido para a lata de lixo na década de 90, como bem observou o comando das Farc em mensagem enviada ao décimo-quinto aniversário do Foro de São Paulo.

Lula pode não entender grande coisa de economia marxista, mas em matéria de estratégia e tática foi o maior dos maiores, um autêntico mestre da duplicidade dialética .

Chegou ao cume com uma habilidade impressionante, que o próprio Lênin aplaudiria, e cumpriu seu papel na transição revolucionária, instaurando a hegemonia, a concentração poder político e econômico e o aparelhamento do Estado. Quem, na América Latina inteira, conseguiu fazer mais?

Perto dele, Luís Carlos Prestes e Carlos Marighela foram apenas amadores trapalhões, especialistas em fracasso.

Comparem-no, até, com Fidel Castro. Após um começo espetacular, o ditador cubano, desde o fiasco da OLAS com suas guerrilhas, se encolheu à condição de reizinho de um povo faminto e esfarrapado.

Esquecido do mundo, encalacrado na sua ilha, frustradas todas as suas ambições de revolução continental, teria morrido entre espasmos de revolta impotente se Lula não o salvasse do isolamento mediante a idéia genial do Foro de São Paulo, que realizou precisamente o que o generalíssimo jamais conseguiu: elevar ao poder os partidos comunistas e pró-comunistas nos principais países da América Latina.

Não é de estranhar que essa construção tão laboriosamente erigida começasse a desabar justamente no instante em que Lula se retirou da presidência da República, deixando no seu lugar uma trapalhona autêntica, e, debilitado pela velhice e pelas acusações de corrupção, desacelerou suas atividades no Foro de São Paulo para dedicar tempo integral à crise da esquerda local e aos seus próprios problemas com a Justiça. Sem ele, a esquerda latino-americana tem os dias contados. Todas as suas glórias foram obra dele, e sem ele vão para o beleléu.

De longe, e sob todos os aspectos, Lula foi o maior e mais eficiente líder comunista que a América Latina já conheceu – o criador e guru de Chávez, Maduro, Morales e tutti quanti, o articulador da estratégia unificada continental. A direita jamais conseguiu derrotá-lo porque jamais conseguiu compreendê-lo. E não conseguiu compreendê-lo porque insistia em descrevê-lo com os chavões jornalísticos do dia, em vez de medi-lo na escala maior da História.

Nesse sentido, Lula foi, de todas as figuras públicas do Brasil recente, a mais digna de respeito. Não pelas suas virtudes morais, que inexistem, mas pela sua “virtù” no sentido maquiavélico do termo: uma vontade de ferro aliada a uma flexibilidade estratégico-tática totalmente desprovida de escrúpulos e capaz, por isso mesmo, de dobrar a seu talante o curso da História, levando-a para onde bem deseja, ante os olhos atônitos de adversários sonsos que não conseguem nem mesmo descrever o que ele está fazendo.

Não somente em escala nacional, mas continental, o homem que nada sabia de marxismo conseguiu realizar o objetivo de Antonio Gramsci, elevando o seu partido às dimensões de “um poder onipresente e invisível como o de um imperativo categórico, de um mandamento divino”.

Ninguém, na política brasileira ou continental dos últimos quarenta anos, pode se ombrear com ele em envergadura, em capacidade de ação eficaz, em amplitude das ambições realizadas.

Os que empinam os narizinhos para depreciá-lo são como pulgas que criticam o cachorro que as transporta, sem saber para onde as leva.

Logica Da Histeria

18 de novembro de 2013 | Diário do Comércio

Sendo impossível o socialismo perfeito, suas sucessivas encarnações imperfeitas serão sempre e necessariamente consideradas “direitistas” em comparação com suas versões ideais futuras, de modo que a culpa de seus crimes e misérias terá de ser imputada automaticamente à direita, ao capitalismo, aos malditos liberais e conservadores. Do fundo do Gulag, do cemitério ou do exílio, estes serão sempre os autores do mal que os comunistas fizeram.

Isso é um dos preceitos mais essenciais e constantes da lógica revolucionária. Ele corresponde, na prática, ao direito ilimitado de delinqüir, de roubar, de matar e de produzir toda sorte de horrores e misérias, com a garantia não só da impunidade mas de uma consciência eternamente limpa, tanto mais pronta a levantar o dedo acusador quanto maiores são as culpas objetivas que carrega.

É impossível não perceber a identidade cabal entre esse vício estrutural de pensamento e o traço mais característico da mentalidade psicopática, que é a ausência de culpa ou arrependimento, o cinismo perfeito de quem se sente uma vítima inocente no instante mesmo em que se esmera na violência, na mentira e na crueldade.

Os psicopatas não são doentes mentais nem pessoas incapacitadas. São homens inteligentes e astutos sem consciência moral. São criminosos por vocação. Os únicos sentimentos morais que têm são o culto da própria grandeza e a autopiedade: as duas formas, ativa e passiva, do amor-próprio levado às suas últimas conseqüências.

Eles não têm sentimentos morais, mas sabem percebê-los e produzi-los nos outros, sobre os quais adquirem assim o poder de um super-ego dominador e manipulador que neutraliza as funções normais da consciência individual e as substitui por cacoetes de percepção, coletivos e uniformes, favoráveis aos objetivos da política psicopática.

Só por isso não se pode dizer que todos os líderes e intelectuais comunistas sejam psicopatas. Como observou o psiquiatra Andrew Lobaczewski no seu estudo da elite comunista polonesa, um pequeno grupo de psicopatas basta para atrair um vasto círculo de colaboradores e militantes e instilar neles todos os sintomas de uma falsificação histérica da percepção. O histérico não crê naquilo que vê, mas naquilo que diz e repete. Sua experiência direta da realidade é substituída por uma padronização compulsiva que enxerga sempre as coisas pelos mesmos ângulos e não consegue nem imaginar que possam ser vistas de outro modo: a mera tentação de fazê-lo, mesmo por instantes, é reprimida automaticamente ou repelida com horror.

Só um pequeno círculo no topo do movimento comunista compõe-se de psicopatas autênticos. A maioria, do segundo escalão para baixo, é de histéricos. Erik von Kuenhelt-Leddihin documentou extensamente o papel da histeria na militância esquerdista em geral, mas Lobaczewski descobriu que essa histeria não é “causa sui”: é produto da influência penetrante e quase irresistível que os psicopatas exercem sobre as mentes fracas, trocando a sua percepção natural do mundo e de si mesmas por uma “segunda realidade” — para usar o termo de Robert Musil – da qual só podem emergir por um salto intuitivo atemorizador e humilhante que lhes custará, ademais, a perda dos laços de solidariedade grupal, base da sua precária subsistência psicológica.

Lançar as próprias culpas sobre os outros é, no psicopata, um instinto inato e uma das bases do seu poder pessoal. No histérico, é um hábito adquirido, um reflexo defensivo e um instrumento de integração na comunidade protetora. Nos psicopatas, é uma força. Nos histéricos, um sinal de fraqueza. Não espanta que os primeiros façam uso dele com astúcia e comedimento, os segundos com total destempero, levando a invencionice até o último limite do ridículo e da alucinação.

Mas o dr. Lobaczewski vai um pouco mais fundo na análise do fenômeno. Quando a militância orientada pelos psicopatas sobe à condição de poder político e cultural hegemônico, a deformação histérica torna-se o modo dominante de pensar e se alastra por toda a sociedade, infectando até grupos e indivíduos alheios ou hostis ao movimento revolucionário.

Daí a contaminação da linguagem de comentaristas “de direita” pela mágica histérica de tentar inverter as proporções da realidade mediante a simples inversão das palavras. Quando proclamam que Lula ou Dilma são “de direita”, os srs. José Nêumanne Pinto e Demétrio Magnoli, homens insuspeitos de colaboração consciente com o “establishment” esquerdista, só provam que foram vítimas inconscientes dessa contaminação. Por definição, todo governo “de transição” para o socialismo é menos socialista, portanto mais direitista, do que o seu sucessor esperado, assim como todo socialismo real é menos socialista e mais “direitista” do que qualquer socialismo ideal. Ver nisso a prova de um direitismo substantivo, transmutando uma diferença de grau numa identidade de essências é um erro lógico tão grosseiro que só faz sentido como mentira psicopática ou macaqueação histérica. O psicopata vive de criar impressões, o histérico de absorvê-las, imitá-las e propagá-las. Os srs. Nêumanne e Magnoli querem dar a impressão de que o petismo é mau. Para isso, absorvem, imitam e propagam o estereótipo verbal criado por psicopatas comunistas para salvar automaticamente a reputação da esquerda após cada novo fiasco, de modo que ela possa repeti-lo de novo e de novo. Combatem o petismo de hoje fomentando o petismo de amanhã.

Em 18 de novembro de 2013

O Fim De Um Petista Americano

18 de março de 2008 | Diário do Comércio

O pessoal aí no Brasil não está entendendo direito o que aconteceu com o ex-governador de Nova York Eliot Spitzer. O sujeito parece vítima de perseguição moralista, mas não é nada disso.

Primeiro, prostituição em Nova York não é crime nenhum. Crime – crime federal – é levar prostitutas de um Estado para fazer michê em outro. Isso é assim precisamente por causa da diferença entre as leis dos vários Estados, um restinho de federalismo que tem de ser respeitado, principalmente – ora bolas! – se você é governador de um dos Estados envolvidos.

Segundo: Spitzer fez carreira no moralismo acusatório com tons anticapitalistas no mais puro estilo PT. Sua atuação lembra muito a de José Dirceu e Aloysio Mercadante nas célebres CPIs do começo da década de 90, cortando a esmo cabeças de culpados e inocentes e subindo aos píncaros da glória sobre montanhas de reputações destruídas.

Não tem cabimento ficar com dó de um malicioso que se afoga no seu próprio veneno.

O tipo de retórica de Spitzer é de sucesso muito fácil porque as mesmas multidões que se elevaram a um padrão de vida decente graças ao capitalismo ignoram como o sistema funciona, e guardam sempre um fundo de inveja rancorosa baseado na crença de que a riqueza de uns é obtida à custa do empobrecimento de outros.

Ironicamente, essa crença é verdadeira no que diz respeito a todos os demais sistemas econômicos que já existiram no mundo – a comunidade agrária, o escravismo, o feudalismo e o socialismo. A diferença específica do capitalismo – e a única razão do seu sucesso – é que ele funciona precisamente ao contrário desses sistemas. É impossível um sujeito enriquecer por meio de investimento capitalista (mesmo puramente financeiro) sem espalhar riqueza pela sociedade em torno, mesmo que não queira fazê-lo. O capitalismo é em seu mecanismo mais íntimo um efeito multiplicador, que faz “justiça social” por automatismo, e o faz melhor do que qualquer governo soi disant idealista e humanitário.

Vejam anualmente o index de Liberdade Econômica da Heritage Foundation e me mostrem um único regime intervencionista onde as pessoas tenham padrão de vida melhor do que nas nações de economia mais livre.

No entanto, por força da sua mesma prosperidade incontornável, o capitalismo fornece a vastas multidões de classe média os meios de acesso à educação universitária e depois não tem como dar a essa gente uma função útil na economia. O remédio é expandir ilimitadamente a “indústria cultural” para dar emprego à nova classe ociosa. Resultado: aumenta a cada dia o exército de pseudo-intelectuais frustrados, ressentidos, ávidos de um poder à altura dos méritos ilusórios dos quais se imaginam portadores. O progresso do capitalismo cria inexoravelmente a cultura da revolta socialista. Não o proletariado, mas a arraia-miúda universitária – o “proletariado intelectual”, como o chamava Otto Maria Carpeaux – é a verdadeira classe revolucionária.

A composição sociológica de todos os partidos esquerdistas do mundo comprova isso da maneira mais patente. No entanto, não se pode dizer que Marx acertou nem mesmo nesse sentido imprevisto ao dizer que “o capitalismo traz em si a semente da sua própria destruição”. A classe revolucionária não destrói o capitalismo: só o perverte mediante arranjos que elevam os revolucionários à condição de classe dominante ao mesmo tempo que mantêm em funcionamento aquele mínimo de liberdade de mercado sem o qual o socialismo, que só pode existir como promessa indefinidamente adiada, se transmutaria em realidade e se extinguiria automaticamente.

A cultura do socialismo é a doença congênita do capitalismo avançado. Ele pode sobreviver indefinidamente a essa doença, mas à custa de destruir todos os bens culturais, morais e políticos que justificam a sua existência. A degradação da democracia genuína em “democracia de massas” – a ditadura da burocracia imperando sobre as formas vazias de instituições que perderam todo o sentido – é o preço de um capitalismo incapaz de criar uma cultura capitalista.

Gerar e destruir incessantemente tipos como Eliot Spitzer e José Dirceu é apenas um dos vícios estruturais inumeráveis que constituem o repertório de possibilidades da “democracia de massas”.

Decifrando Emir Sader

18 de março de 2002 | 18 de março de 2002

George Orwell escreveu seu memorável romance 1984 para protestar contra a revolução semântica perpetrada pelas ideologias coletivistas da sua época, sobretudo o comunismo. A perversão da linguagem e da lógica por regimes totalitários levou o grande escritor inglês a inventar um termo para esse controle político-ideológico das palavras e do raciocínio:

newspeak . No Brasil de hoje, subjugado pela mesma ideologia contra a qual Orwell lutou, naturalmente não há falta de colunistas e acadêmicos versados no uso do newspeak , autênticos virtuoses nessa arte nefasta. O articulista do JB Emir Sader não é um desses virtuoses. Seu estilo primitivo carece de sutileza, embora não se possa negar que ele se esforce. De todo maneira, é uma pena que ninguém tenha tido a idéia de criar um software específico para a tradução do newspeak , o que facilitaria muito o trabalho de quem deseja inferir o verdadeiro intuito de autores oblíquos em seus textos melífluos. Como esse software ainda não existe (e provavelmente nunca existirá), o jeito é analisar artesanalmente o artigo de Sader publicado no último domingo e procurar traduzir para o português claro o seu tosco newspeak . Este consiste em inverter o sentido das palavras e inserir premissas falsas sub-repticiamente nos encadeamentos dedutivos, de modo a levar o leitor a conclusões viciadas. Examinemos, pois, algumas das proposições do Emir do Newspeak :

1.

O presidente da Venezuela Hugo Chávez está enfrentando um projeto de desestabilização dirigido pelas elites venezuelanas, que aparentemente conta com amplo apoio da classe média e até dos meios populares.

O pressuposto que não ousa dizer seu nome nesse trecho é o seguinte: Hugo Chávez representa inequivocamente os interesses das camadas populares, mas suas políticas favoráveis ao povão não são aceitas pela perversa elite da Venezuela, a qual conseguiu alienar a classe média e até parte desse mesmo povão por meios ideológicos e falazes. Nada disso está correto, como fica evidente quando o raciocínio é exposto com clareza. Chávez é um reles caudilho, tipo infelizmente muito comum na história latino-americana. Ascendeu à notoriedade graças a uma tentativa mal-sucedida de golpe de estado. Tudo o que ele almeja é o poder absoluto, à exemplo de seu modelo Fidel Castro. Como todo caudilho, Chávez não dá a mínima para os interesses da população, simples massa de manobra para seu projeto ditatorial. Ele foi eleito com amplos poderes para reduzir a corrupção que contaminava a sociedade política de seu país. Não só não fez nada contra a corrupção, pois ele próprio é corrupto ao extremo, como passou a cortejar ditadores cubanos, iraquianos e que tais, sem falar no apoio que deu aos terroristas das Farc. Não foi para isso que os venezuelanos lhe confiaram um mandato.

2.

O movimento contra Chávez é ilegítimo, uma vez que o presidente sempre seguiu os trâmites da democracia liberal desde sua eleição até a edição de um recente pacote de leis econômico-sociais, aprovado pelo Parlamento.

Sader pretende persuadir o leitor de que Chávez é um democrata sincero e nada deseja senão o bem-estar dos pobres, confinando sua atuação benevolente ao cumprimento estrito da Constituição e das leis vigentes. Contra esse generoso estadista se opõe a infausta elite privilegiada e exploradora. Ora, o “democrata” de hoje é o golpista de ontem. Seus antecedentes não são favoráveis. Convém suspeitar de um homem ávido de poder e disposto a todo tipo de demagogia para conseguir apoio suficiente para um outro golpe. Que diferença essencial existe entre Chávez e Fujimori? Nenhuma. Porém, como Chávez se declara de esquerda e idolatra Fidel Castro, tudo lhe é perdoado por Sader.

3.

A legislação promulgada por Chávez é inegavelmente favorável aos excluídos da Venezuela, posto que objetiva abolir o latifúndio, garantir o controle estatal da exploração do petróleo, reservar o litoral até 3 milhas da costa exclusivamente para os pescadores artesanais, outorgar crédito subsidiado pelos bancos estatais às pequenas empresas e trabalhadores e disciplinar o uso da terra na zona costeira de modo a preservar o meio-ambiente e evitar a especulação imobiliária.

Absolutamente nenhuma dessas leis favorece a população pobre da Venezuela. São medidas demagógicas de um tirano desesperado. A intenção última de Chávez não é de modo algum distribuir a terra aos agricultores modestos, e sim confiscá-la toda, instituindo um regime de superlatifúndio, como em Cuba, onde toda a terra pertence ao Estado. O domínio estatal da indústria petrolífera gerou um ambiente de corrupção espantosa, tanto que o povo venezuelano está mais pobre hoje do que estava antes dos violentos aumentos do preço do insumo, a partir de 1973. O que a população da Venezuela, um dos maiores produtores do combustível do mundo, ganhou com a hegemonia do governo nesse setor? Só perdeu. Quanto à reserva de mercado para os pescadores pobres, trata-se de uma providência realmente benéfica para esses pescadores, mas péssima para os consumidores pobres de pescado. A restrição causará a diminuição da quantidade de peixe ofertada no mercado e a inevitável elevação dos preços desse alimento. A politização do crédito via fomento por bancos públicos só pode acabar em corrupção e malversação de poupança escassa, prejudicando sobretudo os assalariados mais pobres. É só ver o que aconteceu e ainda acontece no Brasil com a Sudam, Sudene, Bndes, Banerj, Banespa, Banco do Brasil etc. A regulação draconiana do uso da terra costeira, além de constituir uma típica violação populista do direito de propriedade, acarretará a redução das atividads de construção civil, desempregando trabalhadores pobres, bem como a diminuição da oferta de residências, o que causa a subida dos preços dos aluguéis e dos imóveis já existentes, encarecendo a vida dos menos favorecidos.

4.

A grande mídia privada da Venezuela, dominada por magnatas corruptos, está movendo uma campanha terrorista para insuflar maldosamente as massas contra Chávez, conquanto o presidente esteja honestamente fazendo tudo o que pode para melhorar a sorte dos pobres.

Ninguém em sã consciência desconhece o poder e os recursos de que dispõe um governo para amordaçar a imprensa privada e alardear seus próprios feitos através de propaganda paga pelo contribuinte e isenta de riscos, ou subsidiar jornais de particulares para que tomem o seu partido.

A fortiori quando o governante é um inescrupuloso candidato ostensivo à ditadura. Se a mídia particular ainda existe na Venezuela e consegue se opor ao presidente é porque dispõe de apoio popular suficiente para isso. Se o que a imprensa divulga é falso, o governo nada tem a temer. Basta mostrar a verdade, recorrendo ao judiciário, se necessário. Se, contudo, é o governo quem mente, a imprensa privada está prestando um serviço público da maior importância ao revelar as mentiras e tramóias dos governantes. Sader usa o termo “terrorista” aqui com o objetivo de confundir o leitor. Se a mídia fosse estatizada na Venezuela, nada que desagradasse Chávez seria publicado. Como em Cuba. É claro que Sader não dá a mínima para a liberdade de imprensa. Ele anseia é por mais uma ditadura totalitária no continente, e para isso vale tudo.

5.

Todos os governos que se opuseram aos Estados Unidos no continente foram derrubados, exceto Cuba. Esses governos (Getúlio, Perón, Jacobo Arbenz, João Goulart, Allende) cometeram o erro de seguir o processo democrático no seu afã de auxiliar a classe pobre, e foram destruídos pelas oligarquias locais ajudadas pelos norte-americanos.

Premissa oculta n. 1: todo governo que se opõe aos Estados Unidos é ipso facto favorável ao povo, e todo governo que apóia os Estados Unidos é contra o povo. Bem, nesse caso temos que incluir entre os benfeitores da humanidade Hitler, Mussolini, Stalin, Mao, Pol Pot e outros genocidas. Não que eu pense que os governos alinhados com a política norte-americana sejam necessariamente bonzinhos. No meu modo de ver, o bom governo é aquele que se limita a garantir os direitos individuais contra violações de bandidos nacionais e invasores externos, deixando o resto para as pessoas resolverem pela via da cooperação voluntária. Não importa a sua atitude em relação aos americanos, que não constitui de maneira alguma critério de julgamento de uma administração. Acredito, inclusive, que um governo de fato preocupado com os direitos individuais tem o dever de se opor a certos interesses do governo americano, propondo, para exemplificar, a imediata dissolução do FMI, do Banco Mundial, da ONU, do BID, da OMC e outros antros de burocratas parasitários transnacionais. Para os contribuintes americanos, que sustentam essa malta, seria uma vitória esplêndida.

A lista de estadistas “democratas” de Sader, ademais, inclui dois ditadores de corte fascista (Getúlio e Perón), enquanto que os outros três conduziram políticas esquerdistas contra a vontade da maioria de suas respectivas populações, tanto que foram depostos sem resistência. Eu não defendo a deposição deles, mas tampouco caio na esparrela de pintá-los como ingênuos e românticos líderes democratas. Pelo menos Allende e Arbenz ambicionavam a ditadura totalitária, e não faziam segredo disso.

Premissa oculta n. 2: Admitindo como válida a premissa oculta anterior, não resta outro caminho a um grupo político latino-americano disposto a ser “bom”, isto é, anti-americano, senão recorrer a meios violentos para a tomada e conservação do poder. A via democrática esbarra na resistência dos americanos conjuminados com as oligarquias locais. Somente e revolução e a supressão impiedosa dessas oligarquias abre o caminho para a soberania popular no continente. Como em Cuba. Completando o silogismo saderiano, concluimos que o ideal para a America Latina é um regime de partido único, sujeito à autocracia de um ditador cruel há mais de quarenta anos, que reduziu um dos países mais ricos do continente à miséria, que expulsou mais de 10% da população etc.

6.

O drama da Venezuela reflete a insinceridade da elite latino-americana e seu desapego à democracia, pois a possível derrubada de Chávez, como a deposição dos aludidos líderes populares no passado, evidenciará novamente a hipocrisia da classe dominante e a falência da decadente democracia liberal. Assim, só resta ao povo apoiar outra espécie de democracia, com conteúdo social, soberania popular e fé na utopia.

Elite no discurso de Sader são sempre os outros. Ele, Sader, malgrado ocupe cátedras nas mais renomadas universidades do país e publique artigos nos mais influentes jornais, embora organize e escreva livros de grandes vendagens sob o selo de prestigiosas editoras e aconselhe políticos de projeção nacional de um poderosos partido de extrema-esquerda, não é de elite nenhuma. Nem o arrivista Chávez e seus correligionários “bolivarianos”, Fidel e sua nomenklatura cubana, os ricos fazendeiros Getúlio e Goulart apoiados por uma vasta aristocracia sindical, integram uma elite. A palavra “elite” significa no contexto saderiano todos os grupos que Sader desaprova.

Newspeak puro. A verdade é que Sader é o típico representante da mais sanguinolenta elite que já existiu: a “vanguarda do proletariado” leninista. Mataram mais de cem milhões. E que “outra” democracia com “conteúdo social” é essa? Alguém tem alguma dúvida? A democracia de Sader é a ditadura do “proletariado”. Democracia é ditadura, ditadura é democracia.

Newspeak de quinta categoria. O afamado intelectuário uspiano ainda tem a cara-de-pau de acusar preventivamente o exército e a “elite” venezuelana por um possível golpe contra Chávez, como se o sujeito não estivesse tramando um putsch com o auxílio luxuoso de estrategistas de alto coturno emprestados por Fidel Castro. Na lógica paralógica de Sader todos os meios que o tiranete venezuelano utilizar para instaurar uma ditadura de esquerda são válidos, mesmo que contra a vontade da maioria da população, pois atendem os “intereses populares”, e tudo o que os setores da sociedade daquele país fizerem para se defender, não importa quã o amplo e majoritário seja o seu apoio, será ilegítimo, pois serve a causa das “elites”.

Partidos Do Crime

18 de março de 2002 | Jornal do Brasil

O senhor ministro da Justiça, segundo publicado na imprensa, disse que as ações do PCC (Primeiro Comando da Capital) “preocupam muito o governo”. Não é para menos. Mas o senhor ministro, tão “preocupado” com o PCC, pode preocupar- se também com as atividades de outros Partidos do Crime, que atualmente multiplicam-se. Além do PCC temos hoje o CDL (Conselho Democrático da Liberdade) e o CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade). Isso em São Paulo. No Rio de Janeiro, já temos as siglas CV (Comando Vermelho), TC (Terceiro Comando), ADA (Amigos dos Amigos). Pode não estar longe o dia em que todas essas siglas venham a ser registradas oficialmente como representando partidos políticos, congregando extenso eleitorado cativo nas favelas de nossas cidades.

No Estado de São Paulo, nem na cadeia há segurança. Em todos os presídios do Estado, detentos assassinam outros presos (às vezes com requintes de ferocidade, como no caso do detento do qual seus matadores deceparam a cabeça e arrancaram o coração). As rebeliões em presídios são diárias, e acompanhadas pela morte de vários detentos, chacinados por seus companheiros. Tudo isso nas barbas das autoridades penitenciárias, que, aliás não têm mais autoridade alguma. O líder da rebelião no Cadeião de Pinheiros, ao ser transferido para outro presídio, anunciou que iria para lá, no seu lugar, outro integrante do PCC, que irá “assumir o comando da cadeia” – segundo entrevista concedida à reportagem de O Estado de S. Paulo por outro detento, por meio de telefone celular. Aliás, tudo é comandado, de um presídio para outro, via telefones celulares. As autoridades informam que o único meio de impedir essas ligações seria a instalação em cada presídio de aparelhos capazes de interferir nas ligações dos celulares de posse dos senhores detentos. Pareceria que houvesse um meio mais simples: a apreensão dos celulares nas celas (como chegam lá?) e impedimento da introdução de novos aparelhos, mediante rigorosa revista dos visitantes. Mas está bem claro que as autoridades(?) não têm coragem de tomar tais medidas, temendo por suas vidas no caso de novas rebeliões.

Com razão “preocupa-se” o senhor ministro da Justiça. Talvez seja para Sua Excelência o momento de cogitar de uma ação federal, ante a impotência das autoridades estaduais, para desbaratar todos esses Partidos do Crime – dos quais já existe um também no Paraná – o Primeiro Comando do Paraná (PCP). Com a palavra o senhor ministro da Justiça. A verdade é, visivelmente, que tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, as forças da ordem, as autoridades legítimas, acham-se na defensiva ante o poder e a audácia crescentes do crime organizado. Policiais são caçados e abatidos pelo simples fato de serem identificados como tais. Tribunais são invadidos por bandidos armados e advogados são abatidos em pleno fórum da Justiça. O crime organizado ordena o fechamento do comércio de bairros inteiros – e é obedecido. Representantes do povo, ocupantes de cargos eletivos, são seqüestrados e assassinados. Ao mesmo tempo que campeia verdadeira guerrilha urbana facinorosa em nossas cidades, uma guerrilha rural invade propriedades, planta e pastoreiaem terras alheias, expulsando delas os legítimos donos.

Há muito tempo venho defendendo a idéia da criação de uma Polícia Federal militarizada para apoiar, com fortíssimo armamento e apetrechamento, a ação das polícias estaduais, que vêm fazendo das tripas coração para desempenhar honestamente a sua função. Elas também devem ser reforçadas e providas dos melhores meios para dar com-bate ao crime. Mas, a meu ver, uma for-te milícia federal indispensável para as duras batalhas que será necessário travar para impor em todo o território nacional o império da lei e garantir a segurança dos cidadãos. Essa força poderia, ser apoiada, instruída, e talvez enquadrada pelas Forças Armadas, que “são do ramo”. O seu recrutamento deveria obedecer a critérios de ordem física, intelectual e moral. A bacia de captação para a milícia poderia mesmo contar, em primeiro lugar, com reservistas das Forças Armadas. Só a Brigada Pára-Quedista do Exército licencia, cada ano, 1.200 reservistas da melhor qualidade, homens de excelente físico, acostumados ao perigo e amando os desafios. Outra fonte importante seria o Corpo de Fuzileiros Navais, tropa de elite, afeita a operar em condições difíceis. Não olvidando os reservistas dos batalhões de Operações Especiais do Exército, e os dos vários batalhões da Polícia do Exército.

Essa nova, inteligente e aguerrida Força Federal deveria usar com orgulho uma farda respeitada pela população civil, e conquistar a confiança e a cooperação desta. Seria ela um aríete invencível contra as tropas da criminalidade, operando outrossim em íntimo convívio com as populações. Apoiada, evidentemente pelos serviços de inteligência das Forças Armadas e das Polícias Militares. Uma presença permanente dela no terreno, intercalada, se preciso, com “missões de busca e destruição de quadrilhas”, afiançaria o império da lei e a autoridade dos governos estaduais. Nossas prisões têm paredes porosas – mesmo quando não derrubadas por marginais. Ali entram livremente armas, drogas e telefones celulares. Dali saem, quando querem, bandidos de toda espécie. Além disso, nossos cárceres não oferecem segurança para os infelizes detentos. Parece ser urgente, portanto, a construção de um superpresídio de segurança total, em local isolado, de difícil ingresso e mais difícil egresso.

M. Pio Corrêa é embaixador aposentado Em 18 de março de 2002

Leituras

A Casca E A Banana

18 de junho de 2013 | Diário do Comércio

A ideia de que um ser humano em gestação é um ser humano é das mais difíceis de contestar. Diante disso, a antropóloga da UnB que mencionei no artigo anterior prefere deformá-la e achincalhá-la, rebaixando o feto humano a um mero “conjunto” ou “punhado” (sic) de células. Tais expressões são de uma impropriedade vocabular subginasiana.

Conjunto ou punhado é qualquer amontoado de elementos, independente da ordem que os articula. Se um feto fosse apenas isso, seria preciso juntar suas células depois do nascimento para lhes dar feitio humano. Seria uma trabalheira dos diabos. O que define o nascituro não é ter células, mas tê-las ordenadas e articuladas em uma forma definida e específica, que é a forma do ser humano, inconfundível e única entre todas as espécies animais.

Há, certamente, pessoas que, de tanto fingir que não entendem, terminam mesmo por não entender coisa nenhuma. Essas hão de dizer que o feto, no começo, se parece com um peixe. Dona Débora não se pronunciou a respeito, mas não duvido que, possuindo a seriedade científica requerida para confundir potência com inexistência, ela encontre também alguma dificuldade em atinar com a diferença entre forma e formato, já explicada 2400 anos atrás por Aristóteles.

O autor do Organon ensinava que uma mão amputada tem ainda o formato, mas não mais a forma de mão. Forma não é aparência exterior, é articulação interna, é ordem constitutiva, é princípio de unidade e funcionamento ou, como diria o nosso Mário Ferreira dos Santos, lei de proporcionalidade intrínseca. É assim que se usa o termo em literatura, em música, em matemática e em todos os setores do conhecimento.

Os Lusíadas e a Lista Telefônica têm ambos o formato de livros. Diferenciam-se é pela sua forma, pela ordem e conexão interna das palavras que os compõem. A estátua de um ser humano tem formato, mas não forma intrínseca de ser humano, isto é, aptidão para crescer e funcionar como um ser humano. O feto, induscutivelmente, tem. Por isso os que não desejam vê-lo como um ser humano precisam fingir que não enxergam essa forma, e recorrem, para tanto, ao expediente de carimbá-la como “conjunto” ou um “punhado”, expressões que designam precisamente o contrário, isto é, os elementos soltos e sem forma.

Dona Débora troca os nomes das coisas para torná-las irreconhecíveis e acha que isso não apenas é ciência, mas ciência séria.

Há tempos já parei de me perguntar se as pessoas fazem essas coisas por burrice ou desonestidade. A desonestidade, quando praticada com a devida persistência, consolida-se em burrice autêntica. A burrice, quando passa da dose compatível com o cargo, o prestígio e as responsabilidades públicas do seu portador, é desonestidade pura.

Dona Débora exemplifica majestosamente a síntese indissolúvel dessas duas mimosas qualidades. Vejamos:

Na sentença que analisei no artigo anterior, ao dizer que os autores do Estatuto do Nascituro querem “dar personalidade jurídica às convicções morais etc. etc.”, ela não apenas comete as impropriedades lógicas e semânticas que apontei, mas capricha no vexame ao querer mostrar cultura mediante o uso um termo jurídico cujo sentido lhe escapa. “Personalidade jurídica” é capacidade para ser titular de direitos e obrigações. É termo que não se aplica a convicções, opiniões ou ideias, mas somente a indivíduos ou coletividades humanas reais. Se entendesse o que escreve, se tivesse algum domínio, ainda que modesto, do assunto e do idioma, ela poderia dizer que os tais legisladores quiseram dar “teor” ou “valor” jurídico às suas convicções, ou então dar “personalidade jurídica” ao nascituro. “Dar personalidade jurídica a convicções” é uma expressão que não faz o menor sentido.

Mas, quando alguém leva a seriedade científica a esse ponto, não é de espantar que, ao comentar um documento legal, falsifique também o seu conteúdo para fazê-lo dizer o que não diz e, assim, poder-lhe atribuir o sentido que bem deseje. Assim, do Estatuto do Nascituro, que prevê e estabelece explicitamente o direito ao aborto em caso de estupro, Dona Débora faz um código de terror no qual “uma menina que tenha sido violentada sexualmente por um estranho será obrigada pelo Estado a manter-se grávida, mesmo que com riscos irreparáveis à saúde física e psíquica”.

Podemos discutir pelos séculos dos séculos se isso é burrice desonesta ou desonestidade burra. É como perguntar se a banana está dentro da casca ou a casca em volta da banana.

Oque sei é que, quando alguém exibe num mesmo lance seus títulos de autoridade acadêmica e uma total incapacidade de raciocinar até mesmo sobre coisas simples, estamos diante de um exemplar típico da classe universitária brasileira de hoje, cuja função não é estudar ou conhecer o que quer que seja, mas fazer número nos grupos de pressão.

A Competencia Dos Incompetentes

18 de julho de 2007 | Diário do Comércio

Não faltará, como nunca falta, quem atribua o monstruoso acidente do aeroporto de Congonhas à incompetência pura e simples. Mas a incompetência do governo federal, nessa como em outras áreas, não é nem pura nem simples. Ela é o efeito da dupla agenda estratégica que orienta todas as ações do esquema petista já desde antes de sua ascensão ao poder.

Nas semanas que antecederam as eleições de 2002, só três pessoas na mídia anunciaram a formação da aliança revolucionária continental Lula-Castro-Chávez. Resultado: eu perdi o meu emprego, o analista estratégico Constantine Menges foi xingado até à enésima geração e o herói nacional cubano Armando Valladares foi rotulado de “picareta”. Menções ao “pequeno eixo do mal” foram declaradas anátema. Nos debates nominalmente destinados a informar o público sobre os candidatos em que iria votar, nem mesmo os adversários de Lula quiseram tocar no assunto. Dos entrevistadores, só um – Boris Casoy – ousou perguntar algo a respeito, e mesmo assim muito educadamente, muito discretamente, quase pedindo desculpas. Lula mandou-o calar a boca.

Ao longo dos dois mandatos lulianos, o eixo, que já vinha sendo preparado nas reuniões do Foro de São Paulo desde 1990, tornou-se uma realidade patente, e nenhum dos iluminados que o haviam negado apareceu na mídia confessando-se um idiota ou um mentiroso contumaz. Todas as ridículas tentativas do governo George W. Bush de jogar Lula contra o esquema castrochavista só serviram para provar a solidez da aliança revolucionária, não só entre aqueles três governantes esquerdistas, mas entre todos os membros do Foro, inclusive as Farc e outras organizações criminosas.

Mas, numa campanha eleitoral, a duplicidade moral consiste apenas em dizer uma coisa e fazer outra. Uma vez eleito, o sujeito tem de governar, e aí a incongruência entre a fala e os atos torna-se discordância entre duas séries de atos, uma destinada a implementar os objetivos nominais do seu governo, outra a realizar as finalidades secretas, ou discretas, do esquema de poder que o elegeu. De um lado, trata-se de administrar o país relativamente bem, para se manter alto nas pesquisas. De outro, busca-se desmantelar o Estado e a própria sociedade, para que o partido revolucionário possa se sobrepor a ambos e engoli-los. Não se pode dizer que o governo Lula tenha duas cabeças, porque só uma cabeça única, e bem organizada, pode coordenar esse delicado e complexo jogo duplo. Mas o processo tem um limite natural.

Não é possível desmantelar o Estado e manter o governo funcionando; nem anarquizar a sociedade e continuar indefinidamente dando a impressão de ordem e progresso. Mais dia, menos dia, um dos lados vai ter de predominar. A lógica interna da estratégia revolucionária espera que esse momento só chegue quando as “forças populares” estiverem prontas para rasgar sua própria máscara e partir para a tomada ostensiva do poder. No segundo mandato de Lula, porém, o limite natural do processo foi atingido antes disso.

O Estado e a sociedade já estão bagunçados de alto a baixo, mas a esquerda radical não está madura para o grande golpe. Nada funciona – nem mesmo a estratégia revolucionária. A velha ordem morreu, a nova transformou-se num gigantesco aborto.

Que fazer?, perguntaria Lênin. E responderia: se não for possível adiar o desenlace, deve-se tirar proveito revolucionário do aborto mesmo, lançando as culpas dele no adversário. Não existindo adversário, a parte mais comprometida do esquema revolucionário deve ser ela própria jogada às feras, acusada de traição e direitismo.

Isso já começou a acontecer. Não havendo uma direita capaz de liderar a revolta popular contra o pior governo brasileiro de todos os tempos, essa revolta será muito provavelmente capitalizada pelo mesmo esquema esquerdista que o gerou. Se o próprio Lula tiver de ser sacrificado para esse fim, não haverá aí surpresa nenhuma. Criar o fantoche custou caro, mas quem vai pensar em economizar dinheiro numa hora dessas?

Em 18 de julho de 2007

Fim Da Transicao

18 de janeiro de 2010 | Diário do Comércio

O III Plano Nacional de Direitos Humanos tem dois objetivos principais: (1) inibir e suprimir, mediante o temor das sanções legais, toda resistência ao terrorismo de esquerda, passado, presente ou futuro; (2) entregar aos organismos revolucionários, eufemisticamente denominados “movimentos sociais”, o poder total sobre a propriedade rural no Brasil.

As duas metas são distintas só em aparência. A primeira consagra o direito ao terrorismo comunista, a segunda faz daqueles que o pratiquem na zona rural os juízes soberanos de seus próprios atos.

O sentido do primeiro objetivo não se esgota, é claro, no gesto meramente simbólico de mandar nonagenários para a cadeia (se bem que isto tenha lá sua utilidade, do ponto de vista psicológico). Ele visa a consagrar como princípio legal a regra da “guerra assimétrica”, onde um dos lados fica com todos os direitos, o outro com todas as obrigações, responsabilidades e encargos. O pretexto sublime é que estes últimos, como representantes do Estado, não podiam cometer as violências que, praticadas por seus adversários, seriam — segundo a premissa embutida no argumento — perfeitamente aceitáveis. Ora, mas esses adversários não constituíam tribunais, não julgavam, condenavam e executavam, inclusive a seus próprios companheiros infiéis? Não exerciam, assim, por autonomeação, as prerrogativas de agentes do Estado? Por que a culpa do agente legal do Estado que abuse de suas funções deveria ser maior que a daqueles que, além de abusar delas, as exercem ilegalmente, usurpatoriamente? A inversão revolucionária de sujeito e objeto não poderia ser mais evidente. Isto sem levar em conta o agravante notório de que vários terroristas brasileiros eram funcionários do governo cubano, atuando em nosso território não como inimigos locais do regime, mas como agentes estrangeiros. Raciocinar às avessas pode ter-se tornado uma prática tão habitual e corriqueira para os srs. Hélio Schwartzmann, Silvio Tendler e outros tantos apologistas do III Plano, que eles já nem percebem o que estão exigindo do público: que aceite, como preceito normal e óbvio, a idéia de que os agentes do Estado que cometam violência ilegal só devem ser punidos se estiverem a serviço do Estado brasileiro. Se trabalharem para o estrangeiro, podem matar, seqüestrar, torturar e roubar livremente, e ainda receber indenizações porque a polícia malvada não os deixou completar o serviço.

Quanto ao segundo objetivo, ele repete em gênero, número e grau a primeira palavra-de-ordem de Lênin ao desembarcar na Rússia revolucionária: “Todo o poder aos sovietes!” Na sua estrutura, nas suas funções e no seu espírito, os “movimentos sociais” do campo correspondem ponto por ponto aos sovietes. A essência da idéia não é tomar de imediato as fazendas particulares, é desprover seus proprietários de toda possibilidade de defesa perante um tribunal revolucionário. Essa defesa, aliás, já nem existe na prática. Quem não sabe que sentença de “reintegração de posse”, hoje em dia, tem valor meramente sugestivo? Mas essa conquista meramente negativa não satisfaz às ambições da revolução: é preciso passar da mera supressão de direitos à afirmação ostensiva, oficial, do direito de suprimi-los.

Implantadas essas duas medidas, estará encerrado o “governo de transição” — tarefa que o governo Lula assumiu explicitamente como sua –, e o caminho estará livre para a instauração do regime comunista, sem maiores disfarces ou anestésicos.

Tudo isso está planejado há décadas, no programa dos partidos de esquerda, nos livros de seus doutrinários e nas Atas do Foro de São Paulo. A mão que assinou aquela coisa é, afinal, a mesma que em 2001 firmou o compromisso de apoio irrestrito às Farc e condenou como “terrorismo de Estado” a luta do governo colombiano contra a narcoguerrilha. Em todo esse episódio, a única coisa que me surpreende — mui moderadamente aliás — é que ainda haja quem se surpreenda, depois de tantos avisos.

Que dirão agora aquelas lindas criaturas que uns anos atrás juravam “Lula mudou” e chamavam de louco quem quer que tentasse prognosticar o comportamento político do PT e demais partidos de esquerda não pela sua propaganda adocicada, mas pelos seus documentos internos, repletos de retórica odienta e ameaças apocalípticas?

Ah, não se preocupem, elas sempre encontrarão alguma desculpa esfarrapada. Afinal, vivem disso.

Em 18 de janeiro de 2010

O Sorriso E A Baba

18 de fevereiro de 1999 | Jornal da Tarde

Já tenho assinalado, aqui, a perigosa farsa que consiste em rotular de “direitista” o governo FHC. Um governo direitista não tolera paternalmente invasões de terras, não incentiva o sexo livre sob a desculpa de prevenção da aids, não subscreve slogans feministas e abortistas, não impõe o controle estatal do vocabulário e, sobretudo, não transforma o ensino público numa rede de propaganda marxista (v. os artigos de J.O. de Meira Penna no JT sobre os livros didáticos oficiais).

FHC é um esquerdista, um gramsciano de carteirinha, apenas em parte comprometido, na esfera econômica e exclusivamente nela, a fazer aos capitalistas certas concessões que um governo comunista as faria ainda maiores, se isto lhe interessasse, como as fez o próprio Lenin nos primeiros anos da URSS ou as faz hoje a inabalável ditadura chinesa.

A vantagem que os comunistas obtêm da lenda de um FHC direitista é óbvia: nas camadas profundas e de longo alcance – a educação, a formação da mentalidade nacional –, o governo vai preparando o terreno para o comunismo, enquanto na superfície do noticiário todos os seus erros e desvarios são explorados para atrair o ódio popular sobre uma “direita” evanescente e fantasmal. Cinco décadas de hegemonia mental esquerdista fazem o resto, ajudando a manter as atenções dos liberais fixadas nas manchetes econômicas, onde uma inconsciente impregnação marxista os ensinou a ver o motor decisivo do processo histórico – enquanto os comunistas, mais espertos, preferem apostar na ação cultural, usando a doutrina do primado do econômico apenas a título de trompe l’oeil.

Se o governo social-democrata e a oposição comunista houvessem tramado conscientemente a farsa, ela não teria igual sucesso. Mas, de fato, não é preciso planejar nada: que no estupro revolucionário das nações os social-democratas desempenhem docilmente o papel de preservativos, prestes a ser jogados na lata de lixo da História uma vez consumado o ato, é algo que está simplesmente na natureza das coisas. E a partilha do cenário entre duas forças de esquerda, onde a menos truculenta faz as vezes de “direita”, assinala nada menos que o deslocamento estrutural do eixo, da qual se deduz para que lado vai ser a queda.

Mas isso não quer dizer que os comunistas permaneçam inativos, aguardando comodamente a hora de embolsar os lucros do investimento social-democrata. Eles agem mais que nunca. E como, para passar da fase da “revolução passiva” à tomada do poder, nada mais urgente que o apoio das Forças Armadas, eis que, nos últimos anos, a palavra de ordem nos círculos esquerdistas é: lamber o ego militar. Paparicar, bajular, seduzir, ocultar sob a imagem de um futuro róseo um passado de ressentimentos que insiste, não obstante, em se infiltrar nas entrelinhas do discurso incensatório, como a gota de baba no canto de um sorriso hipócrita. Infiltra-se, às vezes, por um simples erro de diagramação: na edição de janeiro da revistinha fidelista Caros Amigos , Gilberto Vasconcellos, comentando na página 10 o número anterior, celebra uma entrevista antiamericana do almirante Sérgio Ferolla como “o fim do dissídio entre civis e militares”. Desnecessário comentar a pretensão calhorda que identifica esquerda armada e “sociedade civil”: o engodo verbal é desmentido com todas as honras na página seguinte, onde um ato falho freudiano de Frei Betto proclama a morte de Tito de Alencar Lima (o dominicano que delatou Marighela) como “o que de mais hediondo produziu o militarismo brasileiro”. No esquerdismo, nem tudo, como se vê, é esperteza maquiavélica: o ódio recalcado vaza pelas rachaduras da máscara afetuosa, desmantelando a improvisada encenação. E, se ninguém se reconcilia com o adversário atirando-lhe na cara discursos sobre seus “feitos hediondos”, talvez seja bom aos esquerdistas saber que a memória militar não é tão facilmente manipulável pela mídia como a dos civis. Vale a sugestão: leiam A Grande Barreira: Os Militares e a Esquerda Radical no Brasil (1930-1968) , do coronel J. F. Maya Pedrosa, publicado meses atrás pela Biblioteca do Exército com o apoio pessoal do ministro Zenildo Lucena, e verão que o Exército brasileiro ainda não está suficientemente idiotizado para começar a acreditar em vocês.

Em 18 de fevereiro de 1999

Que E Que Falta

18 de dezembro de 2004 | O Globo

Depois que a “estratégia das tesouras” eliminou toda possibilidade de oposição genuína; depois que o STF transformado em braço do Executivo acabou com a autonomia do judiciário e com os direitos adquiridos; depois que repetidas campanhas de difamação colocaram as Forças Armadas de joelhos ante uma elite de terroristas e agentes cubanos soi disant aposentados; depois que os jornais e TVs se tornaram uma gigantesca máquina de autoglorificação comunista e propaganda anti-americana enganosa; depois que o debate político foi substituído, sem traumas ou protestos, pelas miúdas discussões internas da esquerda triunfante; depois que toda veleidade de anticomunismo foi extirpada das cátedras universitárias por uma onipresente estratégia de intimidação e boicote; depois que a parceria bilionária entre o governo e uma entidade ilegal institucionalizou a revolução no campo, criminalizando a defesa da propriedade privada; depois que o governo induziu os cidadãos honestos a desarmar-se e os persuadiu de que assim estarão mais protegidos contra criminosos armados; depois de tudo isso e de mais alguns capítulos intermediários que por falta de espaço me omito de detalhar (a submissão da caridade pública ao oportunismo esquerdista da “campanha do Betinho” mereceria ao menos uma menção), foi a coisa mais fácil do mundo eliminar o sigilo bancário por meio de uma simples decisão de gabinete, a salvo de qualquer ameaça de debate no Parlamento ou na mídia. A caneta do dr. Palocci, sozinha, era apenas um instrumento para assinar receitas médicas; em cima dessa montanha de realizações preparatórias, tornou-se uma arma de destruição de direitos em massa.

Que é que falta para o distinto público entender que, neste fim de 2004, já estamos sob uma ditadura comunista? Faltaria a eliminação literal da propriedade privada dos meios de produção? Para que, se o próprio Karl Marx dizia que essa cereja não poderia ser colocada no bolo revolucionário de maneira ostensiva e repentina, devendo em vez disso ser implantada aos poucos e anestesicamente? Exigir uma prova como essa é cegar-se voluntariamente, dando ao processo a última demão de invisibilidade de que ele precisava para tornar-se imune a qualquer antagonismo. Faltariam a repressão ostensiva, as prisões políticas, os campos de reeducação? Para que, se só servem para calar grupos rebeldes organizados e estes são totalmente inexistentes? Ademais, para que, se o banditismo, fomentado por um apoio sutil camuflado em mera “omissão”, é suficiente para infundir na população o terror necessário a mantê-la num estado de pasividade inerme? Faltaria a censura declarada? Para que, se a classe jornalística já colabora de bom grado e só não quer a oficialização demasiado visível da sua subserviência?

Nunca a prepotência comunista se impôs de maneira tão geral, avassaladora, irresistível e ao mesmo imperceptível aos olhos da multidão. O tempo de lutar contra ela já passou. Todos os meios de resistência – político-partidários, judiciários, midiáticos – foram dominados e neutralizados de antemão, e não há espaço para criar novos. Quando era tempo de reagir, só se empenharam em fazê-lo uns quantos indivíduos isolados, sem nenhuma ambição política ou interesse direto em jogo. Os verdadeiros interessados – políticos, empresários, fazendeiros, comandantes das Forças Armadas – trataram de abandoná-los à sua própria sorte, acomodando-se de bom grado à situação aviltante e desdobrando-se em expressões de servilismo em troca da mera promessa de migalhas. A sorridente inconsciência com que este país se rendeu a seus novos dominadores é um episódio inédito na história do mundo. Este é o povo mais covarde, imbecil e subserviente do universo. Por isso precisa tanto de lisonjas: para sufocar os últimos gemidos da sua consciência culpada. Incapaz de erguer a cabeça, desvia seu ódio e suas frustrações, em parte para a prática da violência criminosa, tornando-se campeão mundial de homicídios, em parte para rituais de auto-emasculação voluntária como o desarmamento civil, tornando-se campeão intergalático de idiotice.

Em 18 de dezembro de 2004

Passo

18 de agosto de 2005 | Jornal do Brasil

A estratégia do poder petista, planejada desde muito antes de 2002, pode ser resumida em dois itens opostos e complementares:

De um lado, manter inalterada a obediência da gestão Fernando Henrique às exigências do Fundo Monetário Internacional, atraindo para o governo a confiança dos investidores estrangeiros.

De outro, usar a credibilidade assim conquistada como manto protetor para acobertar (1) a deterioração intencional das instituições democráticas, submetidas cada vez mais aos caprichos das “forças populares” ao ponto de passeatas e gritarias terem força de lei, (2) o apoio à expansão comunista no continente, (3) a consolidação da hegemonia cultural e educacional esquerdista no país, (4) o suborno metódico da classe política, de modo a torná-la dócil ao esquema partidário sobreposto à autoridade mesma do Estado, e (5) a proteção dada às Farc — uma das possíveis financiadoras do plano — , autorizadas a abastecer o mercado nacional de cocaína e a treinar bandos de delinqüentes armados para espalhar por toda parte o caos e o terror, sem que o governo consentisse sequer em usar contra essa organização alguma palavrinha mais dura.

Qualquer principiante no estudo da estratégia comunista deveria reconhecer nessa política de duas cabeças a aplicação simples e elementar do princípio dialético da tese e da antítese, destinadas a produzir uma síntese revolucionária ante os olhos atônitos de burgueses racionalistas incapazes de atinar com a unidade do plano por trás da contradição aparente. O esquema, afinal, era repetição quase literal do engodo criado por Lênin em 1921, sob o nome de Nova Política Econômica, para construir a ditadura comunista com a ajuda de investidores internacionais iludidos por um capitalismo de fachada.

Infelizmente, os últimos estudiosos de estratégia comunista estão nas próprias fileiras da esquerda. Fora delas, sem contar alguns empresários oportunistas, sempre dispostos a vender o futuro do país em troca do socorro governamental imediato às suas empresas periclitantes, restam apenas teóricos pró-capitalistas intoxicados de economicismo ao ponto de deslumbrar-se com a “ortodoxia” palocciana, vendo nela a prova cabal de que “Lula mudou” e recusando-se a enxergar a articulação dialética por trás de tudo. Críticas pontuais a “excessos” da esquerda evidenciavam apenas, nessa gente, aquela incapacidade para a apreensão abrangente da realidade concreta, aquele vício do pensamento abstratista e fragmentário que Karl Marx, acertadamente, atribuía à mentalidade burguesa, vício acentuado, no caso brasileiro, pela incultura pomposa de uma classe rica deslumbrada com os encantos fáceis do esquerdismo chique. Para agentes comunistas tarimbados como José Dirceu, ludibriar essas criaturas era mais simples do que chacoalhar um torrão de açúcar para fazer um jumento acenar com a cabeça como quem diz “sim”.

Aplacando a oposição “de direita” com a política econômica, a estratégia permitia ainda controlar os esquerdistas mais afoitos apelando ao endosso recebido do companheiro Fidel, do companheiro Chávez e do companheiro Manuel Marulanda.

Agora, que a base financeira do esquema revelou toda a amplitude da sua intenção criminosa, a máfia dominante, compreensivelmente, busca salvar do naufrágio os equipamentos necessários para uma nova tentativa em futuro próximo ou distante.

Resta saber se o empresariado e a mídia vão ajudá-la nisso, amortecendo o impacto moral dos crimes, falando deles como se fossem desvios acidentais de uma linha partidária originariamente idônea, ou se terão a coragem de admitir que desde o início foram usados como instrumentos de uma estratégia de longo prazo e, sacudindo de si o ranço da cumplicidade, encarar de frente a unidade e a coerência da mais vasta e repugnante conspiração criminosa de toda a História nacional. Tais são as cartas do jogo presente. Quanto a mim, tenho nojo de apostar na primeira e medo de desperdiçar esperanças na segunda. Avalio a mão – e passo.

Em 18 de agosto de 2005

Ultima Duvida

18 de abril de 2013 | Diário do Comércio

Desde que o PT começou a despejar no Youtube os vídeos das assembleias do Foro de São Paulo, só resta uma última dúvida essencial quanto a essa sinistra entidade:

saber se aqueles que durante dezesseis anos negaram a sua existência ou menosprezaram a sua força política fizeram isso por inépcia pura ou por deliberada cumplicidade com uma operação golpista que, na época, precisava desesperadamente do segredo para poder crescer em paz e dominar todo um continente sem que este se desse conta do que estava acontecendo.

Na primeira hipótese, devem ser excluídos de seus altos cargos nos órgãos de mídia, se não da profissão jornalística em geral. Na segunda, devem ser processados e punidos pela maior fraude jornalística da história deste país.

Incluo nessa dúvida cruel aqueles que, quando a ocultação foi se tornando cada vez mais inviável, depois do III Congresso do PT, em 2007, passaram a falar do Foro como se fosse notícia banal e de domínio público, sem nem mesmo pedir desculpas aos leitores por havê-los mantido por tanto tempo na total ignorância daquilo que, nas sombras, ia decidindo o destino político desta nação e de muitas outras – o destino de centenas de milhões de seres humanos.

Porém o mais asqueroso nessa história não é que esses indivíduos tenham assim procedido. Incompetentes nasceram para errar, mentirosos nasceram para mentir. Como na piada do escorpião e do pato, está na sua natureza.

O mais asqueroso é que os leitores, sabendo-se ludibriados, cientes do proveito político e financeiro que tantos obtiveram do engodo, não se mobilizem nem mesmo para exigir uma explicação, quanto mais para punir os que os enganaram.

Por que, depois de receber tantas provas de uma desonestidade jornalística completa e pertinaz, continuam comprando, lendo e até acreditando em jornais que não servem nem como papel higiênico, pois sujariam os traseiros em que se esfregam? Por que não enviam ao menos uma queixa, por modesta que seja, à Delegacia do Consumidor? Por que se deixam engabelar tão servilmente, quase alegremente, pelo mais cínico e monumental dos engodos, ao mesmo tempo que se dizem tão inconformados, tão indignados quando um deputado ou vereador lhes impinge uma treta imensuravelmente menor e menos danosa?

Por que reclamam tanto do Mensalão, quando é patente que os lucros totais da trama continental urdida em silêncio ultrapassam milhares de mensalões e que sem ela não teria podido haver Mensalão nenhum?

Por que falam tanto mal da ditadura implantada por Hugo Chávez, contrastando-a com a linda democracia brasileira, quando o próprio sr. Luís Ignácio Lula da Silva confessou que o Foro de São Paulo, sob o seu comando, foi o criador dessa aberração e o responsável pela sua manutenção no poder?

Quando um povo perde tão completamente o senso das proporções na avaliação dos delitos e traições, é porque já não tem nenhuma capacidade de governar-se a si mesmo, é porque já perdeu a vergonha de entregar-se, inerme, sonso e dócil, nas mãos dos embusteiros e vigaristas que aprendeu primeiro a temer, depois a respeitar, por fim a amar e idolatrar. E, quando chega a esse ponto, já não há mais como defendê-lo. Para ocultar a culpa do crime que comete contra si mesmo, ele se voltará contra quem se erga em sua defesa – e o devorará.

ARITMÉTICA O sr. Eduardo Galeano louvou recentemente como suprema realização de Hugo Chávez a alfabetização de dois milhões de crianças. Realização tão majestosa, diz ele, que despertou contra o ditador venezuelano o ódio dos Estados Unidos.

Deixemos de lado a hipótese, entre insana e pueril, de que o governo Obama tivesse interesse vital no analfabetismo venezuelano. O pitoresco no episódio é o aspecto quantitativo. O jornalista uruguaio, que escreve como um ginasiano, prova que em aritmética não passou do primário, se é que esteve lá. Dois milhões de crianças, em quinze anos de governo, são rigorosamente nada. O Brasil, que não é nenhum primor em matéria de educação, alfabetiza mais de dez milhões por ano.

MACHISTAS A ânsia perversa de criminalizar quem não podem vencer num confronto de ideias é, como já assinalei, uma das marcas mais características das mentes esquerdistas. Numa revistinha muito chinfrim, chamada Fórum, uma repórter de QI 12 me apresenta como mentor influentíssimo de um grupo de machistas psicóticos que adoram tratar mulheres a tapas e pontapés – o mesmo grupo que há alguns anos expulsei da minha comunidade no Orkut precisamente porque insistia em invadir aquele espaço para ali ensinar essa mimosa prática.

Em comentário, uma feminista enragée informa até que estou sendo investigado pela Polícia Federal pela minha participação – telepática, suponho – nessa quadrilha de patetas furiosos. Se fosse verdade, seria boa notícia: antes a polícia vir me procurar do que eu ter o trabalho de ir até lá para prestar queixa contra as duas.

FEMINISTAS Uma coisa notável nas feministas mais brabas é sua crença cega de que quem quer que critique o seu movimento é um machista, virtual agressor de mulheres, no mínimo um adorador do próprio pênis. Nenhuma delas parece ter a menor noção de que, do ponto de vista cristão – o mais conservador, e portanto a seus olhos o mais abominável -– tanto o feminismo quanto o machismo são pecados abjetos, de vez que não passam do bom e velho “orgulho da carne” apresentado em duas versões aparentemente antagônicas.

Pato Sentado

18 de abril de 2007 | Diário do Comércio

Vocês conhecem a expressão americana Sitting Duck ? É o pato sentado, o alvo mais fácil até mesmo para o atirador inepto. As escolas da Virginia estão repletas de patos sentados, porque uma lei demagógica, maliciosa e, a rigor, criminosa, proíbe o porte de arma aos professores e funcionários em serviço nessas entidades e até aos pais de alunos que por ali transitem.

Qualquer maluco que deseje iniciar uma carnificina sabe qual é o lugar mais seguro onde montar o espetáculo. Se apontasse uma arma para um caixa do WalMart , para um garçom de restaurante ou para um vendedor de cachorro quente numa praça de Richmond, levaria chumbo de dez fregueses ao mesmo tempo.

Mas para que o sujeito há de correr esse risco, se logo na esquina há uma multidão de trouxas desarmados, entregues à sanha dos assassinos por legisladores iluminados? O massacre de anteontem foi na Virginia Tech , mas podia ter sido em qualquer outra instituição de ensino do “Old Dominion”.

Mais ou menos um ano atrás, a Assembléia Geral da Virginia vetou uma emenda legal que, voltando atrás no desarmamentismo insano, devolvia aos professores, funcionários e alunos devidamente qualificados o seu antigo direito de portar armas no local de trabalho e estudo.

Na ocasião, o representante da Virginia Tech , Larry Hinckler, disse em entrevista ao jornal Roanoke Times (tão fanaticamente desarmamentista quanto a Folha e o Globo ) que estava muito feliz com a derrota da emenda: “Tenho a certeza de que a comunidade universitária está agradecida à Assembléia, porque sua decisão ajudará os pais, estudantes, professores e visitante a sentir-se seguros no nosso campus.”

O resultado aí está.

As escolas têm sido há décadas um dos instrumentos principais de que se servem os agentes do globalismo para dissolver o tradicional espírito americano de altiva independência e implantar uma nova cultura em que o cidadão se torna cada vez mais indefeso, mais boboca, mais dependente da proteção estatal.

Até os anos 60, os EUA tinham as melhores escolas do mundo, e nenhum ministério da Educação. Desde a criação do ministério e da adoção dos “parâmetros curriculares” politicamente corretos ditados pela ONU, não só a qualidade da educação caiu formidavelmente, mas a delinqüência infanto-juvenil cresceu na mesma proporção.

Leiam, a respeito, The Deliberate Dumbing Down of America , de Charlotte Thomson Iserbit (Ravenna, Ohio, Conscience Press , 2001).

As provas que a autora aí apresenta são tantas, que a conclusão se segue inevitavelmente: crimes como os do jovem sul-coreano Cho Seung-Hui são o produto acabado de um longo e meticuloso esforço de engenharia social.

Muita gente por aqui reclama que os burocratas esquerdistas que dominam o sistema sistema oficial de ensino estão empenhados numa guerra cultural contra os EUA, destruindo a educação e a moral para em seguida atribuir os resultados medonhos de suas próprias ações à “lógica do sistema”.

Na mídia de todos os países do mundo há sempre uma multidão de papagaios prontos para repetir esse chavão de propaganda. Na infalível Rede Globo , incumbiu-se disso uma psicóloga da PUC, Sandra Dias, segundo a qual o morticínio foi “um ato heróico” por voltar-se contra “o consumismo americano”.

O Governo Invisivel

17 e 18 de maio de 2009 | Diário do Comércio

Um dia, discutindo com oficiais de alta patente no Clube Militar do Rio de Janeiro, perguntei a um deles, homem com experiência em serviços de inteligência, se havia lido algum documento de fonte primária sobre o tópico em discussão. Não, não havia. Livros especializados? Também não. Estudos publicados em revistas acadêmicas? Também não. Relatórios de serviços de inteligência? Também não. “Então, de onde raios você tira as suas informações?”, perguntei. E ele, com a cara mais bisonha do mundo: “Dos jornais.”

Foi nesse instante que, com um arrepio na espinha, senti a catástrofe mental brasileira em toda a sua extensão. Quando comecei a trabalhar no jornalismo, todos ali sabíamos que o produto do nosso trabalho eram superficialidades para consumo popular. Quando entrevistávamos um estudioso, esperávamos sempre que ele tivesse fontes de informação melhores que as nossas. De repente, eu me via na situação terrivelmente incongruente de conversar com um especialista que só tinha a dizer aos repórteres aquilo que eles mesmos lhe haviam contado. O país dirigido por uma classe pensante nutrida tão somente dessa ração intelectual só podia mesmo ir para o buraco.

O pior era que, no vácuo de fontes mais substanciosas, a mídia crescera em prestígio na razão inversa da sua audiência: jornais que no último dia do milênio vendiam menos que na década de 50 haviam se tornado, no ambiente de ignorância geral, os proprietários quase monopolísticos do dom da credibilidade, incumbidos de separar realidade e fantasia ante os olhos de um cândido mundo.

Sei que esse processo, nos EUA, está longe de ter alcançado a compacta densidade das trevas brasileiras. No entanto, a velocidade que ele ganhou na última eleição justifica o temor de que, em breve, as classes falantes americanas também estarão tateando no escuro, sem exigir claridade por já não imaginarem que raio de coisa é isso.

Durante a campanha, a ocupação mais intensa da mídia americana foi uma sucessão de acrobacias admiráveis destinadas a fazer de Barack Obama o homem mais visível do mundo e proibir, ao mesmo tempo, qualquer investigação séria de sua biografia. Toda tentativa, por mais tímida e modesta, de desencavar dos arquivos a certidão de nascimento, os registros médicos, o histórico escolar e quaisquer daqueles documentos que todo candidato em campanha exibe normalmente, foi unanimemente condenada pelos maiores jornais e noticiários de TV como um delituoso extremismo de direita. Transcendendo a mera autocensura, a classe jornalística em peso impôs a mordaça ao resto da sociedade.

Mas isso não é nada em comparação com o que vem acontecendo desde que a misteriosa criatura foi juramentada como presidente de superpotência. Tendo prometido uma era de transparência e sinceridade jamais vista na história, o que Obama inaugurou foi um governo secreto, não no sentido usual das ocultações conspiratórias, mas num sentido absolutamente novo e inédito: o que se oculta do público não são ações ilícitas cometidas na calada da noite – são os próprios atos oficiais do governo. Se não houvesse internet, nem agências independentes, nem fontes primárias, nem o Freedom of Information Act , as decisões mais importantes da administração Obama nos últimos três meses teriam permanecido absolutamente confidenciais, invisíveis como um conluio de anarquistas famintos num porão miserável. Quando não foram totalmente omitidas pela grande mídia, foram noticiadas com discrição anestésica própria a torná-las ainda mais insensíveis do que poderia fazê-lo o silêncio total. Ou então foram relatadas sem o mínimo quadro comparativo capaz de elucidar seu alcance e seu significado. Como aquilo que chega aos jornais brasileiros é um recorte diminutivo do que sai na mídia americana, a ignorância dos nossos compatriotas quanto ao que se passa nos EUA só encontra comparação nas concepções astronômicas das minhocas e protozoários. Dizer que os brasileiros estão por fora é eufemismo. Graças aos bons préstimos da Folha , do Estadão , do Globo e outras entidades sublimes, os EUA que existem na imaginação dos nossos patrícios se parecem tanto com a realidade quanto um picolé de limão se parece com uma equação de segundo grau. Estamos no reino da heterogeneidade absoluta, irredutível à linguagem humana.

Os fatos que vou resumir neste artigo e em artigos subseqüentes não só estão fora da nossa mídia – pelo menos se considerados na sua devida perspectiva –, mas estão fora da imaginação da nossa classe jornalística. Ao publicá-los, o Diário do Comércio cumpre sozinho a tarefa da mídia inteira:

1. Tão logo soube da morte de civis afegãos em bombardeio ocorrido em Farah em 3 de maio, a Secretária de Estado Hillary Clinton apressou-se em pedir desculpas, puxando portanto a responsabilidade do crime sobre o seu próprio país. No dia seguinte, revelou-se que o Taliban havia lançado granadas contra a população, de modo a culpar os americanos pelas mortes que ele mesmo provocara. O segundo fato foi noticiado sem nenhuma referência ao primeiro, e os repórteres abstiveram-se gentilmente de perguntar à secretária de Estado se mantinha o seu despropositado pedido de desculpas. Foi como se estas se referissem a um episódio totalmente diferente.

2. Em 5 de abril, em visita a Praga, horas depois do lançamento do míssil Taepodong-2 pela Coréia do Norte, Obama, diante de uma platéia de 20 mil tchecos, fez a promessa mais absurda, irrealizável e suicida que um presidente americano já fez: anunciou que vai acabar com o arsenal nuclear dos Estados Unidos unilateralmente. Qualquer de seus antecessores que dissesse isso seria imediatamente torrado e moído pela mídia inteira e acusado de crime de traição. A enormidade obâmica foi noticiada com discrição blasée pelo Washington Post de 6 de abril.

3. Nenhum jornal ou noticiário de TV deu o menor sinal de perceber alguma coisa de ofensivo quando Hugo Chávez, na Cúpula das Américas em Trinidad-Tobago, deu a Obama um exemplar de “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, um dos livros mais virulentamente antiamericanos já publicados no planeta. Como a maioria do eleitorado americano não tem a menor idéia de quem é Eduardo Galeano, tudo se passou como se o presente fosse uma amabilidade e não um tapa na cara como efetivamente foi. Obama engoliu o sapo com a gentileza sorridente de quem acreditasse, como de fato ele acredita, que ofensas ao seu país não o atingem. No mesmo evento e com o mesmo cavalheirismo, ouviu cinqüenta minutos de pregação antiamericana do nicaragüense Daniel Ortega e voltou para casa seguro de que ninguém na mídia lhe faria nenhuma cobrança por isso, como de fato ninguém fez.

4. Pela primeira vez na história americana, um presidente promete ajuda a todos os regimes totalitários e genocidas do mundo sem lhes fazer a mais mínima exigência no que diz respeito a direitos humanos. O resultado é que, em países como o Irã ou a Coréia do Norte, Obama é amado enquanto seu país é odiado. Embora isso fosse demonstrado por conclusivas pesquisas de opinião, ninguém na grande mídia deu sinal de perceber que o presidente está se promovendo entre povos inimigos às custas do prestígio nacional.

5. Ao revelar os memorandos secretos da CIA sobre o uso de técnicas drásticas de interrogatório, ameaçando processar o governo anterior por crimes contra os direitos humanos, a Casa Branca omitiu-se de informar que essas técnicas tinham sido adotadas com pleno conhecimento e apoio das lideranças do próprio partido governante. Se Dick Cheney, retirado da política, não tivesse ido à televisão por sua própria conta para contar isso, ninguém saberia de nada até agora, porque o “jornalismo investigativo” da grande mídia realmente não se interessa por essas coisas.

6. Após anunciar gastos públicos da ordem de 3,4 trilhões de dólares, que o próprio Federal Reserve confessa não saber nem como contabilizar, Obama teve a indescritível cara de pau de ordenar um corte de 17 bilhões de dólares, meio por cento do total, e ainda alardear, com a aparente anuência da classe jornalística, que isso inaugurava “uma nova era de austeridade” nos gastos públicos. A desproporção passaria despercebida se não existisse mídia alternativa para mostrá-la.

7. Os cortes foram, na sua quase totalidade, efetuados sobre o orçamento da defesa – acontecimento inédito num país em guerra –, desfalcando as Forças Armadas e debilitando a polícia de fronteira num momento em que reconhecidamente a invasão de ilegais é o maior problema de segurança dos Estados Unidos. Em compensação, verbas faraônicas têm chovido sobre as entidades que apoiaram Obama durante a campanha, especialmente a Acorn, premiada com 4 bilhões de dólares por seus serviços eleitorais, inclusive a distribuição de títulos de eleitor falsos (a liderança democrata já anunciou que não tem nenhuma vontade de investigar o assunto). O caso – o mais óbvio exemplo de medida antipatriótica aliada a favorecimento ilícito que já se viu nas últimas décadas – foi noticiado pela grande mídia com tal comedimento que, até agora, nem mesmo as lideranças republicanas deram sinal de perceber aí algo de errado.

8. Na reestruturação da Chrysler e da GM, segundo os planos anunciados por Obama, o sindicato United Auto Workers assumirá o controle acionário da primeira e terá 39% das ações da segunda. Além de ter sido o principal responsável pela falência das duas empresas, o sindicato é um dos grandes contribuintes de fundos de campanha para o Partido Democrata. Como esses três fatos só aparecem separadamente – quando aparecem –, ninguém se dá conta do crime.

9. Tendo prometido acabar com a “cultura dos earmarks ” (verbas politiqueiras destinadas a agradar eleitorados locais), Obama sancionou uma lei de orçamento que tinha mais de 9 mil earmarks – um recorde que a imprensa, gentilmente, se omitiu de assinalar. Tendo prometido, ademais, que nenhuma lei seria aprovada pelo seu governo sem ficar disponível para consulta pública no site da Casa Branca por pelo menos cinco dias, Obama assinou as leis de orçamento e “estímulo” sem que o respectivo calhamaço de mais de mil páginas tivesse sido exposto naquele site nem mesmo por um segundo. A mídia não reparou no detalhe.

10. Terça-feira passada, Obama nomeou Arturo Valenzuela chefe do setor latino-americano do Departamento de Estado. Valenzuela é diretor da ONG La Raza. Seguindo o estilo entorpecente de seus modelos jornalísticos americanos, o UOL informa o distinto público que La Raza é “a principal organização de defesa de hispânicos nos Estados Unidos”. La Raza não é nada disso: é uma organização separatista, empenhada em transferir para a soberania mexicana os estados da Flórida, do Texas e da Califórnia.

Em artigos vindouros, darei mais exemplos de medidas drásticas, de conseqüências incalculáveis, que estão sendo adotadas pelo governo Obama com velocidade alucinante, todas elas obviamente prejudiciais à nação americana, e noticiadas de tal modo que nenhuma discussão suscitem, isto quando não passam totalmente despercebidas, soterradas sob páginas e páginas de futilidades sobre os vestidos da sra. Obama, o cãozinho da família ou o tempero do sanduíche comido pelo presidente numa loja de fast-food, coisas que antigamente ficavam para os tablóides de fofocas vendidos nos supermercados, e que agora são matéria de amorosa atenção pelo Washington Post e pelo New York Times .

Em Louvor De Lula

17 de setembro de 2015 | Diário do Comércio

Na peça teatral “Processo e Morte de Stalin”, de Eugenio Corti – escritor da estatura de um Manzoni ou de um Tolstoi –, o ditador soviético convida alguns de seus ministros e assessores para um jantar na sua casa de campo, na intenção de prendê-los e sacrificá-los num dos seus célebres “expurgos”. Eles descobrem o plano e decidem virar o jogo. Desarmam os guardas da casa e já estão quase liquidando com um tiro na nuca o velho companheiro, quando surge a idéia de lhe dar uma última oportunidade de se explicar perante o tribunal do materialismo histórico.

O que se segue é uma obra-prima de argumentação dialética, na qual Stalin logra demonstrar, ante os olhos estupefatos de seus executores, que os crimes que perpetrou não foram jamais traições aos ideais revolucionários, mas sim a realização fiel, exata e genial dos princípios do marxismo-leninismo nas circunstâncias históricas dadas. Os conspiradores admitem que ele tem razão, mas resolvem matá-lo mesmo assim.

Para confirmar o dito de Karl Marx de que as tragédias históricas se repetem como farsas, alguém deveria escrever uma peça similar sobre o sr. Luiz Inácio Lula da Silva. Qualquer estudioso de marxismo que tenha feito a sua lição de casa – um tipo que, admito, é uma raridade absoluta tanto na esquerda quanto na direita hoje em dia –, tem a obrigação de perceber que, do ponto de vista da estratégia revolucionária, Lula nada fez de errado.

Ao contrário. Seguiu a receita fielmente, com um fino senso dialético das condições objetivas, dos momentos e das oportunidades, logrando realizar o quase impossível: salvar da extinção o movimento comunista latino-americano e colocá-lo no poder em uma dúzia de países. Fidel e Raul Castro jamais puseram isso em dúvida. As próprias Farc reconheceram-no enfaticamente, na carta de agradecimento que enviaram ao XV aniversário do Foro de São Paulo.

Mais ainda: no seu próprio país, Lula foi o líder e símbolo aglutinador da “revolução cultural” que deu aos esquerdistas o completo controle hegemônico das discussões públicas, ao ponto de que praticamente toda oposição ideológica desapareceu do cenário, sobrando, no máximo, as críticas administrativas e legalísticas que em nada se opunham à substância dos planos revolucionários. Isso nunca tinha acontecido antes em país nenhum. O próprio Lula, consciente da obra realizada, chegou a celebrar a mais espetacular vitória ideológica de todos os tempos ao declarar que, na eleição presidencial de 2002, o Brasil havia alcançado a perfeição da democracia: todos os candidatos eram de esquerda.

É fácil chamá-lo de ladrão, de vigarista, do diabo. Mas o fato é que essas críticas se baseiam num critério de idoneidade administrativa que só vale no quadro da “moral burguesa” e que, em toda a literatura marxista, não passa de objeto de zombaria. O que aconteceu foi apenas que Lula, como todo agente do movimento comunista internacional que não chega ao poder por meio de uma insurreição armada e sim por via eleitoral, como foi também o caso de Allende no Chile, teve de fazer alianças e concessões – inclusive e principalmente ao vocabulário da “honestidade burguesa”—com a firme intenção de jogá-las fora tão logo começassem a atrapalhar em vez de ajudar. Tanto ele quanto seu fiel escudeiro Marco Aurélio Garcia foram muito explícitos quanto a esse ponto: ele, em entrevista a Le Monde ; Garcia, a La Nación . Mover-se no meio das ambigüidades de uma conciliação oportunista entre as exigências estratégicas do movimento revolucionário e os interesses objetivos dos aliados capitalistas de ocasião é uma das operações mais delicadas e complexas em que um líder comunista pode se meter. Mas, pelo critério dos resultados obtidos – o único que vale na luta política –, o sucesso do Foro de São Paulo é a prova cabal de que Lênin, Stálin ou Fidel Castro, no lugar de Lula, não teriam feito melhor.

Nem mesmo o enriquecimento pessoal ilícito pode ser alegado seriamente contra ele, pelos cânones da moral revolucionária. De um lado, em todos os clássicos da literatura comunista não se encontrará uma única palavra que sugira, nem mesmo de longe, que o compromisso de fachada com a “moral burguesa” deva ser cumprido literalmente como guiamento moral da pessoa do líder, ou mesmo do menor dos militantes.

De outro lado, é fato histórico arquicomprovado que todas as estrelas maiores do cast comunista enriqueceram ilicitamente – Stalin, Mao, Fidel Castro, Pol-Pot, Allende, Ceaucescu –, sendo uma norma tácita que tinham até a obrigação de fazê-lo, de preferência com contas na Suíça, para ter os meios de resguardar-se e reiniciar a revolução no exterior em caso de fracasso do projeto local. O próprio Lênin só não chegou a poder desfrutar do estatuto de nababo porque semanas após a vitória da Revolução a sífilis terciária, cumprindo seu prazo fatal, o reduziu a um farrapo humano. Como dizia Yakov Stanislavovich Ganetsky (também chamado Hanecki), o mentor financeiro de Lênin, “a melhor maneira de destruirmos o capitalismo é nós mesmos nos tornarmos capitalistas”.

O movimento revolucionário sempre viveu do roubo, da fraude, do contrabando, dos seqüestros, do narcotráfico e, nos países democráticos onde chegou ao poder, do assalto aos cofres públicos. Lula não inventou nada, não inovou em nada, não alterou nada, apenas demonstrou uma habilidade extraordinária em aplicar truques tão velhos quanto o próprio comunismo.

No tribunal da ética revolucionária, portanto, nem uma palavra se pode dizer contra ele. As críticas só podem provir de três fontes:

a) Reacionários empedernidos, frios, desumanos e incompreensivos como o autor destas linhas, que não condenam Lula por desviar-se do movimento revolucionário e sim por permanecer fiel ao esquema de destruição civilizacional mais cínico e diabólico que o mundo já conheceu.

b) Aliados burgueses insatisfeitos de que ele viole de maneira demasiado ostensiva as regras da moral capitalista, sujando a reputação de quem só quer ajudá-lo.

c) Esquerdistas com precária formação marxista, que não entendem a natureza puramente tática da retórica burguesa de idoneidade administrativa e imaginam – ou se esforçam para imaginar diante do espelho — que a roubalheira seja uma traição aos ideais revolucionários.

Os primeiros são os únicos que dizem o português claro: a roubalheira petista não é um caso de “corrupção” igual a tantos outros que a antecederam, mas é um plano gigantesco de apropriação do dinheiro público para dar ao movimento comunista o poder total sobre o continente.

Os segundos, ideologicamente castrados, imaginam poder vencer ou controlar o comunopetismo mediante simples acusações de “corrupção” desligadas e isoladas de qualquer exame da sua retaguarda estratégica. Inclui-se aí toda a grande mídia brasileira, com a exceção de alguns colunistas mais ousados como Reinaldo Azevedo, Percival Puggina e Felipe Moura Brasil.

Os terceiros macaqueiam o discurso dos segundos na esperança de salvar a reputação do movimento revolucionário mediante o sacrifício de uns quantos “corruptos” mais visíveis. Nas suas mentes misturam-se, em doses iguais, a falsa consciência, o fingimento histérico de intenções angélicas e o desejo intenso de limpar com duas palavrinhas tardias uma vida inteira de serviços prestados ao mal.

Excesso De Delicadeza

17 de setembro de 2007 | Diário do Comércio

Ainda há quem seja otário o bastante para, observando a fidelidade conjugal que no fim das contas reina entre o governo petista e os banqueiros internacionais, concluir que os comunistas mudaram, se aburguesaram, só pensam em dinheiro e não querem mais saber de revoluções.

Não contesto o direito à ignorância, mesmo radical e completa. Mas por que raios cada um que me aparece com essa idéia cretina tem de expressá-la com ar de sabedoria paternal, como se estivesse desvelando a realidade do mundo ante a minha inexperiência juvenil?

Aos sessenta anos, boa parte dos quais dedicados ao estudo das ideologias revolucionárias, não tenho mais a obrigação de ouvir polidamente essa patacoada arrogante. Respondê-la com palavrões já é delicadeza excessiva da minha parte. O certo mesmo seriam pontapés no traseiro.

Quem quer que tenha estudado a história do movimento revolucionário sabe que comunistas e banqueiros vivem em simbiose, comprovadamente, desde há pelo menos um século. Como no Brasil ninguém estuda nada, cada um se crê no direito de anunciar como novidades explosivas as obviedades centenárias que acabam de lhe chegar aos ouvidos.

O problema é que, quando você não sabe a data das notícias que alardeia, não pode compreender o sentido delas. Se você acha que a conduta do PT prova uma mudança da mentalidade comunista, é porque imagina que os comunistas de antigamente eram diferentes, eram puros idealistas revolucionários que jamais se rebaixariam a jogar o jogo do grande capital financeiro. Então me diga: Quem eram os contatos de Trotski nos EUA quando de sua primeira viagem à América? Quem financiou a construção de toda a indústria pesada soviética, prolongando por décadas a sobrevida de um regime impossível que já nascera moribundo? Quem alimenta de dinheiro toda a esquerda americana e uma infinidadade de movimentos anti-americanos no mundo inteiro? Quem salvou da debacle o Partido Comunista chinês, fomentando do exterior a recuperação de uma economia que até então só crescia em número de mortes por desnutrição?

Se os comunistas deixassem de ser comunistas cada vez que vão para um motel trocar afagos com banqueiros, Lênin teria entrado para a História como comandante do Exército da Salvação.

O caso de amor entre esses dois tipos de criaturas aparentemente incompatíveis tornou-se ainda mais intenso desde que, na década de 20, os teóricos marxistas mais avisados – Georg Lukacs, os frankfurtianos e Antonio Gramsci – saíram gritando que o inimigo primordial a ser destruído não era a economia capitalista, mas “a civilização judaico-cristã”. O programa traçado por eles, que na época parecia distante das preocupações imediatas do militante comunista vulgar (e até agora não chegou ao conhecimento dos idiotas acima referidos), está hoje sendo aplicado em escala planetária, e sua implementação acelerada reflete a colaboração estreita entre o grande capital financeiro e a rede global de organizações comunistas – os dois braços da revolução mundial. Abortismo, desarmamento civil, sex-lib , feminismo, gayzismo, criminalização da moral religiosa, controle estatal da vida privada e tópicos similares são hoje infinitamente mais importantes para a estratégia revolucionária do que as divergências estereotipadas entre políticas econômicas “populistas” e “elitistas” (ou “progressistas” e “neoliberais”). Onde essas divergências monopolizam o espaço das discussões públicas, como acontece no Brasil, é precisamente porque servem para camuflar o essencial, para expulsar da vida pública o conservadorismo genuíno fundado em valores morais e religiosos e para dividir todo o espaço político e cultural entre a esquerda e uma “direita” postiça, criada especialmente para isso, uma articulada à outra de tal modo que, seja pela via “populista” ou “elitista”, indiferentemente, a mutação revolucionária do mundo continue avançando.

A pessoa mesma do sr. Luís Inácio Lula da Silva, homenageada simultaneamente em Davos por sua conversão à economia de mercado e no Foro de São Paulo por sua fidelidade inalterável ao comunismo, é o símbolo vivo desse acordo essencial, mas os tagarelas que falam dela o dia inteiro, para louvá-la ou para maldizê-la, parece que não enxergam de maneira alguma a identidade do personagem. Também não enxergam, por isso mesmo, a natureza traiçoeira e cúmplice de uma “oposição” que só combate o petismo no campo das discussões econômicas e das cobranças moralistas, abstendo-se de toda crítica ideológica e de toda menção à estratégia comunista maior por trás de tudo; oposição que, uma vez no poder, faz avançar a mutação social e cultural revolucionária em velocidade ainda maior do que poderiam fazê-lo os próprios petistas.

Não por coincidência, mas por um cálculo psicológico muito preciso, cada nova regra “politicamente correta” que se incorpora aos hábitos sociais perde imediatamente sua aparência comunista originária, de modo que os milhões de trouxas submetidos à sua jurisdição se sentem cada vez mais distantes do perigo comunista quanto mais se adaptam ao tipo de cultura revolucionária concebido por Lukacs e Gramsci. É precisamente o que este último chamava de “autoridade invisível e onipresente” do Partido Príncipe. Nunca a palavra “subversão” descreveu tão adequadamente uma estratégia. É a inversão desde baixo, ou, como a chamava Walther Rathenau, a “invasão vertical dos bárbaros”. Enquanto o poder do grande capital permanece intacto, ou até se fortalece, a “revolução cultural” vai invertendo um a um todos os critérios da razão, da moral, do direito, criando em torno de nós uma infinidade de controles sociais opressivos e absurdos que parecem inventados pessoalmente pela Rainha de Copas. E tudo realizado de maneira indolor, insensível. Dentro de poucos anos, o sujeito ser preso por ler em voz alta certos versículos da Bíblia será considerado a coisa mais natural do mundo, e quem quer que diga que a perseguição anti-religiosa é a realização de um velho plano comunista será tido por louco. Perdão: isso não acontecerá dentro de alguns anos. Já está acontecendo agora.

Do ponto de vista econômico, a unidade do processo revolucionário em curso pode ser resumida da seguinte maneira. Pelo menos desde Stálin nenhum economista marxista acredita em estatização total da economia. Todos sabem que um vasto resíduo de economia de mercado é impossível de eliminar. O máximo que se pode fazer, para perseverar na linha de controle estatal concebida por Marx, é concentrar ao máximo o capital e ao mesmo tempo atrelar seus interesses aos de uma elite governante que por sua vez concentre o máximo de poder político. Ora, quem pode estar mais interessado em concentração do capítal do que os concentradores de capital por antonomásia, isto é, os banqueiros internacionais? E quem pode desejar mais concentração de poder político do que os concentradores compulsivos de poder político, isto é, os partidos comunistas? A via da colaboração entre comunistas e monopolistas foi portanto aberta pelo próprio curso natural das coisas, e por esse canal vem fluindo a história do mundo desde há muitas décadas, ante os olhos cegos da multidão – incluídos nela quase todos os “formadores de opinião”, consultores empresariais, analistas estratégicos e demais pessoas iluminadas cujos pareceres custam em geral uns dez mil dólares por hora.

A fusão tornou-se ainda mais acelerada desde que o movimento comunista, graças ao narcotráfico, à exploração genial dos fundos de pensão, ao apoio dos países árabes, à rede de ONGs ativistas que sugam verbas de todos os governos do mundo e às quantias mastodônticas de dinheiro injetadas discretamente na economia ocidental pela KGB desde os tempos de Gorbachov, se tornou ele próprio tão rico quanto a elite bancária, negociando com ela de igual para igual e tendo com ela uma vasta e nebulosa área de interesses comuns onde se tornam praticamente indiscerníveis.

Corram Que Os Ianques Vem Ai

17 de novembro de 2005 | Jornal do Brasil,

Em junho, o Paraguai autorizou militares dos EUA a realizar no seu território exercícios que devem prolongar-se até dezembro de 2006 e envolver, entre idas e vindas, uns duzentos soldados e oficiais no total. Embora atividades similares se realizem ali desde 1943, o desembarque dos treze primeiros soldados provocou estranhas reações na mídia. Desde logo, o jornal boliviano El Deber , ampliando o número dos recém-chegados para quatrocentos, concluiu que estavam lá para construir uma base permanente. O objetivo, segundo o periódico, seria intimidar os bolivianos para que, na eleição de 5 de dezembro, não votem em Evo Morales, defensor do livre plantio de coca.

No Brasil, o historiador Moniz Bandeira assegurou que “o projeto é ampliar as instalações de Mariscal Estigarríbia (perto da fronteira com a Bolívia) de modo a aquartelar cerca de 16 mil soldados”.

Na Argentina, a agência Prensa Latina publicou o desmentido do governo paraguaio mas tratou logo de neutralizá-lo por meio de novo e mais belo aumento do contingente americano, desta vez para... 500 mil soldados!

De um momento para outro, inscrições como “Fora, tropas ianques” surgiram nos muros de Assunção do Paraguai, enquanto no parlamento boliviano vozes indignadas exigiam uma comissão de inquérito.

Ao mesmo tempo, a revista Carta Maior estendia a ameaça para o nosso lado, alertando: “Pela primeira vez teremos bases estrangeiras permanentes na América do Sul, na estratégica região da usina de Itaipu.” Que perigo, hein? Além de secar os negócios de Evo Morales, os gringos podiam desligar nossa eletricidade. E notem o plural: a base hipotética não apenas se tornava uma realidade palpável, mas, sem nenhuma explicação, já surgia até multiplicada, se bem que não com a mesma velocidade dos prolíficos soldadinhos.

Devidamente preparados os espíritos, quem apareceu então para tirar a conclusão geral antecipadamente embutida em toda essa notável articulação continental de potocas? Disse “Fidel Castro”? Acertou. Em 26 de agosto, ele informava ao perplexo auditório que, partindo das bases hipotéticas materializadas pelo poder do pensamento dialético, os EUA estavam se preparando para invadir não só a Bolívia como também o Brasil, no intuito de sufocar qualquer veleidade de socialismo. Em toda a mídia nacional não apareceu um só intrometido para lhe perguntar se ele não havia se esquecido da Venezuela. Em vez disso, O Globo de 30 de outubro criava logo um “Comando América” incumbido de esmagar sob o tacão ianque o continente latino inteiro. No dia seguinte, amparado nessa evidência inegável, Mauro Santayana gesticulava contra o “retorno do terror militar” planejado pelo Pentágono. Só mesmo aquele malvadão do George W. Bush para invadir tantos países sem nem avisar o Congresso americano. E aqueles tontos deputados e senadores ainda acham que podem continuar vivendo sem ler o Globo e a Carta Maior .

Mas, pelo menos na zona diretamente interessada, a repercussão do zunzum foi profunda. O site Conesulnews , de Ponta Porã, auto-apresentado como “o primeiro jornal virtual da fronteira”, anuncia: 55,93% de seus leitores acreditam que os EUA planejam invadir o Brasil.

Devem ter mesmo razão, porque a esta altura os treze americanos já entraram em ação imperialista no interior do Paraguai. Seis deles, médicos, estão até dando assistência às populações pobres da região. Hugo Chavez, porém, é que não dormiu diante de tamanha brutalidade: já comprou aviões, tanques e metralhadoras, colocou a sociedade venezuelana inteira sob controle militar, consolidou a aliança com as Farc e unificou a polícia e a justiça do seu país com as de Cuba. É verdade que ele já começou a se preparar para uma guerra muito antes que a mídia, com a conversa de invasão americana, lhe desse para isso um bom pretexto retroativo. Mas ninguém terá a impolidez paranóica de reparar nesse detalhe, muito menos a de ver aí algo mais que a mágica banal das puras coincidências.

Em 17 de novembro de 2005

Carta A Um Amigo Sobre O Poder Norte Americano

17 de março de 2002 | 17 de março de 2002

Prezado Maurício:

Você perguntou minha opinião sobre a atitude dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo e o tremendo poder que esse país detém, como poder hegemônico atual. Eis minha opinião.

Se se refere ao tremendo poder dos Estados Unidos, acho que o mundo tem muita sorte em que este poder esteja nas mãos de um país democrata, amante da liberdade e dos direitos individuais.

Nunca houve uma guerra entre dois países democratas. Devido ao regime político, seria impossível aos Estados Unidos fazer uma guerra de conquista. Apesar de seus muitos defeitos (corrigíveis), a democracia é ainda a maior conquista do homem no sentido ético. Não é a religião.

Os Estados Unidos, no último século, depois de consolidados, não ocuparam nenhum território pela força. A Luisiânia e o Alaska, foram comprados. O Havaí passou a fazer parte dos Estados Unidos por meio de um plebiscito, aprovado por 97% da população. Os Estados Unidos compraram as Filipinas da Espanha e a libertaram. Invadiram Granada, Panamá e Haiti (protetorados) para restaurar a democracia. Dominaram a Europa e o Japão na Segunda Guerra Mundial e proporcionaram o progresso às nações dominadas, que hoje se encontram entre as mais prósperas do mundo.

Enquanto os Estados Unidos faziam o Plano Marshal para reerguer a Europa Ocidental, a União Soviética cobrava pesadas reparações de guerra à Alemanha Oriental, reduzindo-a à miséria. Algum maluco acusou os Estados Unidos de desejarem incorporar territórios, quando o General McClarck, chefe das operações na Itália na Segunda Grande Guerra, respondeu: “Não queremos da Itália senão um pedaço de terra: o suficiente para enterrarmos nossos mortos”.

Mesmo esquecendo a incomensurável contribuição dos Estados Unidos para a ciência, a tecnologia e a defesa dos ideais democráticos e liberais, temos que reconhecer que foram os Estados Unidos que decidiram a primeira e a segunda guerra mundial a favor dos países livres e contra a ditadura alemã. Ao contrário, foi a Rússia que iniciou a primeira guerra mundial e também a segunda, esta por meio de um plano sinistro com Hitler. A Alemanha invadiu a Polônia pelo oeste e os comunistas invadiram a leste. Ajudando a Inglaterra, mesmo antes de entrar no conflito, os Estados Unidos ajudaram a ganhar a Batalha da Inglaterra, que liquidou com grande parte da aviação nazista. Depois, ajudando a Rússia, evitaram que os nazistas tomassem a União Soviética.

Depois, os Estados Unidos empreenderam um esforço permanente para evitar o expansionismo soviético, a começar da Reunião de Breton Woods, onde foram fundados os bancos de fomento, WB e IMF, para evitar a miséria em muitos países, que é um caldo de cultura excelente para a invasão do totalitarismo vermelho. A recuperação do Japão, e da Coréia do Sul, promovida pelos Estados Unidos, também foi um esforço para evitar o expansionismo soviético no leste asiático.

Várias ditaduras surgiram no mundo como reação ao expansionismo soviético, a começar do fascismo, na Itália e no nazismo, na Alemanha (se não fosse o expansionismo soviético, não teríamos nem fascismo nem nazismo). Depois, tivemos reações ao comunismo, muitos deles com ajuda americana, na Espanha, em Portugal, no Brasil (1935, 1964 e 1968), no Uruguai e em outros países sul-americanos. Os Estados Unidos se empenharam também no Coréia do Sul e no Vietnam, quando tiveram que enfrentar a China e União Soviética, em guerra por procuração. Finalmente, abandonaram o Vietnã sob pressão da população americana. Eles não perderam a guerra, apenas se retiraram. Não se pode dizer que perdeu a guerra um país que, para cada baixa, causou mais de vinte baixas no adversário.

Não fora os Estados Unidos, hoje o mundo inteiro estaria debaixo do tacão das botas dos comunistas. Não existe preço para isto, pois o comunismo é a pior desgraça que pode ocorrer a um país.

Imagine se o poder hegemônico que hoje tem os Estados Unidos estivesse nas mãos dos comunistas! Eles invadiriam o mundo, com tanques de guerra e exércitos, a fim de explorar todas as nações, como fizeram com no Leste Europeu. Depois, implantariam o regime de esquerda, que levou à ruína todas as nações em que foi tentado, além do genocídio, dos campos de trabalho forçado, da rede infernal de mentiras sobre todos os assuntos.

Precisamos julgar as nações, e as pessoas, pelo que fazem, e não pelo que dizem.

Se cometermos a estultice de julgar os esquerdistas pelo que dizem, concluiremos que eles, no governo, proporcionarão justiça social, igualdade, respeito aos direitos humanos, fraternidade — o verdadeiro paraíso na terra. No entanto, toda esta demagogia não passa de um truque para conquistar o poder. Assim que usurpam o poder estabelecem o mais cruel totalitarismo, aniquilando e torturando todos seus inimigos. A União Soviética, obcecada com a idéia de igualar a produção industrial americana, estabeleceu milhares de campos de trabalhos forçados, principalmente na Sibéria em temperaturas que podiam chegar até a 60 graus negativos.

Só o gulag de Vorkuta tinha mais de 400 mil escravos. As cidades eram obrigadas a manter cotas de escravos a serem enviados para os campos de trabalhos forçados para substituir os que morriam devido aos maus tratos ou de fome. Os escravos (os trabalhadores, em nome de quem foi instituído o comunismo) eram obrigados a cumprir cotas de produção, sob pena de não receberam a mísera refeição (algumas fatias de pão preto e sopa rala) e morrerem de fome. Para as cidades fornecedoras de escravos era fácil cumprir as cotas. Bastava acusar as pessoas de “inimigas do povo” ou “lacaios do imperialismo americano” ou outras bobagens.

Havia também mulheres nos gulags, e o serviço era tão pesado que seus úteros saíam para fora e elas eram obrigadas a trabalhar com os úteros dependurados .

(Tenho reprodução do desenho de um guarda de um desses gulags, já que não se permitiam fotografias ali .

) Este é o comunismo real, o ideal de Lula e seus bandidos do PT, na maioria treinados em terrorismo na ilha-presídio de Cuba, como o José Dirceu. Esta é a JUSTIÇA SOCIAL da esquerda .

Será que eu sou maniqueísta ou será que a verdade é que é dura demais para ser aceita? Se quiser, posso lhe mostrar documentos e filmes sobre os gulags, sobre a construção da Estrada de Ferro Stalin, em que morreram milhares de escravos, sobre o monstro Mao Tsé-tung, sobre o açougueiro Pol Pot e outros. Todos eles estavam à procura do comunista perfeito. Pol Pot fazia coleção de crânios, matou um terço da população de seu país e não achou o comunista perfeito (o jornal da Globo mostrou o museu de crânios de Pol Pot). Se quiser assistir a uns vídeos horripilantes sobre os vermelhos, venha até minha casa que terei o prazer de mostrá-lo.

As pessoas, principalmente os empresários (que mais teriam a perder com a esquerdização do País) preferem enfiar a cabeça na areia e não enxergar o que está acontecendo. Como denunciou o Professor Olavo de Carvalho, está em ação um plano sub-reptício de conquista do Brasil para as idéias de esquerda.

Não se trata de conquista de território, porém de conquista da opinião pública . O objetivo é que o País se torne comunista aos poucos, de maneira que ninguém perceba.

Pensa que estou vendo fantasmas? Este plano já está em adiantadíssima fase. Os sindicatos, os professores, os intelectuais, os jornalistas, muitos empresários, já rezam pela cartilha de esquerda. A escola pública foi colocada a serviço da pregação marxista e os professores são “capacitados” (doutrinados) para fazer a lavagem cerebral dos alunos. Se quiser, posso lhe mostrar alguns livros adotados nas escolas primárias e secundárias do Brasil, atualmente. Cheios de mentiras, consideram os empresários privados como bandidos, e os burocratas do governo como anjinhos cheiros de patriotismo. Quando citam alguns heróis de nossa história é para ridicularizá-los. E exaltam os guerrilheiros assassinos (especialmente do MST). Dizem que a intentona comunista dos anos 35, que assaltou mercados no Nordeste, que assassinou vários militares é uma mentira que nunca existiu .

Esta mentira é até ensinada no Telecurso 2000, transmitido pela televisão, patrocinada por órgãos de classe dos empresários , como FIEMG, etc.

Como os comunas sempre procuram manter a população na ignorância (para não ameaçarem seu poder), inventaram uma tal de Escola Plural, inspirada em princípios do cubano Miguel Arroyo, que veio a Belo Horizonte a convite do PT para implantar esta nova visão da deseducação. A Escola Plural visa resolver o problema da repetência da maneira mais imbecil: passando todo mundo, até débeis mentais. Além disso, na Escola Plural, o professor não pode repreender os alunos (o princípio da quebra da autoridade em ação) que se tornam cada vez mais atrevidos .

Alguns alunos até ameaçam de morte os professores. Isto aconteceu com dois sobrinhos meus, que até mudaram de profissão.

Enquanto isso, o Governo Itamar faz propaganda na televisão sobre a “qualidade” do ensino em Minas e na “capacitação” (realmente doutrinação) de milhares de professores.

Completando o cerco, os bandidos que tentaram subverter o País em 1964 estão sendo recompensados com “indenizações” pagas com o dinheiro da população e ex-terroristas, como Aloísio Nunes, ex-chofer do perigosíssimo Marighela, é ministro... da JUSTIÇA!

A verdade é que o comunismo, que está sendo implantado no Brasil, é a volta da barbárie. É uma religião fanática e, como todas as religiões fanáticas, desperta o que há de pior nas pessoas (bin Laden que o diga).

Perguntaram a Leonardo Boff sua opinião sobre o atentado de bin Laden. Cheio de ódio e de estupidez, como sói acontecer com fanáticos, principalmente de esquerda, ele respondeu:

–“Lamento que, em vez de três aviões, não fossem 25, pois assim matariam mais americanos, aliviando o sofrimento dos pobres das favelas do Brasil”.

Não dá para entender o raciocínio do ex-frade franciscano. Como concluiu ele que matar americanos alivia o sofrimento dos pobres do Brasil? Por que ele não se preocupa com a miséria de Cuba e da Coréia do Norte, onde o governo está até ensinando o povo a comer grama, onde foram aplicados os princípios que ele defende? Seria exagero dizer que o ex-frade está completamente esquizofrênico?

O mundo jamais pagará aos Estados Unidos a dívida que lhe deve. É um país admirável sobre todos os aspectos, não porque sejam americanos, pois não existe a raça americana. Todos são absorvidos pelo grande sonho americano de um país livre, de oportunidades ilimitadas, resultado de milhares de anos de evolução das idéias democráticas. Se tirarmos a contribuição dos Estados Unidos (e de outros países capitalistas) para a civilização, o mundo voltaria à Idade Média, ou antes.

O prodígio americano é realmente a vitória, não de um país, mas da humanidade, pois este país demonstrou a potencialidade do ser humano quando sujeito a um clima de liberdade.

Os Estados Unidos são a concretização dos sonhos de liberdade que nasceram na Inglaterra e na França, nos séculos XVII e XVIII, nas mentes privilegiadas dos iluministas, como Adam Smith, Locke, Newton, Hume, Voltaire, Montesquieu, Diderot, Thomas Jefferson, Thomas Paine, Tocqueville e tantos outros, de uma safra de gênios que não mais se repetiu.

No século XX tivemos, em contraste, uma safra de açougueiros, com Lênin, Stalin, Mussolini, Hitler, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Fidel Castro, Hosxa, Ulbricht, Honnecker, Saddam Hussein, bin Laden, et caterva. No entanto, esses açougueiros, hoje em dia, no Brasil, têm muito mais adeptos que os gênios do Iluminismo. Ao contrário, a palavra “Liberal”, que define a linha política dos iluministas e , no Brasil, grandes nomes como Tiradentes, Ruy Barbosa, Roberto Campos, Henry Maksoud e J. O. de Meira Penna, virou palavrão, por causa do trabalho de sapa da esquerda.

O comunismo representa a renúncia a toda a evolução social ocorrida no ocidente, com a colaboração de tantos gênios, e a adoção da barbárie dos novos gêngis-cãs do oriente. A riquíssima tradição européia já foi jogada fora nos livros das escolas públicas no Brasil que, em vez da Revolução Francesa (que acabou com o absolutismo), estudam a Revolução Russa (que trouxe o absolutismo de volta), em vez de Montesquieu (paladino da democracia-divisão de poderes), estudam Prestes e Olga Benário (paladinos do totalitarismo), em vez de Caxias, estudam Che Guevara, em vez de Emanuel Kant, estudam Marx e Lênin, em vez de Pietro Ubaldi, estudam Leonardo Boff e Frei Betto, mentor do Lula, o tetra-candidato.

Rejeitar os Estados Unidos significa alinhar-se com aqueles bandidos, que chacinaram, no século passado, quase duzentos milhões de pessoas, além de provocarem as guerras mais bárbaras de toda a História. Quando a mim, fico com os iluministas e muito me orgulho de ser liberal, como eles, e envergonhar-me-ia de ser de esquerda, como Stalin, Mao Tsé-tung, Pol Pot, Maighela e Lula.

Eis o resultado prático do liberalismo: com apenas 6% da população mundial, os Estados Unidos são responsáveis por mais de 40% da produção econômica. Isto se explica por apenas duas palavras: liberdade econômica. Quanto à Rússia, com toda sua rede de intrigas e com o fracassado comunismo, tem um PIB cerca de metade do Brasil, um país (o nosso) que não tem governo... tem quadrilha.

Os Estados Unidos produzem cerca de 40 vezes mais que o Brasil e 80 vezes mais que a Rússia, que é o maior país do mundo, com as maiores reservas minerais, que prometia ultrapassar a produção americana em 1970 (que piada!!!).

Apesar de seus defeitos, o capitalismo (ou economia de livre mercado) é o regime que proporcionou mais dignidade e maior distribuição de renda à população. Tem muitos defeitos, mas, utopias à parte, é o menos ruim que existe, como observou Churchill. O Estado hipertrofiado, como preconizado pelas esquerdas, tem muito mais defeitos que o mercado. Como disse o grande estadista americano Thomas Jefferson: “O Estado não é a solução. O Estado é o problema!)

As ideologias de esquerda só têm promessas. Aponte um único exemplo em que tenha beneficiado um povo. Na prática, é a volta da barbárie.

Acabo de ouvir pela televisão que 25 famílias da Coréia do Norte pediram asilo em um embaixada, se não me engano, da Espanha. Este é um fenômeno comum. Apesar de toda a opressão de um Estado policial, as vítimas de paraísos socialistas estão sempre tentando fugir para os paises capitalistas. Um terço de Cuba já fugiu para os Estados Unidos e outros cubanos continuam tentando, apesar da vigilância do exército cubano, que afunda as jangadas, construídas com portas, mesas e janelas, atirando nelas sacos de areia e jogando os tripulantes aos tubarões do Caribe.

Em Berlim tiveram que fazer um muro, guarnecido por metralhadoras, para evitar a fuga do “paraíso comunista” para o “inferno” capitalista, além de centenas de quilômetros de fronteiras protegidas com arame farpado. Na Albânia, outro “paraíso” comunista, também ocorreu a fuga em massa. Primeiro, para a Itália. Depois para Côsovo. Depois para Macedônia e outros países do leste europeu. Dizem que, na Alemanha, eles cometem crimes, pois preferem ficar em uma cadeia capitalista que em um “paraíso” comunista. Será que esta fuga em massa de países comunistas não quer dizer nada? Por que não fogem de países capitalistas para países comunistas? Será que teremos que experimentar o Lula e seu séqüito de fósseis ideológicos, para reduzir o Brasil a uma miséria típica dos países socialistas, para ficarmos livres desta ameaça vermelha que não pára de nos atormentar?

Quanto à resposta dos Estados Unidos ao covarde e estúpido ataque terrorista de 11 de setembro, acho que está agindo de maneira admirável, muito ponderada e eficiente. Espero que acabem logo de exterminar aqueles bandidos paranóicos da Al Qaeda. Depois, é preciso caçar outros marginais, como Saddam Hussein, o ditador da Coréia do Norte e Fidel Castro (o chefe do Lula, do José Dirceu e do Garotinho), que continua a promover guerrilhas vermelhas por todo o lado.

Como disse o barbudo das Antilhas: “Recuperaremos na América Latina o que perdemos no Leste Europeu”. Vamos deixar que isso aconteça?

Administrando A Inflacao

17 de julho de 2002 | 17 de julho de 2002

Encontrei com antigo conhecido que hoje exerce alto cargo no Ministério da Fazenda e, dessa conversa, brotou para mim a lógica aterradora da política econômica em vigor. Pode ser que eu esteja errado, e até gostaria, posto que então a realidade seria menos dramática para todos nós. Mas duvido.

Até ter realizado a conversa com essa pessoa, a lógica da política de preços “administrados”, dos grandes monopólios como a Petrobrás e a Eletrobrás, me escapava. Esses preços teoricamente são controlados por agentes políticos do governo. Seria simples burrice deixar que essas empresas pratiquem a loucura que estão fazendo com os preços de seus produtos, em prejuízo de todos os brasileiros, especialmente os mais pobres? Isso em um ano eleitoral, o que poderia comprometer a eleição do candidato oficial? Não seria uma política alucinada, que poderia colocar a estabilização da inflação no lixo?Algo não se encaixava.

Ele me disse que o governo está segurando dinheiro em caixa, conforme planejado, o que é a única maneira de gerar o superávit primário, e que a inflação precisa subir, para comportar um superávit fiscal maior, levando-se em conta que o PIB crescerá pouco. Traduzindo: o imposto inflacionário é indispensável para o ajuste das contas públicas, vez que o governo não tem nem a vontade e nem a força para mexer no foco essencial das despesas, que é a Previdência do setor público, segundo ele mesmo reconheceu..

Depois de ir embora rememorei a conversa e cheguei à seguinte conclusão. Por acordos internacionais e pela vigilância do Congresso e da sociedade, a nossa inflação não está sendo puxada pela expansão primária da moeda, contrariando a lógica ensinada nos livros-texto de economia. Os macrocéfalos governamentais decidiram elevar os preços ditos administrados para elevar a inflação e assim alcançar alguns objetivos: 1- Ajustar para baixo os gastos reais, pela inflação mais alta; 2- Arrecadar mais, pois os setores que estão puxando a inflação são gravados por elevadas tarifas; 3- A maior inflação impõe uma maior desvalorização do câmbio, na medida que eleva as incertezas, vez que o nível de preços e o câmbio movem-se conjuntamente, sendo que, a cada momento, um puxa o outro; 4- Abrir a taxa de câmbio traz a vantagem de aumentar o superávit na balança de pagamentos.

Tudo em prejuízo do povo mais pobre, que é o grande pagador do imposto inflacionário, mas não apenas. Todos aqueles que têm rendas de contratos em bases anuais são perdedores, são os contribuintes forçados desse imposto nefando. O trágico é que esse verdadeiro crime está sendo cometido para que os privilégios de alguns poucos sejam mantidos, mediante o empobrecimento programado da Nação. É imoral.

Dessa forma, com a elevação do nível de preços, a expansão monetária terá que ser feita em algum momento, para que a liquidez do sistema seja mantida. Tudo se encaixa perfeitamente.

A única coisa que está fora dessa equação é a eleição. A percepção de que o governo conspira contra o povo se traduz na rejeição ao candidato oficial, conforme as pesquisas que têm sido divulgadas. A conclusão que se impõe é que, do ponto de vista de quem está na Presidência da República, não faz muita diferença quem será o sucessor, desde que seja um dos três que estão bem situados nas pesquisas. Afinal, qualquer deles mudará tudo, a fim de que nada seja mudado.

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP Em 17 de julho de 2002

Leituras

Queda De Braco

17 de fevereiro de 2015 | Diário do Comércio

Os fatos são patentes e inegáveis:

1. O PT é filiado a uma organização estrangeira, o Foro de São Paulo, que ele reconhece como “coordenação estratégica da esquerda na América Latina” (sic) e cujas resoluções, unanimemente assinadas nas suas assembleias anuais, ele acata e cumpre. Consultem-se, a respeito, o vídeo do III Congresso do partido ( veja aqui ), as atas das assembleias do Foro de São Paulo ( leia aqui ) e o discurso comemorativo pronunciado pelo sr. Luís Inácio Lula da Silva, então presidente da República, no décimo-quinto aniversário da entidade – discurso publicado na própria página oficial da Presidência, depois comentado e linkado no meu artigo ( leia aqui ). As provas não poderiam ser mais abundantes nem mais inquestionáveis.

A Lei dos Partidos Políticos (Lei número 9.096 de 19 de setembro de 1995) determina que o STF casse o registro desse partido, por violação do artigo 28, alínea II: “estar subordinado a entidade ou governo estrangeiros.”

A violação independe de o partido ter ou não recebido fundos dessa entidade, o que é crime suplementar a ser investigado.

2. O PT tem sob o seu comando e alimenta com vultosas verbas públicas uma entidade paramilitar, armada, clandestina e sem registro legal, treinada por técnicos estrangeiros para atividades de guerrilha, especializada em invadir e queimar propriedades rurais e em bloquear pela força o direito do cidadão brasileiro de circular livremente pelo território nacional, e não hesita em convocar essa entidade, chamando-a mui apropriadamente de “exército”, a mostrar o seu poder e interferir na política nacional como instrumento de pressão e intimidação.

Isso viola a alínea IV da Lei dos Partidos Políticos (“manter organização paramilitar”), obrigando o STF a cancelar o registro do partido, mediante “denúncia de qualquer eleitor, de representante de partido, ou de representação do Procurador-Geral Eleitoral”.

O PT é portanto um partido ilegal, cuja possibilidade de existência continuada só é garantida por um conluio criminoso, regado a dinheiro público, do qual participam políticos, juízes e altos funcionários das estatais, tudo sob a proteção da “grande mídia”.

3. O governo Dilma Rousseff concedeu empréstimos ilegais a várias nações comunistas, violando o artigo 49 da Constituição Federal, segundo o qual assinar tratados e compromissos internacionais que impliquem despesas para os cofres públicos “é de competência exclusiva do Congresso Nacional”. Reconhecendo cinicamente que esses empréstimos são inconstitucionais e ilegais, o governo Rousseff ainda os tornou secretos, roubando ao Congresso e à nação a mera possibilidade de investigá-los.

Não poderia haver prova mais patente de crime de improbidade administrativa, tornando o impeachment da Sra. Rousseff não apenas legal, mas obrigatório, mesmo sem Mensalão, Petrolão e demais crimes coadjuvantes que esse governo jamais se eximiu de praticar.

Para maiores informações, veja .

4. A sra. Rousseff deve o seu segundo mandato à fraude eleitoral maciça e ostensiva da apuração secreta dos votos, que nega o mais elementar princípio de transparência sem o qual nenhuma eleição é válida ou legítima à luz da razão e do Direito. Para dar viabilidade ao truque sujo, colocou na presidência do Tribunal Eleitoral, após tê-lo feito passar pelo STF, um advogado do seu partido e homem notoriamente desprovido das qualificações para cargos superiores da magistratura.

Nessas condições, proclamar, como o faz praticamente a totalidade da classe política e da mídia, que a sra. Rousseff governa o país com base num mandato legítimo e democraticamente instituído é atitude de uma mendacidade e de um cinismo que raiam a amoralidade psicopática pura e simples.

Cansados de esperar e implorar que o Congresso e as autoridades judiciárias fizessem cumprir a lei, dois ou três milhões de cidadãos saíram às ruas, no maior protesto político de toda a nossa História, apenas para ver, no dia seguinte, o governo, auxiliado pelos políticos ditos “de oposição” e pela mídia, tentar tirar proveito do seu próprio descrédito e da sua própria torpeza, utilizando-se da ira popular como pretexto para vender, de novo, a fraudulenta proposta da “reforma política” bolivariana.

Com toda a evidência, a elite política e midiática deste país entrou num pacto calculado para impor a autoridade do PT acima da Constituição e das leis, incondicionalmente e sem possibilidade de discussão.

No tempo de Collor e FHC, qualquer passeata de umas dezenas de milhares de manifestantes, convocados e dirigidos por organizações políticas, era glorificada como “clamor popular” e alegada como razão iminente para um impeachment.

Dois milhões de pessoas clamando espontaneamente nas ruas pelo simples cumprimento das leis não bastam para demover essa elite da sua firme e inabalável decisão de vender como “democracia” um ritual grotesco de legitimação do crime e da iniquidade.

A ruptura entre o povo e a elite mandante é hoje profunda, radical e insanável. Não há diálogo nem conciliação possível. A vida política nacional tornou-se uma queda de braço entre os happy few e a massa indignada, entre a palhaçada de cima e a realidade de baixo.

Sugerencia A Los Colegas

17 de febrero de 2001 | Época

¿Por qué nadie entrevista a Ladislav Bittman, el ex-espía checo que lo sabe todo sobre 1964?

Millones de niños brasileños, en las escuelas públicas, son adiestrados para repetir que el golpe militar de 1964 fue obra de Estados Unidos, como parte de un proyecto de endurecimiento general de la política exterior yanqui en América Latina.

¿Saben quién inventó esa historia y la difundió por la prensa de este país? Fue el servicio secreto de Checoslovaquia, que en aquel tiempo subvencionaba a numerosos periodistas y periódicos brasileños.

El jefe del servicio checo de desinformación, Ladislav Bittman, en persona, vino a inspeccionar las fases finales del ingenioso plan que se llamaba “Operación Thomas Mann”. Ese nombre no aludía al novelista, sino al entonces secretario-adjunto de Estado, Thomas A. Mann, que debía pasar como responsable de una “nueva política exterior” de incentivo a los golpes de Estado.

La sinvergonzonería fue realizada a través de la distribución anónima de documentos falsificados, que la prensa y los políticos brasileños, sin la menor comprobación, se tragaron como “pruebas” del intervencionismo americano. El primer paso fue dado en febrero de 1964: un documento con sello y sobre falsos de la Agencia de Información de EUA en Rio de Janeiro, que resumía los principios generales de la “nueva política”. La cosa llegó a los periódicos junto con una carta de un ficticio funcionario americano anónimo, que interpretaba, como en las películas, el papel de héroe oscuro que, juzgando que “el pueblo tiene derecho a saber”, divulgaba el secreto que sus jefes le habían mandado guardar.

El escándalo estalló con grandes titulares y los planes siniestros del Sr. Mann fueron denunciados en el Congreso. El embajador americano desmintió que tales planes existiesen, pero era tarde: toda la prensa y la intelectualidad izquierdistas de las Américas ya se habían movilizado para confirmar la patraña checa. La mentira penetró tan hondo que, tres décadas y media después, el nombre de Thomas A. Mann aún es citado como símbolo vivo del imperialismo intervencionista.

A esa primera falsificación le siguieron varias más, para darle credibilidad, entre ellas una lista de “agentes de la CIA” infiltrados en los medios diplomáticos, empresariales y políticos brasileños, que circuló por los periódicos como de autoría de un “Comité de Lucha Contra el Imperialismo Americano”, que nunca existió fuera de la cabeza de los agentes checos. En realidad, ha confesado Bittman, “no conocíamos ni un sólo agente de la CIA en acción en Brasil”. Pero el montaje más espectacular fue una carta de 15 de abril de 1964, con firma falsificada de J. Edgar Hoover, en la que el jefe del FBI felicitaba a su funcionario Thomas Brady por el éxito de cierta “operación”, que, por el contexto, cualquier lector identificaba inmediatamente con el golpe que había depuesto a João Goulart”.

Toda una bibliografía con pretensiones historiográficas, toda una visión de nuestro pasado y unas cuantas docenas de glorias académicas se han construido sobre esos documentos falsos. Bien, el fraude ya ha sido desenmascarado por uno de sus propios autores, y no fue ayer o anteayer. Bittman contó todo en 1985, tras desertar del servicio secreto checo. Lo que pasa es que hasta hoy esa confesión sigue siendo desconocida por el público brasileño, bloqueada por la amalgama de pereza, ignorancia, interés y complicidad que ha transformado a muchos de nuestros periodistas e intelectuales en agentes de la desinformación checa mucho más diligentes de lo que fue el jefe mismo del servicio checo de desinformación. ¿Cuántos, en esos medios, no continúan actuando como si fuese mucho más ético transmitir a las futuras generaciones, a título de ciencia histórica, la mentira de la que el propio autor renegó hace 15 años?

Neurosis, decía un gran psicólogo que conocí, es una mentira olvidada en la que todavía crees. Redescubrir la verdad sobre 1964 es curar a Brasil. Entrevistar a Ladislav Bittman ya sería un buen comienzo.

Em 17 de fevereiro de 2001

Español

O Obvio Invisivel

17 de dezembro 2007 | Diário do Comércio

A característica mais óbvia e permanente da estratégia gramsciana para a instauração do comunismo, característica que a distingue radicalmente do método leninista, é que ela evita na máxima medida possível a intervenção revolucionária direta do Estado sobre a sociedade, preferindo operar transformações profundas por meio de agentes auxiliares informais, isto é, entidades e movimentos não estatais espalhados pelo Partido no seio da própria sociedade civil. A revolução transcorre então de maneira difusa, camuflada e anestésica, desnorteando seus adversários – ou mais propriamente vítimas – ao ponto de tornar inviável qualquer reação organizada.

No Brasil de hoje, os partidos e demais entidades “de oposição” não conseguem sequer ter uma visão de conjunto do processo revolucionário que os engolfa. Na desorientação geral em que se encontram, apegam-se a pontos de detalhe, soltos e inconexos, sem perceber que qualquer vitória parcial aí obtida pode ser sempre reciclada em favor da estratégia revolucionária graças ao domínio superior que esta tem do processo como um todo.

O desnível entre a abrangência da ação revolucionária e o esfarelamento pontilhista das reações é tamanho, que as facções respectivas não parecem viver no mesmo país, nem no mesmo planeta, mas em galáxias distantes e mutuamente incomensuráveis. De um lado, a engenharia de longo prazo, calculada para mudar as estruturas profundas e dominar o todo. Do outro, o empenho míope de preservar interesses grupais imediatos, sem a menor estratégia de conjunto e até sem o menor interesse de conhecer a do adversário.

Um exemplo desse desnível é o empresário que espera aplacar a fúria revolucionária mediante contribuições lícitas ou ilícitas ao partido ascendente, sem pensar que com isso ajuda esse partido a dominar o Estado, portanto a prescindir das suas contribuições e a atirar o contribuinte às chamas na primeira queima de arquivo.

Outro, o do militante cristão que ataca o movimento gay mediante um discurso de pura moralidade tradicional, sem notar que esse movimento é apenas a ponta de lança de uma estratégia muito maior, calculada até mesmo para fazer concessões à moralidade tradicional e trocar, se preciso e no momento devido, o apoio da militância gay pelo das igrejas tradicionais. Ninguém entenderá nada, absolutamente nada do que se passa nesse domínio se não levar em consideração que as forças que instigam os gays contra a moral cristã no Brasil, nos EUA ou na Europa Ocidental são as mesmas, as mesmíssimas que punem o homossexualismo com pena de prisão ou morte nos países comunistas e islâmicos. Essas forças estão tão interessadas em liberdade sexual quanto eu estou interessado em Pokemons . E não conheço, ao menos no Brasil, um só militante cristão que, na sua defesa entusiástica da moral religiosa, tenha parado para pensar que seu discurso – e a progressiva radicalização desse discurso, em reação à escalada gay – pode ter entrado de antemão nos cálculos da estratégia revolucionária. No entanto, pelos frutos os conhecereis: quantas igrejas, fugindo do avanço gayzista, não têm aderido aos partidos de esquerda em troca de duas ou três palavrinhas, de pura esmola e da boca para fora, em favor da moralidade cristã?

Mas o exemplo mais especialmente patético é o fazendeiro que acredita poder defender sua propriedade contratando jagunços, enquanto em torno, sem que ele veja, todas as estruturas jurídicas, sociais e culturais já foram modificadas para colocar contra o seu direito de propriedade os tribunais, a polícia, o exército e até a opinião pública.

Não estou dizendo que os fazendeiros sejam incultos e tolos. Mesmo gente de profissão letrada — jornalistas, empresários, oficiais militares – parece não perceber a obviedade escandalosa de que o que está acontecendo no Brasil não são meras invasões de fazendas: é uma das mais vastas, sistemáticas e irreversíveis operações de transferência de propriedade que já se viram no mundo.

Planejada desde há muitas décadas, no seio de think tanks de esquerda e organismos internacionais, essa operação se desenrola, até agora, em seis fronts simultâneos, articulados para muito além do que as vítimas de seus ataques podem enxergar no momento:

1) A ocupação de fazendas pelos “sem terra”.

2) A ocupação de propriedades urbanas pelos “sem teto”.

3) A transferência de vastas porções de território para as “nações indígenas”, imunes à ação do Estado brasileiro e prontas a declarar sua independência.

4) A desapropriação de casas e terrenos pelos autodeclarados “quilombolas”.

5) A abertura de territórios livres entregues ao domínio de narcotraficantes associados às Farc, vacinados contra toda ação policial.

6) A compra de imensas faixas de terra por estatais chinesas, por agentes da máfia russa (que é o próprio establishment russo) e por milionários árabes com possíveis vínculos com o terrorismo internacional.

Façam as contas da extensão já transferida, avaliem os planos de expansão traçados para os próximos anos, e entenderão que o Brasil já tem uma nova classe dominante, ainda espalhada e amorfa em aparência, mas muito bem articulada, como força histórica, no plano estratégico mais vasto. Para qualquer estrategista revolucionário, mesmo chinfrim, a conexão ao menos teórica desses seis pontos é um requisito primário, óbvio e indispensável. E, hoje em dia, a correspondente articulação prática já em ação pode ser facilmente reconstituída, com um pouco de paciência, juntando os pontos entre as entidades envolvidas e desenhando a trama de suas conexões internacionais – um estudo que qualquer analista estratégico medianamente responsável sabe ser a condição inicial de qualquer diagnóstico da situação.

Mais Um Caso De Histeria

17 de agosto de 2014 | Folha de São Paulo

O problema de muitos “formadores de opinião”, no Brasil de hoje, não é a burrice em estado puro, mas aquela burrice em segunda potência que nasce do impulso histérico de criar uma frase e, ouvindo-a da própria boca, acreditar nela pela simples razão de ter conseguido dizê-la.

O histérico vive em um mundo fictício composto inteiramente de autopersuasão. Daí ao mais extremo analfabetismo funcional o passo é bem curto. Quando o histérico lê alguma coisa, não entende aquilo que está escrito, mas o que desejaria que estivesse escrito. E acredita piamente que foi isso o que leu.

Um desses, um tal de Renato Rovai, leu no meu Facebook a seguinte afirmação: “O governo torna sigilosas as investigações de acidentes aéreos e poucos dias depois já vem um acidente aéreo politicamente relevante. Ou o acaso está gozando da nossa cara, ou não é acaso.” Que é que ele fez com isso? Imediatamente tascou no seu blog do Portal Forum: “Olavo de Carvalho culpa Dilma pela morte de Eduardo Campos”.

Qualquer pessoa razoavelmente alfabetizada, com uma inteligência mediana não entorpecida por impulsos neuróticos incoercíveis, entende que uma sentença construída em modo alternativo sugere duas hipóteses e nenhuma certeza.

No episódio presente, um acaso irônico ou a vaga possibilidade de um crime. Transformar isso na afirmação peremptória da ocorrência de um crime, seguida da identificação positiva de um culpado, é, sem a menor dúvida possível, obra de imaginação histérica.

Com toda a certeza o sr. Rovai desejaria mesmo que eu tivesse dito a enormidade que me atribui. Assim poderia facilmente pintar-me como um caluniador fantasista, à perfeita imagem e semelhança dele próprio, e, escondendo-se por trás de um autorretrato com o meu nome, acreditar-se melhor que eu. Um histérico, na verdade, não faz outra coisa na vida senão representar cenas autolisonjeiras no seu teatrinho mental para não ter de tomar consciência da sua deplorável miséria humana.

Tão agudamente necessitado de fazer-se de superior estava o sr. Rovai, que me descreveu como alguém “que é considerado filósofo por ‘gênios’ do estilo de Roger, o ex-cantor e pretenso humorista”, sem nem por um segundo levar em conta que:

(1) O sr. Roger, do qual só tive notícia ontem, não consta ter jamais emitido a menor opinião a meu respeito. A busca no Google aponta o meu nome junto a dois Rogers – Scruton e Kimball – mas não a esse.

(2) Uma breve pesquisa no meu currículo e nos documentos que o embasam (http://www.olavodecarvalho.org/english/life-and-works.html) teria bastado para mostrar que quem me considera filósofo (e até, vejam vocês, bom filósofo) não são gênios entre aspas, mas alguns dos maiores intelectuais do Brasil e do mundo, como Miguel Reale, Josué Montello, Herberto Sales, Roberto Campos, Ariano Suassuna, Alexandre Costa Leite, Romano Galeffi, David Walsh, Antoine Danchin e uma infinidade de outros, além de uns ministros de Estado e dois ex-presidentes da República.

Um jornalista sério, quando se refere a um escritor, pode falar dele bem ou mal, mas não pode esconder sob uma pueril afetação de desprezo uma identidade histórica solidamente formada e comprovada. Pode, por exemplo, não gostar de Ariano Suassuna, de Jorge Amado ou de mim, mas não pode dizer que só humoristas fracassados apreciam o que escrevemos.

Isso não é jornalismo: é fabulação histérica. Um jornalista escreve para contar algo do que vê e do que sabe. Um histérico, para compensar seus recalques com grotescos trejeitos de superioridade fingida.

Dito isto, é certo que o sr. Rovai, cujas realizações intelectuais não chegaram a ser louvadas nem mesmo por algum humorista fracassado, pela incontestável razão de que não existem, vai quase que infalivelmente tentar tirar proveito retroativo do vexame, fazendo-se de importante pelo simples fato de que lhe consagrei estas linhas.

Para tirá-lo dessa ilusão, peço-lhe que releia a primeira frase deste artigo, onde a deformação histérica da linguagem aparece como fenômeno generalizado e epidêmico, do qual ele não é senão um exemplo entre milhares, aqui escolhido precisamente porque ilustra muito bem até que ponto essa patologia intelectual pode atrofiar o julgamento e eliminar o senso de realidade.

Lembro aos leitores o diagnóstico já clássico do dr. Andrew Lobaczewski: quando um grupo de psicopatas assume o poder e controla a sociedade, o bombardeio de mentiras oficiais, debilitando na população o impulso de dizer o que vê e o que sente, e substituindo-o pela compulsão de repetir o que ouve, acaba por gerar uma multidão de apoiadores histéricos, cuja única função na vida é fingir para poder persuadir-se e persuadir-se para poder fingir.

Quando as coisas chegam a esse ponto, todos os critérios de realidade foram abolidos e toda possibilidade de ação racional eliminada: é o Império do Mal, onde o caos e o crime podem espalhar-se à vontade, sem que ninguém tenha a autoridade moral de detê-los.

Sugestao Aos Colegas

17 de Fevereiro de 2001 | Época

Por que ninguém entrevista Ladislav Bittman, o ex-espião tcheco que sabe tudo sobre 1964?

Milhões de crianças brasileiras, nas escolas oficiais, são adestradas para repetir que o golpe militar de 1964 foi obra dos Estados Unidos, como parte de um projeto de endurecimento geral da política exterior ianque na América Latina.

Sabem quem inventou essa história e a disseminou na imprensa deste país? Foi o serviço secreto da Tchecoslováquia, que naquele tempo subsidiava numerosos jornalistas e jornais brasileiros. O próprio chefe do serviço tcheco de desinformação, Ladislav Bittman, veio inspecionar as fases finais do engenhoso empreendimento que se chamou “Operação Thomas Mann”. O nome não aludia ao romancista, mas ao então secretário-adjunto de Estado, Thomas A. Mann, que deveria constar como responsável por uma “nova política exterior” de incentivo aos golpes de Estado.

A safadeza foi realizada através da distribuição anônima de documentos falsificados, que a imprensa e os políticos brasileiros, sem o menor exame, engoliram como “provas” do intervencionismo americano. O primeiro lance foi dado em fevereiro de 1964: um documento com timbre e envelope copiados da Agência de Informação dos EUA no Rio de Janeiro, que resumia os princípios gerais da “nova política”. A coisa chegou aos jornais junto com uma carta de um anônimo funcionário americano, investido, como nos filmes, do papel do herói obscuro que, por julgar que “o povo tem o direito de saber”, divulgava o segredo que seus chefes o haviam mandado esconder.

O escândalo explodiu nas manchetes e os planos sinistros do senhor Mann foram denunciados no Congresso. O embaixador americano desmentiu que os planos existissem, mas era tarde: toda a imprensa e a intelectualidade esquerdistas das Américas já tinham sido mobilizadas para confirmar a balela tcheca. A mentira penetrou tão fundo que, três décadas e meia depois, o nome de Thomas A. Mann ainda é citado como símbolo vivo do imperialismo intervencionista.

A essa primeira falsificação seguiram-se várias outras, para dar-lhe credibilidade, entre as quais uma lista de “agentes da CIA” infiltrados nos meios diplomáticos, empresariais e políticos brasileiros, que circulou pelos jornais sob a responsabilidade de um “Comitê de Luta Contra o Imperialismo Americano”, o qual nunca existiu fora da cabeça dos agentes tchecos. Na verdade, confessou Bittman, “não conhecíamos nem um único agente da CIA em ação no Brasil”. Mas a mais linda forjicação foi uma carta de 15 de abril de 1964, com assinatura decalcada de J. Edgar Hoover, na qual o chefe do FBI cumprimentava seu funcionário Thomas Brady pelo sucesso de uma determinada “operação”, que, pelo contexto, qualquer leitor identificava imediatamente como o golpe que derrubara João Goulart.

Toda uma bibliografia com pretensões historiográficas, toda uma visão de nosso passado e algumas boas dúzias de glórias acadêmicas construíram-se em cima desses documentos forjados. Bem, a fraude já foi desmascarada por um de seus próprios autores, e não foi ontem ou anteontem. Bittman contou tudo em 1985, após ter desertado do serviço secreto tcheco. Só que até agora essa confissão permaneceu desconhecida do público brasileiro, bloqueada pelo amálgama de preguiça, ignorância, interesse e cumplicidade que transformou muitos de nossos jornalistas e intelectuais em agentes ainda mais prestimosos da desinformação tcheca do que o fora o chefe mesmo do serviço tcheco de desinformação. Quantos, nesses meios, não continuam agindo como se fosse superiormente ético repassar às futuras gerações, a título de ciência histórica, a mentira que o próprio mentiroso renegou 15 anos atrás?

Neurose, dizia um grande psicólogo que conheci, é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita. Redescobrir a verdade sobre 1964 é curar o Brasil. Entrevistar Ladislav Bittman já seria um bom começo.

Em 17 de fevereiro de 2001

O Pais Mais Burro Do Mundo

16 dez. 2001 | Zero Hora

Dentre estudantes de 32 países, testados em sua compreensão de leitura, os brasileiros tiraram o último lugar. Não o penúltimo ou o antepenúltimo. O último. Com uma das maiores redes de ensino público do universo, com uma quantidade impressionante de professores “ per capita ”, com investimentos maciços do governo e o esforço conjugado de milhares de ONGs e empresas milionárias empenhadas “ soi disant ” em “elevar o nível” da nossa educação, o Brasil é, hoje mais que nunca, um país de analfabetos funcionais.

Nada do que saiu impresso nos últimos dias pode dar, como esse fato alarmante, uma idéia da verdadeira situação do Brasil no mundo.

Por que uma notícia tão significativa — a mais importante da semana, sob certos aspectos — suscita na mídia e nos meios ditos intelectuais uma quantidade tão escassa de comentários? Por que as poucas reações que se fazem discretamente ouvir se limitam às lamentações convencionais de sempre, quando não a desculpas de ocasião?

A resposta é simples. A estupidez da nossa classe estudantil não se explica por causas menores, de ordem administrativa ou econômica, nem por curiosas coincidências. Ela não é um fato isolado. Ela reflete o estrago geral da cultura brasileira que tenho documentado desde 1996 nos dois volumes publicados e nos três inéditos de “O Imbecil Coletivo. Atualidades Inculturais Brasileiras” — uma amostragem suficientemente ampla para que ninguém possa negar a realidade dos fatos. Ela reflete os efeitos de uma devastadora “revolução cultural” que, iniciada nos anos 70 e empenhada em reduzir a rede de ensino e todas as instituições de cultura a instrumentos do mais maquiavélico oportunismo político de todos os tempos, estampa agora diante de nós o seu abjeto resultado. Não se pode manipular a inteligência humana sem engessá-la, imobilizá-la e atrofiá-la.

Vinte anos atrás eu trabalhava numa revista de educação, distribuída a professores da rede pública. Por intermédio dessa publicação e de outras análogas, os intelectuais ativistas faziam críticas ferozes ao que chamavam “educação tradicional” e infundiam nas professorinhas uma confiança ilimitada nos novos modelos que, a seu ver, dariam aos jovens brasileiros a educação ideal. Esses modelos traziam algo das idéias de Jean Piaget mas eram inspirados sobretudo nos ídolos pedagógicos do esquerdismo militante: Paulo Freire, Demerval Saviani, Emília Ferrero e, no fundo de tudo, Antonio Gramsci. Sinceramente: eu lia aquela porcaria toda e previa uma catástrofe. Hoje a catástrofe está aí, mas ela é tão profunda que já não pode tomar consciência de si mesma. Aquelas entusiasmadas professorinhas que imaginavam fazer uma revolução por meio de seus alunos, convertidos em “agentes de transformação social”, foram elas próprias transformadas no curso do processo: já estão burras demais para atinar com a conexão de causa e efeito. Por isto a revelação brutal dos resultados da mutação idiotizante não suscita nenhum debate sério, nenhuma tomada de consciência, nenhuma corajosa admissão do erro fundamental. As professorinhas não apenas esqueceram o que sabiam: esqueceram que esqueceram. Estão amortecidas e estupidificadas pelo seu próprio discurso.

Revoluções análogas ocorreram nos EUA, na França e em outros países, com resultados igualmente perversos, documentados, por exemplo, em “A Escola dos Bárbaros” de Isabelle Stahl, “Machiavel Pédagogue” de Pascal Bernardin, “Brave New Schools” de Berit Kjos e “The Long March. How the Cultural Revolution of the 1960’s Changed America” de Roger Kimball. Quem leia esses livros verá que os brasileiros não apenas são os piores estudantes do mundo, mas que o são em comparação com uma média geral monstruosamente inferior à dos anos 60. Há uma queda mundial do nível de inteligência, e o Brasil está na vanguarda do abismo.

Não há também nenhum motivo para supor que o baixo desempenho dos estudantes não se repita, igualzinho, em outros setores da sociedade. Estudantes não são uma entidade separada e distinta, mas uma fatia, uma amostra do bolo. Os índices de burrice seriam muito provavelmente os mesmos se a comparação fosse entre empregados da indústria. Uma pesquisa local do antropólogo Luiz Marins mostrou que nas fábricas brasileiras é inútil passar um aviso por escrito: ou o aviso é dado oralmente, ou o conteúdo simplesmente não entra na cabeça dos operários. É razoável conjeturar que os índices comparativos de incompreensão de leitura não seriam muito diferentes se a avaliação não fosse entre estudantes, mas entre políticos, jornalistas, professores universitários — ou profissionais da escrita. A prodigiosa degradação do gosto literário nacional fez com que os poucos escritores valiosos que restam se tornassem confidenciais, cedendo o lugar nas páginas do noticiário editorial a uma galeria de patetas mais ou menos alfabetizados que passam por escritores. O público “letrado” já perdeu até mesmo a distinção entre um escritor e um sujeito qualquer que escreve qualquer coisa. Um escritor é membro de uma confraria artesanal milenar. Ele conhece os instrumentos expressivos criados por uma tradição que vem de Homero a Naipaul, e no que ele escreve se percebe, nas entrelinhas, o diálogo com seus parceiros de ofício, por cima das fronteiras de épocas. Um sujeito qualquer que escreve, mesmo que o faça direitinho, não dispõe senão dos instrumentos usuais da mídia — ele não dialoga senão com os tagarelas do momento: quando morrerem, sua escrita morrerá com eles. Essa distinção, que deveria ser a base da educação literária nas escolas, já se tornou imperceptível à média dos leitores “cultos”. Daí o fenômeno espantoso dos nomes mais cogitados para a última vaga aberta na Academia Brasileira. Não havia entre eles um único escritor: apenas sujeitos que escreviam direitinho. E ninguém notava a diferença.

Em 16 de dezembro de 2001

Fhc Vendido A Cia

16 de setembro de 2009 | Diário do Comércio

O livro da Sra. Frances Stonor Saunders, Quem Pagou a Conta? A CIA na Guerra Fria da Cultura (Record, 2008), que já mencionei, meses atrás (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/080214jb.html ), é um estudo com ares de seriedade acadêmica, onde os fatos vêm tão bem documentados quanto meticulosamente isolados dos dados comparativos necessários à sua avaliação racional. Deveria ser auto-evidente que o relato de um conflito bélico ou político, como de uma partida de futebol, só faz sentido se as ações de um dos contendores aparecerem articuladas às do seu adversário. Suprimida metade do enredo, a outra metade pode adquirir as proporções e o significado que a imaginação de cada um bem entenda. A imaginação da Sra. Saunders empenha-se em deformar a história da Guerra Fria com uma constância obstinada e uma coerência metódica que excluem, desde logo, a hipótese da mera incompetência. Por isso mesmo ela se tornou uma autora tão querida da mídia brasileira, que na obra da pesquisadora inglesa se compraz voluptuosamente em enxergar, refletida e adorável, a imagem da sua própria mendacidade.

Se o livro todo já é uma tentativa de dar ares de escândalo a presumidas revelações históricas que antes dele qualquer leitor poderia ler tranqüilamente no próprio site oficial da CIA e nas memórias de inúmeros personagens envolvidos nos acontecimentos, não é de espantar que os jornalistas brasileiros encontrem nele um de seus alimentos espirituais prediletos: a denúncia de uma conspiração direitista milionária destinada a colocar o Brasil sob o domínio do imperialismo ianque, com a ajuda de políticos locais bem subsidiados pelo dinheiro daquela agência americana, entre os quais o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A prova da trama, que vem circulando com grande frisson entre os círculos “nacionalistas” da internet desde que alardeada pela inteligência glútea do jornalista Sebastião Nery, é a verba de 800 mil dólares, ou talvez um milhão, concedida em 1969 pela Fundação Ford para que Fernando Henrique e outros professores demitidos da USP criassem o Cebrap, Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. A Fundação, afirma a dupla Saunders-Nery, era um braço da CIA, e a operação toda era um lance da guerra cultural anticomunista. FHC teria sido comprado pela direita, traindo seus ideais esquerdistas de juventude.

O que a Sra. Saunders não conta – e Sebastião Nery ignora ou finge ignorar por completo – é que a Fundação Ford, se alguma posição tomou na guerra cultural, foi contra os EUA. Na década de 50 ela já foi denunciada por uma comissão parlamentar de inquérito por sua persistente colaboração com a propaganda soviética (v. René Wormser, Foundations, Their Power and Influence , New York, Devin-Adair, 1958, e Phil Kent, Foundations of Betrayal. How the Super-Rich Undermine America , Johnson City, TN, Zoe Publications, 2007); e hoje em dia os programas que ela continua subsidiando – cotas raciais, feminismo, gayzismo, abortismo – constituem o ideário cultural inteiro da esquerda no mundo. Se isso é “imperialismo ianque”, eu sou o Sebastião Nery em pessoa.

A Fundação Ford trabalha, sim, para um projeto imperialista, mas não americano. Trabalha para o internacionalismo socialista, de inspiração fabiana, empenhado em demolir a soberania dos EUA para substitui-la progressivamente por uma Nova Ordem Mundial altamente centralizada, estatista e controladora, da qual o governo Barack Obama é um dos instrumentos mais ativos hoje em dia.

Tanto a Fundação quanto FHC podem ser acusados de tudo, menos de terem feito algum mal à esquerda. E não deixa de ser uma prova da debilidade da direita – americana, brasileira ou mundial – o fato de que ela raramente ofereça uma reação à altura quando acusada dos pecados de seus próprios inimigos. Ao contrário: quantos, entre os direitistas brasileiros, especialmente militares, ansiosos por mostrar que são mais anti-americanos do que direitistas, não são os primeiros a fazer coro a mentirosos compulsivos como Saunders e Nery?

Em 16 de setembro de 2009

Palmas Para Keynes

16 de setembro de 2000 | Época

Ele fez do capitalismo o regime mais confortável para a esquerda Cresci ouvindo dizer que Lord Keynes fora o salvador do capitalismo. Precisei de uma vida inteira para descobrir que o desgraçado protegera o círculo de espiões soviéticos em Cambridge, que a aplicação de suas teorias nos Estados Unidos dera a maior zebra e só a guerra conseguira resgatar do naufrágio o New Deal inspirado por ele.

A mágica besta da economia keynesiana consistia em fazer do Estado o maior dos capitalistas, colocando-o à frente de grandes projetos industriais. De imediato, tinha um efeito formidável, porque gerava empregos. À objeção de que a longo prazo isso resultaria numa inflação dos diabos, os impostos subiriam até o céu, os operários seriam pagos com papel pintado e teriam de se matar de trabalhar para sustentar uma burocracia cada vez mais voraz, Keynes respondeu com a célebre evasiva: “A longo prazo, estaremos todos mortos”. Keynes, de fato, morreu em 1946, mas a maioria dos americanos ainda viveu para carregar o Estado keynesiano nas costas até que Ronald Reagan cortasse os impostos em 1981, iniciando a recuperação econômica de que os EUA se beneficiam até hoje.

De onde vinha então o prestígio de Keynes? Vinha da esquerda. A roda de milionários, estrelas de Hollywood e intelectuais mundanos que nos anos 30 personificavam a moda do stalinismo chique – tal era, em substância, a platéia de seu show. Os fios juntavam-se. Stálin havia determinado que o Partido Comunista dos EUA não cuidaria de organizar o proletariado, mas só de arregimentar o beautiful people para subsidiar o comunismo europeu e dar-lhe o respaldo moral de celebridades com aparência de independentes. Daí a profusão de espiões comunistas e “companheiros de viagem” nos altos círculos da Era Roosevelt. A ampliação da burocracia estatal era de interesse direto para essa gente. Quando, na década de 60, a difusão das obras de Antonio Gramsci ensinou aos esquerdistas que para tomar o poder eles não precisariam fazer uma insurreição, bastaria que dominassem o aparelho de Estado pouco a pouco e de dentro, gramscismo e keynesianismo descobriram que tinham sido feitos um para o outro. De seu matrimônio espontâneo nasceu a esquerda atual. A base dela já não está no proletariado, soberbamente conservador, mas na burocracia administrativa e judiciária, nos organismos internacionais, nas ONGs, na imprensa, nas universidades – e, de outro lado, no variado leque de “minorias”, as quais, recrutadas segundo os critérios mais desencontrados (sexuais, etários, raciais, regionais), não têm em comum senão o ressentimento sem objeto e a dependência da tutela do Estado, o que faz delas a massa de manobra ideal para keynesianos e gramscianos.

Essa esquerda ocupa os melhores postos, come a parte mais nutritiva das verbas do orçamento, faz as leis, impera sobre a mídia e, ao mesmo tempo, fala em nome dos revoltados contra o establishment – os quais, precisamente, não sabem que ela é o establishment.

Lord Keynes não salvou o capitalismo. Se o fizesse, seria odiado pela esquerda. O que ele fez foi tornar o capitalismo o mais confortável dos regimes para a elite esquerdista, criando a base econômica da “longa marcha para dentro do aparelho de Estado” planejada por Gramsci. Eu também o aplaudiria, se meu sonho na vida fosse ser um comunista chique.

Em 16 de setembro de 2000

Remodelagem

16 de outubro de 2005 | Zero Hora

Quando a mídia brasileira assume o lado do bem e da decência, vocês podem ter certeza: ela o faz com atraso, faz pela metade e faz misturando à causa nobre tardiamente subscrita algum novo elemento de calhordice.

A Folha de S. Paulo do dia 13 tornou-se o primeiro jornal nacional a noticiar com algum destaque o genocídio sistemático da população do Sudão pela Frente Islâmica Nacional que domina o país.

A matéria, traduzida do jornal inglês Independent , diz: “O governo da Frente Islâmica já exterminou mais de 400 mil [negros] e expulsou outros 2 milhões de suas casas.”

Para o padrão jornalístico vigente, já é demais. Romper uma década de silêncio, admitir de repente que um governo islâmico, em tempo de paz, matou dez vezes mais gente do que a guerra do Iraque, é mais que coragem: é uma gafe, uma inconfidência, um ato falho freudiano, uma traição imperdoável aos altos princípios da vigarice obrigatória.

Se todos os morticínios praticados nos últimos anos pelos governos do Sudão, da Coréia do Norte, do Vietnã, da China e de Cuba fossem noticiados, as comparações se tornariam inevitáveis, e George W. Bush, se não assumisse as feições de Madre Teresa de Calcutá, passaria ao menos a ser visto como aquilo que é: um político como os outros, nem muito bom nem muito mau. Mas com isso a demonização prioritária da política exterior americana se tornaria impossível, frustrando a missão número um da classe jornalística brasileira.

Para evitar esse risco temível, os fatos mais importantes e brutais da década tiveram de ser suprimidos. Nenhum leitor ou telespectador brasileiro ficou sabendo da liquidação da tribo montagnard no Vietnã, dos “Aquários de Pionguiangue” (o Gulag norte-coreano), do extermínio de um milhão de tibetanos pelas tropas chinesas de ocupação, do “Livro Negro da Revolução Cubana” que calcula em cem mil o número de vítimas do regime de Fidel Castro.

Anos atrás, em sucessivos e-mails que enviei ao diretor da Folha , Otávio Frias Filho, cobrei dele o oceano de notícias faltantes. Ele disse que ia pensar no caso. Vejo que pensou. O resultado está no jornal do dia 13. Mas a verdade veio profundamente alterada.

Desde logo, o genocídio aparece transfigurado em efeito de perseguição racista, e não religiosa, quando ninguém no mundo civilizado ignora que não é uma guerra de brancos contra negros e sim de muçulmanos – eles próprios negros na maioria – contra as duas comunidades religiosas minoritárias: animistas e cristãos. Principalmente contra estes últimos.

Para encobrir a motivação religiosa da violência, o repórter distorce até a palavra “arabização”, que no contexto sudanês designa a imposição da língua litúrgica do Islam como idioma nacional, e lhe dá sentido genético, incompatível com a composição étnica do Islam em geral, onde os árabes são minoria.

Mas o detalhe mais maravilhoso é a questão das culpas internacionais.

Numa visão objetiva, o país mais culpado é a China, por ser, fora do círculo islâmico, o principal fornecedor de armas para os genocidas. Em contrapartida, o mundo inteiro sabe que as maiores pressões contra a violência sudanesa partiram dos EUA, a primeira nação, aliás, a usar o termo “genocídio” para descrever o caso. Quando a ONU tirou os EUA da Comissão de Direitos Humanos, colocando em seu lugar precisamente o Sudão, o sentido cínico da mensagem foi bastante claro.

O repórter do Independent consegue inverter a realidade, fazendo dos EUA o cúmplice essencial do genocídio – sem alegar para isso outra razão exceto a de que Bush aceitou do governo sudanês informações sobre o paradeiro de bin Laden (como se ele tivesse a obrigação de recusá-las de Satanás em pessoa) –, e mencionando a China apenas de passagem, entre outros países, como se fosse um personagem menor na história.

Por fim, ele acusa pesadamente as empresas capitalistas ocidentais presentes no Sudão do crime hediondo de pagar impostos... como se imposto fosse adesão voluntária.

Teoria Da Pura Coincidencia

16 de março de 2012 | Diário do Comércio

Quando surgiu um zunzum de que a avó de Barack Hussein Obama dizia ter assistido ao parto dele em Mombasa, o governo queniano mandou investigar e descobriu que, no arquivo do hospital, faltavam justamente os registros da semana de agosto de 1961 em que teria ocorrido o nascimento da criatura.

Agora, a comissão nomeada pelo xerife Joe Arpaio constatou que, nos arquivos da Imigração, onde são guardadas em microfilme aquelas fichas que os passageiros de viagens aéreas preenchem antes do desembarque, faltam as fichas das pessoas que chegaram do Quênia naquela mesma semana.

No Arquivo Nacional de Washington, a mesmíssima coisa.

E, por incrível que pareça, os registros daquele período estão ausentes, também, dos arquivos das companhias aéreas que em 1961 tinham vôos entre o Quênia e os EUA.

Ver nisso tudo algum indício de ocultação proposital é, na opinião bem-pensante, pura “teoria da conspiração”, mas tentar atribuir essa quádrupla convergência de sumiços a um acúmulo fortuito de coincidências é forçar a pobre lei das probabilidades até o último grau da inverossimilhança concebível.

Mesmo esse grau, porém, é manifestamente ultrapassado quando alguém pretende que foi também por pura coincidência que essas coincidências aconteceram não a um cidadão qualquer, nem mesmo a um presidente qualquer, mas logo àquele que recusa mostrar seus passaportes, seus registros escolares, seus trabalhos acadêmicos e outros documentos que seus antecessores sempre abriram à inspeção pública. Entre a Teoria da Conspiração e a Teoria da Pura Coincidência, a primeira, a esta altura, já se tornou muito mais razoável.

Por fim, se esse presidente exibe um certificado de alistamento militar com carimbo grosseiramente falsificado e, mandando publicar uma cópia eletrônica de sua certidão de nascimento, gasta um milhão de dólares com advogados para impedir o acesso ao original do documento, o teórico da pura coincidência, que se pretende a encarnação máxima da sanidade, já começa a parecer aquilo que sempre foi: um louco, um idiota completo ou parte interessada na ocultação do óbvio.

A experiência me ensinou que, quando a maioria bem-pensante aposta que dois mais dois são cinco, é mais prudente nadar contra a maré e ser apontado nas ruas como louco. A opinião respeitável pode ser muito respeitável, mas a matemática é mais.

Afinal, essa gente toda apostou que o Foro de São Paulo não existia, que o PT não tinha nada a ver com as Farc nem estas com o tráfico de drogas, que a ascensão do petismo acabaria com a era da corrupção na política e que a China se tornaria democrática tão logo adotasse a economia de mercado. Em todos esses casos me chamaram de louco porque eu dizia que não. E em todas essas ocasiões preferi antes ganhar a aposta sozinho do que perdê-la mal acompanhado.

Que Obama seja o “Presidente da Manchúria”, que por trás da súbita e misteriosa ascensão de um ilustre desconhecido ao comando da nação americana haja um vasto esquema de ocultação e manipulação, a maior fraude política de todos os tempos, é coisa que, no meu modestíssimo e louquíssimo entender, já nem se discute. Quem quer que ainda tenha dúvidas a respeito sofre de Síndrome do Piu-Piu em estado terminal.

Só o que resta é sondar melhor as finalidades da operação. Não posso crer, razoavelmente, que o objetivo de tão complexo, trabalhoso e arriscado empreendimento fosse apenas a conquista da presidência, nem que os planejadores da coisa imaginassem poder manter os fatos encobertos e invisíveis para sempre.

Ao contrário: a operação deve ter como objetivo último o efeito psicossocial traumático, devastador, que a revelação da fraude, mais dia menos dia, virá a ter sobre todo o eleitorado que se rendeu ao engodo com paixão e entusiasmo, cedendo à chantagem racial ostensiva, confiando cegamente nos inimigos e expondo à perseguição e à zombaria os mais sinceros patriotas. Induzir toda uma população a apostar contra si mesma, a ajoelhar-se ante o altar de um ídolo postiço com identidade falsa, é sem dúvida a vitória mais admirável que alguém já obteve no campo da guerra psicológica.

Nesse sentido, a própria revelação da verdade contribuirá para a derrocada dos EUA, criando uma crise constitucional e social num momento em que o país, em estado de estupor, estará atolado num desastre econômico sem precedentes e metido ou em vias de meter-se em mais uma guerra.

É impossível que essas linhas de conseqüência não tenham, desde o início, entrado nos cálculos dos planejadores. Quem são eles possivelmente, é o que tentarei sondar num artigo vindouro.

O Povo Merece

16 de maio de 2004 | Zero Hora

Outro dia fui procurado por um professor de faculdade que pedia informações sobre o movimento conservador nos EUA para uma tese de relações internacionais. Ele tinha vasculhado as principais bibliotecas universitárias do país, sem encontrar mais que cinco ou seis títulos. Isso dá a medida de quanto o Brasil, mergulhado há duas décadas num poço de ilusões solipsísticas, foi parar longe da realidade do mundo.

Analisar o atual governo americano sem conhecer sua retaguarda doutrinal e ideológica é como seria, na década de 40, pontificar sobre Stalin sem nunca ter ouvido falar de Marx ou de Lênin. Nossos comentaristas de mídia e professores universitários fazem isso com a maior sem-cerimônia, parecendo acreditar-se detentores de uma ciência infusa que prescinde de todo contato com os fatos e os textos.

Anos atrás, denunciei a fraude de um “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita”, elaborado com dinheiro público por uma centena acadêmicos. Prometendo um panorama científico de uma importante corrente política mundial, a obra omitia todos os principais escritores e filósofos conservadores e colocava em lugar deles panfletários de quinta categoria, premeditadamente escolhidos para criar uma impressão de miséria intelectual e fanatismo selvagem.

Pela amostragem numericamente significativa dos signatários da empulhação, era obrigatório concluir que o establishment universitário brasileiro havia perdido os últimos escrúpulos de seriedade, consentido em tornar-se instrumento consciente da exploração da ignorância popular.

Como movimento intelectual assumido, o conservadorismo anglo-saxônico começou em 1945, e a ele estão associados os nomes de alguns dos maiores pensadores do século XX, como Leo Strauss, Eric Voegelin, Thomas Molnar, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, James Burnham, Roger Scruton, Irving Kristol, Thomas Sowell. Se esses e tantos outros do mesmo nível estão excluídos das bibliotecas universitárias e das prateleiras de livrarias brasileiras, não há nisso nada de surpreendente: nenhum esforço ativo de desinformação pode prosperar sem a prévia supressão das fontes que o desmintam. É preciso tornar essas leituras inacessíveis, antes de tudo, em razão da força intelectual que delas irradia, capaz de contaminar perigosamente uma juventude que só a virgindade mental conserva presa na jaula do obscuratismo esquerdista. A riqueza e a abrangência crescentes do debate cultural e político norte-americano, especialmente na ala conservadora, já o tornaram tão inacessível à imaginação brasileira que esta prefere refugiar-se na confortadora ilusão de que ele não existe.

Mas não é somente às idéias que o acesso está bloqueado. É também aos fatos. Por falta de fontes, ninguém neste país sabe nada do que os historiadores ocidentais descobriram nos Arquivos de Moscou desde 1990 sobre a história do comunismo, retaguarda indispensável à compreensão do estado atual desse movimento, que vai dominando a América Latina ante os olhos cegos de milhões de paspalhos que o imaginam morto e inexistente.

Não há precedente histórico de uma privação de informações tão vasta, tão profunda, tão duradoura. Nem muito menos de um povo que, com o despreocupado conformismo dos inconseqüentes, se acomodasse tão deleitosamente à ignorância imposta.

Essa indolência mental, esse desprezo pela busca do conhecimento, concomitante à orgulhosa afirmação de certezas arbitrárias, produz fatalmente um desajuste na ordem prática, que se traduz, retoricamente, no ufanismo patético dos derrotados e dos impotentes.

Não é verdade que todo povo tem o governo que merece. Mas o brasileiro, sem dúvida alguma, tem.

Em 16 de maio de 2004

A Dupla Face Do Etanol

16 de junho de 2008 | Diário do Comércio

O eleitor comum das democracias está habituado a enxergar a luta política como uma concorrência entre programas de governo. Mesmo sabendo que os candidatos podem trair suas promessas depois de eleitos, ele toma seus programas respectivos como expressões fidedignas das forças em disputa, das quais acredita assim possuir um conhecimento apropriado e realista, ainda que genérico e esquemático. Do mesmo modo ele acredita possuir uma visão suficientemente exata da regra do jogo, da estrutura geral em que as forças concorrentes se encaixam e dentro da qual se movem sem modificá-la substantivamente.

Chamar isso de “política” é, no entanto, uma redução metonímica. A política que aparece na realidade histórica e nos bons livros de História abrange um território imensamente mais vasto: é o campo inteiro das relações de poder, das quais somente uma parcela ínfima corresponde ao formalismo da regra democrática. Nenhuma democracia pode funcionar se não admitir, ao lado, em cima ou em baixo da disputa regulamentada, uma série de elementos que nem sempre são propriamente antidemocráticos, mas sim extrademocráticos, isto é, não redutíveis às categorias da disputa democrática. Esses elementos podem operar em concordância com o sentido geral da democracia ou contra ele. Nos dois casos, permanecem mais ou menos invisíveis à pura perspectiva eleitoral.

Uma ilustração clássica encontra-se no livro “A Elite do Poder”, do sociólogo C. Wright Mills. Publicado originalmente pela Oxford Press em 1956, esse estudo buscava responder a duas perguntas: 1) Quem manda realmente nos EUA? 2) Quais são os mecanismos que aí controlam a subida e a descida na escala do poder? Embora bastante incompleto já na época e agora totalmente superado pelo desenrolar dos acontecimentos ao longo de meio século, esse livro foi um exemplo notável de busca da realidade por trás dos formalismos jurídico-eleitorais em que se concentra não só o interesse da mídia, mas a visão que o público em geral tem do fenômeno “poder”.

Esse público não ignora que existem na política os elementos extrademocráticos, mas uma espécie de automatismo mental inerente à estrutura mesma do processo democrático faz com que esses fatores sejam impensadamente classificados, seja na categoria do “ilegal”, seja na do “irrelevante”. No primeiro caso entram, por exemplo, as organizações terroristas e subversivas em geral. No segundo, as tramóias ocultas que afetam o curso do processo sem violar substantivamente a estrutura geral da regra democrática e, no fim das contas, se encaixam nela de maneira mais ou menos indolor.

Mas essa visão “oficial” do processo político não tem nenhuma prioridade cognitiva ante a visão que do mesmo processo têm os revolucionários, os conspiradores e os subversivos em geral, bem como, de outro lado, os mais altos escalões da elite governante que, por seu poder econômico, seu prestígio intelectual ou sua pertinência a organizações semi-secretas de proteção mútua, estejam “acima” do processo eleitoral. Cada um desses pontos de observação fornece uma imagem do processo democrático que vai muito além do recorte visível ao eleitor comum. Uma ciência política digna do nome deve abarcar todos esses pontos de vista, experimentar todas essas perspectivas, articulando-as por fim numa descrição geral que possa ser confirmada no terreno dos fatos e sobreviver ao teste das confrontações dialéticas.

Hoje em dia isso é mais necessário do que nunca, porque vai se tornando cada vez mais clara a presença mundial de uma nova fonte de poder, que se sobrepõe não só às facções em disputa ostensiva, mas até às fronteiras nacionais que delimitam localmente as regras do jogo. Para simplificar, chamamos esse elemento de “elite globalista”. Ele compõe-se essencialmente de banqueiros internacionais que controlam a economia de vários países, mas seu Estado-maior abrange também importantes lideranças intelectuais e políticas que consentem em desempenhar um papel duplo na sociedade, por um lado como porta-vozes ostensivos desta ou daquela corrente política e por outro lado como agentes a serviço discreto da elite globalista – papéis que ora se superpõem e se fundem, ora se afastam e se diferenciam ao ponto de simular uma contradição total.

Como a elite globalista tem planos de escala mundial que se diferenciam numa multiplicidade de subestratégias locais, ela pode facilmente passar por cima de toda a visão “oficial” e midiática da luta política, operando de maneiras que embora nada tenham de secreto, permanecem praticamente invisíveis à opinião pública, produzindo assim resultados históricos que aparentam resultar de uma somatória de coincidências, senão de uma fatalidade histórica anônima, de um decreto de Deus.

No momento, um dos pontos importantes da estratégia globalista é quebrar a espinha dorsal da soberania americana, que ela vê, com razão, como um dos obstáculos maiores à implantação do seu querido projeto de governo mundial. Estrangular a economia americana e ao mesmo tempo desencadear ondas de anti-americanismo por toda a parte são, pois, dois aspectos de um mesmo esquema. Para implementá-lo, a militância ecológica – um dos tentáculos mais fortes do polvo globalista – pode ser usada de duas maneiras simultâneas, opostas e complementares. No âmbito nacional americano, ela demoniza as companhias de petróleo e fornece o argumento “moral” para que o Congresso hoje dominado pela esquerda light proíba a perfuração de novos poços. Isto produz artificialmente a elevação dos preços da gasolina – cuja culpa é em seguida imputada à ganância das empresas – e aumenta a dependência americana de fontes exteriores cada vez mais hostis aos EUA. A pressão da militância ecológica leva diretamente ao esforço para substituir a gasolina pelo etanol. Mas, ao mesmo tempo, o etanol, consistindo sumariamente em queimar comida para manter os carros em movimento nas estradas, pode parecer bastante odioso nos países mais pobres. Aí a militância ecológica fornece aos estrategistas do globalismo um serviço complementar, paradoxal só em aparência: os grupos de esquerda no Terceiro Mundo – no nosso caso, o MST – são mobilizados contra o projeto de substituir a gasolina pelo etanol, apresentado como imposição intolerável do “imperialismo americano”. Só assim se compreende por que a esquerda é ao mesmo tempo favorável e desfavorável ao etanol, conforme o ângulo de onde pretenta atacar os EUA. A dupla face do etanol é uma das amostras mais evidentes da tática de bater com as duas mãos, tão característica do movimento revolucionário ao longo dos séculos. Comparada à simplicidade esquemática da luta eleitoral, a verdadeira política é uma rede de esquivas e subterfúgios que parece nascer mais da astúcia satânica que da racionalidade humana.

Em 16 de junho de 2008

Crescendo Em Silencio

16 de junho de 2001 | Época

Quanto mais forte o comunismo se torna no Brasil, menos se pode falar dele Nunca no mundo se publicaram tantos e tão bons livros sobre o comunismo quanto nestes anos que se seguiram ao desmantelamento da URSS. O motivo é óbvio: a abertura, ainda que parcial, dos Arquivos do Comitê Central do PCUS, um tesouro inesgotável para os estudiosos. Não é de espantar que, rompida a barreira do segredo estatal, tantos investigadores se precipitem sobre os registros de um passado macabro para decifrar o que foi certamente um dos maiores mistérios da História humana: a genuflexão voluntária de milhões de homens cultos ante o altar de uma doutrina grotesca, assassina e intrinsecamente absurda.

Todos os paradoxos, todas as contradições da alma humana se espremem e se fundem na composição desse mistério de iniqüidade: compreendê-lo para não reencená-lo é o dever número 1 de quem tenha assimilado a lição de Sócrates segundo a qual “uma vida não examinada não é digna de ser vivida”.

Mas o que espanta não é a onda mundial de curiosidade que fez de Moscou a meca dos historiadores. É o absoluto desinteresse que, no Brasil, se opõe à divulgação de suas descobertas.

Mais que depressa, no começo dos anos 90, no Brasil o comunismo foi decretado coisa do passado, e quem se interessasse em relembrar-lhe os crimes e atrocidades se tornava suspeito de fanatismo macarthista, se não de obsessão monomaníaca merecedora de cuidados psiquiátricos. Esquecer, silenciar – ou na melhor das hipóteses despedir-se do assunto com meia dúzia de lugares-comuns aceitos como explicação definitiva – tornou-se uma lei natural a que somente os anormais poderiam furtar-se.

Mas anormal, digo eu, é um cérebro capaz de julgar mera coincidência que essa década de esquecimento do comunismo fosse também a de maior expansão da influência comunista sobre os destinos do país.

Não me refiro só ao crescimento eleitoral da esquerda. Refiro-me à conquista do monopólio da pregação política nas escolas (onde a hipótese de um discurso anticomunista é hoje inconcebível) e à consolidação de certos direitos morais adquiridos que são ostensivamente negados ao restante da população.

Um movimento comunista abertamente violento é hoje aceito como parceiro do Estado sem precisar sequer de registro legal. Políticos comunistas podem associar-se a quadrilhas de traficantes sem ser jamais investigados. Grupos comunistas podem bloquear à vontade as vias de comunicação, sem que ninguém veja nisso um óbvio exercício de treinamento insurrecional.

Com o apoio ostensivo do governo, os comunistas colocaram-se acima da lei e ainda detêm em suas mãos o monopólio quase completo dos meios de investigar, denunciar, julgar e condenar. Antes mesmo de ocupar nominalmente o poder, eles já se tornaram uma classe especial, uma nomenklatura onipotente, arrogante e intolerante. Em conseqüência, o simples ato de escrever uns artigos contra eles tornou-se um insulto, uma ameaça, um abuso insuportável.

Eis aí a razão do desinteresse a que me referi. Há uma direta conexão de causa e efeito entre a proibição tácita de olhar o passado e a rapidez fulminante com que ele se repete diante de milhões de olhares sonsos que, não o conhecendo, não o podem reconhecer. O comunismo “saiu da moda” como as roupas que saem das passarelas para entrar no uso geral e cotidiano. Simplesmente foi preciso mantê-lo fora do horizonte de consciência nacional para que, sem ser incomodado por olhares inquisitivos, ele pudesse crescer à sombra da indiferença geral de suas vítimas.

Por isso mesmo interpreto em sentido inverso os conselhos inibidores que me recomendam falar menos do comunismo para não parecer maluco ou fanático. Diante da grande tragédia que se prepara, só um observador morbidamente intimidado se absteria de tocar no assunto para não dar a impressão de estar vendo coisas. E, sinceramente, não vale a pena se deixar enlouquecer por mera obsessão de parecer normal.

Em 16 de junho de 2001

Morrendo Pela Boca

16 de julho de 2008 | Diário do Comércio

De uns dias para cá, Barack Hussein Obama caiu significativamente nas pesquisas de intenção de voto, sem que seu adversário fizesse nada para isso acontecer ou dissesse mesmo uma palavra sequer contra ele. McCain até defendeu a honra do candidato democrata, alegadamente ofendida por uma charge de capa da revista The New Yorker , em que Obama aparece vestido de árabe e a sra. Obama de terrorista.

The New Yorker não é conservadora, é esquerda anestésica. Mas mesmo entre os esquerdistas mais enfezados a reputação de Obama já não é tão linda quanto umas semanas atrás. Milhões de adeptos de Hillary Clinton estão pedindo suas contribuições de campanha de volta, e Robert Redford, de quem se esperaria tudo menos isto, saiu dizendo que Obama é inexperiente demais para a presidência.

O problema com Obama é muito simples. Ele força demais no bom-mocismo, a imagem que ele vende é diferente demais da realidade: no empenho desesperado de encobrir a diferença, ele se atrapalha todo e acaba não dizendo coisa-com-coisa.

Numa pesquisa da America Online, que perguntava se Obama é “liberal” (esquerdista), “conservative” ou “flip-flop” (muda de lado a toda hora), 82 por cento dos entrevistados votaram no “flip-flop”. Eu estava online e votei também, mesmo sabendo que as alternâncias dele são só da boca para fora, que por dentro ele continua tão pró-comunista, pró-terrorista e desvairadamente antiamericano quanto Osama bin Laden poderia exigir da mais fiel das suas esposas. Pois a encrenca é exatamente essa: Obama não é autêntico nem na indefinição. John Kerry também mudava de posição toda semana, mas fazia isso porque não tinha mesmo convicção nenhuma, queria só chegar à presidência. Políticos sem convicções não são tão maus quanto parecem. Alguns alcançaram enorme sucesso, fizeram até grandes coisas. Abraham Lincoln só se voltou contra a escravidão quando lhe pareceu conveniente. Franklin Roosevelt não acreditava numa só palavra do que dizia, mas, quando decidia, estava decidido. O nosso Getúlio Vargas morreu sem que ninguém soubesse qual era afinal a ideologia dele; seus discursos eram obras-primas da desconversa universal – mas quem vai negar que ele criou as bases da indústria brasileira? A ausência de convicções, o flip-flop mais desvairado, pode ocultar um pragmatismo saudável. Mas Obama só se faz de pragmático para esconder os compromissos explosivos que o tornam um óbvio inimigo do seu país. E os escondeu tão bem que eles acabaram aparecendo na capa da New Yorker .

Enquanto isso, o velho McCain se faz de inofensivo, só esperando que o adversário morra pela boca. É tática de pobre, mas às vezes funciona. Obama tem 315 milhões de dólares a mais que ele para a campanha. Se torrar tudo em camuflagens, terá obtido o mesmo resultado eleitoral que alcançaria se comprasse 315 milhões de dólares em roupas árabes.

Em 16 de julho de 2008

Chega De Discussao

16 de janeiro de 2008 | Diário do Comércio

Deixemos de lado os mentirosos conscientes, interesseiros. Vamos falar dos outros. Qualquer jornalista, acadêmico, político ou formador de opinião em geral que, a esta altura, ainda insista em colocar em dúvida seja a existência, seja a importância e o poder do Foro de São Paulo, é com toda a evidência um incapaz. Sua presença no debate público só serve para entorpecer a inteligência da platéia e torná-la ainda mais lerda em perceber o óbvio depois de dezessete anos de hesitações e tergiversações imperdoáveis — criminosas, na verdade — à sombra das quais a mais poderosa organização subversiva que já existiu neste continente pôde crescer sem ser notada por um povo inteiro, que tinha o direito e a necessidade absoluta de saber tudo a respeito.

Quando uma profusão de documentos de fonte primária, mais a confissão aberta dos personagens envolvidos e por fim, no III Congresso do PT, o reconhecimento oficial do Foro como central estratégica da revolução continental não bastam para convencer um cérebro de que a entidade existe e é terrivelmente influente, é que esse cérebro já perdeu a capacidade humana diferencial, que é a de perceber a realidade através da palavra, e conserva somente o dom simiesco de imitar com guinchados sem sentido a fala dos homens.

Admito debater, com comunistas, o valor ou desvalor, os méritos e culpas do Foro. Discutir sua existência e sua eficácia política, seja com comunistas, seja com não-comunistas (ou anticomunistas), é uma palhaçada a que não posso me expor. Minha paciência com a mendacidade de uns e a psicastenia de outros tem limites, e estes já foram transpostos há muito tempo.

Foi por pura generosidade e sentimento de dever patriótico que persisti oferecendo provas e mais provas quando elas já não eram mais necessárias a nenhuma alma sincera e a nenhuma inteligência normal.

Agora chega. Nenhum dever de caridade, nenhuma devoção à pátria podem obrigar um estudioso a expor-se à última desonra intelectual.

Também não discutirei a sinceridade ou insinceridade do sr. presidente da República quando ele proclama que seqüestros são abomináveis e que não tem simpatia pelas Farc. O sr. Lula é um mentiroso abjeto, e ponto final. Já citei vezes inumeráveis o manifesto de solidariedade integral que o Foro de São Paulo, sob a presidência dele, assinou em favor da narcoguerrilha colombiana, no qual toda oposição do governo de Bogotá a essa gangue de assassinos era condenada como “terrorismo de Estado”; manifesto de louvor ao abominável, a que se seguiu anos depois, quando o tipinho já estava na presidência, a recusa terminante de aplicar às Farc o mesmo rótulo que naquele documento se concedia à pessoa do presidente Uribe e de todos os que morreram combatendo as hostes de Manuel Marulanda e Raul Reyes. Já mencionei vezes sem conta a imediata mobilização petista em favor de cada seqüestrador ou terrorista estrangeiro que a polícia prende neste país. Para que continuar insistindo no óbvio ante os que não querem vê-lo e os que não têm nem a coragem nem a capacidade de enxergá-lo?

Na Argentina os brasileiros são chamados de “los macaquitos”. Se aplicado à massa geral dos nossos compatriotas o apelido é injusto e difamatório, em outros casos – o da maioria dos formadores de opinião neste país – tudo o que ele tem de inadequado é o tom carinhoso do diminutivo. Macacos são, e dos grandes, sem o atenuante da idade tenra.

Outra coisa que também já esgotou minha paciência é a constância obsessiva com que os temas inéditos das minhas colunas são reciclados, cinicamente, por opinadores iluminados que, sem jamais citar a fonte, vendem minhas idéias como fossem suas, reformatando-as, é claro, segundo o padrão de suas inteligências mal dotadas. Tornei-me o pauteiro oculto de uma multidão de criaturas vistosas. Os casos são centenas e já vêm desde 2001 pelo menos (v.

Pauteiro da USP ). Vou dar aqui só os dois exemplos mais recentes. Outro dia, o messianismo, conceito que aplico ao petismo com todo o rigor que aprendi em Norman Cohn , Luciano Pellicani e Eric Voegelin, reapareceu como artifício vulgar de retórica antipetista politicamente correta no artigo de Marcelo Otávio Dantas, “Messianismo e o credo petista”, Folha de S. Paulo , www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2312200709.htm . Agora, a contestação da vitória comunista na guerra do Vietnã, que os leitores do DC leram aqui em 7 e 14 de janeiro, reestréia com mais detalhes na coluna de Élio Gaspari do dia 16. Provavelmente Dantas e Gaspari, consultados a respeito, responderão que jamais lêem meus artigos. Claro: pessoas maravilhosas (no sentido que dei ao termo em O Imbecil Coletivo ) não lêem Olavo de Carvalho. Adivinham-no por genialidade espontânea.

Em 16 de janeiro de 2008

A Esquerda Americanizada

16 de janeiro de 2006 | Diário do Comércio

No tempo da ditadura, os esquerdistas da mídia, embora conservassem o poder sobre as redações, se sentiam isolados e constrangidos. Não tanto pela censura quanto pela hostilidade geral da população às guerrilhas. Deprimia-os que o povo não gostasse de ver recrutas e civis brasileiros ser feitos em pedaços por carros-bombas. Magoava-os profundamente que ninguém visse nada de heróico em “justiçar” com tiros nas costas homens desarmados, que ninguém admirasse a nobreza de sentimentos com que o capitão Lamarca esmagava a coronhadas a cabeça de um prisioneiro amarrado.

Hoje, esses episódios sumiram tão completamente dos mesmos jornais que os denunciavam, que já parecem invencionices retroativas da direita. Na época, os próprios jornalistas de esquerda eram obrigados a contar tudo tim-tim por tim-tim, sem poder em contrapartida expor ao menos em detalhes a sua parte, os padecimentos que seus amigos terrorristas sofriam – oh, quão injustamente! – em retribuição das bombas e das emboscadas. Tinham os mais altos cargos e os melhores salários, mas eram tão incompreendidos e infelizes que precisavam consolar-se mediante festinhas de embalo no Copacabana Palace. Terminaram achando que drogas e surubas tinham um alto potencial revolucionário, e não estavam de todo errados, já que acabaram conseguindo mais eficazmente corromper as gerações seguintes do que ganhar alguma simpatia dos contemporâneos para a violência revolucionária. Vindo a calhar com a estratégia gramsciana que então começava a ser importada, o modelo americano de “guerra cultural” da New Left , que no início julgavam desprezível e burguês na comparação com as propostas truculentas de Che Guevara e Régis Débray, acabou sendo a tábua de salvação que lhes permitiu sobreviver para reinventar depois a história daquele período, fazendo da derrota das guerrilhas uma espetacular vitória publicitária e uma fonte inesgotável de verbas consoladoras.

Mas não foi só nisso que a esquerda midiática se americanizou. A época foi também a do afluxo maciço de brazilianists , que embora fossem também quase todos de esquerda – alguns deles tão enragés quanto qualquer guerrilheiro –, eram bem recebidos pelo governo por conta das instituições que os patrocinavam. Muita coisa que a esquerda local não podia dizer era dita pela boca desses medalhões, de onde o discurso esquerdista saía perfumado com o aroma da superior neutralidade acadêmica da Ivy League.

Aos poucos, o hábito de respaldar-se em declarações de americanos apresentados como insuspeitos tornou-se um dispositivo usual da retórica esquerdista. Na verdade homens como Ramsey Clark, John K. Galbraith, Jimmy Carter ou Ted Kennedy eram a fina flor do esquerdismo chique. Estavam comprometidos até a goela com a ajuda à subversão no Terceiro Mundo. Mas a simples insistência geral da esquerda na lenda de que o golpe militar viera de Washington dava a qualquer americano, por contraste, a autoridade para falar contra a direita latino-americana sem parecer nem um pouquinho esquerdista. O mesmo acontecia com jornais patologicamente mentirosos em favor da esquerda, como New York Times e Washington Post , que ante a platéia tupiniquim ignorante, podiam ser citados como modelos de isenção profissional pelo simples fato de ser americanos.

A geração seguinte de esquerdistas continuou usando o mesmo truque, mas por automatismo paspalho e sem saber que era truque. Quando um Eliakim Araújo, ardido de dores petistas e embriagado de alegria vingativa pela demissão de Boris Casoy, compara desvantajosamente o ex-âncora da Record a “respeitados jornalistas do horário nobre” da TV americana, incluindo entre estes últimos dois notórios vigaristas de esquerda como Peter Jennings e Dan Rather, ele parece acreditar mesmo no que diz, coitado. A malícia dos gurus impregnou-se em seus discípulos sob a forma de ingenuidade perversa. Eles já não mentem por astúcia. Mentem porque ninguém os ensinou a fazer outra coisa.

Notinha horrível Quanto às festinhas no Copacabana Palace, não falo genericamente. Há uma crônica inesquecível de Daniel Más sobre isso, publicada na extinta revista Visão . Segundo o cronista, até a expressão “Anos Dourados”, usada para designar de maneira aparentemente paradoxal uma época também carimbada como “Anos de Chumbo”, se originou entre o pessoal da mídia e do show business por alusão a uns pacotinhos dourados em que vinha a cocaína. O episódio é edificante. Um dia, turistas estavam brincando de jogar-se uns aos outros na piscina do hotel, enquanto a turminha esperta dos brasileiros, nas mesas em torno, aguardava a chegada de um boliviano que trazia o pó. De repente, aterrorizados, viram o sujeito entrando e sendo agarrado pelos brincalhões. Não houve tempo nem de gritar. Foi o desespero geral: todo mundo pulando na água, atrás dos papeizinhos dourados...

Abramoff para brasileiros Vocês devem ter lido na mídia brasileira que o caso das verbas ilegais do lobista Jack Abramoff é “um escândalo republicano”, que a investigação vai arrasar o base parlamentar de George W. Bush etc. e tal.

Tudo besteira.

O noticiário internacional que se publica no Brasil copia servilmente o New York Times , o Washington Post , a Reuters e demais fontes da “grande mídia” americana, mas o fato é que essa mídia, vista desde aí, fica bem maior que aqui. O NY Times , aos domingos, pico de vendas, tira pouco mais de um milhão de exemplares. Que é isso, perto dos 38 milhões de ouvintes diários do conservador Rush Limbaugh? Se você somar as platéias de Limbaugh com as de outros comentaristas conservadores de sucesso, como o elegante Bill O’Reilly, ou o explosivo Michael Savage, mais as colunas semanais de articulistas de direita distribuídos a centenas de jornais, como as de David Horowitz, Don Feder, Thomas Sowell, Ann Coulter, verá que, na disputa de público, a “grande mídia” é titica de galinha (sem contar o fato de que a credibilidade dos jornalões está muito baixa entre seus próprios leitores, não passa de 30 por cento). Por isso ela pode mentir à vontade, e quanto mais impopular mais mente, em puro desespero, em pura apelação. É o crepúsculo dos ídolos. Berrando e apanhando. Aqui todo mundo sabe que as coisas são assim. O pessoal só lê esses jornais para saber qual a opinião dos democratas, não a verdade do que está acontecendo. Quem quer a verdade compara o jornalismo de esquerda com o de direita e tira suas próprias conclusões.

O problema é que no Brasil (1) a mídia esquerdista chique americana ainda tem prestígio, o pessoal das redações acredita mesmo que o NY Times seja uma fonte confiável; (2) não existe aí nenhum Rush Limbaugh; o jornalismo de direita é raquítico. Resultado: Tudo o que no Brasil se aceita como verdade factual sobre a política dos EUA é apenas a versão esquerdista, conscientemente deformada, conscientemente militante e cada vez mais fanática, cada vez mais descarada.

O noticiário sobre o caso Abramoff é um exemplo típico. Aqui os republicanos riem quando lêem que o escândalo é para o lado deles. Riem porque conhecem a lista dos políticos de oposição que embolsaram dinheiro do mega-vigarista. Nada menos de noventa por cento dos senadores democratas estão nela (v. a lista inteira em http://www.newsmax.com/archives /ic/2006/1/6/100900.shtml ). John Kerry, por exemplo, levou cem mil dólares. Hillary Clinton, mais modestamente, doze mil. E assim por diante. Quando ligarem o ventilador judicial, o grosso da sustância fecal vai para esse lado. Os democratas só estão fazendo onda na mídia. Na hora H, terão de escolher entre a pizzaria e a cadeia. Ninguém na própria esquerda ignora isso, mas para que estragar prematuramente um prazer que, por natureza, já está condenado a ser breve?

É por essas coisas que, quando o NY Times alardeia a queda de popularidade do presidente, jamais a compara com a sua própria, para não admitir o vexame. Bush, no ponto mais baixo, ainda tinha mais credibilidade do que toda a grande mídia americana somada.

Infelizmente, no Brasil, ninguém tem a menor idéia disso. Os EUA que se vêem daí só existem na imaginação esquerdista. São uma entidade fantasma fabricada pela esquerda americana para consumo próprio, e que acaba sendo mais consumida no Terceiro Mundo do que aqui, como todo produto americano que o mercado interno rejeita como demodé .

Duas estratégias Há hoje em dia pelo menos duas maneiras de inserir um país do Terceiro Mundo na estratégia comunista internacional. A primeira é usar os instrumentos clássicos do populismo radical, declarando guerra à iniciativa privada e ao capital estrangeiro. A segunda é transferir a guerra do campo econômico para o cultural e jurídico, anestesiando os investidores internacionais por meio de uma política econômica mais ou menos “ortodoxa” e assim ganhar tempo para ir minando as crenças tradicionais do povo e implantando discretamente, em lugar delas, novas leis e costumes “politicamente corretos” que, no prazo devido, acabarão inevitavelmente rendendo frutos ainda mais explosivos que qualquer espalhafato “anti-imperialista” de Hugo Chávez e Evo Morales.

Qualquer profissional do comunismo que tenha alguma competência e seriedade sabe que não faz sentido preferir uma via ou a outra. A escolha não depende de preferências individuais, mas da sábia adaptação às circunstâncias, mudando de rumo quantas vezes seja necessário para desorientar as vítimas e, no conjunto, fazer avançar o processo de maneira irreversível. Ter não uma, mas duas estratégias alternadas ou combinadas é, aliás, o mínimo que se poderia esperar de cérebros versados na dialética de Marx, onde a revolução avança por meio da administração inteligente das contradições.

No Brasil, as duas estratégias citadas correspondem à via petista originária e à via tucana. Por ter sido eleito para implantar a primeira e depois adotado a segunda, o sr. Luís Inácio Lula da Silva é chamado de traidor pela massa ignara. Nos altos círculos do Foro de São Paulo, Fidel Castro e Hugo Chávez riem dessa indignação histérica porque sabem que Lula nunca foi tão fiel à estratégia global do movimento.

A duplicidade de vias permite que, nas horas de aperto, a esquerda tire proveito publicitário até de seus próprios crimes e desvarios. Quando algum corrupto de esquerda é pego em flagrante, basta acusá-lo de traidor, de vendido para a direita, mesmo quando ele não tenha roubado para si próprio e sim para o esquema partidário, o que é precisamente o caso do Mensalão. O Fórum Social Brasileiro, que se anuncia para breve, está programado exatamente para esse fim: capitalizar a roubalheira petista, explicando-a retroativamente como delito de “neoliberalismo”...

Outro exemplo: a esquerda americana envia à Amazônia uns “missionários” do Conselho Mundial das Igrejas para fomentar entre os índios ambições politicamente corretíssimas de “nações indígenas” independentes, enquanto a esquerda brasileira, explorando a ignorância nacional de que essa entidade é pró-comunista, aproveita o caso para denunciar o “imperialismo americano”.

Mais caracteristicamente ainda, presidentes americanos notoriamente pró-esquedistas como Jimmy Carter e Bill Clinton incentivam a destruição das forças armadas latino-americanas, último baluarte de resistência anticomunista no continente, enquanto agitadores locais se infiltram nas academias militares e em think tanks como a Escola Superior de Guerra para incitar na oficialidade, com base nisso, o ódio anti-americano. A operação completa-se quando em seguida aparecem líderes tradicionais da esquerda afagando os militares e insinuando que está na hora de “superar velhos ressentimentos” e unir-se “contra o inimigo da pátria”.

Uma Causa Nobre

16 de janeiro de 2003 | Jornal da Tarde

A mais alta expressão cultural que se admite no Brasil de hoje é aquilo que antigamente se chamava “literatura digestiva”. O que quer que ultrapasse a crônica leve, engraçadinha, é considerado um ato de prepotência intelectual premeditado para humilhar as pessoas, um atentado contra a democracia e os direitos humanos.

Decerto essa censura não se aplica aos teóricos da esquerda militante, principalmente quando têm a prudência de despejar seu discurso erudito em publicações universitárias e suplementos culturais que só os devotos lêem.

Culpado de arrogância e elitismo é aquele que, sem ter sequer a identidade ideológica requerida para desfrutar da indulgência dos leitores, ouse falar ao público geral numa linguagem que esteja um pouco acima da de João do Rio, Humberto de Campos ou seus equivalentes contemporâneos. Nada ofende mais a dignidade dos brasileiros do que alguém confiar na sua inteligência, escrevendo para eles como se fossem pessoas capazes de um esforço de compreensão. Afinal, o que entendem por sua “dignidade” consiste justamente em ser respeitados no seu direito à burrice vaidosa, à incultura auto-satisfeita. Tratá-los como seres inteligentes é portanto aviltá-los, sugerindo que há na inteligência alguma virtude que a ignorância não tem.

Não há maior homenagem que se possa prestar a um brasileiro do que sugerir que ele merece ter um cargo mais alto, uma remuneração mais polpuda, sem nenhuma obrigação de melhorar por dentro.

O culto das exterioridades, a firme decisão de avaliar um homem não pelo que é, mas pela posição que ocupa, chega aí às últimas conseqüências. Já não se contenta em sobrepor os direitos da futilidade às exigências do homem essencial, mas pretende que estas sejam apenas um pedantismo de intelectuais, um adorno inútil que não confere a seu portador um décimo da dignidade de um bom terno Armani.

José Ortega y Gasset definia o “homem-massa” como aquele que não apenas é espiritualmente inferior e se contenta em sê-lo, mas quer ser reconhecido como superior em razão dessa inferioridade mesma. Ocupa os lugares mais altos da sociedade com plena consciência – e íntima satisfação – de não ter preocupações mais excelsas que as de um torcedor no campo. Até recentemente, esse personagem me parecia apenas um “tipo ideal” weberiano, um retrato imaginário de tendências gerais latentes, que não chegavam a se encarnar em nenhum indivíduo real. Todos nós, acreditava eu, somos um pouco homem-massa, mas ninguém o é por completo. Talvez fosse assim, mas as coisas mudaram. No Brasil de hoje, cada político, cada jornalista, cada empresário ou banqueiro e – para cúmulo de desgraça – muito militar de alta patente com que tenho conversado é ou pelo menos deseja ser uma encarnação perfeita e assumida do homem-massa orteguiano, afastando com horror a tentação de ser coisa melhor.

Em muitos casos, essa recusa da inteligência e do conhecimento se envaidece, ao menos em segredo, de ser uma virtude religiosa, um tipo de humildade evangélica, condenando os desprovidos dela às penalidades infernais que a Bíblia impõe ao nefando pecado do orgulho.

Não é preciso dizer o quanto essa mentalidade ajudou a eleger presidente o sr. Luiz Inácio da Silva. Ele não é o homem pobre que, por esforço próprio, superando a resistência do ambiente, adquiriu alta cultura e, em competição desigual, venceu os filhinhos de papai diplomados por universidades estrangeiras. Não, esse não é o sr. Luiz Inácio. Esse é Machado de Assis, é Lima Barreto, é Capistrano de Abreu. Por isso mesmo não são considerados exemplares dignos das belas qualidades do povo brasileiro. Exemplar delas é o homem pobre que, levado nos braços de filhinhos de papai, subiu ao mais alto posto da República permanecendo tão ignorante e vazio quanto era no começo, exceto pela absorção passiva dos chavões partidários requeridos para o seu novo papel. “Medalhão” significa exatamente o sujeito que é rodeado de aplauso e respeito sem ter mérito pessoal que o justifique. O Brasil sempre esteve repleto de medalhões, a ponto de que Machado de Assis chegasse a criar toda uma teoria a respeito. Mas um medalhão operário, ah! Isto sim era coisa inédita. Podia-se aplaudi-lo, ademais, com o sentimento de estar servindo a altos propósitos morais. Haverá causa mais nobre do que estender aos desfavorecidos os benefícios da aurea mediocritas, as honras supremas do medalhonato nacional?

Em 16 de janeiro de 2003

Revolucao Gaucha

16 de fevereiro de 2002 | O Globo

A imaginação popular concebe as revoluções somente pelo lado espetaculoso, pela explosão insurrecional. Mas revolução é qualquer reviravolta profunda da estrutura de poder, seja operada por meio violento e ostensivo, seja introduzida aos poucos, de maneira quase imperceptível e aparentemente dentro da lei, sem que a população possa compreender ou controlar o curso dos acontecimentos. Duas das principais revoluções do século XX foram exatamente assim: a revolução alemã de Adolf Hitler e a tomada do poder pelos comunistas na Tchecoslováquia. Em ambos os casos, a violência só veio depois, quando era tarde para tentar detê-la. Mesmo nas revoluções cruentas, a brutalidade em toda a sua plenitude só se desencadeia após a tomada do poder. O que nunca houve nem haverá no mundo será uma revolução sem violência — nem insurrecional, no começo, nem repressiva, depois. Revolução “pacífica” quer dizer apenas uma revolução que só se torna violenta depois de vitoriosa.

No começo das revoluções “pacíficas”, o apego às crenças rotineiras, a falta de informação correta e o simples medo de ter medo impedem o povo de perceber o avanço rumo ao desenlace irreversível. Ao observador de fora, porém, que note a escalada das mudanças sem um olhar amortecido pela acomodação progressiva, não escapará o sentido trágico de acontecimentos que, no seu lento gradualismo, terão parecido à população local apenas irritações epidérmicas e passageiras.

É isso, precisamente, o que vejo a cada nova visita que faço a Porto Alegre. O Rio Grande está em revolução. Dentro de muito pouco tempo, estará consolidada no poder uma nova classe dominante, emergida da militância revolucionária; uma classe de arrivistas ambiciosos, ferozes e imbuídos da crença cega na sua própria impecância essencial, que os autorizará a todas as crueldades sob o adorno de belas palavras. Aos derrotados, desprovidos de suas propriedades e de seus meios de defesa, não restará outro caminho senão o exílio, a prisão ou a existência apagada e humilhante de ressentidos impotentes.

Mas faz parte da natureza mesma das revoluções “pacíficas” manter a população amortecida e sonsa mediante a alternância dos choques com a distribuição periódica de tranqüilizantes e soporíferos. A cada nova penetração da lâmina revolucionária no corpo da sociedade, segue-se uma injeção de entorpecente que transmuta a percepção em dúvida, a dúvida em subterfúgio, o subterfúgio em esquecimento e o esquecimento em tranqüilidade. Quando todo mundo está calmo, a faca entra mais um pouco.

No presente estado de coisas, as mudanças já me parecem praticamente irreversíveis, mesmo no caso de uma derrota do PT nas próximas eleições estaduais. Não há ingenuidade maior do que confundir o processo revolucionário com uma simples disputa eleitoral. A oposição gaúcha, valorosa e esforçada, está profundamente afetada dessa ingenuidade, apegando-se à esperança desesperada de que reste, nos governantes revolucionários, um fundo de lealdade democrática. Esse fundo não existe. O que existe é apenas a velha articulação leninista de meios legais e ilegais, pacíficos e violentos, calculada para desnortear o adversário e envolvê-lo em ilusões suicidas. Daí os resultados já alcançados.

Em primeiro lugar, a mudança psicológica. A educação, o imaginário, os valores e a linguagem diária da sociedade gaúcha já estão totalmente impregnados da nova mentalidade: quem quer que não creia possuir uma solução alternativa mágica e instantânea para os males que legitimam a revolução se sente inibido de opor-se frontalmente à onda revolucionária; e aqueles que crêem ter uma alternativa ficam cada vez mais afoitos de expressá-la na linguagem dos revolucionários, pondo lenha na fogueira. Os clichês esquerdistas — “exclusão”, “desigualdade”, “discriminação” — já se tornaram de uso geral e obrigatório. Quando um liberal ou conservador os emprega, julgando-se muito esperto por apropriar-se da retórica do adversário, não tem a mínima consciência de quanto essa assimilação vocabular denota sua fraqueza, seu esvaziamento ideológico e sua morte próxima.

Em segundo lugar, a inversão das legitimidades. À medida que a invasão de propriedades é consagrada como um direito, a propriedade é que se torna um ilícito. Desde que o STJ deu posse ao invasor, alegando que o proprietário anterior não dera provas cabais da produtividade da terra e omitindo-se de exigir prova idêntica aos novos ocupantes, torna-se claro que só a propriedade adquirida legalmente é contestável: a legitimidade da posse por invasão é automática e a priori. É claro que, logo após uma mutação tão drástica, seus promotores deixarão passar um tempo, para fins de anestesia, antes de generalizar sua aplicação a toda e qualquer propriedade. Mesmo então, continuarão procedendo de maneira lenta e gradativa, para evitar choques de percurso. Mas só um povo muito entorpecido ou muito ignorante da dinâmica das revoluções pode alimentar a ilusão de que alguém comece uma reviravolta tão profunda sem o intuito e os meios de universalizá-la. Uma revolução pode parar para descansar, mas nunca voltar atrás —- e, a cada nova retomada do movimento, há uma subida de patamar.

Em terceiro lugar, a mutação no controle dos meios de violência física. Um elemento essencial do Estado, ensinava Max Weber, é o monopólio do uso legítimo e, portanto, da distribuição desses meios. Deixá-los como estão ou redistribuí-los é o que distingue uma simples mudança de governo e uma revolução. Um governante constitucional mexe no orçamento, nos planos administrativos, nos projetos de obras públicas etc., mas não toca na distribuição dos meios de violência legítima. Exército, polícias, guardas particulares e simples cidadãos armados conservam seus direitos, seus deveres, seus papéis e suas armas. Já um governante revolucionário tem como objetivo prioritário justamente a mudança radical desse quadro: quando novos grupos passam a dispor dos instrumentos de violência legítima, enquanto seus antigos detentores são desarmados ou paralisados, está consumada a revolução. O desmantelamento consciente da brigada militar e sua substituição por milícias ideologicamente doutrinadas — processos delicados e complexos demais para ser descritos aqui em detalhes — já estão em fase avançada de execução no Rio Grande. Desde que existe o movimento comunista, há um século e meio, a função do revolucionário que os acasos da política coloquem em funções de governo num Estado não comunista é invariavelmente a mesma: desmantelar, debilitar ou neutralizar as seções do poder estatal que não estejam sob o comando direto da sua facção, enquanto seus colaboradores de fora do governo vão ao mesmo tempo formando os quadros de um “Estado virtual” aptos a substituir, gradativamente ou de súbito, as funções desativadas. O que o governo do Rio Grande está fazendo é isso, e nada mais que isso.

Em 16 de fevereiro de 2002

A Encrenca Mal Comecou

16 de dezembro de 2008 | Diário do Comércio

Apesar das várias confissões de culpa com que eminentes jornalistas de esquerda reconheceram o favorecimento indevido a Obama, o círculo de proteção não se desfez por completo depois das eleições. Quando se noticiou a prisão do governador democrata de Illinois, Rod Blagojevich, acusado de leiloar a vaga de Obama no Senado, o canal KHQA-TV simplesmente retirou do ar a notícia que publicara um mês antes, segundo a qual o presidente eleito tinha uma reunião marcada com Blagojevich para 6 de novembro, para discutir o nome do seu sucessor no Senado. Claro: como Obama alegava que não sabia de nada das tretas de Blagojevich, era preciso criar retroativamente uma impressão de que isso era verdade. O assessor de Obama, David Axelrod, que no dia 23 dissera à FoxNews “Eu sei que ele (Obama) conversou com o governador sobre vários nomes (de sucessores)”, também voltou atrás e assegurou que nunca soube de nada.

Similarmente, a mídia inteira está jurando que, no episódio Blagojevich, “Obama não está sendo acusado”, quando o fato é que as ligações estreitas do governador de Illinois com o vigarista Tony Rezko, financiador maior das campanhas de Obama e dele próprio, chamaram a atenção da Justiça ao ponto de fazê-la intimar novas testemunhas no caso do negócio imobiliário ilícito entre Rezko e Obama. Ao mesmo tempo, outro processo ligado ao caso, comprometendo Obama profundamente, foi aberto na cidade de Harvey, Illinois, onde o analista de crédito Kenneth J. Conner alega que foi demitido do Mutual Bank porque discordara das avaliações imobiliárias montadas, com a cumplicidade do banco, para favorecer Rezko e Obama. Estes dois fatos foram noticiados muito discretamente.

Forçada pelo desenrolar dos fatos a noticiar tardiamente aquilo que vinha escondendo, a CNN finalmente reconheceu que existem os processos judiciais questionando a elegibilidade de Obama ( http://edition.cnn.com/video/#/video/politics/ 2008/12/05/arena.obama.citizenship.cnn ). Porém, num esforço hercúleo para abafar o impacto do escândalo, deu a notícia em versão propositadamente atrasada, afirmando que desde a publicação do atestado de nascimento do candidato pelo site da sua campanha, a acusação já era “caso encerrado”. Isso é a exata inversão da realidade. A onda de processos começou justamente após a publicação desse atestado, que não é uma certidão de nascimento, com o nome do hospital e a assinatura do médico que assistiu o parto, e sim um documento eletrônico para ser impresso pelo próprio usuário, sem validade nem mesmo para a emissão de um passaporte ou de uma carteira de motorista. Longe de encerrar o caso, foi essa publicação que o inaugurou. A inversão é tão óbvia que não pode ter sido um equívoco da CNN. Foi mentira proposital.

A inocuidade legal do atestado não é um “argumento dos adversários”. É um simples fato da lei americana. O próprio Governo do Havaí não aceita esse documento como prova de nacionalidade. O site oficial do registro imobiliário do Governo havaiano ( Department of Hawaiian Home Lands , DHHL) explica a diferença entre a Certidão de Nascimento ( Certificate of Live Birth ) e o mero atestado ( Certification ):

“Certidão de Nascimento ( Certificate of Live Birth )... é um registro mais completo do seu nascimento do que o Atestado ( Certification ) gerado por computador para impressão. Apresentar a Certidão de Nascimento poupará tempo e dinheiro, pois o Atestado requer verificação adicional pelo DHHL . Ao solicitar uma cópia autenticada ao Departamento de Saúde (DOH, Department of Health ), informe ao funcionário que você a está requerendo ‘para fins da DHHL’ e que você precisa de uma cópia da Certidão de Nascimento original de nascimento, e não do Atestado gerado por computador.” (V.

http://hawaii.gov/ dhhl/applicants/Loaa%20Ka%20Aina%20Hoopulapula.pdf .)

Em suma: Obama não poderia comprar uma casa, um apartamento, um lote de terra, uma kitchenette no Havaí só com aquele atestado que ele impingiu aos eleitores como prova cabal da sua elegibilidade à Presidência dos EUA. Todos os candidatos à presidência sempre apresentaram cópias de suas certidões originais. Obama poderia receber a sua em casa, pelo correio, preenchendo um formulário de menos de uma página e pagando uma taxa de dez dólares.

O detalhe mais interessante no caso é que o atestado não foi publicado originariamente pela campanha de Obama, mas pelo site esquerdista DailyKos , de onde a campanha o copiou.

DailyKos tem entre seus colaboradores um especialista em computação gráfica, Jay McKinnon, o qual publicou no mesmo site , a título de “brincadeira”, um formulário em branco do mesmo tipo de documento e um atestado preenchido com o nome de I. B. Ahforgery, que soa exatamente como “Eu Sou Falso”).

DailyKos tinha, portanto, todos os meios técnicos de produzir quantos atestados falsos quisesse (v.

http://web.israelinsider.com/Articles/Politics/12956.htm ). Ao reproduzir e endossar o atestado eletrônico publicado por uma fonte tão suspeita, a campanha de Obama agiu com extraordinária leviandade, contrastando com suas ulteriores afetações de dignidade ofendida quando a autenticidade do documento foi posta em dúvida.

De maneira igualmente leviana age a mídia – mesmo conservadora – quando insinua que a rejeição do processo “Leo C. Donofrio versus New Jersey Secretary of State Nina Mitchell Wells” pela Suprema Corte prova a autenticidade do atestado de nascimento de Obama. Esse processo, justamente, não punha em dúvida o atestado no mais mínimo que fosse, mas o tomava como prova de que Obama, sendo filho de súdito britânico, tinha dupla nacionalidade. Os processos que questionam a validade do atestado são os de Philip J. Berg e Alan Keyes, que nem estão agendados ainda para discussão discussão entre os juízes.

Na verdade a mídia não “noticiou” propriamente a rejeição do caso Donofrio, mas a celebrou em tons triunfais – e omitiu-se por completo de noticiar que, no mesmíssimo dia, a Suprema Corte, por decisão do juiz Antonin Scalia, aceitou para exame outro processo do mesmo teor (“Cort Wrotnowski v. Susan Bysiewicz, Connecticut Secretary of State”), mostrando que, mesmo sem contar as dezenas de outros processos similares que aguardam na fila, a questão não está encerrada de maneira alguma (v.

Poder Absoluto

16 de agosto de 2007 | Jornal do Brasil

Um breve exame do site http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com/ basta para mostrar que o esquema petista tem o controle total da situação política e domina seus adversários para muito além do que estes ousam admitir em público ou até perante si mesmos.

O PT possui, para começar, um serviço de inteligência com informantes voluntários espalhados por todos os setores da existência social, prontos a vasculhar a vida financeira e pessoal de cada inimigo, fornecendo ao comando petista os elementos para destruir em poucos minutos as reputações que bem entenda. Os serviços secretos oficiais, hoje aliás também sob o controle do Partido-Estado, são apenas um pontinho na imensa área coberta pela KGB lulista.

O domínio estratégico que o PT exerce sobre a situação nacional estende-se para muito além do território brasileiro. Núcleos petistas ativos nos EUA e na Europa criaram uma rede de contatos que dá ao partido os meios de intimidar e paralisar seus adversários por intermédio da pressão de poderes internacionais (e ainda reclamar que “agentes do imperialismo” são os outros). Quem pode contra isso?

Há ainda a imensa malha de organizações militantes, treinadas e experientes, fazendo com que a declaração do sr. presidente, de que é o campeão imbatível da mobilização popular, não seja de modo algum uma bravata, mas a expressão fiel de uma realidade temível.

Os adversários do petismo, em contrapartida, só têm, em matéria de meios de ação, aqueles que lhes são propiciados pela posse de vários órgãos de comunicação – jornais, rádios e estações de TV – cujo funcionamento depende da proteção estatal e portanto, em última instância, do beneplácito petista. O PT é proprietário e mandante direto dos seus meios de ação e ao mesmo tempo é o provedor e administrador das armas dos seus adversários, apto a controlar a pressão oposicionista como o maquinista que gira as válvulas numa caldeira industrial.

Tais são as razões pelas quais a chamada “Zé-lite” só pode mover, contra o império petista, uma oposição débil, autocastrada e condenada a sobreviver dos favores de um inimigo onipotente. Toda a vida política nacional tornou-se uma agitação de superfície que só serve para encobrir e garantir a supremacia petista.

Nem conto, nesse diagnóstico, com o fato incontestável de que quase todos os antipetistas na classe rica estão tão sujos e comprometidos em esquemas de corrupção quanto a própria elite petista, com a diferença de que esta sabe mais da vida deles do que eles jamais saberão dela.

Nem menciono a evidência banal de que todo o trabalho petista se apóia numa elaboração analítica e estratégica de muitas décadas, que lhe dá uma retaguarda histórica e um horizonte de consciência incomparavelmente mais vastos do que seus adversários podem sequer imaginar.

E não é preciso lembrar que a assim chamada “oposição”, culturalmente cercada e enquadrada pela hegemonia gramsciana desde pelo menos duas gerações, nem mesmo consegue raciocinar fora dos parâmetros impostos pela cosmovisão esquerdista que domina até os pontos mais íntimos e discretos do imaginário nacional.

O fato de que até manifestações populares modestas e limitadíssimas, como as que se viram nas semanas passadas, surjam aos olhos do PT como intoleráveis ameaças golpistas, mostra até que ponto o esquema dominante se afeiçoou às delícias de um poder absoluto que nem mesmo precisa destruir fisicamente seus adversários porque psicologicamente já os colocou de joelhos.

Em 16 de agosto de 2007

Cinto De Castidade

16 de abril de 2006 | Zero Hora

Não restando no idioma pátrio nomes de vícios, pecados, infrações, delitos, aberrações e iniqüidades várias que já não tenham sido usados com inteira propriedade para descrever a conduta dos presentes governantes do país, faz tempo que chegamos àquele ponto de exaustão lingüística em que qualquer outro povo, no nosso lugar, já teria parado de falar e partido para a ação decisiva.

Se não fazemos isso, é por um motivo muito simples: povos não agem, povos apenas sofrem, desejam, sonham e esperam. Quem age são elites organizadas, e no caso brasileiro nenhuma delas pode se mexer, porque todas têm rabo preso . Todas, sem exceção, colaboraram para a criação do presente estado de coisas e têm razões de sobra para temer que qualquer sacolejo mais vigoroso na fortaleza estatal de papier mâché trará à luz, junto com as culpas do governo petista, as suas próprias.

Mas há também um motivo mais sutil por trás dessa paralisia.

Quando o senador Arthur Virgílio, um dos mais veementes acusadores do governo, recua ante a possibilidade de um impeachment que ele próprio reconhece ser justo e fundamentado, a razão que ele alega para esse súbito ataque de covardia é inteiramente plausível – mas é isto mesmo o que a torna ainda mais repulsiva. “Falta de apoio popular”, diz ele. É verdade. Com acusações muito menos graves pesando sobre suas costas, o ex-presidente Collor atraiu contra si, da noite para o dia, uma mobilização nacional tão ruidosa e multitudinária quanto a das Diretas Já. Ninguém, na época, admitiu o óbvio: que nada nessa explosão de ódio foi espontâneo, que tudo consistiu apenas em convocar a rede de organizações militantes que já estava preparada desde muito antes para atender a qualquer chamado de seus líderes e saltar sobre a goela do primeiro que eles a mandassem esganar, linchar ou comer vivo.

Nada de similar existe para ser convocado a gritar nas ruas contra a gangue lulista.

Há 40 anos, a “direita”, ou o que quer que leve esse nome, cedeu ao esquerdismo o monopólio da organização popular, contentando-se com a política de gabinete suficiente para suas finalidades imediatistas e abdicando de todo discurso ideológico próprio.

Vazia de meios e de idéias, essa oposição, ao sentir-se estrangulada pela prepotência petista, não pôde apelar senão ao expediente das imputações criminais assepticamente apolíticas , preservando-se assim de merecer o temido rótulo de direitista (que nem por isso deixou de lhe ser aplicado), mas condenando-se a só poder combater num campo limitado o adversário que, enquanto isso, a atacava por todos os lados.

Ainda assim, a quadrilha instalada no poder foi tão auto-indulgente, tão bestamente confiante, que ultrapassou todos os limites da prudência criminosa e começou a delinqüir em plena luz do dia, tornando-se visível e vulnerável. Foi ferida num só ponto, mas a ferida foi funda o bastante para fazer o monstro balançar. Balançar, porém, não é cair. Vendo a dificuldade de derrubá-lo, seus atacantes começam a vacilar, entregando-se a temores dissolventes e considerações eleitorais desanimadoras, quando deveriam, ao contrário, corrigir seu erro de quatro décadas e ampliar a frente de ataque.

O círculo dos crimes petistas é mais vasto do que sugere a vã filosofia tucana. Vai muito além de encontros sorrateiros num bordel de Brasília. Investiguem o Foro de São Paulo, sigam a pista das conexões entre PT e Farc, e verão que a criminalidade petista não é avulsa nem é traição às raízes comunistas do partido. É conspiração revolucionária, é subversão total da ordem, é destruição fria e premeditada das leis, do direito e da fé pública em escala continental.

Só que, para ter a energia de lutar contra isso, é preciso quebrar o cinto de castidade que a própria hegemonia cultural petista afivelou em seus adversários, que eles tão docilmente aceitaram como prova de bom-mocismo e que acabou por se amoldar ao seu corpo como uma segunda natureza. Para combater um mal tão gigantesco, é preciso algo mais que legalismo, inquéritos e discursos. É preciso virilidade política. Antes de vencer o PT, é preciso superar a carência geral de testosterona.

Em 16 de abril de 2006

Refletindo Sobre A Violencia

16 de Junho de 2002 | 16 de Junho de 2002

Recebi um texto muito bem escrito, ainda que em forma preliminar, de um amigo internauta (Josino Moraes), na qual ele não titubeia em classificar a violência que se verifica no Brasil de guerra (“A guerra brasileira”). Isso em virtude da natureza do processo em que se dá a violência, da forma em que se organizam as quadrilhas de malfeitores, com marcantes características militares, e dos números maiúsculos de suas vítimas. E mais: ele identifica que a espiral de violência é ainda mais forte nos centros ricos do País, onde a economia é mais desenvolvida, como as regiões metropolitanas. É difícil discordar do autor.

O termo guerra pode ser também compreendido como uma metáfora para definir um processo de regressão da nossa sociedade ao um estado pré-civilizatório.

No meu modo de ver, o grande drama é que o Estado e a elite pensante do País têm-se portado de forma neutra: a guerra é travada basicamente entre a população civil ordeira e trabalhadora e os delinqüentes. Essa neutralidade das forças do Estado, bem com defesa ideológica dos bandidos feita pela intelectualidade, têm contribuído para o aumento do número de vítimas e para a impunidade dos malfeitores. Nada é mais emblemático para exemplificar esse fato do que as legislações recentes que disciplinam – na verdade, proíbem – o porte de arma, como se delinqüentes pedissem licença pública para portá-las. A cada onda de homicídio, mais restrições ao porte, como se o fato de se desarmar as vítimas reduzisse o apetite de seus algozes. Santa ignorância!

A situação do Rio de Janeiro, como a que vimos envolvendo o repórter Tim Lopes, não é suficiente para mobilizar as autoridades do Estado e nem para sensibilizar os formadores de opinião. Fosse esse País governado de forma correta, por pessoas comprometidas com seus bons cidadãos, em vinte e quatro horas comandos militares e policiais poderiam prender ou destruir as quadrilhas organizadas que controlam o tráfico e o banditismo em geral, não lhes faltando os meios operacionais para isso. Falta-lhe, isso sim, o comando das autoridades, que só poderiam dá-lo se para isso tivessem a vontade política. Preferem antes chamar inúteis e hipócritas passeatas pela paz, como se o lado ativo da beligerância tivesse ouvidos para ouvir tal apelo.

Até agora grupos dos chamados ativistas pelos direitos humanos não descansaram seu discurso e suas investigações, condenando a ação da polícia paulista, que, de forma expedita, antecipando-se aos delinqüentes, interceptou um comboio, matando doze celerados. Ao invés de cerrar fileiras com as forças policiais, que se mostraram eficientes e prontas para o enfrentamento, tais pessoas fazem o contrário, apontado o delo no rosto dos agentes da ordem como se eles fossem os criminosos. Tresvalorizaram todos os valores.

O fato é que o Estado brasileiro, nos seus diferentes níveis, tem que cumprir o seu papel e entrar na guerra do lado certo, o lado em que estão os bons cidadãos. Se esses ativistas insanos, aliados dos bandidos, não quiserem fazer o mesmo, devem ser acusados de cumplicidade pela violência – pela morte e pela perda de patrimônio – daqueles que foram vitimados. São cúmplices ativos e engajados na causa dos agentes da desordem. Isso é preciso ser dito com todas as letras.

Estudos como o de Josino Moraes devem ser multiplicados, para melhor esclarecer a opinião pública e subsidiar as autoridades no processo correto de tomada de decisão.

Em 16 de junho de 2002

Leituras

Acaso Extraordinario

15 dez. 2001 | O Globo

Organizações de “extrema direita” são figurinhas raras. Criminalizadas e marginalizadas — ao contrário de suas equivalentes de esquerda —, praticamente desapareceram do cenário público. São poucas, irrisório o número de seus membros, infinitesimal sua atuação na sociedade. Não fazem passeatas, não distribuem panfletos nas ruas, não elegem deputados ou senadores. Seus porta-vozes não escrevem nos jornais nem são entrevistados na TV. Quando aparecem no noticiário, é sempre na seção policial, acusadas de crimes hediondos cuja investigação, invariavelmente, dá em nada.

Tão apagada e tênue é sua existência, que, como mostrei no artigo anterior, foi fácil a seus inimigos transferir o rótulo de extremistas de direita aos mais moderados liberais e conservadores.

Inermes, inativas, não têm hoje outro papel senão o de servir ciclicamente de espantalhos para dar exemplo às crianças do que elas não devem ser quando crescer. Tão isoladas e insignificantes se tornaram, que, quando atacado por alguma delas em fofocas acadêmicas ou na internet, como tem acontecido com certa freqüencia, tenho dó de responder.

Minha mãe me ensinou que não se bate em gente pequena.

Infelizmente, neste mundo nem todos receberam de suas mães uma lição equivalente. Assim, no decorrer da semana passada, altas autoridades deste país lançaram sobre a evanescente extrema direita um bombardeio de acusações que, ao contrário do que era de costume, parece obedecer a um plano geral e estar decidido a passar das palavras aos atos.

No dia 5, o presidente do PT, José Dirceu, encaminhou ao Ministro da Justiça uma denúncia de que uma vaga e misteriosa organização direitista estaria por trás do assassinato do ex-prefeito de Campinas.

A denúncia, em si, não tem a mínima importância. Uma comissão petista auto-encarregada do caso já acusou meio mundo, não sendo levada a sério pelos policiais incumbidos da parte adulta do serviço.

No entanto, dois dias depois o Ministério abriu inquérito contra a TFP, Tradição Família e Propriedade, acusando-a de contrabando, de lavagem de dinheiro, até de preparação de guerrilhas de tudo, menos de assassinar o prefeito de Campinas.

O inquérito também não tem importância. Vai ser difícil para o Ministério provar que as equipes de segurança, contratadas pelos fazendeiros membros da organização para proteger suas terras contra invasões do MST, são tropas de guerrilheiros.

O que importa, mesmo, é a coincidência. Diga-me o leitor: matematicamente, qual a probabilidade de que uma organização de extrema direita seja posta sob suspeita de homicídio e, dois dias depois, uma outra, classificada no mesmo gênero, apareça acusada de delitos totalmente diversos?

Na loteria do acaso, o fato se torna ainda mais inusitado porque a ele se soma uma segunda coincidência: a das raízes ideológicas dos acusadores. O dr. José Dirceu é agente (aposentado ou licenciado, não sei) do serviço secreto de Cuba, onde subiu na hierarquia mediante a proteção pessoal de Raúl Castro. O dr. Nunes Ferreira, ministro da Justiça, recebeu análoga formação, na Alemanha Oriental se bem me lembro, tornando-se notável assaltante de bancos.

A essa dupla coincidência vem juntar-se, num prodígio de harmonia cósmica, a oportunidade do acontecimento. Desde o 11 de setembro, a esquerda anseia por livrar-se da imagem de terrorista, lançando-a sobre as vítimas dos atentados e sobre “a direita” em geral. Luminares da “intelligentzia” esquerdista chegaram a alardear que os aviões tinham sido jogados sobre o WTC e o Pentágono pela direita americana, empenhada em preparar psicologicamente o eleitorado para um plano secreto de domínio mundial. Desmontada a farsa, provada a verdadeira origem dos atentados, que é haviam de fazer? Admitir publicamente: “Mentimos”? “Mentimos de novo”? “Mentimos pela milionésima vez”?

Nada disso. Era preciso neutralizar o impacto das notícias, tirando do nada alguma coisa que associasse indelevelmente “terrorismo” e “direita”.

Não há nesse subterfúgio nenhuma novidade. É procedimento padrão do manual comunista de despistamento, e volta ao uso nos momentos de necessidade. Quando a prisão de Fernandinho Beira-Mar trouxe a prova inequívoca da unidade de guerrilha e narcotráfico, mais que depressa alguém plantou numa importante revista nacional a informação forjada de que a ONU acusava as organizações paramilitares de direita de dominar a produção de drogas na Colômbia. Desmascarei a fraude, mostrando que a pretensa notícia era uma simples montagem de frases antigas, ditas por um funcionário da ONU em contexto completamente alheio ao caso. Fui respondido com um significativo silêncio.

Isso foi meses atrás. Porém, agora, mais urgente ainda se tornava a operação camuflagem porque — quarta coincidência — na mesma ocasião se realizava em Havana mais uma reunião do Fôro de São Paulo — a reencarnação do Comintern, destinada, segundo Fidel Castro, a “reconquistar na América Latina o que perdemos no Leste Europeu”. Nesse encontro, os partidos de esquerda mais empenhados em ostentar uma fachada de entidades legalistas e democráticas reafirmavam seus laços de fidelidade e unidade estratégica com pelo menos quatro organizações terroristas: as FARC e o ELN da Colômbia, o MRTA peruano e o MIR chileno. Para amortecer o dano dessa revelação, não bastava noticiá-la discretamente ou mesmo omiti-la. Era preciso encobri-la sob algum “terrorismo de direita”.

Nesse instante, dois ex-terroristas de esquerda, elevados pela roda da fortuna a posições de mando no Estado burguês, habilitados portanto a destruí-lo desde dentro conforme recomendavam Gramsci, Rudi Dutschke e Herbert Marcuse, começam a usar o aparato repressivo desse Estado em investigações que, além de sua óbvia utilidade de manobra diversionista, têm toda a aparência de uma operação de saneamento ideológico. Por enquanto, a escala do empreendimento parece limitada. Como, porém, o termo “extrema direita” já foi trabalhado para poder estender-se indiscriminadamente a liberais e conservadores, as perspectivas de ampliação da coisa são as mais promissoras: uma imputação criminal lançada hoje sobre a “extrema direita” já abrange no rol de suspeitos, em princípio, todo e qualquer brasileiro que ofereça resistência ostensiva aos planos do Foro de São Paulo. Daí até a total criminalização do anticomunismo, o passo é bem curto.

De Onde Vem A Guerra

15 de setembro de 2005 | Jornal do Brasil

Neste momento há três e não mais de três grandes planos de guerra em andamento no mundo. Vêm sendo montados há tanto tempo, com tão vasta mobilização de recursos e já em estágio tão avançado de implementação, que só mudanças repentinas do cenário mundial, bastante improváveis aliás, podem talvez impedir que mais cedo ou mais tarde sejam levados às últimas conseqüências.

O primeiro deles é a investida da China contra Taiwan, antecipada por manobras navais intimidatórias e destinada a suscitar uma resposta americana, justificando então um ataque chinês ao território dos EUA. Para isso Beijing acumula armas atômicas e nanotecnológicas em escala apocalíptica, enquanto os EUA, burguesmente confiantes numa ridícula estratégia de apaziguamento comercial, fazem cortes e mais cortes nos seus orçamentos militares (prova inequívoca de intenções belicosas, não é mesmo?). Leiam Hegemon: China’s Plan to Dominate Asia and the World , de Steven W. Mosher (Encounter Books, 2000) e procurem no Google os artigos de Lev Navrozov e J. R. Nyquist.

O segundo é o cronograma islâmico em sete etapas (estamos na segunda) para estabelecer um califado global até o ano 2020 . Foi divulgado pelo jornalista jordaniano Fouad Hussein em entrevistas com os principais líderes terroristas — a começar pelo orquestrador do caos iraquiano, Abu Musab al-Zarqawi — publicadas no livro A Segunda Geração da Al-Qaeda (em árabe). Um resumo encontra-se no jornal australiano The Age (v.

http://www.theage.com.au/news /war-on-terror/alqaeda-chiefs -reveal-world-domination -design/2005/08/23/112456286165 4.html?oneclick=true ). Tal como no caso anterior, o ponto principal desta estratégia é suscitar conflitos locais que desencadeiem uma resposta americana e então usá-la como pretexto legitimador para um ataque aos EUA.

O terceiro está bem aqui pertinho. A adoção oficial da doutrina de “guerra do povo” do general vietnamita Giap para a militarização da sociedade (v.

http://www.olavodecarvalho.org /semana/041226zh.htm ), a implantação da Nova Lei Orgânica das Forças Armadas que transforma essa doutrina em realidade, a presença de mais de vinte mil soldados cubanos na Venezuela e de tropas da Venezuela nas Farc – tudo isso torna evidente, na análise do ex-chefe da Casa Militar da presidência venezuelana, vice-almirante Mario Iván Carratú Molina, a lógica militar de Hugo Chávez: agressão conjunta à Colômbia por forças da Venezuela, de Cuba e das Farc para suscitar uma reação de Washington e então mobilizar a América Latina inteira contra os EUA (v.

http://www.noticierodigital .com/forum/viewtopic.php?p =168913#168913 ).

A mídia brasileira oculta esses planos como ocultou, por mais de uma década, o Foro de São Paulo. Mas, como os três convergem na meta de induzir os EUA a um combate multilateral, paralisando-os ao mesmo tempo por meio de cobranças morais e diplomáticas das quais seus agressores já estarão automaticamente dispensados (tal é a regra da “guerra assimétrica”: v.

http://www.olavodecarvalho.org /semana/040520fsp.htm ), é claro que não podem entrar em ação aberta sem a adequada preparação psicológica do ambiente em todos os países envolvidos, inclusive o Brasil. Por isso é que já pululam, nos nossos jornais, comentários que alertam contra a eventual reação defensiva americana, chamando-a antecipadamente de “invasão imperialista” e apresentando-a como se fosse o lance inicial das hostilidades, sem causas nem antecedentes exceto a pura maldade ianque.

Os autores desses artigos, fora algumas exceções que o termo leninista “idiota útil” resume com precisão, são militantes do Foro de São Paulo, agentes de influência formados nos serviços de inteligência comunistas ou indivíduos que sintetizam essas duas belas qualidades. Não são repórteres narrando o que viram ou analistas tentando compreender o mundo. Seus escritos estão fora da definição de “jornalismo”. São propaganda e desinformação no sentido mais estrito e profissional dos termos. Fazem parte do esforço de guerra.

Em 15 de setembro de 2005

Ato De Guerra

15 de setembro de 2001 | Época

Certas explicações do crime não são explicações: são parte do crime.

“Doravante não distinguiremos mais entre os terroristas e aqueles que os protegem”, afirmou o presidente George W. Bush diante dos atentados de terça-feira passada.

Há quatro maneiras de proteger um grupo terrorista. Há os Estados que o armam ou abrigam, há os organismos de fachada que o encobrem, há as fortunas legais ou ilegais que o subsidiam, e, “last not least”, há os “formadores de opinião” que dão respaldo à agressão armada mediante operações de desinformação e guerra psicológica.

As três primeiras formas de colaboração requerem contato direto com os autores do crime, mas a quarta, por definição, é de natureza expansiva e evanescente. Uma pequena equipe pode conceber as palavras-de-ordem e as falsas informações mas elas não podem ser espalhadas a não ser por meio de uma rede de ajudantes informais, na qual os colaboradores mais periféricos, indivíduos aparentemente insuspeitos, sem ligação conhecida com os centros de decisão, se limitem a ecoar as ordens sem perguntar de onde vieram. Dos dirigentes aos militantes, dos militantes aos “companheiros de viagem” e destes aos meros idiotas, as fórmulas ditadas pelo comando se propagam em círculos concêntricos segundo uma progressão controlável e, até certo ponto, quantificável. Organizar e acionar esse tipo de operação é uma técnica bem desenvolvida. Todos os regimes e partidos totalitários se empenharam em instalar centros de formação de profissionais da área, sobretudo a partir da década de 30, quando as redes de desinformação soviética montadas por Karl Radek se expandiram formidavelmente entre intelectuais ocidentais graças ao gênio maligno de Willi Münzenberg.

As pessoas envolvidas nas formas mais diretas de proteção aos autores das explosões de terça-feira estão decerto longe do Brasil na Ásia, na Europa e até nos EUA. Mas a rede de desinformação e guerra psicológica não poderia deixar de estender-se até aqui.

Antes de chegar ao chão o último tijolo do World Trade Center, um enxame de “especialistas” e “analistas internacionais”, todos notoriamente simpáticos ou filiados a movimentos de esquerda, já acorreu aos canais de TV e às páginas de jornais para:

1. Atenuar a má impressão de um crime monstruoso, legitimando-o como “conseqüência natural” da intransigência e do militarismo do governo Bush.

2. Ressaltar além de toda a medida a “vulnerabilidade” dos EUA, contrastando-a com a imagem do poder econômico norte-americano.

A primeira dessas coisas é desinformação, a segunda é guerra psicológica.

De um lado, há uma década os EUA não fazem senão recuar e desarmar-se, reduzindo seus estoques de armas atômicas para um quinto das reservas russo-chinesas e cedendo à ONU parcelas cada vez mais decisivas da sua soberania. É verdade que George W. Bush está reagindo contra isso. Mas uma operação complexa como a de terça-feira não poderia ser improvisada nos meses que se seguiram à posse do novo presidente. O ataque não veio em reação às atitudes enérgicas de Bush, mas, muito antes disso, foi planejado para aproveitar as complacências suicidas da administração Clinton. E aproveitou.

De outro lado, não há sistema defensivo imaginável que possa prevenir ataques terroristas do tipo que se viu em Nova York e Washington. Se eles acontecem nos EUA e não na China, em Cuba ou no Iraque, é simplesmente porque só regimes ditatoriais treinam fanáticos para operações “kamikaze”. Não há portanto nenhuma vulnerabilidade em especial a ressaltar no caso. Apregoá-la é mentira calculada para desacreditar os EUA, mostrando-os como país rico e fraco, de modo a transmutar, na alma dos povos, a admiração em inveja rancorosa e o temor em ódio agressivo.

Descredito Geral

15 de outubro de 2015 | Diário do Comércio

Uma pesquisa da CNT, Confederação Nacional dos Transportes, traz alguns dados fundamentais para a compreensão do estado de coisas no Brasil de hoje.

O relatório completo está aqui, mas a tabela que reproduzo neste artigo (página 45 do relatório) fala por si.

A pesquisa buscou averiguar, com uma amostragem significativa colhida em várias regiões do país, quais as instituições em que o povo brasileiro mais e menos confia: igrejas, partidos políticos, governo, mídia etc. É uma pergunta temível, que anuncia choro e ranger de dentes.

Entre mortos e feridos, a principal vítima foram as Forças Armadas. Semanas atrás, afirmei que, tendo sido por décadas a instituição exibida em todas as pesquisas como a mais confiável do país, elas logo perderiam esse estatuto e rastejariam na lama do descrédito junto com a mídia e os políticos.O motivo que me levou a esse prognóstico sombrio foi a longa série de hesitações, embromações e desconversas pomposas com que os militares responderam ao clamor de seus admiradores devotos por uma “intervenção militar” supostamente salvadora. A sucessão de vexames entremeados de ostentações de patriotismo histriônico, que teve um ponto alto no ridículo desfile de Sete de Setembro em recinto fechado, chegou ao auge no show de puxassaquismo e concordância ideológica oferecido pelos comandantes das três armas ao representante do Foro de São Paulo, Aldo Rebelo.

Pois bem, a previsão já estava se cumprindo quando foi anunciada. A pesquisa, de julho, mas só publicada agora, revela que o nível de confiança popular nas Forças Armadas baixou dos antigos 50 e tantos por cento para 15,5 por cento. Merecidamente.

Para meditação dos oficiais militares que ainda prezam um pouco a reputação das suas corporações, relembro aqui o clássico haikai de Antonio Machado:

Cuan dificil es Cuando todo baja No bajar también.

Com toda a certeza, os oficiais empenhados em alinhar as suas instituições com a política do Foro de São Paulo acreditaram que podiam continuar fazendo isso sem despertar suspeitas, protegidos sob a redoma da tradicional confiabilidade militar, consolidada ao longo de décadas de pesquisas.

Mas nenhum capital acumulado resiste por muito tempo a um empenho sério e obstinado de cultivar o prejuízo.

Se os bravos guerreiros não acordarem, daqui a pouco teremos Pixulekos fardados flutuando nas praças, e os oficiais vistos de uniforme nas ruas ou nos restaurantes receberão o mesmo tratamento dado ao sr. Adams e similares.

Com exceção das igrejas em geral, que 53,5% dos entrevistados consideraram maximamente confiáveis, praticamente todas as demais instituições nacionais tiveram desempenhos tão baixos que não há exagero nenhum em dizer que perderam por completo a confiança do povo: Justiça, 10,1%; polícia, 5%; imprensa, 4,8%; governo, 1,1%; Congresso Nacional, 0,8%; partidos políticos, 0,1%.

Se um governo que permanece no poder desfrutando da confiança de apenas 1,1% já é a prova contundente de que não existe mais nenhuma “democracia” a ser preservada, mais patético ainda é que o Congresso, da qual tantos comentaristas de mídia esperam a cura miraculosa do descalabro nacional, esteja abaixo dele na escala, com seus 0,8% de confiabilidade. Não é isso que as pessoas chamam de pedir socorro para o bandido?

Como entender esse quadro, exceto como o retrato de uma quebra total da confiança, de uma ruptura insanável entre o povo e a elite governante, de uma falência total do sistema, de um estado de coisas, em suma, revolucionário?

Não é de estranhar que a minoria dominante se esforce acima de tudo para simular normalidade, louvando como valores sacrossantos as “nossas instituições”, fazendo apelos ao fetiche da “estabilidade”, repetindo infindavelmente o mantra de que o leão é manso e de que, se ele não for, não se preocupem, porque “estamos preparados”.

Nem é de espantar que o partido menos confiável de todos, objeto do ódio ostensivo de mais de 90% da população, entre em delírio paranóico e, invertendo radicalmente o senso das proporções, atribua tudo a uma “conspiração golpista das elites”, como se não fosse ele próprio a elite mais golpista que já existiu neste país.

Já os 4,8% de confiabilidade atribuídos à mídia mostram que o povo está consciente de viver num cenário fictício criado por aqueles cuja obrigação seria informá-lo da realidade.

Desde a longa e ominosa ocultação da existência do Foro de São Paulo até o atual empenho de camuflar a tomada do poder continental por organizações comunistas (que poderia ter sido evitada sem o manto de invisibilidade protetora lançado sobre o Foro de São Paulo), é evidente que a classe jornalística no Brasil se tornou uma seita empenhada em defender os seus queridos mitos de juventude – e os grupos que os personificam – contra toda interferência dos malditos fatos.

Nossos grandes jornais e canais de TV, com efeito, não medem esforços na sua missão anestésica, modificando até o vocabulário da língua portuguesa para que nunca, em hipótese alguma, as coisas pareçam o que são.

Vou citar só um caso entre milhares.

Uma recente pesquisa do Datafolha, confirmando brutalmente a da CNT, evidenciou a diferença radical de opiniões entre os membros do Congresso e a população brasileira. Por exemplo, “55% dos brasileiros disseram ser de direita, enquanto apenas 17% dos parlamentares concordaram que seguem a mesma linha... Dos deputados e senadores ouvidos, 53% disseram que a lei deveria reconhecer uma família com pessoas do mesmo sexo... Já para a população brasileira, 60% afirmam que, por lei, uma família deve ser formada apenas entre homem e mulher”.

Os políticos, evidentemente, querem o contrário do que o eleitorado quer. Não o representam em nenhum sentido substancial do termo.

Mas como foi que a Folha e a revista Época noticiaram esse resultado? Vejam o título: “Políticos brasileiros são mais liberais do que o eleitorado, diz pesquisa”.

Liberais? Liberal, no vocabulário político brasileiro, quer dizer anti-socialista e partidário da economia de mercado – alguém da direita, em suma. Como chamar de liberal um grupo em que 83% dos membros dizem que não são de direita de maneira alguma? O certo, obviamente, seria dizer que os políticos são mais esquerdistas – não mais liberais – do que os seus eleitores.

Mas isso seria confessar que um povo acentuadamente conservador vive, contra a sua vontade expressa, sob a hegemonia ditatorial de um grupo minoritário esquerdista, exatamente como planejado pela estratégia de Antonio Gramsci adotada pelos partidos de esquerda desde há mais de trinta anos.

E isso a Folha não poderia confessar de maneira alguma, tendo sido ela própria um dos instrumentos principais para a implantação dessa hegemonia.

Qual o remédio encontrado? Apelar à língua inglesa falada nos EUA, onde a palavra “liberal”, sem que em geral o povo brasileiro tenha disso a menor idéia, significa precisamente “esquerdista” em oposição a “conservative”. Eis como a Folha, transmitindo a informação, anestesia o leitor para que não a compreenda.

Usar as palavras corretas, descrevendo adequadamente a situação que a pesquisa evidencia, seria reconhecer que há muito tempo o sistema representativo, a mais beatificada das nossas “instituições”, já se tornou uma fraude completa, um jogo de cartas marcadas criado para dar representatividade legal a um grupo manipulador desprovido de qualquer representatividade substantiva.

É evidente que, sem essa máquina de ludibriar o povo, fenômenos como o Mensalão, o Petrolão, ou qualquer dos outros inumeráveis crimes cometidos pelo governo com a cumplicidade da classe política praticamente inteira, jamais teriam sido possíveis.

Mas reconhecer isso seria admitir a unidade solidária do esquema gramsciano com o roubo organizado – e isto daria por terra com a gentil operação de gerenciamento de danos, com a qual, não podendo negar totalmente os fatos delituosos, a mídia se esforça para apresentá-los como meros delitos comuns, sem qualquer conexão com a estratégia comunista de dominação total.

Da Barbarie A Decadencia

15 de novembro de 2003 | O Globo

Vocês já devem ter ouvido dizer que o Brasil saltou da barbárie à decadência sem ter passado pela civilização. Antigamente isso era piada, mas cada vez mais adquire toda a aparência de uma verdade passível de confirmação empírica.

Observo, por exemplo, que a vulgata marxista mais infame, desprezada como lixo burocrático pelos intelectuais de esquerda dos anos 60, é hoje aceita como alta cultura universitária, sem que ninguém mais pareça notar a diferença.

Acabo de ler, nas apostilas de um professor da Faculdade de Direito da USP, tido como um dos mais brilhantes intelectuais da instituição, que a linguagem e o pensamento estão tão profundamente interligados que “quem não fala não pensa”. Alunos do cidadão repassam-me essa enormidade com toda a inocência, sem dar-se conta de sua implicação mais óbvia: se não se pode pensar sem palavras, uma criança tem de aprender a falar para depois poder pensar, donde se conclui que a pobrezinha terá de enfrentar o aprendizado da fala sem nenhum auxílio da capacidade pensante. Crianças assim só existem no corpo docente da USP. Se as outras funcionassem como elas, não restaria alternativa senão explicar a sua aquisição da linguagem pela mera reflexologia animal, levando o materialismo pavloviano às últimas conseqüências, coisa que mesmo a velha Academia de Ciências da URSS temia fazer. A mais elementar observação dos fatos ensina que o pensamento lógico está presente já na comparação e catalogação imaginativa das propriedades sensíveis dos corpos — forma, cor, movimento –, e que sem o sistema de categorias aí subentendido seria impossível, depois, apreender as diferenças entre classes de palavras. Dos estudos clássicos de Rudolf Arnheim sobre o “pensamento visual” até as análises de Xavier Zubiri divulgadas na década de 90, ninguém mais nega a obviedade proclamada 2.400 anos atrás por Aristóteles, de que não há linguagem sem abstração, nem abstração sem um senso lógico das categorias embutido de algum modo na simples percepção sensível. Zubiri vai até além e proclama que a apreensão da “realidade” como tal, distinta da simples estimulação recebida por um corpo, é a forma propriamente humana de percepção, a diferença mais imediata e decisiva entre o homem e o animal.

Inversa e complementarmente — e a própria apostila que mencionei dá exemplo disso –, é claro que se pode “pensar” com meras palavras, formando cadeias inteiras de silogismos sem a mínima apreensão das entidades referidas, portanto sem nenhuma consciência da diferença entre as definições nominais dos termos e as qualidades objetivas dos seres e estados respectivos. O falante, aí, tão logo consiga formar uma combinação de palavras que lhe pareça razoável desde o ponto de vista gramatical e semântico, acreditará piamente estar pensando sobre coisas existentes, e nada poderá tirá-lo da ilusão de que seu universo de frases é o extremo limite do mundo real. É precisamente isso o que no Brasil de hoje se chama “pensar”, e é natural que, generalizando suas limitações pessoais, os praticantes desse vício acabem chegando à conclusão de que, para o restante da humanidade, pensar sem palavras é tão impossível quanto para eles próprios.

Toda a possibilidade de um ser humano conhecer a realidade objetiva repousa na capacidade que ele tenha de analisar criticamente sua própria linguagem com base na experiência sensível, externa e interna, percorrendo em marcha-a-ré toda a cadeia que sobe das percepções mudas — experiência pessoal direta — até os complexos semânticos e sintáticos mais elaborados. Um escritor que busca o “termo próprio”, com a obsessão de um Flaubert ou de um Eça de Queiroz, não faz senão comparar sua percepção das propriedades sensíveis com os registros convencionais da memória verbal coletiva anotados na fala popular, na tradição literária e nos dicionários. O domínio superior da expressão lingüística é impossível sem um senso agudo da distância que há entre linguagem e percepção, senso cujo exercício é justamente a base da conexão crítica entre pensamento e realidade. Especialmente aprimorado nos escritores e filósofos, esse exercício é no entanto uma capacidade elementar sem a qual os seres humanos não poderiam jamais escapar das malhas de qualquer ilusão verbal tecida por eles próprios. Um escritor de verdade é portanto um especialista em percepções, empenhado em protegê-las contra a força dissolvente do fluxo lingüístico, e assim, mallarmeanamente, em “dar um sentido mais puro às palavras da tribo”. Não é necessário dizer que, nessa acepção, a maioria dos indivíduos que neste país ostentam hoje em dia o título de escritores não são escritores de maneira alguma, e sim precisamente o contrário: são profissionais da tagarelice, dedicados a sobrepô-la de tal modo ao mundo percebido que no fim já não seja possível recorrer ao testemunho da percepção para confirmar ou impugnar o que dizem. Quando adquirem nisso um certo grau de habilidade, estão maduros para declarar o primado da linguagem não só sobre o pensamento, mas sobre a realidade, transformando o psitacismo no mais alto dos deveres intelectuais. Que o façam sob pretextos desconstrucionistas elegantíssimos, nada mais natural. A linguagem dessa gente não é “bárbara”, no sentido de elementar e simplória. Ao contrário, é tanto mais sofisticada quanto mais burra, mais postiça e mais incapaz de confronto com a realidade. Que, por outro lado, os indivíduos assim formados ou deformados sintam cada vez mais atração pelo vulgar e grosseiro, até o ponto de colocar sua pena orgulhosamente a serviço de demagogias revolucionárias torpes e sangrentas, celebrando o “humanismo de Che Guevara”, a compaixão social do genocídio maoísta, os ideais justiceiros do narcotráfico ou a piedade cristã do aborto em massa, é algo que se compreende sem muita dificuldade: pois a mente que disse adeus ao mundo das percepções sente mesmo a nostalgia da realidade e tem de buscar no “popular”, como ela mesma o nomeia, um sucedâneo simbólico daquilo que perdeu para sempre. É o salto, se não da barbárie à decadência, ao menos da decadência á barbárie.

Em 15 de novembro de 2003

Ateus E Ateus

15 de março de 2007 | Jornal do Brasil, 15 de março de 2007

Há dois tipos de ateus: os que não acreditam que Deus existe e os que acreditam piamente que Deus não existe. Os primeiros relutam em crer naquilo de que não têm experiência. Os segundos não admitem que possa existir algo acima da sua experiência. A diferença é a mesma que há entre o ceticismo e a presunção de onissapiência.

Acima da distinção de ateus e crentes existe a diferença, assinalada por Henri Bergson, entre as almas abertas e as almas fechadas. Vou explicá-la a meu modo. Como tudo o que sabemos é circunscrito e limitado, vivemos dentro de uma redoma de conhecimento incerto cercada de mistério por todos os lados. Isso não é uma situação provisória. É a própria estrutura da realidade, a lei básica da nossa existência. Mas o mistério não é uma pasta homogênea. Sem poder decifrá-lo, sabemos antecipadamente que ele se estende em duas direções opostas: de um lado, a suprema explicação, a origem primeira e razão última de todas as coisas; de outro, a escuridão abissal do sem-sentido, do não-ser, do absurdo. Há o mistério da luz e o mistério das trevas. Ambos nos são inacessíveis: a esfera de meia-luz em que vivemos bóia entre os dois oceanos da claridade absoluta e da absoluta escuridão.

O simbolismo imemorial dos estados “celestes” e “infernais” demarca a posição do ser humano no centro do enigma universal. Essa situação – a nossa situação – é de desconforto permanente. Ela exige de nós uma adaptação ativa, dificultosa e problemática. Daí as opções da alma: a abertura ao infinito, ao inesperado, ao heterogêneo, ou o fechamento auto-hipnótico na clausura do conhecido, negando o mais-além ou proclamando com fé dogmática a sua homogeneidade com o conhecido. A primeira dá origem às experiências espirituais das quais nasceram os mitos, a religião e a filosofia. A segunda leva à “proibição de perguntar”, como a chamava Eric Voegelin: a repulsa à transcendência, a proclamação da onipotência dos métodos socialmente padronizados de conhecer e explicar.

A religião é uma expressão da abertura, mas não é a única. A simples admissão sincera de que pode existir algo para lá da experiência usual basta para manter a alma alerta e viva. É possível ser ateu e estar aberto ao espírito. Mas o ateu militante, doutrinário, intransigente, opta pela recusa peremptória do mistério, deleitando-se no ódio ao espírito, na ânsia de fechar a porta do desconhecido para melhor mandar no mundo conhecido.

Dostoiévsky e Nietzsche bem viram que, abolida a transcendência, só o que restava era a vontade de poder. Aquele que proíbe olhar para cima faz de si próprio o topo intransponível do universo. É uma ironia trágica que tantos adeptos nominais da liberdade busquem realizá-la através da militância anti-religiosa. As religiões podem ter-se tornado violentas e opressivas ocasionalmente, mas a anti-religião é totalitária e assassina de nascença. Não é uma coincidência que a Revolução Francesa tenha matado dez vezes mais gente em um ano do que a Inquisição Espanhola em quatro séculos. O genocídio é o estado natural da modernidade “iluminada”.

Em 15 de março de 2007

Diferencas Gritantes

15 de maio de 2004 | O Globo

Há uma diferença substantiva entre o modo americano e o iraquiano de tratar prisioneiros de guerra. Os americanos os despem, os humilham e até lhes dão uns sopapos. Os iraquianos os esfolam, os queimam vivos ou os degolam, como fizeram aliás com centenas de milhares de seus compatriotas.

Há também uma diferença nas reações que despertam em seus governos. Os americanos são presos e submetidos a côrte marcial. Os iraquianos são aplaudidos como heróis e incentivados a caprichar um pouco mais da próxima vez, por exemplo cortando os pênis dos malditos imperialistas como sugerido por um jornal árabe.

Há por fim uma diferença no modo como as condutas de uns e outros repercutem na mídia. Os feitos iraquianos, quando não omitidos por completo, são mostrados de maneira discreta, fria e sem comentários, como rotinas de guerra. Os americanos são alardeados como crimes contra a humanidade, despertam campanhas mundiais de protesto e se trasmutam em crise política, enquanto a indignação suscitada pelos poucos casos comprovados é multiplicada ad infinitum por uma estonteante proliferação de episódios forjados.

O leitor pode averiguar por si essas três diferenças. O contraste que formam é tão óbvio, tão mal disfarçado e tão uniforme, que, tendo em vista as duas primeiras, explicar a terceira pela mera coincidência, ou mesmo por um acordo espontâneo de rancores anti-americanos, seria uma ingenuidade patológica.

Trata-se, isto sim, do uso deliberado da mídia como arma de guerra, subsidiada por pobres desamparados como o sr. George Soros e acionada por meio da organização revolucionária em “redes”, que hoje permite espalhar de modo quase instantâneo, a todas as redações de jornais, rádios e TVs do planeta, as palavras-de-ordem que serão seguidas ao pé da letra, com feroz entusiasmo, pelas massas de militantes e “companheiros de viagem” aí instalados como usuários monopolísticos dos canais de comunicação.

Ao longo de meio século de ensaios, os dois conceitos estratégicos fundamentais da moderna doutrina bélica anti-ocidental, a “guerra assimétrica” e a “guerra informática” ou netwar , acabaram por se articular numa coerência sinfônica infernal que ecoa, sem desafinar, de Pequim a Assunción, de Tashkent a San Francisco.

Guerra assimétrica : inspirada na “Arte da Guerra” de Sun-Tzu, consiste em dar tacitamente a um dos lados beligerantes o direito absoluto de usar de todos os meios de ação, por mais vis e criminosos, explorando ao mesmo tempo como ardil estratégico os compromissos morais e legais que amarram as mãos do adversário.

Guerra informática : emprego sistêmico das “redes” para controlar a mídia como instrumento de combate.

Some as duas e terá a descrição exata do que vê nos jornais e na TV todos os dias.

O fenômeno já foi bastante estudado. A bibliografia a respeito é tão vasta que não há desculpa para quem ainda tente se fazer de inocente e alegue que estou inventando coisas.

Sobre a guerra assimétrica, o estudo mais atualizado é o de Jacques Baud, La guerre asymétrique ou la défaite du vainqueur (Paris, Éditions du Rocher, 2004). Baud é um analista estratégico suíço, conselheiro de vários governos europeus e autor de uma Encyclopédie des terrorismes.

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Sobre a netwar , a obra-padrão é The Advent of Netwar , de John Arquilla e David F. Ronfeldt, publicado pela Rand Corporation, que pode ser descarregado do site http://www.rand.org/publications/MR/MR789/ .

Notinhas Horriveis

15 de junho de 2014 | Diário do Comércio

Houve uma época em que não se podia escrever sátiras no Brasil porque tudo o que acontecia já era satírico em si mesmo. Hoje tornou-se impossível escrevê-las porque tudo está passando rapidamente do ridículo ao deprimente, do deprimente ao aterrador.

Quando um governo protege abertamente os usuários de crack enquanto reprime por todos os meios os fumantes de tabaco, está claro que nem acredita nos benefícios do crack nem no poder assassino dos maços de cigarros: acredita apenas que é da sua conveniência adestrar a população para adaptar-se, calada e cabisbaixa, a qualquer situação absurda que ele lhe imponha. É a técnica do bullying repetido. De tanto ser provocado, humilhado, intimidado, você desiste de reclamar.

A presidenta posando toda alegrinha ao lado da entubadora de crucifixos é bullying no mais alto grau. O exemplo vem de cima. Michele Obama movendo guerra às batatinhas fritas que as crianças adoram é exatamente a mesma coisa.

Idem, a escandalosa troca de cinco terroristas por um desertor. Idem, a proibição dos termos “pai” e “mãe”. E assim por diante. Quanto mais absurdo, melhor. A idéia é sempre levar a plateia a desistir de fazer uso da razão.

Quando a mentira oficial se torna sistêmica, as pessoas não são forçadas somente a repeti-la, mas a raciocinar de acordo com ela. O resultado é a destruição dos processos normais de funcionamento da inteligência humana. Daí ao império da bestialidade o passo é bem curto.

O sinal mais patente do primarismo mental brasileiro é a confusão de categorias, da qual resulta que todos os julgamentos acabam ficando fora de foco, isto quando não estão completamente errados ou não têm nenhum sentido. Por exemplo, a crença pueril – um automatismo mental quase infalível hoje em dia – de que, diante de uma afirmação qualquer, lida ou ouvida, você sempre pode e sobretudo deve “concordar” ou “discordar”.

Pessoas com alguma educação superior (coisa praticamente inexistente no Brasil) sabem que, em geral, concordar ou discordar não têm a mais mínima importância. Compreender, analisar, aprofundar, comparar, atenuar, ampliar, contextualizar – estas são as reações básicas do leitor culto. O idiota, ao contrário, imagina que tudo o que se escreve no mundo existe só para que ele o julgue, aplauda ou condene — atividades às quais ele se entrega com uma presteza e uma volúpia incomparáveis.

A impropriedade vocabular assinala sempre a confusão mental. Até hoje não encontrei neste país um só palpiteiro profissional que compreendesse, ao menos, que de um juízo de fato não cabe “concordar” ou “discordar”. Concordância e discordância só existem em matéria de opiniões, de valorações, de propostas. Se uma asserção factual é falsa, quem discorda dela são os fatos, não o leitor.

É perfeitamente possível você concordar com um conjunto de afirmações – ou discordar – sem entender uma só palavra do que ali está dito. Concordância ou discordância são sentimentos. O sentimento nunca diz nada sobre o objeto percebido, só sobre o estado do sujeito que percebe.

O sentimento é um termômetro do seu estado interior, não uma régua para medir a realidade. Como no Brasil todo mundo só escreve para concordar ou discordar, isto é, para expressar sentimentos, a conclusão inevitável é que cada um só fala de si mesmo, não de alguma coisa.

É assombroso constatar que justamente as pessoas que mais se gabam de “pensamento crítico” só conhecem e respeitam um único argumento: o argumento de autoridade. O que ouviram no colégio é “magister dixit” de uma vez para sempre.”

Thomas Piketty tem razão ao dizer que a desigualdade econômica aumentou nas últimas décadas. Ele só se omite de notar que isso aconteceu junto com um aumento ainda maior do poder de controle dos governos sobre a conduta da população – um objetivo em cuja conquista se irmanam a militância socialista e o capital monopolista que o subsidia.

Esses processos não são independentes. Olhando propositadamente só a metade econômica do cenário, é fácil atribuir o mal a uma abstração chamada “capitalismo”. É assim que o bandido sai limpo, culpando a vítima. A revista Exame, fingindo inocência, raciocina nessa linha e pergunta: “Por que o capitalismo é tão injusto?” É injusto mesmo: persegue quem o defende e enche de dinheiro quem o denigre.

Já li todos os artigos do professor Ígor Fuser. Foi na Voz Operária dos anos 1960. Ele ainda não havia nascido mas já escrevia igualzinho.

Nas Origens Da Burrice Ocidental

15 de junho de 2006 | Jornal do Brasil

Um dos paradoxos inaugurais dos tempos modernos está na facilidade sonsa com que a parte pensante da Europa aceitou os dois princípios da mecânica newtoniana — a eternidade do movimento e a lei de inércia — sem parar por um instante sequer para notar que eram mutuamente contraditórios.

A física antiga dizia que um corpo, se não movido por outro, tende a ficar parado. Newton contestou isso, afirmando que a força da sua própria inércia mantém cada corpo eternamente no seu estado presente, seja de repouso ou de movimento retilíneo e uniforme. Só há um problema: se o movimento é eterno, não faz sentido falar em “estado presente” a não ser por referência a um observador vivo dotado do sentido da temporalidade. No movimento eterno, tudo é fluxo e impermanência. Não há “estados” — seja de repouso ou de movimento. “Estado” é apenas uma impressão subjetiva que o observador, ele próprio envolvido no movimento geral, obtém ao medir os movimentos físicos pelo seu tempo interior. A tentativa de montar um universo puramente matemático independente da percepção humana acabava fazendo tudo depender da própria percepção humana. A física materialista fundava-se numa metafísica idealista.

A contradição é tão flagrante, que chega a ser escandaloso que durante tantos séculos quase ninguém a tenha percebido, ou pelo menos assinalado expressamente.

Porém a absurdidade ostensiva continha dentro de si outra ainda pior. Todo movimento é, por definição, uma mudança ocorrida dentro de uma escala de tempo determinada. Se você esticar indefinidamente os limites do tempo, não haverá mais diferença possível entre a mudança e a permanência, entre o acontecer e o não acontecer. “Movimento eterno” é conceito autocontraditório.

Dizem que Newton era o protótipo do gênio distraído, que suas contas tinham de ser corrigidas por assistentes, que uma vez ele foi encontrado na cozinha fervendo um relógio e olhando atentamente para um ovo. Não sei se essas historietas procedem, mas é fato que ele dedicou mais tempo a estudos de ocultismo do que a qualquer coisa que hoje se chamaria de “ciência”. Era um tremendo esquisitão, e pelo visto não se atrapalhava só em detalhes de cálculo e culinária, mas nos próprios fundamentos da sua teoria.

Seus três críticos principais – Leibniz, Goethe e Einstein – sempre falaram respeitosamente dele, mas tenho a impressão de que por dentro riam um bocado do velho. O primeiro observava que reduzir os objetos às suas “qualidades primárias” de medida e movimento, como requerido pela teoria mecânica, resultava em torná-los perfeitamente inexistentes. O segundo tentou mostrar que as qualidades da luz eram correlativas à visão humana; não conseguiu, mas pelo menos deixou claro que um newtoniano só poderia rejeitar sua tese argumentando contra si próprio. O terceiro, ao restringir o alcance dos princípios de Newton a um domínio limitado da realidade, provou o total subjetivismo desses princípios, já que os limites do referido domínio eram os da percepção macroscópica humana.

Os admiradores, em contrapartida, chegaram a prodígios de babaquice na devoção que votavam ao cientista inglês. O poeta Alexander Pope comparava a teoria de Newton a um novo fiat lux bíblico. Voltaire não voava tão alto, mas se contorcia de tal modo para livrar o guru da acusação de ser pai do ateísmo moderno, que deixava no ar a suspeita de que ele tinha sido precisamente isso.

O problema com a física de Newton é que, quando um sujeito aceita uma tese autocontraditória como se fosse uma verdade definitiva, a contradição não percebida se refugia no inconsciente e danifica toda a inteligência lógica do infeliz. Newton não espalhou só o ateísmo pela cultura ocidental: espalhou o vírus de uma burrice formidável. Uma parcela da elite intelectual já se curou, mas a percepção da realidade pelas massas (incluindo a massa universitária de micro-intelectuais) continua doente de newtonismo. A quantidade de tolices que isso explica é tão infinita quanto o universo de Newton.

Em 15 de junho de 2006

A Clareza Do Processo

15 de junho de 2003 | Zero Hora

Como as divergências do PT com o PT se tornaram o molde único do debate político nacional, peço aos leitores que reexaminem meu artigo “Transição revolucionária”, publicado neste jornal em 25 de agosto de 2002 (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/08252002zh.htm ). Nele eu descrevia o mecanismo básico da política brasileira nas últimas décadas: a transferência do eixo cada vez mais para a esquerda, de modo que o esquerdismo acabe por ocupar todo o espaço, ao mesmo tempo que impinge ao público a falsa impressão de que o cenário continua dividido, normal e democraticamente, entre uma esquerda e uma direita.

Não cito meu próprio artigo para me fazer de profeta. Cito-o para mostrar que a linha de evolução das coisas é clara demais, que para enxergá-la não é preciso ser nenhum profeta, e que o fato mesmo de que tão poucos a enxerguem é um componente fundamental do processo. Pois este se realiza por meio do entorpecimento das consciências, culminando na cegueira geral: a direita incapaz de perceber sua impotência, a esquerda negando sua onipotência manifesta e fazendo-se de vítima de adversários inexistentes para prevenir o nascimento de adversários futuros.

Desde 1988 cada novo governo está um pouco mais à esquerda, fechando o SNI, engordando o MST, premiando terroristas com verbas oficiais, endossando uma a uma todas as exigências “politicamente corretas”, difundindo propaganda marxista pelas escolas, etc. etc. Em vez de alegrar-se com isso, os esquerdistas ficam cada vez mais irritados e seu discurso mais violento. A escalada da brutalidade verbal, com o sr. Caio César Benjamin mandando o presidente “se f...r”, mostra que o esquerdismo se torna tanto mais prepotente quanto mais vitorioso, que nada pode safisfazê-lo senão a obediência total e incondicional, que cada concessão, em vez de aplacá-lo, só excita ainda mais sua fome de poder absoluto.

Inspirada pela fórmula leninista da “estratrégia das tesouras”, a esquerda cresce por cissiparidade, ou esquizogênese, dividindo-se contra si mesma para tomar o lugar de quaisquer concorrentes possíveis, que hoje se reduzem a quase nada.

Quem domina o centro, domina o conjunto. A esquerda inventa sua própria direita, criminalizando e excluindo do jogo todas as demais direitas imagináveis. Uns anos atrás, tornou-se feio estar à direita de FHC. Agora é impensável estar à direita de Lula. A política nacional inteira já não é senão um subproduto da estratégia esquerdista, realizando a fórmula de Gramsci, de que o Partido deve imperar sobre toda a sociedade, não com uma autoridade externa que a oprima ostensivamente, mas com a força invisível e onipresente de uma fatalidade natural, de “um imperativo categórico, um mandamento divino” ( sic ).

Por isso estão loucos e iludidos aqueles que, vendo o esquerdismo dividido, celebram seu enfraquecimento e sua próxima derrota. Um partido só pode ser derrotado por outro partido, jamais pela sua própria confusão interna, que é fermento de sua expansão ilimitada. E o fato é que nenhum outro partido existe. Há quarenta anos só a esquerda tem uma estratégia global, objetivos de longo prazo e uma firme determinação de remoldar a sociedade à sua imagem e semelhança. As outras facções não têm senão idéias soltas e objetivos parciais temporários, que são facilmente absorvidos ou neutralizados pela onda triunfante e irreversível do neocomunismo petista.

Em 15 de junho de 2003

A Arrogancia Da Incultura

15 de junho de 2002 | O Globo

Está circulando pela internet um artigo assinado por Rubens Alves, educador e professor da Unicamp, que defende a eleição de Lula para presidente mediante um truque de argumentação que tem tudo para enganar milhares de leitores.

O professor Alves começa reproduzindo, como se pretendesse defendê-las, duas das objeções de praxe contra o candidato do PT:

Primeira: é um caipira inculto, que mal terminou o curso primário e, habilitado a trabalhar antes com os músculos do que com o cérebro, não tem o mínimo preparo para lidar com as grandes questões nacionais. Segunda: tem umas propostas de política agrária que, se aplicadas, levarão o país a uma convulsão social.

Uma vez expostas essas objeções, o autor as neutraliza de repente, com grande efeito persuasivo, mostrando que as copiou de discursos feitos não contra Lula, mas contra Abraham Lincoln, o qual, a despeito delas, veio a tornar-se um dos maiores presidentes dos EUA.

Conclusão: Lula na presidência não há de ser mais perigoso — ou vexaminoso — do que o foi Abraham Lincoln.

Pois bem, esse artigo, para mim, só prova uma coisa: a incultura pretensiosa de um certo tipo de educador e professor universitário — certamente o mais comum hoje em dia — que emporcalha sua cátedra fazendo dela um palanque para a difusão de mentirinhas tolas convenientes ao seu partido. Aí já estamos um passo além da simples politização abusiva da vida universitária. Politiqueiros de cátedra sempre existiram, mas eles buscavam conservar ao menos uma aparência de dignidade intelectual. Agora, a ânsia eleitoreira suprimiu esse último resíduo de escrupulosidade: para promover o candidato, não se vexa de apregoar tolices que estão abaixo do nível de exigência do ensino primário.

O paralelo entre a educação de Lula e a de Abraham Lincoln é falso até o limite da alucinação. Ambos esses políticos vieram, é certo, de família pobre, e mal tiveram educação formal. A diferença é que Lincoln, estudando sozinho, tornou-se um grande conhecedor de história e de literatura, e dominou seu idioma natal ao ponto de escrever, já aos vinte e poucos anos, como um autêntico clássico da língua inglesa. Já o sr. Lula da Silva só o que consegue é pronunciar com língua presa uns discursinhos miseráveis que, se lhe granjeiam alguns votos, é apenas graças ao efeito tranqüilizante que a exibição de mediocridade pode ter sobre platéias de invejosos doentios que fogem do admirável como da peste. Para estes, a melhor qualidade que um candidato pode apresentar é a de não ser melhor que eles. Votando em Lula, votam em si mesmos, porque se sentem capazes de fazer tudo o que ele faria e, elegendo-o, não serão obrigados a respeitá-lo.

O sucesso de Lula é, de fato, a plena legitimação da incultura orgulhosa. Este senhor não se deu o trabalho de aprimorar sua formação nem mesmo depois de salvo da miséria pela ascensão política. Gasta seu dinheiro com a satisfação de vaidades tolas, mas não com auto-educação. Usa ternos elegantes e fuma charutos caros, mas não contrata um fonoaudiólogo para corrigir aquele medonho ceceio na sua pronúncia, que ele prefere continuar ostentando como uma grife.

Eu próprio vim de família pobre, mal tinha dinheiro para comprar livros, e além de pobre era doente. Só soube o que era saúde aos vinte e oito anos, e comprei meu primeiro e único carro (usado e esculhambado) aos quarenta e tantos. Isso não me impediu de adquirir conhecimentos bem superiores aos de várias dúzias de Lulas somados a uns quantos Rubens Alves. Mas me impediu de aviltar minha pobreza utilizando-a como desculpa para meus defeitos ou, mais ainda, de alegar esses defeitos como qualidades excelsas, cavando votos mediante a ostentação deles. Vocês podem avaliar quanto o embelezamento eleitoral da incultura luliana me soa incongruente e insultuoso. Insultuoso não só a mim: num país cuja cultura superior é quase toda ela obra de pobretões esforçados, a beatificação da incultura de um ex-pobre é de um cinismo quase macabro.

Se a biografia de Lula ilustra a perfeita compatibilidade da indolência intelectual com a ambição avassaladora de subir na vida, a argumentação do professor Alves demonstra a total harmonia entre o estatuto de intelectual acadêmico e uma mentalidade mesquinha de cabo eleitoral. Um insulta os pobres estudiosos, o outro ostenta com orgulho o emblema da prostituição intelectual. E é essa gente que pretende julgar e corrigir o país.

E o mais espantoso na argumentação é justamente a sua segunda parte, na qual, ironizando como se fosse uma estupidez sem mais tamanho o temor de que a política agrária de Lula venha a produzir uma convulsão social, o professor esquece que a de Lincoln produziu não apenas isso, mas uma guerra civil que foi o maior conflito armado registrado na História até então. Essa guerra, fruto da pura prepotência burocrática, teve como efeito colateral, é certo, a libertação dos escravos, mas esse mesmo efeito poderia ter sido obtido por outros meios, sem tanto derramamento de sangue e sem consolidar o ódio racial cujas conseqüências ainda são visíveis na sociedade americana. Meninos de escola não têm o direito de ignorar isso. Mas o professor Alves acha que tem.

A Tradicao Revolucionaria 2

15 de julho de 2011 | Diário do Comércio

Os efeitos da hegemonia revolucionária são visíveis por toda parte. Não faltam exemplos mais perto de nós. O “Plano Colômbia”, de Bill Clinton, fornecendo ajuda ao governo colombiano para o combate ao narcotráfico sob a condição de que “não tocasse nas organizações políticas”, serviu apenas para, desmantelando os antigos cartéis, dar às FARC o monopólio do comércio de drogas na América Latina, fazendo daquela incipiente organização guerrilheira uma potência de dimensões continentais e o sustentáculo financeiro do Foro de São Paulo que hoje domina doze países latino-americanos e vai rapidamente estendendo seus tentáculos por todos os outros. Ao mesmo tempo, o plano serviu de pretexto para que as mesmas FARC desencadeassem uma violenta campanha de publicidade contra a “agressão americana” personificada no mesmo plano. Dialeticamente, não há contradição nenhuma em beneficiar-se da ajuda recebida e usá-la como instrumento de propaganda contra o desastrado benfeitor. Muitos críticos do movimento revolucionário dizem horrores do “pensamento duplo” que o inspira, mas raramente entendem que por trás de uma aparente contradição lógica se esconde uma ação de mão dupla inteiramente racional do ponto de vista prático.

Por mais chocante que pareça, esse exemplo é rigorosamente nada em comparação com as grandes operações de desinformação estratégica com que o velho governo soviético conseguia — e o atual governo russo ainda consegue — fazer seus adversários trabalharem para ele, realizando integralmente o ideal de Sun-tzu, segundo o qual a mais brilhante das vitórias se obtém sem combate, moldando à distância as decisões do governo inimigo por meio de um bem calculado fluxo de informações entre verdadeiras e falsas.

Outro caso notável foi a facilidade com que a desinformação soviética, apelando à confiança dos americanos na invulnerabilidade das suas instituições democráticas e agitando na sua frente o fantasma da “perseguição marcatista” (em cuja realidade a mídia e o establishment continuam acreditando até hoje), logrou bloquear investigações decisivas sobre a penetração comunista nas altas esferas do governo de Washington, só para que quarenta anos depois a abertura dos arquivos de Moscou viesse a confirmar, tarde demais, as piores suspeitas do senador Joe McCarthy, com a única diferença de que os infiltrados não eram dezenas, como ele supunha, mas sim milhares.

Duas décadas atrás, a diplomacia chinesa, repetindo o truque que Lênin já aplicara aos investidores europeus em 1921 conseguiu convencer políticos e empresários americanos de que a abertura para a economia de mercado traria automaticamente a liberalização do regime. Mesmo após o massacre da Praça da Paz Celestial os sábios de Washington continuaram afirmando anestesicamente que “a China estava no bom caminho”. Com toda a evidência, o instrumento de desinformação utilizado no caso foi uma das crenças mais queridas dos liberais e conservadores: o nexo de implicação recíproca entre liberdade econômica e liberdade política.

O sucesso dos mais espetaculares ardis de desinformação estratégica postos em prática pelos governos revolucionários seria, no entanto, impossível sem a hegemonia cultural e psicológica de que o movimento revolucionário desfruta em escala mundial. Hegemonia cultural significa ser o controlador dos pressupostos embutidos no pensamento do adversário, de tal modo que o trabalho dos agentes envolvidos numa operação concreta de desinformação estratégica se reduz ao mínimo. Quando o agente de desinformação trabalha num ambiente já antecipadamente preparado pela hegemonia cultural, ele pode controlar facilmente as reações do adversário sem precisar abusar dos expedientes usuais da espionagem que tornariam a sua ação mais visível, mais material. Por isso o velho Willi Münzenberg chamava essas operações de “criação de coelhos”: basta juntar um discreto casal de bichinhos e contar com a propagação automática dos efeitos esperados. Uma ação clássica do tipo “medidas ativas” pode ser investigada e denunciada pelos meios usuais dos serviços de inteligência, mas uma operação fundada em prévia hegemonia cultural pode tornar-se tão evanescente que qualquer tentativa de denunciá-la acabe assumindo as aparências da mais louca “teoria da conspiração”. Por isso é que Antonio Gramsci qualificava a influência do partido revolucionário, quando escorada na hegemonia cultural, de “um poder onipresente e invisível”. Tanto mais invisível quanto mais onipresente.

Enquanto o movimento revolucionário se move com a destreza alucinante de uma dialética capaz de absorver e aproveitar todas as contradições, as elites ocidentais, nominalmente liberais ou conservadoras, se apegam a uma lógica linear de tipo positivista que, quando não encontra um elo material de causa e efeito escancaradamente visível, acredita que nada está acontecendo.

Os filósofos escolásticos ensinavam que, para agir, é preciso antes existir. A existência, por sua vez, pressupõe unidade e continuidade. Um ser dividido em pedaços, desprovido de vida unitária, não é de maneira alguma um ser: é uma ilusão fantasmal que se agita no ar por instantes, deixando livre o espaço histórico para a ação do ser genuíno.

Não há nenhum exagero em dizer que o movimento revolucionário mundial é a única força política que conta para alguma coisa na história do mundo. Enquanto seus adversários não o perceberem como unidade, nada poderão contra ele. Lutando contra uma de suas alas, acabarão servindo a alguma outra, como tem acontecido invariavelmente. No fim das contas, toda a política mundial corre o risco de acabar se reduzindo a um leque de conflitos internos do movimento revolucionário. Se e quando isso acontecer, não será excesso de pessimismo anunciar o início de mil anos de trevas.

Em 15 de julho de 2011

Da Servidao Hipnotica

15 de julho de 2000 | O Globo

Boa parte do noticiário da semana passada descrevia os debates sobre a passeata gay em Roma como um confronto entre o movimento homossexual e a “extrema-direita”. É típico exemplo de manipulação de vocabulário, que, adotada em escala mundial, tem mais força persuasiva do que qualquer argumentação ou campanha de publicidade explícita.

O deslocamento semântico da “extrema-direita” cada vez mais para o centro visa a criar na opinião pública, por meio da sugestão irracional repetida, uma associação entre a imagem hedionda do nazi-fascismo e a de qualquer resistência, por mais mínima e discreta, que se oponha aos caprichos e exigências da militância enragée.

Extremismo é, por definição, o emprego de meios violentos para impor mudanças ainda mais violentas, como por exemplo leis raciais darwinistas ou a supressão forçada da religião. Quando a imprensa em massa, com o maior ar de inocência, passa a chamar de “extremista” qualquer cidadão pacífico que se apegue aos mandamentos de sua velha religião em vez de curvar-se com veloz solicitude às exigências repentinas de revolucionários histéricos, estamos diante de um caso óbvio de manipulação, destinada a forçar a rápida implantação de novos hábitos e valores por meio do engodo, eludindo os riscos do debate honesto e franco.

Se alguém dissesse, com todas as sílabas, que ser contra casamentos de machos com machos é nazismo, a mentira grotesca se denunciaria no ato. Embutida em frases de noticiário, passa como obviedade inofensiva. Repetido o truque algumas vezes, já se pode proclamá-la em voz alta sem risco de contestação: o hábito introjetado bloqueia as objeções conscientes.

A maior parte da Humanidade não tem defesa contra esse ardil. Espremidos entre a hipótese de ceder às novas palavras de ordem e a de tornar-se suspeitos de nazismo, quantos cidadãos terão o tempo e a prudência de tomar um recuo, de rejeitar a formulação do problema, de desmontar a armadilha lógica preparada para limitar sua visão dos fatos e sua capacidade de escolha? A maioria simplesmente aceitará a opção que lhe impõem. É verdade que cada concessão, isolada, significa pouco. Mas o efeito acumulado de milhares de pequenas concessões é o comprometimento integral da alma, a completa abdicação do juízo crítico. Não se pode nem chamar isso de servidão voluntária: é a servidão hipnótica.

Uma imprensa que submete seus leitores a esse tratamento não tem a menor idéia do que sejam democracia e liberdade de opinião, pois se esforça para liquidá-las no ato mesmo em que alardeia defendê-las. Não há debate possível sem o acesso consciente aos problemas em disputa. Tanto quanto a censura ostensiva, a transferência proposital das escolhas para o reino nebuloso das reações inconscientes é um abuso de autoridade, uma prepotência cínica que suprime o direito de saber, fundamento do direito de opinar.

A falsa rotulação de extremismo é só um exemplo entre milhares. Ninguém, hoje em dia, pode se dizer um cidadão livre e responsável, apto a votar e a discutir como gente grande, se não está informado das técnicas de manipulação da linguagem e da consciência, que certas forças políticas usam para ludibriá-lo, numa agressão mortal à democracia e à liberdade.

Essas técnicas são de emprego maciço, constante e pertinaz nos meios de comunicação e nas escolas. Apesar de sua imensa variedade, todas têm por princípio básico a distração induzida, o bloqueio sutil do julgamento consciente. Opiniões que, expostas com nitidez, suscitariam a mais obstinada oposição, são facilmente aceitas quando apresentadas de maneira implícita e envoltas numa névoa de desatenção. Há publicações inteiras, programas de TV inteiros, livros didáticos inteiros que são, de ponta a ponta, desatenção planejada.

Até a década de 70, quando a maior parte das técnicas a que me refiro estava ainda em fase de estudos em laboratório, os intelectuais se interessavam pelo assunto, investigavam, discutiam a imoralidade e a periculosidade da ameaça iminente que elas representavam para a democracia.

Charles Morgan deu o alarma em “Liberties of the Mind”, Aldous Huxley em “Regresso ao admirável mundo novo”, Arthur Koestler promoveu congressos internacionais para discutir o perigo, Ivan Illitch fez pesquisas memoráveis sobre a manipulação das consciências pelo establishment médico e educacional.

De súbito, as discussões cessaram e as técnicas denunciadas foram entrando, uma a uma, sem a menor resistência, no uso cotidiano de jornais, escolas, canais de TV. Não é de estranhar que essa mudança tenha sido acompanhada de um vasto recrutamento de intelectuais “progressistas” para organismos internacionais, ONGs, serviços secretos e outras entidades interessadas em conduzir a discreta mutação psíquica dos povos. Hoje praticamente não há mais intelectuais independentes. Todos se cansaram de “interpretar o mundo” e aceitaram ser bem pagos para “transformá-lo”.

A elite de intelectuais ativistas que hoje maneja os cordões é tão cínica que chega a inventar as mais artificiosas justificativas ideológicas dessa manobra maquiavélica. É inútil argumentar racionalmente, proclama Richard Rorty: tudo o que podemos fazer, diz ele, é “inculcar sutilmente nas pessoas os nossos modos de falar”. E Antonio Gramsci, antecipando-se aos tempos, já tinha criado toda uma teoria da “revolução passiva” para demonstrar que a sonsa indiferença da multidão distraída vale por adesão explícita e basta para provar que a tomada do poder pelos comunistas foi uma escolha democrática do povo.

Mentiras Cruzadas

15 de janeiro de 2005 | O Globo

A notícia que assinala menor mortalidade infantil em Cuba do que nos EUA, lançando a culpa da diferença no governo Bush, prova novamente a validade do preceito leninista segundo o qual duas mentiras articuladas funcionam melhor que uma isolada.

Há anos os conservadores vêm denunciando o descalabro do sistema de saúde americano, efeito do gigantismo estatista fomentado pela esquerda. E a baixa mortalidade infantil em Cuba já data do tempo de Batista, quando o país era a terceira economia da América Latina. Basta inverter as seqüências temporais e, cruzando-as, produzir uma comparação falsa cujas conclusões o leitor tirará automaticamente, persuadindo-se de que chegou a isso por conta própria e sem nenhuma indução externa. É a técnica de superpor duas imagens na tela para produzir uma terceira na mente do espectador, como fazia Eisenstein nos seus filmes de propaganda stalinista.

Funciona mais ainda com um público estrangeiro, distante das fontes diretas. Organizada mundialmente, em contraste com as direitas avulsas e inconexas, a esquerda sempre tira proveito dos erros e crimes que comete num país, usando-os em outro país como material para denúncias antidireitistas, confiante em que ali ninguém vai tentar rastrear os fatos na origem.

A manobra já se incorporou de tal modo aos hábitos do jornalismo que pode ser praticada sem nenhuma intenção consciente. É a mentira rotinizada, insensível, assética.

Às vezes não é preciso mentiras cruzadas. Basta uma só, construída pelo método simples da supressão de palavras. Nossos canais de TV alardearam o confronto entre Donald Rumsfeld e um grupo de soldados americanos no Iraque, a propósito da escassez de carros de combate. O secretário teria recebido uma cobrança insolente e, constrangido, deu uma resposta ríspida: “A gente faz a guerra com o exército que tem, não com aquele que sonha.” Só agora, lendo a transcrição integral da declaração, entendi que não foi nada disso. Não houve cobrança insolente, constrangimento ou rispidez. Recolocada em seu devido lugar, a frase se referia ao próprio Rumsfeld, não aos soldados. Ele não mandou que eles se arranjassem com o que tinham, mas descreveu a reação com que ele mesmo se defrontara ao tentar apressar a produção do material bélico. Confira em http://www.humaneventsonline.com/article.php?id=6069 .

Há também o método ainda mais simples: falsear as proporções. Todo mundo leu que um prisioneiro de Abu-Ghraib, forçado pelos americanos a masturbar-se em público e empilhar-se numa pirâmide humana com seus companheiros de infortúnio, afirmou que o próprio Saddam Hussein jamais o submeteria a tais humilhações. É claro: Saddam lhe cortaria logo meia dúzia de dedos ou a mão inteira, como fez na mesma prisão com milhares de prisioneiros que a mídia chique, imbuída do dever de exibir a um estupefato mundo a superior maldade americana, ignora solenemente. Que o leitor tire a dúvida por conta própria, se tem estômago para isso. As imagens estão em http://www.aei.org/events/eventID.844,filter.all/event_detail.asp e http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=2186 . A vida é assim: se você faz uma maldade pequena, as pessoas o acusam indignadas; se o mal é grande demais para que a consciência do homem médio suporte conhecê-lo, todo mundo faz de conta que não viu. O colaboracionismo da mídia ocidental ajuda as ditaduras islâmicas e comunistas a tirar proveito dessa fraqueza congênita da alma humana.

Normando Hernandez, um dos 22 jornalistas que continuam presos em Cuba por delito de consciência, foi tão bem tratado na cadeia que pegou tuberculose. Está condenado a 25 anos de prisão, mas corre o risco de sair antes – para o cemitério.

O imbróglio do Fórum Social Mundial, onde a arrogância pomposa das promessas utópicas parece harmonizar-se muito bem com as práticas financeiras mais sórdidas e mesquinhas deste baixo mundo, traz a prova cabal de que o slogan do empreendimento, “Um outro mundo é possível”, pode ser substituído com vantagem pelo verso do poeta, aliás comunista, Paul Eluard: “Há outros mundos, mas estão neste.”

Em 15 de janeiro de 2005

Mais Um Crime Do Capitalismo

15 de agosto de 2010 | Diário do Comércio

O sr. Paulo Henrique Amorim é, na mídia brasileira, o exemplo mais puro de fidelidade partidária. Por isso mesmo faz tempo que deixei de ler seus artigos: consulto os planos de marketing do PT e já sei tudo o que ele vai escrever nos doze meses seguintes.

Outro dia, porém, uma pessoa que ignora ou despreza esse meu hábito salutar enviou-me um texto publicado no site daquele jornalista ( www.conversaafiada.com.br/mundo/2010/08/02/uribe-o-heroi-do-pig-fez-a-maior-vala-comum-do-mundo/print/ ), que acabei lendo por não ser obra dele e sim de uma de suas leitoras, que las hay, las hay .

A referida, que assinava simplesmente “Marília”, sem sabermos portanto se é uma criatura de carne e osso ou um alter ego do proprietário do site , noticiava ali que fôra descoberta, em La Macarena, departamento de Meta, Colômbia, uma enorme vala comum – “a maior fossa do hemisfério ocidental” –, com os cadáveres de dois mil camponeses assassinados covardemente pelos paramilitares de direita, com a ajuda do Exército colombiano.

O fato, comentava a remetente, vinha sendo sistematicamente ocultado pela mídia colombiana, direitista como ela só, bem como pela igualmente reacionária Fiscalia, o equivalente colombiano do nosso Ministério Público.

Ficava portanto demonstrado, segundo a matéria, que “a Colômbia é, sem dúvida, um dos lugares do planeta no qual o horror do capitalismo se plasma da forma mais evidente, em seu paroxismo mais absoluto”.

Na legenda de uma foto que para máxima credibilidade amorínica da denúncia mostrava três buracos sem nenhum cadáver dentro, concluía triunfalmente o editor do site : “Na foto, a maior – e mais funda – obra de Uribe. Só Hitler foi capaz de ir tão longe – e tão fundo.”

Seria até covardia exigir de devotas almas chavistas algum conhecimento histórico mesmo elementar, mas eu, o leitor e o mundo sabemos que os nazistas, embora tenham sepultado mortos em valas comuns, no começo, não se notabilizaram como especialistas nisso, mas em outro gênero de empreendimento macabro: a cremação em massa. Quem lançou a moda das valas comuns, muito antes deles, foram os comunistas, que depois as utilizaram também na II Guerra: até hoje não há uma vala mais famosa que a de Katyn, onde esconderam os cadáveres de vinte mil poloneses.

Também sabemos qual o procedimento-padrão da propaganda comunista para pintar o capitalismo como um regime genocida. O modelo foi fixado para toda a eternidade pelo Livro Negro do Capitalismo , de Gilles Perrault, resposta involuntariamente paródica ao Livro Negro do Comunismo de Stéphane Courtois. Convocado às pressas para abafar o escândalo dos 100 milhões de vítimas do comunismo produzindo como pudesse idêntico número de mortos do outro lado, Perrault descobriu um método infalível, constituído de dois itens. Primeiro: computou as mortes ocorridas em guerras internacionais, que Courtois excluíra propositadamente para concentrar-se na soma das vítimas civis assassinadas por seus próprios governos. Segundo: completando a fraude com o engodo, atribuiu ao capitalismo a culpa por todas as mortes ocorridas na II Guerra Mundial, na guerra civil da Rússia, na guerra do Vietnã, na guerra da Argélia e na guerra civil espanhola, rotulando como vítimas do capitalismo, indiscriminadamente, as populações dizimadas nesses conflitos pelas tropas comunistas, fascistas e nazistas. Para reforçar a soma, meteu nela até mesmo — santa misericórdia! — as vítimas do massacre de Ruanda, 500 mil mortos, todos eles sacrificados por incitação demagógica da “teologia da libertação”. Resultado: debitando-se na conta capitalista as violências cometidas pelos comunistas, o capitalismo se revelava mesmo um regime tão cruel quanto o comunismo, ou até pior, quod erat demonstrandum .

No caso colombiano, o método empregado não foi diferente. Durante três décadas a área de La Macarena esteve sob o controle das Farc. Sem apresentar sequer um arremedo de motivo, “Marília” e seu editor dão por pressuposto, portanto, que o morticínio – se algum houve, digo eu – deve ter ocorrido no período de 2005 a 2010, quando as Forças Armadas ocuparam a região. Nem percebem que, datando assim o ocorrido, se desmentem ao acusar de participação no crime os “paramilitares”, que então já estavam desativados, desarmados e muitos deles encarcerados. É verdade que, em outras áreas e épocas, esses combatentes mercenários esconderam cadáveres em fossas, mas quem os espremeu até que confessassem tudo – e quem em seguida exumou os cadáveres – foram as Forças Armadas da Colômbia, e não se vê por que fariam isso, denunciando-se a si próprias, se tivessem participado desses crimes ou de outros idênticos. Fixando o delito no período posterior a 2005, “Marília” e Amorim inocentam involuntariamente os paramilitares. Removido o episódio para época anterior, ficam inocentadas as Forças Armadas, que não estavam no local. Se queria fazer uma denúncia séria, a dupla deveria ter ao menos evitado a contradição entre o tempo e o lugar do delito.

Aliás, se tivessem mesmo a intenção de descobrir fossas clandestinas, “Marília” e Amorim deveriam ter buscado numa outra direção. As Farc mantiveram dezenas de milhares de seqüestrados em cativeiro, em condições infra-humanas, por mais de três décadas. É impossível que alguns milhares não tenham morrido nesse ínterim, de fome, de maus tratos ou a tiros, sem haver jamais notícia de que os narcoguerrilheiros tivessem a gentileza de remeter de volta aos familiares os cadáveres dos prisioneiros mortos, que assim desapareceram duplamente: sumiram da face da Terra e nunca entraram nas contagens de “desaparecidos”.

Fica portanto demonstrada, pelo método Gilles Perrault, a maldade sem fim do capitalismo e especialmente do sangrento ditador Álvaro Uribe.

Com toda a evidência, “Marília” e Amorim não leram jamais um jornal da Colômbia, pois se o fizessem saberiam que a grande mídia daquele país é anti-uribista e colecionadora voraz de denúncias contra as Forças Armadas, os paramilitares e a “direita” em geral. Saberiam também que a Fiscalia não é nenhum antro de conservadores, mas, bem ao contrário, é uma ponta-de-lança das Farc, firmemente decidida a vingar por meios jurídicos os mais heterodoxos as derrotas acachapantes que a narcoguerrilha sofreu no campo militar (veja-se, a título de exemplo, o caso do coronel Luís Alfonso Plazas, aqui descrito em 18 de junho, http://www.olavodecarvalho.org/semana/100618dc.html ). Saberiam, ainda, que nem a mídia nem as autoridades ficaram inativas ante a denúncia da “vala comum”. Que inatividade pode ter havido numa investigação que mobilizou, tudo junto, a Chancelaria, o Departamento de Direitos Humanos da Vicepresidência, a Procuradoria da República, a Inspetoria Geral do Exército e o governo da província de Meta? A investigação (agradeço à minha amiga Graça Salgueiro o envio da notícia publicada em El Tiempo ) concluiu que o cemitério está lá desde há mais de vinte anos, que os corpos foram ali sepultados um a um em épocas diversas e que, por fim, não se encontrou no local um só cadáver cujo sepultamento não estivesse oficialmente registrado na prefeitura respectiva (v.

http://www.eltiempo.com/colombia/politica/presunta-existencia-de-fosa-comun-en-el-meta_7820294-1 ).

Mas não é só da mídia colombiana em geral que a dupla denunciante mantém austera distância. Nenhum dos dois parece ter lido sequer a notícia original da denúncia que veiculam. Se a conhecessem, saberiam que o sinal de alarma não foi dado por “uma comissão britânica”, como dizem, mas sim pela senadora Piedad Córdoba e pelo deputado comunista Ivan Cepeda, dois parceiros tradicionais das Farc, quadrilha da qual a ONG inglesa “Justice for Colombia”, que só entrou na história a título de megafone ex post facto , é também notória e incondicional aliada.

Para completar, está claro que “Marília” e seu editor não examinaram nem mesmo a foto que, na opinião de ambos, prova a crueldade nazista de Álvaro Uribe: se a tivessem ao menos olhado por instantes, teriam visto que ela não mostra nenhuma “vala comum”, mas, precisamente ao contrário, várias covas separadas.

Uma Intentona E Tanto

15 de agosto de 2001 | 15 de agosto de 2001

Há algum tempo que as polêmicas em torno do professor Olavo de Carvalho nos divertem e nos enriquecem com seu inigualável brilhantismo intelectual. Um verdadeiro filósofo, sem a empáfia dos jargões, a nos brindar em periódicos e pela Internet, com o mais fino dos temas filosóficos, surgiu como num passe de mágica, para horror dos ídolos de plantão. Mas seu empreendimento filosófico não se resume aos temas, ditos, específicos da filosofia. Sua bondade intelectual nos propicia uma das mais profundas e catárticas análises da cultura que esse país já teve, conforme o best-seller O Imbecil Coletivo pode atestar.

A cruzada que Olavo empreende contra a perigosa hegemonia ideológica esquerdista nunca foi respondida à altura. A esquerda não tem pensadores, quiçá filósofos, e nenhuma das questões que o professor Olavo denuncia, com objetividade e clareza escandalosas, foram respondidas. Quantas vezes, entre amigos, eu reclamei da mudez sórdida dos intelectuais e dos fazedores de opinião desse país?! Orava para que alguém pudesse dialogar com ele. Era triste ver quão solitária era a verdade. Não reclamo da solidão do professor, tão já afeiçoado a ela, mas a solidão mórbida de todos os que se interessam pela verdade dos fatos e esbarram na ideologia, na mentira cotidiana da modernidade, da esquálida cultura juvenil que odeia o que ignora. Mas, passada a fase de entusiasmo, que sua socrática intervenção na cultura brasileira nos traz, pois o império da burrice maliciosa e arrogante ainda sobrevive, uma tristeza, ainda que terapêutica, substitui o encanto.

É claro que não me refiro nem ao valor nem a qualidade das aulas do professor Olavo, mas uma suposta reação à elas. A mudez foi substituída por uma gritaria. Surge agora um grupo, dito católico, que, ao contrário da esquerda brasileira, parece pensar e se coloca contra o projeto, devo dizer, pedagógico do professor Olavo. A arrogante mudez coletiva da mídia parece já menos escandalosa que a balbúrdia inquisitorial que esse grupo dito católico, repito, empenha.

Um grupo, cujas citações em latim apenas douram um barroco podre, sente-se honrado de dispersar a unidade inegável que o professor Olavo aponta entre as várias tradições espirituais da humanidade. Condenar o professor e a toda a sua obra de herética, justamente aquele que já figura como um dos que mais fez pela dignidade intelectual de nosso país, é uma outra maneira de apagar os sinais da autêntica espiritualidade em nome de um discurso canônico míope, de um rigor anacrônico, vazio de espírito.

Artigos de um aluno do grupo fedeliano, arrotam uma pseudo erudição, específica e afetada, cheia de sarcasmos e arrogâncias, parecido, aparentemente, com o sarcasmo do próprio Olavo de Carvalho. É certo que alguns fedelianos também foram breves alunos do professor Olavo, mas, como a intenção sórdida de apreender-lhe apenas contradições já dominavam seus corações, suas mentes não puderam apreender nada mais que um estilo, um dentre os vários. A crítica de Olavo ao Concílio Vaticano II, à infalibilidade papal, à equivocada generalização sobre a gnose, esse esplêndido conceito grego do conhecimento, é tratada como uma heresia digna das fogueiras. E os fedelianos se arrogam seus mais resolutos vestais. É sabido que, após o Vaticano II, a nova missa não é um ato do sacerdote a quem o povo se une, mas um ato do povo a quem os ministros servem. Os altares foram transformados em mesas e isso, nem mesmo um filósofo deve dizer. Pelo menos é assim que pensam esses “guardiões romanos”. Mas Olavo não pode e não deve ficar calado. A Teologia da Libertação não é um fenômeno sul-americano , nem restrito à Igreja Católica, é ensinada em universidades americanas e européias, disseminada na maioria das denominações protestantes e, acima de tudo, pelo Concílio Mundial de Igrejas. É notório que é uma tentativa de misturar ideologia marxista com os valores religiosos mais superficiais. O grupo dos fedeli é mais uma manifestação de nosso tempo: riqueza religiosa e pobreza espiritual. As análises de Olavo de Carvalho sobre a Igreja, sobre a religião são de uma clareza e bondade que falta até mesmo à maioria dos próprios religiosos. Ninguém tem a palavra definitiva, é certo, mas o caminho que se percorre já diz muito, e a trilha intelectual que o professor percorre é de um inegável brilho espiritual cuja reação ígnea dos seguidores de Fedeli realmente nos espanta. Há uma série de questões sobre a Igreja que são de suma importância para o filósofo discutir, para benefício não só do povo, mas da própria Igreja. Não podemos esquecer que ela também é uma instituição humana e que as soluções que se buscam para os dilemas da humanidade, ainda que inspiradas, não são absolutas, pois seriam, ai sim, uma grande heresia.

Só Deus é Absoluto. A Verdade deve ser buscada. Não a encontraremos por decreto. Os que se dizem defensores da Tradição, especialmente os que o fazem com as tochas em punho, não podem esquecer que devem continuamente se manifestar a respeito do problema da miséria, e das contínuas contradições da humanidade. A busca do conhecimento, sendo a busca do sentido da vida, comunga de uma dimensão comum com a mística. Não se confunde com ela, mas não lhe é estranho. O divórcio que o grupo fedeliano quer reeditar entre Ser e Conhecer, açoitando-nos com dogmas literais, é no mínimo um ultraje filosófico. Mas creio que mandar a filosofia às favas não é exclusividade dos fedeli, e a esquerda materialista agradece mais essa intentona.

Ronaldo Castro castro@recife.pe.gov.br Em 15 de agosto de 2001

Leituras

Regra De Tres

15 de Março de 2001 | Jornal da Tarde

Quando os megacapitalistas, a burocracia planetária e a mídia internacional, após apoiar com verbas e publicidade a organização do Fórum Social Mundial, aceitam alegremente algumas das conclusões do encontro e passam a declarar que, de fato, como já dizia o doutíssimo Olívio Dutra, a globalização não foi igualmente boa para todos, a conclusão que se deve tirar disso é, para mim, a mais óbvia possível. O circo esquerdista de Porto Alegre foi apenas um útil contraponto dialético de detalhe, programado pelos próprios engenheiros do mundialismo para se encaixar na sua estratégia geral, a qual não exclui nem mesmo, no vasto painel de um mundo cada vez mais capitalista, a possibilidade de umas experiências socialistas, aqui e ali, em países que sejam idiotas o bastante para desejá-las e irrelevantes o suficiente para que seu suicídio não prejudique em grande coisa o universo em torno: tal parece ser o caso, precisamente, do Brasil.

Mas o Brasil não seria tão bom para o desempenho dessa parte vexaminosa do “script” maior se, precisamente, a nossa intelectualidade não fosse cretina o bastante para não perceber o funcionamento da máquina mundial de desinformação da qual ela própria é, no local, a peça decisiva. Assim, as declarações espantosamente sincrônicas do FMI, do Banco Mundial, da ONU e de George Soros em discreto apoio às conclusões do Fórum gaúcho não despertarão a menor suspeita e, em vez de ser interpretadas à luz dos preceitos mais elementares da ciência das informações estratégicas, serão unanimemente aceitas e repassadas em seu puro valor retórico nominal, como homenagens casuais do globalismo à argumentação de seus adversários. “Sancta simplicitas!”

Ninguém, aqui, parece capaz de fazer o seguinte raciocínio: premissa maior – o poder global expande-se igualmente por meio da livre iniciativa capitalista ou da burocracia mundial socializante. Premissa menor – em virtude das próprias dimensões totalizantes do empreendimento, esses meios têm de ser alternados para a coisa dar certo. Conclusão: frear o liberalismo e pisar no acelerador do estatismo não diminui em nada a velocidade de ascensão da Nova Ordem Mundial nem a da liquidação das autonomias nacionais.

Mas, no Brasil, só as palavras contam. Como o nome “liberalismo” está associado a “globalismo”, e o nome “estatismo” a “independência nacional”, embora as quatro coisas aí significadas não tenham nada a ver com isso, só o que importa é reforçar os mesmos discursos de sempre, porque, afinal, o show tem de continuar.

Assim, comentando um relatório da FAO (a única organização internacional que, por descuido da produção talvez, não fez coro às unanimidades antiliberais da quinzena passada), segundo o qual o mundo está hoje menos miserável do que 15 anos atrás, o editorialista de um grande jornal de São Paulo diz que isso não pode ser, porque, como informam outras tantas e ainda mais abalizadas autoridades globais, o número de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia subiu de 1,2 bilhão de meados da década de 80 para 1,5 bilhão hoje. São portanto 300 milhões de miseráveis a mais, “quod erat demonstrandum”.

Acontece que, no mesmo período, a população mundial passou de 4,5 bilhões para 6 bilhões. Aumentou, portanto, de um terço, enquanto o exército de miseráveis teve seu contingente acrescido de apenas um quarto. A prosperidade está obviamente ganhando a corrida. Não importa: na atmosfera geral de histrionismo antiliberal, qualquer indício de que a miséria diminuiu vale como prova de que a miséria cresceu. E como o que conta é mesmo o teatro, o articulista completa sua “performance” proclamando que, apesar do que diz a FAO, “definir a linha de indigência é um problema complexo de estatística social” porque “os métodos são variados e a acurácia dos dados é precária”. Diante de tanta sabença, já ninguém mais ousa perguntar: que pode entender da “acurácia” dos métodos estatísticos um sujeito que não consegue sequer aplicar uma regra de três?

Em 15 de março de 2001

Ensaiando O Corralito

15 de Junho de 2002 | 15 de Junho de 2002

A recente medida do Banco Central do Brasil, elevando o recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo de 10% para 15%, combinada com a antiga decisão que obriga os bancos a recolherem taxas variadas de compulsório em torno de 80% da média diária dos depósitos à vista, mostra o quanto anda engessado o crédito em nosso País. O Estado não se limita a se arvorar a ter o monopólio da dívida – é o Grande Devedor. Quando o mercado recusa, por alguma razão, a cessão de crédito adicional que o esfomeado tomador quer, o Estado interfere de forma draconiana sobre a normalidade econômica, tomando os recursos à força. É uma extrema violência.

Recolher compulsoriamente valores nesses montantes é negar a necessária liquidez para o funcionamento normal do sistema econômico, obrigando os agentes econômicos deficitários (que precisam de crédito, mas que são economicamente saudáveis, é importante sublinhar) a pagar taxas de juros exorbitantes, consideradas as maiores do Planeta. Empresas só podem ser bem sucedidas no Brasil se tiverem 100% de capital próprio para tocar as suas operações, do contrário estão sujeitas a quebrar, pois nenhuma operação normal de produção pode gerar meios para pagar os juros exorbitantes impostos pelo governo. Ainda pior: nenhum projeto de investimento pode ser realizado se for utilizado como parâmetro de taxa de retorno os juros de mercado, inibindo o desenvolvimento econômico. Em outras palavras, as ações do governo são uma fábrica de desemprego e de desespero social. É o horror econômico praticado metodicamente, através de resoluções do Banco Central, sob o comando dos apologetas do gigantismo estatal.

Ações desse tipo são da mesma natureza do famigerado “corralito”, que tanto tem infelicitado a Argentina. A diferença é só de grau. Quanto mais o Estado perder a credibilidade junto aos seus financiadores internos e externos, mais se verá tentado a lançar mão dessa violência extrema, a pretexto de combater a especulação. Esta deveria ser combatida com medidas corretas de política econômica, reduzindo despesas públicas, intervenções indevidas no mercado, desregulamentando o que não deve ser regulamentado e, sobretudo, reduzindo a demanda por créditos adicionais do Estado. Estamos muito longe disso, pois o déficit público será elevado e permanente, enquanto o comando do governo estiver na mão daqueles que praticam o bordão do “tudo pelo social”.

E, quanto mais violência o Estado cometer contra o mercado, mais tentado ficará para desvalorizar a dívida pública, produzindo um confisco de riquezas. Haverá assim uma espiral de insegurança. Na verdade, os agentes econômicos não especulam, como sugerem os burocratas do governo, apenas tomam decisões racionais em meio a grandes incertezas sobre o futuro imediato, derivadas das ações intempestivas e violentas do Estado.

Se houver um momento de insegurança mais generalizado, que induza os financiadores do governo a buscar aplicações em ativos reais, estarão criadas as condições para que o tal “corralito” seja implantado aqui em sua plenitude, como aliás fez o Governo Collor. Será a “argentinização” da economia brasileira, o mergulho no abismo profundo e ameaçador que ninguém sabe quando acabará.

Culpar os bancos privados por essa situação é não apenas injusto, é um erro grosseiro. Os correntistas pagam elevadas taxas pelos serviços bancários simplesmente porque os bancos não têm como ratear custos com suas carteiras de crédito artificialmente inibidas. Os depósitos à vista, que deveriam ser o funding para fazer chegar dinheiro barato para a produção, aumentando a escala de empréstimos e a rentabilidade dos bancos, são drenados sem remuneração pelo ogro estatal. Os bancos são vítimas do processo, embora sejam instrumento da ação exorbitante do governo.

São essas pessoas que destroem a capacidade de desenvolvimento econômico que, fazendo propaganda enganosa para os eleitores, prometem resolver os problemas da economia com mais intervenção governamental. A verdade é exatamente o contrário: os problemas só serão eliminados quando o ogro estatal for enquadrado em uma dimensão civilizada, que respeite os que trabalham e constroem a prosperidade. O drama é que a verdade nunca ganhou eleição alguma. Infelizmente, o País está na mão dos demagogos, a produzir o desastre, que continuarão governando.

Em 15 de junho de 2002

Leituras

Pirro E Savonarola

14 de outubro de 1999 | Jornal da Tarde

Dar uma prova cabal do que quer que seja, num artigo de jornal, é quase impossível. Aí não se vai além da argumentação retórica, ou prova por verossimilhança. Há, no entanto, retórica e retórica. Algumas argumentações retóricas só valem enquanto tais: têm na verossimilhança o limite extremo da sua possibilidade de prova. Outras são apenas a abreviatura provisória de teorias que, desdobradas em todos os seus detalhes, mostram todo o rigor das provas que as sustentam.

Pedro Laín Entralgo chegou a definir, por essa diferença, o gênero ensaístico: ensaio é a teoria... menos a prova explícita. Captar nas entrelinhas a prova embutida ou a definitiva e irremediável ausência dela – eis a habilidade que se requer do leitor desse gênero de escritos, habilidade que falta miseravelmente às classes letradas do Brasil de hoje, educadas num dualismo patológico que entre a demonstração matemática e a fantasia poética só enxerga um vasto deserto. A essas, como a crianças, é preciso explicarmos tudo nos mínimos detalhes, tapando com respostas cabais cada hiato que sua mesquinha imaginação não logre saltar por suas próprias forças; e no fim ainda temos de suportar, com infinita paciência pedagógica, que ostentem sua demanda voraz de muletas lógicas como um sinal de rigor intelectual e sentido crítico, valha-nos Deus! Neste país a pura dificuldade de pensar tem a glória e o prestígio dos pensamentos difíceis.

Um cartesianismo de almanaque inoculou em certos círculos da nossa sociedade o culto da dúvida, venerada como suprema virtude filosófica. Mas o que diferencia da insegurança ranheta o autêntico senso crítico é que este sabe quando parar, e aquela continua duvidando onde já não há mais nada que perguntar. O limite é dado pelo senso da evidência, sem o qual toda demanda de provas é jogo fútil ou comichão doentia: se alguém é incapaz de distinguir o certo do duvidoso, para que há de cultivar a dúvida senão por deleite ou compulsão? E como não haveriam estas paixões de fechá-lo em seus prazeres ou dores subjetivos, afastando-o cada vez mais do objeto sobre o qual finge pensar? Por isso, a sã credulidade do cidadão comum é melhor ponto de partida para os estudos filosóficos do que a mania argumentativa que hoje se impinge às nossas crianças a título de introdução ao filosofar. Antes de aprender a duvidar, é preciso aprender as razões de duvidar. Mas como estas não são senão a inversão simétrica das razões de crer, não tendo outra consistência senão a que delas receba por negação, só o homem que crê seriamente é capaz de duvidar a sério, e uma geração educada desde tenra idade no ceticismo pedante e na contestação fútil nunca passará de um bando de simuladores de dúvidas, macaqueadores de discussões filosóficas. Mais tola que a crença ingênua é a dúvida leviana.

Não apenas tola, mas positivamente daninha. A corrosão fácil não destrói as crenças habituais (um efeito que só poderia ser obtido pela crítica rigorosa): cria apenas uma inibição de examiná-las atentamente; inibição que nem por se pavonear de ceticismo voltaireano deixa de ser o que é: um temor à experiência profunda, um recuo defensivo para a superfície. E quando toda a capacidade raciocinativa de um homem está empenhada nessa operação de fuga, é fatal que ele não alcance nunca a verdadeira independência de pensamento, mas viva numa insegurança que, quanto mais duvida, mais necessita de crer. Só que, como sua inteligência está toda a serviço da corrosão, o caminho da crença racional lhe está vedado, não lhe restando senão apegar-se à pura emotividade. E, como as emoções são flutuantes por natureza, não podem lhe dar a segurança que ele deseja, a não ser que algo as regule e discipline de fora: daí a busca da emoção coletiva, que exerce sobre a pobre alma o efeito ordenador, estruturante – e, afinal, calmante – de um Ersatz da razão. Eis por que, na mente das nossas classes letradas, o ceticismo mais corrosivo pode coexistir pacificamente com a adesão aos grosseiros moralismos políticos do dia, ninguém aí enxergando a menor contradição em negar a existência do bem e do mal e clamar, ao mesmo tempo, pelo castigo dos maus. Que essa mistura de Pirro e Savonarola sofra de uma insaciável fome de bodes expiatórios, nada mais lógico: o falso clamor de justiça é a exteriorização padronizada do ódio que a alma moralmente inconsistente tem de si mesma.

Em 14 de outubro de 1999

O Comunismo Dos Imbecis

14 de maio de 2015 | Diário do Comércio

Definir o comunismo como “estatização dos meios de produção”, como o fazem o sr. Marco Antonio Villa e seus admiradores, que por incrível que pareça existem, é descrevê-lo pelo sistema econômico ideal que lhe serve de bandeira e slogan, e não pela sua realidade de movimento político e intelectual com um século e meio de uma história tremendamente complexa.

É explicar fatos históricos pela definição de uma palavra no dicionário, procedimento no qual nenhuma pessoa com mais de doze anos de idade tem o direito de confiar.

Procedimento que se revela ainda mais pueril e inaceitável quando a definição é usada como premissa de um raciocínio (ou raciossímio, diria o Reinaldo Azevedo) segundo o qual um partido que não prega ou pratica ostensivamente a estatização dos meios de produção não pode ser comunista de maneira alguma.

Pois, ao longo de toda a sua história, os grandes partidos comunistas do mundo, a começar pelo da própria URSS, preferiram quase sempre deixar essa meta hipotética e longínqua num discreto segundo plano, ou omiti-la completamente, concentrando-se em objetivos concretos mais imediatos que pudessem compartilhar com outros partidos e forças, ampliando a base das suas alianças possíveis.

Característica, nesse sentido, foi a política do Front Popular, que na década de 30 angariou apoio mundial para a URSS na base de um discurso “antifascista”, onde tudo soava como se nenhuma incompatibilidade tivesse existido jamais entre o regime comunista e os interesses da burguesia democrática dos países ocidentais.

O velho Partido Comunista Brasileiro de Luís Carlos Prestes sempre falou muito menos em estatizar a economia do que em “defender os interesses nacionais” e a “burguesia nacional”, supostamente ameaçados pelo capital estrangeiro.

No período da luta contra a ditadura militar, então, não se ouvia um só comunista, fora do meio estudantil enragé ao qual pertencia o sr. Villa, pregando estatização do que quer que fosse: só clamavam por “democracia”.

Mao Dzedong, no início da carreira, falou tanto em patriotismo antijaponês e foi tão discreto no que diz respeito ao fim do livre mercado, que superou Chiang Kai-Shek nas simpatias do governo americano, ante o qual fez fama de “reformador agrário cristão”.

Mesmo quando se fala em estatização, na maior parte dos casos ela é sempre parcial e aplicada de tal modo que não fira indiscriminadamente os interesses da burguesia e o direito a toda propriedade privada dos meios de produção, mas pareça mesmo favorecê-los a título de “aliança entre Estado e iniciativa privada”. Mesmo no Chile de Allende foi assim.

Sendo, malgrado todas as suas mutações e ambiguidades, um movimento organizado de escala mundial, o comunismo sempre comportou uma variedade de subestratégias locais diferenciadas, as quais, não raro, se pareciam tanto com um comunismo de dicionário quanto as intrigas diplomáticas do Vaticano se parecem com a salvação da alma.

A famosa “solidariedade comunista internacional” consiste precisamente numa bem articulada divisão de trabalho, de modo que as ações dos partidos comunistas locais contribuam para o sucesso mundial do movimento pelas vias mais diversas e às vezes até incompatíveis em aparência.

Nos anos 30 do século passado, Stálin ordenou que o Partido Comunista Americano se abstivesse de tentar organizar a militância proletária e, em vez disso, se concentrasse em ganhar o apoio de bilionários, de intelectuais célebres e do beautiful people da mídia e do show business, na base de apelos ao “pacifismo”, aos “direitos humanos” e à “democracia”, de modo que o discurso comunista se tornasse praticamente indistinguível dos ideais formadores do sistema americano.

Nessa perspectiva, arregimentar militantes e intoxicá-los de doutrina marxista era muito menos importante do que seduzir possíveis “companheiros de viagem”, pessoas que, sem ser comunistas nem mesmo em imaginação, pudessem, nos momentos decisivos, colaborar com as iniciativas do Partido e com os interesses da URSS, usando, justamente, da sua boa fama de insuspeitas de comunismo.

Foi por isso que o Partido, na América, sempre foi uma organização minúscula, dotada de um poder de influência desproporcional com o seu tamanho.

O objetivo dessa estratégia era não só criar em torno do comunismo uma aura de humanismo inofensivo, mas também fazer do capitalismo americano a fonte de dinheiro indispensável à sustentação de um movimento político sempre deficitário quase por definição.

A operação teve sucesso não só em desviar para a URSS e para o PCUSA quantias vultuosas provenientes das grandes fortunas privadas, mas em transformar o próprio governo americano no principal mantenedor e patrono do regime soviético, que sem isso não teria sobrevivido além dos anos 40.

Quanto a este segundo ponto, é evidente que simples idiotas úteis e agentes de influência não poderiam ter obtido tão esplêndido resultado; eles serviram apenas para dar suporte moral e político à ação de agentes de interferência, profissionais de inteligência altamente treinados, cuja infiltração maciça nos altos postos do governo de Washington, como se sabe hoje, foi muito além do que poderia ter calculado, na época, o infeliz senador Joe McCarthy.

Por todos esses exemplos vê-se como é imbecil esperar que um partido saia pregando a “estatização dos meios de produção” para só então notar que ele é comunista.

O próprio PT já deixou clara, para quem deseje vê-la, a sua quádrupla função e tarefa no movimento comunista internacional:

1. No plano diplomático, alinhar o Brasil com o grande bloco antiocidental encabeçado pela Rússia e pela China. O BRICS não é nada mais que uma extensão embelezada da Organização de Cooperação de Shanghai, que já expliquei aqui em 2006 (leia aqui).

2. Na esfera de ação continental, salvar e fortalecer o movimento comunista, como bem o reconheceram as Farc, mediante a criação do Foro de São Paulo e de um sistema de proteção que permita a transfiguração da narcoguerrilha, ameaçada de extinção no campo militar, em possante e hegemônica força política e econômica.

3. Por meio de empréstimos ilegais e da corrupção, usar os recursos do capitalismo brasileiro para salvar os regimes comunistas economicamente moribundos, como os de Cuba e de Angola.

4. Na política interna, eliminar as oposições, aparelhar o Estado e estabelecer de maneira lenta, discreta e anestésica um poder hegemônico indestrutível.

Quem tem toda essa complexa e portentosa missão a cumprir há de ser louco de sair por aí pregando “estatização dos meios de produção” para assustar e pôr em fuga a burguesia local, sem cuja colaboração o cumprimento da tarefa se torna impossível?

Na perspectiva do sr. Marco Antonio Villa, nada disso é atividade comunista, já que falta “estatizar os meios de produção”.

A desproporção entre a complexidade do fenômeno comunista e a estreiteza mental de um autor de livrinhos compostos de recortes de jornal já é patética por si, sem que ele precise ainda enfatizá-la afetando sua superioridade de portador de um diploma ante os que, sem diploma nenhum, conhecem a matéria porque a estudaram.

Como eu mesmo me incluo entre estes últimos, sendo tão carente de estudos formais quanto Machado de Assis, João Ribeiro, Capistrano de Abreu, Luís da Câmara Cascudo, Manuel Bomfim, José Veríssimo e outros construtores maiores da cultura brasileira, deve parecer mesmo revoltante ao sr. Villa que eu tenha acumulado mais honrarias acadêmicas, prêmios literários, citações em trabalhos universitários e aplausos de grandes intelectuais de três continentes do que ele, com seu canudinho da PUC e seu currículo mirim, poderá angariar em trinta reencarnações, caso existam.

Entre os anos 40-70 do século passado, a idolatria dos diplomas, tão característica da Primeira República e tão bem satirizada nos romances de Lima Barreto, parecia uma doença infantil finalmente superada numa época em que a cultura brasileira ia vencendo o subdesenvolvimento e igualando-se às de países mais ricos.

Um quarto de século de “Nova República”, e sobretudo doze anos de PT no poder, trouxeram-na de volta com força total, numa espécie de compensação ritual que, sentindo vagamente no ar a ausência da alta cultura desfeita em pó, busca apegar-se supersticiosamente aos seus símbolos convencionais, como o viúvo inconsolável que dorme agarrado a um chumaço de cabelos da falecida, para trazê-la de volta.

Não é de todo coincidência que entre os sacerdotes desse culto caquético se destacassem justamente alguns daqueles que minutos antes perguntavam “Diploma para quê? ” e buscavam persuadir a nação de que a fé democrática trazia como corolário a obrigação de eleger um semianalfabeto presidente da República.

Uma vez que o Partido domina as universidades, é indispensável que elas monopolizem a atividade cultural, marginalizando e achincalhando toda criação ou pensamento independente.

Se o sr. Villa colabora gentilmente com esse empreendimento, não há nisso nada de estranho, já que ele se empenha também em acobertar as atividades do Foro de São Paulo, reduzindo todo combate antipetista a uma “luta contra a corrupção” imune ao pecado mortal de anticomunismo.

O Capital

14 de maio de 1998 | Jornal da Tarde

Todos os políticos, intelectuais, artistas, líderes comunitários, enfim, todas as pessoas maravilhosas querem que o povo brasileiro seja rico e feliz (subentendendo-se que o dinheiro não traz felicidade a quem não o tem). Para esse fim, concebem programas de ação que consistem em distinguir quem deve ir para o governo e quem deve ir para a cadeia (ou, nos casos agudos, para o cemitério). Os programas divergem somente quanto aos grupos de pessoas que formam as duas colunas da lista. Os militares achavam que eles mesmos deveriam estar no governo, e na cadeia os que achavam o contrário, isto é, os chamados corruptos e subversivos . Hoje, os esquerdistas acham que quem deve estar no governo são eles, e na cadeia os corruptos e reacionários , isto é, todos os outros.

Descontados os eufemismos e outras figuras de estilo, é nisso, substancialmente, que consiste o chamado debate nacional.

Não posso assegurar que a distribuição dos lugares mais confortáveis e mais desconfortáveis da sociedade seja totalmente irrelevante para o destino do bolso popular, mas tenho razões para crer que há outros fatores que deveriam ser examinados antes de se decidir tão transcendente disputa.

Um deles é o seguinte. Lao-tsé já dizia que sem dinheiro é muito difícil fazer dinheiro. Não disse exatamente com essas palavras, mas disse. Significa que para ser rico é preciso fazer alguma coisa e esta coisa custa alguma coisa. Tão decisiva é esta segunda coisa, que recebeu o nome de capital.

Quaisquer que sejam as ações a cumprir para tornar você rico, o capital é que lhe dá os meios de executá-las – despesas de material e transporte, sustento próprio e dos subordinados durante a realização do projeto, etc., etc.

Só há quatro métodos para obter o capital.

O primeiro é ter sorte. Ter sorte é estar de bem com o céu e receber dele aquilo de que se precisa, como por exemplo um alimento no deserto ou um caminho no meio do mar. Moisés usou muito este método na fuga do Egito, com sucesso comprovado. A Bíblia fornece várias receitas de como praticá-lo, em duas versões, antiga e moderna ou judaica e cristã. Ambas exigem que você confie, reze, seja um bom sujeito, não mexa com a mulher do próximo e, de modo geral, não encha o saco.

O segundo, mais apropriado aos descrentes, é usar aquilo que você já tem e espremer, se existirem, as últimas gotas de um limão seco que já deu cinco limonadas. Num velho filme de Sidney Lumet, O Homem do Prego (“ The Pawnbroker ”) , o usurário – judeu, mas morbidamente ateu – representado por Rod Steiger explicava a técnica ao jovem porto-riquenho que queria montar um negócio: “Viva apenas de pão seco, use sempre o mesmo par de calças, reduza para a metade a ração de leite das crianças e, se chorarem de fome, espanque-as. Ao fim de umas poucas décadas você terá o capital para começar.”

As eruditas páginas de Karl Marx sobre a acumulação primitiva do capital não valem essas palavras, ainda que reproduzidas imperfeitamente.

O terceiro método é roubar, supondo-se que você tenha suficiente força física – um precioso capital natural – para derrubar seu vizinho e torcer-lhe o pescoço antes de esvaziar-lhe a carteira, posto que haja nela o que justifique tamanho risco. Caso não se trate de enriquecer um indivíduo, mas uma nação, é preciso ter armas e soldados em número superior ao do adversário, o que supõe que antes de recorrer a este terceiro método se tenha praticado o primeiro ou o segundo, ou ambos, durante um bom tempo.

O quarto e último método é pedir a quem tem, seja sob a forma de empréstimos, seja de investimentos. Nas duas hipóteses é preciso aceitar a seguinte conseqüência implacável: se você conseguir ficar rico, um outro sujeito vai ficar mais rico ainda, e, se você não conseguir deixar de ser pobre, ele vai deixar você mais pobre ainda.

Não há um quinto método. O problema com o Brasil é que nenhum dos quatro nos agrada. A resistência a todos está, como se diz, na nossa cultura, a qual, por mal dos pecados, é obra das mesmas pessoas maravilhosas que querem pôr umas às outras na cadeia com o objetivo de enriquecer o povo.

Objetamos ao primeiro que é demorado e incerto (além de anticientífico), ao segundo que é escorchante, ao terceiro que é imperialista e ao quarto que resulta, segundo dizia Leonel Brizola, em intoleráveis “perdas internacionais”.

Não dispondo, portanto, de capital, não podemos agir no campo econômico. Em compensação, atuamos com raro entusiasmo e proficiência no terreno mais próximo dele, que é a política. A política consiste, segundo Carl Schmitt, em favorecer os amigos e sacanear os inimigos – o que é precisamente o que temos feito, empregando para isso o melhor de nossos recursos financeiros, intelectuais, jurídicos, musculares, vegetais, animais e hidromineralógicos.

Aos Realistas Ou Assim Chamados

14 de julho de 2002 | Zero Hora

Vocês, que crêem poder predizer o rumo da história com base nas cotações da bolsa de Nova York; vocês, que só crêem na força determinante do dinheiro e de mais nada; vocês, que por isso se imaginam os homens mais realistas do mundo, são na verdade umas galinhas estúpidas e indefesas, que se acreditam a salvo da raposa porque estão encarapitadas num poleiro de ouro. Como se a raposa ligasse para isso. Como se a experiência diária dos assaltos, dos homicídios, dos seqüestros em cada esquina não estivesse gritando, do alto dos telhados, que entre o rico desarmado e o pobre armado é este último quem tem nas mãos as rédeas do destino.

Vocês não sabem nada da vida. Não sabem sequer que, na semana em que Lênin derrubou o governo Kerenski e em três dias desmantelou toda a máquina política, militar, administrativa e policial da Rússia, a bolsa de valores em Moscou e Petrogrado não caiu um ponto sequer. Todo um mundo histórico desmoronava, a maior potência imperial da época desfazia-se em cacos e sobre os seus escombros erguia-se o monstro totalitário destinado a escravizar a quarta parte da população terrestre — mas as ações e títulos permaneciam imperturbavelmente em seus lugares, sem um tremor sequer. Quem quer que tentasse medir por eles o estado do mundo concluiria, sem hesitações, que não estava acontecendo nada.

Nada.

“Nada” foi justamente a palavra, a única palavra, que o rei Luís XVI anotou em seu diário no dia da tomada da Bastilha. Naquela época os poderosos ainda não haviam se habituado a avaliar a gravidade dos acontecimentos pelo termômetro da bolsa de valores. Mediam-na pela importância maior ou menor das conversações diplomáticas em palácio. E naquele dia não houve nenhuma conversação importante. Seu termômetro financeiro, ó galinhas, é tão confiável quanto o termômetro diplomático de Luís XVI. De onde vocês, capitalistas, tiraram a idéia de que o dinheiro rege o mundo, senão daquela filosofia que criou essa idéia precisamente como arma de destruição do capitalismo? Vocês não percebem que essa filosofia precisa de que vocês acreditem nisso, exatamente porque, falsa como descrição da realidade, ela adquire um poder de profecia auto-realizável tão logo suas vítimas passem a acreditar nela e a comportar-se como ela quer que se comportem para mais facilmente poder derrubá-los?

Meu Deus! Vocês não percebem que nenhum comunista sério jamais acreditou na força do dinheiro, que Marx, Lênin, Stálin e Mao inventaram essa história sob medida para aprisionar vocês numa ilusão de poder, enquanto eles, por seu lado, preferiam confiar-se ao poder infinitamente mais real da violência e da mentira? Vocês não percebem que a força do dinheiro repousa inteiramente na normalidade da rotina econômica que só um Estado constitucional bem organizado pode dar, ao passo que nos momentos de precipitação revolucionária uma pequena dose de truculência e cinismo vale muito mais que uma fortuna em ações na bolsa?

Por que vocês gostam tanto de se imaginar espertos? Napoleão, que entendia dessas coisas, ensinava: “Entre a esperteza e a força, a força sempre vence.”

Por que vocês se preocupam tanto com os reflexos que certos acontecimentos previstos para logo mais hão de ter na mente dos investidores estrangeiros? Por que imaginam, bestamente, que o futuro do país depende do estado de ânimo dessas criaturas? Não sabem que, nos anos que se seguiram à tomada do poder pelos bolcheviques, o governo soviético conseguiu não só manter como ampliar os investimentos internacionais, usando-os para consolidar seu poder absoluto, massacrar as oposições, instalar o reinado do terror e montar o mais eficiente Estado policial de todos os tempos, enquanto em Paris e Londres os investidores dormiam tranqüilos, seguros de que nada de preocupante podia estar se passando num país que cumpria tão fielmente seus compromissos financeiros para com o Exterior?

Que história idiota é essa de “risco Brasil”? Vocês não concebem uma catástrofe senão sob a forma de lucros cessantes? Nunca ouviram falar de vidas cessantes, de esperanças humanas cessantes, de direitos e garantias constitucionais cessantes, de liberdade cessante? Ou imaginam que, se nada de mau acontecer aos Morgans e Rockefellers do mundo, nada de mau poderá acontecer ao Brasil? Não concebem que Morgans e Rockefellers, garantida a sua parte, não vão querer perder um bom cliente só pelo detalhe irrisório de ele ser comunista? Durante os últimos doze anos as maiores indústrias, bancos e escritórios de investimentos dos EUA nem de longe pensaram em cometer a impolidez hedionda de incomodar seus mais queridos parceiros, os militares chineses, com pedidos impertinentes para que parem de prender e torturar bispos católicos à base de três por mês, de condenar à morte 3.600 pessoas por ano, de fuzilar mulheres grávidas só porque não querem abortar. O que é bom para os investidores de Nova York pode ser bom para a nomenklatura pequinense, mas não é necessariamente bom para os demais chineses. Por que haveria então de ser necessariamente bom para o Brasil? E não é com base nesse pressuposto insano, e nele só, que vocês prognosticam o futuro do Brasil, brilhante ou tenebroso conforme os investidores estrangeiros estejam rindo ou chorando?

Acordem enquanto é tempo. Libertem-se desse falso realismo. Joguem fora esse seu termômetro financeiro maluco e comecem a prestar atenção aos fatos do dia a dia, à mutação dos valores morais e das mentalidades, à destruição geral da linguagem e da inteligência, à progressiva acomodação nacional a um estado crescente de terrorismo cotidiano, à propaganda comunista nas escolas, à tolerância crescente para com a violência criminosa compreendida como “protesto social”, à articulação continental de guerrilheiros, traficantes e mídia cúmplice. Nenhuma dessas coisas pode ser adivinhada pelas cotações da bolsa. Mas são elas — e não as cotações da bolsa — que constituem a substância da História.

Em 14 de julho de 2002

Por Que Sou Insuportavel

14 de janeiro de 2009 | Diário do Comércio

Marx descrevia a socialização dos meios de produção como um processo longo e complexo, que poderia se arrastar por muitas gerações. Nenhum partido comunista em seu juízo perfeito deve subir ao poder e logo no dia seguinte baixar um decreto: “Agora é o comunismo, turma. Fica abolida a propriedade privada.” Ao contrário: seja operada por meios pacíficos ou com farto recurso à violência, a transição é sempre lenta, irregular, intercalada de mil e uma concessões ao capital privado até que a elite comunista tenha se assenhoreado de todos os instrumentos de controle político, social, educacional e cultural, sem chance para o ressurgimento das forças reacionárias e conservadoras. O ideal é deixar a economia capitalista intacta e funcionando a pleno vapor até que a tomada do poder em todas as áreas da vida seja completa e irreversível.

Como a elite empresarial e os políticos “de direita” ignoram isso por completo – a maioria não leu nem sequer o Manifesto Comunista –, todos já começam a celebrar o triunfo do capitalismo tão logo um governo ou partido comunista dê sinal de se acomodar ao livre mercado, ainda que parcialmente. Ficam tão felizes com esse arranjo que nem reparam que a concessão no campo econômico vem junto com o avanço do controle hegemônico em todas as demais áreas. Que lhes importa que a militância comunista domine as escolas ou as instituições de alta cultura, se eles continuam ganhando dinheiro e até recebem alguns favores do governo esquerdista? Foi tendo isso em vista que Lênin disse: “A burguesia tece a corda com que a enforcamos.” É claro que a posição privilegiada do empresariado na sociedade não consiste só no direito de encher os bolsos, mas na obrigação de garantir que as próximas gerações desfrutem da mesma liberdade que o capitalismo lhes assegurou. Mas poucos, se algum chega a tanto, entendem que, sem um conjunto de valores culturais socialmente favoráveis à liberdade econômica e, mais ainda, sem os canais e instrumentos para a defesa e preservação desses valores, o capitalismo vai-se reduzindo pouco a pouco a uma concessão estatal provisória, até que se torne tão fraco politicamente que possa ser destruído da noite para o dia sem que um só protesto se levante contra o advento do comunismo.

Se querem saber, portanto, a que distância estamos desse advento, não perguntem se as empresas capitalistas estão prosperando. Perguntem quantos partidos políticos, jornais e canais de TV são abertamente anticomunistas. Quantos discursam habitualmente contra o martírio pérpétuo de prisioneiros políticos na China, na Coréia do Norte ou em Cuba em vez de fazê-lo contra as meras incomodidades que os tagarelas da esquerda alardeiam como “tortura” em Guantanamo? Quantos defendem a instituição da família e a moral tradicional? Quantos denunciam a perseguição anticristã e antijudaica? Quantos protestam contra a doutrinação comunista nas escolas? Quantos se recusam a colaborar com a demagogia gayzista e abortista ou com a eterna promoção de semi-intelectuais de esquerda à condição de representantes máximos da alta cultura? Quantos, ao menos, recusam adaptar-se ao vocabulário “politicamente correto”?

Resposta: nenhum. No Brasil, nenhum. Em todos esses setores, a fase da conquista da hegemonia, tal como descrita por Antonio Gramsci, já passou. O que se observa aí é o domínio total e absoluto, o controle draconiano da formação de opiniões, a ditadura mental onipotente e incontestada.

Enquanto isso, é preciso dar à massa idiota a ilusão de que a liberdade ainda existe. Isso se obtém por dois meios:

1) Reservam-se, na mídia e nos partidos, dois ou três lugares para os discordes e resistentes, de modo que seu mero contraste com a maioria satisfeita lhes dê ares de excêntricos amalucados, fazendo deles, mais que a exceção a confirmar a regra, um instrumento de legitimação inversa do estado de coisas. A estratégia gramsciana previa isso, dando a essas raridades o nome de “aberrações” e agradecendo sua ajuda involuntária à imposição dos novos padrões de normalidade. A única saída decente, para os que foram colocados nesse papel, é denunciar insistentemente a própria situação que lhes foi imposta, até que se tornem ainda mais aberrantes do que convém aos autores da manobra. O preço disso, é claro, é a discriminação aberta, o boicote ostensivo.

2) Abre-se oportunidade para um número um pouco maior de falsos conservadores, incumbidos de ocupar o espaço com argumentos em favor do livre mercado, perfeitamente inofensivos na atual fase da estratégia comunista, e com generalidades insossas sobre democracia, constitucionalismo, ordem jurídica, etc., sem tocar jamais nas questões substantivas que mencionei acima.

Infelizmente, entre jovens que assistiram a meus cursos e conferências, sem se tornar por isso meus estudantes genuínos, abundam os que se dispõem a exercer esse papel abjeto, satisfeitos de ver-se bem recebidos onde fui rejeitado, e acreditando-se por isso uma “alternativa superior”, mais moderninha, serena e equilibrada, ao cada vez mais insuportável Olavo de Carvalho.

Em 14 de janeiro de 2009

Causa Mortis

14 de fevereiro de 2013 | Diário do Comércio

A tal ponto chegou a padronização esquerdista da mídia, da qual falava o meu artigo anterior, que em 2001, em O Globo , segundo confessou seu chefe de redação, Luís Garcia, teve de contratar pelo menos um colunista tido como “de direita”, para não dar muito na vista.

Esse colunista era eu, mas, assim que se tornou patente minha insistência em denunciar as atividades do Foro de São Paulo – cuja simples existência o establishment iluminado negava –, fui expelido não somente daquele jornal, mas da Zero Hora , do Jornal da Tarde e da revista Época .

Fui substituído por uma geração de direitistas soft, que se limitam a defender genericamente a economia de mercado e as liberdades democráticas, sem deixar de fazer toda sorte de concessões ao programa sociocultural da esquerda. E tanto se reduziu nesse ínterim a quota de “direitismo” admissível, que mesmo esses, hoje em dia, são rotulados de radicais, extremistas e golpistas, inclusive pela revista do sr. Carta.

A História já comprovou mil vezes que o rebaixamento da cultura a instrumento de um esquema de poder, acompanhado da supressão das vozes discordantes, é o caminho mais curto para a imbecilização geral.

É claro que a mídia, por si, não pode secar a criatividade das melhores inteligências. O que ela pode fazer, e fez, foi baixar o nível do debate geral para ajustá-lo a uma política que festejava o analfabetismo do sr. Lula como prova de suas “raízes populares” (uma ofensa brutal aos pobres estudiosos) e, coerentemente com o mais rasteiro populismo intelectual, entregava o Ministério da Cultura a homens incapazes de escrever três palavras sem errar duas e meia.

Isso começou com o dogma progressista-populista (já comentado no próprio Imbecil Coletivo), de que “todo es igual, nada es mejor”, de que toda distinção entre o mais alto e o mais baixo é um elitismo fascista, devendo portanto ser extinta a noção mesma de cultura superior e instaurado o cambalache universal que hoje arranca lágrimas de crocodilo do sr. Mino Carta.

Significativamente, o sr. Carta não diz uma palavra sobre a essencial causa mortis da cultura brasileira, a instrumentalização das universidades como centros de formação da militância comunista.

Num ambiente de compressiva uniformização doutrinal, intoxicados de slogans, chavões e cacoetes mentais obrigatórios, protegidos de todo desafio intelectual e cientes de que o menor desvio da ortodoxia dominante pode destruir suas carreiras, milhões de jovens entendem hoje a formação universitária como subserviência canina aos mandamentos de seus orientadores, incluindo, entre as demonstrações rituais de fidelidade, as expressões histéricas de ódio às bêtes noires da mitologia professoral – eu, é claro, em primeiríssimo lugar.

Que alta cultura pode sobreviver nessa atmosfera? Não foi decerto coincidência que alunos da maior universidade brasileira, tendo descido da condição de estudiosos acadêmicos para a de ativistas e militantes, tenham caído daí para a de drogados e praticantes do sex lib e depois para a de bandidos comuns. Qual será a próxima etapa?

Já que o sr. Carta deplora as diferenças entre a cultura brasileira dos anos 40 ou 50 e a de hoje, por que não diz que, dessas diferenças, a maior foi a passagem de um saudável pluralismo ideológico a uma atmosfera de monopolismo partidário, rancor insano e repressão do pensamento divergente?

Será possível imaginar, naquela época remota, um intelectual de boa reputação bloqueando o acesso dos seus adversários à mídia, ou baixando sobre eles uma cortina de silêncio em público ao mesmo tempo que, pelas costas, instigasse contra eles o ódio da juventude universitária?

Naquele tempo, o editor José Olympio costumava reunir no fundo da sua livraria os escritores das mais variadas tendências ideológicas, para conversações que hoje seriam impossíveis. Naquele tempo, foram sobretudo os críticos de esquerda que fizeram a fama de Gilberto Freyre, o inverso de um esquerdista. Naquele tempo, o socialista Álvaro Lins abria as portas do jornalismo a Otto Maria Carpeaux, que chegava da Áustria com a fama de doutrinário-mor do regime católico-autoritário do chanceler Dolfuss.

Não que inexistissem antagonismos. Existiam e eram feios. Mas ninguém fugia de lidar com eles no campo da palavra, ninguém seguia o preceito leninista de tentar destruir socialmente o adversário em vez de discutir com ele.

Diferença por diferença, pergunto se naqueles tempos áureos algum colunista de mídia seria capaz de falar de um problema já abundantemente denunciado e analisado por outro colunista, e fazê-lo com ares de pioneirismo absoluto, sem dar sinal de ter ouvido falar do antecessor. Se o sr. Carta diverge de mim, que seja homem e fale o português claro. Que pare de camuflar sua covardia por trás de uma afetação de superioridade olímpica.

Os exemplos poderiam multiplicar-se ad infinitum. Não foi só a produção de boas obras que diminuiu. Foi muito mais a estatura moral da classe opinante, hoje mais empenhada em consolidar o poder do PT e beneficiar-se financeiramente dele do que em preservar aquele mínimo de integridade e honradez sem o qual não existe vida intelectual nenhuma.

Malicia Demais E Ingenuidade

14 de fevereiro de 2002 | Jornal da Tarde

Os líderes da esquerda brasileira já ultrapassaram, em malícia, hipocrisia e mendacidade, tudo o que se pode tolerar em cidadãos que se pretendam dignos de respeito.

Diante de certos casos de homicídio e seqüestro, puseram-se a trombetear aos quatro ventos que se tratava de crimes políticos “da direita”, embora não se conheça neste país nenhuma organização direitista armada e embora a própria direita desarmada não exista politicamente, estando diluída, enfraquecida e inibida ao ponto de não ser sequer capaz de se defender verbalmente quando acusada das piores coisas.

Uma bela cama-de-gato já vinha sendo montada no Ministério da Justiça contra a isolada e inerme TFP (Tradição, Família e Propriedade), sob a alegação grotesca de que os guardas profissionais contratados por alguns fazendeiros, membros dessa entidade, para a proteção de suas terras contra invasores do MST, eram na verdade guerrilheiros direitistas, prontos para uma investida fatal contra as instituições democráticas.

Ao mesmo tempo, os serviços de inteligência militar, ao manter sob observação discreta brasileiros ligados de algum modo à narcoguerrilha colombiana, foram denunciados na imprensa por espionagem ilegal, sem que os denunciantes sequer reparassem que, ao alardear uma coisa dessas, confessavam automaticamente seu próprio crime de espionagem ilegal cometido contra as Forças Armadas. Novamente, a tal “direita”, débil e amedrontada, preferiu suportar calada a pecha de criminosa atirada em seu rosto por aqueles que no mesmo ato delinqüiam contra ela. Provou, com isto, que nada se lhe pode imputar de criminoso, exceto a criminosíssima omissão dos que se deixam matar por medo de apanhar.

Os assassinatos dos prefeitos de Campinas e Santo André, embora não envolvessem nem de longe o nome de qualquer direitista conhecido, desconhecido ou inventado, mas só os de amigos e correligionários desses políticos, foram também, contra toda evidência, explicados como atentados políticos “da direita”.

Sob as desculpas mais esfarrapadas e pueris que algum cara-de-pau já ousou conceber, tudo estava enfim preparado para uma caça às bruxas da inexistente direita armada, quando, repentinamente, a expressão “crime político” se tornou perigosa para a própria esquerda e foi banida às pressas do vocabulário decente.

Ao revelar-se que Maurício Hernandez, seqüestrador de Washington Olivetto, era um dos chefes da “Frente Patriótica Manuel Rodriguez”, braço armado do Partido Comunista Chileno, a esquerda nacional em peso, da senadora Heloísa Helena ao ministro da Justiça, e incluindo no côro o próprio seqüestrado, que preferiria perder a vida a dizer uma só palavra prejudicial ao esquerdismo, se ergueu para proclamar a uma só voz: “Não é crime político! Não é crime político!”

Propalada como certeza absoluta e apriorística, essa assertiva vinha com a finalidade mais que evidente de reprimir como conspiração direitista qualquer veleidade de investigar mais em detalhe as notórias ligações do sr. Hernandez com o QG cubano da revolução continental (v. a excelente matéria de Cláudio Camargo na revista “Isto É” de 13 de fevereiro, pp. 32-33). Alguns, para dar-lhe mais credibilidade, chegaram a apregoar seu desprezo a um cidadão que seqüestrava e torturava por dinheiro em vez de fazê-lo, como é próprio dos homens de bem, por ódio político e desejo de poder.

Mais torpemente ainda: contrastando com o benefício que um dia se concedeu aos seqüestradores de Abílio Diniz por exigência unânime do “beautiful people” esquerdista, a recusa do Ministério da Justiça de extraditar o criminoso é exibida como prova de rigor justiceiro e superior imparcialidade, sem que uma única alma falante se lembre de observar que, em 1989, a extradição era vantajosa para os acusados, que em seus países seriam logo postos em liberdade, como de fato o foram, ao passo que o sr. Hernandez, com uma condenação transitada em julgado no Chile, tem tudo para desejar permanecer no Brasil e certamente agradece, comovido, a afetação de intransigência do nosso ministro da Justiça.

Todo o falatório esquerdista das últimas semanas é tão obviamente maldoso, tão obviamente fingido, tão obviamente posado, que até eu, que não morro de amores pela esquerda, estou surpreso com essas manifestações infladas e hipertróficas de hipocrisia maquiavélica. Pois até a mais refinada malícia, quando passa de certos limites, se torna uma forma de ingenuidade patológica.

Em 14 de fevereiro de 2003

Reclamacao Inutil

14 de dezembro de 2003 | Zero Hora

Meu falecido amigo José Carlos Bardawil, que foi chefe da sucursal da IstoÉ em Brasília, conta nas suas memórias “O Repórter e o Poder” que, dentre seus colegas de ofício, os únicos que não temiam perda de emprego eram os comunistas. Eles gabavam-se, com razão, de dominar o mercado de trabalho. A intimidade, a quase identidade de jornalismo e comunismo neste país pode ser avaliada por uma publicação oficial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, “Jornalismo 1930-1980”, onde mal se distingue entre a história da profissão e a história do PCB.

Com a dissolução da velha disciplina partidária e a adoção de estratégias flexíveis inspiradas em Antonio Gramsci, o poder do movimento comunista sobre a imprensa nacional cresceu mais ainda, ao ponto de, em 1993, a confissão de dirigentes da CUT de que a entidade tinha oitocentos jornalistas na sua folha de pagamentos (mais que várias empresas jornalísticas somadas) já não provocar nenhum escândalo. Hoje em dia o povo está completamente domado: ninguém mais vê nada de imoral ou alarmante em que o governo federal crie uma agência de autopropaganda maior que o velho DIP da ditadura Vargas. Em compensação, a simples presença de um ou dois anti-esquerdistas nas páginas de opinião de qualquer jornal ou revista é denunciada como sinal apocalíptico de que “a direita se reorganiza”. O cinismo dessas denúncias é ilimitado. Meu próprio site www.midiasemmascara.org , publicação de fundo de quintal, mantida à custa de cortes no meu orçamento doméstico e do trabalho gratuito de abnegados comentaristas excluídos da “grande mídia”, é continuamente atacado como orgão do “grande capital”, enquanto o gigantesco indymedia , site de propaganda anti-americana com sedes em uma centena de capitais do mundo, posa de nanico e “independente”.

A situação absurda, imoral, calamitosa, já não desperta porém a mínima inquietação no público, que, bem ao contrário, não esconde sua má vontade de ouvir qualquer palavra, por breve que seja, contra o estado de coisas, isto quando não diagnostica a reclamação como sintoma de paranóia.

Por isso é inútil protestar aqui, ou em qualquer outro lugar, contra a demissão do economista Roberto Fendt da revista “Conjuntura Econômica”, da Fundação Getúlio Vargas, em cuja edição de outubro ele havia publicado matéria de capa sobre o banquete de cargos oficiais oferecido pelo governo federal aos militantes petistas. Ouvi Roberto Fendt falar em vários “Fóruns da Liberdade” do Instituto de Estudos Empresariais do Rio Grande, e o considero um dos poucos brasileiros que têm algo a dizer. Só que, precisamente, esse algo está na lista dos assuntos proibidos. Raquítico e manietado, o jornalismo de oposição move-se hoje entre limites estreitos, devendo sobretudo ater-se às opiniões gerais, abstratas e doutrinárias, sem tocar nos fatos. Fendt pagou o preço por violar essa regra, mas quem se incomoda com isso? Anestesiado e emburrecido por quarenta anos de “revolução cultural”, o país está pronto para achar que o preço foi justo. Afinal, passou o tempo em que o jornalista era um transmissor de fatos. Hoje ele é um “agente de transformação social”, e ninguém mais apropriado para pagar seus serviços nessa área — ou demiti-lo quando não os presta a contento — do que o grande Partido-Estado que decide os rumos da vida nacional.

Em 14 de dezembro de 2003

Relembrando O Irrelembravel

14 de abril de 2008 | Diário do Comércio

O general e historiador comunista Nelson Werneck Sodré, descrevendo no seu livro A Fúria de Calibã os horrores apocalípticos da perseguição a intelectuais logo após o golpe de 1964, que ele não hesita em nivelar ao que sucedeu na Alemanha de Hitler, acaba se traindo ao relatar que, naquele mesmo período, publicou não sei quantos livros, teve não sei quantas críticas favoráveis, algumas entusiásticas, foi brindado com alguns prêmios literários e no fim ainda recebeu uma homenagem no Instituto Brasileiro de História Militar, em cerimônia realizada na presença... do presidente da República, marechal Humberto Castelo Branco.

Jamais um historiador consentiu em personificar tão escandalosamente um exemplum in contrarium da sua descrição geral dos fatos. É o esplendor da paralaxe cognitiva realçado por uma efusão de histrionismo macunaímico. Já imaginaram Fidel Castro prestando homenagem a um historiador anticomunista? Ou Hitler indo à Academia de Berlim para conceder honrarias universitárias a um cientista social anti-racista?

Nada mais ridículo do que a tentativa de pintar o regime de 1964 como uma ditadura totalitária, empenhada em sufocar o trabalho da inteligência em geral e o dos intelectuais esquerdistas em especial.

Na verdade, um breve exame dos anuários da Câmara Brasileira do Livro, como já apontou com mira certeira o embaixador J. O. de Meira Penna, basta para mostrar que nunca a indústria editorial esquerdista prosperou tanto como naquele tempo, tanto em volume de livros publicados quanto na absorção de generosas verbas governamentais distribuídas de maneira exemplarmente – ou ingenuamente — apolítica. Pouco antes de morrer, o saudoso Ênio Silveira, dono da maior editora comunista do país, a Civilização Brasileira, me confessou que sua empresa jamais teria chegado ilesa ao fim da década de 80 sem os subsídios que ele próprio ia esmolar pessoalmente nas altas esferas de um governo federal alegadamente empenhado – segundo hoje se ensina em todas as escolas — em esmagar no berço toda manifestação do pensamento esquerdista.

A demissão de umas dúzias de professores esquerdistas no começo do regime não os impediu de ensinar, nem de publicar livros, nem de escrever em jornais — só os privou de receber dinheiro público para fazer propaganda comunista. Se isso lhes doeu tanto, não foi porque sua exclusão da universidade oficial trouxesse algum dano substantivo à cultura brasileira (sob esse aspecto ela trouxe até algum benefício): foi porque o dinheiro público é o alimento essencial da elite esquerdista, a qual, como se confirmou abundantemente depois da sua ascensão ao poder, se acha credenciada por uma espécie de direito natural a consumi-lo em quantidades ilimitadas, sem ter de prestar contas e, a exemplo do MST, sem precisar nem mesmo assinar recibo.

As vítimas dessa odiosa essa privação alimentar, que foram aliás pouquíssimas, sobretudo em comparação com o número de intelectuais cubanos exilados, não sofreram nenhum entrave sério ao exercício das atividades culturais na iniciativa privada, onde, ao contrário, os empreendimentos esquerdistas proliferaram como nunca, entre outras razões pela ajuda milionária que começaram a receber de fundações estrangeiras, também sem nunca ter de prestar contas. Foi também durante os governos militares que os intelectuais e artistas de esquerda, pondo em prática os ensinamentos de Antonio Gramsci, trataram de abocanhar todos os espaços nas universidades, nas instituições culturais e na indústria editorial, desalojando um a um os conservadores que, quando veio a redemocratização, já estavam tão marginalizados e isolados que a eleição de Roberto Campos para a Academia Brasileira, em 1999, surgiu como uma anomalia escandalosa e quase inacreditável.

No domínio do jornalismo, só forçando muito a realidade os esquerdistas se poderiam queixar de perseguição, de vez que o órgão mais visado pela censura foi justamente o mais conservador de todos, O Estado de S. Paulo , enquanto os semanários esquerdistas superlotavam as bancas e sofriam incomodidades, é certo, mas nem de longe comparáveis à pressão contínua que o governo impunha ao jornal dos Mesquita (não venham com conversa para cima de mim, porque eu trabalhava lá nessa época e vi tudo de perto). A simples contagem de cabeças basta para mostrar que o relativo pluralismo existente nas redações em 1964 foi cedendo lugar à hegemonia esquerdista mais descarada, até o ponto de que, dos anos 80 em diante, os grandes jornais fizeram questão de ter pelo menos um direitista no seu corpo de articulistas para atenuar a impressão de uniformidade ideológica que fluía de cada uma de suas páginas, do noticiário policial até as colunas sociais, mas sobretudo das seções de arte e cultura, onde uma hegemonia se somava a outra. Coube a Paulo Francis, a Roberto Campos e depois a mim representar o papel dessas exceções que confirmavam a regra. Nos regimes totalitários, a opinião da mídia, por definição e por uma questão de mera sobrevivência, vai se amoldando cada vez mais ao discurso oficial, até desaparecer toda possibilidade de oposição. A história do jornalismo brasileiro nos vinte anos de governo militar seguiu o curso simetricamente inverso, com a mídia em peso apoiando o golpe em 31 de março de 1964 e depois tornando-se cada vez mais esquerdista até que, no fim do governo Figueiredo, já não sobrava nos jornais e canais de TV um só jornalista que ousasse se opor ao consenso esquerdista e mencionar em voz alta, mesmo com restrições, os méritos mais óbvios de um regime que alcançara progressos econômicos jamais igualados antes ou depois (a expressão “nunca nêfte paíf...” é um salto anacronístico de trinta anos).

Seja nos órgãos de educação e cultura, seja no jornalismo, a esquerda, em vez de ser calada e marginalizada, foi indo cada vez mais para o topo e falando cada vez mais alto, até que já não se podia ouvir nenhuma outra voz senão a sua: se tagarelice esquerdista fosse alta cultura, o tempo dos militares teria sido o apogeu da nossa história intelectual até então (digo “até então” porque nada se compara ao brilho e à majestade da Era Lula). Mas, como é difícil fazer-se de intelectual excluído e ao mesmo tempo imperar sobre a cultura de um país ao ponto de poder decidir quem entra e quem sai, a intelligentzia esquerdista se atrapalha um pouco na narrativa daquele período, ora chamando-o de “anos de chumbo”, ora de “anos dourados”. Talvez não seja confusão, é claro, apenas uma natural alternância estilística, conforme essa coletividade de pessoas exemplares deseje acentuar como tudo em volta era feio ou como ela própria era bela. A língua pérfida de Daniel Más dizia que a segunda dessas expressões se referia, na verdade, aos pacotinhos dourados em que a cocaína era entregue, na pérgola do Copacabana Palace, às estrelas das letras e das artes que ali se dedicavam mais altos afazeres intelectuais de que se tem notícia. Caso esta versão seja fidedigna, ela não suprime a anterior, antes a reforça metonimicamente, designando pela cor da embalagem o efeito do estupefaciente que induzia aquelas criaturas a imaginar que brilhavam como ouro sob um céu de chumbo.

Tive meus arranca-rabos com o general Andrade Nery e os teria de novo pelas mesmíssimas razões, mas não posso deixar de cumprimentá-lo por sua reação viril à tentativa de usar as Forças Armadas numa operação tão vexatória como a retirada dos agricultores brasileiros para dar lugar a uma “nação indígena”. Falando pelos companheiros de farda aos quais o código disciplinar impõe um mutismo indignado, o general disse o que todos os militares brasileiros gostariam de dizer: as Forças Armadas existem para defender o Brasil, não para destrui-lo sob pretextos politicamente corretos. Espero que a ocasião sirva para alertar o general quanto à verdadeira origem das pressões globalistas que ameaçam o futuro deste país, origem sobre a qual eu não poderia ser mais claro nem mais concludente do que fui nos meus antigos das últimas semanas.

Em 14 de abril de 2008

Sem Desculpa

13 de setembro de 2007 | Jornal do Brasil

Agora que o PT finalmente admitiu que o Foro de São Paulo é um “espaço de articulação estratégica” (sic) e não um inofensivo clube de debates como o chamava antes, tornou-se fácil até para as personalidades mais minúsculas e os cérebros mais atrofiados enxergar a verdade óbvia que, contra tudo e todos, e pagando caro por isso, proclamei durante anos: o partido que nos governa é parceiro e colaborador de organizações criminosas, tem com elas uma estratégia comum para a conquista do domínio total sobre o continente – uma aliança macabra que, se as leis neste país valessem de alguma coisa, seria razão mais que bastante não só para o imediato impeachment do presidente, mas para a prisão dele e de todos os seus colaboradores.

Tão gigantesco é esse concurso de crimes que, diante dele, ficar resmungando contra meros delitos de corrupção, como o fazem os ditos “oposicionistas”, é pura desconversa anestésica – inconsciente e burra, em alguns casos; consciente, oportunista e dolosa, em outros.

Tanto mais monstruosa se revela a trama quando se sabe que algumas das organizações com que o PT e outros partidos de esquerda se associaram, na busca de vantagens políticas comuns, são responsáveis pela matança anual de dezenas de milhares de brasileiros – seja através do comércio de drogas, seja através da ajuda prestada a gangues locais como o PCC e o Comando Vermelho para que espalhem o caos e o terror nas ruas das nossas principais cidades.

O presidente que trata como amigos e protegidos os assassinos de seus concidadãos é traidor do seu povo e cúmplice de homicídio em massa. Se o eleitorado soubesse disso, jamais teria votado nele nem mesmo para vereador em Garanhuns. Mas, justamente por ser o que é, o Foro de São Paulo tem colaboradores por toda parte, empenhados em fazê-lo ascender do mero poder descomunal ao poder absoluto. Muitos empresários de mídia e seus iluminados chefes de redação ajudaram alegremente a criar o monstro que agora ameaça estrangulá-los. Montaram em benefício dele a maior e mais duradoura operação-abafa já registrada na história do jornalismo mundial – um fenômeno comparável, em gravidade e abjeção, à existência mesma do Foro de São Paulo.

Há 17 anos a mídia nacional vive de um imenso blefe, jogando o peso da sua autoridade residual (não muito grande, é verdade) contra a massa dos fatos e documentos que a desmentem. Transfigurando a sátira em realidade, lança diariamente ao rosto de cada brasileiro o desafio de Groucho Marx: “Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”. Acovardado e trouxa, o cidadão escolhe repetidamente a primeira alternativa.

Podemos perdoá-lo por isso, quando é um semiletrado com dificuldade de acesso às provas documentais – as atas do Foro, o discurso presidencial de 2 de julho de 2005 e, agora, o vídeo preparatório do 3o Congresso do PT . Mas que desculpa hão de arranjar, ante a História e ante suas próprias consciências – se alguma lhes resta – os jornalistas, políticos e empresários soi disant antipetistas? No máximo podem alegar uma razão psicologicamente plausível: o medo. Sabem que o perigo é maior do que eles próprios, maior até do que agüentam enxergar, portanto o que lhes resta é negar-lhe a existência, fazendo de suas próprias vidas uma farsa ignóbil e ajudando os comunistas a empurrar o país inteiro para o abismo do auto-engano e da loucura.

Em 13 de setembro de 2007

Fracasso Memoravel

13 de setembro de 2001 | Jornal da Tarde

A Conferência de Durban foi uma farsa e uma armadilha. Seu fracasso foi a coisa mais lógica, mais justa e mais saudável que aconteceu na política internacional nos últimos anos.

A Conferência jamais teve o propósito honesto de lutar contra o racismo e a discriminação, mas apenas o de enaltecer as comunidades oportunisticamente favorecidas pela esquerda internacional, ao mesmo tempo que se acumpliciava, mediante um silêncio criminoso, a perseguições e violências sofridas por grupos politicamente inconvenientes.

Não falo nem dos religiosos cristãos e budistas pelo contínuo genocídio chinês e vietnamita ao qual a Conferência fez vista grossa. O fato mesmo de se escolher por sede do encontro a África do Sul já foi de um cinismo sem par. Ali o “apartheid” jamais terminou. Só mudou de cor. Os fazendeiros bôers estão sendo liquidados às pencas pelas tropas paramilitares instigadas pelo governo pró-comunista do sr. Mbeki. 1118 já tinham morrido até a semana passada, sem que uma única voz se erguesse no plenário para protestar contra essa “limpeza étnica”.

Quanto aos judeus, são obviamente inocentes da acusação de racismo. Estão pagando apenas pela sua burrice. Quantos intelectuais judeus, durante décadas, desprezando o Ocidente que os amava e acolhia, não preferiam ajudar aqueles que odiavam, em doses iguais, Israel e o Ocidente, Moisés e Cristo? Pois tiveram agora uma amostra da gratidão de seus protegidos.

Mas igualmente loucos são aqueles muçulmanos que, no imediatismo do ódio anti-israelita e anti-americano, se fazem aliados de quem ainda ontem os fuzilava, aos milhares, na Rússia e na China.

Nada no mundo justifica que os filhos de Abraão, para guerrear-se uns aos outros seja lá pelo motivo que for, se aliem aos filhos da mentira. Esse pecado, que já custou caro aos cristãos, começa a custar caro aos judeus. E não sou eu quem diz que amanhã custará caro aos muçulmanos. É a voz do profeta. Maomé disse: “Se vossos antecessores (os judeus e os cristãos) se atirarem num buraco de serpente, ireis logo atrás deles.”

Quem garante a esses muçulmanos de hoje, tão inflamados de retórica anti-israelense, que amanhã uma nova declaração do governo global, sob o pretexto de proteger mulheres ou “gays”, não exporá o Islam ao escárnio do mundo, como hoje faz com Israel sob o pretexto de proteger palestinos?

Todas essas contradições latentes, sufocadas sob o falatório do dia, o fracasso da Conferência de Durban traz repentinamente à luz da consciência.

Mais memorável ainda ele é por iluminar o conflito entre o globalismo e o interesse nacional americano, conflito que a propaganda esquerdista tem escamoteado mediante o artifício de jogar sobre os EUA a culpa de todos os malefícios da Nova Ordem Mundial.Como ressaltou o comentarista Henry Lamb em sua coluna no World Net Daily, “o que a comunidade internacional realmente quer é que os Estados Unidos sejam colocados sob o controle de uma autoridade internacional... Tal será a ‘aldeia global’, com as Nações Unidas servindo de administração da aldeia. Os EUA já cederam à ONU mais soberania do que a Constituição americana permite”.

Que isso alerte, enquanto é tempo, aqueles nacionalistas brasileiros “enragés”, que, pensando atingir a máquina globalista que nos oprime, atiram pedras nos EUA.

PS Este artigo estava pronto quando sucederam os ataques terroristas de terça-feira. Decidi mantê-lo porque ele esclarece algo do quadro geral que preparou a tragédia. O detalhe mais elucidativo a acrescentar é o seguinte: Antes de o último tijolo chegar ao chão, a “intelligentzia” globalista já começava a pressionar os EUA para que não reagissem, para que fossem bonzinhos e aguardassem docilmente a decisão da “comunidade internacional”. Era a guerra psicológica que vinha sublinhar o ataque armado, aproveitando-se da zonzeira momentânea da vítima para induzi-la a desarmar-se mais um pouco.

O Idiota Em Sentido Estrito

13 de outubro de 2013 | Diário do Comércio

Termos como “idiota”, “imbecil”, “mentecapto” etc. podem ser usados como meros xingamentos. Neste caso, não indicam nenhuma deficiência mental objetiva no indivíduo a que se aplicam, mas somente a raiva que os falantes sentem dele – a qual pode até mesmo ser, e freqüentemente é, causada pela percepção de uma superioridade intelectual que os incomoda e humilha.

Não uso jamais – repito: jamais – esses termos com esse sentido. Quando digo que alguém é idiota ou imbecil, ou quando o sugiro mediante outras palavras, é porque notei claramente, na pessoa de quem falo, uma ou várias das 28 deficiências intelectuais assinaladas pelo célebre educador romeno Reuven Feuerstein ( v. por exemplo aqui ), as quais resultam sempre em julgamentos impulsivos, deslocados da situação.

Esse erro, o mais freqüente hoje em dia entre os debatedores brasileiros de qualquer assunto, corresponde esquematicamente à falácia lógica que os antigos denominavam “ignoratio elenchi”, em que o sujeito pensa ter provado alguma coisa quando de fato provou, se tanto, outra completamente diversa. Isso acontece, evidentemente, quando o cidadão é incapaz de entender qual o ponto em debate. É impossível que um estudante não adquira esse vício quando adestrado desde pequeno para remeter tudo de volta, sempre e sistematicamente, a meia dúzia de chavões tidos como universalmente explicativos, em vez de tentar perceber o que está realmente em jogo na discussão. O apelo compulsivo a rótulos infamantes como “fascismo”, “fundamentalismo religioso”, “preconceito e discriminação”, “racismo”, “homofobia”, “teoria da conspiração”, “elite exploradora” etc., é hoje praticamente obrigatório e funciona como substitutivo socialmente aprovado do esforço de compreender aquilo que se pretende impugnar mediante o emprego fácil e desesperadoramente mecânico desses termos.

O controle “politicamente correto” do vocabulário tenta vestir uma camisa-de-força verbal no adversário mas termina por aleijar intelectualmente o próprio usuário desse artifício, reduzindo-o à condição de repetidor histérico de insultos completamente despropositados.

Como o que no Brasil de hoje se chama “educação universitária” consiste eminentemente em adestrar os alunos nessa prática, não é de espantar que quatro entre cada dez estudantes das nossas faculdades sejam analfabetos funcionais, o que não significa que os outros seis tenham uma inteligência à altura das funções para as quais ali se preparam.

Demonstrações de inépcia em doses francamente escandalosas são freqüentes não só entre maus estudantes, mas entre pessoas que ocupam os postos mais destacados na esfera da alta cultura neste país. Quando, por exemplo, o escritor Luiz Ruffato é aplaudido pela mídia ao classificar como “genocídio” a redução do número de índios brasileiros de quatro milhões (número hipotético) para 900 mil desde os tempos de Pedro Álvares Cabral até hoje, tanto ele quanto sua platéia demonstram que não têm a menor idéia do que venha a ser um genocídio e só usam a palavra como reforço da identidade grupal dos “bons” contra os “malvados”. “Pensar”, no Brasil, significa que o sujeito se apaixona por um símbolo do que lhe parece “o bem” e “a justiça”, e imediatamente liga o gerador de lero-lero para acabar com o mal no mundo.

Outro tanto deve ser dito do dr. Miguel Nicolélis, que se escora na sua autoridade de neurocientista para dizer que Jesus, Abraão e Maomé eram apenas esquizofrênicos que imaginavam falar com Deus. Esse homem estuda o cérebro há décadas, mas ainda não se deu conta de que é impossível encontrar, nesse órgão, qualquer prova de que algum objeto pensado exista ou inexista fora dele .

Isto aplica-se a Deus como a um gato, a uma pedra ou a uma banana. Aplica-se aliás até ao próprio cérebro. Com toda a evidência, o ilustre membro da Academia Pontifícia de Ciências não entende o alcance da sua própria afirmação, produzida no gerador de lero-lero para fazer bonito ante pessoas que também não a compreendem. Seis meses de estudo das “Investigações Lógicas” de Husserl não lhe fariam nenhum mal.

Já nem comento os palpiteiros enragés que, em explosões verbais de uma comicidade irresistível, aparecem a toda hora professando dar cabo do Olavo de Carvalho de uma vez por todas. Um deles, a quem eu tentava explicar que não é possível ter serviço públicos gratuitos e ao mesmo tempo “acabar com a desigualdade social”, não parecia entender que um serviço público só é gratuito quando custeado por alguém que não é o seu beneficiário: a redução da desigualdade social distribui as despesas mais equitativamente entre todos e acaba automaticamente com a gratuidade. Numa situação idealizada, onde todos tivessem ganhos equivalentes, das duas uma: ou todos pagariam contribuições iguais para custear os serviços independentemente de usá-los ou não, ou cada um pagaria proporcionalmente aos serviços que recebesse. No primeiro caso estaria imediatamente instaurada a desigualdade entre os que pagam sem usar e os que usam sem pagar. No segundo, os serviços não seriam gratuitos de maneira alguma. Por mais que eu explicasse, analisasse e desenhasse essa equação simples, o sujeito, homem de formação universitária, continuou esperneando e jurando que eu era um adepto da injustiça social.

Só pode haver divergência de opiniões entre pessoas com nível similar de inteligência e conhecimento. Com mentecaptos, só o que existe é uma dificuldade de comunicação quase invencível.

Em 13 de outubro de 2013

Processo De Moscou

13 de novembro de 2001 | dr.lima1@terra.com.br

Não interessa à sociedade o destino que o PT dará a Diógenes de Oliveira. Senão por curiosidade, o que acontecerá ao prócer petista é periférico ao interesse maior da sociedade. Se não o fosse, seria forçoso admitir que problemas de foro interno de um partido vibrariam como se o partido, o Estado, o governo, e a administração pública estadual fossem uma única e exclusiva coisa, o que o PT não gosta de admitir, mas que a sociedade começou a perceber neste lamentável episódio de tráfico de influências. Outro não é o motivo da cólera sobre o relator da CPI e a própria CPI quando eles identificaram nas ligações perigosas de Diógenes o dedo do partido-governo, do governo-Estado, da administração pública-partido, e do partido-Estado, uma única e sólida esfera, palavra tão ao gosto dos intelectuais softs do PT. Não têm eles do que se queixar, entretanto; tudo fizeram e fazem para confundir nesta nebulosa esfera aquilo que a verdadeira democracia busca incansavelmente separar, para que bandeiras partidárias não se sobreponham à transitoriedade do governo e à perenidade da administração pública, para não falar no Estado, o ente maior, neutro por definição e imortal por soberana necessidade.

Por tal, não se entende a manifestação apriorística do Secretário da Justiça e da Segurança da inatacabilidade de pessoas e entidades. Olívio não é Deus; o PT é um partido, singular, sui-generis, por certo, mas que nem por isso pode se autoproclamar inatacável como querem seus defensores. Ou bem confessa que esta singularidade o faz precisamente suspeito de se sobrepor às leis que a todos obriga, ou admite de vez o caráter excepcional de um partido que tem na sua vanguarda, pelo menos, uma facção socialista-revolucionária não desprezível, como bem o indica o currículo dos seus principais astros, como um vórtice irresistível que a tudo e a todos arrasta para aventuras perigosas.

De tudo se conclui que a CPI revelou uma ponta obscura até ao momento aos olhos do eleitorado gaúcho e brasileiro; ela tocou um ponto essencial, qual seja, o PT é diferente, e esta diferença não provem de sua honestidade, nem de sua “ética”, mas sim de sua postura revolucionária que o coloca em condições privilegiadas no enfrentamento dos outros partidos. É como se em um duelo um dos contendores usasse armas que são sonegadas ao outro. Não há debate democrático que resista a esta falta de fair-play, nem tampouco há democracia onde um dos contendores não aceita as regras a todos imposta. Diante desta contradição brutal restou ao Partido dos Trabalhadores o insano labor de desqualificar a CPI, não por seus exageros, mas por ela ter revelado ao mundo que há alguns partidos que são mais iguais do que outros. À sociedade alertada por uma imprensa recém desperta não agradará a reedição estalinista de outro Processo de Moscou.

Em 13 de novembro de 2001

Leituras

Colaboracionistas

13 de março de 2008 | Jornal do Brasil

O colaboracionismo de importantes jornalistas brasileiros foi — e é — parte vital da estratégia que permitiu a uma articulação de comunistas e gansgsters dominar meio continente sem encontrar resistência, enquanto a “direita” se deixava entorpecer pelo slogan narcótico de que “o comunismo acabou”, ao ponto de hostilizar quem quer que tentasse alertá-la de que as coisas não eram bem assim.

O longo silêncio da mídia nacional em torno do Foro de São Paulo nada teve de involuntário ou inocente. Que uma confluência acidental de lapsos de atenção possa ter-se repetido em todas as redações de jornais, rádios e TVs do país, dia após dia, ao longo de dezesseis anos, é uma hipótese tão rebuscada, inverossímil e psicótica, que só serve para tornar ainda mais patente aquilo mesmo que deseja ocultar.

Mas a maior prova de que o bloqueio de notícias foi intencional é que ele persistiu até mesmo depois das duas confissões públicas do sr. Luís Inácio Lula da Silva quanto às suas atividades clantestinas no Foro, e só veio a ceder um pouquinho quando o próprio PT deu o sinal verde, com o vídeo do seu III Congresso, no momento em que o segredo já não lhe era mais necessário nem conveniente. Mesmo liberada, a notícia ainda permaneceu parcialmente retida até que uma crise diplomática, alardeada nos principais jornais do mundo e sublinhada por uma declaração explícita do sr. Hugo Chávez em pessoa sobre suas conversas com Lula e Raul Reyes no quadro do Foro (v.

http://www.youtube.com/watch?v=DzxOK21kXms&feature=related ), tornou impossível continuar abafando um escândalo de dimensões continentais.

O fato de que agora, rompido o silêncio, aqueles mesmos sonegadores de notícias sejam ouvidos sobre o assunto como autoridades sérias e isentas, em vez de ser desmascarados e investigados como cúmplices do maior concurso de crimes já observado na América Latina, mostra que o regime de privação cognitiva que eles impuseram ao país alcançou o efeito desejado: tornou a vítima estúpída e crédula o bastante para submeter-se voluntariamente, de novo e de novo, ao mesmo tratamento que a incapacitou de início, como um drogado acaba por se tornar servo devoto e amoroso do traficante que o mata aos pouquinhos.

E eles, é claro, aproveitam-se disso para dar um upgrade à fraude consagrada, passando da omissão simples à mentira ativa. Forneço dois exemplos, escolhidos a esmo. A sra. Eliane Cantanhede, na ânsia de limpar retroativamente a reputação da liderança esquerdista comprometida pelas últimas notícias, assegura-nos que “Lula rompeu com o Foro de São Paulo seis anos atrás” – quando o próprio Lula já confessou ter continuado a participar do Foro muito tempo depois de eleito presidente da República, além de atuar nele ainda hoje através do sr. Marco Aurélio Garcia (v.

Lula, réu confesso e Saindo do armário ). O sr. Demétrio Magnoli, que até mesmo Veja respeita como um expert na matéria, proclama que as Farc se afastaram do caminho revolucionário para dedicar-se ao banditismo puro e simples – e tem a cara de pau de dizer isso no instante mesmo em que a esquerda latino-americana em peso se junta para proteger a narcoguerrilha e legitimá-la como movimento político, prova cabal de que não enxerga nela uma quadrilha de delinqüentes comuns.

Para os deformadores de opinião, impedir que a boa imagem do esquerdismo seja arranhada pela revelação de seus crimes é um dever que está infinitamente acima da honestidade, virtude simplória demais para o seu gosto requintado.

Quando estreei como foquinha, quarenta e tantos anos atrás, o cínico desencanto dos velhos profissionais que diziam “Nós, jornalistas, somos prostitutas” me soava insuportavelmente ofensivo. Hoje ainda me parece ofensivo. Ofensivo às prostitutas.

Em 13 de março de 2008

A Raposa E O Tigre

13 de junho de 2011 | Diário do Comércio

A opinião de Mário Vargas Llosa, segundo a qual a eleição de Ollanta Humala é “uma grande vitória da democracia”, não tem nem o mais mínimo fundamento objetivo e desperta no observador a tentação de explicá-la por motivos psicológicos, pessoais. Nada, nada neste mundo, exceto um viés subjetivo imantado de forte carga emocional justifica a presunção de que o fujimorismo é mais perigoso para a democracia do que o Foro de São Paulo. No mínimo, no mínimo, há o fato de que Alberto Fujimori foi removido do poder e condenado pela Justiça, e nada de semelhante aconteceu ou pode acontecer jamais aos membros e amigos do Foro, ainda que cometam, como de fato cometem, crimes infinitamente maiores que os do ex-presidente peruano. Também não é preciso ser nenhum Prêmio Nobel de Literatura para entender que o fujimorismo é um fenômeno local, sem extensões fora do Peru, ao passo que o Foro é, por definição, o comando estratégico da revolução comunista em escala continental, apoiado por uma rede de conexões internacionais que vai desde as fundações americanas bilionárias até a KGB e a máfia russa espalhada pelo mundo. Rejeitar Keiko Fujimori e escolher alegremente Ollanta Humala é expulsar a raposa para entregar a gerência do galinheiro a um tigre.

Um tigre não se torna menos tigre por vir de unhas pintadas. Que Humala tenha, para fins de propaganda, preferido copiar antes o modelito soft de Luís Inácio Lula da Silva do que as caretas ameaçadoras de Hugo Chávez é um detalhe cosmético a que só mentalidades frívolas podem dar algum valor. Lula foi o criador e é ainda o mentor do Foro de São Paulo, o comandante-em-chefe de uma entidade proteiforme que, atendendo tão somente às suas necessidades táticas de momento e lugar, alterna com a maior indiferença os meios de ação mais diversos e heterogêneos, da sedução ao assassinato em massa, da camuflagem rósea à intimidação explícita, dos afagos aos seqüestros. O próprio Luiz Inácio já confessou tantas vezes a unidade estratégica do Foro de São Paulo por trás da variação de suas aparências locais, que a recusa de enxergá-la só pode ser obra da mendacidade consciente, de uma burrice política imperdoável ou de uma hábil mistura desses dois elementos.

Como essa mistura se produziu no cérebro de Mário Vargas Llosa é um enigma que deixo para seus futuros biógrafos. O ódio de muitas décadas a Alberto Fujimori, mesmo acrescido do ressentimento de concorrente derrotado nas eleições de 1990, não bastaria para destruir totalmente o senso das proporções em massa neuronal tão privilegiada. Não, a explicação psicológica não resolve. Mais razoável é apelar à sociologia: ao emitir sua opinião insensata, Vargas Llosa talvez estivesse menos expressando um sentimento pessoal do que repetindo um script tradicional, característico de uma certa classe de pessoas.

Vargas Llosa é, com toda a evidência, um daqueles inumeráveis intelectuais ex-comunistas que não tiveram a coragem de abraçar a causa anticomunista com a mesma intensidade, com o mesmo entusiasmo, com o mesmo comprometimento integral com que um dia serviram ao Partido. Tomar birra da ditadura comunista é uma coisa. Outra, bem diversa, é tornar-se um Arthur Koestler, um Vladimir Bukovski, um Whittaker Chambers. O preço, aí, é alto demais. Muitos são os que não querem pagá-lo. Ao contrário, sua ruptura com o comunismo, parcial, mediada e cheia de reservas, é antes de tudo um salvo-conduto para continuar combatendo “a direita” mais eficazmente ainda, sem poder ser acusados de fazê-lo em proveito de ditaduras de esquerda, ainda que dando força a estas últimas em momentos estratégicos decisivos (como a eleição de mais um pau-mandado do Foro de São Paulo), ungindo-as com o óleo bento do “antifascismo”.

A História já demonstrou mil vezes que isso de “ex-comunista” simplesmente não existe. Ou o sujeito se torna anticomunista professo, aceitando posar de monstro e inimigo público ante a mídia chique, ou apenas muda de cargo na hierarquia comunista, passando de militante a companheiro de viagem. Este último posto tem a vantagem de uma certa liberdade de opiniões, contanto que seu ocupante só fale contra o comunismo em termos doutrinais e genéricos, mas o apóie, com ares superiormente neutros, nas horas de necessidade, entre as circunstâncias reais e concretas da luta pelo poder.

É francamente estúpido argumentar, como o comentarista espanhol Martín Santiváñez Vivanco semanas antes das eleições, que “só na democracia se pode e se deve vencer o terrorismo, porque só assim uma vitória completa alcança legitimidade”. Álvaro Uribe, que combateu o terrorismo preservando a normalidade constitucional democrática, não é menos odiado, nem menos atacado na mídia internacional, nem menos perseguido nos tribunais, do que Augusto Pinochet, que o fez pela ditadura, ou do que a dupla Fujimori-Montesinos, que o fez pela violência somada à corrupção. Fujimori já era execrado por toda parte muito antes que seus delitos viessem a público. Foram suas vitórias contra o terrorismo de esquerda que fizeram dele a “bête noire” em que se tornou, desencadeando contra sua pessoa a fúria investigativa que a grande mídia jamais voltou contra o Foro de São Paulo, a máfia de Havana ou os agentes financeiros da KGB em ação na América Latina.

Qualquer governante, democrático ou ditatorial, honesto ou desonesto, que ouse erguer a mão contra a esquerda armada será necessariamente estigmatizado e hostilizado pela opinião bem-pensante, pelo simples fato de que, se nesta abundam comunistas, não-comunistas e ex-comunistas, nela não há lugar – nenhum lugar – para anticomunistas.

Em 13 de junho de 2011

A Gestapo Terceirizada

13 de julho de 2006 | Jornal do Brasil

Alfredo Sáenz, S. J., em “La estrategia ateísta de Antonio Gramsci” (Córdoba, 1988), observava que a via gramsciana para o socialismo, evitando a prática leninista de liquidar fisicamente os inimigos, dava preferência — embora não exclusiva — ao assassinato moral. Isso refletia a nova estrutura do Partido revolucionário, que de elite golpista armada ia se transmutando numa rede difusa e onipresente, sem rosto nem limites, imperando invisivelmente sobre a psicologia das massas e moldando até a mente dos seus adversários. Estes ficariam assim tão isolados, tão desarmados ideologicamente, que mal conseguiriam se defender sem acusar-se no mesmo ato, por falta de linguagem própria. Os poucos que se salvassem do naufrágio mental seriam neutralizados por meio do boicote profissional e do massacre difamatório — instrumentos manejados, é claro, de maneira impessoal e camuflada. Os líderes do Partido, bem como o próprio governo esquerdista, não se exporiam na primeira linha de ataque: ficariam escondidos por trás da multidão de jovens militantes anônimos, para dar a impressão de que a vítima não tombara sob os golpes de uma corrente partidária e sim da opinião pública, do progresso ou da natureza das coisas. A idéia era usar a própria sociedade civil, em vez do Estado, como instrumento de repressão.

A perseguição policial sem polícia, a Gestapo terceirizada , já está funcionando com pleno sucesso no Brasil. Os adversários mais sonsos — a maioria — já não ousam criticar o governo senão em nome de pretextos esquerdistas que os arrastam com ele na mesma condenação; a minoria intelectualmente ativa está acossada pela perda de emprego, pelas agressões psicológicas, pelas ameaças veladas ou explícitas, pelo assédio judiciário, pela difamação incessante e cruel.

Exemplos?

O jornalista Reinaldo Azevedo perdeu o emprego porque os anunciantes tinham medo de aparecer nas páginas de Primeira Leitura . Depois a casa de sua mãe foi invadida e depredada.

O âncora Boris Casoy foi demitido da TV Record pela força discreta das pressões políticas.

O cronista Diogo Mainardi geme esmagado sob toneladas de processos pelo crime de denunciar a corrupção federal.

O Padre José Carlos Lodi da Cruz, acossado por ONGs internacionais, foi condenado por um grotesco tribunal de Brasília a pagar multa por chamar uma abortista de abortista.

O escritor Júlio Severo sofre toda sorte de humilhações judiciais e administrativas por ter escrito um livro contra a ideologia homossexual e querer educar seu filho na religião cristã.

O professor Francisço Pessanha Neves, do Colégio de Aplicação da UFRJ, foi surrado por seus alunos por insistir em lhes ensinar filosofia grega em vez de marxismo.

Quanto a mim, todo mundo sabe: os insultos escatológicos e ameaças de morte já viraram rotinas banais, a intromissão difamatória na privacidade da minha família tornou-se direito consuetudinário, exercido por batalhões de imbecis juvenis instigados por professores que não ousariam me confrontar num debate. E tanto se empenharam na minha destruição que acabaram se traindo, publicando com sinistro humorismo goebbelsiano uma caricatura na qual apareço crucificado — uma eloqüente declaração de intenções, só frustradas in extremis pela minha oportuna saída do país.

O que Gramsci não explicou é que tipo de sociedade poderia nascer de uma geração em que os jovens se imaginam heróis da liberdade quando se juntam em bandos de centenas, de milhares, para servir de polícia política e desgraçar a existência de uns poucos inimigos isolados e sem recursos. É uma sociedade de vigaristas covardes e psicóticos. É o Brasil de hoje.

Mentindo Com Candura

13 de dezembro de 2011 | Diário do Comércio

No Brasil, a onda de autodestruição mental que descrevi em “O império do clichê” acabou por engolfar praticamente toda a intelectualidade esquerdista ao longo do processo mesmo da conquista da hegemonia e do poder pelos partidos de esquerda, o sucesso político reforçando a loucura ao mesmo tempo que se beneficiava dela.

Há anos não leio uma só linha escrita por intelectual de esquerda neste país onde não note esse fenômeno.

Um exemplo entre milhares é o artigo recém-espalhado na internet pelo sr. Caio Navarro de Toledo, professor (felizmente aposentado) da Unicamp, no qual ele informa a um estupefato mundo que nada vai dizer contra minhas opiniões, apenas expressar sua indignação ante o fato de que algumas delas tenham saído nas páginas da Folha de S. Paulo . O espírito com que ele redigiu essa coisa revela-se sobretudo em três pontos:

(1) Ele inverte a fórmula célebre de Voltaire: sem nem mesmo sugerir em quê e por que não concorda com o que eu disse, nega apenas o meu direito de dizê-lo.

(2) Da sua recusa de argumentar ele deduz que quem não tem argumentos sou eu. Tira a roupa e, olhando-se no espelho, jura que estou pelado.

(3) A renúncia a provar o que diz mostra que ele não deseja persuadir ninguém, apenas reforçar a atitude de quem já está persuadido, isto é, dos seus companheiros de militância. Como, no mesmo instante, ele me acusa de falta de argumentos, e obviamente não o faria caso se sentisse culpado de cometer o mesmo delito, torna-se claro que ele considera esse apelo à solidariedade do grupo não só um argumento, mas um argumento probante que prescinde de razões suplementares. Fica aí evidenciado que, na cabeça do sr. Toledo, o sentimento de unidade grupal é um critério de veracidade superior aos modos consagrados de demonstração lógica e documentação factual. É um exemplo didático do que expus no artigo anterior.

Para chegar a isso, no entanto, ele começa por um longo rodeio em que, após evocar a tradição de boas relações entre a Folha de S. Paulo e os “intelectuais críticos” (eufemismo que quer dizer “comunistas”), relembra os protestos furiosos desencadeados por um editorial daquele jornal (o mesmo referido no meu artigo “Todo es igual, nada es peor”), que, de passagem, ousava mencionar a diferença dos graus respectivos de brutalidade entre o nosso regime militar e outras ditaduras da época, chegando à conclusão de que, ao lado delas, a brasileira não tinha passado de uma “ditabranda”. Foi esta palavra que desencadeou a ira dos manifestantes. Omitindo-se, com astuciosa modéstia, de contar que ele mesmo organizou os protestos, o prof. Toledo tenta dar a impressão de que surgiram espontaneamente de um treco que ele chamaria “opinião nacional”, mas que consistiu apenas na opinião dos seus cumpinchas, convocados às pressas para dar uma lição exemplar no atrevido jornal que ousava desobedecê-los quando já o consideravam propriedade sua.

Por que esses comunistas, já que segundo o próprio sr. Toledo tinham tanto espaço aberto na Folha , não se contentaram com opor ao editorial uma réplica escrita, em espaço equivalente ao da argumentação abominada? Por que, em vez disso, armaram um escarcéu dos diabos, inundando a redação com cartas de protesto, fazendo circular mais um “manifesto de intelectuais”, promovendo uma gritaria de rua e uma campanha de boicote que resultou, ainda segundo o sr. Toledo, na saída de vários articulistas e até no cancelamento de algumas assinaturas do jornal? Por que fizeram todo esse barulho para constestar uma palavra, uma só palavra?

É simples: o que aquela palavra expressava era uma realidade incontestável, irrespondível. Ninguém, no uso normal dos seus neurônios, pode negar que em matéria de violência assassina o governo militar do Brasil, tendo matado três centenas de terroristas e seus colaboradores, nunca foi páreo para a ditadura cubana (cem mil mortos) e muito menos para a chinesa (76 milhões de mortos), isto é, para os dois governos genocidas que orientaram, armaram, subsidiaram, treinaram e ajudaram os comunistas brasileiros empenhados na derrubada do regime.

Diante de tamanha obviedade, só restava à patota enragée apelar a dois recursos desesperados, fingindo não perceber que eram contraditórios entre si: negar a importância dos números e ao mesmo tempo tentar vencer pela força do número.

Da primeira dessas operações incumbiu-se a sra. Maria Vitória Benevides, com os resultados grotescos que assinalei no artigo anterior.

Da segunda, o próprio sr. Toledo, como quem acreditasse que multiplicar por centenas de vozes uma alegação insensata faria dela um argumento racional.

Ora, se ao reclamar agora contra a publicação de um artigo meu naquele jornal, o sr. Toledo se dispensa de fornecer qualquer argumento contra o que eu disse ali, e em vez disso procura apenas instigar um sentimento de ódio grupal, torna-se igualmente clara a razão pela qual, em vez de entrar logo no assunto, ele preferiu relembrar antes o episódio da punição que infligiu à Folha . É, sem a menor sombra de dúvida, uma advertência ao sr. Frias: tire logo esse reacionário do seu rol de articulistas, ou então armaremos o mesmo rolo de novo.

Um sujeito que se esquiva de argumentar contra o que um articulista disse, mas em vez disso recorre à força do grupo e à chantagem intimidatória, não deveria em seguida proclamar que o articulista, e não ele próprio, carece de argumentos. Se o faz, é com toda a evidência um fingido, um mentiroso cínico.

Estudar Antes De Falar

13 de agosto de 2013 | Diário do Comércio

O caminho mais curto para a destruição da democracia é fomentar o banditismo por meio da cultura e tentar controlá-lo, em seguida, pelo desarmamento civil. A esquerda nacional tem trilhado coerentemente essa dupla via há pelo menos cinco décadas, e sempre soube perfeitamente qual seria o resultado: o caos social, seguido de endurecimento do regime se ela estiver no poder, de agitação insurrecional se estiver fora dele.

Essa estratégia é antiga, clássica, imutável, mas os pretextos com que se legitima conforme as conveniências do momento têm sido variados o bastante para desnortear a plateia, que se entrega a animadas e às vezes ferozes discussões sobre os pretextos mesmos e nunca atina com a unidade do projeto por trás deles. Às vezes, como acontece no Brasil, nem chega a perceber que entre as duas vias simultâneas existe alguma relação.

Pessoas mentalmente covardes vendem a mãe para não correr o risco de ser rotuladas de “teóricas da conspiração”. Rebaixam-se ao ponto de defender de unhas e dentes a “teoria das puras coincidências”, segundo a qual as ações acontecem sem autores.

Imaginem então o medo que essa gente tem de reconhecer algo que no resto do mundo já é obviedade patente: que o comunismo não morreu em 1990, que está hoje mais forte que nunca, sobretudo na América Latina. Treze anos atrás, quando Jean-François Revel publicou seu último livro, La Grande Parade, ninguém na Europa ou Estados Unidos o contestou quanto a esse ponto, que no Brasil ainda é um segredo esotérico.

Há até quem negue que Dilma ou Lula sejam comunistas, mas faz isso porque não sabe exatamente o que é um comunista e, como em geral os liberais, imagina que é questão de ideais e ideologias. Na verdade, um sujeito é comunista não porque creia em tais ou quais coisas, mas porque ocupa um lugar numa organização que age como parte ou herdeira da tradição revolucionária comunista, com toda a pletora de variedades e contradições ideológicas aí contida.

A unidade do movimento comunista, sobretudo desde Antonio Gramsci, da New Leftf americana e do remanejamento dos partidos comunistas após a dissolução da URSS, é mais de tipo estratégico do que ideológico.

Na verdade, esse movimento, cuja extinção a queda da União Soviética parecia anunciar como iminente e inevitável, conseguiu prosperar e crescer formidavelmente desde o começo dos anos 90 só porque abdicou de toda autodefinição doutrinal homogênea e aprimorou a técnica de articular numa unidade de ação estratégica as mais variadas correntes e dissidências cuja convivência era impossível até então. Convicções, portanto, sinceras ou fingidas, não têm aí a mais mínima importância.

Para um sujeito falar com alguma propriedade sobre o movimento comunista, deve antes ter estudado as seguintes coisas:

(1) Os clássicos do marxismo: Marx, Engels, Lênin, Stálin, Mao Dzedong.

(2) Os filósofos marxistas mais importantes: Lukács, Korsch, Gramsci, Adorno, Horkheimer, Marcuse, Lefebvre, Althusser.

(3) Main Currents of Marxism, de Leszek Kolakowski.

(4) Alguns bons livros de história e sociologia do movimento revolucionário em geral, como Fire in the Minds of Men, de James H. Billington, The Pursuit of the Millenium, de Norman Cohn, The New Science of Politics, de Eric Voegelin.

(5) Bons livros sobre a história dos regimes comunistas, escritos desde um ponto de vista não-apologético.

(6) Livros dos críticos mais célebres do marxismo, como Eugen von Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, Raymond Aron, Roger Scruton, Nicolai Berdiaev e tantos outros.

(7) Livros sobre estratégia e tática da tomada do poder pelos comunistas, sobre a atividade subterrânea do movimento comunista no Ocidente e principalmente sobre as “medidas ativas” (desinformação, agentes de influência), como os de Anatolyi Golitsyn, Christopher Andrew, John Earl Haynes, Ladislaw Bittman, Diana West.

(8) Depoimentos, no maior número possível, de ex-agentes ou militantes comunistas que contam a sua experiência a serviço do movimento ou de governos comunistas, como Arthur Koestler, Ian Valtin, Ion Mihai Pacepa, Whittaker Chambers, David Horowitz.

(9) Depoimentos de alto valor sobre a condição humana nas sociedades socialistas, como os de Guillermo Cabrera Infante, Vladimir Bukovski, Nadiejda Mandelstam, Alexander Soljenítsin, Richard Wurmbrand.

É um programa de leitura que pode ser cumprido em quatro ou cinco anos por um bom estudante. Não conheço, na direita ou na esquerda brasileiras, ninguém, absolutamente ninguém que o tenha cumprido.

Há tanta gente neste país querendo dar palpite no assunto, quase sempre com ares de sapiência, e ninguém, ou praticamente ninguém, disposto a fazer o esforço necessário para dar alguma substância às suas palavras.

Nenhum esquerdista honesto o fará sem abjurar da sua crença para sempre. Nenhum direitista, sem reconhecer que era um presunçoso, um bocó e, em muitos casos, um idiota útil – às vezes ainda mais útil e mais idiota do que a massa de manobra esquerdista.

A esquerda prospera na exploração da ignorância, própria e alheia. Onde quer que ela exerça a hegemonia, impera o mandamento de jamais ler as obras de adversários e críticos, mas espalhar versões deformadas e caricaturais das suas ideias e biografias, para que a juventude militante possa odiá-los na ilusão de conhecê-los. Universidades que professam dar cursos de marxismo capricham nesse ponto até o limite do controle mental puro e simples.

Notas De Jose Nivaldo Cordeiro

13 de agosto de 2001 | – O. de C.

A Folha de São Paulo de hoje (12/08) traz um artigo assinado por Luiz Eduardo Soares, que fala em nome do PT com relação ao tema da segurança pública, seja por suas ligações históricas (Rio de Janeiro), seja por ser atualmente assessor de segurança pública da Prefeitura de Porto Alegre, seja, ainda, por no preâmbulo do texto se remeter diretamente aos posicionamentos dos principais líderes do Partido.

O texto é um equívoco do princípio ao fim e a implantação das suas propostas significaria a anarquia completa nas forças de segurança constituídas, especialmente a corporação policial-militar, esteio principal da segurança pública no Brasil. Vejamos o que propõe o articulista:

“A meu ver são cinco as principais causas para a crise das PMs: a precariedade da cultura política dos policiais, por falta de sindicalização; as condições de trabalho; o regime disciplinar e a divisão de carreiras em segmentos isolados; a privatização da segurança pública por meio da armadilha do segundo emprego; e a subordinação ao Exército”.

Quero aqui analisar ponto por ponto. O documento é uma aula da ação gramsciana sobre talvez o último bastião que ainda não está sob o controle ideológico e político das esquerdas, as organizações militares. É esse o último núcleo de poder de Estado a salvaguardar a ordem democrática e os valores do livre mercado, ainda que de forma precária e claudicante. A simples proposição desse ideário em um jornal de circulação nacional já por si mostra a desenvoltura com que as esquerdas estão fazendo a sua ação política. É como se estivesse em curso a batalha final pelas “mentes e corações”.

Mas voltemos ao texto. A primeira proposição do diagnóstico do articulista, “a precariedade da cultura política dos policiais, por falta de sindicalização”, já diz, sozinha, o que quer o homem. Polícias e demais organizações armadas não podem ter a liberdade para fazer da sociedade refém nem articular movimentos grevistas que em forças policiais só podem ter o nome de motim e são sempre o preâmbulo da ação revolucionária armada. Desde a Antigüidade que as organizações militares funcionam como estamento separado e especial, exatamente pela particularidade de que portam armas e são muito bem treinadas para usá-las. O irônico é que a proposta parte exatamente de quem não se cansa de pregar o desarmamento civil. Sindicalização e esquerdização são praticamente sinônimos. Isso significaria colocar à disposição das forças de esquerda um poder de fogo real de que ainda não dispõem. É possível imaginar o que os governadores de esquerda, especialmente os do PT, devem estar fazendo nos programas de formação dos praças, sargentos e oficiais de suas polícias. Dizer que as policias não funcionam por falta de sindicalização é um escárnio à inteligência. Não funcionam pela mesma razão que o Estado no Brasil não tem funcionado, vivemos uma falência geral dos Estado, exatamente porque ele tem se metido a fazer coisas que não devia e tem abandonado suas funções essenciais, como a segurança pública.

A segunda proposição, “as condições de trabalho”, tem um quê de verdade que serve para encobrir o veneno embutido: a de que melhores condições de trabalho só podem ser obtidas mediante sindicalização. É um argumento falso. As melhores condições de trabalho só podem ocorrer se o Estado voltar às suas funções essenciais e parar de gastar recursos públicos naquilo que não lhe compete fazer. Se falta dinheiro para uma melhor política de pessoal na área de segurança, sobra para propostas esdrúxulas de todos os tipos, para atender as idéias mirabolantes do “tudo pelo social”.

A terceira, “o regime disciplinar e a divisão da carreira em segmentos isolados” bate na mesma tecla da primeira proposição. Só faltou propor a eleição dos oficiais pelos praças. O fato é que organizações militares são de natureza aristocrática e a disciplina é o fator essencial para que o poder civil, através da cúpula de sua oficialidade, possa controlá-las. Quem tem a força não pode dispor do poder político. Sindicalizar e politizar o corpo dos policiais significa quebrar esse princípio essencial para a ordem democrática, pois desemboca necessariamente na união de ambos os pólos do poder. Seria uma questão de tempo a instauração da tirania militarista, como aliás se deu onde os leninistas e assemelhados chegaram ao poder. Nem as legiões romanas entravam nos muros da Cidade, como condição de separação clara entre o poder político e o poder militar. A divisão em carreiras separadas entre a oficialidade e os soldados é necessária para manter a disciplina e a unidade de comando. Sem elas, instala-se a anarquia, em prejuízo da disciplina e do controle civil sobre a força armada.

A quarta, “a privatização da segurança pública por meio da armadilha do segundo emprego”, é uma pérola da argumentação erística. A privatização da segurança pública não é apontada como uma decorrência da falência do Estado em suas funções essenciais, mas pela “armadilha do segundo emprego”. Ora, é exatamente o contrário. Os cidadãos, órfãos que se encontram no quesito segurança pública, buscam por seus próprios meios e recursos o amparo da ação privada e daí geram empregos para aqueles que querem trabalhar. Mais uma vez aqui volta o autor ao primeiro argumento, o de que falta “sindicalização”. É pura mentira. Sorrateiramente o que se pretende é a apelar para sentimentos corporativistas para iludir e seduzir os policiais para aventura petista-sindical.

Por último, “a subordinação ao Exército”. Deus meu, é o Exército (e, de resto, o conjunto das Forças Armadas), que tem garantido a unidade territorial e o mínimo de ordem em nosso país. Voltar a uma situação pré 1930, quando os Estados possuíam forças militares que rivalizavam com a União, é o caminho mais curto para a conflagração de guerras civis, como aliás foi a tônica nesse período. Haveriam quarteladas periódicas, com caudilhos locais desafiando a União e ameaçando com a secessão. Voltariam os “Cavaleiros da Esperança”, de triste memória. Só alguém imbuído dos propósitos políticos mais inconfessos para defender algo tão danoso.

O simples fato de ter a coragem de explicitar uma visão política dessa natureza dá a idéia de como as esquerdas sentem-se fortes para a tomada de poder e a subversão completa da ordem instalada. As eleições do ano que vem não são apenas mais um data cívica no calendário. Poderão ser o divisor de águas entre uma sociedade aberta e pacífica e a tirania pura e simples. É preciso não esquecer nunca que Hitler foi eleito depois de escrever “Mein Kampf”. Todos sabiam o que ele pensava e o que iria fazer. O mesmo vale para Lênin e sua obra (e a dos seguidores), que chegou ao poder por outros caminhos e praticou aquilo que prometeu. Quando chegaram a centro de poder a Humanidade conheceu as maiores tragédias de que se tem notícia na História. Milhões de homens e mulheres foram sacrificados em holocausto. É tempo de meditar sobre o que está por vir.

Os banqueiros e os vagabundos 14 de agosto de 2001 Ontem, 13/08, o site do “Estadão” continha matéria que analisava as aposentadorias especiais na Argentina. Pelas leis daquele país, pessoas mesmo muito jovens podem receber rendimentos vitalícios do Estado, havendo casos de aposentados de 30 anos de idade. É evidentemente um abuso que contribui de forma injustificada para a manutenção dos problemas de pagamentos internacionais da Argentina. É razoável pedir aos banqueiros dinheiro novo para pagar essa extravagância?

Diante de uma estrutura de gastos constituída por coisas assim, como acusar o FMI e os banqueiros internacionais de insensíveis por não liberarem recursos adicionais para a Argentina? É fato sabido que ela está falida e para fazer acordo financeiro que mantenha as aparências ela tem que enquadrar os gastos públicos. É claro que o FMI e os banqueiros não fazem o orçamento e não determinam os cortes, mas em uma situação tão dramática como vive aquele país é de se esperar que se comece a cortar por aí. Mas são os grupos políticos beneficiários desse tipo de rendimento os que mais resistem. Aí todo mundo vira nacionalista e passa a acusar os banqueiros e o FMI por problemas que nasceram exclusivamente de decisões soberanas (ainda que equivocadas) dos argentinos.

Se se analisar detidamente a estrutura de gastos “sociais”, ver-se-á que muitas das despesas não passam de licenças jurídicas para locupletar grupos políticos e populações inteiras, em prejuízo dos pagadores de impostos e dos financiadores do Estado. É a trágica herança do populismo, que na Argentina assumiu formas as mais diversas, inclusive com as paradoxais posições de Menem e do Ministro Cavalo. Eles sabiam que não conseguiriam mexer na estrutura de gastos e então partiram para o câmbio fixo e a dolarização, única maneira para que a economia portenha não tenha explodido na alucinada hiperinflação. O problema é que o instrumento exauriu-se pelo simples fato de que os grupos políticos beneficiários de suas sinecuras recusam-se a abrir mão delas. E alguém tem que pagar a conta. Querem que esse alguém seja a comunidade financeira internacional. Ledo engano. Banqueiro, todos sabemos, não têm coração, têm máquina de calcular no seu lugar. E eles não porão um vintém a mais enquanto a Argentina não demonstrar capacidade de pagamento, o que equivale a dizer que ela deve racionalizar os seus gastos, diminuí-los até torná-los de acordo com as expectativas do financiadores.

Quem visita a Argentina fica com a sensação de que há uma multidão de ociosos a viver de rendimentos e sem obrigação de trabalhar. A noite na capital argentina fervilha de gentes e bares, como se no dia seguinte não estivesse à espera uma jornada de trabalho. A classe ociosa e com renda parece muito numerosa e provavelmente é parasita do Estado. Essa situação chegou ao fim e os parasitas de sempre terão que arrumar meio de vida melhor do que gastar dinheiro dos impostos e dos banqueiros internacionais, obtidos via empréstimos. Isso não faz nenhum sentido e os banqueiros sabem disso. Só resta uma única alternativa para eles: cumprir o mandamento bíblico de ganhar o pão de cada dia com o suor do próprio rosto. Ou, em português mais claro: vai trabalhar, vagabundo!

Os muros do silêncio 18 de agosto de 2001 Todo sábado tornei rotina ler os artigos de Olavo de Carvalho nos sites da revista Época e de O Globo. É sempre uma oportunidade para ter mais informações e alargar a inteligência, pois os artigos são mais que isso: são uma aula sintética sobre assuntos variados, incluindo aí os difíceis e espinhosos temas da Filosofia. Pois bem, hoje, como de costume, estava lendo o artigo da revista Época (“O livro que ninguém lerá”), que nos informa sobre um livro de Jean Sévillia, publicado na França, denunciando a conspiração de silêncio da mídia esquerdista sobre os autores e intelectuais que não se converteram a seu credo, quando me deparei com uma frase citada de Jean d’Ormesson, da Academia Francesa, sobre o dedicado trabalho das esquerdas a “construir seus muros de silêncio, mais difíceis de derrubar que o Muro de Berlim”.

Como, na seqüência, foi ler a Folha de São Paulo, dei-me conta de que por duas vezes nos últimos quinze dias notícias sensacionais sobre a questão da Colômbia, duas expressivas vitórias militares das forças da ordem daquele país, foram relegadas a notas de pé de páginas, acompanhadas como sempre de acusações de próceres esquerdistas nas várias ONGs sobre o abuso contra os direitos humanos praticados por militares em ação. A notícia de hoje é ainda mais rejubilante porque informa que o confronto, que provocou a morte de pelo menos cem guerrilheiros, deu-se como uma efetiva vitória militar na direção da retomada do território “liberado” erroneamente pelo governo daquele país aos guerrilheiros já faz alguns anos. Isso mostra que a ajuda militar dos EUA, em treinamento e recursos materiais, está produzindo seus primeiros efeitos mais sensacionais e com certeza vai abreviar o horrendo sofrimento trazido pelo prolongamento de uma guerra civil interminável.

Pois bem. Chamou-me a atenção que notícias favoráveis às forças da ordem não comovem os que fazem as manchetes. Fossem os guerrilheiros os vencedores e certamente o fato estaria em caixa alta, na primeira página. Quanta notícia boa tem sido negada ao público brasileiro pelo critério mesquinho dos agentes gramscianos infiltrados nas redações? Quanta matéria idiota e inútil ocupa o espaço ao qual deveria ser destinado as grandes notícias? Em boa hora o artigo do filósofo Olavo de Carvalho denuncia novamente o fato.

A questão que se coloca é: como derrubar os muros do silêncio? Como ter jornalistas e intelectuais realizando o trabalho de escrever textos informativos e analíticos sobre as grandes e substantivas questões de nosso tempo, acessíveis à grande massa da população brasiliera? Quando é que será reduzido o lixo que mistura tinta e papel na forma de notícias, mais das vezes falsas, e, pior, análises distorcidas que mais escondem do que revelam os fatos em sua hierarquia de importância?

Estou convencido de que a transição geracional na administração dos grandes jornais e conglomerados de comunicações em nosso país tem contribuído decisivamente para avermelhar ainda mais as redações. A Folha, que leio todos os dias, é um exemplo da apologia às idéias esquerdistas e ao politicamente correto. Depois da morte do velho Mesquita, o Estadão está sendo progressivamente descaracterizado. A Globo, depois da aposentadoria do Roberto Marinho, tem mudado de lado em grande velocidade. Antes havia pelo menos o abismo entre a posição da redação e a dos proprietários dos jornais. Hoje vemos que aconteceu uma fusão e são os próprios editoriais que servem, mais da s vezes, de tribuna para as teses mais politicamente corretas.

O Comunismo Real

13 de abril de 2014 | Diário do Comércio

Nos dicionários e na cabeça do povinho semi-analfabeto das universidades, a diferença entre capitalismo e comunismo é a de um “modo de produção”, ou, mais especificamente, a da “propriedade dos meios de produção”, privada num caso, pública no outro. Mas isso é a autodefinição que o comunismo dá a si mesmo: é um slogan ideológico, um símbolo aglutinador da militância, não uma definição objetiva. Se até os adversários do comunismo a aceitam, isto só prova que se deixaram dominar mentalmente por aqueles que os odeiam – e esse domínio é precisamente aquilo que, no vocabulário da estratégia comunista, se chama “hegemonia”.

Objetivamente, a estatização completa dos meios de produção nunca existiu nem nunca existirá: ela é uma impossibilidade econômica pura e simples. Ludwig von Mises já demonstrou isso em 1921 e, após umas débeis esperneadas, os comunistas desistiram de tentar contestá-lo: sabiam e sabem que ele tinha razão.

Em todos os regimes comunistas do mundo, uma parcela considerável da economia sempre se conservou nas mãos de investidores privados. De início, clandestinamente, sob as vistas grossas de um governo consciente de que a economia não sobreviveria sem isso. Mais tarde, declarada e oficialmente, sob o nome de “perestroika” ou qualquer outro. Tudo indica que a participação do capital privado na economia chegou mesmo a ser maior em alguns regimes comunistas do que em várias nações tidas como “capitalistas”.

Isso mostra, com a maior clareza possível, que o comunismo não é um modo de produção, não é um sistema de propriedade dos meios de produção. É um movimento político que tem um objetivo totalmente diferente e ao qual o símbolo “propriedade pública dos meios de produção” serve apenas de pretexto hipnótico para controle das massas: é a cenoura que atrai o burro para cá e para lá, sem que ele jamais chegue ou possa chegar ao prometidíssimo e inviabilíssimo “modo de produção comunista”.

No entanto, se deixaram a iniciativa privada à solta, por saber que a economia é por natureza a parte mais incontrolável da vida social, todos os governos comunistas de todos os continentes fizeram o possível e o impossível para controlar o que fosse controlável, o que não dependesse de casualidades imprevisíveis mas do funcionamento de uns poucos canais de ação diretamente acessíveis à intervenção governamental.

Esses canais eram: os partidos e movimentos políticos, a mídia, a educação popular, a religião e as instituições de cultura. Dominando um número limitado de organizações e grupos, o governo comunista podia assim controlar diretamente a política e o comportamento de toda a sociedade civil, sem a menor necessidade de exercer um impossível controle igualmente draconiano sobre a produção, a distribuição e o comércio de bens e serviços.

Essa é a definição real do comunismo: controle efetivo e total da sociedade civil e política, sob o pretexto de um “modo de produção” cujo advento continuará e terá de continuar sendo adiado pelos séculos dos séculos.

A prática real do comunismo traz consigo o total desmentido do princípio básico que lhe dá fundamento teórico: o princípio de que a política, a cultura e a vida social em geral dependem do “modo de produção”. Se dependessem, um governo comunista não poderia sobreviver por muito tempo sem estatizar por completo a propriedade dos meios de produção. Bem ao contrário, o comunismo só tem sobrevivido, e sobrevive ainda, da sua capacidade de adiar indefinidamente o cumprimento dessa promessa absurda. Esta, portanto, não é a sua essência nem a sua definição: é o falso pretexto de que ele se utiliza para controlar ditatorialmente a sociedade.

Trair suas promessas não é, portanto, um “desvio” do programa comunista: é a sua essência, a sua natureza permanente, a condição mesma da sua subsistência.

Compreensivelmente, é esse mesmo caráter dúplice e escorregadio que lhe permite ludibriar não somente a massa de seus adeptos e militantes, mas até seus inimigos declarados: os empresários capitalistas. Tão logo estes se deixam persuadir do preceito marxista de que o modo de produção determina o curso da vida social e política (e é quase impossível que não acabem se convencendo disso, dado que a economia é a sua esfera de ação própria e o foco maior dos seus interesses), a conclusão que tiram daí é que, enquanto estiver garantida uma certa margem de ação para a iniciativa privada, o comunismo continuará sendo uma ameaça vaga, distante e até puramente imaginária. Enquanto isso, vão deixando o governo comunista ir invadindo e dominando áreas cada vez mais amplas da sociedade civil e da política, até chegar-se ao ponto em que a única liberdade que resta – para uns poucos, decerto – é a de ganhar dinheiro. Com a condição de que sejam bons meninos e não usem o dinheiro como meio para conquistar outras liberdades.

Ao primeiro sinal de que um empresário, confiado no dinheiro, se atreve a ter suas próprias opiniões, ou a deixar que seus empregados as tenham, o governo trata de fazê-lo lembrar que não passa do beneficiário provisório de uma concessão estatal que pode ser revogada a qualquer momento. O sr. Silvio Santos é o enésimo a receber esse recado.

É assim que um governo comunista vai dominando tudo em torno, sem que ninguém deseje admitir que já está vivendo sob uma ditadura comunista. Por trás, os comunistas mais experientes riem: “Ha! Ha! Esses idiotas pensam que o que queremos é controlar a economia! O que queremos é controlar seus cérebros, seus corações, suas vidas.”

Serra E Lula

13 de Junho de 2002 | 13 de Junho de 2002

Pelo andar da carruagem, a eleição presidencial que se aproxima deverá caminhar mesmo para a disputa polarizada entre Serra e Lula, se não houver nenhum fato novo. Quais as semelhanças e diferenças entre os dois candidatos? Que forças políticas representam? Para onde caminhará o Brasil sob o comando de um ou de outro?

Várias vezes eu abordei esse tema nos artigos anteriores, ao qual volto motivado por um e-mail provocativo que recebi, o qual me colocou a questão: se nenhum dos dois, quem, então? É esse o drama do nosso Brasil, pois que não há uma terceira alternativa. Nenhum dos dois reflete a minha inclinação política, que pode representar a inclinação de uma boa maioria silenciosa ou, no mínimo, uma minoria bastante ponderável. O drama consiste exatamente no fato de que nenhum dos dois candidatos, enquanto instrumento das forças políticas que representam, terão condições de conduzir o processo de retirada do Brasil do atoleiro em que se encontra.O drama é precisamente a ausência de um estadista com densidade política e que tenha a clareza de que o País precisa reduzir rápida e profundamente o papel do Estado, tendo para isso que enfrentar o conjunto dos interesses estabelecidos que se alimentam precisamente da fragilidade da Nação, as sanguessugas políticas.

Quanto maior o Estado, mais pobre o povo e mais fraca a Nação. Quanto maior o Estado, mais ricos e cevados ficam os grupos de interesse que o controlam. A recente aprovação da CPMF, atropelando cláusulas pétreas da própria Constituição, mostra a que grau de abuso sobre o povo chegou a nossa classe política. A realidade é simples assim e é provável que apenas um processo revolucionário possa quebrar a inércia e criar os meios políticos para restabelecer as condições de equilíbrio que desapareceram desde 1985.

Serra representa a versão gramsciana do marxismo brasileiro, que está encastelado no poder desde que FHC assumiu. Esse grupo ganhou expressão com a passagem do poder dos militares aos civis, mas a culminação do seu poder aconteceu nos últimos oito anos. Serra representa o aprofundamento dessa proposta política. A forma como ele tratou as oligarquias tradicionais para sedimentar a sua candidatura mostra onde quer chegar: quer eliminar completamente qualquer fundamento conservador como base de poder, daí ter hostilizado desde o início os líderes do PFL. Ele esteve certo no seu diagnóstico desde o início: os conservadores patrimonialistas são agora leões velhos desdentados, como Sarney e ACM. Viraram cartas fora do baralho.

Sua fórmula é muito simples: quer governar com os camaradas do Partidão e com os fisiológicos, os primeiros formando os quadros do Executivo e do Judiciário e os segundos dando sustentação parlamentar. O problema é que uma correlação de forças dessa natureza não pode dar as respostas necessárias ao drama vivido pelo Brasil, fazendo aquilo que é necessário para que o País não venha a ser precipitado no abismo da crise, como ocorreu na Argentina. E é preciso sublinhar que a questão não é técnica – o como fazer – mas sim, política, a vontade de fazer o que precisa ser feito.

O grupo de Lula é mais homogêneo e, embora seja composto majoritariamente por marxistas gramscianos, suas lideranças são velhas raposas leninistas e maoístas, que podem não ficar saciadas com o mero exercício de poder na democracia burguesa. Eles até que estão tentando repetir a fórmula política da social-democracia, de formar um arco de aliança com os conservadores fisiológicos, pois perceberam que pode ser o caminho eficaz para chegada ao poder. O problema é que a sua composição política revolucionária é tão marcante que nem os fisiológicos acreditam nas suas declarações. Lula continua órfão em suas tentativas de alianças com o chamado centro político. O risco de um tumulto institucional em um eventual governo Lula é grande, a exemplo do que vimos acontecer na Venezuela. A sua condição de governabilidade é também bastante frágil.

Serra tem o apoio da comunidade financeira internacional e, se não tem a simpatia, tem a compreensão dos EUA. Lula é hostilizado por todos e representa uma ameaça direta ao status quo. Essa é uma das diferenças fundamentais que separa os dois candidatos. Serra tem o apoio das chamadas classes produtoras – a começar pela FIESP. Lula é hostilizado pelas lideranças empresariais, que temem o PT. Essa é outra diferença fundamental.

Em 13 de junho de 2002

Leituras

A Engenharia Da Desordem

12 de setembro de 2012 | Diário do Comércio

Todo mundo sabe que a base eleitoral do ex-presidente Lula, bem como a da sua sucessora, está nas filas de beneficiários das verbas do Fome Zero. Embora a origem do programa remonte ao governo FHC, o embrulhão-em-chefe conseguiu fundi-lo de tal maneira à imagem da sua pessoa, que a multidão dos recebedores teme que votar contra ele seja matar a galinha dos ovos de ouro.

No começo ele prometia, em vez disso, lhes arranjar empregos, mas depois se absteve prudentemente de fazê-lo e preferiu, com esperteza de mafioso, reduzi-los à condição de dependentes crônicos.

O cidadão que sai da miséria para entrar no mercado de trabalho pode permanecer grato, durante algum tempo, a quem lhe deu essa oportunidade, mas no correr dos anos acaba percebendo que sua sorte depende do seu próprio esforço e não de um favor recebido tempos atrás. Já aquele cuja subsistência provém de favores renovados todos os meses torna-se um puxa-saco compulsivo, um servidor devoto do “Padim”, um profissional do beija-mão.

O político que faz carreira baseado nesse tipo de programa é, com toda a evidência, um corruptor em larga escala, que vive da deterioração da moralidade popular. É impossível que o crescimento do Fome Zero não tenha nada a ver com o da criminalidade, do consumo de drogas e dos casos de depressão. Transforme os pobres em mendigos remediados e em poucos anos você terá criado uma massa de pequenos aproveitadores cínicos, empenhados em eternizar a condição de dependência e extrair dela proveitos miúdos, mas crescentes, fazendo do próprio aviltamento um meio de vida.

Mas o assistencialismo estatal vicioso não foi o único meio usado pela elite petista para reduzir a sociedade brasileira a um estado de incerteza moral e de anomia.

Na mesma medida em que se absteve de criar empregos, o sr. Lula também se esquivou de dar aos pobres qualquer rudimento de educação, por mais mínimo que fosse, para lhes garantir a longo prazo uma vida mais dotada de sentido. Durante seus dois mandatos o sistema educacional brasileiro tornou-se um dos piores do universo, uma fábrica de analfabetos e delinqüentes como nunca se viu no mundo. Ao mesmo tempo, o governo forçava a implantação de novos modelos de conduta – abortismo, gayzismo, racialismo, ecolatria, laicismo à outrance etc. –, sabendo perfeitamente que a quebra repentina dos padrões de moralidade tradicionais produz aquele estado de perplexidade e desorientação, aquela dissolução dos laços de solidariedade social, que desemboca no indiferentismo moral, no individualismo egoísta e na criminalidade. Por fim, à dissolução da capacidade de julgamento moral seguiu-se a da ordem jurídica: o novo projeto de Código Penal, invertendo abruptamente a escala de gravidade dos crimes, consagrando o aborto como um direito incondicional, facilitando a prática da pedofilia, descriminalizando criminosos e criminalizando cidadãos honestos por dá-cá-aquela-palha, choca de tal modo os hábitos e valores da população, que equivale a um convite aberto à insolência e ao desrespeito.

Só o observador morbidamente ingênuo poderá enxergar nesses fenômenos um conjunto de erros e fracassos. Seria preciso uma constelação miraculosa de puras coincidências para que, sistematicamente, todos os erros e fracassos levassem sempre ao sucesso cada vez maior dos seus autores. Tudo isso parece loucura, mas é loucura premeditada, racional. É uma obra de engenharia. Se há uma obviedade jamais desmentida pela experiência, é esta: a desorganização sistemática da sociedade é o modo mais fácil e rápido de elevar uma elite militante ao poder absoluto. Para isso não é preciso nem mesmo suspender as garantias jurídicas formais, implantar uma “ditadura” às claras. Já faz muitas décadas que a sociologia e a ciência política compreenderam esse processo nos seus últimos detalhes. Leiam, por exemplo, o clássico estudo de Karl Mannheim, “A estratégia do grupo nazista” (no volume Diagnóstico do Nosso Tempo , ed. brasileira da Zahar). A fórmula é bem simples: na confusão geral das consciências, toda discussão racional se torna impossível e então, naturalmente, espontaneamente, quase imperceptivelmente, o centro decisório se desloca para as mãos dos mais descarados e cínicos, aos quais o próprio povo, atônito e inseguro, recorrerá como aos símbolos derradeiros da autoridade e da ordem no meio do caos. Isso já está acontecendo. A ascensão dos partidos de esquerda à condição de dominadores exclusivos do panorama político, praticamente sem oposição, nunca teria sido possível sem o longo trabalho de destruição da ordem na sociedade e nas almas.

Mas também não teria sido possível se o caos fosse completo. O caos completo só convém a anarquistas de porão, marginais e oprimidos. Quando a revolução vem de cima, é essencial que alguns setores da vida social, indispensáveis à manutenção do poder de governo, sejam preservados no meio da demolição geral. Os campos escolhidos para permanecer sob o domínio da razão foram, compreensivelmente, a Receita Federal, o Ministério da Defesa e a economia. A primeira, a mais indispensável de todas, porque não se faz uma revolução sem dinheiro, e ninguém jamais chegará a dominar o Estado por dentro se não consegue fazer com que ele próprio financie a operação. A administração relativamente sensata dos outros dois campos anestesiou e neutralizou preventivamente, com eficiência inegável, as duas classes sociais de onde poderia provir alguma resistência ao regime, como se viu em 1964: os militares e os empresários. Cachorro mordido de cobra tem medo de lingüiça.

Em 12 de setembro de 2012

O Homem De Muitos Narizes

12 de outubro de 2002 | O Globo

“O José Dirceu, nos tempos da ditadura, ficou quatro anos sem dizer para a sua mulher qual era a sua verdadeira identidade. E, se ele fez isso com a própria mulher durante quatro anos, quem é que me garante que ele não está fazendo a mesma coisa com o programa de governo do PT?”

Tendo-se em conta que o personagem aí mencionado é mentor do virtual presidente e ele próprio virtual ministro de alguma coisa, essa pergunta essencial deveria ter sido feita por todos os jornais, por todos os analistas políticos, por todos os concorrentes de Lula na eleição. Só quem a fez foi o Agamenon Mendes Pedreira, na sua coluna de domingo passado. Retornamos portanto ao clássico ambiente palaciano de temor servil e silêncio cúmplice, no qual só o bobo da corte tem a ousadia de enunciar em voz alta a verdade proibida que todo mundo sabe. Por favor, Agamenon, não fique magoado por eu chamá-lo de bobo da corte. Nas peças de Shakespeare, esse personagem tem a função de representar a sabedoria, a consciência interior sufocada por uma rede de mentiras convencionais. Reprimido e negado por todos, o óbvio só pode reentrar no mundo da linguagem sob a forma invertida da piada e do nonsense .

Mas, dizia Karl Kraus, em certas épocas não é possível escrever uma sátira, pois elas já constituem a sátira de si mesmas: para satirizá-las, basta descrevê-las. A pergunta de Agamenon não é piada, não é sátira. É o traslado fiel do perigo a que a presença de um José Dirceu na política nos expõe. É a descrição exata de uma situação patética em que um povo inteiro é induzido a confiar às cegas num homem treinado para mentir, fingir e ludibriar. Esse treinamento faz parte do aprendizado de qualquer agente secreto, que nos países totalitários inclui ainda o adestramento na arte de estrangular a própria consciência moral e orgulhar-se disso. José Dirceu não só fez parte dos altos círculos da inteligência militar cubana, mas teve aí acesso a documentos que nem os oficiais das Forças Armadas podiam examinar. Ele não é um qualquer: é um “quadro de elite” do movimento comunista internacional. É — literalmente — um homem de muitas caras, ou, se quiserem, de muitos narizes.

E é o supra-sumo da ingenuidade imaginar que isso são coisas do passado. Como se não bastasse a conversa idiota de que “Lula amadureceu”, querem nos obrigar a engolir que José Dirceu também é outro, que está mudado, que sua vida de agente cubano se desvaneceu num estalar de dedos, a uma simples troca de passaportes. Em toda a história dos serviços secretos comunistas, nenhum agente jamais se desligou deles exceto pela via da aposentadoria vigiada, da deserção ou da morte. José Dirceu pretende nos fazer crer que um belo dia disse adeusinho ao cargo e simplesmente saiu pelas ruas, livre e descompromissado como um office-boy que acaba de pedir as contas.

Acreditar sem mais numa história dessas é abusar do direito à idiotice. E tanto mais idiota é preciso ser para lhe dar crédito sabendo que ela vem de um homem capaz de levar uma vida falsa, durante quatro anos, ao lado da mulher que dizia amar. Mas, no Brasil de hoje, a simples sugestão de colocar em dúvida a narrativa esquisita já é considerada um abuso intolerável. José Dirceu, como os tzares , detém o direito irrevogável de ser crido sob palavra, a imunidade absoluta a perguntas que todo cidadão, numa democracia, tem o dever de fazer.

Em nenhum país civilizado um conhecido agente secreto estrangeiro poderia jamais fazer política, exceto se abjurasse da antiga lealdade e provasse a nova. Para isso, ele teria de contar às autoridades ou revelar ao povo todos os segredos a que tivesse tido acesso no seu tempo de serviço. Assim fizeram Anatoliy Golitsyn, Stanislav Lunev, Ladislav Bittman e tantos outros ex-agentes comunistas, que se tornaram bons e leais cidadãos de democracias ocidentais.

José Dirceu, não. Diz que se desligou da inteligência militar cubana, mas conserva bem guardado o seu mistério de iniqüidade. Não que seja por natureza homem discreto. Quando descobre alguma pista, mesmo falsa, que possa incriminar um homem da “direita”, faz um escarcéu dos diabos. Adora vasculhar contas bancárias, espionar os inimigos através de delatores petistas infiltrados em empresas e repartições, armar inquéritos e encenar denúncias. Mal pôde esconder sua indecente alegria quando, entre os papéis de uma empresa suspeita de corrupção na CPI do Orçamento, em 1993, deparou com o nome de “Roberto Campos”. E quem não viu seu desencanto quando descobriu que se tratava apenas de um homônimo do então articulista do GLOBO ? Não é por amor à discrição que ele mantém guardados os segredos de Cuba. É por algum motivo que só o serviço secreto cubano conhece.

Em 1917, logo após tomar o poder, Lenin percebeu que sem os capitais estrangeiros — então predominantemente alemães — a Rússia se tornaria ingovernável. Então enviou a Berlim um embaixador, Abraham Yoffe, para acalmar os investidores. Yoffe logrou convencer os alemães de que os bolcheviques não eram realmente bolcheviques: eram homens pragmáticos, que administrariam a Rússia como sensatos capitalistas. Com isso, garantiu a paz econômica sem a qual Lenin não poderia esmagar as oposições e instalar o reinado do terror. Mas no Brasil ninguém conhece nem a história nacional, quanto mais a da Rússia. Por isso, passados 85 anos, aqui um discurso igualzinho ao de Yoffe ainda funciona — com o agravante de que vem enfeitado do aviltante apelo aos sentimentos pueris de uma platéia capitalista mentalmente subdesenvolvida, que se comove até às lágrimas com “Lulinha paz e amor”.

Em 12 de outubro de 2002

O Figurino De D Marta

12 de outubro de 2000 | Jornal da Tarde,

Até a década de 30, a imagem do comunismo era a do proletário grosseirão, de unhas sujas e macacão surrado. Sua linguagem, a do insulto direto. A coisa mais banal, nas assembléias do Partido, era o orador ser interrompido por observações do tipo: “O companheiro é um f. da p.”

Nessa época, porém, o governo soviético percebeu que o socialismo era economicamente inviável, que a única maneira de salvá-lo era parasitar a prosperidade capitalista dos outros países.

Se a razão prevalecesse, o regime seria declarado morto nesse mesmo instante. Mas não é próprio do orgulho prometéico dar o braço a torcer. A obstinação no impossível levou à mais extraordinária das decisões: insuflar no falecido uma vida postiça. Morto como proposta econômica, o socialismo subsistiria como farsa consciente, sustentada pela ajuda capitalista.

Para esse fim, era preciso trocar de público: o partido dos proletários tinha de se tornar o partido dos milionários. De ideologia bárbara de maltrapilhos, o comunismo iria converter-se em moda elegante.

O único meio para isso era um ataque simultâneo em duas frentes. De um lado era preciso ficar bonito, aparecer, ganhar as telas e as manchetes, brilhar.

De outro, era preciso infiltrar-se discretamente nas altas rodas, controlar personagens importantes por meio do envolvimento e da chantagem. A ortodoxia dos serviços de inteligência, até então, considerava impossível articular publicidade e operações camufladas. A proposta era tão improvável, que sua realização deve ser considerada a mais sublime vitória alcançada pelo espírito da mentira desde aquele episódio, jamais totalmente elucidado, do Jardim do Éden.

A operação, ordenada por Stalin e planejada por Karl Radek, foi executada por Willi Münzenberg, um gênio da publicidade, e por Otto Katz, um gênio da secretude e da sedução pessoal. A história é contada em detalhes por Stephen Koch em Double Lives: Spies and Writers in the Secret Soviet War of Ideas Against the West (New York, The Free Press, 1994).

O comunismo chique deu o tom da década de 30 e, através de escritores monitorados, como Ernest Hemingway, Dorothy Parker, John dos Passos, Sinclair Lewis, deixou marcas duradouras no imaginário do século 20. Não é de espantar que, após a queda da URSS, esse estilo, já desprovido de sua função primeira de sustentar o insustentável, mas ainda útil para insuflar esperança em comunistas desamparados, subsistisse como clone em terras do Terceiro Mundo, onde tudo chega com atraso e as pessoas são propensas à macaqueação residual de modas que já ninguém sabe para que foram inventadas.

Setenta anos após o desembarque do comunismo chique em Nova York, seu primeiro grande sucesso brasileiro só agora se manifesta, sob a forma de d. Marta Suplicy. O padrão do seu “glamour” – o perfeito oposto complementar dos encantos populistas da carioca Benedita da Silva – corresponde, item por item, ao modelito Katz-Münzenberg, hoje peça de museu histórico na Europa e na América do Norte, mas, entre nós, ainda capaz de exercer, sobre ricaços incultos e caipiras, o mesmo embriagante feitiço das damas stalinistas dos anos 30.

Dona Marta tem apenas uma diferença, explicada pela mudança geral da estratégia revolucionária desde os anos 60, quando um pacto assinado entre o Vaticano e o governo de Moscou encerrou um século de conflito ideológico, colocando a Igreja a serviço do comunismo e produzindo uma epidemia mundial de Boffs & Bettos. Sim, d. Marta é, no seu próprio discurso, uma católica.

Isto elimina um problema, mas cria outro, porque d. Marta quer ser, ao mesmo tempo, a voz e força em prol do auxílio estatal a condutas que a Bíblia qualifica de abominações e satanismos.

O figurino requer, pois, alguns ajustes. Um deles apareceu como que por milagre, na véspera das eleições, com a denominação de “Católicas pelo Direito de Decidir”. Decidir, no caso, é decidir a morte dos outros. Uma súbita campanha milionária, sob a forma de congressos, panfletos e painéis eletrônicos, apregoa que, para evitar que 6 mil mulheres por ano morram em abortos clandestinos, a solução mais católica é autorizar oficialmente o assassinato de uns quantos milhões de bebês. Coisa pouca, em que Deus não vai nem reparar.

El Hombre De Muchas Narices

12 de octubre de 2002 | O Globo

“José Dirceu, en los tiempos de la dictadura, estuvo cuatro años sin decir a su mujer cuál era su verdadera identidad. Y, si hizo eso con su propia mujer durante cuatro años, ¿quién me garantiza que no está haciendo lo mismo con el programa de gobierno del PT?”

Teniendo en cuenta que el personaje ahí mencionado es mentor del virtual presidente y virtual ministro de algo, esa pregunta esencial debería haber sido hecha por todos los periódicos, por todos los analistas políticos, por todos los contrincantes de Lula en las elecciones. El único que la ha hecho es Agamenon Mendes Pedreira, en su columna del domingo pasado. Volvemos por tanto al clásico ambiente palaciego de temor servil y silenciosa complicidad, en el que sólo el bufón de la corte tiene la osadía de enunciar en voz alta la verdad prohibida que todo el mundo conoce. Por favor, Agamenon, no te ofendas porque te llame bufón de la corte. En las obras de Shakespeare, ese personaje desempeña la función de hacer presente la sabiduría, la conciencia interior sofocada por una red de mentiras convencionales. Reprimido y negado por todos, lo obvio sólo puede reentrar en el mundo del lenguaje bajo la forma invertida del chiste y del nonsense.

Pero, decía Karl Kraus, en ciertas épocas no es posible escribir una sátira, pues constituyen ya la sátira de sí mismas: para satirizarlas, basta describirlas. La pregunta de Agamenon no es chiste, no es sátira. Es la fiel expresión del peligro al que nos expone la presencia en la política de un José Dirceu. Es la descripción exacta de una situación patética en la que un pueblo entero es inducido a confiar a ciegas en un hombre entrenado para mentir, fingir y embaucar. Ese entrenamiento forma parte del aprendizaje de todo agente secreto, que en los países totalitarios incluye además el adiestramiento en el arte de estrangular la propia conciencia moral y de enorgullecerse de ello. José Dirceu no sólo ha formado parte de los altos círculos de la inteligencia militar cubana, sino que de ese modo ha tenido acceso a documentos que ni los oficiales de las Fuerzas Armadas podían examinar. No es un cualquiera: es una “miembro de elite” del movimiento comunista internacional. Es — literalmente — un hombre de muchas caras, o, si se quiere, de muchas narices.

Y es el extremo colmo de la ingenuidad imaginar que eso son cosas del pasado. Como si no bastase el eslogan idiota de que “Lula ha madurado”, quieren obligarnos a tragar que José Dirceu también es otro, que ha cambiado, que su vida de agente cubano se ha desvanecido en un santiamén, con un mero cambio de pasaporte. En toda la historia de los servicios secretos comunistas, jamás ningún agente se ha desvinculado de los mismos excepto por la vía de la jubilación vigilada, de la deserción o de la muerte. José Dirceu pretende hacernos creer que un buen día dijo adiós al cargo y salió tan pancho por las calles, libre y sin compromiso como un office-boy que acaba de pedir el finiquito.

Creerse sin más una historia como ésa es abusar del derecho a la idiotez. Y hay que ser mucho más idiota aún para creérsela sabiendo que proviene de un hombre capaz de llevar una vida falsa, durante cuatro años, al lado de la mujer a quien decía amar. Pero, en el Brasil de hoy, la mera sugerencia de poner en duda esa extraña versión de los hechos es considerada como un abuso intolerable. José Dirceu, como los zares, detenta el derecho irrevocable de ser creído por su mera palabra, la inmunidad absoluta de preguntas que todo ciudadano, en una democracia, tiene el deber de hacer.

En ningún país civilizado jamás podrá hacer política un conocido agente secreto extranjero, a no ser que abjure de su antigua lealtad y pruebe la nueva. Para eso, tendrá que contar a las autoridades o revelar al pueblo todos los secretos a los que tuvo acceso durante su tiempo de servicio. Así han hecho Anatoliy Golitsyn, Stanislav Lunev, Ladislav Bittman y tantos otros ex-agentes comunistas, que se han convertido en buenos y leales ciudadanos de democracias occidentales.

José Dirceu, no. Dice que se ha desvinculado de la inteligencia militar cubana, pero conserva bien guardado su misterio de iniquidad. No es que sea por naturaleza un hombre discreto. Cuando descubre alguna pista, incluso falsa, que puede incriminar a un hombre de la “derecha”, monta un follón de mil demonios. Adora husmear cuentas bancarias, espiar a sus enemigos mediante delatores petistas infiltrados en empresas y departamentos, montar investigaciones y urdir denuncias. Mal consiguió disimular su indecente alegría cuando, entre los papeles de una empresa sospechosa de corrupción en la CPI de los Presupuestos, en 1993, topó con el nombre de “Roberto Campos”. Y ¿quién no vio su desilusión cuando descubrió que se trataba sólo de un homónimo del entonces articulista de O GLOBO? Si mantiene guardados los secretos de Cuba no es por amor a la discreción. Es por algún motivo que sólo conoce el servicio secreto cubano.

En 1917, inmediatamente después de tomar el poder, Lenin se dio cuenta de que sin los capitales extranjeros — entonces predominantemente alemanes — Rusia sería ingobernable. Entonces envió a Berlín un embajador, Abraham Yoffe, para calmar a los inversores. Yoffe logró convencer a los alemanes de que los bolcheviques no eran realmente bolcheviques: eran hombres pragmáticos, que iban a administrar Rusia como sensatos capitalistas. Con eso, Lenin se aseguró la paz económica sin la que no habría podido aplastar a las oposiciones e instalar el reino del terror. Pero en Brasil nadie conoce la historia nacional; ¿cuánto menos pues la de Rusia? Por eso, pasados 85 años, aquí un discurso igualito al de Yoffe todavía funciona — con la circunstancia agravante de que es adornado con el envilecedor llamamiento a los sentimientos pueriles de una platea capitalista mentalmente subdesarrollada, que se conmueve hasta el llanto con “Luliña paz y amor”.

Em 12 de outubro de 2002

Español

Tudo Sob Controle

12 de novembro de 1998 | Jornal da Tarde

O ringue político brasileiro está dividido entre duas e não mais de duas forças: comunistas e social-democratas. Esquerda e esquerda.

A margem de existência de qualquer política francamente anticomunista é cada vez mais restrita. Direita e conservadorismo foram criminalizados, e as palavras mesmas que os designam adquiriram nova significação: consagraram-se como sinônimos de neonazismo e neofascismo. Usadas mil vezes nesse sentido, adquirem poder letal quando ocasionalmente referidas a algum liberal incômodo.

Conservadores simplesmente já não existem, e liberais mal são tolerados: os poucos que restam se atacam uns aos outros como cachorros loucos, cada qual procurando caprichar mais na demonstração de ferocidade para agradar à platéia esquerdista, ansiando pela chance de mostrar lealdade a alguma “união nacional” improvisada para fazer a caveira de algum desastrado remanescente direitista.

Tal como acontece invariavelmente nas situações em que a esquerda domina hegemonicamente, sua ala mais moderada é incumbida de posar no papel de “direita”, ocupando o espaço de modo que conservadores e liberais não possam entrar e, desaparecidos do horizonte, acabem por desaparecer do mundo.

Dentre os social-democratas incumbidos de posar de direita ad hoc , o principal é, evidentemente, o presidente Fernando Henrique Cardoso.

Nada mais elucidativo, para ilustrar a dubiedade desse misterioso governante, do que comparar a orientação de sua política econômica com a de sua política educacional. Um governo que faz todo o possível para ser tomado como representante fiel do capitalismo globalista ao mesmo tempo que promove a doutrinação em massa de nossas crianças dentro do mais puro cânone da luta de classes é, afinal, direitista ou esquerdista?

FHC é um tucano, dirão, aninhado, como é costume das aves da sua espécie, em cima do muro. Mas há muros e muros: há o muro retórico que separa as facções ideológicas e há o muro dos tempos que separa o hoje e amanhã, o espetáculo midiático superficial e a engenhosa gestação do futuro no ventre discreto das sombras.

FHC já se declarou um gramsciano. Como tal, ele não crê na pressa leninista que, na ânsia de “tomar o poder”, se desdobra entre a concorrência eleitoral nas cidades e a luta armada nos campos. Ele despreza a superficialidade apressada de petistas e sem-terra. Ele aposta no tempo, na lenta transfiguração das consciências, na revolução cultural gramsciana enfim, que avança a passos silenciosos, gradual e segura, sob a crosta opaca do dia. Por isso ele permanece indiferente às críticas esquerdistas e não tem medo de se comprometer, se necessário, com “alianças espúrias” destinadas a ser, no devido tempo, atiradas à lata de lixo da História: lugar apropriado, de fato, a todos aqueles que, por medo de ficar com medo, buscam acreditar na lenda de que FHC mudou. Ele mudou, sim, mas de estratégia.

Em compensação – uma compensação que na verdade não compensa nada, apenas piora tudo formidavelmente –, iludem-se também todos aqueles que, na esquerda, acreditam que a virada do Brasil rumo ao socialismo nos libertará do poder globalitário. O mundo unificado está perfeitamente apto a integrar nos seus esquemas um socialismozinho aqui, outro acolá, resguardada uma certa margem de liberdade econômica para os grandões, coisa a que aliás a esquerda mundial já deu gentilmente seu aval sob a elegante denominação de “terceira via”. E, finalmente, os mais iludidos de todos são os empresários nacionais que proclamam, com ar de tranqüilidade sapientíssima, que o novo mundo de globalismo tecnocrático está definitivamente imunizado contra o socialismo. Sim, imunizado ele está: por isto mesmo um socialismo brasileiro não lhe fará mal nenhum e, aliás, não fará diferença nenhuma.

A política nacional transformou-se num fantástico intercâmbio de ilusões, cuja única verdade só é visível a léguas de distância e se chama, em Nova York e Genebra, “gerenciamento de conflitos”. Está tudo, enfim, sob controle, e ninguém tem nada a perder, exceto os brasileiros.

Em 12 de novembro de 1998

Brasil Macunaimico

12 de março de 2007 | Diário do Comércio

Inspirado em Antonio Gramsci e na Escola de Frankfurt, bem como nos ideais da nova civilização apregoada pela ONU, nosso governo tem feito o que pode para libertar dos grilhões do moralismo fundamentalista os pobres e oprimidos que há séculos padecem os horrores da repressão sexual.

Já assinalei esse fenômeno, em artigo aqui publicado em 17 de julho de 2006 ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/060717dc.html ):

“Na página do Ministério do Trabalho, www.mtecbo.gov.br/busca/competencias.asp?codigo=5198 , encontra-se um manual de ensino distribuído pelo governo brasileiro a interessadas e interessados em seguir carreira no ofício de prostituta ou prostituto. Muitos visitantes do site se escandalizam com o conteúdo das instruções. Eu não. Vejo nelas um auspicioso sinal de restauração da moralidade. Num país onde todos pontificam sobre o que ignoram, nossos governantes dão um exemplo de probidade intelectual lecionando matéria na qual têm a autoridade da longa prática.”

Mas agora, graças aos bons préstimos de um leitor, descubro que a coerência petista na busca da democracia sexual é ainda mais profunda do que eu poderia ter imaginado.

Se você duvida, faça o seguinte experimento. Dá um pouco de trabalho mas é tremendamente elucidativo. Primeiro, vá ao seu computador e abra a página oficial da Presidência da República, http://www.brasil.gov.br/governo_federal/estrutura/presidencia/ . Chegando la, clique no link “Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres”. Vai dar na página http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sepm/ . Agora clique em “Links”, depois em “Governo Federal e Mulheres”, aí em “Mulheres” e por fim em “Grupo Transas do Corpo”. Pronto: você chegou ao site da loja de produtos eróticos Erosmania ( http://www.erosmania.com.br/ ). Não tema: o estabelecimento deve ser confiável, já que o link vale como recomendação oficial. O produto em destaque na página chama-se “Anal Slim Jim”. É – quem diria? — um pênis de borracha cor-de-rosa, com vibrador, de uns quinze centímetros de comprimento por dois e meio de largura. Não sei se a esta altura o emprego de instrumento tão útil já se disseminou entre os altos escalões da República, mas imagino que o sr. Presidente da República e seus ministros não seriam levianos ao ponto de pregar uma coisa e fazer outra. Não digo que o empreguem necessariamente em si próprios – isso é uma questão de preferência pessoal na qual não desejo interferir –, mas sempre haverá em torno pessoas amigas interessadas em beneficiar-se da oportunidade democraticamente oferecida a todos, ou todas, pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Em caso de dificuldade no manejo do equipamento, a loja sugere o apelo ao lubrificante “Lubrigel Intimus”. Para maior esclarecimento, os visitantes da página poderão também adquirir ali filmes educativos como “O Estuprador de Coroas” e alguns de interesse médico, como “A Síndrome do Furor Uterino”.

Um indício ainda mais eloqüente da fidelidade do PT à sua ideologia erótica foi dado aos eleitores, aliás em dose dupla, pelo governador da Bahia, Jacques Wagner. Depois de aparecer completamente bêbado num vídeo do youtube ( http://video.google.com/videoplay?docid=-6212632340540114758&hl=en ), o ativíssimo ex-ministro do Trabalho revela-se agora um pioneiro na aplicação prática dos princípios que orientam a reforma petista dos costumes. Nas fotos que acompanham esta matéria, ele é visto no “Expresso 2222”, o trio elétrico de Gilberto Gil, empurrando sua esposa Fátima para um ardente beijo lésbico na boca da esposa do ministro da Cultura, Flora Gil, diante de incontáveis e estupefatos eleitores. Vejam vocês. Em países atrasados, como os EUA, o pessoal reclama até quando estrelas do show business fazem essas coisas na TV. No Brasil, são as altas esferas da República que dão o exemplo, mandando às urtigas o moralismo vitoriano (eu ia quase esquecendo: moralismo vitoriano da Idade Média, não é mesmo?) e levando às últimas conseqüências o exercício público da democracia sexual.

Para que ninguém suponha que a lição petista não frutificou em escala internacional, a coluna do Cláudio Humberto do último dia 8, sob o título “Deputados do Peru perdem a cabeça no Brasil”, publica as fotos da revista Caretas , aqui reproduzidas, que mostram dois deputados peruanos, Javier Velásquez e José Veja. Eles vieram em visita oficial à XXII Assembléia do Parlatino, dia 8 de dezembro, mas rapidamente assimilaram a filosofia política local e caíram na maior gandaia numa boate paulista. De volta ao seu país, onde ainda vigoram as leis bárbaras da Inquisição, os dois estão ameaçados de ter de responder à Comissão de Ética do parlamento peruano. Aqui, não. O máximo que vai acontecer ao governador Jacques Wagner é uma ressaca.

Significativamente, o jornalista Merval Pereira, na sua última coluna em O Globo , comentando a morte de Jean Baudrillard, lembra que o sociólogo francês, em conversa que tiveram um ano atrás na conferência da Academia da Latinidade em Baku, capital do Azerbaijão, lhe falou do Brasil como “uma espécie de variação, de desvio em relação ao modelo internacional”.

“Ele imaginava que o Brasil poderia constituir ‘uma espécie de santuário, uma bolsa de resistência contra estes modelos de civilização, por tudo aquilo que devia ser jogo, teatro, carnaval’.”

Baudrillard “via a magia brasileira como uma espécie de utopia realizada sobre a Terra”, mas acrescentava, cético, que ‘a utopia, quando já realizada, é um pouco perigosa’.”

Um pouco perigosa? Que exagero! Que são cinqüenta mil homicídios anuais, em comparação com os prazeres que o sex lib petista promete aos sobreviventes? Logo após o assassinato do menino João Hélio, o colunista Diogo Mainardi propôs uma semana de luto nacional, ameaçando reacionariamente estragar os festejos carnavalescos. Graças à coragem cívica do governador Jacques Wagner, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, do ministro da Cultura e sua digníssima, esses arreganhos golpistas (é assim que se escreve?) não prevalecerão em terras brasileiras. Como dizia Dolores Ibarruri, No pasarán. Ou, parafraseando a campanha épica da Petrobrás, a gandaia é nossa.

Em 12 de março de 2007

O Que Sobrou Da Religiao

12 de maio de 2010 | Diário do Comércio

Se há neste mundo um fato bem comprovado, é a percepção extra-sensorial durante o estado de morte clínica. Um corpo inerte, sem batimentos cardíacos ou qualquer atividade cerebral, desperta de repente e descreve, com riqueza de detalhes, o que se passava durante o seu transe, não só no quarto onde jazia, mas nos outros aposentos da casa ou do hospital, que de onde estava ele não poderia ver nem se estivesse acordado, bem de saúde e com os olhos abertos. Isso já se repetiu tantas vezes, e foi atestado por tantas autoridades científicas idôneas, que só um completo ignorante na matéria pode teimar em permanecer incrédulo. Mas mesmo alguns daqueles que reconhecem a impossibilidade de negar o fato relutam em tirar a conclusão que ele impõe necessariamente: os limites da consciência humana estendem-se para além do horizonte da atividade corporal, inclusive a do cérebro. A relutância em aceitar isso mostra que o “homem moderno” – o produto da cultura que herdamos do iluminismo – se identificou com o seu corpo ao ponto de sentir-se amedrontado e ofendido ante a mera sugestão de que sua pessoa é algo mais. É evidente que aí não se trata só de uma convicção, de uma idéia, mas de um transe auto-hipnótico incapacitante, de um bloqueio efetivo da percepção.

Esse estado é implantado nas almas pela tremenda pressão anônima da coletividade, que as mantém em estado de atrofia espiritual mediante a ameaça do escárnio e o temor – imaginário, mas nem por isso menos eficiente – da exclusão. Infinitamente multiplicado e potencializado pelo sistema educacional e pela a mídia , o que um dia foi mera idéia filosófica, ou pseudofilosófica, incorpora-se nas personalidades individuais como reflexo de autodefesa e, na mesma medida, restringe a autopercepção de cada qual ao mínimo necessário para o desempenho nas tarefas imediatas da vida socio-econômica. É tudo uma profecia auto-realizável: se a evidência avassaladora da percepção extracorporal é negada, não é só porque as pessoas não acreditam nela – é porque se tornaram realmente incapazes de vivenciá-la de maneira consciente. Vivem alienadas da sua experiência psíquica mais profunda e constante, encerradas num círculo de banalidades no qual o triunfalismo “cultural” e “científico” da mídia popular infunde uma ilusão de riqueza e variedade.

O “mundo real” no qual essas pessoas acreditam viver é o dualismo galilaico-cartesiano, já totalmente desmoralizado pela física de Einstein e Planck, mas que a mídia e o sistema escolar continuam impondo à alma das multidões como verdade definitiva: tudo o que existe nesse mundo são as “coisas físicas” e, em cima delas, o “pensamento humano”, as “criações culturais”. De um lado, a realidade dura da matéria regida por leis supostamente inflexíveis, nas quais se fundamenta a autoridade universal e inquestionável da “ciência”; de outro, a pasta mole e dúctil do “subjetivo”, do arbitrário, onde toda opinião vale o mesmo. Dessa esfera “subjetiva” faz parte a “religião”, que é o direito de crer no que bem se entenda, com a condição de não proclamá-lo jamais verdade objetiva ou valor universal.

Nessas condições, o próprio exercício da religião torna-se uma caricatura grotesca. Tanto quanto o ateu, o homem religioso de hoje em dia acredita piamente na existência de uma esfera material autônoma, regida por leis próprias que a ciência enuncia, só de vez em quando rompidas pela interferência do “milagre”, do “inexplicável”, do “divino”. Por mais que a filosofia esculhambe com o “Deus dos hiatos” (aquele que só age por entre as brechas do conhecimento científico), ele é o único que restou no altar das multidões de crentes. Oficializada pelo establishment governamental, universitário e midiático, a rígida separação kantiana de “conhecimento” e “fé” tornou-se verdade de evangelho para a maioria das almas religiosas, embora ela seja, em si, perfeitamente herética à luz da doutrina católica, interpondo um abismo infranqueável entre dimensões cuja interpenetração, ao contrário, é a própria essência da concepção cristã do cosmos. É novamente a profecia auto-realizável em ação: à percepção mutilada do eu individual corresponde uma religião mutilada, e vice-versa.

Quando digo percepção mutilada, estou afirmando, taxativamente, que a imagem do eu como algo que reside no corpo ou se identifica com ele é fantástica, ilusória, doente. Ela impõe à consciência limitações que não são de maneira alguma naturais, muito menos necessárias. Todas as tradições espirituais do mundo, todas as disciplinas sapienciais começam pela constatação óbvia de que o eu não é o corpo, não “está” no corpo mas de certo modo o abrange como o supra-espacial transcende e abrange o espacial (este é balizado por certas relações matemáticas que, em si, não estão em parte alguma do espaço). Mas uma coisa é compreender isso por pura lógica, outra bem melhor é poder constatá-lo no fato vivo da percepção extra-sensorial em casos de morte clínica. Bastaria, a rigor, um único episódio desse tipo para dar por terra com a balela de que o cérebro, isto é, o corpo, “cria” a cognição, o pensamento, a consciência. Mas os episódios são milhares, e o desinteresse dos crentes por esse tipo de fenômenos (mais estudados por ateus, adeptos da New Age e budistas do que por católicos, protestantes, ou mesmo judeus crentes) denota que a mente religiosa já se conformou com um estado de existência diminuída, em que a alma supracorporal, condição fundamental do acesso a Deus, só passará a existir no outro mundo, por alguma transmutação mágica da psique corporal, em vez de constituir já nesta vida a nossa realidade pessoal mais concreta, mais substantiva e mais verdadeira, presente e atuante nos nossos atos mais mínimos como nas nossas vivências mais elevadas e sublimes.

Durante milênios cada ser humano, ao pronunciar a palavra “eu”, referia-se de maneira imediata e automática à sua alma imortal, a única que podia orar e responder por seus próprios atos ante o altar da divindade. Dessa alma, a psique corporal era uma parte e função menor, voltada ao meio material e social tão-somente, alheia a todo senso do eterno e, a rigor, incapaz de pecado ou santidade, apenas de delitos e virtudes socialmente reconhecidos. A partir do momento em que a psique corporal foi assumida como realidade autônoma, cada indivíduo só se enxerga a si mesmo como membro de uma espécie animal e como “cidadão”, amputado daquela dimensão que fundamenta o senso último de responsabilidade e cultivando, em lugar dele, o mero instinto da adequação social, adornado ou não de “moral religiosa”. Imaginem a diferença que isso faz, por exemplo, na compreensão que você tem da Bíblia: se você não a lê com sua alma imortal, talvez fosse melhor não lê-la de maneira alguma, porque a lê com a carne e não com o espírito.

Em 12 de maio de 2010

A Desinformacao Da Desinformacao

12 de julho de 2011 | Diário do Comércio

Quando o sentido das palavras se degrada, a realidade a que elas apontavam se torna invisível e em seu lugar entra algum estereótipo desprovido de substância, pura moeda de troco no comércio diário de bobagens, irrelevâncias e chavões.

A palavra “desinformação”, cunhada pelo Estado-Maior alemão na I Guerra Mundial, surgiu como um termo técnico, designando as operações complexas – quase uma ciência exata – com que um serviço de inteligência buscava orientar e determinar, à distância, as decisões estratégicas e táticas de um governo adversário, assim levado a trabalhar pela sua própria destruição.

Depois passou a designar meras campanhas de propaganda, destinadas a iludir, não os centros decisórios, mas o pobre eleitorado, o inerme zé-povinho, consumidor de flatulências dispendiosas e não raro letais.

Hoje em dia serve para rotular qualquer afirmação que se deseje desmoralizar como inexata ou mentirosa. De instrumento de descrição científica, o termo rebaixou-se à categoria de insulto vulgar.

Na mesma medida, as autênticas operações de desinformação, que entre os anos 50-60 chegaram a ser bem conhecidas e debatidas na mídia popular, desapareceram do horizonte de consciência do cidadão médio, e qualquer referência a elas é hoje instantaneamente rebatida com outro chavão cretino: “teoria da conspiração”.

Com toda a evidência, o esvaziamento semântico de um termo científico importante contribuiu para aumentar consideravelmente a eficácia e o poder da autêntica desinformação, transformando a opinião pública num bloco maciço de resistência à verdade e facilitando a montagem de operações de ludíbrio geral que quatro ou cinco décadas atrás não enganariam a ninguém.

Se o adágio esotérico de que o segredo se protege a si mesmo nem sempre é confiável, é fato que hoje toda operação de desinformação está bem protegida sob camadas e camadas de “desinformação”, no sentido popular do termo.

Somado ao fenômeno paralelo da concentração dos meios de comunicação nas mãos de um reduzido número de mega-empresas, que torna o jornalismo mundial um primor de uniformidade servil, o sumiço da noção científica de desinformação mostra que nunca foi tão fácil manter populações inteiras na mais completa ignorância dos fatos essenciais, se não para sempre, ao menos pelo tempo necessário para que os planos criminosos mais mirabolantes e inverossímeis se realizem sem ter de enfrentar grandes obstáculos. A facilidade com que um bandidinho chinfrim chegou à presidência dos EUA com documentos falsos, apostando na obstinada recusa popular de investigar sua vida, é apenas o indício mais patético de quanto a espécie humana, nas últimas décadas, se tornou vulnerável à mentira e ao engodo.

Curiosamente, mas não por coincidência, o fenômeno de embotamento semântico a que me refiro surgiu, ele mesmo, de uma operação de desinformação criada por um serviço secreto para ludibriar, não um governo adversário, mas o seu próprio governo.

Quando nos anos 80 o desertor da KGB, Anatolyi Golytsin, revelou ao governo dos EUA o megaprojeto estratégico com que a KGB planejava consolidar seu poder e ampliar seu raio de ação em escala mundial por meio de um engodo denominado “perestroika”, as implicações dessa informação eram óbvias e escandalosas: ela provava que os serviços de inteligência do Ocidente estavam enganados em praticamente tudo e que, movendo-se no escuro como cabras-cegas, vinham servindo de instrumentos inconscientes para a realização do mais ambicioso plano estratégico comunista de todos os tempos.

Os fatos acabaram demonstrando que Golytsin estava certo em praticamente tudo (a própria CIA reconhece que 96 por cento de suas previsões se realizaram), mas, na época, só uns poucos cérebros privilegiados, entre eles o do genial James Jesus Angleton, foram lúcidos o bastante para entender a importância salvadora da mensagem. A maioria reagiu na base do orgulho ferido, matando o carteiro. Angleton acabou demitido, sob pretextos diversos. J. Edgar Hoover, o todo-poderoso diretor do FBI, chamou Golytsin de “vigarista” e simplesmente rompeu as relações entre seu departamento e a CIA, instalando um desastroso bloqueio de informações no coração mesmo do sistema americano de segurança.

O partido dos ressentidos, vitorioso na guerra contra Golytsin, agiu exatamente como a raposa na fábula das uvas. Para camuflar o vexame sofrido na competição com a KGB e exorcizar o temor de um corte geral de verbas e cabeças, passou a rebaixar a importância das operações de desinformação, rotulando-as de “mera propaganda”. Como parte da mesma reação, entrou a alardear triunfalmente a invulnerabilidade e onissapiência da espionagem por satélite, como se satélites pudessem ler intenções políticas nas cabeças dos dirigentes da KGB.

Essa série de episódios deprimentes é narrada com detalhes no livro de Edward J. Epstein, Deception:

The Invisible War between the KGB and the CIA (New York, Simon & Schuster, 1989). O propósito do livro foi responder à pergunta: os EUA ainda são vulneráveis a uma macro-operação de desinformação montada pela KGB? A resposta de Epstein – vinte e dois anos atrás! – foi: Sim.

Hoje, a KGB tem mais poder do que nunca, não só na Rússia mas no mundo inteiro, através de uma rede de empresas-laranja e quadrilhas mafiosas controladas diretamente do Kremlin, atuando no Ocidente e em toda parte sob uma variedade inabarcável de denominações e falsas identidades, enquanto a posição internacional e a capacidade defensiva dos EUA se debilitam a olhos vistos. Tal como Golytsin previu, a “perestroika” não mudou a estrutura de poder na Rússia, mas a salvou e fortaleceu, usando inclusive, como um de seus instrumentos, os próprios serviços de inteligência da nação adversária.

O Passado No Presente

12 de julho de 2010 | Diário do Comércio

+ Uma coisa que não tem o menor cabimento é chamar Dona Dilma Roussef de “ex” terrorista. Mesmo num exército regular, o número dos militares que entram em combate é mínimo em comparação com a maioria espalhada em serviços de administração, intendência, comunicações, inteligência, comando, estado-maior etc. Numa organização terrorista ou guerrilheira, esse círculo de retaguarda é ainda maior, dado que as atividades propriamente militares são aí reduzidas ao mínimo necessário para produzir os efeitos políticos ou publicitários desejados. Por isso Lênin chamava aos atentados terroristas “propaganda armada”, subentendendo uma articulação eficiente com a “propaganda desarmada”, a qual, por sua própria natureza, exige recursos humanos muito mais vastos, estendendo-se por toda a sociedade e ramificando-se numa diversidade impressionante de organizações auxiliares e formas de atuação que podem ser bem indiretas e sutis, mas nem por isso menos decisivas.

Uma organização terrorista compõe-se de todos esses serviços, e não só dos seus agentes destacados para funções de combate. Hoje em dia, a maior organização terrorista do continente não são as Farc, nem o ELN, nem o MIR chileno: é o Foro de São Paulo, que os coordena e lhes dá o suporte político sem o qual suas ações armadas não teriam a menor eficiência. Dona Dilma Roussef, como líder de um partido que foi o fundador e mentor do Foro de São Paulo, é com toda a evidência membro de uma organização terrorista e deve prestar contas não só do seu “passado”, mas das suas ações presentes que dão respaldo, às vezes nada indireto, aos crimes dessa organização. Neste preciso momento, centenas de prisioneiros políticos sofrem opressão e torturas em Cuba; milhares de seqüestrados apodrecem nas prisões da Farc, enquanto o dinheiro do narcotráfico continua fluindo para essa e outras organizações sobre as quais o Foro de São Paulo estende a sua ignominiosa proteção. As ações armadas das quais Dona Dilma possa ter participado três décadas atrás, por vergonhosas que sejam, são nada, rigorosamente nada, em comparação com a infinidade de crimes dos quais seu partido é acobertador e cúmplice hoje em dia. Mas muitos políticos na chamada “oposição” – palavra que não se pode grafar sem enfáticas aspas – recusam-se até mesmo a dizer que essa mulher “foi” terrorista. Remetem seus crimes ao tempo pretérito e ainda os atenuam sob o manto do esquecimento forçado. O que é preciso dizer alto e bom som é que todo líder ou colaborador do Foro de São Paulo é membro de uma organização terrorista, e o é não só no mais dramático dos tempos presentes como também no sentido eminente de aí exercer função de liderança em vez de de ser apenas um tarefeiro armado, um esbirro sob ordens de outrém, um brutamontes encarregado de fazer o que lhe mandam.

Toda e qualquer hesitação em lembrar o “passado” de Dona Dilma é mais que covardia: é colaboração ativa com a continuação ampliada desse passado, que hoje toma o nome de Foro de São Paulo. Os que se sujam nessas afetações de uma polidez abjeta não estão branqueando um passado, estão acobertando os crimes do presente. Tanto que a expressão “Foro de São Paulo” raramente ou nunca se ouve das suas bocas. Podem ter a certeza: os líderes da organização contam com essa ajuda prestimosa, que nunca lhes faltou. No conjunto, a política brasileira – da governista à menos governista — segue fielmente, servilmente a estratégia do Foro de São Paulo.

São os mentores dessa estratégia, e não seus executores físicos, os maiores terroristas do continente. Entre as ações brutais do tarefeiro armado e as sutilezas da liderança intelectual e política, vai toda a diferença que medeia entre a mão e o cérebro, entre o corpo e a mente. Hoje em dia, os bandoleiros das Farc não são senão a epiderme, a casca da subversão latino-americana. O miolo, o cerne, está nos altos escalões do Foro de São Paulo, sem cuja visão estratégica de conjunto e sem cujo respaldo político as atrocidades da narcoguerrilha se diluiriam numa pasta de inocuidades sangrentas, não mais eficazes, politicamente, do que uma estatística de crimes passionais.

Longe de terem se afastado das atividades criminosas, os políticos de esquerda que hoje brilham no Foro de São Paulo foram da periferia delas para o centro, da base para o topo. Antes de inocentá-los, perguntem: quantos judeus Adolf Hitler matou pessoalmente? Nenhum. Quantas ordens de execução ele assinou com sua própria mão? Nenhuma. Aparentemente, ele não “matou” judeu nenhum. Só criou a política que os matou. Mas é isso, precisamente, o que se chama genocídio. Por definição, ninguém pratica genocídio no varejo, matando pessoalmente um por um. Genocídio é crime de gabinete. Por que então modificar capciosamente a definição de terrorismo, designando com essa palavra somente as ações físicas dos paus-mandados e não o conjunto do plano que as tornou possíveis? Por esse critério, Hitler seria inocente da morte dos judeus, e só cabos e sargentos dos campos de concentração levariam a culpa. Hitler é tão inocente do extermínio dos judeus alemães quanto os líderes do Foro de São Paulo são inocentes dos crimes das Farc.

Em 12 de julho de 2010

Denunciar Em Vao

12 de julho de 2007 | Diário do Comércio

Muitos antipetistas se admiram, se espantam e se indignam ante o fato repetidamente comprovado de que as denúncias de corrupção, por mais que se avolumem, mal chegam a abalar a estabilidade do governo ou a arranhar a reputação do presidente.

Se tivessem lido meus artigos de dois, de três, de quatro anos atrás não veriam nesse fenômeno o menor motivo de estranheza.

Há tempos venho explicando – para ouvidos moucos, aparentemente — que denúncias de corrupção, por si mesmas e isoladas assepticamente de todo combate ideológico, nada podem nem poderão jamais contra Lula, contra o PT ou contra qualquer organização de esquerda.

O motivo é simples.

Toda acusação de ordem ética ou legal ressoa na alma popular conforme a escala de valores reinante na sociedade. Essa escala determina a interpretação que o público há de fazer dos fatos revelados, a reação emocional que se seguirá e, portanto, a direção das conseqüências políticas possíveis.

A escala de valores é função da cultura, isto é, dos sistemas simbólicos imperantes, condensados no imaginário popular, nas comunicações de massa e na linguagem dos debates públicos.

Ora, a esquerda nacional, com o PT à frente, não só criou e desencadeou o ciclo de “combate à corrupção” iniciado no começo dos anos 90, mas teve o cuidado de preparar o ambiente cultural para isso, de tal modo que os valores de moralidade, integridade e transparência fossem associados a símbolos e emoções francamente anticapitalistas, posando sempre o Estado intervencionista como o herói justiceiro e os interesses privados como a raiz de todos os males. Foi um trabalho de muitas décadas, cujos frutos começaram então a ser colhidos – e não pararam de ser colhidos até hoje.

O resultado final, transcorrida uma década e meia, é que hoje é impossível voltar contra o establishment esquerdista uma corrente de ódio anticorrupção do qual ele próprio tem todo o controle psico-social e ideológico.

Crimes praticados por petistas, por mais numerosos e revoltantes que sejam, jamais comprometem o poder do partido, pois nunca aparecem como frutos da estratégia esquerdista de dominação, e sim como “traições” a um fundo ideológico que permanece intacto e puro na imaginação popular. Cada petista que delinqüe aparece como um renegado que “passou para a direita”.

A esquerda fez das denúncias de corrupção uma arma ideológica. Quanto mais denúncias se acumulem, mesmo contra a própria esquerda, mais sai reforçada a ideologia dominante.

Só há um meio de fazer com que a massa asquerosa dos crimes petistas se volte contra seus verdadeiros autores: é inverter o signo das denúncias, exibindo os delitos como partes integrantes da estratégia revolucionária esquerdista, que é o que de fato são.

A Ultima Do Mendoncao

12 de julho de 2002 | 12 de julho de 2002

Em seu artigo de hoje na Folha de São Paulo, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros comenta a sua participação no debate ocorrido na última quarta feira na própria Folha, envolvendo também João Sayad, secretário da Fazenda de D. Marta, em São Paulo, e Paulo Rabelo de Castro, um dos mais brilhantes liberais em atividade no Brasil, como também diversos jornalistas da casa.

Mendonção foi muito feliz ao resumir o ponto de vista do PT, na fala de João Sayad, de que “o déficit fiscal não causa inflação”. Uma afirmação dessa não é apenas anticientífica, é de uma irresponsabilidade asinina. É por crenças assim que o mercado sabe que a eleição de Lula pode ser um desastre terminal para o Brasil.

O que há de novo no artigo é a crítica direta que faz ao que chamou de “malanismo” e o relato do que aconteceu no interior do governo na disputa por posições. Para Mendonção, “infelizmente, no desenvolvimento desse plano de vôo (do Real) em busca de uma economia moderna e competitiva, prevaleceu um fanatismo ideológico que não fazia parte do pensamento original”. Fanatismo ideológico? Não disse em que consistiu. Terá sido a ossificação da taxa de câmbio? É provável. Ele conclui dizendo que “não chegamos ao pior, como foi o caso da Argentina, pela resistência (sic) quase heróica de um pequeno grupo incrustado nos ministérios da Fazenda e do Planejamento”.

Mendonção novamente não teve uma única palavra em seu artigo a respeito da política tributária e do excessivo peso do tamanho do Estado na economia brasileira patrocinado pela Era FHC, a meu ver os reais problemas com os quais temos que conviver e administrar. A dívida pública e a taxa de juros são meras decorrências, bem como o desequilíbrio no balanço de pagamentos. Ele prefere acusar uma indefinida “preferência ideológica” como o determinante dos males da economia: “O segundo mandato de FHC, com a saída dos resistentes a essa guinada ideológica do governo tucano, o modelo radical prevaleceu. O resultado foi uma economia estagnada, tensa pela volatilidade de nossa situação externa e incapaz de criar um futuro melhor para a maioria da sociedade brasileira”.

É esse o problema principal do Brasil. Enquanto homens como Mendonça de Barros, que se revezam no exercício do poder de Estado enquanto membros da tecnocracia, não perceberem onde está o problema real, que é o excesso de Estado, não há como sair dos descaminhos. Esses tecnocratas são o espelho dos seus chefes políticos, os que ganham eleições enganando as pessoas com a promessa do Estado “grande”, como se esse pudesse servir para alguma coisa além de escravizar e roubar – pela via tributária – o seu próprio povo.

Mendonção e Malan não divergem ideologicamente – e nisso o autor faltou com a verdade. Divergem no modo de como chegar ao mesmo resultado de suas crenças socialistas. Nem nisso ele se permitiu fazer uma autocrítica.

Temos que reconhecer, como Raymond Aron, que o socialismo continua sendo o ópio dos intelectuais. O resultado que nos espera será sempre o desastre, enquanto esse for o pensamento hegemônico entre os políticos e os tecnocratas.

Nivaldo Cordeiro O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP Em 12 de julho de 2002

Leituras

Um Templo No Himalaia

12 de julho de 2002 | 12 de julho de 2002

Confesso que às vezes sucumbo a um devaneio: retirar-me para um imaginário templo no Himalaia. Ali, na atmosfera rarefeita e entre neves imaculadas, tentaria elevar o espírito e descansar dos descalabros que raça humana infringe a si mesma com aquele misto de euforia, ingenuidade e ignorância tão características da nossa espécie.

Não nego o grande progresso havido nos meios de transporte e comunicação, na ciência e na tecnologia. Mesmo assim, não se pode dizer que a criatura humana tenha mudado em sua essência. E nem a experiência que a história deveria transmitir nem o bom senso que adverte para que não se cometa certos erros, impede que o homem galope para o abismo da sua desgraça com aquela alegria infantil de quem desconhece os perigos.

Parece que tudo isto nada tem a ver com nosso momento político, mas é justamente esta encruzilhada do destino que me faz sonhar com aquele fantasioso templo no Himalaia. Mesmo porque, depois que o PT e seu candidato despertaram a fase risco Brasil, que se antes já existia agora vai em desabalada carreira rumo aos confins do Terceiro Mundo, não houve mais tranqüilidade. Sobe bolsa, despenca bolsa, sobe a cotação do dólar, sobe a inflação, desorganiza-se aos poucos a economia em meios a intrigas e rompantes não só do candidato do PT mas dos demais presidenciáveis.

Logo vão dizer que esqueci de explicar, que as oscilações da economia são também provocadas por fatores externos. Antes que me acusem desta falha, aviso que estou a par das circunstâncias internacionais, mas que por questão do pequeno espaço do artigo, prefiro me ater às questões internas, especialmente as ligadas ao momento eleitoral.

A estas alturas, não queiram me iludir com o argumento de que tudo não passa de perseguição dos investidores estrangeiros. Afinal, ninguém é obrigado a embarcar em canoa furada para atravessar mares revoltos. E se formos sinceros, admitiremos que o risco Brasil fomos nós mesmos que produzimos.

Vejamos, por exemplo, o caso do PT: este é o único partido que trabalha o tempo todo e não apenas durante as eleições e, assim, trabalhou incessantemente contra o atual governo para desmoralizá-lo. Inclusive, tentou de todo jeito derrubar esse Fernando como o fez ou colaborou decisivamente para a derrubada do outro. A maioria acreditou e nem o próprio governo soube defender-se como devia. Até fez vista grossa para os desmandos do MST, que por mais que o PT negue, é seu braço armado no campo e sua cria dileta.

O PT é o único partido que possui a mística, os demais nem ligam para isto. Por conta da mística, a crença dos petistas lembra o da fé. Nenhum militante acreditará que seu partido pode errar e qualquer erro será considerado acerto mesmo que seja igual ao erro dos outros. Tão pouco os adeptos do PT aceitam que suas hostes podem sucumbir ao pecado da corrupção, pois seu partido é isento do pecado original.

O PT possui disciplina rígida, enquanto os outros não têm nenhuma e seus procedimentos são seguidos de forma idêntica em todos os lugares em que seus membros logram chegar ao poder. Qualquer dos integrantes de suas fileiras, que negue os dogmas partidários ou aponte alguma falha, é sumariamente excomungado, quer dizer, alijado, proscrito das fileiras ou falanges.

O PT, sob o olhar indiferente ou complacente da nação, foi assumindo pontos vitais de controle social, como a imprensa e as universidades. Com isso, foi assegurando na prática a lição de Gramsci: “tomar a direção cultural e moral da sociedade”.

Enquanto isso, onde estavam os outros partidos? Ou mesmo aqueles indivíduos que conhecem a mentalidade do atraso que campeia no PT? Os primeiros flanando, os segundos esparsos, isolados, resistindo como podiam ao patrulhamento, á censura, à perseguição deste partido inquisidor por excelência.

E há ainda uma diferença entre as chamadas esquerda e direita: enquanto a esquerda abriga e protege os seus, a direita, pelo menos em tempos mais recentes, é desunida e só lembra do perigo na hora da adversidade.

Por isso o PT empolgou prefeituras e governos e agora se prepara de novo para o salto maior. Tem feito péssimas administrações, é acusado de corrupção em Santo André, São Paulo, Rio Grande do Sul, etc., conforme noticiado pela imprensa, mas como trabalhou bem e dispõe de mecanismos para abafar os escândalos, sua aura imaculada permanece. O PT é um partido acima de qualquer suspeita.

Mas mesmo com Lula sempre em primeiro lugar nas pesquisas, não se pode prever o que acontecerá quando em 6 de outubro as urnas forem abertas. No momento, Ciro Gomes vai ascendendo nas intenções de voto. Seu estilo bem latino-americano de nacionalisteiro, seu populismo, seu anti-americanismo começam a fazer sucesso, e quem não gosta da esquerda de botequim do Lula Mendonça vai para esquerda de butique do Ciro Gomes. Enquanto isso, Serra tem uma vice que continua a se opor ao presidente Fernando Henrique e Garotinho, bem, esse não conta mais.

A Paz Como Arma De Guerra

12 de janeiro de 2009 | Diário do Comércio

Enquanto Hugo Chávez expulsa o embaixador de Israel e no Brasil o PT compara os israelenses aos nazistas, na Flórida a militância esquerdista sai às ruas e grita: “Judeus, voltem para o forno”.

Está aberta a temporada de caça.

Ninguém parece julgar isso de todo mau. Como é possível que, decorrido pouco mais de meio século do Holocausto, o ódio aos judeus vá aos poucos se incorporando novamente ao senso comum, como se fosse coisa decente, obrigatória, e dele dependessem as melhores esperanças de paz e liberdade para a espécie humana?

A resposta é simples: controle o fluxo de informações e terá o domínio absoluto das conclusões que o público vai tirar delas. Uma das regras mais elementares da ciência histórica é: a difusão dos fatos causa novos fatos. O fato desconhecido não gera efeitos. Se a maioria das distribuidoras de vídeos não tivesse bloqueado o acesso dos espectadores ao documentário Obsession ( www.obsessionthemovie.com ), se o vídeo www.israelnationalnews.com/News/News.aspx/129264 fosse exibido às massas, se no mínimo o direito de chorar seus mortos no horário nobre da TV não fosse um monopólio dos esquerdistas e terroristas, ninguém diria que a reação de Israel foi excessiva: todos entenderiam que foi justa, racional e tardia.

Para que esse desastre não aconteça, é preciso garantir que cada judeu explodido pelas bombas do Hamas seja enterrado duas vezes: uma no solo, outra no desconhecimento geral. Assim todo mundo fica com a impressão de que os judeus não estão defendendo a própria pele, apenas arrancando a de seus inimigos.

Também seria ingenuidade acreditar que o abismo crescente entre noticiário e realidade é o efeito espontâneo de um simples viés ideológico, de preferências subjetivas da classe jornalística.

Só para fins de comparação: as Farc, segundo se descobriu no famoso laptop de Raul Reyes, não são um bando de psicóticos enfurnados na selva – são uma organização mundial, com uma rica e eficiente rede de apoio em 29 países.

Mutatis mutandis , quantos colaboradores têm o Hamas e o Hezbollah no Brasil, nos demais países da América Latina, nos EUA e na Europa? Quantos deles são agentes de influência colocados em postos decisivos das empresas jornalísticas para dar a impressão de que é normal chamar os judeus de nazistas e no mesmo ato sugerir enviá-los de volta aos campos de concentração? Ninguém vai jamais investigar isso em profundidade, dar nomes, responsabilizar criminalmente os desgraçados? Até quando a mídia continuará sendo a principal arma de guerra assimétrica e posando de observadora neutra, no máximo um tanto preconceituosa?

Claro, existem sempre os idiotas úteis, que repetem o que ouvem dizer. Mas a idiotice em estado bruto é inerme. Para tornar-se útil ela tem de sofrer um upgrade . Não se pode explicar um preconceito geral pela simples propagação automática, sem que alguém tenha deslanchado o processo. E quem o deslanchou sabe exatamente aonde pretende chegar com ele.

Lênin já explicava que o terrorismo não é jamais um objetivo em si mesmo, que suas finalidades só se cumprem quando os ataques cessam e as conquistas obtidas são sacramentadas na mesa das negociações. A transição depende, na sua quase totalidade, das disposições da opinião pública. Quando o povo está cansado de guerra, está na hora de o lado militarmente mais fraco ofecerer a paz ao mais forte em troca de vantagens políticas. A mídia é o instrumento-chave dessa mutação. Respaldada por ela, a equipe de governo de Barack Hussein Obama já oferece ao Hamas a oportunidade de transformar a derrota em vitória por meio do “diálogo”. Nenhuma organização terrorista aspira senão a isso: ser transmutada de bando de criminosos em organização política decente, portadora dos méritos da “paz”. Por isso mesmo a guerra assimétrica é chamada, tecnicamente, de “a derrota do vencedor”. Sob a pressão da mídia mundial, Israel arrisca-se a cair nesse engodo pela milésima vez.

Em 12 de janeiro de 2009

Obstinados No Erro

12 de fevereiro de 2005 | O Globo

O realismo de uma análise política mede-se pela sua eficácia em prever o curso dos acontecimentos. Avaliar por esse critério o meu trabalho de mais de uma década e compará-lo ao de meus concorrentes jornalísticos ou acadêmicos poderia me encher de orgulho profissional, se não me infundisse antes o temor de descobrir, pelos olhares de fogo circundantes, que fui louco o bastante para dizer a verdade a quem não a desejava.

Em 1993, meu livro A Nova Era e a Revolução Cultural já anunciava, contra a lenda da morte do comunismo, a iminente redução da política nacional à disputa de poder entre partidos esquerdistas, bem como a ascensão irrefreável do banditismo ante a passividade complacente de autoridades intoxicadas de afeição marcusiana ao lumpenproletariado.

No meu livro de 1996, O Imbecil Coletivo , a destruição da cultura superior, que agora todos constatam como se fosse a maior novidade, já era estudada e diagnosticada desde as correntes profundas que a preparavam.

A desativação ou subjugação das orgulhosas lideranças regionais que pareciam obstáculos intransponíveis ao crescimento do esquerdismo foi repetidamente prevista nesta coluna, contra os risos de deboche dos sabichões.

Com meses de antecedência, a vitória petista de 2002, que tantos diziam julgar remota e inverossímil, foi proclamada, aqui e em cursos e conferências que dei pelo Brasil, não apenas como certa, mas como inevitável.

A farsa do Plano Colômbia, contra o qual a esquerda só gritava para camuflar sua condição de única beneficiária da iniciativa, foi aqui desmascarada muito antes que se tornassem patentes os seus efeitos incontornáveis: a ascensão das FARC ao controle do narcotráfico na Colômbia e sua consolidação como máxima força armada latino-americana. Previ essas coisas numa época em que os desinformantes de plantão preferiam alertar contra os “paramilitares de direita”, então já em plena agonia.

Quando todos diziam que o caso Waldomiro arriscava derrubar o ministro Dirceu, avisei que até o próprio Waldomiro sairia ileso.

Contra a opinião dos bem-pensantes, anunciei antecipadamente o fiasco do Fome Zero, o crescimento exponencial da corrupção sob os auspícios do “partido ético”, o surgimento de uma facção esquerdista anti-Lula e o rápido arrefecimento da onda de CPIs tão logo deixassem de ser úteis à esquerda. Sempre sob toneladas de escárnio feroz, endossei o prognóstico de Constantine C. Menges quanto à formação do eixo Lula-Castro-Chavez. Etc. etc. etc.

O espantoso não é que eu tenha acertado em tudo isso. Acertar era fácil. Mas por que os outros erraram? Erraram porque insistiram em basear seus diagnósticos em informações de segunda mão ou em conjeturas economicistas pedantes, em vez de cumprir sua obrigação (a primeira em toda pesquisa jornalística ou historiográfica) de ir direto às fontes originais, as atas e resoluções do Foro de São Paulo, que documentavam a formação de uma vasta estratégia comunista de dominação continental, tão ampla no seu escopo e tão astuta no seu preparo que nenhuma força política existente poderia lhe resistir.

Dez anos de previsões furadas são tempo mais que suficiente para que profissionais honestos se deêm conta do seu erro. Mas mesmo agora, quando o estado de coisas já é reconhecido até pela mídia americana chique que tanto idolatram, os luminares do jornalismo nacional continuam firmes na negação do óbvio e cada vez mais enraivecidos contra quem insista em mostrá-lo.

Mesmo quando a agressividade esquerdista tira a máscara e anuncia sua intenção de controlar tudo e todos, os crentes do “Lula mudou” ainda procuram, e não sem sucesso, convencer o público de que não há articulação continental nenhuma, de que o bombardeio de novos ataques à propriedade e à liberdade é apenas um curioso leque de coincidências fortuitas, de que o remédio é redobrar a aposta em Lula na esperança de que ele “contenha os radicais”, como se não estivesse irmanado a eles no compromisso com o Foro de São Paulo, como se intrigas de família pudessem abortar o plano mais ambicioso já criado pela esquerda internacional desde os tempos de Stálin.

Em 12 de fevereiro de 2005

Assunto Encerrado

12 de fevereiro de 2004 | Jornal da Tarde

“These opposed factions might be compared to two swords, of which one had a gilded and ornamental hilt, but a blade formed of glass or other brittle substance, while the brazen handle of the other corresponded in strengh and coarseness to the steel of the weapon itself.”

(Walter Scott, a propósito dos constitucionalistas e dos jacobinos na Revolução Francesa).

Quem quer que, a esta altura, ainda sonhe em “vencer o PT”, seja nas próximas eleições, seja ao longo das décadas vindouras, deve ser considerado in limine um bobão incurável, indigno de atenção. O PT, como digo há anos, não veio para alternar-se no poder com outros partidos — muito menos com os da “direita” — segundo o rodízio normal do sistema constitucional-democrático. Ele veio para destruir esse sistema, para soterrá-lo para sempre nas brumas do passado, trocando-o por algo que os próprios petistas não sabem muito bem o que há de ser, mas a respeito do qual têm uma certeza: seja o que for, será definitivo e irrevogável. Não haverá retorno. O Brasil em que vivemos é, já, o “novo Brasil” prometido pelo PT, e não tem a menor perspectiva de virar outra coisa a médio ou longo prazo, exceto se forçado a isso pela vontade divina ou por mudanças imprevisíveis do quadro internacional.

A causa essencial desse fenômeno é a própria diferença de escala entre a atuação do PT e a de seus pretensos adversários. Estes sempre limitaram suas ações e ambições à esfera político-eleitoral explícita, enquanto o PT segue há décadas uma estratégia abrangente que inclui desde a completa hegemonia das modas culturais, gostos artísticos e reações psicológicas da população, até à infiltração nas Forças Armadas e órgãos policiais, a “ocupação de espaços” em todos os escalões da administração pública e o domínio sobre a mídia. Há mais de uma década os partidos que lutam contra o petismo fazem-no dentro de um quadro social, cultural e psicológico previamente demarcado pelo PT, do qual não chegam sequer a ter consciência.

O PT, ademais, nunca agiu sozinho. Ele é apenas o rótulo mais visível de um complexo muito bem articulado de entidades subservientes (em vários graus) à estratégia do Foro de São Paulo, incluindo-se nisso portanto, além do MST, da CUT e dos partidos menores de esquerda, a quase totalidade das organizações autonomeadas “representantes da sociedade civil”, numa gama que vai desde uma infinidade de ONGs ecológicas, indigenistas e de “direitos humanos” até a CNBB, a OAB, a ABI e similares.

Para completar, o PT esteve sempre bem articulado com a esquerda internacional, tendo contatos e apoio em toda parte — na ONU, na CE, na mídia européia e americana, nas organizações internacionais de terroristas e narcotraficantes e sobretudo em fundações como Ford e Rockefeller, etc., senhoras da cornucópia global de onde jorra dinheiro em quantidades ilimitadas para qualquer projeto cultural ou social que contenha uma dose suficiente de esquerdismo.

Perto disso, os partidos que poderiam encarnar mesmo remotamente o antipetismo são apenas organizações provincianas, isoladas do mundo, impotentes, limitadas à propaganda eleitoral corriqueira, às intrigas de gabinete e à disputa das migalhas que caem da mesa do banquete petista.

E não me venham falar em PSDB. É oposição biônica, dócil e castrada. A articulação do PSDB com o PT é tão profunda, tão comprometedora, que líderes tucanos e petistas já discutem abertamente a fusão de seus partidos. E não convém esquecer que a mais prestimosa ajuda para eleger o atual presidente veio do homem de papelão, José Serra, o qual, sabendo das conexões políticas entre seu adversário, a narcoguerrilha colombiana e a indústria internacional de seqüestros encabeçada pelo MIR chileno, se omitiu de denunciá-las durante a campanha eleitoral, dando a Lula a chance dourada de impingir à opinião pública uma falsa imagem de candura e honestidade.

É deplorável ter de insistir numa coisa tão evidente, mas uma estratégia de escala continental, escorada numa rede global de organizações e no completo domínio da atmosfera cultural não pode ser enfrentada por meio de resistências locais, de espertezas provincianas, de críticas pontuais a erros econômico-administrativos ou da aposta louca nas brigas internas da facção dominante, que só a revigoram.

A desproporção de forças, aí, é tão brutal, tão avassaladora, que não vale nem mais a pena insistir no assunto.

Em 12 de fevereiro de 2004

Consciencias Deformadas

12 de dezembro de 2005 | Diário do Comércio

Semanas atrás, escrevi aqui que as denúncias contra Tom De Lay não passariam na Justiça; que eram apenas um truque sujo concebido para afastar de seu cargo na Câmara o líder republicano que constituía um pesadelo para os democratas. Dito e feito: as acusações principais já caíram. De Lay agora prepara o contragolpe judicial contra o promotor Ronnie Earle e provavelmente vai acabar com a carreira do distinto. Mas nem por isso conseguirá voltar à liderança em tempo de reconquistar seu prestígio antes das eleições parlamentares de 2006. O golpe baixo acertou em cheio. Uma coisa é estar limpo perante os tribunais; outra é lavar uma imagem coberta de infâmia pela vasta e persistente campanha de mídia que secundou (até no Brasil, para vocês verem como essas coisas vão longe) a investida de Ronnie Earle, tarimbado difamador judicial de inimigos políticos. Não que a palavra dos jornalistas pese alguma coisa nas eleições: uma recente pesquisa da Gallup mostra que apenas 24 por cento dos americanos acreditam um pouco neles ( http://www.mediainfo.com/eandp /news/article_display.jsp?vnu _content_id=1001614003 ). Mas pesa no ambiente social em torno, que pode oprimir com todo o peso do inferno. A prova de inocência não remove esse peso um só milímetro. De Lay continuará com a fama de escroque, e a esquerda ainda ganhará mais um mártir: Ronnie Earle.

Ninguém, como o pessoal da mídia e da intelligentzia esquerdista, tem a capacidade de continuar fingindo crença numa mentira longo tempo depois de desmascarada. Vejam, por exemplo, o último filme de George Clooney, Good Night, and Good Luck , que glorifica um jornalista medíocre, Edward R. Murrow (personificado por David Strathairn), por haver combatido o senador Joe McCarthy. A velha choradeira antimacartista ainda funciona, mais de uma década depois de provado que nenhum dos investigados do famoso Comitê McCarthy era vítima inocente, que todos eram mesmo devotados colaboradores secretos de uma ditadura genocida, usando dos direitos democráticos para destruir a democracia. Depois da abertura dos arquivos de Moscou e da publicação dos comunicados entre a embaixada soviética e o Kremlin no período da Guerra Fria, pode-se acusar McCarthy de tudo, inclusive de melar a campanha anticomunista por inabilidade afoita, mas não de ter errado os alvos. Se têm dúvidas, leiam Joseph McCarthy , de Arthur Herman (Free Press, 1999), e Venona: Decoding Soviet Espionage in America , de John Earl Haynes e Harvey Klehr (Yale Univ. Press, 2000). O filme é tão besta que, falando o tempo todo de inocentes acusados, não é capaz de mostrar um só deles. Mas a República Popular de Hollywood é capaz de ver nisso mesmo a prova de que eles existiam aos milhares. Um só chavão vale mais do que mil imagens que o desmintam.

O hábito da mentira e do auto-engano está de tal modo arraigado na elite esquerdista que se tornou como que sua segunda natureza. A amplitude do fenômeno está tão bem documentada hoje em dia que ninguém pode se considerar bem informado se ainda se surpreende com ele. Para quem está habituado ao assunto, é até redundante, por exemplo, a proposta do livro, no mais interessantíssimo, Do As Say, Not As I Do (“Faça o que eu digo, não o que eu faço”, New York, Doubleday, 2005), em que o jornalista Peter Schweitzer, autor de uma maravilhosa biografia de Ronald Reagan, compara os discursos do beautiful people esquerdista aos seus feitos na vida real. A maldade que Paul Johnson fez com os gurus clássicos do pensamento esquerdista em Intellectuals , Schweitzer faz com seus seguidores na política, na academia e no show business . O resultado, como não poderia deixar de ser, é arrasador. O enfatuado Michael Moore, fiscal número um da moralidade alheia, demoniza a Hallyburton, acusando a empresa de petróleo de lucrar com a guerra. Quando se vai ver, o próprio Moore é acionista da Hallyburton – e, tal como os demais acionistas, não ganhou coisa nenhuma com a guerra. Aliás ele vivia declarando que não tinha ações da bolsa: Scweitzer publica a lista de todas elas, extraída da sua declaração de rendimentos, com a assinatura do declarante. Al Franken, assanhado comentarista da estação clintoniana Radio America e pretendente a adversário do conservador Rush Limbaugh, chama a América inteira de racista e posa de entusiasta da lei de quotas — mas, entre seus empregados, a quota de negros é de menos de um por cento. Nancy Pelosi, enfezadíssima líder democrata na Câmara, é tão famosa como defensora dos direitos sindicais que suas campanhas eleitorais se tornaram recordistas de contribuições dos sindicatos – mas suas empresas vinícolas, hoje entre as mais prósperas dos EUA, não aceitam empregados sindicalizados. Noam Chomsky, acusador emérito do Pentágono, vive de um discreto contrato milionário com... o Pentágono. Já nem falo nada de Ted Kennedy, dos Clintons e de George Soros. Não vou tirar de vocês o prazer de ler o livro – em inglês, é claro, pois obras dessa natureza não furam o cinto de castidade que protege a virgindade intelectual brasileira.

Se depois de saber dessas coisas vocês ainda tiverem estômago para agüentar lixo esquerdista de maior tonelagem, sugiro a leitura de Stalin: The Court of The Red Tsar , de Simon Sebag Montefiore (Vintage Books, 2003), de Mao: The Unknown Story , de Jung Chang e Jon Halliday (Knopf, 2005) e de Fidel: Hollywood’s Favorite Tyrant , de Humberto E. Fontova, já citado aqui (Regnery, 2005). Estão, na opinião geral, entre os melhores estudos biográficos dos três líderes esquerdistas mais conhecidos do mundo. E o traço mais saliente das vidas dos três é a sua total inescrupulosidade, sadismo, crueldade, com doses de malícia e covardia quase inimagináveis para o cidadão comum. Tudo isso aliado, é claro, à pretensão de personificar a autoridade da presciência histórica, habilitada a julgar os vivos e os mortos desde as alturas de uma virtude quase angélica. Sem dúvida, o movimento esquerdista mundial criou um tipo humano característico, marcado pela presunção de impecabilidade, pela licença ilimitada para praticar o mal com consciência tranqüila e sobretudo pela compulsão autovitimizante que leva cada um desses indivíduos, no alto do poder despótico, a sentir-se um pobre menino incompreendido pelo coração duro dos pérfidos conservadores.

Junte todo esse material na sua cabeça e depois medite o seguinte ponto: quem conhecesse essas coisas em 2002 teria caído no engodo da “ética” petista, mesmo não possuindo nenhum indício concreto de corrupção no partido? A resposta é um decidido “Não”.

Mas, saltando por cima da atualidade, os dados também sugerem a pergunta sobre as origens: como foi possível, historicamente, o surgimento e a ascensão de tipos humanos tão formidavelmente ruins, perto dos quais qualquer tirano da antigüidade, qualquer inquisidor da Idade Média, qualquer corrupto do Renascimento ou, mais ainda, qualquer líder conservador como Disraeli, Churchill ou a sra. Thatcher, por mais estragado que seja, fica parecendo São Francisco de Assis?

A resposta tomaria vários volumes, mas um fator incontornável é a mudança do eixo da auto-imagem moral íntima dos indivíduos humanos, inaugurada pelo movimento revolucionário entre os século XVIII e XX. Os documentos mais vivos dessa mudança são, evidentemente, as narrativas autobiográficas, que se tornam abundantes nessa época e, a partir das Confissões e Devaneios de Jean-Jacques Rousseau, contrastam agudamente com suas precursoras antigas e medievais, cujo modelo são as Confissões de Sto. Agostinho. Todo discurso, ensina a arte retórica, tem um destinatário ideal. Sto. Agostinho faz por escrito o traslado ampliado do que seria uma confissão sacramental. Seu ouvinte, por definição, não pode ser enganado, porque é onissapiente. A consciência da sua presença permanente defende Agostinho contra a tentação da mentira interior, mas defende-o também do desespero, da autocondenação radical, da dramatização excessiva dos próprios males, porque aquela presença é também a do perdão universal.

Jean-Jacques, por seu lado, fala para a “opinião pública”, cujos favores solicita. Não é de espantar que procure enganá-la por todos os meios, enganando-se a si próprio por tabela. Quando fala de seus pecados, ele ou os esconde por completo ou, ao contrário, os exagera histrionicamente, deleitando-se nas suas próprias misérias, quase ao mesmo tempo que admite, com modéstia exemplar, ser portador de qualidades morais jamais superadas e, pensando bem, a alma mais linda e pura da Europa. Substituída a onissapiência amorosa do ouvinte pela extensão quantitativa de um “público” que o autor ao mesmo tempo corteja e despreza, a imagem da alma refletida também se modifica proporcionalmente, deformando-se à medida da ilusão coletiva, móvel e incerta, na qual o autor busca um espelho onde enxergar-se objetivamente, sem lembrar-se que é ele mesmo que a está criando pela influência que exerce sobre o público.

Nenhum homem alcança a onissapiência, mas saber que ela existe o ajuda a não se enganar, quando ele, ao ingressar na aventura do autoconhecimento, se sente observado por olhos eternos que “sondam os rins e os corações”. Durante séculos a disciplina do exame de consciência, à luz dos Dez Mandamentos, deu a cada homem o máximo de objetividade possível no julgamento de si. Já os olhos da platéia se movem conforme os gestos do ator, que a manipula ao mesmo tempo que se submete às suas preferências do momento.

A modernidade começa com essa mutação fraudulenta da consciência de si. Que ainda levasse dois ou três séculos para que monstros de falsa consciência como Stalin, Mao e Fidel fossem considerados modelos de virtude, é algo que se deve, é claro, à subsistência discreta do antigo critério de julgamento no seio mesmo da cultura que o nega e que desejaria extingui-lo para sempre.

Se ainda há um pouco de moral e dignidade no mundo, é porque algo da consciência de ser visto por um observador onissapiente, imune às flutuações da alma individual e da platéia coletiva, subsiste no coração humano. Em plena apoteose do laicismo moderno, ainda há muitos seres humanos que caminham diante dos olhos do Senhor. Eles são a única régua e medida para o julgamento dos demais. Por isso o Evangelho diz que vão julgar o mundo. O que os outros pensem ou deixem de pensar não pesa nisso no mais mínimo que seja.

Em 12 de dezembro de 2005

O Espirito Do Falecido

12 de dezembro de 2004 | Zero Hora

Todos sabemos que, se os comunistas mataram cem milhões de pessoas, fizeram isso por elevado sentimento moral e amor à espécie humana, e que, se cinqüenta por cento dos americanos contribuem regularmente para campanhas de caridade, é por astúcia maquiavélica e egoísmo calculista.

Todos sabemos que, se o operário chinês ganha trinta dólares por mês e o americano três mil, é porque o primeiro está sob a proteção de um governo benevolente e o segundo é abandonado aos horrores da previdência social capitalista.

Todos sabemos que, se a China ocupa o Tibete há décadas e já matou um milhão de tibetanos, é com base em sólidas razões de direito internacional, ao passo que a ocupação americana do Iraque, fazendo vinte vezes menos vítimas do que o extinto regime de Saddam Hussein fez em tempo de paz, é uma intolerável e cruenta violação da ordem mundial.

Todos sabemos que, se os americanos jogam fora a oportunidade de ter lucros comerciais em Cuba e em vez disso preferem enviar doações em dinheiro aos habitantes da ilha, fazem isso por maldade, sêde de dólares, voracidade capitalista e desejo insano de ver todos os cubanos mortos.

Todos sabemos que, se os comunistas proíbem eleições nos países que invadem, é para impedir que sejam eleitos tiranos pró-imperialistas, ao passo que, se os americanos as promovem nos países que ocupam, é para melhor escravizá-los através do engodo da democracia.

Todos sabemos que, se as companhias americanas de petróleo reclamaram que a guerra do Iraque só lhes traria prejuízo, foi só para enganar os trouxas, porque é público e notório que George W. Bush promoveu a invasão para ganhar dinheiro com petróleo. Também sabemos que, se a elite da ONU, a Alemanha e a França lucraram durante duas décadas com o petróleo de Saddam Hussein, foi com a melhor das intenções paternais, tanto que se esforçaram para impedir que os EUA roubassem do povo iraquiano essa sua preciosa riqueza nacional.

Todos sabemos que, se Al Gore disse “Os brasileiros pensam que a Amazônia é deles, mas nós sabemos que é nossa”, isso mostra que seu partido é o defensor do Brasil contra a voracidade imperialista dos malditos republicanos. Inversa e complementarmente, todos sabemos que, se o governo Bush vê com bons olhos o ingresso do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, é porque quer nos manter na condição humilhante de país de segunda classe.

Todos sabemos que, se a extrema-direita israelense vive tramando atentados contra Ariel Sharon, isso prova que ele é um extremista de direita.

Todos sabemos que, se os movimentos nazistas e neonazistas na sua totalidade estão aliados ao terrorismo muçulmano na sua luta contra George W. Bush, isso é a prova definitiva de que o nazista é George W. Bush.

Todos sabemos que, se a indústria do livro esquerdista atingiu durante o regime militar os seus mais altos índices de produção e lucratividade, foi porque esses livros eram proibidos e ninguém podia comprá-los.

Todos sabemos que Fidel Castro matar cem mil pessoas é infinitamente menos revoltante do que o nosso governo matar algumas dezenas delas, sendo essa a razão supremamente ética pela qual os nossos bravos guerrilheiros se aliaram ao primeiro contra o segundo.

Todas essas lições – ou a infinidade das suas equivalentes – são diariamente transmitidas aos brasileiros em instituições de ensino, filmes, livros, programas de TV e notícias de jornal. Impregnaram-se tão profundamente na mentalidade nacional que mesmo aqueles que desconfiam da sanidade delas têm medo de contestá-las em público, preferindo fugir do assunto sob a desculpa de que o comunismo não constitui problema nenhum, pois morreu na década de 80.

A Briga Que Ninguem Quer Comprar

12 de abril de 2010 | Diário do Comércio

Em cada momento do tempo, o estado geral de uma sociedade é indicado por uma série de fatores que podem ser medidos e comparados, como por exemplo a renda média, a criminalidade, o aproveitamento escolar, o número de casamentos e divórcios, etc.

A comparação entre esses fatores permite avaliar a importância relativa de cada fato – ou série de fatos – no conjunto da vida social. Por exemplo, o número de crimes e de vítimas, distribuído entre várias regiões, grupos sociais e faixas etárias. O conhecimento geral desse quadro desperta na população o senso das proporções que servirá de régua para medir a credibilidade das opiniões circulantes. Acima das preferências pessoais e grupais, o núcleo factual conhecido por todos é o tribunal de última instância no qual as idéias e propostas serão julgadas conforme sua adequação ou inadequação à realidade.

Ora, só há um canal por onde o conhecimento do quadro geral pode chegar à população: a mídia. O desempenho normal e saudável dessa função pelos jornais depende não somente de que eles divulguem os fatos, mas de que os selecionem e lhes confiram destaque maior ou menor conforme a sua importância real naquele quadro comparativo, de modo que os focos de atenção popular se hierarquizem segundo a importância objetiva dos fatores.

Em toda sociedade há um determinado número de estudiosos que têm acesso a fontes diretas e não dependem da mídia popular para formar sua visão das coisas. Para a população em geral, no entanto, vigora uma espécie de movimento circular: a constância e o destaque com que os fatos são noticiados na mídia tornam-se o padrão de aferição para o julgamento dos fatos subseqüentes divulgados pela mesma mídia. Em suma: a mídia cria sua própria regra de credibilidade, não havendo, para o grosso da população, nenhum outro quadro de referência pelo qual essa credibilidade possa ser julgada.

Até os anos 50-60, cada órgão de mídia neste país, malgrado a multiplicidade de interesses a que devia atender, mantinha-se razoavelmente submisso à ordem objetiva dos fatores, por saber que exageros ou distorções muito visíveis seriam, no dia seguinte, desmascarados por seus concorrentes. Até certo ponto, a imagem geral da sociedade tal como aparecia nos jornais coincidia com o quadro quantitativo real: o que merecia destaque e cobertura continuada era aquilo que, na vida social, tinha alguma importância objetiva.

Quatro fatores contribuíram para libertar a mídia nacional desses escrúpulos de realismo.

O primeiro foi a solidariedade maior entre as empresas, forjada durante o regime militar para a defesa comum contra as imposições do governo. As denúncias mútuas de fraude e de mau jornalismo desapareceram quase que por completo, colocando cada empresa jornalística na posição confortável de poder mentir a salvo de represálias dos concorrentes. Na mesma medida, a disputa de mercado praticamente cessou, distribuindo-se os leitores mais ou menos equitativamente entre as maiores publicações.

O segundo foi a diversificação das atividades lucrativas das empresas jornalísticas, que passaram a depender cada vez menos da aprovação dos leitores. A prova máxima dessa transformação é que essas empresas se tornaram formidavelmente mais ricas e poderosas sem que a tiragem de seus jornais aumentasse no mais mínimo que fosse. Com a escolaridade crescente, o número de leitores potenciais subiu de ano para ano, mas os maiores jornais brasileiros não vendem, hoje em dia, mais exemplares do que nos anos 50. É um fenômeno único no jornalismo mundial.

Em terceiro lugar, a obrigatoriedade do diploma universitário promoveu a uniformização cultural e ideológica da classe jornalística, de modo que já não há diferenças substantivas entre os climas de opinião nas várias redações de jornais e revistas. Na homogeneidade geral, as exceções individuais tornam-se irrelevantes.

Por último, as influências intelectuais que vieram a dominar as faculdades de jornalismo, deprimindo a confiança nos velhos critérios de objetividade e enfatizando antes a função dos jornalistas como “agentes de transformação social”, acabaram transmutando maciçamente as redações em grupos militantes imbuídos de uma agenda político-cultural e dispostos a implementá-la por todos os meios. Por isso é que, de milhares de profissionais de mídia que ocultaram a existência do Foro de São Paulo por dezesseis anos, só um, um único, mostrou algum arrependimento. Os outros, inclusive os autonomeados fiscais da moralidade jornalística alheia, preferiram, retroativamente, ocultar a ocultação – e não perderam um minuto de sono por isso.

Some-se a tudo isso um quinto fator, de dimensões internacionais: o tremendo desenvolvimento, nas últimas décadas, das técnicas de engenharia social e da sua aplicação pelos meios de comunicação.

Quem pode impedir que empresas mutuamente solidárias, libertas até mesmo do temor ao público, tendo a seu serviço uma massa bem adestrada de “transformadores do mundo” e um conjunto de instrumentos de ação tão discretos quanto eficientes, mandem às favas todo senso objetivo das proporções e se empenhem em criar uma “segunda realidade”, uma nova ordem dos fatores, totalmente inventada, legitimando de antemão qualquer nova mentira que lhes ocorra distribuir amanhã ou depois?

Nessas condições, toda presunção de “objetividade jornalística”, personificada ou não nessa moderna versão do bobo-da-côrte que é o ombudsman , tornou-se hoje apenas um adorno publicitário sem qualquer eficácia real na prática das redações.

O total desprezo pelos critérios quantitativos de aferição da importância das notícias tornou-se, portanto, a norma usual e corriqueira em todas as maiores publicações. Não havendo padrão de medida exterior pelo qual o jornalismo possa ser julgado, os jornais passaram a viver de um noticiário autofágico e uniforme, publicando todos as mesmas coisas, com igual destaque, e confirmando-se uns aos outros no auto-engano comum.

Não há um só jornal ou grande revista, por exemplo, que gradue o destaque dado à denúncias de padres pedófilos pelo exame comparativo de casos similares em outros grupos sociais. Esse exame mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos é muito, muito menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade humana, embora o destaque dado na mídia a esses casos induza a população a crer o contrário. Em artigo recente, o sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num periodo de várias décadas, apenas cem sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto seis mil professores de educação física sofriam condenação pelo mesmo mesmo delito. Introvigne citou os professores de educação física apenas como grupo-controle. Poderia ter mencionado dezenas de outros: no conjunto, os casos de padres pedófilos revelariam ser as raridades que são, contrastando dramaticamente com a disseminação alarmante do crime de pedofilia na sociedade em geral. Eu mesmo, examinando as estatísticas alardeadas pela campanha anticlerical na Irlanda, e tirando delas as conclusões aritméticas que os autores do documento maliciosamente se recusavam a tirar, mostrei que, em cada escola católica daquele país, ocorrera não mais de um caso de pedofilia a cada dezesseis anos. Chamar isso, como a mídia o chama, de “pedofilia epidêmica”, é evidentemente uma fraude, mas como pode a população percebê-lo se não tem acesso a outro critério comparativo senão aquele que lhe é fornecido pela própria mídia segundo o recorte de uma agenda politicamente interesseira?

Mutatis mutandis , o número e a gravidade das ocorrências entre os Legionários de Cristo – mesmo sem contar as peculiaridades organizacionais que destaquei no meu artigo anterior – são tão maiores que os dos casos registrados em qualquer outra instituição católica, que tratar delas sem sublinhar a diferença, antes reduzindo-as a exemplos de “pedofilia católica” como quaisquer outros, é falsificar por completo a visão dos fatos.

Uma coisa é a realidade da vida social, outra a sua imagem na mídia e nos debates públicos. A segunda pode estar muito deslocada da primeira, fazendo com que a atenção pública se aliene da realidade ao ponto de a população tornar-se incapaz de compreender o que está acontecendo. O deslocamento completo assinala um estado de psicose social.

Uma Nacao De Extremistas

12 de abril de 2007 | Jornal do Brasil

Já se tornou prática geral da nossa mídia, quase uma norma de redação, carimbar como “extremista de direita”, sugerindo a conveniência de excluí-lo do debate decente, quem quer que se oponha ao abortismo, à eutanásia, à lei da mordaça gay , ao desarmamento civil, ao neo-racismo anti-racista e a outros itens do cardápio jurídico-moral servido às nações pelos autonomeados governantes do mundo.

Acontece que, segundo vêm mostrando repetidamente as pesquisas do Datafolha, a maioria do povo brasileiro se inclui precisamente nessa categoria. Mais de sessenta por cento dos nossos compatriotas vêem com mal disfarçada hostilidade os novos padrões de conduta que o governo, os jornais, a TV, o cinema e as escolas lhes querem impor como normativos e obrigatórios.

Em contrapartida, se somarmos todos os jornalistas, intelectuais, ativistas, ongueiros, empresários, banqueiros, políticos e burocratas que escolhem as opiniões aprovadas e condenadas, não obteremos um por cento da população nacional. Vamos portanto entrando num novo tipo de democracia, em que uma elite minúscula, montada no poder do dinheiro, do ativismo e da propaganda, marginaliza e criminaliza a maioria, sempre a pretexto de libertá-la das trevas da ignorância e conduzi-la ao paraíso da igualdade, da não-discriminação e dos direitos humanos.

A diferença é que essa minoria se reúne, se adestra, se organiza, suga e junta recursos, ocupa espaços, acumula poder e age sem parar. A maioria, amorfa e dispersa, a tudo assiste, boquiaberta e passiva, às vezes desejando reagir mas sem saber nem por onde começar.

A minoria não aceita contradição. Quando frustrada nas suas exigências, entende isso como recuo tático provisório, voltando à carga depois de algumas semanas. A maioria, justamente porque percebe a absurdidade das pretensões minoritárias, apega-se à esperança suicida de que tudo seja uma moda passageira, sem saber que se trata de uma estratégia abrangente preparada ao longo de mais de setenta anos sob o patrocínio de algumas das maiores fortunas do universo e calculada para desembocar na utopia de Herbert George Wells: o “mundo planejado”. Embora os preparativos para essa maravilha sejam abertos, públicos e fartamente documentados, convencionou-se que mencioná-los é “teoria da conspiração”, rótulo infamante que ninguém quer atrair sobre si.

Para completar, a minoria ambiciosa é totalmente desprovida de escrúpulos, não hesitando em falsificar estatísticas em massa, suprimir os fatos adversos, calar pelo boicote e pela intimidação as vozes discordantes e paralisar o adversário por meio de chantagem emocional, fazendo-se de vítima perseguida e clamando por socorro policial cada vez que ouve a palavra “mas”. A maioria, apegada aos resíduos de uma civilização milenar, ainda acredita estar diante de pessoas razoáveis e cordatas, das quais é possível obter concessões mediante argumentação e diálogo. Anestesiada por essa crença ilusória, vai ela própria fazendo concessão em cima de concessão, até o dia em que nada mais lhe restará para conceder, porque tudo lhe terá sido tomado.

Em 12 de abril de 2007

Os Sinais

12 de Junho de 2002 | 12 de Junho de 2002

Nos últimos dias as más notícias na área de crédito internacional do Brasil foram o grande mote da imprensa, tendo culminado com a entrevista de George Soros à Folha de São Paulo, no último domingo. Quanto mais se aproximar a data das eleições presidenciais e mais o candidato da oposição mostrar força política, mais o crédito do Brasil deverá minguar. A fala de Soros foi uma grande infelicidade e um grande equívoco. A fato de ser banqueiro nem aumenta a inteligência e nem a sabedoria, como se vê.

É claro que quem elege os nossos governantes somos nós mesmos – brasileiros – de maneira que somos os únicos responsáveis pelas besteiras realizadas pelos nossos governantes, em última análise. Quer Wall Street goste, ou não, Lula pode chegar lá e, na minha modesta avaliação, ainda no primeiro turno. Paciência! Será a vontade da maioria e é assim no regime democrático.

Mas o mercado não reage de acordo com a vontade dos eventualmente eleitos. Lula lá significará fuga de capitais, desinvestimento, encurtamento do horizonte decisório das empresas, provável moratória técnica, desemprego e hiperinflação. Não precisa ser profeta para saber que isso vai acontecer. Será a crise econômica em grandes proporções. Pior ainda porque deverá mudar o eixo das relações internacionais, afastando o País ainda mais dos EUA e aproximando-o da Venezuela de Chávez, de Cuba e da guerrilha das FARC, o verdadeiro Eixo do Mal da América Latina. É redundante afirmar que isso isolará o Brasil política e economicamente.

Na mesma linha, a dificuldade que tem tido o Banco Central para a rolagem da dívida interna reflete os mesmos sintomas. Os teóricos esquerdistas, ainda uma vez, poderão aprender a lição de que nada se impõe ao mercado, exceto em regime de exceção, abolindo-se o Estado de Direito, o que significa a abolição do próprio mercado. Estamos vendo o prazo dos títulos públicos encurtar e a taxa de juros subir, contra a vontade dos burocratas e políticos que controlam o Estado. Se o governo não concordar, que pague o que deve. O mercado tem força e não pode ser ignorado.

A elevação da taxa de câmbio que se tem verificado nos últimos dias é apenas o termômetro da desconfiança instalada no mercado, que se generaliza dia após dia. Essa elevação do câmbio é apenas o preâmbulo de uma fuga maior dos investidores para fazer hedge, seja em ativos cambiais, seja adquirindo bens reais, menos sujeitos à corrosão inflacionária e ao arbítrio confiscatório do governo. É já um movimento que antecede a explosão inflacionária e a insolvência internacional do País.

Em tudo e por tudo, o Brasil está repetindo os passos da Argentina. Bem sabemos o que significa isso. Lula lá poderá ser o desastre em grandes proporções e seus eleitores, alegremente, não se dão conta do perigo. Caminhemos todos, pois, para o abismo, que ele está a nossa espera. E Deus nos ajude a todos.

Em 12 de junho de 2002

Leituras

Escrupulos De Comunista

11 de setembro de 2008 | Jornal do Brasil

A propósito da notícia publicada no último dia 30 pela Agência Reuters, com o título “Doação da Gerdau ao PSOL abre debate ideológico na esquerda”, devo lembrar aos distintos leitores que todo o dinheiro dos partidos comunistas e pró-comunistas do mundo vem de uma ou várias das seguintes fontes:

1. Roubos, assaltos, seqüestros, narcotráfico e outros crimes.

2. Trabalho escravo em quantidades jamais vistas antes no Oriente ou no Ocidente.

3. Desapropriações sumárias, sem indenização, impostas à força, não raro mediante o assassinato do proprietário, rico ou pobre (pobre, na maioria dos casos).

4. Lavagem de dinheiro da KGB e órgãos similares, obtido pelos meios acima e investido em negócios capitalistas por intermédio de testas-de-ferro (as maiores fortunas do mundo, hoje em dia, têm essa origem).

5. Subsídios estatais e privados extorquidos mediante chantagem psicológica e ameaça de violências ou drenados sutilmente da rede de ONGs esquerdistas que cobre meio planeta.

6. Contribuições de militantes, que podem chegar a 50 por cento dos seus salários (e ai de quem não pague em dia!).

7. Uma imensidão de negócios lícitos e ilícitos, nos ramos de indústria, mídia, edições, publicidade, bancos, educação etc., que colocam comunistas e seus aliados entre os maiores capitalistas do universo.

8. Ajuda vinda de ricos “companheiros de viagem”, seja em troca de favores ou do mero aplauso.

9. Ajuda ocasional recebida de milionários direitistas ou pelo menos não comunistas, empenhados, por algum motivo que não cabe discutir agora, em agradar seus inimigos.

Nenhuma quantia proveniente das oito primeiras fontes jamais causou o menor problema moral a seus recebedores comunistas. Ao contrário, eles estão persuadidos de que é seu direito e dever embolsar todo o dinheiro do mundo, porque eles são bons, mesmo quando matam, escravizam, roubam ou torturam em massa, e os outros seres humanos são maus, mesmo quando se limitam a ganhar honestamente a vida. Só o dinheiro vindo da última origem mencionada suscita alguns escrúpulos de consciência – não por causa da natureza da fonte, já que “pecunia non olet”, mas porque, raios!, às vezes a coisa é divulgada na mídia e pega mal entre os comunistas não beneficiados diretamente pela doação. Aí a consciência moral comunista desperta e seus rugidos de indignação sacodem o ar em torno. Debates “éticos” acalorados eclodem por toda parte, colocando em questão a pureza ideológica dos beneficiados e seu direito de contaminar-se em tão más companhias.

A maneira como a mídia noticia esses episódios dá a entender não só que se trata de escrupulosidade moral nobre e genuína, mas que isso diferencia os partidos de esquerda de seus concorrentes direitistas e que, de modo geral, embolsar dinheiro do adversário é a única mancha possível – mesmo assim incerta – na ilibada moralidade comunista. De um só golpe, a mais patente hipocrisia é transfigurada em prova de virtude suprema, ao passo que a imensidão de crimes cometidos com total frieza pelos maiores ladrões, exploradores e assassinos do mundo desaparece do horizonte do debate, como se não houvesse aí nenhum problema moral a discutir. O único pecado concebível em que um comunista pode sujar-se é receber, em público, dinheiro do inimigo. O resto são só virtudes.

O Boneco

11 de outubro de 2006 | Diário do Comércio

A superioridade moral, intelectual e prática do candidato Alckmin em relação a seu concorrente é imensurável, e a única coisa que se pode alegar para depreciá-la é que não há nenhum mérito notável em ser melhor que um delinqüente malicioso e cínico.

Eu diria mesmo que o padrão Alckmin é o mínimo aceitável na classe política de qualquer país decente. Lula não é aceitável nem como suplente de vereador. Não é aceitável como contínuo de repartição pública. Não é aceitável como varredor de rua. Só é aceitável como presidiário, porque lugar de delinqüente é na cadeia. E quando o chamo de delinqüente não estou me referindo ao Mensalão, ao dinheiro na cueca, a sanguessugas e a valdomiragens diversas. Em tudo isso as provas contra ele existem, mas são indiretas e circunstanciais. Refiro-me, sim, à sua longa parceria política com duas das organizações criminosas mais perversas e violentas que já existiram no continente: as Farc, que distribuem cocaína a crianças nas nossas escolas e treinam assassinos para que matem mais e mais brasileiros, e o MIR chileno, acionista majoritário da indústria dos seqüestros no nosso país. Aí a prova é direta, documental e superabundante: centenas de páginas de atas de assembléias e grupos de trabalho do Foro de São Paulo, assinadas pelo seu fundador e presidente, Luís Inácio Lula da Silva, mais o discurso que ele fez no décimo-quinto aniversário da entidade, no qual se gaba daquilo que deveria envergonhá-lo, se ele tivesse a capacidade de envergonhar-se.

Durante doze anos esse sujeito tramou a estratégia comum do seu partido com narcotraficantes, seqüestradores e assassinos, calculando a vantagem mútua que, para a conquista do poder total na América Latina pelos herdeiros ideológicos de Lênin e Stálin, deveria resultar da colaboração entre o crime e a aparência de legalidade, esta encobrindo e protegendo aquele, recebendo em troca dinheiro e a garantia da violência armada em caso de aperto.

Se dar respaldo político ao crime não é crime, Lula é inocente, exceto do Mensalão e outros delitos menores. Se beneficiar-se politicamente da parceria com o crime não é crime, Lula é inocente, exceto daquelas falcatruas banais que a mídia educadamente lhe imputa na intenção de reduzir esse monstro de amoralidade e maquiavelismo às proporções de um João Alves de esquerda, desprezível por ser João Alves, perdoável por ser de esquerda.

No debate de domingo, ele foi chamado de mau administrador, perdulário do dinheiro público e mentiroso. Para quem fundou, inspirou e dirigiu a maior organização subversiva e criminosa que já existiu no continente latino-americano, tudo isso é elogio. Apenas deixa na platéia a impressão de que ele é tão ruim quanto seu adversário, no máximo um pouquinho pior. Mesmo que esse pouquinho lhe roube a reeleição, a perda será tão mais tênue, mais doce do que o castigo que ele merece, que ela terá sido, no fim das contas, um prêmio. E, para o PT, reconhecer que um dos seus é “um político como qualquer outro” terá sido um prodígio de humildade tão excelso, tão deslumbrante, que bastará para dar reforço dobrado à crença dogmática na santidade partidária.

Protegido de si mesmo até pelos seus adversários, assegurado, por algum pacto sinistro, de que seus crimes supremos não serão mencionados em público, isolado assepticamente da realidade macabra que veio construindo em segredo ao longo de uma década e meia, ele comparece aos debates com a segurança, a empáfia, a pose agressiva e triunfante de quem conta, na mais catastrófica das hipóteses, com uma perda honrosa.

Ele é, na verdade, o político mais vulnerável que já ousou se mostrar ao eleitorado neste país. Sua história é uma sucessão de abominações cuja narrativa bastaria para escorraçá-lo da vida pública e trancafiá-lo para sempre na galeria subterrânea das vergonhas nacionais.

Ele sabe que sua afetação de superioridade é mera pose, erguida e mantida com muita cola, muito verniz, muita fita crepe. Rasguem-lhe o invólucro de proteção, digam-lhe a verdade na cara, perante a platéia, e ele se desmanchará como um boneco de papelão na chuva.

Em 11 de outubro de 2006

Retorica Perigosa

11 de novembro de 2001 | 11 de novembro de 2001

Dei-me ao trabalho de ler a íntegra do discurso de FHC proferido por ocasião da abertura da Assembléia Geral da Nações Unidas ontem, em Nova York. Foi um discurso retórico e perigoso para os interesses permanentes do Brasil. Além disso, o discurso foi marcado por contradições óbvias, que pretendo sublinhar aqui.

Como não poderia deixar de ser, a fala do presidente começa condenando os atentados de 11 de setembro, que vitimaram a cidade anfitriã. Lá pelas tantas, afirma:

“Há coisas que são óbvias, mas que merecem ser repetidas: a luta contra o terrorismo não é, nem pode ser, um embate entre civilizações, menos ainda entre religiões”.

Se essa declaração fosse apenas a postura hipócrita habitual nas relações entre Estados, tudo bem. Mas penso que o presidente acredita mesmo nisso. Não enxergar corretamente a realidade para uma pessoa comum já é um grande perigo; para um chefe de Estado, é um extremo perigo, pois o processo de tomada de decisões que afetam o conjunto do país passa a ser feito a partir de pressupostos equivocados. Seria verdadeiro dizer que o Ocidente não moveu a guerra contra a civilização islâmica, mas é também correto dizer que os atentados de 11 de setembro coroaram uma longa cadeia de agressões do mundo islâmico contra os ocidentais. Trata-se, sim, de uma guerra de civilizações, como já pude exaustivamente comentar em artigos anteriores.

O perigo da fala do presidente Fernando Henrique Cardoso aumentou na seqüência dessa afirmação, ao associar o terrorismo ao consumo e ao tráfico de drogas. Fiquei chocado, pois toda a gente sabe que os Estados Unidos da América são os maiores consumidores mundiais de entorpecentes. Afirmar que o consumo de drogas é responsável pelo terrorismo é dizer simplesmente que os norte-americanos são os responsáveis pelos atentados. Não satisfeito, o presidente arremata em sua fala:

“Quero sugerir, desta tribuna, a realização de uma campanha mundial de opinião pública que conscientize os usuários de drogas em todos os países para o fato de que estão, ainda que involuntariamente, contribuindo para financiar o terrorismo. Se pretendemos estrangular o fluxo de recursos de que as redes ou facções terroristas se valem para espalhar a destruição e a morte, é imprescindível reduzir drasticamente o consumo de drogas em nossas sociedades”.

Essa afirmação é de um cinismo abissal. O presidente fez coro com os intelectuais da esquerda mundial, atribuindo às vítimas a responsabilidade pelos golpes que sofreram, o que é, no mínimo, uma falsificação e uma imoralidade. A fala do presidente parece lógica, pois coloca na mesma vala dois movimentos terroristas que não podem ser confundidos, um artifício sofístico banal. Terrorismo de forma nenhuma representa uma unidade política. Uma coisa é o caso de países como a Colômbia, país notoriamente produtor de drogas na área sob o conflito guerrilheiro. Outra coisa é o terrorismo islâmico, que de forma alguma depende desse tipo de atividade para se manter. Uma coisa é o terrorismo dentro de uma escala nacional, que em última análise resume um conflito entre facções políticas. Outra coisa é o choque de civilizações, é o terrorismo internacionalizado, que alveja qualquer um em qualquer lugar do planeta, que atravessa oceanos e continentes em busca de seus objetivos insanos.

Essa confusão, se proposital, é mais que cínica, é imoral. Se não, é um descolamento colossal da realidade, que reduz o presidente à condição de um alienado, incapaz de perceber a realidade imediata.

E sabemos que lamentavelmente o Brasil é corredor de trânsito para a circulação de drogas em escala internacional. Um país com esse histórico não está em situação privilegiada para dar lição de moral aos países consumidores.

Na seqüência, o presidente clama contra os paraísos fiscais e contra a forma assumida pela chamada globalização. Em resumo, ele quer que a ONU encontre um meio de taxar os fluxos internacionais de capitais e de direcionar o seu destino. “Há um mal-estar indisfarçável no processo de globalização”, afirma, concluindo que há “um déficit de governança no plano internacional, e isso derivado de um déficit de democracia (sic). A globalização só será sustentável se incorporar a dimensão da justiça. Nosso lema há de ser o da ‘globalização solidária’, em contraposição à atual globalização assimétrica”. Pura retórica vazia de esquerdismo acadêmico. Que significa “globalização solidária”? Nada. É um conceito vazio, desprovido de conteúdo. Dá pena ver o presidente gastar o seu tempo e o de outros chefes de Estado com retórica inútil. Mas, como se diz na gíria, ele saiu bonito na fotografia, para ser vista por seus pares sociais-democratas e socialistas ao redor do mundo.

Depois desfila as proposições mais politicamente corretas, como a defesa dos protocolos de Kyoto, a criação do Tribunal Penal Internacional e a ampliação da ação FMI e do Banco Mundial. Não esquece também de tomar as dores dos palestinos – cuja causa é justa! – mas que virou bandeira da moda no submundo da esquerda. E também não se esquece de pedir a revisão do Acordo de Bretton Woods, a ampliação do Conselho de Segurança da ONU e a ampliação do G-7. Depois disso, afirma contraditoriamente:

“Não aspiramos a um governo mundial, mas não podemos contornar a obrigação de assegurar que as relações internacionais tenham rumo e reflitam a vontade de uma maioria responsável”.

Se o proposto pelo presidente não forma um governo mundial, o que será? Uma justiça internacional, um controle internacional dos fluxos de capitais, uma taxação internacional, um Tribunal Penal Internacional, a isso só podemos chamar de governo mundial, não há outro nome. Como o presidente não precisa de ninguém para escrever seus próprios discursos, desconfio que é ele mesmo o autor dessas mal traçadas e contraditórias conclusões. Dá pena!

E, para finalizar, não bastasse o cinismo de responsabilizar as vítimas por seus próprios infortúnios, ainda afirma em tom de ameaça:

“A sombra nefasta do terrorismo demonstra o que se pode esperar se não formos capazes de fortalecer o entendimento entre os povos”.

É mais do que claro que os norte-americanos não precisam do resto do mundo para se defender, só não vê quem não quer.

O presidente Fernando Henrique Cardoso pode ter sido coerente com a sua trajetória e a sua origem política, mas decididamente não representou bem o Brasil e nem defendeu os interesses maiores dos brasileiros. Fora de um entendimento adulto e responsável com os Estados Unidos da América, o Brasil ficará sempre relegado a uma posição de coadjuvante nas negociações internacionais. A retórica de bravata, para agradar Deus sabe lá a quem – será que dá votos? Duvido – só serve para afastar o país ainda mais do centro de poder mundial.

Um Lindo Casamento

11 de novembro de 2000 | Época,

Capital monopolista e socialismo nunca foram tão felizes juntos Quanto mais o socialismo reconhece sua inviabilidade econômica e se vê obrigado a transigir com a iniciativa privada, mais ele se volta para a luta cultural, para a busca do domínio psicológico sobre as multidões. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental a síntese já está tomando forma: economia capitalista, cultura e mentalidade socialistas.

Há quem ache isso lindo, mas há dois problemas. Primeiro: o capitalismo aí já não é o antigo liberalismo, é um capitalismo de monopólios gigantes, tão perfeitamente integrados na estrutura do poder mundial que funcionam quase como estatais globais. Segundo: o socialismo, quanto mais desiste de suas idéias econômicas e se contenta em controlar consciências e condutas, mais intolerante e despótico se torna. Nas universidades e nos debates científicos, por exemplo, o uso da intimidação física para calar os discordantes tornou-se uma modalidade institucionalmente válida de argumentação. O célebre episódio do professor judeu que, tendo falado mal de Hitler na Alemanha pré-nazista, foi surrado pelos alunos e depois, numa universidade americana, apanhou de novo por ter falado mal de Che Guevara é o resumo da ópera, com o detalhe significativo de que em ambos os casos a reitoria deu razão aos agressores. Pouca gente sabe que foi mais ou menos mediante esse tipo de argumentação que o homossexualismo saiu da lista de doenças mentais. Por idênticos métodos o estudo dos clássicos foi substituído, em muitas universidades, por subliteratura feminista, abortista, gay, black etc.

Nada disso foi imprevisto. Em 1970 Leszek Kolakowski já anunciava que o maior perigo do marxismo residia em seu potencial de destruição da cultura. O raciocínio imanente à nova barbárie era simples: se a cultura é superestrutura do domínio de classes, é obrigação da nova era igualitária fazer tábua rasa, destruir o patrimônio milenar de idéias e valores, substituir toda a bibliografia universal pelo Livro Vermelho dos Pensamentos do Presidente Mao ou porcaria equivalente.

De outro lado, os economistas liberais nunca cessaram de denunciar o mariage de raison entre o socialismo e os monopólios privados. Quem quer que entenda um pouco de economia sabe que o socialismo é impossível. Ora, os grandes monopolistas entendem muito de economia. Sempre souberam que qualquer regime socialista acabaria dependendo da ajuda deles e, a médio ou longo prazos, se tornaria dócil como um cãozinho treinado. Socialismo é big business – desde que a oficina fique longe do escritório, é claro.

A globalização da economia simplesmente mudou os termos do acordo de casamento. A antiga partilha territorial cedeu lugar a uma divisão de trabalho: a militância socialista não toca na economia, os grandes grupos econômicos dão suporte às reivindicações esquerdistas que convenham a seus planos globais. A uniformização mundial das legislações trabalhistas e dos direitos de imigrantes, o controle ecológico mundial, a dissolução de culturas religiosas tradicionais etc. – tudo isso é base suficiente para o mais harmonioso dos matrimônios. Por isso, hoje, a esquerda é maciçamente financiada pelo capital monopolista internacional, com a vantagem adicional de poder posar de nacionalista em países periféricos onde o público ignora essas coisas. No Brasil, por exemplo.

Em 11 de novembro de 2000

Rolinho Primavera

11 de novembro de 1999 | Jornal da Tarde

Um exemplo da inconsciência pertinaz da qual falei no artigo anterior foi-nos dado recentemente pelo sr. João Amazonas. Ao completar 87 anos, ele declarou que, com o Muro de Berlim, o que caiu não foi o comunismo – foi apenas um seu “desvirtuamento”. Dizia Goethe que, quando um homem não sabe o que fazer, o que lhe resta é apegar-se a uma palavra como o náufrago a uma tábua. Apoiado nesse giro lingüístico, o lindo ideal do velho militante bóia incólume sobre um mar de mortos, sem sentir-se manchado por uma só gota do seu sangue. Autodispensado de prestar satisfações pelos feitos do regime a que serviu, é com a consciência mais limpa que o sr. Amazonas pode agora preconizar um inédito “comunismo brasileiro”, tão isento de culpas históricas quanto ele próprio, e ungido daquela inocência primordial de quem tem por pai o puro nada.

Não havendo objeção possível contra tão anti-séptica criatura, o jornalismo pátrio limitou-se a prantear, nessa data querida, o rosário de penas desfiado pelo fundador do PC do B, desde as prisões curtidas em duas ditaduras até o seu quase falecimento de indigestão, ocorrido nesse mesmo natalício por obra de um fatídico rolinho primavera, decerto infiltrado no cardápio pelas mãos de algum dissidente chinês, desses que, postos a correr de Pyong Yang, vêm conspirar no território brasileiro sob o disfarce do inocente comércio de pastéis e caldo de cana.

Contra os que o acusem de mudança oportunista, o sr. Amazonas pode até mesmo alegar que não é de hoje que ele qualifica de falso o comunismo do Leste Europeu. Ele já disse o mesmo em 1962, quando, indignado com o desvirtuamento de seus ideais pelo regime moscovita a cuja expansão no mundo dera o melhor de si, abandonou o Partidão para fundar um partidinho.

O sr. Amazonas, portanto, não é um oportunista. Suas aparentes mudanças refletem sua fidelidade a uma escala de valores constante e inflexível. Para saber que escala é essa, basta perguntar contra que, precisamente, se ergueu a voz do sr. Amazonas em 1962.

O que se discutia então era simples: o regime de Moscou havia dessacralizado Josef Stalin, revelando a responsabilidade do ditador pela morte de milhões de pessoas. Pior ainda, havia decretado o fim da guerra sangrenta contra o capitalismo, propondo uma política de “coexistência pacífica” com as democracias ocidentais. Diante de tal descalabro, o sr. Amazonas montou nos tamancos, proclamando anátema o novo dogma moscovita e herético o seu porta-voz local, Luís Carlos Prestes. Dito isto, bandeou-se para a igreja chinesa, a qual, preservando a pureza originária da doutrina, continuava não apenas a cultuar o ícone de Stalin, mas a seguir à risca o molde stalinista de governo, como o prova o fato de que, enquanto a União Soviética se cansara de beber sangue ao alcançar a cifra de 20 milhões de dissidentes mortos, o regime chinês seguiu bebendo até chegar à marca dos 60 milhões e, malgrado um certo fastio assinalado nos últimos anos, ainda não parou.

O sr. Amazonas, portanto, não mudou nada. Disse em 1962 que o comunismo soviético não era comunismo, e repetiu a mesmíssima coisa agora. Foi com plena fidelidade a essa premissa que ele pôde concluir que o comunismo brasileiro vem ao mundo sem antecedentes.

Mas, perguntará o leitor, e o comunismo chinês? E a linha chinesa? Onde foram parar, no silogismo montado pelo sr. Amazonas? E eu em verdade vos digo: não sei.

O dr. Freud opinaria que há um “ato falho” no fato de que, ao escamotear do seu discurso a existência do regime chinês com seus 60 milhões de vítimas, o orador se torne, na mesma hora, quase uma vítima fatal da culinária chinesa. E – diria ainda – tanto mais significativo se revela esse infausto acontecimento gastrenterológico, ao sabermos que se deu durante um almoço servido, em homenagem ao aniversariante, justamente no Consulado da China em São Paulo.

Mas o dr. Freud era um tremendo reacionário, e não devemos dar-lhe ouvidos. Já que citamos Goethe, fiquemos com ele e reconheçamos que não há situação, por mais estúpida, que o tempo não enobreça. A fidelidade do sr. Amazonas ao seu propósito de tapar o sol com peneira reveste-se, aos 87 anos, de uma certa aura de nobreza. Num ancião venerável não se bate nem com uma flor. Muito menos com um rolinho primavera.

Em 11 de novembro de 1999

O Dunguinismo No Brasil

11 de março de 2014 | Diário do Comércio

Dentre os movimentos neofascistas que floresceram na Rússia para ocupar o espaço ideológico do comunismo, o mais interessante e, de longe, o mais forte, é a corrente “eurasianista” criada e liderada pelo prof. Alexandre Duguin. Filho de um oficial da KGB, Duguin é um colaborador e um protegido do governo russo, o ideólogo maior por trás das decisões estratégicas de Vladimir Putin.

Sem um estudo sério dos seus ensinamentos é impossível entender a linha de ação do Kremlin. Creio ter sido o primeiro a chamar a atenção do público brasileiro, desde uns quinze anos atrás, para a importância crucial do fenômeno Duguin. Graças à mórbida indolência mental das nossas elites, a advertência caiu em ouvidos moucos.

Mas, se são avessos a todo estudo solitário, os brasileiros de classe média e alta são, na mesma medida, altamente propensos a deixar-se arrastar por qualquer bandeira ideológica que chegue do exterior com suficiente respaldo financeiro e disposição de conquistar o território. Assim, se ninguém se preparou intelectualmente para enfrentar a epidemia duguinista que eu anunciava como inevitável, essa epidemia acabou entrando no Brasil como quem arromba uma porta aberta, fazendo não só centenas adeptos nas universidades como também cooptando agentes pagos dispostos a tudo pela glória do Império Eurasiano, que no fim das contas não é senão a boa e velha Mãe Rússia com roupagem multinacional.

O eurasianismo surgiu do antigo movimento “nacional-bolchevique” inaugurado pelo próprio Duguin e pelo romancista Eduard Limonov no início dos anos 90 do século findo.

A idéia inicial era reunir num vasto front ideológico tudo o que fosse anti-ocidental e anti-israelense no mundo: comunismo, nazismo, fascismo e sobretudo os vários movimentos “tradicionalistas” herdeiros dos ensinamentos de René Guénon, Julius Evola, Frithjof Schuon, Ananda K. Coomaraswamy.

Duguin e Limonov divergiram quanto ao governo Putin, que o segundo condenava e no qual o primeiro viu sua grande oportunidade de subir na vida. Duguin tornou-se o ideólogo do regime, vivendo em instalações confortáveis, rodeado de centenas de assessores, tudo pago pelo governo, enquanto Limonov ia para a cadeia.

O nacional-bolchevismo estava acabado: nascia, em seu lugar, o “eurasianismo”, que é praticamente a mesma coisa adornada com uma profusão de novos e rebuscados argumentos extraídos das obras do geógrafo inglês Halford J. Mackinder (1861-1947), dos pensadores “russófilos” do início do século 20, dos teóricos nazifascistas e dos tradicionalistas guénonianos e schuonianos.

O núcleo da doutrina é a idéia de que a história humana inteira é pautada por uma guerra sem fim entre “potências terrestres”, ou “eurasianas”, e “potências marítimas”, ou “atlânticas”. Hoje em dia essas duas forças são representadas, respectivamente, pelo bloco russo-chinês e pela “aliança atlântica” dos EUA com a Inglaterra e Israel.

De acordo com Duguin, os povos “terrestres” são guiados por altos ideais heróicos, os “atlânticos” pela cobiça e desejo de poder. O mundo só será feliz quando o bloco atlântico for destruído e o Império Eurasiano dominar – sem nenhuma cobiça ou desejo de poder, é claro – o globo terrestre inteiro. So simple as that.

A força do duguinismo reside no atrativo que exerce sobre mentalidades diversas e aparentemente incompatíveis entre si: patriotas russos ansiosos para restaurar as glórias imperiais do czarismo, saudosistas do Führer e de Mussolini, comunistas em crise de desamparo ideológico desde o fim da URSS, católicos tradicionalistas inconformados com as reformas do Concílio Vaticano II, intelectuais guénonianos revoltados contra o materialismo moderno e, como não poderia deixar de ser, brasileirinhos universitários sempre dispostos a receber de braços e pernas abertos uma formuleta ideológica prêt-à-porter que os dispense de ler livros. A expansão do duguinismo no Brasil tem sido muito rápida mas, como não poderia deixar de ser, passa totalmente despercebida da mídia e dos “formadores de opinião”, assim como aconteceu com a ascensão do Foro de São Paulo de 1990 a 2007.

E é justamente aí que eu entro na história. Momentaneamente em crise de dúvida, alguns duguinistas principiantes decidiram colocar as idéias do seu guru em teste, promovendo um debate entre ele e este articulista. O texto integral dos pronunciamentos de parte a parte foi publicado pela Vide Editorial, de Campinas, sob o título Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Um Debate entre Alexandre Duguin e Olavo de Carvalho (2012).

Mesmo o leitor que não morra de amores pela minha pessoa notará que, no confronto entre um escritor independente e o poderoso representante da ditadura russa, os argumentos do meu adversário foram reduzidos a pó. As mensagens finais do prof. Duguin não escondem sua irritação e despeito ante um oponente que não lhe deixava mesmo margem para outra coisa.

Confirmando

11 de março de 2004 | Jornal da Tarde

Duas semanas atrás, escrevi aqui que nada, exceto mudanças imprevisíveis do quadro internacional ou uma intervenção da vontade divina, abalaria o poder do PT. Nos dias seguintes, a eclosão do escândalo Waldomiro pareceu desmentir minhas palavras, mas, passadas duas semanas, revelou ser a mais cabal confirmação que elas poderiam esperar. Se algo esse acontecimento demonstrou, foi que: (1o.) o partido governante não tem a menor intenção de curvar-se às exigências morais e legais das quais se serviu durante uma década para destruir reputações, afastar obstáculos, chantagear a opinião pública e conquistar a hegemonia; (2o.) denúncias e acusações não têm a mínima condição de obrigá-lo a isso, porque não há força organizada para transformá-las em armas políticas como o PT fez com as denúncias contra Collor, Magalhães, Maluf e tutti quanti ; (3o.) se por um motivo qualquer o PT cair em total descrédito e não tiver mais condições de governar, entrará em ação o Plano B: suicidar o governo alegando que falhou porque estava muito “à direita” e aproveitar-se da oportunidade para acelerar a transformação revolucionária do país, seja radicalizando a política oficial, seja reciclando o partido dominante por meio de expurgos e autocríticas, seja transferindo sua militância para outra e mais agressiva organização de esquerda.

Os condutores do processo terão nisso a colaboração servil e sonsa das oposições “de direita”, que, hipnotizadas pela ilusão de normalidade constitucional que criaram para se proteger do medo da realidade, ainda insistem em imaginar o adversário apenas como uma legenda partidária e não como uma estratégia revolucionária abrangente.

Na verdade, não é nem exato dizer que “o PT” está no poder. Quem está no poder é o “Foro de São Paulo”, entidade tentacular da qual o partido do sr. José Dirceu é apenas um dos braços. Os demais estão espalhados em outros partidos, incluindo PMDB e PSDB. O mais certo, para fins de diagnóstico, seria reconhecer logo a unidade estratégica por trás de tudo isso — o que não é nada difícil, basta ler as atas do Foro — e chamar o conjunto por um nome unificado, que pode ser o do velho PCB, Partido Comunista Brasileiro, ou qualquer outro.

Esse partido tem um exército de militantes, formados ao longo de quatro décadas de arregimentação, doutrinação e organização, treinados e prontos para, num instante, promover agitações em qualquer ponto do país, simulando mobilização espontânea da opinião pública ao ponto de a própria opinião pública acreditar nisso. Tem um segundo exército de reserva, constituído pelas massas de agitadores do MST, dispostos a matar e morrer para destruir os inimigos da revolução socialista. Tem uma vasta rede de espiões infiltrados em todos os escalões da administração estatal, bem como na mídia e em empresas privadas. Tem o apoio internacional armado das Farc, a mais poderosa organização militar da América Latina, e de outras entidades similares, todas ligadas de perto ou de longe ao banditismo organizado local. Tem uma rede de contatos na mídia européia e americana para lhe dar respaldo em qualquer campanha que mova contra quem quer que seja, tornando o infeliz, aos olhos do mundo, um virtual inimigo da espécie humana. Tem uma rede de ONGs milionárias, subsidiadas do Exterior, para dar um eficiente simulacro de legitimidade moral e respaldo social a qualquer palavra-de-ordem emanada do comando partidário. Tem uma fonte ilimitada de dinheiro, constituída pelo artifício do “dízimo” dado em troca de cargos públicos. E tem, agora, o controle da máquina fiscal e policial do Estado.

Perto disso, que são os partidos “de oposição”, senão castelos de geléia, trêmulos e prontos a desabar ao primeiro sopro do lobo petista?

Por não levar em conta esse estado de coisas, as opiniões que circulam na mídia sobre a atual situação brasileira são de uma irrealidade a toda prova. Treinados para lidar com as pequenas intrigas da política constitucional corriqueira, nossos “comentaristas”, “especialistas” e “politólogos” de plantão ficam inermes ante uma estratégia revolucionária continental que transcende infinitamente o seu horizonte de consciência. Exceto, é claro, aqueles que ajudaram a formular essa estratégia e têm interesse em evitar que ela seja objeto de exame. Por isso o chamado “debate nacional” é apenas uma troca de idéias fúteis entre a inconsciência e a desconversa.

Em 11 de março de 2004

Saindo Do Exilio

11 de maio de 2006 | Jornal do Brasil

Por duas ou três décadas, a opinião esquerdista teve a hegemonia completa do espaço público brasileiro, ocupando as ruas, as cátedras, as colunas de jornal e o horário nobre da TV com uma empáfia fora do comum, sem encontrar a mínima resistência.

Tão incontestado foi seu monopólio, que suas miúdas divergências internas acabaram sendo consagradas como sinônimos de “oposição”, suprimindo a possibilidade mesma de uma oposição genuína. Expulsa, caricaturada, aviltada, achincalhada sem chance de defesa, a “direita” tornou-se tão estranha e impensável no ambiente nacional, que, quando o tucanato foi posto oficialmente no lugar dela, não havia mais ninguém capaz de notar a diferença.

Os próceres esquerdistas embriagaram-se de hegemonia ao ponto de acreditar mesmo que a livre discussão entre suas próprias facções era o suprassumo da diversidade e que qualquer opinião frontalmente oposta ao conjunto era uma ameaça às instituições democráticas, uma trama diabólica do Pentágono.

Nas universidades, duas gerações de estudantes foram adestradas, como matilhas de cães, para zelar pela segurança de seus treinadores, arreganhando pavlovianamente os dentes à mera suspeita da presença de liberais e conservadores (“fascistas”, no seu vocabulário de reflexos condicionados).

Com subserviência abjeta, banqueiros, empresários, potentados da mídia e até políticos tidos como “conservadores” (no sentido brasileiro do termo, isto é, oportunistas sem convicção alguma) bajularam a presunção insana da liderança esquerdista e a alimentaram com dinheiro e cargos, na esperança estúpida de apaziguá-la, tremendo de medo por dentro mas fazendo cara de espertos e fingindo orgulho de ciscar as migalhas de poder caídas da mesa da nomenklatura (hoje estão todos na lista da Receita Federal, aguardando sua vez de ser transmutados em Paulo Salim Maluf, Luiz Estevão ou Eliana Tranchesi).

Nesse panorama, não é de espantar que os poucos remanescentes liberais e conservadores sinceros se isolassem até geograficamente, fazendo do Rio Grande do Sul o único Estado brasileiro no qual era permitido estar um pouco à direita do PSDB e no qual, por isso mesmo, a soberba petista acabou por ser derrubada para não se levantar, talvez, nunca mais.

Ano após ano, um valente grupo de empresários promoveu ali manifestações públicas de pró-capitalismo explícito inconcebíveis no resto do país: as memoráveis sessões do “Fórum da Liberdade” – uma arena democrática onde as estrelas esquerdistas abandonavam por momentos as delícias do monólogo triunfante e, expostas ao confronto aberto, saíam sempre de rabo entre as pernas.

Um ignóbil acordo espontâneo da mídia nacional, porém, ocultou sob total silêncio esses acontecimentos político-culturais de primeira grandeza, limitando ao território gaúcho o exercício obsceno da liberdade de divergir.

Daí a importância imensurável do seminário que a Associação Comercial de São Paulo vai realizar no Hotel Caesar Business, na capital paulista, nos dias 15 e 16 de maio, sob o título “Democracia, Liberdade e o Império das Leis”. Pela primeira vez em décadas, as idéias pró-capitalistas saem do heróico exílio gaúcho e ousam se exibir em público na própria terra natal do capitalismo brasileiro, de onde a covardia e a omissão de tantos beneficiários da liberdade de mercado as haviam banido em prol do oficialismo de ocasião e do puxa-saquismo masoquista.

Sendo eu mesmo um dos conferencistas (por vídeo), não posso expressar aqui toda a alegria libertadora que o acontecimento me infunde. Só posso dizer que, com a presença de estudiosos de primeiro escalão como Guy Sorman, Alejandro Chafuen, Tim Goeglein, Clifford May e Ives Gandra da Silva Martins, entre outros, o seminário promete mostrar um pouco da superioridade intelectual do pensamento pró-capitalista, fenômeno reconhecido mundialmente, que só continua a ser segredo num país que tem por presidente um semi-analfabeto de terno Armani e por ministro da Cultura um folião boboca.

Em 11 de maio de 2006

Gritos E Sussurros

11 de maio de 2000 | São Paulo,

A esquerda nacional está indignada com o veto do governo à divulgação de uma entrevista de João Pedro Stédile pela TV Cultura. Por toda parte ergue-se a denúncia: “Censura!” E esta palavra exerce automático efeito revoltante, trazendo-nos a evocação de uma época em que cada um tinha de andar com uma rolha na boca, infame chupeta que nos reduzia à menoridade. Em princípio apóio, pois, qualquer protesto contra qualquer censura, sobretudo quando a vítima é o ferocíssimo líder emeessetista, um cidadão que, conforme já observei, quanto mais fala mais se enrola.

Também protestei ante um pedido de prisão emitido contra ele tempos atrás.

Já disse que preciso do sr. Stédile livre e saudável para um dia eu poder pegá-lo de jeito, diante das câmeras de tevê, e demonstrar ao Brasil inteiro, como demonstrei ao público presente no nosso debate na Bienal do Livro de Porto Alegre em 1998, que se trata de um formidável embrulhão. Se fazem muito mal ao coitado, fico inibido de submetê-lo à merecida palmatória dialética. Portanto advirto às autoridades: deixem-no em paz. Apenas emprestem-no para mim por uns minutos.

Não obstante, ao prestar aqui minha solidariedade ao sr. Stédile na sua condição de censurado (uma das poucas coisas que temos em comum), devo assinalar, de passagem, que o faço com certas reservas.

Em primeiro lugar, não sei se as autoridades estão totalmente erradas no caso. Digo isto porque a TV Cultura é propriedade pública: se não é lícito usá-la para fazer propaganda do governo, também não há de ser muito honesto usá-la para fazer propaganda contra ele. Uma tevê estatal – e a Cultura, malgrado as sutilezas da sua constituição, é no fim das contas exatamente isso – pertence ao Estado e não às facções que o disputam. Ela está acima dos conflitos políticos do momento. Ou ela deve recusar-se a servir de caixa de ressonância a esses conflitos, ou, se não puder fugir disso, deve ao menos tratar as partes conflitantes em pé de igualdade. A entrevista, portanto, não deveria ter chegado a ser gravada. Mas, uma vez que o foi, censurá-la não é solução que preste. O certo seria transmiti-la seguida de sua refutação por um porta-voz do governo (ou, se me permitem oferecer meus humildes préstimos, por este que lhes fala).

Em segundo lugar, não é certo chamar de censura somente as ações oficiais que tendam a impedir o livre debate. Censura é toda manifestação de um poder – oficial ou privado – que bloqueie o confronto de idéias ou a divulgação de informações. E o fato é que em cada redação deste país há uma tropa de choque incumbida de vetar notícias e comentários que prejudiquem o MST ou, de modo geral, a esquerda (eu próprio já fui vítima dessa máquina uns pares de vezes e por isso tenho autoridade para dizer ao sr. Stédile que sei o quanto dói). Só ignoram o bloqueio o JT, o Estadão e, de vez em quando, Veja. O resto é um amém de ponta a ponta, com esporádicos peixes varando a rede a título de salvação das aparências. Esse tipo de censura não desagrada em nada o sr. Stédile, e não creio que sua entrevista guardasse revelações mais importantes do que a massa daquelas que, graças aos fiéis agentes do Robin Hood dos Pampas, têm sido sonegadas ao público brasileiro.

Em terceiro, a gritaria geral ante o caso da entrevista contrasta de maneira escandalosa com o silêncio total em torno de um outro e recente ato de censura – ato ainda mais temível e revoltante porque não partiu de uma autoridade brasileira, mas de um poder estrangeiro. Refiro-me às tentativas do Greenpeace para calar a divulgação de notícias sobre a ameaça de ONGs européias e norte-americanas à soberania nacional. O órgão difusor das notícias e a vítima dessas pressões foi o boletim de um certo “Movimento de Solidariedade Latino-Americana”, de cuja diretoria faz parte o dr. Enéas Carneiro, um cidadão pelo qual tenho a mesmíssima dose de estima e consideração que sinto pelo sr. Stédile, mas que, como este, é um cidadão brasileiro e deve ter assegurado o seu direito de falar, escrever e publicar o que bem entenda. E ainda mais deprimente é a comparação entre o clamor de indignação num caso e a omissão cúmplice no outro, quando se considera que o sr. Stédile disputa o direito mais ou menos duvidoso de difundir suas opiniões numa tevê estatal, e o dr. Enéas o de imprimir com seu próprio dinheiro um boletim de fundo de quintal. Quando uma facção política exige o privilégio de vociferar em todos os megafones e nega à sua adversária o direito de sussurrar entre quatro paredes, já não é preciso temer o próximo advento de uma ditadura: porque ela já está entre nós.

Em 11 de maio de 2000

Basta Fora

11 de junho de 2015 | Diário do Comércio

Volto a explicar, agora ponto por ponto, a catástrofe estratégica monstruosa com que o PT destruiu a si mesmo e à nação.

1. No incipiente capitalismo brasileiro, as grandes empresas são quase sempre sócias do Estado, o único cliente que pode remunerá-las à altura dos serviços que prestam.

2. Por isso elas acabam se incorporando ao “estamento burocrático” de que falava Raymundo Faoro: o círculo dos “donos do poder”, que fazem da burocracia estatal o instrumento dócil dos seus interesses grupais, em vez da máquina administrativa impessoal e científica que ela é nas democracias normais.

3. Nesse sentido, o sistema econômico brasileiro não é capitalista nem socialista, mas sim patrimonialista, como destacaram, além do próprio Faoro, vários estudiosos de orientação liberal, entre os quais Ricardo Velez Rodriguez, Antonio Paim e o embaixador J. O. de Meira Penna.

4. Nos anos 70 do século passado os intelectuais de esquerda que sonhavam em formar um grande partido de massas tomaram conhecimento do livro de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder. Formação do Patronato Político Brasileiro, então lançado em aumentadíssima segunda edição, e entenderam que o curso normal da revolução brasileira não deveria ser propriamente anticapitalista, mas antipatrimonialista: o ponto focal do combate já não seria propriamente “o capitalismo”, e sim – com nomes variados — o “estamento burocrático”.

5. A definição do alvo era corretíssima, mas, ao mesmo tempo, o partido, como aliás toda a esquerda nacional, estava intoxicado de gramscismo e ansioso por tomar o poder por meio dos métodos do fundador do Partido Comunista Italiano, que preconizavam a infiltração generalizada e a “ocupação de espaços” destinadas a criar a “hegemonia”, isto é o controle do imaginário popular, da cultura, de modo a fazer do partido “o poder onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”.

6. A aplicação do esquema gramscista obteve mais sucesso no Brasil do que em qualquer outro país do mundo. Por volta dos anos 80, o modo comunopetista de pensar já havia se tornado tão habitual e quase natural entre as classes falantes no país, que os liberais e conservadores, inimigos potenciais dessa corrente, abdicaram de todo discurso próprio e, para se fazer entender, tinham de falar na linguagem do adversário, reforçando-lhe a hegemonia ideológica, mesmo quando obtinham sobre ele alguma modesta vitória eleitoral em troca. Entre os anos 90 e a década seguinte, toda política “de direita” havia desaparecido do cenário público, deixando o campo livre para a concorrência exclusiva entre frações da esquerda, separadas pela disputa de cargos apenas, sem nenhuma divergência séria no terreno ideológico ou mesmo estratégico.

7. O sucesso da operação produziu sem grandes dificuldades a vitória eleitoral de Lula numa eleição presidencial na qual, como ele próprio reconheceu, todos os candidatos eram de esquerda, o que canalizava os votos quase espontaneamente na direção daquele que personificasse o esquerdismo da maneira mais consagrada e mais típica.

8. Com Lula na Presidência, intensificou-se formidavelmente a “ocupação de espaços”, fortalecendo a hegemonia ao ponto de levar ao completo aparelhamento da máquina estatal pelo comando comunopetista, que ao mesmo tempo precisava da ajuda das grandes empresas para cumprir o compromisso assumido no Foro de São Paulo, coordenação estratégica da política comunista no continente, no sentido de amparar e salvar do naufrágio os regimes e movimentos comunistas moribundos espalhados por toda parte.

9. Inevitavelmente, assim, o próprio partido governante se transformou no “estamento burocrático” que ele havia jurado destruir. E, imbuído da fé cega nos altos propósitos que alegava, atribuiu-se em nome deles o direito de trapacear e roubar em escala incomparavelmente maior que a de todos os seus antecessores, sem admitir acima de si nenhuma autoridade moral à qual devesse prestar satisfações. O próprio sr. Lula expressou esse sentimento com candura admirável, afirmando-se o mais insuperavelmente honesto dos brasileiros, ao qual ninguém teria o direito de julgar – e isso no momento em que seu partido, abalado por uma tremenda sucessão de escândalos, já era conhecido no país todo como o partido-ladrão por excelência.

10. Assim, não apenas o PT fortaleceu o patrimonialismo, como frisou o cientista político Ricardo Velez Rodriguez, mas se transformou ele próprio na encarnação mais pura e aparentemente mais indestrutível do poder patrimonialista, soldando numa liga indissolúvel a ilimitada pretensão esquerdista ao monopólio da autoridade moral, os anseios do movimento comunista continental, os interesses de grandes grupos industriais e bancários, o aparato cultural amestrado (mídia, show business, universidades) e, last not least, o instinto de sobrevivência da classe política praticamente inteira.

11. Tal foi o resultado da síntese macabra que denominei faoro-gramscismo — a tentativa de realizar por meio da estratégia de Antonio Gramsci a revolução antipatrimonialista preconizada por Raymundo Faoro: na medida em que, ao mesmo tempo, instigava o ódio popular ao “estamento burocrático” e, por meio da “ocupação de espaços”, se transfigurava ele próprio no inimigo odiado, personificando-o com traços repugnantes aumentados até o nível do absurdo e do inimaginável, o PT acabou por atrair contra si próprio, em escala ampliada, a hostilidade justa e compreensível da população aos “donos do poder”, aos príncipes coroados do Estado cleptocrático.

“NÓS ENCONTRAMOS O INIMIGO E ELE SOMOS NÓS”, DIZ O PERSONAGEM POGO, CRIADO POR WALT KELLY(1913-1973) 12. Ao longo do processo, a “ocupação de espaços” reduziu o sistema de ensino e o conjunto das instituições de cultura a instrumentos para a formação da militância e a repressão ao livre debate de ideias, destruindo implacavelmente a alta cultura no país e, na mesma medida, estupidificando a opinião pública para desarmar sua capacidade crítica. Ao mesmo tempo, no desejo de agradar a vários “movimentos de minorias” enxertados no Brasil por organismos internacionais, o governo petista fez tudo o que podia para desmantelar o sistema dos valores mais caros à maioria da população, contribuindo para espalhar a confusão moral, a anomia e a criminalidade, esta última particularmente favorecida por legislações que não se inspiravam propriamente em Antonio Gramsci, mas numa fonte mais remota do pensamento esquerdista, a apologia do Lumpenproletariat como classe revolucionária, muito em voga nos anos 60 do século XX.

O Brasil que o PT criou é feio, miserável, repugnante, tormentoso e absolutamente insustentável. Cumprida a sua missão histórica de encarnar, personificar e amplificar o mal que denunciava, o único partido da História que fomentou uma revolução contra si mesmo tem a obrigação de ser coerente e desaparecer do cenário o mais breve possível.

Por isso a mensagem que o povo lhe envia nas ruas, nos panelaços, nas vaias e nas sondagens de opinião é hoje a mesma que, em circunstâncias muito menos deprimentes e muito menos alarmantes, surpreendeu o desastrado e atônito presidente João Goulart em 1964:

O Estado E A Razao

11 de julho de 2015 | Diário do Comércio

Toda ideia que se condensa num chavão torna-se imediatamente estúpida, se é que já não o era desde o início e por isso mesmo se acomoda tão confortavelmente nesse formato.

Há anos ouço falar de “enxugar o Estado”. À primeira vista parece a resposta lógica natural à constatação de que os problemas do Brasil provêm de a sociedade civil ser muito débil e o Estado muito forte – tão forte que consegue subjugar as organizações da sociedade civil.

O PT jamais teria conseguido concentrar tanto poder sem a ajuda da OAB, da CNBB e de milhares de ONGs que, nascidas da iniciativa social espontânea, acabaram se transformando numa espécie de funcionalismo público informal. O sujeito vê isso acontecendo e exclama: “Enxugar o Estado! ” Parece sensato, mas há um problema: Quem enxugará o Estado? O próprio Estado. Enxuga-se privatizando. E, na medida em que privatiza, cria uma rede de cumplicidades privadas que estenderão o poder do Estado – agora anônimo, informal e quase invisível – até os últimos confins da vida social.

Tudo converge no sentido da constante histórica descrita por Bertrand de Jouvenel no seu clássico Du Pouvoir: Histoire Naturelle de Sa Croissance: Haja o que houver, façam os seus inimigos o que fizerem, o poder do Estado sempre cresce. Cresce quando centraliza, cresce quando se divide e se dispersa, cresce quando faz e quando desfaz, cresce agindo e cresce dormindo.

As análises liberais correntes que repetem ad nauseam o grito de alerta de José Ortega y Gasset, “El mayor peligro, el Estado! ” estão certíssimas, no essencial, mas pecam por imaginar que o poder crescente do Estado se baseia sobretudo em mecanismos materiais de controle, como o monopólio da força física ou da economia.

A grande força do Estado moderno não está nisso, mas em algo que Hegel percebeu melhor do que ninguém: o Estado é a mais vasta e complexa criação da inteligência humana, a encarnação suprema da Razão.

Comparado à organização estatal, mesmo o conjunto das ciências existentes não passa de uma mixórdia de teorias contrapostas, grupelhos em disputa e preferências irracionais.

Cada ciência pode ser muito racional no seu próprio terreno, mas não existe nem pode existir uma articulação teórica integral, uma organização interna e científica do conjunto das ciências.

O único princípio unificador desse conjunto é de ordem administrativa e burocrática. É o Estado. Tanto que uma teoria científica, por mais cientistas que a endossem, só adquire a autoridade pública de uma verdade universalmente reconhecida quando vem a ser absorvida pelo Estado e incorporada na legislação.

Acima da comunidade científica, acima da “opinião pública” mais letrada que se possa imaginar, o Estado é o juiz supremo e final de todos os conhecimentos humanos.

Contra uma entidade assim constituída, em vão esperneará o economista argumentando que a economia liberal é mais eficiente do que uma economia estatizada. Pois a economia não passa de uma ciência entre outras, e nenhuma ciência poderá jamais se sobrepor ao conjunto de todas elas, no topo do qual brilha a Razão encarnada no Estado.

O Estado torna-se assim o juiz último de todas as questões humanas, e não somente daquelas assinaladas na definição jurídico-formal da sua “área de competência”.

A consequência prática é que mesmo aqueles que desejariam ardentemente diminuir os poderes do Estado não veem outra maneira de fazê-lo senão por meio do próprio Estado, e suas belas intenções acabam sendo trituradas pela máquina da racionalidade estatal.

Agora mesmo, no Brasil, quando tantos se queixam do Estado comunopetista invasivo e onipotente, não enxergam outra maneira de livrar-se dele senão pela disputa parlamentar e judicial, pela reforma das leis e instituições e, em suma, pela ação dentro do Estado.

Desinformacao Colossal

11 de julho de 2004 | Zero Hora

Outro dia assisti a uma conversa entre o sr. Alberto Dines e um grupo de jovens jornalistas paranaenses. Como falassem da autocensura, que o diretor do “Observatório da Imprensa” dizia considerar a mais tenebrosa doença do jornalismo, notei que nem ele nem seus interlocutores mencionavam aquele que é, numa escala estritamente objetiva, o mais duradouro e mais vasto fenômeno de ocultação de informações essenciais já registrado na história da mídia ocidental.

Refiro-me, é claro, ao Foro de São Paulo. Uma entidade existente há quatorze anos, fundada por dois pop stars do esquerdismo mundial — Lula e Fidel Castro — e integrada por mais de oitenta partidos e movimentos, já é, só por essas características, a mais importante organização política do continente. Quando, porém, a leitura de suas resoluções nos revela que têm poder decisório, que coordenam numa estratégia unificada as ações de todas as entidades filiadas e que entre estas últimas se contam partidos legais como o PT ou o PPS, quadrilhas de narcotraficantes como as FARC ou de seqüestradores como o MIR chileno e até entidades juridicamente indefiníveis como o MST, então se torna claro que estamos diante de um poder descomunal, cuja atuação de conjunto, permanecendo totalmente desconhecida do público e de seus eventuais adversários, só pode se defrontar com resistências avulsas, esfareladas, cegas e, é claro, miseravelmente impotentes para fazer face a um desafio dessas dimensões. O tamanho do monstro e o privilégio da invisibilidade que a mídia lhe garante fazem de toda a política continental e especialmente nacional um jogo de cartas marcadas, com resultado previsto e inescapável.

Em outros países da AL, a informação circula e vai-se formando, aos poucos, alguma consciência da situação. No Brasil, fora desta coluna e de alguns sites da Internet , só o jornalista Boris Casoy tocou no assunto, fazendo ao então candidato presidencial Luís Inácio Lula da Silva uma pergunta sobre as ligações PT-FARC, a qual foi respondida com um solicitação gentil de que calasse a boca. A mídia nacional inteira atendeu e continua atendendo. Quando até mesmo profissionais soi disant preocupados com a liberdade de imprensa conservam ritualmente um silêncio obsequioso, preferindo brincar de Poliana com as virtudes róseas da democracia brasileira ou desviar as atenções dos leitores para abusos miúdos e laterais, então é que já se passou da mera “autocensura”, inibição forçada pelo medo, à cumplicidade ativa, ao colaboracionismo voluntário, à desinformação consciente.

Se, entre os jornalistas, nenhum se queixa de não poder falar do Foro de São Paulo, é porque, de fato, nenhum deseja fazê-lo. A completa ocultação do estado de coisas ao conhecimento da opinião pública não é, para eles, uma situação constrangedora, mas o exercício normal do que entendem por liberdade de imprensa: a liberdade de usar a imprensa, sem obstáculos nem contestações, como instrumento de desinformação a serviço da estratégia esquerdista de dominação continental. Dominação que, é claro, sendo exercida em parceria por eles próprios, não lhes pesa em nada e não lhes parece nem um pouco antidemocrática.

Ao longo de quatro décadas, foram preparados para isso, dessensibilizados moralmente, padronizados intelectualmente e adestrados na técnica do auto-engano em faculdades de jornalismo que não admitiam outra ciência senão a dos Bourdieus, dos Foucaults, dos Gramscis e da Escola de Frankfurt.

Renegar o pacto de cumplicidade geral, devolver à imprensa a sua missão de informar o público, está acima de suas possibilidades. Nenhum ser humano deseja a verdade, quando ela se volta contra toda a cultura que o criou e que é, para ele, a matriz mesma da sua hominidade. O instinto de autodefesa tribal exige a abdicação completa da consciência moral pessoal, oferecendo em troca um reconfortante sentimento de “participação”.

Em 11 de julho de 2004

Ciro Gomes

11 de julho de 2002 | 11 de julho de 2002

Ciro Gomes pode se tornar o grande fenômeno das eleições que se aproximam. Ele está na legenda que é a herdeira do velho “Partidão” (PPS) e é apoiado por gente que fez carreira na esquerda. Militou no PSDB, tendo chegado ao posto de ministro da Fazenda. Sua plataforma política é, portanto, de esquerda.

Ciro veio de uma família conservadora de Sobral, cidade de seu Estado de origem, o Ceará, tendo sido toda a vida discípulo e protegido de governador Tasso Jereissati, empresário e político poderoso daquele Estado. Esse histórico conservador forma um grande contra-peso ao seu presente esquerdista.

Ocupou vários cargos eletivos, entre eles o de governador do Ceará. As fontes disponíveis dão conta de que fez um bom governo e não há acusações sobre a sua lisura na condução dos negócios públicos. Tem um bom currículo administrativo.

Seu guru econômico é Mangabeira Unger,o intelectual da MIT cujas idéias parecem nascer diretamente dos debates do antigo ISEB nos anos cinqüenta. Unger é um estatista convicto, na linha da Terceira Via européia e do Partido Democrata dos EUA. Um esquerdista light, em resumo.

Tem como característica de personalidade uma certa arrogância e pavio curto que, paradoxalmente, o credenciam para ser um bom orador. Usa muito bem os recursos da televisão. Essa impetuosidade, aliada com a juventude, coloca um imponderável sobre o seu comportamento depois da sua eventual subida ao poder. Sabemos que um presidente da República nunca deve ser explosivo e deve ter como máxima virtude a paciência.

Será que ele é, de fato, de esquerda? Penso que sim, mas tem vivência o bastante e histórico também que lhe permitem aumentar o grau de realismo sobre a ação do Estado e os seus limites. Comparado com os outros dois candidatos (Lula e Serra), é o que tem perfil mais conservador. Ele alia experiência administrativa com uma origem menos mudancista. Certamente será o nome em que os conservadores descarregarão os seus votos, já no primeiro turno, se revelar reais chances de chegar lá. Muitos dos líderes dos PFL não escondem a sua preferência por ele.

Ciro vai ser uma sombra ameaçadora sobre a candidatura Serra. Se Ciro crescer nas pesquisas, as chances de Serra se tornar o desaguadouro dos votos conservadores e anti PT caem. E penso até que no segundo turno Ciro reúne as melhores condições para derrotar Lula. Os próximos dois meses serão decisivos para consolidar as tendências do eleitorado.

Ciro está vivo no jogo, para desespero dos Tucanos e a alegria dos inimigos de Serra.

Em 11 de julho de 2002

Leituras

Engenharia Da Complacencia

11 de abril de 2012 | Diário do Comércio

Indignado ante o conformismo servil com que os americanos, outrora tão apegados às liberdades civis, vão aceitando as intrusões cada vez mais agressivas do governo nas suas vidas privadas, o economista Walter Williams finalmente se deu conta de que “o movimento antifumo explica parcialmente a atual complacência americana. Os zelotes do antitabagismo começaram com exigências ‘razoáveis’, como os avisos do Ministério da Saúde nos pacotes de cigarros. Depois exigiram áreas para não-fumantes nos aviões. Encorajados pelo sucesso, exigiram a proibição total do fumo nos aviões, e depois nos aeroportos, nos restaurantes e nos locais de trabalho. Tudo em nome da saúde. Percebendo a resposta complacente dos fumantes, passaram a banir o fumo das praias, nas praças e nas calçadas das grandes cidades. Agora estão clamando por prêmios de seguro-saúde mais caros para os fumantes. Se tivessem apresentado a lista inteira de suas exigências logo no começo, não teriam conseguido nada. Usando a cruzada antifumo como modelo e vendo os americanos tão complacentes, os zelotes e candidatos a tiranos estão ampliando mais e mais a sua agenda”. O artigo completo está em http://frontpagemag.com/2012/03/16/americans-have-become-compliant .

Meus leitores e ouvintes são testemunhas de que há uma década e meia, ou mais, venho lhes explicando o óbvio: a campanha antitabagista jamais teve nada a ver com a saúde. Como era de se prever desde o início, até hoje não se verificou em parte alguma, com a patente diminuição do número de fumantes, nenhuma, rigorosamente nenhuma redução proporcional da incidência das doenças alegadamente “causadas pelo fumo”. Mas a patente ausência dos resultados prometidos, em vez de colocar em questão as premissas iniciais da campanha e moderar a retórica antifumo, como se esperaria de mentalidades soi-disant científicas, é respondida com novas cargas de exigências cada vez mais prepotentes, mais histéricas, mais invasivas. O antitabagismo, como o socialismo, vive de redobrar o blefe após cada novo desmentido das suas pretensões, transfigurando em sucesso publicitário e político o fracasso crônico das metas nominais alardeadas. Não lhe falta, para isso, uma incansável e vociferante militância espalhada pela Europa e pelas Américas, composta de uma bem subsidiada elite ativista e uma massa idiota de “verdadeiros crentes” cada vez mais fanatizados. Tão fanatizados que nem mesmo o uso repetidamente comprovado de meios de propaganda fraudulentos (como as fotos forjadas que o nosso Ministério da Saúde estampou nos maços de cigarros) os leva a duvidar, por um momento sequer, da idoneidade da campanha.

Por trás do que imaginam os crentes, o antitabagismo militante jamais teve por meta proteger a saúde de ninguém. Foi apenas um primeiro e bem sucedido experimento de engenharia comportamental em escala planetária. Foi um balão-de-ensaio, preparatório à implantação de controles cada vez mais drásticos, cada vez mais intrusivos, destinados a reduzir a população de todo o Ocidente a uma massa amorfa incapaz de reagir a qualquer imposição, por mais arbitrária, lesiva e absurda, que venha da elite globalista autoconstituída em governo mundial.

A escolha do tema foi especialmente ardilosa, visando a seduzir conservadores, evangélicos e moralistas em geral, desarmando-os preventivamente ante quaisquer campanhas subseqüentes baseadas no mesmo modelo e usando a própria força deles para sufocar na “espiral do silêncio” as poucas vozes discordantes. Uma vez que você cedeu tudo à pretensa autoridade científica dos organismos internacionais em matéria de “saúde”, fica difícil reerguer a cabeça quando essa autoridade, em seguida, estende seus domínios para as áreas da alimentação, da educação escolar, da moral sexual, da vida familiar e assim por diante. A facilidade estonteante com que a elite revolucionária instrumentalizou os seus próprios adversários mais ardorosos aparece condensada simbolicamente num detalhe cômico, ou tragicômico, que denota a fragilidade estrutural da reação anti-estatista: o uso do tabaco é rigorosamente proibido nas sedes das organizações libertarians que defendem a liberação da maconha.

Só o que me espanta é que mesmo uma inteligência privilegiada como a de Walter Williams tenha levado tanto tempo para notar que o antitabagismo, usando do ardil das exigências progressivamente ampliadas (a famosa técnica da rã na panela), impôs muito mais do que sua meta nominal de restringir o consumo de cigarros: impôs, junto com ela, uma nova autoridade, um novo esquema de poder, um novo procedimento legislativo, um novo sistema de comandos que pode ser acionado a qualquer momento, com garantias quase infalíveis de obediência automática, para espalhar entre as massas as reações padronizadas que a elite global bem deseje. O triunfo da prepotência antitabagista não trouxe nem trará jamais os anunciados efeitos benéficos para a saúde da população, mas, depois dele, a humanidade Ocidental já não será mais a mesma. A complacência ante o Estado intrusivo parece ter-se arraigado de uma vez por todas no espírito das massas, pondo um fim à era da livre discussão e inaugurando a da passividade servil e do ódio à divergência.

Em 11 de abril de 2012

Origens Do Comunismo Chique

10 de setembro de 2000 | Zero Hora

Já na década de 20, Stalin, julgando com razão que seria muito difícil controlar uma revolução do outro lado do Atlântico, decidiu que o Partido Comunista dos EUA não devia ser organizado com vistas à tomada do poder, mas à sustentação financeira e publicitária do comunismo europeu. Por isso o comunismo americano sempre se dedicou menos à organização do proletariado do que à arregimentação de milionários, artistas de Hollywood e intelectuais de renome. Para o embelezamento da imagem comunista, era importante que esses “companheiros de viagem” não se tornassem membros do Partido, mas conservassem sua figura de personalidades independentes, de modo que suas manifestações de apoio, acionadas nos momentos propícios, parecessem iniciativas pessoais e livres, ditadas pela coincidência inocente e espontânea entre os objetivos comunistas e os altos ideais de uma humanidade apolítica.

O sucesso do novo estilo, que contrastava com a imagem tradicional de austeridade proletária, fez com que fosse adotado também na Europa Ocidental, marcando toda uma época. Mais que uma época: o “glamour” do comunismo chique perpetuou um modelo pelo qual ainda se recorta o figurino da intelectualidade mundana em Nova York, invejado e imitado pela macacada letrada do Terceiro Mundo: vão a uma exposição de Sebastião Salgado e saberão do que estou falando.

Pessoas que ignoram esses fatos têm uma resistência obstinada a acreditar que efeitos tão vastos possam ter sido planejados por uma elite discreta, quase secreta. Preferem apegar-se à crença tola de que tudo acontece espontaneamente – crença que repousa na hipótese de um fluido metafísico em vez da ação concreta de homens atentos e espertos sobre homens distraídos e tolos. Mas a propagação espontânea tem, sim, algum papel. Os técnicos do Comintern, contando com a facilidade com que modas e cacoetes se espalham entre intelectuais mundanos, usavam calculadamente esse efeito e o denominavam “criação de coelhos”.

A própria elite às vezes tem simplesmente sorte. Ninguém poderia prever que o estilo do comunismo norte-americano iria sobreviver à queda de prestígio do regime soviético, perpetuando-se sob a forma da “New Left”, que nos anos 60 pôde continuar trabalhando pelo totalitarismo sem que sua bela imagem de independência fosse contaminada pelo que se passava na URSS. Mas às vezes também dá azar. Os dois principais responsáveis pela criação do comunismo chique, Karl Radek e Willi Münzenberg, terminaram mortos por ordem de Stalin, tão logo o sucesso mesmo da operação os tornou inúteis. A idéia inicial fora concebida por Radek, um dos pioneiros da Revolução Russa, e realizada sob a direção de Münzenberg, um gênio da propaganda.

Para vocês fazerem uma idéia da eficiência diabólica de Münzenberg, basta mencionar que foi ele o criador do mito Sacco e Vanzetti. Décadas depois do julgamento, demonstrada mil vezes a culpa de um e a cumplicidade de outro no assassinato de um homem desarmado que implorava por piedade, desmascarada a trama publicitária pelas confissões de membros da equipe de Münzenberg, o que ainda resta na imaginação popular é a lenda dos operários inocentes sacrificados por uma sórdida trama capitalista.

“Expert” em farsas duráveis, Münzenberg foi ainda o inventor de outros instrumentos típicos da propaganda comunista que de tempos em tempos são novamente retirados da cartola e sempre funcionam, como o “manifesto de intelectuais”, a passeata de celebridades e, “ last not least” , os julgamentos simulados, eleições simuladas, plebiscitos simulados. A CNBB, portanto, tem por quem puxar. O estilo é o homem.

Münzenberg foi também o criador daquilo a que chamava “política da retidão”. É um elemento fundamental do comunismo chique: consiste em não bater de frente na sociedade democrática, mas em parasitar o prestígio de seus ideais morais, fazendo com que “companheiros de viagem” criteriosamente selecionados posem como seus mais representativos porta-vozes. Assim o apelo a esses ideais pode ser modulado e dirigido conforme os interesses de uma estratégia que sutilmente, e como quem não quer nada, vai levando a sociedade cada vez mais longe deles e mais perto da revolução comunista. Nossas campanhas da “ética” e “contra a miséria” foram apenas a aplicação dessa técnica: nem elevaram o padrão moral da nação nem diminuíram a pobreza, mas criaram a atmosfera na qual, hoje, o treinamento de guerrilheiros é financiado por verbas do governo sem que isto suscite o menor escândalo. O espírito de Willi Münzenberg continua baixando no terreiro político brasileiro.

Em 10 de setembro de 2000

Democracia Normal E Patologica Ii

10 de outubro de 2011 | Diário do Comércio

Não é preciso dizer que situações especiais podem induzir quaisquer das duas facções maiores a inverter sua política habitual, em vista das conveniências e oportunidades. O governo petista adotando controles monetários ortodoxos para escapar a uma crise econômica, a administração Bush criando um sistema de vigilância interna quase socialista depois do 11 de setembro, são exemplos notórios. Fatos como esses bastam para demonstrar que a democracia saudável é a administração bem sucedida de um conflito insolúvel, destinado a perpetuar-se entre crises e não a produzir a vitória definitiva de uma das facções. Desde o início, a democracia tem encontrado no equilíbrio instável a regra máxima do seu bom funcionamento.

Basta compreender essas noções para perceber, de imediato, que a democracia brasileira é um doente em estado quase terminal. O jogo normal de esquerda e direita, que permite a continuidade do processo democrático e mantém os extremismos sob rédea curta, foi substituído por um sistema de controle monopolístico não só do poder estatal como da cultura e da mentalidade pública; controle tão eficiente que já não é percebido como tal, de modo que, quanto mais patológica é a situação, mais confortavelmente todos se acomodam a ela, acreditando piamente viver na mais pura normalidade democrática.

A facção que domina o governo controla também o sistema de ensino, as universidades e instituições de cultura, o meio editorial e artístico e a quase totalidade dos órgãos de mídia. A mais mínima falha nesse controle, o mais leve sinal de descontentamento, mesmo parcial e apolítico, desperta ou alarma as hostes governistas, que então se apressam a mobilizar seus militantes para o combate a “ameaças golpistas” perfeitamente inexistentes.

A facção dominante compõe-se da aliança indissolúvel entre a esquerda e a extrema esquerda, sendo esta última, então, legitimada como parte da esquerda normal, digna do respeito e da consideração dos eleitores. Tão perfeito é o controle hegemônico que essa aliança exerce sobre a sociedade, que já nem a esquerda nem muito menos a extrema esquerda têm de se apresentar francamente como tais: os eleitores tornaram-se como peixes que, jamais tendo estado fora da água, ignoram a existência de algo que não seja água e portanto não distinguem entre a água e o universo em geral. Nessas condições, está perfeitamente realizado o ideal de Antônio Gramsci, em que o Partido revolucionário desfruta “da autoridade onipresente invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”. Tão paradoxal é a situação, que os únicos que insistem em exibir sua identidade de esquerdistas, com muito orgulho disso, são justamente os membros da “oposição”, colhidos entre facções da esquerda moderada ou entre oportunistas sem ideologia nenhuma. Uns e outros têm com o governo divergências pontuais e, é claro, disputa de cargos. Nada mais.

Nesse panorama, a ostensiva colaboração política do partido governante com organizações terroristas, por sua vez associadas a gangues de criminosos locais, é incapaz de provocar qualquer escândalo, pelo simples fato de que não se conseguiu provar nenhuma ajuda financeira vinda dos bandidos aos políticos de esquerda. Isto é, só se concebe uma aliança criminosa sob a forma do financiamento ilegal, da “corrupção” no sentido mais genérico e apolítico do termo. A articulação de partidos legais com organizações criminosas para fins de vantagem política mútua não é, em si, considerada um crime ou motivo de alarma. O “direito” à conquista do poder absoluto por quaisquer meios possíveis e imagináveis é aceito como um procedimento democrático normal, desde que não envolva “corrupção”.

Nesse quadro, a direita, como tal, não existe mais. Os ideais que a caracterizavam são cada vez mais criminalizados como extremismo, espalhando entre os políticos o medo de encarná-los em público por um instante sequer, para não ser tachados de golpistas, racistas, nazistas, o diabo.

A anormalidade da situação não deixa de ser percebida pela própria esquerda dominante que, na ausência de uma oposição direitista, tem de inventar uma, toda composta de ficções e de figuras de linguagem, para dar a impressão de que está lutando contra alguma coisa. Essa necessidade é tanto mais premente porque a esquerda brasileira forjou sua reputação explorando o papel de “minoria perseguida” adquirido no tempo dos militares, e sente a necessidade de continuar a representá-lo em público quando já não há mais ninguém que a persiga e, ao contrário, só ela dispõe dos meios de perseguir. A “ameaça direitista” é construída, então, mediante os seguintes expedientes:

1. Explorar, com renitência obsessiva, a recordação dos feitos malignos do regime militar, ampliados até à demência, de tal modo que trezentos terroristas mortos assumam as proporções de um genocídio mais vasto que a matança de cem mil cubanos, dois milhões de cambojanos, quarenta milhões de cidadãos soviéticos e setenta milhões de chineses. O fato de que aqueles terroristas fossem, em maior ou menor medida, todos colaboradores do genocídio comunista é descontado como se fosse um nada, e os personagens são transfigurados em heróis da democracia. A menor tentativa de recolocar os fatos nas suas devidas proporções é rejeitada, inclusive nas universidades, como um sinal ameaçador de golpismo iminente. Se isso não é uma psicose, toda a ciência da psicopatologia está errada.

2. Como não é possível, ao mesmo tempo, manter a população sob o temor de um golpe iminente e continuar exibindo como única prova desse risco acontecimentos de meio século atrás, o establishment de esquerda e extrema esquerda tem de produzir constantemente novos indícios da existência e periculosidade de uma direita que ele mesmo conseguiu eliminar por completo. Um dos recursos usados para esse fim é dar ares de feroz oposição ideológica direitista a qualquer hostilidade pontual e mínima que surja nas hostes da esquerda moderada, que constitui a quase totalidade da oposição presente. Quando um social-democrata tucano aponta um sinal de ineficiência administrativa ou de corrupção no governo, logo aparece algum Paulo Henrique Amorim bem pago para denunciar aí o golpe de direita que, é claro, se prepara a olhos vistos. A única reação dos acusados, em geral, é exibir sua certidão de bons serviços prestados à esquerda, para eliminar suspeitas.

3. O mais extremo dos expedientes é apontar indivíduos isolados ou grupos minoritários de dimensões irrisórias como se fossem forças ameaçadoras que se levantam no horizonte, ameaçando esmagar a esquerda nas eleições ou fuzilar todos os comunistas. Organizações ridiculamente pequenas, de trinta ou quarenta membros, sem financiamento ou qualquer suporte político, são aí tratadas como militâncias multitudinárias, capazes de assombrar as noites dos governantes acuados. Vozes solitárias, amputadas de qualquer possibilidade de ação política não só pela completa falta de recursos como também pelas divergências insanáveis que as isolam umas das outras, são tratadas como se constituíssem um bloco único e temível, a “direita” ressurgente, pronta, como em 1964, para dar um golpe e anular maldosamente todas as ”conquistas populares”. Não é preciso dizer que, nessas circunstâncias, grupos ultraminoritários de extrema direita, como a Resistência Nacionalista, inflados pela propaganda negativa que recebem da esquerda, passam a se sentir mais importantes do que são e vislumbram, excitados, as mais belas oportunidades de futuro, sem perceber que elas, tanto quanto eles próprios, só têm a existência fantasmal das sombras de um delírio. Como a existência de uma direita é um requisito estrutural da normalidade democrática, sua supressão faz com que as formas patológicas de direitismo se sintam chamadas à missão sagrada de recolocar as coisas em seus lugares, como se sua própria existência não fosse baseada na desordem. Também não é de espantar que o medo auto-alimentado que viceja na alma da esquerda a leve a não contentar-se com o combate verbal mas, num paroxismo de temor paranóico, a tomar medidas práticas para defender-se de adversários microscópicos, tomando coelhos por leões e julgando que privar um Júlio Severo dos meios de sustentar sua mulher e filhos é um feito heróico, uma vitória espetacular contra a ameaça reacionária rediviva. Também não é de estranhar que os descalabros cometidos nessa luta contra fantasmas acabem produzindo no povo alguma hostilidade real contra o governo, extravasando em movimentos repentinos e sem nenhum conteúdo político-ideológico substantivo, como a Marcha para Jesus ou a Marcha Contra a Corrupção, e fazendo com que a esquerda creia ter encontrado – por fim! – a prova da realidade de seus piores pesadelos, sem notar que ela própria os produziu por excesso de precaução louca.

A coexistência pacífica das instituições democráticas formais com a total supressão da concorrência ideológica que define as democracias saudáveis, eis precisamente o que caracteriza a situação brasileira atual. É um quadro nitidamente psicótico, onde tudo é mentira, fingimento e pose. A farsa existencial com que a esquerda governante inventa inimigos para camuflar seu controle hegemônico tornou-se a norma e padrão para o país inteiro, invadindo as consciências e expelindo cada pensamento para longe da realidade. Quem quer que, num momento de sanidade, ouse enxergar as coisas como são, sente-se imediatamente aterrorizado, ansioso para mergulhar de novo no oceano turvo de alucinações que assumiu o nome de “normalidade”.

Em 10 de outubro de 2011

O Chuchu Que Virou Pepino

10 de outubro de 2006 | Diário do Comércio

Começo por chamar a atenção dos leitores para a seguinte nota publicada na coluna de Mônica Bérgamo ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0410200609.htm ) “De um dos parlamentares mais bem votados do PT em jantar com empresários, anteontem: ‘Vamos ser claros. Existia um acordo entre nós [PT] e o PSDB: o próximo governo era nosso, do Lula. O de 2010 seria do José Serra ou do Aécio Neves, sem problemas. Com a vitória do Alckmin, esse acordo será rompido. E o Alckmin vai ter derrotado o Serra, o Aécio, o Fernando Henrique Cardoso, o Lula, todo mundo.’ A platéia ouvia, algo perplexa. O parlamentar continuou: ‘O Alckmin, se eleito, não vai governar. O PT não vai dar trégua no Congresso. A CUT, o MST, os movimentos sociais, não vão dar trégua nas ruas.’ A perplexidade só aumentou. No mesmo jantar foi dito que o PT está preparado para uma má notícia nas próximas pesquisas: a de que Alckmin tenha empatado ou até superado o presidente Lula nas intenções de votos. ‘Mas o PT vai para as ruas’, disse o parlamentar.”

Se a informação é veraz (e confesso que sinto dificuldade em contestá-la), ela significa que:

1) Os dois partidos fingem enfrentar-se em público, quando em segredo já dividiram o bolo do poder. Isso seria a maior fraude eleitoral de todos os tempos.

2) O acordo criminoso tem autoridade superior à decisão do eleitorado, que pode ser revogada à força caso venha a se desviar do que ele determina. Isso seria mais que uma ameaça de golpe. Seria a confissão de que o golpe já está armado.

A informação pode parecer chocante demais para ser verdadeira, mas, no país do Mensalão, do dinheiro na cueca, dos 50 mil homicídios por ano, das testemunhas judiciais assassinadas em série e dos narcotraficantes recebidos como hóspedes oficiais de um governador de Estado, a diferença entre o chocante e o banal se tornou um detalhe filológico sem maior interesse.

A notícia, aliás, tem antecedentes, e bastante numerosos.

Tempos atrás, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o então teórico petista Cristovam Buarque reconheceram, numa declaração conjunta, que seus respectivos partidos não tinham nenhuma divergência no que diz respeito a ideologia e metas; que a única disputa ali existente era de cargos. Em qualquer país decente, essas duas belezinhas teriam sido imediatamente aposentadas da atividade política. No Brasil, receberam mimos e afagos como se tivessem acabado de recitar “Batatinha quando nasce”. Já naquela época ninguém se escandalizava ante a confissão de que a mais vistosa disputa em cartaz no circo político nacional era uma farsa. A identidade de política e farsa parecia, ao contrário, uma lei da natureza. Por que deveríamos então surpreender-nos com sua confirmação tardia?

A suspeita explícita de algum acordo secreto remonta pelo menos à declaração de Fernando Henrique, feita ao candidato Lula poucos dias antes da eleição de 2002: “Você sabe que esta cadeira é sua.” Por que o presidente, em vez de ajudar o seu candidato nominal, apostava tudo no cavalo do adversário? Não sei, mas o fato é que, eleito para deter o avanço da extrema esquerda, Fernando Henrique havia tratado é de favorecê-lo por todos os meios, alimentando o MST com as verbas federais que o transmutaram de grupelho folclórico em temível organização de massas, desmoralizando e demolindo as Forças Armadas, institucionalizando o assalto revanchista aos cofres do Estado e oficializando a doutrinação politicamente correta nas escolas. Não é de espantar que a direita militar tenha acabado por nutrir mais ódio aos tucanos do que aos petistas, oferecendo a estes o seu apoio eleitoral em 2002. Nada no mundo me convencerá de que tudo isso foram resultados imprevistos de erros inocentes, cometidos com a mais pura intenção de sepultar o comunismo sob as glórias de uma democracia capitalista. No instante mesmo em que os cometia, Fernando Henrique gabava-se de ser melhor conhecedor da estratégia revolucionária gramsciana do que seus concorrentes petistas. E era mesmo. Mas, nesse sentido, seus erros não foram erros. foram uma espertíssima política de esquerda camuflada como política direitista sonsa. Todos os aparentes paradoxos do governo Fernando Henrique se resolvem quando os encaramos sob esse prisma. Inclusive as famosas privatizações, conduzidas com espírito premeditadamente clientelista que as inutilizou como instrumentos de higiene administrativa e comprometeu para sempre a imagem do “liberalismo” aos olhos do eleitorado, dando um poderoso reforço ao discurso estatista da esquerda – resultado óbvio que um cientista político habilitado como Fernando Henrique jamais teria podido deixar de prever, e do qual, aliás, tirou ainda um belo proveito secundário, o enriquecimento de seus amigos.

A existência da parceria oculta entre as duas agremiações pareceu confirmada por um sinal indireto nas eleições de 2002, quando o candidato José Serra, alimentado de informações sobre o Foro de São Paulo capazes de fazer em cacos o prestígio do oponente, se recusou a divulgá-las, preferindo antes ser usado como sparring para o maior sucesso do adversário e tornando-se, por omissão, cúmplice dos crimes inumeráveis cometidos por aquela organização subversiva.

O mesmo silêncio é observado agora pelo sr. Geraldo Alckmin, cuja imagem de conservador e católico só engana a quem desconheça a contribuição dada por ele ao avanço da ditadura politicamente correta entre nós, mediante um decreto abominável que proíbe padres, pastores ou rabinos de vetarem o ingresso de homens vestidos de mulheres nos seus templos, como se cultos religiosos fossem bailes do Scala Gay.

Como se isso não bastasse, o candidato ainda sai proclamando que Lula está à sua direita, dando assim um formidável impulso a que a identificação do esquerdismo com a vontade de Deus se arraigue um pouco mais na imaginação popular, e confessando que, à imagem do seu antecessor de 2002, não enfrenta o oponente como a direita enfrenta a esquerda, mas apenas concorre com ele num campeonato de esquerdismo. Se é verdade que o contrato secreto sugerido na notícia da Folha não compromete o PSDB inteiro, mas apenas alguns grupos dentro dele, é claro que entre a facção de Alckmin e o grupo Serra-Aécio-FHC a divergência também não é ideológica, mas mera disputa de poder, reproduzindo em miniatura, na escala tucana, a concorrência entre PSDB e PT.

Ambos esses partidos, no fim das contas, vêm da mesma origem social e cultural. Nasceram do mesmo grupo uspiano intoxicado de marxismo, cujos membros menos ortodoxos, mesmo após a queda da URSS, não abdicaram em nada de seu compromisso materialista e esquerdista, no máximo consentindo numa modernização cosmética, da qual não resultou nenhuma tomada de posição efetiva contra as ditaduras comunistas e nem sequer o despertar de algum interesse, por mínimo que fosse, pelo pensamento da “direita”. Fernando Henrique, Serra, Gianotti e tutti quanti continuam tão ignorantes do conservadorismo anglo-saxônico ou da economia austríaca quanto o eram na década de 60. Que sentido faz, então, rotulá-los de “direitistas”? Como podem esses indivíduos representar, mesmo de longe, uma corrente de idéias pela qual não têm sequer um interesse teórico, um interesse intelectual, um interesse de meros leitores? O cientista Bolívar Lamounier voltou a insistir recentemente, e é o milésimo a dizê-lo: “O PSDB é uma organização de centro-esquerda.” Fazer dos líderes tucanos a encarnação da direita nacional é evidentemente uma fraude. Se perguntarmos a quem beneficia essa fraude, a resposta é óbvia: beneficia por igual aos tucanos e petistas, ajudando-os a dividir o espaço inteiro da política nacional entre a “esquerda” e a “direita da esquerda”, deslocando para o mundo do não-ser todas as forças que poderiam legitimamente reivindicar, em graus variados, o título de direitistas, conservadoras ou liberais. Tenho explicado isso desde o ano de 2000 pelo menos (V.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/paulada.htm , http://www.olavodecarvalho.org/semana/dirdaesq.htm e http://www.olavodecarvalho.org/semana/berlim.htm ), e não vejo por que continuar repetindo o óbvio.

Quem disse que em briga de marido e mulher não se mete a colher tinha em vista precisamente o fato de que, por trás dos bate-bocas domésticos restando sempre um fundo de amor secreto, qualquer veleidade de tomar partido de um dos lados acabará fortalecendo a união dos cônjuges em prejuízo do intrometido. Duas forças que se acharam espertas o bastante para usar o PSDB contra o PT ou vice-versa saíram quebradas e desmoralizadas dessa tentativa supremamente idiota. A primeira foi o PFL. Pouco restou dele depois da aliança com FHC, e agora está mais fraco ainda depois do esfarelamento político de Antonio Carlos Magalhães, um fenômeno que previ como inevitável mais de três anos atrás. A segunda foi a vasta parcela de oficiais das Forças Armadas, que, em 2002, no empenho de vingar-se dos tucanos que tanto haviam humilhado suas corporações, votaram maciçamente no PT acreditando poder servir-se dele e jogá-lo fora. Foram eles os usados e jogados, exatamente como anunciei que seriam.

Onde erraram? Erraram, primeiro, pela mania brasileira de tentar resolver tudo com manhas sorrateiras em vez de coragem e franqueza. Napoleão ensinava: entre a esperteza e a força, a força sempre vence. O corolário é incontornável: se você não tem força, adquira-a. Essa é a única esperteza que vale. Um único ato de coragem multiplica a força por mil. E nada enfraquece mais do que tentar usar a esperteza como substitutivo da coragem. Com mais alguns passos nessa direção, a Frente Liberal se tornará a entrada dos fundos do esquerdismo. E as Forças Armadas se tornarão Fraquezas Desarmadas.

Erraram, também, por subestimar a unidade profunda da esquerda nacional, unidade forjada na luta precisamente contra a elite pefelista e as Forças Armadas. Civil ou militar, o sujeito precisa ser muito besta para achar que de repente, em troca de dois ou três agradinhos, esquerdistas históricos vão romper lealdades de quatro décadas para se tornar amigos de seus inimigos de ontem. Mesmo se não existisse a aliança formal a que se refere a colunista da Folha , restaria o espírito de solidariedade revolucionária, uma força psicológica tremenda. Um comunista pode retalhar ou assar vivo outro comunista. Mas jamais permitirá que um estranho, um reacionário, o faça em lugar dele. Entre comunistas, as divergências são políticas ou estratégicas. Entre os comunistas e o resto, a diferença é um abismo ontológico intransponível. Notem o ar de infinita superioridade com que eles se referem a vocês, e verão que nesses ambientes vocês jamais terão sequer o estatuto de seres humanos enquanto não se converterem ao esquerdismo. Para o comunista, só há amigos e inimigos – e nesta última classificação entram os aliados oportunistas como o PFL e os oficiais “nacionalistas”.

Há também o fato de que bater com duas mãos, articulando a “pressão de cima” com a “pressão de baixo” como se viessem de fontes separadas e inconexas, é a mais velha e sólida tradição estratégica do esquerdismo internacional – uma tradição que dificilmente seria desconhecida por homens muito versados em marxismo e em praticamente mais nada.

Por fim, é evidente que nem PT nem PSDB são organizações nacionais independentes, criadoras de suas próprias idéias. Ambos são instrumentos passivos de estratégias globais que seus dirigentes nem mesmo enxergam com clareza, pois não têm QI para isso, e às quais servem com o deslumbramento de caipiras para quem um sorrisinho da mídia novaiorquina ou uns aplausos de ocasião na Assembléia Geral da ONU representam a culminação suprema da existência humana. Para os criadores da política mundial, os planejadores estratégicos da Nova Ordem Mundial, articular um partido de esquerda com um de centro-esquerda em mais um país de tagarelas semiletrados no Terceiro Mundo, depois de tantos onde isso se fez com sucesso desde a primeira década do século XX, não é certamente o grande desafio de suas vidas.

Em face desses antecedentes, a noticia dada por Mônica Bérgamo faz tanto sentido que negar sua veracidade in limine , como o faz indignado o meu caro Reinaldo Azevedo, só se explica como natural reação do homem honesto ante o temor de que sua última esperança de restaurar a ordem moral se transfigure na mais intolerável das decepções. Quando a derradeira tábua de salvação começa a nadar como um crocodilo, mostrar dentes de crocodilo e agitar o rabo como um crocodilo, o cérebro humano tende a apegar-se à idéia reconfortante de que as árvores às vezes assumem estranhas formas animais. Mas a situação do Brasil se tornou tão ameaçadora, que recuar ante as hipóteses escabrosas pode ser um meio de apressar a sua realização. Os piores instintos humanos assumem o comando justamente quando rejeitados para a escuridão do inconsciente. É melhor, pois, levar a hipótese a sério, e começar a investigá-la.

Licoes De Mauro Iasi

10 de novembro de 2015 | Diário do Comércio

Como o rótulo de “intelectual de esquerda” já esteve associado a escritores do porte de um Álvaro Lins e de um Sérgio Milliet, é bom advertir que, usado hoje em dia, ele só guarda com o seu objeto a relação distante de um ser vivo com a sua miniatura de plástico.

Nesse sentido, o sr. Mauro Luís Iasi corresponde aproximadamente àquilo que, nos meios comunopetistas, se entende por esse termo na atualidade.

Não lhe faltam, com efeito, os traços essenciais que definem o tipo: um cargo acadêmico, o total desconhecimento dos assuntos em que pontifica e a presunção de superioridade moral, quando não intelectual.

Até pouco tempo atrás, ele não passava de um objeto de consumo interno dos círculos esquerdistas, mas recentemente alcançou notoriedade mais ampla, não mediante algum feito literário ou científico, mas graças à sua proposta singela de matar todos os direitistas.

Como alguns deles lhe respondessem que seria melhor aplicar esse remédio a ele mesmo, ele imediatamente considerou isso uma prova a mais da típica truculência direitista em confronto com o arraigado pacifismo humanista da esquerda, sem nem sequer ponderar a diferença entre os coeficientes de truculência requeridos para matar um só e para matar todos.

Com aqueles ares de inocência ofendida sem os quais é muito difícil subir na vida hoje em dia, ele explicou ainda que foi muitíssimo mal interpretado, que seu desejo de matar não era nada disso, mas uma simples metáfora poética extraída de um texto de Bertolt Brecht, no qual um proletário enragé, discutindo com um burguês, demonstra que matá-lo é apenas uma questão de justiça.

“Para aqueles que não são muito afeitos a poemas e outras manifestações da alma humana, — escreve o sr. Iasi, com infinita piedade pelos pobres ignorantes — é bom explicar que não se trata de uma pessoa e outra conversando, muito menos uma posição pessoal. É uma metáfora de um encontro de classes numa situação dramática, na qual a classe dominante se encontra diante da possibilidade de ser julgada por aqueles que sempre explorou e dominou.”

O estilo é o homem. Desde logo, no trecho citado o que o proletário sugere não é apenas “julgar” a burguesia, isto é, emitir uma opinião sobre ela, mas sim executá-la, mandá-la para o outro mundo. A versão eufemística do sr. Iasi não consegue camuflar o sentido patente do texto. Diante do burguês que se afirma um homem bom e justo, o revolucionário promete:

“Em consideração aos seus méritos e boas qualidades, poremos você diante de um bom muro, atiraremos em você com uma boa bala de um bom revólver e enterraremos você com uma boa pá numa boa terra.”

ASSISTA AQUI:

O revolucionário promete não apenas matar o burguês, mas humilhá-lo post mortem fazendo chacota do seu cadáver. O sr. Iasi confessa que conheceu o poema de Brecht só pela citação que encontrou num livro de Slavoj Zizek, mas quem leu as obras do dramaturgo sabe que esse tipo de humorismo sardônico voltado contra as vítimas da violência estatal comunista era um dos traços mais característicos do estilo brechtiano de escrever e de ser. Brecht não só aplaudiu entusiasticamente as tropas soviéticas que afogaram num banho de sangue a rebelião popular berlinense de 1953, mas, quando alguém alegou que os condenados nos famosos Processos de Moscou eram inocentes, ele respondeu: “Se eram inocentes, tanto mais mereciam ser fuzilados.”

A ironia macabra não era força de expressão. Para a mentalidade comunista, a culpa ou inocência pessoais do acusado eram, de fato, detalhes menores em comparação com a oportunidade áurea de afirmar, mediante a prepotência da execução arbitrária, a autoridade suprema da Revolução, que não devia satisfações a ninguém senão a si mesma.

A metáfora, se o fosse, não era muito metafórica. Citar Brecht no contexto de um apelo à radicalização da luta esquerdista não é de maneira alguma um adorno literário inocente: é sugerir que os comunistas façam aquilo que Brecht os ensinava a fazer e que aliás eles sempre fizeram.

Mas, para piorar um pouco as coisas, não é uma metáfora. Metáfora é quando uma coisa significa outra coisa, por exemplo o leão significa o Sol ou o Sol significa o rei. Entre o signo e o significado há uma diferença de espécie. Quando o sr. Iasi explica que “não se trata de uma pessoa e outra conversando, muito menos uma posição pessoal” e sim de “uma metáfora de um encontro de classes numa situação dramática”, ele só prova que não sabe o que é metáfora.

Na figura de linguagem que ele emprega, o proletário e o burguês não significam coisas de outras espécies, mas sim as espécies respectivas a que eles realmente pertencem: o proletário significa o proletariado, o burguês a burguesia. Isso não é uma metáfora de maneira alguma, é uma metonímia – não uma relação analógica entre coisas especificamente distintas, mas a relação lógica entre a parte e o todo. O sentido do trecho citado não é portanto o de uma ameaça de homicídio, mas de genocídio: não é este proletário que deve matar este burguês em particular, mas o proletariado como um todo que deve exterminar a burguesia inteira.

Já é uma palhaçada deprimente que um sujeito que ignora a distinção elementar entre metáfora e metonímia pose de grande conhecedor da literatura e se dirija aos seus leitores como a um bando de iletrados que “não são muito afeitos a poemas”. Porém mais grotesco ainda é que, ao tentar dar à sua convocação truculenta os ares inofensivos de uma “metáfora poética”, ele não percebesse que, com a ajuda de Brecht, estava confessando seu desejo de saltar da escala do homicídio para a do genocídio.

Difamacao Pura

10 de novembro de 2013 | Diário do Comércio

Meu artigo “Nem um pouquinho” veio com um erro: o colunista Rodrigo Constantino não entrou na Folha, mas no Globo e na Veja. Quem foi para a Folha junto com o Reinaldo Azevedo foi o Demétrio Magnoli. Qualquer que seja o caso, a observação que fiz sobre as reações indignadas dos mandarins da esquerda foi exata, apenas incompleta. Esqueci de enfatizar que essas reações não se voltavam contra isto ou aquilo que os articulistas tivessem escrito, mas contra a sua simples presença na mídia. Não se tratava de refutar opiniões, mas de cortar cabeças.

Também deixei de observar que os apelos à guilhotina não vieram todos de fora, mas alguns apareceram nos próprios jornais onde os novos colunistas estreavam. Nunca, nunca, em toda a história da mídia brasileira, se viu uma pressão coletiva de jornalistas pela expulsão de algum colega socialista ou comunista da redação de qualquer jornal, estação de rádio ou canal de TV.

A solidariedade de classe entre os jornalistas brasileiros é só para os comunistas e seus companheiros de viagem. Até os direitistas correm para protegê-los, como se viu tantas vezes no tempo dos militares. Mas o infeliz liberal ou conservador, pego em flagrante delito de escrever artigos para a grande mídia, não tem perdão. É abandonado até pelos seus correligionários.

É verdade que os jornalistas da direita vêm ganhando algum espaço, mas no Brasil a esquerda está tão acostumada a mandar sozinha na mídia, que se escandaliza e espuma de raiva com isso. Em qualquer país decente, a direita e a esquerda repartem mais ou menos equitativamente os meios de difusão. No Brasil, quando a direita salta dos dois por cento para os cinco por cento, já é o alarma geral, em tons sinistros de quem anuncia um golpe de Estado. Um dos indignados, o indefectível Paulo Moreira Leite, mente como um vendedor de terrenos submarinos ao dizer: “Quem estava no centro foi para a direita. Quem estava à direita foi para a extrema-direita.” Constantino, Azevedo e Magnoli, desde que estrearam como colunistas, não mudaram de convicções em absolutamente nada. Foram os censores esquerdistas, como o próprio Moreira Leite, que, estreitando cada vez mais a área do direitismo permitido na mídia, passaram a rotular simples liberais de “extremistas de direita”, tentando criminalizá-los. Moreira Leite confunde maquiavelicamente a régua com o objeto medido.

Mais obsceno ainda é Antonio Prata, da própria Folha, que, imaginando fazer sátira, escreve: “Como todos sabem, vivemos num totalitarismo de esquerda. A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara” – uma descrição bem exata e literal do estado de coisas. Tanto que vários leitores levaram a afirmativa a sério e a aplaudiram. O autor teve de avisar, “ex post facto”, que pretendera fazer piada. No meu tempo de ginásio, quem quer que ignorasse que não se satiriza a verdade tiraria zero de redação. Mas, para expulsar os liberais e conservadores da mídia, vale até um colunista se expor ao ridículo. Tudo pela causa.

Voltando ao sr. Moreira Leite, sei que é inútil tentar levar alguém como ele a um debate sério, mas, para dar aos leitores uma idéia de quanto o uso atual do rótulo de “extrema direita” na mídia é abusivo, notem esta distinção, que toda a ciência política do mundo confirma: a diferença de esquerda e extrema esquerda é de graus e de meios, a de direita e extrema direita é de natureza, de fins e de valores.

O esquerdista torna-se extremista quando quer realizar, por meios revolucionários e violentos, o mesmo que a esquerda moderada busca fazer devagar e pacificamente: a expansão do controle estatal na economia, visando à debilitação e, no fim, à extinção da propriedade privada dos meios de produção.

Totalmente diversa é a relação entre direita e extrema direita. Ser de direita, ou liberal, é ser a favor da economia de mercado, das liberdades civis e da democracia constitucional (a versão conservadora defende essas mesmísimas políticas, mas o faz em nome da tradição judaico-cristã, que para o liberal não significa grande coisa). Se por extrema direita se entende aquilo que o vocabulário corrente e a esquerda em especial designam por esse nome, isto é, o fascismo e o nazismo, o fato que estou assinalando salta aos olhos da maneira mais clara e inequívoca: ser de extrema direita não é querer mais economia de mercado, mais liberdades civis, mais democracia constitucional — é querer acabar com essas três coisas em nome da ordem, da disciplina, da autoridade do Estado, às vezes em nome do anticomunismo, do combate à criminalidade ou de qualquer outro motivo. Não houve um só governo conhecido como de extrema direita que não fizesse exatamente isso. A conclusão é óbvia: passar da esquerda à extrema esquerda é somente uma intensificação de grau na busca de fins e valores que permanecem idênticos em essência. Passar da direita à “extrema direita” é mudar de fins e valores, é renegar o que se acreditava e, em nome de alguma urgência real ou fictícia, empunhar a bandeira do que se odiava, se desprezava e se temia. Constantino, Azevedo, Magnoli não fizeram isso. São odiados precisamente porque defendem o que sempre defenderam. Por isso o único meio de difamá-los é trocá-los de classificação, alistá-los à força no exército dos seus inimigos, identificá-los com tudo o que abominam e combatem.

Eis aí por que uma frase como a do sr. Paulo Moreira Leite – “passaram da direita à extrema direita” – é um expediente difamatório apenas, não uma afirmação séria, pensada, digna de um intelecto respeitável.

Em 10 de novembro de 2013

Cabecas

10 de novembro de 2001 | O Globo

Por menos que se queira diabolizar o comunismo, um ponto em comum entre ele e o diabo é uma realidade inegável: ambos fazem menos dano a seus inimigos do que a seus amigos. Todos os regimes de direita, somados, mataram menos comunistas do que Stalin ou Mao individualmente, e em parte alguma da América Latina se fuzilaram tantos revolucionários de esquerda quanto em Cuba: dos veteranos de Sierra Maestra só sobraram praticamente Fidel e seu irmãozinho Raul.

Esse dado é bem conhecido, mas raramente se extrai dele a mais óbvia das conclusões: tentar aplacar a fúria comunista com agrados, lisonjas e propinas é infinitamente mais perigoso do que combatê-la de frente. Juro, amigos: eu, que não passo um dia sem cuspir nos ícones da esquerda, corro menos risco, na hipótese da ascensão dos comunistas ao poder, do que aquele que tente seduzi-los com sorrisos forçados, presentinhos extorquidos e beijocas insossas de garotinha assustada. De mim eles têm raiva e medo. Daquele, não têm senão desprezo — o desprezo do estuprador que, ao gozar no corpo da vítima, já entrevê o corpo dela morto e jogado aos urubus.

Penso nisso ao contrastar a imagem de feras domesticadas, mansas e bondosas que os jornalistas de esquerda têm neste país, com os urros de ódio à “imprensa burguesa” que eles deram ainda há pouco no “Congreso de Periodistas Lationoamericanos y Caribeños”, realizado em Havana entre 8 e 11 de outubro sob o lema “Un nuevo periodismo”. Urros de ódio que não ficaram nisso, mas foram seguidos por juras de morte e planos muito bem definidos para executá-las num prazo que surpreenderá, pela rapidez, cada empresário auto-satisfeito que se gabe de ter domado seus comunistas de estimação à força de cheques, afagos e promoções.

Jornalistas de 29 países — inclusive o nosso — participaram do encontro, que, preparatório ao Fórum Mundial de Educação anunciado para o ano que vem no Rio Grande do Sul, teve o apoio da prefeitura de Porto Alegre e foi abrilhantado por um lindo discurso do sr. Fidel Castro — aquele mesmo Fidel Castro que, na sua última visita ao Brasil, foi cortejado até o limite da obscenidade pela burguesia local.

Das teses aplaudidas pelo simpósio, publicadas pelo jornal chileno “El Siglo” de 26 de outubro, três são especialmente interessantes:

Primeira: o jornalismo da América Latina ainda “não está à altura das lutas travadas pelo povo da região”.

“À altura”? Todos os cargos conquistados, todas as páginas concedidas, sem réplica, ao assassinato moral de anticomunistas, toda a amoldagem do vocabulário aos cânones politicamente corretos, todo o ataque maciço à moralidade religiosa tradicional, toda a eliminação de qualquer anticomunismo explícito, toda a supressão de notícias inconvenientes ao renascimento do comunismo, toda a progressiva e implacável redução do espaço dos liberais e conservadores que não consintam em ater-se a inócuas objeções econômico-administrativas, toda a glamurização idolátrica de artistas e intelectuais militantes, tudo isso — toda a hegemonia gramsciana, em resumo — não basta. Os comunistas exigem mais. Precisamente, que mais? Leia a segunda tese.

Segunda: é preciso “romper o bloqueio informativo estabelecido pelas grandes cadeias de imprensa” em torno do regime cubano; desencadear, como resumiu Fidel, “la batalla de la verdad contra la mentira”.

Pelo menos no Brasil, o único bloqueio vigente é o de notícias contra Cuba. Há 30 anos não leio em nossos jornais uma única menção aos prisioneiros políticos em Havana, às armas bacteriológicas desenvolvidas no laboratório de “La Fabriquita”, às ligações entre o governo cubano e o narcotráfico, aos intermináveis fuzilamentos de fugitivos, aos últimos livros proibidos, à nova tabela de preços das “gineteras” (um sanduíche, um maço de cigarros), à eficácia invejável de um Estado policial que tem um olheiro para cada 28 habitantes. Em contrapartida, lêem-se toda semana imprecações contra o bloqueio econômico americano, homenagens chorosas à memória do Che, recordações nostálgicas de nossos velhos terroristas em Havana, notícias de prêmios, cargos, desagravos e indenizações concedidos a assassinos profissionais treinados em Cuba.

Mas tudo isso ainda “não está à altura”. E tudo o que não esteja à altura da expectativa de Fidel — é bloqueio. A que altura se pretende chegar na luta pela sua remoção, eis o que se torna explícito na terceira tese.

Terceira: destruir a liberdade de imprensa “burguesa” defendida pela SIP, Sociedade Interamericana de Imprensa, e implantar no continente a verdadeira liberdade de imprensa, tal como existe... em Cuba! Sim, a liberdade de imprensa que conhecemos é apenas a liberdade “de um grupo de indivíduos poderosos”. Liberdade efetiva, completo direito à informação, só em Cuba.

Como funciona esse direito à informação, todos sabemos. Cabrera Infante deu-nos uma descrição dele em “Mea Cuba”. Todas as editoras são do Estado. Para publicar o que quer que seja em livros ou periódicos o sujeito tem de se inscrever num sindicato que, ao primeiro desvio da política oficial, cassa o seu registro. Aí o ex-jornalista vai procurar emprego, mas é proibido dar emprego a quem tenha sido expulso de um sindicato. Ele pode pedir ajuda aos amigos, mas dificilmente eles vão dar, porque é crime ajudar um inimigo do Estado. Restaria a mendicância, se também não fosse proibida, ou o exílio, se sair de Cuba não fosse mais proibido ainda. Mas, se o sujeito sobreviver aos tiros da polícia marítima e escapar incólume aos dentes dos tubarões no mar do Caribe, a bordo de um pneu, poderá talvez arranjar emprego em algum jornal de exilados em Miami. E aí tudo o que ele escreva sobre o que passou em Cuba será impugnado pelo mundo afora — sobretudo no Brasil — como sórdida propaganda emanada da “máfia cubana”.

Tal é o tipo de liberdade que os 300 jornalistas signatários da declaração final do congresso desejam para nós.

Se, diante disso, ainda há quem ache que a ânsia de poder dos comunistas pode ser aplacada mediante promoções e afagos ou mediante o sacrifício ritual de algum reacionário sobrevivente, pense nisso: nenhuma ambição pode ser mais forte que a de tornar-se um “transformador do mundo”. Quem, sonhando com poderes demiúrgicos, há de se contentar com um emprego na mídia? Não há emprego, não há lisonja, não há amizade que possa desviar de seu objetivo a casta de intelectuais ativistas que aspira a moldar a Humanidade, como Deus, à sua imagem e semelhança.

Ainda Ha Tempo

10 de maio de 2007 | Jornal do Brasil

Uma notícia do UOL, traduzida do El País , informa que o governo da Polônia planeja derrubar os monumentos construídos no território polonês pela URSS, “ incluindo os dedicados aos soldados do Exército Vermelho que libertaram a Polônia dos nazistas”. O preconceito pró-comunista embutido no texto não poderia ser mais visível. Os soviéticos jamais libertaram a Polônia; eles a invadiram – e invadiram duas vezes: uma em parceria com os nazistas, no começo da guerra, outra contra eles, no fim. A ocupação soviética, ali como em toda a Europa Oriental, não foi nem um pouco menos cruel que a nazista. Enquanto os EUA ajudavam os países derrotados a tornar-se potências econômicas independentes, a URSS só espalhava terror e miséria nas nações que tomou dos alemães. Desde que tive a grata ocasião de caminhar sobre a estátua de Lenin jogada num depósito de lixo em Bucareste, tenho pensado no seguinte: Não só os monumentos erigidos à glória do comunismo têm de ser demolidos, mas todos os que colaboraram para a construção da mais vasta monstruosidade política de todos os tempos devem ser tratados como os criminosos cínicos e desumanos que são – incluindo nisso o beautiful people comunista que ainda brilha na nossa mídia e no nosso Parlamento, ditando regras, posando de santo, empanturrado de verbas públicas.

Ao protestar contra a decisão polonesa, o governo russo mostrou sua fidelidade inalterada ao culto de Lênin e Stálin, mas não é da Rússia que vem hoje o grosso do ódio estrangeiro à Polônia católica. Desde a queda da URSS a elite comunista se refugiou nos organismos políticos internacionais, de onde comanda a guerra anticristã, antijudaica e anti-americana sob novos pretextos publicitários e com armas emprestadas à estratégia anestésica do socialismo fabiano. Os gurus iluminados da ONU já ameaçam processar os governantes da Polônia por sua oposição ao abortismo, apoiada na vontade majoritária do povo polonês. Pela primeira vez na História, impedir um morticínio tornou-se “crime contra a humanidade”.

Nesse momento, a proposta de um acordo anti-abortista entre o Vaticano e o governo brasileiro mostra claramente o intuito papal de ampliar a frente de resistência à opressão global, cujas iniciativas contra os cristãos e os judeus no Ocidente já vão assumindo as feições nítidas de um genocídio cultural, contrapartida do genocídio tout court que prossegue, impune e mal camuflado, nas nações islâmicas e comunistas.

Funcione ou não o acordo, uma coisa é certa: se Bento XVI toma essa iniciativa, é sinal de que tem em mente algo como uma estratégia abrangente para a autodefesa da religião contra o assédio ateístico cada vez mais brutal e mendaz. Ainda há tempo para isso, mas em dois milênios de cristianismo nada trouxe mais dano à Igreja do que a acomodação com as esquerdas adotada no Concílio Vaticano II. João Paulo II esboçou uma volta atrás, mas no fim do reinado já estava engrossando o coro do anti-americanismo universal. “O destino da Igreja será decidido no Brasil”, disse seu sucessor. Oremos para que saiba avaliar o peso de suas próprias palavras.

Em 10 de maio de 2007

Escola De Costureiras

10 de junho de 2013 | Diário do Comércio

Glenn Greenwald, o repórter do jornal inglês Guardian que descobriu o grampo geral e endêmico instalado pela administração Obama nos EUA, e no qual ninguém queria acreditar até uns dias atrás, disse que o atual governo deu uma interpretação deformada e monstruosa ao “Patriot Act”, criando uma gigantesca máquina de espionagem ilegal “para eliminar a privacidade e o anonimato não apenas na América como no resto do mundo” ( ver aqui ).

Espionar não é tudo. Intimidar e manipular é o mais importante. O governo americano não só usou o Imposto de Renda como arma de chantagem para paralisar e destruir toda oposição conservadora e cristã, como, ao mesmo tempo, cobriu de isenções e regalias muitas ONGs notoriamente associadas a movimentos radicais islâmicos, inclusive uma, de propriedade do irmão do presidente, destinada a dar suporte político ao governo genocida do Sudão.

Para completar, o governo Obama mudou os regulamentos militares para ameaçar de corte marcial qualquer soldado que falasse em público da sua fé cristã, ao mesmo tempo que convocava um religioso muçulmano para discursar no enterro de soldados mortos pelo terrorismo islâmico, os quais o distinto teve, na oração fúnebre, a gentileza de rotular como “infiéis a Allah”.

Ecada vez vai-se tornando mais claro que o desastre de Benghazi, seguido de repugnantes esforços de acobertamento, nasceu de um falso sequestro encenado para dar ao governo americano uma desculpa para colocar em liberdade o sheikh cego, Omar Abdurrahman, mentor de organizações terroristas.

Para quem quer que investigasse por conta própria e raspasse um pouco a superfície das coisas, já eram mais que previsíveis em 2008 toda a perversidade, a mendacidade psicopática e o caráter golpista daquilo que viria a ser o governo Obama. Para quem confia na grande mídia, entretanto, eram invisíveis, impossíveis e impensáveis.

A redação dos maiores jornais e canais de TV, neste país até mais claramente do que no restante do universo, compõe-se de dez por cento de trapaceiros e noventa por cento de cretinos que os admiram, que os repetem servilmente e que sonham em ser como eles quando crescerem. E destes, apenas dez por cento crescem. Sobem aos postos de chefia e ganham espaço personalizado quando transpõem com sucesso o rito de passagem que os habilita a fazer por malícia o que antes faziam por idiotice e espírito de imitação.

Aqueles que não consentem em ser nem trapaceiros nem idiotas acabam por se marginalizar ou ser marginalizados.

O leitor quer ter a gentileza de me apontar, entre os luminares da Folha de S. Paulo, do Estadão e do Globo, um, unzinho só, que lhe advertisse em tempo que Obama era um totalitário quatro cruzes, devoto do comunismo e dos radicais islâmicos, disposto a fazer da América um Estado policial – e não para perseguir os terroristas, mas sim aqueles que os combatem?

Não, é claro. De fato, todos eles anunciaram uma era de lindezas incomparáveis, o fim da idade das trevas, a apoteose da liberdade e do progresso. E agora, como não podem mais negar aquilo que o planeta inteiro já ficou sabendo sem a ajuda deles, não lhes resta senão apelar, com a maior cara de pau, à desculpa de que tudo o que o Obama faz é culpa de George W. Bush.

Não dá vontade de bater nesses desgraçados? E pensa que algum deles sente um pingo de vergonha? Que nada! São todos discípulos do Zé Dirceu: pegos com a mão na cumbuca, trocam de nariz e seguem em frente, impávidos colossos, arrotando sapiência.

Não vou citar nomes porque eles brilham todo dia nas telas e nas páginas, padecendo de um excesso de visibilidade.

O que esses sujeitos e todos os seus similares entendem de política está no nível do que eu entendo de corte e costura. Quando criança, eu ouvia de longe minhas tias conversando a respeito numa linguagem esotérica em que abundavam termos como retrós, sianinha, ponto-cruz, pence, viés, o diabo. Conheço as palavras todas, mas até hoje não faço a menor ideia de quais objetos lhes correspondem no mundo real, se é que aquelas coisas existiam mesmo e as velhinhas não estavam apenas se divertindo às minhas custas.

Longe De Berlim Fora Do Mundo

10 de junho de 2000 | Época

No debate sobre a globalização, o Brasil fica cada vez mais diferente do planeta Terra “Sem grande debate ideológico, o interesse da reunião é bastante reduzido”, escreve Arnaud Leparmentier no Le Monde de 3 de junho a propósito do encontro dos chefes de Estado de esquerda e centro-esquerda em Berlim. Mas, para os brasileiros, o que deveria tornar esse acontecimento instrutivo é precisamente a ausência de debate, pois no Brasil ninguém ainda se deu conta de que o processo de globalização é hoje liderado por um consenso de esquerda. Em Berlim, a apologia do Estado empreendedor e as advertências solenes quanto aos “limites do neoliberalismo”, que pareciam ecoar ipsis litteris as falas das Marilenas Chauis ou Marias das Conceições que aqui abundam nos palanques jornalísticos e acadêmicos, foram recitadas por ninguém menos que os chefes de quase todas as nações que mandam no mundo. Pior ainda: isso não suscitou, ali, a menor discussão. Estão todos de acordo.

Em contraste acachapante com esse fato, tão óbvio para a imprensa mundial que esta não o noticiou senão para ressaltar sua falta de novidade, os termos “globalização” e “Nova Ordem Mundial”, quando aparecem no discurso de nossa intelligentsia, vêm sempre e sistematicamente associados a “neoliberalismo”, com a presunção de que se trata de mais um empreendimento da malvada “direita”, dos abomináveis “interesses privados”. Há, portanto, duas Novas Ordens Mundiais: uma no planeta Terra, outra na cabeça de nossas classes falantes, fiéis a seu voto de abstinência em matéria de contato com a realidade.

Graças a essa formidável alienação dos intelectuais, nossa opinião pública, levada a enxergar o panorama de hoje segundo as categorias da velha birra nacionalista contra os Estados Unidos, imagina que pode se opor eficazmente ao novo imperialismo global mediante ataques à nação americana, sem nem de longe perceber que dentro desta se desenrola uma briga de foice entre os interesses nacionais ianques e a Nova Ordem Mundial personificada pelo senhor Bill Clinton.

Em decorrência da mesma causa, o conflito político brasileiro vai se polarizando cada vez mais num sentido contrário ao da política mundial: enquanto nesta se perfilam claramente as duas alas, direita e esquerda (liberal e social-democrata) da Nova Ordem Mundial, ambas moderadas e ambas hostis aos excessos truculentos de um lado e de outro, no Brasil a direita simplesmente desapareceu de cena, sendo substituída por uma postiça “direita da esquerda” (leia meu artigo de 29 de maio), não restando, na programação de nosso canal, senão a luta da esquerda com a esquerda mesmo, seja nas pessoas de dona Marta e dona Erundina, seja nas dos senhores Lula e Ciro Gomes.

Ora, a disputa entre uma direita e uma esquerda moderadas é a essência mesma da dinâmica democrática. Já a briga de social-democratas e comunistas é coisa feia. Onde quer que ela tenha monopolizado a cena, correu sangue. Na Rússia, os comunistas esmagaram os social-democratas e seguiu-se a ditadura leninista. Na Alemanha, foi o inverso, e a vaga deixada pelos comunistas foi preenchida pela ascensão do populismo nazista.

O problema de ficar longe do mundo é que a gente vai chegando cada vez mais perto do inferno.

Em 10 de junho de 2000

A Esquerda E Os Mitos Difamatorios

10 de julho de 2013 | Diário do Comércio

No show de ignorância dado à Folha de S. Paulo pelos líderes da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), a estrela maior foi sem dúvida o sr. Milton Hatoum, que, incapaz de lembrar o nome de um só escritor brasileiro importante que fosse de direita, ainda completou a performance com esta maravilha: “Diziam que Nelson Rodrigues era, mas discordo. Era provocador, irônico, e na ditadura lutou para libertar presos.”

De um lado, é absolutamente impossível, a quem quer que tenha lido o cronista carioca, ignorar seu anticomunismo intransigente, seu horror aos “padres progressistas”, seu apoio inflexível ao governo militar e até o orgulho com que ele se qualificava publicamente de “reacionário”.

É óbvio que o sr. Hatoum só conheceu o pensamento de Nelson Rodrigues por ouvir falar, e ainda assim com muita cera nos ouvidos.

Em segundo lugar, socorrer e proteger presos e perseguidos políticos durante a ditadura foi uma das ocupações mais constantes dos intelectuais de direita, entre os quais Adonias Filho (um dos muitos omitidos, por falta de espaço, no artigo anterior), Josué Montello, Antônio Olinto, Gilberto Freyre e Paulo Mercadante. Para cúmulo de ironia, o mais célebre e aguerrido defensor de presos políticos naquela época foi o advogado Heráclito Sobral Pinto, um católico ultraconservador que confessava e comungava todos os dias e, quando não estava tirando gente da cadeia, estava escrevendo furiosas diatribes contra o Concílio Vaticano II. Hoje seria chamado de “fundamentalista” e jogado no lixo com a multidão dos outros “ninguéns”.

O que nunca se viu no mundo foi o beautiful people comunista correr em massa para estender a mão a perseguidos da ditadura soviética, chinesa, húngara, polonesa, romena ou cubana.

Ao contrário, sempre que aparecia algum foragido revelando as torturas e padecimentos sem fim sofridos nos cárceres comunistas, a gangue toda se reunia, não raro em escala mundial, para achincalhá-lo como “agente do imperialismo”.

Se o sr. Hatoum não conhece nem Nelson Rodrigues, seria loucura esperar que soubesse algo, por exemplo, do caso Kravchenco, em que toda a intelectualidade esquerdista se juntou para desmoralizar o ex-funcionário soviético que denunciava os horrores do Gulag. Kravchenco reuniu testemunhas, provou o que dizia e venceu um processo judicial contra toda a plêiade dos bem-pensantes.

Soljenítsin, quando esteve nos EUA, contou que os dissidentes soviéticos nunca receberam a menor ajuda da elite esquerdista americana, e sim apenas de sindicatos de trabalhadores (na época acentuadamente anticomunistas).

Quando esteve no Brasil o pastor Richard Wurmbrand, homem que por dezesseis anos sofrera torturas e maus tratos numa prisão romena (confirmados em público por uma comissão médica da ONU), a mídia esquerdista o tratou como se fosse um demônio, um conspirador fascista.

A mentalidade esquerdista intoxica-se de mitos difamatórios de maneira a não cair jamais na tentação de ver no adversário um rosto humano. Até hoje os quatrocentos guerrilheiros mortos na ditadura, muitos deles caídos de armas na mão, merecem mais lágrimas do que os cem milhões de civis desarmados que eles, como membros do movimento comunista internacional, ajudaram a matar. Até hoje os que nadam em indenizações milionárias como prêmio da sua cumplicidade com os regimes mais bárbaros e genocidas não consentem em dizer uma só palavra de conforto às vítimas da guerrilha brasileira, dando por pressuposto que a condição de ser humano é monopólio da esquerda, que aqueles que a esquerda matou, mesmo transeuntes inocentes, não passam de cachorros loucos abatidos pelo bem da saúde pública.

Para o sr. Hatoum, basta um sinal de bondade na pessoa de Nélson Rodrigues, para produzir a conclusão automática e infalível: Não, ele não pode ter sido de direita.

Nunca li os romances do sr. Hatoum, mas até admito, como hipótese extrema, que um idiota possa escrever um bom livro de ficção. O que é inadmissível é aceitar como “intelectual”, como formador de opinião, um sujeito que formou a sua na base do puro zunzum e sai por aí arrotando julgamentos sobre o que desconhece.

Nada A Conservar

10 de julho de 2005 | Zero Hora

No Globo do último dia 8, o articulista Luíz Paulo Horta, que personifica a medida máxima de conservadorismo admitida naquele jornal depois da supressão abrupta mas politicamente compreensível da minha coluna semanal, reconhece a “orgia de ganância” em que chafurda o partido governante, e, constatando que a reação geral a esse fenômeno tomou a forma de “um esforço quase patético para preservar a figura do presidente”, dedica o restante do seu artigo a intensificar esse esforço e a torná-lo ainda mais patético, tentando salvar, junto com a imagem do sr. Luís Inácio, a do seu partido inteiro.

A tática que usa para isso é o clássico expediente de criar uma falsa impressão de equivalência. A diferença específica entre a corrupção petista e suas antecessoras é que estas eram obra de maus políticos infiltrados em partidos com os quais não tinham nenhum compromisso sério e dos quais se serviam apenas como meios de enriquecimento pessoal. Já o PT é, de alto a baixo, uma máquina de corrupção, onde roubar, chantagear, mentir e ludibriar são obrigações partidárias cumpridas com o orgulho e a consciência limpa com que, no tempo do terrorismo, os mesmos personagens de agora explodiam gente inocente e, diante da reação governamental, se faziam (e se fazem até hoje) de vítimas inermes da perseguição fascista. Essa diferença é o fato político e moral mais relevante das últimas décadas, e é ela que o sr. Horta dilui ao insinuar que os crimes do PT não fazem senão nivelá-lo aos demais partidos, como se cada um destes estivesse também metido numa trama continental com os narcotraficantes das Farc, os seqüestradores do MIR e os torturadores cubanos. O equivalentismo, diante de uma desproporção tão majestosa, torna-se um ato de desinformação e propaganda ainda mais pérfido do que a apologia franca e direta dos delinqüentes.

Baseado nesse completo falseamento das dimensões, o sr. Horta está livre para atribuir antecipadamente aos criminosos do presente os méritos de um futuro hipotético, insinuando que o único defeito do PT é o apego a estratégias demodées e que, com pequenas alterações modernizantes, sem alterar em nada a essência partidária, essa entidade pode reconquistar um lugar honroso na vida política brasileira.

Em matéria de gerenciamento de danos, Duda Mendonça não faria melhor. Apenas, duvido que o sr. Horta tenha alguma consciência do que fez. Ele foi um daqueles que, durante quinze anos, ajudaram a ocultar por atos, palavras e omissões a existência do Foro de São Paulo e a as macabras alianças continentais do lulismo. Suprimidos esses fatos, é claro, o PT tornava-se uma entidade tão inofensiva como o Partido Trabalhista inglês, pronta a discutir educadamente com os conservadores pequenas divergências econômico-administrativas, sem nenhum risco maior para as duas partes senão a perda de algumas cadeiras na eleição seguinte.

Menciono o sr. Horta apenas como um exemplo casual. Tanto ele quanto centenas de outros articulistas brasileiros nominalmente antipetistas acostumaram-se de tal modo à prática compulsiva do jornalismo eufemístico ao falar do PT, que conseguiram anestesiar não somente a si próprios mas à população inteira, tornando o Brasil uma nação incapaz de discernir a gravidade da sua situação e pronta a aceitar o pior sem nenhuma reação significativa.

Se o PT não lhes pagou para fazer isso, estamos diante da maior onda de injustiças salariais da história do jornalismo brasileiro.

Quando pessoas como essas representam na mídia a única perspectiva conservadora que resta num país, é porque esse país já nada mais tem que valha a pena conservar .

Não espanta que, no mesmo artigo, o sr. Horta, com a responsabilidade intelectual de um menino de dois anos, compare Arnaldo Jabor a James Joyce. Quando se perde o senso das proporções na política, é impossível conservá-lo na literatura.

Em 10 de julho de 2005

Dupla Utilidade

10 de fevereiro de 2012 | Diário do Comércio

Desde logo, informo que jamais escreveria sobre tipos deprimentes como os srs. Emir Sader, Vladimir Safatle, Sidney Silveira, Júlio Lemos, Eduardo Wolff e similares se não julgasse haver nisso uma dupla utilidade.

De um lado, serve para esclarecer e documentar o presente estado de coisas no Brasil mental. Foi com esse intuito que em 1995 comecei a publicar O Imbecil Coletivo , série de apontamentos sobre uma derrocada cultural jamais vista antes em qualquer país medianamente civilizado e digna, portanto, de ser anotada para auxílio dos futuros historiadores, se algum houver ainda, os quais terão muita dificuldade em enxergar nas trevas deste período, tal como o homem caído temporariamente em estado de inconsciência patológica mal consegue colar as duas pontas da sua biografia, cortadas e separadas por uma faixa de negrume impenetrável. Se hoje prossigo redigindo essas notas, é para dar ciência de que o estado de coisas ali apontado não cessou de piorar, por inverossímil que pareça, tendo extravasado dos círculos letrados para a sociedade em geral, imersa hoje na barbárie cotidiana de um carnaval sangrento e de uma abjeção moral tão funda que as palavras falham em descrevê-la.

De outro lado, fornece aos meus estudantes e leitores, a título de alerta, um mostruário dos riscos de alienação e de corrupção interior que, nesse quadro, ameaçam roer as mais promissoras sementes de uma vida intelectual nascente.

Serve, nesse sentido, para ilustrar um capítulo de metodologia filosófica que assimilei desde a mais remota juventude, que retomei e reaprendi mil vezes ao longo das décadas, que se incorporou à minha mente ao ponto de se tornar quase uma segunda natureza, e que eu desejaria ardentemente repassar a todos os que me lêem e ouvem. Devo o aprendizado dele a muitos mestres, especialmente (sem desdouro de quaisquer outros) Sócrates, Sto. Agostinho, Montaigne, Kierkegaard, Ortega, Julián Marías, Alain, Louis Lavelle, Eric Voegelin e Paul Friedländer, mas, antes de todos eles, ao oráculo de Delfos, que o resumiu, histórica ou mitologicamente, no lema: “Conhece-te a ti mesmo.”

Esse mandamento significa que toda investigação filosófica deve tomar raiz numa consciência muito clara da nossa própria situação existencial, da nossa condição pessoal e sócio-histórica, das nossas contradições interiores e das motivações dos nossos atos, mesmo as mais secretas, ruins e decepcionantes. Só daí deve elevar-se, pouco a pouco, às grandes especulações abstratas que, sem isso, se tornarão fetiches intelectuais, mecanismos de alienação ou, na melhor das hipóteses, puros exercícios escolares sem genuína substância intelectual, por elegantes e sofisticados que pareçam.

Se, por mal dos pecados, nossa situação pessoal e social se revela desprezível e infame, irrisória, mesquinha, afastada de tudo quanto pode haver de grande e sublime no mundo, tanto mais obrigatório se torna aquele exame de consciência, para não corrermos o risco de buscar em estudos nominalmente nobres e elevados um mero anestésico de ocasião contra a realidade da nossa miséria. Tal é, na verdade, a mais sedutora e letal das tentações para o intelecto jovem na atmosfera opressiva de uma nação culturalmente atrofiada. Que reconforto entorpecente, que satisfação deleitosa não sente o estreante que, marcando seu contraste com a incultura ambiente, pode exibir ante o público estupefato o seu domínio das técnicas intelectuais mais requintadas, a atualização do seu espírito com os debates mais complexos que se travam nos “grandes centros” universitários da Europa e dos EUA!

Não há nada de mau em aprender essas coisas. Em certos momentos, é até obrigatório. Mas, quando essa escalada aos altos píncaros se faz saltando sobre a exigência preliminar do arraigamento consciente na realidade pessoal e histórica imediata, o resultado é aquela mistura indigesta de requinte aparente e tosquice profunda, que tão bem caracteriza o pseudo-intelectual do Terceiro Mundo.

Partindo dessa falsificação de base, o que parecia uma estréia promissora vai aos poucos se corrompendo e se prostituindo até descer à vigarice ostensiva, que mesmo os leitores sem muita cultura acabam notando.

Esse mal, que afeta até os mais inteligentes e esforçados, se exterioriza em mil e um sintomas, dos quais não é o menos signicativo o mau gosto, o estilo ao mesmo tempo entojado e capenga da sua escrita. O sr. Júlio Lemos, por exemplo, cujo talento inato para os estudos filosóficos eu seria o último a negar, estraga tudo quando tenta compensar o seu parco domínio do idioma com o apelo reiterado a expressões inglesas perfeitamente desnecessárias, só para se dar ares de professor da Ivy League. Leiam e verifiquem. O homem não tem sentimentos mesclados, tem mixed feelings . Não tem uma questão a resolver, tem uma issue . E assim por diante. Termos estrangeiros usam-se quando têm uma conotação inimitável em vernáculo ou quando são expressões técnicas consagradas, como habitus ou Dasein . Fora disso, são pura frescura, coisa de subdesenvolvido.

Falo do modo de escrever porque nada revela melhor o estofo interior de uma alma. A matéria pode ser colhida em leituras, às vezes em qualquer manual ou dicionário de filosofia, mas o estilo, doa a quem doer, é o homem.

Também não me refiro ao sr. Lemos em particular; há centenas como ele. O sujeito começa com esses vícios e uns anos depois está pronto para aprender a se esconder pelos cantos, como um rato, sempre que comete alguma asneira que não é homem bastante para confessar. Da afetação à empulhação o caminho é bem curto.

Em 10 de fevereiro de 2012

No Limite Da Candura

10 de fevereiro de 2002 | Zero Hora

Espero que, antes de solidarizar-se com as efusões de revoltafingida da esquerda chique contra a ascensão da delinqüência, o leitor se lembre de que essa gente apregoou aos quatro ventos as virtudes revolucionárias do banditismo, ensinou técnicas de guerrilha e organização paramilitar aos detentos da Ilha Grande e por fim encabeçou o movimento internacional de solidariedade aos seqüestradores de Abílio Diniz, em 1989, dando a seus sucessores na carreira do crime a esperança, senão a certeza, do respaldo midiático e da impunidade.A candura sonsa, a incapacidade de enxergar a malícia alheia, tem limites: ultrapassado um certo ponto, torna-se cumplicidade ativa do otário com o vigarista, do sequestrado com o seqüestrador, da vítima com os advogados de seus agressores e assaltantes.

Se a opinião pública brasileira, malgrado os alertas que lhe chegam, ainda que parcos e escondidos nas entrelinhas de um noticiário fortemente policiado pelos gerentes da boa imagem esquerdista, se recusar por mais tempo a tomar consciência da índole essencialmente criminosa, golpista e manipuladora da política de esquerda neste país, mais cedo ou mais tarde terá de se submeter calada às exigências ditatoriais dessa política, que não serão diferentes aqui do que foram em Cuba ou no Camboja.

É verdade que à índole do brasileiro repugna ver na alma alheia qualquer dose de maldade superior àquela de que ele próprio se imagina capaz. Exposto diariamente à tentação vulgar de obter miúdas vantagens ilícitas aqui e ali, com a maior facilidade ele adivinhará intenções idênticas no coração do próximo. Mas a perfídia maior, o grande conluio da revolução continental da narcoguerrilha, é algo que ultrapassa a sua concepção do mal. Incapaz de conceber um criminoso maior que o juiz Lalau ou do que os delinqüentes avulsos que pululam no noticiário, ele tenderá, instintivamente, a rejeitar com horror a mera sugestão de que certas coisas possam estar acontecendo. De início, ele o fará com uma certa afetação de tranqüilidade superior, rindo do interlocutor e atirando-lhe na cara o estereótipo fácil da “teoria da conspiração”, do qual aliás só tomou conhecimento por um título de filme e cujo sentido desconhece por completo. Depois, aos poucos, sob o bombardeio dos fatos que se sucedem, ele sentirá vacilar a falsa segurança de sua certeza inicial e, diante de qualquer tentativa mínima de tirar desses fatos as conclusões que eles logicamente impõem, começará a reagir com quatro pedras na mão. Fará do interlocutor o emissário do mal, vingando-se das más notícias na pessoa do carteiro.

Mas nem mesmo um cego de nascença, vendado e preso num quarto escuro, pode se impedir de enxergar, com os olhos da inteligência, o sentido nítido e patente de certos fatos. Que há uma articulação política entre Hugo Chávez, Fidel Castro, as Farc e a esquerda brasileira, por exemplo, é algo que ninguém pode negar, pois essa parceria foi afirmada e reafirmada vezes sem conta pela própria esquerda, seja no Foro de São Paulo, discreta reencarnação do Comintern, seja, mais espetaculosamente, nos dois Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre. Mas a parceria vai além das declarações de intenção. Chávez, segundo se revelou num vídeo recentemente divulgado, é fornecedor de armas às Farc, enquanto estas, conforme o provaram os arquivos do “laptop” do delinqüente Fernandinho Beira-Mar, estão intimamente associadas à rede brasileira de tráfico, e Fidel Castro, por sua vez, é acusado por seu ex-assessor Ernesto Bettancourt de manter uma conta pessoal na Suíça para lavagem de dinheiro do comércio latino-americano de drogas. Os partidos esquerdistas legais, por seu lado, em vez de combater de frente a articulação revolucionária, como em Portugal o fez Mário Soares contra as tropas militantes de Álvaro Cunhal — e como seria de fato a única atitude digna de esquerdistas convertidos ao constitucionalismo democrático –, fazem o possível e o impossível para acobertar essa gigantesca manobra, para infundir no público a impressão de que ela não existe, para protegê-la enfim de todo risco de investigação e denúncia. Com isso, dão à revolução em marcha o tempo precioso que ela necessita para fortalecer-se à sombra, até estar pronta para dar sobre o continente o seu bote fatal. Fecha-se assim o círculo: é absolutamente inescapável a conclusão de que a liderança esquerdista deste país está de braços dados com a revolução continental armada, financiada pelo narcotráfico. Quem quer que se recuse a ver uma coisa tão óbvia, não estando ele próprio amarrado por algum compromisso com essa gente, é na melhor das hipóteses um ingênuo, um incurável ingênuo.

(PS O mesmo assunto, sob ângulo diverso e complementar, foi analisado no meu artigo de ontem, sábado, em “O Globo”, que se encontra hoje reproduzido na minha homepage, http://www.olavodecarvalho.org.

Em 10 de fevereiro de 2002

Depois Da Politica

10 de agosto de 2002 | O Globo

A liberdade política pode ser formal ou material. Formalmente, é uma garantia legal oferecida pelo Estado. Materialmente, seu exercício funda-se em mil e uma condições que dependem da sociedade e da cultura. Todas as idéias em circulação nascem como concepções gerais nos círculos intelectuais e acadêmicos e só aos poucos se traduzem na linguagem mais particularizada de propostas de governo aptas à discussão nas campanhas. Por isso é possível eliminar a liberdade política sem mexer nas garantias formais: basta controlar a intelectualidade. Estranguladas na fonte, as idéias indesejadas simplesmente não chegarão a adquirir aquela expressão pública que, tornando-as politicamente ameaçadoras, pudesse requerer o apelo à repressão ostensiva. Excluídas do horizonte do pensável, já não precisam ser proibidas: são cartas fora do baralho.

Tal é a moderna tecnologia do controle político.

Antigamente, a margem do que se podia discutir numa eleição era ampla: os políticos divergiam em sua concepção do mundo, em seus valores morais e religiosos e em sua doutrina político-social, cujo espectro abrangia do conservadorismo estrito às mais extremadas propostas revolucionárias, do liberal-anarquismo ao dirigismo socialista e comunista, do verde-amarelismo xenófobo ao internacionalismo capitalista ou proletário.

Tudo isso desapareceu.

Os quatro homenzinhos que pretendem nos governar estão de tal modo concordes em tudo, que, convidados a declarar sua filosofia, bastaria que lessem em voz alta algum panfleto publicitário de entidade assistencial “politicamente correta”. Não têm, aí, a mínima divergência. Estabelecida a unanimidade essencial, eliminada a possibilidade de disputas ideológicas, quê resta a debater? Administração e picuinhas. Estatísticas e fofocas.

Assim, não há mais debate político: há apenas trivialidades gerenciais e a disputa de reputações entre os aspirantes a gerentes.

No primeiro debate entre entre Ciro, Lula, Serra e Garotinho, qualquer questão mais alta soaria destoante até o insuportável.

O que resta de política no Brasil deve-se à casualidade de que, na luta pelos despojos do regime militar, algumas lideranças de esquerda ocuparam logo os primeiros postos vacantes, enquanto outras foram deixadas para depois e estão revoltadíssimas com a demora.

Tal foi o único motivo de discussão na farsa de domingo passado.

Os quatro candidatos têm uma origem comum: vêm da oposição de esquerda ao regime militar.

Os quatro, a pretexto de “lutar pela democracia”, acumpliciaram-se a regimes totalitários e genocidas infinitamente mais cruéis do que a ditadura que professavam combater, e não têm a menor dor na consciência por isso.

Os quatro dão por pressuposto que a presença de qualquer “direita” na vida política deve ser tolerada, na mais generosa das hipóteses, como um mal provisório a ser eliminado na primeira oportunidade.

Os quatro entendem que o debate interno da esquerda — precisamente o espetáculo que ofereceram ao público — é o máximo de democracia que podem admitir.

E os quatro, embora não estejam dispostos a confessá-lo em voz alta, sabem que esse tipo de democracia é precisamente o “centralismo democrático” de Lênin.

Quanto aos remanescentes da “direita” (se é que assim cabe chamar a velhas lideranças regionais sem identidade ideológica nernhuma), só servem para duas coisas: para bajular alguns setores da esquerda, que aceitam usá-los com indisfarçada repugnância, e para dar aos demais a oportunidade de ostentar mais repugnância ainda, cada um mais ansioso de atestar a pureza de sua filiação esquerdista, num concurso de pedigrees que faria inveja aos mais devotados sabujos de Stalin.

A hegemonia esquerdista, conquistada em trinta anos de esforços na universidade e na mídia, chegou finalmente à esfera eleitoral. Agora, pouco importa quem seja eleito. A única finalidade desta campanha é excluir definitivamente da política as idéias inconvenientes, associadas, numa formidável alucinação semântica, a espantalhos de ocasião que não têm nada a ver com elas. É fazer do atestado de esquerdismo castiço a única credencial apta a validar uma candidatura a qualquer posto que seja.

Os comentaristas que, diante de um debate assim conduzido, celebram o acontecimento como sinal de pluralismo e normalidade democrática, das duas uma: ou são cúmplices da farsa ou são idiotas incuráveis.

Aprendendo Com O Povao

10 de abril de 2015 | Diário do Comércio

A queda abrupta na audiência da TV Globo ilustra algo que venho dizendo aqui há semanas: a revolta popular não é só contra meia dúzia de políticos ladrões, nem só contra a sra. Dilma Rousseff, o PT ou mesmo o Foro de São Paulo: é contra toda a elite que os protegeu e os legitimou no poder à força de mentiras e desconversas.

Sempre de joelhos ante as modas estrangeiras mais idiotas, e manipulados por intelectuais ativistas que, a despeito da sua mediocridade, sempre deslumbraram as suas mentes ainda mais medíocres, os donos dos nossos meios de comunicação puseram todos os seus formidáveis recursos a serviço de uma “revolução cultural”, cuja simples existência ignoravam, e que foi, aliás, concebida precisamente para ser levada a cabo por idiotas úteis que a ignoravam.

Antonio Gramsci é bastante explícito quanto a esse ponto: não se trata de “conquistar corações e mentes”, como afirmou esse asno pomposo que ocupa o Ministério da Educação, mas, bem ao contrário, de fazer com que “todos sejam socialistas sem sabê-lo”, de dominar o “senso comum” a tal ponto que massas inteiras da população repitam chavões e slogans sem ter a menor ideia da sua origem e da sua função num plano estratégico de conjunto.

A diferença entre o antigo militante proletário conquistado para a causa do comunismo e o moderno servidor da revolução cultural é tão imensurável que, por si, basta para ilustrar a elasticidade psicopática da mente revolucionária, sempre pronta a trocar de atitude, de discurso e de valores cada vez que julga isso necessário para o aumento do seu poder.

O primeiro decorava manuais de marxismo-leninismo, era hipersensível ao menor desvio da ortodoxia partidária e proclamava orgulhosamente sua condição de comunista militante, sacrificando bens, vida, honra e liberdade, tudo pela causa.

Em volta dele existiam, é claro, alguns idiotas úteis sem cultura marxista, que se associavam à luta por motivos subjetivos totalmente estranhos ao marxismo, que levavam o militante genuíno às gargalhadas.

Na militância gramsciana, as proporções inverteram-se: o grosso da contingente compõe-se de idiotas úteis, os militantes doutrinados reduziram-se a uma discreta elite dirigente que não faz a menor questão de que seus seguidores saibam por que a seguem.

Os motivos subjetivos, que antes eram apenas acréscimos acidentais ao corpo da luta revolucionária, tornaram-se a propaganda oficial, que na mesma medida perdeu toda unidade e coerência, estilhaçando-se numa poeira alucinante de chavões e cacoetes mentais desencontrados, bons para todos os temperamentos e preferências, incluindo a expressão histérica das insatisfações mais fúteis que o marxista puro-sangue de antigamente desprezava como “pequeno-burguesas”.

A pessoa e os feitos do sr. Jean Wyllys ilustram esse estado de coisas da maneira mais didática que se pode imaginar. Na sua ânsia de juntar num front comum tudo quanto lhe pareça antiocidental e anticristão, ele exige que as escolas esmigalhem de vez os cérebros das crianças com aulas simultâneas de gayzismo e de islamismo.

Cada pequeno brasileiro será portanto informado de que ele deve fazer aquilo que, se ele fizer, será punido com pena de morte.

Às vezes as pessoas clamam contra a “doutrinação marxista” nas escolas, mas “doutrinação” é eufemismo: os tempos da doutrinação já passaram. O que ali se faz é infinitamente mais destrutivo do que qualquer doutrinação. Pascal Bernardin, no livro Maquiavel Pedagogo ( veja aqui ), descreveu em minúcias como as técnicas adotadas na educação das crianças hoje em dia são calculadas para induzir mudanças de comportamento sem passar pela aprovação consciente.

Não se trata de “conquistar corações e mentes”, mas de adestrar os corpos no aprendizado da macaquice.

O apelo à consciência é cada vez mais reduzido, ao ponto de que aquele que passou por esse treinamento se torna incapaz de perceber as mais grotescas incoerências no seu discurso, mesmo quando elas tornam irrealizável na prática aquilo que ele proclama como seu sonho e ideal.

O sr. Jean Wyllys é o produto perfeito e acabado de um sistema de ensino montado para produzir idiotas úteis em escala industrial.

É evidente que, abolido o confronto ideológico explícito, dissolvida a ortodoxia marxista num farelo de estereótipos para todos os gostos, cada freguês podendo escolher à vontade os “direitos humanos”, a “anti-homofobia”, o “antirracismo”, o culto de uma lendária superioridade espiritual do Oriente, a mitologia indigenista, a liberação das drogas, os delírios da New Age, o ressentimento feminista, o islamismo ou tudo isso de uma vez, o mero fato de um sujeito ser pessoalmente um bilionário capitalista, e, eventualmente o dono de uma rede de canais de TV, não o torna imune, no mais mínimo que seja, à contaminação de uma lepra mental que assume todas as formas e o assalta por todos os lados.

Foi assim que os donos da mídia, sem percebê-lo nitidamente, e até mesmo negando-o peremptoriamente, se tornaram servidores da “revolução cultural” que os abomina e despreza ao ponto de imaginá-los – pasmem! – responsáveis pelos movimentos de protesto anti-PT.

O sr. João Pedro Stedile proclamando “A Globo fez tudo isso”, ao mesmo tempo que os manifestantes escorraçavam os repórteres da Globo a cusparadas – eis uma cena representativa da confusão monstruosa que o gramscismo produziu na mente brasileira.

Enquanto os “intelectuais” e “formadores de opinião” mostravam cada vez mais nada entender do que estava acontecendo, exemplificando eles próprios o estado de turva inconsciência reinante, o povão, quase por milagre, apreendeu a unidade oculta por trás dos rostos cambiantes e inumeráveis do seu inimigo, e se voltou contra ele com uma determinação e uma coragem admiráveis.

Degradacao Veneravel

10 de abril de 2008 | Jornal do Brasil

Num artigo publicado semanas atrás ( Engenharia da confusão ), expliquei que muitas incoerências aparentes da política oficial não são incoerências: são a aplicação de técnicas consagradas de estimulação contraditória, planejadas para induzir o público a um estado de estupor, de passividade atônita, de obediência robótica.

Não digo que haja sempre nisso premeditação maquiavélica. O emprego dessas técnicas é tão antigo e disseminado no movimento revolucionário, e tão bem amoldado aos hábitos do pensamento dialético, que em muitos líderes e ativistas elas se tornam uma rotina banal. O discurso duplo jorra das suas bocas, a conduta desnorteante flui das suas pessoas com a naturalidade de um bocejo, de um suspiro, de um pum.

Reduzem as Forças Armadas à míngua e alardeiam planos ambiciosos de defesa regional.

Cortejam o apoio dos militares ao mesmo tempo que fomentam campanhas de ódio contra eles e engordam terroristas com indenizações milionárias.

Pavoneiam-se de uma grandiosa “política de segurança pública” e dão ajuda a organizações subversivas aliadas a quadrilhas de narcotraficantes, seqüestradores e assassinos.

Arrotam anti-imperialismo e entregam fatias inteiras do território nacional à administração estrangeira.

Asseguram que o Foro de São Paulo é um inofensivo clube de debates, enquanto seu líder máximo se gaba das vitórias políticas continentais dessa organização.

Em nenhum desses desempenhos tentam sequer camuflar a incongruência. Ostentam-na cinicamente, inibindo nos aparvalhados espectadores não só a coragem de denunciá-la, mas o desejo de percebê-la. Habituando-se a reprimir a própria consciência, o povo se perverte junto com seus governantes e acaba por atribuir a eles uma importância e uma autoridade infinitamente superiores a seus méritos reais.

Um contraste especialmente perturbador – tão contundente que o próprio Hitler o adotou no seu repertório de histrionismos – é a coexistência forçada do risível com o solene, da conduta grotesca com a exigência de consideração e respeito.

Ostentam amor xenófobo à língua pátria enquanto louvam o presidente que a destrói implacavelmente a cada novo discurso.

Dão apoio oficial ao deboche anticristão, e ao mesmo tempo querem ser tratados como pessoas digníssimas e santas, dando a entender que são mais respeitáveis que Jesus Cristo – pretensão demencial que o próprio sr. presidente ilustra em atos ao declarar-se homem sem pecado no instante mesmo em que comete sacrilégio com a cara mais bisonha do mundo.

Uma vez elevados a essas alturas celestes ao lado do seu chefe, um governador se esfrega em público na esposa de um ministro, enquanto outro ministro beija um cantor na boca, como se não lhe bastasse já ter desfilado de collant transparente num baile gay , encarnando triunfalmente aquilo que entende como cultura nacional.

São esses mesmos os que seguida se reunem para decidir, como anciãos veneráveis, os destinos do povo. E o povo, reverente, acata seus mandamentos.

O rei da fábula desfilava nu porque não sabia que estava sem roupa. Nossos reizinhos despem-se de propósito, pelo prazer sádico de forçar a multidão a prosternar-se ante a solenidade do ridículo, ante a majestade do desprezível.

A cada vez que repetem a performance , rebaixam e atrofiam na população não só o senso moral, mas o respeito por si própria e a capacidade de discernimento. Aviltam e estupidificam a nação inteira, e tiram proveito da ruína geral das consciências para aumentar o poder e a riqueza do seu partido, do seu grupo, da sua corja.

Presencas Honrosas

1 de outubro de 2010 | Diário do Comércio

Entre os quase sessenta mil signatários do “Manifesto em Defesa da Democracia”, há decerto um bom contingente de cidadãos – nos quais me incluo – que jamais se deixaram enganar pelo “novo paradigma” imposto à política brasileira desde a ascensão das esquerdas ao primeiro plano do espetáculo nacional. Mas há também uma parcela de celebridades da mídia, do show business , da política e do mundo empresarial, das quais não se pode dizer o mesmo. O próprio site do Manifesto incumbe-se de distinguir os dois grupos, reunindo o segundo nos links “Assinaturas em destaque” e “Artigos em destaque” (v.

http://www.defesadademocracia.com.br/categorias/artigos/page/2/ ).

Significativamente, a quase totalidade dos nomes aí “destacados” são de pessoas que integram uma das seguintes categorias:

(1) Contribuíram ativa e entusiasticamente para a criação do monstro petista e até hoje não lhe fazem restrições – quando as fazem – senão limitadas e pontuais.

(2) Sem ser petistas ou simpatizantes, julgaram a ascensão do PT um fenômeno positivo para a democracia e a defenderam galhardamente contra quem quer que, com base na leitura dos próprios documentos internos do partido, advertisse que se tratava de uma organização revolucionária de alta periculosidade.

(3) Fizeram tudo o que podiam para bloquear ou inibir a divulgação da existência e das atividades do Foro de São Paulo, entidade com que o PT salvou e restaurou o movimento comunista latino-americano, ameaçado de extinção no começo da década de 90.

(4) Repetidamente denunciaram toda veleidade de anticomunismo como uma ameaça temível e um abuso inaceitável, ajudando a criar assim a atmosfera de hegemonia esquerdista na qual o triunfo do PT, como personificação mais pura do esquerdismo nacional, se tornava claramente inevitável (v. meu artigo de setembro de 2004, “Assunto encerrado”, http://www.olavodecarvalho.org/semana/040212jt.htm ).

Atribuindo a esses indivíduos um lugar de revevo, o site do Manifesto dá a entender que a presença de suas assinaturas infunde no documento um valor a mais, revestindo-o de uma autoridade moral que a mera quantidade de signatários não poderia lhe conferir.

O critério de julgamento aí subentendido é, por si, toda uma lição de sociologia quanto à mentalidade daquilo que o sr. Presidente chama de “azé-lite”. Basta assimilar essa lição para compreender por que o país chegou ao ponto em que se tornou necessário arrebanhar às pressas sessenta mil pessoas para defender uma democracia que, ainda meses atrás, tantas delas proclamavam firmada e consolidada – vejam vocês – pelo fato mesmo da ascensão petista.

O que os destaques do site evidenciam, desde logo, é que, no sentimento geral da “azé-lite”, o mérito supremo, em política, não consiste em perceber os perigos em tempo de preveni-los, mas em recusar-se obstinadamente a enxergá-los, ou a deixar que alguém mais os enxergue, até quando já nada mais reste a fazer contra eles senão assinar um manifesto – o último recurso dos derrotados.

Com toda a evidência, as opiniões, nesse meio, não valem pelo seu coeficiente de veracidade, de oportunidade estratégica ou de eficácia preditiva, mas, justamente ao contrário, só são admitidas como dignas de alguma atenção – ainda assim parcial e seletiva – quando obtêm finalmente o nihil obstat dos últimos a saber. Um sindicato de maridos traídos não seria talvez tão lerdo e recalcitrante em tomar ciência das más notícias.

Mas a lentidão paquidérmica em admitir os fatos não é causa sui . Ela vem do apego supersticioso da “azé-lite” à lenda de que o movimento comunista não existe e de que toda tentativa de denunciá-lo só pode ser coisa de extremistas de direita, saudosistas da Guerra Fria, loucos de pedra e teóricos da conspiração. Essa lenda foi criada para infundir naquelas pessoas a ilusão de que o fim do regime militar traria magicamente ao Brasil uma democracia estável, de tipo europeu – ilusão necessária, precisamente, para que a gradual mas inevitável ascensão de comunistas e pró-comunistas ao poder absoluto aparecesse a seus olhos como o fruto espontâneo da “evolução democrática” e não como o resultado de um planejamento maquiavélico de longo prazo, que os documentos do PT e do Foro de São Paulo atestam para além de toda dúvida razoável.

A expressão “azé-lite” é tardia. Muito antes dela, em 1996, no meu livro O Imbecil Coletivo , eu já havia dado a essa faixa social o nome de “pessoas maravilhosas”, observando que para tornar-se uma delas você deveria antes de tudo acreditar que, embora o comunismo não exista, ser comunista é chique e ser anticomunista é brega.

Agora, na página do Manifesto, até uma pessoa indiscutivelmente maravilhosa como o sr. Luiz Eduardo Soares, que viu na publicação daquele meu livro um sinal alarmante de ressurgimento da abominável direita, sai gritando, tarde demais, contra os “bolcheviques e gambás” ( sic ) que se apossaram do país.

Pessoa maravilhosa é também o sr. Luís Garcia, que ainda em 2008 (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/090113dc.html ) se orgulhava de tudo ter feito para lotar de esquerdistas as páginas de opinião de O Globo e muito se arrependia de haver ali encaixado, mesmo a título de balanceamento fingido, um único direitista que fosse. Num gesto inusitado para um chefe de redação, o sr. Garcia chegou até a puxar, nas páginas do mesmo jornal, uma discussão com esse direitista – que não era outro senão eu –, para alegar que o referido, ao alertar contra o poder crescente do esquerdismo continental, estava era enxergando crocodilos embaixo da cama.

Ainda ontem, crocodilos, gambás e bolcheviques só existiam na minha imaginação perversa. De repente, surgindo do nada, tomaram posse do circo inteiro e assombram as noites das pessoas maravilhosas que riam de quem os enxergava.

Já nem falo dos srs. Hélio Bicudo, Ferreira Gullar, Eliane Cantanhede e tantos outros, que, ajudando a instaurar o mito do monopólio esquerdista do bem e da verdade, criaram as condições indispensáveis para transformar a política brasileira numa disputa de família entre organizações de esquerda, ignorando ou fingindo ignorar que a hegemonia ideológica traz inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, o império do partido único, contra o qual hoje esperneiam com ares de inocência surpreendida.

Uma Licao Tardia Ii

1 de novembro de 2011 | Diário do Comércio

Consolidada na literatura há quase dois séculos, a diferença entre as imaginações morais respectivas da direita e da esquerda acabou se transmutando em automatismo verbal e se espalhando pelos debates públicos, pela mídia, pela linguagem cotidiana. Comprovando uma vez mais a regra de Hugo Von Hofmannsthal de que nada está na política sem ter passado primeiro pela literatura, o modo como os romancistas das duas alas concebem seus personagens politicamente antagônicos tornou-se o modo como a direita e a esquerda se imaginam uma à outra (é claro que me refiro à direita e à esquerda “normais”, institucionais, e não a extremismos loucos, que têm de ser analisados sob outra perspectiva). Quase que invariavelmente, o conservador, ou o “liberal” no sentido brasileiro do termo, concebe o esquerdista como uma alma carregada de boas intenções, inspirada em nobres propósitos, tão-somente um pouco imatura, iludida por uma falsa visão do mundo real e condenada, por isso, a cometer erros colossais. Já o esquerdista raramente fala do seu adversário sem lhe atribuir motivações perversas, sem explicar suas idéias como ferramentas a serviço de tramóias obscuras, desejos egoístas e “interesses inconfessáveis”. Na mais generosa das hipóteses, faz abstração da sua diferença individual, reduzindo a “interesses de classe” tudo o que ele diz ou faz.

A esse fenômeno, tão regular e constante, soma-se um outro, dele derivado e ainda mais acessível à comprovação estatística: os representantes da esquerda legítima, “respeitável”, permitem-se falar de seus adversários numa linguagem de virulência tal que, na direita, somente a minoria de extremistas desequilibrados ousaria usar contra a esquerda. É a “querra assimétrica” verbal, que precede a guerra assimétrica stricto sensu . A vultosa amostragem colhida por Cliff Kincaid em www.aim.org/wls/ e por Fred Gielow em I Can’t Believe You Said That. Hundreds of Liberals Speak Their Minds (Washington D.C., Accuracy in Media, 2008) é mais que suficiente para ilustrar, se não para provar o que estou dizendo. Na literatura como na política, a tendência da direita é para humanizar a imagem do adversário, para torná-lo compreensível em termos de motivações racionais aceitáveis, enquanto na esquerda prevalece o impulso de reduzir a individualidade concreta do direitista a algum esquematismo sociológico despersonalizante, quase sempre repulsivo e odioso.

Essa diferença de imaginação e de linguagem basta para explicar por que a esquerda, embora seja a recordista número um de crimes contra a humanidade, continua se concebendo como a detentora do monopólio das virtudes mais excelsas. Ela pensa assim não porque tenha algum dia feito algum bem capaz de compensar o genocídio soviético, chinês e cambojano, mas precisamente porque é, das duas facções majoritárias em que se divide a arena política do mundo, a mais insensível, a mais brutal e desumana, a menos capaz de estender ao adversário um olhar de simpatia, compreensão e piedade. Na ausência desse olhar, toda comparação é impossível e o senso do bem e do mal se enrijece num muro intransponível entre “nós” e “eles”, onde a diferença já não é de escala, mas quase que de constituição ontológica, separando os seres em duas espécies estanques, tal como no título do romance comunista de Elio Vittorini:

Uomini e No . Não espanta que, nessas condições, a absoluta indiferença ou cumplicidade cínica ante o genocídio de centenas de milhões de pessoas coexista pacificamente, na alma esquerdista, com as mais lacrimosas efusões de coitadice quando um terrorista é preso, condenado ou submetido a maus tratos. A esquerda se acha a melhor justamente porque é a pior. A mais humana, porque é a mais inumana. A direita, por sua vez, ajuda solicitamente na manutenção do engodo, na medida em que sua natural ojeriza a deformar a imagem do adversário mediante estereótipos pejorativos acaba se pervertendo numa compulsão de lisonjeá-lo a todo preço e até numa recusa obstinada de enxergar as motivações dele com um mínimo indispensável de realismo. Ambas se enganam a si mesmas, uma a favor dela própria, a outra contra ela própria.

Também não espanta que, mantendo o adversário sob um bombardeio constante de imprecações, ofensas, falsas acusações e apelos sumários ao seu assassinato, a esquerda busque nas mais neutras e inócuas declarações dele um sinal de “hate speech”, de racismo, de homofobia ou de qualquer outra aparência de delito que lhe permita expô-lo à execração pública como um monstro asqueroso e, se possível, privá-lo de sua liberdade e de seus meios de subsistência. Nas universidades americanas, onde a todo momento se ouvem apelos ostensivos ao assassinato de conservadores, basta um destes ou mesmo um professor apolítico insinuar educadamente que talvez os papéis sociais de homens e mulheres sejam distinções naturais em vez de construções culturais arbitrárias, e pronto: o infeliz está sujeito não somente à acusação de racismo e nazismo, mas, por incrível que pareça, a um processo por “assédio sexual”. Não pensem que é exagero meu ou generalização retórica de casos excepcionais. Os processos dessa natureza se disseminaram de tal maneira que a National Association of Scholars, importante entidade de estudiosos conservadores, está espalhando um apelo dramático a todos os reitores de universidades para que coíbam esse uso abusivo das leis de proteção à mulher. Abusivo, é claro, no entender dos conservadores: para o esquerdista – e não me refiro só à extrema-esquerda — é tão natural farejar crime de assédio sexual numa mera hipótese sociológica exposta em sala de aula quanto enxergar uma ameaça iminente de genocídio homofóbico na simples atitude profissional de um psicólogo clínico que tente ajudar a libertar da compulsão homossexual um paciente que lhe peça, que lhe implore para fazer exatamente isso. Novamente, não estou criando hipóteses no ar: o caso da psicóloga Rozangela Justino é (ou deveria ser) bem conhecido no Brasil. Duzentos anos de deformação pejorativa da imagem do “inimigo” desembocam na perseguição tirânica exercida em nome da proteção contra perigos não só inexistentes como até mesmo impensáveis. Embora o extermínio preventivo de adversários hipotéticos tenha sido a prática mais constante da esquerda nas nações sob o seu domínio, é curiosamente a direita que tem a fama de “paranóia”, de enxergar comunistas embaixo da cama. Paradoxo, sim, mas efeito patente da retórica invertida que mencionei acima.

Em 1 de novembro de 2011

Grande Descoberta

1 de novembro de 2010 | Diário do Comércio

De repente, parece que todas as mentes iluminadas do país descobriram aquilo que os documentos internos do PT, as atas do Foro de São Paulo e centenas de artigos que escrevi a respeito lhes teriam revelado dez ou vinte anos atrás, se consentissem em lê-los e se, malgrado suas profissões nominalmente letradas, não padecessem da obstinada insensibilidade brasileira à palavra escrita.

Brasileiro só acredita no que vê. Não no que vê com os seus próprios olhos (a capacidade de inteligir diretamente da experiência é desconhecida na nossa cultura), mas naquilo que vê na televisão; ou naquilo que ouve da boca das “pessoas maravilhosas”, cujas palavras dão visibilidade até ao inefável. Enquanto uma coisa não aparece no “Jornal Nacional” ou não é confirmada pelo testemunho de meia dúzia de pop stars , ela não existe, ainda que pose ante os olhares do mundo desde o alto do Corcovado ou no meio da Praça da Sé. Nélson Rodrigues falava do “obvio ululante”, mas em vão ululam os fatos mais espalhafatosos na Terra do “Eu não sabia”. Sem o nihil obstat apropriado, até um King Kong político como o Foro de São Paulo permanece abstrato e inacessível como uma hipótese metafísica escrita num papiro desaparecido.

Mas recentemente até Caetano Veloso, Arnaldo Jabor, Hélio Bicudo, Carlos Vereza e Fernando Gabeira saíram gritando, e então as mentes iluminadas se abriram à revelação: descobriram que o PT não é um partido normal, feito para alternar-se no poder com os demais partidos, e sim uma organização revolucionária criada para absorver em si o Estado e remoldá-lo à sua imagem e semelhança. Grande descoberta. Teria sido ótimo fazê-la quando o PT ainda tinha quinze por cento do eleitorado. Hoje ela soa como o verso de Manoel Bandeira, o mais triste do idioma pátrio: “A vida inteira que poderia ter sido e que não foi.”

Almas desencantadas com o esquerdismo revolucionário nunca faltaram no mundo, pelo menos desde a década de 30 do século passado. Uma delas, Ignazio Silone, chegou até a dizer que a batalha política final não seria entre comunistas e anticomunistas, mas entre comunistas e ex-comunistas.

A diferença é que no Brasil de hoje essas almas, ao mudar de partido, não percebem que o fizeram: falam de seus desafetos de agora como se estes não fossem seus ídolos de ontem. Acusam com a inocência de quem não se lembra de ter sido cúmplice nem mesmo por um minuto.

É fenômeno inédito no universo. Por toda parte são célebres os depoimentos de comunistas e “companheiros de viagem” arrependidos: Arthur Koestler, André Gide, David Horowitz, Guillermo Cabrera Infante, Victor Kravchenco, Louis Budenz, Emma Goldmann, Victor Serge, a lista não acaba mais. Em cada um desses casos a decepção política trouxe consigo o impulso de uma revisão do passado, de uma aferição de responsabilidades. Na mais lacônica das hipóteses, vinha a confissão de Humphrey Bogart, que se tornou clássica ao resumir tão bem a vida de milhões de ex-militantes e simpatizantes:

– Eu não era comunista. Era apenas idiota.

No Brasil também se fazia assim. Da legião dos desiludidos com o PCB nos anos 50 – Oswaldo Peralva, Paulo Mercadante, Antonio Paim e tantos outros – nenhum se esquivou, que eu saiba, de pesar sua parcela de colaboracionismo na construção da engenhoca stalinista.

É que naquela época havia intelectuais, pessoas que a aquisição de uma cultura internacional havia libertado dos vícios do meio imediato. Hoje, esses requintes de consciência são coisas do passado. Só o que interessa agora é ficar bem na fita. Os fulanos dão tudo de si para consagrar o mito da santidade da esquerda, acendem mil velas a São Lulinha, aplaudem, lisonjeiam, babam de devoção, e depois, quando o ídolo falha às suas expectativas, saem esbravejando como se fossem vítimas e não co-autores do embuste. Nunca foi tão barato virar herói da noite para o dia.

Não condeno essa gente do ponto de vista moral. Digo apenas que não há política séria onde as opiniões sobre o curso geral das coisas vêm amputadas de toda consciência autobiográfica. Só entendemos a História desde a nossa própria história. Quando o desejo de parecer bonito sobrepuja a necessidade de compreender a vida pessoal no contexto da História e vice-versa, é que, definitivamente, o apego às falsas aparências do momento se tornou uma obsessão psicótica, extirpando das almas o último resíduo de senso da realidade.

Mas, para piorar, não foi esse mesmo culto que consagrou o mito “Lulinha Paz e Amor”? Não foi a ânsia de enxergar virtudes imaginárias numa personalidade mesquinha, oca e vaidosa que levou tantos brasileiros a tapar os olhos ante um passado político no qual o futuro se anunciava da maneira mais clara e evidente? Não foi esse apetite de automistificação que induziu a classe letrada praticamente inteira a crer mais em alegações publicitárias e desconversas interesseiras do que em milhares de páginas de documentos e provas?

De que adianta, agora, repetir o mesmo erro com signo partidário invertido? Ninguém pode tomar uma posição madura ante os fatos da História quando rejeita e encobre os da sua própria vida. Não há futuro para quem foge do passado.

Quem Avisa Amigo E

1 de março de 2010 | Diário do Comércio

Para além dos seus respectivos discursos padronizados de autodefinição ideológica, que nem de longe bastam para esclarecer sua verdadeira substância histórica e à vezes servem antes para camuflá-la, várias diferenças separam no Brasil a direita e a esquerda. Desde logo, esta tem uma história; aquela, não. É incrível como esse fator decisivo passa despercebido aos ilustres analistas políticos da grande mídia e da academia, jumentos empalhados que falam. Ele, por si só, explica muito da atual situação política brasileira: de um lado, uma facção imbuída de forte identidade histórica, sedimentada ao longo de quatro ou cinco gerações pelo contínuo reexame e transmutação do legado recebido em instrumento de ação presente, guiado por uma imagem de futuro sempre renovada e adaptada às circunstâncias. De outro, um farelo de grupos surgidos do nada, da noite para o dia, da mera aglomeração fortuita de indignações ocasionais e interesses inconexos. Uns, ignorando tudo do passado. Outros, ansiosos para renegá-lo ao menos em público, caprichando em demonstrações de bom-mocismo para limpar-se da contaminação de um “ranço autoritário” que nem sabem exatamente o que possa ter sido, mas que, hipnotizados pelo discurso esquerdista dominante, acreditam ser coisa invariavelmente feia. Outros, empenhados em enternecer a esquerda para parecer moderninhos, abdicando de toda identidade própria no front moral e cultural em troca de concessões econômico-administrativas que, embora eles não o saibam, o governo lhes faria igualmente sem isso, pois precisa delas para financiar com o lucro capitalista a construção do poder socialista. Outros, enleados em criar belas formulações doutrinais em juridiquês pomposo, que comovem a população como o cocô dos passarinhos comove um busto de bronze. Outros, por fim, devotados a negar a realidade patente, apegando-se, com mais de uma década de atraso, aos velhos slogans “A Guerra Fria acabou”, “Lula mudou” e similares, que já eram estúpidos quando lançados pela primeira vez e que só serviram para proteger sob um manto de silêncio cúmplice o crescimento do Foro de São Paulo e do seu poder continental. E praticamente todos apostando na força mágica das eleições, como se o afluxo de eleitores às urnas durante algumas horas, de quatro em quatro anos, tivesse mais força que a ação constante, diuturna, incansável, da militância organizada; como se já não soubessem, pelo exemplo de Collor, que a simples eleição de um presidente, sem tropas de militantes para apoiá-lo nas ruas, não passa de um convite ao impeachment ou, no mínimo, à paralisação do governo sob o metralhar incessante das acusações, dos escândalos e dos inquéritos.

Se algo a história jamais desmentiu, é esta regra elementar: quem dura mais, vence.

Dessa diferença essencial decorre uma segunda: a esquerda tem objetivos de longo prazo pelos quais seus combatentes dariam a vida e que em última instância constituem ali o critério de todos os valores, de todas as decisões, ao passo que a direita, sem outro objetivo senão a sobrevivência imediata, se compõe e decompõe ao sabor de impressões de momento, sem ordem nem rumo, bem como de simpatias e antipatias voláteis, de uma futilidade atroz.

E da segunda diferença decorre uma terceira. Na esquerda, os intelectuais têm uma função orgânica, são os formuladores de estratégias gerais que os políticos seguem com uma constância admirável. Já a direita quer intelectuais apenas como propagandistas de idéias prontas – função na qual os cérebros mais fracos e rotineiros são obviamente preferidos aos pujantes e criadores –, com o agravante de que aquelas idéias não são nem idéias, são apenas os preconceitos, ilusões e regras de bom-tom da classe economicamente privilegiada, cuja máxima aspiração é amolecer o coração da esquerda, na vã esperança de que, bem afagada, ela a deixará em paz. Quando o sr. Presidente da República diz que essa gente não tem a mínima perspectiva de poder, está sendo até generoso: a direita brasileira, tomada como conjunto, não tem sequer a mais vaga idéia do que seja a luta política.

Em 1 de março de 2010

A Direita Que A Esquerda Quer

1 de junho de 2009 | Diário do Comércio

Entre outros resultados interessantes que deixarei para comentar outro dia, o estudo dos cientistas políticos Timothy Power e César Zucco, publicado na Latin American Research Review sob o título “Estimating Ideology of Brazilian Legislative Parties, 1990-2005” (v.

http://www.iuperj.br/site/czucco/czucco_files/paperlarr.pdf ), mostra que, enquanto os parlamentares tidos por seus adversários como “de direita” evitam colocar-se sob esse rótulo, os de esquerda, centro-esquerda e centro se autodefinem até como mais esquerdistas do que a posição nominal dos seus partidos deixaria suspeitar.

Esse fato não era desconhecido antes da pesquisa, mas adquire com ela uma certa visibilidade cientifica que tornará mais difícil, doravante, menosprezar-lhe a importância.

As conclusões óbvias que ele impõe, e que os autores do estudo evitam declarar, já que elas transcendem os limites imediatos do que se propuseram investigar, são as seguintes:

1. A esquerda tem o domínio quase absoluto dos mecanismos culturais de estímulo e inibição vigentes nas altas esferas, demarcando a seu belprazer a fronteira entre a decência e a indecência, o orgulho e a vergonha, o mérito e a culpa. Os direitistas apressam-se em submeter-se a essa autoridade moral monopolística, não com passividade e indiferença, mas com uma verdadeira ânsia de ser aprovados por seus adversários.

2. Abdicando de todo critério moral próprio, a direita exclui-se, automaticamente, de qualquer possibilidade de combate na esfera cultural e psicológica, deixando o país à mercê da hegemonia gramsciana e limitando-se à disputa de cargos (o que implica ainda mais subserviência à facção dominante), ou então à discussão de miudezas econômico-administrativas sem nenhum alcance estratégico. O presidente da República disse uma verdade flagrante ao afirmar que os partidos de oposição não têm perspectiva de poder. Eu diria até que ele foi caridoso nesse julgamento: aos partidos de direita não falta só a perspectiva de poder, falta até mesmo a compreensão elementar do que seja o poder, que eles confundem com “cargos”. Imaginar que, com cargos ou sem cargos, seja possível conquistar o poder abdicando da hegemonia, é coisa de uma ignorância tão patética que, mesmo entre os esquerdistas mais empedernidos, deve arrancar lágrimas de comiseração ante adversário tão despreparado e inerme.

3. Mais que definir as regras do jogo, a esquerda cria até mesmo a identidade do adversário, colocando na “direita” quem assim lhe interesse catalogar no momento, passando por cima dos protestos subjetivos do catalogado e ignorando com frieza de femme fatale os afagos e juras de amor com que ele tenta cavar um lugarzinho no grêmio das pessoas decentes, isto é, esquerdistas.

4. O rigor do critério de seleção para o ingresso no círculo dos bons é tão implacável, tão inflexível, que a honra suprema do esquerdismo é negada até a velhos, tarimbados e fiéis militantes de esquerda, tão logo eles cometam a imprudência de entrar num partido que a esquerda, conforme seus interesses do momento, tenha rotulado como de direita.

Pela milésima ou enésima vez, a realidade dos fatos confirma a obviedade proibida: não há política de direita sem uma moral de direita, sem uma filosofia de direita, sem uma cultura de direita, isto é, sem tudo aquilo de que a nossa direita foge esbaforida, como se foge da peste.

Em 1 de junho de 2009

Educar Todo Mundo Nao Funciona

1 de junho de 2008 | Entrevista concedida a Karla Correia

Jornalista, escritor, filósofo, editor do site Mídia Sem Máscara , Olavo de Carvalho é uma das poucas vozes na imprensa assumidamente conservadoras. E vê essa mesma “escassez” do pensamento de direita no ambiente político. Para Carvalho, a direita no Brasil não sabe ser oposição e só tem fortalecido os partidos de esquerda ao tentar copiar suas bandeiras históricas. Também tem empobrecido o debate político ao deixar de ocupar espaço no ambiente acadêmico e de pesquisar referências em outros países, onde o conservadorismo tem voltado a ter força. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao JB.

Há uma certa dificuldade hoje em encontrar movimentos políticos, partidos ou líderes que se proclamem claramente como de direita no Brasil. A direita está envergonhada?

Faz mais de 20 anos que a direita está sendo burra. Estão todos acreditando nessa coisa de roubar as bandeiras do adversário. Como o abortismo. O pessoal de direita pensa em roubar a bandeira do abortismo e vê nisso uma forma de adquirir também o apoio das pessoas que são abortistas. Mas quando faz isso, pensando em uma vantagem imediata, vai apenas reforçar a ideologia de seu oponente. Todo sujeito que se deixa moldar à idéia de seu inimigo, já está derrotado. É a vitória perfeita, Lênin já dizia que a vitória perfeita era obtida sem lutar, o adversário se entrega. Pois eles, a esquerda, conseguiram Como isso aconteceu?

A esquerda adotou uma tática muito inteligente criada pelo Antonio Gramsci, o pensador italiano. Consiste em dominar primeiro todo o universo da cultura, das idéias, da educação, antes de conquistar o poder. Então, esse pessoal durante o regime militar já estava aplicando isso. Ocuparam as universidades, as redações de jornais. De repente, não havia mais idéias conservadoras em circulação. E se você não tem as idéias, as pessoas não tem como se definir. Elas não têm nem como se expressar. Se um político hoje vai se expressar, ele usa a linguagem da esquerda. São burros e presunçosos.

E qual é a primeira conseqüência dessa ocupação?

O poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal dizia que nada está no ambiente político de um país que não esteja primeiro em sua literatura. Porque é do imaginário formado que você tira as idéias. Agora, você estupidificou a cultura superior e, em conseqüência, a política. Veja a que se dedica o governo brasileiro hoje: a destruir o país e a cuidar de futilidades. Ele quer doar um pedaço do território, doou um pedaço da Petrobras para a Bolívia, quer doar um pedaço de Itaipu para o Paraguai. Deixa aí duas ou três cidades à mercê do PCC, que é o mesmo que as Farc. Está entregando tudo. E ao mesmo tempo está preocupado com a perseguição aos gays. Que perseguição, meu Deus do céu?

O senhor fala que a esquerda dominou os espaços acadêmicos e da mídia. O PT diz a mesma coisa.

Quais são os autores conservadores que escrevem na imprensa brasileira? Eu cito dois: eu e o Reinaldo Azevedo. E só. A esquerda ocupa todos os espaços, manda em tudo, depois briga com ela mesma e fica fazendo choradeira de que está sendo atacada pelos direitistas. Mas o que eles chamam de direita é o que? O PSDB? Ouça o discurso do José Serra. Veja o que o Fernando Henrique fez. Ele praticamente criou o MST com o dinheiro do Estado.

O PSDB é um expoente de direita?

É o máximo de direita que se admite no país, hoje. É o PSDB, a social-democracia, que é a mais velha tradição da esquerda. A verdadeira direita sumiu do Brasil.

Não tem um líder, um expoente conservador que mereça destaque no País?

Dom Bertrand é um grande estadista. Pergunte de qualquer assunto brasileiro para ele e ele conhece tudo e nunca teve um cargo público na vida. E sem ter pretensão, ele não é nem o príncipe herdeiro, faz isso por interesse pelo Brasil. Se ele se candidatasse, eu votava nele na hora.

E no Congresso?

Não consigo pensar em ninguém.

O pouco espaço ocupado pelo conservadorismo faz do brasileiro um povo liberal?

O brasileiro é essencialmente um conservador. É um povo religioso, que acredita na família, no trabalho. Mas não é de perseguir ninguém, então passa essa imagem de liberal. Uma coisa é a crença que o brasileiro tem. Outra é o sentimento que ele nutre pelos outros seres humanos. Claro que existem malucos em qualquer lugar do mundo, você pode pensar no movimento skinhead... mas são quantos em uma população de 180 milhões de habitantes?

O brasileiro é cordial mas se identificou muito com o Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite.

O brasileiro está aterrorizado pelo crime. Cinqüenta mil homicídios por ano são duas guerras do Iraque por ano. É uma coisa brutal, as pessoas estão é conformadas até demais. O pessoal vê o filme com o capitão Nascimento dando porrada em bandido e pensa que é isso que tem de fazer. Eles querem alguém que tome uma providência.

Qual seria o programa de um governo de direita no Brasil, hoje?

Em primeiro lugar, ele teria um enfoque moral, religioso e tradicional. São valores e princípios gerais, veja bem, o governo não pode se meter a ser o grande moralista. O governo não deve educar ninguém nesse aspecto, são as entidades religiosas que devem se fortalecer e atuar. Em segundo lugar, a economia de mercado, que é a única que funciona. Não tem esse negócio de socialismo, intervenção do governo no mercado, isso não funciona. É só o governo meter a mão que a coisa vai para trás. Terceiro é educação clássica. Você tem que primeiro formar uma elite intelectual capaz de educar o restante do país. O governo vem com essa história de educar todo mundo, mas isso não funciona. Não é possível.

A educação então não deve ser para todos?

Não. Educação é um processo irradiante, que vai por círculos concêntricos. Você educa dez, que educam cem, que educam mil, que educam um milhão e vai assim.

Nem ao menos cuidar de erradicar o analfabetismo?

Isso não adianta. Você vai investir um dinheiro maluco nisso e os caras vão sair todos analfabetos funcionais. Porque se você não cria uma tradição de educação, a educação não pega. Se você não tem essa tradição, não tem o amor à cultura, ao conhecimento. A educação deve ser muito séria e começar por uma elite, que vai irradiando esse valor. Quem vai dar a educação para todos? A educação que se dá ao povo hoje não deveria ser dada a ninguém. Oferecer essa educação para meia dúzia de pessoas é um insulto. Para milhares, é um crime.

Qual o maior problema do atual governo federal?

A Direita Permitida

1 de julho de 2000 | Zero Hora

Quando você ouvir dizer que “Direita e esquerda são noções ultrapassadas”, repare bem e notará que em geral a frase vem da boca de algum senhor satisfeito e de unhas polidas, que corresponde esquematicamente àquilo que no imaginário comunista constitui um “burguês”. Ela é, com efeito, um lugar-comum da “direita”. Pelo menos um esquerdista contumaz diria que o é — e eu não hesitaria em lhe dar razão, com a ressalva de que aí não se trata da direita em geral, da direita essencial que se encarnou historicamente em Edmund Burke, em Disraeli, em Aléxis de Tocqueville, em T. S. Eliot ou em João Camilo de Oliveira Torres, mas de uma direita muito específica, localizada e até peculiar: a direita brasileira de hoje, constituída inteiramente de senhores satisfeitos e de unhas polidas, cuja única preocupação na vida, além de absorver rios de dinheiro para engordar e dispender rios de dinheiro para emagrecer, é precisamente não se preocupar com nada.

Além de poder ser facilmente identificado pela mencionada palavra-de-passe, o membro dessa facção ideológica assinala-se também por autodenominar-se “centro”, um termo cuja exatidão se pode aferir matematicamente pela equidistância do seu umbigo a qualquer ponto da majestosa circunferência abdominal que delimita, por assim dizer, a sua substância espiritual.

Se, munido desses dois indícios, o leitor ainda tiver alguma dificuldade para distinguir o tipo, há um terceiro critério, que não falha: o componente desse partido notabiliza-se pela absoluta inexistência, no seu ser consciente, de qualquer conflito entre a tranquilidade soberana com que ele nos assegura que o comunismo morreu e a solicitude temerosa com que busca aplacar as exigências do falecido mediante polpudos cheques para projetos educacionais de doutrinação esquerdista, para a campanha do PT, para prêmios culturais dados aos ídolos da esquerda.

Visto da esquerda, esse é o direitista ideal, o direitista que os comunistas pediram – ou pediriam, se fossem crentes — a Deus. Além de alimentar com sua conta bancária os empreendimentos da revolução em marcha e protegê-los sob o manto de invisibilidade das almas do outro mundo, ele ainda consente em oferecer sua própria pessoa como máximo exemplo comprobatório do argumento comunista, desempenhando de bom grado o papel do gorducho fominha, a imagem didática do burguês enfatuado, egoísta e interesseiro, que o doutrinador marxista pode, com a certeza do fácil sucesso oratório, exibir a boquiabertos militantes como protótipo do inimigo odioso e desprezível a ser varrido da face da terra pela revolução salvadora.

Outra vantagem indiscutível que a rotunda presença desse personagem na ala direita do palco oferece aos ocupantes da ala contrária é que, uma vez identificado o seu perfil com o da direita enquanto tal, qualquer direitista um pouco diferente dele que se apresente, por exemplo, um direitista honrado, cheio de idéias, que prefira antes defender valores morais do que representar alegremente o papel do palhaço da história, acabará parecendo um tipo estranho, não terá como ser catalogado e facilmente será expelido para o domínio do anormal, do inaceitável, do absurdo. Não havendo nome específico para isso no vocabulário corrente, o jeito será apelar à ampliação quantitativa e carimbá-lo: “Extrema-direita”. Hoje em dia, com efeito, basta você dizer qualquer coisa que saia dos lugares-comuns da direita gorda sonsa, basta você fazer qualquer crítica mais séria ao discurso dominante – basta você dizer, por exemplo, que ser “gay” não é tão valioso quanto ser santo –, e pronto: todos respondem que você é o Le Pen em pessoa, se não Benito Mussolini ou Adolf Hitler. Não estou caricaturando: estou descrevendo coisas que se passam todos os dias nos jornais e nas universidades.

Eis então a direita reduzida à opção entre fazer o papel de bode expiatório ou ser chamada de fascista, de nazista, de virtual assassina de negros, índios e judeus (embora ela esteja repleta de judeus, negros e descendentes de índios). Como ninguém quer fazer esse papel vexaminoso, todos se apressam em vestir seu uniforme de gorduchos fominhas e a sair repetindo pelas ruas: “Sou de centro! Sou de centro!”

Aí a esquerda deixa você existir: o gorducho, afinal, está aí apenas para ser roubado, cuspido e ainda acusado de corrupção. Qualquer direita que não caiba nesse modelo é nazismo.

O próprio termo “direita” foi tão criminalizado, que hoje um brasileiro, viajando pela Europa, se surpreende ante a tranqüilidade com que um Paul Johnson, um Roger Scruton se apresentam como direitistas e na platéia ninguém tem chilique, nem os confunde com Le Pen. Sim, na Europa a direita se mostra e não é considerada pornográfica. No Brasil, quando ela aparece, as mães cobrem os olhos de seus filhos.

O controle sobre o uso do vocabulário público é um dos instrumentos mais eficientes e mais perversos do arsenal criado pela estratégia de Antonio Gramsci para o estabelecimento da hegemonia – o domínio hipnótico das consciências – e a subseqüente tomada do poder pela esquerda revolucionária.

Uma direita inerme e caricatural que não ousa dizer seu nome, uma direita incapaz de escolher seu próprio destino, uma direita condenada a desempenhar os papéis ora ridículos ora odiosos que seus inimigos lhe designaram, é o produto mais típico da hegemonia esquerdista triunfante.

Em 1 de julho de 2000

Marxismo Esoterico

1 de janeiro de 2004 | Jornal da Tarde

Quando digo que o marxismo é uma “cultura”, está aí implícito que compará-lo a uma “religião” é abusar de uma analogia. Essa analogia só funciona, em parte, se por “religião” se entendem os primitivos complexos mitológicos em que crenças, ritos, governo e sociedade se fundiam numa totalidade inseparável. As religiões universais são por excelência transportáveis para fora da sua cultura originária, e o são, precisamente, porque nelas o depósito inicial da revelação se transmuta numa formulação teológico-dogmática racional com pretensões de verdade universal, a qual se oferece para ser validada ou impugnada no plano do exame teorético. Já o marxismo não admite de maneira alguma ser discutido nesse plano, porque a essência do seu conteúdo intencional, como já expliquei, não está expressa em discurso, mas imbricada organicamente, como um segredo mudo, no tecido da prática revolucionária, do qual deve ser desentranhada por meio de sutis mutações de significado, procedimento esotérico cuja autoridade transcende a dos escritos do próprio Marx.

Antonio Negri, escrevendo em 1994 sobre uma discussão com Norberto Bobbio, afirma:

“Para Bobbio, uma teoria marxista do Estado só poderia ser aquela que derivasse de uma cuidadosa leitura da obra do próprio Marx. Para o autor marxista radical (Negri) , no entanto, era a crítica prática das instituições jurídicas e estatais desde a perspectiva do movimento revolucionário — uma prática que tinha pouco a ver com filologia marxista, mas pertencia antes à hermenêutica marxista da construção de um sujeito revolucionário e à expressão do seu poder. Se havia algo em comum entre Bobbio e seu interlocutor era que ambos consideravam o socialismo real um desenvolvimento amplamente externo ao pensamento marxista.”

De um lado, o marxismo não consiste nas formulações expressas de Marx, mas transmuta-se na “construção de um sujeito revolucionário” . De outro, também não se identifica com o “socialismo real”, isto é, com a situação historicamente objetiva produzida por essa mesma construção. Mas, se o “verdadeiro” marxismo não está nem no projeto nem no edifício, nem nas intenções da teoria nem nos resultados da prática, onde está então? Está no trajeto, no processo em si. Está nas profundezas ocultas e moventes da praxis , veladas a seus protagonistas e agora em parte desveladas pelo tirocínio hermenêutico do sr. Negri, para grande surpresa de seus predecessores que se imaginavam marxistas. Longe de ser uma religião dogmática apegada à letra da revelação, o marxismo é um fluxo esotérico de símbolos em movimento perpétuo cujo sentido só vai se revelando ex post facto , cada nova geração provando que os ídolos revolucionários de ontem não eram revolucionários e sim traidores, como numa Igreja auto-imunizante em que a primeira obrigação de cada novo Papa fosse excomungar o antecessor. Compreende-se o risco temível de discutir com marxistas. Você tem um trabalho medonho para vencê-los, só para depois aparecer alguém alegando que, da derrota deles, o marxismo saiu não somente incólume, mas engrandecido.

Nessa linha, o sr. Negri afirma que “uma crítica muito radical do direito e do Estado tinha se desenvolvido no curso do processo revolucionário e tinha sido reprimida nas codificações e constituições da União Soviética e do ‘socialismo real’” . Num estalar de dedos, a máxima realização histórica do movimento socialista se torna o seu contrário: a repressão do socialismo. Mas, com a mesma desenvoltura com que se isenta de responsabilidade por suas ações, a “prática revolucionária” atribui a si própria os méritos de seus inimigos: na perspectiva do sr. Negri, o “conjunto de lutas pela libertação que os proletários desenvolveram contra o trabalho capitalista, suas leis e seu Estado” abrange “desde o levante de Paris em 1789 até... a queda do muro de Berlim” . A leitura esotérica transmuta a derrocada do comunismo em rebelião anticapitalista.

Como raciocínio filosófico, científico, dogmático ou mesmo ideológico, não faz o menor sentido. Como argumento retórico, é ridículo. Como trapaça, é pueril demais. Mas, como operação de emergência para a salvação da unidade cultural ameaçada, faz todo o sentido do mundo. As culturas são a base da construção da personalidade de seus membros, que desmorona junto com elas. A defesa da cultura é uma urgência psicológica absoluta, que justifica o apelo a medidas desesperadas Em 1 de janeiro de 2004

Por Que Alguem Gosta Do Foro De Sao Paulo

1 de agosto de 2013 | Opera Mundi

A propósito do XIX Encontro da coordenação estratégica do movimento comunista no continente, um sr. Breno Altman indaga no “Opera Mundi” de 31 de julho, com ares de perplexa indignação: “Por que a direita odeia o Foro de São Paulo?” A resposta, como não poderia deixar de ser em obra de tão criativa inteligência, vem pronta, copiada de qualquer manual de marxismo-leninismo: é “ódio de classe”, é a maldita burguesia inconformada de que após a queda da URSS o socialismo não morresse, mas prosperasse de vitória em vitória.

O próprio sr. Altman reconhece, no entanto, que nenhum sinal de hostilidade ao Foro se viu na “grande mídia”, porta-voz por excelência da “burguesia” segundo o ensinamento esquerdista repetido em todas as escolas. Em vez disso, os protestos direitistas, vindos de “grupos de distintos naipes” (sic), pipocaram por toda parte na blogosfera. Nem de longe ocorreu a esse gênio da estupidez perguntar por que raios a burguesia enraivecida, em vez de fulminar o Foro de São Paulo pelos possantes meios de comunicação de massas que ela mesma possui e comanda, preferiu sussurrar seu “ódio de classe” em blogs raquíticos de alcance limitado e orçamento nulo, como por exemplo o “Mídia Sem Máscara”, que sobrevive das rebarbas do meu salário.

Muito menos notou o arguto mentecapto que, inversa e complementarmente, a sua própria opinião, em vez de ocultar-se em tão paupérrimas e frágeis publicações de quintal, brilha num site protegido pelo bilionário Grupo Folha e subsidiado pela Petrobrás, empresa onde uma parte substantiva da nossa burguesia investe o seu querido capital.

Com toda a evidência, as respectivas “ideologias de classe”, no caso, não correspondem à posse ou falta de posse dos meios de produção. Estão sociologicamente invertidas. Mas no Brasil de hoje isso é normal entre intelectuais de esquerda (e suponho que o sr. Altman se creia um deles): sendo incapazes de discernir sua própria posição de classe, e sentindo-se inibidos de perguntá-la ao papai ou à mamãe, encontram alívio de tão angustiante desorientação inventando estereótipos amáveis e detestáveis e os vestem em quem bem desejem, acreditando que com isso estão fazendo análise sociológica.

É assim que os pés-rapados da blogosfera se transmutam na “burguesia” e os potentados da Folha e da Petrobrás no povão oprimido.

A resposta do sr. Altman vale o que vale o seu conhecimento das classes sociais no Brasil.

Mas, antes mesmo disso, a pergunta mesma já veio errada.

Ao longo de duas décadas e picos, o Foro de São Paulo acumulou uma folha de realizações que ninguém deveria ignorar:

1) Deu abrigo e proteção política a organizações terroristas e a quadrilhas de narcotraficantes e seqüestradores que nesse ínterim espalharam o vício, o sofrimento e a morte por todo o continente, fazendo mesmo do Brasil o país onde mais cresce o consumo de drogas na América Latina.

2) Ao associar entidades criminosas a partidos legais na busca de vantagens comuns, transformou estes últimos em parceiros do crime, institucionalizando a ilegalidade como rotina normal da vida política em dezenas de nações.

3) Burlou todas as constituições dos seus países-membros, convidando cada um de seus governantes a interferir despudoradamente na política interna das nações vizinhas, e provendo os meios para que o fizessem “sem que ninguém o percebesse”, como confessou o sr. Lula, e sem jamais ter de prestar satisfações por isso aos seus respectivos eleitorados.

4) Ocultou sua existência e a natureza das suas atividades durante dezesseis anos, enquanto fazia e desfazia governos e determinava desde cima o destino de nações e povos inteiros sem lhes dar a mínima satisfação ou explicação, rebaixando assim toda a política continental à condição de uma negociação secreta entre grupos interessados e transformando a democracia numa fachada enganosa.

5) Gastou dinheiro a rodo em viagens e hospedagens para muitos milhares de pessoas, durante vinte e três anos, sem jamais informar, seja ao povo brasileiro, seja aos povos das nações vizinhas, nem a fonte do financiamento nem os critérios da sua aplicação. Até hoje não se sabe quanto das despesas foi pago por organizações criminosas, quanto foi desviado dos vários governos, quanto veio de fortunas internacionais ou de outras fontes. Nunca se viu uma nota fiscal, uma ordem de serviço, uma prestação de contas, um simulacro sequer de contabilidade. A coisa tem a transparência de um muro de chumbo.

Diante desses fatos, perguntar por que alguém odeia o Foro de São Paulo é perguntar por que a chuva molha ou por que as vacas dão leite em vez de botar ovos.

É pergunta idiota de quem se faz de desentendido porque tem algo, e muito, a ganhar com uma cínica afetação de inocência.

O que toda inteligência normal e honesta deve perguntar, diante das obras e feitos do Foro de São Paulo, é, isto sim, como é possível alguém, sem ser parte interessada, gostar de uma porcaria dessas.

Falando As Pedras

1 de agosto de 2008 | Diário do Comércio

Logo após a divulgação do “dossiê Brasil” na revista colombiana Cambio , confirmando tudo aquilo que há anos venho dizendo sobre a aliança PT-Farc, o chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, saiu alardeando que não tem qualquer “ligação estreita” com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e que o governo brasileiro “tem zero de relação com as Farc”.

Não preciso contestar a dupla mentira. Já o fiz, com muita antecedência, no artigo “Simbiose obscena”, publicado em O Globo de 7 de fevereiro de 2004, no qual remetia os leitores “ao site http://www.nodo50.org/americalibre/consejo.htm para que vejam com seus próprios olhos a obscena simbiose entre a narcoguerrilha colombiana e a farsa petista que nos governa”.

“O endereço – prosseguia o artigo – é de América Libre , versão jornalística do Foro de São Paulo, fundada por (adivinhem) Frei Betto e hoje dirigida por (já adivinharam) Emir Sader. A revista prega abertamente a guerra revolucionária, a implantação do comunismo em toda a América Latina. Seu mais recente editorial proclama: ‘O 11 de setembro dos povos será, para a confraria da América Livre, um compromisso de honra. Será um encontro com os sonhos e com o desejo.’ Da primeira à última página, a coisa respinga sangue e ódio, de mistura com a velha retórica autodignificante que faz do genocídio comunista uma apoteose do amor à humanidade, condenando como fascista quem quer que veja nele algo de ruim. Na mesa do seu Conselho Editorial, quem se senta ao lado do líder das Farc, comandante Manuel Marulanda Vélez, o famigerado ‘Tiro Fijo’? Nada menos que o chefe de gabinete do sr. Lula, Gilberto Carvalho. Está lá também o deputado Greenhalg... Se isso não é promiscuidade, se isso não é cumplicidade por baixo do pano entre o nosso governo e o crime organizado, se isso não é uma tramóia muito suja, digam-me então o que é, porque minha imaginação tem limites. Estão lá ainda o dr. Leonardo Boff, o compositor Chico Buarque de Hollanda, ... e o inefável prof. Antônio Cândido...” (v.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/040207globo.htm ).

Era o primeiro escalão inteiro da elite intelectual petista que, ao lado do próprio chefe do gabinete presidencial, conspirava ativamente com as Farc, com o MIR chileno e com outras organizações criminosas para a implantação do regime comunista no continente. Se os políticos ditos “de oposição”, os donos de jornais e canais de TV, os líderes empresariais, eclesiásticos e militares tivessem então consentido em examinar o documento que eu lhes exibia, não seria preciso, agora, uma revista colombiana lhes esfregar a verdade na cara, tarde demais para evitar a consolidação da quadrilha petista-farqueana no poder.

Na verdade, nem precisavam das minhas advertências. Em 7 de dezembro de 2001, o Foro de São Paulo, sob a presidência do sr. Luís Inácio Lula da Silva, já havia lançado um manifesto de apoio incondicional às Farc, no qual classificava como “terrorismo de Estado” as ações militares do governo colombiano contra essa organização. A mídia inteira e todas as lideranças políticas nacionais, sem exceção visível, abafaram esse fato para não prejudicar a candidatura Lula uns meses depois. Logo após o pleito de 2002, a existência de um conluio entre o presidente eleito e a esquerda radical latino-americana já se tornara ainda mais nítida pela duplicidade de línguas com que o homem falava para o público em geral, ante as câmeras, e para seus companheiros de militância comunista. Como mais tarde anotei em artigo do Jornal do Brasil ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/060413jb.html ): “Enquanto a mídia local celebrava a lisura do pleito, o vencedor confessava ao Le Monde que a eleição tinha sido ‘apenas uma farsa, necessária à tomada do poder’, sendo confirmado nisso pelo sr. Marco Aurélio Garcia em declaração ao jornal argentino La Nación de 5 de outubro de 2002.” Em qualquer país decente, confissões abertas como essas suscitariam imediatamente uma tempestade de investigações e denúncias. No Brasil, foram recebidas com uma afetação de indiferença blasée por todos aqueles a quem, no fundo, elas aterrorizavam. Poucas condutas humanas se igualam, em baixeza, à covardia que começa por se camuflar de impassibilidade olímpica e, pela persistência, acaba por se transformar em cumplicidade ativa. Mas essas criaturas haviam investido tão pesado no slogan anestésico “Lula mudou”, que, para não reconhecer o erro, preferiram dobrar, triplicar e quadruplicar a aposta na mentira, até que contestá-la se tornasse, como de fato se tornou, prova de doença mental.

Graças a essa longa e pertinaz conspiração de omissões, a esquerda revolucionária teve todo o tempo e a tranqüilidade que poderia desejar para alterar o mapa do poder político brasileiro ao ponto de torná-lo irreconhecível. Quem manda no Brasil, hoje? Um bom indício é a propriedade da terra. Seis por cento do território nacional pertencem a estrangeiros, dez por cento ao MST, outros dez a “nações indígenas” já sob controle internacional informal, quinze ou vinte são controlados pelos narcotraficantes locais aliados às Farc, mais dez ou quinze estão para ser transferidos aos “quilombolas”. Na área restante, só os imensamente ricos conseguirão cumprir a exigência de “averbar reserva legal” (leiam o odioso decreto 6.514 de 22 de julho de 2008), os demais sendo obrigados a pagar multas que em breve tempo ultrapassarão o valor das suas propriedades, as quais então serão transferidas automaticamente ao governo. O que está acontecendo neste país é a mais vasta operação de confisco territorial já observado na história humana desde a coletivização da agricultura na URSS e na China – e as chamadas “elites”, sentadas sobre esse paiol de pólvora, com um sorriso amarelo na boca, só querem dar a impressão de que a paz reina, as instituições são sólidas e São Lulinha zela pelo bem de todos.

Outro indício seguro da distribuição do poder é a capacidade de mobilização das massas. Somem os partidos de esquerda, o MST, as centrais sindicais, as “pastorais de base” e porcarias semelhantes, e verão que, no instante em que quiser, a esquerda revolucionária tem condições de espalhar nas ruas não menos de cinco milhões de militantes enfurecidos, treinados para toda sorte de agitações e depredações, sem que o outro lado possa sequer reunir cinco dezenas de gatos pingados numa cerimônia religiosa. Consolidado pela omissão pusilânime de todos os que teriam o dever de impedir que ele se consolidasse, o monopólio esquerdista dos movimentos de massa marca a distância entre onipotência absoluta e impotência total e é, por si, um retrato do que o futuro reserva ao país.

Mas as organizações de esquerda têm algo mais que isso: têm, através das centrais sindicais, dos partidos e de uma rede imensurável de organizações militantes, o controle absoluto e incontestável de todos os serviços essenciais: transportes, eletricidade, água, telefonia. A um estalar de dedos, a liderança revolucionária pode paralisar o país inteiro, sem que a polícia ou mesmo as Forças Armadas tenham sequer a condição de dizer “ai”.

Mais ainda do que sua extensão descomunal, o que é notável nesse sistema de dominação é a sua integração, a sua unidade estratégica e funcional. As Farc não estão infiltradas só nos altos escalões da República: elas dominam também os “bas-fonds” da criminalidade, através de seus contatos com o PCC e o Comando Vermelho, por sua vez estreitamente articulados com o MST e organizações congêneres. De alto a baixo, a sociedade brasileira está à mercê da subversão e do crime.

Nada disso surgiu da noite para o dia. Tudo foi preparado e montado pouco a pouco, metodicamente, desde o advento da Nova República, diante dos olhos cegos e cérebros entorpecidos da liderança “direitista”, cuja preocupação predominante ou única, ao longo da construção desse engenho macabro, foi tapar as bocas dos inconvenientes que ousassem perturbar suas boas relações com o governo.

A Mentira Total

09 de março de 2003 | Zero Hora

Ao longo de 37 anos de experiência com os comunistas, nunca topei com alguma denúncia anti-americana ou anticapitalista que, bem examinada, não se revelasse uma farsa completa e um primor de maquiavelismo. Mas às vezes digo isso e as pessoas me respondem apenas: “Você não examinou todas.”

É claro que não examinei. Nenhum ser humano poderia fazê-lo. Dos 500 mil funcionários da KGB, pelo menos a quinta parte trabalhava em propaganda e desinformação, com milhões de ajudantes em todo o mundo. Nenhum governo, partido ou organização anticomunista teve jamais um aparato de propaganda que se aproximasse, nem em sonhos, dessa monstruosidade kafkiana. Qualquer tentativa de equiparar essa coisa com a CIA é ridícula. O orçamento da KGB — sem contar a espionagem militar soviética ou equivalentes chineses — superava o de todos os serviços secretos ocidentais somados. E a moderna e flexível organização em “redes” que a esquerda mundial substituiu às rígidas estruturas partidárias depois da queda da URSS é ainda mais vasta que a KGB. Daí as “marchas pela paz”. Em contrapartida, quase todo mundo ignora que até a II Guerra, 28 anos depois da fundação da Tcheka (antecessora da KGB), os EUA nem sequer tinham um serviço secreto permanente para atuar no Exterior. Para ter uma idéia da diferença que isso faz, basta notar que por volta de 1925 a KGB já tinha sob seu controle as pricipais lideranças intelectuais do Ocidente (há centenas de livros a respeito, mas o melhor ainda é “Double Lives” de Stephen Koch), enquanto a primeira iniciativa anticomunista séria no campo cultural veio só em 1955 com o Congresso pela Liberdade da Cultura, organizado pela CIA em Berlim Ocidental em resposta a um evento muito mais luxuoso que a KGB montara no Hotel Waldorf Astoria, em Nova York.

Para ficar mais perto, aqui mesmo em Porto Alegre, comparem o orçamento do Fórum Social Mundial com o do Fórum da Liberdade e verão como os esquerdistas que se fazem pobrezinhos em luta contra os poderosos estão mentindo. Eles é que são os ricos e poderosos. A desproporção de forças é brutal.

Para complicar ainda mais as coisas, a propaganda comunista jamais teve a preocupação de coerência, desde que Pavlov, na década de 20, descobriu que a estimulação contraditória fomentava a credulidade das massas. O Partido Comunista jamais se inibiu de fazer ao mesmo tempo campanhas nacionalistas e globalistas, pró-judaicas e antijudaicas, ou de simultaneamente incentivar a criminalidade e acusar o capitalismo de ser uma anarquia propícia ao crime. Vindo de lados diversos, o bombardeio de mentiras parecia ainda mais espontâneo, portanto mais confiável.

Tudo isso já era assim no tempo de Stalin. Com a flexibilização em “redes”, a confusão proposital tornou-se mais desnorteante ainda, ao mesmo tempo que as verbas de propaganda soviéticas eram vantajosamente substituídas pelo dinheiro do narcotráfico, de mega-empresas de fachada, dos organismos internacionais superlotados de comunistas.

Por isso ninguém nunca examinou nem examinará criticamente nem mesmo uma parcela insignificante da mentira comunista. O tamanho da máquina que a produz já se tornou inabarcável por qualquer descrição humana. Transcendeu a esfera da política, ganhou dimensões civilizacionais: é a civilização da mentira total.

Em 9 de março de 2003

Confusao E Erro

09 de maio de 2008 | Diário do Comércio

Quando o governo americano resolveu apostar em Lula como freio para as pretensões de Hugo Chávez, o resultado era mais que previsível: sob uma cortina de sorrisos tranqüilizantes estendida pelo presidente brasileiro, a esquerda revolucionária latino-americana teria campo livre para crescer e dominar mais meia dúzia de países, sem que o Departamento de Estado opusesse a isso senão alguns resmungos anti-chavistas períodicos, pro forma e totalmente inofensivos.

Escrevi que isso ia acontecer, e aconteceu.

O simples fato de que a sra. Condoleezza Rice e o presidente Bush concentrassem seus temores na pessoa de Hugo Chávez, em vez de reparar na monstruosa articulação continental de esquerda montada pelo próprio Lula no Foro de São Paulo, já manifestava uma opção preferencial pela miopia, uma necessidade obsessiva de concentrar-se num detalhe para não enxergar o todo.

O CFR, Council on Foreign Relations , foi manifestamente culpado de fomentar esse monstruoso erro de avaliação, ao emprestar sua prestigiosa tribuna para que os srs. Luiz Felipe de Alencastro e Kenneth Maxwell negassem a existência do Foro de São Paulo, numa época em que as atas das assembléias dessa organização já estavam publicadas e à diposição de qualquer estudioso honesto. Um órgão da envergadura do CFR simplesmente não tem o direito de alimentar o governo com falsa informação, pois está consciente de que sua palavra é ali ouvida com reverência e temor.

Mas agora sabemos que o erro teve uma segunda origem ainda mais escandalosa: foi o próprio Lula que em 2005 ofereceu ajuda ao governo americano para “acalmar Chávez”. O emissário escolhido para levar a oferta já constituia, pela singularidade da sua pessoa, a prova mais patente de que não havia na proposta senão o intuito de acalmar, isto sim, o governo dos EUA, para que não prestasse atenção ao Foro de São Paulo e ao crescimento do seu poder avassalador. O portador não foi outro senão o então ministro José Dirceu, cuja lealdade à ditadura cubana — e portanto ao Foro de São Paulo, que é uma extensão dela — não advem só de sua imensa dívida pessoal para com o regime que o transformou de militante de segunda classe em comandante da esquerda armada brasileira, mas deve-se também a um laço de ordem profissional, de vez que o referido é oficial do serviço secreto militar cubano (um cargo ao qual o prefixo “ex”, quando não se trata de pessoa exilada, presa ou falecida, só pode ser acrescentado a título de desinformação ou de piada).

Um indício ainda mais direto de que se tratava de presente de grego foi fornecido pelo próprio José Dirceu, ao declarar à sra. Rice, na ocasião, que não havia nenhuma ligação entre Hugo Chávez e as Farc — ligação que hoje está mais que provada e que ele então não podia ignorar de maneira alguma.

Um terceiro fator que contribui para nublar a visão que o governo americano tem da política de Lula é a presteza e alegria com que este último cede às injunções dos investidores estrangeiros, dos bancos internacionais e do globalismo em geral. Como a relação entre esses poderes e o governo americano é ambígua e nebulosa, Lula pode parecer amigo dos EUA só por ser, mais que amigo, servo do esquema globalista, ao qual não hesitou em tentar ceder um estado inteiro da federação, a título de “república indígena”, só sendo impedido de fazê-lo pela reação patriótica das Forças Armadas brasileiras. Jornalistas a serviço desse esquema vendem a imagem de que um Lula globalista é, por definição, um parceiro dos EUA. Mas, se globalismo e interesse nacional americano fossem a mesma coisa, ninguém proporia algo como o Tratado da Lei do Mar, a sujeição dos presidentes americanos ao Tribunal Penal Internacional ou a dissolução dos EUA numa “Comunidade Norte-Americana”. A confusão, neste caso, é proposital. Mas isso só deveria constituir um motivo a mais para que um presidente americano sensato jamais caísse nela.

Em 9 de maio de 2008

A Direita A Servico Da Esquerda

09 de abril de 2007 | Diário do Comércio

Dentre as muitas coisas verdadeiras ditas pelo sr. Fernando Henrique Cardoso entre uma mentira e outra, esta merece a maior atenção:

“Não existe direita no Brasil, no sentido clássico do conceito... O pensamento conservador filia-se a uma tradição ocidental que estabelece como pilares da ordem a família, a propriedade, os costumes. O nosso conservadorismo não é nada disso. Tem a ver com clientelismo, patrimonialismo, uso indevido dos recursos do Estado. Ele não é composto de um ideário, e sim de aproveitadores. Por que a ‘direita’, no Brasil, apóia todos os governos, não importa qual? Na história recente, ela apoiou os militares, apoiou o Sarney, apoiou o Collor, apoiou a mim, apóia o Lula. Porque seus integrantes não são de direita. Essa gente toda só quer estar perto do Estado, tirar vantagens dele.”

Só faltou ele acrescentar – e por isso acrescento eu – que esse é o mais grave problema do Brasil. Desde logo, só a economia capitalista pode gerar prosperidade, mas o sucesso dessa economia depende diretamente da conduta da classe capitalista. Ora, é precisamente a essa classe que o ex-presidente se refere. Se ela própria insiste em se tornar dependente do Estado, por interesses imediatistas e pela relutância covarde em se expor plenamente aos riscos da livre concorrência, ela condena o capitalismo brasileiro à atrofia perpétua. Não tem sentido um sujeito prosternar-se ante a autoridade governamental e depois reclamar que ela o oprime com sobrecarga de impostos e de exigências burocráticas. Se você quer independência, tem de agir com independência. No Brasil os ricos gritam “Enxuguem o Estado!”, mas querem continuar nadando na piscina das verbas oficiais. Assim não dá.

Mas os efeitos da subserviência capitalista ao Estado vão muito além da esfera econômica. O exemplo da classe rica se propaga por toda a população e a corrompe, fazendo de cada cidadão um virtual pedinte de dinheiro público. O brasileiro não sonha em enriquecer com trabalho, poupança e investimento, mas em chegar o mais rápido possível à aposentadoria. E ele não pensa assim por ser preguiçoso, mas porque sua poupança é comida pelos impostos e a única forma de investimento que resta ao seu alcance são as contribuições previdenciárias. O Brasil não é uma potência capitalista porque preferiu ser antes um imenso Instituto de Previdência. Os efeitos psicológicos dessa situação são devastadores: se o objetivo da vida é a aposentadoria, o trabalho não é o caminho da prosperidade e da auto-realização, mas uma incomodidade temporária que deve ser removida o mais rápido possível. Então o desleixo e a incompetência tornam-se não apenas direitos, mas até deveres: como o trabalho não tem nenhuma outra finalidade senão ser abolido o quanto antes, o trabalhador esforçado é visto como um vaidoso pedante ou como um puxa-saco do patrão.

Estragando a população em geral pelo mau exemplo, a acomodação capitalista no seio da burocracia corrompe ainda mais os políticos. Corrompe-os por três lados ao mesmo tempo:

1. Os que são seus amigos tornam-se ipso facto agentes de negócios, captadores de recursos estatais para financiar – ou salvar – empresas privadas.

2. Os inimigos, temporariamente excluídos da mamata, sentem-se investidos do direito de multiplicá-la em proveito próprio tão logo cheguem ao poder e imaginam-se, por essa mesma razão, as pessoas mais honestas do mundo. Quando, na CPI dos Anões do Orçamento em 1993, os petistas vociferavam contra “o Estado dentro do Estado”, referindo-se hiperbolicamente a vulgares negociatas entre empreiteiros e parlamentares, ao mesmo tempo que já iam preparando o futuro Mensalão – este sim um verdadeiro Estado dentro do Estado –, não tenho a menor dúvida de que ao menos inconscientemente identificavam a justiça social com a distribuição igualitária do direito de roubar. Por isso mesmo não sentem hoje a menor dor na consciência por tudo aquilo que têm feito desde que se tornaram os novos donos do poder. Vigarice por vigarice, acham mais lícita aquela que não favorece só as velhas elites mas reparte o botim entre os pobres e oprimidos – isto é, eles próprios. Caso contrário não teria razão de ser a afetação de coitadice com que um Lula ou uma Benedita, alçados à mais alta hierarquia do Estado, continuam se vendo como membros da classe desamparada.

3. Uns e outros, amigos e inimigos, acabam tendo seus interesses vitais diretamente ligados à burocracia estatal — e tudo farão para que ela continue crescendo, a despeito até de suas convicções pessoais.

Do ponto de vista ideológico, então, os efeitos da simbiose entre Estado e elite empresarial raiam o monstruoso.

Primeiro: por falta de advogados, a defesa dos “pilares da ordem, a família, a propriedade, os costumes” , como os resumiu Fernando Henrique, é excluída do linguajar político decente e jogada para o limbo da “extrema direita”. Como, por outro lado, ela expressa os ideais majoritários da população brasileira, o resultado é que o Brasil se torna uma nação de excluídos políticos, onde a maioria não tem representantes nem porta-vozes. Privado dos canais normais de atuação, o conservadorismo brasileiro recua para o inconsciente coletivo e tem de se expressar por vias simbólicas, indiretas, analógicas. Muitos dos eleitores de Lula votaram nele pelo simples fato de que ele parecia um tipo mais antigo, mais arraigado nas tradições populares, do que seus concorrentes moderninhos, com ares de tecnocratas. O motivo da escolha não foi político nem ideológico: foi puramente estético. Não encontrando quem falasse em seu nome, o povo votou em quem se parecia com ele fisicamente, sem ter a menor idéia de que elegia o candidato do aborto, do desarmamento civil, do casamento gay – de tudo o que podia haver de mais artificial e antipopular. Aí a política eleitoral se torna pura fantasia alucinatória.

Segundo: dentre os defensores da economia privada, muitos têm menos horror ao esquerdismo do que à perspectiva de ser tomados por “extremistas de direita”. Então apressam-se em isolar economia e cultura, articulando a apologia do capitalismo com a do programa cultural revolucionário, incluindo abortismo, eutanásia, liberação das drogas e anticristianismo professo ou implícito. Tornam-se assim forças auxiliares da revolução gramsciana, e toda a sua gritaria em favor da liberdade de mercado já não faz a menor diferença, pois ninguém na esquerda está lutando pela socialização dos meios de produção; todas as tropas foram concentradas no campo de batalha cultural.

Terceiro: se uma parte da direita não tem ideologia nenhuma e a outra tem uma ideologia que favorece a revolução cultural, o resultado é que a esquerda fica com o monopólio da propaganda ideológica. Até os que a odeiam são obrigados a falar na linguagem dela, o que significa que tudo o que dizem funciona no fim das contas como propaganda esquerdista.

Quarto: não é possível que a própria “direita” que criou essa situação permaneça psicologicamente imune a seus efeitos por muito tempo. Ela própria acaba introjetando a cosmovisão e os valores da esquerda, e no fim das contas já não tem nada a alegar em favor do capitalismo senão o fato de que ele é do seu interesse. E é exatamente assim que estamos hoje em dia: entre os opinadores de plantão, não há mais quem não veja a política como a luta entre “interesses” privados e “valores” coletivos. Em suma: no Brasil, entre as classes falantes, todo mundo é de esquerda – uns porque gostam, outros porque não sabem ser outra coisa.

Não conheço, por exemplo, entre os “direitistas” brasileiros, um só que não enxergue a economia, em última instância, exatamente nos termos em que a descreveu Karl Marx. Por menos que gostem disso, seu cérebro está programado para enxergar o capitalismo como luta de classes e exploração da mais-valia. Quanto mais dizem tomar o partido da sua própria classe, mais se tornam prisioneiros da jaula marxista.

Também não conheço um só capitalista que não acredite na lenda esquerdista de que Karl Marx foi “um grande pensador”. Podem proclamar até que “o marxismo está superado”, mais quanto mais o depreciam da boca para fora, mais lhe rendem homenagem em pensamento.

Ora, Karl Marx não foi nenhum gênio, nenhum grande pensador, nenhum cientista social notável. Foi uma besta quadrada, incapaz de dominar os problemas filosóficos mais elementares e de se orientar no meio da mixórdia verbal que ele próprio criou. Seu único talento foi o do vigarista intelectual capaz de angariar prestígio por meio do blefe, do boicote e da intimidação. Estudem a atuação dele na I Internacional e verão do que estou falando.

Mas, antes disso, examinemos um ponto essencial. Embora a tradição marxista condene com veemência o “abstratismo burguês” que supostamente raciocina a partir de meros conceitos sem ter em vista a praxis histórica, toda a análise que Marx faz da economia capitalista é abstratismo da espécie mais primária. Ele define o capitalismo como exploração da mais-valia e sai tirando conclusões dessa definição sem prestar a mais mínima atenção às condições histórico-sociais que já na sua época possibilitavam a existência do capitalismo. Na sua definição, este se resume a uma determinada relação entre capitalistas e operários, exploradores e explorados. Nesse esquema, não há nenhum lugar para a massa dos consumidores, a vasta classe média da qual depende a existência de capitalistas e operários. Uma máquina econômica constituída apenas de exploradores e explorados não poderia durar um só dia. Afinal, quem paga a brincadeira? Partindo da sua definição de capitalismo, Marx acreditava que o número de consumidores iria diminuir cada vez mais, até que a máquina de exploração já não tivesse condições de funcionar. Mas o único argumento que ele oferece em favor dessa previsão é que ela é uma decorrência lógica da sua definição de capitalismo – uma definição que, a priori , já omitia a existência dos consumidores. Na verdade, estes é que deveriam ser o centro da definição: o capitalismo pode até incluir exploradores e explorados, mas ele não consiste nem em explorar nem em ser explorado — ele consiste em comprar e vender. Até mesmo a relação entre patrão e empregado é apenas um caso especial de compra e venda – algo que qualquer principiante habilitado a distinguir gênero e espécie tem a obrigação de perceber. Em vez de definir o capitalismo pelo perfil real da sua existência histórica, Karl Marx preferiu reduzi-lo a uma “essência” abstrata que pudesse ser descrita mediante uma só relação simples, a relação entre salário e “valor”. Depois, vendo que a existência real do capitalismo não confirmava a essência, concluiu que esta acabaria por predominar sobre a existência. Maior “abstratismo burguês” não poderia haver: uma essência abstrata que pode mais do que a realidade histórica é uma espécie de platonismo radical, o primado absoluto das idéias (com o agravante de que as idéias platônicas eram pensadas por Deus, e a definição marxista de capitalismo é pensada apenas por Karl Marx). Na realidade objetiva, a existência e a prosperidade do capitalismo dependem inteiramente do mercado, isto é, dos consumidores, e isto é assim já na base, na “essência” mesma do processo. Se o capitalismo foi economicamente viável por um só dia, nesse dia já ele aumentou o número de consumidores, pois alguém então comprou o que não havia comprado antes. Dessa condição real, o que seria preciso deduzir é que o capitalismo consiste na ampliação do mercado, na multiplicação do número de consumidores. Se cabe descrever os processos históricos como “essências”, essa é a essência do capitalismo – e o que se deveria deduzir dela é que, se essa essência viesse a existir historicamente, o resultado seria a ampliação progressiva da classe média até à dissolução do “proletariado” como classe identificável. Isto foi exatamente o que aconteceu, e é exatamente o contrário do que Marx previa. Para fazer a previsão certa, ele precisaria ser um filósofo de verdade, isto é, saber pelo menos aquilo que todo discípulo de Sócrates já havia aprendido dois milênios antes: distinguir entre o que o cérebro inventa e o que a experiência ensina. A experiência pode ser confusa e o pensamento introduz nela alguma ordem e clareza. O que não vale é, em prol da clareza, substituir a experiência por meros pensamentos. Mas Karl Marx foi um pouco além: ele acreditou piamente que seus pensamentos acabariam por demonstrar a irrealidade da experiência.

Não é compreensível que alguém tenha sequer algum respeito por um idiota capaz de embarcar num erro tão básico. A fama de Karl Marx deve-se apenas ao fato de que a idiotice é contagiosa e o número dos contaminados acaba valendo como uma espécie de autoridade intelectual. Ao contrário do que pensava Descartes, é a idiotice e não a sensatez que é distribuída por igual entre todas as classes: a proporção de idiotas não é maior entre aqueles a quem o marxismo promete um paraíso do que entre aqueles que ele ameaça jogar na lata de lixo da História. Os primeiros são idiotizados pela ambição, os segundos por aquele medo extremo que acaba se tornando fascínio e subserviência.

Não adianta nada você gostar do capitalismo se acredita que ele é baseado na exploração da mais-valia e que sua única chance de sobrevivência reside em fazer concessões cada vez maiores à militância socialista detentora do monopólio dos valores morais e das esperanças de futuro.

Ou você acredita que o capitalismo encarna valores morais inegociáveis e que ele é a única esperança de dias melhores para a humanidade, ou é mais lógico você desistir logo dele e arrumar uma carteirinha do PSTU.

Os Eua Vistos Da Bruzundanga

08 de novembro de 2003 | O Globo

O resultado das últimas eleições americanas é mais uma prova de que o público brasileiro, sob o guiamento de “analistas”, “comentaristas”, “especialistas” etc. e tal, ignora cada vez mais profundamente o que se passa no país mais poderoso do mundo, centro vital de lutas e decisões que afetam a vida de todos nós.

A darmos crédito a esses senhores, a presidência Bush estava liquidada, arrastando em sua queda irreversível o Partido Republicano. Bem, o fato é que após essas eleições os Estados sob governo republicano são 29, contra 21 democratas. Mais ainda: de onze estados sulistas tradicionalmente democratas, nove já passaram para os republicanos.

Tudo isso era mais que previsível, e os próprios democratas não o escondiam. O último congresso deles começou com a apresentação de um levantamento estatístico segundo o qual o partido, àquela altura, podia contar com um terço do eleitorado, se tanto. Houve choro e ranger de dentes. Mas a notícia foi omitida pela mídia brasileira em peso, provavelmente a mais fanática torcida que os democratas americanos têm na arquibancada mundial.

A quase totalidade das informações publicadas neste país sobre os EUA vem de fontes ostensivamente clintonianas, como o New York Times , o Washington Post , a CBS e a CNN. Há nisso uma distorção crônica da realidade, pois lá a influência desses gigantes é bem menos gigantesca do que parece à imaginação brasileira, nenhum deles podendo concorrer tranqüilamente com a rede de pequenas estações de rádio e sites de jornalismo eletrônico, nos quais a opinião conservadora, expelida da mídia chique, semeou incontáveis focos de resistência.

Para saber o que se passa nos EUA, é preciso contrastar a opinião da grande mídia com a dos pequenos, que somados a transcendem em penetração popular e, não raro, em qualidade jornalística. E não se pode ignorar a ascensão da Fox, que cresceu nadando contra a corrente.

Esse estado de coisas é reflexo de transformações bem mais profundas da sociedade americana, das quais o pessoal daqui não tomou até hoje o menor conhecimento. É que a massa de militantes “contraculturais” dos anos 60, a horda dos admiradores de Ho Chi Minh, veio a tornar-se o establishment , a “camarilha dominante” da década de 90, ocasionando, em reação, o surgimento de uma nova contracultura, agora inspirada na crítica conservadora e judaico-cristã aos valores puramente terrestres e mundanos promovidos por aquela geração. Para começar a entender essa inversão de posições, leiam ou releiam os livros de Ivan Ilitch, o jesuíta que quarenta anos atrás se tornou um ídolo da New Left com sua defesa revolucionária de uma “sociedade sem escolas”. A “sociedade sem escolas”, o homeschooling , é hoje um ideal defendido pelos conservadores, principalmente religiosos, ao passo que a elite esquerdista, responsável pela criação do ministério da Educação no governo Carter, luta por um ensino cada vez mais burocratizado, odiando o homeschooling e fazendo de tudo para proibi-lo. Não é essa a única proposta “contracultural” que foi absorvida pelos conservadores: eles travam hoje o mesmo combate que a esquerda empreendia nos anos 60 contra a “medicalização” da sociedade, contra o uso da medicina como instrumento de controle social e político, enquanto a liderança esquerdista mudou de conversa tão logo sentiu que os execrados botões de controle estavam ao alcance dos seus dedos. Nas universidades, o movimento pela liberdade de expressão ( free speech movement ), que duas gerações atrás abriu o recinto acadêmico para a pregação esquerdista ostensiva, tornou-se uma frente de batalha dos conservadores, agora voltada contra a tirania do “politicamente correto” que reitores esquerdistas impõem por meio de castigos, ameaças e regulamentos mais rígidos e autoritários do que tudo aquilo que indignava os rebeldes dos anos 60. Não é coincidência que o principal porta-voz do movimento hoje em dia seja David Horowitz, que começou como líder estudantil de esquerda, naquela época, e foi trocando de posição à medida que via mudarem de mãos as bandeiras às quais havia dedicado sua vida.

Na esfera das idéias, a profundidade e riqueza da crítica cultural empreendida por autores conservadores como Russel Kirk, Irving Kristol, Roger Kimball, o próprio Horowitz e tantos outros — todos eles ainda ignorados no Brasil — mostram que o poder de iniciativa intelectual também foi passando da esquerda para a direita, preparando a grande mudança da atmosfera geral dos debates públicos que, ao alcançar sua expressão mais exteriorizada e visível, se manifesta, por exemplo, nos recentes acontecimentos eleitorais, os quais só podem constituir surpresa para as classes falantes mais incultas, mais desinformadas — e mais falantes — do globo terrestre: as nossas.

O hiato entre a consciência nacional e a realidade do universo em torno vai-se tornando um abismo intransponível. Acho muito engraçado, por exemplo, ver os nossos políticos e educadores pontificando sobre o despreparo da classe estudantil, que nos testes internacionais tira o último lugar. Eles falam disso desde fora e desde cima, como se o fenômeno tivesse causas impessoais e não resultasse diretamente da influência deles próprios. Nossos estudantes não são incultos por falta de verbas, por falta de planejamento técnico, por falta de regulamentos: são incultos porque nossos políticos e educadores são incultos, porque os guias iluminados da mentalidade nacional são incultos, porque a elite opinante deste país é inculta, pretensiosa e fútil como o era no tempo em que Lima Barreto, rindo para não chorar, traçava o seu perfil satírico em “Os Bruzundangas”.

Heróicos gatos pingados, sob a liderança do embaixador Meira Penna, fizeram uma manifestação em frente à Embaixada americana... em favor da Alca. Os americanos nem acreditaram. Esse miúdo acontecimento tem a grandeza de um gesto de resistência estóica que rompe, simbolicamente, trinta anos de monopólio esquerdista dos atos públicos.

Em 8 de novembro de 2003

Por Que Nao Sou Liberal

08 de março de 2007 | Jornal do Brasil

Há muitos motivos para você ser contra o socialismo, mas entre eles há dois que são conflitantes entre si: você tem de escolher. Ou você gosta da liberdade de mercado porque ela promove o Estado de direito, ou gosta do Estado de direito porque ele promove a liberdade de mercado. No primeiro caso, você é um “conservador”; no segundo, é um “liberal”.

Durante algum tempo, você não sente a diferença. Quando a direita é ainda incipiente, nebulosa e sem forma, liberais e conservadores permanecem numa gostosa promiscuidade, fundidos na ojeriza comum ao estatismo esquerdista. Tão logo a luta contra o esquerdismo exige uma definição doutrinal mais precisa, a diferença aparece: ou você fundamenta o Estado de direito numa concepção tradicional da dignidade humana, ou você o reinventa segundo o modelo do mercado, onde o direito às preferências arbitrárias só é limitado por um contrato de compra e venda livremente negociado entre as partes. Nos dois casos você quer a liberdade, mas no primeiro o fundamento dela é “material”, isto é, definido por valores e princípios explícitos, no segundo é “formal”, isto é, definido por uma equação contratual cujo conteúdo está aberto à escolha dos interessados.

Se você é um conservador, você acha que um cidadão não tem o direito de contratar outro para matá-lo (muito menos para matar um terceiro), porque a vida é um dom sagrado que não pode ser negociado. Mas, para o liberal, nada existe de mais sagrado que o direito de comprar e vender – a própria vida inclusive: se você acha que sua vida está um saco e quer contratar um profissional para dar cabo dela, nem o Estado nem a Igreja têm o direito de dar nisso o menor palpite. Já se quem está enchendo o saco é o seu bebê anencéfalo, a sua avó senil ou o seu tio esquizofrênico, eles não têm capacidade contratante, mas você tem: caso tenha também o dinheiro para pagar uma injeção letal e o enfermeiro para aplicá-la, nada poderá impedir que os três chatos sejam retirados do mercado mediante os serviços desse profissional. Curiosamente, não conheço um só liberal que atine com a identidade essencial de contratar um enfermeiro para dar uma injeção nos desgraçados, um pistoleiro para lhes estourar os miolos ou uma motoniveladora para reduzi-los ao estado bidimensional. Quando dizem que consideram a primeira alternativa mais “humana”, não percebem que estão apelando a um argumento conservador e limitando abominavelmente a liberdade de mercado.

O conservadorismo é a arte de expandir e fortalecer a aplicação dos princípios morais e humanitários tradicionais por meio dos recursos formidáveis criados pela economia de mercado. O liberalismo é a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários. O conservadorismo é a civilização judaico-cristã elevada à potência da grande economia capitalista consolidada em Estado de direito. O liberalismo é um momento do processo revolucionário que, por meio do capitalismo, acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de direito.

Em 8 de março de 2007

Infracao De Transito

07 de fevereiro de 2008 | Jornal do Brasil

Sempre que um agente da esquerda armada é preso em flagrante delito, a reação-padrão da esquerda desarmada é dupla e simultânea: de um lado, denuncia o sujeito como ex-militante que abandonou a luta política para praticar em benefício próprio o “capitalismo selvagem”; de outro, organiza campanhas para protegê-lo e libertá-lo como se ele não fosse um bandido comum e sim um honrado “combatente pela liberdade”. E faz isso sem se preocupar nem mesmo em simular coerência, sabendo que a contradição, quanto mais cinicamente ostensiva, mais tem o dom de inibir no público o desejo de percebê-la.

O artifício ainda tem a vantagem adicional de equalizar capitalismo e bandidagem, como se a simples voracidade de lucros, mesmo inescrupulosos, fosse a mesma coisa que seqüestros, homicídios, assaltos e narcotráfico. Para cúmulo de ironia, a própria “direita” (seja isto lá o que for) colabora com o empreendimento, endossando o diversionismo na sonsa esperança de desmoralizar a esquerda mediante a alegação de que ela é vulnerável à tentação capitalista – o que é propriamente aquilo que os retóricos da antigüidade chamavam de “argumento suicida”.

O mesmo procedimento aplica-se a gangues inteiras, quando os crimes que elas praticam em prol da revolução comunista começam a aparecer na mídia em tons demasiado chocantes: por um lado, a esquerda elegante busca se desvincular de qualquer ligação aparente com elas, acusando-as de trocar os ideais revolucionários pelo enriquecimento ilícito; por outro, continua a afagá-las nas reuniões do Foro de São Paulo e a fornecer-lhes todo o apoio jurídico, diplomático e institucional para que sejam reconhecidas internacionalmente como organizações políticas legítimas.

É mais que evidente que as duas operações estão ligadas uma à outra – no mínimo, porque os agentes são os mesmos – e que ambas são planejadas como complementos necessários sem os quais a ação violenta não poderia produzir os resultados políticos almejados. O desinformante e o agente de influência são tão criminosos quanto o seqüestrador, o assassino, o traficante. São o lado “colarinho branco” da estratégia revolucionária.

Essa divisão de trabalho é tão antiga quanto o próprio movimento comunista, para o qual ela não passa de rotina banal. Infelizmente, no Brasil só parecem saber disso os próprios comunistas e dois ou três estudiosos excêntricos. Para os demais, os dados da equação — a ação armada, a manipulação diversionista e a rede de proteção legitimadora — permanecem separados como grãos de poeira cósmica em três galáxias distantes. No fundo, essas pessoas talvez saibam que se enganam a si próprias. Mas sempre resta a esperança de que a auto-sugestão, forçada até o extremo limite da fantasia psicótica, transmute magicamente a realidade das coisas. É isso o que no Brasil de hoje se chama “pensamento empresarial”.

Graças a esse fenômeno, é pouco provável que alguém neste país se dê conta de que a revelação da parceria entre Hugo Chávez e o narcotráfico das Farc (v.

Revealed: Chávez role in cocaine trail to Europe ), somando-se às informações que resumi em Digitais do Foro de São Paulo , é a prova final de que a ditadura venezuelana não constitui um fenômeno isolado, mas apenas uma das engrenagens da estratégia revolucionária continental elaborada pelo Foro de São Paulo.

É claro que, como os demais brasileiros, estou preocupado com a gastança federal em cartões de crédito. Mas acusar só por esse delito os autores do maior concurso de crimes já observado na América Latina é como punir um serial killer por infração de trânsito.

Em 7 de fevereiro de 2008

O Comunismo Depois Do Fim

06 de junho de 2002 | Jornal da Tarde

Imagine que, finda a II Guerra Mundial, morto o Führer nas profundezas do seu bunker, restaurada a democracia na Alemanha, um consenso tácito universal decidisse que os crimes de guerra nazistas não deveriam ser investigados nem punidos, que o Partido Nazista continuaria na legalidade sob deminações diversas, que uma boa parte dos campos de concentração deveria continuar funcionando ao menos discretamente, que ninguém na Gestapo ou nas SS seria demitido ou interrogado e que alguns bons funcionários dessas lindas instituições deveriam ser mesmo postos no comando da nação.

Nessas condições, você acreditaria em “fim do nazismo”? Ou antes perceberia aí um imenso “upgrade” desse movimento satânico, despido de sua aparência mais óbvia e comprometedora, sutilizado e disseminado no ar como um vírus para contaminar toda a humanidade?

Você acreditaria em “fim do nazismo” se, preservados os meios desubsistência e expansão desse movimento, a mídia internacional e a opiniãoelegante decretassem instantaneamente a mais drástica repressão moral a todo antinazismo explícito, acusando de paranóico e antidemocrático quem ousasseespecular, mesmo de longe, sobre os riscos de um retorno do regime nazistasob outro nome?

Você acreditaria em “fim do nazismo” se, decorrido meio século desua pretensa extinção, toda tentativa de investigar e divulgar a extensãodos seus crimes fosse condenada publicamente como uma inconveniência, um pecado, um maldoso revanchismo? Você acreditaria em “fim do nazismo” se, na Alemanha e fora dela, qualquer crítica mais pesada aos que em outras épocas fizeram a apologia desse regime genocida fosse banida e perseguida como um delito ou no mínimo como um sinal de patologia mental?

Você acreditaria em “fim do nazismo” se por toda parte os que fizeram propaganda nazista fossem paparicados e homenageados não só como grandes figuras da vida intelectual e artística mas como defensores da liberdade e dos direitos humanos?

Você acreditaria em “fim do nazismo” se notórios militantes pró-nazistas estivessem subindo ao poder por via eleitoral em várias nações do Terceiro Mundo, enquanto em outras espoucassem guerrilhas, revoluções e golpes de Estado inspirados na pregação nazista?

Você acreditaria em “fim do nazismo” se as nações que supostamente o venceram estivessem cercadas por uma campanha de ódio internacional apoiada por partidos e organizações nazistas?

Você acreditaria em “fim do nazismo” se todos os que se auto-rotulassem “ex”-nazistas fizessem apenas críticas muito vagas e genéricas ao regime de Hitler, mudando de assunto rapidamente, mas em contrapartida continuassem atacando o antinazismo como o pior dos males?

Pois então, santa misericórdia, por que acredita em “fim do comunismo”? O movimento comunista internacional não foi desmantelado, nem debilitado, nem mesmo acusado do que quer que fosse. Na Rússia o Partido Comunista conserva um bom número de cadeiras no parlamento, a KGB (com nome trocado pela milésima vez desde Lênin) continua funcionando a pleno vapor com verbas superiores às de todos os serviços secretos ocidentais somados, o Gulag continua repleto de prisioneiros. Na China, no Vietnã, na Coréia do Norte e em Cuba um bilhão e quatrocentos milhões de pessoas vivem ainda sob o Estado policial comunista que, a cada nova promessa de liberalização feita para seduzir investidores estrangeiros, mais aperta as engrenagens da repressão e estrangula qualquer veleidade de oposição organizada. Na América Latina e na África, novos regimes comunistas ou pró-comunistas surgem e, diante dos olhos complacentes da mídia internacional, demantelam pela violência ou pela chicana todas as oposições, demolem as garantias de liberdade individual e o direito de propriedade e fomentam guerrilhas e revoluções nos países vizinhos, com o apoio das redes de tráfico de entorpecentes montadas pela KGB e pela espionagem chinesa desde os anos 60, hoje crescidas ao ponto de controlar a economia de países inteiros. Nas nações capitalistas supostamente triunfantes, slogans, valores e critérios da “revolução cultural” marxista dos anos 60 se impõem oficialmente nas escolas e nos lares como um dogmatismo inquestionável, ao mesmo tempo que um lobby comunista de dimensões tricontinentais controla rigidamente o fluxo do noticiário nos principais jornais e canais de TV, e nas universidades a ortodoxia marxista consegue calar pela intimidação e pela chantagem as poucas vozes discordantes.

Como, em sã consciência, alguém que saiba dessas coisas pode afirmar que o comunismo acabou ou que ele não representa mais perigo algum?

Em 6 de junho de 2002

Abaixo As Dondocas

06 de dezembro de 2007 | Jornal do Brasil

A prisão de 29 dissidentes em Cuba, no início da semana, pelo crime de pretenderem comemorar o Dia Internacional dos Direitos Humanos, é uma amostra do destino a que os venezuelanos acabarão conseguindo escapar, se continuarem enfrentando corajosamente o governo do sr. Chávez como o fizeram no plebiscito. Mas é também uma amostra do futuro que espera os brasileiros, se não compreenderem que um governo aliado do chavismo e das Farc requer uma oposição abertamente anticomunista, vigorosamente anticomunista, e não esses dois clubes de dondocas atemorizadas – ou vendidas, chi lo sà ? — que são o PSDB e o DEM.

A primeira dessas agremiações contenta-se, desde há muito, com ser uma sombra do PT, não apenas recusando-se a ter com o partido governante a menor divergência ideológica, mas só o enfrentando no campo das acusações mútuas de corrupção – em geral igualmente justificadas –, quando não no da competição de fidelidade ao passado esquerdista, como se viu naquelas ridículas simulações de debate eleitoral em 2002.

Quanto à segunda, o sr. Presidente da República engana-se ao dizer que ela não tem perspectiva de poder. O DEM quer o poder, sim, desde que possa conquistá-lo por meio de alianças, conchavos e acomodações ou, na mais valente das hipóteses, por meio de resmungos moralistas apartidários e inofensivos. O que o DEM não quer é nadar contra a corrente dominante, é ser ou parecer conservador, é tornar-se o legítimo porta-voz das crenças e valores tradicionais do povo brasileiro, que o consenso dos bem-pensantes excluiu de todo direito à representação política ou mesmo ao ingresso nos ambientes culturais soi disant respeitáveis.

Quando uma agremiação que a esquerda rotula de extrema direita professa se modelar pelos ideais do Partido Democrata americano — o partido de Fidel Castro, Hugo Chávez e Ahmadinejad –, é patente que toda confrontação eleitoral “nêfte paíf” se tornou apenas uma fachada legitimadora do esquerdismo triunfante, uma farsa grotesca calculada para impedir que as preferências majoritárias dos brasileiros se façam valer no Congresso e adquiram força de leis.

Vocês já notaram que, nas confrontações extrapartidárias, no plebiscito do desarmamento assim como nas pesquisas de opinião ou na recente Conferência Nacional de Saúde, a opinião vencedora nunca é aquela que depois acaba prevalecendo nas eleições? Por que o brasileiro, ao expressar diretamente o que pensa, diz uma coisa, mas ao fazê-lo através da representação eleitoral, diz outra completamente diferente? Por que o nosso povo é tão conservador nas idéias e tão esquerdista no voto? A resposta é simples: a rede de canais partidários foi toda planejada para que, no caminho entre o sentimento espontâneo e a decisão política, tudo se transmute no seu respectivo oposto. O que no Brasil se chama de representação popular é, literalmente, representação inversa.

Num artigo publicado semanas atrás ( A Venezuela vive. E o Brasil agoniza ), afirmei que havia mais saúde política na Venezuela do que no Brasil. O plebiscito confirmou isso de maneira integral. Manifestando-se pela dupla e arriscada via simultânea da abstenção e do voto, uma oposição ideologicamente consistente mostrou que dois terços da população venezuelana não querem Chávez, não querem o comunismo, não querem ser governados por agentes cubanos e narcoterroristas das Farc. Se a escolha for colocada nos mesmos termos para os brasileiros, eles votarão como os venezuelanos. Uma oposição nominal, fugindo a todo confronto ideológico, só serve para impedir que isso aconteça.

Em 6 de dezembro de 2007

Sonsice Obrigatoria

06 de dezembro de 2007 | Diário do Comércio

Dividida entre duas táticas antagônicas – votar no “Não” ou recusar-se a comparecer às urnas, em protesto contra a fraude manifesta do plebiscito anterior –, ainda assim a oposição venezuelana impôs a Hugo Chávez uma derrota humilhante. Façam as contas. Se 44 por cento dos eleitores se abstêm e 51 por cento dos restantes votam contra, está claro que aproximadamente três quartos do eleitorado rejeitam na base as propostas comunistas do presidente. E estão contra por três motivos: (1) sabem que essas propostas são comunistas; (2) sabem o que é comunismo; (3) conhecem as articulações do governo local com o Foro de São Paulo, com o terrorismo islâmico e com o movimento comunista mundial. Em suma: sabem a respeito de Chávez tudo aquilo que o eleitor brasileiro ignora a respeito de Lula e do PT. Comparem, por exemplo, os discursos dos nossos políticos ditos oposicionistas com o livro “O Continente da Esperança”, de Alexandro Peña Esclusa, um dos mais destacados líderes do movimento antichavista. De um lado, são reclamações polidíssimas, antissepticamente escoimadas de qualquer tomada de posição ideológica, por tímida que seja. De outro, a denúncia corajosa do Foro de São Paulo e de seus planos para a transformação do continente num arremedo tardio da URSS.

A diferença é tanto mais obscena porque o Foro é uma invenção de brasileiros, não de venezuelanos, porque foi ao brasileiro Lula, não a Hugo Chávez, que as Farc agradeceram por essa iniciativa que salvou o comunismo da extinção, e porque, no fim das contas, é em Brasília, não em Caracas, que reside o cérebro dirigente da revolução comunista latino-americana, da qual Hugo Chávez não é senão a fachada mais escandalosa e, no fim das contas, um belo boi-de-piranha.

Acusados pela esquerda de ser “extremistas de direita”, nossos políticos de oposição e nossa “imprensa burguesa” são, na verdade, instrumentos dóceis de um vasto empreendimento de desinformação calculado para manter o eleitorado brasileiro na ignorância total do que se passa no continente.

Os leitores da Folha e do Globo , por exemplo, são insistentemente persuadidos de que o Foro de São Paulo não existe ou é inofensivo, de que o comunismo não é problema nenhum, de que toda iniciativa de combatê-lo é uma espécie de demência retroativa, causada por mórbida nostalgia reacionária dos tempos do senador Joe McCarthy. Expressões pejorativas como “saudosistas da Guerra Fria” reaparecem a todo momento, nesses e em outros órgãos de mídia, inibindo sistematicamente no público toda tentação de anticomunismo. E a esquerda, com astúcia diabólica, disfarça mediante afetações de hostilidade ao “direitismo” da classe jornalística a decisiva ajuda estratégica que dela recebe.

Entre aqueles que fomentam o avanço do comunismo no continente e aqueles que o protegem sob o manto da invisibilidade, é difícil decidir quais os mais devotados servidores do Foro de São Paulo. E não adianta alegar que os segundos são apenas idiotas úteis. Todo mundo ali sabe perfeitamente o que está fazendo. Se são idiotas, é por escolha voluntária, não por ignorância genuína.

Vou lhes dar um exemplo. No dia mesmo do plebiscito venezuelano, a polícia de Chávez invadiu a sede do “Colegio y Centro Social, Cultural y Deportivo Hebraica”, em Caracas, e revirou o edifício inteiro, camuflando a ostensiva agressão anti-semita sob a alegação de estar em busca de drogas (v.

Eleonora Bruzual ) . Ninguém, na Venezuela, se deixou enganar por essa desculpa esfarrapada, porque todo mundo sabe que o comércio local de drogas está sob o domínio das Farc, contra as quais o governo Chávez não faz nem quer fazer absolutamente nada.

Mas, quando o nosso governo promove o samba carioca ao estatuto de “patrimônio cultural brasileiro” no mesmo dia em que o sr. Presidente da República visita o morro e em que a escola de samba Mangueira promove uma torpe homenagem ao traficante Fernandinho Beira-Mar, o principal sócio local das Farc, ninguém na mídia ou no Parlamento é capaz de notar sequer a unidade do simbolismo cultural subjacente, produto de uma longa simbiose de comunismo, narcotráfico e “cultura popular”.

De outro lado, e complementarmente, quando a cidade de Florianópolis aparece de repente coberta de cartazes anti-semitas, quem quer que estabeleça alguma ligação mesmo longínqua e indireta entre esse episódio abominável e uma política de governo inspirada pelo Fórum Social Mundial é automaticamente acusado de paranóia judaica.

A lógica dos nossos “formadores de opinião”, na mídia e no Parlamento, só obedece a duas regras: (1) Nada tem nada a ver com nada. (2) Querer juntar os pontos é coisa de maluco.

É a radical atomização da inteligência, a instauração da sonsice obrigatória.

Em 6 de dezembro de 2007

Salvando A Minha Pele

06 de abril de 2003 | Zero Hora

Convidado a participar do Fórum da Liberdade, não poderei comparecer, por um motivo muito simples: dois sites da internet, www.comunismo.com.br e “Mídia Independente” — este último uma ONG milionária com filiais em uma centena de países — estão promovendo uma campanha pública pela extinção física da minha pessoa, e nessas circunstâncias devo ficar no Rio de Janeiro para tomar as providências judiciais cabíveis.

“Execução sumária, sem direito a defesa”, exige um daqueles sites , enquanto o outro informa o local onde posso ser encontrado e sugere: “Será que não está mais do que na hora de dar um fim físico a esse câncer chamado Olavo de Carvalho?” (maiores detalhes em www.olavodecarvalho.org ).

Essas coisas podem parecer extravagantes, mas é bem natural que sucedam numa época em que o próprio governo, em vez de proteger a população contra os agentes das Farc que vão dominando a indústria da violência nacional, prefere proteger as Farc contra o risco de ser chamadas de “terroristas” pelo malvado presidente da Colômbia.

Porém ainda mais criminoso que essa incitação ao homicídio é o esforço da mídia para abafar a notícia mais importante do ano: o deputado Alberto Fraga (PMDB-DF) anunciou na Câmara possuir provas cabais de que o PT foi financiado pelas Farc nas últimas eleições federais e estaduais. Embora o deputado já tenha coletado 86 assinaturas para um pedido de CPI, nada disso sai nos jornais ou na TV. Provavelmente também não se divulgará no Fórum da Liberdade, que, por falta de apoio do empresariado, foi reduzido ao tipo de oposição autocastrada que é mesmo o único que cabe num país governado por parceiros de Fidel Castro.

Enquanto isso, o governo brasileiro admite que os líderes das Farc estão confortavelmente instalados no território nacional e, é claro, nada faz para perturbar o sossego de tão ilustres visitantes, responsáveis, segundo seu sócio Beira-Mar, pelo fornecimento de duzentas toneladas de cocaína, por ano, ao mercado brasileiro. Falar de “colombianização” do Brasil, diante disso, é otimismo: na Colômbia, as Farc estão fora da lei; no Brasil, sob a proteção da lei.

Não só da lei, decerto. Se, por um lado, a articulação da narcoguerrilha continental com o terrorismo muçulmano já está mais que comprovada pela presença maciça de representantes deste último no governo Hugo Chávez e na Tríplice Fronteira, a mídia, por sua vez, está empenhada numa fortíssima campanha para demonizar as tropas anglo-americanas e livrar a cara do regime Saddam Hussein, abrigo e fortaleza de tantas organizações terroristas.

É lógico, também, que o sr. Luiz Eduardo Soares, uma das estrelas do Fórum da Liberdade este ano, e ele próprio um servidor da revolução mundial, dificilmente será incomodado com menções a temas tão desagradáveis, mas será deixado à vontade para expor a teoria oficial, segundo a qual a miséria e o desemprego geraram, por vias miraculosas e incompreensíveis, a máquina bilionária do narcotráfico e dos seqüestros, toda ela articulada politicamente no Foro de São Paulo, entidade fundada e liderada pelo nosso presidente da República.

Houve época em que por nada deste mundo eu perderia a oportunidade de espremer o sr. Luiz Eduardo com perguntas que, na minha ausência, ninguém lhe fará. Mas agora não posso: estou muito ocupado tratando de salvar a minha pele, e creio não estar longe o dia em que os leitores se verão em idêntico desconforto.

Em 6 de abril de 2003

Quem Nos Governa Afinal

05 de julho de 2008 | Diário do Comércio

O plano de transição para o governo mundial, que Arnold Toynbee expôs mais de meio século atrás e que mencionei brevemente nesta coluna, já está em avançadíssima fase de implantação, ao ponto de que não há nenhum exagero em dizer que a Nova Ordem globalista-socialista é um fato consumado, irreversível. Que a maioria dos seres humanos ignore isso por completo e ainda tenha a ilusão de poder interferir de algum modo no curso das coisas por meio do “voto”, eis aí a prova de que Toynbee tinha toda a razão ao dizer que a nova estrutura de poder não seria democrática, nem democrática a transição para ela. Não há estado de sujeição mais completo do que ignorar a estrutura de poder sob a qual se vive.

É verdade que a mera complexidade crescente da administração estatal moderna já era, por si, conflitiva com as pretensões democráticas de transparência, informação acessível, “voto consciente”, enfim, com as presunções da “cidadania”. Mas o que vem acontecendo no último meio século é o aproveitamento deliberado e sistemático da complexidade burocrática para criar, acima do governo representativo, uma nova estrutura de poder que o domina, o estrangula e acaba por eliminá-lo. A maior parte das nações já vive sob o controle dessa nova estrutura global sem ter disso a menor consciência e acreditando que continua a desfrutar das garantias e meios de ação assegurados ao eleitor pelo antigo sistema de governo representativo, hoje reduzido a um véu de aparências tecido em torno do poder mais centralizado, abrangente e incontrolável que já existiu ao longo de toda a história humana.

Não só essa transição já aconteceu, mas ela foi realizada sob a proteção de um conjunto de pretextos retóricos altamente enganosos, criados para dar à população a idéia de que a mudança ia no sentido da maior liberdade para os cidadãos, da maior participação de todos no governo e de mais sólidas garantias para a empresa privada. Todos os termos-chave dessa retórica – “governo reinventado”, “parcerias público-privadas”, “terceira via”, “descentralização” – significam precisamente o contrário do que parecem indicar à primeira vista.

Os dois diagramas que acompanham este artigo tornarão isso bastante claro. As flechas aí indicam a origem do poder e o objeto sobre o qual se exerce. No antigo sistema representativo, o eleitorado escolhia o governo segundo os programas que lhe pareciam os mais convenientes, e o governo eleito – executivo e parlamento – repassava esses planos aos órgãos da administração pública, para que os executassem. No novo sistema de “parcerias público-privadas”, a administração pública é só uma parcela do órgão executor. A outra parcela é escolhida por entidades sobre as quais o eleitorado não tem o menor controle e das quais não chega às vezes a ter sequer conhecimento. Tal como apresentado na sua formulação publicitária, o novo sistema é mais democrático, porque reparte a autoridade do governo com “a sociedade”. Mas “a sociedade” aí não corresponde ao eleitorado e sim a ONG’s criadas sob a orientação de organismos internacionais não-eletivos – ONU, UE, OMS, OMC, etc – e subsidiadas por bilionárias corporações multinacionais cuja diretoria não é mesmo conhecida do público em geral.

A orientação geral dessas ONG’s reflete um conjunto de novas concepções socioculturais e políticas que jamais foram postas sequer em discussão, e que por meio delas são implantadas do dia para a noite, sem que o eleitorado chegue a saber nem mesmo de onde vieram. A própria velocidade das transformações é tamanha, que serve para reduzir as populações ao estado de passividade atônita necessário para tornar inviável não só qualquer reação organizada, mas até uma clara tomada de consciência quanto ao que está acontecendo. Paralelamente, muito do poder de decisão do parlamento é transferido aos órgãos burocráticos, que, agindo já não como braços do eleitorado, mas como agentes a serviço de parcerias controladas pelo triunvirato de ONG’s, corporações e organismos internacionais, passa então a introduzir na sociedade mutações radicais que, no sistema de governo representativo, jamais seriam aprovadas nem pela população, nem pelo parlamento.

Ao desfazer-se de uma parte das suas prerrogativas, sob as desculpas de “privatização”, “democratização”, “descentralização”, “desburocratização” etc., o governo não as transfere ao povo, mas a um esquema de poder global que escapa infinitamente à possibilidade de qualquer controle pelo eleitorado. As ambigüidades decorrentes, que desorientam o público, são então aproveitadas como instrumentos para gerar artificialmente novas “pressões populares”, que não são populares de maneira alguma, mas que refletem apenas a vontade da chamada “sociedade civil organizada”, isto é, da rede de ONGs criadas pelo próprio esquema de poder global.

Subsidiadas pelas grandes corporações e fundações, essas ONGs, prevalecendo-se da “parceria” que têm com órgãos do governo, passam então à parasitagem voraz de verbas públicas, somando aos recursos que as alimentam desde fora o sangue extraído do próprio eleitorado que as ignora e que elas falsamente representam. Essa nova estrutura de poder não é um plano, não é um objetivo a ser alcançado: ela já é o sistema de poder sob o qual vivemos, construído sobre os escombros do antigo governo representativo, que hoje em dia só subsiste como aparência legitimadora da transformação que o matou.

Uma ambigüidade especialmente irônica e por isto mesmo proveitosa da situação é que um dos instrumentos principais para a implantação do novo esquema reside na rede mundial de ONG’s e movimentos esquerdistas, desde os mais radicais até os mais brandos e inofensivos em aparência. Ao mesmo tempo, como a violência e rapidez das mutações gera toda sorte de desequilíbrios, temores e insatisfações, essa rede de organizações esquerdistas é usada por outro lado como megafone para lançar a culpa de todos esses males no velho capitalismo liberal, apontado como beneficiário maior das mesmas transmutações que o esmagam. Os sintomas colaterais mórbidos da transformação servem eles próprios como pretextos para acelerá-la e aprofundá-la, canalizando em favor dela as dores que ela gerou.

Numa obra memorável, “Du Pouvoir. Histoire Naturelle de Sa Croissance”, Bertrand de Jouvenel mostrou que a história da modernidade não é a história da liberdade crescente, como pretendia Benedetto Croce, mas a história do poder crescente do Estado avassalador.

Esse livro é de 1945. Desde então, o curso da História tomou um rumo que o confirma na medida mesma em que aparenta desmenti-lo. A “descentralização” dos governos nacionais, simulando em escala local uma vitória do liberal-capitalismo sobre as tendências centralizadoras e socialistas, foi posta a serviço da construção do Leviatã supranacional que, inacessível e quase invisível, controla dezenas de Estados reduzidos à condição de entrepostos da administração global. Não só o eleitorado foi submetido a essa gigantesca mutação sem a menor possibilidade de interferir nela ou de compreendê-la, porém até mesmo alguns dos mais intelectualizados porta-vozes do liberal-capitalismo, enxergando apenas o fator econômico e recusando-se a investigar a nova estrutura de poder político por trás da globalização comercial, colaboraram ativamente para que o processo de centralização mundial se implantasse pacificamente, sob a bandeira paradoxal da liberdade de mercado.

O camponês antigo, o servo da gleba e até mesmo o escravo romano gemiam sob o tacão de um poder incontrastável, mas pelo menos tinham uma idéia clara de quem mandava neles e compreendiam perfeitamente o funcionamento do sistema que os governava. O cidadão da “democracia de massas” está cada vez mais submetido a decisões que não sabe de onde vieram, implantadas por um sistema de governo que ele nem conhece nem compreende. O globalismo é a apoteose do processo de centralização do poder, centralizando até o direito de conhecer o processo.

Em 5 de julho de 2008

A Venezuela Vive E O Brasil Agoniza

04 de junho 2007 | Diário do Comércio

Não sei por que as pessoas se preocupam tanto com a Venezuela. A situação no Brasil é incomparavelmente pior. Vejam a força do protesto estudantil nas ruas de Caracas e perguntem se algo de parecido é possível no Brasil, onde o PT e as demais organizações de esquerda têm o monopólio total das manifestações de rua há pelo menos três décadas. Ouçam o discurso vibrantemente anticomunista de um Alejandro Peña Esclusa e me digam se alguém, na “direita” brasileira, tem garra para desobedecer a censura ideológica que estigmatiza como “retorno à guerra fria” toda tentativa de denunciar a guerra quente, o retorno sangrento da revolução comunista ao continente latino-americano. Vejam a organização, a disciplina solidária do empresariado venezuelano na defesa da liberdade, e comparem com o nosso panorama de subserviência geral, canina, abjeta.

A Venezuela dolorida está viva. O Brasil anestesiado está moribundo.

Chávez representa o aspecto mais superficial, vistoso e grotesco da revolução continental. O cálculo astucioso, preciso, de longo prazo, é a parte da esquerda brasileira, que criou o Foro de São Paulo e maneja com habilidade extraordinária a orquestração do conjunto.

Hugo Chávez está prestando à direita um serviço tão valioso quanto George W. Bush presta à esquerda. O primeiro põe à mostra a verdadeira natureza da revolução continental, o segundo ajuda o Foro de São Paulo a camuflar sua estratégia geral sob a hipocrisia sorridente de Luís Inácio Lula da Silva.

O único resultado da política de Bush na América Latina será tornar o esquerdismo maquiavélico do PT mais palatável em comparação com o espantalho chavista. Quando a esquerda perder a Venezuela, terá ganho o continente inteiro, sob os aplausos de Washington. Chávez é o mais gordo e persuasivo boi de piranha que a esquerda mundial já ofereceu a seus crédulos adversários.

Em 4 de junho de 2007

Entre Tiros E Afagos

03 de outubro de 2007 | Diário do Comércio

O que escrevi aqui dias atrás sobre a incompatibilidade entre as pretensões da esquerda e as tradições constitutivas das Forças Armadas teve logo em seguida a mais significativa das confirmações quando fiquei sabendo que os três clubes que congregam a oficialidade nacional – o Clube Militar, o Clube Naval e o Clube da Aeronáutica – estão movendo, juntos, uma ação judicial contra a promoção post mortem do terrorista Carlos Lamarca ao posto de coronel de um Exército que ele traiu.

A petição, redigida pelo advogado carioca Nina Ribeiro, não foi noticiada pela grande mídia, empenhada em fazer parecer que toda a encrenca entre o governo e os militares é apenas uma rusga passageira entre um ministro fanfarrão e alguns oficiais magoados.

O sr. Nelson Jobim é de fato presunçoso e mandão ao ponto de tornar-se insuportável, mas sua conduta grotesca não faz senão trazer à mostra um conflito bem mais profundo, estrutural e, a longo prazo, sem solução.

As Forças Armadas estão bem conscientes de que não servem ao governo, muito menos a governantes, mas ao Estado brasileiro. Toda a estratégia petista, ao contrário, consiste em submeter o Estado não só ao governo, mas ao partido governante e, através deste, ao esquema revolucionário continental protagonizado pelo Foro de São Paulo, com todas as entidades estrangeiras que o compõem e que, através dele, se sentem autorizadas a interferir nos assuntos nacionais com a mesma naturalidade amoral, quase candura sociopática, com que o sr. Luís Inácio confessa ter usado o governo brasileiro como instrumento para dar uma ajudinha ao sr. Hugo Chávez no plebiscito venezuelano.

O que há aí não é uma querela de ocasião, mas uma contradição antagônica que só pode ser resolvida mediante a eliminação de um dos termos: ou o PT desiste de suas alianças com o movimento comunista latino-americano e consente em tornar-se um partido burguesmente inofensivo, submisso à ordem capitalista democrática que ele jurou substituir por um paraíso socialista, ou as Forças Armadas desistem de ser o que são e aceitam servir sob as ordens do Foro de São Paulo, juntando-se às tropas de Hugo Chávez e de Fidel Castro na “guerra anti-imperialista do povo inteiro” contra os EUA.

As duas hipóteses são desastrosas: a primeira jogaria contra o PT a totalidade da esquerda revolucionária continental, sujeitando os líderes petistas à ameaça dos seqüestros, atentados e demais truculências que eles acham lindas quando praticadas contra os outros. A segunda transformaria as nossas Forças Armadas não só em servidoras de seus inimigos mas em cúmplices de uma aventura revolucionária que só pode resultar na total destruição da nossa soberania, se não das bases materiais da existência nacional.

Consciente dessas tremendas dificuldades, a liderança esquerdista tem procurado ganhar tempo, adiando o confronto enquanto busca persistentemente levar para dentro dos quartéis a “revolução cultural” incumbida de transmutar as Forças Armadas no seu oposto, pelos meios ardilosos, lentos, delicados e anestésicos criados pelo gênio maligno de Antônio Gramsci. Sabemos que um dos cérebros mais ativos por trás dessa operação é o sr. João Carlos Kfouri Quartim de Moraes, sendo este o motivo pelo qual eu ter pisado no calo dessa figura apagada e discreta suscitou uma reação tão histérica da parte da intelligentzia esquerdista.

O antagonismo entre o futuro da revolução continental e o passado histórico das Forças Armadas é simbolizado de maneira eloqüente pelo contraste entre duas cenas que se repetem de tempos em tempos: de um lado, nossos soldados das tropas de fronteira trocando tiros com os guerrilheiros das Farc na Amazônia, de outro o presidente da República, em Brasília, afagando as cabeças dos líderes da organização. O sr. Luís Inácio é um mestre na arte de empurrar com a barriga, mas há contradições objetivas cujo peso resiste até mesmo à respeitável protuberância ventral de S. Excia.

Em 3 de outubro de 2007

Responder A Altura

03 de julho de 2008 | Jornal do Brasil

Desde há alguns anos, Cliff Kincaid, editor do esplêndido site Accuracy in Media , vem colecionando declarações perversas, grotescas e sobretudo insultuosas proferidas por políticos, intelectuais e artistas de esquerda nos EUA. Insultuosas não só a esta ou àquela pessoa, a esta ou àquela nação, raça ou religião, mas ao próprio dom da linguagem, que não foi concedido ao homem para que criasse uma realidade postiça mediante a verbalização histriônica de seus sentimentos mais vis. Dentre esses sentimentos, destacam-se ali a recusa do elementar respeito aos recém-falecidos, o gosto sádico de caluniar a espécie humana, o desprezo pedante pelas mais singelas afeições familiares, a tendência compulsiva de intimidar e chantagear, a radical intolerância à liberdade de expressão e, last not least , o puro, o legítimo, o indisfarçado desejo de matar – tudo isso sublinhado pela presunção de infinita superioridade moral, que assim se revela, pelo contraste com a conduta documentada, um traço inconfundivelmente psicótico.

O leitor pode verificar em www.aim.org/wls . São milhares de citações, cada qual mais deprimente que a outra, nenhuma delas desmentida ou seguida de desculpas. Praticamente não há nos EUA celebridade “left-liberal” que não tenha dado sua contribuição a essa galeria de horrores, o mais direto e fidedigno retrato da alma esquerdista em todo o esplendor da sua baixeza.

Exorto os blogueiros do Brasil a reunir um mostruário nacional equivalente – necessidade vital a partir do momento em que o próprio presidente da República já não se vexa de chamar de “pervertidos” todos os que tenham objeções morais ao homossexualismo.

Mas o exemplário, para ser didático, deveria vir complementado por uma antologia dos eufemismos, rodeios e circunlóquios delicados com que a “direita”, encolhendo-se de servilismo ao ponto de quase desaparecer no subsolo, responde à brutalidade esquerdista, fingindo uma atmosfera de respeito mútuo, movendo guerra cultural assimétrica contra si própria e inventando para tal fim essa coisa extraordinária, jamais prevista nos manuais de lógica, que é a reciprocidade unilateral.

A diferença entre a direita brasileira e a americana, nesse ponto, é mínima. O pastor Pat Robertson, ao declarar que alguém devia dar cabo de um feroz inimigo do seu país, levanta contra si uma tempestade de invectivas e se humilha num pedido de desculpas. Apelos públicos ao assassinato de George W. Bush são tidos como normais, aceitáveis e até elegantes.

No Brasil, quem exerceu o direito elementar de responder ao sr. presidente da República que pervertido é ele?

Quando o sr. Ricardo Berzoini jura que invadir e queimar fazendas produtivas é “uma contribuição à democracia”, quem lhe responde que vá ser cínico naquele lugar?

Quando o sr. Luiz Mott fala de erotismo abraçado à estátua de um bebê, quem denuncia que isso é propaganda da pedofilia? Quando ele cisca cento e poucos gays dentre os 50 mil brasileiros assassinados por ano e faz disso uma “prova” de violência anti-homossexual endêmica, quem o acusa de improbidade intelectual?

Quanto o ministro da Saúde alega que milhares de mulheres morrem em abortos clandestinos e os próprios documentos do seu ministério provam que elas não passam de sete ou oito, quem o processa por essa fraude publicitária?

Até as Forças Armadas, quando acusadas de crimes imaginários, dão mau exemplo, omitindo-se de responder à calúnia com o devido processo judicial e optando pelo protesto tímido das “notas oficiais” praticamente inaudíveis.

Notem bem. Eu jamais aprovaria que se usase contra a esquerda o recurso, tão típico dela, à ênfase forçada, à autovitimização fingida, ao denuncismo histriônico. Mas o sentimento de justiça, que deve vigorar no estilo literário como em tudo o mais, exige que se chamem as coisas pelos seus nomes, o pervertido de pervertido, o mentiroso de mentiroso, o vigarista de vigarista.

Em 3 de julho de 2008

Intimacao

03 de dezembro de 2015 | Diário do Comércio

Até os anos 80 do século passado, programas como sex lib, feminismo, gayzismo, abortismo e liberação das drogas eram, para os governos comunistas, desvios pequeno-burgueses criados pelo imperialistas ianques para afastar a juventude da luta pelo socialismo.

Decorrida uma geração, todos esses temas foram absorvidos no discurso revolucionário e muito contribuíram para que o esquerdismo, aparentemente condenado à morte pela queda da URSS, não só sobrevivesse como se tornasse a força política dominante na Europa e nas Américas.

Se isso não basta para tornar evidente a potência de autotransformação camaleônica do movimento revolucionário mundial, não sei mais quantos desenhos seria preciso esboçar no quadro negro para ilustrá-la. No entanto, pouquíssimas são as inteligências que, nas hostes liberais e conservadoras, se deram clara conta desse fenômeno e de suas conseqüências.

Mas outras mutações concomitantes, tão vastas e profundas como essa, vieram a tornar o panorama ainda mais confuso.

Cito somente quatro:

1. A invasão islâmica, a “ocupação pela imigração”, cuja realidade muitos negavam até ontem, é agora um fato patente que ameaça a segurança de todas as nações ocidentais. Ao mesmo tempo, o cristianismo vem sendo cada vez mais banido da esfera pública, só deixando aos governos, mesmo soi disant conservadores, a saída de opor, à islamização crescente, o apelo aos mesmos valores laicos “politicamente corretos” que a esquerda conseguiu impor como normas universalmente válidas.

O resultado é óbvio: a invasão islâmica não cessa, mas a esquerda se afirma cada vez mais como a grande e única salvadora das democracias, que ao mesmo tempo ela solapa mediante o apoio ostensivo à imigração muçulmana em massa como alternativa “pacífica” ao terrorismo.

2. Instruído ao menos parcialmente pelo “eurasianismo” de Alexandre Duguin, o presidente russo Vladimir Putin decidiu empunhar a bandeira do cristianismo tradicional e brandi-la contra o Ocidente hedonista e agnóstico, ganhando com isso o apoio de amplas faixas de conservadores desiludidos.

Desiludidos seja com o establishment americano, impotente para livrar-se de um bandidinho chinfrim sem documentos que já mal esconde suas simpatias islâmicas; seja com a Igreja Católica, cujo Papa se parece cada vez mais com um upgrade improvisado do sr. Leonardo Boff.

Ao mesmo tempo que seduz esse público, porém, Putin vai, mediante acordos de cooperação econômica e militar, dando a maior força aos movimentos esquerdistas por toda parte, colocando os conservadores na posição desconfortável de servir a seus inimigos estratégicos em troca de um reconforto ideológico passageiro e muito provavelmente ilusório.

3. Também simultaneamente, muitos grupos capitalistas bilionários passaram a apoiar partidos e movimentos de esquerda de maneira cada vez mais ostensiva, culminando na declaração pública do sr. Bill Gates de que só o socialismo salvará o mundo.

Nesse panorama, a mera defesa da economia de mercado, que até ontem era a pièce de resistance do cardápio liberal-conservador, perde todo sentido estratégico e se torna um mero pretexto para adotar, em nome da “modernidade” e da “democracia”, todo o programa sociocultural da esquerda: gayzismo, abortismo, etc. etc.

4. Por fim, esse programa foi integralmente subscrito pela ONU e se tornou obrigatório para todas as nações — exceto as islâmicas, é claro, que assim se beneficiam duplamente da dissolução moral do Ocidente, por um lado aproveitando-se da debilitação das identidades nacionais (desprovidas cada vez mais de seus fundamentos religiosos) e arrombando portas para a entrada de novas levas de imigrantes, por outro lado oferecendo-se gentilmente como portadoras da esperança de uma possível “restauração da moralidade”.

Tudo parece calculado, enfim – pelo demônio em pessoa, quem mais?– para aprisionar a opinião pública mundial numa rede de ambigüidades e contradições paralisantes, de modo pegá-la desprevenida, sonsa e inerme no dia em que se realizar a profecia que Carlos Drummond de Andrade enunciou nos versos da “Intimação”:

Abre em nome da lei.

Abre sem nome e lei.

Abre mesmo sem rei.

Abre sozinho ou grei.

Não, não abras; à força de intimar-te, repara:

Cartas A Um Amigo Americano 2

03 de dezembro 2007 | Diário do Comércio

Prometi resumir as transformações políticas concomitantes aos fatos econômicos descritos na carta anterior, e é o que vou fazer aqui.

Em 1963, o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, Luís Carlos Prestes, conseguiu persuadir o governo soviético de que os tempos estavam maduros para a eclosão de uma guerra civil agrária no Brasil. Deviam estar mesmo, pois a morte de um diplomata cubano em acidente aéreo trouxe à luz acidentalmente as provas documentais de que o governo de Havana estava fornecendo armas, dinheiro e instrução para os guerrilheiros associados às Ligas Camponesas que, sob a liderança do deputado Francisco Julião, espalhavam o terror no Nordeste do país. As provas foram entregues ao presidente da República, João Goulart, que em vez de mandar investigar o caso remeteu discretamente os documentos a seu amigo Fidel Castro. Não há nada de estranho nesse episódio de alta traição, de vez que o próprio Goulart pregava abertamente a derrubada do regime, incitando os soldados e sargentos das Forças Armadas à rebelião contra seus superiores. A penetração dos comunistas no governo era tão vasta que em março do ano seguinte Luís Carlos Prestes proclamava num comício: “Estamos no poder.”

É claro que estavam, mas não com muitas garantias. Vários líderes políticos e militares planejavam em segredo a deposição do presidente. Em março de 1964, uma onda de protestos populares, a maior que se vira no país até então, fez com que o general Olympio Mourão Filho se adiantasse aos conspiradores, colocando subitamente as tropas do Estado de Minas Gerais em marcha contra o governo federal. Surpreendidos pela ousadia, até os comandantes militares aparentemente fiéis ao governo acabaram aderindo ao movimento. Goulart e seus cúmplices comunistas foram postos em fuga sem um só tiro.

O novo governo, improvisado sob a chefia do marechal Humberto Castelo Branco, prometeu realizar eleições livres em seis meses, mas depois mudou de idéia. Em pouco tempo as principais lideranças civis associadas ao movimento anti-Goulart foram elas próprias destruídas. O cargo de presidente tornou-se monopólio dos altos oficiais militares, enquanto os comunistas se rearticulavam em organizações terroristas e, entre um atentado e outro, preparavam a guerra de guerrilhas que iria eclodir a partir de 1968.

De Castelo Branco até Emílio Garrastazu Médici, isto é, nos dez primeiros anos subseqüentes à derrubada de Goulart, o regime, embora desmantelasse o sistema democrático, ao menos cumpriu fielmente sua promessa de modernização capitalista da economia. Os anos finais do governo Médici foram tão prósperos que nas últimas semanas do seu mandato o general era um dos presidentes brasileiros mais populares de todos os tempos, malgrado a dureza da repressão às guerrilhas.

Seu sucessor, Ernesto Geisel, deu um giro de 180 graus no curso dos acontecimentos. De um lado, criou uma infinidade de empresas estatais, fazendo da economia brasileira uma das mais centralizadas do mundo. De outro, rompeu o tradicional alinhamento brasileiro com os EUA, restabeleceu as relações com a China, ajudou Cuba a invadir Angola e promoveu o retorno dos comunistas e goulartistas em geral à atividade política. Embora continuasse a ser nominalmente um representante do movimento de 1964, imprimiu ao pais uma violenta guinada para a esquerda. Os esquerdistas jamais lhe demonstraram a menor gratidão, mas o fato é que nos últimos dias do seu governo, bem como ao longo da gestão de seu fiel continuador, João Figueiredo, já era visível que os esquerdistas iriam se tornar em breve a força dominante, ganhando no terreno político mil vezes mais do que haviam perdido na aventura suicida das guerrilhas. Tanto mais porque, submetidas por vinte anos ao jugo militar, as lideranças políticas de direita haviam se enfraquecido e corrompido ao ponto de tornar-se incapazes de agir exceto como parceiras em alianças controladas, sutilmente ou ostensivamente, pela esquerda. Ao mesmo tempo, as facções de esquerda que não haviam participado diretamente das guerrilhas já haviam conquistado, em silêncio, o domínio quase total da grande mídia, do ensino e das instituições culturais em geral, mediante a persistente aplicação da estratégia de “revolução cultural” concebida pelo ideólogo italiano Antonio Gramsci. No começo da década de 90, os valores e o vocabulário da esquerda haviam se arraigado tão profundamente na mentalidade geral das classes média e alta, que o ensaio de retorno ao direitismo, com a eleição de Fernando Collor de Melo, foi reduzido a nada com uma facilidade e uma rapidez impressionantes: alvo da mais violenta campanha de difamação que já se viu neste país, à qual a própria direita acabou aderindo por puro medo de ser difamada também, o presidente empossado em 1990 foi forçado a renunciar em 1992, sob acusações de corrupção jamais comprovadas e aliás impugnadas pela Justiça alguns anos depois, tarde demais para retirar do lixo a carreira de um político falido que hoje experimenta uma tardia e patética reencarnação como bajulador do presidente esquerdista Luís Inácio Lula da Silva.

Ao longo da década de 90, a estratégia denuncista usada contra Collor foi empregada, com sucesso, para destruir as remanescentes lideranças regionais de direita, que, se ainda desfrutaram de uma minguada fatia de poder durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso, foi à custa de se contentar com algumas medidas pró-capitalistas na área econômica (tão necessárias e consensuais que o próprio governo esquerdista subseqüente não quis alterá-las) e de permanecer subservientemente caladas enquanto o presidente alimentava com dinheiro do Estado as forças revolucionárias do MST, introduzia a doutrinação comunista em massa nas escolas brasileiras, erigia em doutrina oficial todo o ideário “politicamente correto” da esquerda light internacional e, com cinismo exemplar, se dizia arrependido do seu passado esquerdista.

Em 2002, estava claro que a direita no Brasil só subsistia enquanto força de pressão na área econômica, sem a menor projeção política, ideológica e cultural. Como ao mesmo tempo que o rumo da política econômica se consolidava no sentido da modernização capitalista (estranhamente fundida com um centralismo burocrático avassalador, numa fórmula paradoxal caracteristicamente brasileira), os remanescentes da direita se iludiram pensando poder salvar-se mediante a mesma aliança subserviente com a esquerda moderada que havia assegurado a sua sobrevivência durante a era Fernando Henrique. As duas vitórias arrasadoras de Luís Inácio Lula da Silva em 2002 e 2006 mataram essa ilusão, fazendo da esquerda a única força política existente no país, enquanto a direita se contenta com a pura defesa de interesses econômicos imediatos, sem qualquer plano político ou possibilidade de inventar um.

A esquerda vitoriosa instalou no governo federal um esquema de corrupção formidavelmente mais vasto do que qualquer coisa que se pudesse imaginar no tempo de Fernando Collor, mas as denúncias a respeito são incapazes de abalar o seu prestígio político no mais mínimo que seja. A direita agonizante, abstendo-se de qualquer esforço ideológico mesmo modesto, aposta tudo nessas denúncias, e perde sempre. Ao mesmo tempo, a violência no país cresce ilimitadamente, chegando a produzir cinqüenta mil homicídios por ano, mas o governo nada faz para combatê-la. Não faz e nem pode, porque está comprometido por uma aliança discreta mas firme com as FARC, acionistas majoritárias do narcotráfico nacional e dirigentes informais das gangues brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho. Essa aliança remonta a 1990, quando Luiz Inácio Lula da Silva e Fidel Castro fundaram o Foro de São Paulo, comando geral do movimento comunista no continente, que articula estrategicamente as ações conjugadas de partidos políticos legais com organizações de terroristas e narcotraficantes. A direita brasileira está tão enfraquecida e intimidada que ao longo de mais de uma década e meia se recusou obstinadamente a denunciar esse pacto sinistro, limitando-se a discursar apoliticamente contra os episódios de corrupção menores e mais convencionais, em termos que não se distinguem do que se dizia em 1992 contra Fernando Collor. A esquerda, por seu lado, está tão forte e segura de si que já não tolera nem mesmo esses protestos tímidos e autocastrados: acusa-os de “golpismo direitista” e nem sempre oculta sua intenção de calar as últimas vozes dissonantes, embora não pareça querer fazê-lo por meio da censura direta e sim do assédio judicial, da pressão econômica e da chantagem fiscal.

Em 3 de dezembro de 2007

Salvando O Comunismo

02 de março de 2007 | Inconfidência

A carta de saudação enviada pelas Farc à XIII assembléia geral do Foro de São Paulo ( www.farcep.org/?node=2,2513,1 ) é o documento mais elucidativo dos últimos tempos. Quem não a leu não mede a estreitreza dos laços que ligam o nosso partido governante à narcoguerrilha colombiana, nem compreende o papel que o governo brasileiro desempenha na restauração do movimento comunista internacional. O miolo do texto é o seguinte parágrafo:

“Em 1990 já se via vir abaixo o campo socialista, todas as suas estruturas fraquejavam como castelo de cartas, os inimigos do socialismo festejavam (...) A desesperança se apoderou de muitíssimos dirigentes (...) É nesse preciso momento que o PT lança a formidável proposta de criar o Foro de São Paulo (...) Essa iniciativa foi uma tábua de salvação (...) Quanta razão havia, transcorreram dezesseis anos e o panorama político é hoje totalmente diferente” .

Não há um só partido filiado ao Foro que discorde dessa afirmação: realizando uma idéia original de Fidel Castro, o PT salvou da extinção o comunismo, infundindo novas forças no corpo moribundo e habilitando-o, como se proclamou na IV assembléia da organização, a “ reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu “. Só seus adversários não querem ver isso. Têm medo de enxergar o tamanho do seu próprio fracasso.

Enquanto o Foro de São Paulo crescia, a influência dos EUA no continente definhava a olhos vistos, transferindo seus meios de ação para organismos internacionais, canalizando-os em favor dos partidos de esquerda ou contentando-se com a defesa de projetos econômicos que interessam menos à nação americana do que aos seus inimigos. Tão débil se tornou a diplomacia pública de Washington na região, que a propaganda esquerdista pôde se prevalecer da completa ignorância local quanto à realidade americana, atribuindo ao “imperialismo ianque” iniciativas que, do Texas ao Maine, ninguém ignora serem ameaças à soberania dos EUA. A Alca, por exemplo. É engraçado comparar os discursos iracundos da esquerda latino-americana contra esse “acordo imperialista” com os protestos não menos furiosos dos conservadores americanos contra esse atentado globalista aos interesses nacionais dos EUA. Alguém aí está fora de si – e não são os conservadores americanos. Mais cômico, ou tragicômico, é ver a esquerda denunciando como “ingerência americana” a presença na Amazônia de agentes do Conselho Mundial das Igrejas, que nos EUA até as crianças sabem ser uma entidade internacional esquerdista, anti-americana e financiadora de movimentos revolucionários. O primado da fantasia sobre a realidade parece que subiu às alturas de um um princípio estratégico.

Em 2 de março de 2007

Astucias De Chapolin

02 de maio de 2008 | Diário do Comércio

Num recente debate com o economista Rodrigo Constantino, no programa “Conversas Cruzadas” da TV gaúcha ( http://www.youtube.com/watch?v=xxnn-lPglz4 ), o deputado Ciro Gomes assegurou que o único gasto excessivo do governo federal é o pagamento dos juros da dívida externa e que seria praticamente impossível sugerir, fora isso, qualquer corte de despesas que chegasse a um bilhão de reais. Aparentemente, nem ele nem seu interlocutor tinham a menor idéia de que a pletora de indenizações a terroristas – o gasto mais inútil e mais indecente que se poderia imaginar — já ultrapassou essa cifra há muito tempo. Também nenhum dos dois deu sinal de saber que, no orçamento deste ano, as despesas da Presidência estão em quase três bilhões, e os ministérios inventados pelo governo Lula, que não faziam a menor falta quando não existiam nem farão quando retornarem ao nada, estão consumindo 8 bilhões. Com toda a sua responsabilidade de ex-ministro da Integração Nacional, o sr. Ciro Gomes mostrou recordar, do Orçamento da União, só aquele detalhe que lhe dava a oportunidade de malhar uma vez mais o seu judas predileto, o “neoliberalismo”, esquecendo tudo o mais. Se não o esquecesse, não poderia conciliar sua ojeriza aos credores externos com a afirmativa esdrúxula de que o governo deveria é gastar mais em vez de menos. Pois, afinal, foi para gastar mais, e não menos, que se fez a dívida externa. Ou estou enganado?

Mesmo quanto ao alvo predileto dos seus ataques o sr. Gomes mostrou não saber grande coisa, pois voltou a insistir no cacoete mais estúpido da retórica oficial, os tais “quinhentos anos” de exploração capitalista, como se o “neoliberalismo” (seja isto lá o que for) tivesse começado com Pedro Álvares Cabral e como se toda a nossa história administrativa não tivesse sido, bem ao contrário, – e desde os tempos das Capitanias Hereditárias – uma novela de centralização, burocratismo e gastos públicos freqüentemente até maiores do que aqueles que o ex-ministro recomenda.

Presto sempre atenção ao que diz o sr. Ciro Gomes, porque é quase inevitável que mais dia, menos dia, ele se candidate de novo à Presidência, recuperando a chance que perdeu quando, em 2002, consentiu abjetamente em servir de sparring na farsa eleitoral mais grotesca da nossa História, uma festa em família entre companheiros de esquerdismo, todos empenhados em não bater demais no candidato petista cuja vitória pré-decidida era a única razão de ser daquela palhaçada toda.

Notem bem: o sr. Gomes não é nenhum idiota, é um dos homens mais inteligentes e uma das personalidades mais interessantes que já passaram por qualquer ministério desde a inauguração da Nova República. Seu problema não é burrice: é o oportunismo escorregadio que o faz querer passar por muito mais esquerdista do que é e comprometer-se com as políticas erradas mesmo quando está com a idéia certa na cabeça. Muitas vezes, no curso deste debate como em outros pronunciamentos, ele expressou opiniões gerais muito sensatas, mas entremeando-as de concessões de ocasião ao esquerdismo mais vulgar e estúpido, arruinando com uma profusão de detalhes falsos a verdade geral do que dizia. Ele faz isso porque padece de espertismo , a doença endêmica dos políticos brasileiros, que consiste em acabar virando bobo de tanto querer bancar o esperto. Se fosse mesmo esperto, o sr. Gomes jamais teria apostado nas luzes de meio watt do filósofo Roberto Mangabeira Unger, que é o pior tipo de visionário, o visionário sem visão. Nem daria como exemplo de interferência estrangeira danosa aos nossos interesses, como o fez neste debate, a pressão americana contra a venda de aviões à Venezuela. Não que ele seja bobo o suficiente para imaginar que um assunto desses pode ser enfocado só do ângulo econômico, ignorando as implicações militares mais patentes que determinam a atitude americana e a tornam, aliás, benéfica ao Brasil. Mas fazer-se de bobo só para não perder a chance de dar um agradinho nos chavistas de plantão não é esperteza nenhuma: como sempre acontece nessas ocasiões, a diferença entre a bobagem fingida e a bobagem autêntica tornou-se perfeitamente irrelevante, e a astúcia verbal do sr. Gomes acabou não se distinguindo em nada da do saudoso Chapolín Colorado.

Se o ex-governador do Ceará, com todo o seu talento, não se decidir a tornar-se ele mesmo em vez de continuar se amoldando por falsa esperteza àqueles que só pretendem utilizá-lo para fins que não são os dele, dificilmente virá a desempenhar na política brasileira um papel mais honroso do que na eleição presidencial de 2002.

Em 2 de maio de 2008

Receita De Suicidio

02 de agosto de 2007 | Jornal do Brasil

O prefeito de São Paulo deve estar se achando um Ph. D. em maquiavelismo por fazer passar uma lei “anti-homofóbica” antes do governo federal. Uma década e meia transcorrida desde que o Foro de São Paulo concebeu seu plano estratégico abrangente para a conquista do poder total na América Latina, os políticos “de direita” neste país ainda acreditam estar vivendo dentro do velho modelo brasileiro de concorrência mercadológica entre partidos ideologicamente inócuos, onde copiar o programa do adversário para sugar os votos dele era o cúmulo da esperteza. Mas o cenário em que se movem é puramente imaginário. O Brasil real é o terreno de uma transição revolucionária em marcha. A elite que comanda o processo não está interessada em miudezas eleitorais, e sim na mudança radical do sistema, pouco lhe importando que realize cada capítulo dela com suas próprias mãos ou por intermédio de adversários que imaginam ludibriá-la quando fazem precisamente o que ela faria no seu lugar. Não que lhes fique grata por isso, é claro. A ninguém a revolução despreza mais do que a seus servidores involuntários. Quanto mais para a esquerda estes vão deslizando, na ilusão de roubar-lhe o discurso, mais ela os rotula como direitistas típicos e até radicais, somando ao aproveitamento do esforço alheio a vantagem adicional de estreitar cada vez mais a margem de direitismo socialmente admissível.

A falsa astúcia que se deixa guiar pelo chavão de “fazer a revolução antes que o povo a faça”, esquece que o povo jamais faz revoluções. Quem as faz são as elites: a elite revolucionária, avançando sem parar; a elite conservadora, recuando, acomodando-se, hipnotizada pelo mito da inevitabilidade histórica. Quem começou a Revolução Francesa foi Luís XVI; a Russa, foi o tzar. E a nossa “revolução contra-revolucionária” de 1930, guiada por essa frase idiota, foi o começo da ascensão comunista que depois nem mesmo o interregno militar conseguiu deter.

Mas a obra-prima do colaboracionismo inconsciente são os protestos pontuais, “apolíticos e suprapartidários”, que, voltados contra alvos soltos e inconexos, desperdiçam a ira popular em descargas emocionais sem nenhum projeto político por trás, as quais, por isso mesmo, são facilmente tomadas como provas de alguma grande e temível manobra secreta em curso, fornecendo ao esquema esquerdista dominante o pretexto que ele queria para alertar contra o “golpe iminente”, a “ameaça fascista”, etc. etc.

A fuga ao enfrentamento ideológico, a recusa covarde de pronunciar o verdadeiro nome do inimigo, é a fórmula infalível do suicídio político.

Em 2 de agosto de 2007

Tudo Dominado

02 de agosto de 2003 | O Globo

Alguns adversários do governo vêem na queda da popularidade do presidente da República um auspicioso sinal de que o eleitorado vai se libertando da ilusão esquerdista. Mas isso sim é que é ilusão. A força de uma corrente política não se mede pelo prestígio de um de seus membros, mas pela somatória dos seus meios de ação, comparados aos do antagonista. O mais decisivo é a predisposição do público para aceitar o discurso de um dos lados. Hoje em dia, a credibilidade a priori da fala esquerdista é tão hegemônica que qualquer argumento contra, já não digo para ser aceito, mas simplesmente para ser compreendido, tem de se traduzir nos termos dela, esvaziando-se de toda energia própria. A esquerda tem o monopólio do ideário nacional, da linguagem dos debates públicos, dos critérios de julgamento do bem e do mal. Isso equivale, em política, ao domínio do espaço aéreo em estratégia militar. O inimigo pode criar focos de resistência limitados e pontuais, mas o conjunto, o esquema geral, está sob controle. Como diriam os evangélicos, está tudo dominado.

Um dos sinais mais inequívocos é o direito adquirido que qualquer esquerdista tem de ser interpretado sempre da maneira mais benévola, enquanto toda palavra que venha da direita é, infalivelmente, ouvida com malícia.

Imaginem o que aconteceria se um líder dos fazendeiros, somando os militantes do MST, dissesse: “Vamos nos organizar e acabar com todos eles.” Quem, na mídia ou na classe política, hesitaria em ver nisso um apelo ao genocídio?

Mas, quando o sr. Stedile anuncia seu propósito de reunir um exército de 23 milhões de militantes para “acabar com todos os fazendeiros”, o dr. Marcio Thomaz Bastos, com a cara mais bisonha do mundo, pontifica que o movimento chefiado por esse indivíduo “não é caso de polícia”. O presidente do PT, José Genoíno, mais calmante que um Dienpax na veia, filosofa que a tomada de propriedades pela força “é coisa da vida”. E o bispo Casaldáliga, levando sua caricatura simiesca da fé cristã às últimas conseqüências, condena como “satanismo” a resistência às invasões.

Vocês lembram o que a mídia fez com o ex-governador Maluf quando, numa frase desastrada, disse “Estupra mas não mata”? É claro. Um direitista, ou qualquer um assim rotulado, não tem direito sequer a um lapsus linguae, por mais patente e boboca que seja. Mas quando o sr. Stedile conta as cabeças de seus adversários e promete cortar todas, é o próprio ministro da Justiça quem vem correndo diluir o conteúdo de suas palavras, para que não manchem a reputação de um “movimento social”, coisa inocente e cândida por definição.

Como “acabar” com 27 mil cidadãos, senão matando-os ou aterrorizando-os? Se essa ameaça não é caso de polícia, confesso que ficarei inibido de apelar ao socorro policial na eventualidade de algum desafeto meu, reunindo mil parceiros armados de foices, facões, revólveres e carabinas, prometer “acabar” comigo. Mil contra um, antigamente, era covardia, era massacre. Hoje é “movimento social”. E “honni soit qui mal y pense”. Afinal, os revisionistas do Holocausto também não alegavam que Hitler jamais ameaçara “matar” os judeus, apenas “acabar” com eles? Foram os pérfidos sionistas que, retrospectivamente, atribuíram más intenções àquele doce de criatura.

Hegemonia lingüística é isso: basta mudar o nome de um crime, e ele deixa de ser crime. Passa a ser uma “coisa da vida”, se não a expressão da vontade divina, que só “satanistas” ousariam contrariar.

Mas as massas de camponeses sob o comando de Mao Tsé-tung não eram um “movimento social”? Não eram “movimentos sociais” as hordas de pés-rapados que, com estandartes nazistas, marchavam pelas ruas de Berlim exigindo “acabar” com os ricos e os comunistas? Não são “movimentos sociais” as tropas de invasores que, no Zimbábue, já “acabaram” com mais de mil fazendeiros? Não é “movimento social” a narcoguerrilha colombiana, que dá emprego a milhares de plantadores pobres?

Segundo o nosso governo, as Farc são uma organização tão respeitável quanto o governo da Colômbia. Se, portanto, com a melhor das intenções sociais, elas injetam no mercado nacional duzentas toneladas de cocaína por ano, isso é ou não é um caso de polícia? É crime ou “coisa da vida”? Perguntem ao ministro da Justiça, perguntem a José Genoíno, perguntem a Dom Pedro Casaldáliga. A língua portuguesa do Brasil, aviltada pelo abuso semântico institucionalizado, já não serve para a gente se explicar sobre o que quer que seja: serve só para papaguear chavões esquerdistas.

Por isso é que os fazendeiros se enganam tragicamente quando pensam que, com guardas armados, podem resistir às invasões. Não se vence, com balas, a força da hegemonia, o poder hipnótico de seduções verbais que, ao longo de décadas de “revolução cultural”, enfeitiçaram a alma da sociedade. Não se vence, com resistências locais e avulsas, uma estratégia abrangente e complexa que muito antes de dominar o Estado já dominava todas as consciências.

Por isso também se enganam aqueles que, escandalizados com a maré montante das invasões e da violência em geral, cobram do governo que “tome uma atitude”, que “cumpra sua função”. Ele já tomou essa atitude, já cumpre essa função. Todo partido revolucionário que, por meio do voto, sobe ao poder numa democracia constitucional, só pode ter uma dentre duas funções: ou assume a condução do processo revolucionário, como fizeram Allende e João Goulart, arriscando-se a terminar como eles, ou, ao contrário, fica na retaguarda, acalmando os investidores internacionais, anestesiando a opinião pública e montando um simulacro de normalidade enquanto deixa às organizações militantes a incumbência de, com sua discreta ajuda, tomar a dianteira e apoderar-se de todos os meios de ação, isolando e paralisando o adversário. Esta última alternativa é complexa e delicada, mas indolor: as únicas armas de que um governo precisa para ser bem sucedido nela são anestésicos, soporíferos, tranqüilizantes, eufemismos, evasivas e desconversas. E no manejo desse arsenal o governo Lula é formidavelmente bom.

Em 2 de agosto de 2003

Os Amigos Da Onca

01 de outubro de 2007 | Diário do Comércio

Meus alunos mais velhos são testemunhas de que há quase vinte anos eu já anunciava: “Querem saber o que é entreguismo? Esperem o PT chegar ao poder.” A previsão, que se referia especificamente à internacionalização da Amazônia, não era mero palpite, nem efusão de retórica antipetista. Baseava-se em extensa pesquisa dos laços entre os movimentos de esquerda e os grupos globalistas bilionários que depois vim a denominar “metacapitalistas” .

Como todas as demais previsões políticas que fiz desde então, essa também veio a se confirmar. No último dia 21, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, anunciou o projeto governamental de entregar à gestão privada amplos trechos da floresta amazônica, equivalentes, segundo o repórter Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, a noventa mil estádios de futebol.

A iniciativa confirma também o alerta distribuído em 14 de junho pelo CEBRES, Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos, que congrega vários membros do grupo militar dito “nacionalista”, entre os quais o general Durval de Andrade Nery, com o qual tive um arranca-rabo tempos atrás quando ele, decerto por não entender uma só palavra do que digo, me incluiu entre os globalistas que abomino e combato.

Jamais duvidei do patriotismo desses militares, mas, com relação à lucidez e objetividade das suas análises, tenho algo mais que mera dúvida. Tenho a certeza de que estão tragicamente enganados quanto à natureza e localização do inimigo. Simplesmente não é possível compreender o jogo do poder no mundo atual sem um conhecimento extensivo do debate político interno nos EUA, e esse conhecimento é praticamente inacessível a quem se limite aos meios de informação usuais no Brasil.

Já expliquei isso mil vezes, mas parece que estou falando com jumentos de pedra. A opinião pública americana divide-se em partes mais ou menos iguais entre os “progressistas” (liberals) e os conservadores (conservative). Esse equilíbrio reflete uma repartição equitativa do acesso aos meios de comunicação, os primeiros dominando os grandes jornais e a TV, os segundos os programas de rádio, especialmente os talk-shows de enorme audiência. Acontece que, dessas duas fontes, só a primeira atinge o público internacional. A segunda é de alcance estritamente local. Resultados:

1) Do Brasil à Zâmbia, tudo o que se sabe dos EUA vem pela mídia de esquerda, principalmente na sua versão light que por isso mesmo passa como expressão do pensamento americano dominante ou exclusivo.

2) Por toda parte, mas principalmente na América Latina, a reação contra os avanços globalistas ou neo-imperialistas assume por isso mesmo a forma do anti-americanismo, induzindo os nacionalistas a aliar-se com a esquerda local, cujos laços com o metacapitalismo global ignoram ou não compreendem.

3) Monitorados e manipulados de longe pela aliança da esquerda americana com os grupos bilionários, esses esforços patrióticos acabam trabalhando contra si próprios e naufragando na mais deplorável impotência. O manifesto do CEBRES é um exemplo de revolta patriótica mal dirigida, que só pode levar ao fortalecimento dos seus inimigos. Quando tento adverti-los disso, os membros do grupo “nacionalista” reagem com desconfiança paranóica, enxergando em mim um perigo que deveriam procurar antes em alguns de seus “companheiros de viagem” ou mesmo em alguns integrantes do próprio grupo (os mais empenhados em transfigurar em puro anti-americanismo o impulso patriótico dos restantes).

Quase dez anos atrás assisti no CEBRES à conferência de um teórico esquerdista, muito simpático e eloqüente, que pregava a aliança entre a esquerda e os militares contra o “neoliberalismo”. A platéia, — não muito grande, na verdade – aderiu entusiasticamente ao plano, em parte impressionada com a política antimilitar do governo Fernando Henrique, que ela tomava ilusoriamente como direitista e americanófilo, sem saber que a origem remota e o sentido último do tucanismo emergiam da mesma aliança entre os “progressistas” americanos e seus financiadores globalistas, que dava respaldo aos partidos de esquerda no Brasil. A confusão mental que se armara no modesto auditório do CEBRES era tão densa, que abdiquei de tentar desfazê-la, limitando-me a abanar a cabeça prevendo uma desgraça inevitável.

O manifesto de 14 de junho, descrevendo acuradamente a penetração internacionalista na Amazônia e clamando por uma justa reação contra ela, persiste no erro, entretanto, ao ver esse fenômeno como expressão do desejo de poder nacional das “grandes potências”, principalmente os EUA e a Inglaterra, ignorando que a iniciativa parte dos mesmos grupos globalistas que tudo têm feito para diluir a identidade nacional desses dois países, destruir sua soberania e subjugá-los a uma nova estrutura de poder mundial. A falha colossal do diagnóstico do CEBRES provém da sua obediência residual aos esquemas teóricos criados décadas atrás pelos analistas estratégicos da ESG, esquemas esses que, refletindo talvez longinquamente a influência da doutrina Morgenthau, encaravam os Estados nacionais como os agentes principais do processo histórico e assim lançavam uma involuntária cortina de fumaça sobre o novo esquema transnacional de poder que então já era discretamente – e hoje é quase ostensivamente – o verdadeiro protagonista da cena mundial. A luta dos patriotas americanos contra esse esquema é a maior ou única esperança de preservação das soberanias nacionais num futuro não muito distante. Ao voltar-se contra os EUA, em bloco e sem distinções, as reações nacionalistas nos países do Terceiro Mundo, especialmente o Brasil, só fazem dar um reforço gratuito à trama globalista-esquerdista que hoje busca dissolver os EUA num monstrengo chamado “Comunidade Norte Americana” (EUA, México e Canadá) e transferir a organismos internacionais o controle das águas territoriais estadunidenses, exatamente com o mesmo empenho com que tenta – e agora parece que vai conseguir – dominar a Amazônia.

Tanto por seu amor ao comunismo quanto por sua submissão aos interesses globalistas ou pelo seu obsessivo e mal disfarçado ódio antimilitar, o governo do PT vem aprofundando a incompatibilidade, já de si radical e insanável, entre a esquerda e as Forças Armadas –incompatibilidade que agentes de influência como o conferencista acima mencionado ou o ativíssimo grupo do sr. Quartim de Moraes tentam camuflar sob um manto de desconversas sedutoras e promessas lisonjeiras, buscando canalizar em benefício da estratégia globalista-esquerdista internacional a justa insatisfação dos homens de farda. O futuro do Brasil, ou mesmo do continente latino-americano inteiro, depende de que a presente geração de oficiais militares saiba desmascarar seus falsos amigos e recusar-se a servir de instrumento a uma das tramas mais perversas e astutas que a intelligentzia esquerdista já concebeu neste país.

Em 1 de outubro de 2007

Colaborando Com A Tragedia

01 de janeiro de 2003 | Jornal da Tarde

Num artigo escrito meses atrás, anunciei que era loucura avaliar a periculosidade do novo governo federal tão-somente por meio de conjeturações quanto à sua política econômica, especialmente no que diz respeito aos investimentos estrangeiros.

Lula, assegurei, nada faria de mau ao investidor estrangeiro, ao FMI ou ao governo americano. A preocupação nacional com os riscos possíveis para essas respeitáveis pessoas e instituições refletia somente a total alienação das nossas elites empresariais, incapazes de pensar desde a sua própria situação existencial e inclinadas a adotar o ponto de vista do interesse alheio, tomado ingenuamente como molde do seu.

Bem ao contrário, a primeira iniciativa do novo presidente, dizia eu, seria a de acalmar os temores estrangeiros, para assegurar a continuidade de um fluxo de capitais sem a qual a consecução de seus planos de transição para o socialismo seria paralisada por falta de proteínas.

Lula seguiria, nisso, o exemplo do próprio Lenin, que imediatamente após a tomada do poder na Rússia enviou aos países investidores o embaixador Abraham Yoffe com uma conversa calmante que funcionou na época e, traduzida em português quase ipsis litteris, funcionou de novo em 2002.

A classe dos idiotas empresariais, com seus consultores pomposos pagos para ludibriá-los, não consegue conceber a estratégia comunista senão como ruptura ostensiva com o capitalismo internacional e socialização imediata dos meios de produção. Se não vêem no horizonte uma coisa nem a outra, acreditam-se a salvo do perigo. Ora, se houve algo que nenhum regime comunista estreante jamais fez foi qualquer dessas duas coisas. Na Rússia, a socialização dos meios de produção só veio 12 anos depois da tomada do poder. Na China, 9 anos. Nesse ínterim, os investidores estrangeiros e seus sócios locais se encheram de dinheiro, acreditando que tudo tinha entrado no rumo da mais linda prosperidade capitalista.

Nenhum governante comunista, quer chegue ao poder por via revolucionária ou eleitoral, é louco de começar por mudanças econômicas radicais que podem pôr tudo a perder. A primeira fase da transição consiste justamente em deixar a economia como está, enquanto se consolida a estrutura do partido e se faz dele a espinha dorsal do Estado. O novo governo já tratou disso, ao anunciar que o PT, em vez dos ministros nomeados, preencherá as vagas na burocracia ministerial. O alcance dessa medida é incalculável, pois coloca o PT no coração do aparato estatal, uma posição que nenhum partido ocupa nas nações democráticas, e faz dele o análogo estrutural do Partido Comunista na ex-URSS ou do Partido Nazista na Alemanha de Hitler. O partido terá aí o poder absoluto, por cima da hierarquia funcional, instituindo o sistema de dupla lealdade, no qual uma carteirinha de militante valerá mais que o cargo nominal. A partidarização da burocracia é o capítulo primeiro e essencial das revoluções, sejam fascistas, nazistas ou comunistas.

Ao mesmo tempo, o novo governo precisa de sossego na área econômica para consolidar seus laços com Hugo Chávez e Fidel Castro. O fato de que, logo após sua intervenção na crise venezuelana, o sr. Marco Aurélio Garcia tenha ido diretamente a Cuba tem, decerto, importância mais que simbólica.

Enquanto o Brasil dá respaldo ao presidente venezuelano contra a população de seus próprio país, Chávez aprofunda sua dependência de Cuba, entregando a agentes da DGI (serviço secreto cubano) a direção de importantes áreas da segurança interna. Segundo a revista Insight, até terroristas islâmicos foram chamados para ocupar posições no esquema policial-militar que está sendo criado para esmagar a resistência venezuelana. É esse o regime com que o nosso governo está solidário, indiferente ao fato de que o clamor popular contra Chávez é mil vezes maior do que aquele que aqui bastou para legitimar a derrubada de Collor (sem que nenhum Lula, na época, chamasse a isso “golpe”). A inserção estratégica do Brasil nessa malha é uma operação complexa e delicada demais para que o novo governo possa empreendê-la sem sentir-se livre de conflitos na área econômica. Mas, aí, ele não terá mesmo com que se preocupar. O imediatismo insano do nosso empresariado fará dele um dócil colaborador daquilo que, a médio prazo, será uma tragédia de proporções colossais.

Em 1 de janeiro de 2003

A Vinganca Do Serra

. Machado de Assis, em Quincas Borba. | 21 de julho de 2002

Está na imprensa de hoje: Serra ameaçou apoiar Lula no segundo turno se os seus apoiadores se bandearem para a candidatura Ciro Gomes, isto é, se for cristianizado (termo que designa os candidatos que são formalmente apoiados mas, na prática, abandonado pelos aliados, em favor de outro candidato). Penso que é para valer.

As más línguas já vinham afirmando que o candidato do coração do Professor Cardoso (FHC) era Lula e que ele não votaria em Serra. É provável que isso venha a acontecer. Nunca é demais lembrar que FHC esteve muito próximo de ter sido um dos fundadores do PT. A sua ligação com Lula é muita antiga, dos anos setenta.

Então a ameaça de Serra não chegará exatamente a ser nem uma vingança e nem uma surpresa. Será apenas a água do rio voltando para o seu leito, depois da cheia. A diferença entre o socialismo do Professor Cardoso, do Serra e a tropa do PT é só de tática: todos almejam o mesmo fim. E, é bom que se diga, FHC tem sido muito mais competente, seja no discurso, seja na ação, para alcançar seus fins políticos. Entregará o governo com o Estado brasileiro tecnicamente transformado em um ente socialista. Qualquer que seja o sucessor, será difícil voltar ao status quo ante.

Se for Lula o eleito, haverá um continuísmo natural em prol da socialização, avançando no processo. Alguém imagina o que será a ação do MST, por exemplo, e como agirão os órgãos encarregados de administrar a Reforma Agrária? Só de imaginar me assusta o que pode ocorrer. Poderá ser a desorganização da nossa agricultura, trazendo o respectivo desabastecimento, isto é, a fome.

O mesmo pode ser dito da carga tributária. Os balões de ensaio que os assessores econômicos de Lula têm soltado nos últimos dias, a título de “propostas concretas” lights, apontam em uma só direção: elevação da carga tributária e o desvario distributivista. Que Deus nos acuda!

Raymond Aron, em seu já citado livro “O Espectador Engajado”, por várias vezes, ao analisar a sua participação dos acontecimentos políticos da França entre 1930 e 1960, afirma que o seu grande temor era o país descambar para a guerra civil, ele que não desejava de forma alguma que acontecessem novamente as tragédias vividas durante a Comuna de Paris.

Confesso que é esse também o meu grande medo: que nos transformemos em uma grande Canudos, na qual a conflagração poderá nos custar muito caro. Eleições não são apenas eleições, podem ser o ponto de partida para um desfecho trágico. O que fazer? Não sei, não tenho a receita. Penso que as vezes a História nos reserva surpresas bem desagradáveis e, enquanto indivíduos, não temos muito a fazer a não ser preservar a integridade da alma, aconteça o que acontecer. Por vezes pode haver um verdadeiro encontro com o Destino. São os descaminhos do processo histórico.

Mas o fato é que Serra está fraco nas pesquisas e poderá estar fora do segundo turno, cumprindo a sua falsa ameaça de bom grado. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP Em 21 de julho de 2002

Leituras

Sobre A Moralidade De Karl Marx

(São Paulo), sábado, 20 de outubro de 2001 | Ipojuca Pontes

Ao criticar Apelo aos Eslavos – escrito em que Bakunin (1814/65), a propósito da criação de uma federação eslava, invoca a fraternidade entre os povos e o respeito as fronteiras entre os Estados soberanos –, Karl Marx (1818/83) afirmou, em 1849, na Nova Gazeta Renana:

“Justiça, liberdade, igualdade, fraternidade, independência: nada mais encontramos no manifesto pan-eslavista além destas categorias mais ou menos morais que, é certo, soam bem, mas não têm nenhum sentido no domínio histórico e político. Os Estados Unidos e México são dois povos soberanos, duas repúblicas. Como é possível que entre duas repúblicas que, segundo a lei moral, deveriam estar unidas por elos fraternos e federais, tenha eclodido uma guerra por causa do Texas, e que a vontade soberana do povo americano tenha empurrado uma centena de milhas mais adiante as fronteiras naturais em razão das necessidades geográficas, comerciais e estratégicas? Bakunin censura os americanos por fazerem uma guerra de conquista que é um duro golpe na teoria fundada na justiça e na humanidade, mas que é conduzida no interesse da humanidade. É uma infelicidade se a rica Califórnia foi arrancada dos mexicanos preguiçosos que não sabiam o que fazer dela? Se os enérgicos yankees, graças a exploração das minas de ouro daquela região, aumentam as vias de comunicação, concentram sobre a costa do Pacífico uma população densa e um comércio em expansão, abrem linhas marítimas, estabelecem uma via férrea de Nova York a São Francisco, abrem pela primeira vez o Pacífico à civilização e pela terceira vez na história dão uma nova orientação ao comércio mundial? A independência de alguns californianos pode sofrer com isso, a justiça e outros princípios morais podem ser feridos – mas isto conta, diante de tais realidades que são o domínio da história universal?”

Para Marx, claro, não contava, e a resposta a Bakunin expressa, com espantosa nitidez, a questão da ética e da moral na doutrina marxista. Não é necessário aqui nenhum esforço para reconhecer que Marx, em nome da real politik, justifica e admite, sem a menor cerimônia, a pilhagem, a exploração e o massacre de “povos preguiçosos” (os mestiços mexicanos) em nome de presumível “domínio histórico universal” empreendido pelos norte-americanos. O que é para o líder anarquista um ato imoral, para Marx não ultrapassa os limites de simples decorrência histórica, pois, segundo entende, os fins justificam os meios.

Analistas costumam ressaltar, repetindo o próprio Marx, que o “socialismo científico” não se ergue sobre uma exigência moral subjetiva, mas em torno de uma teoria objetiva da história – dialética e progressista –, que aceita a expansão colonialista como uma etapa historicamente necessária para a formação do sociedade socialista: a história se faz de contradição, o feudalismo é suplantado pelo capitalismo e o capitalismo, por sua vez, não é o fim da história. Assim, a exigência moral, ou de qualquer conjunto de regras de conduta, seria no capitalismo uma excrescência, embora seja perceptível uma postura moral inseparável à teoria marxista da história: nela tudo é permitido desde que o seja em função da emancipação da classe operária.

Trata-se de um contra-senso, mas só a partir dele poderia aceitar-se o entendimento da moral como mera “ideologia” subordinada a “interesses particulares de classe”, cujas formas “não podem desaparecer a não ser com o desaparecimento total dos antagonismos de classe”, ou seja, com o advento do comunismo e da moral proletária, que se tornaria a moral definitiva da humanidade.

À margem o fato de ampliar o abismo entre a conduta ética e o comportamento político – assunto polêmico e de crescente atualidade –, a instrumentalização da ética no contexto da teoria marxista nos leva ao incontornável questionamento dos meios utilizados para se chegar aos fins revolucionários (o poder) e, por extensão, à necessária pergunta: se os fins justificam os meios, quem justifica os fins quando os meios utilizados são maus?

Parte da resposta talvez venha a ser encontrada no exame da própria conduta de Marx, à luz de dados biográficos reais e longe da imagem mítica partidariamente cultivada, na maneira como se comportava com amigos e familiares e, em especial, nos métodos que empregava no confronto com adversários para impor a doutrina comunista e sua ética de resultados.

A primeira coisa a ressaltar em Marx diz respeito ao caráter impositivo. Marx não pedia, mandava. Não se desculpava, justificava-se. Não dialogava, impunha ou aliciava. Um dos poucos homens com quem conviveu sem brigar, o poeta Heinrich Heine, escreveu que “Marx se julga um Deus Ateu autonomeado”. Quando, por qualquer razão, se impacientava com um circundante – como no caso em que humilhou publicamente o operário Weitling –, partia para explosão verbal. Um observador, Pavel Annenkov, traçou-lhe o perfil: “Falava sempre com palavras imperiosas, que não admitiam contradição, e que se tornavam ainda mais incisivas pela sensação quase dolorosa do tom que perpassava tudo o que dizia. O tom expressava a firme convicção de sua missão de dominar a mente dos homens e de lhes ditar suas leis. Diante de mim erguia-se a encarnação de um ditador democrático.”

Boa demonstração do seu caráter revela-se na polêmica que travou com P. J. Proudhon (1809/65), o socialista francês que o acolheu no exílio, antes de Marx ser expulso de Paris, em 1844. Proudhon tinha se tornado o mestre do socialismo europeu com a publicação de O Que é a Propriedade?, ao ponto de Marx reverenciá-lo, em A Sagrada Família, como criador de “obra que revoluciona a economia política, tornando possível, pela primeira vez, uma verdadeira ciência da economia política”.

Mas Proudhon, desconfiando do caráter de Marx, impregnado de virulência, recusou o convite deste (feito por carta) para ingressar no Comitê Comunista de Correspondência, sediado em Bruxelas. Ponderou, profético, Proudhon:

“Faço profissão pública de um antidogmatismo econômico absoluto. Se o sr. quiser, investiguemos juntos as leis da sociedade, o modo como essas leis se realizam, o processo segundo o qual chegaremos a descobri-la – mas, por Deus, depois de demolir todos os dogmatismos a priori, não pensemos em doutrinar o povo, não caiamos na contradição do v. compatriota Lutero, que, depois de haver derrubado a teologia católica, colocou-se logo, através de anátemas e excomunhões, a criar uma teologia protestante... Façamos uma boa e leal polêmica; demos ao mundo o exemplo de tolerância sábia e previdente, mas não nos tornemos os chefes de uma nova intolerância, não nos coloquemos como apóstolos de uma nova religião, mesmo que essa religião seja da lógica, da razão... Com essa condição entrarei na v. associação – senão, não!

“Devo ainda fazer algumas observações à expressão “momento de ação” (revolucionária) de v. carta. Eu creio que não temos necessidade disso para vencer, e que, conseqüentemente, não devemos colocar a ação revolucionária como meio de reforma social, porque esse meio seria simplesmente um apelo à força, ao arbítrio; em suma, uma contradição.”

A resposta de Marx veio em 1847, com Miséria da Filosofia, depois que Proudhon lançou Sistema das Contradições Econômicas, uma construção antitética que propõe o entendimento da propriedade – a lado de ser uma apropriação indébita – como uma forma de liberdade. No opúsculo, Marx, irado com a recusa e os comentários de Proudhon, reduz a quem antes considerava “o mais notável socialista francês” à mera condição de “socialista utópico”, um “pequeno burguês oscilante entre o capital e o trabalho”.

Sabe-se hoje que o “socialismo científico” de Marx revelou-se tão utópico quanto o do “pequeno burguês” Proudhon, que, a rigor, jamais encarou o socialismo como uma ciência e repudiou sempre qualquer forma de ditadura, em especial a do proletariado. Depois de ler o arrazoado marxista, o francês resumiu-se a anotar num canto de página: “Um tecido de grosserias, calúnias, falsificações e plágios. Marx é a tênia do socialismo.”

De fato, para anular os adversários o pensador alemão tratava a moral comum aos pontapés. O exemplo dos métodos que empregava para neutralizá-los pode ser avaliado no seu desforço contra Bakunin, por quem, segundo o minucioso historiador inglês Robert Payne (Marx, Londres, 1968), nutria inveja acalentada pelo ódio. O anarquista russo (que, no dizer de Bernard Shaw, inspirou Wagner a compor o Siegfried), dono de personalidade incandescente e oratória libertária, desestabilizou, enquanto pôde, o controle que Marx detinha sobre o operariado europeu e, mais tarde, sobre a Associação Internacional de Trabalhadores. Em desacordo com a política ditatorial levada adiante por Marx, Bakunin articulou a formação de uma federação de associações de trabalhadores que logo ganhou adeptos na França, Itália, Espanha, Suíça e outros países europeus.

Sem condições de destruir o prestígio de Bakunin e temendo o seu poder de liderança, Marx, com o objetivo de desmoralizá-lo, publica na Nova Gazeta Renana informação de que o líder russo era um agente secreto da polícia czarista, dando como fonte suposta documentação em mãos da escritora Georg Sand. Ao tomar conhecimento da calunia, Sand, indignada, exigiu imediata retratação. Marx justificou-se afirmando que assim procedia “para defender o movimento socialista dos governos capitalistas”.

Mas não ficou por aí. Durante o congresso da Internacional em Haia, em 1872, ressabiado pela avassaladora atuação de Bakunin e suas idéias desestatizantes, denuncia-o por atos irresponsáveis de fato cometidos pelo terrorista Netchaiev (uma carta de ameaça ao editor de O Capital), sem que Bakunin tivesse participação direta no episódio – o que determina sua exclusão da Internacional.

Reconhecendo, no entanto, a força de Bakunin e certo de que na Europa, cedo ou tarde, a Internacional cairia em mãos deste, Marx, então conhecido como o “Doutor do Terror Vermelho”, numa manobra maquiavélica transfere a sede do seu Conselho Geral para Nova York – o que, em termos práticos, significou o fim da Internacional.

Outro traço do caráter de Marx é o que aponta para a completa falta de escrúpulos quando se tratava de alterar dados e informações que, de algum modo, servissem a causa do “socialismo científico”. No discurso inaugural da Internacional, em 1864, Marx, como registra o historiador Leslie Page (K. Marx and Critical Examination of his Works, Londres, 1987), para impressionar os trabalhadores adultera deliberadamente mensagem orçamentária de Gladstone (várias vezes primeiro ministro inglês), de 1863. Na oração, escreveu Gladstone sobre o crescimento da riqueza nacional: “Veria quase com apreensão e dor este inebriante crescimento da riqueza e poderio se acreditasse que está circunscrito a classe conservadora. A condição média do trabalhador inglês, é uma felicidade sabê-lo, melhorou nos últimos 20 anos, a um grau que sabemos extraordinário e que podemos qualificar como sem paralelo na história de qualquer país e de qualquer época.” Marx, mutilando e invertendo tudo, fez Gladstone dizer: “Este crescimento inebriante de riqueza e poderio está totalmente circunscrito a classe dos proprietários.”

Na manipulação de dados estatísticos contidos nos Livros Azuis de Biblioteca do British Museum, publicados pelo governo e fonte para a elaboração dos capítulos XIII e XV de O Capital, a conduta do pai do “socialismo científico” chega a ser, segundo analistas da Universidade de Cambridge (apud Paul Johnson, em Intellectuals, W&N, 1988) de “assombrosa temeridade”, concluindo que “há um desapreço quase criminoso no uso das fontes”, o que coloca “qualquer parte da obra de Marx sob suspeita”. Para comprovar sua verdade, Marx, que durante toda vida jamais entrou numa fábrica, usa material sabidamente desatualizado e elege como exemplo indústrias pré-capitalistas, com mais de 40 anos de atraso, que não tinham condições para incorporar novas maquinarias.

No capítulo de apropriação intelectual Marx ultrapassa os limites da pura desonestidade. Para compor seus escritos eivados de metáforas apocalípticas, toma como seu aquilo que foi criado por outros, sem apontar autoria. De Marat, se apropria da frase “o proletariado não tem nada a perder, exceto os grilhões”. De Heine, “a religião é ópio do povo”; e, de Louis Blanc, via Enfantin, sacou a formula “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”. De Shapper, tirou a convocação “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”, e, de Blanqui, a expressão “ditadura do proletariado”. Até mesmo sua obra mais bem acabada e de efeito vertiginoso, O Manifesto Comunista (1848, em parceria com Engels), tem-se, entre os anarquistas, como plágio vergonhoso do Manifesto da Democracia, de Victor Considérant, escrito cinco anos antes.

Marx considerava que as leis morais não haviam sido criadas para ele – é o que indica o seu modo de agir em vida. Para além das idéias, os métodos por ele empregados influenciaram de modo catalisador a prática comunista, no século 20: sem eles, dificilmente Lênin, Trotski, Stalin, Mao, Fidel, Pol Pot e congêneres encontrariam respaldo moral para justificar seus crimes contra a humanidade. Depois da derrocada da União Soviética, levantada a cortina do terror, viu-se que mais de 100 milhões de pessoas tinham sido destroçadas em nome de uma absurda “moral proletária”, que, estranhamente, parece ainda pontificar como se nada tivesse ocorrido.

O fim da existência de Marx foi patético. Morreu praticamente só, aos 65 anos, depois de percorrer estações balneárias para mitigar o sofrimento físico, lastimando-se de dores generalizadas na laringe, brônquios, tumores, insônia e suores noturnos. Ao médico que dele cuidava, deixou bilhete, no qual dizia “só encontrar certo alívio numa terrível dor de cabeça – pois a dor física é a único ‘estupefaciente’ da dor psíquica”.

Sua família foi a grande vítima. Dos seis filhos que teve com a mulher, Jenny, uma aristocrata, três morreram na primeira infância, em decorrência do estado de penúria a que foram submetidos, e os outros – as filhas Jenny, Laura e Leonor – terminaram a vida cometendo suicídio. O único sobrevivente, Freddy, filho de Marx com a empregada, Helene, nunca reconhecido pelo pai, foi adotado por Engels para “salvar as aparências”. Jenny, a mulher, prematuramente envelhecida pelo sofrimento, morreu aparentemente sem perdoar o marido por ter engravidado a empregada.

Com os pais, Marx não se comportou de modo menos egoísta. Por ocasião da morte do pai, Heinrich, vítima de câncer no fígado, não compareceu ao enterro porque, segundo ele próprio, “não tinha tempo a perder”. Por conta disso, a mãe, Henriette, saturada de pagar suas dívidas, com ele cortou relações, não antes de adverti-lo: “Você devia juntar algum capital em vez de só escrever sobre ele.”

Mas foi ao cometer grosseria com a amigo e provedor de todas as horas, Engels (1820/95), que Marx concedeu a chave para explicação de sua moralidade. Após a morte da companheira amada Mary Burns, Engels escreve ao amigo dizendo-se arrasado pelo fato (Karl Marx, Francis Wheen, Record, 2001). Marx, por carta, responde que a notícia o surpreendeu, mas logo passa a tecer considerações sobre as próprias necessidades pessoais. Engels, magoado com a frieza do outro, suspende dádivas e correspondência. O que leva Marx, apressado, não propriamente a pedir desculpas pela conduta mesquinha, mas a admitir, com franqueza brutal, que “em geral, nessas situações, meu único recurso é o cinismo”.